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REFLEXÕES ACERCA DO

CONCEITO DE SAÚDE
ORGANIZAÇÕES SOCIAIS
• Nas organizações, seus objetivos, valores e seu processo de
socialização sobrepõem-se aos indivíduos.
• Reduzindo espaço à subjetividade, visa atá-los firmemente
às malhas por elas tecidas.
• A “cultura da organização” assume cunho da dimensão do
sagrado: substitui a religião na tarefa de garantir tanto um
sistema de significações quanto à segurança e
tranquilidade, ao transformar em ponderável a
imponderabilidade do destino, ao negar a existência do
chaos.
• Isto leva o indivíduo a sacrificar-se pelas metas por elas
perseguidas, adentrando irrefletidamente, na maioria das
vezes, em um sistema totalitário.
PELO VERSO
• Neste quadro social atual de desamparo e sofrimento
humanos, com reduzido espaço para a subjetividade,
no qual uma das expressões mais marcantes ocorre no
espaço público de instituições e organizações, é
coerente que a prática psicológica intervenha em
instituições relacionadas à Segurança Pública, à Justiça,
à Educação e à Saúde, já que é em seu contexto que
esta realidade mostra sua face mais
emblematicamente perversa, ou seja, pelo verso.
• Propiciar um olhar atento e cuidadoso aos modos de
subjetivação engendrados pela violência, intolerância e
desrespeito perpetrados pelas organizações sociais ao
ser humano na contemporaneidade.
ETIMOLOGIA
• CONCEPTUS = pensamento
• 1660s referia-se a um jogo de palavras aludindo
palavras com mesmo som mas diferentes
significados. Ou seja, poderia ser ambíguo e com
duplo sentido.
• Algo concebido pela mente, IDEIA, NOÇÃO: como na
filosofia uma ideia geral abstrata, uma noção
universal, resultada de uma operação mental ou
imagem a partir de percepção
• Do Latim concepere = tomar em consideração
• Archaico : apreender algo pela razão ou imaginação
• Compreender, agarrar, entender, p. ex., o homem
• Archaico : dar a ver, exibir, produzir, dar expressão a
• Dirigir, enquadrar, nomear
CONCEITO E PSICOLOGIA
• Como os instrumentos compreensivos da
Psicologia apreendem as novas modalidades de
inscrição das subjetividades contemporâneas?
Legitima-se repensar sistemas psicológicos, por
representarem subjetividade e seus impasses na
modernidade?
• Como aproximar o que há de “sofrente” nas
novas formas de subjetivação?
• Como circunscrever o campo do mal-estar
contemporâneo em que essa ação ocorre?
TÉCNICA OU TECHNÉ
• A atividade clínica e a pedagógica não fogem a um predomínio da técnica, fenômeno
essencial da Idade Moderna. A clínica, afastando-se de sua peculiaridade originária
referente ao debruçar-se sobre o leito do “doente”, passa, cada vez mais, a
privilegiar procedimentos técnicos. Desse modo, hoje, o clínico é entendido e
valorizado como especialista.
• Nessa composição, o momento clínico inicial, com toda sua potencialidade de
promover uma confiança terapêutica através da atenção e acolhimento, é reduzido a
uma atividade de triagem, a qual encaminhará os pacientes aos respectivos
especialistas, que, através da mediação da técnica, deles tratarão.
• Por sua vez, no âmbito pedagógico, os currículos dos cursos de ciências humanas e
biológicas têm cada vez mais contemplado quesitos técnicos, visando a formação de
especialistas, em detrimento de uma formação humanista, relevando a filosofia, a
literatura e as artes em geral. Nessa ótica, é esperado e apreciado que, por exemplo,
o psicólogo atue primordialmente enquanto um especialista em sua atividade
profissional; em seu consultório ou em instituições, ele deverá manter-se numa
neutralidade, afastando-o da condição fundamental da cidadania: do ouvir e do ser
ouvido em praça pública.
• No entanto, esse modelo técnico-científico mostra sinais de esgotamento. No âmbito
da saúde mental, tanto a psiquiatria quanto a psicologia não têm, institucionalmente,
ainda, apesar dos esforços do movimento antimanicomial, conseguido responder às
demandas sociais e cultura.
SAÚDE: MENTAL APENAS?
• As instituições psiquiátricas manicomiais revelaram-se depósitos de pessoas,
subtraindo-lhes a própria humanidade ao condená-las a um diagnóstico
estigmatizante, gerador de exclusão social e cultural, alijando-as de sua cidadania.
Os manicômios falharam em sua tarefa de cuidar do “doente mental”, não
conseguindo reverter e nem sequer minorar seu sofrimento; ao contrário, esse
sofrimento aumentou, pois passou a relacionar-se ao não sentido de ser desses
pacientes.
• Do mesmo modo, no âmbito da educação, procedimentos pedagógicos alinham-se
por modelos disciplinares de conduta, desconsiderando o direito de aprender.
Dessa forma, instituições de saúde e educação constituem-se, na maioria, em
lugares não implicados com uma atenção para resgate de sentido. Nelas, os
sujeitos sociais são despejados, destituídos de razão e/ou bem-estar ou de
possibilidades de aprendizagem; assim, constituem-se lugares onde sagra um
sofrimento confinado e reverberado, revelando um sujeito, e as instituições que
deles cuidam, como dependentes de um tecido social e cultural, cujos sistemas de
representação e simbolização determinam modos de ser adequados e ajustados.
• Enquadrados na des-razão e no des-conhecimento, os sujeitos sociais são
condenados tanto ao exílio social (pela des-consideração institucional), como
também ao exílio de si mesmos (pelo des-alojamento existencial).
QUESTIONAMENTO
• É patente que o contexto social, político, econômico e cultural
contemporâneo clama por mudanças nas abordagens
implicadas tanto na concepção e implementação de saúde e
educação quanto na pedagogia da formação profissional de
seus agentes. Propor alternativas de trabalho técnico e
reflexões teóricas para profissionais que lidam com uma
população resultante de uma nova ordem mundial,
apresenta-se como uma tarefa desafiadora para psicólogos.
• Em face desse enfoque de realidade, imposta
progressivamente com contundência e pungimento, cabe a
pergunta: seria possível abrir outras possibilidades de
práticas clínico-pedagógicas, em saúde e educação, para o
mal-estar no contexto contemporâneo?
• Talvez, um caminho possível seria buscar a etimologia dos
termos saúde, educação, sofrimento, política e ética, a fim de
articular sentido entre cada um, como um encaminhamento
para uma reflexão sobre tal questionamento da prática
psicológica em instituições.
Etimologia como criação de sentido

• É da perspectiva da significação da linguagem como criação


de sentido que se impõe uma retrospectiva etimológica,
reencontrando a atribuição de significado a termos
recorrentes na compreensão do sentido da condição
humana. Afinal, no percurso histórico de uma língua, tais
termos passaram a aderir-se a significados precisos e
determinados, destituindo-os de seu uso originário como
utensílio para a comunicação de sentido entre homens.
• Segundo o Webster (2001), saúde vem do latim salus,
significando condição (orgânica ou organizacional)
benéfica, de bem-estar, de segurança. Refere-se à cura
(healein, em inglês antigo), como promoção de integridade
e/ou cuidado.
SAÚDE E EDUCAÇÃO
• Talvez desse termo tenha derivado saudação, como forma de
demonstrar respeito e reconhecimento àquele do qual nos
aproximamos. Aproxima-se de clínica e de cuidado, tarefas
cotidianas e pertinentes ao universo do fazer psicológico no âmbito
da saúde. Por outro lado, educação, do latim educere, de e+ducere,
ou seja, e = para fora, e ducere=conduzir, é trazer, fazer
movimento em direção a alguém. Implica debruçar-se ou inclinar-
se a uma forma de cuidar para que o outro se conduza adiante.
• Ambos parecem articular-se à prática psicológica clínica. Dizem
respeito a dirigir-se a alguém de modo a fazê-lo conduzir-se adiante
em sua experiência, destinando-se ao seu bem-estar. Assim, saúde
e educação aproximam-se tanto pelo sentido de promoção de
cuidado e integridade, quanto de demonstração de respeito e
reconhecimento, via saudação.
PARA A PSICOLOGIA
• Comprometida com atenção e cuidado para que o sujeito se
conduza na direção de seu bem-estar, ou de busca de sentido, a
prática psicológica inclina-se para acolher o sofrimento humano
como ausência de sentido.
• Etimologicamente originário do grego pathos, sofrer assume o
significado de sentir, experienciar, tolerar sem oferecer resistência,
ser afetado, dizendo da condição de se pôr em movimento por
qualquer emoção. Em latim, sofrer origina-se de subferre,
referindo-se a suportar por debaixo, implicando dois significados:
tolerar um peso e sustentar um peso. No primeiro, sofrer diz
respeito a uma dor, ao passo que no segundo diz de uma força ou
de um poder ser.
• Assim, em ambas as origens, sofrimento refere-se à situação de ser
afetado pela ambigüidade própria da condição humana. Diz da dor
frente ao desamparo do homem na sua tarefa de existir, suportando
a inospitalidade dos acontecimentos para conduzir-se adiante.
• Assim, pela etimologia de saúde e educação, legitima-se a criação
de uma cultura de participação da comunidade para promover sua
própria saúde e apropriar-se de sua educação, assim como criar
uma ambiência para especificidades e diferenças de perspectivas
entre os atores sociais envolvidos.
AGENTES EM AÇÃO
• Retomando Figueiredo (1995), quanto aos
significados de ética, há uma dimensão ética da
existência humana referente ao campo de relação de
um indivíduo com outros, no contexto da antropologia
filosófica.
• Nessa ação interativa, o que importa “não é só e
principalmente a sobrevivência do agente, mas
também sua imagem e sua estima perante os outros e
perante si mesmo. Efetivamente, há sempre uma
reflexividade, uma relação de um para consigo
mesmo, implicada numa conduta ética” (p. 28).
• Dessa forma, ética e política referem-se,
simultaneamente, a privado e público, intimidade e
exposição, cuidado e segurança, identidade e
cidadania, saúde e normas, direitos e deveres, interior
e exterior.
AGENTES SEM AÇÃO
• A construção de regras e critérios confiáveis de
decisão, na escolha de modos de ser e fazer, gerar e
gerir a própria vida, passou a calcar-se em experiências
subjetivas individualizadas, acentuando uma crescente
separação entre indivíduos e coletividades às quais
pertencem.
• Por outro lado, é exatamente a incerteza em relação à
legitimidade das “verdades” assim constituídas que
gera uma vinculação perversa em relação ao grupo, já
que, incerto sobre a legitimidade do seu saber e fazer,
o indivíduo passa a apoiar-se cegamente nos valores,
atitudes e crenças do grupo do qual participa.
PARA QUESTIONAR CONCEITOS
• Dessa forma, o modo de constituição desses grupos e sua vinculação ao quadro
maior da sociedade geram um modo de ação no qual a alteridade (outros grupos,
outras idéias, outras propostas políticas, religiosas ou científicas) passa a ser
considerada uma ameaça, devendo ser eliminada: um grupo não pode suportar outra
verdade além da sua. Assim, florescem as condutas totalitárias e massificadas, fruto
da intolerância e do fanatismo (Enriquez, 2001), revelando que a ética como
ideologia é perversa já que, tomando o presente como fatalidade, anula a marca
essencial do sujeito ético e da ação ética.
• Aborta-se o sujeito social: aquele agente para a atuação de sua liberdade de escolha
como atividade reflexiva e crítica acerca de ações, possivelmente, no passado,
eleitas para o presente, sendo este uma passagem apenas transitória, pela
possibilidade do futuro como abertura do tempo humano.
• Contudo, as normas societárias têm a função de ordenar o caos no qual a liberdade,
ilimitada e não estruturada, pode levar os indivíduos a uma permanente guerra de
um para com todos os outros, viabilizando o agir somente segundo interesses
privados.
• Uma tal situação gera insegurança, tensão e conflito, podendo destruir a todos.
Novamente, a violência se apresenta como modo humano no jogo ambíguo entre o
público e o privado, uma vez que, para obter proteção, a liberdade das
individualidades deve sofrer restrições.
COMPREENSÃO E POSSIBILIDADE
• Assim, pode-se pensar que a sociedade estrutura seus padrões de
acordo com uma lógica de criação de poder soberano para proteger
igualmente todos os seus membros, como garantia de melhor
qualidade de vida. No entanto, Pellegrino (1983) diz que, “na
contemporaneidade, se verifica que o pacto social instalado para a
proteção social traiu seus próprios propósitos e foi quebrado” (p.
2). Desviando-se completamente do compromisso de garantir a
convivência humana dentro de padrões aceitáveis de segurança, tal
pacto veio a reboque de uma economia política despótica, em que
as necessidades e interesses humanos ficam atrelados às
idiossincrasias do mercado e do capital, fetichizados como um bem
supremo a ser prioritariamente atendido.
• Esta é uma forma de compreensão da injustiça social que graça no
mundo globalizado. Numa ampla visão histórica, pode-se encarar
essa situação como emergência de encontros conflitantes e
tencionais entre opressores e oprimidos, ou um modo clássico de
relação que conduz à ética categorial do bom e do mau, incluído e
excluído, igual e diferente, independente e dependente,
enquadrados e marginalizados, aqueles sem teto (morada).
CONCEITO/CONCEITUALIZ-AÇÃO
• Tal contexto conduz a repensar tanto a ação quanto a formação de
profissionais, atuantes no setor da saúde e do desenvolvimento
humano, e a problematizar a questão do sofrimento humano em
diferentes situações: em consultório privado, em instituições de
saúde, em programas educacionais para populações
marginalizadas.
• É essa dimensão da ética que demanda repensar a própria clínica,
redirecionando-lhe o sentido de modo a contemplar o espectro da
experiência do ser humano, plural e singular ao mesmo tempo,
atendendo a todas as formas de manifestações e expressões
pessoais, além da tradição cultural.
• Diz respeito à crença no ato transformador que, para além da culpa
assistencialista, dispõe-se a cuidar de quem sofre, aceitando o
desafio de confronto com o estranhamente diferente, esperando que
o assombro com o estranho, com acontecimentos inesperados
propiciados por essa abertura para o mundo, possibilite a criação de
outras dimensões à compreensibilidade da humanidade do homem.
CONCEITUALIZ-AÇÃO DE SAÚDE
• Mas, como seria possível abrir possibilidades de práticas clínico-
pedagógicas em saúde e educação no contexto contemporâneo?
• Compreendida a dimensão ética para o humano, pode ser possível discutir
uma prática psicológica direcionada por essa tensão originária, própria no
sujeito.
• Possibilitaria encontrar sentido para uma prática que contemplasse esse
sujeito/agente e seu conflito diante de pressões inevitáveis e próprias de
sua humanidade.
• Enfim, busca-se reconfigurar uma prática psicológica que privilegie o
sofrimento do ser humano conflitadamente em suas formas de
organização.
• No âmbito da atuação psicológica, o olhar voltado ao sofrimento humano
contextualizado preocupa-se em buscar abordagens que contemplem as
demandas inseridas nesta problemática.
• Imprescindível a investigação para um saber mais condizente com a
experiência do homem no mundo com outros, aproximando-se do que
seria o tácito, o cultural, o étnico e, talvez, o ético.
• Afinal o cliente é um sujeito social, histórico e cultural, é a complexidade e
a multireferência que está em jogo e que pode oferecer uma visão de
homem não mais fragmentada, mas global e solidária” (Vieira Filho, 1997,
p. 3).
CONCEITO E ORGANIZAÇÃO
• A Organização Mundial da Saúde (OMS) define saúde
como: o estado de completo bem-estar físico, mental e
social e não simplesmente a ausência de doença ou
enfermidade.
• * que saúde não significa ausência de doença. Ao
desvincularmos a saúde da doença temos grandes
mudanças conceituais;
* que saúde não se limita apenas ao corpo. Inclui também a
mente, as emoções, as relações sociais, a coletividade;
* que existe a necessidade do envolvimento de outros
setores sociais e da própria economia para que as pessoas
possam de fato ter saúde;
* a saúde de todos nós, além de ter um caráter individual,
também envolve ações das estruturas sociais, incluindo
necessariamente as políticas públicas;
• Qual o questionamento em relação a esse conceito?
CONCEITO RE-VISADO
• Falar em completo bem-estar, englobando vários
fatores da vida das pessoas é muito mais um
ideal do que uma possibilidade real. Será que é
possível um completo bem-estar físico, mental e
social? O que será que a palavra completo quer
dizer?
• Isto foi revisto na Conferência Internacional
sobre a Promoção da Saúde, na cidade de
Ottawa, em novembro de 1986, onde surgiu o
conceito de promoção de saúde.
/SAÚDE/BEM ESTAR/PROMOÇÃO/
• Muitas coisas importantes mudam a partir desse novo conceito:
• * a saúde deixa de ser uma utopia e passa a ser uma possibilidade;
* a saúde é um processo, isto é, não acontece de um momento
para o outro, requer tempo e o envolvimento de várias pessoas;
* inclui uma ação nova e fundamental, que é o controle desse
processo que passa a ser responsabilidade de todos os/as
cidadãos/ãs. Ou seja, o Controle Social.
• Em 1988, a Constituição Federal do Brasil passou a definir saúde
como um direito de todos e um dever do Estado, garantido
mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do
risco de doença e de outros agravos, e ao acesso universal e
igualitário às ações e serviços para a sua promoção, proteção e
recuperação. (Art. 196 e 198)
• Aqui, mais uma vez temos avanços, e quais seriam?
SAÚDE E POLÍTICA
• * A saúde passa a ser um direito e não um favor
de algum governo.
* O Estado tem o dever de garantir esse direito.
* A saúde está diretamente ligada às políticas
sociais e às condições econômicas que sustentam
essa política.
* Propõe-se a democratização no acesso
igualitário e universal. Isto quer dizer que todos e
todas têm o mesmo direito, independentemente
de nossas diferenças.
* Trata-se de promoção da saúde, o que garante
a prevenção da mesma.
SAÚDE E CUIDADO???
• Em 1986 aconteceu a 8ª Conferência Nacional de Saúde que elaborou
uma outra definição de saúde:
• “A saúde é a resultante das condições de alimentação, habitação,
educação, renda, meio ambiente, trabalho, emprego, lazer, liberdade,
acesso e posse de terra e acesso a serviços de saúde. ”
• Nesta definição, você pode perceber a ênfase nas condições sociais para
uma vida digna como condição para a saúde. A partir desta definição, a
saúde deixa locais específicos como os hospitais e centros de saúde para ir
para outros lugares: nossa casa, nossa escola, o ar que respiramos, a água
que bebemos, os alimentos que ingerimos, o salário que recebemos, o
que fazemos nas horas de lazer, e na liberdade que temos ou deixamos de
ter.
• É claro que saúde também resulta da responsabilidade que cada pessoa
precisa ter com o seu próprio bem-estar. É o que chamamos de auto-
cuidado: saber se prevenir, evitar as situações que colocam a saúde em
risco, prestar atenção à sua alimentação e higiene, pensar na vida a longo
prazo (e não apenas nesse instante).
RESUMINDO
• Resumidamente, observe o caminho por onde passou o conceito de saúde:
• * Eliminação da doença;
* Estado de completo bem-estar físico, mental e social;
* Construção social;
* Desenvolvimento humano integral;
* Direito humano fundamental;
* Bem público como pré–requisito para o desenvolvimento socioeconômico.
• * Utopia: Em seu sentido mais amplo significa a construção de um lugar ideal, que
contenha o progresso social e uma sociedade transformada baseada no humanismo
e na justiça social.
* Constituição Federal:
• Art. 196
“A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e
econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao
acesso universal e igualitário às ações e aos serviços para sua promoção, proteção
e recuperação.”
Art. 198
“As ações e serviços públicos de saúde integram uma rede regionalizada e
hierarquizada e constituem um sistema único, organizado de acordo com as
seguintes diretrizes:
I - descentralização, com direção única em cada esfera de governo;
II - atendimento integral, com prioridade para as atividades preventivas, sem prejuízo
dos serviços assistenciais;
III - participação da comunidade.
Parágrafo único - O sistema único de saúde será financiado, nos termos do art. 195,
com recursos do orçamento da seguridade social, da União, dos Estados, do Distrito
Federal e dos Municípios, além de outras fontes.”
Segre, M. & Ferraz, F.C.Rev. Saúde Pública, O conceito
de saúde 31 (5), 1997 539-542
• A Organização Mundial de Saúde (OMS) define saúde não apenas como a
ausência de doença, mas como a situação de perfeito bem-estar físico,
mental e social. Essa definição, até avançada para a época em que foi
realizada, é, no momento, irreal, ultrapassada e unilateral.*
• Procurar-se-á, no presente artigo, fundamentar objeções à definição de
Saúde da OMS. Trata-se de definição irreal por que, aludindo ao “perfeito
bemestar”, coloca uma utopia. O que é “perfeito bemestar?” É por acaso
possível caracterizar-se a “perfeição”?
• Não se deseja, enfocar o subjetivismo que tanto a expressão “perfeição”,
como “bem-estar” trazem em seu bojo. Mas, ainda que se recorra a
conceitos “externos” de avaliação (é assim que se trabalha em Saúde
Coletiva), a “perfeição” não é definível. Se se trabalhar com um
referencial “objetivista”, isto é, com uma avaliação do grau de perfeição,
bem-estar ou felicidade de um sujeito externa a ele próprio, estar-se-á
automaticamente elevando os termos perfeição, bem-estar ou felecidade
a categorias que existem por si mesmas e não estão sujeitas a uma
descrição dentro de um contexto que lhes empreste sentido, a partir da
linguagem e da experiência íntima do sujeito. Só poder-se-ia, assim falar
de bem-estar, felicidade ou perfeição para um sujeito que, dentro de suas
crenças e valores, desse sentido de tal uso semântico e, portanto, o
legitimasse.
SAÚDE/ANGÚSTIA
• Por outro lado, a angústia (com oscilações), tendo essa
angústia repercussão somática maior ou menor (por exemplo,
um cólon irritativo ou uma gastrite), configura situação
habitual, inerente às próprias condições do ser humano.
Divergir de posturas da sociedade, e até marginalizar-se ou
de ser marginalizado frente a essa mesma sociedade, não
obstante o sofrimento que essas situações trazem, é comum
e até desejável para o homem sintonizado com o ambiente
em que vive.
• Nessas condições, não se poderá certamente falar em
“perfeito bem-estar social”. Entende-se que, para fins de
estatísticas de saúde, as formas de “avaliação externa” sejam
necessárias; não seria exeqüível “qualitativar-se” esse tipo de
mensuração. Essas reflexões e as que se seguirão são
cabíveis para que o estudioso de ciências de saúde possa
“pensar” melhor sua matéria.
SAÚDE ORGANIZADA
• Recentemente, médicos dos EUA criaram uma entidade nosológica e até lhe deram
um C.I.D.: é a “síndrome da felicidade”, incompatível com a situação do homem, com
suas dificuldades, dúvidas, medos e incertezas. Seria dessa “felicidade” que a OMS
tiraria seus parâmetros para caracterizar o “perfeito bem-estar mental”?
• Recentemente, médicos dos EUA criaram uma entidade nosológica e até lhe deram
um C.I.D.: é a “síndrome da felicidade”, incompatível com a situação do homem, com
suas dificuldades, dúvidas, medos e incertezas. Seria dessa “felicidade” que a OMS
tiraria seus parâmetros para caracterizar o “perfeito bem-estar mental”?
• A definição de saúde da OMS está ultrapassada por que ainda faz destaque entre o
físico, o mental e o social. Mesmo a expressão “medicina psicossomática”, encontra-
se superada, eis que, graças à vivência psicanalítica, percebe-se a inexistência de
uma clivagem entre mente e soma, sendo o social também inter-agente, de forma
nem sempre muito clara, com os dois aspectos mencionados.
• Quando se fala em “bem-estar” já se englobam todos os fatores que sobre ele
influem: ou não está já uficientemente “sentido” pessoalmente, e descrito em outras
pessoas, que o infarto, a úlcera péptica, a colite irritativa, a asma brônquica, e até
mesmo o câncer guardam profundos vínculos com os estados afetivos dos sujeitos?
(a escolha do termo “sujeitos” e não “objetos” ou “vítimas”, dessas situações é
propositada, no sentido de introduzir a idéia de ser a “doença somática” apenas uma
“via a mais” para externar a turbulência afetiva, tendo sido essa via
inconscientemente buscada pelo sujeito, incapaz de harmonizar os seus conflitos
interiores).
SAÚDE/AFETO
• Suponha-se que decorra da percepção dessa “não clivagem” da
pessoa a conhecida expressão “devese tratar o doente e não a
doença”, dando margem, a inobservância dessa proposta, ao
sucesso das assim chamadas formas não tradicionais de medicina”
(muitas vezes maior do que o da medicina), por visarem, essas
técnicas, muito mais a afetividade do “sujeito”, do que a mera
expressão somática de sua turbulência emocional.
• Percebe-se a extrema dificuldade de aceitação, por muitos
profissionais de saúde, do fato de fincar-se o êxito terapêutico no
relacionamento afetivo com o cliente (o termo paciente não foi,
propositadamente, usado para tornar mais distante a idéia de
exclusiva aceitação, paciente, submissa, com relação ao profissional
de saúde). O vínculo afetivo, embutido de confiança recíproca, na
dupla que empreende uma ação de saúde (profissional-cliente), a
par dos aspectos cognitivos, técnicos e científicos, é decisivo para
que se possa esperar a melhora do estado do cliente.
AFETO (IM)POSSÍVEL
• Dir-se-á que no mundo atual, com a medicina em grande
parte socializada (pré-paga), estatal ou não, com o
profissional de saúde habitualmente mal ressarcido (não
dispondo de tempo e espaço afetivo para dedicar-se
seriamente a cada um de seus pacientes), a criação e
preservação dessa ligação afetiva entre o profissional de
saúde e o cliente é tão irreal quanto a expectativa de
“perfeito” bem-estar da OMS.
• Admite-se que assim seja, pelo menos em parte, cabendo a
contrapartida à própria estrutura de personalidade do
profissional, despreparado muitas vezes para o
estabelecimento daquele tipo de vínculo.
• As restrições mencionadas absolutamente não
desvalorizam as reflexões apresentadas.
SAÚDE/QUALIDADE DE VIDA
• Finalmente, para tecer considerações sobre a mencionada
“unilateralidade” da definição da OMS, há que se discutir o
conceito de “qualidade de vida”. O que é “qualidade de vida”?
• Dentro da Bioética, do conceito de autonomia, entende-se que
“qualidade de vida” seja algo intrínseco, só possível de ser avaliado
pelo próprio sujeito. Prioriza-se a subjetividade, uma vez que, de
acordo inclusive com o conceito de Bion2 (1967), a realidade é a de
cada um. Não há rótulos de “boa” ou “má” qualidade de vida,
embora, conforme já se disse anteriormente, a saúde pública, para
a elaboração de suas políticas, necessite de “indicadores”.
• Assim, por exemplo, é óbvio que são imprescindíveis, dentro de
uma sociedade, as estatísticas de mortalidade pelas várias doenças.
Mas, o que é doença? Não é ela, liminarmente, apenas um conceito
estatístico, considerando-se doentes (físicos, mentais ou sociais)
todos os que se situarem fora da assim chamada “normalidade”?
SAÚDE/NORMALIDADE
• Principalmente em psiquiatria (embora isso ocorra, sem
excessões, em todas as expecialidades médicas), onde, na
maioria das vezes nem mesmo alterações morfológicas dão
chancela à diversidade dos indivíduos (e, ainda que
dessem, não seria, o raciocínio, o mesmo? - não valerá a
pena ser repensado o valor dessa diversidade
(individualidade), a fim de preservála?
• Do fato de, cientificamente, serem conhecidos muitos
“determinantes” genéticos, culturais e até físicos, químicos
e biológicos de muitas patologias, decorrerá o direito ou
não de intervir sobre essas diferenças quando o sujeito,
manifestando sua vontade, não desejar essa intervenção?
O que é o doente? Um ser humano diferente, que talvez
tenha sua vida encurtada.
SAÚDEMENTAL SEDIMENTAL?
• O que é o sofrimento? É dor, inteiramente subjetiva, qualquer que
seja a sua origem. O tratamento de uma doença, qualquer que seja,
ela apenas será legítimo (e, conseqüentemente, ético), se o
“doente” manifestar vontade de ser ajudado. Caso contrário, o
“tratamento” poderá tratar-se de “defesa social” (situação
freqüente, em psiquiatria) transvestida de benemerência.
• Retornando a considerar os condicionamentos, dos genéticos aos
sociais, não existem todos eles, tanto nos “sãos” como nos
“doentes”? A autonomia é uma condição que não se autorga a
quem quer que seja: ou se reconhece, ou se nega. Este problema
com relação à psiquiatria, na verdade, já se cronificou entre nós.
• A própria noção da doença mental, como bem demonstrou Foucalt
(1972) foi constituída historicamente. Por um hábito positivista –
uma exigência metodológica – procurou-se no corpo anátomo-
fisiológico do “louco” o substrato último para explicar sua
“doença”.
SAÚDE DESVIADA?
• Ocorre que, como denunciou o movimento antipsiquiátrico, a
noção de “desvio” pendia mais para um juízo de valor que servia,
na verdade, ao controle e à normalização sociais.
• Logo, volta-se a enfatizar a prioridade do subjetivismo em toda
reflexão sobre qualidade de vida. Poderá alguém afirmar que um
portador de colostomia, conseqüente a uma cirurgia de câncer
intestinal, tem qualidade de vida pior do que um seguidor
obsessivo de regras religiosas, intimidado perenemente por um
Deus que lhe foi inculcado, independentemente de sua vontade?
• Nesta óptica, vai ficando claro que “realidade” nada mais é do que
uma convergência de subjetivismos. Haverá outra forma de
conceituá-la, essa realidade, que só pode ser vista e pensada por
pessoas?
• Será que alguém, pelo simples fato de não ter recursos para se
alimentar de acordo com nossos padrões, poderá aprioristicamente
ser considerado com qualidade pior de vida do que uma pessoa
bem alimentada?
ALMA/SAÚDE???
• Não restam dúvidas de que essas considerações, aparentemente
radicalizantes, visam apenas a atenuar a tendência positivista dos
conceitos de saúde que aí estão.
• O presente enfoque é importante para uma visão ampliada de
saúde pública. Necessariamente ela observa, descreve, avalia e
administra indicadores: a política de saúde louva-se nesses
elementos.
• Assim sendo a abordagem “de dentro para fora” do ser humano,
onde o que mais conta é o subjetivismo do indivíduo, recorrendo-se
inclusive à teoria e à vivência psicanalítica para a sua
fundamentação, pode parecer despropositada e fora do contexto
de saúde pública.
• Não é nisto que se pensa. O destaque à autonomia do ser humano,
em que supostamente existe uma “vontade”, fazendo parte de uma
“psyche” (alma) que transcende ao próprio ambiente sociocultural
e mesmo à sua babagem genética, talvez dê uma condição melhor
de entender a virtual ineficácia de políticas de saúde em
determinados casos e circunstâncias.
SAÚDE VISADA
• Não é nisto que se pensa. O destaque à autonomia do ser
humano, em que supostamente existe uma “vontade”,
fazendo parte de uma “psyche” (alma) que transcende ao
próprio ambiente sociocultural e mesmo à sua babagem
genética, talvez dê uma condição melhor de entender a
virtual ineficácia de políticas de saúde em determinados
casos e circunstâncias.
• Esta visão anti-positivista e mais humana das atividades dos
profissionais de saúde, pode contribuir para um contato
mais sintônico, mais empático e, conseqüentemente, mais
ético, entre eles e a população assistida.
• E, concluindo, dentro desse enfoque, não se poderá dizer
que saúde é um estado de razoável harmonia entre o
sujeito e a sua própria realidade?
R. gaúcha Enferm., Porto Alegre, v.20, n.1, p.26-40, jan. 1999 -
PROBLEMATIZANDO CONCEITOS DE SAÚDE, A PARTIR DO
TEMA DA GOVERNABILIDADE DOS SUJEITOS Valéria Lerch Lunardi

• A saúde, o estado de saúde, ser saudável, são termos verbalizados,


freqüentemente, como metas e objetivos a serem buscados e
atingidos pelo exercício da profissão. Falar em governabilidade, na
verdade, significa falar nos limites ou pontos de contato entre o
governo de si, entendido como exercício de autonomia, e o governo
político de outros, no sentido de heteronomia.

• Para Caponi (1997), o caráter “mutável”, “móvel” e “subjetivo”


atribuído ao conceito de bem-estar, antes de uma crítica, reafirma o
caráter de subjetividade como um elemento inerente à oposição
saúde-enfermidade. Mesmo numa visão de saúde que se restrinja
apenas ao âmbito do biológico, a expressão dos sintomas pelo
indivíduo, do que sente, do que percebe como manifestação em si,
estará, sempre, carregada da sua subjetividade, da sua forma de
perceber e sentir que é ou pode ser diferente do que é sentido e
percebido por outro indivíduo.
SAÚDE EM QUESTÃO
• Seu caráter utópico e de subjetividade refere-se à possibilidade desta
conceituação de saúde ser politicamente utilizada “para legitimar estratégias de
controle e de exclusão do que consideramos como indesejável e perigoso”.
• Ao afirmar-se o bem-estar como um valor desejável, seja físico, emocional ou
social, parece que tudo o que é reconhecido como positivo na sociedade, como
produtor da sensação e do sentimento de bem-estar, passa a poder fazer parte do
âmbito da saúde, como “a laboriosidade, a convivência social, a vida familiar, o
controle dos excessos”, caracterizando, ao contrário, como um desvalor, como o
seu “reverso patológico”, tudo o que se apresenta como negativo, perigoso,
indesejável, ou o que é reconhecido como maléfico.
• Por outro lado, se a subjetividade, a condição e o vivido do sujeito, sua história e o
seu modo de viver são fundamentais, será possível determinar externamente ao
sujeito, o que é ou não é o seu próprio estado de bem-estar?
• Será que o que considero e reconheço como bem-estar será o mesmo bemestar
percebido por outras pessoas que vivem em contextos, situações sociais,
extremamente diferentes das minhas? É possível determinar, externamente aos
sujeitos o que é o seu estado de bem-estar?
SAÚDE x SAUDÁVEL
• 1986: condições de alimentação, moradia, educação, lazer, transporte e
emprego, e das formas de organização social de produção, constata que,
além de se dar a superação da tradição higienista e curativa pela
determinação social da doença, a saúde parece situar-se, assim, num
âmbito superestrutural, resultante de uma base sócio-econômica.
• Apesar do mérito deste conceito em articular saúde e sociedade,
concordo com Nascimento de que a saúde não pode ser entendida como
um meio e um instrumento de transformação da sociedade como um
todo, como o eixo principal e norteador das lutas de mudanças da
sociedade.
• Mesmo reconhecendo a importância da saúde, da sua promoção,
preservação e recuperação, em muitas das reivindicações que se fazem
necessárias, há que reconhecer não ser este o foco primordial ou,
necessariamente, a trajetória a ser construída, frente às exigências sociais
que se fazem prementes.
• Por outro lado, sabe-se que tais condições exigidas para alcançar-se a
saúde, na verdade, podem constituir-se apenas em uma possível facção
do problema da saúde, já que, em países desenvolvidos, tais condições
foram alcançadas e, no entanto, as pessoas continuam adoecendo por
outros problemas.
SAÚDE SOCIAL OU DOENTE?
• Além destes argumentos, outros riscos desta conceptualização são
destacados por Caponi (1997, p.7):
• primeiro, a perda de referência a uma especificidade biológica ou
psíquica da enfermidade, excluindo da polaridade saúde-doença
qualquer afecção não resultante das condições sociais dos indivíduos,
como já abordado em relação às populações dos países mais ricos.

• segundo problema indica a amplidão e a extensão do conceito que


permitiria a inserção de praticamente todos os âmbitos da existência
dos homens numa relação de saúde-doença, possibilitando a sua
medicalização, isto é, tornando, de uma certa forma, até “desejável” a
medicalização da existência. Dentre outros equívocos possíveis,
decorrentes do uso de um conceito de saúde tão abrangente, é
ressaltado o perigo nas exigências de “reivindicações e direitos que
nem sempre podem ser reduzidos à parâmetros de saúde, como é o
caso, por exemplo, do direito à autonomia, como ao legitimar uma
extensão de respostas ‘terapêuticas’ para qualquer conflito social”.
SAÚDE PRÓPRIA???
• Garcia (1997, p.103-104), em pesquisa realizada em um Centro de
Saúde de Florianópolis, com o objetivo de discutir o caráter
educativo das ações em saúde, constata, por parte dos usuários, a
vinculação de saúde com um estado de bem-estar, como algo “que
sente”, de sentir-se bem, de “estar bem consigo”, de “estar feliz”,
de “estar de bem com a vida”. Os entrevistados não fazem
qualquer referência à saúde como decorrente de determinantes
que não estejam relacionados com o seu sentir individual e próprio.
• Parece importante destacar que tal análise não tem a intenção de
legitimar as desigualdades sociais vividas pelos homens, na
sociedade, com as quais discordo profundamente. Antes, objetiva
reconhecer e admitir que há pessoas, por exemplo, que não
usufruem de lazer ou da liberdade, segundo minha concepção e
valores e, entretanto, podem e se reconhecem, freqüentemente,
como vivendo em estado de saúde.
SAÚDE DO HOMEM
• Por outro lado, mesmo que num sentido
abrangente, se a saúde fosse a resultante de tais
condições (transporte, emprego, entre outras)
como entender que pessoas que não desfrutam
de tais condições, aparentemente, possam
encontrar-se e reconhecer-se em estado de
saúde?
• Somente o próprio homem pode avaliar as
mudanças que sofre - pathós -, pela sua própria
experiência cotidiana.
• Saúde é o silêncio dos órgãos.
SAÚDE VIVIDA
• Déjours: saúde é assunto ligado a cada ser humano, um
compromisso do homem com sua realidade. O humano precisa
buscar meios para um caminho singular e original em direção ao
bem estar, com liberdade de avaliar e regular as variações
orgânicas, de administrar a própria vida e de agir por si e
coletivamente, junto aos outros, tanto no trabalho organizado
como nas relações sociais.
• Canguilhem: saúde é o que deseja a terapêutica ou aquele que a
tem ou não?. Saúde é instituir novas normas e transgredir as
habituais, dada a variação das situações. Saúde é uma margem de
tolerância às infidelidades do mundo: acontecimentos inesperados,
movimento fundamental como historicidade que o humano é.
• Direito de ser quem se é, pois o ser saudável revela a diferença
entre o conceito e a experiência vivida. Saúde é ser cada um seu
próprio agente de saúde em diálogo com quem é capaz de fazer
uma terapia (serviço) para tratamento (apalpar).
SAÚDE: ATO OU AÇÃO?
• Ao afirmar, como papel dos profissionais de saúde, o exercício da
implementação de estados de equilíbrio do ser humano pelo
atendimento das suas necessidades básicas, há o risco não só
implícito, mas bastante claro, de que em nome da saúde dos
clientes, os profissionais possam ou busquem “atuar” e interferir no
atendimento de todas as necessidades dos sujeitos, o que, na
verdade, pela sua abrangência, poderia significar a interferência na
existência do homem como um todo.
• Focalizando, de modo mais específico, o seu conceito de saúde,
questiono se será possível, além de ético, externamente aos
sujeitos, reconhecidos como conscientes, livres e autônomos,
determinar e identificar seus estados de equilíbrio ou
desequilíbrio?
• Constato, então, a partir das análises realizadas sobre os conceitos
de saúde da OMS, da VIII CNS e de Horta, que há três
conceptualizações.
SAÚDE CUIDADA??????????
• Tais modos parecem ter elementos comuns que poderiam ser apontados e criticados:
• a extensão da saúde a todos os âmbitos da existência, em relação ao alcance de um
estado de bem-estar físico, social e mental; seja pelo conceito abrangente de saúde;
seja através do atendimento das necessidades psicobiológicas, psicossociais e psico-
espirituais;
• a medicalização da saúde e, consequentemente, da vida dos indivíduos, já que toda a
sua existência torna-se passível de ser focalizada, abordada e “assistida” como um
assunto de saúde, e, em especial, pelos profissionais de saúde, especialistas desta
área;
• o domínio do saber médico e, por extensão, do saber da enfermagem como
possibilidade para resolver, até, os problemas e conflitos existenciais mais internos, o
que parece mais explícito e evidente em Horta;
• a função do médico ou da enfermeira podendo assemelhar-se à função do pastor3: no
conceito de saúde da OMS, quando não apenas o bem-estar físico é reconhecido como
saúde, mas, também, o bem-estar mental e social; no conceito da VIII CNS, ao
abranger no seu conceito de saúde, não só as condições de alimentação, transporte e
moradia, mas as de liberdade, do uso do tempo livre e do lazer, por exemplo; em
Horta, ao abordar a possibilidade de atendimento, pela enfermagem, dentre outras,
de necessidades como de auto-realização, auto-imagem, amor e filosofia de vida.
SAÚDE/CUIDADO
• Foucault apresenta o poder pastoral como um tipo de poder exercido pelo pastor
não só ao rebanho como um todo, de modo totalizante, mas a cada ovelha,
individualmente, de modo abnegado, repleto de responsabilidade e bondade
compassiva, em que o pastor responsabiliza-se por suas ovelhas e pelo rebanho
como um todo requerendo saber e conhecer tudo o que se passa na intimidade da
sua alma. A importância e a pertinência do poder pastoral e do poder político, para
o entendimento de como as sociedades modernas organizam-se e funcionam,
encontra-se no entrecruzamento que se dá entre o poder político do Estado, como
estrutura jurídica, e o poder pastoral que tem como função prestar ajuda e exercer
o cuidado contínuo e permanente dos indivíduos e das populações.
• Analisando a política de saúde do século XVIII, Foucault verifica que a partir da
disciplinarização e da medicalização do ambiente hospitalar, o hospital converte-se
em local de produção e de transmissão de saber. Os indivíduos e seus corpos, assim
como os corpos das populações, tornam-se objeto de saber e de prática médicos. O
corpo das populações torna-se a meta final do governo. O Estado assume a função
de organização da sociedade como meio de bem-estar, saúde e longevidade, pela
necessidade de preservação da força de trabalho, mas mais ainda, pela necessidade
econômico-política de governo da população. (Foucault, 1990)
Desconstruindo a definição de saúde.
Luis Salvador de Miranda Sá Junior. Jornal do Conselho Federal de Medicina (CFM)
jul/ago/set de 2004, pg 15-16
Sobre o conceito de saúde

• Etimologicamente, saúde do latim sanitas, referindo-se à integridade anátomo-funcional


dos organismos vivos (sanidade).
• Não se trata de conceito unívoco: mais de uma significação, que podem ser confundidas.
Deve-se estar atento, não se deixar confundir. Destas significações, alguma frequentes:
• a) sanidade, ausência de enfermidade em um ser vivo (o mais antigo significado, como
em: esteve doente, recuperou a saúde);
• b) saudação amistosa (à moda dos romanos antigos);
• c) rito verbal exclamativo, quando alguém espirra;
• d) estado de capacidade, energia, disposição e vigor físico ou mental (como em não tenho
saúde para esse trabalho), sentido figurado e metafórico;
• e) sentir-se bem ou, ao menos, não se sentir mal (a saúde se manifesta no silêncio dos
órgãos, diziam os antigos);
• f) área do conhecimento e campo de estudo sobre a saúde, as ciências da saúde (enfim,
todos os estudos sanitários que se interessam pelos indivíduos e comunidades, as
ciências da saúde);
• g) de-signação sintética dos programas, estabelecimentos, agências ou organismos
sociais públicos ou privados destinados a cuidar da saúde dos indivíduos e comunidades;
• h) atividade política pública ou programa social governamental voltado para os cuidados
com a saúde individual ou coletiva e para a administração destes serviços (como em
funcionário da saúde, profissão de saúde, Ministério da Saúde e secretaria de Saúde).
SAÚDE/CUIDADO/ORGANIZADOS
• Neste último sentido, saúde (melhor seria dizer ação,
estabelecimento ou sistema de cuidados com a saúde), quer dizer
atividade sanitária consubstanciada nas ações e serviços de saúde;
na atividade dos trabalhadores e dos estabelecimentos ou agências
de saúde, nos programas e planos de saúde e nas ações de saúde
públicas ou privadas.
• Quando se diz: a saúde é direito do cidadão e dever do Estado,
funcionário da saúde, profissional da saúde ou orçamento da
saúde, é com o sentido de assistência ou cuidado com a saúde que
o termo é utilizado.
• De fato, como seria possível um orçamento do bem-estar físico,
mental e social, ou ser um funcionário da ausência de doença, ou o
Estado garantir a sanidade de alguém ou de algum animal ou
vegetal? O que a Constituição chama de saúde? Exatamente o
último dos sentidos apontados para o termo.
SAÚDE OFICIAL
• A Constituição brasileira declara a saúde como direito social (art.
6º). E direito de todo cidadão e, conseqüentemente, dever do
Estado (art. 196).
• Quem se debruçar sobre a Constituição do Brasil verificará que,
nela, saúde significa “políticas sociais e econômicas que visem à
redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso
universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção,
proteção e recuperação” (art. 196).
• E mais, aqui saúde quer dizer assistência à saúde ou “atendimento
integral, com prioridade para as atividades preventivas, sem
prejuízo dos serviços assisten-ciais”, “com participação da
comunidade” (art. 198, incisos II e III).
• Donde se depreende que a legislação brasileira chama de saúde ao
sistema social de atendimento à saúde das pessoas e das
comunidades. Ninguém, honestamente, tem o direito de pretender
outra coisa para este significante neste contexto particular.
O conceito de bem-estar
• O primeiro significado de bem-estar pode ser a noção subjetiva de
sentir-se bem, não ter queixas, não apresentar sofrimento somático
ou psíquico, nem ter consciência de qualquer lesão estrutural ou de
prejuízo do desempenho pessoal ou social (inclusive familiar e
laboral). Aí, bem-estar significa sentir-se bem e não apenas não se
sentir mal.
• Mas bem-estar também significa condição de satisfação das
necessidades (conscientes ou inconscientes, naturais ou
psicossociais). Nos seres humanos, implica na satisfação das
necessidades biológicas, o bem-estar físico; das necessidades
psicológicas, o bem-estar mental; e das necessidades sociais, o
bem-estar social. E não apenas satisfeitas todas essas necessidades,
mas perfeitamente (ou completamente) atendidas, como explicita a
OMS.
• A identificação da saúde com bem-estar pode ter tido a finalidade
de superar as dificuldades metafísicas da definição negativa ou o
propósito estratégico de dissociá-la dos conceitos de enfermidade e
invalidez. E estes dois propósitos foram obtidos. Tem o mérito de
incluir as condições psicossociais como de saúde, mas, na prática,
re-velou seu caráter utópico e sua inoperacionalidade.
BEM-ESTAR CONCEITUADO
• Como se vê, o conceito de bem-estar não tem a univocidade exigida pelo pensamento
científico. Pode significar não se sentir mal, sentir-se bem ou ter satisfeitas suas
necessidades.
• Por isso, o conceito de saúde da definição da OMS, mesmo que estivesse bem
construído, dependeria do significado do conceito de bem-estar, ausente dele. A rigor,
a proposição da OMS significa que o ente nela caracterizado deve ter perfeita ou
completamente atendidas todas as suas necessidades.
• Isto é, para ser considerado saudável o ser vivo deve ter satisfeitas todas as suas
necessidades, quando os humanos criam sempre novas necessidades. O que
configura o caráter utópico desta caracterização de saúde.
• Em termos de satisfação das necessidades ou com referência a sentir-se bem, para
os seres humanos, desfrutar completo bemestar é, no mínimo, algo impossível
mesmo de se cogitar como utopia distante, na qual as pessoas em geral (ou alguma
pessoa em particular) possam ter satisfeitas todas as suas necessidades individuais e
sociais, em todos os planos de sua existência (o biológico, o psicológico e o social).
• Por esta conceituação, saúde implica em perfeito bem-estar ou completo bem-estar
(dependendo da tradução).
• Por outro lado, a insatisfação resultante de um estado de mal-estar pode ser positiva,
isto é, um fator de saúde, na medida em que pode ser condição de desenvolvimento e
aperfeiçoamento. Estado de insatisfação que costuma ser condicionante poderoso na
conduta de indivíduos e coletividades. Podendo, mesmo, ser encarado como fator
essencial da evolução de indivíduos e da espécie.
BEM-ESTAR CONFUNDIDO
• Considerando-se a menor possibilidade, pode-se pretender
que o mal-estar constitua componente essencial da
condição humana.
• Parece ser característica dos humanos se mostrarem
insatisfeitos; incapazes de completa satisfação e isto,
repita-se, tem sido importante componente de sua
identidade e de seus mecanismos adaptativos. Porque
sempre que o ser humano vê satisfeitas suas necessidades
num momento, no seguinte cria outras. Por isto, tem sido
definido como homo insatisfactus.
• Desse modo, a “definição” de saúde adotada pela OMS não
é definição vulgar e nem definição científica, pois discorda
das exigências contemporâneas referentes à elaboração
das definições (científicas ou não); tampouco é uma
concepção ampla de saúde, mas apenas uma mal
elaborada concepção de saúde humana.
História do Conceito de Saúde.MOACYR SCLIAR. PHYSIS: Rev.
Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, 17(1):29-41, 2007, p.29-41
• A concepção mágico-religiosa partia, e parte, do princípio de que a doença
resulta da ação de forças alheias ao organismo que neste se introduzem
por causa do pecado ou de maldição. Para os antigos hebreus, a doença
não era necessariamente devida à ação de demônios, ou de maus
espíritos, mas representava, de qualquer modo, um sinal da cólera divina,
diante dos pecados humanos. Deus é também o Grande Médico: “Eu sou o
Senhor, e é saúde que te trago” (Êxodo 15, 26); “De Deus vem toda a cura”
(Eclesiastes, 38, 1-9).
• A doença era sinal de desobediência ao mandamento divino. A
enfermidade proclamava o pecado, quase sempre em forma visível, como
no caso da lepra Trata-se de doença contagiosa, que sugere, portanto,
contato entre corpos humanos, contato que pode ter evidentes conotações
pecaminosas.
• Em primeiro lugar, porque tal tratamento não estava disponível; em
segundo, porque a lepra podia ser doença, mas era também, e sobretudo,
um pecado. O doente era isolado até a cura, um procedimento que o
cristianismo manterá e ampliará: o leproso era considerado morto e rezada
a missa de corpo presente, após o que ele era proibido de ter contato com
outras pessoas ou enviado para um leprosário.
• Esse tipo de estabelecimento era muito comum na Idade Média, em parte
porque o rótulo de lepra era freqüente, sem dúvida abrangendo numerosas
outras doenças.
SAÚDE RELIGIOSA
• Os preceitos religiosos do judaísmo expressam-se com freqüência em leis
dietéticas, que figuram, em especial, nos cinco primeiros livros da Bíblia (Torá,
ou Pentateuco). Sua finalidade mais evidente é a de manter a coesão grupal,
acentuando as diferenças entre hebreus e outros povos do Oriente Médio.
• Essas disposições eram sistemas simbólicos, destinados a manter a coesão do
grupo e a diferenciação com outros grupos, mas podem ter funcionado na
prevenção de doenças, sobretudo de doenças transmissíveis. Por exemplo, um
animal não poderia ser abatido por pessoa que tivesse doença de pele, o que
faz sentido: lesões de pele podem conter micróbios. Moluscos eram proibidos, e
dessa forma certas doenças, como a hepatite transmitida por ostras, podiam
ser evitadas. Isso não significa que a prevenção fosse exercida
conscientemente; as causas das doenças infecciosas eram desconhecidas.
• Seria muito difícil, por exemplo, associar a carne de porco à transmissão da
triquinose. Para isto há uma explicação ecológica, por assim dizer. A criação de
suínos, no Oriente Médio, seria um contra-senso. Trata-se de uma região árida,
sem a água de que esses animais necessitam como forma de manter seu
equilíbrio térmico.
• Além disso, povos nômades teriam dificuldades em manter um animal que se
move pouco, como o porco. Finalmente, ao contrário dos bovinos, que servem
como animal de tração e que proporcionam leite, o suíno só fornece a carne -
uma luxúria, portanto, uma tentação que era evitada pelo rígido dispositivo da
lei.
SAÚDE/CULTURA
• Em outras culturas era o xamã, o feiticeiro tribal, quem se
encarregava de expulsar, mediante rituais, os maus espíritos que
se tinham apoderado da pessoa, causando doença. O objetivo é
reintegrar o doente ao universo total, do qual ele é parte. Esse
universo total não é algo inerte: ele “vive” e “fala”; é um
macrocorpo, do qual o Sol e a Lua são os olhos, os ventos, a
respiração, as pedras, os ossos (homologação antropocósmica). A
união do microcosmo que é o corpo com o macrocosmo faz-se por
meio do ritual.
• Entre os índios Sarrumá, que vivem na região da fronteira entre
Brasil e Venezuela, o conceito de morte por causa natural ou
mesmo por acidente praticamente inexiste: sempre resulta da
maldição de um inimigo. Ou, então, conduta imprudente: se alguém
come um animal tabu, o espírito desse animal vinga-se provocando
doença e morte.
• A tarefa do xamã é convocar espíritos capazes de erradicar o mal.
Para isso ele passa por um treinamento longo e rigoroso, com
prolongada abstinência sexual e alimentar; nesse período aprende
as canções xamanísticas e utiliza plantas com substâncias
alucinógenas que são chamarizes para os espíritos capazes de
combater a doença.
SAÚDE/MEDICINA/ANTIGA
• A medicina grega representa uma importante inflexão na maneira de encarar a doença. É verdade que, na
mitologia grega, várias divindades estavam vinculadas à saúde. Os gregos cultuavam, além da divindade
da medicina, Asclepius, ou Aesculapius (que é mencionado como figura histórica na Ilíada), duas outras
deusas, Higieia, a Saúde, e Panacea, a Cura. Ora, Higieia era uma das manifestações de Athena, a deusa da
razão, e o seu culto, como sugere o nome, representa uma valorização das práticas higiênicas; e se Panacea
representa a idéia de que tudo pode ser curado - uma crença basicamente mágica ou religiosa -, deve-se
notar que a cura, para os gregos, era obtida pelo uso de plantas e de métodos naturais, e não apenas por
procedimentos ritualísticos.

• Essa visão religiosa antecipa a entrada em cena de um importante personagem: o pai da Medicina,
Hipócrates de Cós (460-377 a.C.). Pouco se sabe sobre sua vida; poderia ser uma figura imaginária, como
tantas na Antigüidade, mas há referências à sua existência em textos de Platão, Sócrates e Aristóteles. Os
vários escritos que lhe são atribuídos, e que formam o Corpus Hipocraticus, provavelmente foram o
trabalho de várias pessoas, talvez em um longo período de tempo. O importante é que tais escritos
traduzem uma visão racional da medicina, bem diferente da concepção mágico-religiosa antes descrita. O
texto intitulado “A doença sagrada” começa com a seguinte afirmação: “A doença chamada sagrada não é,
em minha opinião, mais divina ou mais sagrada que qualquer outra doença; tem uma causa natural e sua
origem supostamente divina reflete a ignorância humana”.
• Hipócrates postulou a existência de quatro fluidos (humores) principais no corpo: bile amarela, bile negra,
fleuma e sangue. Desta forma, a saúde era baseada no equilíbrio desses elementos. Ele via o homem como
uma unidade organizada e entendia a doença como uma desorganização desse estado. A obra hipocrática
caracteriza-se pela valorização da observação empírica, como o demonstram os casos clínicos nela
registrados, reveladores de uma visão epidemiológica do problema de saúde-enfermidade. A apoplexia,
dizem esses textos, é mais comum entre as idades de 40 e 60 anos; a tísica ocorre mais freqüentemente
entre os 18 e os 35 anos.
SÁUDE/HOMEM/MUNDO
• Essas observações não se limitavam ao paciente em si, mas a seu ambiente. O texto conhecido como
“Ares, águas, lugares” discute os fatores ambientais ligados à doença, defendendo um conceito
ecológico de saúde-enfermidade.

• Daí emergirá a idéia de miasma, emanações de regiões insalubres capazes de causar doenças como a
malária, muito comum no sul da Europa e uma das causas da derrocada do Império Romano. O
nome, aliás, vem do latim e significa “maus ares” (é bom lembrar que os romanos incorporam os
princípios da medicina grega).

• Galeno (129-199) revisitou a teoria humoral e ressaltou a importância dos quatro temperamentos no
estado de saúde. Via a causa da doença como endógena, ou seja, estaria dentro do próprio homem,
em sua constituição física ou em hábitos de vida que levassem ao desequilíbrio.

• No Oriente, a concepção de saúde e de doença seguia, e segue, um rumo diferente, mas de certa
forma análogo ao da concepção hipocrática. Fala-se de forças vitais que existem no corpo: quando
funcionam de forma harmoniosa, há saúde; caso contrário, sobrevem a doença. As medidas
terapêuticas (acupuntura, ioga) têm por objetivo restaurar o normal fluxo de energia (“chi”, na
China; “prana”, na Índia) no corpo.

• Na Idade Média européia, a influência da religião cristã manteve a concepção da doença como
resultado do pecado e a cura como questão de fé; o cuidado de doentes estava, em boa parte,
entregue a ordens religiosas, que administravam inclusive o hospital, instituição que o cristianismo
desenvolveu muito, não como um lugar de cura, mas de abrigo e de conforto para os doentes.
SAÚDE/CORPO/MENTE
• Mas, ao mesmo tempo, as idéias hipocráticas se mantinham, através da
temperança no comer e no beber, na contenção sexual e no controle das
paixões. Procurava-se evitar o contra naturam vivere, viver contra a
natureza. O advento da modernidade mudará essa concepção religiosa.
• O suíço Paracelsus (1493-1541) afirmava que as doenças eram provocadas
por agentes externos ao organismo. Naquela época, e no rastro da
alquimia, a química começava a se desenvolver e influenciava a medicina.
Dizia Paracelso que, se os processos que ocorrem no corpo humano são
químicos, os melhores remédios para expulsar a doença seriam também
químicos, e passou então a administrar aos doentes pequenas doses de
minerais e metais, notadamente o mercúrio, empregado no tratamento
da sífilis, doença que, em função da liberalização sexual, se tinha tornado
epidêmica na Europa.
• Já o desenvolvimento da mecânica influenciou as idéias de René
Descartes, no século XVII. Ele postulava um dualismo mente-corpo, o
corpo funcionando como uma máquina.
DOENÇA SAUDADA
• Ao mesmo tempo, o desenvolvimento da anatomia, também conseqüência da
modernidade, afastou a concepção humoral da doença, que passou a ser localizada
nos órgãos. No famoso conceito de François Xavier Bichat (1771-1802), saúde seria o
“silêncio dos órgãos”.
• Mas isto não implicou grandes progressos na luta contra as doenças, que eram
aceitas com resignação: Pascal dizia que a enfermidade é um caminho para o
entendimento do que é a vida, para a aceitação da morte, principalmente de Deus.
• Mais tarde, os românticos não apenas aceitariam a doença, como a desejariam:
morrer cedo (de tuberculose, sobretudo) era o destino habitual depoetas e músicos
como Castro Alves e Chopin. Para o poeta romântico alemão, a doença refinaria a
arte de viver e a arte propriamente dita. Saúde, nestas circunstâncias, era até
dispensável.
• Mas a ciência continuava avançando e no final do século XIX registrou-se aquilo que
depois seria conhecido como a revolução pasteuriana. No laboratório de Louis
Pasteur e em outros laboratórios, o microscópio, descoberto no século XVII, mas até
então não muito valorizado, estava revelando a existência de microorganismos
causadores de doença e possibilitando a introdução de soros e vacinas. Era uma
revolução porque, pela primeira vez, fatores etiológicos até então desconhecidos
estavam sendo identificados; doenças agora poderiam ser prevenidas e curadas.
SAÚDE CONTADA
• Esses conhecimentos impulsionaram a chamada medicina tropical.
O trópico atraía a atenção do colonialismo, mas os
empreendimentos comerciais eram ameaçados pelas doenças
transmissíveis endêmicas e epidêmicas. Daí a necessidade de
estudá-las, preveni-las, curá-las.
• Nessa época nascia também a epidemiologia, baseada no estudo
pioneiro do cólera em Londres, feito pelo médico inglês John Snow
(1813-1858), e que se enquadrava num contexto de “contabilidade
da doença”. Se a saúde do corpo individual podia ser expressa por
números - os sinais vitais -, o mesmo deveria acontecer com a
saúde do corpo social: ela teria seus indicadores, resultado desse
olhar contábil sobre a população e expresso em uma ciência que
então começava a emergir, a estatística.
• O termo é de origem alemã, Statistik, e deriva de Staat, Estado, o
que é bastante significativo, pois o desenvolvimento da estatística
coincide com o surgimento de um Estado forte, centralizado. A
estatística teve boa acolhida na Inglaterra, onde vigorava a idéia,
mais tarde expressa em um famoso dito de Lord Kelvin (William
Thomson, 1824-1907), segundo o qual tudo que é verdadeiro pode
ser expresso em números.
SÁUDE URBANIZADA
• Na verdade, métodos numéricos no estudo da sociedade, aí incluída a situação de
saúde, já haviam sido introduzidos no século XVII. O médico e rico proprietário rural
William Petty (1623-1687) iniciara o estudo do que denominava de “anatomia
política”, coletando dados sobre população, educação, produção e também doenças.
Esse processo ganhou impulso no século XIX.

• Na Inglaterra, berço da Revolução Industrial, também surgiram estudos desse tipo: é


que ali se faziam sentir com mais força os efeitos, sobre a saúde, da urbanização, da
proletarização. Esta foi a situação que inspirou Friedrich Engels a escrever Condição
da classe trabalhadora na Inglaterra. A partir de 1840 aparecem os Bluebooks e
inquéritos estatísticos.
• Caráter pioneiro nas estatísticas de saúde é atribuído a William Farr (1807-1883).
Médico, Farr tornou-se em 1839 diretor-geral do recémestabelecido General Register
Office da Inglaterra, e aí permaneceu por mais de 40 anos. Seus Annual Reports,
nos quais os números de mortalidade se
• combinavam com vívidos relatos, chamaram a atenção para as desigualdades entre
os distritos “sadios” e os “não-sadios” do país. Em 1842, Edwin Chadwick (1800-
1890) escreveu um relatório que depois se tornaria famoso: As condições sanitárias
da população trabalhadora da Grã-Bretanha. Chadwick, que não era médico nem
sanitarista, mas advogado, impressionou o Parlamento, que em 1848 promulgou lei
(Public Health Act) criando uma Diretoria Geral de Saúde, encarregada,
principalmente, de propor medidas de saúde pública e de recrutar médicos
sanitaristas. Dessa forma teve início oficial o trabalho de saúde pública na Grã-
Bretanha.
SAÚDE CIDADÃ
• Em 1850, nos Estados Unidos, Lemuel Shattuck, livreiro, faz um relato sobre as
condições sanitárias em Massachusetts - e uma diretoria de saúde é criada nesse
Estado, reunindo médicos e leigos. Ao mesmo tempo, outras revoluções, estas
sangrentas, ocorriam, como a de 1848, como a Comuna de Paris: Karl Marx estava
diagnosticando os males do capitalismo e propondo profundas modificações na
sociedade. Mesmo que estas não ocorressem, modificações precisavam ser feitas.
Os capitalistas e latifundiários precisavam, nas palavras de Otto von Bismarck, o
“chanceler de ferro”, serem salvos deles próprios, de sua ganância que ameaçava
sacrificar a mão-de-obra operária.
• Bismarck criou, em 1883, um sistema de seguridade social e de saúde que, por
vários aspectos, foi pioneiro. Aliás, na Alemanha já tinha surgido, em 1779, a idéia
da intervenção do Estado na área de saúde pública. Naquele ano começava a ser
publicado o System einer Vollständigen medicinischen Polizei, obra monumental
com a qual Johan Peter Frank (1745-1821) lançava o conceito, paternalista e
autoritário, de polícia médica ou sanitária.
• Depois da Alemanha, o sistema foi implantado na França, que, tendo anexado a
Alsácia-Lorena após a Primeira Guerra Mundial, não quis privar a população dessa
região dos benefícios de que gozava sob o Império Alemão.
SAÚDE POLITIZADA
• Vários outros países foram copiando o sistema. Mudança substancial
ocorreria à época da Segunda Guerra, na Grã-Bretanha.
• Com o intuito de oferecer ao povo inglês uma espécie de compensação
pelas agruras sofridas com o conflito bélico, o governo de Sua Majestade
encarregou, em 1941, Sir William Beveridge de fazer um diagnóstico da
situação do seguro social. Dezoito meses mais tarde, Beveridge submeteu
ao governo um plano, em conseqüência do qual foi criado, como parte do
Welfare System, que prometia proteção “do berço à tumba”, o Serviço
Nacional de Saúde, destinado a fornecer atenção integral à saúde a toda a
população, com recursos dos cofres públicos.
• Mas não havia ainda um conceito universalmente aceito do que é saúde.
• Para tal seria necessário um consenso entre as nações, possível de obter
somente num organismo internacional. A Liga das Nações, surgida após o
término da Primeira Guerra, não conseguiu esse objetivo: foi necessário
haver uma Segunda Guerra e a criação da Organização das Nações Unidas
(ONU) e da Organização Mundial da Saúde (OMS), para que isto
acontecesse.
SAÚDE CONCEITUADA UNIVERSAL
• O conceito da OMS, divulgado na carta de princípios de 7 de abril de 1948 (desde então o Dia Mundial da Saúde),
implicando o reconhecimento do direito à saúde e da obrigação do Estado na promoção e proteção da saúde, diz que
“Saúde é o estado do mais completo bem-estar físico, mental e social e não apenas a ausência de enfermidade”. Este
conceito refletia, de um lado, uma aspiração nascida dos movimentos sociais do pós-guerra: o fim do colonialismo, a
ascensão do socialismo. Saúde deveria expressar o direito a uma vida plena, sem privações. Um conceito útil para
analisar os fatores que intervêm sobre a saúde, e sobre os quais a saúde pública deve, por sua vez, intervir, é o de
campo da saúde (health field), formulado em 1974 por Marc Lalonde, titular do Ministério da Saúde e do Bem-estar do
Canadá - país que aplicava o modelo médico inglês. De acordo com esse conceito, o campo da saúde abrange:
• _ a biologia humana, que compreende a herança genética e os processos biológicos inerentes à vida, incluindo os
fatores de envelhecimento;
• _ o meio ambiente, que inclui o solo, a água, o ar, a moradia, o local de trabalho;
• _ o estilo de vida, do qual resultam decisões que afetam a saúde: fumar ou deixar de fumar, beber ou não, praticar ou
não exercícios;
• _ a organização da assistência à saúde. A assistência médica, os serviços ambulatoriais e hospitalares e os
medicamentos são as primeiras coisas em que muitas pessoas pensam quando se fala em saúde. O conceito da OMS,
divulgado na carta de princípios de 7 de abril de 1948 (desde então o Dia Mundial da Saúde), implicando o
reconhecimento do direito à saúde e da obrigação do Estado na promoção e proteção da saúde, diz que “Saúde é o
estado do mais completo bem-estar físico, mental e social e não apenas a ausência de enfermidade”. Este conceito
refletia, de um lado, uma aspiração nascida dos movimentos sociais do pós-guerra: o fim do colonialismo, a ascensão
do socialismo. Saúde deveria expressar o direito a uma vida plena, sem privações. Um conceito útil para analisar os
fatores que intervêm sobre a saúde, e sobre os quais a saúde pública deve, por sua vez, intervir, é o de campo da
saúde (health field), formulado em 1974 por Marc Lalonde, titular do Ministério da Saúde e do Bem-estar do Canadá -
país que aplicava o modelo médico inglês. De acordo com esse conceito, o campo da saúde abrange:
• _ a biologia humana, que compreende a herança genética e os processos biológicos inerentes à vida, incluindo os
fatores de envelhecimento;
• _ o meio ambiente, que inclui o solo, a água, o ar, a moradia, o local de trabalho;
• _ o estilo de vida, do qual resultam decisões que afetam a saúde: fumar ou deixar de fumar, beber ou não, praticar ou
não exercícios;
• _ a organização da assistência à saúde. A assistência médica, os serviços ambulatoriais e hospitalares e os
medicamentos são as primeiras coisas em que muitas pessoas pensam quando se fala em saúde.
SAÚDE REVISADA
• No entanto, esse é apenas um componente do campo da saúde, e não
necessariamente o mais importante; às vezes, é mais benéfico para a
saúde ter água potável e alimentos saudáveis do que dispor de
medicamentos. É melhor evitar o fumo do que submeter-se a radiografias
de pulmão todos os anos. É claro que essas coisas não são excludentes,
mas a escassez de recursos na área da saúde obriga, muitas vezes, a
selecionar prioridades.
• A amplitude do conceito da OMS (visível também no conceito canadense)
acarretou críticas, algumas de natureza técnica (a saúde seria algo ideal,
inatingível; a definição não pode ser usada como objetivo pelos serviços
de saúde), outras de natureza política, libertária: o conceito permitiria
abusos por parte do Estado, que interviria na vida dos cidadãos, sob o
pretexto de promover a saúde. Em decorrência da primeira objeção, surge
o conceito de Christopher Boorse (1977): saúde é ausência de doença.
• A classificação dos seres humanos como saudáveis ou doentes seria uma
questão objetiva, relacionada ao grau de eficiência das funções biológicas,
sem necessidade de juízos de valor.
SAÚDE PÚBLICA
• Uma resposta a isto foi dada pela declaração final da Conferência Internacional de
Assistência Primária à Saúde realizada na cidade Alma-Ata (no atual Cazaquistão),
em 1978, promovida pela OMS. A abrangência do tema foi até certo ponto uma
surpresa. A par de suas tarefas de caráter normativo - classificação internacional
de doenças, elaboração de regulamentos internacionais de saúde, de normas para
a qualidade da água - a OMS havia desenvolvido programas com a cooperação de
países-membros, mas esses programas tinham tido como alvo inicial duas doenças
transmissíveis de grande prevalência: malária e varíola.
• O combate à malária baseou-se no uso de um inseticida depois condenado, o
dicloro-difenil-tricloroetano (DDT), tendo êxito expressivo mas não duradouro. A
seguir foi desencadeado, já nos anos 60, o Programa de Erradicação da Varíola. A
varíola foi escolhida não tanto por sua importância como causa de morbidade e
mortalidade, mas pela magnitude do problema (os casos chegavam a milhões) e
pela redutibilidade: a vacina tinha alta eficácia, e como a doença só se transmite
de pessoa a pessoa, a existência de grande número de imunizados privaria o vírus
de seu hábitat. Foi o que aconteceu: o último caso registrado de varíola ocorreu
em 1977. A erradicação de uma doença foi um fato inédito na história da
Humanidade.
POLÍTICA/SAÚDE
• Quando se esperava que a OMS escolhesse outra doença transmissível para alvo, a
Organização ampliou consideravelmente seus objetivos, como resultado de uma
crescente demanda por maior desenvolvimento e progresso social. Eram anos em
que os países socialistas desempenhavam papel importante na Organização - não
por acaso, Alma-Ata ficava na ex-União Soviética.
• A Conferência enfatizou as enormes desigualdades na situação de saúde entre
países desenvolvidos e subdesenvolvidos; destacou a responsabilidade
governamental na provisão da saúde e a importância da participação de pessoas e
comunidades no planejamento e implementação dos cuidados à saúde.
• Trata-se de uma estratégia que se baseia nos seguintes pontos: 1) as ações de
saúde devem ser práticas, exeqüíveis e socialmente aceitáveis; 2) devem estar ao
alcance de todos, pessoas e famílias - portanto, disponíveis em locais acessíveis à
comunidade; 3) a comunidade deve participar ativamente na implantação e na
atuação do sistema de saúde; 4) o custo dos serviços deve ser compatível com a
situação econômica da região e do país.
• Estruturados dessa forma, os serviços que prestam os cuidados primários de saúde
representam a porta de entrada para o sistema de saúde, do qual são,
verdadeiramente, a base.
• O sistema nacional de saúde, por sua vez, deve estar inteiramente integrado no
processo de desenvolvimento social e econômico do país, processo este do qual
saúde é causa e conseqüência.
SAÚDE COM CUIDADO
• Os cuidados primários de saúde, adaptados às condições econômicas, socioculturais
e políticas de uma região deveriam incluir pelo menos: educação em saúde, nutrição
adequada, saneamento básico, cuidados materno-infantis, planejamento familiar,
imunizações, prevenção e controle de doenças endêmicas e de outros freqüentes
agravos à saúde, provisão de medicamentos essenciais.
• Deveria haver uma integração entre o setor de saúde e os demais, como agricultura
e indústria.
• O conceito de cuidados primários de saúde tem conotações. É uma proposta
racionalizadora, mas é também uma proposta política; em vez da tecnologia
sofisticada oferecida por grandes corporações, propõe tecnologia simplificada, “de
fundo de quintal”. No lugar de grandes hospitais, ambulatórios; de especialistas,
generalistas; de um grande arsenal terapêutico, uma lista básica de medicamentos -
enfim, em vez da “mística do consumo”, uma ideologia da utilidade social. Ou seja,
uma série de juízos de valor, que os pragmáticos da área rejeitam. A pergunta é:
como criar uma política de saúde pública sem critérios sociais, sem juízos de valor?
• Por causa disso, nossa Constituição Federal de 1988, artigo 196, evita discutir o
conceito de saúde, mas diz que: “A saúde é direito de todos e dever do Estado,
garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de
doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços
para a promoção, proteção e recuperação”. Este é o princípio que norteia o SUS,
Sistema Único de Saúde. E é o princípio que está colaborando para desenvolver a
dignidade aos brasileiros, como cidadãos e como seres humanos.
IN-CONCLUINDO
• As mudanças sócio-culturais em curso,
requisitando alternativas para a promoção de
saúde e educação, necessitam ser
contempladas pela oferta de reflexões
teórico-práticas para a formação, de
profissionais dessas áreas, mais pertinente às
demandas de seus serviços no contexto social
contemporâneo, e não por significados
institucionalizantes atribuídos historicamente.
ORIGEM/CUIDADO???
• Grego: g rys (voz); Gótico : kara (lamento), Latim: garrire (balbuciar), curare
• SOFRIMEN(TO
• Peso de preocupação incerta, apreensiva ou medo, para considerar encaminhamentos
• Atenção acompanhada por interesse e responsabilidade
• Consideração, inclinação:
• Encargo, Supervisão: responsabilidade ou atenção para segurança e bem estar, como sob
o “cuidado” médico
• Custódia: encargo temporário, quando alguém é designado por outra pessoa ou agência
• Direção de atenção, ansiedade ou solicitude à pessoa ou coisa
• Solicitude: protetividade apreensiva ou reflexiva atentividade ou consideração para o bem
estar de outro
• Preocupação: interesse no bem estar ou segurança de outro, carregada de apreensão ou
dúvida de dificuldades ou falhas pela responsabilidade implicada
• Ansiedade: forte desgaste pela expectativa de mal resultado outcome
• Sinônimos para cuidadoso: meticuloso, escrupuloso, pontual, variada mistura de
atentividade e caução