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PROFESSORA: Ana Paula A.

de Freitas

NEUROFISIOLOGIA – AULA 3
S I S T E M A S O M ATO S S E N S S O R I A L E D O R
SISTEMA SOMATOSSENSORIAL:
Responsável pelas experiências sensoriais captadas por receptores sensoriais (não
pertencentes aos sentidos especiais) distribuídos por todo o corpo (pele, músculos, tendões,
vísceras).
A SOMESTESIA (soma = corpo\ aesthesia = sensibilidade) engloba tato, termossensibilidade,
nocicepção e propriocepção, sendo subdividida em EXTEROCEPTIVA, PROPRIOCEPTIVA
e INTEROCEPTIVA.

EXTEROCEPTIVO Sensibilidade tátil discriminativa (pele)

PROPRIOCEPTIVO Sensibilidade relacionada ao movimento e coordenação (músculos, articulações)

INTEROCEPTIVO Sensibilidade relacionada ao interior do corpo (vísceras)


O sistema somestésico é composto por um conjunto de neurônios, fibras nervosas e sinapses
que captam estímulos ambientais que chegam até o corpo e os conduzem a centros cerebrais
superiores aonde são transformados em percepção e emoção sendo usados na modulação de
comportamentos.

Para que essa transmissão ocorra, temos NEURÔNIOS DE PRIMEIRA ORDEM (estímulo é
captado por seus receptores), NEURÔNIOS DE SEGUNDA ORDEM (medula e tronco
cerebral e NEURÔNIOS DE TERCEIRA ORDEM (tálamo), até que a aferência sensorial
chega ao CÓRTEX.
Os neurônios de primeira ordem
entram na medula pelo corno
dorsal e fazem sinapse com o
neurônio de segunda ordem cuja
fibra cruza a medula ascendendo
até o tálamo (trato
espinotalâmico) aonde fara
sinpase com o neurônio de
terceira ordem. Dessa forma a
representação cortical para dor, tato
e temperatura será contralateral.
As fibras que conduzem
propriocepção ascendem sem
cruzar, através dos fascículos
gracil e cuneiforme.
RECEPTORES SENSORIAIS E FIBRAS SENSITIVAS
1. TIPO DE RECEPTORES SENSORIAIS:

MECANORRECEPTORES Pressão, estiramento, vibração

QUIMIORRECEPTORES Oxigênio, PH

TERMORRECEPTORES Graus variados de calor

PROPRIOCEPTORES Musculo e articulações

FOTORRECEPTORES Fótons de luz


RECEPTORES CUTÂNEOS
Os pelos também
compõem o Sistema
somatossenssorial, a
inervação dos
mesmos está nos
folículos que sofrem
deformação
estimulando as
terminações nervosas.
Os receptores captam o estímulo e realizam a TRANSDUÇÃO do mesmo, ou seja,
convertem o estímulo em potencial de ação que será conduzido por axônios (fibras
nervosas) do tipo A (alfa, gama, delta) ou C oriundos da pele ou por axônios tipo I,II, III e
IV provenientes de músculos e tendões.
Como já visto, as fibras aferentes adentram pela raiz dorsal da medula espinhal que possui 30
segmentos medulares, sendo que cada um recebe o nome das vértebras adjacentes a saída dos
nervos. Cada segmento assume a função de principal inervação de uma porção específica da
pele, denominada DERMÁTOMO.
A secção de um único segmento medular no entanto, não inviabiliza por completo a
sensibilidade em um dado dermátomo, isso ocorre porque, além da inervação principal,
também há participação do segmento acima e abaixo do principal nesse processo.
Dessa forma, para que haja ANESTESIA em um determinado dermátomo se faz necessário
comprometimento do segmento principal e dos segmentos situados acima e abaixo do
mesmo.
DERMÁTOMOS
PONTOS CHAVES – EXAME
FISICO

1. NUCA: C2, C3, C4

2. INICADOR E MÉDIO: C7

3. ANELAR E MÍNIMO: C8

4. LINHA MAMILAR: T4

5. APENDICE XIFOIDE: T7

6. UMBIGO: T10

7. GENITÁLIA: S2,S4

8. COXA : face medial L2,


anterior L3, lateral L4

9. ÂNUS: S5
TRATOS E FASCÍCULOS
Na medula diferentes estímulos são conduzidos por diferentes grupos de neurônios cujas fibras ascendem ate
o cérebro.

TRATO ESPINOTALÂMICO : conduz dor e temperatura da medula até o tálamo.


VIA DO LEMNISCO MEDIAL: conduz o tato, faz sinapse a nível talâmico e ascende ao córtex
somatossensorial primário.
A nível talâmico encontramos neurônios sensoriais específicos também chamados de RELÉ que recebem a
aferência e retransmitem até o córtex.

***VIA TATIL TRIGEMINAL: conduz informação sensorial da face vinda pelo nervo trigêmio, essa
informação passa pela ponte antes de chegar até o córtex sensitivo.
CÓRTEX SOMATOSSENSORIAL
1. LOCALIZAÇÃO: Maior porção localizada no LOBO PARIETAL
Assim como os outros, o córtex sensitivo é organizado em camadas, as aferências
talâmicas chegam a camada 4 e de lá são projetadas para as outras camadas.
A AREA 3 de Brodmann é considerada o CORTEX SENSORIAL PRIMARIO (giro pós central), sendo
dito primário por ser a região que recebe um grande volume de aferências provenientes do tálamo, tendo alta
resposta a estímulos somatossensoriais mas não a outros estímulos.
As áreas 1 e 2 recebem estímulos da área 3, estando associadas as seguintes percepções:
AREA 1 de Brodmann: local para onde se dirigem informações sobre TEXTURA;
AREA 2 de Bromann: local para onde se dirigem informações sobre FORMA e TAMANHO
O Neurocirurgião canadense Wilder
Penfield realizou um mapeamento
das sensações no Sistema Nervoso
Central (somatotopia) – Cortex
Somatossensorial , sendo o mapa
somatotópico conhecido como
Homúnculo de Penfield
O MAPA SOMATOTÓPICO não segue a escala do corpo humano, regiões como boca, língua, mãos, têm
representação cortical bem maior que braços e tronco por exemplo. A explicação para isso é que o tamanho da
representação cortical é proporcional a densidade de receptores sensoriais que uma dada região apresenta,
quanto mais receptores, maior será a representação.
Homúnculo Sensitivo e Motor de Penfield
Lesões no Cortex parietal posterior pode levar a
quadros de incapacidade de reconhecer objetos, se a
perda foi de reconhecer através do tato falo em
estereognosia, além dessa função essa porção cortical
também é fundamental para a interpretação de relações
espaciais como a noção da posição do corpo e o
aprendizado de tarefas que envolve a colocação do
corpo no espaço, para isso precisamos de uma
integração de componentes sensoriais incluindo
sentidos especiais como a visão.
NEUROFISIOLOGIA DA DOR
DEFININDO DOR...
Experiência SENSORIAL e EMOCIONAL desagradável, associada a um dano tecidual real ou potencial,
sendo portanto um MECANISMO DE DEFESA.
A dor tem dois grandes domínios: um DOMINIO SENSORIAL DISCRIMINATIVO e um DOMÍNIO
AFETIVO-EMOCIONAL. Ambos interagem para que a dor seja percebida a nível de córtex sensitivo.
a)Componente Sensorial Discriminativo: Percepção e detecção do estímulo nocivo, informando sobre a
intensidade, localização, duração, padrão temporal e qualidade do estímulo. Sendo importante na dor
aguda .

b) Componente Afetivo- Emocional: reações comportamentais frente a dor, isso só existe porque temos
envolvimento de áreas cerebrais associadas a componentes afetivos e emocionais. Muito importante na dor
crônica onde estruturas encefálicas promovem uma reação comportamental frente a dor.
COMO A DOR CHEGA AO NOSSO CÓRTEX?
Da captação de um estímulo nocivo até a percepção da dor pelo Córtex se faz necessário cinco fases, quais
sejam:
1. TRANSDUÇÃO: Estimulo nocivo é convertido em impulso elétrico pelo nociceptor
2. CONDUÇÃO: O impulso elétrico é conduzido por axônios aferentes até a raiz dorsal da medula, a
velocidade de condução dependerá da fibra envolvida;
3. TRANSMISSAO: A chegada do estímulo elétrico na medula estimula a liberação de susbtância P, potente
neurotransmissor excitatório, fazendo que o impulso ascenda via segundo neurônio até o tálamo e
posteriormente para o córtex.
4. PERCEPÇÃO: A partir do tálamo a dor passa a ser percebida, antes era apenas uma nocicepção
5. MODULAÇAO: Chegando ao córtex o estímulo é avaliado e modulado, podendo cessar (inibição) se
manter ou mesmo aumentar (facilitação), se o córtex entender que o estímulo que a causou é perigoso.
1.TRANSDUÇÃO

2.CONDUÇÃO

3.TRANSMISSÃO

4. PERCEPÇÃO

5.MODULAÇÃO

**A nível medular a dor também pode ser


Modulada.
NOCICEPTORES E FIBRAS DE CONDUÇÃO
Os NOCICEPTORES são receptores capazes de captar estímulos intensos, potencialmente lesivos aos
tecidos que podem ser mecânicos, térmicos, hipóxia ou agentes químicos e a partir deles, gerar um
potencial de ação que será conduzido por fibras nervosas do tipo A delta ou C.
Tais receptores estão distribuídos por todo corpo, exceto no SNC, nessa região só encontramos nociceptores
nas meninges mas não no tecido nervoso.
TIPO A DELTA TIPO C
Mielinizadas de pequeno diâmetro, são mais rápidas Não mielinizadas, possuem pequeno diâmetro, são
mais lentas
Velocidade de condução rápida Velocidade de condução lenta
(5-30 m\s) (0,5 – 2 m\s)
Dor aguda – dor primária Dor lenta – dor secundaria e continua
Sensações dolorosas bem definidas Sensações dolorosas imprecisas
Têm menor envolvimento emocional Têm maior envolvimento emocional

Ambas conduzem estímulos nociceptivos até o SNC


As fibras aferentes nociceptivas penetram na medula pelo CORNO DORSAL, fibras oriundas de
mecanoceptores também chegam ao SNC pela mesma via. Essa região da medula é subdividida em lâminas
(lâminas de Rexed) e cada uma tem concentrações de neurônios diferentes.
Nas lâminas 1 e 2 só temos interneurônios que se relacionam com nociceptores, sendo a lâmina 2 também
chamada de SUBSTÂNCIA GELATINOSA, rica em interneurônios excitatórios e inibitórios é a área
responsável pelo papel MODULADOR sobre a dor exercido pela Medula.
MODULAÇÃO MEDULAR DA DOR
TEORIA DA COMPORTA DA DOR
O estímulo álgico chega ao corno posterior da medula, na substância gelatinosa faz sinapse
com neurônio de segunda ordem que será responsável por retransmitir a informação que
ascenderá para centros superiores pelo trato espinotalâmico. É importante lembrar que
estímulos nociceptivos são conduzidos por fibras A delta e por fibras C (muito lentas)

No corno dorsal também chegam estímulos oriundos dos mecanoceptores através de fibras
rápidas por serem mielinizadas e calibrosas, esses estímulos também chegam a substância
gelatinosa porém fazem sinapses com interneurônios inibitórios que irão agir sob o neurônio
de segunda ordem “fechando o portão da dor”, ou seja, não permitindo a passagem do
estímulo para o trato espinotalâmico.
Na pratica, o sinal não é completamente inibido porque as fibras A delta conseguem
conduzir o estímulo com certa rapidez de forma que alguns estímulos conseguem excitar o
neurônio de segunda ordem porém a dor será menos intensa.

Então...quanto menor a excitação de dor e maior a inibição pelo estímulo mecânico, menor
será a quantidade de estímulos conduzidos ao córtex e menor a dor. O contrário também é
verídico, quanto maior a excitação da dor e menor a inibição mais estímulos são
conduzidos e maior a dor.
TEORIA DO CONTROLE IRRITANTE
As células C utilizam a susbtância P e o glutamato como neurotransmissores excitatórios,
fibras oriundas de mecanoceptores fazem sinapes com interneurônios que liberam
endorfinas que inativam a susbtância P, cessando a condução do estímulo.
MODULAÇAO CORTICAL DA DOR
O córtex é capaz de modular a dor, emoções fortes, situações estressantes podem suprimir
a dor que o indivíduo está sentindo em um dado momento.
1. AÇÃO DA SUBSTÂNCIA CINZENTA PERIAQUEDUTAL
Várias regiões encefálicas estão envolvidas na supressão da dor, uma delas é a SUBSTÂNCIA CINZENTA
PERIAQUEDUTAL (PAG) que quando estimulada produz analgesia profunda. Essa região recebe
aferências de diversas regiões do encéfalo, muitas inclusive responsáveis pelas emoções e envia axônios
descendentes a varias regiões do Bulbo, com destaque para os núcleos da Rafe que tem a SEROTONINA
como neurotransmissor e os projetam para o corno dorsal da medula aonde vão deprimir a atividade da
nocicepção.
2. OPIÓIDES ENDÓGENOS:

O Sistema Nervoso é capaz de produzir substâncias endógenas semelhantes à Morfina


(opioide capaz de gerar analgesia intensa, sonolência, alteração do humor), em áreas que
processam e modulam a informação proprioceptiva.
Os opióides endógenos são representados por Encefalinas, Endorfinas e Dinorfina.
OPIOIDES ENDOGENOS – LOCAL DE AÇÃO E FUNÇÕES
AONDE ATUAM OS ANALGÉSICOS??
COMO AGEM OS OPIÓIDES??
1. MEDULA ESPINHAL: Os opióides inibem a liberação de transmissores excitatórios a partir dos
nervos aferentes primários e inibem diretamente o neurônio transmissor de dor do corno dorsal. Por
conseguinte, os opióides exercem um poderoso efeito analgésico diretamente na medula espinhal.
2. AÇAO SUPRA ESPINHAL: Os opióides aumentam a atividade em algumas vias neuronais,
presumivelmente ao suprimir a deflagração dos interneurônios inibitórios. Ativam os neurônios que
enviam projeções para a medula espinhal para inibir os neurônios transmissores da dor. Foi
constatado que essa ativação (indireta) resulta da inibição de neurônios inibitórios em vários locais.
3. AÇAO PERIFÉRICA LOCAL: atuam sobre receptores “mu” funcionais nas terminações periféricas
de neurônios sensitivos. Além disso, a ativação desses receptores periféricos resulta em diminuição da
atividade dos neurônios sensitivos e da liberação de transmissor
Portanto, os opióides ligam aos seus receptores e com isso causam analgesia por inibir a
transmissão da via aferente no corno dorsal, por ativar as vias descendentes da dor, e por
inibir a excitação das terminações nervosas sensoriais na periferia. Além disso, pode
interferir na interpretação afetiva da dor, devido sua ação ao nível do sistema límbico.
APLICAÇAO CLINICA
Sabemos o que teremos como quadro clinico em
pacientes com secção completa da medula espinhal,
ou com lesão de raízes nervosas. Mas e se tivermos
uma secção parcial?
A Hemissecção medular consiste na interrupção dos
tratos de apenas um lado da medula, pode ocorrer por
lesões por projétil de arma de fogo ou por arma
branca.
• No nosso exemplo, o trato corticoespinhal do lado direito foi lesionado, o que interrompe o fluxo dos
estímulos motores oriundos do lado esquerdo do córtex que se destinavam à musculatura do lado direito,
mas já cruzaram antes de entrar na medula. Portanto, o lado paralisado é o mesmo lado do trato
lesionado. Logo, a hemissecção medular causa paralisia espástica IPSILATERAL à lesão.

• No caso do espinotalâmico, o trato do lado direito, que foi lesionado, carrega as informações sensitivas
captadas no hemicorpo esquerdo. Desse modo, a hemissecção causa perda da sensibilidade térmica,
dolorosa, pressórica e do tato protopático CONTRALATERAIS à lesão.

• Por fim, como os fascículos grácil e cuneiforme não cruzam em seu trajeto pelo cordão posterior, a
secção do lado direito prejudica a função do mesmo lado. Causa perda da sensibilidade protopática,
vibratória e do tato epicrítico IPSILATERALMENTE à lesão.

TAIS ACHADOS CARACTERIZAM A SINDROME DE BROWN-SEQUARD

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