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OS DESAFIOS PARA COMBATER O

ABUSO E A EXPLORAÇÃO SEXUAL


INFANTIL NO BRASIL
Os abusos geralmente são cometidos por pessoas conhecidas da
vítima, dentro de suas casas e não envolvem dinheiro.

Já a exploração sexual geralmente ocorre com pessoas de fora do


círculo social, envolve dinheiro e acontece em territórios mais
centrais, apesar de as crianças e adolescentes exploradas serem
moradoras da periferia.
O dia 18 de maio é o Dia Nacional de Combate
ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e
Adolescentes.

Nessa data, lembra-se a morte da pequena


Araceli Crespo, que foi violentada sexualmente
e morta no estado do Espírito Santo. Apesar
de diversas prisões, ninguém foi condenado.
Caso Araceli completa 47 anos e mistério sobre a morte
permanece no ES
Processo, depois do julgamento e absolvição dos acusados, foi arquivado pela
Justiça. Fato instituiu o Dia Nacional de Combate ao Abuso Sexual contra
Crianças. Menina tinha 8 anos quando foi raptada, drogada, estuprada e morta.

Mesmo depois de tanto tempo, a forma como a menina de oito anos despareceu, em 1973,
continua um mistério. Polícia, suspeitos e familiares se depararam com diversas versões do
crime, que permanece sem nenhuma solução. O processo, depois do julgamento e
absolvição dos acusados, foi arquivado pela Justiça.
Aos 8 anos, Araceli foi raptada, drogada, estuprada, morta e carbonizada, no Espírito Santo.
O corpo foi deixado desfigurado e em avançado estado de decomposição próximo a uma
mata, em Vitória, dias depois de desaparecer.
Abuso sexual

"No Brasil, em 2019, pelos menos 40% dos crimes de violência sexual
infantil foram cometidos por pais ou padrastos. Esse e outros dados
foram divulgados pelo Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos
Humanos (MMFDH) na manhã desta segunda-feira (18/5/2020), data
estabelecida como Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração
Sexual de Crianças e Adolescentes.”

Dados do Disque 100, referentes ao primeiro semestre de 2019, apontam


que foram registradas 7,2 mil denúncias de abuso sexual, isto é, foram
feitos 40 registros por dia, dois a cada hora.

Sobre crimes de abuso sexual infantil pela internet, foram 1,3 mil casos
registrados entre janeiro e junho do ano passado.
"O mapeamento revelou que 14% dos crimes dessa natureza foram
cometidos pelas mães das vítimas, 9% pelos tios, 7% por vizinhos e os
outros 30% dos casos são de responsabilidade de "outros".

Se considerada a faixa etária entre 0 e 11 anos de idade, crianças do


sexo masculino são as vítimas mais recorrentes de violência sexual.

As meninas, de outro modo, passam a ser os maiores alvos se


considerada a faixa etária entre 12 e 17 anos.
"De todas as queixas, 55% dizem respeito à violação de direitos da
criança e do adolescente e, desse total, 11% foram denúncias de
violência sexual infantil.

O Ministério também lamentou o fato de que se estima que apenas 10%


dos crimes dessa natureza são denunciados às autoridades.

Ainda segundo os dados divulgados na manhã desta segunda, pelo


menos 73% dos crimes de violência sexual infantil aconteceram na casa
da própria vítima ou na residência do suspeito que, em quase 90% dos
casos, é do sexo masculino."
Dados de 2020, em atualização

Entre janeiro e março deste ano, o Ministério notou uma estabilidade


do número de denúncias de violência sexual infantil.

Em janeiro, fevereiro e março, foram registradas 1.361, 1.408 e 1.402


queixas, respectivamente.
Em abril, no entanto, houve um decréscimo: 1.162 denúncias dessa
natureza foram feitas à ouvidoria.

Segundo a pasta, não há um indicativo claro do motivo da queda.


"Sabemos que diz respeito à Covid-19. Mas quando essas crianças
vierem a ter contato externo, provavelmente o número aumentará e
vamos precisar de políticas públicas para acolher essas crianças",
afirmou Fernando Ferreira, ouvidor nacional de Direitos Humanos.
ISOLAMENTO SOCIAL
O isolamento social, uma medida importante para proteger as famílias do
coronavírus, tornou-se um perigo à vida de milhares de crianças e
adolescentes no Brasil.

Vítimas silenciosas de abuso sexual, elas estão convivendo 24 horas por


dia com seus algozes, trancadas em seus lares, estando em um perigo
ainda maior, sem que as autoridades possam ser alertadas.

A pandemia trouxe à tona essa triste realidade – a da violência sexual


infantil subnotificada, que acontece dentro de casa, no seio familiar.

A maioria desses crimes não chega ao conhecimento das autoridades e


essa situação piora ainda mais nos dias de hoje, tornando o isolamento
social um grande pesadelo para muitas crianças e jovens.
A história de Araceli lembra a importância de se trabalhar tanto para
fortalecer as instituições que atuam na linha de frente – CRAS,
conselhos tutelares, polícias, Ministério Público, entre outras, quanto
para tornar mais rigorosas as leis que tratam do assédio, abuso e
estupro de vulnerável, para que os criminosos sejam condenados e
cumpram a pena que lhes foi imputada. Isso é fortalecer a justiça.

“Denunciar é o primeiro e mais importante passo para salvar a vida de uma


criança, tirá-la do domínio do abusador ou do explorador. A inocência faz
parte da infância. Precisamos dar às crianças o direito de serem crianças.”
*Roberto Alves - deputado federal/São Paulo
Abuso sexual de crianças: onde o Brasil e o mundo estão
acertando e no que têm de melhorar, segundo relatório
(Publicação de janeiro de 2019 https://www.bbc.com/portuguese/brasil-46886607)

No que diz respeito ao abuso sexual infantil, melhores índices


socioeconômicos não implicam diretamente em maior proteção às crianças -
e os países mais pobres não são, necessariamente, piores para elas.

A vulnerabilidade das crianças e dos adolescentes ao abuso sexual é


uma "ameaça universal", segundo alerta um relatório publicado nesta
semana pelo setor de pesquisas da revista britânica The Economist:

"Ele ocorre, na maior parte das vezes, nas sombras, mas a violência
sexual contra crianças está acontecendo em todo lugar, independente
do status econômico do país ou de seus cidadãos", diz o documento.
Analisando dados quantitativos e qualitativos de 40 países, o "Out of the
Shadows Index" (em português, Índice Fora das Sombras), apoiado
pelas fundações World Childhood Foundation e Oak Foundation, mostra
que os dez países melhor colocados em um ranking de combate ao
abuso sexual infantil e exploração, segundo a metodologia do relatório,
estão entre os mais ricos do mundo.

No entanto, apenas três deles (Reino Unido, Suécia e Canadá) têm uma
pontuação acima de 75 - em uma escala que chega a 100 pontos.

Dos 40 países avaliados, o Brasil é o 11º melhor colocado, com 62,4


pontos. Nessa pontuação geral, ele está acima da média do grupo: 55,4
pontos.
O documento destaca o aparato legal do país na proteção às crianças,
assim como o engajamento do setor privado, da sociedade civil e da
mídia no tema.

A título de comparação, o Reino Unido, melhor colocado, aparece com


82,7 pontos; já na lanterna está o Paquistão, com 28,3 pontos.

Os países avaliados contêm 70% da população global de crianças (na


maior parte dos dados utilizados, pessoas com até 18 anos).

Já a pontuação é composta por 34 indicadores e 132 subindicadores.


Exploração sexual

De acordo com Vanessa Helvécio, coordenadora do Centro de


Referência Especializado de Assistência Social  (CREAS) M´Boi Mirim, o
baixo índice de denúncias sobre exploração sexual também têm a ver
com fatores culturais que naturalizam a violência.

“Ouvimos muitas falas que culpabilizam as vítimas, principalmente


quando são meninas. O tabu também é grande, pois é um problema de
polícia e não apenas de proteção. Se existe exploração é porque
alguém explorou e esse alguém é um criminoso. Os melindres também
passam por aí.”
Subnotificação

Apesar de todas as políticas, o Brasil enfrenta o grande desafio da


subnotificação. As poucas denúncias acabam resultando em dados
incompatíveis com a realidade. Para Luciana Temer, Diretora Presidente
do Instituto Liberta, a exploração sexual ainda é um tema nebuloso e
escondido.

“Quando falamos de exploração sexual, muitas pessoas não sabem do


que estamos falando, pois este é o termo correto, embora seja
recorrente falarem em prostituição infantil.

O tema ainda é uma ignorância no Brasil, pois uma boa parte não o
reconhece como um problema, porque não acha que é um crime. A outra
parte sequer sabe que existe”, comenta Luciana.
Muitas vezes as crianças e adolescentes vítimas de exploração sexual
precisam de apoio de toda a comunidade até mesmo para reconhecerem
que estão sendo violadas. Para Luciana, como eles estão inseridos no
processo de violência, pode ser que nem entendam aquele ato como
violento, pois é naturalizado.

A naturalização da prática tem a ver com a cultura de responsabilização


da vítima pela violência sofrida.

Frases como “ela não era mais virgem, ela gostou ou ela usou o dinheiro
para ajudar a família” são mitos a respeito da exploração sexual.
Para Luciana, a violência é um grave problema social, pois está
relacionada à miséria.

“Muitos meninas e meninos explorados deixam a escola e muitas


meninas engravidam.

Os filhos nascem sem estrutura nenhuma e caem no colo do Estado,


perpetuando o ciclo da pobreza”, diz a diretora.

(Lembrar o tema “Gravidez na adolescência)


DENÚNCIAS
“O primeiro lugar em que a situação aparece é na escola. Como é ela que
vai endereçar a demanda, os educadores precisam saber que existe uma
rede protetiva.  Há um registro de ocorrência escolares, conhecido como
ROE, onde os professores anotam casos significativos.

Esse é um canal muito importante que incentivamos em nossos projetos.


Não é responsabilidade dos educadores resolverem a situação, mas falar
com quem tem competência”
Trechos de uma entrevista com a atual Ministra da Família, Damares Silva

Como combater a violência sexual contra crianças?

“A ciência fala que mais de 50% das crianças vítimas de violência sexual vão
se transformar em um abusador. Então, é um ciclo: o abusado vira abusador, e
a gente tem de interromper esse ciclo. Com menos abusados teremos menos
abusadores. Da mesma forma com relação à violência física. Eu acompanho
muitos casos de pais, de agressores de crianças, quando pega o histórico
desse cara, ele já veio de um contexto de muita violência na infância. Eu não
estou justificando a violência. Mas os cientistas têm razão. São
comportamentos repetidos de geração em geração. Então, se uma geração,
se uma nação inteira se levantar e dizer ‘chega’, vamos inibir a violência
sexual, a física.”
Como o Estado pode contribuir no combate à violência física?

O Estado precisa dar as respostas às denúncias que chegam. O fluxo é:


recebimento de denúncia, encaminhamento e solução do problema. Vou falar do
meu ministério. O Disque 100 recebe a denúncia. A ocorrência aconteceu na cidade
de Nossa Senhora da Glória, no interior de Sergipe. Como eu vou chegar, de fato, a
essa criança? Adianta eu ter um bom canal de denúncia? Por exemplo, eu recebo a
denúncia, vou localizar o Conselho Tutelar da cidade. Esse Conselho tem telefone?
Tem computador para eu mandar e-mail? O conselheiro tutelar tem carro para ir à
comunidade onde está ocorrendo a violência? Então, esse fluxo e a resposta, o
Estado vai ter de dar, vai ter de equipar o conselho tutelar, vai ter de capacitar o
conselheiro tutelar. A gente acaba esbarrando na falha da máquina. Agora, estamos
aprimorando o fluxo.
Como está a rede de proteção no país?

Ela precisa muito ser fortalecida. Eu usei o exemplo do Conselho Tutelar. Eu


considero um instrumento poderoso na proteção da criança, mas eu ainda tenho
conselho tutelar no Brasil que está atendendo de bicicleta. Antes de eu assumir, vi
uma imagem de um conselheiro atendendo de jegue, lá no interior do Nordeste. A
forma como a rede é estruturada é perfeita: conselho tutelar, Ministério Público,
delegacia, a vara de enfrentamento, as comunidades de acolhimento. Temos tudo
isso no Brasil, mas muitas não estão bem estruturadas. Eu venho trabalhando
nisso. Por exemplo, esse braço que é do nosso ministério, o conselho tutelar,
estamos fortalecendo, equipando-os, mas não é só equipar com carro, com
computador, é preparar melhor nosso conselheiro. As delegacias de enfrentamento
à violência, estamos lutando para termos mais, ainda há poucas no Brasil.

https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/cidades/2019/09/12/interna_cidadesdf,781941/brasil-e-cruel-com-as-crianca-diz-ministr
a-damares-alves.shtml