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Crimes Ambientais

Os maiores crimes ambientais do Brasil

Uma usina de polêmica

Construção da hidrelétrica de Belo Monte, no Pará, protagonizou um dos mais criticados


casos de licenciamento na história ambiental brasileira. Em operação desde 2016, o
empreendimento ainda tem enorme passivo socioambiental.

Estamos a cerca de 800 quilômetros da capital paraense, Belém. Mais precisamente no local
em que foi construída a usina hidrelétrica de Belo Monte, nos municípios de Vitória do
Xingu e Altamira, esta última, a maior cidade do Brasil em extensão territorial.

O orçamento inicial para a obra, estimado em R$ 16 milhões, já ultrapassou há tempos a casa


dos R$ 30 milhões. Todo empreendimento causa algum tipo de impacto ambiental, o que
dizer então de um com as dimensões dessa usina, a terceira maior do mundo, atrás apenas da
chinesa Três Gargantas e da Itaipu Binacional.
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Uma usina de polêmica

As medidas condicionantes, acordadas durante o licenciamento ambiental, são exigidas dos


empreendedores para assegurar a manutenção do equilíbrio entre o empreendimento, a vida
das pessoas e a preservação ambiental. Mas, na prática, os conflitos são muitos.

Antônia Melo, coordenadora do Movimento Xingu Vivo Para Sempre, relata que povos da
Bacia do Rio Xingu, em Mato Grosso e Pará, se reuniram há anos contra o barramento do rio,
estratégico para toda a região. “Nos anos 1990, os caiapós convocaram uma grande
assembleia, em Altamira, para dizer ao governo federal que não queriam ver o rio barrado e
suas terras alagadas.”

A mobilização, lembra Antônia, ganhou repercussão nacional e internacional. Tanto que o


Banco Mundial suspendeu verbas destinadas ao projeto. “A ideia de fazer barramentos no
Xingu se arrasta há tempos. Antes de deixar a presidência da República, em 2002, Fernando
Henrique Cardoso tentou construir um complexo de barragens, mas os indígenas não
deixaram.”
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O projeto foi denunciado ao Ministério Público Federal, diante das ilegalidades que sempre
estiveram associadas à obra, embargada por ação judicial. No entanto, ressalta Antônia, assim
que assumiu a presidência, em 2003, a primeira coisa que o então ex-presidente Lula fez foi
voltar com o projeto de Belo Monte para a mesa de negociações.

Técnico da ONG Instituto Socioambiental (ISA), Marcelo Salazar explica que, diante de toda
a mobilização ocorrida, o governo Lula cogitou conduzir a obra de forma diferente,
considerando tantos os impactos ambientais quanto sociais e, sobretudo, dando voz às
comunidades afetadas.

“Essa foi uma promessa constante. Mas, o que a gente viu, de fato, foi pior do que o ocorrido
anteriormente, em grandes obras feitas durante o governo militar. Os custos socioambientais
não foram considerados, simplesmente receberam uma grande maquiagem”, salienta Salazar.
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Uma usina de polêmica


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Surpreendidos pela água

A construção de Belo Monte envolve obras em três sítios distintos: Belo Monte, Bela Vista e
Pimental. Para entender um pouco dos impactos provocados pela construção na vida de
moradores, fomos até uma aldeia dos Juruna.

Em 2016, várias mulheres dessa etnia bloquearam o acesso ao canteiro de obras Pimental,
principal barragem da hidrelétrica. Unidas a outros povos, cobravam indenizações por não
terem sido avisadas sobre o enchimento do reservatório.

Na ocasião, o Rio Xingu vivia uma seca intensa. E as aldeias, localizadas a cerca de 10 km
da barragem, foram surpreendidas pela água, que levou barcos e instrumentos de pesca.
“Prometeram muitas coisas para nossa liderança: boa educação, bom estudo, posto de saúde
aqui perto, hospital na fazenda. Tudo isso ia facilitar muito a nossa vida. Mas, de lá para cá,
nada do que foi prometido foi cumprido”, afirma Txâmi Juruna, um dos líderes da Aldeia
Muratu.
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Questionado sobre o processo de licenciamento ambiental da usina, Rodrigo Herles dos


Santos, coordenador-geral de Infraestrutura e Energia do Ibama diz tratar-se do maior
empreendimento já licenciado no país.

“O Estudo de Impacto Ambiental (EIA-Rima) foi o maior estudo em tramitação no Ibama.


Um processo desse nunca é normal. É complexo e, desde o início, já era bastante polêmico.
O projeto foi longamente discutido e muito desafiador para o Ibama.”

Em Altamira, percorremos áreas do Centro da cidade na companhia de Raimunda da Silva,


ex-moradora de uma comunidade de pescadores. Ela nos mostrou a casa onde nasceu e criou
sua família. Contou, ainda, que a vida da maioria da população foi alterada de forma
irreparável.

“Fomos expulsos do nosso local de origem. Ninguém teve a opção de escolher para onde
queria ir. Quando me chamaram para negociar, já estava tudo pronto. Disseram para a gente
assinar e, se não quisesse, tinha que procurar a Justiça. Justiça? Onde mora essa justiça? Foi
uma expulsão sem direito.”
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Serviços precários

Conforme dados do Movimento Xingu Vivo para Sempre, mais de 4 mil famílias tiveram de
deixar suas casas. Foram reassentadas em bairros distantes, sem serviços completos de água,
coleta de esgoto e transporte público. A maioria estava acostumada a ter acesso a serviços
essenciais, ainda que precários.

Durante a caminhada, Raimunda aponta: “Aqui era o supermercado. Tinha farmácia, açougue
e caixa eletrônico. Um do lado do outro. O bar ficava à direita, naquelas árvores ali. A gente
deixava os barcos de pesca lá. Somos pescadores, vivemos da pesca. O porto era nosso”.
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Na Ilha da Taboca, ao longo do Rio Xingu, o pescador José da Silva Kayapó lamenta: “Quem
falar que, de três, quatro anos para cá pega 300 ou 500 quilos de peixe é mentiroso. Não tem
esse peixe mais aqui não”. A bióloga e doutoranda pela Universidade Federal do Pará
(UFPA), Cristiane Costa Carneiro, explica que, desde o início da construção de Belo Monte,
foram mapeadas diversas intervenções ocorridas no leito do Xingu.

“A pesca foi afetada em toda a região, em razão de áreas interditadas, trechos do rio
aterrados, praias dragadas e, principalmente, pelas explosões e iluminação intensiva nos
canteiros de obras. Tudo isso impacta o rio, afugenta os peixes.”

É o caso de espécies como o piraíba. “Esse é um grande bagre migrador. Ele vem do Rio
Amazonas para o Xingu. Mas, desde 2012, ele não vem sendo mais encontrado por aqui.
Chega a pesar mais de 100 kg e era importantíssimo para essas comunidades.”
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Para o procurador da República em Altamira, Higor Resende Pessoa, mudanças na dinâmica


da pesca, em função da obra, aumentaram a pressão sobre as comunidades e também sobre as
unidades de conservação existentes na região, nas quais são proibidas a caça e a pesca.

“Se falta uma espécie de peixe importante para a sobrevivência do pescador, naturalmente ele
migra para outros locais. Em substituição ao pescado, um dos exemplos de animais visados é
a tartaruga. Ou seja, os pescadores foram empurrados para a criminalidade.”
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Berço de desova

As praias do Tabuleiro do Embaubal, no Rio Xingu, são berço de desova de tartarugas-da-


Amazônia. Esse arquipélago fluvial, com 70 ilhas, se estende por 133 km² e, de agosto a
outubro, durante a estação mais seca, recebe cerca de 20 mil tartarugas fêmeas adultas.

Conforme estudos da UFPA, a construção de Belo Monte terá impacto irreversível na


nidificação (construção de ninhos) e desova de tartarugas. Durante as filmagens, constatamos
que a caça de tartarugas se tornou mesmo um meio de sobrevivência na região, levando
inúmeros pescadores a praticarem esse crime ambiental como única alternativa para
alimentar e manter suas famílias.

Ao descer do barco e entrar na mata, flagramos várias tartarugas presas, amarradas e imóveis.
Por um instante, achamos que estavam mortas. O relato de Giácomo Shaffer, representante da
Associação de Pescadores de Vitória do Xingu, nos deixou impressionados.
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“Se você fosse comprar, pagaria uns R$ 160 por três tartarugas. Individual sai mais caro.
Entre R$ 60 e R$ 120 cada. Sabemos que é crime, mas é o que restou. O que o governo deu
de alternativa pra gente sobreviver num lugar desse? Qual é o legado que essa usina está
deixando para os ribeirinhos? Nada. Só miséria.”

Procuramos o Consórcio Norte Energia, responsável pela construção da usina, e fomos


recebidos pelo seu diretor Socioambiental, José de Anchieta dos Santos. Questionado sobre
queixas de moradores sobre indenizações, afirmou que falhas existentes nos processos foram
corrigidas. E explicou que, em muitos casos, o valor ressarcido ao morador de uma palafita,
por exemplo, não é suficiente para a compra de um imóvel em outro local, distante do rio.
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“Mas, a pessoa podia escolher entre receber em dinheiro ou optar por uma casa num terreno
de 300 m2. Várias pessoas que escolheram as casas já fizeram uma segunda construção no
terreno, para aluguel, aumentando a sua renda.” Diferentemente do informado por alguns
moradores, Santos garantiu que todos os novos loteamentos têm serviços de saneamento,
com água tratada e coleta de esgoto.

O procurador Higor Resende Pessoa ressalta que foi ajuizada, pelo Ministério Público
Federal, uma ação civil pública para implantação de toda a rede de saneamento em Altamira.
Essa foi uma das condicionantes do licenciamento ambiental acordadas com os responsáveis
pela usina em 2014. Mas, até a data das filmagens, ela não havia sido plenamente cumprida.
Em razão desse descumprimento, a Norte Energia foi multada pelo Ibama em cerca de R$ 60
milhões. “Nem tudo foi cumprido, porque houve situações imponderáveis e que estamos
analisando. No caso específico do sistema de saneamento, ele foi implantado, mas não está
operando. Ou seja, não houve ganho ambiental algum.”
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“Há condicionantes no licenciamento que são eternas, enquanto a usina existir terá de
responder por elas. Tudo aquilo que era nossa obrigação estamos cumprindo ou já
cumprimos”, afirma o diretor Socioambiental da Norte Energia, José de Anchieta dos Santos.

Depois de muito ver, ouvir e dialogar, deixamos a região com a sensação de que Belo Monte
trouxe muito mais problemas do que soluções. Muito mais impactos – sociais e ambientais –
do que uma alternativa real para a geração de energia. Muito mais dúvidas do que respostas.
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Fica, então, a esperança de que algo seja feito, efetivamente, para amenizar os impactos já
ocorridos. As lideranças locais seguem mobilizadas na luta por seus direitos. Quem sintetiza
esse sentimento coletivo em defesa das pessoas e da natureza é Antônia Melo, do Movimento
Xingu Vivo Para Sempre: “Belo Monte não é fato consumado para nós. Somos contra esse
modelo de gerar energia por meio da morte e destruição dos rios, da vida e da dignidade das
pessoas”.
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Em operação desde abril de 2016, Belo Monte tem 15 das suas 24 unidades geradoras em
atividade. São nove na Casa de Força Principal, com capacidade instalada de 5.500
megawatts (MW), e seis na Casa de Força Complementar, em Pimental, com 233,1 MW – o
que totaliza 5.733 MW.

A montagem da última das 24 turbinas está prevista para dezembro de 2019. Somada ao
reservatório intermediário, a área alagada totaliza 478 km2.
A energia gerada é destinada ao Sistema Interligado Nacional (SIN), por meio de cinco linhas
de transmissão.
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Exercícios

1)Pesquise qual o impacto ambiental causado pela instalação da Usina de Itaipu Binacional.
2) Qual a capacidade de geração de energia da Itaipu Binacional? Quantas unidades
geradoras ela possui?
elton.ludwig@udc.edu.br

ou

eltonluizludwig@gmail.com

Respostas, dúvidas ou sugestões

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