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Concepção de saúde-doença e

o cuidado em saúde
Para refletir
a) O que significa ter saúde? O que contribui
para que as pessoas tenham saúde?
b) O que significa estar doente? O que favorece
o adoecimento das pessoas?
c) O que você faz quando adoece? O que
significa para você ser cuidado?
d) Como os trabalhadores de saúde interferem
no processo saúde doença das pessoas?
Doença
• A doença não pode ser compreendida apenas
por meio das medições fisiopatológicas, pois
quem estabelece o estado da doença é o
sofrimento, a dor, o prazer, enfim os valores e
sentimentos expressos pelo corpo subjetivo
que adoece (CANGUILHEM; CAPONI apud
BRÊTAS e GAMBA, 2006).
Doença
• “Para Evans & Stoddart (1990) a doença não é mais que um constructo
que guarda relação com o sofrimento, com o mal, mas não lhe
corresponde integralmente.
• Quadros clínicos semelhantes, ou seja, com os mesmos parâmetros
biológicos, prognóstico e implicações para o tratamento, podem afetar
pessoas diferentes de forma distinta, resultando em diferentes
manifestações de sintomas e desconforto, com comprometimento
diferenciado de suas habilidades de atuar em sociedade.
• O conhecimento clínico pretende balizar a aplicação apropriada do
conhecimento e da tecnologia, o que implica que seja formulado nesses
termos. No entanto, do ponto de vista do bem-estar individual e do
desempenho social, a percepção individual sobre a saúde é que conta
(EVANS; STODDART, 1990).” (OLIVEIRA; EGRY, 2000).
Saúde
• A saúde é silenciosa, geralmente não a percebemos em sua plenitude; na
maior parte das vezes apenas a identificamos quando adoecemos. É uma
experiência de vida, vivenciada no âmago do corpo individual.
• Ouvir o próprio corpo é uma boa estratégia para assegurar a saúde com
qualidade, pois não existe um limite preciso entre a saúde e a doença,
mas uma relação de reciprocidade entre ambas; entre a normalidade e a
patologia, na qual os mesmos fatores que permitem ao homem viver
(alimento, água, ar, clima, habitação, trabalho, tecnologia, relações
familiares e sociais) podem causar doenças.
• Essa relação é demarcada pela forma de vida dos seres humanos, pelos
determinantes biológicos, psicológicos e sociais. Tal constatação nos
remete à reflexão de que o processo saúde-doença-adoecimento ocorre
de maneira desigual entre os indivíduos, as classes e os povos, recebendo
influência direta do local que os seres ocupam na sociedade.
(BERLINGUER apud BRÊTAS e GAMBA, 2006).
Saúde
• É necessário partir da dimensão do ser, pois é ele
que ocorrem as definições do normal ou patológico.
• O considerado normal em um indivíduo pode não
ser em outro; não há rigidez no processo.
• O ser humano precisa conhecer-se, necessita saber
avaliar as transformações sofridas por seu corpo e
identificar os sinais expressos por ele. Esse processo
é viável apenas na perspectiva relacional, pois o
normal e o patológico só podem ser apreciados em
uma relação.
Saúde
• Torna-se a capacidade que o ser humano tem
de gastar, consumir a própria vida. É
importante destacar que a vida não admite a
reversibilidade, ela aceita apenas reparações.
Cada vez que o indivíduo fica doente, está
reduzindo o poder que tem de enfrentar
outros agravos; ele gasta seu seguro biológico,
sem o qual não estaria vivo.
(BRÊTAS e GAMBA, 2006).
Processo Saúde-Doença
• Um novo instrumento intelectual para a apreensão da saúde e
da doença deve levar em conta a distinção entre a doença, tal
como definida pelo sistema da assistência à saúde – e a saúde,
tal como percebida pelos indivíduos.

• A dimensão do bem-estar, um conceito maior, no qual a


contribuição da saúde não é a única e nem a mais importante.

• O sofrimento experimentado pelas pessoas, suas famílias e


grupos sociais não corresponde necessariamente à concepção
de doença que orienta os provedores da assistência, como os
profissionais da Estratégia Saúde da Família.
Processo Saúde-Doença
• Para a superação dos modelos causais clássicos, centrados em ações
individuais, como os métodos diagnósticos e terapêuticos, a vacinação, a
educação em saúde, ainda que dirigidos aos denominados grupos de risco,
haveria que privilegiar a dimensão coletiva do fenômeno saúde-doença, por
meio de modelos interativos que incorporassem ações individuais e coletivas.

• Uma nova maneira de pensar a saúde e a doença deve incluir explicações


para os achados universais de que a mortalidade e a morbidade obedecem a
um gradiente, que atravessa as classes socioeconômicas, de modo que
menores rendas ou status social estão associados a uma pior condição em
termos de saúde. Tal evidência constitui-se em um indicativo de que os
determinantes da saúde estão localizados fora do sistema de assistência à
saúde.
(EVANS; STODDART, 2003; SCHRAIBER; MENDES-GONÇALVES, 1996 apud
OLIVEIRA; EGRY, 2000).
• Para Gadamer (apud BRÊTAS e GAMBA, 2006), saúde e doença não
são duas faces de uma mesma moeda. De fato, se considerarmos
um sistema de saúde, como, por exemplo, o SUS, é possível verificar
que as ações voltadas para o diagnóstico e tratamento das doenças
são apenas duas das suas atividades. Inclusão social, promoção de
equidade ou de visibilidade e cidadania são consideradas ações de
saúde.

• O entendimento da saúde como um dispositivo social relativamente


autônomo em relação à ideia de doença, e as repercussões que este
novo entendimento traz para a vida social e para as práticas
cotidianas em geral e dos serviços de saúde em particular, abre
novas possibilidades na concepção do processo saúde e doença.
Modelos explicativos do processo de
saúde, doença e cuidado:
• Modelo mágico-religioso ou xamanístico
A visão mágico-religiosa sobre a saúde e a doença e sobre como
cuidar era a predominante na Antiguidade. Os povos da época
concebiam as causas das doenças como derivadas tanto de
elementos naturais como de espíritos Sobrenaturais.
 O adoecer era concebido como resultante de transgressões de
natureza Individual e coletiva, sendo requeridos, para reatar o
enlace com as divindades, processo
 As liderados pelos sacerdotes, feiticeiros ou xamãs (H , 2004). As
erzlich

relações com o mundo natural se baseavam em uma cosmologia


que envolvia deuses e espíritos bons e maus, e a religião, nesse
caso, era o ponto de partida para a compreensão do mundo e de
como organizar o cuidado.
Modelos explicativos do processo de
saúde, doença e cuidado:
• Modelo holístico
 As medicinas hindu e chinesa, também na Antiguidade, traziam uma nova forma
de compreensão da doença. A noção de equilíbrio é que vai dar origem à
medicina holística. Esta noção associa a ideia de “proporção justa ou adequada”
com a saúde e a doença. A saúde era entendida como o equilíbrio entre os
elementos e humores que compõem o organismo humano. Um desequilíbrio
desses elementos permitiria o aparecimento da doença.
 A medicina holística teve grandes contribuições de Alcmeon (século V a.C.), para
quem o equilíbrio implicava duas forças ou fatores na etiologia da doença. Esse
filósofo partilhava as ideias de Heráclito, para quem os opostos podiam existir
em equilíbrio dinâmico ou sucedendo-se uns aos outros (Herzlich, 2004). A causa
do desequilíbrio estava relacionada ao ambiente físico, tais como: os astros, o
clima, os insetos etc.
 O cuidado deveria compreender o ajuste necessário para a obtenção do
equilíbrio do corpo com o ambiente, corpo este tido como uma totalidade.
Cuidado, em última instância, significa a busca pela saúde que, nesse caso, está
relacionada à busca do equilíbrio do corpo com os elementos internos e
externos.
Modelos explicativos do processo de
saúde, doença e cuidado:
• Modelo empírico-racional (hipocrático)
 A visão mágico-religiosa sobre a saúde e a doença e sobre como
cuidar era a predominante na Antiguidade. Os povos da época
concebiam as causas das doenças como derivadas tanto de
elementos naturais como de espíritos sobrenaturais.
 O adoecer era concebido como resultante de transgressões de
natureza individual e coletiva, sendo requeridos, para reatar o
enlace com as divindades, processos liderados pelos sacerdotes,
feiticeiros ou xamãs (Herzlich, 2004).
 As relações com o mundo natural se baseavam em uma
cosmologia que envolvia deuses e espíritos bons e maus, e a
religião, nesse caso, era o ponto de partida para a compreensão
do mundo e de como organizar o cuidado.
Modelos explicativos do processo de
saúde, doença e cuidado:
•Modelo holístico
As medicinas hindu e chinesa, também na Antiguidade, traziam uma nova forma de
compreensão da doença. A noção de equilíbrio é que vai dar origem à medicina holística.
Esta noção associa a ideia de “proporção justa ou adequada” com a saúde e a doença.
A saúde era entendida como o equilíbrio entre os elementos e humores que compõem o
organismo humano. Um desequilíbrio desses elementos permitiria o aparecimento da
doença.
A medicina holística teve grandes contribuições de Alcmeon (século V a.C.), para quem o
equilíbrio implicava duas forças ou fatores na etiologia da doença. Esse filósofo
partilhava as ideias de Heráclito, para quem os opostos podiam existir em equilíbrio
dinâmico ou sucedendo-se uns aos outros (Herzlich, 2004). A causa do desequilíbrio
estava relacionada ao ambiente físico, tais como: os astros, o clima, os insetos etc.
De acordo com tal visão, o cuidado deveria compreender o ajuste necessário para a
obtenção do equilíbrio do corpo com o ambiente, corpo este tido como uma totalidade.
Cuidado, em última instância, significa a busca pela saúde que, nesse caso, está
relacionada à busca do equilíbrio do corpo com os elementos internos e externos.
Modelos explicativos do processo de
saúde, doença e cuidado:
• Modelo empírico-racional (hipocrático)
 A explicação empírico-racional tem seus primórdios no Egito (3000 a.C.).
 A tentativa dos primeiros filósofos (século VI a.C.) era encontrar
explicações não sobrenaturais para as origens do universo e da vida,
bem como para a saúde e a doença. Hipócrates (século VI a.C.)
estabeleceu a relação homem/meio com o desenvolvimento de sua
Teoria dos Humores, teoria a qual defendia que os elementos água,
terra, fogo e ar estavam subjacentes à explicação sobre a saúde e a
doença (Herzlich, 2004).
 Saúde, na concepção hipocrática, é fruto do equilíbrio dos humores; a
doença é resultante do desequilíbrio deles, e o cuidado depende de uma
compreensão desses desequilíbrios para buscar atingir o equilíbrio.
Modelo Biomédico
Saúde é definida negativamente:

Ausência de doença
Ausência defeitos em um sistema físico
Aplica-se indiferentemente a todas as espécies
Livre de valores

Patologia Clínica médica


Modelo Biomédico

Patologia: mecanismo etiopatogênico

Infecciosas Não-infecciosas
Fatores etiológicos
Risco Fatores de risco
Multicausalidade

Clínica Médica: tempo de duração

Agudas Crônicas
Modelo Processual
História Natural da Doença
Ambiente Interno

Fatores hereditários ou congênitos


Ambiente Externo ou Defesas específicas
Alterações organicas já existentes
Meio ambiente
Modelo Sistêmico

Diarréias Desnutrição
Determinação Social
As oportunidades – probabilidades com que contam as
pessoas para satisfazerem suas necessidades e desejos
não diferem de forma aleatória, nem devido a outros
fatores ambientais, genéticos ou biológicos. São
calculadamente diferentes principalmente porque tem
sua base na estrutura social, especialmente nos
processos de produção e distribuição de bens
escassos.

Potencialidades Riscos

PROCESSO SAÚDE-DOENÇA
Condições de Trabalho
Inserção na estrutura ocupacional

POLÍTICAS SALÁRIO
MODO DE VIDA
PÚBLICAS

CONDIÇÃO ESTILO DE VIDA


DE VIDA • Comportamentos
• Hábitos
• Atitudes
CONCEPÇÃO DE SAÚDE
Concepção Concepção
biológica Processo Saúde Doença
Caso Definido “a priori” Não definido “a priori”
Classificação de Identificado no modo de
patologias andar a vida
Determinação Alterações Resultantes do modo de
do caso fisiopatológicas vida das pessoas
Expressão do Indivíduo doente Indivíduos que vivem,
caso adoecem, morrem segundo
a sua inserção na
organização social
Coletivo Somatória de Expressão do resultado das
indivíduos tensões sociais que formam
classes e frações de
classes
ORGANIZAÇÃO DOS SERVIÇOS DE SAÚDE
Concepção Concepção processo SD
biológica
Objeto do trabalho Indivíduo Indivíduos como expressão da
doente forma peculiar de viver, adoecer
e morrer das diferentes classes
sociais. Coletivos
Divisão técnica de Especialização Solução multidisciplinar de
trabalho médica problemas de saúde
Processo de Individual Coletivo. Em equipe
trabalho
Produto Cura de Alteração do perfil de
doentes morbimortalidade das diferentes
classes e frações de classes
sociais - enfrentamento das
desigualdades
Relação de trabalho Alienado Consciência sanitária da
população e dos trabalhadores
• O processo saúde-doença se configura como um
processo dinâmico, complexo e multidimensional
por englobar dimensões biológicas, psicológicas,
socioculturais, econômicas, ambientais, políticas,
enfim, pode-se identificar uma complexa
interrelação quando se trata de saúde e doença de
uma pessoa, de um grupo social ou de sociedades.

• A abordagem de Castellanos (1990) se coloca


como um esforço de operacionalização, do ponto
de vista analítico, do processo saúde-doença,
tendo em vista os diferentes níveis de organização
da vida.
• O processo saúde-doença é um conceito central da
proposta de epidemiologia social, que procura
caracterizar a saúde e a doença como componentes
integrados de modo dinâmico nas condições concretas
de vida das pessoas e dos diversos grupos sociais;
cada situação de saúde específica, individual ou
coletiva, é o resultado, em dado momento, de um
conjunto de determinantes históricos, sociais,
econômicos, culturais e biológicos.

• Explicar o processo saúde-doença de maneira


histórica, mais abrangente, tornando a epidemiologia
um dos instrumentos de transformação social
(Rouquayrol, 1993).
• Nessa trajetória, o conceito de saúde vem sofrendo mudanças, por
ter sido definido como “estado de ausência de doenças”; foi
redefinido em 1948, pela Organização Mundial da Saúde (OMS),
como “estado de completo bem-estar físico, mental e social”,
passando de uma visão mecânica da saúde para uma visão
abrangente e não estática do processo saúde-doença.

• A definição de saúde presente na Lei Orgânica de Saúde (LOS), n.


8.080, de 19 de setembro de 1990, procura ir além da apresentada
pela OMS, ao se mostrar mais ampla, pela explicitação dos fatores
determinantes e condicionantes do processo saúde-doença.

• Esta lei regulamenta o Sistema Único de Saúde, e é


complementada pela Lei n. 8142, de dezembro de 1990. O que
consta na LOS é que A saúde tem como fatores determinantes e
condicionantes, entre outros, a alimentação, a moradia, o
saneamento básico, o meio ambiente, o trabalho, a renda, a
educação, o transporte, o lazer, o acesso a bens e serviços
essenciais; os níveis de saúde da população expressam a
organização social e econômica do país (Brasil, 1990, Art. 3).
• A noção de promoção da saúde no conceito
da OMS significa incluir indivíduos e grupos no
processo saúde-doença, de modo que possam
identificar aspirações, satisfazer necessidades
e modificar favoravelmente o meio ambiente,
o que significa compreender os indivíduos e
grupos como agentes na promoção da saúde.
• Promoção da saúde, como apresentado por Buss (2000),
requer uma maior aproximação e apropriação dos temas
relativos aos determinantes da saúde, visto que ações de
promoção visam interferir neles. Esse é um ponto crucial, já
que o planejamento e a implementação de ações de
promoção devem ir ao encontro das necessidades dos grupos
sociais, o que vai implicar, muitas vezes, a organização de
ações intersetoriais, com métodos e enfoques apropriados.

• Promover saúde é, em última instância, promover a vida de


boa qualidade, para as pessoas individualmente e para as
suas comunidades no território. A estratégia de promoção da
saúde foi orientada para a modificação dos estilos de vida,
para a adoção de hábitos saudáveis.
A atuação na perspectiva da promoção da saúde visa a:

  Acesso equitativo à saúde como direito de todos;


 Desenvolvimento de um entorno facilitador da saúde;
 Ampliação e potencialização das redes de apoio social;
Promoção de atitudes afirmativas para a saúde
companhadas de estratégias de enfrentamento adequadas;
Ampliação da noção de construção compartilhada do
conhecimento e de difusão de informações relacionadas à
saúde;
Fortalecimento da noção de responsabilidade social e civil
de gestores de forma compartilhada com a sociedade
organizada.
Fatores
Fatores psicológicos
sociais Fatores
ambientais

Fatores
genéticos
Fatores
educacionais

Fatores
ecológicos
Fatores
culturais
Fatores
Fatores
políticos
econômicos