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Jacob Burckhardt e o

Renascimento Italiano

Heloisa Capel
 Nasceu em 1818 na Basiléia.[1]

 Pertenceu a uma das famílias mais conhecidas da Basiléia.


O pai era Pastor, erudito, escreveu sobre história da cidade.
Aos 17 anos Jacob começou a seguir os passos do pai,
estudou teologia e iniciou pesquisas sobre o humanista
suíço Glareanus[2].

 Estudou na Universidade de Berlim, onde freqüentou aulas


de história antiga, história da arquitetura e língua árabe.
Assistiu seminários do maior historiador vivo de seu tempo:
Leopold Von Ranke,[3] para quem escreveu trabalhos sobre
Carlos Martel. Burckhardt o admirava como historiador, e
chegou até a pensar em seguir carreira como medievalista,
mas decidiu-se por algo totalmente diverso a Ranke e à
época medieval: dedicou-se a fazer um outro tipo de história
e a tomar como tema o renascimento.


[1] 1818- 1897. Um dos maiores historiadores do século XIX. Nasceu no
mesmo ano que Karl Marx e pertenceu a uma das famílias mais conhecidas
da Basiléia.
 [2] Henricus Glareanus (1488-1563): monge, teórico, poeta suíço humanista.
 [3] Leopold Von Ranke (1795 – 1886) : história objetiva, narrativa, “científica”.
 A virada se deu por suas viagens à Itália a partir de
1837 e a amizade com Franz Kluger[1].

 De Kluger, Burckhardt absorveu a idéia de que a arte


era uma expressão fundamental para o entendimento
histórico, além da idéia de que a Itália teve um papel
fundamental na passagem da Idade Média para os
tempos modernos. Kluger escreveu sobre ele (ler
página 3).


[1] Entre junho e setembro de 1847, J. B. trabalhou como assistente de seu ex-
professor, Franz Kugler (1808-1858) no estudo sobre história da arte. Kluger era
um acadêmico pouco convencional e paralelamente ao estudo de história da arte,
era compositor e escrevia peças de teatro. Ver maiores detalhes desta influência
no artigo: Fernandes, Cássio da Silva. As Contribuições de Jacob Burckhardt ao
Manual de História da Arte de Franz Kluger (1848). Rev. Bras. Hist. Vol.25 no.49
São Paulo Jan/Jun 2005. Disponível em http://www.scielo.br
Obras
 Publicou A Era de Constantino, o Grande (1853). Obra que trata
do envelhecimento da cultura clássica, a ascensão do
supramundano no século IV.

 O Cicerone (1855): guia dos tesouros da arte italiana. Obra em


que o autor acentuou o “realismo” e o “naturalismo” do
Renascimento (Ghiberti e Donatello), além do individualismo.

 1855 – Convidado para assumir a cátedra de arquitetura e


história do Politécnico de Zurique. Ministrou cursos sobre o
Renascimento e escreveu sua obra mais famosa: A Cultura do
Renascimento na Itália (1860).
 O objetivo das obras não era de contar uma história, mas de retratar
uma época com “cortes transversais”, enfatizando o que era recorrente,
constante e típico. Assim, as obras omitiram o que não poderia ser
entretecido no todo, como a propriedade e o comércio no trabalho sobre
Constantino que foi apresentado como uma série de estudos.

 Ou mesmo, com a obra sobre o Renascimento, que intitulou de “ensaio”,


omitiu a vida econômica, como a organização das corporações e o
capitalismo comercial.

 A partir daí, J.B. passou a viver como professor, dando aulas de história e
de história da arte durante a semana e nos finais de semana. Depois
disso, ele publicou pouco, excetuando-se a Arquitetura do Renascimento
na Itália (1867) e outros trabalhos foram redigidos em forma de
anotações. Depois de sua morte, 1897, é que o restante de seus estudos
foram publicados:

 1898 – Rubens, Ensaios sobre a História da Arte na Itália, História


Cultural da Grécia.
 1905 – Reflexões sobre a História Mundial
 1929 – Juízos acerca da História e dos Historiadores.
Concepção de
História de
Jacob
Burckhardt
 História como arte.

 Enquanto o positivismo via a história como uma “ciência” e a


atividade do historiador como uma coleta de fatos retirados dos
documentos e o relato objetivo do que “de fato acontecera”,
Burckhardt via a história como uma arte, uma modalidade de
literatura imaginativa, aparentada à poesia, “uma visão integrada
do ponto de vista da história cultural”. O que ele entendia por
“história cultural”? A título de aproximação, ele parecia usar a
expressão de forma ambígua: de um lado, compreendia cultura
num sentido restrito, referindo-se às artes, e de outro, num
sentido mais amplo, para definir “uma cultura” de um tempo. Essa
ambigüidade é reveladora, pois mostra o papel central das artes
na visão de mundo de Burckhardt e em sua produção
historiográfica.
 História como conhecimento de um
passado seletivo.

 Queria escrever para leitores pensantes de


todas as classes e concentrar-se no que
julgava interessante no passado, ao invés de
procurar abordá-lo de forma exaustiva. Não
amontoava os meros fatos, ou fatos externos,
mas somente aqueles que caracterizavam
uma idéia ou marcavam uma época.

 -Era cético, relativista e intuitivo.


 História como esboço de verossimilhança.

 Era subjetivo. Quando acusado de subjetividade no


estudo sobre A Era de Constantino, o autor declarou
que em “em obras de história geral, há espaço para
diferenças de opinião quanto aos objetivos e
premissas fundamentais, de modo que um mesmo fato
pode, por exemplo, afigurar-se essencial e importante
a um escritor, mas nada mais do que mero entulho
sem qualquer interesse a outro”. O que oferecia ao
leitor era uma “interpretação, uma perspectiva, uma
visão, um esboço do todo”, uma visão integrada do
ponto de vista da história cultural.
 Esboço não foi empregado por modéstia, mas
para sugerir a impossibilidade de se chegar a
conclusões definitivas acerca do passado.
Como ele mesmo disse acerca do seu estudo
sobre o renascimento italiano: “os contornos
espirituais de uma época cultural oferecem,
talvez, a cada observador, uma imagem
diferente, e os mesmos estudos poderiam, nas
mãos de outros, facilmente experimentar
tratamento e conclusões totalmente diversos”.
 - História como resultado de metáforas
visuais. História como pintura.

 Sua obra está cheia de metáforas visuais


(pintura, escultura e arquitetura). O que as
imagens revelam é a distância que separa
Burckhardt da tradição narrativista da história.
Onde outros pretenderam contar uma história,
Burckhardt teve por objetivo pintar o retrato de
uma era.
 História como conhecimento assistemático.

 Criticou a filosofia da história. Para ele, não havia


qualquer filosofia na história, pois “a história coordena
e a filosofia subordina, sendo, pois, a-histórica”. Em
outras palavras, a história é assistemática, os
sistemas, a-históricos. Esta posição se distancia dos
empiristas britânicos, pois J. B. era filosoficamente
letrado: estava familiarizado com Hegel, com
Shopenhauer, bem como com as idéias do jovem
Nietzsche, que assistia suas aulas.
A Cultura do Renascimento na Itália
considerações gerais
Princípios gerais
 Nos estudos sobre o Renascimento o autor identificou a organização em
torno de três poderes (Estado, religião e cultura) em interação recíproca.
A cultura seria o reino do espontâneo, incluindo-se a tecnologia, o
relacionamento social, as artes, as literaturas e as ciências. Segundo ele:

 Existem épocas primordialmente políticas, épocas primordialmente


religiosas e, finalmente, épocas que parecem viver em função dos
grandes propósitos da cultura. O Egito antigo, o México e o Peru são
exemplos de culturas determinadas pelo Estado. O mundo islâmico pela
religião, ao passo que a polis grega revela o Estado determinado pela
cultura.

O Renascimento é o exemplo de uma época que vive em função dos


grandes propósitos da cultura.
 Partes do Livro:

 Introdução sobre a política : efeito da cultura sobre a política,


concentrando-se na ascensão de uma concepção nova e
autoconsciente de Estado. Isso pode ser evidenciado pela
preocupação florentina e veneziana em coletar dados, que
mais tarde seriam denominados de estatísticos.

 Conclusão: efeito da cultura sobre a religião, caracterizando


as atitudes religiosas dos italianos renascentistas como
subjetivas e mundanas. Este seria o momento da ascensão
do mundano e do pagão.

 Entre eles, os quatro segmentos acerca da cultura do


Renascimento: a terceira parte, convencional, fala sobre o
redespertar da antiguidade, a quinta parte, sobre
sociabilidades e festividades, mostra a visão ampla de cultura
de Burckhardt, incluindo as artes, a literatura, a música e a
língua, a etiqueta, o asseio, as festividades sagradas e
profanas, etc. Nas outras duas partes (O Desenvolvimento do
Indivíduo e O Descobrimento do Mundo e do Homem) estão
os segmentos mais célebres do livro.
 “Na Idade Média, o homem reconhecia-se a si
próprio apenas enquanto raça, povo,
corporação, família, ou sob qualquer outra das
demais formas do coletivo. Na Itália, pela
primeira vez, tal véu dispersa-se ao vento;
desperta ali uma contemplação e um
tratamento objetivo do Estado e de todas as
coisas deste mundo. Paralelamente a isso, no
entanto, ergue-se, também, na plenitude de
seus poderes, o subjetivo: o homem torna-se
um indivíduo espiritual e reconhece-se
enquanto tal”.
Influências e Ressonâncias
 Vidas dos Artistas (1550) – Giorgio Vasari (uma das fontes de
Burckhardt). A idéia básica do redespertar da Antiguidade foi
formulada desde Petrarca até Vasari, quem fez uso do
substantivo abstrato Renascimento.

 Ensaio sobre as Maneiras (1756) – Voltaire aproxima-se de J. B.


no aspecto da história sociocultural, já que trata de literatura,
erudição, sistemas de valores (cavalaria) e até mesmo toalhas de
mesa e maneiras à mesa. Fala do “espírito, do gênio de uma
época”, (Zeitgeist) de um povo, das leis, da cavalaria, do
catolicismo, etc. Esse conceito pode ser encontrado em autores
contemporâneos seus, como Montesquieu, William Robertson e
David Hume, ou mesmo, no final do século XVIII, Herder, Hegel.
 O Reflorescimento da Itália (1775) – Saverio Bettinelli – trata do
ressurgimento da Itália nos campos da erudição, da arte e da vida
social posteriormente ao ano 1000.

 O autor considera, ainda, que há influências de Arthur


Shopenhauer (1788 - 1860) na preocupação dos pólos objetivo e
subjetivo em A Cultura do Renascimento na Itália, pois quando
fala do caráter sistemático da ciência que subordina, em oposição
do caráter assistemático da história que coordena, estava dando
eco à obra de Shopenhauer, O Mundo como Vontade e
Representação.

 O Redespertar da Antiguidade Clássica (1859) – Georg Voigt –


descreve a Idade Média como um período de “tendência
corporativa” e o Renascimento como período da “individualidade
e seus direitos”.

 História da França (1855) – Jules Michelet caracterizou o período


como de “Descoberta do mundo, descoberta do homem”.
Recepção da Obra
 O Outono da Idade Média (1919) – Johan Huizinga é uma réplica
a Burckhardt, enfatizando a temática da decadência ao invés do
Renascimento, e as culturas de Flandres e da França ao invés da
italiana. Ao mesmo tempo, o livro pinta o retrato de uma época,
ao estilo de Burckhardt: é uma obra da imaginação, da intuição,
da visão.

 Aby Warburg (1886-1929), o estudioso alemão fundador da


escola de Hamburgo, escreveu ensaios curtos sobre o a Itália
renascentista, miniaturas (Deus só se encontra no detalhe) e
partiu do ponto em que Burckhardt havia parado. O mesmo fez
seu amigo, E. Cassirer, que adotou a mesma estrutura de
Burckhardt quando tratou do Indivíduo e o Cosmos na Filosofia
Renascentista (1927).
 Vários outros historiadores passaram a vida
respondendo a questões colocadas por J.
Burckhardt. Sua visão pessimista sobre o
presente e o futuro, presentes em cartas
publicadas postumamente, fazem deste
historiador, um “profeta da era de massas”.
Sua preocupação com padrões de cultura
revelou-se atraente para antropólogos e
historiadores socioculturais. Sua ênfase na
subjetividade da escrita da história e no
relativismo cultural, posição herética em seu
tempo, é compartilhada, hoje, por muitos

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