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Jacob Burckhardt e Aby Warburg: da arte

à civilização italiana do Renascimento.


Heloisa Capel
• Entre as obras de Jacob Burckhardt (1818 – 1897) e
Aby Warburg (1866 – 1929) há um campo de relações
que se, observado, pode auxiliar estudos sobre a arte
italiana do Renascimento.
• Para Warburg:

• - J.B. representou a identificação do historiador com


uma época histórica, e não seria possível pensar a
Renascença (como bloco unitário) sem os estudos de
Burckhardt.
• -O método de Burckhardt parecia-lhe exemplar na
organização de fatos singulares de todos os tipos de
fontes para delinear o quadro do Renascimento
italiano.
Aby Warburg (pequena biografia acadêmica):

• Estudou na Universidade de Bonn. Passou seis meses de 1889 em


Florença, trabalhando com um historiador da arte (August
Shmarsow – 1853 -1936), fundador de um Instituto em Florença.
Ele dizia que era:(Hamburguês de coração, judeu de sangue, de
alma florentina).

• Terminou seus estudos em Estrasburgo, onde terminou seus estudos


apresentando a tese sobre as pinturas mitológicas de Sandro
Boticelli: O Nascimento de Vênus e a Primavera de Sandro
Boticelli (publicada em 1893). Antes da publicação, Warburg envia
o trabalho a Burckhardt que lhe responde numa carta (dez, 1892):
ler no texto, página 128.

• Ao fazer estas observações, o historiador da Basiléia atentava para


o esforço de Warburg em inserir a obra de Boticelli na cultura
humanística florentina da época de Lorenzo de Médici.
Warburg e Burckhardt

• Warburg conhecia os trabalhos de Burckhardt


compreendia que a história da arte proposta por
Burckhardt era, como ele mesmo dizia:

• Um estudo sobre
os monumentos segundo seu conteúdo
artístico e as condições que lhes propiciaram.
• No volume sobre a arquitetura renascentista,
Burckhardt começa a colocar em prática o que era sua
idéia desde o início: fazer um amplo trabalho dedicado
à arte do Renascimento. Ele diz algo que torna-se
exemplar para Warburg:

• A arquitetura italiana é substancialmente


condicionada pela mentalidade individual do
comitente e do artista, que aqui se desenvolve muito
antes que em outros lugares.

• Burckhardt já apontava para a importância na relação


entre comitente e artista como meio adequado de
apreciação cultural do fenômeno artístico.

[1] BURCKHARDT, J. A Cultura do Renascimento na Itália.


Em outra ocasião, ele esclarece qual o lugar da arte para a história:

• Nós sentimos a arte como um fenômeno histórico de primeira importância, como uma
potência altamente ativa em nossa vida. Ela apresenta suficientemente aspectos tangíveis
que permitem apreendê-la: suas manifestações monumentais estão estreitamente ligadas à
história dos povos, das religiões, das dinastias e das civilizações. Sua dimensão técnica é
indissociável de todas as técnicas do mundo.

• Ele defende uma autonomia do estudo da arte em relação ao conhecimento histórico, pois
tem elementos específicos. Defende o domínio arqueológico, a análise extensa das obras
de arte, o conhecimento dos artistas, sua biografia, seus escritos para embasar o estudo
histórico-artístico. Isto deve ser feito de forma interligada às demais potências históricas,
ao conceber a história da arte como tangenciando as várias manifestações de vida dos
povos.

• No manuscrito A Pintura Segundo os Gêneros, J.B. organizou a pintura italiana não


segundo gêneros preceptísticos[1], mas concebido como função de uma obra de arte em
relação a um determinado contexto sócio-cultural.

• Assim, J.B. organizava o universo pictórico renascentista basicamente a partir de dois


elementos: a destinação e o conteúdo da obra.

[1] Junção de normas e preceitos teóricos.
• Warburg faz algo similar quando co-relaciona as pinturas mitológicas
de S. Botticelli com as idéias da literatura poética e teorias estéticas da
época, para esclarecer quais os elementos antigos interessaram ao século
XV.

• Assim, Warburg compõe, partindo das pinturas de Boticelli, uma ligação


entre o artista e o universo intelectual de onde surge a idéia e a
encomenda da obra.

• Ele parte das obras mitológicas de Botticelli para desvendar o entorno


cultural que torna possível tais obras, o círculo erudito em torno de
Lorenço de Médici. O resultado é uma colaboração entre o pintor e seu
conselheiro humanista. Dessa colaboração as imagens mentais da
antiguidade clássica são transmitidas de poeta a pintor.
Ex. Sandro Botticelli. O Nascimento de Vênus. 1484, Galeria Ufizzi, Florença
• Os manuscritos de J.B. publicados após sua morte, confirmam
aquilo que o autor dizia sobre o seu legado: a arte segundo as
tarefas, eis o meu legado. Tarefa é aqui entendida como
encomenda, seja exterior ou individual. A origem das comitências
o que se exigia na devoção doméstica, no culto público, o gosto
do colecionismo. Ele queria tirar os artistas dos espaços de
museu e projetá-los em seu espaço de ação, em seu ambiente, ao
lado dos comitentes, dos colecionadores, imergir a produção
artística em seu mundo circundante para compreender a arte do
Renascimento em meio ao universo concreto que o produziu. Há,
portanto, nessa perspectiva, uma ligação entre a forma e a
função da arte.
O Retrato Pictórico

• O retrato pictórico adquire importância devido à


afirmação do mundo moderno. Retratar era reproduzir
os traços físicos de uma pessoa e conferir ao
personagem, de maneira livre, uma elevação de caráter
individual. Há um jogo entre semelhança e idealização
entre os personagens envolvidos: o comitente, o
artista, o retratado.

• Esta hipótese de J.B. é retrabalhada por Warburg, num


ensaio de 1902. Ex.
Domenico Ghirlandaio. Confirmação da Regra da Ordem de São Francisco ao Papa Honório
III. Afresco. 1480 – 1486. Capela Sasseti. Igreja de Santa Trinitá. Florença.
• O afresco de Domenico Ghirlandaio é o testemunho figurativo de
um contexto sócio-cultural centrado no ambiente de Lorenzo de
Medici. É das relações entre comitente e artista (relações
recíprocas de impulso, de freio) que o historiador mergulha o
fenômeno artístico no campo da história da cultura.

• É importante dizer que tanto Burckhardt, quanto Warburg,


buscaram a conexão do artista com o fundo social, poético e
humanístico, porém sempre a partir de um contato
individualizado, pesquisado caso a caso, e não a partir de uma
perspectiva de caráter geral ou de uma teoria de ligação entre
artes plásticas e literatura. Warburg queria tocar os meandros da
criação artística no Renascimento com estudos de caso, partindo
de uma ou outra obra individual para mergulhar no amplo
ambiente cultural que a gerou.

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