Você está na página 1de 19

Ciência e construção

– validade e
verificabilidade das
hipóteses

2. Estatuto do Conhecimento Científico


O método científico
“Reconhece-se geralmente que o método científico é a forma mais eficaz de
descobrir e de prever o comportamento da natureza. (…) Mas o que é o método?
Será realmente digno de confiança?”
Nigel Warburton, Elementos básicos de filosofia (ver manual, p. 192.)

O que é o método científico?


 O método científico é o conjunto de procedimentos que as diversas ciências
seguem para investigar o seu objeto.
Existe um único método?

 Cada ciência desenvolve o seu método próprio, de acordo com o seu objeto
de investigação.

 Existem dois grandes modelos metodológicos, que a seguir estudaremos:

1. Método indutivo

2. Método hipotético-dedutivo
1. O método indutivo

 Ao utilizar o método indutivo, o cientista:

1. Parte de factos particulares observados.

2. Infere, indutivamente, conclusões gerais – hipóteses teóricas.

3. Verifica experimentalmente as hipóteses.

4. Confirma ou rejeita a hipótese.

5. Elabora leis ou teorias científicas quando as hipóteses são confirmadas.


Etapas do método indutivo
Etapas
Observação científica  Imparcial e objetiva;
 Diferente da observação do senso comum: sistemática e
metódica;
 Preparada em função de um objetivo;
 Recorre a instrumentos de registo, medição e quantificação.
Formulação de uma hipótese  Surge uma hipótese, que é a antecipação de uma resposta
possível.
Experimentação  Visa confirmar ou rejeitar a hipótese;
 O fenómeno pode ser provocado sob condições
controladas;
 Pressupõe o uso de instrumentos e técnicas especiais, rigor
na produção e no controlo dos dados, registo e análise de
resultados.
Generalização e previsão  O que foi observado num certo número de casos é agora:
 Considerado aplicável a todos os casos (generalização)
 Considerado aplicável a qualquer caso do mesmo tipo que
venha a acontecer no futuro.
Críticas à conceção indutivista do método científico

 Não tem em consideração que a observação nunca pode ser completamente


imparcial, pois todas as observações são condicionadas por fatores, como, por
exemplo, a conceção de ciência em vigor num dado período.

 Ignora que, de um ponto de vista lógico-formal, não podemos considerar como


necessariamente verdadeiras conclusões de argumentos indutivos.
2. O método hipotético-dedutivo

1. Parte de um facto-problema:
 O facto-problema é um acontecimento ou fenómeno para o qual a
ciência não encontra explicação à luz dos conhecimentos existentes.

2. Formula uma ou mais hipóteses explicativas gerais.

3. Deduz consequências que irão ser confrontadas com os dados da observação.

4. Formula leis ou teorias científicas quando a hipótese é confirmada pelos dados


da experiência.
Etapas do método hipotético-dedutivo
Etapas Exemplos
1. Facto-problema Qual a lei ou leis que comandam os
Facto ou fenómeno para o qual não há explicação. movimentos dos planetas à volta do Sol?
2. Formulação de uma ou mais hipóteses Hipótese 1 (H1): As órbitas são círculos
Invenção de uma solução ou construção de um modelo perfeitos e os planetas deslocam-se num
teórico. movimento uniforme.
3. Dedução de consequências da hipótese Se H1 for verdadeira, então, Mercúrio,
A hipótese é uma explicação geral que só pode ser no início da primavera, deverá ocupar a
confirmada por dedução de consequências menos gerais. posição X e Vénus a posição Y.
4. Experimentação Mercúrio está ou não na posição X no
Confronto das consequências deduzidas da hipótese com os início da primavera?
factos.
5. Conclusão Opção A: Mercúrio está na posição X e
•Opção A: os dados confirmam a hipótese inicial- formula-se Vénus na posição Y. Logo, a lei que rege
uma lei ou hipótese científica. a posição dos planetas é…
•Opção B: os dados não confirmam a hipótese- reformula-se Opção B: Nova hipótese: Os planetas
a hipótese e repete-se todos os procedimentos até obter descrevem órbitas elípticas.
nova confirmação.
Teoria falsificacionista de Popper

 Karl Popper (1902-1994) foi um filósofo da ciência austríaco, e que vivera grande
parte da sua vida no Reino Unido.

 Popper elabora uma conceção própria do método científico.

 Rejeita claramente o método indutivo.

 Parte do método hipotético-dedutivo, para criar a sua própria versão do método.


A rejeição do método indutivo

 Segundo a conceção indutivista do método, a observação é o ponto de


partida da investigação científica.

 Popper recusa o indutivismo.

 O cientista não parte da observação de factos.

 O cientista principia pela identificação de um problema e pela formulação de


uma hipótese para o solucionar.
Segundo Popper…

“está longe de ser óbvio, de um ponto de vista lógico, haver justificação para
inferir enunciados universais de enunciados singulares, independentemente de
quão numerosos sejam estes; com efeito, qualquer conclusão obtida desse modo
pode sempre revelar-se falsa.”
Karl Popper, A Lógica da Pesquisa Científica, p. 27. (ver manual, p. 198)
Ou seja…

 A indução não confere cientificidade às teorias, uma vez que chega a conclusões
(teorias/leis) mais gerais do que as premissas (observação/hipótese).

 Popper rejeita a possibilidade de se verificar a verdade das teorias, uma vez que
nunca é possível testar todos os casos (rejeição do verificacionismo).

 As teorias são sistemas de hipóteses, ou conjeturas, à espera de refutação.


Teoria do método dedutivo de prova

“A teoria que defendo (…) poderia ser chamada teoria do método dedutivo
de prova, conceção segundo a qual uma hipótese só admite prova empírica –
e tão somente após ter sido formulada.”
Popper, ob. cit., p. 27. (ver manual, p. 198)

- Corroboração
Dedução de ou
Hipótese/Teoria
provas empíricas
- Falsificação
No princípio era a teoria

 Primeira grande divergência em relação ao método indutivo:

A teoria precede a observação.

 “É, sem dúvida, verdade que qualquer hipótese em particular por que optemos
terá sido precedida por observações [...] mas estas observações, por seu turno,
pressupõem a adoção de um sistema de referências - um sistema de expectativas -
um sistema de teorias.”
Karl Popper, Conjeturas e refutações, Coimbra, Almedina, 2003, p. 74.
Critério de demarcação de teorias científicas

“Deve ser tomado como critério de demarcação, não a verificabilidade, mas a


falsificabilidade de um sistema. […] exigirei […] que a sua forma lógica seja tal
que se torne possível validá-lo através do recurso a provas empíricas: deve ser
possível refutar, pela experiência, um sistema científico empírico.”
Karl Popper, A Lógica da Pesquisa Científica, p. 42. (ver manual, p. 198)
Definindo…

 Critério de demarcação de teorias:


 Medida que permite distinguir as teorias científicas das teorias não
científicas, a ciência da pseudociência, permitindo estabelecer um
método de “seleção” daquelas teorias que conseguem resistir aos testes
que as pretendem falsificar.
 Falsificabilidade - possibilidade de uma teoria vir a revelar-se falsa.
O que é uma boa teoria científica?

 Popper pretende mostrar que uma teoria que não possa ser testada não
pode ser considerada científica.

 Por isso, uma boa teoria científica é aquela que é testável, refutável,
falsificável.

 A melhor teoria é, pois, aquela que:

- apresenta maior conteúdo empírico (dados que podem ser testados);

- pode ser falsificada pela experiência.


Método das conjeturas e refutações

“A partir de uma ideia nova, formulada conjeturalmente e ainda não justificada de


algum modo – antecipação, hipótese, sistema teórico ou algo análogo –, podem
tirar-se conclusões por meio de dedução lógica. Essas conclusões são em seguida
comparadas entre si e com outros enunciados pertinentes [..]. E testam-se as
aplicações empíricas das conclusões que dela podem ser derivadas.”
Karl Popper, A Lógica da Pesquisa Científica, p. 42. (ver manual, p. 199)
Em resumo…
 Popper:
 rejeita a indução como método científico;
 defende o primado da teoria sobre a observação;
 defende que uma teoria só é científica se puder ser testada/falsificada
empiricamente (falsificabilidade);
 rejeita o verificacionismo, substituindo esta conceção pelo
falsificacionismo;
 considera que as teorias científicas são conjeturas corroboradas ou à espera
de refutação;
 considera que quanto maior for o conteúdo empírico de uma teoria:
- mais científica ela é;
- maior probabilidade tem de ser falsificada.