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TRABALHO ALIENADO

“A desvalorização do homem aumenta em


proporção direta com a valorização do
mundo das coisas.” Karl Marx
Trechos do Poema “Operário em
construção” Vinicius de Moraes
Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as casas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão: Comotampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.
Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
O operário emocionado
Olhou sua própria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construçãoE um fato novo se viu
E olhando bem para ela
Que a todos admirava:
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundoO que o operário dizia
Outro operário
Coisa que fosse mais bela.
escutava.
E foi assim que o operário
Do edifício em construção
Que sempre dizia sim
Começou a dizer não.
E aprendeu a notar coisas
A que não dava atenção:
Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uísque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.
Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo vário.
Disse, e fitou o operário
De sorte que o foi levando Que olhava e que refletia
Ao alto da construção Mas o que via o operário
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região O patrão nunca veria.
E apontando-a ao operário O operário via as casas
Fez-lhe esta declaração:
– Dar-te-ei todo esse poder
E dentro das estruturas
E a sua satisfação Via coisas, objetos
Porque a mim me foi entregue Produtos, manufaturas.
E dou-o a quem bem quiser.
Dou-te tempo de lazer Via tudo o que fazia
Dou-te tempo de mulher. O lucro do seu patrão
Portanto, tudo o que vês
Será teu se me adorares
E em cada coisa que via
E, ainda mais, se abandonares Misteriosamente havia
O que te faz dizer não. A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!
– Loucura! – gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?
– Mentira! – disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.

Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construído
O operário em construção.
MANUSCRITOS
ECONÔMICO-FILOSÓFICOS
DE 1844

Primeiro Manuscrito
1.Salário do trabalho
2. Lucro do capital
3. Renda da terra
______________________

4. Trabalho alienado
TRABALHADOR Objetiva-se OBJETO

Fixa-se PRODUTO DO TRABALHO

Põe sua vida MERCADORIA

Exterioriza-se
Plasma-se

CAPITALISTA/PATRÃO
Homem estranho; Manda; Domina a
produção e o produto; Proprietário da
atividade sem executar a ação.

O produto do trabalho é alheio/ estranho/ oposto/


independente/ autônomo/ hostil/ antagônico/
inimigo/ externo... ao trabalhador.
TRABALHO ALIENADO:
trabalho forçado/ imposto/ não-voluntário/
sacrifício/ martírio/ peste da qual se foge/

não é a satisfação de uma necessidade/


meio de satisfação de outras necessidades/
produtor de servidão/
negação e infelicidade do homem/
exterior ao trabalhador/
não e uma característica do trabalhador/
um mal que não produz desenvolvimento
livre das energias físicas e mentais/
Alienação em relação:
1. Ao produto do trabalho: objeto estranho/dominador
2. À produção: atividade independente de sua decisão.
3. Ao ser genérico do homem: do corpo e intelecto
humano (de sua universalidade = espécie e natureza) a
vida se torna meio de vida.
4. Ao outro ser humano: oposição aos outros homens
(dimensão social).
5. Ao consumo: incentivado de forma artificial (crédito,
dias especiais de consumo, fomentar o desejo, promessa
da loteria, telenovelas), individualismo, consumismo,
consumo como fim em si mesmo, acrítico, sem
contestação.
6. Ao lazer: Prazer comprado (fuga da rotina, fadiga),
sociedade do espetáculo, modismos, perda da gratuidade.
Quanto maior é o volume da produção
Maior é a penúria do trabalhador

Quanto mais riquezas o trabalhador produz


Mais pobre ele se torna

Quanto maior é o poder da produção


Mais fraco e impotente se torna o trabalhador
Quanto maior é o número de bens produzidos
Mais o trabalhador se torna uma mercadoria barata

Quanto mais valorizado é o mundo das coisas


Mais desvalorizado o mundo dos homens

Quanto mais o trabalhador põe sua vida no produto


Menos ele pertence a si mesmo
Quanto maior é o produto
Menor é o trabalhador

Quanto mais o trabalhador desenvolve o mundo exterior


Mais degrada seu mundo interior

Quanto mais o trabalhador produz


Menos consume
Quanto mais valores são criados pelo trabalhador
Mais desprezível ele se torna

Quanto mais refinado o produto do trabalho


Mais desfigurado se torna o trabalhador

Quanto mais civilizado o trabalho


Mais desumano o trabalhador
Quanto mais magnífico e pleno de inteligência o
trabalho
Menos inteligente e mais escravo da natureza se
torna o trabalhador

Produz coisas boas (inteligência, beleza,


palácios) para os ricos
Produz escassez (estupidez, cretinice,
deformidade, choupanas) para o
trabalhador
Se os trabalhadores tudo constroem porque
não são eles que tudo possuem?
Se

Se os trabalhadores são os que efetivamente


constroem a história porque seus nomes não
constam nos grandes feitos?
Bertolt Brecht (1898-1956)

QUEM FAZ A HISTÓRIA

Quem construiu a Tebas das sete portas?


Nos livros constam os nomes dos reis.
Os reis arrastaram os blocos de pedra?
E a Babilônia tantas vezes destruída
Quem ergueu outras tantas?
Em que casas da Lima radiante de ouro
Moravam os construtores?
Para onde foram os pedreiros
Na noite em que ficou pronta a Muralha da China?
A grande Roma está cheia de arcos do triunfo.
Quem os levantou?
Sobre quem triunfaram os Césares?
A decantada Bizâncio só tinha palácios
Mesmo na legendária Atlântida,
Na noite em que o mar a engoliu,
Os que se afogavam gritaram por seus escravos.
O jovem Alexandre conquistou a Índia.
Ele sozinho?
César bateu os gauleses,
Não tinha pelo menos um cozinheiro consigo?
Felipe de Espanha chorou quando sua armada naufragou.
Ninguém mais chorou?
Frederico II venceu a Guerra dos Sete Anos.
Quem venceu além dele?
Uma vitória a cada página.
Quem cozinhava os banquetes da vitória?
Um grande homem a cada dez anos.
Quem pagava as despesas?
Tantos relatos.
Tantas perguntas.