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Análise de discurso: princípios

e procedimentos
Eni Puccinelli Orlandi

Campinas, SP: Pontes, 2003


Prefácio
• Análise do discurso – maneiras de ler; de levar o sujeito
a colocar questões sobre o que produz e o que ouve -
reflexão
• “perceber que não podemos não estar sujeitos à
linguagem, a seus equívocos, sua opacidade. Saber que
não há neutralidade nem mesmo no uso mais
aparentemente cotidiano dos signos. A entrada mo
simbólico é irremediável e permanente: estamos
comprometidos com o político e o permanente. Não
temos como não interpretar.” (p.9)
• Saber como discursos funcionam – discurso da memória
• Não é todo mundo que pode interpretar
• Como nos relacionamos com a linguagem em nosso
cotidiano?
I. O DISCURSO
• A linguagem em questão- trata da língua, não da gramática; trata do
discurso = prática da linguagem  “O discurso é assim a palavra em
movimento, prática de linguagem: com o estudo do discurso observa-se o
homem falando.”(p.15)
• Compreender a língua –trabalho simbólico
• “ A Análise de Discurso concebe a linguagem como mediação necessária
entre o homem e a realidade natural e social. Essa mediação, que é o
discurso, torna possível tanto a permanência e a continuidade quanto o
deslocamento e a transformação do homem e da realidade em que ele vive.
O trabalho simbólico do discurso está na base da produção da existência
humana.” (p.15)
• AD trabalha a língua do mundo – método de relacionar a linguagem a sua
exterioridade – articulação entre ciências sociais, lingüística, epistemologia,
filosofia. – “...os estudos discursivos visam pensar o sentido dimensionado
no tempo e no espaço das práticas do homem, descentrando a noção de
sujeito e relativizando a autonomia do objeto da lingüística.” (p.16)
• Relação língua – discurso – ideologia : “...o discurso é o lugar em que se
pode observar essa relação entre língua e ideologia, compreendendo-se
que a língua produz sentidos por/para os sujeitos.” (p.17)
Um novo terreno e estudos
preliminares
• Análise de conteúdo pergunta o que este texto quer dizer?
• Análise de discurso considera como este texto significa?
• “Ela produz um conhecimento a partir do próprio texto, porque o vê
como tendo uma materialidade simbólica, como tendo uma
espessura semântica: ela o concebe em sua discursividade.” (p.18)
• Considera o texto em sua totalidade com sua natureza específica
• Filiações teóricas – lingüística língua e sua ordem; marxismo 
historicidade dos sujeitos; psicanálise  noção de sujeito
• Estudos discursivos  língua como acontecimento
• AD
– A língua tem sua ordem própria mas só é relativamente autônoma
– A história tem seu real afetado pelo simbólico
– O sujeito de linguagem é descentrado pois é afetado pelo real da língua
e também pelo real da história, não tendo o controle sobre o modo
como elas o afetam. Isso redunda em dizer que o sujeito discursivo
funciona pelo inconsciente e pela ideologia.” (p.20)
Discurso
• referente] E mensagem R [código
• “Eles não estão realizando ao mesmo tempo o
processo de significação e não estão separados
de forma estanque. Além, disso ao invés de
mensagem, o que propomos é justamente
pensar aí o discurso.”(p.21)
• “...o discurso é efeito de sentidos entre
locutores.”(p.21)
• Discurso não corresponde a noção de fala – “A
língua é assim condição de possibilidade do
discurso.” (p.22)
II. SUJEITO, HISTÓRIA,
LINGUAGEM
• A conjuntura intelectual da Análise de Discurso – “...na
perspectiva discursiva, a linguagem é linguagem porque faz
sentido. E a linguagem só faz sentido porque se inscreve na
história.”(p.25)
• AD : a) teoria da sintaxe da enunciação; b) teoria da ideologia; c)
teoria do discurso (determinação histórica dos processos de
significação)
• Dispositivo de interpretação – autores relacionados – AD teoriza
a interpretação – Hermenêutica ≠ da AD
– Inteligibilidade  ele disse isso
– Interpretação  quem é ele? O que ele disse? (contexto)
– Compreensão  como objeto simbólico produz sentidos?
• “...a Análise de Discurso visa a compreensão de como um objeto
simbólico produz sentidos, como ele está investido de significância
para e por sujeitos.”(p.26)
• “uma análise não é igual a outra porque mobiliza conceitos diferentes e isso
tem resultados cruciais na descrição dos materiais.” (p.27)
• Descrição ≠ interpretação
• Feita a descrição, retomar a pergunta inicial, pois é ela que vai
desencadear a análise. AD permite explorar a relação com o simbólico de
muitas maneiras
• Um caso exemplar – caso da faixa  as coisas são carregadas de
sentidos, cores e palavras efeitos de sentido
• Condições de produção e interdiscurso – condições de produção:
sujeitos e a situação (contexto imediato)
• Memória discursiva: “...o saber discursivo que torna possível todo dizer e
que retorna sob forma do pre-construído, o já-dito que está na base do
dizível, sustentando cada tomada da palavra.” (p.31)
• Interdiscurso – modo como o sujeito significa / constituição do sentido /
historicidade (memória)
• Intradiscurso – formulação / dado momento, dadas condições
• As palavras “significam pela história e pela língua” (p.32)
• “o interdiscurso é todo conjunto de formulações feitas e já
esquecidas que determinam o que dizemos.”(p.33)
• Mesmo o que não se diz significa em suas palavras
• “...o interdiscurso é da ordem do sabe discursivo, memória afetada
pelo esquecimento, ao longo do dizer, enquanto o intertexto
restringe-se à relação de um texto com outros textos.” (p.34)
• Esquecimentos – esquecimento / enunciação : falar de uma forma
podendo ser de outra; esquecimento ideológico: pensar ser original
o que fala, mas não é
• O discurso não se origina em nós, mas nós é que entramos neles,
pois já estão em processo
• “o esquecimento é estruturante” – faz parte da constituição dos
sujeitos e dos sentidos
• Paráfrase e polissemia – “...todo o funcionamento da linguagem
se assenta na tensão entre processos parafrásticos e processos
polissêmicos.” (p.36) – jogo entre o já dito e o a se dizer
• Criatividade – reiteração de processos já cristalizados
• Produtividade – produz a variedade do mesmo
• “Esse jogo entre paráfrase e polissemia atesta o confronto entre o
simbólico e o político.”(p.38) – a ideologia se materializa na língua
• Relações de força, relações de sentidos, antecipação:
formações imaginárias – “Todo discurso é visto como um estado
de um processo discursivo mais amplo, contínuo.” (p39)
• Imagem do interlocutor dirige o processo de argumentação - “...o
lugar a partir do qual fala o sujeito é constitutivo do que ele
diz.”(p.39)
• Sentidos estão relacionados a posição e o locutor ocupa
• Jogo imaginário que preside a troca de palavras – imagens do
locutor, interlocutor e do objeto do discurso.
• A gente ajusta nosso dizer de acordo com a imagem que temos de
nosso interlocutor – “jogo” do discurso