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Teoria literária

1- Discussões iniciais:
cultura, arte e literatura

Profa. Sueli de Britto Salles


Cultura:

1- conjunto de práticas e produções


sociais (artes, ciências, técnicas,
filosofia, ofícios).

2- na visão do antropólogo Roger Kessing


(apud LARAIA, 2009),
“a Cultura define-se por meio dos
comportamentos sociais transmissíveis
em comunidades com relação às
necessidades de adaptação aos modos
de vida padronizados, como crenças,
religiões, políticas, economias,
tecnologias etc.”
Cultura:

•3- Melo (2011, p14) afirma que “na visão


científica, a Cultura compreende qualquer tipo
de prática humana que envolva realizações
materiais e/ou intelectuais em coletividade
numa sociedade.
•(...) Ela pode ser vista como uma propagação
de padrões culturais específicos, que cada um
recebe como herança do processo social e
histórico. É como uma lente através da qual o
homem vê o mundo.”
ARTE:
“A Arte é produto humano e prática social.
É a maneira que o homem encontrou de ler e
compreender o indivíduo, a sociedade e o
mundo, e de transfigurá-los em padrões
ficcionais para que atinja a todos e cause
sensações de Belo e Sublime, ou seja, o
prazer estético.” (MELO, 2011,p21)
A arte, segundo Bosi:
• Arte é um fazer- uma construção, uma atividade
que muda a forma, transformando a matéria
encontrada na natureza e na cultura ;
• A arte é um conhecer- um modo de
representação da realidade. Platão e Aristóteles
viam a arte como imitação (mimeses);
• A arte é um exprimir- a projeção da vida interior.
O conceito de arte transforma-
se ao longo dos tempos. É uma
construção social, cultural.
Arte e
literatura
Assim, o conceito de literatura
também se transforma.
Observe o texto a seguir:
Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,


Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...

E como um anjo pendeu


As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...

As asas que Deus lhe deu


Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...
(Alphonsus de Guimaraens)
Agora veja este :

Poema tirado de uma notícia de jornal


João Gostoso era carregador de feira livre e morava no morro da Babilônia num barracão
[sem número.
Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro
Bebeu
Cantou
Dançou
Depois se atirou na lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado.
(Manuel Bandeira)
Que impressões cada um dos poemas lhe provocou?

O que se sabe sobre a Ismália? E sobre João


Gostoso? O que acontece com eles?

Os poetas nos surpreendem com o final dos


poemas, mas fazem isso de modo muito
diferente. Comente isso.

Qual é mais “musical”?


Qual deles se aproxima mais da fala?
Literatura, Teoria
literária e crítica literária

• Literatura: produção literária, criação.

• Teoria literária: conjunto de estudos que busca


descrever e compreender o fazer literário.

• Crítica literária: a partir de elementos da teoria


literária, avalia o que é produzido como literatura,
emitindo julgamento de valor.
LITERATURA:
“Um dia (o homem) usou graficamente a palavra, como
expressão de suas ideias e sentimentos mais
profundos, como a formalização de seu olhar subjetivo
sobre o mundo... e a Literatura se fez.” (OLIVEIRA, 1999,
p9)
É uma das expressões culturais do homem.
Proença Filho (1999, p34), explica que: “a literatura
participa do desenvolvimento da cultura em que se
integra e, por meio da utilização da língua dessa cultura,
expressa suas dimensões culturais, logo, há uma estreita
relação entre cultura, língua e literatura”.
Para Moisés (2008, p18), “literatura é a expressão, pela
palavra escrita, dos conteúdos da ficção, ou imaginação.
(...) somente se consideram literários os textos que se
proponham específicos fins literários, vale dizer, o conto,
a novela, o romance, a poesia e o teatro (este, apenas
enquanto texto, não enquanto representação).”
Diferenças entre texto literário e não literário
LITERÁRIO NÃO LITERÁRIO

CONOTAÇÃO DENOTAÇÃO

SUBJETIVIDADE OBJETIVIDADE

FUNÇÃO POÉTICA FUNÇÃO INFORMATIVA

FINALIDADE ESTÉTICA FINALIDADE UTILITÁRIA

VEROSSIMILHANÇA REALIDADE
• A literatura pressupõe um uso especial da língua
e para isso faz uso da função poética da
linguagem.
• Nessa função, a mensagem é elaborada de forma
inovadora e imprevista, utilizando combinações
sonoras ou rítmicas, jogos de imagens ou de
ideias, despertando no leitor surpresa e prazer
Uso artístico da estético. Surgem significados novos, inusitados,
criando novas realidades. Não importa apenas o
palavra que se diz, mas o modo como se diz.
• O signo linguístico liberta-se de seu sentido
primeiro, do dicionário, referencial, objetivo,
denotativo, e assume outro sentido, figurado,
pessoal, conotativo.
Teoria da imitação:

a literatura é o meio de reproduzir


DIFERENTES ou criar em palavras as
experiências da vida. Essa teoria
CONCEPÇÕES tem sua origem nos estudos de
DE Platão e Aristóteles sobre a
mimesis, a arte de representar
LITERATURA (parcialmente, de modo verossímil)
a vida. A obra deve ser melhor que
a realidade.
Teoria da expressão:

nessa teoria, a literatura é definida de


DIFERENTES duas maneiras:
• Expressão originária da inspiração
CONCEPÇÕES “divina”: no momento da criação,
o poeta é “possuído” por um tipo
DE de “loucura divina”;
LITERATURA • Expressão proveniente da prática
de composição: consciente do seu
trabalho, o poeta fabrica seu texto
com técnicas e lapidações.
Teoria do efeito:

DIFERENTES a Literatura é entendida na sua relação


com o público, a partir do efeito que
CONCEPÇÕES exerce sobre ele (forte reação ou prazer),
provocando deleite e instrução.
DE
LITERATURA Vale observar que as teorias mais modernas
são contra a delimitação dos efeitos da
Literatura, já que diferentes obras provocam
reações diversas em diferentes públicos.
Candido e o sistema literário
Antonio Candido (1918 – 2017), um dos maiores críticos literários do Brasil,
trouxe grandes contribuições para o estudo da literatura, apontando
características do sistema literário e discutindo sua função social.

O sistema literário, na visão de Candido, estrutura-se pela junção de três


elementos: o escritor (a produção); a obra (o produto) e o público leitor (a
recepção) , considerando os problemas sociais (e individuais) de todos os
envolvidos nesse processo.

Veja o mestre:
https://www.youtube.com/watch?v=4cpNuVWQ44E
Funções da literatura

Em 1972, Antonio Candido apontou para a “função


humanizadora da Literatura”.

É importante salientar que Candido também era


sociólogo, daí seu olhar especial sobre as relações
entre literatura e sociedade.
Para Candido (apud MELO, 2011, p39),
“a Literatura desenvolve em nós a quota
de humanidade na medida em que nos
torna mais compreensivos e abertos para
Funções da a natureza, a sociedade, o semelhante”.
literatura Com base nesse caráter humanizador,
(Candido) Candido atribui três diferentes funções
para a Literatura: psicológica, formativa e
de conhecimento de mundo.
1- função psicológica: satisfazer à
necessidade humana de ficção e de
fantasia, seja na escrita ou na oralidade,
algo perceptível a pessoas de diferentes
culturas, idades e níveis de instrução.
Funções da Para Candido, o devaneio é importante
literatura (Candido) tanto ao escritor, quanto ao cientista,
que parte dele para buscar o caminho
de sua concretização. Além disso, o
leitor acumula experiências de vida sem
ter de vivê-las.
2- função formativa de tipo
educacional: é quando a essência
literária rompe com as convenções de
formação pedagógica, apresenta
diferentes concepções de mundo e o
leitor tem acesso ao “bem” e ao “mal”
de maneira indiscriminada, como
acontece na vida.
Funções da É importante destacar que essa função
literatura (Candido) contraria a ideia moralista de usar texto
literário como um manual de virtude e
boa conduta.
3-função de conhecimento de mundo e
do ser: a literatura é fonte de
conhecimento por meio das
problemáticas contidas nas obras, que
representam a realidade social e pessoal.
1- FICCIONALIDADE: a Literatura é ficção, uma criação do autor, baseada na
imaginação e em dados da realidade e nas estruturas linguísticas, sociais e
ideológicas.
2- VEROSSIMILHANÇA: a “suprarrealidade” criada pelo autor precisa
parecer verdadeira. Pode ser de dois tipos:
Verossimilhança interna: coerência entre o que o texto diz e seus
elementos estruturais (o personagem mostrou condições anteriores
para realizar certa ação?);
Verossimilhança externa: as regras do bom-senso devem ser

Características
respeitadas ou entramos no domínio do fantástico (não há problema
se o texto se assumir na proposta do gênero fantástico).

da literatura
3-CONOTAÇÃO: linguagem polivalente, aberta a várias interpretações.
Opõe-se à denotação.
4- NOVIDADE: a linguagem, ao desviar-se do uso normal das palavras e de
outros processos de construção do texto, provoca uma novidade, um
estranhamento, instigando a atenção do leitor.
5- ESTRUTURAÇÃO : modo como são combinados os aspectos linguísticos,
as imagens, a sonoridade, a sintaxe e outros elementos de construção da
mensagem, a partir das escolhas do autor.
Há anos raiou no céu fluminense uma nova estrela.

Observe os Desde o momento de sua ascensão ninguém lhe disputou o cetro; foi
proclamada a rainha dos salões.
recursos do Tornou-se a deusa dos bailes; a musa dos poetas e o ídolo dos noivos
em disponibilidade.
texto a Era rica e formosa.

seguir: Duas opulências, que se realçam como a flor em vaso de alabastro; dois
esplendores que se refletem, como o raio de sol no prisma do diamante.
Quem não se recorda da Aurélia Camargo, que atravessou o firmamento da
Corte como brilhante meteoro, e apagou-se de repente no meio do
deslumbramento que produzira o seu fulgor?

(Fragmento do romance Senhora, de José de Alencar)

Alguns recursos explorados pelo autor: metáforas, comparações, exagero,


idealização, uso de frases curtas, conversa com o leitor, simulação de
verdade.
referências

• CHAUÍ, M. Cultura e democracia. Critica y emancipación, Revista latino-


americana de Ciencias Sociales, Conselho Latino-Americano de Ciências
Sociais, Buenos Aires, ano 1, n1, jun.2008.
• FRANCO, Jefferson Luiz; OLIVEIRA, Silvana. Teoria literária 1. Ponta Grossa :
Ed.UEPG, 2009.
• LARAIA, R. Cultura: um conceito antropológico. 23. ed. Rio de Janeiro: Zahar,
2009.
• MELO, C.A. de. Teoria literária. São Paulo: Sol, 2011.
• MOISÉS, M. A análise literária. 17.ed. São Paulo: Cultrix, 2008.
• OLIVEIRA, C. B. de. Arte literária: Portugal/ Brasil. São Paulo: Moderna, 1999.
• PROENÇA FILHO, D. A linguagem literária. 7.ed. São Paulo: Ática, 1999.
Próxima aula:

Gêneros Poesia e
literários prosa

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