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Felizmente Há Luar!

Luís de Sttau Monteiro

A Obra

Professora : Áurea Moreira


 Felizmente há luar! é um drama narrativo de carácter social dentro

dos princípios do teatro épico. Defende as capacidades do homem que tem


o direito e o dever de transformar o mundo em que vive, oferecendo-nos
uma análise crítica da sociedade procurando mostrar a realidade em vez de
a representar, para levar o espectador a reagir criticamente e a tomar
posição.
 Felizmente há luar! interpreta as condições da sociedade

portuguesa do início do século XIX e a revolta dos mais esclarecidos,


muitas vezes organizados em sociedades secretas contra o poder
absolutista.

 A figura central é o general Gomes Freire de Andrade “que está

sempre presente embora nunca apareça” e que, mesmo ausente,


condiciona a estrutura interna da peça e o comportamento de todas as
personagens.
 Felizmente há luar! destaca a preocupação com o homem e o seu

destino, a luta contra a miséria e a alienação, a denúncia da ausência de


moral, o alerta para a necessidade de uma superação com o surgimento de
um sociedade solidária que permita a verdadeira realização do homem.
 A defesa da liberdade e da justiça, atitude de rebeldia, constitui a

hybris (desafio) desta tragédia. Como consequência, a prisão dos


conspiradores provocará o sofrimento (pathos) das personagens e
despertará a revolta do espectador.

* Hybris e pathos são elementos da tragédia grega que se


adaptam a todas as tragédias.
 O recurso à distanciação histórica e à descrição das injustiças

praticadas no início do séc. XIX, em que decorre a ação, permitiu-lhe


colocar em destaque as injustiças do seu tempo e a necessidade de lutar
pela liberdade.
 As personagens, psicologicamente densas e vivas, os comentários

irónicos e mordazes, a denúncia da hipocrisia da sociedade e a defesa


intransigente da justiça social são características marcantes desta obra; nas
suas falas, as personagens dirigem mensagens ao espectador (Matilde:
“enquanto nos não matarem, aquele de nós que estiver livre tem de lutar”).
Paralelismo Metafórico e Histórico

Tempo Século XIX (1817) Século XX (1961)


Regime Absolutista Salazarista (ditadura)

Classes exploradas e classes Classes exploradas e classes


Sociedade
exploradoras exploradoras

Povo Péssimas condições de vida Péssimas condições de vida


Manuel – consciência popular, Militantes antifascistas que se
Conspiração tenta participar na conspiração revoltam mas são logo
e derrubar o regime sufocados
Vicente, Andrade Corvo e
Morais Sarmento – símbolos Os chamados “bufos”,
Denúncias dos denunciantes hipócritas denunciantes que ajudaram a
contra Gomes Freire de manter o regime de Salazar
Andrade
Tempo Século XIX (1817) Século XX (1961)
Dois polícias contribuem para
Forças policiais PIDE assegurou ou regime
sustentar o regime
Beresford (marechal,
Representadas pelas forças
estrangeirado), Principal Sousa
Classes dominantes estrangeiras (Inglaterra), pelos
(padre) e D. Miguel Forjaz
monopólios e pela Igreja
(nobre)
Há um processo de condenação Muitíssimos foram os processos
Processos
sem provas de condenação sem provas
As execuções foram muitas,
General Gomes Freire de mas em 1965 executar-se-ia o
Execuções Andrade, um general sem medo General Humberto Delgado, o
Mas Felizmente há Luar “General sem medo”
Mas Felizmente há Luar
Estimula futuras rebeliões que
Estimula futuras rebeliões e em
culminarão no 25 de Abril de
1834 o Liberalismo Triunfa
1974 e a democracia triunfa
MORREM EM NOME DO ESTADO
Gomes Freire Humberto Delgado

Prestígio e liderança Oposição e liderança

Ausência Presença

Símbolo da integridade Símbolo da mudança

É executado É assassinado
Estrutura da Obra

Estrutura externa – A peça divide-se em dois atos, no interior de cada ato não
existe divisão em cenas.

Estrutura interna:
Primeiro ato:

O povo, vítima de miséria e da opressão, sonha com a salvação,


motivado pela esperança que depositam sobre o General Gomes Freire – é
a mitificação do herói.
 Vicente, homem do povo, considera Gomes Freire um
“estrangeirado”; mais tarde será levado a D. Miguel de Forjaz, onde
Vicente trai a sua classe social, com a promessa de D. Miguel torná-lo
chefe de policia.

 D. Miguel preocupado com uma revolução, manda Vicente vigiar a


casa de Gomes Freire.

 Beresford anuncia que Lisboa se prepara para uma revolta contra o


poder (D. Miguel e Principal Sousa), quem o informa é o Capitão Andrade
Corvo e Morais Sarmento.
 Os governadores do reino tomam a decisão de destruir o líder dos
conspiradores.

 Vicente informa os governadores do n.º de pessoas que entraram em


casa de Gomes Freire; Andrade Corvo revela aos governadores que o
chefe dos conspiradores é o General Gomes Freire.

 D. Miguel ordena a prisão dos conspiradores, mas o seu único


objetivo é a eliminação de Gomes Freire.
Segundo ato

 O ato inicia-se como o anterior, ou seja, Manuel interroga-se “Que


posso eu fazer?...”, através do seu monólogo ficamos a conhecer a prisão
de Gomes Freire ocorrida na madrugada anterior.

 A policia proíbe os aglomerados dos populares para evitarem uma


revolução.

 Matilde procura Beresford, a fim de interceder pelo marido; objetivo


que não alcança, pois, através do diálogo com Matilde, o governador
humilha Gomes Freire.
 O padre informa que será feita uma ação de graças em todas as
paróquias e igrejas dos conventos por todos aqueles que se tinham
insurgido contra o governo.

 Matilde apercebe-se da indiferença dos populares perante a situação


em que se encontra o seu marido (na realidade, eles não têm qualquer
hipótese de o ajudar; a traição a que o povo é obrigado é simbolizada na
moeda que Manuel oferece a Matilde); sabe-se, entretanto que Vicente é
chefe de polícia.

 António de Sousa Falcão transmite a notícia de que a situação de


Gomes Freire é cada vez mais crítica (não são autorizadas visitas,
encontra-se numa masmorra às escuras, não lhe permitem escolher um
advogado , descuida-se a sua higiene física e a sua alimentação).
 Matilde pede ao Principal Sousa que liberte o marido, o governador
não a recebe.

 Matilde pede ao Principal Sousa que liberte Gomes Freire, este evoca
“As razoes do Estado” com o motivo da morte do General, apesar de
Matilde o acusar de cumplicidade em relação ao destino de seu marido.

 Frei Diogo, que confessara Gomes Freire, revela a sua solidariedade


para com Matilde.

 Matilde acusa o Principal Sousa de não adotar o comportamento que


seria de esperar de um Bispo.
 Sousa Falcão informa a esposa do general de que já havia fogueiras
em S. Julião da Barra, para onde Gomes Freire tinha sido levado, o que
leva Matilde a implorar de novo, ao Principal Sousa a vida do seu marido.

 Matilde tenta consolar-se através da religião; depois lançará aos pés


do Principal Sousa a moeda que Manuel lhe dera.

 Matilde assiste à execução do marido, vendo o seu corpo ser


devorado pelas chamas, ainda que imagine que o seu espírito vem
abraçá-la; profetiza uma nova vida para Portugal, simbolizada no clarão
da fogueira, fruto de uma revolução que encerraria o período de ditadura.
 Esta execução teve profunda influência no surto de uma
consciência liberal entre o Exército e a burocracia. Longe de evitar
futuras rebeliões, apenas serviu para as estimular, uma vez que os
opositores ao regime, e com eles muitos outros até então
indiferentes, se convenceram da tirania dos governantes e da
impossibilidade de conseguir, por meios pacíficos, quaisquer
modificações no governo.
Personagens

Povo: Manuel, Rita, Antigo Soldado, Outros populares

Traidores do povo: Vicente, Andrade Corvo, Morais Sarmento, dois policias

Governantes: Principal Sousa, D. Miguel de Forjaz, Marechal Beresford.

Algumas personagens adquirem uma dimensão individual evidente, desnudando


a sua alma perante espectadores. É o caso de Matilde de Melo e António de
Sousa Falcão.
 
Gomes Feire:
está sempre presente embora nunca apareça, amigo do povo, militar distinto,
franco, aberto, leal, generoso e justo.

D. Miguel:
frio, desumano e calculista (odeia Gomes Freire), hipócrita; sádico e vingativo;
desonesto, cruel e maquiavélico; a fazer lembrar Salazar.

Principal Sousa:
hipócrita, agarrado ao poder maquiavélico; mentiroso; autoritário e
intelectualmente desonesto; medroso e cobarde; representante da Igreja
Católica.
Beresford:
sagaz, oportunista, interesseiro e maquiavélico; mercenário; prático, irónico e
sarcástico; lúcido e frio.

Manuel:
representante do povo; impotente face a opressão; sarcástico.

Vicente:
provocador; materialista e ambicioso; oportunista; delator, adulador e hipócrita.

Matilde:
solidária, humana, de uma ternura infinita, digna.
Intencionalidade do Autor

 Objetivos: levar o leitor/espectador, através da análise crítica da sociedade


portuguesa do princípio do séc. XIX, a refletir sobre a situação portuguesa atual
(1961), desmascarando situações gritantes de injustiças e exploração.
Como atingir os objetivos:

Textos que acompanham o diálogo

As notas à margem constituem comentários que interpretam, enquadram


e explicitam cenicamente as atitudes e as falas das personagens.
As indicações em itálico, entre parênteses, são didascálias que referem
alterações de iluminação e marcam as pausas, o tom de voz, os gestos,
as poses histriónicas, os movimentos cénicos das personagens.
Efeitos de luz e som (típicos do teatro épico)

Pelos elementos de luz e de som: em vez de as personagens se


movimentarem entre a escuridão e a luz, são a luz e a escuridão que se
movimentam entre as personagens e o espaço, incidindo ora sobre
aquelas ora sobre este, chegando a haver jogos de luz e de sombra ou
apenas de penumbra. Salienta-se o som dos tambores que ameaça ou
prepara um clima de guerra, tal como acontece com o tocar um sino a
rebate. Há também um “murmúrio de vozes humanas”, o “murmúrio da
multidão”, entrecortado, de quando em quando, pelo latim “dos padres que
acompanham os presos pelo Campo de Sant’ Ana”.
Linguagem

Pela linguagem: sempre apropriada a cada personagem é, por exemplo,


em D. Miguel, a do político astuto; no cardeal, é a de um homem fanático;
em Beresford, é a do interesseiro, trocista e sarcástico; em Matilde, é a da
mulher em devaneio ou em desespero ou em revolta ou, finalmente,
daquela que faz a glorificação do herói.
 
Apoteose trágica – uma homenagem com um desfecho trágico.
Símbolos

Saia verde –a felicidade (a prenda comprada em Paris – terra da liberdade -,


no Inverno, com o dinheiro da venda das duas medalhas); sendo um presente
de Gomes Freire para a sua amada em “tempos de crise”, simboliza a sua
coragem, altruísmo e o seu amor e carinho por Matilde; ao escolher aquela
saia para esperar o companheiro após a morte, destaca a “alegria” do
reencontro (“agora que se acabaram as batalhas, vem apertar-me contra o
peito”); o facto de ser verde traduz a esperança e tranquilidade.
“Felizmente há luar”: o título surge por duas vezes, ao longo da peça, inserido
nas falas das personagens:

D. Miguel salienta o efeito dissuasor que aquelas execuções poderão exercer


sobre todos os que discutem as ordens dos Governadores (“Lisboa há-de
cheirar toda a noite a carne assada, Excelência, e o cheiro há-de-lhes ficar na
memória durante muitos anos...Sempre que pensarem em discutir as nossas
ordens, lembrar-se-ão do cheiro...” Logo de seguida afirma “é verdade que a
execução se prolongará pela noite mas felizmente há luar...”); esta primeira
referência ao título da peça, colocada na fala do governador, está relacionada
com o desejo expresso de garantir a eficácia da execução pública: a noite é
mais assustadora, as chamas seriam visíveis de vários pontos da cidade e o
luar atrairia as pessoas à rua para assistirem ao castigo que se pretendia
exemplar.
Na altura da execução, as últimas palavras de Matilde são de estímulo para
que o povo se revolte contra a tirania dos governantes (“Olhem bem! Limpem
os olhos no clarão (...)”)
A luz: A luz, simbolicamente está associada à vida, à saúde, à felicidade,
enquanto a noite e as trevas se associam ao mal, à infelicidade, ao castigo, à
perdição e à morte.

O luar: A lua, simbolicamente, por estar privada de luz própria, na dependência


do sol, e por atravessar fases, mudando de forma, representa a dependência,
a periodicidade e a renovação. Assim, é símbolo de transformação e de
crescimento.

A lua é ainda considerada como “o primeiro morto”, dado que durante três
noites em cada ciclo lunar ela está desaparecida, como morta, depois
reaparece e vai crescendo em tamanho e em luz. Ao acreditar na vida para
além da morte, o homem vê nela o símbolo desta passagem da vida para a
morte e da morte para a vida...
A fogueira/lume: simboliza a iluminação dos espíritos, o catalisador da
revolução.

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