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Estrutura do

Ato de
Conhecimento
Sonho diurno no escritório, Dominique Teufen, 2011
Tipos de Conhecimento

(1) Conheço o José.


(2) Susana conhece todas as sonatas de Chopin.
(3) Muitos portugueses conhecem Lisboa.
(4) Sei como convencer o José.
(5) Inês sabe tocar todas as sonatas de Chopin.
(6) Muitos portugueses sabem falar inglês. 
(7) Sei que o José é muito teimoso.
(8) Catarina sabe que Chopin era um compositor polaco.
(9) Muitos portugueses sabem que Fernando Pessoa era um poeta.

 Nas afirmações (1)-(3), atribui-se conhecimento por contacto.


 Nas afirmações (4)-(6), atribui-se conhecimento prático.
 Nas afirmações (7)-(9), atribui-se conhecimento proposicional.
Conhecimento a priori e a posteriori

 O conhecimento a posteriori (ou empírico) é aquele que só pode ser obtido através da
experiência. Eis algumas dessas verdades: 
 Existem cisnes negros.
 Os Aliados venceram a II Guerra Mundial.
 A água é H2O.
 O Sol não gira em torno da Terra.

 O conhecimento a priori é o conhecimento de verdades que podemos descobrir sem recorrer à


experiência, como as seguintes:
 123 + 37 = 150
x+y=y+x
 Tudo o que é azul tem cor.
 Se alguns portugueses são poetas, então alguns poetas são portugueses.
Crença e Verdade

 Quando há conhecimento proposicional, temos um determinado sujeito que sabe que uma
determinada proposição é verdadeira.
 O conhecimento proposicional consiste, assim, numa relação entre um sujeito, S, e uma
proposição, P. Para perceber a natureza do conhecimento proposicional, temos de responder a
esta pergunta:

 Em que condições é verdade que S sabe que P?

 Uma das condições do conhecimento é a crença. Para S saber que P, S tem de ter uma certa
atitude em relação a P. Essa atitude é a de crença.
 Uma segunda condição do conhecimento é a verdade. Só poderemos dizer, corretamente, que
S sabe que P se P for uma proposição verdadeira.
Justificação

 Mas nem todas as crenças verdadeiras são conhecimento.


 Quando alguém sabe que algo é verdade, não pode acertar na verdade por uma questão de sorte.
 Só há conhecimento quando o sujeito tem uma justificação adequada para a sua crença. Chegamos
a esta perspetiva:

 S sabe que P se e somente se:


1. S acredita que P;
2. É verdade que P;
3. S tem uma justificação adequada para acreditar que P.

 Esta é a definição tradicional de conhecimento.


 Cada uma das condições indicadas é necessária para o conhecimento. Caso uma delas não seja
satisfeita, não estaremos perante um caso de conhecimento.
 Se todas as condições forem satisfeitas, isso é suficiente para haver conhecimento.
Crítica à definição tradicional

O relógio parado
Mariana olha para o relógio da torre, ficando a acreditar que são 12:45. Ela sabe que o relógio
funcionou bem durante muitas décadas. Só que ignora que este se avariou há alguns dias e que agora
está parado. Mas mesmo um relógio parado indica a hora certa duas vezes por dia. E é isso que
acontece agora: de facto, são 12:45.

O cão esquisito
Pela janela, Sérgio contempla um monte verdejante. Repara num animal que se passeia por lá e que é
tal e qual uma ovelha. Sérgio forma assim a crença de que está uma ovelha no monte. Acontece que
esse animal, na verdade, é um cão muito esquisito. Acontece também que, fora do campo visual de
Sérgio, uma ovelha pasta no monte.

 Casos como estes sugerem que a definição tradicional de conhecimento continua incompleta: nem
todos os casos de crença verdadeira justificada são casos de conhecimento.
Ceticismo e fontes de conhecimento

 De acordo com o ceticismo radical, nenhum ser humano tem verdadeiramente conhecimento, pois
não podemos ter crenças justificadas.

 Mas, nesse caso, como pode o cético justificar a sua perspetiva?...

 Contra o cético radical, pode-se alegar que existem crenças justificadas básicas. Estas justificam
outras crenças, mas elas próprias não estão justificadas por outras crenças.
 Nesse caso, o que as justifica? As duas fontes de conhecimento reconhecidas habitualmente são a
experiência e a intuição racional.

 A experiência pode ser externa ou interna: a primeira é a observação; a experiência interna é a


introspeção.

 Pela intuição racional (ou intelectual), reconhecemos a verdade de certas proposições


simplesmente pensando nelas.
Justificação e erro

 De acordo com o infalibilismo, uma justificação só é adequada se excluir completamente a


possibilidade de erro.
 Ou seja, uma justificação adequada é infalível.
 Assim, se S sabe realmente que P, S tem provas tão fortes de que P é verdadeira que não
poderá estar enganado.

 O falibilismo diz-nos que uma crença adequadamente justificada pode ser falsa.
 Uma justificação adequada não tem de consistir em provas conclusivas, que excluam
completamente a possibilidade de erro.
 Por outras palavras, uma justificação adequada não tem de nos dar a certeza de que a crença
em causa é verdadeira.
 Basta que torne muito provável a verdade dessa crença.
Empirismo e racionalismo

 Para os empiristas, como Hume, a experiência é a fonte de conhecimento principal.


 A intuição racional pode dar-nos algum conhecimento, mas apenas no âmbito da matemática e
da lógica.
 Fora deste âmbito, todo o nosso conhecimento é empírico ou a posteriori.

 Os racionalistas, como Descartes julgam que, pela intuição racional, podemos descobrir verdades
mesmo fora do âmbito da matemática e da lógica.
 Em seu entender, raciocinando com cuidado a partir de intuições racionais, podemos descobrir
– por exemplo – se Deus existe, se temos uma alma distinta do corpo ou se somos capazes de
agir livremente.
 Por outras palavras, julgam que podemos ter conhecimento a priori acerca de questões como
estas.

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