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EDUCAÇÃO LITERÁRIA

José Saramago, O Ano da


Morte de Ricardo Reis
1. Quais são os acontecimentos
sociopolíticos que marcam o final do
milénio?
O século XX caracterizou-se, nas primeiras
décadas, como um tempo de conflito, de
horror e de pessimismo. Nos últimos anos do
milénio, dominou a abstração da realidade, o
consumismo e a afirmação da internet.
2. De que forma o contexto social e
político do final do milénio influenciou
o contexto literário?
O século XX foi um momento de rutura a
vários níveis. A partir das duas Grandes
Guerras, o mundo mudou e a relação entre
História e verdade foi abalada e passou a
entender-se o relato histórico como uma
versão dos acontecimentos geralmente ligada
ao poder. A História deixou de ser considerada
um “armazém de verdade” e o texto histórico
2. De que forma o contexto social e
político do final do milénio influenciou
o contexto literário?
(cont.) é encarado como uma maneira parcial
e pessoal de abordagem. O romance da
segunda metade do século XX recorre ao
discurso histórico, reescrevendo-o e
apresenta, muitas vezes, factos que
reconhecemos, sob um ponto de vista novo.
3. Que aspetos caracterizam o
romance histórico da segunda metade
do século XX?
No romance histórico do século XX, os
acontecimentos passam a ser perspetivados de
uma forma múltipla, expondo o ponto de vista do
homem comum, dando voz a quem nunca a teve
e apresentando versões diferentes de factos
reconhecíveis. O discurso histórico é hoje
considerado parcial e parcelar, pois regista
apenas uma parte daquilo que aconteceu. As
minorias são pobres em documentos, por isso, se
tornam pobres em História.
4. Por que razão se refere que a obra
de Saramago revela um grande
fascínio pela História?
A ficção do século XX, em geral, revela um
grande fascínio pela História. Nos romances de
José Saramago, o discurso da ficção e da
História entrelaçam-se. O passado torna-se
presente ao ser reescrito, num outro
momento, e a História deixa de ser
considerada um repositório da verdade. Assim,
a conceção de História como um todo acabado
4. Por que razão se refere que a obra
de Saramago revela um grande
fascínio pela História?
(cont.) cai e passa a valorizar-se o discurso
histórico com marcas do eu e do momento da
sua escrita, como um tecido rendado onde os
vazios também têm significação.
Representações do século XX:
o espaço da cidade,
o tempo histórico e os
acontecimentos políticos
1. Por que razão se pode considerar
que neste romance se cruzam várias
viagens?
Neste romance, há várias viagens que se
entrecruzam, apresentando uma perspetiva
invertida da heroicidade das viagens marítimas
portuguesas. Assim, a viagem pela cidade
labiríntica, pelos acontecimentos políticos do
início do século XX, a própria viagem de Ricardo
Reis do Brasil para Portugal apresentam mais
traços dececionantes do que gloriosos.
2. Por que razão se pode denominar
esta obra como um romance de luz e
sombra?
Esta obra pode ser considerada como um
romance de luz e sombra, na medida em que
se entrelaçam no texto momentos do passado
glorioso de Portugal com o presente
decadente.
3. Que diferentes tempos se cruzam
neste romance pela voz do narrador
ou das personagens?
Este romance localiza a ação no ano de
1936 (Ricardo Reis regressa a Lisboa a 30 de
dezembro de 1935) e, partindo de factos
históricos, mistura acontecimentos presentes,
passados e futuros pela voz das personagens
ou do narrador.
4. Em que medida a primeira e a última
frase do romance condensam uma
mensagem histórica para Portugal?
Ao lermos a primeira e última frase deste
romance, somos confrontados com uma reflexão
sobre a aventura marinheira de Portugal de que
Camões é eco e com a forma de desconstruir
/reconstruir o novo projeto cultural português.
As duas frases, colocadas estrategicamente no
início e no fim do romance, desdobram o verso
da estrofe 20 do Canto III de Os Lusíadas: “Onde
a terra se acaba e o mar começa”. O novo texto
4. Em que medida a primeira e a última
frase do romance condensam uma
mensagem histórica para Portugal?
(cont.) responde: “Aqui o mar acaba e a terra
principia” e “ Aqui onde o mar se acabou e a
terra espera”, invertendo o movimento da
cultura, pois já não se crê no mar como saída
para a pequenez e a subalternidade, pois é na
terra, na pátria que existe o verdadeiro tesouro
escondido que constituirá o alicerce da história
portuguesa.
5. Em que medida estão presentes
neste romance várias representações
do século XX?
Saramago recupera um tempo − 1936 − ,
um poeta – Ricardo Reis − , uma poesia –
Fernando Pessoa −, um contexto de amizade e
de especulação intelectual entre Ricardo Reis
e Fernando Pessoa, sem deixar de lado a
ficção e as profecias para o futuro de Portugal.
6. Qual é o tempo histórico do
romance?
O romance retoma os acontecimentos mundiais
marcantes do início do século XX: 1910 e a
proclamação da República; 1914 e a I Guerra
Mundial; a ocupação da Líbia pelos italianos; 1916
e o momento em que Alemanha declara guerra a
Portugal, que entra formalmente no conflito; 1917-
1918 e a Revolução Russa; 1926 e a Revolução de
28 de Maio e instauração da Ditadura militar que
dará lugar ao Estado Novo e que substituirá a I
República; 1928, quando Salazar é nomeado
6. Qual é o tempo histórico do
romance?
(cont.) Ministro das Finanças e Óscar Carmona é
eleito Presidente da República sem oposição; 1931
e a proclamação da República em Espanha; 1934
quando Adolf Hitler sobe ao poder na Alemanha;
1936 e o momento em que Mussolini invade a
Etiópia com sucesso, a sua conquista unificaria as
colónias italianas no chamado “chifre da África”;
1936-1939 e a Guerra civil espanhola; 1939 e a II
Guerra Mundial.
7. Qual é o retrato político de Portugal
desenhado no romance?
O retrato de Portugal no romance é a de um
país em crise, é o Portugal da primeira República
à Ditadura (45 governos, 8 eleições, 8 presidentes
em 15 anos); é o Portugal de Salazar, desde 1928,
no cargo de Ministro das Finanças e verdadeiro
líder da nação. Salazar é visto como “Salvador da
Pátria”, dentro do espírito messiânico e
sebastianista de quem acredita num futuro
glorioso garantido por um passado grandioso. Os
jornais portugueses apresentam-se, na obra,
7. Qual é o retrato político de Portugal
desenhado no romance?
(cont.) comprometidos com o discurso do poder;
há repressão à contestação; a Mocidade
portuguesa condiciona e orienta a educação dos
jovens; e são reprimidos os vários movimentos
contra o regime.
8. Qual é a importância de Lisboa na
obra?

Lisboa simboliza Portugal no romance. É a


cidade de todas as partidas e de todas as
chegadas. É também a o labirinto que
possibilita a reflexão e o reencontro com a
História.
Deambulação geográfica e
viagem literária
1. Por que razão podemos associar,
neste romance, deambulação
geográfica com viagem literária?
Neste romance, a deambulação de Ricardo
Reis pela cidade de Lisboa cruza-se
simbolicamente com uma viagem literária
pelos escritores emblemáticos da literatura
portuguesa.
2. Por que razão a deambulação da
personagem por Lisboa pode ser
considerada um percurso labiríntico?
A deambulação por Lisboa é labiríntica
assim como a poesia pessoana. A figura de
Camões constitui-se como o guia orientador
dos poetas em geral e de Ricardo Reis em
particular, na sua deambulação através da
cidade.
3. Qual é o valor simbólico da estátua
de Camões dentro do romance?

Camões, dentro do romance, representa a


própria poesia portuguesa. As veredas da cidade
e as da criação poética no romance têm sempre
a esclarecê-las os versos camonianos, pois é
impossível imaginar Portugal sem Camões e sem
Os Lusíadas. Reis está em Lisboa, Pessoa
também, o primeiro habitando próximo do
Adamastor, o segundo o Cemitério dos Prazeres.
4. Qual é a simbologia do número oito
na obra?

Enquanto o número sete está associado ao


Antigo Testamento, o número oito corresponde
ao Novo, anunciando o futuro. Oito anos depois
da partida de Ricardo Reis para o Brasil é que o
monumento foi erigido, e após oito anos de ele
ali estar, no Alto de Santa Catarina, é que Reis
regressa à pátria. A estátua do Adamastor é um
dos locais preferidos por Ricardo Reis: símbolo
4. Qual é a simbologia do número oito
na obra?

(cont.) dos obstáculos do passado que se


opunha à marcha dos portugueses, representa
agora a aurora de uma sociedade nova.
5. Como é a Lisboa de Saramago,
neste romance?

A Lisboa de Saramago, neste romance,


desperta no leitor o desejo de percorrê-la ou
habitá-la. Durante a leitura partilhamos
caminhos ao lado do protagonista, que surge
como uma espécie de guia, que nos dá a
conhecer o que observa no Rossio, na Baixa ou
na Praça do Comércio. Percorremos, assim, a
zona que vai do Cais do Sodré e, pela Rua do
5. Como é a Lisboa de Saramago,
neste romance?

(cont.) Alecrim, ao Largo do Barão de Quintela,


chega ao Largo de Camões, ao Alto de Santa
Catarina, ao Chiado: com os seus heróis,
residências, consultórios, monumentos.
6. Em que medida é que a estátua do
Adamastor constitui uma encruzilhada
simbólica no romance?
No romance, a estátua do Adamastor é,
assim como a estátua de Camões, um marco
norteador dentro do labirinto da cidade de
Lisboa. Geograficamente, o Adamastor
encontra-se num ponto de cruzamento de
caminhos. O Adamastor, símbolo de todos os
obstáculos, no passado, torna-se, no presente, a
rosa-dos-ventos que anuncia o novo roteiro do
6. Em que medida é que a estátua do
Adamastor constitui uma encruzilhada
simbólica no romance?
(cont.) povo. Assim, nas coordenadas do texto,
sendo a confluência das oito direções cardeais,
ilumina duplamente o horizonte de expectativas
humanas e anuncia um mundo novo.
Representações do amor
1. Que personagens do romance
configuram as representações do
amor?
Lídia e Marcenda são as duas figuras
femininas que estabelecem uma relação
amorosa com o protagonista.
2. Como podemos caracterizar o
papel simbólico de Marcenda na
obra?
No nome desta personagem feminina está
condensada a sua simbologia na obra.
Etimologicamente, Marcenda significa “aquela
que deve murchar”, aquela a quem falta a
eternidade e que está, portanto, condenada a
ser mortal. Ela é a musa de Ricardo Reis sem
ter sido, é a ave cujo voo é abortado pela mão
inerte que a faz prisioneira do labirinto familiar
2. Como podemos caracterizar o
papel simbólico de Marcenda na
obra?
(cont.) e afetivo. O romance com Ricardo Reis
finda porque o poeta recusa assumir-se outro
e prefere “desenlaçar as mãos”.
3. Em que medida neste romance se
apresenta um “novo” retrato de
Lídia?
A personagem Lídia, neste romance,
excede a imagem que o livro de odes de
Ricardo Reis lhe confere e assume uma vida
de compromisso político. Ficando de lado o
modelo pessoano de musa pálida, de
descompromisso com a vida para escapar à
dor, esta mulher-a-dias, camareira de hotel,
morena, assume sozinha a sua condição e o
3. Em que medida neste romance se
apresenta um “novo” retrato de
Lídia?
(cont.) filho de pai incógnito. Lídia simboliza
a esperança numa nova revolução que não
aborte antes de nascer e representa a
imagem da terra portuguesa definida no
romance: “Aqui, onde o mar se acabou e a
terra espera”.
Intertextualidade: José
Saramago, leitor de Luís de
Camões, Cesário Verde e
Fernando Pessoa
1. O que significa intertextualidade?

A intertextualidade resulta do facto de a


produção e compreensão de um texto
estarem dependentes do conhecimento de
outros textos por parte dos interlocutores. A
intertextualidade pode manifestar-se através
de alusões diretas ou indiretas a outro texto,
desde a alusão e a citação até à imitação
criativa, à paráfrase, à paródia e ao plágio.
1. O que significa intertextualidade?

(cont.) Saramago convoca, frequentemente,


para o seu romance, outros textos. A citação,
no romance saramaguiano, tem muitas vezes
uma natureza irónica ou paródica, pode
constituir uma das manifestações gerais da
intertextualidade e não apresenta qualquer
marca gráfica.
2. Como se concretiza a
intertextualidade neste romance?

Neste romance há inúmeras referências a


autores e obras facilmente reconhecíveis:
versos da epopeia ou de poemas de Camões,
expressões de Eça de Queirós, versos de
Fernando Pessoa ou dos heterónimos, versos
de Bernardim Ribeiro, Cervantes, Jorge Luís
Borges, etc. Neste romance está presente
uma manifestação de intertextualidade
2. Como se concretiza a
intertextualidade neste romance?

(cont.) extremamente curiosa e original, uma


vez que o narrador alude a um escritor e obra
que só existem ficcionalmente (conto de
Jorge Luís Borges).
Os nomes femininos elencados no texto
recuperam figuras clássicas e subvertem-nas,
numa aproximação entre a poesia de Ricardo
Reis e Camões.
3. Qual é o diálogo intertextual mais
importante, neste romance?

O diálogo intertextual mais importante,


neste romance, é entre Saramago e Fernando
Pessoa. As palavras da ficção e os versos
pessoanos espelham-se, reciprocamente e
ressurgem transfigurados dos versos de Pessoa
para o texto de Saramago – a testemunhar a
intimidade deste convívio.
4. Que relação podemos
estabelecer entre “texto polifónico” e
intertextualidade?
Saramago elabora um texto polifónico
composto por vários textos que percorrem a
literatura de Camões, a Pessoa, a Garrett, a
Cesário e a tantos outros.
5. De que forma o romance apresenta
o diálogo intertextual com Camões?

O texto camoniano é retomado com


frequência e colocado na voz do narrador, de
Ricardo Reis, de Fernando Pessoa.
6. De que forma o romance
apresenta o diálogo intertextual com
Fernando Pessoa?
O diálogo intertextual com a obra de
Fernando Pessoa é recorrente: citam-se e
reescrevem-se versos dos vários poetas; o
romance assume-se como uma biografia
complementar de Ricardo Reis, iniciada por
Pessoa e concluída por Saramago; morto
Pessoa e incapaz de compor, o trabalho poético
de criação de Reis continua, no romance de
Saramago.
7. De que forma o romance apresenta
o diálogo intertextual com Cesário?

Ricardo Reis retoma face à cidade de Lisboa


um posicionamento semelhante ao de Cesário
Verde no caráter deambulatório de
observador acidental; no desconforto da
revisitação de um local “desconhecido”; no
recurso à memória; na tentativa de evasão.
Linguagem, estilo e estrutura:
estrutura da obra
1. Como se estrutura o romance?

O texto resulta de um efeito de alquimia


poética. O romance apresenta múltiplas
vozes: a voz do narrador atravessa o texto e
cruza-se com a da gente do povo e a dos altos
poetas. As vozes que se intersecionam são
facilmente reconhecíveis e reconhecidas, mas
renascem no texto saramaguiano.
Linguagem, estilo e estrutura:
o tom oralizante e a pontuação
1. Como é introduzido o tom
oralizante no romance?

O romancista mistura vozes de Reis e


Pessoa, documentadas em textos em prosa e
verso já publicados. Saramago atribui
palavras às personagens em perfeita
consonância com o seu perfil e forma de
pensar. O leitor fica por vezes indeciso, sem
saber a quem remeter a autoria de certas
frases e palavras. Saramago revela uma
1. Como é introduzido o tom
oralizante no romance?

(cont.) capacidade inigualável de assumir a


personalidade do Outro, integrando-se
totalmente nele, inclusive falando com a sua
voz e dicção.
2. Como é subvertida a pontuação?

A pontuação tradicional é subvertida no


“estilo saramaguiano” numa aproximação à
linguagem oral. Assim, as palavras proferidas
por uma personagem surgem, muitas vezes,
no meio do discurso do narrador, sem recurso
a qualquer marca formal. O discurso ficcional
é cerrado e denso e o diálogo e o discurso do
narrador misturam-se.
2. Como é subvertida a pontuação?

(cont.) As falas das personagens não aparecem


delimitadas graficamente de forma tradicional,
pois a maior parte dos sinais emotivos de
pontuação (exclamação, interrogação,
reticências, travessões) foram excluídos.
Linguagem, estilo e estrutura:
a reprodução do discurso no discurso
1. Que características específicas
assume o relato de discurso em
Saramago?
O relato de discurso adquire especial
subtileza no romance saramaguiano e
determina a interseção de múltiplas vozes, ao
inserir citações, ao reproduzir fielmente o
discurso relatado, conservando a sua
enunciação e a sua sequencialização de uma
forma absolutamente subversiva e criativa. O
discurso relatado é utilizado por Saramago de
1. Que características específicas
assume o relato de discurso em
Saramago?
(cont.) uma forma peculiar e criativa. O facto
de não incluir verbos introdutores nem
apresentar qualquer elo subordinativo entre
discurso relatado e discurso narrado torna,
por vezes, difícil a distinção das diferentes
vozes discursivas que irrompem no texto.
Linguagem, estilo e estrutura:
recursos expressivos: a antítese, a
comparação, a enumeração, a ironia
e a metáfora
1. Em que consiste uma enumeração?

A enumeração é um recurso expressivo que


consiste na designação sucessiva de elementos
que mantêm uma correlação lógica ou
semântica.
2. Qual é o recurso expressivo que
consiste na fusão de duas realidades
diferentes que são assemelhadas,
atribuindo-se à primeira uma
qualidade pertencente à segunda?
O recurso expressivo que consiste na fusão
de duas realidades diferentes que são
assemelhadas, atribuindo-se à primeira uma
qualidade pertencente à segunda designa-se
metáfora.
3. Qual é o recurso expressivo
utilizado quando está presente uma
oposição semântica?
O recurso expressivo utilizado quando está
presente uma oposição semântica designa-se
antítese.
4. Em que consiste uma comparação?

A comparação é um recurso expressivo que


estabelece uma relação de analogia entre
dois termos que surgem no texto ligados
gramaticalmente por um elemento
comparativo.
5. Em que consiste a ironia?

A ironia é um recurso expressivo que consiste


na produção de um enunciado por um locutor
com a intenção de significar o contrário daquilo
que está a dizer.