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A racionalidade científica

e a questão da objetividade
As perspetivas de Popper e Kuhn
sobre a evolução e a objetividade
do conhecimento científico
A racionalidade científica
e a questão da objetividade

A Teoria da Relatividade de Albert Einstein, publicada em 1905, veio colocar


em causa o conceito clássico de ciência que a considerava como uma disciplina
totalmente credível capaz de apresentar conhecimentos estáveis e definitivos,
sendo por isso objetiva.
 

Por objetividade entende-se:


► Análise imparcial dos fenómenos e das variáveis envolventes.
► Representação exata e clara do objeto ou realidade.
► Exigência da adoção de um princípio de universalidade e de um critério de
verdade.
► Possibilidade de a teoria ser testada independentemente do seu autor.

Karl Popper e Thomas Kuhn, dois autores do século XX debruçaram-se sobre


este problema e apresentaram perspetivas diferentes acerca da evolução e
objetividade da ciência
A racionalidade científica
e a questão da objetividade

A ciência hipotética e conjetural


Karl Popper (1902-1994)

► Considera a ciência hipotética e conjetural pois


não existe verdade científica. Não podemos provar
se as teorias são verdadeiras ou falsas, daí só as
poderemos considerar verosímeis – uma
aproximação à verdade.
 
► Segundo Popper, a ciência parte do senso
comum – o ponto de partida para todo o
conhecimento –, só que este, sendo insuficiente, vai-
se aperfeiçoando fruto da renovação de teorias,
cada vez mais refinadas e completas.
A ciência hipotética e conjetural
Karl Popper (1902-1994)

► A investigação científica caracteriza-se por ser um processo racional crítico e


a atividade principal dos cientistas não consiste em tentar provar uma teoria
através da verificação, mas antes refutá-la, a partir do critério de falsificação.
 
► A sua finalidade não consiste em destituir uma hipótese, mas testá-la
criticamente na esperança de detetar e eliminar possíveis erros que contenha
(verificacionismo vs falsificacionismo).
A ciência hipotética e conjetural
Karl Popper (1902-1994)

► As hipóteses que melhor resistirem ao «exame crítico» serão as mais


consistentes e aquelas que se mostrarão mais aptas para serem selecionadas
afirmando-se como teoria (influência da teoria evolucionista de Darwin).

► A verdade científica,
apesar de não alcançável,
não deixa contudo de estar
presente enquanto ideal
regulador, uma finalidade a
atingir.
A racionalidade científica
e a questão da objetividade

A ciência paradigmática e revolucionária


Thomas Kuhn (1922-1996)

► Considera a ciência paradigmática. Toda a


atividade científica gira em torno de um
paradigma que a comunidade científica
reconhece e que funciona como modelo.
 
► Um paradigma é o conjunto de crenças,
princípios e metodologias partilhadas pela
comunidade científica, que está na base de toda
a sua investigação; é o modelo que durante um
período de tempo fornece os problemas tipo e
condiciona as soluções.
A ciência paradigmática
e revolucionária
Thomas Kuhn (1922-1996)

► Segundo Kuhn a ciência desenvolve-se a partir de revoluções (científicas)


causadas pela mudança de paradigma na comunidade científica. Este processo
realiza-se em três fases ou períodos:
– Período da ciência normal – em que o paradigma é aceite e partilhado
por toda a comunidade científica cuja investigação é sobretudo uma
atividade de resolução de enigmas segundo informações fornecidas no
quadro desse mesmo paradigma;
– Período da ciência em crise – em que o paradigma apresenta um
conjunto de anomalias sendo incapaz de responder aos problemas
suscitados perdendo credibilidade junto da comunidade científica;
– Período da ciência revolucionária (ou extraordinária) – constituído pelo
surgimento de um novo paradigma que se afirma e se impõe, destituindo o
«velho» paradigma.
A ciência paradigmática
e revolucionária
Thomas Kuhn (1922-1996)

► Os paradigmas são incomensuráveis – não se podem medir, comparar. Dado


um novo paradigma ser oposto ao anterior, não é possível determinar se a ciência
evolui ou progride em direção à verdade com a substituição, não se podendo
saber se um é melhor do que o outro.
 
► Kuhn considera também que os critérios que presidem à mudança de
paradigma não são totalmente objetivos, dado o cientista sofrer influências da
sociedade, das experiências anteriores e mesmo da sua formação cultural e
ideológica.
 
A ciência paradigmática
e revolucionária
Thomas Kuhn (1922-1996)

► A ciência não é neutra. A racionalidade não é o único fator que está na base
da mudança de paradigmas. Nela estão presentes fatores sociais, económicos,
aleatórios ou mesmo inconscientes que não permitem ter uma visão totalmente
objetiva e pura da realidade.
 
► Logo, para Kuhn não existe
verdade científica.
Análise comparativa
das duas perspetivas

CIÊNCIA

POPPER KUHN

A ciência é uma atividade crítica A ciência é uma atividade


que procura resposta alternativa contextualizada e por isso
às «teorias» já existentes. relacionada com a História assente
em paradigmas.
Análise comparativa
das duas perspetivas

INVESTIGAÇÃO CIENTÍFICA

POPPER KUHN

Suportada no critério Suportada em paradigmas


de falsificabilidade
O paradigma fornece o modelo de
As «teorias» devem ser refutadas investigação científica para toda a
(testadas criticamente) no sentido comunidade cuja ação incide numa
de detetar e eliminar erros que espécie de resolução de enigmas
eventualmente contenham. segundo as regras fornecidas pelo
Valorização do método hipotético- paradigma.
-dedutivo.
Análise comparativa
das duas perspetivas

EVOLUÇÃO CIENTÍFICA

POPPER KUHN

A ciência evolui fruto do A ciência evolui a partir de


aperfeiçoamento de teorias revoluções paradigmáticas. Um
segundo o critério de paradigma substitui o outro quando
falsificabilidade. Elas vão-se o paradigma dominante regista
tornando cada vez mais anomalias sendo incapaz de
completas. Contudo, esta responder aos problemas
evolução não é um processo suscitados. Estes paradigmas são
cumulativo de conhecimentos, opostos, incompatíveis, incapazes
mas a partir de eliminação de de coexistir e incomensuráveis.
erros.
Análise comparativa
das duas perspetivas

RACIONALIDADE CIENTÍFICA
POPPER KUHN

A afirmação da ciência enquanto O paradigma, durante o período


atividade crítica preserva a da ciência normal, inibe a crítica.
racionalidade científica. O cientista limita-se a seguir as
regras fornecidas pelo paradigma.
Análise comparativa
das duas perspetivas

OBJETIVIDADE CIENTÍFICA
POPPER KUHN

A presença da verdade enquanto Não podemos determinar se a


ideal regulador e o facto de a ciência progride em direção à
ciência evoluir progressivamente verdade, dado os paradigmas
em direção à verdade preserva a serem incomensuráveis e os
objetividade científica. critérios que presidem à seleção
de paradigmas não serem
puramente racionais nem
objetivos.
Análise comparativa
das duas perspetivas

VERDADE CIENTÍFICA
POPPER KUHN

A verdade científica não é A incomensurabilidade dos


possível, contudo «existe» paradigmas leva ao consequente
enquanto ideal regulador, uma desaparecimento da verdade
finalidade a atingir. mesmo como referencial.