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Noções

Básicas
de
psicanálise
Geraldo Arantes Jr 1
Sigmund Freud
Nasceu em Freiberg,Morávia(República Tcheca atual) em 06/05/1856,de nacionalidade
austríaca e faleceu em Londres 23/09/1939 aos 83 anos com cancer no palato
Aos 4 anos transferiu-se para Viena e mora aí até 1938 quando por ocasião da invasão
nazista e antisemitismo refugia-se em Londres

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Filho de Jacob Freud e de sua 3ª mulher Amalie Nathanson.Seu pai era um judeu
proveniente da Galícia e comerciante de lã.
Ingressa na Universidade de Viena aos 17 anos e na Faculdade de medicina tem como
professores Franz Bretano(filosofia),Ernst Brucke(fisiologia) e Carl Friedrich Claus,um
darwinista (zoologia)

Casa-se com Martha Bernays 14/09/1886 e tiveram seis filhos

Com Brucke entra em contato com a linha fisicalista da Fisiologia.Nesta época suas
atribuições eram o estudo da anatomia e da histologia do cérebro humano
Identificando semelhanças entre a estrutura cerebral do homem e a dos répteis é
remetido a Charles Darwin e seu estudo contemporâneo sobre a evolução das espécies
Desejando casar-se e tendo na época um baixo salário começa a trabalhar no Hospital
Geral,principal hospital de Viena

No hospital após alguns reveses com os efeitos terapêuticos da cocaína recebe uma
licença e viaja para França onde entrará em contato como estudos de Charcot sobre a
histeria

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Jean-Martin Charcot (Paris 29/11/1825-16/08/1893)
Juntamente com Guillaume Duchenne o fundador da moderna neurologia
Contribuições:estudo da afasia ,descoberta do aneurisma cerebral e causas da
hemorragia cerebral
Concluiu que a hipnose tratava varias perturbações psiquicas,em especial a histeria
No auge de sua fama foi chamado “Napoleão das neuroses”
Freud foi atingido pela demonstração contundente de Charcot do poder da mente
sobre o corpo

Ernst W. Brucke(Berlim 6/7/1819-7/1/1892)


Psiquiatra alemão tornou-se o mais brilhante representante do positivismo
Considerado o fundador da fisiologia na Austria.Ajudou a introduzir métodos
físicos e quimicos na pesquisa médica.Freud trabalha em seu laboratorio de
fisiologia onde adquire seu viés mecanicista visto no “Projeto para uma psicologia
científica”

Charles Robert Darwin(Shrewsbury 12/2/1809-19/4/1882)


Propõe que a evolução se dá por meio da seleção natural e sexual.Sua teoria é
considerada o paradigma central para explicação de diversos fenômenos da
biologia.Em “A origem das espécies”introduz a idéia de evolução a partir de um
ancestral comum,por meio da seleção natural.

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Franz Bretano (Marienberg am Rhein 16/1/1838-12/3/1917)
Ordenado padre em 1864 mas envolvendo-se em controversia abandona a Igreja em
1873.Sua filosofia evoluiu em direção ao aristotelismo moderno por ele definida como
ciência dos fenômenos psiquicos(para ele é sinônimo de consciência).Distingue tres
classes de fenômenos psiquicos fundamentais:representação,julgamento e
sentimento de amor(aprovação) ou sentimento de ódio(desaprovação)

Franz Anton Mesmer(Meersburg 23/5/1734-1815)


Em 1760 cursa medicina na Universidade de Viena.Em 1773 ocorre o primeiro
tratamento por meio do magnetismo animal.Admitia que como o imã,os olhos e e
as mãos de alguns individuos podiam irradiar um fluido especial.No início teve
boa aceitação mas depois caiu em descrédito.Em 1780 foi excluído do quadro de
médicos.

James Braid(Kinross Escócia1795-1860)


Um dos pioneiros a investigar o estado hipnótico.Considerado o iniciador da
hipnose científica.Cunha em 1824 o termo hipnotismo.Acreditava tratar-se de um
sono artificial(alusão a Hipnos deus grego do sono)Reconhecido esse equívoco não
conseguiu corrigir o termo impróprio pois já estava consagrado.Estabeleceu a
hipnose como objeto de pesquisa científica.

Carl F. Wilhelm Claus(2/1/1835-18/1/1899)


Zoólogo alemão oponente das ideias de Haeckel.Especializou-se em zoologia
marinha e tinha interesse por crustáceos.Em sua pesquisa sobre biologia celular
cunhou o termo fagócito.
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“...pois ninguem executa um plano com a mesma confiança com que o concebe;ao
contrário,quando formamos uma opinião sentimo-nos seguros ,mas na prática sobrevem o
temor e falhamos.”

“...pomos na sorte a culpa de todos os acontecimentos contrários ao nosso raciocínio.”

“De fato ,elogios a outras pessoas são toleráveis somente até onde cada um se julga capaz
de realizar qualquer dos atos cuja menção está ouvindo;quando vão além disto,provocam
inveja,e com ela a incredulidade. “

“...sei ,também ,que se sente tristeza não pela falta de coisas boas que nunca se teve,mas
pelo que se perde depois de ter tido.”

“Dos deuses nós supomos e dos homens nós sabemos que,por uma imposição de sua
propria natureza,sempre que podem eles mandam.”
Tucidides-História da guerra do Peloponeso
(*460-455 + 400 a.C)

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...o sofrimento anula os mais elementares sentimentos do homem.”

“Como mudam nossos sentimentos e quão estranho é o amor com que nos agarramos à
vida,mesmo no meio das maiores desgraças.”

“Eu sabia que estava preparando uma tortura mortal para mim,mas eu era o escravo,não o senhor,de
um impulso que,embora detestasse não podia deixar de obedecer.”

Mary Shelley – Frankenstein


(*1797 + 18510)
“na verdade acreditamos de coração no que desejamos,e o que nós mesmos pensamos,esperamos
que os outros pensem”
Julio Cesar– Bellvm Civille(49-48 a.C.)
(100-44 a.C.

“A mente humana,enfim,é feita de tal modo que a ficção domina muito mais do que a verdade”

...para que a vida humana não fosse marcada pela melancólica severidade,Jupiter infundiu no
homem muito mais paixão que razão...Relegou,ademais,a razão a um cantinho da cabeça
,entregando o resto do corpo ao tumulto das paixões.”
Erasmo de Rotterdam Elogio da Loucura (1509)

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RÉ PSICANÁLIS
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MESMERISMO
O Mesmerismo supunha que os seres animados estavam sujeitos às influências
magnéticas.
Mesmer substitui o imã ,pelo seu corpo,o contato terapêutico ocorre através de sua
mão.
Crescendo o número de pacientes ele inventa a magnetização em grupo colocando
várias pessoa numa tina de água e magnetiza-as em conjunto.
A popularidade do fluidismo atingiu tal proporção que governo e comunidade
científica condenaram Mesmer por charlatanismo.
A conclusão do julgamento foi que não existia nenhum fluido magnético e que a cura
era efeito da imaginação da pessoa.

Esse efeito da sugestão é que constituiu o princípio da tecnica empregada


inicialmente por Freud.

Na metade do século XIX o mesmerismo é abandonado e surge o “braidismo”,técnica


criada por James Braid que nada mais é que o hipnotismo.O efeito obtido depende
apenas do estado físico e psíquico do paciente.
Obtido o efeito hipnótico o poder é todo depositado no hipnotizador,que dispõe
então do corpo do paciente
Esse domínio permite a eliminação de sintomas e domesticação do comportamento.

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Charcot
A existência ou não de lesão anatômica era para a Psiquiatria do século XIX
fundamental.
Teríamos então dois grandes grupos:
1patologias com lesões orgânicas
2neuroses sem lesão e com sintomatologia que não
apresentava a regularidade desejada
Charcot aborda inicialmente a histeria como se houvesse um
correlato orgânico
Mais tarde afirma que a histeria escapava as mais
penetrantes investigações anatômicas
Charcot
Apesar disso achava que ela apresentava uma sintomatologia bem
definida,obedecendo a regras precisas.
Sua intervenção terá como base a hipnose como a mais importante intervenção,
mostrando que ela ,a hipnose,envolvia mudanças fisiológicas no sistema nervoso,o que
a aproximava da histeria.
No inverno de 1885 Freud vai a Paris frequentar as aulas de Charcot
Os aspectos mais salientados por Charcot e Freud nessa época: que a histeria não era
uma simulação,que era uma doença funcional com conjunto de sintomas bem definidos
e na qual a simulação desempenhava papel desprezível
Outro aspecto era que ocorria tanto em mulheres quanto nos homens
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Produzindo através da hipnose a regularidade do quadro histérico Charcot leva-a para
o campo da neurologia retirando-a das mãos do psiquiatra.
Através da hipnose conseguia-se que o histérico apresentasse um conjunto de
sintomas específicos e regulares,ou seja,isso tinha a ver com o desejo do hipnotizador
e nada com o corpo neurológico.
Pensando nisso Charcot elabora a teoria do trauma.
Charcot articula então que existe uma predisposição hereditária mas,devido a um
trauma psíquico ,produz-se um estado hipnótico que torna a pessoa sugestionável.
leva a
trauma estado hipnótico permanente que passa a ser objetivado
fisicamente

cegueira,paralisia,parestesias,etc

hipnotizador ocasiona também ,


porém temporariamente

Se isso não tem um componente físico o paciente deve contar sua história
Charcot só não esperava que o relato tivesse um conteúdo sexual tão contundente

Sexualidade e histeria ocorriam pari passu.Charcot recusa essa evidência.Freud parte


dela. Geraldo Arantes Jr 11
Teoria do trauma

Essa teoria terá repercussão inicialmente nas articulações freudianas.Enquanto


perdurar,sexualidade infantil e Édipo ficarão à margem ,o trauma é o agente principal,
não as fantasias edipianas.

A concepção de Charcot inscreve-se de maneira importante para Freud, tanto que em um


artigo de 1888 ele recomenda o afastamento do paciente de seu ambiente familiar(tido
com gênese das crises) e internação hospitalar(essa com função de tirar o paciente do
convívio com familiares).
Após 2 meses de repouso recomendava hidroterapia e ginástica.
Numa segunda etapa remover-se-iam as causas psíquicas ,uma sugestão para eliminar o
distúrbio.

Esse procedimento elimina o sintoma mas não a causa.Freud propõe então o método de
Breuer :sob hipnose retroceder à pré-história da doença tentando identificar a ocorrência
traumática,causa do distúrbio

Dezembro-1892 publica “Um caso de cura pelo hipnotismo”.Presença de Breuer mais


marcante que Charcot.
Ano seguinte publica com Breuer “Sobre o mecanismo psiquico dos fenômenos
histéricos:comunicação preliminar”
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Foi depois transformado no 1º capítulo dos “Estudos sobre a histeria”
Caso que deu origem à Comunicação preliminarAnna O (Bertha Pappenheim)
(paciente de Breuer)

Na época do tratamento de Anna O por Breuer, Freud estava se formando em Medicina.

“Anna O” Josef Breuer

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Anna O era filha de um paciente de Breuer e apresentava sintomas histéricos enquanto
cuidava de seu pai
Submetendo-a à hipnose ,observou que quando o acontecimento traumático era
reproduzido neste estado, os sintomas desapareciam.
Após 2 anos de tratamento os sintomas haviam desaparecido

Depois do retorno de Paris Freud recebe Frau Emmy von N e resolve aplicar a técnica de
Breuer de investigação via hipnose
Breuer chamara seu método de catártico(kátharsis = purgação) uma descarga do afeto que
estava originalmente ligado à experiência traumática.

Hipnose levaria o paciente a seu passado


em decorrência disso
encontraria o fato traumatizante haveria uma ab-reação
(liberação de carga de afeto)

Freud vai além de Breuer e após a hipnose chegar ao fato traumático, faz sugestão para
eliminar tais fatos ,ou pelo menos minimizar sua força patogênica.

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Empregar a hipnose e intervir sobre as ideias patogênicas não teve influência de Breuer
mas de Bernheim com quem Freud esteve em algumas semanas no ano de 1889
A sugestão mais tarde é abandonada por Freud que retoma o método investigativo,
posto que as sugestões(proibições)criavam obstáculo a qualquer pesquisa.
Na “Comunicação preliminar” Freud articula a noção de defesa que será fundamental na
criação da Psicanálise e também o afasta dos dois autores.

No artigo de 1894 ”As neuropsicoses de defesa”(elaborado entre a Comunicação


preliminar-1893 e Estudos sobre a histeria-1895)trata mais extensamente a questão
da defesa(mais tarde chamado recalcamento ).Isso decorre do fato de ter abandonado a
hipnose.

A hipnose era um obstáculo maior ao fenômeno da defesa


Quando Freud pede a seu paciente lembrar-se do fato traumático, e insiste nisso,
observa que esbarrava numa resistência à sua conscientização.
Verifica que todas as ideias eram de natureza aflitiva,despertavam
vergonha,autocensura,culpa.

A defesa surge através do ego para manter fora da consciência tal conteúdo,sendo a
resistência o sinal externo dessa defesa
A transformação da carga de afetos em sintomas somáticos é denominada por Freud de
conversão
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A conversão é o modo específico de defesa da histeria
Conhecendo então resistência,defesa e conversão a estratégia terapêutica deveria
modificar-se.
Só a ab-reação não daria conta da situação
As ideias patogênicas deveriam ser conscientizadas para serem elaboradas.

Breuer não havia narrado toda a historia de Anna O para Freud.Ele relata que
terminara o tratamento por desejo de sua paciente quando completava um ano que ela
havia se mudado para uma casa de campo nos arredores de Viena por questões de
segurança.Ela morava no 3º andar e tinha ideias de autoeliminação.
O que motivou o término fora o fenômeno da transferência e contratransferência.
Cansada de ouvir o marido falar da paciente ,a mulher de Breuer torna-se triste e
ciumenta.Ele decide encerrar o tratamento e comunica isso à Anna O.
No dia seguinte é chamado para atende-la com urgência.Apresentava contrações
abdominais,uma crise de parto histérica e teria dito:”Agora chega o filho de Breuer”.
Chocado,hipnotiza-a tirando-a da crise.No dia seguinte viaja para Veneza com a esposa
em férias.
Breuer não havia observado o componente sexual de sua paciente,inclusive relata que
ela era uma pessoa assexual,que nunca aludira a questões dessa origem no tratamento.
O caso de Breuer mais as experiências de Charcot e o comentário de Chroback que o
tratamento de uma histérica deveria ser Penis normalis ,aliado a sua experiência clínica
levam-no à hipótese que haveria aí uma excitação de natureza sexual e conflitiva.
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Flectere si nequeo superos,Acheronta movebo

O desejo rejeitado pelas instancias psiquicas superiores(o desejo recalcado do


sonho) agita o submundo psiquico(o inconsciente)para se fazer escutar.O que pode
você ver de prometeico nisso?
carta de 30/01/1927 de Freud a Werner Achelis

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A interpretação dos sonhos(Traumdeutung)

Mal recebida pelos psiquiatras e críticos e também pela intelligentsia da época esse livro
é de fundamental importância para os estudiosos da Psicanálise.

Entre a elaboração do “Projeto” e a “Interpretação..” um fato importante:a descoberta


do C. de Édipo.
Em carta a Fliess,outubro de 1897 Freud diz
“Ser completamente honesto consigo mesmo é uma boa norma.Um único pensamento
de valor genérico revelou-se a mim.Verifiquei,também no meu caso,o apaixonamento
pela mãe e ciúmes do pai,e agora considero isso como um evento universal do início da
infância..Sendo assim podemos entender a força de Oedipus Rex....”

Freud ainda não fala de C. de Édipo que só aparecera em “Um tipo especial de escolha do
objeto” em 1910.

Na “Interpretação..” Freud diz:”A interpretação dos sonhos é a via real que leva ao
conhecimento das atividades inconscientes da mente”
O sonho do neurótico não difere do das outras pessoas.
Uma pessoa sadia é virtualmente um neurótico,só que os únicos sintoma que ela
consegue produzir são seus sonhos

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Comecemos por duas afirmações de Freud:
os sonhos não são absurdos
os sonhos são realizações de desejos
Eles são produções e comunicações do sonhador
O que é interpretado psicanaliticamente não é o sonho,mas seu relato
O sonhador só não sabe o significado do sonho porque a censura impede seu
conhecimento.

Sentido e interpretação dos sonhos

Na medida que a censura atua ocorre uma deformação onírica,o desejo realiza-se sob
forma disfarçada.Isso ocorre para proteger a pessoa do caráter ameaçador de seus
desejos.
O sonho tem então dois registros:
1-o sonho propriamente lembrado e relatado conteúdo manifesto do sonho
2-conteúdo oculto ,inconsciente pensamentos oníricos latentes(conteúdo latente)

O que se interpreta é o relato do sonho, e isso é realizado através da linguagem,não das


imagens oníricas.

O que o paciente enuncia deve ser substituído pelo analista por outros enunciados,mais
primitivos e ocultos,expressão do desejo do paciente.
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Segundo Freud teríamos dois métodos de interpretação anterior ao dele:
interpretação simbólica procura-se substituir o sonho por outro que lhe seja análogo e
inteligível.
método da decifração cada elemento constituinte do sonho deve ser substituído
por outro segundo uma chave fixa

O primeiro é impreciso e de difícil viabilização


No segundo a confiabilidade da chave é questionável.

“Nosso primeiro passo no emprego desse método nos ensina que o que devemos tomar
como objeto de nossa atenção não é o sonho como um todo,mas parcelas isoladas de
seu conteúdo...”
“...ele emprega a interpretação en détail e não en masse;considera os sonhos,desde o
início,como sendo de caráter múltiplo,como sendo conglomerados de formações
psíquicas.”

conteúdo manifesto transcrição dos pensamentos oníricos

sintaxe é dada pelo Ics

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Lembrar que o Ics:
não é uma coisa no interior da qual os pensamentos latentes são distorcidos
não é a “profundeza”,o “sótão” de onde emergirá um material misterioso e inacessível

Lacan nos diz que o Ics “é estruturado como uma linguagem”

Elaboração onírica e interpretação

Para Freud a linguagem é o lugar do ocultamento,não da transparência da


verdade.Quanto maior a articulação entre a linguagem e o desejo mais um outro sentido
estará oculto.
A função da Psicanálise é fazer surgir o desejo que o discurso oculta.
Esse desejo está vinculado aos desejos infantis com as interdições que sofre.
Como a censura continuamente opõe barreiras ele acaba emergindo de forma distorcida
através do sonho..
A essa distorção Freud dá o nome de elaboração onírica ou trabalho do sonho.
A censura ocorre como podemos ver em notícias de jornal.Pode aparecer um espaço em
branco ou uma substituição da notícia vedada por outro material.

Censura aparece no sonho partes omitidas


partes estranhas ,confusas

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elaboração onírica transforma pensamentos latentes em conteúdo manifesto
impondo-lhes uma distorção
interpretação do conteúdo manifesto tenta chegar ao latente

O caminho que a interpretação deve percorrer implica num fenômeno que chamamos
regressão.Isto será visto ao abordarmos a questão tópica do aparelho psíquico.No
trabalho do sonho temos 4 mecanismos fundamentais: condensação, deslocamento
figuração, e elaboração secundária(que corresponde mais propriamente a um segundo
momento da elaboração onírica)

Condensação o conteúdo manifesto é menor que o latente,uma tradução abreviada


dele.Pode operar de 3 maneiras:

1-omitindo certos elementos do conteúdo latente


2-permitindo que apenas um fragmento de alguns complexos do sonho
latente apareça no sonho manifesto 3-combinando vários
elementos do conteúdo latente que possuam algo em comum num único
elemento do conteúdo manifesto

Ex : uma pessoa com varias características de outra.

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Deslocamento ele atua de duas maneiras
1-substituição de um elemento latente por outro mais remoto que funcione
em relação ao primeiro como uma simples alusão
2-mudando a importância de um elemento para outro menos importante

Figuração(ou consideração à figurabilidade) consiste na seleção e transformação


dos pensamentos do sonho em imagens.A totalidade dos pensamentos não é
afetada,alguns deles conservam-se como pensamentos.Olhando no entanto um texto e
transformando-o em imagem poderemos ver o quão distorcido pode ele tornar-se.

Elaboração secundária é a modificação do sonho para que ele apareça como uma
história coerente e compreensível.A tentativa desse mecanismo é aproximar o
sonho do pensamento diurno.Embora mais tarde Freud declare”estritamente
falando,este último processo(el. secundária) não faz parte da elaboração onírica “pois
ele incide sobre um material já elaborado pelos outros mecanismos.
Na “Interpretação..” no entanto ele confere um papel ativo na formação do sonho ao
apossar-se de um material já pronto(as fantasias diurnas) e introduzi-lo no conteúdo do
sonho.

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Sobredeterminação

O sentido do sonho não se esgota numa única interpretação pois todo sonho é
sobredeterminado,ou seja,um mesmo elemento do conteúdo manifesto pode remeter
a vários pensamentos latentes
Isto vale para um elemento como para o sonho como um todo.Tal situação acontece
porque o sonho é erigido a partir de “n” pensamentos oníricos e assim aqueles
elementos que possuem articulações mais fortes e numerosas passam a formar o
conteúdo onírico.
Os pensamentos que formam o conteúdo latente pouco diferem dos pensamentos de
vigília e porisso são submetidos à censura,papel esse desempenhado pela elaboração
onírica.
Assim é a elaboração onírica que constitui praticamente o sonho.
A questão da sobredeterminação já está presente para Freud desde “Estudos sobre a
histeria”,pois lá já dizia que a gênese da neurose é sobredeterminada,ou seja,vários
fatores contribuem para sua estruturação.
A sobredeterminação nos leva à superinterpretação,isto é,uma segunda
interpretação,dando outro significado do sonho,distinto da interpretação original.
Isso não significa que a primeira foi equivocada,mas que,a sobredeterminação implica
em mais fatores
Rigorosamente falando não existe interpretação completa.

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“É somente com a maior dificuldade que o principiante na matéria de interpretar
sonhos pode ser persuadido de que sua tarefa não chegou ao fim quando tem em mãos
uma interpretação completa,uma interpretação que faz sentido,que é coerente e lança
luz sobre todos os elementos do conteúdo do sonho.Porque o mesmo sonho pode
possuir uma outra interpretação também,uma superinterpretação que lhe escapou.”
A superinterpretação pode ocorrer por:
existir a sobredeterminação
o analisando apresentar novas associações

Isso significa que:


não temos começo nem fim absolutos
que não há verdade essencial e imutável

A Primeira Tópica

Ela surge no Cap. VII da “Traumdeutung” e faz referência a vários modos e graus de
distribuição do desejo.Os locais que ele pontua são metafóricos,não anatômicos.Fala
de localização psíquica.

Ele vai tratar de sistemas ou instâncias:Ics,Pcs,Cs


No item B do capítulo VII é que ele apresenta sua 1ª tópica do aparelho psíquico

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Ele é bem claro quando diz:
“Desprezarei inteiramente o fato de que o mecanismo mental em que estamos aqui
interessado é-nos também conhecido sob a forma de preparação anatômica e evitarei
cuidadosamente a tentação de determinar a localização psíquica por qualquer modo
anatômico”

Nessa tópica vemos a expressão do sentido progressivo <—> regressivo do


funcionamento do aparelho psíquico.Aqui então o conceito de regressão é fundamental.
O aparelho psíquico então:
 formado por sistemas
 com posições relativas que se mantém constantes
 permitindo um fluxo orientado num determinado sentido
 importando a posição relativa que cada um mantém com os demais

Esses sistemas tem um sentido:

estímulos (internos ou externos) descarga motora

Sistema perceptivo(Pcpt) Sistema motor(M)

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Pcpt M

Essa seria a imagem do aparelho citado.Freud porém viu que as percepções deixavam
traços mnêmicos que seriam permanentes.

O mesmo sistema no entanto não poderia reter informações e ficar aberto à


percepção,ou seja,funções de memória e percepção precisavam ser distintas.

Uma parte deve responsabilizar-se pela retenção mnêmica enquanto outra fica com a
recepção de estímulos

A representação acima deveria então ser modificada.

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Pcpt Mnem Mnem Mnem M

Assim o sistema Pcpt recebe os estímulos mas não os registra nem associa.
Essa função passa para os sistemas mnêmicos que recebendo as percepções do 1º
sistema transforma-as em traços permanentes.As associações também permanecem
nestes últimos sistemas
Uma associação acontece quando diminuem as resistências ou quando se
estabelecem caminhos facilitadores.
Na ocorrência disso uma excitação é transmitida mais prontamente de um elemento
Mnem a outro.
Quando propõe a elaboração onírica Freud reconhece uma instância crítica que só
poderia situar-se na extremidade motora devido a sua maior relação com a
consciência.Ela também é responsável por nossas ações voluntárias e conscientes
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Substituindo essas instâncias por sistemas teríamos finalmente:

Pcpt Ics Pcs


Mnem Mnem
Mnem

Temos então uma construção topológica que visa oferecer uma descrição do
funcionamento do aparelho psíquico
Retomando a questão progressiva-regressiva e sua orientação notamos que o Ics só pode
ter acesso à consciência via Pcs/Cs
Qualquer conteúdo do Ics só poderá ser conhecido se transcrito — e portanto modificado
e distorcido – pela sintaxe do Pcs/Cs
liga-se
desejo inconsciente pensamentos oníricos procura forma de ter acesso
pertencente ao Pcs/Cs à consciência

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Na vigilia o percurso é efetuado do polo Pcpt ao polo Pcs/M.
Nos sonhos e alucinações caminha da parte sensória até o Pcpt ,reinvestindo as imagens
mnêmicas
A esse caminho inverso Freud denomina regressão

Regressão

O processo regressivo não é só característico do sonho ou da alucinação.Ocorre também


em fenômenos psíquicos da vigília.
Quando no sonho a ideia transforma-se em imagem sensorial,ou seja,quando reproduz
alucinatoriamente a experiência original temos aí o fenômeno da regressão.
Se o sonho é uma regressão , ele ,retornando da extremidade motora para a sensória
deve passar do Pcs/Cs para o Ics onde a lógica dominante do Pcs/Cs não possui nenhum
valor.
Sendo um fenômeno regressivo,o sonho será resultado da atração exercida pelas marcas
mnêmicas das experiências infantis,que lutariam por encontrar uma expressão atual na
consciência.

Sobre isso Freud relata:


“um sonho poderia ser descrito como um substituto de uma cena infantil,modificada
por ter sido transferida para uma experiência recente”

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A atração das marcas mnêmicas das experiências infantis refere-se à teoria do trauma,a
“cena infantil” que Freud refere ,uma cena real (a teoria da sedução real pelo adulto
ainda não está superada aqui)
Rigorosamente essa teoria não foi superada completamente.Ele escreve em 1905
“Fui além dessa teoria,mas não a abandonei;vale dizer que não considero hoje a teoria
incorreta,mas incompleta”

Aos poucos ocorre uma diferenciação na noção de regressão ,quando num acréscimo à
“Interpretação..” feita em 1914 ele diz que existem três tipos de regressão:
1-tópica é o retorno da excitação,através dos sistemas que compõem o aparelho
psíquico do Pcs/Cs para o Ics
2-temporal retorno do indivíduo a estruturas psíquicas mais antigas
3-formal designa a passagem a modos de expressão mais primitivos,isto é,menos
estruturados(do processo secundário para o primário)
Na verdade as três se implicam mutuamente

A realização de desejos

Podemos dizer que um desejo é uma ideia,um pensamento,portanto,algo bem distinto


da necessidade e da exigência.Encontra-se no patamar das fantasias(fantasmas) e assim
tem que ser realizado,contrariamente à pulsão que deve ser satisfeita.

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Existem três possíveis origens para os desejos que se realizam nos sonhos:
restos diurnos não satisfeitos desejos pertencentes ao Pcs/Cs
restos diurnos recalcados desejos que surgiram durante o dia e foram
suprimidos
desejos que pertencem ao Ics nada tem a ver com a vida diurna e emergem
durante o sono

Freud ainda acrescenta uma quarta possibilidade de desejos oníricos,os estímulos


noturnos como fome,sede,etc
Nem todos no entanto produzem sonhos.Alguns induzem um sonho,mas apenas ele não
o produzirá.

Os únicos desejos capazes de produzir um sonho são aqueles pertencentes ao Ics


Para que um desejo pré-consciente produza um sonho ele deve apoiar-se num desejo
inconsciente.

Os desejos inconscientes estão sempre em permanente disposição para uma expressão


consciente,mas a censura os impede
Se no entanto transferirem sua intensidade para um impulso do consciente cujo
conteúdo ideativo funcione apenas como indicador do desejo original conseguirão
burlar a censura.

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No sistema inconsciente o passado se conserva e como o sonho tem atuação regressiva,
os desejos mais infantis agem como indutores permanentes de seus conteúdos.
Descritivamente:

desejo inconsciente efetua transferência para resíduos diurnos

segue progressivamente para consciência penetra no Pcs/Cs abandona o

Ics

detido pelo Pcs/Cs o processo é invertido e inicia-se seu caminho regressivo

lembranças inconscientes exercem sua força de atração

nada detendo o processo regressivo ativa-se o sistema perceptivo

produzindo-se de modo alucinatório


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a realização do desejo
Se o sonho é uma realização de desejos ,como surgem sonhos desagradáveis?

A elaboração onírica nem sempre obtém sucesso completo na realização de desejos.


Pode ocorrer que parte do afeto ligado aos sentimentos oníricos fique excedente no
sonho manifesto,provocando o sentimento de desagrado
É muito mais difícil a elaboração onírica alterar o sentido dos afetos do que o conteúdo
do sonho

Os pensamentos aflitivos transformam-se pelo trabalho do sonho,mas os afetos ,mais


resistentes à mudança,podem permanecer inalterados no sonho manifesto
Se os sonhos são realizações de desejos deve proporcionar prazer a quem sonha.
Entretanto quem sonha:deseja,repudia,censura seus desejos.O sonho deve agradar a
quem deseja ou a quem censura?

Se a realização de um desejo inconsciente e recalcado produz prazer,gera tambem


ansiedade no ego sonhador.
O que gera prazer num nível produz angústia no outro.Assim os sonhos desagradáveis
são realização de desejos.

O caráter desagradável deriva do fato de seu conteúdo escapar ,em parte, à ação da
censura,deixando aflorar um desejo inconsciente que,por ser inaceitável para a
consciência produziu desprazer.
Geraldo Arantes Jr 35
Sonhos de punição também são desagradáveis porém realizam o desejo do sonhador de
se punir por ter um desejo proibido.A punição é também o desejo de outra pessoa , a
que censura.
O sonho de punição seria proveniente de um desejo do ego(inconsciente mas não
pertencente ao sistema Ics) cujo objetivo seria punir o desejo inconsciente,que é fonte
originária do sonho.
Anos mais tarde(23) Freud chamaria essa instância que exerce esse policiamento do
desejo de Superego.

Aparelho psíquico : aspecto evolutivo

No RN o aparelho psíquico tende a manter-se o mais livre possível de estímulos.As


excitações devem ser descarregadas via motora(Princípio da inércia neurônica)
A posteriori propõe que deve existir um nível ótimo de energia acumulada,sendo este o
mais baixo possível(Princípio da constância)

O RN é um ser desamparado,não consegue satisfazer-se.Mesmo gritando ou agitando-se


não elimina o estado de tensão ocasionado pela necessidade.Isso só ocorre através da
intervenção de um auxílio externo ,a mãe(sua função)
Por esta via ele atinge sua experiência de satisfação,que elimina o estímulo interno

Geraldo Arantes Jr 36
experiência de satisfação percepção traço mnêmico

traço mnêmico gerado pela percepção associa-se à satisfação

surgindo mesma tensão um impulso psíquico procurará reinvestir a

reevocar a própria percepção imagem do objeto

tendência a reproduzir alucinatoriamente a experiência de satisfação

“Um impulso desta espécie é o que chamamos de desejo,o reaparecimento da


percepção é a realização do desejo, e o caminho mais curto a essa realização é uma via
que conduz diretamente da excitação produzida pelo desejo a uma completa catexia da
percepção.Nada nos impede de presumir que houve um estado primitivo do aparelho
psíquico em que este caminho era realmente percorrido,isto é,em que o desejo
terminava em alucinação”

Geraldo Arantes Jr 37
Essa atividade psíquica original objetivava produzir uma “identidade perceptiva”

Essa “identidade” produzida via regressão ocasiona uma decepção pois o objeto é
alucinado e portanto persiste a necessidade
Necessita-se então de uma verificação da realidade,algo que barre essa regressão antes
que surja a alucinação.
A inibição da regressão ocorrerá graças a formação do ego.

Os sonhos são uma amostra atual desse modus operandi primitivo do aparelho psíquico
produzindo uma satisfação alucinatória pela via regressiva.
Na vida diurna esse modus operandi encontra-se na atividade psicótica

O recalcamento

Se anteriormente o pensamento freudiano tinha como alvo o processo progressivo-


regressivo agora o foco é como o aparelho psíquico funciona em termos de força e
conflito de forças.
Explicando que os pensamentos em nada diferentes da vigília são transformados em
conteúdo onírico expõe um dos princípios fundamentais afirmado no “Projeto..”:
“a característica principal desses processos é que toda a ênfase é aplicada no sentido de
tornar a energia catexial móvel e capaz de descarga”

Geraldo Arantes Jr 38
Essa energia circula pelos sistemas Ics e Pcs/Cs sendo que no primeiro a luta é para
livrar-se dela enquanto o segundo impõe barreiras à livre descarga.
O Ics quer escoar essa energia pois seu acúmulo gera desprazer em seu interior.

desprazer devido ao acúmulo de energia mobiliza ap. psíquico

que diminuiu a excitação visa repetir experiência de satisfação

e foi sentida como prazerosa

Uma corrente dessa espécie foi denominada desejo e somente ele coloca o aparelho
psíquico em ação.
Se o sistema Ics quer a descarga de energia o Pcs/Cs procura transformar catexia do
sistema anterior em catexia mais amenizada.Isto só é possível quando altera-se o
mundo externo visando uma satisfação mesmo que seja parcial ,porém tolerada por
ele.

O modelo freudiano fundamenta-se não na procura do prazer mas na evitação do


desprazer.
A partir da Traumdeutung Freud começa a diferenciar os termos defesa e
recalcamento(antes usava-os quase como sinônimos)

Geraldo Arantes Jr 39
Defesa processo mais genérico de evitamento da dor
Recalcamentoprocesso que visa manter afastado no Ics representações ligadas a uma
pulsão.
Lembremos que:
a experiência da dor não produz recatexização da imagem do objeto,mas
tendência que ela seja rejeitada
evitar a lembrança é processo similar à fuga da percepção
Esse é o modelo do recalcamento que só é efetuado pelo Pcs/Cs pois o Ics não conhece o
“não” e “só faz desejar” .

Se um processo inconsciente procura aceso à consciência ocorre uma censura pois se ao


primeiro sistema provoca prazer ,ocasiona desprazer ao último.O desejo deve então
permanecer inconsciente,podendo retornar sob a forma de sintoma.

 o material recalcado exerce atração constante sobre os conteúdos do Pcs/Cs


 o sistema Pcs/Cs deve ter acesso às lembranças ,porém algumas delas são censuráveis

O Pcs/Cs não pode inibir totalmente os impulsos inconscientes pois a tensão no Ics ficaria
insuportável,mas se vierem a tona também será desprazeroso
A função dele será então a de dirigir tais impulsos por caminhos mais convenientes

Geraldo Arantes Jr 40
Quando no funcionamento do ap. Psiquico opera apenas o Ics está atuando o processo
primário
Quando funciona Pcs/Cs temos o processo secundário

O secundário é uma modificação do primário mas não o substitui.


No primário do ponto de vista econômico temos a energia livre,procurando uma
descarga mais rápida
No secundário a energia ligada , com uma descarga mais controlada ,investindo de
maneira mais estável as representações
Por sua função inibitória o processo secundário acarreta a permanência no inconsciente
de grande parte do material mnêmico,justamente porque tal material não teve a
catexia do Pcs/Cs

Esses impulsos não são destruídos nem inibidos e a liberação do afeto a eles ligado
produz desprazer
O recalcamento consiste precisamente na transformação desse afeto

O material recalcado emerge sob a forma de sintomas,atos falhos,sonhos,etc.

Geraldo Arantes Jr 41
Ponto de vista Tópico
Primeira Tópica
Inicialmente Freud preocupa-se compreender os fenômenos psíquicos aproximando-os de
dados histológicos e neurofisiológicos.A seguir a preocupação com a neurofisiologia ou
anatomia desaparece e a teorização puramente psicológica visará apenas a coerência
interna e à eficácia na compreensão dos fatos clínicos
O primeiro esquema topológico aparece então no capítulo VII da “Interpretação dos
sonhos” e no texto de 1915 “O inconsciente”
A primeira tópica mostra um aparelho psíquico formado por tres sistemas:
Icsinconsciente
Pcspré-consciente
Csconsciente

Sistema Pcs/Cs
Registra as informações captadas do meio externo e tem ainda a percepção das sensações
internas ligadas à série prazer-desprazer.
Não conserva nenhum traço duradouro das excitações que registra
Funciona num registro qualitativo enquanto o resto do aparelho psíquico funciona
segundo as quantidades
É a sede e processamento do pensamento,isto é,dos raciocínios e revivescências de
recordações
Tem ainda o controle da motilidade
Geraldo Arantes Jr 42
Pré-consciente
Freud frequente uniu o PCs com o sistema Cs para contrapo-lo ao Ics.
Pelo seu conteúdo podemos dizer que:
não presente no campo de consciência,é ,no entanto,acessível ao conhecimento
consciente
pertence ao sistema de traços mnêmicos
feito de representações de palavra

Quanto a seu funcionamento


caracterizado pelo processo secundário(a energia não circula livremente nele,é
previamente ligada)
princípio da realidade predomina sobre o do prazer

Inconsciente
parte mais arcaica do Aparelho psíquico,a mais próxima da fonte pulsional.
constituído essencialmente de representantes das pulsões
na visão da 1ª tópica ,constituído historicamente no curso de vida do indivíduo

Quanto a seu funcionamento:


caracterizado pelo processo primário(energia livre,tendência à descarga)
regido pelo princípio do prazer

Geraldo Arantes Jr 43
Censura
As energias,as representações não circulam através dos sistemas sem um controle.Existe
a censura que regula esse trânsito.Particularmente severa entre Ics e Pcs,exerce essa
vigilância ativamente, impedindo que as representações acessem certo território.
Existe também entre Pcs e Cs ,porém é menos rigorosa
Atua como barreira ainda, entre o mundo externo e o sistema Pcs/Cs ,à maneira de um
filtro evitando a irrupção no interior do psiquismo de estímulos violentos que não
poderiam ser controlados

Segunda Tópica

Em “Além do princípio do prazer”(1920) aparecem as primeiras observações da segunda


tópica que será desenvolvida em “O ego e o id”em 1923
Dos sistemas da primeira tópica passa-se às instâncias da segunda, diminuindo a questão
topográfica para acentuar-se mais a abordagem antropomórfica,quando o aparelho
psíquico é concebido sob o modelo das relações interpessoais.
As noções de representantes e traços mnêmicos é sucedida pela noção de conflito entre
as instâncias ,e até mesmo no interior de uma instância,o ego no caso.

Id
Nestas tres novas instâncias apenas o Id tinha um correspondente quase exato na
primeira tópica ao inconsciente,exceto que uma parte do antigo Ics não se encontra mais
Geraldo Arantes Jr 44
no Id
Freud se refere a ele como a parte impenetrável de nossa
personalidade,desembocando no somático de onde recolhe as necessidades
pulsionais,que aí encontram suas expressões psíquicas.
Na primeira dualidade pulsional as pulsões do ego ligavam-se ao sistema
Pcs/Cs,enquanto na segunda ,pulsões de vida e de morte pertencem ao Id.
Em relação ao Id podemos verificar:
as leis que o regem:princípio do prazer,processo primário
processos que nele ocorrem fogem às leis lógicas do pensamento
a contradição não existe nessa instância
não se encontra nada que possa ser comparado à negação
noções de tempo e espaço inexistem aí
ignora-se os juízos de valor com bem,mal,moral
constitui o polo pulsional da personalidade
do ponto de vista econômico é o reservatório primitivo da energia psiquica
do ponto de vista dinâmico entra em conflito com ego e superego que do ponto
de vista genético são diferenciações dele
seus conteúdos são em parte hereditários e inatos e em parte recalcados e
adquiridos

No “Esboço de psicanálise “ Freud afirma:


“Na origem ,tudo era Id.O ego se desenvolveu a partir do Id,sob a influência persistente
do mundo exterior”
Geraldo Arantes Jr 45
Ego

Se o Id é o polo pulsional,o Ego é o defensivo.Entre as exigências pulsionais do Id e as


imposições da realidade externa e do Superego,o Ego é o mediador.
Sendo uma diferenciação progressiva do Id ele é constituido pelo sistema percepção-
consciência.Por outro lado em decorrência de identificações sucessivas a objetos
externos que são interiorizados e incorporados por ele ,o ego é assim modelado.
Isso ele faz apropriando-se de porções cada vez maiores de energia libidinal incluída no
Id
O Id é fragmentado em tendências independentes entre si,ao passo que o ego surge
como uma unidade e instância que assegura estabilidade e identidade do indivíduo.
Ele ainda:
assegura a função da consciência
assegura a autoconservação conciliando as divergências entre Id e mundo externo
Nesta tópica o Ego é,em grande parte inconsciente como por exemplo nos
comportamentos obsessivos onde o sujeito ignora o motivo e os mecanismos de seu
comportamento

Superego

Sua gênese remete à famosa frase:o Superego é o herdeiro do complexo de Édipo.Ele


também retira sua origem do Id
Geraldo Arantes Jr 46
A saída do complexo de Édipo para o menino implica numa renúncia ao amor pela mãe
e uma identificação com o pai (interiorizando a proibição paterna).
O Objetivo dessa identificação é fazer com que o Id renuncie a seu objeto de amor
Quando esse objeto é introjetado no superego,este recupera a energia que o Id tinha
investido sobre essa representação

Pode ocorrer ainda que a identificação se faça com sua mãe

A identificação será feita não com o Ego dos pais mas sim com o Superego deles que
transparece em sua atitude educativa.

Freud observa:
“...apesar de sua diferença fundamental,o Id e o Superego tem um ponto em
comum:ambos representam,de fato,o papel do passado,o Id o da hereditariedade,o
Superego,o que ele pediu emprestado a outrem;enquanto o Ego é sobretudo
determinado por aquilo que ele próprio viveu,ou seja,pelo acidental,atual”

O superego engloba as funções:


função de auto-observação
função de consciência moral,de censura
função de ideal(ideal do ego)

Geraldo Arantes Jr 47
Ponto de vista Econômico

Se a parte psíquica tem por um lado as representações,por outro tem os afetos a elas
ligados.
O afeto carrega consigo o aspecto qualitativo da carga emocional mas também, o
quantitativo,o investimento da representação dessa carga
À quantidade de energia psíquica ligada a uma representação denominamos
investimento.Freud diz que se trata de “algo que pode ser
aumentado,diminuído,deslocado,descarregado e que se estende sobre as
representações,um pouco como uma carga elétrica na superfície dos corpos”
O que seria essa energia?A noção de pulsão permite que se precise a noção desse
quantum.
As pulsões são entidades biológicas que tem um aspecto psíquico e um somático.É delas
que é retirada essa energia libidinal que se tornará energia de investimento.
Ela pode encontrar-se em dois estados : energia livre ou energia ligada.
Desde “Estudos sobre histeria “e o“Projeto...” esses dois aspectos da energia já eram
distinguidos.
A energia circula sobre uma cadeia de neurônios e seu encaminhamento pode ser
facilitado ou inibido.
No estado mais simples desse aparelho a energia encontra-se livre,isto é,ela tende a se
escoar para fora do sistema neuronal(descarga)

Geraldo Arantes Jr 48
Na medida que o Ego estabelece controle sobre os processos psíquicos ele tende a ligar
essa energia,acumulando-a em certos conjuntos neuronais
Num processo reflexivo mental um conjunto de representações é fortemente
investido:esse é o fenômeno da atenção.Num processo de pensamento teremos
deslocamentos mínimos de energia.
Estado livre de energiaprocesso primário
Estado ligado de energiaprocesso secundário
Nas situações de luto ou amor observamos nitidamente os movimentos de investimento
ou desinvestimentos de objetos.
O investimento deve ter uma certa estabilidade mas também elasticidade.Na perda o
indivíduo deve saber retirar seu investimento libidinal(no luto).

Processo primário caracteriza-se por um estado livre de energia,o que facilita a descarga
mas também os fenômenos de deslocamento e condensação

Deslocamentodeslizamento de uma energia ao longo de uma via


associativa,encadeando diversas representações ,o que leva a fazer figurar uma
representação no lugar de outra.
No sonho faz com que representações atenuadas sejam aceitas pela censura
Condensaçãonuma representação única aparecem diversas cadeias associativas de
representações,e é sobre elas que se investem suas energias

Geraldo Arantes Jr 49
Processo primário tende ainda à busca de uma identidade de percepção(ligada à
experiência de satisfação)
Neste processo quando surge uma tensão(desejo)os traços mnêmicos do objeto e do
processo que fizeram anteriromente desaparecer essa tensão serão fortemente
reinvestidos.O indivíduo vai então tentar encontrar pelas vias mais diretas o objeto de
satisfação
O que pode atingir-se é a reativação alucinatória da lembrança do objeto

Processo secundárioestado ligado da energia.Aqui não se busca mais a identidade de


percepção mas a identidade de pensamento,ou seja,que o Ego se vincule aos laços,às
vias de ligação entre as representações.
O Indivíduo não é absorvido pelo desejo de reviver as percepções prazerosas,ele reflete
e pondera sobre o contexto que vivencia e surge então uma possibilidade de inibição
mais ou menos durável da tendência primeira à descarga.

O princípio do prazer rege inicialmente a atividade psíquica e tem por objetivo evitar o
desprazer e buscar o prazer.Para Freud ligava-se a certo nível de energia,sendo o prazer
uma redução ao minimo da tensão energética
Esse princípio supõe que as pulsões buscam a descarga e a satisfação mais
imediata.Essa satisfação mais imediata é a realização alucinatória que será
decepcionante e portanto não temos uma satisfação duradoura se tentarmos ignorar a
realidade
Geraldo Arantes Jr 50
Isso exprime então o princípio da realidade.Ele é na verdade um rearranjo do princípio
do prazer ,imposto pela experiência da vida.
Veremos então a correlação:
P. primário energia livre princípio do prazer identidade de percepção
P. secundário energia ligada princípio da realidade identidade de pensamento

Primeira série rege o funcionamento do Id


Segunda série rege o funcionamento do Ego

Princípio do prazer está na base do Princípio da constância,segundo o qual a tendência


do aparelho psíquico em manter o mais baixo ou pelo menos constante o nível de
excitação.

O princípio da constância pode ser entendido então como:


 constância da carga energética total de um sistema fechado
 manutenção,em um nível equivalente,dessa carga nas diferentes partes do sistema
 auto-regulação desse sistema,face as perturbações oriundas do
exterior(homeostasia)

Geraldo Arantes Jr 51
DESENVOLVIMENTO
PSICOSSEXUAL

Geraldo Arantes Jr 52
As diferentes fases do desenvolvimento do bebê não são claramente separadas ou
delimitadas,elas se interpenetram e passam gradualmente uma pela outra.A fase oral por
exemplo pode se estender bem além do desmame.
O que chamamos de sexualidade infantil difere da do adulto pelo menos em tres pontos:
as áreas erógenas não são forçosamente regiões genitais
a sexualidade infantil não conduz a relações genitais mas comporta atividades
que,mais tarde,desempenharão papel no prazer preliminar.
ela possui a tendência de ser auto-erótica

Fase oral
Compreende algo mais que a boca
entroncamento digestivo: esôfago,estômago,órgãos respiratórios que regulam
aspiração e expiração como pulmões(fixações orais dos asmáticos)
órgãos da fonação(portanto linguagem)
órgãos dos sentidos responsáveis por gustação,olfato,visão

Nessa época até o tocar na pele pertence a essa fase.É a época em que o bebê é mais
sensibilizado por carícias,beijos,cócegas.
O objeto “erótico” do bebê é o seio materno ou seu substituto,sendo que o ato de mamar
é a primeira expressão da libido.
No nascimento ao separar-se da mãe o bebê estabelece com ela nova
relação,simbiótica,fusional cujo mediador é a função nutricional
Geraldo Arantes Jr 53
A satisfação libidinal apoia-se então inicialmente na necessidade fisiológica para
posteriormente dela se separar.O bebê descobre que a excitação através da boca e lábios
proporciona prazer,mesmo na ausência de alimentação(sugar o dedo)

O alvo pulsional nessa fase é duplo e a estimulação da boca traz um prazer auto-erótico
mas o bebê não tem noção do mundo externo e esse estado é descrito como “anobjetal”.
Por outro lado ,é o desejo de “incorporar os objetos”,desejo específico da oralidade.O
bebê coloca tudo na boca.Ele não percebe indivíduos,imagina-se unido a tudo em suas
fantasias.O objeto é uma parte dele ,e engolindo-o ,incorpora-o

No início não há imagens de objetos,as primeiras representações são


dispersas,fragmentadas,parciais.
O recém-nascido não tem consciência do mundo externo( se pudermos falar aqui de
consciência),não distingue a si mesmo dos outros .Está as voltas com “pedaços de
objetos”,os objetos parciais como pedaços da mãe(seio,mamadeira) bem como pedaços
do seu próprio corpo.

O relacionamento do recém-nascido com os objetos parciais estabelece duas direções:


auto-erotismo
relação anaclíticaque significa apoiar-se.Reflete o estado de dependência
absoluta do bebê.

Geraldo Arantes Jr 54
A descoberta dos objetos procede-se gradualmente,constituindo-se por ocasião dos
momentos de ausência.A primeira tomada de consciência do objeto advirá da espera
nostálgica de algo familiar que satisfazia as necessidades do bebê.
A posteriori aprenderá a diferenciar sua impressões que será estabelecida entre os
objetos conhecidos,de confiança e os inabituais ,estranhos.
Quando a mãe atinge o status de objeto(de amor) a criança começa a comunicar-se com
ela e compreender o que ela lhe transmite.As reações de contato,a manipulação do bebê
pela mãe tem fundamental importância.

A reação ambivalente é a segunda parte da fase oral ,quando surgem as pulsões


sádicas.Nesse período da tendência a morder, o desejo de destruir a mãe associa-se à
aspiração da união libidinal com ela.
O ódio é induzido pela ausência do objeto anaclítico e será projetado para o exterior o
que faz com que o objeto (exterior )seja afetado por este ódio
A maneira como a pulsão agressiva,o morder, é recebida pelo objeto de amor é de suma
importância(permitida,tolerada,proibida...)

O desmame é o conflito relacional específico ligado à resolução da fase oral.Vivenciado


como traumático no sentido restritivo como uma consequência da agressão.Indivíduos
aleitados até tarde com o seio tem certa dificuldade de gozar completamente de sua
faculdade de agressividade sem provocar uma necessidade de auto-punição.

Geraldo Arantes Jr 55
Fase anal

Ocorre quando começa o controle dos esfincteres e trazem para a criança,


progressivamente,uma independência relativa.
Quando a defecação torna-se um ato que pode ser dominado o prazer liga-se a ela e passa
a ocupar posição privilegiada.
A mãe que já se tornou objeto privilegiado das pulsões da criança tornou-se um objeto
inteiro,porém para a criança torna-se uma questão manipula-la como manipula suas
matérias fecais.

As fezes são excitantes da mucosa intestinal,sendo consideradas pela criança como parte
de seu próprio corpo,que ela pode conservar no seu interior ou expulsar e permitir assim à
criança distinguir objeto interno e objeto externo.
Representam ainda para a criança uma moeda de troca entre ela e os adultos.Lembrar as
equivalências que Freud postula entre fezes,presente que se ofrrece ou
recusa,dinheiro,etc.
O ato de evacuar liga-se a um prazer assim como a retenção a uma sensaação erógena
indiscutível.

Abraham propôs dois períodos para a fase anal-sádica:


no primeiro o erotismo anal liga-se à evacuação e pulsão sádica à destruição do objeto
no segundo retenção e pulsão sádica ao controle possessivo.
Geraldo Arantes Jr 56
A eliminação das fezes é tão objetivamente destrutiva quanto a incorporação oral.A
própria expulsão das fezes é uma espécie de ato sádico.
Em segundo lugar o contrôle dos esfincteres envolve um “poder social”;o exercício do
controle das fezes encontra oportunidade efetiva para exprimir oposição aos adultos.
Erotismo anal,ambivalência e bissexualidade apresentam fatores em comum:a criança
expele e retém as fezes como se fosse um objeto amado(temos aqui a “ambivalência
anal”)

Reto sendo um órgão oco pode expelir as fezes como pode ser estimulado por algo que
o penetre.A bissexualidade estabeleceria uma analogia aqui por observarmos que as
tendências masculinas derivam da primeira faculdade e as femininas da segunda.
Os primeiros desejos anais são auto-eróticos,afinal tanto a eliminação quanto a
retenção, que podem ser prazerosas,são obtidas sem objeto algum.

Prazer experimentado nesse momento,quando temos ainda os sentimentos primários


de onipotência operando,pode ser constatado na sobrevaloração narcísica mágica do
poder que o indivíduo tem sobre sua evacuação
As fezes representam instrumento para obtenção do prazer(objeto libidinal)mas
também transforma-se em objeto externo que pode ser perdido

As fezes tornam-se então objeto ambivalentemente amado:são amadas e retidas ou


reintrojetadas e tomadas para brinquedo;e são odiadas e expulsas.
Geraldo Arantes Jr 57
A aprendizagem higiênica exemplifica amplamente as gratificações sensuais e
hostis.Surge o sentimento de poder sobre a mãe quando se pode doar ou negar as fezes
para ela.
Podemos observar outras tendências anais quando elas são partilhadas:defecar
juntos,espreitar ou exibir atividades anais,defecar no outro ou ser objeto desso ação.
Todos esses desejos objetais anais vão desde a expressão de ternura até a hostilidade e
desprezo.

Fase fálica

Concluindo-se a sexualidade infantil a excitação sexual concentra-se no genital:o


interesse pelos genitais e pela masturbação alcança significação dominante.Esta fase
Freud denominou organização genital infantil ou fase fálica
Ocorre ao redor do quarto ou quinto ano de vida embora a erogeneidade genital possa
ser observada em bebês.

Como órgãos genitais e urinários coincidem em alto grau os primeiros desejos genitais
se entrelaçam intimamente com os eróticos-uretrais.
A excitação sexual concentra-se cada vez mais nos genitais e,afinal,descarrega de forma
genital

Geraldo Arantes Jr 58
A libido desloca-se de uma zona erógena para outra mas no caso dos neuróticos
pode ter uma fixação pré-genital que criaria um obstáculo à concentração genital
progressiva de excitação durante o ato sexual
A expressão principal da genitalidade infantil é a masturbação

Masturbação infantil

A masturbação não aprece necessariamente nesta fase,pode até surgir antes.


Aqui pode surgir o fator determinante ocasional pela contingência das preocupações
sociais de limpeza ,além da excitação natural da micção
Nesta época os jogos manuais das crianças representam o que se chama de “masturbação
primária”.Adquirida a disciplina do esfincter vesical,este prazer,inicialmente ligado à
emissão de urina, procurará ser obtido ativa e repetidamente.Essa é a “masturbação
secundária”
Os contatos com a criança através das trocas de fralda,banhos,amamentação produz
marcas de satisfação que são obtidas em várias partes do corpo.
Quando as crianças chegam ao estágio masturbatório já passaram por inúmeras
experiências eróticas,produtoras de satisfação que aliviam a tensão decorrente de sua
descarga.

Geraldo Arantes Jr 59
Desde as primeiras semanas de vida a auto-satisfação exclui os outros seres humanos
como proporcionantes ativos de prazer(sugar os dedos).Esse sentimento de exclusão
adquire maior relevância com a aproximação das fases fálico-genitais.
Proporcionando-se prazer,excluindo o adulto,a criança revive os primitivos sentimentos
de exclusão de raízes edípicas.Observando essa postura da criança o adulto rememora
sua primeva atividade masturbatória recalcada.

Nessa dupla ação origina-se a repressão do adulto contra a atividade masturbatória da


criança.Os adultos aqui repetem o que passivamente suportaram.Um pouco da amnésia
infantil relaciona-se direta ou indiretamente às fantasias masturbatórias.
A atitude repressiva do adulto em relação a tais atividades está assentada em raízes pré-
edípicas.

Fase fálica-menino
Sabendo-se possuidor de um pênis o menino supervaloriza-o.
Libidinalmente é um instrumento de satisfação sexual(masturbações e fantasias)
É ainda símbolo da valorização narcísica de si,marcada ainda pelas tendências
exibicionistas
Fala-se então que o menino identifica-se com seu pênis
Devido a essa dose de narcisismo surge o medo de que algo possa danificar,causar mal a
seu órgão genital.

Geraldo Arantes Jr 60
A visão da genitália feminina confirma a hipótese de que existem seres que não tem
pênis.
Num primeiro momento ele nega a realidade(aqui pode surgir a perversão em geral).
Num anseio de reparação mágica ele pensa: aquilo crescerá nas meninas.Ele não
consegue elaborar a falta na menina a uma condição anatômica mas pensa que ela foi
submetida a uma mutilação,como sanção imaginária,infligida pelos pais.
Tal castigo ocorreria em decorrência de prazeres e desejos análogos aos seus que sente
como proibidos(masturbação)

Recusa-se a ausência de penis nas mulheres mesmo depois que a criança tenha que se
render à evidência.Imagina que tal sorte coube a quem se tornou culpada de pulsões
inadmissíveis

Mantem ainda a crença que a mãe possui um pênis e guarda a imagem desse pênis
imaginário,símbolo do falo,da potência adulta.

Fase fálica-menina

A vagina inicialmente é ignorada e a atividade erótica situa-se no clitóris.A passagem do


clitóris paraa vagina sobrevem mais tarde na vida perto da puberdade.
Verificando a falta de pênis ocorre um período de denegação e esperança,porém a
aceitação da ausência sobrevem.
Geraldo Arantes Jr 61
A recusa não contorna a falta real ,que não é vivenciada como castração imaginária.
A constatação e o desapontamento que se segue ,não apenas sobrevem antes do
Édipo,mas permite à menina a entrada nele
Inicialmente a menina vivencia essa ferida narcísica que traz com ela um sentimento de
inferioridade,ainda complicado por certos fatores sociais
Para defender-se disso o primeiro elemento a aparecer é um tema de reinvidicação.É a
reinvidicação fálica, a inveja do pênis.Ela chega a pensar que o possuia,perdeu-o e pode
reconquista-lo
Forçada a aceitar a falta ,recrimina a mãe por não dota-la de um pênis e passa a
aproximar-se do pai.No caso presente ,ao contrário do menino,deve mudar de objeto
para entrar no Édipo.
Depis da ferida narcísica a menina desvaloriza a mãe e surge o desejo de ter um filho
que substituirá o desejo de ter um pênis.
A libido menina desliza pela equação pênis = criança.Com esse objetivo escolhe o pai
como objeto de amor,abandonando seu primeiro objeto libidinal,a mãe,que se torna
assim objeto de ciúme

Cena Primária
É uma fantasia elaborada pela criança: ter sido testemunha do relacionamento sexual
dos pais.Mesmo tendo ocorrido,o fato não é relevante para a constituição da fantasia
do sujeito.O que importa é que tendo esta fantasia o sujeito responde à pergunta sobre
qual é sua origem como sujeito.Ocorre pari passu fantasias de sedução e castração
também. Geraldo Arantes Jr 62
Fantasia Responde à pergunta

Cena Primária de onde venho?

Sedução de onde vem esta sensação que me impulsiona até os outros,ou até o
outro sexo?

A cena primária acaba produzindo:


identificação com um ou os dois componentes da fantasia;mas o característico é a
adoção do papel passivo nesta identificação
projeção de sentimentos primitivos como raiva,cólera,desespero ,dentro da
fantasia,o que a faz ser sentida como sádica em que os gritos e gemidos do
adulto sejam entendidos como uma mistura do erótico com o agressivo contra o
sujeito
sentimento de exclusão ou abandono por se vivenciar a posição de terceiro
excluído de um vínculo

Escopofilia ou Voyeurismo
É o desejo de penetrar dentro do relacionamento íntimo dos pais(cena primária) e essa
fantasia reforça no sujeito o conhecimento das origens da sua alteridade.
Esta pulsão parcial será decisiva para a conduta epistemofílica,que o adulto terá para
poder conhecer,estudar,investigar,ter uma curiosidade geral.
Geraldo Arantes Jr 63
Resumo :
A fase fálica caracteriza-se pela descoberta da diferença entre os sexos.
Seria ainda a recusa da diferença:
menino negar a castração(narcisista)pela negação do sexo feminino
menina negar a castração ,pela reinvidicação do falo(narcisista) por meio da
reinvidicação do pênis( o clitóris crescerá)
Aqui o pênis não é reconhecido como órgão genital mas como órgão de
“completude”,de “potência”,ou seja um falo .
A criança não estabelece uma diferença entre homem–mulher mas sim entre um ser
que tem e outro que não tem um pênis.

Freud em “Organização genital infantil” diz “’o que está presente,portanto,não é uma
primazia dos orgãos genitais ,mas uma primazia do falo”.
Lacan em “Escritos” diz “se o falo tem relação íntima com o órgão masculino,é na
medida em que designa o pênis enquanto faltoso ou suscetível de vir a faltar”. E’ a
falta sempre presente ,seja como ameaça ou como fato consumado.
Em síntese, o elemento organizador da sexualidade não ét o órgão genital masculino
mas a representação psiquica imaginária e símbólica construída

Geraldo Arantes Jr 64
Teorias sexuais infantis

teoria da fecundação oral ingestão de um alimento ou pelo contato bucal(beijo)


ocorrerá uma gravidez
teoria da fecundação ano-uretral o ato de urinar ou defecar em contato com outra
pessoa ,ou mesmo simultâneamente,redundadaria em concepção
teoria visual da fecundação exibição simultânea ou sucessiva dos órgãos genitais
resultaria em gravidez
parto anal origina-se pela sensação e visualização da defecação,como produto que
nasce do corpo do indivíduo.Tambem chamada teoria cloacal
coito sádico vista já quando foi falado da cena primária.É uma fantasia fruto de
fenômenos projetivos.Após algumas transformações,como outras fantasias,dará lugar às
fantasias componentes do complexo de Édipo

Geraldo Arantes Jr 65

INCONSCIENTE
Geraldo Arantes Jr 66
No sentido tópico,inconsciente designa um dos sistemas definidos por Freud no quadro de
sua primeira teoria do aparelho psíquico:é constituído por conteúdos recalcados aos quais
foi recusado o acesso ao sistema Pcs/Cs pela ação do recalcamento.
No quadro da segunda tópica freudiana,o termo inconsciente é sobretudo usado na sua
forma adjetiva;efetivamente inconsciente deixa de ser o que é próprio de uma instância
especial,visto que qualifica o id e ,em parte,o ego e o superego
Vocabulário da Psicanálise Laplanche/Pontalis

Em psicanálise,o inconsciente é um lugar desconhecido pela consciência:uma outra cena.Na


primeira tópica elaborada por Freud trata-se de uma instância ou sistema(Ics) constituído
por conteúdos recalcados que escapam às outras instâncias,o pré-consciente e o
consciente(Pcs/Cs).Na segunda tópica,deixa de ser uma instância,passando a servir para
qualificar o isso e,em grande parte,o eu e o supereu
Dicionário de Psicanálise Roudinesco e Plon

Geraldo Arantes Jr 67
O conceito de Ics sofre uma transformação ao longo da obra freudiana.
Desde o cap. VII da “Traumdeutung” ,sua conceituação inicial até os textos finais da
segunda tópica a modificação é visível
A ideia básica é mantida sempre tendo o Ics como lugar psíquico diferenciado e
identificado com o recalcado .
Freud preocupa-se em diferenciar o conceito psicanalítico de Ics do conceito filosófico ou
psicológico
Ele não é:
o profundo da consciência
lugar do caótico e do misterioso
franja ou margem da consciência

Até Freud era considerado como subjetividade identificada com a consciência e


dominada pela razão.
O Ics era considerado aquilo que não era consciente e não uma instância psiquica
autônoma e com leis próprias.
Nada há de caótico ou ininteligível nele ,senão os pensamentos oníricos não precisariam
ser distorcidos pela censura.
Por outro lado ele só pode ser inferido a partir de seus efeitos na consciência,não é
objeto de observação direta.

Geraldo Arantes Jr 68
Ics descritivo e Ics sistemático

Uma representação pode estar ausente da consciência mas por um ato voluntário tornar-
se consciente.Esse fato era insconsciente no sentido descritivo do termo
inconsciente(fatos do dia anterior podem passar a conscientes sem esforço por parte do
indivíduo).

Existem no entanto,processos inconscientes,que não são suscetíveis de se tornarem


voluntariamente conscientes.Constituem o recalcado e pertencem ao sistema
inconsciente ,aqui sendo empregado no sentido sistemático e não descritivo.
Uma representação pertencer ao sistema Cs não quer dizer que atualmente ela seja
consciente mas sim que é suscetível de consciência.
Ela é inconsciente mas não pertence ao sistema Ics.Dizemos então que pertence ao
sistema Pcs.

Há portanto uma diferença entre uma representação que é inconsciente no sentido


descritivo e aquela que é inconsciente porque pertence ao sistema Ics.No segundo caso
existe uma resistência do sistema Pcs/Cs para que ela tenha acesso à consciência.
Essa resistência exercida por uma censura opera no limite entre os sistemas Ics e Pcs/Cs

Geraldo Arantes Jr 69
Levando em consideração isso podemos afirmar que um ato psiquico pode passar pelas
seguintes fases:
ele é inconsciente e pertence ao sistema Ics
devido à censura seu acesso à consciência pode ser negado
nesse caso ele é recalcado e permanece no sistema Ics
passando pela censura torna-se suscetível de consciência e passa a pertencer ao Pcs
agora pode tornar-se consciente sem problemas

A grande divisão então não é Ics-Cs,mas sim sistema Ics e sistema Pcs/Cs

Na Interpretação dos sonhos o sistema Cs é colocado numa das extremidades do Ap.


psiquico ,concebido mais como um dispositivo de atenção ligado à percepção do que
como um sistema propriamente dito.
O que se contrapõe aí ao Ics não é o Cs mas sim o Pcs
Teríamos então dois sistemas concebidos:Pcs e Ics

P Cs
 Ics Pcs 

Geraldo Arantes Jr 70
A esses sistemas Freud faz corresponder leis,modo de funcionamento de processos
psiquicos e articulações entre as representações inteiramente diferentes de um sistema
para outro.
A passagem de um sistema para outro não mantem os processos inalterados ou as
representações envolvidas.
O que ocorre então quando uma representação pertencente ao sistema Ics se torna
consciente?
1-ocorre uma nova inscrição da representação e a original continua existindo
paralelamente no Ics?
2-a representação sofre uma mudança de estado?
A 1ª hipótese , a da dupla inscrição ou topográfica Freud considera mais grosseira
porem mais convincente
A 2ª, chamada funcional ele considera mais provável, embora menos plástica.
No artigo “O Inconsciente” Freud coloca a questão em termos econômicos adotando a
hipótese funcional.
cada sistema psiquico possui uma energia de investimento específica

a passagem da representação de um sistema para outro

implica no desenvestimento dessa representação pelo 1° sistema

e um reinvestimento por parte do 2° sistema


Geraldo Arantes Jr 71
Na carta 52 embora não faça referência a sistemas psiquicos Freud fala em inscrições
originais que de tempos em tempos sofrem retranscrições e as faz corresponder à
consciência e à pré-conscìência.
Correspondendo a cada uma delas inscrições distintas prenuncia aí a hipótese da dupla
inscrição,formulada 20 anos depois em “O inconsciente”.
No processo do recalcamento propriamente dito:

uma representação fortemente investida pulsionalmente

pertencente ao sistema Ics tenta passar ao sistema Pcs

é barrada ou enviada de volta ao Ics

há um desinvestimento Pcs

e um reinvestimento Ics

Geraldo Arantes Jr 72
No recalcamento originário

A divisão do Ap. psiquico em sistemas ainda não havia ocorrido


O único mecanismo presente no recalque originário é o contrainvestimeno

que joga diretamente com a energia decorrente da fonte pulsional.

As duas hipótese,tópica e funcional não são mutuamente excludentes


No final de “O inconsciente” a questão das duas hipóteses é minimizada quando Freud
reintroduz a distinção entre representação-objeto e representação-palavra.

“De um golpe parece que sabemos agora em que consiste a diferença entre uma
representação consciente e uma inconsciente.Elas não são,como acreditávamos,diversas
transcrições do mesmo conteúdo em lugares psiquicos diferentes,nem diversos estados
funcionais de investimento no mesmo lugar,mas a representação consciente abarca a
representação-coisa(Sachevorstellung)mais a correspondente representação palavra,ao
passo que a inconsciente é apenas a representação-coisa”

Assim o sistema Ics contem apenas investimentos das répresentação-coisa,enquanto o


sistema Pcs/Cs contem os investimentos da representação coisa mais os da
representação palavra.

Geraldo Arantes Jr 73
Propriedades do Ics
Seu núcleo consiste de representações pulsionais

que procuram descarregar seus investimentos

em moções de desejos

Os representantes pulsionais estão coordenados entre si:


sem se influenciarem mutuamente
sem se contradizerem
se suas metas forem incompatíveis não se cancelam recíprocamente mas
confluem numa solução de compromisso(meta intermediária)

Não há negação no Ics

Não funciona o princípio da não contradição.Uma representação pode ter maior ou


menor investimento mas não exclusão por ser incompatível com outra.

O trabalho do negativo ocorre em nome da censura ,não no interior do Ics mas na


fronteira entre Ics e Pcs sendo que o agente da censura é o eu(inconsciente mas não
pertencente ao sistema Ics).

Geraldo Arantes Jr 74
Esquematicamente teríamos:

Sistema Ics processo primario energia livre Princípio do prazer


Sistema Pcs processo secundário energia ligada Princípio da realidade

O Ics caracteriza-se por grande mobilidade das intensidades de investimento(Freud chama processo
psiquico primário)
Economicamente significa livre circulação de energia de uma representação para outra.
Isso ocorre não anarquicamente mas segundo mecanismos da condensação e deslocamento.
No Pcs ocorre um investimento mais estável das representações correspondendo a energia ligada.

No Ics temos a ausência de temporalidade,seus processos não estão ordenados de acordo com o
tempo nem se modificam pela passagem deste,nem tem relação com ele.

Os processos inconscientes são objetos de conjeturas.Só podemos acessa-los por meio de


inferências:sonhos,atos falhos,chistes,sintomas,etc.

No que diz respeito aos afetos Freud diz não haver afetos inconscientes já que é da natureza deles
serem sentidos como tais.
Em “Conferências introdutórias Freud faz uma distinção em relação ao afeto:distingue as
descargas(ações motoras ocorridas) das sensações(prazer e desprazer) que conferem ao afeto seu
tom predominante.

Geraldo Arantes Jr 75
Assim sendo as descargas correspondem ao aspecto quantitativo e as sensações de
desprazer ou prazer ao qualitativo.
No recalcamento tanto afeto quanto representação são atingidos sendo a representação
recalcada e o afeto compelido a ligar-se a outra representação.

Assim a consciência poderia atribuir sensações prazerosas ou não à representação que


ela teria acesso quando na verdade o quantum de afeto teria que ser referido à
concatenação original(inconsciente)
O que é inconsciente não é o afeto propriamente dito ,mas a representação à qual estava
originalmente ligado.

O que ocorreria com o afeto então?No “O inconsciente” Freud diz que:


1-o afeto permanece(todo ou em parte)tal como é
2-é transformado numa quota de afeto qualitativamente diferente(angústia)
3-é reprimido,isto é ,impedido de se desenvolver

Geraldo Arantes Jr 76
Geraldo Arantes Jr 77
“Processo dinâmico que consiste numa pressão ou força(carga energética,fator de
motricidade)que faz tender o organismo para uma alvo.Segundo Freud,uma pulsão tem
a sua fonte numa excitação corporal(estado de tensão);o seu alvo é suprimir o estado
de tensão que reina na fonte pulsional;é no objeto ou graças a ele que a pulsão pode
atingir seu alvo
Vocabulário da Psicanálise Laplanche/Pontalisi

“Empregado por Sigmund Freud a partir de 1905,tornou-se um grande conceito da


doutrina psicanalítica,definido como a carga energética que se encontra na origem da
atividade motora do organismo e do funcionamento psiquico inconsciente do homem.
Dicionário de Psicanálise Roudinesco e Plon

Geraldo Arantes Jr 78
O conceito de pulsão é uma construção teórica pois ela nunca se dá por si mesma,só é
conhecida pelos seus representantes:
ideia (Vorstellung)
afeto (Affekt)
Freud emprega o termo alemão Trieb com significado distinto de Instinkt.Ao primeiro
ficou consagrada a tradução de “pulsão”.
Por Instinkt designa-se um comportamento hereditariamente fixado que possui um
objeto específico contrariamente a Pulsão que não tem objeto específico nem
comportamento pré-formado

Sobre a pulsão Freud diz:


“um conceito situado na fronteira entre o mental e o somático”
“é o representante psíquico dos estímulos que se originam dentro do
organismo e alcançam a mente”

nunca pode tornar-se objeto da consciência


mesmo no inconsciente é representada por uma ideia ou por um afeto

Devemos distinguir então: pulsão


representante psíquico da pulsão
pulsão enquanto representante de algo físico

Geraldo Arantes Jr 79
Lembremos bem então que a pulsão só se dá pelos seus representantes,nunca se dá
como tal.
Uma pulsão não pode ser recalcada,seu representante ideativo é que é submetido ao
recalque.
Por outro lado o afeto é a expressão qualitativa da quantidade de energia pulsional
sendo independente do representante ideativo.

A rigor não podemos falar em “afeto inconsciente”


No nível inconsciente o afeto tem de se ligar a uma ideia.

Devemos diferenciar a pulsão enquanto representante de fontes somáticas e os


representantes psiquicos da pulsão.Assim teremos que a pulsão:
representa psiquicamente as excitações emanadas do interior do corpo e
é representada pelos seus representantes psiquicos
A pulsão tem referenciais que precisamos examinar:

1-Fonte é corporal,não psiquica.Aqui vemos a pulsão representar algo físico


A noção de apoio nos dá uma melhor compreensão do conceito de pulsão.
O fato das pulsões estarem vinculadas em sua origem às pulsões de autoconservação
mostra-nos aí a função do apoio
Exemplo claro é o ato de sugar do bebê.
Geraldo Arantes Jr 80
Sugar do leite excitação : lábios provoca satisfação
língua

que apoiou-se na necessidade instintiva

de natureza instintiva de natureza sexual

A pulsão seria então


o resultado do instinto que se desvia de suas fontes e objetivos específicos
o efeito marginal desse apoio-desvio
a fonte da pulsão é então o instinto
O apoio é um momento de ruptura,é ele que marca a descontinuidade entre pulsão e
instinto

2-Pressão segunda dimensão da pulsão. Freud define-a:”Por pressão de uma


pulsão compreendemos seu fator motor,a quantidade de força ou a medida de exigência
de trabalho que ela apresenta”
Ela é a própria atividade da pulsão,seu fator dinâmico .
É o elemento motor que impele o organismo para a ação específica,responsável pela
eliminação da tensão.
Geraldo Arantes Jr 81
3-Objetivo é sempre a satisfação
satisfação redução da tensão provocada pela pressão.
descarga da energia acumulada

Antes da postulação da sexualidade infantil Freud pensava na pulsão sexual como


análogo à busca de alimento no caso da fome,isto seria então o ato sexual genital adulto
A partir dos “Três ensaios..” e com a noção de pulsões parciais o objetivo passa a
depender tanto da fonte como do objeto(que é o mais variável na pulsão)

4-Objeto é “a coisa em relação a qual ou através da qual a pulsão é capaz de


atingir seu objetivo”.
Inicialmente nos “Tres ensaios..” Freud afirma que o objeto sexual é a pessoa porém
mais a frente reconsidera dizendo”Parece provável que a pulsão sexual seja ,em primeiro
lugar ,independente de seu objeto”

objeto é então um meio para atingir um fim,enquanto o objetivo(fim) é invariável ,é


a satisfação.

O objeto inicialmente colocado na figura de outra pessoa, posteriormente pode ser a


própria pessoa,bem como partes do corpo da própria pessoa.
Finalmente considera que esse objeto pode tanto ser real quanto fantasmático.
Geraldo Arantes Jr 82
o objeto então pode ser: uma pessoa
parte de uma pessoa
real
fantasmático
Sendo assim ele é o que há de mais variável na pulsão

Um segundo sentido da noção de objeto seria o termo objetal.Nesse sentido o objeto


não seria mais um objeto parcial mas preferencialmente uma pessoa que seria amada
ou odiada.
Temos aqui então o modo de relação da pulsão com seu objeto.
Desse modo a pulsão oral implicaria além do objeto um modo de relação objetal:a
incorporação
O objeto para Freud não é aquilo que se oferece em face da consciência,mas algo que só
tem sentido enquanto relacionado à pulsão e ao inconsciente

Pulsões do Ego e Pulsões Sexuais

Num primeiro momento Freud fala em pulsões do ego e pulsões sexuais como um
“postulado de trabalho”,uma hipótese.
Essa abordagem ocorre no texto “A concepção psicanalítica da perturbação psicogênica
da visão”
Geraldo Arantes Jr 83
“...uma parte extremamente importante é desempenhada pela inegável oposição entre
as pulsões que favorecem a sexualidade,a consecução da satisfação sexual,e as demais
pulsões que tem por objetivo a autopreservação do indivíduo:as pulsões do ego.”

pulsões do ego só podem obter satisfação com um objeto real


(regida pelo princípio da realidade)

pulsões sexuais obtem satisfação com objetos fantasmáticos


(predomínio do P. prazer)

Surgem algumas controvérsias pois:


Parece incongruente a oposição entre pulsões do ego e as sexuais pois Freud aponta a
fome como modelo de pulsão do ego(a pulsão não seria então a desnaturalização do
instinto)
Outro aspecto é termos o ego como lugar psíquico das pulsões de autoconservação.A
pergunta que ficaria seria :o ego tem uma energia própria,distinta da libido?
Freud não concordava com uma teoria pulsional monista.O conflito psiquico emerge do
dualismo, daí sua importância para Freud.

Vemos o conflito presente no Édipo para instituir a ordem humana,é o conflito que
produz a clivagem do psiquismo,no desejo e na defesa entre os sistemas Cs x Ics/Pcs.Ele
é portanto uma noção fundamental.
Geraldo Arantes Jr 84
Nas pulsões não seria diferente e com este conceito temos um suporte dinâmico para
a concepção do conflito psíquico

Como o Ics só faz “desejar” e como nele não há lugar para o “não” o conflito entre as
pulsões deve emanar de diferentes sistemas,daí a oposição entre pulsões sexuais e
pulsões do ego.
Isso porém não explica a diferença de natureza entre os dois tipos de pulsões.

No caso das pulsões do ego Freud afirma que elas visam o ego e não que elas emanam
do ego.No caso então as pulsões de auto conservação não emanariam do ego mas a ele
serviriam.
A referência é ambígua e dá margens a divergências.No caso o dualismo seria
puramente funcional e não um dualismo de pulsões de naturezas distintas

A substituição desse dualismo pulsional tem início em “Sobre o narcisismo:uma


introdução”.
Aqui Feud faz a distinção entre libido do ego(ou libido narcísica) e libido objetal sendo a
diferença não relativa à natureza da energia mas sim ao objeto de investimento.

libido do egonão emana do ego mas é investida no ego.


libido objetallibido investida em objetos externos.

Geraldo Arantes Jr 85
Desta maneira a autoconservação nada mais seria que um amor a si mesmo e em última
instância toda pulsão seria sexual.
Quando parecia que Freud iria afirmar um monismo pulsional com Jung ele introduz um
novo dualismo:pulsões de vida e pulsões de morte .

Aqui então as pulsões sexuais e de autoconservação ficam unificadas na pulsão de vida,


contrapostas à pulsão de morte que é a tendência do ser vivo retornar ao estado
anorgânico com total eliminação das tensões.
Esse conceito volta-se mais para a biologia que para psicologia

O percurso então seria:

1910Concepção psicanalítica da perturbação psicogênica da visão


pulsão sexual x pulsão de auto conservação

1914Sobre o narcisismo: uma introdução


libido do ego x libido objetal

1920Além do princípio do prazer


pulsão de vida x pulsão de morte

Geraldo Arantes Jr 86
Vimos que:
objetivo
pulsão satisfação
modifica
censura não pode ser destruída nem inibida

devido à modificação ,os destinos da pulsão são modalidades de defesa.


a pulsão não pode ser destruída nem inibida
a defesa incide sobre os representantes psíquicos da pulsão
ela é constituida por :representante ideativo e afeto

Os destinos do representante ideativo são:

reversão a seu oposto


retorno em direção ao próprio eu
recalcamento
sublimação

Por não estar necessariamente ligado ao representante ideativo, o destino do afeto é


diferente.

Geraldo Arantes Jr 87
Na carta de maio/1894 Freud colocava as transformações do afeto como:

1-transformação do afeto(histeria de conversão)


2-deslocamento do afeto(obsessões)
3-troca de afeto(neurose de angústia e melancolia)

O afeto não pode ser recalcado,nem se fala em “afeto inconsciente”,ele pertence


necessariamente ao Pre-consciente.
O que pode pertencer ao Ics é o representante ideativo.

Quando falarmos em pulsão estaremos falando do representante ideativo da pulsão no


momento.
vejamos então as vicissitudes da pulsão:

1ª reversão a seu oposto


reversão do objetivo mudança da atividade para a passividade
reversão do conteúdo transformação de amor em ódio

2ª retorno em direção ao próprio eu


Ocorre essencialmente uma mudança de objeto permanecendo inalterado o objetivo.

Geraldo Arantes Jr 88
Na análise dos pares de opostos sadismo-masoquismo e voyeurismo-exibicionismo
verificaremos a reversão do objetivo e do objeto.
No par sadismo-masoquismo

1-sadismo : alguém exerce violência ou poder sobre o outro como objeto


2-esse objeto é substituído pelo eu do indivíduo
mudança de objeto: do outro eu para o próprio eu
mudança de objetivo: de ativo para passivo
3-outra pessoa é procurada como objeto para exercer o papel de agente da
violência(masoquismo)

Observamos ainda um retorno em direção ao eu sem inversão atividade-passividade na


neurose obsessiva.Aqui o desejo de tortura transforma-se em autopunição,autotortura.
O masoquismo é um sadismo direcionado ao próprio eu e além disso implica numa outra
pessoa funcionando como sujeito da ação.
Voyeurismo-exibicionismo funciona analogamente:
1ª fase olhar para o objeto
2ªfase abandona o objeto e volta o olhar para si mesmo
3ªfase introdução de uma pessoa diante da qual se exibe

Nesses aspectos nunca ocorre o esgotamento total de um dos opostos


Nos “Tres ensaios..” Freud diz “Um sádico é sempre ao mesmo tempo um masoquista”
Geraldo Arantes Jr 89
Sádico identificando-se com o outro frui masoquisticamente da dor inflingida ao
outro
Masoquista frui do prazer violento do outro

Exibicionista goza com o olhar do outro

Esses pares de opostos (sadismo-masoquismo,voyeurismo-exibicionismo) são explicados


pela organização narcisista do ego.

Transformação da pulsão em seu oposto

tem dois distintos processos

mudança de atividade para passividade mudança de seu conteúdo

Ambas dizem respeito ao objetivo da pulsão

Transformação do objetivo ativoolhar torturar

para objetivo passivoser olhado ser torturado


Geraldo Arantes Jr 90
na mudança de conteúdo transformação de amor em ódio(ambos ativos)

Reversão da pulsão a seu oposto refere-se aos objetivos da pulsão


Retorno em direção ao próprio eu refere-se ao objeto permanecendo o objetivo
inalterado.
Na transformação do amor em ódio Freud observa que existem tres opostos:
amar — odiar
amar — ser amado
amar/odiar — indiferença

Essas oposições remetem a três polaridades:


sujeito(ego) — objeto (mundo externo)
prazer — desprazer
ativo — passivo
Segundo Freud “Dessas três polaridades podemos descrever a da atividade-passividade
como a biológica,a do ego-mundo externo como a real ,e finalmente a do prazer-
desprazer como a polaridade econômica”

No período narcísico o investimento das pulsões recai no próprio ego trazendo a


satisfação auto-erótica.O mundo externo é indiferente.
Temos aqui uma forma de oposição assinalada para o amor: amar — ser indiferente

Geraldo Arantes Jr 91
Prazer ligado ao ego e a indiferença com o mundo externo;isso no que diz respeito as
pulsões sexuais.Quando se trata de autoconservação exige-se um objeto externo

Assim por exigência do P. do prazer o ego é obrigado a introjetar objetos do mundo


externo e projetar o desagradável para o mundo externo.

Parte do mundo externo incorporado


Parte do ego projetado no mundo externo que passa a ser
vivido como hostil (e não indiferente como antes)

Aqui temos outra oposição para o amor: amar — odiar

Pulsões de vida <--> Pulsões de morte

Esse novo dualismo surge a partir de 1920 em “Além do princípio do prazer”


O P. da realidade era um princípio de regulação psíquica que impunha à procura de
satisfação, desvios,substituições,renúncia.
Embora também oferecesse gratificações o caminho era mais longo.
Do ponto de vista econômico os processos primário e secundário regulam o Ap.
Psiquico
Geraldo Arantes Jr 92
Sob a otica do ponto de vista dinâmico
Processo primárioa energia psíquica escoa livremente para a descarga
Processo secundárioenergia não é livre.Sua descarga ,pela exigência de
autopreservação do ego ,é retardada ou impedida

Assim o processo secundário resulta de uma modificação do primário e acaba ficando a


serviço deste.
A relação entre princípio do prazer e da realidade segue o o mesmo esquema.

O P. do prazer coincide com o processo primário e este tende à satisfação alucinatória.O


principio da realidade evitando a frustração,impedirá a alucinação ou poderá permiti-la
dentro de certos limites

O P. da realidade basicamente possibilita a discriminação entre alucinação e


percepção,ou seja,a manutenção da “função do real”.

Freud escreve:”Na realidade,a substituição do P. do prazer pelo P. da realidade não


implica na deposição daquele,mas apenas sua proteção.Um prazer momentâneo,incerto
quanto a seus resultados,é abandonado,mas apenas a fim de ganhar,mais tarde,ao longo
do novo caminho,um prazer seguro”.

O P. do prazer continua então a reinar.


Geraldo Arantes Jr 93
A pergunta é se existe algo além do P. do prazer.
Evidentemente o P. do prazer não reina absoluto.
O que se opõe então a ele?

Em “Além do princípio do prazer” Freud vai gradativamente nos levando a pensar na


pulsão de morte.

1º Sonhos que ocorrem nas neuroses traumáticas,que reconduzem o indivíduoà situação


traumatizante.Isto iria contra o postulado da “Traumdeutung” que sonhos são realizações
de desejos.
2º Lembremos da questão da brincadeira do bebê e do carretel: fort(ir embora) e da(ali)
Essa brincadeira encenava a saída e volta da mãe
Submetia-se as leis do processo secundário e ao mesmo tempo afastava-se,pela
linguagem,da vivência real.
Através da linguagem tentava exercer um domínio simbólico sobre o acontecimento.
Tentando dominar o desprazer a criança transporta para o plano simbólico a saída e volta
da mãe .
3º o terceiro fato é a compulsão à repetição.O paciente repete uma experiência quando
deveria recorda-la como algo pertencente ao passado.
Revive ainda essa experiência na transferência caracterizando o que Freud chama de
“neurose de transferência”.

Geraldo Arantes Jr 94
Sabemos que:
o que é prazeroso para o Ics pode ser desprazeroso para o Pcs/Cs”
o P. da realidade mesmo quando renuncia ao prazer está servindo ao P. do prazer
O que se questiona então é se algo desprazeroso pode impor-se repetidamente.
Esse é o caso da compulsão à repetição.Em “Além do princípio do prazer” vemos :
“....a compulsão à repetição também rememora do passado experiências que não
incluem possibilidade alguma de prazer e que nunca,mesmo há longo tempo,trouxeram
satisfação,mesmo para impulsos pulsionais que desde então foram recalcados”

Esse “....algo que parece mais primitivo,mais elementar e mais pulsional do que o P. do
prazer...” .Esse algo é a pulsão de morte.

A hipótese é que essa pulsão é uma tentativa inerente à vida orgânica de restaurar o
estado anterior de coisas:ela é a expressão da inércia inerente à vida orgânica.
Devemos então admitir que a pulsão tende a repetir o mais arcaico,o estado inicial do
qual o ser vivo se afastou em decorrência de fatores externos.
Esse estado inicial é o inorgânico.

“Seremos então compelidos a dizer que o objetivo de toda a vida é a morte”

Sendo assim todo ser vivo tende para a morte o que é inevitavelmente cumprido

Geraldo Arantes Jr 95
O que a realidade externa provocou foi o aparecimento da vida ,e o movimento em
direção à morte o proprio ser humano empreende.

Uma morte obtida por agentes externos contraria essa tendência pois o organismo
deseja morrer a sua maneira.

Tendência do ser vivo retornar ao inorgânico Pulsão de Morte

objetivo da Pulsão de vida não é evitar a morte


é evitar que a morte ocorra de uma
forma não natural

Pulsões sexuais e pulsões de autoconservação são conservadoras ,sendo assim fazem


parte da pulsão de vida.
As pulsões sexuais são as verdadeiras pulsões de vida pois implicam na junção de duas
pessoas para resultar em novo ser vivo enquanto a pulsão de autoconservação mantêm
o caminho para a morte.
Um aspecto da pulsão de morte é a destrutividade.
Sob o domínio da pulsão de vida ,parte da destrutividade ,através da musculatura ,é
lançada fora do organismo.A parte que permanece vai constituir o masoquismo original
Pela fusão as pulsões de vida e morte misturam-se , ao passo que na desfusão elas
funcionariam em separado.
Geraldo Arantes Jr 96
No masoquismo original ou erógeno ocorre uma fusão da pulsão destrutiva com a sexual
o que admite graus.Dessa forma..
.”..um excesso de agressividade sexual transformará um amante num criminoso
sexual,enquanto uma nítida diminuição no fator agressivo torna-lo-á tímido ou
impotente”
A desfusão nunca chega ao ponto de ambas pulsões funcionarem autonomamente.

Geraldo Arantes Jr 97
3º-NARCISISMO

Geraldo Arantes Jr 98
Narcisismo

Termo que aparece pela primeira vez em 1910para explicar a escolha de objeto nos
homossexuais
No caso Schreber (1911)Freud propõe a existencia de uma fase entre auto-erotismo e
amor objetal
Conceito de narcisismo é introduzido no texto de 1914 Narcisismo:uma introdução

Geraldo Arantes Jr 99
Referido por Freud pela 1ª vez como um estágio necessário entre o auto-erotismo e o
amor objetal em uma reunião da Soc.Psicanalítica de Viena em 1909

Nesse mesmo ano numa nota de rodapé de “Tres ensaios sobre a teoria da sexualidade
“ (1905)o termo narcisismo aparece pela 1ª vez em seus escritos

Conceito é retomado no artigo sobre Leonardo da Vinci(1910)

Referido novamente na análise do caso Schreber(19110

Em “Totem e tabu” no cap. III tem maior espaço (1913)

Em 1914 “Sobre o narcisismo:uma introdução” o conceito surge em sua plenitude

Geraldo Arantes Jr 100


Segundo Laplanche(Vocabulário da Psicanálise)o termo narcisismo aparece pela 1ª vez
em 1910 para explicar a escolha de objeto nos homossexuais....”tomam-se a si mesmos
como objeto sexual;partem do narcisismo e procuram jovens que se pareçam com eles e a
quem possam amar como a mãe os amou a eles”
No caso Schreber Freud propõe a existência de uma fase entre o auto-erotismo e o
amor objetal quando o indivíduo toma “ao seu próprio corpo,como objeto de amor”
Essa fase corresponde ao narcisismo.

Auto-erotismo
É um estado original da sexualidade infantil anterior ao narcisismo onde a pulsão sexual
encontra satisfação sem recorrer a um objeto externo.
O sugar o seio materno deu a criança uma experiência prazerosa além da satisfação da
necessidade.
associado
lábio(zona erógena) fluxo morno do leite no seio

sensação prazerosa que a criança procura repetir (associada ao alimentar-se)

prazer agora dissociado da necessidade

Geraldo Arantes Jr 101


A sexualidade infantil nasce...”apoiando-se numa das funções corporais importantes
para a vida;ainda não possui um objeto sexual,pois é auto erótica e seu objetivo
encontra-se sob o império de uma zona erógena”

A pulsão sexual seria então um desvio do instinto que no início se confundiria e se


apoiaria nele.

Tendo como base esse auto-erotismo a libido constitui aos poucos seus objetos com
consequente correspondência à elaboração do mundo pelo sujeito,mundo dos
objetos de interesse.

Essa primeira forma de sexualidade(independente do objeto e da função biológica)


deve ser considerada como uma construção hipotética visto não ser objeto de
observação direta.

Narcisismo

Nos primordios do psiquismo não existe uma unidade comparável ao eu,ele tem que
ser desenvolvido.
Apesar disso as pulsões auto eróticas estão lá desde o princípio.Para que o narcisismo
surja algo deve ser acrescentado ao auto-erotismo : o eu
Geraldo Arantes Jr 102
Se antes do artigo de 1914 o narcisismo era assimilado à perversão,a partir dele passa a
ser apontado como forma necessária de constituição da subjetividade,é condição de
formação do eu.

Freud distingue libido do eu de libido do objeto,porém em ambas o que está em jogo é a


libido,isto é,o modo pelo qual o sexual torna-se presente no psiquismo

O eu é o objeto privilegiado de investimento libidinal originalmente.Este momento é


chamado por Freud de narcisismo primário.
Quando o investimento recai sobre objetos a libido narcísica tranforma-se em libido
objetal

Freud reassegura ainda que”durante toda vida o eu continua sendo o grande


reservatório a partir do qual investimentos libidinais são enviados aos objetos e para
onde são recolhidos...”
Esse retorno libidinal é chamado de narcisismo secundário

No estudo do narcisismo Freud privilegia as psicoses e a vida amorosa dos sexos


tentando articula-las com a teoria da libido

Distingue a retração da libido para o ego da retração para objetos imaginários ,sendo a
1ª o narcisismo e a 2ª a introversão propriamente dita.
Geraldo Arantes Jr 103
Assinala ainda a diferença da estrutura neurótica da psicótica no que diz respeito a
retração da realidade em cada uma delas.
Neurótico a realidade é substituida pela fantasia
Psicótico há perda da realidade sem que a fantasia forneça um tipo
de substituto

Narcisismo primário-Narcisismo secundário

Para que o termo narcisismo se justifique é necessário que haja um “eu”.


Freud distingue em “Narcisismo:uma introdução” dois tipos de escolha de objeto:
escolha anaclítica criança escolhe pessoas encarregadas de sua
proteção,alimentação,cuidados(a mãe ou seu substituto)
escolha tipo narcísica toma a si mesma como objeto de amor

As escolhas não se apresentam puras ou não se excluem mutuamente.


Ama-se:
1-segundo o tipo narcisista o que se é(isto é,a si mesmo)
o que se foi
o que se quereria ser
2-segundo o tipo anaclítico a mulher que alimenta
o homem que protege

Geraldo Arantes Jr 104


No auto erotismo o corpo é tomado como objeto sexual,é o que Freud nomeia como
“prazer do órgão”,ou seja o prazer que o órgão tira dele mesmo
O corpo,nesse estágio, não é tomado como objeto libidinal
partes dele são vivenciadas como fragmento
o corpo não é representado como uma unidade
falta nele o eu
falta a representação complexa que o indivíduo faz de si mesmo
O eu efetiva-se com:
revivescência do narcisismo dos pais que:
atribuem ao filho todas as perfeições
privilégios que eles mesmos foram obrigados a abandonar

o eu que surge

da imagem unificada que a criança revivescência do narcisismo


faz de seu corpo paterno

é o eu ideal

que corresponde ao narcisismo primário

Geraldo Arantes Jr 105


O narcisismo secundário é fruto do retorno ao eu dos investimentos feitos sobre
objetos externos
Devemos considerar que não há um abandono do eu em prol do objeto nem abandono
do investimento objetal favorecendo o eu.
Não tomomado como referencia a vida erótica das pessoas e observando as neuroses e
psicoses vemos que:
neurose retrai-se a libido em favor do eu,mas não se elimina o vinculo erótico
com coisas e pessoas.Substitui-se objetos reais por imaginários.
psicose retira-se a libido das coisas e pessoas sem o recurso da fantasia.O
vinculo erótico com objetos e mundo é eliminado sem que no seu lugar surjam objetos
imaginários.A esse narcisismo característico da psicose Freud chama de narcisismo
secundário.Sua base estrutural é o narcisismo primário.
Na hipocondria retira-se a libido dos objetos externos investindo-a em partes do corpo
que passam a funcionar como zonas erógenas .
Para estabelecer essa distinção mais solidamente entre narcisismo primário e
secundário, devemos observar a diferença entre eu ideal e ideal do eu.

Lembremo-nos que ao falar de narcisismo a referência central é o eu.Freud relata:


“é uma suposição necessária ,que uma unidade comparável ao eu não está presente
desde o começo,o eu tem que ser desenvolvido,algo tem que se acrescentar ao auto-
erotismo,uma nova ação psiquica,para que o narcisismo se constitua”

Geraldo Arantes Jr 106


O eu seria então:
a representação que o indivíduo faz de si mesmo
Nesse momento inicial da vida o indivíduo é um conjunto de representações
Essa representação inicial seria a experiencia de captação da imagem unificada de si
mesmo(Lacan)
A essa representação inicial acrescentam-se outras que formarão o que Freud
chamou “sentimento-de-si”.

Sentimento-de-si refere-se a vida de relação do indivíduo e a sua


autoconservação.Dele faz parte a imagem corporal que constitui a imagem
primeira do sujeito

Eu diz respeito a economia libidinal,às séries de sensações de


prazer/ desprazer e às representações ligadas a essa economia.

Assim esse que não está presente “desde o início” é o da série prazer/desprazer.
O início é o da vida erótica,desse corpo biológico que será agora libidinizado.

Aqui teremos a sexualidade humana intervindo ,que diferentemente da função


biológica sexual(adaptativa e preservadora da espécie), é errante e não obedece a
finalidade de preservar a espécie.

Geraldo Arantes Jr 107


As pulsões eróticas então já estão presentes antes do eu unificado.
O eu do estágio do espelho relaciona-se à imagem corporal que é aquela que
confere a unidade primeira ao sujeito.
Uma vez constituida ela é renovada ou acrescentada de novos traços.
Não é a única que dá forma ao eu ,é apenas a primeira.Ele é constituido ainda por
declarações de preferencia ou rejeição.

Uma forma particular que o eu toma é a do “eu ideal”,imagem essa dotada de todas
as perfeições,a imagem idealizada do eu.
Esses atributos de perfeição e artimanhas para encobrir os defeitos é a forma
narcísica de vínculo que se estabelece com o filho

O eu ideal não é uma fase inicial do eu superada e substituida pelo ideal do eu.Ele
permanece transformado e acrescentado,no indivíduo adulto.

O ideal do eu,que toma a libido narcísica ,é externo ao sujeito,exigências que ele


terá que satisfazer e ocupam o lugar da lei.

O desenvolvimento do eu implica em distanciamento do narcisismo primario


,ocorrendo através do deslocamento da libido para um ideal do eu.

Geraldo Arantes Jr 108


Ao lado desse afastamento há uma tentativa de recuperar o narcisismo perdido
através de um retorno à posição primitiva,acarretando assim um narcisismo
secundário.
Tanto o ideal do eu como o eu ideal são criados por diferentes tipos de discurso:
um discurso idealizante de aceitação incondicional,isento de crítica
outro, sujeito a normas e leis que vem do exterior
Apesar do ideal eu situar-se no registro do imaginário,marcado pela idealização ,e o
ideal do eu no registro do simbólico isso não significa que no plano das relações
amorosas essa distinção não esteja sujeita a confusões.
Por estar no universo do imaginário a relação amorosa pode eclipsar o simbólico e
reabrir as portas à idealização e à imagem perfeita do eu ideal,perturbando a
regulação do aparelho psiquico.

Sendo nossa experiência fundamentalmente da ordem do imaginário cabe ao


simbólico regula-la conferindo-lhe sentido.
Para Lacan “a função simbólica constitui um universo no interior do qual tudo o que é
humano tem de ordenar-se”

O imaginário não fornece uma ordem,ela vem de fora e isso é um atributo da


linguagem

Geraldo Arantes Jr 109


A palavra :
ordena e regula o imaginário
porem aprisiona-o a uma rede de significantes que não tem começo nem fim e
cujo significado é posterior e não anterior aos significantes
assim qualquer objeto(objeto sexual,objeto de desejo) é passível de uma infinita
metamorfose

Freud deixa claro tres modos distintos de funcionamento libidinal:auto


erotismo,narcisismo e escolha de objeto .
Quanto ao narcisismo , fala de um narcisismo primário e outro secundário

Para ele a sexualidade humana tem como ponto de partida o auto-erotismo


O termo narcisismo designa um investimento libidinal sobre a imagem do eu ,um
corpo unificado,o que o diferencia do auto-erotismo que incide num corpo
fragmentado.
Narcisismo implica o eu
Auto-erotismo funcionamento libidinal sem eu

Temos ainda dois narcisismo:


um que se relaciona à imagem corporal e dá lugar ao eu ideal
outro que implica a relação ao outro que dá lugar ao ideal do eu

Geraldo Arantes Jr 110


O narcisismo primário,onipotente e auto suficiente corresponde ao eu ideal,um eu
idealizado
Esse eu ideal(correspondente a um narcisismo primario,onipotente e auto-suficiente)
desloca-se em direção a uma instancia ideal externa a ele que é o ideal do eu.
O ideal do eu apresenta-se como uma instancia externa que se coloca diante do eu
como seu ideal
Aqui se prenuncia o conceito de supereu sob a designação de uma instância de censura,
ou ainda como ,consciência moral.

Na esquizofrenia ,a libido é retirada de pessoas e mundo externo sendo redirecionada


para o eu.O recolhimento dos investimentos externos para o eu leva-nos a considerar
isso como um narcisismo secundário que se edifica sobre o outro ,primário.
Podemos admitir o narcisismo secundário como sendo concomitante à escolha de
objeto e,neste processo,podendo a libido ser retirada dos objetos e passar a investir o
eu

Em “Luto e melancolia” Freud retoma o tema narcisismo como sendo uma forma de
investimento libidinal do próprio eu,e sendo o eu constituido numa relação ao outro,
faz com que o narcisismo e identificação narcísica possam ser considerados modos
identicos de funcionamento libidinal.

Freud distingue dois tipos de escolha de objeto:o tipo anaclítico e o tipo narcísico
Geraldo Arantes Jr 111
Tipo anaclítico a criança escolhe como objeto sexual as pessoas que cuidam dela
Tipo narcísico toma a si mesmo como objeto de amor

Quando se fala de escolha narcísica de objeto,o objeto em questão é uma imagem ou


um ideal.

No luto desinteressa-se pelo mundo exterior ,e os demais objetos por não evocarem o
objeto perdido perdem o interesse
Aqui o eu fica inibido e o campo de atividades fica restrito,pelo fato do eu estar ocupado
como trabalho do luto

Na melancolia o processo é semelhante ao luto.Desinteresse pelo mundo acompanha-


se de incapacidade para estabelecer nova relação amorosa.A distinção aparece na auto-
recriminação,auto-envilecimento e expectativa de punição exagerada
O paciente sabe quem ele perdeu mas não o que perdeu nesse alguém
A perda objetal foi retirada da consciência enquanto no luto a perda é inteiramente
consciente
No luto é o mundo que se torna pobre e vazio,na melancolia é o proprio eu

Na melancolia observamos a autodegradação,a pessoa diz-se moralmente


desprezível,espera ser punido

Geraldo Arantes Jr 112


O despudor e a insistência com que o melancólico expõe seus defeitos faz-nos suspeitar
que não é dele que se trata, mas sim de outra pessoa

Na melancolia a perda do objeto resulta numa identificação com o objeto perdido


Ao inves de deslocar-se para outro objeto a libido retrai-se para o eu estabelecendo uma
identificação desse eu com o objeto abandonado
O que no luto era uma perda de objeto na melancolia transforma-se em perda do eu.

liga-se a libido à pessoa amada vinculo é abalado por um desprezo por


parte da pessoa amada

a retirada da libido não passa para outro objeto

a libido aqui serviu para estabelecer uma identificação do eu com o objeto amado

assim a perda do objeto transformou-se em perda do eu

conflito entre eu e pessoa amada divisão o eu crítico e o eu alterado


pela identificação
Geraldo Arantes Jr 113
Sintetizando :

escolha narcísica identificação narcísica perda do objeto

identificação com o objeto perdido

Geraldo Arantes Jr 114


4ºRECALCAMENTO

Geraldo Arantes Jr 115


“No sentido próprio:operação pela qual o indivíduo procura repelir ou manter no
inconsciente representações (pensamentos,imagens,recordações)ligadas a uma pulsão.O
recalcamento produz-se nos casos em que a satisfação de uma pulsão—suscetível de por
si mesma proporcionar prazer — ameaçaria provocar desprazer relativamente a outras
exigências
O recalcamento é especialmente patente na histeria ,mas desempenha também um papel
primacial nas outras afecções mentais,assim como em psicologia normal.Pode ser
considerado um processo psíquico universal,na medida em que estaria na origem da
constituição do inconsciente como domínio separado do resto do psiquismo”
Vocabulário da Psicanálise Laplanche/Pontalis

“Para Sigmund Freud,o recalque designa o processo que visa manter no inconsciente
todas as idéias e representações ligadas às pulsões e cuja realização,produtora de
prazer,afetaria o equilíbrio do funcionamento psicológico do indivíduo,transformando-se
em fonte de desprazer.Freud que modificou diversas vezes sua definição e seu campo de
ação,considera que o recalque é constitutivo do núcleo original do inconsciente.
Dicionário de Psicanálise Roudinesco e Plon

Geraldo Arantes Jr 116


Em “A história do movimento psicanalítico” Freud afirma:”..o recalcamento é o pilar
fundamental sobre o qual repousa o edifício da psicanálise”.
O recalcamento (Verdrangung) foi traduzido pelos termos:recalque,recalcamento e
repressão.
Em Português repressão refere-se a uma ação que se exerce sobre alguém a partir da
exterioridade enquanto recalque designa um processo interno ao próprio eu.

No primeiro caso a proibição se faz de forma direta e consciente enquanto que no


segundo isso ocorre através da interiorização da instância censora e num nível
inconsciente.
Daí preferir-se o termo recalque ou recalcamento.

Quem primeiro usou o termo Verdrangung foi o filosofo alemão Johann Friedrich Herbart
que afirmava ser a representação(Vorstellung) o elemento constituinte da vida
mental.Este exerceu grande influência sobre Meynert que foi professor de Freud.Ele
porém não fez do recalcamento o processo responsável pela clivagem da subjetividade
nas instâncias Ics—Pcs –Cs.
O termo Verdrangung encontra-se desde 1893 no “Sobre o mecanismo psíquico dos
fenômenos histéricos” ,no “Homem dos ratos”(1909) e na “Traumdeutung”(1900),porém
só quando se defronta com a resistência é que o conceito de recalcamento começa a
delinear-se.

Geraldo Arantes Jr 117


Quando abandona a hipnose e passa para as associações os pacientes apresentam
falhas de memória ou incapacidade de falar sobre um tema que lhe fosse sugerido.
Essa resistência é interpretada como um sinal de defesa.

Essa defesa era fruto de uma censura sobre uma ou mais ideias que despertavam
sentimentos de sofrimento psiquico ou vergonha.

Defesa impossibilidade de conciliar-se uma ou mais representações com o ego que


passa a operar defensivamente.
(A transformação da carga de afetos ligada a essas ideias em sintomas corporais Freud
denominou conversão.)
A função da defesa era manter fora do campo consciente a ideia ameaçadora.

Se o trauma se liga à excitações muito intensas(endógenas ou exógenas) a defesa é o


mecanismo capaz de reduzir ou suprimir o efeito traumático.
O eu é o agente

O objeto do recalcamento não é a pulsão mas sim o representante ideativo capaz de


provocar desprazer em face das exigências dos sistemas Pcs-Cs

Geraldo Arantes Jr 118


Atenção aos termos para não incorrer em confusão:
Recalcamento = Verdrangung
Repressão ou Supressão = Unterdruckung
Negação ou Denegação = Verneinung
Recusa = Verleunung

Lembremos que a pulsão:


está aquém da distinção entre consciente e inconsciente
jamais pode tornar-se objeto da consciência
tem de ser representada por uma ideia

Se a pulsão é sempre prazerosa como poderia então provocar desprazer?


Freud refere-se ao representante ideativo dela que ao ser confrontado com o sistema
Pcs/Cs desencadearia o desprazer

Outro representante psíquico da pulsão é o afeto que pode sofrer as vicissitudes


decorrentes do recalcamento,mas não pode ser recalcado.O próprio Freud afirma:” não
existem afetos inconscientes”.

provoca uma ruptura


recalcamento entre afeto e ideia

Geraldo Arantes Jr 119


Recalcamento originário

No caso Schreber Freud distingue três fases no processo de recalcamento:


 fixação(ou inscrição)
 o recalcamento propriamente dito
 retorno do recalcado
A 1ª fase ele vai denominar recalcamento originário.
Aponta a fixação como precursora e condição necessária de todo recalcamento
No artigo Recalcamento diz:
“Temos motivo suficiente para supor que existe um recalcamento originário,uma
primeira fase do recalcamento,que consiste em negar entrada no consciente ao
representante psíquico(ideacional) da pulsão.Com isso estabelece-se uma fixação;a
partir de então,o representante em questão continua inalterado,e a pulsão permance
ligada a ele".
O que aqui se ressalta é a fixação da pulsão num representante ideativo e sua inscrição
num registro inconsciente.

No caso do “Homem dos lobos” Freud esclarece melhor o recalcamento originário.

O paciente procura Freud relatando uma histeria de angustia sob a forma de fobia de um
animal que mais tarde passa para uma neurose obsessiva com conteúdo religioso.
Seu tratamento foi de fevereiro de 1910 a julho de 1914 com pouca alteração nos
primeiros anos. Geraldo Arantes Jr 120
Havia muita resistência e quando Freud sentiu suficiente transferência marcou uma
data para o término do tratamento conseguindo aí então romper as defesas do
paciente.
Sua história:
Aos 3 anos e tres meses sua irmã inicia-o nas práticas sexuais onde ele se deixava
manipular passivamente
Ela era mais elogiada pelos pais por ser mais inteligente e desembaraçada
Nas fantasias dele colocava-se como tentando ver a irmã despida e fora castigado pela
família.
Ao invés de seduzir a irmã tenta isso com a babá que o repudia e ameaça-o de
castração
Volta então a sexualidade para o pai a quem provoca para ser castigado e obter uma
satisfação masoquista.
Relata um sonho :
“De repente a janela abriu-se sozinha e fiquei aterrorizado ao ver que alguns lobos
brancos estavam sentados na grande nogueira em frente da janela.Havia seis ou sete
deles.Os lobos eram muito brancos e pareciam-se mais com raposas ou cães
pastores,pois tinham caudas grandes,como as raposas,e orelhas empinadas,como cães
quando prestam atenção a algo.Com grande terror,evidentemente de ser comido pelos
lobos,gritei e acordei.Minha babá correu até minha cama para ver o que me havia
acontecido.

Geraldo Arantes Jr 121


Levou muito tempo até que me convencesse de que fora apenas um sonho;tivera uma
imagem clara e vívida da janela a abrir-se e dos lobos sentados na arvore.Por fim acalmei-
me,senti-me como se houvesse escapado de algum perigo e voltei a dormir.
A única ação no sonho foi a abertura da janela,pois os lobos estavam sentados muito
quietos e sem fazer nenhum movimento sobre os ramos da árvore,à direita e à esquerda
do tronco e olhavam para mim.Acho que foi meu primeiro sonho de ansiedade.Tinha
tres,quatro ou no máximo cinco anos de idade na ocasião.Desde então ,até contar 11 ou
12 anos,sempre tive medo de ver algo terrível em meus sonhos”

Geraldo Arantes Jr 122


Associação com um livro que mostrava a figura de um lobo com o qual sua irmã o
amedrontava.
O sonho apontava para uma cena que poderia ter ocorrido antes dos 3 ou 4 anos de
idade: pai em pé,por trás da mãe, e esta dobrada para frente como um animal.O paciente
associava a posição do pai com a do lobo no conto de fadas.

angústia do menino medo de ser devorado pelo lobo

transposição do desejo ser copulado pelo pai

ter satisfação sexual como a mãe

O importante é observar que o menino compreendeu o significado da cena primária que


presenciou dois anos e meio antes(no sonho os lobos trepados na árvore)

A cena do coito parental nunca foi evocada, foi reconstruída por Freud a partir do relato e
associações do paciente.
Quando o paciente compreendeu o significado da cena primária, Freud não diz que a
cena foi recordada pelo paciente,mas que através do sonho ,ela ganhou significado
traumático.

Geraldo Arantes Jr 123


Quando com um ano e meio a cena não teve valor traumático.Ocorreu sua inscrição num
inconsciente não recalcado.
O que faz o menino compreender o significado foi seu ingresso no universo simbólico.
A inscrição aconteceu no imaginário sem que houvesse por parte da experiência uma
eficácia psiquica.
Através da linguagem ocorre a integração no sistema simbólico do sujeito

A retroatividade do simbólico em direção ao imaginário não se faz sobre qualquer


material da experiência,mas sobre aquele que,por não poder ser dotado de
significação,não pôde ser vivido.

Antes de se formarem os sistema Pcs/Cs ,certas experiências cuja significação inexiste


para o sujeito são inscritas no Ics e tem seu acesso à consciência vedado a partir de
então
Essas inscrições funcionarão como o “recalcado” original,que será polo de atração para o
recalcamento propriamente dito.
Elas ocorrem antes do ingresso no simbólico ,ficando no imaginário até receberem
significação a partir da verbalização.

Por não dispor de um sistema simbólico que dê significação à cena Freud lança mão de
um conteúdo filogenético que seria o informador arcaico dessas primeiras experiências

Geraldo Arantes Jr 124


Seria essa entidade mítica que constituiria o núcleo embrionário do futuro sistema
inconsciente,iria dota-lo de significantes elementares que funcionarão como polo de
atração para o recalque secundário.
Esse algo é comparado ao instinto dos animais,filogeneticamente adquirido na vida
mental,que mesmo não estando restrito ao comportamento sexual está intimamente
ligado a ele.Freud nos alerta

“Este fator instintivo seria então o núcleo do inconsciente,um tipo primitivo de


atividade mental que seria depois destronado e encoberto pela razão humana,quando
essa faculdade viesse a ser adquirida”

E conclui

“O recalcamento seria o retorno a esse estádio instintivo”

Para que o recalcamento ocorra não basta a pressão exercida pelo sistema
Pcs/Cs,necessita-se ainda que haja uma atração de representações inconscientes.
Esse símile do instinto primitivo funcionaria como primeira indicação ,ainda
primitiva,para as inscrições que vão se constituir no recalcamento original

Geraldo Arantes Jr 125


Freud recorre à hipótese de uma herança filogenética para tentar explicar o recalque
originário pois ele é indispensável para compreensão do recalque propriamente dito

Como se formariam então essas representações inconscientes que serviriam de polo de


atração para o recalcamento?
Freud se vale de um símile do instinto que funcionaria como uma primeira indicação para
as inscrições que vão se constituir no recalcamento originário
A energia para tal investimento não poderia originar-se do Ics tampouco do Pcs-Cs já que
eles ainda não estão formados

Assim o recalcamento originário não é constituido por um investimento do Ics nem por
desenvestimento do Pcs-Cs
“O contra investimento é o único mecanismo do recalque originário”(Freud)

Esse contrainvestimento seria uma defesa contra um excesso de excitação proveniente do


exterior,capaz de romper o escudo protetor contra estímulos
Como o contrainvestimento não tem sua origem no Ics,Pcs-Cs ou superego ,ele só pode ser
originário de experiências excessivamente fortes
Como a criança não dispõe ainda de um sistema simbólico que confira significação à cena
do coito parental Freud apela então para um conteúdo filogenético análogo ao instinto
animal que seria o informador arcaico dessas primeiras experiências

Geraldo Arantes Jr 126


A natureza do conteúdo do recalque originário constitui-se pelos representantes da
pulsão. Esses representantes são:
imagens do objeto ou algo dele que se inscreveu no sistema mnêmico.
reduzem-se ao imaginário sobretudo ao imaginário visual por oposição à
representação de palavras,que é característica dos sistemas Pcs/Cs
Aquém do simbólico,da linguagem(lugar privilegiado da psicanálise) situa-se o
imaginário
Aquém do imaginário situa-se o impensável:a pulsão

Recalcamento secundário
A distinção entre recalque secundário e primário é necessária para responder a
aparente contradição do recalque ser um mecanismo que se exerce entre Ics e Pcs/Cs
ao mesmo tempo que funda a distinção entre eles
Se o recalcamento primário tem uma natureza mais passiva ,o secundário é
essencialmente ativo.
Por outro lado se o primário é responsável pela clivagem do psiquismo em instâncias
diferenciadas ,o secundário pressupõe a clivagem.
Ele é efeito do conflito entre o sistema inconsciente e o pre-consciente—consciente,
sendo exercido por este último
Já vimos que: I-a função do recalque é impedir que certas representações pertencentes
ao Ics tenham acesso ao Pcs/Cs.
II-o recalque incide sobre o representante psiquico da pulsão
Geraldo Arantes Jr 127
III-o recalcamento incide sobre o representante ideativo,não sobre o afeto
IV-o afeto sofre várias vicissitudes mas não é recalcado
V-o afeto está ligado ao representante ideativo, mas não se torna inconsciente
VI-presente na trama pulsional o afeto constitui seu aspecto quantitativo,não o
aspecto significativo,pela qual é considerado como sinal e não como significante

O que ocorre com o representante ideativo?

Apesar de recalcado o representante ideativo produz derivados e estabelece novas


conexões.
O recalcamento
interfere apenas na relação do representante ideativo com o Pcs/Cs,mas não com seu
modo de ser no Ics
possibilita o representante ideativo desenvolver-se mais profusamente e estabelecer
mais articulações por estar livre da influência do Cs

Escreve Freud: “Ele prolifera no escuro e assume formas extremas de expressão,que


uma vez traduzidas e apresentadas ao neurótico irão não só lhe parecer estranhas ,mas
também assusta-lo..”

O recalcamento afeta o representante ideativo e também seus derivados.Quanto mais


próximos estiverem mais serão afetados,inversamente,se mais afastados podem
escapar à censura e ter acesso à consciência
Geraldo Arantes Jr 128
Essa distância do derivado em relação ao recalcado é marcada sobretudo pelo grau de
distorção.Exemplo disso é o sonho onde se tem acesso à consciência pois a distorção
eliminou o caráter ameaçador.
Na livre associação convidamos o paciente a produzir derivados do recalcado.A censura
afrouxa e os derivados emergem.
Alguns derivados podem redundar numa perversão e outros numa obra de arte.

Do ponto de vista econômico,o destino do afeto é tão ou mais importante do que o


destino da representação.
Se pelo recalque podemos manter no inconsciente o representante ideativo,nem
sempre somos capazes de impedir o desprazer resultante da liberação da carga de afeto
a ele ligado.
Vejamos isso em três casos exemplificados por Freud
Neurose de angústia (homem dos lobos)
ameaçado de castração pela baba dirige sua sexualidade para o pai
provoca-o com o objetivo de ser castigado e daí ter uma satisfação masoquista
desejo sexual recalcado pelo pai reaparece como fobia de um animal
a representação original ao longo de uma série de conexões é substituída pela
figura de um lobo
o afeto é transformado em angústia
O recalcamento nesse caso não teve êxito pois apesar de substituir uma representação
penosa por outra não evitou o desprazer do desprendimento do quantum de afeto a ela
ligado Geraldo Arantes Jr 129
Na histeria de conversão
o recalcamento é bem sucedido pois consegue suprimir o afeto
surgem sintomas físicos mas não são acompanhados de angústia
uma conversão bem sucedida provoca supressão completa do quantum de afeto
se no recalcamento os sintomas acompanham-se de angústia surge um
mecanismo fóbico para evitar o desprazer

Na neurose obsessiva

o recalcamento inicialmente é eficaz


a representação é substituída por deslocamento,provocando o desaparecimento
do afeto
o recalcamento não se mantêm e o afeto ressurge sob a forma de angústia e
autocensura provocando novas substituições por deslocamentos e novos
mecanismos de fuga como na fobia
o recalcamento prossegue numa série interminável de sucessos e insucessos

O retorno do recalcado
Consiste no fracasso do recalque e na irrupção do recalcado à superfície
O retorno do recalcado não é simplesmente o aparecimento no Pcs/Cs da representação
recalcada.

Geraldo Arantes Jr 130


Esse reaparecimento se faz por
caminhos desviados
por derivados que escapam aos mecanismos defensivos

Esse retorno do recalcado ocorre de maneira distorcida,não volta idêntico,como o


“mesmo”.
Ele ocorre sob a forma de um compromisso entre dois sistemas,fazendo com que o desejo
recalcado encontre uma expressão consciente mas ao mesmo tempo não produza
desprazer.
Não ocorre uma falha na defesa mas em decorrência da distorção ,o caráter ameaçador
foi atenuado,e assim ultrapassa as barreiras impostas pelo eu.
Inicialmente Freud pensava que o recalcado retornaria pelos mesmos caminhos
associativos que ocorreram na época do recalcamento
Assim recalcamento e retorno dele seriam operações simétricas e inversas.

Posteriormente em “Moises e o monoteísmo” refere que o retorno do recalcado se dá:

se por algum processo patológico o eu for afetado haverá um enfraquecimento do


contrainvestimento
quando a articulação da pulsão recebe um reforço especial(puberdade por exemplo)
quando,em experiências recentes,certas impressões ou vivências semelhantes ao
recalcado tem o poder de desperta-lo
Geraldo Arantes Jr 131
Independente do que viabiliza o retorno do recalcado

este nunca se dá em sua forma original e sem conflito


o material sempre é submetido à deformação
o deslocamento e a condensação são os meios mais frequentes utilizados para este
acesso

O retorno do recalcado tem suporte na hipótese freudiana da indestrutibilidade dos


conteúdos inconscientes
O recalcado também tem como característica a indestrutibilidade
Luta constantemente para ter acesso ao sistema Pcs-Cs o que implica num dispêndio de
energia para enfrentar a ameaça que ele representa

Geraldo Arantes Jr 132


Geraldo Arantes Jr 133
“Desejo : termo empregado em filosofia,psicanálise e psicologia para designar,ao
mesmo tempo,a propensão,o anseio,a necessidade, a cobiça ou o apetite,isto
é,qualquer forma de movimento em direção a um objeto cuja atração espiritual ou
sexual é sentida pela alma e pelo corpo.
Em Sigmund Freud,essa ideia é empregada no contexto de uma teoria do inconsciente
para designar,ao mesmo tempo,a propensão e a realização da propensão.Nesse
sentido, o desejo é a realização de um anseio ou voto(Wunsch)inconsciente”
Dicionário de Psicanálise—Roudinesco e M. Plon

“Desejo : na concepção dinâmica freudiana,um dos polos do conflito defensivo:o desejo


inconsciente tende a realizar-se estabelecendo,segundo as leis do processo primário,os
sinais ligados às primeiras vivências de satisfação.A psicanálise mostrou,no modelo do
sonho,como o desejo se encontra nos sintomas sob a forma de compromisso
Freud não identifica a necessidade com o desejo:a necessidade,nascida de um estado
de tensão interna,encontra sua satisfação pela ação específica que fornece o objeto
adequado(alimentação por exemplo);o desejo está indissolùvelmente ligado a traços
mnêmicos e encontra sua realização na reprodução alucinatória das percepções
tornadas sinais de satisfação.”
Vocabulário da Psicanálise—Laplanche/Pontalis

Geraldo Arantes Jr 134


Estadio do espelho

Ocorrem tres momentos neste estadio

1ºinicialmente a criança reage a sua imagem no espelho como se fosse uma realidade
ou a imagem de um outro
2ºem seguida trata a imagem como algo real,não procurará pegar esse outro escondido
atrás do espelho
3ºa criança reconhece no espelho sua imagem.Trata-se de um processo de
identificação,uma conquista progressiva de identidade do sujeito
Imaginária porque a criança se identifica a um duplo de si mesma,a uma imagem que não
é ela própria.Esse eu é descrito como essencialmente imaginário mas não prescinde do
reconhecimento simbólico do Outro(representado pela mãe)
Aí reside reside a alienação fundadora do eu,que,para se constituir,se vale de uma
imagem que,no fundo,não é ele mesmo mas um outro: “o eu é um outro”
Assim a criança preenche um hiato entre esses dois termos da relação:corpo e sua imagem

Na atividade lúdica da criança gritando For(foi) quando joga o objeto e Da(aí) fazendo-o
reaparecer implica numa compulsão à repetição bem como o desejo da presença da
mãe.Tenta articular as ausências e presenças da mãe jogando e recuperando o objeto (ou
seja alternando partidas e retorno)
“Sua ação destroi o objeto que ele faz aparecere desaparecer na provocação antecipatória
de sua ausência e de sua presença” Geraldo Arantes Jr 135
A criança está se introduzindo no discurso concreto de seu ambiente reproduzindo com
Fort e Da os vocábulos que dele recebe,ou seja,tendo acesso à linguagem
O meio sociocultural oferece os fonemas(vogais e consoante) o que leva a criança a
introjeta-los como materia significante
O acesso à linguagem leva o sujeito a ser dominado pela ordem Simbólica e passa a ser
constituído por ela

Geraldo Arantes Jr 136


Aqui o desejo deverá ser vislumbrado não por uma ótica biológica ou filosófica,não
pode ser confundido com a satisfação de uma necessidade,e sim ser lançado numa
ordem simbólica,desnaturalizado.

Só pode ser pensado na sua relação com o desejo do outro,apontando sempre para
uma falta,não especificamente para o objeto considerado.
De objeto em objeto,o desejo desliza ,numa série interminável,numa satisfação sempre
adiada e nunca atingida.

A concepção freudiana está distanciada da hegeliana ,embora tenha desta certa


influência pelo fato de calcar-se no inconsciente

Para Hegel,num primeiro momento,o homem é em si : consciência


Entenda-se como consciência do mundo exterior(homem ingênuo,sensualista ,cuja
certeza não ultrapassa o nível do sensível)
Num segundo momento o do homem como para-si:autoconsciência
É o homem consciente de si mesmo,e também é consciente do outro como um para-si.É
na relação entre dois para-si que vai se constituir o desejo como desejo humano(não
natural)
O terceiro momento temos o homem como em-si e para-si:razão
Razão observadora para em seguida constituir-se como arte,religião,estado

Geraldo Arantes Jr 137


O que nos interessa é a passagem da consciência para a autoconsciência para
explicação do desejo em Hegel.
O sujeito surge somente a partir do desejo.Ele inicialmente é sensual(desejo de comer
por exemplo).
Nessa medida o objetivo é a destruição do objeto ou sua transformação para que o
desejo possa ser satisfeito.Assim o Eu do desejo ,não tem pois um conteúdo positivo
próprio:ele é um vazio,que será preenchido pela transformação e assimilação do objeto.

A natureza do Eu fica em função do objeto desejado


Se o desejo é uma falta e se sua satisfação é determinada pelo objeto esse desejo
somente será humano se dirigir-se a um objeto não natural,senão será um desejo
natural ,o eu continuará sendo natural,isto é,animal.
Para ter um caráter antropógeno o desejo deverá voltar-se ao que não seja natural.
A única realidade com tal característica é o próprio desejo

Para que o desejo se torne humano ele só pode ter por objeto um outro desejo,ou
seja,desejar o desejo do outro,eis o que caracteriza o eu como eu humano.

Ex: quando um soldado arrebata a bandeira inimiga ,não quer um pano colorido mas
sim o objeto de desejo do outro
Quando o homem deseja o corpo de uma mulher,ele quer o corpo desejado por outros
desejos.Se desejasse o corpo emquanto objeto natural seria instinto.
Geraldo Arantes Jr 138
Quer se apossar do desejo dela e também ser desejado .Por outro lado o mesmo
acontece com ela em relação ao homem.

O desejo humano quer que o outro reconheça o meu desejo e para que isso ocorra ele
tem que se submeter aos valores que meu desejo representa
Assim só afirmo meu desejo na medida que nego o desejo do outro e tento impor a
esse outro meu próprio desejo.O outro procura fazer o mesmo comigo.

Ambos arriscam a própria vida pelo reconhecimento,mas para ser reconhecido é


necessário que o outro esteja vivo.
Isto só vai ocorrer quando alguém reconhece o vencedor como seu
senhor,reconhecendo a si mesmo como escravo

A autoconsciência só existe quando reconhecida,daí a luta que caracteriza a dialética do


senhor e do escravo.

Reconhecimento = ato de confrontação de duas autoconsciências no processo de se


tornarem propriamente humanas.Sua função é preencher o vazio do desejo pela
transformação-assimilação do não-eu desejado.

Esse modelo hegeliano tem grande influência na concepção psicanalítica do desejo

Geraldo Arantes Jr 139


O desejo não implica na relação com o objeto real mas sim com um fantasma.
O desejo jamais é satisfeito,ele pode realizar-se em objetos,mas não se satisfaz com
esses objetos.
O objeto do desejo:
é uma falta
não é algo que propiciará uma satisfação
consiste no gozo do desejo enquanto desejo
realiza-se nos objetos ,mas os objetos assinalam sempre uma falta

Lembremos do traço mnêmico da satisfação do bebê quando sua necessidade foi


suprida pela mãe.Retomando o que Freud disse:”surgirá imediatamente um impulso
psíquico que procurará recatexiar a imagem mnemônica da percepção e reevocar a
própria percepção,isto é,restabelecer a situação de satisfação original.Um impulso dessa
espécie é o que chamamos de desejo”

O que caracteriza o desejo para Freud é esse impulso para reproduzir alucinatoriamente
uma satisfação original.
O desejo é a nostalgia do objeto perdido.Ele desliza de objeto para objeto
interminavelmente e toda satisfação obtida remete a uma insatisfação que mantém o
deslizamento constante do desejo,numa rede sem fim de significantes

Geraldo Arantes Jr 140


É por referência ao outro que o sujeito se constitui como um eu(fase do espelho)
É na imagem unificada do outro que me apreendo como corpo unificado.O mesmo
ocorre com o desejo
É a partir de desejos e ordens que a criança deverá reconhecer-se como pertencente aos
adultos.Os desejos da criança passam pelo outro que aprovará ou não.
Nessa primeira fase,a do imaginário,é que vai se fazer o reconhecimento pelo
outro,numa relação especular

Nesse estado especular ou o desejo é destruído ou destrói o outro .Esse desejo de


destruição do outro é que suporta o desejo do sujeito.
Isso só não ocorre porque com a emergência do simbólico o desejo passa a ser mediado
pela linguagem.

Segundo Lacan,o sujeito que fala tem de ser forçosamente admitido como sujeito e isso
porque ele é capaz de mentir,de ocultar.É esse sujeito que oculta, que Freud nos revela
no Ics.

O desejo aqui tem então dois aspectos:


sua distorção necessária
seu distanciamento com respeito à satisfação

Geraldo Arantes Jr 141


Quando a criança forma seu eu(segundo a imagem do outro) ingressa no universo
simbólico e produz uma transformação no objeto através da linguagem.Decorre daí :

o objeto é desnaturalizado e adquire a função de signo


passa para o plano da linguagem
a palavra passa a ser mais importante que o objeto
a palavra não é uma representação ilusória da coisa ,ela é a própria
coisa
Lacan é contundente quando assevera:
“Só com a palavra elefante e a maneira pela qual os homens a usam,acontecem aos
elefantes coisas favoráveis ou desfavoráveis,fastas ou nefastas—de qualquer
maneira,catastróficas—antes mesmo que se tenha começado a levantar em direção a
eles um arco ou fuzil”

Não há um sujeito único e fonte irredutível do sujeito,mas dois sujeitos:o sujeito do


enunciado e o da enunciação,sendo o segundo excêntrico em relação ao primeiro.
Sujeito do enunciado : portador do discurso manifesto,porém desconhece o conteúdo
da mensagem.Aquele que enuncia a mensagem
Sujeito da enunciação : não é expresso, mas recalcado e inconsciente.Liga-se aos
elementos significantes do inconsciente
Prática psicanalítica propõe explicitar o sujeito da enunciação a partir do sujeito do
enunciado
Geraldo Arantes Jr 142
6º CASTRAÇÃO

Geraldo Arantes Jr 143


Complexo centrado na fantasia de castração,que vem trazer uma resposta ao enigma
posto à criança pela diferença anatômica dos sexos(presença ou ausência de pênis):esta
diferença é atribuída a um corte do pênis da criança do sexo feminino.
A estrutura e os efeitos do complexo de castração são diferentes no rapaz e na
menina.O rapaz teme a castração como realização de uma ameaça paterna em resposta
às suas atividades sexuais do que lhe advém uma intensa angústia de castração.Na
menina,a ausência do pênis é sentida como um dano sofrido que ela procura negar,
compensar ou reparar.
O complexo de castração está em estreita relação com o complexo de Édipo,e mais
especialmente com sua função interditória e normativa.
Vocabulário da Psicanálise—Laplanche /Pontalis

Termo derivado do latim castratio e surgido no fim do século XIV para designar a
operação pela qual um homem ou um animal é privado de suas glândulas
genitais,condição de sua reprodução.Sendo assim,é sinônimo do termo
emasculação,mais recente,que o uso contemporâneo tende a privilegiar para designar a
remoção real dos testículos.A palavra ovariectomia é empregada para designar a
retirada dos ovários.
Sigmund Freud denominou complexo de castração o sentimento inconsciente de
ameaça experimentado pela criança quando ela constata a diferença anatômica entre
os sexos.
Dicionário de Psicanálise—Roudinesco e Plon
Geraldo Arantes Jr 144
Em “A organização genital infantil” Freud nos diz que :”o significado do complexo de castração
só poderá ser corretamente apreciado se levarmos em consideração sua origem na fase da primazia
fálica”

A diferença da organização genital consiste na consideração de que para ambos os sexos


há apenas um órgão genital ,o masculino.O que está presente não é uma primazia dos
órgãos genitais,mas uma primazia do falo.
Freud correlaciona o fálico à posse do pênis e o castrado à sua ausência
O pênis é muito investido narcisicamente e tem papel decisivo na diferenciação entre os
sexos,embora aspectos masculinos e femininos não se esgotem por aí.

O falo é da ordem dos símbolos.O objeto da castração é então o falo e não o pênis
Na “Organização genital..”Freud estabelece uma clivagem entre o anatômico e o
psíquico,iniciando o uso do termo “falo”

Em relação as práticas auto-eróticas Freud diz:


“A mãe do menino compreende muito bem que a excitação sexual dele relaciona-se com ela,mais
cedo ou mais tarde reflete que não é correto permitir-lhe continuar.Pensa estar fazendo certo
proibindo-lhe manipular seu órgão genital.Sua proibição tem pouco efeito;no máximo,ocasiona
uma certa modificação em seu método de obter satisfação.Por fim ,a mãe adota medidas mais
severas;ameaça tirar fora dele a coisa com que a está desafiando.Geralmente,a fim de tornar a
ameaça mais assustadora e mais crível,delega a execução ao pai do menino,dizendo que contará a
este e que ele lhe cortará fora o pênis”
Geraldo Arantes Jr 145
Castração no menino

Empreendendo a análise do pequeno Hans ,Freud descobre o que denominaria


complexo de castração(texto de 1909).Freud destaca então esse complexo baseando-se
nesse caso e também nas lembranças da infância de seus pacientes adultos.

Inicialmente teremos no menino a ficção de que todos seres humanos possuiriam um


pênis semelhante ao seu
Neste momento a crença infantil é de que não haveria uma diferença anatômica entre
meninos e meninas.
Esta crença que Freud constata é extremamente relevante ,condição obrigatória do
processo de castração
Para os dois sexos existiria um único órgão genital,o pênis

A descoberta de alguém próximo que não possui esse órgão,supostamente


universal,compromete seriamente a crença da criança ,trazendo a angústia com a
possibilidade de um dia perder

Se alguém é desprovido de pênis a posse deste órgão também não está assegurada.

Reforçando:para a experiência psiquica da castração é necessária a ficção da posse


universal do pênis
Geraldo Arantes Jr 146
Num segundo momento surgem as proibições feitas às crianças no que se refere às
práticas auto-eróticas e fantasias incestuosas.
As advertências parentais contra o auto acariciamento e a ameaça de cortar o pênis
implicitamente aponta para a perda de esperança do menino de um dia tomar o lugar do
pai junto à mãe.
A ameaça de castração acaba incidindo sobre a fantasia do garoto possuir seu objeto de
amor,a mãe.

Essas admoestações paternas acabarão sendo internalizadas pela criança e formando as


bases do superego,mas isso só ocorrerá se uma terceira etapa for ultrapassada

Nesse terceiro momento ocorre a descoberta da região genital feminina,quando a criança


descobre não a vagina mas a ausência do pênis
Quando o menino associar essa visão às ameaças verbais ,conferirá então a significação à
percepção visual de um perigo negligenciado.
“A partir desse fato,a perda de seu próprio pênis torna-se também uma coisa passível de
ser representada e a ameaça de castração consegue fazer efeito só depois”
Mesmo com a evidencia da ausência de pênis em alguns de seus semelhantes o menino
resiste a tal evidência.
Para reforçar a negação ele passa a teorizar que a menina tem um pênis qu ainda é
pequeno e que irá crescer

Geraldo Arantes Jr 147


Acumula também a crença de que pessoas mais velhas como sua mãe são dotados do
órgão masculino
Num momento posterior descobrindo que as mulheres podem dar a luz passa a
perceber que sua mãe é desprovida de pênis.Nesse momento surge a angústia de
castração.
Como já vimos só a constatação da falta de um pênis não é suficiente(como um perigo)
para que o complexo se organize.
A percepção do corpo feminino desperta no garoto as lembranças das ameaças
verbais,reais ou imaginárias,que visavam interditar-lhe o prazer advindo da
excitabilidade de seu pênis.

Deve-se notar que essa angústia não é efetivamente sentida posto que é inconsciente

Sob a irrupção dessa angústia o menino aceita a lei da proibição,optando por preservar
seu pênis,mesmo tendo renunciado a sua mãe como parceira sexual.

Renúncia da mãe + reconhecimento da lei paterna = encerramento da fase do amor


edípico

Paralelamente ao término do complexo de castração ocorre o término do complexo de


Édipo.

Geraldo Arantes Jr 148


Freud é bem claro quando em relação a isso escreve:
No menino,o complexo (de Édipo)não é simplesmente recalcado,mas desfaz-se
literalmente em pedaços sob o impacto da ameaça de castração...;nos casos ideais,não
mais subsiste sequer no inconsciente.

Castração na menina

Na menina a organização é diferente embora ambos tenham dois aspectos em comum:


1- ambos sustentam a ficção da universalidade do pênis no seres humanos.Essa crença
é fundamental para a constituição do complexo de castração
2- o segundo aspecto é a importância do papel da mãe,até que o menino se separa dela
com angústia e a menina com ódio.Tanto numa como noutra situação o acontecimento
principal é a separação da criança da mãe,no exato momento que ela é descoberta como
castrada.

Tirando esses pontos o resto da organização é diferente.


No menino o complexo de castração se encerra numa renúncia ao amor pela
mãe,enquanto na menina abre caminho para o amor edipiano pelo pai.
O Édipo no menino nasce e se encerra com a castração,na menina nasce mas não
termina com a castração

Geraldo Arantes Jr 149


Na menina a separação da mãe é a repetição de uma separação mais antiga, a perda
do seio materno .Ela se ressente ainda de ter sido deixada na insatisfação.
Esse ódio antigo submerge sob o efeito do recalcamento para reaparecer por ocasião
do complexo de castração

O ódio de outrora ressurge sob a forma de hostilidade e rancor em relação à mãe que
é responsabilizada por te-la feito menina.
A atualização desses sentimentos antigos a respeito da mãe assinala o fim do
complexo de castração.
A mãe está assim na origem e término do complexo de castração feminino

Num primeiro momento para a menina:


não existe diferença entre os sexos
a vagina é ignorada como órgão sexual
atribui ao clitóris o mesmo valor que o menino confere ao pênis
o pênis é um atributo universal

No segundo momento a visão da genitália masculina obriga-a a admitir não ser ela
portadora do pênis.
“A menina observa o pênis grande e bem visível de um irmão ou de um coleguinha de
brincadeiras.Reconhece-o de imediato como a réplica superior de seu pequeno órgão
oculto(o clitóris)e,a partir daí,torna-se vítima da inveja do pênis”
Geraldo Arantes Jr 150
Para o menino os efeitos da experiência visual são progressivos,para a menina
imediatos.Ela viu,sabe que não tem e quer te-lo.
Nesse aspecto a visão do pênis confirma sua castração.No caso do menino a visão do
púbis faz emergir a possibilidade da castração,não como na menina que a visão do pênis
confirma-a.
Em síntese:
o menino vive a angústia da ameaça
a menina a inveja de possuir o que viu e do qual foi castrada

No terceiro tempo reconhece que seu clitóris é menor que o pênis; esse aspecto ainda é
individual.Mais tarde constata que as outras mulheres, inclusive sua mãe, tem a mesma
desvantagem
A mãe torna-se objeto de desprezo e raiva por não ter dado a ela o atributo fálico.O
ódio da primeira separação reaparece então sob a forma de recriminações incessantes
A descoberta da castração da mãe leva a separa-se dela pela segunda vez ,e a partir
daí,escolher o pai como objeto de amor.
O amor da menina era dirigido a u’a mãe fálica ,e não castrada
Torna-se possível então afastar-se dela e deixar que os sentimentos hostis,acumulados
desde longa data,levem a melhor

“É quase sempre a mãe que é responsabilizada pela falta do pênis,a mãe que lançou(a
filha) no mundo com um equipamento tão insuficiente”
151
Geraldo Arantes Jr
Passa agora a odiar a quem havia amado, por dois motivos:por ciúme e por rancor
devido à privação do pênis .Suas primeiras relações com o pai podem estabelecer-se,a
princípio,com base no desejo de dispor do pênis dele.

Finalmente ela pode ter três saídas do complexo de castração com a consequente
entrada em seu complexo de Édipo

ausência de inveja do pênis


perplexa com a ausência do pênis a menina se desvia de toda sexualidade,não entra
em rivalidade com o menino e consequentemente não terá inveja do órgão masculino

vontade de ter o pênis do homem


outra possibilidade é crer que um dia poderá ter o pênis e assemelhar-se aos homens
A menina não desiste de sua masculinidade ameaçada,preserva a esperança de mais
tarde dotar-se do pênis,ou seja,a fantasia de ser homem.
“O complexo de masculinidade da mulher pode também concluir-se numa escolha de
objeto homossexual manifesta”

vontade de ter substitutos do pênis


a menina reconhe imediata e definitivamente a castração.
Essa atitude caracteriza-se por três mudanças importantes:

Geraldo Arantes Jr 152


1-mudança do parceiro amado:a mãe cede lugar ao pai
O vinculo amoroso primário dirigido à mãe até a constatação da castração
dela.Afastando-se dela e voltando-se para o pai responde positivamente a sua vontade
de ter um pênis.
Mudando seu objeto de amor,dirigindo seus sentimentos ternos ao pai inicia-se o
complexo de Édipo feminino que persistirá ao longo de toda vida da mulher.

2-mudança de zona erógena:o clitóris cede lugar à vagina


Até perceber a castração materna o clitóris-pênis mantem sua supremacia erógena
O reconhecimento de sua castração,da mãe a orientação para o amor ao pai implicam
num deslocamento libidinal do corpo da menina.
No correr do tempo entre infância e adolescência o investimento do clitóris transfere-se
para a vagina

3-mudança do objeto desejado:o pênis cede lugar a um filho


A vontade de gozar com um pênis no coito transmuta-se na vontade de gerar um filho.A
passagem erógena do clitóris para o pênis traduz-se pela vontade de acolher no corpo o
órgão peniano para a vontade de ser mãe.
O desejo de ter um pênis transforma-se em desejo de ter um filho.
O filho torna-se então o equivalente simbólico ,o substituto do pênis

Geraldo Arantes Jr 153


O desejo de um bebê não é uma simples substituição mas decorre de um longo e
elaborado processo.
A menina já desejou um bebê em sua fase fálica,ainda não perturbada pela descoberta
da diferença sexual que a fez perceber-se castrada
A brincadeira com as bonecas é uma identificação da menina com a mãe do impulso de
assumir o lugar ativo da mãe colocando a boneca no lugar passivo,o seu.Repete aqui o
que a mãe fazia consigo
Temos aqui :uma mãe /menina não castrada e uma menina /boneca que é o falo da
mãe.
A menina passa a ser o ativo,possuidor do objeto(falo) e a boneca o passivo,o próprio
objeto(o falo)

Geraldo Arantes Jr 154


Geraldo Arantes Jr 155
Conjunto organizado de desejos amorosos e hostis que a criança experimenta
relativamente aos pais.Sob a sua chamada “forma positiva” ,o complexo apresenta-se
como na historia de Édipo–Rei:o desejo da morte do rival que é a personagem do
mesmo sexo e desejo sexual da personagem do sexo oposto.Sob sua forma
“negativa”,apesenta-se inversamente:amor pelo progenitor do mesmo sexo e ódio
ciumento ao progenitor do sexo oposto.Na realidade,estas duas formas encontram-se
em graus diversos na chamada “forma completa”do complexo de Édipo.
Segundo Freud,o complexo de Édipo é vivido no seu período máximo entre os tres e
cinco anos,durante a fase fálica;o seu declínio marca a entrada no período de
latência.Conhece na puberdade uma revivvescência e é superado com maior ou menor
êxito num tipo especial de escolha de objeto.
Vocabulário da Psicanálise Laplanche/Pontalis

Complexo de Édipo éa representaç ào inconsciente pela qual se exprime o desejo sexual


ou amoroso da criança pelo genitor do sexo oposto e sua hostilidade para com o
genitor do mesmo sexo.Essa representação pode inverter-se e exprimir o amor pelo
genitor do mesmo sexo e o ódio pelo do sexo oposto.Chama-se Édipo a primeira
representação,Édipo invertido a segunda,e Édipo completo a mscla das duas.O
Complexo de Édipo aparece entre os 3 e 5 anos.Seu declínio marca a entrada num
período chamado de latência,e sua resolução após a puberdade concretiza-se num
novo tipo de escolha de objeto
Dicionário de Psicanálise Roudinesco e Plon
Geraldo Arantes Jr 156
Histórico do conceito

Desde 1897 Freud faz referências ao complexo mas,um artigo exclusivamente dedicado
ao tema é de 1924:”A dissolução do complexo de Édipo”.
Como conceito psicanalítico a expressão complexo de Édipo aparece em 1910
Inicialmente Freud presume que a vivência edípica tanto no menino como na menina
seja paralela: o investimento amoroso da menina é o pai e do menino a mãe
No texto “A organização genital infantil”(1923) reconhece que há diferenças na
vivência do complexo entre menino e menina.
No artigo de 1925”Algumas consequências psíquicas da distinção anatômica entre os
sexos” ele observa:
 a importância da fase pré-edipiana
 a diferença entre os complexos de castração e de Édipo da menina e do
menino
 a diferente construção do superego(supereu) em cada um
A questão da sexualidade feminina continuava ,no entanto,um “continente negro” ,um
campo ignorado

Alguns mal-entendidos foram criados por analistas que enfatizavam apenas o lugar
central da mãe na constituição do sujeito,em detrimento da função simbólica do pai.
Quando Lacan propõe uma releitura de Freud tem a intenção de corrigir tais equívocos

Geraldo Arantes Jr 157


Dois desenvolvimentos teóricos de Lacan podem ser destacados
 o conceito de pai real como agente de castração
 a mediação da palavra da mãe

Freud—Fliess—Édipo

O ponto em comum entre Freud e Fliess era a questão da bissexualidade


Freud endereçava suas questões fundamentais à Fliess que era colocado no lugar do
sujeito suposto saber.
Fliess no entanto,abordava a bissexualidade para designar simultaneamente a
homossexualidade e a heterossexualidade biológicas
Freud tinha a bissexualidade como conceito psicológico

Primeira referência ao complexo de Édipo está na “Carta 64” (31/5/1897) num sonho
com sua filha mais velha Mathilde”O sonho ,é claro,mostra a realização de meu desejo
de encontrar um pai originador da neurose”
No “Rascunho N" Freud afirma que os impulsos hostis contra os pais constituem um
elemento integrante das neuroses.
É comum encontrar nos filhos o desejo de morte em relação ao pai e,nas filhas,o mesmo
desejo em relação à mãe.

Geraldo Arantes Jr 158


A Lei simbólica é a fundadora das leis sociais,equivale à lei da interdição do incesto.
O incesto,mãe-flho,esse gozo não é permitido pela intervenção paterna,representada
pelo pai simbólico.
O mito de Édipo mostra que o gozo da mãe está interditado
O mito de “Totem e tabu” associa tal interdição ao parricídio.Nesse texto Freud mostra a
origem das proibições sexuais afirmando que por mais primitiva que seja a sociedade,há
sempre uma proibição sexual que se denomina tabu do incesto, e situa o totem como
um representante do pai,da Lei.

A partir dos cuidados e do desejo materno a criança é introduzida no campo da


sexualidade.Através do exercício da função materna o corpo do bebê será erogeneizado.
Nos “Três ensaios..” Freud introduz uma nova concepção da criança dotando-a de uma
sexualidade perverso polimorfa.
Nessa atribuição mostra-nos que o corpo da criança é um corpo pulsional,corpo de
desejo.

Com o desenvolvimento da criança ,sucessivamente,certas áreas do corpo serão


erogeneizadas,marcando então os estádios do desenvolvimento sexual

Geraldo Arantes Jr 159


Édipo em Freud

Quando Freud abandona a teoria do trauma e da sedução e descobre a fantasia,os


fatos reais da infância perdem a relevância.
A realidade psíquica,constituída pelos desejos inconscientes e fantasias ,passa a ter
prioridade,tendo como suporte a sexualidade infantil.
O efeito traumático está relacionado com o fato da criança ser confrontada
passivamente com a sexualidade do adulto.
A criança é introduzida na sexualidade via cuidados e desejo materno.
Em “Tres ensaios sobre a teoria da sexualidade” Freud apresenta a criança perverso
polimorfa e nos mostra o corpo infantil como um corpo pulsional,corpo de desejo.

criança perverso-polimorfo pulsões parciais

que se apoiam em funções vitais emanando de zonas erógenas

O desenvolvimento da criança passa por uma sucessão de momentos em que


diferentes áreas do corpo são erotizadas arquitetando os estádios do desenvolvimento
sexual.
Falamos então das fases oral,anal,fálica.

Geraldo Arantes Jr 160


A partir do relato do caso Hans Freud escreve o artigo “Sobre as teorias sexuais das
crianças” onde estabelece uma relação entre a dimensão edipiana e a ideia de um
complexo nuclear presente nas neuroses.
Toda questão do conflito terá como referência,em última análise ,o conflito do complexo
de Édipo
Freud conclui nessa época que o primeiro grande problema para as crianças é a origem
dos bebes.Ocorre aí uma contradição entre o que os adultos explicam como o bebe é
concebido ,e a percepção que a criança tem sobre a natureza sexual disso,instaurando-
se então o primeiro conflito psíquico.
A concepção da criança é então recalcada por não ser aceita pelo adulto e por aí pode
constituir-se o complexo nuclear de uma neurose.
A partir daí a criança começa a elaborar teorias sexuais como a universalidade do pênis,a
teoria do nascimento pela cloaca e a concepção sádica do coito.

Quando em “Sobre as teorias sexuais das crianças” descobre o complexo de castração


articula-o com o complexo de Édipo,estando este último na base do conflito psíquico.
No caso Hans dois eventos desencadearam a fobia:ele começa a manipular seu pênis e
nasce sua irmã.Duas questões surgem:a origem da vida e do sexo
Ele é descrito como um pequeno Édipo desejoso de eliminar o pai e tomar a mãe para si.

Nesse momento da teorização Freud descreve apenas o polo positivo,desejo em relação


a mãe e ódio ao pai.
Geraldo Arantes Jr 161
Na menina tudo se passaria da mesma maneira,ligação ao pai –eliminar a mãe.Mais
tarde ele percebeu a falta de simetria no relacionamento edipiano.
Isso se torna possível quando em 1923 conceitua a fase fálica e formula a segunda tópica
em “O ego e o id” e pode então constatar a dissimetria entre o Édipo masculino e o
feminino.

Ele caracteriza como forma positiva o amor ao genitor do sexo oposto e ódio ao do
mesmo sexo e forma negativa amor ao genitor do mesmo sexo e ódio ao genitor do sexo
oposto.
Aborda ainda nesse texto a questão da bissexualidade nas vicissitudes do Édipo
Devido à bissexualidade o Édipo é dúplice,isto é,positivo e negativo,o menino apresenta
uma atitude afetuosa para com o pai(como uma menina) e ciúmes e hostilidade em
relação à mãe.

É em torno da representação psíquica do pênis — o falo imaginário— e não do pênis


real,que se organizará o complexo de castração.

No decorrer de suas pesquisas o menino chega à conclusão que o pênis não é universal
A reação primeira da criança é rejeitar o fato e crer que ela tem um pênis,acredita que ele
é pequeno e crescerá.Mais tarde conclui que o pênis estava lá e foi retirado.A falta de
pênis é vista como castração.
A partir de então o menino se angustia pois corre o risco de ser castrado.
Geraldo Arantes Jr 162
Para Lacan o falo é o elemento central na organização da sexualidade humana—o
significante privilegiado,o significante da falta.
A castração que é simbólica,é vivenciada pela criança como uma falta real (ausência de
pênis na mulher)
A castração não é real,não incide nos genitais.Ela é simbólica,pois incide sobre a ordem
fálica
O falo é antes de tudo,um significante,significante da falta.

Na fase fálica a criança só conhece um órgão genital:o masculino .Até aqui o


desenvolvimento do menino e da menina corre pari passu.Com a descoberta da diferença
anatômica os caminhos se diferenciam.

objeto de amor do menino mãe ameaça de castração

proferida pelo pai,mãe ou substitutos renuncia seu objeto amoroso,a mãe

pelo medo de ser privado de seu pênis

angústia de castração barra caminho em direção ao amor pelo pai

identifica-se com ele renuncia ao pai como objeto de amor


Geraldo Arantes Jr 163
identificando-se com o pai passa do ter o pai para ser como o pai

Complexo de Édipo é dissolvido quando a angústia de castração encerra:


 ligação erótica com a mãe
 ligação amorosa com o pai

No final desse processo ocorre o período de latência para o menino

A menina para tornar-se mulher deve abandonar a erotização clitoridiana para haver a
erotização vaginal.
Reconhecendo sua “inferioridade “ anatômica ,a menina procura objetos que possam
substituí-lo.

Menino e menina procuram ativamente satisfazer a mãe,ou como afirma


Lacan,procuram ser o falo que falta à mãe.

Na menina o primeiro objeto de amor é a mãe ,sendo que o enamoramento pelo pai
sucede esse primeiro evento.
Nela então o complexo de castração precede o Édipo e o prepara.A menina tem ainda
que além de mudar de órgão erógeno trocar o objeto materno pelo paterno

Geraldo Arantes Jr 164


Existe então a suposição que a menina renuncia à sexualidade ativa (inicialmente
dirigida à mãe) não somente porque deseja voltar-se para o pai mas também para
desligar-se da mãe.
Na ligação com a mãe estão as marcas fundamentais da sexualidade da mulher e
nem sempre a passagem para o pai como objeto de amor tem sucesso.Caso ela
continue dirigindo seus movimentos pulsionais ativos para a mãe poderá ter
dificuldades na assunção de sua feminilidade.

Se no complexo de Édipo do menino o que predomina é a angústia na menina é a


“inveja do pênis”.Na menina a angústia de castração inexiste porque ela não pode
temer o que já aconteceu.Está ameaçada sim de perder o amor ou não ser amada.
Constatando a ausência do pênis decepciona-se com a mãe e considera-a responsável
por te-la feito castrada.
Surge então a inveja e o desejo de possuir um pênis

A constatação da castração tem suas consequências e pode leva-la ao


desenvolvimento de uma feminilidade de orientação heterossexual ou não, e é a
partir daí que começa uma desvinculação do objeto materno

O menino ,devido a seu interesse narcísico no pênis, conserva-o ,e substitui o


investimento objetal no pai por uma identificação com ele

Geraldo Arantes Jr 165


No período pré-edípico da menina existe grande vínculo com a mãe.
Na fase fálica ao constatar a castração desapega-se da mãe e aproxima-se do
pai,desejando obter o pênis negado pela mãe.
Nesse momento inicia-se seu Édipo
A seguir sua busca é substituída pelo desejo de ter um filho(equivalente simbólico do
pênis).
Com a negação do pai em gratificar-lhe surge nova decepção ,o que a conduz a
abandonar progressivamente o complexo de Édipo

Vimos então que a menina passa por três eventos que o menino não vivencia:
escolha objetal inicial do menino coincide com a final,enquanto a menina deve
abandonar a mãe para passar ao pai
deve passar da excitabilidade clitoridiana para a vaginal
deve abandonar seus fins sexuais ativos transformando-os em fins sexuais passivos

Isso determina para ela três diferentes caminhos para o desenvolvimento sexual:
revoltar-se ao se comparar com os meninos ,e insatisfeita com seu clitóris deixa
de lado sua atividade fálica bem como sua sexualidade em geral
é tomada por um sentimento de autoafirmação em relação a sua masculinidade
ameaçada ,nega a ausência do pênis,e permanece no complexo de
masculinidade o que a leva para uma escolha de objeto homossexual

Geraldo Arantes Jr 166


assume uma posição simétrica à da mãe e toma o pai como objeto
Em “Novas conferências introdutórias à psicanálise” intitulada “Feminilidade” Freud afirma
que “a situação feminina só se estabelece se o desejo do pênis for substituído pelo desejo
de um bebê ,consoante uma equivalência simbólica”

O Édipo em Lacan

Após a segunda guerra no meio psicanalítico sustentava-se que a doença mental tinha
como causa as perturbações relativas aos cuidados que as mães dispensavam às crianças.
Apontar apenas a mãe ou o meio ambiente seria deixar de fora os processos que ocorrem
na subjetividade do bebê e as respostas que ele poderá dar às demandas do Outro nessa
dinâmica que se estabelece entre mãe,pai e criança

Lacan recupera a importante função do pai para a psicanálise


Propõe que se pense numa oposição entre a função simbólica do pai,representante da
cultura e da Lei e a posição imaginária da mãe”dependente da ordem da natureza e
condenada a fusionar-se com o filho,objeto fálico faltante”

Assim a função do pai é essencialmente simbólica:ele nomeia,dá seu nome e, através desse
ato,encarna a Lei.

Geraldo Arantes Jr 167


A sociedade humana é dominada pelo primado da linguagem,e isso significa que a função
paterna é o exercício de uma nomeação que permite à criança adquirir sua identidade.
A função paterna deve ser entendida na leitura psicanalítica de maneira diferente
daquela do papel social do pai.
Quando o bebê nasce já está imerso na linguagem,isto é,já preexiste um discurso na
cultura em que ele nasceu.
A constituição desse indivíduo acontece na fala que passa pela linguagem.Esse sujeito
assujeitado à fala,o sujeito do inconsciente,nasce no campo do Outro.
O conceito do Outro significa que o sujeito não existe sozinho,ele sempre é referido a um
Outro.

É preciso que a criança se aliene aos significados do Outro encarnado pela mãe,para mais
tarde dela se separar,retira-la desse lugar tão poderoso
Pra que tal alienação ocorra é necessário que a Lei do pai interfira para barrar esse poder
absoluto emanado da mãe.
Com essa intervenção:
impedir-se-á que a mãe faça da criança o centro de sua vida
impedir-se-á que a criança permaneça nessa posição de objeto da fantasia
materna
Tanto para Freud quanto para Lacan a função paterna é uma entidade simbólica que
possibilita o sujeito assumir sua posição sexual.

Geraldo Arantes Jr 168


Assim não devemos buscar a eficiência do pai em suas condutas pessoais,sociais ou
legais.Na verdade ,o determinante é o Nome do Pai,não sua pessoa ,mas a importância
que a mãe dá a sua palavra ou melhor ainda,à sua autoridade
Desta maneira o pai é instituído enquanto tal pela palavra da mãe.
Suas funções:
transmitir o não da interdição do incesto
nomeação do filho,introduzindo-o na série das gerações
dá ao filho o seu Nome e diz Não ao desejo da mãe
não ao desejo da criança pela mãe e também não ao desejo da mãe pela criança

Ele é portanto o que porta a Lei e não o educador que encarna a Lei,isto é,ao invés de
representar a Lei ,identifica-se com ela tornando-se arbitrário

A função paterna é central no desenvolvimento da criança e tanto as neuroses(histeria


e obsessão) e psicoses originam-se em decorrência de falhas dessa função.
Para que a Lei chegue à criança é fundamental também a castração da mãe.
No caso Hans foi necessário que ele produzisse um substituto paterno atemorizador
para que este cumprisse a função de terceiro interditando-o à mãe
Para Lacan o objeto fóbico vem suprir a carência do pai real ocupando uma função
metafórica para o sujeito.
O Nome do Pai substitui o desejo da mãe,com o qual a criança identificar-se-á como
sendo seu objeto
Geraldo Arantes Jr 169
Os três tempos do Édipo em Lacan

O início do complexo de Édipo é contemporâneo a um processo de maturação da criança


que Lacan nomeia como estádio do espelho.
A experiência do espelho foi observada por estudos realizados por psicólogos
verificando o desenvolvimento de animais e crianças entre 6 e 18 meses diante de sua
imagem no espelho.
Criança e chipanzé tentarão inicialmente pegar a imagem vista no espelho,mas logo
surge uma diferença.
O chipanzé se desinteressa e a criança exprime seu interesse pela imagem e jubila-se
com isso .Ocorre aqui a primeira experiência de subjetivação ,acompanhada de grande
alegria.
Observamos então a passagem do estado de autoerotismo para o narcisismo
O regozijo indica a saída de um estado de angústia que é a vivência do corpo
despedaçado(corpo real,pulsional,sem imagens e sem sentido).
No estádio do espelho o bebê não se sente aos pedaços,mas como Um.Dessa forma ,o eu
constitui-se como objeto.
Os animais possuem um saber instintivo que organiza as relações com o meio,a relação
da criança com os objetos deve ser constituída,subjetivada através da mediação com a
imagem do outro.
Essa imagem corporal permite à criança situar o que é eu e o que não é eu.

Geraldo Arantes Jr 170


Nesse primeiro momento do Édipo a criança está assujeitada à mãe,identificada a seu
objeto de desejo.
A proximidade da mãe,esta satisfazendo as necessidades da criança,cuidando dela leva a
um estado de indistinção que domina a relação.

Tal situação coloca a criança se fazendo de objeto que supõe faltar à mãe.
Ela quer constituir-se o falo da mãe.
Esse falo é aquele da infância materna,seu Édipo,à medida que o filho vem ficar no lugar
do falo que não recebeu de sua mãe e foi buscar no pai.

Tanto para mãe quanto para a criança falta algo.


O falo representa então algo que falta para a mãe bem como o que falta à criança para que
esta possa se satisfazer pela presença da mãe.
O pai encontra-se presente desde o início mas velado pela palavra da mãe.
O impasse do Édipo será resolvido quando substituir-se o desejo da mãe pelo Nome do
Pai.

A criança então nesse primeiro tempo do Édipo acredita ser o objeto fálico supostamente
desejado pela mãe.Como este objeto é imaginário,a identificação fálica da criança é
estritamente imaginária

Caso a criança se fixe neste estágio identificatório ,estamos em pleno domínio da psicose
Geraldo Arantes Jr 171
No segundo momento do Édipo ocorre a intervenção paterna com uma dupla função
junto a configuração mãe-falo-criança.
em relação à criança interdita-a à mãe
junto à mãe priva-a do falo que julga ter,impedindo-a de considerar a criança
como objeto de seu gozo
a criança acaba vendo o pai como um falo rival junto à mãe
o pai interdita uma satisfação incestuosa introduzindo a Lei(proibição do incesto)
o desejo da criança passa a estar na dependência de um objeto que o pai é suposto
ter ou não
Supondo-se que ele detém o objeto de desejo da mãe,situa-se no lugar de pai simbólico

A criança é forçada não apenas a não ser o falo como também a não tê-lo como a mãe
incidindo aí o complexo de castração

Nesse momento é decisiva a relação que a mãe mantém não com a pessoa do pai ,mas
com a palavra dele no sentido de reconhecer a sua lei.

O processo de simbolização é inaugurado nesse segundo tempo do Édipo,introduzindo a


mediação da linguagem na relação mãe-filho.
Para que isso ocorra é fundamental a intervenção da Lei da interdição

Geraldo Arantes Jr 172


No terceiro momento do Édipo ocorre o declínio do complexo marcado pela
simbolização da lei
O pai sai da condição de falo,rival da criança junto à mãe passando a ser suposto
detentor do falo(objeto de desejo da mãe)
Reconhece-se a castração do pai que passa de onipotente para potente:ele não tem o
falo mas alguma coisa com o valor de do(Lacan chama de insígnias do pai)

o menino renunciando a ser falo da mãe identifica-se com aquele que


supostamente detém o falo
a menina encontra uma possível identificação com a mãe sob a forma de não
ter,mas de saber onde deve ir busca-lo

O Nome do Pai permite então:


ao homem a virilidade,da qual mais tarde fará uso para abordar outras mulheres
a mulher a possibilidade de se situar como objeto de desejo do homem

Geraldo Arantes Jr 173



SUPEREGO
Geraldo Arantes Jr 174
Uma das instâncias da personalidade tal como Freud a descreveu no quadro da sua
segunda teoria do aparelho psíquico:o seu papel é assimilável ao de um juiz ou de um
censor relativamente ao ego.Freud vê na consciência moral,na auto observação ,na
formação de ideais,funções do superego
Classicamente o superego é definido como herdeiro do complexo de Édipo;constitui-se
por interiorizações das exigências e das interdições parentais.
Certos psicanalistas recuam para mais cedo a formação do superego,vendo esta
instância em ação desde as fases pré-edipianas (Melanie Klein)ou pelo menos
procurando comportamentos e mecanismos psicológicos muito precoces que
constituíram precursores do superego(Glover,Spitz,por exemplo)
Vocabulário da Psicanálise Laplanche /Pontalis

Conceito criado por Sigmund Freud para designar uma das três instâncias da segunda
tópica,juntamente com o eu e o isso.O supereu mergulha suas raízes no isso e,de uma
maneira implacável,exerce as funções de juiz e censor em relação ao eu
Dicionário de Psicanálise Roudinesco e Plon

Geraldo Arantes Jr 175


O superego é o vestígio psíquico e duradouro da solução do principal conflito do Édipo.
Consiste tal conflito numa oposição entre a interdição e a consumação do incesto.
O conflito ocorre não entre proibição e o desejo incestuoso mas entre essa lei e a
impensável satisfação,isto é,o gozo que significaria a consumação desse desejo.
A lei não proíbe o desejo,não pode impedi-lo,proíbe sua satisfação:a lei proíbe o gozo.
O conflito situa-se então entre a lei e o gozo absoluto.

Quando a criança assimila a lei e a torna psiquicamente sua, significa que parte do eu
identifica-se com a figura paterna interditora e outra parte continua a desejar.
A parte do eu que faz duradoura a lei interditora constitui o superego.
O superego então constitui não somente a marca permanente da lei de proibição mas
também três aspectos que marcam a saída do Édipo:renunciar o gozo proibido,preservar
o desejo em relação a tal gozo e salvar o pênis da ameaça de castração.
As qualidades de proibido,perigoso e inacessível do gozo significam:
inacessível do ponto de vista da lei
proibido de vista do desejo
perigoso para a consistência do eu(estilhaçamento se a criança acedesse ao gozo
trágico do incesto)

A existência do superego é a prova do vigor do desejo.Sua existência representa a


renúncia a experimentar o gozo que a criança conheceria se o incesto ocorresse.

Geraldo Arantes Jr 176


A instância superegoica regula os movimentos do eu a respeito do gozo:
movimento de despeito(ódio) diante do gozo proibido
movimento de atração(amor) pelo gozo impossível
movimento de repulsa(medo) frente ao gozo assustador

O ódio originário tornar-se-á mais tarde a severidade sádica do superego e a angústia


no sentimento de culpa do eu.
A partir desses dados observamos duas categorias radicalmente opostas e coexistentes
do superego.
Primeiro um superego assemelhado à consciência com variações de consciência
moral,crítica e produtora de valores ideais.É aquela parte que rege nossas
condutas,julga-nos e se oferece como modelo ideal.

Em outra circunstância ele representaria um superego cruel,causa das aflições e ações


absurdas do ser humano(suicídio,assassinato,guerras,etc).Presentifica-se aqui um
superego tirânico que nos ordena não encontrar um bem moral mas o próprio gozo
absoluto,infringir qualquer limite,esperar o impossível.

Para Freud este superego não representa o sentido da realidade externa mas o apelo
irresistível do id que incita o eu a violar a proibição e encaminhar-se para um êxtase
que ultrapassa qualquer prazer.

Geraldo Arantes Jr 177


Sob essa pressão o eu pode tornar-se violento tanto em relação ao mundo externo
quanto a si mesmo.
No criminoso vamos encontrar uma irreprimível resposta a um superego que ordena
levar o desejo a seu extremo,que nunca é atingido pois nem mesmo o assassino atingirá
o gozo pleno.
Tais atos violentos nada mais representam que parciais satisfações, no caminho que vai
do sujeito à miragem da satisfação absoluta

Por outro lado ele também pode apresentar-se como proibidor do gozo ou guardião da
integridade do eu.
A proibição rigorosa pode conduzir a severas manifestações de autopunição como as
que vemos nos quadros melancólicos ou nos delírios de auto-acusação
Com a severidade de suas sanções o superego desfruta de seu gozo.Surge aqui um
paradoxo:de uma maneira refrear e por outro lado gozar ele próprio por exercer a
interdição.

E finalmente em terceiro lugar tem uma função de proteção ciumenta que leva a
comportamentos caracterizados pela inibição.Como exemplo proibir a um homem a
relação sexual com sua mulher ,representando-a para ele como um perigo abominável.

Geraldo Arantes Jr 178


O conceito de culpa na teoria psicanalítica revela que a única culpa decisiva na vida
psíquica é o sentimento de ser culpado sem que ,paradoxalmente,haja qualquer
representação consciente disso.
Podemos ser culpados e ,apesar disso,ignorar que o somos.Nesse caso seríamos
inocentes na consciência mas culpados inconscientemente
Verificamos essa culpa em quadros como no TOC,melancolia,delírios de auto-acusação.
Observamos ainda nas fantasias,situações dolorosas, e na reação terapêutica negativa
onde após um trabalho analítico seguido de melhora os sintomas retornam
acompanhados de agravamento do sofrimento que parecia ter desaparecido
É como se houvesse uma força impedindo o analisante de progredir,algo similar a uma
penitência.Reconhece-se enfermo porém não culpado.

O sofrimento que acompanha a sintomatologia expia uma falta ignorada,fazendo com


que o eu tente amenizar o sentimento inconsciente de culpa.Para aliviar um sentimento
doloroso de culpa a autopunição aparece com a finalidade de apaziguamento

Sentimento de culpa necessidade de ser punido

Punição simbolicamente satisfação de outra natureza

I-alivia por permitir que se focalize uma falta desconhecida que ainda não tinha
representação
Geraldo Arantes Jr 179
II-a culpa requer além de uma ação que expie o erro,um nome que a represente
III-a dupla necessidade de punir e nomear impele o indivíduo a cometer uma falta real
que o leve também a uma punição real que enfim nomeará a falta inconsciente

Freud relata:”podemos mostrar que existe em inúmeros criminosos,em particular nos


jovens,um poderoso sentimento de culpa que existia antes do ato e que,portanto,não é
consequência dele ,mas seu motivo,como se se sentisse alívio em poder ligar esse
sentimento inconsciente de culpa a alguma coisa de real e de atual”

A relação culpa <—> autopunição é tão estreita que identificamos aí três expressões
sentimento inconsciente de culpa
necessidade de punição
necessidade de nomeação

Vejamos então o papel que cabe ao superegono processo de culpa

falta desconhecida cometida pelo eu

sentimento inconsciente de culpa vivido pelo eu

ação punitiva infligida pelo superego


Geraldo Arantes Jr 180
A culpa é uma forma elaborada da angústia de castração.O medo diante da proibição da
autoridade externa transforma-se em culpa diante da autoridade interna(superego)
As reações de medo e culpa ocorrem não somente pela proibição de realizar o gozo
incestuoso mas pelo ardor que o eu experimenta de seu próprio desejo.

O eu se angustia e se culpa quando percebe a agitação interna de seu desejo.Ele sente o


desejo mas acredita estar experimentando o gozo,surge aí então o sentimento de culpa.

Dois movimentos são então observados:a exortação ao gozo e a proibição dele.

O superego tirânico exorta ao gozo e o eu sente-se culpado de não realizar o seu


desejo.Diante do superego que proíbe e condena ele também é culpado por estar a
ponto de realizar esse desejo.

O eu paralisa-se diante dessas duas demandas, mas nenhuma delas foi satisfeita;o desejo
permanece impossível de ser consumado.
A culpa é uma crença imaginária do eu ,o falso presentimento de experimentar o gozo
absoluto,muito embora ele só possa experimentar um gozo parcial.

Geraldo Arantes Jr 181