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A Umbanda de Vovó

Catarina começa na
cozinha.
 
Tenda de Umbanda Vovó Catarina de Angola
Yá - Eli
A cozinha de axé
 Começo essa aula pensando por onde ia começar, li alguns
livros, visitei alguns sites, mas resolvi contar como Vovó
Catarina gostaria que eu contasse a vocês.
 E comecei a lembrar lá atrás, bem no comecinho de todas as
vezes que acabavam as giras “nem eram giras”, só nos
reuníamos 4, 5 pessoas, e a Mãe pequena, que na época era só
minha cunhada e minha amiga, sentava-se comigo e dizia
como Vó Catarina queria as coisas na cozinha.
 Eita nostalgia boa........ hoje a cozinha da Vó esta ficando
pronta, e não imaginava que junto viria a realização do sonho
da minha família, que é todo o espaço de lazer.
Mas vamos ao que
interessa
 
A cozinha de axé
 Vó Catarina frisa muito, e recentemente Pai Mané nos
puxou a orelha também, que a cozinha não pode ser
entendida unicamente enquanto espaço físico, onde os
alimentos são transformados. Mas também, enquanto um
poderoso modelo para pensarmos os valores, símbolos,
receitas e técnicas rituais das comunidades de terreiro.
 Ouvindo o que meus filhos de santo falam ao final de todos os
trabalhos comecei a perceber que a cozinha expõe não só pratos
e técnicas de preparo, referentes a uma comunidade ou
nacionalidade, mas relações sociais e um conjunto de valores
base para a formação de identidades.
 Comecei a lembrar de Vovó Catarina dizendo que enquanto
escrava as sobras da casa grande era o que resultava uma
deliciosa feijoada, que comiam o que plantavam e as sobras das
colheitas viravam deliciosas sopas.....só ressaltou ainda mais o
que vemos e aprendemos sobre as relações sociais , sentavam-se
ao redor de uma fogueira para comer e se aquecer nas noites
frias, depois dançavam e louvavam aos Orixás.
 Hoje entendo o que Vovó quer dizer quando nos aconselha a
designar mais de um na cozinha de santo, e a importância de
um ajeum bem feito.
 Se pararmos pra pensar o tempo desprendido nas dependências
da cozinha durante as atividades religiosas é extremamente
intenso, mas, sobretudo, porque pra Vovó e creio que pra
qualquer outra entidade alimentar-se é muito importante.
 Hoje fazendo esta aula percebo isso...

Pensem comigo!!!!
 Em dias festivos a cozinha é “um dos lugares mais
movimentados da casa, o trabalho na cozinha não para,
tamanha sua responsabilidade em preparar as comidas que
serão oferecidas aos Orixás, assim como as refeições
destinadas aos filhos da casa e também aos visitantes que
chegam para as festas e giras”. Alguns rituais demandam
menor tempo de trabalho na cozinha, mas ainda que reduzido,
este trabalho sempre existirá. Tempo e axé desprendem da
cozinha, “sem dúvida, no terreiro de Umbanda ou no
Candomblé tudo começa na cozinha e nada pode ser
comparado à energia que emana das oferendas aos orixás”.
Historicamente, na maioria
dos terreiros a mulher
comanda a cozinha.
 
Mas temos que pensar que com a evolução isso mudou e a Religião acompanha essa evolução.
 A própria estrutura hierárquica do culto destina um posto de
prestígio e grande responsabilidade dentro da cozinha. Às
mulheres mais habilidosas é dado o cargo de Yabassê, a notável
encarregada pela comida ritual. Um cargo concedido
unicamente a mulheres, pois se considera o espaço da cozinha
como dimensão simbolicamente pertencente e atrelada ao poder
feminino (GENTE ISSO MUDOU, PELO MENOS AQUI NO
NOSSO TERREIRO KKKKK).
 A cozinha é domínio santo das Yabás (feminino, mulheres). Em
casas mais ortodoxas, a entrada de homens nas dependências da
cozinha de axé é proibida. Em outras, homens devem pedir Agô
(licença) antes de entrar, só entrando se autorizados.
 O poder da panela é feminino, está nas mãos das mulheres. São
elas as responsáveis por gerir o espaço da cozinha, por
alimentar e servir filhos, amigos do axé e Orixás. Um trabalho
que dentro das relações interpessoais travadas nos terreiros não
é visto com olhares depreciativos.
 As Yabassês são preparadas para deter um vasto conhecimento
ritual, prático e artesanal que é vital para a manutenção do
culto. Exercem um mister de grandes proporções para a
comunidade e as divindades. É sabido nas comunidades de
terreiro que os Orixás comem pela boca dos seres humanos:
assim, quando alimentamos as pessoas estamos cultuando os
nossos deuses.
Cozinhar é cultuar, é revitalizar
antepassados e orixás. Sem a
cozinha não há Orixá.
 
 Uma das coisas que os pretos velhos nos ensinou é:

 a organização dos utensílios da cozinha e a cozinha em si.


 e as transformações que os alimentos sofrem ao serem
manuseados e preparados.

 HAJA VISTA A IMPORTÂNCIA DESSAS DIMENSÕES


PARA A FORMAÇÃO DOS FILHOS DE SANTO E DO
BOM ANDAMENTO DOS RITUAIS.
 A organização da base material de produção dos alimentos,
seguida pelas transformações e preparo da alimentação,
evidenciam o cuidado, a dedicação, as regras e hierarquias,
bem como a estética e a ética que compõem os rituais
religiosos dentro do terreiro. Sendo importante adentrar nessas
dimensões para a compreensão da cozinha de axé e das
práticas de culto ao Orixá.
Por dentro da Cozinha
 
 A variedade de pratos e sabores produzidos na cozinha de axé
é acompanhada por uma variedade de materiais e utensílios
que proporcionam o preparo e a transformação dos alimentos.
Na cozinha dos terreiros vamos encontrar grande quantidade
de materiais de trabalho, tanto para o preparo da comida de
axé quanto para o preparo da comida da comunidade e do
público convidado para os festejos. Além de garfos, facas,
colheres, pratos de cerâmica e vidro (familiares às cozinhas
das camadas médias urbanas), encontramos na cozinha dos
terreiros materiais artesanais – em madeira, barro, ferro, vidro
e ágata – destinados unicamente ao preparo da comida ritual e
aos iniciados.
Em madeira encontramos:
 gamelas, facas, colheres
e pilões.
Em barro encontramos :
 pratos,copos,
quartinhas, alguidares e
vasos.
Em ágata encontramos:
 Sobretudo pratos,
bacias, tijelas e canecas.
 Pratos e vasilhas de louça branca também compõe o repertório
de utensílios destinados aos Orixás, em conjunto com os
objetos artesanais.
Outros

Cestos
Cuia de coco

Potes para temperos variados

Panela de cobre Peneiras Ralador


Ralador de coco
Moedor de café
Moedor de carne

Chaleira de ferro Porrão Moringa


 Toda essa variedade convive em sintonia e equilíbrio dentro de
um sistema bem articulado de ideias e práticas – sem que se
percam de vista conflitos, sobreposições e diferenças. Por
detrás do manuseio de cada objeto utilizado na cozinha
existem fundamentos e justificativas, amparadas por narrativas
míticas, características individualizantes do Orixá e regras
bem estruturadas de etiqueta.
 Os utensílios de cozinha não atendem a
questões unicamente funcionais e
pragmáticas, sendo constituídos,
também, por uma lógica de classificação
e uso que é marcadamente simbólica. “A
dinâmica de comer e beber na Umbanda
e Candomblé transcende a ação
biológica e se constitui na principal
maneira de renovar e estabelecer o axé”
Assim, o vasto conhecimento das
comunidades de axé alinhavam
significados funcionais e simbólicos
para cada utensílio da cozinha. Trata-
se de uma organização e disposição
de recursos marcadamente prática e
simbólica.
 As comidas destinadas a Orixás funfun, por exemplo – Orixás
brancos relacionados à criação do universo e da humanidade,
como Oxalá, Yemonjá, Obatalá e Ori – devem ser servidos
sempre em louças brancas.
 Orixás com características quentes e dinâmicas como Exu,
Ogum, Oxossi, Omolu, Oyá e Ewá, são servidos em recipientes
de barro.
 Estaclassificação geral, como todas as
dimensões do Candomblé, não é absoluta e
nem irreversível. Ainda que os integrantes da
comunidade de terreiro tenham sempre a mão
esquemas gerais de organização, distribuição e
uso de utensílios, sempre se faz necessário
agarrar-se ao contexto e especificidade de cada
Orixá e/ou propósito do ritual.
 Em geral, divindades com características dinâmicas e quentes
têm seus alimentos servidos em recipientes de barro.
Entretanto, não só as qualidades e características das
divindades importam na hora de organizar e distribuir os
utensílios da cozinha de axé. As narrativas míticas – itan –
jogam um importante papel nesse esquema de distribuição e
manejo dos materiais. Xangô é considerado Orixá proprietário
do domínio sobre o fogo, além de rei, portanto, considerado
divindade de características dinâmicas e quentes. Mas, não
tem seus alimentos servidos em recipientes de barro, mas sim
de madeira.
 A relação de Xangô com recipientes de madeira se justifica
não em relação a suas características e qualidades, mas graças
a uma passagem mítica conhecida pelas comunidades de
Candomblé .
 Então é possível perceber como as dimensões práticas (e
funcionais) dos utensílios da cozinha de axé não estão
dissociadas dos significados simbólicos e, também, míticos
atribuídos a eles.
 A gamela cumpre não somente a função de recipiente propício
para receber o Amalá, mas atende a severa determinação de
Oxalá a Xangô, que deve ser obedecida por seus fiéis.

Vamos entender o Itan de Xangô......


 Xangô Airá trazia dentro de si uma missão e um propósito, carregar
Oxalá em suas costas, pois este era lento e velho, até os festejos
comemorados por seu povo em sua cidade. Mas, quando se
aproximaram do destino, avistaram a grande pedreira de Xangô, bem
perto de seu grande palácio. Orgulhoso que era de seu poderio, e
querendo compartilhar com Oxalá os frutos de suas conquistas enquanto
rei, Xangô levou Oxalufã ao cume, para ali mostrar ao velho amigo
todo o seu império. Não contava Xangô Airá, no entanto, que dali de
cima daquele cume fosse avistar uma belíssima mulher mexendo sua
panela. Era Oiá! Preparando o amalá do rei. Xangô não resistiu a
tamanha tentação, teve fome. Sentiu arder dentro dele não somente o
desejo por seu alimento, mas o desejo e o apetite sexual por Oiá. Oiá e o
amalá! Era demais para sua gulodice, depois de tanto tempo pela
estrada. Xangô perdeu a cabeça e disparou caminho a baixo, largando
Oxalufã em meio às pedras, rolando na poeira, caindo pelas valas.
 Xangô e Oxalá são considerados dentro da narrativa como velhos
amigos. Somente um motivo muito forte seria capaz de ocasionar o
rompimento do laço de amizade entre ambos, ocasionando o total
rompimento dos propósitos iniciais estabelecidos pelo rei – levar
Oxalá aos festejos. E dois elementos foram os responsáveis por
desvirtuarem Xangô: o amalá (a comida) e a belíssima mulher que é
Oyá (o desejo sexual). Por um lado a narrativa demonstra a
importância do comer e da alimentação para Xangô, trata-se de um
Orixá que aprecia alimentar-se, a ponto de comprometer antigas
amizades e sérios propósitos. Por outro, demarca muito bem o
intenso apetite sexual de Xangô. Não se trata, pois, somente em
satisfazer-se com comida farta e de qualidade, mas de possuir belas
mulheres.
 O que interessa para os propósitos da presente explicação não é tanto
o caráter do desejo sexual apresentado por Xangô neste itan, mas sua
voracidade em relação à boa comida – tratada dentro dos termos da
narrativa como gulodice. Isso demarca a importância que o ato de
comer representa, em primeira instância, para os Orixás e seus filhos,
em segunda, para a filosofia das religiões de matriz africana –
principalmente o Candomblé – e, em última instância, baliza a
centralidade da cozinha nas comunidades de terreiro. Sem a cozinha
de axé, com seu espaço devidamente sacralizado por objetos, posturas
e ritos, não seria possível alimentar os Orixás e a comunidade, como
prescrevem os mitos e as preferências (qualidades e características) de
cada divindade. É assim que se pode considerar a cozinha como um
espaço “tão significativo como o peji” .
 A cozinha torna-se espaço importante, e plenamente integrado
a todo ritual dentro da nossa religião, não só por satisfazer o
desejo pelo alimento, tanto de Orixás quanto de pessoas dentro
da comunidade – atendendo a funções fisiológicas – mas por
proporcionar e restituir o equilíbrio das relações através da
comida e da alimentação.
Santa ceia rastafári
Santa ceia dos orixas

Santa ceia catolicismo


 Após o castigo, enviado pelas mãos do velho Oxalá, que
atingiram diretamente o povo de Xangô. O rei, muito
arrependido, mandou todo o povo trazer água fresca e panos
limpos. Para reparar os danos acarretados pela poeira e pelas
valas. [Xangô] ordenou que banhassem e vestissem Oxalá.
Oxalufã aceitou todas as desculpas e apreciou o banquete de
caracóis e inhames, que por dias o povo lhe ofereceu.
 Como forma de tentar restabelecer o que havia sido comprometido pelo
descaso e falta de compromisso de Xangô, todo o povo do reino ofereceu
um verdadeiro banquete ao velho Oxalá, por dias! Para recompor a relação
anteriormente estabelecida, de velhos amigos, foi necessário não somente
limpar as vestes e o corpo de Oxalá, mas, sobretudo, servi-lhe um banquete.
Em gratidão pelo alimento ofertado e pelos cuidados desprendidos, Oxalá
perdoa Xangô, mas sem, contudo, esquecer a gravidade do descaso. É assim
que seu velho amigo lhe impõe o castigo de só poder comer em gamela de
pau, como comem os bichos da casa e o gado e como comem os escravos.
Sem o cuidado com as vestes e o corpo do amigo e sem os banquetes,
servidos por dias, Xangô não teria logrado o perdão do velho Oxalá. Aceitar
os repetidos banquetes foi sinal de empatia e comprometimento com quem
doa. A amizade foi restaurada, mas a lembrança do descaso ficou marcada
para sempre através da presença e utilização da gamela no culto a Xangô.
 O castigo de Oxalá a Xangô nos conta, também, que utensílios
destinados inicialmente à cozinha de axé, como as gamelas de
pau, não se restringem ao espaço físico da cozinha. Adentram
aos quartos de culto e aos pejis, compondo os assentamentos
dos Orixás. Sobre o castigo de Xangô, “o mito justifica o
assentamento de Xangô em recipientes de madeira, sobretudo
gamelas.” Mas não somente neste caso entram os elementos da
cozinha nos quartos de axé. Em algumas casas os
assentamentos de Oxalá e das Yabás são adornados com pratos
de louça e colheres de pau. Enfeitá-los assim, não é somente
questão estética, mas uma das maneiras de ressaltar a
importância da alimentação para os terreiros e suas divindades.
 Assim, tanto o alimento quanto os utensílios estão carregados
de axé. A própria constituição dos assentamentos de
determinados Orixás remete para a cozinha e à alimentação,
Xangô, como vimos, é assentado em uma gamela de madeira,
Oxum, Oxalá, Iemanjá e Oyá são assentados em sopeiras ou
panelas de barro, Omolu é assentado em uma cuscuzeira –
sendo todas essas configurações dependentes das
características e qualidades de cada Orixá.
 Rituais, expressões litúrgicas, o tempo que se passa dentro da cozinha,
narrativas míticas e objetos de cozinha que se tornam objetos sagrados,
nos dão fortes indicativos da centralidade da comensalidade e da
alimentação para as comunidades de terreiro. O que para o observador
alheio a este universo se apresenta como trivial, como as colheres de
pau, dentro dos terreiros torna-se objeto sacro. Compondo alguns
assentamentos e sendo objetos imprescindíveis para preparar e servir a
comida daqueles que estão sendo iniciados ou passando por obrigações,
as colheres de pau são objetos que funcionam como marcadores
simbólicos responsáveis por organizar as dimensões de sacralidade e
poluição. As comidas votivas devem ser preparadas unicamente com
colheres de pau, o que as separa das comidas preparadas para o público
em geral – que podem ou não serem preparadas com colher de pau.
 Em relação a sua força dentro da filosofia candomblecista, dizem
os mais velhos que antigamente o som de uma única colher de pau
que caísse no chão da cozinha, durante o preparo dos pratos, era
capaz de provocar o transe nos iniciados mais novos. As colheres
de pau, a sua maneira, chamavam os Orixás. Podendo serem
equiparadas, neste quesito, à força dos atabaques e ao poder do
emí (hálito) do Babalorixá ou Ialorixá, que através das palavras de
encantamento (efó), chamam as divindades para o Ayé (mundo
terreno) provocando o transe. Assim, os utensílios que
“proporcionam o fabrico dos pratos assumem valores especiais,
não apenas pelos seus significados funcionais, mas, também, pelos
simbólicos” .
 São estes os objetos responsáveis por levarem a cabo as
transformações físicas e espirituais dos alimentos dentro da
cozinha de axé. Por mais que entre o repertório e os materiais
que as cozinhas disponham para o preparo dos pratos estejam
presentes utensílios considerados modernos – como fogões
industriais, geladeiras, liquidificadores, fornos elétricos, etc –
há uma valorização pelos objetos considerados artesanais e
tradicionais.

E disso nos sabemos muito bem né... Só


que as vezes teimamos um pouco...
 Utensílios como o pilão de madeira e equipamentos como o
fogão a lenha são revestidos de uma valorização positiva pelas
comunidades de terreiro. Principalmente por permitirem um
maior contato e envolvimento na preparação da comida, no
caso do pilão, ou contato maior com fontes naturais, como o
fogão a lenha e suas chamas.
Sobre as
transformações que
sofrem os alimentos

 Sem querer esgotar a grande variedade de alimentos e sua
organização e distribuição dentro dos terreiros, tentei compor
uma pequena tabela com os principais elementos encontrados
em momentos rituais distintos. Organizei os alimentos em 4
grandes grupos para uma melhor visualização da riqueza da
culinária ritualística. Na primeira coluna vamos ver as
categorias e na segunda coluna exemplos dessas categorias
facilmente encontrados dentro das casas de axé:
 Ao pensar nas transformações sofridas pelos alimentos é importante
ter em mente a que e para quem se destina o prato a ser ofertado. A
depender da finalidade e do destino do prato, os alimentos podem
ser: torrados, cozidos, fervidos, fritos ou servidos crus. Grãos e
sementes assim como os Tubérculos e raízes são os elementos que
comportam uma variedade maior de ações de transformação. Sendo
elementos mais versáteis, podem ser torrados, cozidos, fervidos,
fritos e servidos crus, diferente das papas que são sempre cozidas em
água ou em algum líquido. As farinhas podem ser cozidas ou
servidas cruas, sendo cozidas transformam-se em papas. Frutas são
servidas, geralmente frescas (portanto cruas), mas é possível que
sejam servidas fritas (como as bananas), e se considerarmos o quiabo
como fruta este ainda pode ser fervido ou cozido.
Podemos construir um esquema
nos seguintes termos:

Sobre a versatilidade das ações, cozer é a ação de transformação mais comum


e fritar é uma ação mais restrita. Quase todos os tipos de alimentos são
cozidos, mas nem todos eles são ou podem ser fritos. Pese as especificidades
de cada Orixá, de cada contexto no qual as comidas são preparadas e dos
recursos disponíveis na comunidade, o cozido funciona como um
denominador comum entre os Orixás, seguido pelo cru.
 Levar em consideração os recursos disponíveis na comunidade
é de suma importância para entender a composição do
banquete das Divindades do panteão afro-brasileiro. Nem
sempre os ciclos de produção, distribuição e abastecimento
das feiras e mercados está de acordo com o ciclo de festas
anuais das comunidades de terreiro. Assim, em determinadas
épocas será demasiado custoso comprar certos tipos de frutas
ou certos tipos de tubérculo, ao que os filhos de santo
imediatamente recorrem a uma substituição do elemento a ser
ofertado. Por isso é de grande importância o conhecimento da
variedade de elementos e a variedade de gostos entre os
Orixás.
 Mas essas substituições apresentam grandes limites. Nem tudo
pode ser substituído, pois cada elemento carrega uma
mensagem ou finalidade que é destinada para compor o enredo
do prato através do qual a mensagem é enviada a
espiritualidade. Os pratos são recheados de significados, sendo
capazes de nos contar uma história. Saber organizar os
elementos de cada prato a fim de atingir determinado objetivo,
ter este conhecimento de causa, faz parte do saber tradicional
das comunidades de terreiro. Conhecimento que é resguardado
pelo segredo e pelas paredes da cozinha.
 A dinâmica de escolha, manejo e elaboração de alimentos muda
conforme o rito em analise. Se o foco de analise passa a ser um
ebó ou um bori os arranjos e possibilidades de combinação de
preparo sofrem algumas alterações.

 Então é de suma importância o filho de santo observar e aprender


sobre os ritos que envolvem a comida.
 O Ado é uma farinha de milho torrado e pilado temperada com
açúcar mascavo. É um quitute que serve em especial à Oxum.
Os grãos de milho vermelho (milho de galinha) são
selecionados e limpos, deixados de molho em uma bacia com
água fria. A intenção é que os grãos chupem a água e inchem.
Após esse procedimento, que demanda algumas horas, ele é
torrado até ficar bem crocante, sendo então pilado para
produzir uma farinha.
 Pilar é uma atividade que
requer tempo, força e braços. É
uma tarefa cansativa para os
mais desacostumados, como eu,
mas muito bonita de ser
observada. Um tempo e espaço
proporcionado pela cozinha
para ensinamento e
aprendizado que dificilmente é
possível durante as cerimônias
rituais. Que demandam uma
continuidade e, portanto, não
podem ser interrompidas para
explicações.
 Semelhante aos grãos de milho, as sementes de feijão fradinho são
postas de molho e podem ser torradas, como já mencionado. Mas
também são postas de molho até soltarem a casca e depois
trituradas formando uma papa de coloração relativamente clara e
homogênea. Devidamente temperada, esta massa de feijão fradinho
pode ser frita em azeite de dendê transformando-se em Acarajé ou
envolta na folha de bananeira e cozida em água transformando-se
em Abará. Nesse processo a coloração e propriedades dos
alimentos mudam.
 Encontramos assim, na cozinha de axé, alimentos com uma
base comum de composição, mas que atendem a demandas
diferentes. Essas transformações são permeadas por todo um
processo artesanal e ritual de produção que é partilhado pela
comunidade de terreiro. Um modo de produção
(transformação) perpassado por uma multiplicidade de
sentidos e significados. Se grãos que serão transformados em
farinha e depois em papa são destinados ao Acarajé ofertado a
Oyá os sentimentos e os sentidos contidos nessa produção
diferem da produção dos grãos que se tornarão o Abará
destinado a Obá.
 Na classificação  Escolhi separa-los dos
apresentada no começo demais por que eles
desta aula não entraram apresentam
outros elementos que especificidades e usos
podem ser agrupados na importantes para a
categoria de temperos. compreensão das
atividades sagradas
dentro da cozinha e
dentro da comunidade.
 Sãoconsiderados
temperos o camarão
seco, mel, sal, bebida
alcoólica, água, azeite
de dendê, azeite de oliva
(comumente chamado
de azeite branco ou
doce) e cebola.
 A água ocupa uma
posição interessante.
É um elemento base para o sistema religioso, assim
como o ejé. Sendo de propriedade fria, diferente do
ejé considerado quente, a água é um elemento
apaziguador. É com a água que os iniciados esfriam
seus corpos. Na cozinha a água serve de base para o
preparo de boa parte dos pratos, como o acaçá, o
abará e para cozinhar os grãos e tubérculos, como
feijões, milhos, inhame e batata doce. Mas, durante
rituais, serve também para temperar os assentamentos
dos Orixás junto com o sal, o mel, o vinho, o azeite
doce e o azeite de dendê.
 Na cozinha os temperos são um dos responsáveis por
diferenciar a comida sagrada da comida profana. O que irá
diferenciar a massa do acarajé de Oyá do prato servido na rua,
por exemplo, não é somente o comportamento em relação ao
preparo (contrição, devoção, respeito, ritual), mas o tempero
que a comida leva. O acarajé servido a Oyá é temperado com
pó de camarão seco, cebola triturada e pouquíssimo sal. Sendo
dispensados por Oyá o coentro, o molho de pimenta, a pimenta
do reino, a cebolinha, o recheio de vatapá, etc.
 A lida na cozinha de axé requer dos iniciados grande
habilidade e sensibilidade, pois é repleta de nuances que
escapam aos olhares e ouvidos desatentos. Estar envolvido nas
atividades da cozinha, junto dos irmãos e parentes mais
velhos, ajuda a desenvolver e aprimorar as capacidades
cognitivas e técnicas responsáveis por apreender tais
diferenças imperceptíveis aos olhares não treinados. Trabalhar
na cozinha é prepara-se, é domesticar mãos, olhos e ouvidos,
sendo em última instância, lócus privilegiado para formar-se
um bom filho de santo. Pois sensibilidade e habilidades
manuais e técnicas são requeridas em várias dimensões do
terreiro.
 A cozinha de axé é um espaço onde circulam conhecimentos e
energias espirituais imprescindíveis para a formação religiosa
dos filhos de santo, onde laços de solidariedade e confiança
são estabelecidos. Através dela é possível apreender o
dinamismo das comunidades de terreiro e resgatar valores e
princípios responsáveis por nortear as atividades e a vida
dentro de uma comunidade religiosa.
 Antes de preparar qualquer oferenda lembre-se sempre das
atitudes básicas na hora do preparo de toda comida de santo. 

Sempre esteja de corpo limpo e a mente ligada só a coisas


boas e ao orixá.

 Se possível peça para alguém já iniciado dentro do Santo, para


lhe orientar na hora de fazê-lo. 
 Nunca peça nada de ruim ao Orixá, peça sempre coisas boas.
Então é muito importante saber o que está precisando
realmente ou o porque você está fazendo esta oferenda.
Ritos para preparação e
lendas
 Lenda e comida para Exú:
• Exu é os opostos água e terra, masculino e feminino, sendo o
terceiro elemento. Traçar e abrir caminhos é uma das suas
principais atividades, pois ele circula livremente entre todos os
planos. Exú é o primeiro que se serve e se cultua é o Guardião.
• Padê: O fubá deve ser misturado com azeite de Dendê de
modo que não fique com excesso, a cebola branca deve ser
cortada em rodelas e colocada em cima, podendo ser
acrescentado o bife cru com Dendê (candomblé).
• Recipiente: Alguidar de barro.
 Lenda e Comida para Ogum:
• Ogum é o guerreiro, o senhor das batalhas, o deus do ferro,
dos ferreiros e de todos aqueles que utilizam esse elemento, o
senhor dos caminhos. Está ligado as estradas, a abertura de
caminhos.
Paliteiro de Ogum: Cozinhe um inhame com casca e
tudo. Coloque numa gamela de madeira ou alguidar. Espete
palitos de Mariwô por toda a superfície.Caso não encontre
coloque palito de churrascos Pode regar com dendê ou mel.
 Lenda e Comida para Oxóssi:
• Oxóssi é o filho de Iemanjá com Oxalá e irmão mais novo de
Ogum. É o rei da caça , está associado com a vida ao ar livre e
com os elementos da natureza.
• Axoxô: Milho vermelho de galinha, água de coco com mel e
lascas de coco. Cozinhar o milho e montar no alguidar.
• Recipiente: Alguidar de barro.
 Lenda e Comida para Logum edé:
• Filho de Oxóssi e Oxum, Logum edé vive seis meses com a
mãe e seis meses com o pai, é o orixá da riqueza e da fartura,
da guerra e da água, senhor da dualidade, das contradições e
inesperados.
• Cozinhar a Canjiquinha (amarela) com açúcar e leite.
• Recipiente: Louça branca.
 Lenda e Comida para Oxum:
• Deusa das águas, a rainha de todas as riquezas da beleza e vaidade,
senhora da fertilidade, da gestação e do parto, cuida dos recém-
nascidos e a mãe da doçura e da benevolência.
 OMOLOKUM: 1 kg de feijão fradinho inteiro, 300 g de camarão seco
moído , 300 g de camarão inteiro, Azeite de dendê, 8 ovos cozidos, 2
cebolas grandes raladas. 
• Cozinhe o feijão fradinho sem deixar desmanchá-lo. Depois de cozido,
pegue uma panela de barro, coloque azeite de dendê, refogue as
cebolas, camarão seco moído. Coloca-se em uma tigela de louça e
enfeita-se com os ovos cozidos e descascados.
• Recipiente: Louça branca.
 Lenda e Comida para Xangô:
• Deus do raio, do trovão, da justiça e do fogo, tem três esposas
Oxum, Obá e Iansã.
Cortar os quiabos em pedacinhos ou em lasca, refogar
a cebola, o camarão seco socado e azeite-de-Dendê e
acrescentar o camarão descascado.
• Recipiente: Gamela
 Lenda e Comida para Iansã:
• Ela é a deusa dos ventos, das tempestades, dos tufões, dos
elementos aéreos ligados ao relâmpago. Comanda os eguns (os
mortos). Destemida, justiceira e guerreira.
• Acarajé: Feijão Fradinho, camarão seco socado, cebola, azeite
de Dendê.
• Colocar o feijão fradinho de molho em água, para descansá-lo
cru, em seguida
• Recipiente: Alguidar de barro.
 Lenda e Comida para Obá:
• Obá é um Orixá ligado à água, guerreira, deusa protetora do
poder feminino.  Era uma mulher forte, que comandava as
demais e desafiava o poder masculino.
• Cortar os quiabos em pedacinhos ou em lasca, refogar a
cebola, o camarão seco socado e azeite-de-Dendê e
acrescentar o camarão descascado.
• Recipiente: Gamela
• Lenda e Comida para Nanã:
• Nanã, a deusa dos mistérios, sintetiza em si morte,
fecundidade e riqueza é uma divindade de origem simultânea à
criação do mundo, nos pântanos, local onde se encontram os
maiores fundamentos de Nanã.
• Cozinhar a batata doce, temperar com azeite doce, decorar
com camarão seco e repolho roxo.
• Não usar nada de ferro ou mental, somente madeira.
• Recipiente: Alguidar de barro.
 Lenda e Comida de Omolu/ Obaluaê:
• Obaluaê/ Omulu é o rei e dono da terra, se veste de palha para
esconder o segredo da vida e da morte.
• Doburu: Milho ( para pipoca ) e areia da praia.
Em uma panela quente com areia da praia, estourar o
milho e está pronto o doburu.
• Recipiente: Cesta de palha.
 Lenda e Comida para Oxumaré:
• É o orixá de todos os movimentos, de todos os ciclos, do
infinito.
• Oxumaré mora no céu e vem à Terra através do arco-íris, é
uma grande cobra que envolve a Terra e o céu é a renovação
do universo.
• Batata doce e banana da terra, cozinhar a batata doce e fazer
tipo purê.
• Recipiente: Alguidar de barro.
 Lenda e Comida para Ossain:
• O senhor da vegetação rasteira, das folhas e de seus preparos,
defensor da saúde, é a divindade das plantas medicinais. Cada
Orixá tem a sua folha, mas só Ossain detém seus segredos.
• Abacate com amendoim e folha de louro, fazer com o
amendoim mais ou menos um pé de moleque, colocar no
abacate aberto ao meio e as folhas de louro.
• Recipiente: Alguidar de barro.
 Lenda e Comida para Ewá
• O Orixá Ewá é uma bela virgem que Xangô se apaixonou,
porém não conseguiu conquistá-la, ela fugiu. É uma guerreira
valente e caçadora habilidosa, é a Senhora das possibilidades,
domina a vidência, atributo que o deus de todos os oráculos,
Orunmilá lhe concedeu.
• Banana da terra frita no dendê ou frutas.
• Recipiente: Alguidar de barro.
 Lenda e Comida para Iemanjá:
• É a rainha de todas as águas seja dos rios, seja do mar. É a mãe
de todos.
• Manjar: Feito com leite, amido de milho, leite de coco e
açúcar e coco ralado e deixar cozinhar.
• Recipiente: Louça branca.
 Lenda e Comida para Oxalá:
• Oxalá é avesso a toda a violência, disputas, brigas, gosta de
ordem, da limpeza, da pureza. A sua cor é o branco e o seu dia
é a sexta-feira.
• Assume duas formas: OXAGUIÃ jovem guerreiro, e
OXALUFÃ
Canjica: Cozinhar o milho branco, escorrer a água e colocar o
mel. Decorar com cacho de uva verde.
• Recipiente: Louça branca.
• Caboclos/ Boiadeiros – Espiga de milho e frutas / Feijão
Tropeiro.
• Pretos velhos - Feijoada.
• Crianças – Doces e frutas.
Acho que é isso
gente, próxima aula
será sobre as
vestimentas..