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Intervenções Psicanalíticas

P R O FA . M A . R A Í S S A A L M O E D O
A transferência

QUAL A IMPORTÂNCIA O QUE É A COMO SE DÁ O


DOS PROCESSOS TRANSFERÊNCIA? MANEJO DA
TRANSFERENCIAIS TRANSFERÊNCIA NA
PARA A PSICANÁLISE? CLÍNICA?
A transferência
Reflection with two children. Lucian
Freud. 1965.
A transferência
• Übertragung: transferência, transmissão, comunicação, transcrição;
“Designa em psicanálise o processo pelo qual os desejos inconscientes se atualizam sobre
determinados objetos no quadro de um certo tipo de relação estabelecida com eles e,
eminentemente, no quadro da relação analítica. Trata-se aqui de uma repetição de protótipos
infantis vivida com um sentimentos de atualidade acentuada.
É a transferência no tratamento que os psicanalistas chamam a maior parte das vezes
transferência, sem qualquer outro qualificativo. A transferência é classicamente reconhecida
como o terreno em que se dá a problemática de um tratamento psicanalítico, pois são a sua
instalação, as suas modalidades, a sua interpretação e a sua resolução que caracterizam este”

(Laplanche, J., & Pontalis, J. B. (2008). Vocabulário da psicanálise. Trad. de P Tamen.)


A transferência
• Existe especial dificuldade em propor uma definição de transferência porque a noção assumiu,
para numerosos autores, uma extensão muito grande, que chega ao ponto de designar o
conjuntos dos fenômenos que constituem a relação do paciente com o psicanalista e que, nesta
medida, veicula, muito mais do que qualquer outra noção, o conjunto das concepções de cada
analista sobre o tratamento, o seu objetivo, a sua dinâmica, a sua tática, etc.
• Inicialmente a transferência, para Freud, não fazia parte da essência da relação terapêutica. Não
se constituíam aliados para o tratamento a não ser que fossem explicadas e “destruídas” uma a
uma.
• Com a descoberta do complexo de édipo: Freud observa que é a relação do sujeito com as
figuras parentais que é revivida na transferência;
• Freud distingue duas transferências: positiva (sentimentos ternos) e negativa (sentimentos
hostis);
A transferência
• A Noção de transferência como um processo estruturante do conjunto do tratamento a partir
do protótipo dos conflitos infantis resulta no que Freud considerou “neurose de transferência”:
Conseguimos normalmente conferir todos os sintomas da doença uma nova significação
transferencial, substituir a sua neurose comum por uma neurose de transferência da qual o
doente pode ser curado pelo trabalho terapêutico (Freud, 1914 apud Laplanche & Pontalis,
2008).
• A transferência surge como uma forma de resistência ao mesmo tempo em que denuncia uma
proximidade do conflito inconsciente; se desencadeia no momento em que conteúdos
recalcados ameaçam se revelar.
A transferência
•“É inegável que a tarefa de domar os fenômenos de transferência implica as maiores
dificuldades para o psicanalista; mas é preciso não esquecer que são justamente elas que nos
prestam o inestimável serviço de atualizar e manifestar as moções amorosas, sepultadas e
esquecidas; porque, no fim das contas, ninguém pode ser executado in absentia ou in effigie”
(Freud, 1912 apud Laplanche & Pontalis, 2008).
•“A transferência, tanto na sua forma positiva como negativa, entra a serviço da resistência; mas
nas mãos do médico torna-se o mais poderoso dos instrumentos terapêuticos e desempenha
um papel que não pode deixar de ser hipervalorizado na dinâmica do processo de cura” (Freud,
1923 apud Laplanche & Pontalis, 2008).
•“O doente não pode recordar-se de tudo o que nele está recalcado, como vivência no
presente; Há uma necessidade do analista limitar o mais possível o domínio desta neurose de
transferência, de levar o máximo de conteúdo para o caminho da rememoração e de abandonar
o mínimo possível a repetição” (Freud, 1920)
Positiva e Negativa (Zimerman, 2009)
• “Ranço moralístico e supergóico” dos termos positivo e negativo (Zimerman, 2009)
• Transferência Positiva - Classicamente essa denominação referia-se a todas as pulsões e derivados relativos à libido,
especialmente os sentimentos carinhosos e amistosos, mas também incluídos os desejos eróticos, desde que tenham
sido sublimados sob a forma de amor não sexual e não persistam como um vínculo erotizado.
•Transferência Negativa - Com esse nome Freud referia aquelas transferências nas quais predominava a existência de
pulsões agressivas com os seus inúmeros derivados, sob a forma de inveja, ciúme, rivalidade, voracidade, ambição
desmedida, algumas formas de destrutividade, as eróticas incluídas, etc.
•Transferência erótica - A “transferência erótica” está mais vinculada com a necessidade que qualquer pessoa tem de
ser amada, sendo que essa demanda por compreensão, reconhecimento e contato emocional, pode se fundir (e con-
fundir) como desejo de um contato físico.
•Transferência erotizada - A “transferência erotizada” designa a predominância de pulsões ligadas ao ódio com as
respectivas fantasias agressivas, que visam a um controle sobre o analista e de uma posse voraz dele. Essas fantasias
manifestam-se por diversas formas, são de origem inconsciente, superam o senso crítico da realidade objetiva (a ponto
de o paciente sequer reconhecer o “como-se” transferencial”) e elas aparecem na situação analítica disfarçadas de
legítimas necessidades amorosas e sexuais.
Alguns comentários sobre a
Transferência
A fala cotidiana  o sujeito se expressa vigiado pela razão, pesa, adequa, calcula, planeja...há, obviamente deslizes nessa fala
asséptica: chistes, sonhos, sintomas, atos falhos. Há uma necessidade de corrigir os “deslizes”;mas a fala analítica (no âmbito
da associação livre) é cúmplice do inconsciente; é autêntica e espontânea, as palavras vão tecendo um fio que permeia os
conteúdos inconscientes  compõe um novo saber. Encontrar na análise não apenas um local de descarga mas um local de
ressignificação;
A ação da palavra na transferência produz uma elaboração de saber, pela palavra se faz falar o que não pode ser dito. (o sujeito
diz mais do que sabe); Na transferência a palavra ganha liberdade porque ela se desprende da literalidade;
Quando se recorre a palavra permite-se a liberação do afeto recalcado, este estranho obtém reconhecimento. (atribuição de
sentido à dor, dando-lhe mobilidade para que possa ser capturada pela palavra, posicionando-a numa circunstância possível ao
trabalho psíquico).
Na compulsão à repetição  é pela palavra que pode haver uma desconstrução do que foi cristalizado como obstáculo, e que
se confunde com o presente em forma de atuação.
É PRECISO QUE O SUJEITO FALANTE SEJA ESCUTADO NA TRANSFERÊNCIA, ISTO É, QUE ESCUTE A SI PRÓPRIO, PARA QUE O
CONFLITO SEJA ELUCIDADO. QUE POSSA SE VER NO ESTRANHO QUE NELE HABITA. O PASSADO É RESSIGIFICADO NO PRESENTE.
Trabalho lindo de mestrado  Espiridião barbosa neto (2010) O conceito de repetição na Psicanálise freudiana
Alguns comentários sobre a
Transferência
• Não é de mim que se trata – Você está amando/odiando alguém que eu represento nesse momento.
•Como se apaixonar por alguém que não conhece? (detectar o amor transferencial)
•Quem sou eu quando você me ama/odeia?
•O sujeito é capaz de depositar em mim, pessoas, expectativas, imagens...e eu vou ser capaz de devolver isso a você – não como realidade do
mundo mas como uma realidade psíquica. O sujeito procura no mundo o que faz sentido pra ele. (movimento importante)
•É uma oportunidade de devolver pro outro o jeito/forma que ele ama  é na análise que surge essa percepção de como eu funciono nos meus
relacionamentos (alicerçada nessa relação transferencial).
•A forma que ele ama e não o objeto de amor é que vai determinar a qualidade das relações (possibilidade de cura).
•Quando eu me interesso emocionalmente pela figura do analista eu começo a me “mostrar” para além da apresentação social (Às vezes de forma
discreta, elegante, sutil e outras vezes de forma explícita, escancarada...).
•A transferência é essencial para os processos de transformação.
•Trabalhar a transferência na análise permite que o sujeito elabore e ressignifique.
•Quando essa transferência é trabalhada, as relações fora da situação analítica (padrões de relacionamentos que se repetem pela vida afora etc.)
vão ficando menos permeadas por projeções do passado, vão se tornando mais reais.
•Através da interpretação dos conflitos e fantasias do inconsciente se vai desfazendo esses nós que amarram o presente ao passado;
Alguns comentários sobre a Transferência
•A transferência é amor  é a repetição, a atualização da história dos nossos amores com os nossos novos encontros.
•A gente repete na transferência modalidades, afetos, identificações, demandas, que formavam a nossa experiência de amor até
então, agora, com um novo personagem.
•A gente resiste a admitir o novo, a reconhecer que ali há uma contingência inédita. Ali vão se infiltrando padrões antigos, repetitivos
(que repetem as neuroses de cada um).
•A transferência é o “concentrado” das nossas neuroses; quando pegamos todas e elas e colocamos numa única relação;
•Freud descobriu como operar com as transferências; usar a transferência para curar nossos sintomas, para descobrir a verdade dos
nossos desejos, para re-historicizar a nossa experiência como sujeitos.
•Líder populista  Usa a transferência (o amor que a massa despende a ele) para controlar, regredir, manipular, para fazer com que
se atualize o amor infantil.
•Empresas (chefes, professores, médicos etc.)  a transferência vai depender dessa autoridade (aquilo que a gente constitui como
autoridade), de uma admiração;
• Relações dependenciais, tentação de se fazer servo do outro, de abrir mão do nosso desejo pela demanda do outro; (patologias da
transferência)
•No tratamento  auto-dissolução da transferência  Podemos nos livrar, superar, fazer o luto de um amor.
•(Dunker)
Breve comentário sobre o Recalque
Breve comentário sobre o Recalque
“ A teoria do recalque é a pedra angular sobre a qual repousa toda a estrutura da psicanálise” (Freud, História do
movimento psicanalítico, 1914).
Inicialmente Freud utilizava os termos defesa e recalque como sinônimos;
Recalque: deslocamento do investimento emocional da ideia contra a qual haja objeções e expulsão completa da
ideia da consciência na histeria (dois tipos de recalque, segundo Freud);
É uma operação (inconsciente) que está na gênese dos sintomas (neuróticos) e eles surgem por que há essa operação
de negação ocorrida no interior do Eu, praticada como um juízo pelo Eu; Uma negação que diz: esse pensamento,
esse afeto, esse desejo não é tolerado por mim; o sujeito então vai “dizer” a si mesmo: quero que isso saia,
esquecer disso, deixar de lembrar que isso aconteceu; colocar fora da consciência: produção de um recalque.
Tudo aquilo que é recalcado (simbolicamente) vai voltar simbolicamente: chistes, sonhos, atos falhos (retornos do
recalcado);
Entre essas operações vão se dando os processos de insight e tomada de consciência: o sujeito poderá ir
reconhecendo formas de desejo que não são admitidas;
A Transferência – Cap. 16 (POA)
• O emprego ou a interpretação adequada da transferência é um veículo importante e decisivo, por
meio do qual mudanças psíquicas permanentes podem ser feitas no curso da psicoterapia de
orientação analítica.
•Há menos concordância sobre como reconhecê-la, diferenciar as formas diversas, como, quando e
por que interpretá-la.
•Aqui (POA) ela é vista como CENTRAL ao processo terapêutico e à forma de trabalho do terapeuta.
• Fenômeno universal e a parte mais difícil do tratamento;
• Aparece no tratamento quando a relação paciente-terapeuta é afetada, de modo inconsciente, por
experiências revistas e remodeladas de relacionamentos passados e desenvolve-se além dos
modelos costumeiros de relação e sentimento interpessoal.
• Tanto paciente quanto terapeuta evidenciam manifestações de transferência.
A Transferência – Cap. 16 (POA)
• Atributo especial da situação de tratamento é facilitar a geração ou o surgimento de
fenômenos transferenciais; Fornecer um setting relativamente estável para a observação
desses fenômenos também é outro atributo;
•O analista tem consciência imediata de quando ela surge pela primeira vez? Ela afeta a maneira
de o paciente relacionar-se (sentimento e comportamentos) com o terapeuta;
•Quando se reconhece sua presença, elas já estavam ativas por algum período  transferência
vista retrospectivamente  Dificulta o reconhecimento das várias formas e manifestações.
• Neurose de transferência  tipo de relacionamento intenso com o analista, no qual elementos
do passado são revividos em uma nova edição. A transferência surge, desenvolve-se e progride
no decorrer de um tratamento. (Em Freud)
A Transferência – Cap. 16 (POA)
•Neurose de transferência (contemporaneidade) – Uma das várias manifestações de
transferência que tipicamente aparecem à medida em que o trabalho progride.
•Neurose de transferência  natureza do relacionamento do paciente com o terapeuta após
certo grau de evolução e elaboração da interação transferência-contratransferência, uma
progressão afetada pelas intervenções e comportamento do terapeuta.
• Forma
•Crianças e adolescentes – transferência x fatores do desenvolvimento precisam ser distinguidos;
terapeuta como objeto real ou objeto de transferência;
• Em pacientes mais jovens as formas de manifestação da transferência merecem mais atenção;
A Transferência – Cap. 16 (POA)
•5 tipos de transferência (Demonstrativo):
• Formas habituais de relacionamento
•Formas particulares de estabelecer vínculos interpessoais e padrões de interação tornam-se
aparentes no início da situação de tratamento (partes do caráter da pessoa). Seria uma
transferência mais geral – diferente daquela que é parte e consequência do trabalho terapêutico.
•Paciente inicialmente reage ao terapeuta com reserva, respeito e submissão. Gradualmente,
transforma-se em postura agressiva, desafiadora, não cooperativa e desagradável, sem que outras
alterações tenham ocorrido (Pode ser a forma com que o paciente habitualmente lida com figuras
de autoridade; Idealiza o papel do terapeuta antes de idealizar a pessoa do terapeuta);
•Transferência “pré-formada”: paciente foi afetado por algum conhecimento do terapeuta
(reputação, achados na internet etc.) (as expectativas e fantasias em relação ao terapeuta precisam
ser entendidas como tais – em relação ao terapeuta propriamente dito);
A Transferência – Cap. 16 (POA)
• Transferência predominantemente de relacionamentos presentes
•O paciente pode estar envolvido em algum conflito presente, sentir intensamente um desejo ou
ser apanhado em uma reação presente a uma pessoa importante. Parte disso pode reverberar
na situação de tratamento. Diferente das formas habituais – que podem aparecer em ciclos.
•Aqui o terapeuta é usado não porque se tornou a pessoa mais importante para o paciente
naquele momento mas pelo motivo oposto – ele não é a mais importante. (terapeuta como
pessoa segura para usar de determinada forma).
•Situação da mulher e marido (decepção, raiva e expectativas);
•O conflito atual muitas vezes ativa um antigo; De modo gradual a transferência de
relacionamentos presentes dá lugar à transferência predominantemente de experiências
passadas revividas.
A Transferência – Cap. 16 (POA)
• Transferência predominantemente de experiências passadas revividas.
•Os sentimentos em relação ao terapeuta e suas atitudes para com ele passam, agora, por uma
mudança significativa com respeito a um evento específico ou fragmento de material de
tratamento.
•É uma nova configuração que contém temas particulares do passado e na qual o terapeuta
desempenha um papel especial para o paciente.
A Transferência – Cap. 16 (POA)
• Neurose de transferência
•As outras formas de transferência se ampliarão e serão mais elaboradas dentro da chamada
neurose de transferência.
•Há uma fusão das manifestações de transferência episódicas em uma estrutura complexa de
manifestações relacionadas, entrelaçadas e sobrepostas. (intermitente)
• “Revisão da experiência anterior que ocorre com a revivência”. (aspecto qualitativo)
•Essa revisão sendo: novos significados criados pelas interações entre paciente e terapeuta;
A Transferência – Cap. 16 (POA)
• Neurose de transferência
• A transferência (independente da modalidade de relação transferencial) constitui um fenômeno presente desde o
início do tratamento. Ela corresponde no início ao deslocamento de sentimentos amistosos em relação ao analista,
nesse sentido, funciona como poderoso motor do progresso analítico (A aliança terapêutica é um aspecto especial
da transferência positiva);
•Cooperação (transferência positiva) x resistência (transferência erótica e transferência negativa) – atitudes da
transferência.
•Tanto quantos os sentimentos afetuosos, os hostis indicam a presença de um vínculo afetivo;
• O desenvolvimento da neurose de transferência marca um ponto decisivo na relação analítica, e provavelmente só
se viabiliza no momento em que a repressão já se encontra abrandada, em decorrência do processo terapêutico, de
modo que o paciente possa dirigir seus investimentos libidinais à pessoa do analista; Esse fenômeno é apenas um
aumento extraordinário dessa característica universal. (lente única que permite ao analista ampliar uma situação
psíquica de maneira privilegiada);
•Santos, 1994. A transferência na clínica psicanalítica: a abordagem freudiana.
A Transferência – Apontamentos de
Zimerman;
•Neurose de transferência
•É útil traçar uma diferença entre o surgimento na situação analítica de momentos transferenciais e a instalação de
uma neurose de transferência. Neste último caso, quer seja de aparecimento precoce ou tardio, o analisando vive
intensa e continuadamente uma forte carga emocional investida na pessoa do psicanalista, que transborda para
fora da sessão e lhe ocupa uma grande fatia do seu tempo e de seu espaço mental. O comum nesses casos é que o
paciente revive as suas experiências afetivas não com uma percepção de um como-se, de que está reproduzindo
antigas vivências equivalentes, mas com a convicção de um está havendo, de fato.
•A conceituação da transferência como sendo uma repetição de necessidades – que não foram compreendidas e
satisfeitas na devida época primitiva do desenvolvimento emocional – delega ao setting uma considerável
importância no processo analítico, porquanto esse passa a representar para o paciente um novo e singular espaço,
no qual ele poderá reexperimentar e transformar aquelas vivências emocionais traumáticas, mal resolvidas,
desestruturantes e representadas no ego de forma patogênica.

• Zimerman, D. E. (2009). Fundamentos Psicanalíticos: Teoria, Técnica, Clínica–Uma Abordagem Didática: Teoria, Técnica, Clínica–Uma Abordagem Didática.
Artmed Editora.
A Transferência – Cap. 16 (POA)
•Neurose infantil
•Neurose infantil – central no processo de tratamento; está no coração da transferência (em
última análise, os conflitos da neurose infantil é que são revividos e experimentados
novamente).
•Ela não é simplesmente reproduzida por sua revivência modificada na forma de eventos de
transferência, mas pode ser reconstruída pelo processo de interpretação da transferência.
•2 sentidos:
•I – Sentido historicamente original: grupo de conflitos específicos centrados nas questões
edípicas;
•II – Tal formulação permite incluir elementos pré-edípicos e pré-verbais nas manifestações de
transferência; inclusão de dificuldades pós-edípicas;
A Transferência – Cap. 16 (POA)
• Representação de fantasias inconscientes
•Transferência como representação de fantasias inconscientes -> Representação de experiências de fantasias presentes, da mesma maneira
que o brinquedo da criança é uma representação da elaboração de seus traumas em fantasia.
• Fantasias seriam inatas; representações libidinais e agressivas;
•A fantasia “é a forma como suas sensações e percepções reais, internas e externas, são interpretadas e representadas para ele próprio, em
sua mente”(...)
•“A temporalidade da fantasia é constante, é o chão do sujeito. Freud explora a relação do tempo com a fantasia, dizendo que a fantasia
entrelaça o passado, o presente e o futuro, pois o indivíduo vive uma situação no presente, que desperta um de seus desejos infantis mais
intensos. Com isso, a ideia investida por esse desejo do passado (infantil) é reativada, e então o indivíduo cria uma situação no futuro que
representa a realização do desejo.”
• São justamente essas fantasias que não se podem tornar conscientes que desencadeiam os sintomas neuróticos” (Camara, 2011)

•CAMARA, Gabriel. O trauma, a fantasia e o Édipo. Cogito,  Salvador ,  v. 12, p. 57-61,   2011

•A fantasia não é um sintoma e não pode ser dissolvida ou curada, mas sim atravessada, pois ela é uma construção que origina um sujeito;
Contratransferência
Contratransferência
• Conjunto das reações inconscientes do analista à pessoa do analisando e, mais particularmente, à transferência deste.
•Freud vê nela “a influência do doente sobre os sentimentos inconscientes do médico” e destaca que “nenhum analista vai
além do que os seus próprios complexos e resistências internas lhe permitem”. (Vem daí a necessidade do analista se
submeter a uma análise);
• Compreensão Pós-freudiana: Foi-se ampliando a atenção quanto a esse tema a medida em que também foi crescente o
entendimento sobre a importância da relação no tratamento analítico.
• Alguns autores consideram a contratransferência tudo o que da personalidade do analista pode intervir no tratamento, e
outros imitam aos processos inconscientes que a transferência do analisando provoca no analista.
•Objetivo da análise pessoal do terapeuta  Reduzir o mais possível as manifestações contratransferenciais, de modo que a
situação analítica seja estruturada como uma superfície projetiva, apenas pela transferência do paciente;
•O analista deve utilizá-las (controlando-as) no trabalho analítico (instrumento para interpretar as expressões do inconsciente
dos outros).
•A ressonância “de inconsciente a inconsciente” constitui a única comunicação autenticamente psicanalítica.
(La planche & Pontalis, 2008)
Contratransferência
•“Esse hiato de duas gerações de analistas que, virtualmente, silenciaram sobre a
contratransferência sugere que havia um medo e uma vergonha generalizados dos terapeutas
de exporem publicamente os seus sentimentos, porquanto estariam transgredindo as regras
vigentes da psicanálise, correndo o risco de serem “interpretados” pelos demais colegas de que
a reação contratransferencial era um indicador de que eles “deveriam retornar à análise”. Ainda
na atualidade, em meio a uma abundante literatura disponível sobre a contratransferência,
aparece com muito maior naturalidade a exposição de sentimentos do analista como os de ódio,
confusão, erotização e impotência, porém o narcisismo do analista dificilmente é reconhecido
por ele, o que indica a possibilidade de existir não só uma negação disso, como também uma
reação de vergonha e desejo de encobrir tal situação.”

Zimerman, 2009.
Contratransferência – Cap. 17 (POA)
• Um dos conceitos fundamentais para a prática da psicanálise e da psicoterapia de orientação
analítica;
• Temática pouco explorada por Freud (que destacou principalmente sua influência negativa
sobre o tratamento) e começou a ganhar espaço na literatura psicanalítica nos últimos 50 anos;
• Para Freud a contratransferência é um obstáculo à análise, que deve ser superado pelo analista.
(embora tenha destacado, posteriormente, uma conotação positiva, paterna em relação a
Ferenczi, seu discípulo). Seria responsável por “pontos cegos” dos terapeutas; (corrente clássica)
•Corrente totalística – O inconsciente do analista como instrumento da análise;
Contratransferência – Cap. 17 (POA)
•Ferenczi, Balint, Winnicott, Heimann e outros autores contribuíram para a ampliação desse campo;
•“Mais do que elaborar um conjunto de regras visando o aperfeiçoamento técnico no trabalho analítico, a
grande contribuição de Ferenczi foi trazer à luz o humano que há em todo profissional dedicado à pratica
psicanalítica. (Defensor da “elasticidade da técnica psicanalítica” – sentirmos com o paciente suas dores).
•“Aprender a suportar um sofrimento constitui um dos resultados principais da psicanálise” (Ferenczi, 1928).
• Ferenczi vai propor uma economia da interpretação, deixando, se possível, que o paciente realize sozinho ou
com a ajuda mínima do analista. (“Fanatismo da interpretação” – doença infantil do analista).
•Ferenczi chamou de “hipocrisia profissional” o ato do analista omitir de seu próprio paciente seus sentimentos
negativos em relação a ele; a autenticidade deve estar presente na totalidade da relação analítica. É nela que se
baseia a construção da confiança do paciente na pessoa do analista e no próprio tratamento, essenciais para
uma análise consistente. (Kezem, 2010 – Ferenczi e a psicanálise contemporânea).
Contratransferência – Cap. 17 (POA)
• Estudos com análises de crianças e da visão da relação mãe/bebê, sobre o tratamento de
pacientes mais perturbados (que geravam reações contratransferenciais mais acentuadas),
mudanças nas premissas da técnica (maior compreensão do fenômeno transferencial), alcances
e limitações da interpretação e importância do enquadre, cultura mais democrática no mundo
pós II guerra mundial, etc. contribuíram significativamente para a evolução do conceito e sua
importância no processo.
Contratransferência – Cap. 17 (POA)
• Conceito Clássico
•Na compreensão clássica, a contratransferência se restringe à reação inconsciente do analista à
transferência do paciente; Somente é tratada como contratransferência aquela parte do
relacionamento que se refere aos conflitos infantis e reprimidos do analista.
• Rejeição da ideia de que a contratransferência possa ser usada como instrumento terapêutico,
ressaltando que o analista não deve ter reações emocionais intensas com seu paciente,
procurando reforçar o conceito de empatia (seriam considerados apenas os aspectos positivos
da relação do analista com seu paciente).
• A ampliação do conceito clássico implicaria numa retirada da posição ideal de neutralidade do
terapeuta.
Contratransferência – Cap. 17 (POA)
• Conceito Totalístico
•Considera a contratransferência um fenômeno normal no processo terapêutico. Contém elementos
da realidade da relação e pode incluir aspectos neuróticos do analista, abrangendo aspectos
conscientes e inconscientes. Pode ser usada como instrumento de compreensão do paciente.
•Todos os sentimentos e atitudes do analista em relação ao paciente são considerados
contratransferência (alguns autores mais radicais sugerem que esses sentimentos devam ser
revelados aos pacientes).
•Alguns autores vão considerar a contratransferência um instrumento terapêutico e também um
obstáculo.
• Contratransferência normal x patológica (contraidentificação projetiva -o analista é levado a adotar
o papel em que o paciente tenta colocá-lo);
Contratransferência – Cap. 17 (POA)
• Conceito Totalístico
•“Um conceito totalístico da contratransferência faz justiça à concepção da situação analítica
como um processo de interação, no qual passado e presente de ambos os participantes, bem
como suas mútuas reações ao seu passado e presente, fundem-se numa única posição
emocional, envolvendo-os mutuamente” (Kernberg, 1965).
•Se o terapeuta utiliza suas reações emocionais para compreender o paciente, acaba tendo mais
liberdade para observar seus sentimentos.
•Contratransferência – instrumento diagnóstico (grau de regressão do paciente);
•Somente por meio de uma identificação com o paciente é que o analista poderá entender e
ampliar conscientemente suas percepções.
Contratransferência – Cap. 17 (POA)
• Conceito Totalístico
•“Um conceito totalístico da contratransferência faz justiça à concepção da situação analítica
como um processo de interação, no qual passado e presente de ambos os participantes, bem
como suas mútuas reações ao seu passado e presente, fundem-se numa única posição
emocional, envolvendo-os mutuamente” (Kernberg, 1965).
•Se o terapeuta utiliza suas reações emocionais para compreender o paciente, acaba tendo mais
liberdade para observar seus sentimentos.
•Contratransferência – instrumento diagnóstico (grau de regressão do paciente);
•Somente por meio de uma identificação com o paciente é que o analista poderá entender e
ampliar conscientemente suas percepções.
Contratransferência – Cap. 17 (POA)
• Com a visão totalística, passou-se a evidenciar cada vez mais, na situação analítica, o aspecto
interativo da relação entre analista e paciente, com a consequente constatação da importância
do envolvimento da pessoa e da mente do terapeuta no processo de tratamento.
•Discussão importante segue em aberto: sobre se o paciente devia ser informado dos
sentimentos contratransferenciais ou não.
•O terapeuta tem de tolerar e elaborar, dentro de si mesmo, as próprias questões conscientes e
inconscientes, bem como seus sentimentos em relação ao paciente, sujeitando-os ao seu
processo de pensamento, antes de utilizá-los na formulação da interpretação.
Contratransferência – Cap. 17 (POA)
• Contratransferência específica
•Sugere-se que se denomine contratransferência apenas as reações específicas do analista às qualidades
específicas do paciente. (Diferenciar esse processo da sua própria transferência em relação ao paciente).
•Percepção da contratransferência através de um “mal-estar emocional” – o primeiro passo deve ser
tentar compreender qual o papel que o paciente tem na gênese desse sentimento.
•Evitar uma interpretação expulsiva – apenas para nos livrar desse mal-estar. Trata-se de poder tolerar
melhor as reações contratransferenciais, “ter uma relação diferente, mais amigável, com suas respostas
contratransferenciais internas” não as considerando algo indesejável, mas uma parte do processo de
compreensão do paciente, passando pela empatia, intuição e pelo trabalho de elaboração da
constratransferência.
•Etapa do ciclo vital, gênero, questões de personalidade (paciente e terapeuta) podem influenciar a
contratransferência;