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“Se essa rua fosse minha”: Uma reflexão acerca

dos atravessamentos sociais na vivência subjetiva


da população em situação de rua

Juliana Spitzcovsky Duarte de Oliveira


“Eu me chamo de excluído como alguém me chamou,
Mas pode me chamar do que quiser seu dotô,
Eu não tenho nome,
Eu não tenho identidade,
Eu não tenho nem certeza se eu sou gente de verdade,
Eu não tenho nada,
Mas gostaria de ter,
Aproveita seu dotô e dá um trocado pra eu comer...
Eu gostaria de ter um pingo de orgulho,
Mas isso é impossível pra quem come o entulho
Misturado com os ratos e com as baratas
E com o papel higiênico usado
Nas latas de lixo,
Eu vivo como um bicho ou pior que isso,
Eu sou o resto,
O resto do mundo,
Eu sou mendigo um indigente um indigesto um vagabundo
Eu sou... Eu não sou ninguém”
(Gabriel O Pensador)
INTRODUÇÃO

Tomada pelo incômodo diário de me deparar com pessoas dormindo nas calçadas de São Paulo e pela incapacidade de compreensão deste crescente

fenômeno, conheci o projeto social “Entrega Por SP”, que me possibilitou uma aproximação e vivência concreta com as ruas da cidade e aqueles que

dormiam nelas. Todos os contatos, construídos de forma dialógica, vieram a ser transformadores, possibilitando a emergência de novos significados e

olhares a esse campo.

Há dois anos e meio ouvindo as vozes da rua, novos questionamentos foram também surgindo. Dentre as diferentes histórias, queixas, sonhos e planos,

aspectos muito comuns eram trazidos em seus discursos, principalmente, o desejo e a oportunidade de saída deste lugar de vivência, mas a incapacidade

de concretização do mesmo. Muitos inclusive, após reinseridos no mercado de trabalho e realocados pelo coletivo Entrega por SP, acabaram retornando às

ruas, expressando sentimentos de fracasso, culpa e frustração: "É como se houvesse um imã, que sempre puxa nóis de volta pra cá" (Fala de

morador de rua assistido pelo coletivo, em janeiro de 2017).

A este “imã” foi dado o enfoque, na tentativa de compreender a constituição subjetiva deste grupo e os inúmeros fatores que atravessam suas histórias,

tornando a empreitada por vezes tão difícil e dolorosa. O presente trabalho, portanto, através de uma leitura sócio histórica, dialogou com este público

buscando compreender a multideterminação deste fenômeno para a população em situação de rua, fazendo uma análise crítica a respeito da desigualdade

social e da falta de enfoque àqueles que sofrem suas consequências.

Não se quer aqui pensar esses aspectos como mera consequência de situações sociais de
desigualdade, pois eles não o são. São ao contrário, aspectos que compõem o fenômeno da
desigualdade, que só se apresenta como tal porque sujeitos participam de sua constituição com seus
sentimentos, ações, formas de pensar e sentir (BOCK e GONÇALVES, 2009, p.150)
Metodologia

De acordo com o objetivo da presente pesquisa, de compreender a constituição subjetiva da população em

situação de rua e as multideterminações que a levam e a mantém nesse lugar de existência, foram seguidos os

seguintes passos:

1. Reconstrução do histórico, características e políticas públicas disponíveis à população em situação de rua.

2. Retomada teórica de alguns autores da psicologia social crítica, contemplando: a subjetividade na perspectiva

sócio-histórica; a subjetividade na divisão da sociedade em classes; o conceito de humilhação social,

desenvolvido José Moura Filho; e a “subcidadania”, de Jessé Souza.

3. Apresentação e análise de duas histórias vividas no campo-tema, que dialogam com o aparato teórico feito ao

longo do artigo, permitindo o apontamento de um abandono social e político e a insuficiência de Políticas Públicas

que trabalhem potentemente o sentimento de pertencimento desse segmento social.

4. Considerações finais.
Histórico e características
da população em situação de rua

• “Pessoas em situação de rua são como estranhos que não participam do espetáculo social. Estes
fazem o papel da “não-pessoa”, o que implica uma relação de desrespeito e discrepância frente aos
indivíduos atuantes.” (Valêncio et al, 2008, p.559).

• Fruto dos processos de escravidão, das imigrações e consequência das desigualdades impostas
pelo sistema capitalista neoliberal.

• Consequências do processo migratório: concentração desajustada em


• áreas urbanas, desequilíbrios regionais, setoriais, sociais, psicológicos e aumento da criminalidade.
Políticas Públicas para população em situação de
rua
• 2005: I Encontro Nacional sobre População em Situação de Rua -> Onde teve início a
formulação da Política Nacional de Inclusão Social da População em Situação de Rua –
PNISPSR.
• Garantir e promover: I- Cidadania e direitos humanos; II- Dignidade, direitos civis,
políticos, sociais, econômicos e culturais; III- Direito de circulação, usufruto e
estabelecimento na cidade; IV- Não-discriminação em nenhuma esfera, seja orientação
sexual, gênero, profissão, religião, origem, faixa etária, histórico migratório ou
nacionalidade; V- Supressão de estigmas negativos e preconceitos sociais, tanto quanto
atitudes violentas e vexatórias.
• Políticas para a população: não dão conta e ainda reforçam o lugar de exclusão desse
segmento populacional.
• Antagonismo de interesses de classes que mantém o cunho assistencialista das políticas
e regulam a conduta dos indivíduos, controlando, gerindo, administrando e manipulando
os campos de ação individual.
Humilhação social: contribuições de José
Moura Filho

• Quando a experiência de um traço de humanidade é impedida por outros indivíduos,


não de forma natural ou acidental, trata-se de humilhação social; fenômeno causado
por humanos e também sustentado por eles.
• “A violência que machuca o humilhado nunca é meramente a dor de um indivíduo,
porque a dor é nele a dor velha, já dividida entre seus irmãos de destino (...) O
humilhado não sabe bem porque chora e nunca chora apenas por si próprio, chora a
dor enigmática e chora a dor somada” (GONÇALVES FILHO, 2007, p.195).
• Sofrimento longínquo e repetido, que atinge alguém depois de já ter afetado
ancestralmente inúmeras raças, povos e grupos.
• Consequência psicossocial da humilhação social: invisibilidade pública e
desaparecimento intersubjetivo no meio de outros homens.
• Espaços públicos são esferas que tem o poder de reviver essas dores o tempo todo
(culpa e ausência de pertencimento).
Subcidadania: Contribuições de Jessé Souza
• A ralé brasileira: diferença entre gente e sub-gente. Uma classe de incluídos e outra de
excluídos do reconhecimento social.
• Fenômeno enraizado e invisível, que hierarquiza pessoas e grupos de acordo com uma
escala valorativa.
• Problemas sociais e políticos brasileiros: tratados de maneira economicista, como se as
questões prevalecentes no país fossem responsabilidade de um cenário econômico
desajustado.
• Valor imaterial da divisão de classes: pré-condições sociais, morais, emocionais e
culturais.
• Discurso meritocrático legitimador de privilégios: indivíduos responsáveis por suas
condições de “sucesso” e “fracasso”.
• Naturalização da desigualdade social: heranças familiares, compreendidas como mérito
ou talento individual.
Considerações finais e reflexões
• Cenário político atual extremamente falho, mas muito adequado à lógica do sistema vigente:
um país desigual, oligárquico, colonialista, escravista.
• A redistribuição de renda e a manutenção de direitos, tais como: moradia, educação e saúde,
ameaçam os privilégios das classes médias e altas. -> Não é de interesse político, recuperar
e ressocializar essa população.
• Discurso meritocrático culpabilizante.
• Qual o papel da psicologia frente a esse cenário?
• Continuidade nas pesquisas, inserção nas políticas públicas, com a valorização da
subjetividade e singularidade humana ,e fomentação de um debate crítico e amadurecido
sobre desigualdade social, buscando romper a lógica vigente (projeto educacional).
• Criação de Políticas com a população em situação de rua, e não PARA a população em
situação de rua.

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