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LESÃO CORPORAL

LESÃO CORPORAL
INTRODUÇÃO

 Regulação referente à proteção da integridade corporal do ser humano;

 Para Nucci, lesão corporal:

[...] trata-se de uma ofensa física voltada à integridade ou à saúde do corpo humano. Não se
enquadra neste tipo penal qualquer ofensa moral. Para a configuração do tipo é preciso
que a vítima sofra algum dano ao seu corpo, alterando-se interna ou externamente,
podendo, ainda, abranger qualquer modificação prejudicial à saúde, transfigurando-se
qualquer função orgânica ou causando-lhe abalos psíquicos comprometedores. Não é
indispensável a emanação de sangue ou a existência de qualquer tipo de dor.

 Para Hungria, lesão corporal “compreende toda e qualquer ofensa ocasionada à


normalidade funcional do corpo ou organismo humano, seja do ponto de vista
anatômico, seja do ponto de vista fisiológico ou psíquico”.

 Também haverá o crime quando a ofensa à integridade corporal ou à saúde da


vítima, mesmo que não tenha sido provocada originariamente pelo agente, foi por
sua ação agravada.
LESÃO CORPORAL
CATEGORIAS:
 As lesões corporais podem ser sistematicamente divididas levando-
se em consideração os seguintes critérios:

 Elemento subjetivo: dolosa simples (art. 129, caput); dolosa qualificada


(art. 129, §§1º, 2º, 3º e 9º); dolosa privilegiada (art. 129, § 4º); e culposa
(art. 129, §6º);

 Intensidade da lesão: leve (art. 129, caput); grave (art. 129, §1º);
gravíssima (art. 129, §2º); e seguida de morte (art. 129, §3º).

OBJETO JURÍDICO
 É a integridade física ou psíquica do ser humano.
 Ressalta Luiz Regis Prado que no art. 129, §9º, “(...) protege-se ainda o
respeito devido à pessoa no âmbito familiar”.

OBJETO MATERIAL
 É a pessoa humana, mesmo que ainda em vida intra-uterina
LESÃO CORPORAL
SUJEITO ATIVO
 Crime comum: qualquer pessoa pode praticar.

 Não pode, contudo, figurar como sujeito ativo a própria vítima,


considerando a impossibilidade de punição da autolesão.

 Exceções:
 Se a autolesão servir como meio (Ex.: art. 171, §2º, V, do CP – fraude para
recebimento de indenização ou valor de seguro);

 Conforme, destaca Cezar Roberto Bitencourt: se um inimputável, menor, ébrio


ou por qualquer razão incapaz de entender ou de querer, por determinação de
outrem, praticar em si mesmo uma lesão, quem o conduziu à autolesão
responderá pelo crime, na condição de autor mediato.

 No caso do art. 129, §9º, primeira parte, exige-se sujeito ativo especial.
LESÃO CORPORAL
SUJEITO PASSIVO
 Sujeito passivo do crime de lesão corporal é, em regra, qualquer pessoa viva.
 Nas hipóteses dos art. 129, §§ 1º, IV, e 2º, V, a vítima deve ser mulher grávida. Na figura
descrita no art. 129, §9º, exige-se também sujeito passivo próprio.

INTEGRIDADE CORPORAL OU À SAÚDE DE OUTREM (CAPEZ):


  Entende-se como ofendida a integridade corporal quando há

“[...] alteração anatômica, interna ou externa, do corpo humano, geralmente produzida por
violência física ou mecânica; por exemplo: produzir ferimentos no corpo, amputar
membros, furar os olhos etc., não se exigindo, porém, o derramamento de sangue”.
                       
 A saúde:

“[…] diz respeito ao equilíbrio funcional do organismo, cuja lesão normalmente não
produz alteração anatômica, ou seja, dano, mas apenas perturbação de sua normalidade
funcional que produz ofensa à saúde; por exemplo: ingerir substância que altere o
funcionamento normal do organismo. A saúde mental diz respeito à perturbação de
ordem psíquica (p. ex., choque nervoso decorrente de um susto, estado de
inconsciência, insanidade mental). Ressalve-se que a dor não integra o conceito de lesão
corporal, até porque a sua análise é de índole estritamente subjetiva”.
LESÃO CORPORAL
ELEMENTO SUBJETIVO:
 A lesão corporal é punida a título de dolo, culpa e preterdolo:
 Dolo: art. 129, caput e § 9º;
 Preterdolo: art. 129, §§ 1º, II e IV; 2º, V; e 3º
 Dolo no antecedente e dolo ou culpa no consequente: os demais
incisos dos §§ 1º e 2º; 
 Culpa: § 6º do art. 129 do CP.

CONSUMAÇÃO E TENTATIVA
 Tratando-se de crime material, consuma-se o delito em estudo no
momento em que se produz a efetiva lesão à integridade corporal
ou à saúde da vítima.

 Tentativa X contravenção de vias de fato:


 Tentativa: o agente quer lecionar e por circunstancias alheias a sua
vontade não alcança o resultado;
 Contravenção de vias de fato: o agente age sem intenção de lesionar a
vítima;
CASOS EXCEPCIONAIS
 Intervenção cirúrgica:
 Emergência: estado de necessidade;
 Corretiva ou terapêutica: exercício regular de direito;

 Lesões esportivas: exercício regular de direito – desde que não


haja abuso intencional;

 Estatuto do servidor:
 Art. 41-B, Lei nº 12.299/2010

 Doação de órgãos por pessoa viva:


 Lei 9.434/97 – admite se o doador for capaz, e o faça de forma
gratuita.
 Sem autorização crime no art. 14 da mesma Lei.
LESÕES CORPORAIS DE NATUREZA
GRAVE (ART. 129, § 1º, DO CP)
Incapacidade para as ocupações habituais, por mais de 30 (trinta) dias:

Nesse caso a lesão provocada pelo agente é de tal gravidade que deixa a vítima incapacitada, física ou mentalmente, por
mais de trinta dias para as suas ocupações habituais.

Esse resultado agravador pode sobrevir tanto a título de dolo quanto a título de culpa do agressor.

Entende-se por ocupação habitual qualquer atividade corporal costumeira, tradicional, não necessariamente ligada a
trabalho ou ocupação lucrativa, devendo ser lícita, não importando se moral ou imoral, podendo ser intelectual,
econômica, esportiva etc.

A incapacidade deverá, em regra, ser comprovada por exame médico complementar após decorridos os trinta dias após a
lesão (prazo contado na forma do art. 10 do CP), conforme previsto no art. 168, § 2º,  do CPP.
Perigo de vida:

Nesse caso deve haver, necessariamente, dolo no antecedente (lesão corporal) e culpa no conseqüente (perigo de vida).

Se houver a intenção ou mesmo o agente assumir o risco de matar (ou seja, quer submeter a vítima a perigo de vida), não
sobrevindo este resultado por razões alheias à sua vontade, vindo a vítima apenas a correr perigo de morrer, a hipótese
será de tentativa de homicídio.

O perigo de vida deve ser concretamente constatado e não apenas presumido, necessita de exame pericial detalhado.
LESÕES CORPORAIS DE NATUREZA
GRAVE (ART. 129, § 1º, DO CP)
Debilidade permanente de membro, sentido ou função
 Conforme ensina Luiz Regis Prado:
 Debilidade é o enfraquecimento, a redução ou a diminuição da capacidade funcional.
 Membros são os quatro apêndices do tronco, abrangendo os membros superiores (braço, antebraço, mão) e
inferiores (coxa, perna, pé).
 Sentidos são as faculdades perceptivas do mundo exterior (olfato, audição, visão, tato e paladar).
 Função é a atuação específica ou própria desempenhada por cada órgão, aparelho ou sistema (v.g., função
digestiva, respiratória, secretora,  reprodutora, circulatória, locomotora, sensitiva).

 Debilidade permanente (duradoura) X perpétua: a qualificadora estará presente ainda que a


debilidade seja passível de correção por meio de cirurgia ou uso de prótese.

 No caso de órgãos duplos (olhos, rins, pulmões etc.), a perda de um deles acarreta o reconhecimento
de lesão corporal grave.

Aceleração de parto:

 A lesão corporal qualificada pela aceleração de parto, de natureza preterdolosa.


 Se o agente atuava no sentido de interromper a gravidez com a consequente expulsão do feto:, o seu dolo era o
de aborto.
 Se o feto sobrevive, mesmo após o comportamento do agente dirigido finalisticamente à interrupção da
gravidez, com a sua consequente expulsão, deverá ser responsabilizado pela tentativa de aborto.
LESÕES CORPORAIS DE NATUREZA
GRAVÍSSIMA (ART. 129, § 2º, DO CP)
Incapacidade permanente para o trabalho:
 Existe quando, em decorrência das lesões sofridas, sobrevém à vítima incapacidade duradoura para o
trabalho.
 Não é necessário que a incapacidade seja perpétua, bastando que seja séria o bastante que não permita uma previsão de
tempo para recuperação.

Enfermidade incurável:
 Enfermidade incurável é aquela para qual ainda não há cura.

 No dizer de Capez: “É a doença (do corpo ou da mente) que a ciência médica ainda não conseguiu conter
nem sanar; a moléstia que evolui a despeito do esforço técnico para debelá-la”.

 Não significa, necessariamente, que levará a vítima à morte, pois há muitas doenças que são perfeitamente
controláveis com medicação apesar da medicina não dispor de meios para curá-las.

Perda ou inutilização de membro, sentido ou função (Nucci):

 Perda: implica em destruição ou privação de algum membro (ex.: corte de um braço), sentido (ex.:
aniquilamento dos olhos) ou função (ex.: ablação da bolsa escrotal, impedindo a função reprodutora);

 Inutilização: quer dizer falta de utilidade, ainda que fisicamente esteja presente o membro ou o órgão
humano. Assim, inutilizar um membro seria a perda de movimento da mão ou a impotência para o coito,
embora sem remoção do órgão sexual.
LESÕES CORPORAIS DE NATUREZA
GRAVÍSSIMA (ART. 129, § 2º, DO CP)
Deformidade permanente:

 Deformar: modificar esteticamente a forma anteriormente existente.

 A deformidade deverá modificar de forma visível e grave o corpo da vítima, mesmo que essa visibilidade somente seja
limitada a algumas pessoas.
 Ressalta grande parte da doutrina que devem ser consideradas as condições pessoais da vítima no sentido de averiguar se a
deformidade causa impressão vexatória, condição necessária para que a qualificadora se aperfeiçoe

 Mesmo sendo possível a reparação da deformidade através de procedimento cirúrgico, não se pode exigir que a vítima
se submeta a ele. Contudo, se o fizer, obtendo sucesso na reparação da lesão, a qualificadora não pode ser imputada ao
agressor;

Aborto

 A lesão corporal seguida de aborto é um crime eminentemente preterdoloso; ou seja, exige o dolo no antecedente
(lesão corporal) e culpa no consequente (aborto).

 É necessário que o agente tenha conhecimento do estado de gravidez da vítima.


 Também seja possível a imputação ao agressor quando sua ignorância sobre a gestação seja inescusável (indesculpável).

 Há a possibilidade da lesão corporal sofrida pela gestante funcionar apenas como majorante do crime de aborto, art.
127, CP.
LESÃO CORPORAL
Lesão corporal seguida de morte (art. 129, § 3º, do CP)
 Aqui se trata de morte causada culposamente, quando a intenção do agente era apenas
lesionar a vítima. Deve haver dolo no antecedente (lesão corporal) e culpa no consequente
(morte).
 A hipótese é, portanto, de um crime eminentemente preterdoloso.

LESÃO CORPORAL CULPOSA


 A forma culposa de lesão corporal está tipificada no art. 129, § 6º, do CP, in verbis: “§ 6º.
Se a lesão é culposa: Pena – detenção, de 2 (dois) meses a 1 (um) ano”.
 Lesão corporal culposa cometida na condução de veículo automotor é apenada por lei específica: Código de
Trânsito Brasileiro (Lei nº 9.503-97), que através de seu art. 303 comina a pena de 6 meses a 2 anos de
detenção para o infrator, além de suspensão ou proibição de se obter a permissão ou a habilitação para dirigir
veículo automotor.

LESÕES CORPORAIS DOLOSAS – DIMINUIÇÃO DE PENA


 § 4º. Se o agente comete o crime impelido por motivo de relevante valor social ou moral ou sob o domínio de
violenta emoção, logo em seguida a injusta provocação da vítima, o juiz pode reduzir a pena de um sexto a
um terço.

LESÃO CORPORAL DOLOSA – SUBSTITUIÇÃO DA PENA


 § 5º. O juiz, não sendo graves as lesões, pode ainda substituir a pena de detenção pela de multa:

I – se ocorre qualquer das hipóteses do parágrafo anterior;


II – se as lesões são recíprocas.
LESÃO CORPORAL

AUMENTO DE PENA E PERDÃO JUDICIAL


 Traz o art. 129, dentre outros, os seguintes parágrafos:
 § 7º. Aumenta-se a pena de um terço, se ocorrer qualquer das hipóteses do art. 121, § 4º.
 § 8º. Aplica-se à lesão culposa o disposto no § 5º do art. 121.

Lesão corporal praticada no contexto de violência doméstica


 A presente qualificadora deve incidir, portanto, quando houver pelo menos uma (não
são cumulativas) das seguintes situações:
 for a lesão praticada contra ascendente, descendente, irmão, cônjuge ou companheiro;
 for a lesão praticada contra pessoa com quem o agente conviva ou tenha convivido;
 prevaleça-se o agente de relações domésticas, de coabitação ou de hospitalidade pra praticar a
lesão.

AUMENTO DE PENA NA VIOLÊNCIA DOMÉSTICA

 § 10. Nos casos previstos nos §§ 1º a 3º deste artigo, se as circunstâncias são as


indicadas no § 9º deste artigo, aumenta-se a pena em 1/3 (um terço).
 § 11. Na hipótese do § 9º deste artigo, a pena será aumentada de um terço se o crime
for cometido contra pessoa portadora de deficiência.