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O processo de construção e consolidação do Estado Moderno não teria sido

possível sem a formulação de um discurso – que Foucault chamou de “jurídico-


político” – voltado a justificar a necessidade do Estado e a legitimidade do
monarca absoluto

Esse discurso busca afirmar uma origem benévola do Estado, ocultando todo o
elenco de guerras internas, destruição de culturas locais e assassinatos em massa

Essa naturalização do Estado se trata de uma verdade que interessava aos


príncipes e à nobreza e burguesia a eles associadas

Esse discurso encobriria a continuada violência que o Estado deve exercer para
manter determinada ordem -> Violência tão presente e continuada que, segundo
Foucault, deveria fazer com que víssemos a política não como “paz civil”, mas
como a “guerra continuada por outros meios”
Richard Ashley – The poverty of Neorealism

Apropriando-se dessa perspectiva, Richard Ashley identificou o “estatismo”


como uma das características fundamentais do Neorrealismo

Nas teorias tradicionais, o Estado seria uma entidade pronta e acabada, sem
história, sem contradições e conflitos internos

A definição do Estado como principal ator das RI pressupõe que ele seja “uma
unidade não problemática: uma entidade cuja existência, limites, estruturas
próprias, fatores constituintes, legitimações, interesses e capacidades para
tomada de decisão [sejam] tratados como dados”
A correlação entre o neorrealismo e o estruturalismo pressupõe cinco elementos:

- A premissa de uma realidade objetiva que rejeita a contingência


- O foco nas relações objetivas que estruturam a realidade
- A preocupação em identificar as condições lógicas que afetam o
comportamento
- A autonomia da estrutura em relação às partes que a compõem
- A premissa de que a mudança somente seria possível dentro da própria
estrutura

Para Ashley, a “promessa estruturalista” do neorrealismo se sustentava em um


“sistema solar de erros”, baseado, além do próprio estruturalismo, no:

- Utilitarismo (comportamento utilitário ao Estado)


- Positivismo (modelo das ciências naturais como referencial)
- Estatismo (o Estado como um ator dado e dotado de antecedência ontológica
Para Ashley, o conceito neorrealista de Estado é um “comprometimento
metafísico”, por tratá-lo como uma espécie de dogma

O apego do neorrealista ao Estado faria do seu “estruturalismo” apenas uma crença


no aprisionamento de cada unidade soberana a um sistema rígido dominado pelos
mais fortes

Se o que caracterizaria o sistema internacional é a sua anarquia (independente do


período histórico), levando os Estados a atuarem de forma defensiva e egoísta, a
relação Estado versus anarquia seria insuperável

Diante disso, Ashley afirma que “o estruturalismo se presta maravilhosamente a


ser uma apologia do status quo, uma licença para dominar” (p. 289)
“Do ponto de vista de tal modelo [o de Waltz], a
economização da política internacional só pode significar
o expurgo da política internacional das capacidades
reflexivas que, mesmo limitadas, possibilitam o
conhecimento global e a mudança criativa. Só pode
significar o empobrecimento da imaginação política e da
redução da política internacional a um campo de luta para
o choque estratégico cego da razão técnica contra a razão
técnica a serviço de fins não questionados” (ASHLEY,
1984, p. 279).
Ashley aponta que o neorrealismo seria algo como um fracasso epistemológico

porque simplificaria, ao extremo, complexos processos


histórico-políticos, colaborando pouco para compreender os
acontecimentos internacionais

Ao mesmo tempo, seria um sucesso como instrumento político para validar a atual
divisão mundial do poder, como se ela não fosse questionável ou alterável.

Produção do conhecimento propicia e é, em si, uma prática de poder


Isso mostra como todo saber seria radicalmente perspectivo e, com isso,
parcial no duplo sentido da palavra:

- é parcial porque não dá conta de explicar universalmente o conjunto dos


acontecimentos
- é parcial porque expressa uma visão de mundo própria, moldada por
valores específicos e motivações políticas particulares.

Utilizando as sugestões metodológicas de Derrida, Ashley procurou


identificar a “voz soberana” das teorias hegemônicas a fim de dessacralizá-
las, mostrando sua característica interessada e parcial.
“Vamos brincar com os conceitos e as teses neorrealistas.
Não vamos admirar nem ignorar a cosmologia de erros, mas
sim fraturar seus planetas, quebrá-los ao meio, balançá-los,
procurar por possibilidades que neles possam estar contidas.
Depois, quando já tivermos terminado, não vamos jogar fora
seus dejetos. Ao invés disso, vamos coloca-los em um
frasco, polir o vidro, e colocá-lo lá em cima da estante,
juntamente com outros espécimes de erros passados”
(ASHLEY, 1984, 286).