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Robert Nozick,

Anarquia,
Estado e Utopia

Prof. Roberto Merrill


Índice
1. Introdução
2. O libertarismo de Nozick
3. Os direitos libertários
4. O Estado mínimo contra o anarquista
5. A teoria da justiça de Nozick
6. Conclusão. O Estado mínimo como utopia: Nozick e a filosofia política
Bibliografi
a
Bader, R. M., & Meadowcroft, J. (2011). The Cambridge Companion to Nozick's Anarchy, State, and
Utopia. Cambridge University Press.

Hunt, Lester H. Anarchy, State, and Utopia: An Advanced Guide. John Wiley & Sons, 2015.

Cohen, Gerald Allan. Self-ownership, freedom, and equality. Cambridge University Press, 1995.

Honderich, Ted. Conservatism: Burke, Nozick, Bush, Blair?. Pluto, 2005.

Nozick, Robert. Anarchy, State, and Utopia. Basic books, 1974.

• Trad.portuguesa: Anarquia, Estado e Utopia, Coimbra, Edições 70, 2009.

Wolff, Jonathan. Robert Nozick: Property, justice, and the minimal state. Stanford University Press,
1991.
1.Introduçã
o
Robert Nozick (1938 - 2002)
• Filósofo norte-americano
• Professor da Universidade
Harvard
• Filósofo político importante nas
décadas de 1970 e 1980.
• Desenvolveu outros trabalhos, nas
áreas de epistemologia e teoria da
decisão.
• A sua obra Anarquia, Estado e
Utopia, de 1974, foi uma resposta
libertária a Uma Teoria da Justiça
de John Rawls
O livro de Robert Nozick é uma defesa
brilhante do libertarismo: defesa do
mercado livre, dos direitos absolutos de
propriedade, e do Estado mínimo.

A reação académica ao livro foi limitada,


quando comparada à reação ao livro de
Rawls.

Mas é o livro de Nozick que parece mais


em sintonia com o espírito político da
época, pelo menos desde Reagan e
Thatcher.
A teoria de Nozick Ninguém tem o direito de
fundamenta-se num só valor, intervir com a nossa pessoa
os direitos absolutos de nem com as nossas possessões O direito à liberdade é a
propriedade: direitos da sem o nosso consentimento, a consequência do direito à
propriedade de si e da não ser que tenhamos perdido propriedade de si.
propriedade de coisas no os nossos direitos por ter
mundo. violado os dos outros.
Uma tradição
individualista

A tradição de Nozick é a tradição individualista dos direitos naturais, que tem a sua
origem no filósofo inglês do século 17 John Locke (1632–1704).

John Locke, Two Treatises of Government, P. Laslett (ed.), Cambridge: Cambridge


University Press, [1689], 1988.
• Tradução Portuguesa: Dois Tratados do Governo Civil, Lisboa, Ed. 70, 2006.

A defesa do Estado mínimo de Nozick é composta de três etapas:


• (1) Parte 1 do livro: Contra o anarquista, Nozick defende que o Estado mínimo é justificado.
• (2) Parte 2 do livro: Contra o que defende um Estado extenso, Nozick defende um Estado limitado.
• (3) Parte 3 do livro: O Estado mínimo não é um problema pois serve de inspiração para as utopias.
2. O libertarismo de
Nozick
Entre anarquia e
Estado

Benjamin Tucker (anarquista norte-americano, século 19): “ Se o indivíduo tem o direito


de se governar, todo governo externo é tirania”.

Nozick: “ Os indivíduos têm direitos, e há coisas que nenhuma pessoa ou grupo lhes pode
fazer (sem violar os seus direitos)” (Nozick, AEU, p. 21)

Mas a anarquia não é a consequência inevitável. O Estado mínimo sim.

Nozick é contra o Estado social pois viola os direitos individuais.


A tese da propriedade de
si

Não devemos ignorar que todos temos “vidas separadas” (cf. Rawls contra o utilitarismo)

= propriedade de si.

Exemplo da lotaria dos olhos: a tecnologia permite transplantar olhos. Alguns nascem com olhos deficientes.
Devemos redistribuir os olhos, por exemplo tirando um olho de pessoas com dois olhos saudáveis e transplantá-
los?

A propriedade de si deve ser absoluta segundo Nozick.


Anarquia e
perfecionismo

Proudhon (anarquista francês do século 19): “A propriedade é um roubo.”

O anarquismo de Bakunin, de Kropotkin, de Proudhon, etc., é romântico e


atractivo, promete um comunismo sem Estado, o qual implica um
perfecionismo moral e um “socialismo utópico”.
A teoria da justiça da
titularidade

Mas Nozick quer um Estado mínimo que protege a propriedade privada, a qual
deve ser moralmente justificada, graças à titularidade.

Por exemplo: uma pessoa muito rica recebe por herança mais riqueza ainda: não é uma
necessidade (não precisa) e não tem mérito por isso.

Mas tem o direito a essa riqueza, tem “titularidade”?

Sim, se a riqueza foi obtida com justiça na aquisição ou com justiça na


transferência, ou com justiça na retificação.
O Estado mínimo

Ter direitos absolutos de propriedade sobre si e sobre as coisas não garante


que estes sejam respeitados. Como proteger-nos das violações possíveis?
Chamando a polícia e levando a tribunal os violadores.
Os anarquistas não querem Estado. Mas isto é idealista e leva ao risco de caos
e guerra civil. Nozick quer um “nightwatchman state”: um Estado “guarda-
noturno”. É a única justificação do Estado.
Nozick é contra a redistribuição compulsiva das riquezas, e contra o
paternalismo. É contra a ajuda compulsiva aos pobres (Estado social).
Uma estrutura para a utopia?

Nozick não é contra a filantropia. Mas devemos distinguir entre o moralmente


correto e aquilo que é justo inscrever na lei como obrigatório.
Nozick não é contra os seguros no mercado privado. Ora muitos bens podem ser
distribuídos graças ao mercado privado.

O Estado mínimo é uma estrutura neutra que dá o máximo de liberdade para criar
sociedades muito variadas: capitalistas, socialistas, comunistas, etc.
Um Estado mínimo pode ser inspirador? Quem pode desejar um Estado onde se
deixam morrer de fome as pessoas, onde as casas ardem por não haver bombeiros,
onde não há um sistema nacional de estradas, de eletricidade, etc.?
3. Os direitos
libertários
Direitos
invioláveis

Para Nozick, os Direitos positivos


direitos individuais (implicam deveres
Quando há conflito
são absolutos. Se eu Direitos negativos dos outros em
de direitos: os
estou a morrer de Direitos negativos (direito à não- relação a mim):
direitos negativos
fome, e tenho um vs Direitos interferência dos devem ser apenas
são como restrições
direito absoluto à positivos: outros): não voluntários (por
absolutas: “side
vida, isso não me dá contratuais. contrato, com o meu
constraints”.
o direito à comida de médico por
outra pessoa. exemplo).
Direitos naturais e John
Locke

Contra Filmer,
Cf. John Locke, Locke defende que
Two treatises of Deus não deu a
Os direitos são Government, 1689. terra a Adão apenas
naturais =
Contra o direito mas a todos os
universais,
divino dos reis: cf. homens, e criou os
independentes das
debate com Robert humanos
convenções.
Filmer, Patriarcha, moralmente iguais,
1680. livres e
independentes.
John Locke e estado de
natureza

Segundo Locke, os homens Existem limites ao que as


vivem no estado de natureza: pessoas podem fazer, dados Cf. John Locke, Dois Tratados
• “um estado de liberdade, mas não um pela Lei Natural: do Governo Civil, Lisboa, Ed.
estado de licença (a state of liberty, yet
it is not a state of licence)”.
• “ Ninguém deveria prejudicar o outro 70, 2006.
na sua Vida, Saúde, Liberdade ou
Possesão (no one ought to harm
another in his Life, Health, Liberty or
Possesion”.
Fundamento kantiano
dos direitos em Nozick

Nozick não pode fundamentar a sua


teoria dos direitos naturais em Locke,
pois Locke é religioso (o fundamento é Os direitos são restrições absolutas pois
teológico), defende direitos positivos as pessoas são fins e não meios: têm
(direito à vida implica a obrigação dos vontade racional, fazem escolhas
outros em impedirem que eu morra de racionais, e merecem por isso ser
fome) e pode ser considerado utilitarista. respeitadas.

Influência de Kant sobre Nozick:


segunda formulação do imperativo
categórico: “Age de maneira a nunca
tratar os outros apenas como meios mas
sempre ao mesmo tempo como fins.”
Auto-defesa e
punição

Temos um
direito natural
Temos um
à auto-defesa,
direito a punir
que deve ser
que decorre do
proporcional à
direito à auto-
violação do
defesa.
direito
individual.

Pergunta cuja
Pois não são
resposta não é
estritamente
clara em Nozick:
direitos de não-
estes direitos
interferência.
estão em
Mas também não
conflito com os
são direitos
direitos
positivos.
negativos?
4. O Estado mínimo
contra o anarquista
Do estado de natureza à empresa
dominante e ao Estado mínimo

Este problema resolve-se com “gangs”


1. No estado de natureza cada um é o de pessoas que se associam para
Também podemos não ter a força de proteção mútua.
seu próprio juiz, e tende a ser parcial
exercer o nosso direito à punição,
(influência do estado de natureza em • De maneira quase histórica, constituem-se
nem à auto-defesa.
John Locke). várias associações destas.
• Mas dá trabalho resolver disputas: são criadas
empresas de proteção, com especialistas que se
dedicam a tempo inteiro a resolver disputas.
Do estado de natureza à
empresa dominante e ao Estado
mínimo 2

Inicialmente haverão várias Mas e se o “John Wayne”


empresas destas, mas tendem ao Esta empresa dominante será o anarquista quiser guardar o
monopólio, até que uma empresa Estado? Um Estado utra-mínino direito individual à punição,
fica com o monopólio do uso da talvez. como no Far-West?
força. • É legítimo ser como o John Wayne? Sim,
pois nesta situação ainda não há um
Estado.
Do estado de natureza à empresa
dominante e ao Estado mínimo 3

2. O Estado ultra-
Deve a empresa
mínimo e o Estado Ou deve a empresa
dominante tomar o risco
mínimo: O John Wayne é reclamar o monopólio do
de não fazer nada e Se sim, está justificado
um justiceiro que se pode uso da força e usar a
permitir que o John o Estado ultra-mínimo.
enganar, ser parcial, na violência contra o John
Wayne utilize a força
sua procura da justiça Wayne se for necessário?
contra os seus clientes?
privada.
Do estado de natureza à
empresa dominante e ao Estado
mínimo 4

3. A empresa deve no Oferecendo serviços


entanto compensar o mesmo aos que não os A razão não é welfarista
John Wayne de o impedir Está assim justificado o querem, o Estado mínimo mas apenas para
de usar a força, Estado mínimo. é redistributivo: alguns proteger os direitos
oferecendo-lhe os seus pagam para proteger negativos.
serviços de proteção. todos.
Nozick justifica a
obediência ao Estado em duas etapas

(2) Mesmo aqueles que não estão


(1) é racional consentir ao Estado pois é convencidos com o argumento, como o John
melhor (mais eficaz na administração) do que Wayne, devem obedecer ao Estado, pois
a anarquia e acontece pela “mão invisível”, a temos o direito de nos proteger de
través da empresa de segurança dominante. “justiceiros” embora devamos compensá-los,
protegendo-os também.
Resumindo:

4. Uma empresa
3. Transferem os seus
dominante que também
1. Estado de natureza: direitos a uma empresa,
2. Juntam-se em gangs. protege os John Wayne
cada um é juiz. que é mais eficaz,
deste mundo = Estado
embora custe dinheiro.
mínimo.
Como convencer o
anarquista?

Nozick consegue justificar o


Mas será justo proibir o O John Wayne deve ser
Estado mínimo ao
John Wayne de ser compensado por não ter
anarquista? Talvez, mas a
justiceiro? Não haverá aqui podido exercer o seu direito
que preço? Pois a
um conflito de direitos à punição, protegendo-o
compensação parece
entre o Estado e o também: é o “principio de
implicar uma redistribuição
anarquista? compensação”.
compulsiva.
5. A teoria da justiça de
Nozick
Direitos, justiça
distributiva e Estado
mínimo

Uma terceira opção:


Dilema de Nozick: aceitar Se a teoria da titularidade
definir a justiça distributiva
o Estado ultra-mínimo e for verdadeira, i.e. se não
de forma a torná-la
ignorar a justiça puser em causa os direitos
compatível com o Estado
distributiva ou aceitar a naturais à propriedade de
mínimo: esta é a função da
justiça distributiva e si, então o Estado mínimo é
sua teoria da justiça como
desistir do Estado mínimo? justificado.
titularidade.
Teorias da
justiça

Justiça distributiva =justiça económica= distribuição justa dos recursos.


Exemplos de padrões de distribuição:
• em função do que é mais útil para a sociedade
• em função da prioridade aos menos favorecidos,
• em função dos recursos,
• em função das capacidades,
• Em função do que é necessário para viver dignamente,
• em função do trabalho,
• em função do mérito,
• em função da excelência humana,
• em função da igualdade material estrita, etc.
Contra o “pote
social”

Consequência: a justiça
Para Nozick não existe um “pote
distributiva não pode ser
social ” à espera de ser Teoria da titularidade= teoria
realizada sem recorrer a uma
distribuído por uma entidade do justo título das posses, i.e. das
entidade central, logo não é
central: apenas existem pessoas posses justas.
compatível com o Estado
que produzem riquezas.
mínimo.
Três • 1. Justiça na aquisição: passagem
legítima de algo que não pertence a
formas de ninguém e que é transformado em
propriedade privada.
justiça = • 2. Justiça na transferência: da
propriedade justamente adquirida por

teoria da
alguém à transferência voluntária a outra
pessoa.
• 3. Justiça retificativa: se a aquisição não
titularida foi legítima ou se a transferência não foi
voluntária então devemos corrigir injustiças

de passadas.
Liberdade e
padrões
Se uma transferência é justa se, e apenas se, for voluntária, então as teorias
padronizadas são inaceitáveis: “a liberdade perturba os padrões (liberty
upsets patterns)”.

Exemplo de David Hume (filósofo escocês do século 18): liberdade e


igualdade são incompatíveis:
• “Tornem as posses perfeitamente iguais, os diferentes graus de arte, cuidados e indústria dos
homens romperão imediatamente essa igualdade.” Hume, An Enquire concerning the Principles
of Morals, 1777.
Liberdade e
padrões: Clique no ícone para adicionar uma
imagem

Chamberlain
Nozick generaliza Hume: a liberdade de transferência
elimina a igualdade e todas as distribuições
padronizadas:

Suponhamos que o nosso padrão preferido D1 realiza


uma justa distribuição de recursos. Suponhamos agora
que Wilt Chamberlain (um famoso jogador de
basquete) assina o seguinte contrato:
• a cada jogo, 25 centavos de cada bilhete comprado vão para ele.
• um milhão de pessoas vão vê-lo jogar e fica em D2 com 250.000
euros, i.e. com muito mais dinheiro do que os seus colegas.
Liberdade e padrões:
Chamberlain 2

Para Nozick é justa pois Voltar a D1 seria intervir


Esta distribuição D2 é de maneira inaceitável na
são transferências
injusta, em relação ao liberdade das pessoas.
voluntárias de D1 para
padrão D1 inicial?
D2. • Intervenção socialista vs
acumulação capitalista.
A disrupção dos padrões

Pergunta: será verdade que os padrões vão ser


interrompidos por transações voluntárias?
• Contrariamente ao que Nozick parece assumir, os padrões iniciais
não são necessariamente arbitrários, são escolhidos por razões,
que podem ser boas ou más.
• No entanto o ónus da prova está do lado daqueles que mantêm que
os padrões podem permanecer voluntariamente, e não do lado de
Nozick.
Transferência
voluntária

Nozick defende que se D1 é justo e provocou uma transferência


voluntária para D2, então D2 é justo.
Ora sabemos que não é fácil saber quando algo é realmente voluntário:
“o teu dinheiro ou a tua vida!” não é uma troca voluntária livre mas
forçada.
Transferência involuntária: duas
condições

Para Nozick, (em


Anarquia, Estado e
Utopia, p. 316) há duas
condições para considerar
as acções não-voluntárias:

(1) as nossas
opções estão
limitadas por
acções de outros;

(2) estas ações


devem violar
direitos nossos.
Trabalhar ou morrer de fome

Portanto um trabalhador que prefira


não trabalhar e morrer de fome pode
Pergunta: mas os contratos que
fazer uma escolha voluntária ao Logo, segundo Nozick, podemos
exploram as necessidades dos outros
preferir morrer de fome se as ações distinguir a transferência livre da
não serão forçados, e logo
dos outros que afetam essa escolha transferência forçada.
moralmente ilegítimos?
não violaram os direitos do
trabalhador.
transferências
voluntárias mas
fraudulentas

Que dizer das transferências com


erros não-fraudulentos? Poderia isto
Que dizer das transferências aplicar-se ao caso de Chamberlain: o
voluntárias mas fraudulentas? facto de eu pagar 25 centavos para vê-
Podemos dizer que não são realmente lo jogar não implica que aceito como
voluntárias. justa a consequência de ele ficar rico:
posso considerar que é uma situação
injusta.
Ser voluntário é suficiente para a justiça da
transferência?

A riqueza é poder: por


exemplo o poder de subir os
Devemos permitir
preços das casas graças à Mas o ser voluntário é
transferências voluntárias:
especulação imobiliária. Isso Que dizer das heranças? suficiente para a justiça da
liberdade de dar presentes, de
coloca os outros em situação transferência?
amar…
de considerarem o contrato
injusto.
Padrões e impostos

Ora, segundo Nozick, para


Se impusermos um padrão, fazer respeitar um padrão de
estamos a negar que o ser justiça, são necessárias
voluntário é uma condição intrusões permanentes e
suficiente da justiça. inaceitáveis na vida das
pessoas.
Objeções a Nozick

Ex. do princípio de diferença de


Rawls: não implica uma intrusão
Objeção 1 a Nozick: um padrão Objeção 2 a Nozick: numa teoria da
significativa na vida das pessoas. É
igualitário não precisa de ser tão justiça a liberdade é um valor entre
uma maneira de harmonizar vários
intrusivo, embora possa implicar outros valores com os quais é preciso
valores fundamentais como a
algumas restrições à liberdade. fazer trade-offs.
liberdade, a igualdade, a
solidariedade, etc.
Duas conceções da
liberdade

Mas serão realmente


limitações da liberdade? Por
Se aceitarmos que os padrões
exemplo: imaginem que um
podem em certos casos limitar
professor quer vender o seu
legitimamente a liberdade de
lugar de prof. a um familiar, e
alguns, por exemplo para
não ceder o seu lugar por
reduzir a pobreza extrema de
concurso ao candidato com
outros, estamos a conceder
mais mérito: impedi-lo de o
um ponto importante a
fazer seria uma negação da
Nozick.
sua liberdade? Parece
absurdo.
Liberdade e direitos

Aquilo que conta como


liberdade depende dos
direitos que temos: como o
professor não tem o direito de
vender o seu lugar, impedi-lo de
o fazer não representa uma
limitação da sua liberdade.

“Os meus direitos de


propriedade sobre a minha faca Nozick,
permitem-me deixá-la onde me
apetecer, mas não no peito do
Anarquia,
leitor (My property rights in my Estado e
knife allow me to leave it where
I will, but not in your chest)” Utopia, p. 215
Liberdade não é
licença

Hobbes: qualquer
Ora Nozick é lockeano: a E como não tenho o direito
restrição física é uma
nossa liberdade é limitada de espetar uma faca numa
Locke: liberdade não é limitação da minha
apenas quando alguém me pessoa inocente, logo a
licença. Liberdade = agir liberdade, incluindo
impede de fazer aquilo minha liberdade não é
segundo a lei moral. impedir-me de colocar a
que tenho o direito de limitada quando sou
faca no peito de outra
fazer. impedido de o fazer.
pessoa.
Liberdade negativa vs
liberdade positiva

Liberdade positiva (freedom


Liberdade negativa (freedom too) = auto-domínio, controle Nozick está entre
Cf. Benjamin Constant, “De la os dois conceitos
from): sou livre quando não sou sobre si próprio, capacidade de Cf. Isaiah Berlin, “Two
liberté des anciens comparée à pois a influência é
impedido de fazer o que quiser. obedecer à lei moral. Vem de concepts of liberty”, 1958.
celle des modernes », 1819. mais lockeana do
Liberdade dos Modernos. Aristóteles. Liberdade dos
Antigos. que hobesiana.
Titularidade e
liberdade

A teoria da titularidade
Hobbes: se o meu direito à
Ora esta restrição à liberdade também choca com a
vida previne alguém de me
faz sentido, é um dever da lei liberdade negativa, e não
matar, então isso é uma
moral. apenas os padrões chocam com
limitação da sua liberdade.
esta.
Rejeitar a conceção da
titularidade

O argumento 2 não
2. O que se segue será simplista? As
Argumento de duma situação justa é transferências podem
Nozick: justo levar a injustiças.

1. As transferências 3. Aplicar um padrão O argumento 3


voluntárias destroem viola a liberdade também é fraco: a
os padrões liberdade é um valor
entre outros, e a
liberdade implica
direitos morais
(contra a liberdade
negativa de Hobbes).
Locke sobre a
propriedade

Tudo o que existe espontaneamente na terra pertence em comum à humanidade.

Cada homem tem a propriedade exclusiva da sua própria pessoa.

O trabalho do seu corpo e a obra das suas mãos pertencem-lhe.

É o trabalho que determina a posse dos bens (frutos da terra).

Locke definiu três restrições à acumulação de propriedade no estado de natureza:


• (1) só se pode apropriar duma propriedade na medida em que esta não se estrague (Dois tratados, 2.31),
• (2) deve deixar-se propriedade “suficiente e tão boa” para os outros (a restrição da suficiência) (2.27), e
• (3) só podemos ter propriedade através do nosso trabalho (2.27).
Objeção de Nozick a
Locke

1. Como se mistura uma Resposta de Locke:


Exemplo da lata de sumo Objeção a Locke: o
atividade com um objeto? misturar o meu
de tomate despejada no produtivismo pode ser
A mistura não será um trabalho dá mais valor
mar. Fico proprietário do fruto do colectivo, e não
meio de perder um objeto ao objeto (produtivismo)
mar ou perco o meu sumo apenas graças à
em vez de ganhar um e deixa mais recursos
de tomate? propriedade privada.
maior? para os outros.
A cláusula lockeana
e a cláusula
nozickeana

Para Nozick, a cláusula lockeana da apropriação


legítima da propriedade: “suficiente e tão bom
(enough and as good)” deve ser interpretada
assim = ninguém deve ficar pior.

A cláusula não é violada se ninguém ficar pior no


uso da terra, mesmo se a terra for propriedade
de uma só pessoa.
O problema dos parâmetros

Será a cláusula Nozick pode responder


nozickeana uma Nozick: a comparação que a cláusula pretende
condição suficiente para relevante é a situação apenas ser uma
a justificação da em que não há condição necessária
apropriação? apropriação. mas não suficiente.

Precisamos de conhecer Objeção: podemos


os parâmetros de comparar com outras
comparação: o que quer situações, por exemplo
dizer “se não piorar as com a propriedade
condições dos outros”? socialista.
Piorar em relação a
quê?
Justiça na
rectificação

Para Nozick muitas


2. Devemos ir até à primeira
aquisições são injustas 1. Questão da extensão da
injustiça? Ou começamos
(impostos para financiar a rectificação: devem os EUA
amanhã? o Estado mínimo
saúde pública, etc.). O ser devolvidos às primeiras
considera justas todas as
principio de rectificação nações indígenas?
apropriações atuais?
corrige as aquisições injustas.
Nozick liberal-
igualitário?

“Organizar a sociedade de modo a maximizar a posição de seja qual for o


grupo que fica menos favorecido na sociedade (organize society so as to
maximize the position of whatever group ends up least well-off in the
society)” (Nozick, Anarquia, Estado e Utopia, p. 281) :

Podemos interpretar isto como a aceitação do princípio de diferença?


Conclusão

1. Princípio de aquisição: não


se percebe bem em que
2. Princípio de transferência:
consiste. Nozick defende uma
é justa se for voluntária. Mas 3. Princípio de retificação:
versão fraca da cláusula
Nozick não defende a igualitário?
lockeana: se ninguém ficar
liberdade negativa de Hobbes.
pior. Mas em relação a que
situação?
6. Conclusão. O Estado mínimo como
utopia: Nozick e a filosofia política
O defensor
A teoria dos anarquista dos A teoria da Ficamos com De qualquer
direitos do direitos naturais titularidade muito pouco… maneira, a
Nozick é não fica revela-se sem mas é filosofia política
contestável (cf. convencido com fundamentos estimulante, não raramente
John Wayne). o Estado sólidos. dogmático. atinge verdades.
mínimo.
Nozick e Rawls

(2) As desigualdades económicas e


sociais devem (a) gerar o maior
benefício para os menos favorecidos
(princípio da diferença); (b) e devem
estar ligadas a postos e posições
acessíveis a todos em condições de
justa igualdade de oportunidades
Formulação dos dois princípios em TJ: (princípio da oportunidade justa).

(1) A sociedade deve assegurar a


máxima liberdade para cada pessoa
compatível com uma liberdade igual
para todos os outros= Princípio da
liberdade igual.
Nozick é contra o
princípio de diferença

O princípio de diferença corrige


Para Rawls a sociedade é um
Para Rawls os melhores na essa arbitrariedade moral: os
sistema de cooperação para a
sociedade têm sorte social e sorte talentos que são consequência do
vantagem mútua. A cooperação
genética, e essa sorte é moralmente arbitrário são para
justa permite uma divisão justa do
moralmente arbitrária. Rawls “common assets” (activos
produto social.
comuns).
Respostas de Nozick a
Rawls

Resposta rawlsiana: devemos


Segundo Rawls, as pessoas não distinguir o direito de usufruir
(1) Se não somos responsáveis
Cf. Michael Sandel: Rawls tem seriam responsáveis pelos seus das nossas propriedades naturais
nem sequer dos nossos esforços
uma concepção metafísica da crimes? Deveríamos castigar (moralmente arbitrárias) do
então não podemos defender que
pessoa que não é plausível. toda a comunidade e não apenas direito de ficarmos com todos
somos pessoas autónomas
o criminoso? os lucros que podem decorrer da
possessão desse direito.
A lotaria social e
genética
(2) Pergunta de Nozick: A lotaria social (3) O princípio de
e genética é realmente moralmente diferença viola a
arbitrária? As pessoas podem ter o separabilidade das
direito às possessões derivadas dos seus pessoas. Os melhores
talentos naturais, mesmo sem mérito estão ao serviço dos
nenhum. menos favorecidos.

Resposta rawlsiana: Resposta rawlsiana:


mas então que outra sem princípio de
razão justificaria essa diferença o sacrífico
possessão dos dos mais pobres
recursos? pelos mais ricos seria
ainda maior.
Nozick e a igualdade

Mesmo se é provável que um sistema libertário


de direita provoque desigualdades fortes na
sociedade, na verdade Nozick nada tem contra a Cf. Friedrich Hayek, O caminho da servidão,
igualdade, se esta for o resultado de 1944.
transferências voluntárias, e não duma
“planificação centralizada”.
Nozick e Marx

Na tradição marxista, os trabalhadores são alienados e são


explorados.
Alienação no trabalho por que:
• O trabalho não tem sentido
• Resposta de Nozick: no socialismo também não. Trabalho com sentido e mal pago
vs trabalho sem sentido e bem pago? Trabalho com sentido mas menos
productividade?
• Os trabalhadores não controlam a sua actividade económica
• Resposta de Nozick: podem sempre fazer cooperativas
• Os trabalhadores são impedidos de dizerem algo sobre os temas que os afectam
• Resposta de Nozick: mas este “principio dos afectados” raramente é aplicado, e é
muito complicado de realizar
Exploração no
trabalho

Em Marx a teoria da exploração permite explicar o mecanismo que causa o lucro


capitalista.

Exploração no trabalho por que:


• O trabalhador é usado apenas como um meio (cf. Kant)
• O trabalhador é pago menos do que o valor que o seu trabalho produziu
• Nozick: nesse caso há exploração sempre que se investe no futuro, ou na segurança social.
• O trabalhador não tem alternativa
• Nozick: tem alternativa se ninguém violar os seus direitos negativos; e pode criar
cooperativas, etc.
Libertarismo e utopia

Apesar de estar associado ao


laissez-faire e ao capitalismo
selvagem, o libertarismo não
O libertarismo pode servir de obriga a isto, pois é compatível As pessoas podem sair de uma e O resultado é um pluralismo
estrutura para as utopias. com qualquer tipo de sociedades, entrar noutra quando quiserem. das utopias possíveis.
mesmo não capitalistas, desde
que isso seja o resultado de
decisões voluntárias.

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