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O riscos do futuro do trabalho

Alexandre Ferraz
Economista (PUC-SP) e Doutor em Ciência Política (USP)
Técnico do Dieese e Prof. Voluntário do IPOL/UNB
O moto perpetuo do capitalismo
• O capitalismo depende da
inovação para se reproduzir, tal
como se aprende do conceito de
“destruição criadora” de Joseph
Schumpeter (1911)

• A inovação “... incessantemente


revoluciona a estrutura
econômica a partir de dentro,
incessantemente destruindo a
velha, incessantemente criando
uma nova” (1942)
Questões iniciais
• A historia da evolução tecnológica nos mostra que ela cria
ganhadores e perdedores “imediatos”.
• O progresso tecnológico possui efeitos intencionais diretos e
efeitos não intencionais (By-produtc), o que pode indefinir os
perdedores e ganhadores no longo prazo.
• Não há porque sermos “a priori” pessimistas, desde a
invenção da maquina a vapor (1765) e da privada moderna
(1885) a qualidade de vida da humanidade tem melhorado.
Os ludistas estavam errados, é preciso
combater o avanço tecnológico?
• 'O Fim dos Empregos', Jeremy Rifkin
(1995)
“Apoiado em um estudo da Federação
Internacional dos Metalúrgicos de
Genebra, Rifkin afirma que, dentro de
trinta anos, menos de 2% da atual força
de trabalho será suficiente para cobrir a
produção de todos os bens necessários
ao atendimento da demanda total” (De
Paula, 1998)
O aumento da produtividade e o uso da
maquina reduzem a necessidade de
trabalho humano , deixando duas
saídas: reduzir a jornada ou reduzir o
numero de empregados.
Unemployment by sex and age - annual average [une_rt_a]
Eurostat
O que vai ocorrer com o trabalho?
• Será que todas as tarefas humanas serão realizadas por um
robô, ou por um computador no futuro próximo?
• A mudança tecnológica deve levar a transformação de muitas
profissões e a extinção e criação de novas, muito mais do que
a simples destruição do emprego.
• Muitas habilidades e conhecimentos devem se tornar
obsoletos, mas outros ganharão proeminência.
• As maquinas são ótimas em trabalhos repetitivos e rotineiros,
como aqueles descritos pelos algoritmos. Mas e os trabalhos
que exigem emotividade, simpatia, empatia?
Tipo de trabalho em plataforma digital

Cloud work (web-based digital labour) Gig work (location-based digital labour)

● 1. freelance marketplaces ● 4. accommodation


● 2. microtasking crowd work ● 5. transportation and delivery services
● 3. contest-based creative crowd (gig work)
● 6. household services and personal
work
services (gig work)

Florian A. Schmidt (2017) Digital Labour Markets in the Platform Economy Mapping the Political
Challenges of Crowd Work and Gig Work. FRIEDRICH-EBERT-STIFTUNG
A “uberização” do trabalho

● “Externalização” dos empregados que passam a realizar suas tarefas sob demanda mediante um
app
● Ministro da Saúde, Jeremy Hunt: “uma nova oferta de trabalho flexível baseada em apps para
seus funcionários” de enfermagem.
● “Os serviços públicos podem se tornar o próximo Uber, utilizando a economia ‘gig’ para
empregar médicos suplentes e prover professores”
● "Isso é, sem dúvida, uma forma de o NHS economizar custos ao permitir que pague salários só
em momentos específicos em que as enfermeiras são necessárias”, afirma Mark Graham,
especialista em informatização do trabalho do Instituto de Internet da Universidade de Oxford.
● Graham explica que esta flexibilidade não é necessariamente uma boa notícia para as próprias
enfermeiras. “Apesar de permitir flexibilidade, algo que alguns trabalhadores desejam, sem
dúvida criará condições de trabalho mais precárias para os trabalhadores”.

‘Uberização’ do emprego chega ao setor da saúde Ministro britânico


anuncia que associação de enfermagem trabalhará sob demanda de
um ‘app Javier Salas 14 OUT 2017 El Pais
O Trabalho Flexivel

● A flexibilidade na organização do trabalho


● Trabalho temporário
torna óbvio que a globalização intensificou o
● Trabalho terceirizado poder de barganha dos empresários, que
encontram cada vez mais espaço para definir
● Trabalho de consultoria
as regras do mercado de trabalho e a lógica
● Auto-emprego empresarial em favor de retornos financeiros
crescentes (Bauman, 1999; Beck, 1999).
● Emprego atípico ● Esta precariedade se materializa na forma de
● Trabalho informal cortes salariais, abolição de leis que protegem
os salários dos trabalhadores e problemas que
envolvem negociações trabalhistas com
profissionais menos qualificados (Chahad,
2003; Menezes, 2011).
Problemas regulatórios do trabalho em plataforma
● O desafio mais comun é a falta de
capacidade de exercer os diretios
coletivos e individuais na pratica
● Fragmentação das unidades de
barganha, quando há muitos
fornecedores de mão de obra
● Os trabalhadores têm medo de
retaliação, não renovação de
contrato, quando se filiam ao
sindicato
● Os trabalhadores ganham menos
nesta modalidade de contrato
Novos riscos e doenças de trabalho
• The first recorded robot-related
death took place in 1971, at a
Ford car production line in
Michigan. Robert Williams, an
assembly line worker, was killed
when a robot arm slammed into
him as he was gathering parts in a
A death in Alabama exposes the American factory dream
storage facility.
On June 18 2016 a robot that Elsea was overseeing at the Ajin • The second known case was in
USA auto parts plant in Cusseta, Alabama, stopped moving. At
the age of 20, she was engaged to be married and had bills to Japan in 1981, when Kenji Urada,
pay . She and three colleagues tried to get it going, stepping
inside the cage designed to protect workers from the an engineer at a Kawasaki factory,
machine, according to the federal Occupational Safety and
Health Administration. When the robot restarted abruptly,
was pushed into a grinding
Elsea was crushed. She died the next day when she was taken machine by a broken robot he
off a life-support machine. The Financial Times Limited 2018.
was working on.
Como regular a conivência entre
trabalhadores e robôs?
As 4 leis da ROBOTICA:
• 0ª Lei: um robô não pode causar mal à
humanidade ou, por omissão, permitir
que a humanidade sofra algum mal.
• 1ª Lei: Um robô não pode ferir um ser
humano ou, por inação, permitir que um
ser humano sofra algum mal.
• 2ª Lei: Um robô deve obedecer as ordens
que lhe sejam dadas por seres humanos
exceto nos casos em que tais ordens
entrem em conflito com a Primeira Lei.
• 3ª Lei: Um robô deve proteger sua
própria existência desde que tal proteção
não entre em conflito com a Primeira ou
Segunda Leis.
Isaac Asimov
Folha de São Paulo
25.nov.2018

• Crise no emprego
eleva em 1,6 milhão o
número de consultas
psiquiátricas
• Entre 2014 e 2017,
busca por
atendimentos avançou
54%; afastamentos já
têm alta de 12% no
ano
O número de acordos coletivos cai 21%
e de convenções 17% até outubro de
2018.

O que vem ocorrendo no mercado de trabalho


com a reforma trabalhista?
A reforma previa a redução da
informalidade e a geração de emprego.
Taxa de informalidade (em %) Número de trabalhadores desocupados

40.1 13,689,159
39.4 39.6 39.4 12,961,072
12,310,637
12,965,972
12,492,139
39.1

3T17 4T17 1T18 2T18 3T18 3T17 4T17 1T18 2T18 3T18
Fonte: IBGE. Pnad Contínua
Pessoas de 14 anos ou mais de idade ocupadas no setor
privado (em mil pessoas)

No setor privado, o 2º trimestre 2018 3º trimestre 2018


emprego protegido
41,677
perdeu 349 mil 40,429
trabalhadores.

O emprego 35,132 34,783


desprotegido aumentou
em 1,2 milhão de
trabalhadores.
Emprego protegido Emprego desprotegido

Fonte: IBGE - Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua trimestral


Precarização na terceirização ...
Setores
Setores Tipicamente
Tema Tipicamente
Terceirizados
Contratantes
Rotatividade 28,80% 57,70%
Tempo médio de duração do
70,3 meses 34,1 meses
vinculo empregatício
Jornada de trabalho de 44
61,60% 85,90%
horas
Afastamento por acidentes de
6,10% 9,60%
trabalho
Remuneração R$ 2.639,00 R$ 2.021,00 (-23,4%)

A perspectiva é que se amplie este cenário com a


terceirização irrestrita
Fonte: IPEA 2017. Elaboração DIEESE.
Negociação Coletiva e Dialogo Social

Os estados precisam ter políticas e programas voltados para incluir os


trabalhadores que perderam seus postos de trabalho por causa do  avanço
tecnológico.
A introdução de novas tecnologias não pode se dar ao custo do desemprego de
milhares de homens e mulheres atingidos pelas inovações.
Isso significa que a adoção de novas formas de produção não pode ser feita à
revelia dos sindicatos e das comunidades que serão impactadas pelas mudanças.
Para isso é preciso construir amplos processos de negociação e diálogo que
levem ao bem comum e onde a sociedade sinta-se representada.
As inovações devem contribuir para a melhoria dos empregos, das condições de
vida e da construção de um novo ser humano.
Principais temas apresentados pela bancada
laboral nas mesas de negociação acompanhadas
pelo DIEESE
Homologação no sind... 34%
Terceirização da atividad... 22%
Demissão col... 13%
Parcelamento de f... 13%
Representação do sind... 13%
Insalubridade do trabalho da ges... 9%
Rescisão contratual de comum a... 9%
Contratação de PJ ou Autô... 6%
Trabalho intermi... 6%
Banco de horas em acordo indiv... 3%
Horas in it... 3%

Fonte: Dieese - Pesquisa sobre os impactos da reforma trabalhista nas negociações coletivas. 2018
Exemplos de Acordos – Trabalho Remoto

Convenção coletiva Acordo coletivo


Exemplo de Acordos – Novas Tecnologias

Acordo Coletivo Convenção Coletiva

O levantamento feito no Mediador do Dieese mostrou que em 2018 foram celebrados 21


acordos com clausulas sobre “introdução de novas tecnologias”, e 26 com clausulas
sobre “trabalho remoto”
Qualificação e Treinamento

● É preciso um grande investimento


"When you work at a real job, you are
em educação, formação e
given time to learn and make
conscientização para capacitar os
mistakes and are given feedback, but
trabalhadores para essa nova era.
in crowdwork, the first time you make
● Os trabalhadores devem ser
a mistake (usually for a task that has
capazes de realizar as tarefas
vague instructions) you are rejected
propriamente humanas e que não
and maybe even blocked" - AMT
podem ser realizadas por uma
worker
máquina ou computador.
● As máquinas ficam obsoletas, mas
não podemos admitir a
obsolescência humana.
Emprego fora do padrão apresenta riscos para trabalhadores, empresas,
mercados de trabalho e sociedade

● Insegurança: Ciclo vicioso. Uma vez que entra neste modo o trabalhador
transita do desemprego para o NSE, não mais para o emprego formal.
● Salário: O salário chega a ser 30% menor
● Horas: Baixo controle sobre a jornada dificulta arranjar outro trabalho para
complementar a renda
● Acidentes de trabalho: a taxa é maior entre os NSE devido ao menor
investimento em qualificação, treinamento, etc
● Proteção social: cobertura limitada, geralmente não encontra amparo nos
programas voltados para o trabalho formal tradicional
● Treinamento: a empresa investe menos no treinamento e qualificação deste
empregados, rebaixando a evolução funcional e a carreira
● Representação e direitos: mais sujeitos a discriminação, trabalho forçado,
restrição a livre associação, e ao direito a negociação coletivo
Fomentando o Futuro do Trabalho Descente

● Obstruindo lacunas de regulamentação: Garantir a igualdade de tratamento para os


trabalhadores
● Fortalecimento da negociação coletiva: É necessário esforço para construir a capacidade dos
sindicatos para negociação coletiva, incluindo a organização e representação de trabalhadores
nas novas forma de contratação. Alianças entre sindicatos e outras organizações e movimentos
sociais podem fazer parte de respostas coletivas a questões de interesse para trabalhadores não
padronizados e padrão.
● Fortalecimento da proteção social: Os países devem fortalecer e, às vezes, adaptar-se seus
sistemas de proteção social para garantir que todos os trabalhadores se beneficiem da proteção
social.
● Instituindo políticas sociais e de emprego para gerenciar os riscos sociais e de transição: Os
programas de seguro-desemprego devem cobrir uma gama mais ampla de contingências, tais
como redução de horas de trabalho, ampliação dos programas de qualificação.

Non-standard employment around the world: Understanding challenges, shaping prospects


International Labour Office – Geneva: ILO. 2016
Os frutos do progresso

Precisamos garantir que a os benefícios da introdução de novas tecnologias não


alimentem a desigualdade e a concentração de riqueza.
O conhecimento atual não é obra apenas individual, mas social, fruto de milhares
de anos de conhecimento acumulado da humanidade.
A globalização tecnológica deve ser inclusiva e abrir novas perspectivas para os
trabalhadores.
É necessário um amplo diálogo entre o movimento sindical patronal e dos
trabalhadores, movimentos sociais, comunitários e religiosos, comprometidos
com o desenvolvimento sustentável, inclusivo e solidário para viabilizar
propostas globais, regionais, nacionais e locais que possam responder aos novos
desafios do desenvolvimento com responsabilidade social e ambiental.
De Masi, Domenico

● Não há nada que possa ser feito: o aumento de potência da tecnologia é muito mais rápido do que
a capacidade de invenção de novos empregos. É preciso portanto refundar os modelos de vida e
de produção. Quinze anos equivalem a menos de quatro legislaturas, que me parecem poucas
para conseguir liquidar os velhos modelos, tão caros aos nossos políticos e aos conselheiros
econômicos que os inspiram. Eles continuam a se iludir pensando que a tartaruga da criação de
empregos possa alcançar e superar o Aquiles do progresso tecnológico.
● Para os jovens do sul da Itália, por exemplo, assim como para os rapazes brasileiros que citei
antes, inventam-se ocupações ou empreguinhos que, em vez de ser úteis só servem para fazê-los
mudar de lugar na coluna estatística: de ''desempregados'' para "empregados''. E para lhes
proporcionar uma certa renda. Esta é uma solução tipicamente ''industrial'' que aposta tudo nos
novos investimentos produtivos. Mas, numa ótica pós-industrial, o maior investimento consiste na
formação, no conhecimento, no saber.
● Portanto, em vez de dar um milhão de liras por mês a um jovem em troca de uma atividade inútil e
banal, poderia ser dada a eles a mesma soma, mas para permitir-lhes, como já disse, prosseguir
nos estudos.
● Eu realmente espero que até lá se tenha, finalmente, compreendido que é melhor que todos
trabalhem quinze horas por semana, come Keynes já tinha sugerido, em vez de quarenta horas
para uns e zero para outras.