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O CASMURRO PORTUGUÊS DE

TEOLINDA GERSÃO EM
A CIDADE DE ULISSES
Parte de investigação doutoral sobre o silêncio
como produtor de sentidos na obra ficcional
de Teolinda Gersão,
realizada com financiamento da CAPES

Profa. Dra. Audrey Castañón de Mattos


Informação da morte de Cecília: página 199
Informação sobre a altura em que se deu o
acidente: página 202
Total de páginas da edição utilizada: 236

Relato da agressão: Página 155


[...] é provavelmente assim que surgem as obras de arte: a partir de
motivações pessoais, em geral egoístas, para prazer do criador, para que
ele possa exercer o seu domínio sobre o real, forçando-o a moldar-se ao
seu desejo.
[...]
Os artistas expõem, mas não se expõem. Fingem sempre. (A cidade de
Ulisses, 2013, p. 18, grifos meus).
[...] Eu oferecia assim um olhar oblíquo, um tanto vesgo, um
olhar falso que reclamava um segundo e um terceiro olhar. As
telas exigiam novas leituras, que desvendavam mais do que
parecia oferecer-se inicialmente, e nasciam do desejo de olhar
mais. Lisboa surgia como uma cidade de desejo, uma cidade
de que se andava à procura.
(A cidade de Ulisses, 2013, p. 205, grifos meus).
Eu gostava, enquanto criador, de assumir uma posição autocrática: levar
o espectador para dentro de um mundo que eu construísse, onde quem
ditava as regras era eu. Ele podia manter a distância e a liberdade do
seu juízo crítico, mas primeiro tinha de entrar dentro da obra [...] E,
tendo entrado, estava apanhado como um pássaro numa gaiola, até
encontrar a porta de saída. Enquanto estivesse dentro sujeitava-se a
uma experiência, ou a uma vivência, que até certo ponto eu
determinava. Aceitava ver o que eu propunha, de algum modo
através dos meus olhos. Só depois era livre de olhar outra vez com
os seus, e recusar tudo se quisesse. Era a sua vez de jogar, na segunda
parte do jogo. Mas a primeira jogada era minha. (A cidade de Ulisses,
2013, p. 24, grifos meus).
As longas conversas em que íamos falando do que calhava, ao sabor do vento.
Éramos amantes carnais, mas também mentais, constatei. Algo de improvável, que
eu sempre pensara que não existia, estava a acontecer-nos.
Fazer amor ou falar contigo tinham algo em comum: num caso ou noutro,
deixávamo-nos ir, cedendo a uma espécie de música interior, excitávamo-nos
mutuamente, num jogo de prazer em que a tensão crescia. E de repente, do encontro
dos corpos ou das palavras, algo explodia e brilhava e se tornava imensamente
claro: o amor, ou uma qualquer visão das coisas e do mundo.
Trocávamos experiências, descobertas, memórias, opiniões, que podiam ser
coincidentes ou opostas. Passavam de um para o outro, circulavam. E tudo isso nos
mudava e nos ia transformando. Havia um antes e um depois de te encontrar.
(A cidade de Ulisses, 2013, p. 22, grifos meus).
De repente vi-te rolar pela escada abaixo, soube que antes de
caíres eu te tinha empurrado, sacudido pelos ombros e
encostado contra o corrimão, soube que te tinhas debatido e
tentado soltar, que te empurrei com mais força e te apertei
contra o corrimão com os punhos cerrados, com os joelhos,
soube que tinha desferido golpes contra ti, contra o teu ventre,
antes de te empurrar pela escada e de teres caído, depois do
último degrau, e de ficares enrodilhada no chão, com sangue
debaixo de ti, manchando-te o vestido [...] (A cidade de
Ulisses, 2013, p. 155, grifos meus).
Era por medo que não vinhas? Se me olhasses, olhos
nos olhos, voltarias? Um momento de loucura pode ser
perdoado, quando estão quatro anos felizes no outro
prato da balança?
Se me tivesses deixado falar-te, voltarias. Sabias isso e
fugias. [...] (A cidade de Ulisses, 2013, p. 166, grifo
meu).
Era por orgulho que me enviavas um intermediário e desaparecias, por
detrás das nuvens? Como se fosses Deus, tornavas-te invisível? Não te
dignavas falar comigo, eu era indigno de te dirigir a palavra, ou mesmo
de te olhar? A tua invisibilidade era uma humilhação que me impunhas
– eu, pecador, diante de ti me confesso?
Exageravas, Cecília, porque eu era tão pecador como tu. É verdade que
te agredi e errei, mas também é verdade que me enganaste e mentiste.
[...] (A cidade de Ulisses, 2013, p. 167, grifo meu).
Aqui, diante de mim,  Me confesso Me confesso de ser tudo

Eu, pecador, me confesso  O dono das minhas horas. Que possa nascer em mim.

De ser assim como sou.  O das facadas cegas e raivosas, De ter raízes no chão

Me confesso o bom e o mau  E o das ternuras lúcidas e mansas. Desta minha condição.
Que vão ao leme da nau E de ser de qualquer modo Me confesso de Abel e de Caim.

Nesta deriva em que vou. Andanças  

Do mesmo todo. Me confesso de ser Homem.

Me confesso De ser um anjo caído

Possesso Me confesso de ser charco Do tal Céu que deus governa;

De virtudes teologais, E luar de charco, à mistura. De ser um monstro saído

Que são três, De ser a corda do arco Do buraco mais fundo da caverna.

E dos pecados mortais, Que atira setas acima Me confesso de ser eu.
Que são sete, E abaixo da minha altura Eu, tal e qual como vim
Para dizer que sou eu
Quando a terra não repete Aqui, diante de mim!
Que são mais. (Miguel Torga, Livro de horas, in O outro
livro de Job, 1986, p. 83).
 
“O que restava de ti era uma obra. Um corpus. Mas tu estavas morta. E as tuas cinzas espalhadas
num cendrário, misturadas com a terra de Lisboa.” (A cidade de Ulisses, 2013, p. 235).

“[...] era preciso sangue e fogo, um fogo intenso e vasto, que a consumisse de todo, e a reduzisse a
pó e o pó seria lançado ao vento, como eterna extinção.” (Dom Casmurro , 2008, p. 309, grifo meu).
Referências

ASSIS, M. Dom Casmurro. Rio de Janeiro: Nova fronteira, 2008. (Folha grandes
escritores brasileiros).
CALDWELL, H. O Otelo brasileiro de Machado de Assis: um estudo de Dom
Casmurro. Tradução de Fábio Fonseca de Melo. Cotia: Ateliê Editorial, 2002.
GERSÃO, T. A cidade de Ulisses. Lisboa: 11 X 17, 2013b.
ORLANDI, E. P. As formas do silêncio: no movimento dos sentidos. Campinas:
Editora da Unicamp, 2007.