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O PODER DAS

PALAVRAS
O DISCURSO

Clínica do Social
Célio Garcia
Clinica do Social • Deve aliar a atividade,
o interesse e a
atenção da clínica à
subjetividade de cada
um, articulando esses
procedimentos com
um programa de ação
política como prática
no dia-a-dia do
cidadão.
Os Profissionais
• Devem ser dotados de
alguma sensibilidade
adquirida no
atendimento clínico,
forjada e afiada no
trabalho de psicólogos,
psicanalistas, assistentes
sociais e demais
trabalhadores sociais.
O poder das palavras
O Discurso

• O poder, a plenitude, em
princípio atribuídos à
palavra, podem ser
percebidos já ao nível da
palavra dada como garantia
de um compromisso.
• Tradicionalmente! boa
palavra é um conselho.
• Os pais aconselham seus
filhos. Os mais velhos são
ouvidos pela experiência
que acumularam.
• Um profissional de
comprovada experiência
será chamado a ocupar
cargos de assessoria
• Um, conselho impõe uma
diretriz; diz o que deve ser, o
que será.
• O mundo seria, assim,
desvendado aos mais velhos, a
quem caberia dizer o sentido
das coisas.
• Os mais jovens, entretanto, a
quem são dirigidos os
conselhos, mostram-se
refratários à orientação que
lhes é apontada.
• Constatou-se que essa modalidade de
intervenção desgastou-se inteiramente, e
os educadores tendem a abandoná-la.
• Foi necessário algum tempo para que as
instituições educacionais aceitassem que
o sentido do mundo, da vida, das coisas,
não está ao alcance das palavras, não se
deixa conter nas frases pronunciadas.
• Diante do desgaste desse discurso, temos,
querendo ou não, que nos defrontar com
o vazio em que caem essas palavras.
• Elas não produzem efeito. Existe uma
palavra completamente sem prestígio,
desprovida de impacto. blá-blâ-blâ.
A DEMAGOGIA E A MENTIRA
• Próximo a esse primeiro caso, encontra-se um
discurso? político também vazio; nele já não
acreditam as pessoas, o público a quem era
dirigido.
• Talvez porque o falso representante do povo
não tivesse cumprido seus compromissos, o
que o terá desmoralizado, ou porque uma
linguagem por demais burocratizada de líderes
falsos já não convencesse os antigos
seguidores.
• Finalmente, o discurso demagógico designava,
já na sua origem grega, um regime que tentava
agradar o povo a qualquer custo. Verdadeira
degenerescência do regime democrático.
• Nossa época conhece o descalabro de
partidos em razão dessa linguagem sem
qualquer consequência, consistente só
na aparência, garantida por uma
autoridade que já não fica em pé.
• O destino dessas mensagens é
desaparecer, ou porque desaparecem os
regimes políticos que as patrocinam, ou
porque mudou o mundo e, mudando o
mundo, é forçoso admitir que alguma
coisa muda nas pessoas.
• De que forma, contudo, vai-se exercer o
poder da palavra?
O ORÁCULO E SEU CARÁTER RELIGIOSO
• Há um caso especial em que o poder da palavra se dá
por efeito oracular, enigmático.
• A palavra da frequentemente é levada aos fiéis através
desse discurso. Mesmo sob sua face de amor, como é o
caso dos cristãos, Deus se revela em sua face
enigmática. Há mistérios, ensina-nos a alguns deles,
sem mérito para a doutrina, extremamente bem-
elaborados, como o da Santíssima Trindade.
• A vantagem é que, com isso, localizamos, em algum
lugar, a verdade, o sentido dos sentidos. Uma versão
empobrecida desse efeito, desse poder, é-nos dada
quando o rito religioso é oficiado em uma língua
estranha, desconhecida pelos fiéis.
• As palavras valem pelo som, pelo efeito que produzem,
pelo que sugerem, pelo que revelam sem revelar seu
segredo.
• A versão grega para o oráculo privilegia
a autenticidade da mensagem oracular.
Sabemos que em Delfos, famoso
santuário, o oráculo não revelava, nem
escondia, mas significava.
• O oráculo assemelhava-se a um "mestre
da verdade"; não se imiscuía nas
manobras do interpelante, nem deixava
de dizer o que era para ser dito.
• Mais de um intérprete na Antiguidade
se viu em dificuldades com os
potentados por não satisfazer, de
imediato, as expectativas do consulente.
• O poder dessa palavra,
certamente, é inegável. O
episódio vivido por São Paulo é
evocado quando alguém
pretende avaliar o que terá
sido sua vida até um
determinado e decisivo
momento: uma vez convertido,
foi ele pregar aos gentios a
palavra de Deus.
DICURSO TOTALITÁRIO.
A PROPAGANDA POLÍTICA
• Um caso grosseiro será registrado como
sendo o discurso do Estado totalitário, da
repressão violenta. Eis a patologia do discurso
cínico: distante da realidade, eivado de
mentiras, destina-se ele a construir uma
realidade utópica, redentora, ou
simplesmente, como já se
disse, "como se".
• Hipostasiando uma verdade única;
idealizando-a, o referido discurso terá que ser
denunciado na nossa prática política, se assim
se quiser.
• É preciso não esquecer que, nesse tipo de
regime, as palavras são submetidas a um
controle absoluto: sendo o significado de
cada uma delas definido por força de controle
violento, vê-se o falante constrangido em sua
capacidade de criar novas situações ao
combinar palavras do seu próprio
vocabulário.
• A rigidez com que age o sistema pretende
estabilizar o sentido que terão as coisas, a
vida, o mundo.
Como é evidente que há um contínuo
deslizamento entre a palavra e seu
significado - o que permite novos empregos e
novos sentidos, fica o falante privado de sua
capacidade e de seu poder da palavra.
A COMPETÊNCIA COMUNICACIONAL. A
DEMOCRACIA SOCIAL
• Uma vez afastada a onda de poderes
totalitários que se alastrava na
Europa nos anos 30/40/50, pensou-
se em instituir uma teoria da
• comunicação que reconhecesse, a
cada um e a todos, a capacidade, a
competência de se comunicar com
seus parceiros, sempre que assim
Ihes aprouvesse.
• A competência comunicacional e a
hipótese de que em torno da mesa de
negociações o consenso está sempre à
vista são os fundamentos de regimes
políticos em nossa atualidade.
• A Democracia Social em voga nos
países ocidentais provavelmente se
vale dessas premissas.
• O importante seria chegar-se a um
acordo, resultado de conversações, de
esforços que visem à compreensão, às
custas de metáforas, se possível,
criativas.
UMA PRÁTICA POLÍTICA E SEU DISCURSO
• Como formular os princípios de: uma fala,
discurso, ou intervenção verbal que não incorram
nos inconvenientes apontados em cada uma das
experiências já citadas?
•  Não se quer a palavra vazia da tradição, nem a
palavra autoritária do oráculo, nem a mentira da
demagogia, nem a violência da repressão, nem
aquela perigosamente fundada na boa vontade.
Quer-se uma palavra plena. Mas qual seria ela?
Existiria uma palavra plena, pela qual se pudesse
responsabilizar-se integralmente?
• As necessidades da linguagem e da comunicação
inter-humanas serão objeto de atenção. As
pretensões das afirmações determinantes
deverão receber um cuidadoso exame.
A Palavra Plena
• Quando um homem, autorizado pela palavra, diz a uma
mulher
• “Você é minha Mulher”
• È levado pela linguagem e tomado pelo entusiasmo, a ela, no
jogo de cumplicidade estabelecido entre ela e a natureza
procriadora.
• No fundo sabem que “ninguém é de ninguém”.
• A afirmação possessiva por parte do homem apenas dissimula
a problemática relação que ali se encontra.
• A palavra plena "você é minha mulher" por ele pronunciada
vem a ser eco que faz vibrar cordas sonoras, comprometendo
quem as pronunciou; assim são as palavras fundamentais.
• Pesariam elas tanto sobre nós?
• Melhor seria não levá-las a sério?
O JOGO ALUSIVO
• Se não se visa à palavra plena, que
recursos adotar?
• Teria o jogo alusivo condições de
convocar o sujeito para a nomeação que
lhe dá um nome, com o qual se pudesse
contar para o estabelecimento de um
regime que não seja o enganoso
imaginário, ou o bruto real, sem
qualquer tratamento diferenciado que o
tornasse politicamente viável?
• Afinal uma distância mínima seria
necessária, sem ela a morte se anuncia,
muito facilmente como uma saída.
O JOGO ALUSIVO
• Só o estatuto de incompletude é
fonte e margem de novas
nomeações, capazes de lançar e
relançar o sujeito nessa busca
incessante, graças à qual ele
continua, continua ... pois é só o
que lhe resta fazer. Como esta
abordagem não desconhece o
sujeito político, é necessário alongar
esse comentário.
O DISCURSO POLÍTICO
• A palavra do militante foi e é até hoje (apesar
da crise dos discursos, ela se conserva intacta)
uma palavra presa ao discurso partidário,
eventualmente comprometida com todos os
inconvenientes aqui apontados, ou seja, com o
caráter vazio da palavra da tradição, o
autoritarismo do oráculo, as inverdades da
demagogia, a violência da repressão (esta a
que se obriga o militante), a boa vontade e o
falso democratismo das atitudes conciliatórias.
• O final dessa sequência parece dizer que os
inconvenientes apontados resultam de questão
não resolvida, isto é, do poder da palavra.
A LINGUAGEM E DIFERENTES REGISTROS
OU TIPOS DE NORMA NA LÍNGUA
• Há obstáculos na
comunicação verbal que não
devem ser necessariamente
imputados à dificuldade de
compreensão, mesmo
porque é preciso considerar
o que acontece ao nível do
discurso.
LINGUAGEM COMO INSTRUMENTO DA COMUNICAÇÃO:
COMPETÊNCIA COMUNICATIVA" E “
INTENÇÃO DE SE FAZER ENTENDER"

• A linguagem coloquial, essa de todos os


dias, oferece oportunidade para emprego e
estabilização de variadas formas de
comunicação verbal.
• Há sabidamente uma forma de falar
intitulada "norma culta", habitualmente
preferida por uma camada social ou
privilégio dela, certamente aquela que mais
tempo permaneceu na escola.
• A "norma culta" é a única admitida em
documentos oficiais, nos jornais de
prestígio; a Academia Brasileira de Letras
está encarregada de zelar por ela.
• Há outros modos de falar.
A "análise do discurso"
pode ser de alguma
utilidade na abordagem da
questão.
Exemplo
• O confronto entre forças sindicais (Federação
Única dos Petroleiros - FUP) e o Governo'
sempre foi tido,' nos momentos mais tensos
da crise, como susceptível de negociações,
cada um dos lados lançando conclamações
para um início de entendimentos entre as
partes. Na base do conflito está, como fica
documentado na decisão do TRT, um acordo
firmado durante o governo Itamar Franco,
acordo considerado como não válido pela
Justiça do Trabalho.
• Que teria dado origem à dificuldade?
• Formalismo por parte do poder judiciário?
• Examinada a questão do ponto da vista da
linguagem enquanto meio de
comunicação e veículo dos enunciados a
serem interpretados, uma vez formulados
e postos em circulação por ambas as
partes surgem as perguntas:
 A linguagem seria um meio de integração
social, de compreensão?
 Estariam os falantes sempre imbuídos de
uma intenção de se fazer entender?
• É pouco provável.
LINGUAGEM COMO DEFESA E COMO ATAQUE:
O "DISSENSO" E O “O PREJUÍZO"
• Que o confronto por ocasião do diálogo e
mesmo por ocasião da argumentação seja
considerado em termos de "dissenso".
• "dissenso" seria o caso de conflitos entre
duas partes para as quais não haveria
solução equitativa; já que inexiste regra
que se aplique à argumentação em jogo.
• Se se aplicar às duas partes a mesma,
medida, como acontece em se tratando de
um contencioso jurídico, está-se causando
um "prejuízo“ e não um dano.
• "Dano" provém de infração a regras, e
pode ser 'reparado desde que se volte às
regras do discurso transgredido. "Dano"
pode ser com-
pensado, "prejuízo" é irreparável.
• "Prejuízo" reside na impossibilidade de
haver um encadeamento após uma frase,
após um acontecimento, um e outro
exigindo uma frase ou uma resposta, Mas
se a inevitabilidade do "prejuízo" persiste,
se ela é uma exigência, ela não é
propriamente amoral; bastaria trabalhar
tanto quanto possível com a noção de
"acontecimento".
• Se há uma palavra que as crianças
empregam desde a mais tenra
idade, essa é certamente "não",
Além das crianças, outros falantes
empregam, de maneira por vezes
ardilosa, essa palavrinha.
• Quando se diz "técnica","jogos de
linguagem", quer-se chamar a
atenção para a necessidade de
uma análise da linguagem.
FREUD: O JOGO DA NEGAÇÃO
• O texto de 1925 intitulado "A negação"
traz contribuições indispensáveis para a
análise. Inicialmente Freud reconhece a
grande habilidade demonstrada pelo
paciente que lhe diz, após o relato de
um sonho:
"O Sr. vai pensar que era minha mãe
que estava no sonho" ... "mas",
continuaria o falante astucioso, "não
é minha mãe". '"Enfim, era e não
era", poderia ter concluído.
• De fato, a habilidade do falante está
demonstrada em poder ele atribuir a
Freud, seu analista, seu interlocutor, uma
das alternativas no manejo da negação
no interior do discurso, ou
seja, "Era minha mãe", guardando 'a
segunda alternativa para si mesmo: "Não
era minha mãe".‘
• Os falantes manejam com grande
habilidade a negação; o falante tem
pressa: uma vez que tem uma fase que
afirma, transforma-a em seu contrário,
atribuindo-a a seu parceiro-interlocutor.
Mais tarde ele ("cínico") verá o que se
pode fazer.
FREUD: O JOGO DA NEGAÇÃO
• A pesquisa de Freud não se restringiu ao
capítulo da negação; foi ele encontrar um
outro tipo de negativa, que chamou
"denegação". Aqui o falante tinhoso vai
declarar: "Eu sei, mas mesmo assim ... "
Menos bem sucedido no uso do artefato, esse
falante termina por mentir a si mesmo.
• Não nos interessam aqui as patologias logo
constituídas graças às análises de Freud, nem
os rótulos psicopatológicos que vêm
enquadrar o discurso em questão. Procurar
identificar recursos articulados pelo discurso;
a Clínica do Social tem que levá-los em conta.
O discurso "cínico"'. O discurso dos MMR
(Meninos e Meninas de Rua)
• Há obstáculos na
comunicação quando se
abordam os MMR,
oportunidade em que são
assinalados aspectos
peculiares do seu falar.

• Atribuiu-se o termo
"discurso cínico" a esse
falar.
O discurso "cínico"'. O discurso dos MMR
(Meninos e Meninas de Rua)
• O "cinismo" antigo, pelo menos em
sua origem grega, era insolente. Sua
insolência é sugestiva, merece
atenção. Não se limitava a um jogo,
nem sempre suas intervenções
terminavam em episódio cômico;
nele se pode descobrir uma curiosa
maneira de argumentar que afasta de
ideais inacessíveis.
• O "cinismo“ encontra uma maneira
nova de dizer a verdade.
O discurso "cínico"'. O discurso dos MMR
(Meninos e Meninas de Rua)
• Desde o inicio de sua história, a Psicanálise
esteve envolvida . com o "cinismo";
podemos dizer que, a princípio, ela hesitou
em atribuir ao "cinismo" um estatuto claro.
• Há um texto que toma como objeto de
estudo o "cinismo", no qual pacientes
"portadores de traços de cinismo" foram
objeto de observações; para seu autor, o
"cinismo" em suas manifestações quase
sempre resultava em agressões ao analista.
O discurso "cínico"'. O discurso dos MMR
(Meninos e Meninas de Rua)
• Rotulado como infantilismo, sinal de neurose grave,
de ambivalência, era um mecanismo que oferecia,
finalmente, oportunidade de descarga afetiva para o
portador de tal traço.
• Na mesma linha, dizia o texto: "O cínico ataca o
mundo externo ao tentar resolver ou liquidar um
conflito interno"; livra-se ele, assim,
temporariamente, de um sentimento de
culpabilidade. A eventual cólera do outro lhe
proporcionando prazer, o "cínico" encontra prazer
narcísico em seus próprios comentários. Mas a
própria Psicanálise pôde mudar de abordagem.
• É preciso reconhecer, contudo, que há um exagero
em certos discursos; há uma "patologia" a ser
diagnosticada.
PATOLOGIA DO DISCURSO "CÍNICO"
• Existe efetivamente uma patologia do
"discurso cínico", sendo ela encontrada no
discurso da propaganda produzida pelo
nazismo, para tomar exemplo radical entre
outros.
• Tal tipo de discurso, para desespero dos
estudiosos, analistas de discurso e autores
que sobre ele se debruçaram, foi 'chamado
"discurso como se", a tal ponto ele é
inabordável, a tal ponto a verdade é
submetida a processo psicotizante.
• A mesma expressão "como se" foi usada por
psicanalistas ao se referirem ao' processo de
desrealização encontrado na psicose.
PATOLOGIA DO DISCURSO "CÍNICO"

• A questão do "cinismo"
terá que ser por nós
retomada, agora já a
um nível de um
discurso político.
Política: CIDADÃO SUJEITO?
SUJEITO CIDADÃO?

• Cidadão-Sujeito?Sujeito- cidadão?
Tensão entre os dois.
• As noções "sujeito", "cidadão" e
"comunidade" organizam
habitualmente um espaço político
que vamos chamar anexado.
• Vai-se tentar analisar o laço social
sem, necessariamente passá-lo
pelo espaço anexado.
• O sujeito não é o cidadão.
Um e outro representam
duas posturas, emergência
ou constituição de um
sentido.
• O cidadão é, de início, um,
qualquer um; o sujeito é
singularidade que se
afirma por ocasião de um
acontecimento a que ele
passa a dever fidelidade.
• O sujeito político ou a política
segundo o sujeito consiste na
apropriação da exterioridade
constitutiva da cidade.
• O cidadão se faz sujeito no
momento exato em que há
representação/apresentação
de um acontecimento. A
soberania do sujeito surge, e
não se contenta em
residir no contrato ou no
aspecto jurídico-formal.
• Por sua vez, o sujeito se faz
cidadão quando o espaço cívico
desdobra e expande as
particularidades subjetivas. A ideia
de "república“ representa esse
ponto de reciprocidade.
• Soberania e comunidade são os
dois termos que tradicionalmente
fecham as questões que aqui se
tenta pontuar. Fraternidade
igualmente seria um termo que
pretende resolver as mesmas
questões.
• Seria possível contentar-se com o
cidadão“ abandonando-se a
questão do sujeito, desistindo-se de
fazer cidadão um sujeito?
• Um programa de defesa do cidadão-
consumidor-usuário-de- serviços
parece estar sendo bem aceito' pela
democracia de mercado, pelo
capitalismo de investimento em
massa, do controle de qualidade
que adotasse a "qualidade total"
propugnada em nossos dias e já
com numerosos adeptos.
• O prosseguimento dessa análise
leva à constatação de que há
tensão entre: cidadão e sujeito:
• No fundo, Seria essa tensão que
daria um novo laço, a ser
avaliado longe da dependência
do espaço anexado a que já se
'aludiu.
• "Laço social" proveniente da
própria tensão, "laço social" de
caráter político, já que marcado
pela soberania do sujeito.'
• Como abordar a tensão?
• Qual a fronteira entre o humano
e o desumano?
• Ao mesmo tempo que se sabe que a
angústia vem a ser uma tortura para o
homem, ao se refletir sobre o estatuto
teórico e o valor atribuído na prática ao
conceito de angústia, pode-se pensar
que ela é "uma função do 'humano; sem
ela o humano em questão não faria a
experiência do real em toda a sua
dimensão, nem tampouco sua travessia.
• Se, de um lado, é difícil definir o que é
propriamente humano, pois a
humanidade se inventa a cada travessia
do real acima nomeado, por outro lado,
o desumano é imediatamente
reconhecido.
• Os princípios éticos inspiradores de
movimentos de "defesa do Cidadão",
certamente movimentos responsáveis,
seriam necessariamente negativos, pois
seu fundamento é capaz de discernir o
que é desumano, mas incapaz de definir o
que seja o humano.
• Se assim é, o mal acaba sendo a grande
preocupação da Ética; o imperativo ético
se exerceria cada vez que o mal
despontasse no horizonte da experiência
humana.
Pergunta
• Bastaria identificar o homem de maneira
essencialmente negativa e contabilizar
os males que lhe são infligidos?
• Um problema se evidencia:
 Se o desumano é o argumento de peso
inspirador da Ética, se o humano é a
negação do desumano, a loucura (e outros
aspectos da experiência humana) estaria
restrita a um campo onde o humano se
recusa a reconhecer-se.
• Pode-se propor um outro esquema em que
se trabalham questões éticas a partir de
uma definição positiva do homem e que
inclua o não-humano.
• Para tanto, tem-se que romper com a
concepção cada vez mais aceita na
atualidade e que consiste em ver, na
maioria das vezes o homem como .uma
vítima; os direitos desse homem-vítima,
serão, consequentemente, os direitos de
uma vítima" e o tratamento a ele reservado
será aquele reservado a uma vítima.
• O estado de vítima, de desamparado, de
infeliz, de humilhado, reduz o homem a sua
condição animal.
• A humanidade é uma espécie animal,
mortal e cruel. Mas nem a mortalidade
nem a crueldade definem a singularidade
humana. Lembremos Hannah Arendt
enviada a Jerusalém para assistir ao
julgamento do carrasco nazista Eichman:
 "O mal é banal", disse Arendt após longas
jornadas passadas no tribunal.

• O carrasco é uma abjeção animal,


devemos dizer; mas a vítima não vale
mais que o carrasco. Se o carrasco trata a
vítima como animal, é porque a vítima
chegou ao ponto de' se tornar um
animal.
• Alguns que passaram pela prova dão
testemunho do esforço para não se
deixarem assemelhar a um animal; os
relatos dos campos de extermínio sob
o regime nazista são contundentes
nesse sentido.
• Assim, naquele que resiste, a
resistência não coincide com a
identidade de vitima. Eis o homem, ele
se obstina em permanecer o que ele é!
Isto é, outra coisa que não uma vítima.
outra coisa que um ser para a morte.
• Outra coisa que um mortal, um imortal,
portanto!
• Há, por conseguinte, uma
identidade do homem como
imortal a partir do instante em
que ele se afirma contra o
querer-ser-um- animal, estado a
que as circunstâncias (carência,
pobreza total) o expõem.

• A subjetivação é imortal, e faz o


homem! Fora disso, existe uma,
espécie biológica sem
singularidade.
• É imperativo contar com uma
subjetivação sempre possível. A
Ética deve avaliar o que pode um
sujeito e o que desse poder ele é
capaz de querer.
• Necessário se faz não ceder, em
nome da impotência da vontade,
sobre a possibilidade do possível.
• O inimigo da Clínica do Social
seria a ideia do pobre homem de
vítima a ser mantida sob
proteção do sistema.
• Lidar com alguém inapto à
subjetivação seria sustentar até o
último instante, em condições
desfavoráveis, a possibilidade de
que algo aconteça, de que ínfimo
movimento faça surgir o sujeito,
raro, pontual, sujeito, enfim,
marcado pela imortalidade, capaz
de denunciar qualquer tentativa
de referência única a um grande
Outro tirânico,
e unificador.
"Pega leve"
• Até há pouco tempo, uma prática
política progressista vivenciada
por um cidadão não alienado
tinha como principal alvo de suas
críticas e ações políticas o Estado,
as instituições de um modo geral.
• Em toda situação política havia
uma dominante, dizia a Filosofia.
• As lutas políticas eram orientadas
nesse sentido, diziam os partidos
de esquerda
• A prática política do dia-a-dia
mostra que a dona-de-casa a
caminho do mercado, com
suas "comprinhas" limitadas
pelo orçamento diário, e o
cidadão que sai para o
trabalho temem muita coisa,
mas jamais perdem tempo
pensando no tal de grande
Outro.
"Pega leve"
• É o que dizem os adolescentes quando querem
desmascarar o grande Outro autoritário, bicho-
papão. É o que se deve dizer para d. Maria,
dona-de-casa a caminho do "sacolão"
(supermercado dos pobres), é o que se deve
dizer para o militante de hoje.
• É bem verdade que sempre se estará marcado
pelo Estado, pois ele sabe cobrar imposto, e
muito, mesmo dos pobres! Mas a revolta não
tem que ser dirigida diretamente contra o
doutor de colarinho branco e gravata.
• Nem contra quem mora em palácio, ou é diretor
disso, daquilo. Cada um vai encontrar um jeito
de encaixar seu "pega leve"; há vários jeitos.
LAÇO SOCIAL E VERDADE
• A sustentação do laço social, assim
como o estatuto da verdade,
também terá que ser encarada
nessa nova perspectiva, pois não
será o primado comunicacional do
grande Outro bastante para
garantir o
coletivo, nem o estatuto da
verdade sairá ileso dessa vasta
operação com efeitos ao nível do
coletivo.
OBRIGADA!