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DANIEL JONAS E

DOIS FANTASMAS
INQUILINOS:
FERNANDO PESSOA
E JORGE DE SENA
Prof. Roberto Bezerra de Menezes (UFMG/CAPES)
Obtive em velhos livros nova luz.
DANIEL JONAS
Poesia

O corpo está com o rei, 1997


Moça formosa, lençóis de veludo, 2002
Os fantasmas inquilinos, 2005
Sonótono, 2007
Tradução
Passageiro frequente, 2013
Nó – sonetos, 2014
John Milton
Bisonte, 2016
William Shakespeare
Canícula, 2017
Luigi Pirandello
Oblívio, 2017
J.-K. Huysmans
Cães de chuva, 2021
Ben Lerner
John Berryman
Charles Dickens
Teatro Malcolm Lowry
T. S. Eliot
Nenhures, 2008 Henry James
William Wordsworth
A minha geração
Prefácio
Tal com acontece com todos os poetas fortes,
especialmente com força suficiente para nos
sugerirem a desconfiança de “clássicos”, não é
necessário ler-se realmente Wordsworth para já o ter
lido. Na verdade, Wordsworth vive sob a forma de
uma assombração permanente verificável na obra de
muitos poetas, nem por isso menores, que justamente
poderíamos considerar agonizarem sob a ameaça do
seu ascendente. Esta descendência, directa ou
indirecta, é localizada em atalhos mais ou menos
conspícuos. Um desses atalhos chama-se, ortónima e
heteronimamente, Fernando Pessoa. O sintoma mais
agressivo deste mal-estar é a balada lírica de Pessoa
“Ela canta pobre ceifeira”, a qual explicitamente
acusa as maleitas da balada wordsworthiana “The
Solitary Reaper”. Mas no que em Wordsworth é
acerca da vida sã de cariz, dir-se-ia apolíneo, em
Pessoa é um lamento de toada fúnebre, porventura
Prefácio
A experiência Wordsworth do leitor comum é de certo modo
um reflexo desta condição truncada, quando não aflita, de
experiência poética. É provável que já andássemos a ler
Wordsworth há algum tempo sem o sabermos, seja por via dos
molestados e sofridos poetas posteriores que tentam abafar a
inapelável imposição da sua dicção, seja cada vez que
suspiramos coisas como “O Filho é o Pai do Homem”,
“Matamos p’ra dissecar”, “O que é que o Homem fez do
Homem”. Quando, por esta via, declamamos William
Wordsworth sem o sabermos, estamos, à semelhança de poetas
posteriores, a rejeitar o pai romântico fundador, condenando-o
ao olvido das suas próprias frases, resolvendo numa curiosa e
antitética homenagem os nossos problemas com a sua força
bloqueadora.
de Os fantasmas inquilinos
Os monumentos existentes formam uma ordem ideal
entre si, e esta só se modifica pelo aparecimento de
uma nova (realmente nova) obra entre eles. A ordem
existente é completa antes que a nova obra apareça;
para que a ordem persista após a introdução da
novidade, a totalidade da ordem existente deve ser, se
jamais o foi sequer levemente, alterada: e desse modo
as relações, proporções, valores de cada obra de arte
rumo ao todo são reajustados; e aí reside a harmonia
entre o antigo e o novo. Quem quer que haja aceito
essa ideia de ordem, da forma da literatura européia
ou inglesa, não julgará absurdo que o passado deva
ser modificado pelo presente tanto quanto o presente
esteja orientado pelo passado. E o poeta que disso
está ciente terá consciência de grandes dificuldades e
responsabilidades. (ELIOT, 1989, p. 39-40)
de Os fantasmas inquilinos
No vocabulário crítico, a palavra precursor é
indispensável, mas seria preciso purificá-la de toda
conotação de polêmica ou rivalidade. O fato é que
cada escritor cria seus precursores. Seu trabalho
modifica nossa concepção do passado, assim como
há de modificar o futuro. (BORGES, 2007, p . 130)
de Bisonte
de Sonótono
de Poemas escolhidos (Wordsworth)
Trad. Daniel Jonas
[...] desde a Presença, quase nenhuma obra
poética deixa de reflectir a transformação radical
que Fernando Pessoa operou na moderna poesia
portuguesa. Dir-se-ia que esse novo discurso
poético constituiu uma desnudação da linguagem
porque entre a consciência e a palavra se rasgaram
novas perspectivas da criação poética. (ROSA,
1991, p. 41)
de Sonótono
de Nó
o poeta retoma a tese principal da
“Autopsicografia” de Fernando Pessoa, desta
vez aplicada à poesia e não ao poeta – o soneto é
um “fingidor”, com uma acepção moral
negativa que o poema de Pessoa não tem. Aqui,
o soneto finge, mente, e a poesia é um “mau
espelho” dos sentimentos humanos. [...] O poeta
pede ao soneto que seja um bom espelho, mas
sabe que, apesar do virtuosismo das rimas, do
esquema rimático, de toda a técnica a que
recorre no soneto, a poesia falha. A consciência
desse engano e a irreversibilidade dessa situação
causam uma certa melancolia, de que a
interjeição onomatopaica “Argh” dá conta.
(MEIRIM, 2018, s.p.)
de Nó
Alberto Caeiro

II
O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto, Creio no Mundo como num malmequer,
E eu sei dar por isso muito bem... Porque o vejo. Mas não penso nele
Sei ter o pasmo essencial Porque pensar é não compreender...
Que tem uma criança se, ao nascer, O Mundo não se fez para pensarmos nele
Reparasse que nascera deveras... (Pensar é estar doente dos olhos)
Sinto-me nascido a cada momento Mas para olharmos para ele e estarmos de
Para a eterna novidade do Mundo... acordo…
   
Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o
que ela é,
Em entrevista a Diogo Vaz Pinto a propósito do
lançamento de Bisonte

A minha ansiedade com o verso livre e com um certo


alvarodocampismo na minha poesia relaciona-se com esta
ânsia pelo convite pernicioso que o verso livre apresenta,
enquanto Satã mostrando um fruto apetecível ao
formalismo edénico dos nus adâmicos. Na realidade, e
para estender a metáfora, diria haver muita parra e pouca
uva debaixo da grande maioria do versilibrismo, eu
incluído. É esse o meu receio no que toca à minha poesia
formada da costela de Álvaro de Campos. Como avançar
léguas métricas sem perder o estilo? (JONAS, 2016, s.p.).
de Bisonte
Álvaro de Campos Há sem dúvida quem ame o infinito,
O que há em mim é sobretudo cansaço — Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada —
O que há em mim é sobretudo cansaço — Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Não disto nem daquilo, Porque eu amo infinitamente o finito,
Nem sequer de tudo ou de nada: Porque eu desejo impossivelmente o
Cansaço assim mesmo, ele mesmo, possível,
Cansaço. Porque quero tudo, ou um pouco mais, se
puder ser,
A subtileza das sensações inúteis, Ou até se não puder ser...
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém, E o resultado?
Essas coisas todas — Para eles a vida vivida ou sonhada,
Essas e o que falta nelas eternamente —; Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Tudo isso faz um cansaço, Para eles a média entre tudo e nada, isto é,
Este cansaço, isto...
Cansaço. Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo,
cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Álvaro de Campos Queriam-me casado, fútil, quotidiano e
LISBON REVISITED (1923) tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de
Não: não quero nada qualquer coisa?
Já disse que não quero nada. Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a
Não me venham com conclusões! vontade.
A única conclusão é morrer. Assim, como sou, tenham paciência!
Não me tragam estéticas! Vão para o diabo sem mim,
Não me falem em moral! Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Tirem-me daqui a metafísica! Para que havemos de ir juntos?
Não me apregoem sistemas completos, não me Não me peguem no braço!
enfileirem conquistas Não gosto que me peguem no braço. Quero ser
Das ciências (das ciências, Deus meu, das sozinho.
ciências!) — Já disse que sou sozinho!
Das ciências, das artes, da civilização Ah, que maçada quererem que eu seja de
moderna! companhia!
Que mal fiz eu aos deuses todos? Ó céu azul — o mesmo da minha infância —
Se têm a verdade, guardem-na! Eterna verdade vazia e perfeita!
Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro Ó macio Tejo ancestral e mudo,
da técnica. Pequena verdade onde o céu se reflecte!
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê- Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Fernando Pessoa Livros são papéis pintados com tinta.
LIBERDADE Estudar é uma coisa em que está indistinta
                A distinção entre nada e coisa nenhuma.
Ai que prazer Quanto é melhor, quanto há bruma,
Não cumprir um dever, Esperar por D. Sebastião,
Ter um livro para ler Quer venha ou não!
E não o fazer! Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Ler é maçada, Mas o melhor do mundo são as crianças,
Estudar é nada. Flores, música, o luar, e o sol, que peca
O sol doira Só quando, em vez de criar, seca.
Sem literatura. O mais do que isto
O rio corre, bem ou mal, É Jesus Cristo,
Sem edição original. Que não sabia nada de finanças
E a brisa, essa, Nem consta que tivesse biblioteca...
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa...
de Bisonte
Francisco de Goya, El tres de
Mayo de 1808 ou Los
fusilamientos de Príncipe Pío
(1814)
Óleo sobre tela, 268 × 347
de Metamorfoses

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