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DIREITO E DEMOCRACIA: ENTRE FACTICIDADE E VALIDADE, VOL. I – CAPs.

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Jürgen Habermas
Tradução: Flávio Beno Siebeneichler – UGF

SUMÁRIO DA APRESENTAÇÃO:

I – O direito como categoria da mediação social entre facticidade e validade;


I.1 - Significado e verdade: sobre a tensão entre facticidade e validade no interior da linguagem;
I.2 - transcendência a partir de dentro: superação do risco de dissenso a nível arcaico e do mundo
da vida;
I.3 - dimensões da validade do direito;

II - conceito da sociologia do direito e da filosofia da justiça;


II.1 - O desencantamento do direito por obra das ciências sociais;
II.2 - o retorno do direito racional e importância do dever-ser;
II.3 - Parsons versus Weber: a função social integradora do direito;
INTRODUÇÃO

- No primeiro capítulo, o autor enfoca pontos da relação entre facticidade (plano factual
impositivo) e validade (plano normativo e de legitimidade) envolvendo aspectos da teoria do
agir comunicativo;

- No prefácio, o autor alude que “nas próprias democracias estabelecidas, as instituições


existentes da liberdade não são mais inatacáveis, mesmo que a democracia aparentemente
continue sendo o ideal das populações” e que “os sujeitos jurídicos privados não podem
chegar ao gozo das mesmas liberdades subjetivas, se eles mesmos, no exercício comum de
sua autonomia política – não tiverem clareza sobre interesses e padrões justificados e não
chegarem a um consenso sobre aspectos relevantes, sob os quais o que é igual deve ser
tratado como igual e o que é diferente deve ser tratado como diferente.
O DIREITO COMO CATEGORIA DA MEDIAÇÃO SOCIAL ENTRE FACTICIDADE E VALIDADE

Razão prática – parte da ideia de que os indivíduos


pertencem à sociedade como os membros a uma
coletividade, ou como as partes a um todo que se
constitui através da ligação de suas partes – ligada
ao agir, ao plano factual;

Razão pura – pensamento, dualismo metafísico;


Necessidade de revisão do modo como é encarada
a democracia na modernidade: “A enaltecida linha de
desenvolvimento do Estado democrático de direito
do “Atlântico Norte” certamente nos proporcionou
resultados que merecem ser preservados; todavia,
os que casualmente não se encontram entre os
felizes herdeiros dos fundadores da constituição
americana não conseguem encontrar, em sua
própria tradição, boas razões que aconselhem a
separar o que é digno de ser conservado daquilo
que merece crítica” (p. 18/19)
Por isso, Habermas resolve “encetar um caminho
diferente, lançando mão da teoria do agir
comunicativo” mediante a substituição da razão
prática pela razão comunicativa.
Para ele, a razão prática volta-se para o arbítrio do
sujeito que age segundo a racionalidade de fins.
Com isso, alteram-se os componentes da razão e da
vontade, bem como o próprio conceito de razão
prática. Quando a pessoa diz “o que devo fazer?”,
ela não apenas recebe uma norma, mas também a
emite, por efeito da própria reflexão prática
(Habermas em texto de conferência, out/89)
“A razão comunicativa distingue-se da razão prática
por não estar adstrita a nenhum ator singular nem
a um macrossujeito sociopolítico. O que torna a
razão comunicativa possível é o medium
linguístico, através do qual as interações se
interligam e as formas de vida se estruturam. Tal
racionalidade está inscrita no telos linguístico do
entendimento, formando um ensemble de
condições possibilitadoras e, ao mesmo tempo,
limitadoras”
- A razão comunicativa não dá origem à comandos
dever-ser, pois não é fonte de normas do agir.
Segundo o autor, ela só adquire contornos
normativos na medida em que aquele que age
comunicativamente é obrigado a apoiar-se em
pressupostos pragmáticos, dando origem à uma
“coerção transcendental fraca”.
- Diz ele: “a tensão entre ideia e realidade irrompe na
própria facticidade de formas de vida estruturadas
linguisticamente”
Ainda o autor: “a razão comunicativa possibilita, pois,
uma orientação na base de pretensões de validade;
no entanto, ela mesma não fornece nenhum tipo
de indicação concreta para o desempenho de
tarefas práticas, pois não é informativa, nem
imediatamente prática.” (p. 21)

- Normatividade e racionalidade cruzam-se no


campo da fundamentação de intelecções morais.
Qual o conceito de RC p/ o Autor? Situado no âmbito
de uma “teoria reconstrutiva da sociedade”, ela
modifica o próprio conceito de razão prática
tradicional, não funcionando mais como orientação
direta para uma teoria normativa do direito e da
moral. Mesmo assim, esse conceito se transforma
num fio condutor para a reconstrução do
emaranhado de discursos formadores da opinião e
preparadores da decisão, na qual está embutido o
poder democrático exercitado conforme o direito (p.
21)
- A teoria do agir comunicativo concede valor central
ao direito; ela mesma forma um contexto apropriado
para uma teoria do direito apoiada no princípio do
discurso, visando assimilar a tensão sempre
existente entre facticidade e validade.

- Em cima desses dois pontos, o autor busca


elaborar um princípio reconstrutivo capaz de assumir
duas perspectivas diferentes: a da teoria sociológica
do direito e a da teoria filosófica da justiça.
SIGNIFICADO E VERDADE: SOBRE A TENSÃO ENTRE FACTICIDADE E VALIDADE NO
INTERIOR DA LINGUAGEM

- A R.C. conserva fragmentos idealistas da razão


prática fundamental;
- De que modo se apresenta a relação entre
facticidade e validade após a guinada linguística, a
qual surge inicialmente no nível elementar da
formação dos conceitos e dos juízos? Pergunta o
autor.
“Há uma diferença entre nossos pensamentos e
nossas representações; elas tem que ser atribuíveis
a um sujeito identificável no espaço e no tempo, ao
passo que os pensamentos ultrapassam os limites
de uma consciência individual” (p. 27/28);
- Razão prática x razão pura?
- Paradigma da intersubjetividade para além do
subjetivismo?
- Os pensamentos articulam-se través de
proposições
- Podemos ter a estrutura dos pensamentos
observando a estrutura das proposições
*Proposições: partes elementares de uma linguagem
gramatical passível de verdade;
- Dependemos do medium da linguagem quando
queremos explicar a diferença entre os pensamentos
e as representações.
“Certas expressões linguísticas tem significados
idênticos para usuários diferentes. Os membros de
uma determinada comunidade de linguagem têm
que supor que falantes e ouvintes podem
compreender uma expressão gramatical de modo
idêntico” (p. 28/29)
“O mundo como síntese de possíveis fatos só se
constitui para uma comunidade de interpretação,
cujos membros se entendem entre si sobre algo no
mundo, no interior de um mundo da vida
compartilhado intersubjetivamente. ‘Real’ é o que
pode ser representado em proposições verdadeiras,
ao passo que ‘verdadeiro” pode ser explicado a partir
da pretensão que é levantada por um em relação ao
outro no momento em que assevera uma proposição
(persuasão?”) p. 31/32
Transcendência a partir de dentro:
A superação do risco de dissenso a nível arcaico e do mundo da vida

• Linguagem - tensão entre:


• Facticidade (uso e alcance textual)
• Idealizações: (significado e validade meta-contextual)

• Essa tensão se transfere em razão do uso da linguagem para o entendimento. também para:
• coordenação de plano de ação de diferente atores;
• ordens sociais estabilizadas normativamente
Transcendência a partir de dentro:
A superação do risco de dissenso a nível arcaico e do mundo da vida

• Integração não violenta - solução do • Idealizações ultrapassam limites


problema da coordenação de plano regionais – liberam potenciais de
de ação de diferentes atores críticas e a racionalização.

• Uso da linguagem para o


entendimento - Forças ilocucionárias
geram obrigações recíprocas

Transcendência a partir de dentro:
A superação do risco de dissenso a nível arcaico e do mundo da vida

• Níveis de idealização no uso da linguagem • Sociologia hermenêutica: passa a


voltado para o entendimento: compreender-se como ciência
reconstrutiva – integração social
• 1º nível: idealização dos significados – depende de socialização instável, que
idênticos; e dos falantes- racionais (capazes opera com suposições contrafáticas
de falar e agir) permanentemente ameaçadas.
• 2º nível: validade dos enunciados – ultrapassa
todos os contextos, mas só tem força
coordenadora no contexto.

1º passo reconstrutivo- mundo da vida – horizonte de convicções
comuns não problemáticas – absorve o risco de dissenso e torna
possível a integração por meio da linguagem.

Caráter pré-predicativo – atua como saber por não ser


problematizado – se decompõe quando tematizado – sua estabilidade
se deve a um nivelamento da tensão entre facticidade e validade
2º passo reconstrutivo- instituições arcaicas – tradição – complexo
cristalizado de convicções tematizadas que se impõe pela autoridade
fascinosa (intimidadora e atraindo) do sagrado.

Expectativas normativas mantidas por fortes convicções


compartilhadas e preservadas pela força das sanções - risco de
dissenso interceptado na própria dimensão da validade.
3º passo reconstrutivo- - direito –sociedade complexas.
Pluralização das formas de vida e individualização das
histórias de vida – restringem o mundo da vida.

Desencantamento – decompõe a tradição em âmbitos distintos de validade


(cognitivo, normativo, expressivo)
Diferenciação social – multiplica e intensifica as esferas do agir voltado para
o êxito individual.
Transcendência a partir de dentro:
A superação do risco de dissenso a nível arcaico e do mundo da vida

• Sociedade profanizadas – ordens normativas mantidas sem garantias meta-sociais


– facticidade e validade incompatíveis – integração pelo agir comunicativo.

• Risco intensificado de dissenso – solução pela regulamentação normativa de


integrações estratégicas – regras coercivas na perspectiva estratégia e válida na
perspectiva performativa – sistema de direitos subjetivos garantido pela coação do
direito objetivo.