Você está na página 1de 9

Os juristas e a Sociologia do Direito

 
 Rudolf von Ihering (1818-1892)
 

A LUTA PELO DIREITO

O s f a c t o s q u e s e tr a n s f o r m a m e m d i r e i to
e o d i r ei t o q u e s e tr a n s f o r m a e m f ac to
 Rudolf von Ihering
 Rudolf von Ihering

1. Os factos que se transformam em direito


A força ou a luta que se transforma em direito

«O fim do direito é a paz, o meio de atingi-lo a luta (…) A


vida do direito é a luta – uma luta dos povos, dos
governos, das classes sociais, dos indivíduos. (…) O
direito não é uma simples ideia, é uma força viva. Por
isso a Justiça sustém numa das mãos a balança com que
pesa o direito, enquanto na outra segura a espada por
meio da qual o defende. A espada sem a balança é a força
bruta, a balança sem a espada, a impotência do direito.»
 Rudolf von Ihering

«Todas as grandes conquistas da história do direito, como a


abolição da escravatura e da servidão, a livre aquisição da
propriedade territorial, a liberdade de profissão e de
consciência, só puderam ser alcançadas através de séculos de
lutas intensas e ininterruptas.»

«A luta representa o trabalho externo do direito. Sem luta


não há direito, da mesma forma que sem trabalho não há
propriedade. À frase “no suor do teu rosto hás-de comer o
teu pão” contrapomos outra, não menos válida: “Na luta hás-
de encontrar o teu direito”. No momento em que o direito
renuncia à luta, ele renuncia a si mesmo.»
 Rudolf von Ihering

«A ofensa ao meu direito é a ofensa e a negação do


direito como tal, sua defesa é a defesa e o
restabelecimento do direito na sua totalidade. Que
sentido sublime não adquire face a isso a luta do
indivíduo pelo direito subjectivo!»
 Rudolf von Ihering

Os interesses que se transformam em direito


«Também na luta pelo direito um homem pode ser levado ao
campo de batalha pelo interesse puramente material, outro
pela dor resultante da ofensa do seu direito, um terceiro pelo
sentimento do dever ou pela própria ideia do direito. No fim,
todos se unem na tarefa comum, na luta contra o arbítrio.
Neste ponto atingimos o pico culminante do ideal da luta
pelo direito. Partindo do motivo rasteiro do interesse,
elevamo-nos à ideia da autoconservação moral da
personalidade, para chegar finalmente à concepção da
participação de cada indivíduo na realização da ideia do
direito a bem da sociedade.»
 Rudolf von Ihering

2. O direito que se transforma em facto - o direito que se transforma


em força
«Para um Estado que quer ser respeitado no exterior, e manter uma
posição firme e inabalável no interior das suas fronteiras não existe
bem mais precioso a ser resguardado e cultivado que o sentimento de
justiça da nação. Tal tarefa constitui uma das missões mais importantes
e elevadas da pedagogia política. É no sentimento de justiça sadio e
vigoroso de cada indivíduo que o Estado encontra a fonte mais
abundante da sua energia, a garantia mais segura de sua existência
assim no exterior como no interior. O sentimento de justiça é a raiz da
grande árvore. (…) A influência desagregadora das leis injustas e das
instituições jurídicas defeituosas desenrola-se debaixo da terra, em
regiões que muitos diletantes da política julgam indignas de sua
atenção. O que interessa a estes é tão-somente a copa vistosa; nada
sabem do veneno que sobe da raiz. Mas o despotismo sabe onde deve
por as mãos para que a árvore caia.»
 Rudolf von Ihering

«Quando o sentimento de justiça do indivíduo se mostra embotado, acovardado,


apático nas relações de direito privado; quando, face às leis injustas ou às instituições
viciosas não encontra campo para realizar-se, para desenvolver-se livre e
vigorosamente; quando é perseguido nos momentos em que mais precisa de apoio e
estímulo; quando em virtude de tal estado de coisas se habitua a tolerar a injustiça e
a ver nela um mal inevitável – sempre que prevaleçam essas condições, dificilmente
haverá quem acredite que esse sentimento de justiça subjugado, atrofiado, apático,
possa subitamente virilizar-se através duma sensibilidade intensa e duma acção
enérgica quando colocado diante duma lesão de direito que não atinja o indivíduo,
mas toda a nação, tal como um atentado à sua liberdade política, uma violação da
constituição ou a subversão total da mesma, um ataque do inimigo externo. (…) A
semente lançada no direito privado frutifica no direito público e no direito
internacional. É nas planícies chãs do direito privado, nas relações pequeninas e
insignificantes da vida que há-de se formar e acumular, gota por gota, a seiva
vivificadora, é aqui que deve constituir-se o capital moral com que o Estado opera em
escala mais ampla a bem dos seus objectivos. E verdadeira escola de educação
política dos povos é o direito privado, não o direito público.»
Rudolf von Ihering

«A luta pelo direito subjectivo é um dever do titular para consigo


mesmo.
A defesa da própria existência é a lei suprema de toda a vida:
manifesta-se em todas as criaturas através do instinto de
autoconservação. No homem, porém, trata-se não apenas da vida
física, mas também da existência moral; e uma das condições desta é
a defesa do direito. No direito o homem encontra e defende as suas
condições de subsistência moral; sem o direito regride à condição
animalesca, tanto que os romanos, numa coerência perfeita,
colocavam os escravos no mesmo nível dos animais, sob o ponto de
vista do direito abstracto. Portanto, a defesa do direito é um dever de
autoconservação moral, o abandono total do mesmo, hoje impossível,
mas que já foi admitido, representa o suicídio moral.»