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O SUJEITO – “DA VIDA NUA AO

ASSUJEITAMENTO E CONTROLE
DOS CORPOS” – A BIOPOLÍTICA

EXTRATO DISSERTAÇÃO – MARIA CAROLINA DA SILVEIRA MOESCH


ABRIL DE 2017
• Ao lado do poder, há sempre a potência. Ao lado da dominação, há
sempre a insubordinação. E trata-se de cavar, de continuar a cavar,
a partir do ponto mais baixo: este ponto... é simplesmente lá onde
as pessoas sofrem, ali onde elas são as mais pobres e as mais
exploradas; ali onde as linguagens e os sentidos estão mais
separados de qualquer poder de ação e onde, no entanto, ele existe;
pois tudo isso é a vida e não a morte. (NEGRI, 2001, s/p)
• Tratar a noção de “sujeito” como categoria teórica na obra de
Foucault tem como centralidade discutir igualmente a noção de
“poder”, já que uma noção é permeada pela outra em toda a
narrativa deste estudo. Foucault (1995, p. 235) vem afirmar que
“Há dois significados para a palavra sujeito: sujeito a alguém pelo
controle e dependência, e preso à sua própria identidade por uma
consciência ou autoconhecimento, sendo que ambas sugerem uma
forma de poder que subjuga o sujeito a.”
• Foucault (1995) apresenta três modos de objetivação que, para ele,
transformam seres humanos em sujeitos:
• No primeiro modo de objetivação, tem-se a investigação, que busca o
estatuto de ciência; como exemplo, Foucault cita a objetivação do sujeito
produtivo, que trabalha, ou, ainda, e simplesmente, a objetivação de estar
vivo na história natural ou na biologia.
• Já o segundo modo de objetivação apresentado pelo autor diz respeito às
“práticas divisórias”, em que o sujeito é dividido no seu interior e em
relação aos outros; esse processo é o que o objetiva, como exemplo, o louco
e o são.
• Por fim, o modo de “[...] tornar-se sujeito”: o autor escolhe o domínio da
sexualidade, e aqui o interesse está em estudar “como os homens
aprenderam a se reconhecer como sujeitos de sexualidade” (FOUCAULT,
1995, p. 231-232).
• Em Foucault, os “três caminhos possíveis para se abordar a questão
do sujeito” partem do pressuposto primeiro de que é uma
construção histórica e não um sujeito constituinte.
• Assim, o primeiro caminho é o do sujeito que é constituído
teoricamente por uma série de saberes, que podem ser científicos
ou não, ou seja, como objeto a ser conhecido.
• O segundo caminho é o do sujeito constituído, jurídica ou
positivamente, por meio de certas práticas institucionais de poder,
ou seja, como objeto a ser dominado.
• E o terceiro caminho, o do sujeito constituído pelo próprio
indivíduo, por meio das práticas de si, ou seja, o sujeito na
instância da sua autoconstituição (biopolítico).
• Para Agamben (2010), essa transformação do homem vivente que
deixa de ser objeto e passa a ser “sujeito do poder político” está
intrinsecamente relacionada ao nascimento da democracia
moderna, e seu estado de exceção, em que a vida era, e continua
sendo, excluída e capturada pelo ordenamento (jurídico), o que
constitui o “fundamento oculto sobre o qual repousava o sistema
político” e do qual não nos distanciamos – muito pelo contrário,
nos constituímos nele (p. 16).
• É necessário estender as dimensões de uma definição de “poder” se
há interesse em usá-la para estudar a objetivação do sujeito. Para
tanto, parte-se do pressuposto de que “o poder só se exerce sobre
‘sujeitos livres’, enquanto ‘livres’” (FOUCAULT, 1995, p. 244). Para
Agamben (2010, p. 12),
• 
• uma das orientações mais constantes do trabalho de Foucault é o
decidido abandono da abordagem tradicional do problema do
poder, baseada em modelos jurídicos-institucionais (a definição da
soberania, a teoria do Estado), na direção de uma análise sem
preconceito dos modos concretos com que o poder penetra no
próprio corpo de seus sujeitos e em suas formas de vida.
O poder:

• O poder diz respeito a algo que se possui, que se adquire, que se


cede, por contrato ou força, e que pode se alienar ou se recuperar,
portanto, que circula por entre os corpos.
• O poder não se dá, não se troca, nem se retoma, mas que ele se
exerce e só existe em ato [...] o poder não é primeiramente
manutenção e recondução das relações econômicas, mas, em si
mesmo, primariamente, uma relação de força [...] o poder é
essencialmente o que reprime. É o que reprime a natureza, os
instintos, uma classe, os indivíduos. (FOUCAULT, 2010, p. 15)
• Só podemos exercer o poder à medida que produzimos verdades.
Produzimos verdade como produzimos riqueza, ou, melhor,
produzimos verdade para produzirmos riquezas, sendo a verdade
a norma. O poder circula, não é homogêneo, maciço, mas deve, ao
circular, funcionar em cadeia, não estando localizado em algum
lugar, ou nas mãos de alguns; o poder transita pelos indivíduos,
não se aplica a eles (FOUCAULT, 2010).
• O indivíduo/sujeito é considerado um efeito do poder e, ao mesmo tempo, seu
intermediário, ou seja, “o poder transita pelo indivíduo que ele constituiu”
(FOUCAULT, 2010, p. 26). O sujeito, nesta perspectiva, é construído pela história,
essa que parte das práticas sociais, constituindo-se através da história.
•  
• “Seria interessante tentar ver como se dá, através da história, a constituição de
um sujeito que não é dado definitivamente, que não é aquilo a partir do que a
verdade se dá na história, mas de um sujeito que se constitui no interior mesmo
da história, e que é cada instante fundado e refundado pela história.”
(FOUCAULT, 2002, p. 10).
• Tem-se um sujeito histórico, cultural e, portanto, constituído e
constituindo-se em uma trama de relações que o engendram, como,
por exemplo, as estratégias de poder, as condições econômicas,
sociais e políticas, entre tantos outros dispositivos. Nesse processo,
ora se assujeita, no sentido da sujeição a uma lógica dominante, ora
reinventa os próprios modos de existir numa lógica emancipatória,
através de mecanismos como linhas de fuga.
• além da busca por compreender como a sociedade contribui para
tornar seres humanos sujeitos, tem-se aqui a preocupação com
aqueles seres humanos que não alcançam o status de sujeito – os não
sujeitos.
• Agamben (2010) traz essa discussão para a atualidade ao constatar
que, em determinadas camadas da população, as pessoas são
expostas à morte pelo governo, vivendo em estado de exceção. Para
tanto, retoma os estudos de Foucault (1926-1984) e Hannah Arendt
(1906-1975), especialmente a noção de “biopolítica” de Foucault e os
estudos de Hannah Arendt sobre o processo que leva o homem
biológico a ocupar progressivamente o “centro da cena política do
moderno” (2010, p. 11).
A Vida Nua
• Agamben (2010) apresenta a noção de “vida nua”, termo inventado por
Hannah Arendt em Origens do Totalitarismo, de 1951. Na obra, a autora
usa a expressão para identificar os homens que, no período
entreguerras, perdiam o direito a ter direitos e, portanto, encontravam-
se excluídos da própria noção de “humanidade”.
• Para Agamben, a vida nua é
• 
• A vida matável e insacrificável do homo sacer, cuja função essencial na
política moderna pretendemos reivindicar. Uma obscura figura do
direito romano arcaico, na qual a vida humana é incluída no
ordenamento unicamente sob a forma de sua exclusão (ou seja, de
sua absoluta matabilidade), ofereceu assim a chave graças à qual não
apenas os textos sacros da soberania, porém, mais em geral, os
próprios códices do poder político podem desvelar os seus arcanos.
(AGAMBEN, 2010, p. 16).
• Para Agamben (2010), essa vida “matável” é a vida que não “merece
viver”, “exterminável”, no sentido do que essa vida podia – e nossa
referência é a de que, nas entrelinhas da nossa sociedade capitalista
liberal, ainda pode – ser exterminada por qualquer um, sem que se
cometesse – ou que se cometa – uma violação (AGAMBEN, 2010, p.
132-184).
•  
• É como se toda valorização e toda ‘politização’ da vida [...] implicasse
necessariamente uma nova decisão sobre o limiar além do qual a vida
cessa de ser politicamente relevante, é então somente ‘vida sacra’ e,
como tal, pode ser impunemente eliminada. Toda sociedade fixa este
limite, toda sociedade – mesmo a mais moderna – decide quais sejam
os seus ‘homens sacros’. (AGAMBEN, 2010, p. 135).
• E é justamente esse limite que toda sociedade fixa, do qual
Agamben (2010, p. 135) diz que depende a politização e a exceptio
da vida natural, que a vida nua deixa o lugar particular ou de uma
categoria definida, e passa a habitar o corpo biológico de cada ser
vivente, configurando o que o autor chama de “novo horizonte
biopolítico dos estados de soberania nacional”.
Biopolítica – De Foucault à Agamben
• Foucault (2010), ao iniciar seus apontamentos sobre a noção de “biopolítica”, lança
uma luz para a compreensão do Estado e seus engendramentos nas relações de
poder, estabelecidos nas relações com os sujeitos.
• O Estado é, em simultâneo, aquilo que existe, mas também aquilo que ainda não
existe de forma suficiente. E a razão de Estado é precisamente uma prática, ou
melhor, uma racionalização de uma prática que se vai situar entre um Estado
apresentado como dado e um Estado apresentado como a ser construído.
(FOUCAULT, 2010, p. 28).
• Para Farhi Neto (2008, p. 47-48), a noção de “biopolítica” concentra-se
entre os anos de 1974 e 1979 nos livros, artigos e entrevistas de
Foucault, que a entende como uma tecnologia de poder que aparece
em pelo menos cinco mecanismos específicos de poder:
• o poder medical, o dispositivo de raça, o dispositivo de sexualidade,
o dispositivo de segurança e a governamentalidade neoliberal.

• Essas “acepções de biopolítica” encontram-se diretamente


relacionadas, ora convergindo, ora divergindo, mas, cada uma a seu
modo, “remetendo a um confronto da política com algum domínio,
aparentemente, exterior a ela”, especialmente em seu exercício de
controle dos sujeitos.
• O controle da sociedade sobre os indivíduos não se efetua somente
pela consciência ou pela ideologia, mas também no corpo e pelo
corpo. Para a sociedade capitalista é o biopolítico que importava
acima de tudo, o biológico, o somático, o corporal. O corpo é uma
realidade biopolítica. (FOUCAULT, 2009, p. 209).
• Para Agamben (2010, p. 10), Foucault traz de forma clara essa
transformação da sociedade ocidental territorial para uma
sociedade populacional. Ou seja, é nos limiares da Idade Moderna
que a vida natural começa a ser “incluída nos mecanismos e nos
cálculos do poder estatal”, que transforma a política em biopolítica.
Em Foucault (1976, p. 127), “O homem moderno é um animal em
cuja política está em questão a sua vida de ser vivente.”
• Para Noto (2009), Foucault trata o modo ou a forma do indivíduo
relacionar-se consigo mesmo como historicamente singular; por
isso, em seus últimos escritos, é discutida a ideia de que se trata de
investigar as formas ou os modos de relação consigo, ou seja, os
modos de subjetivação ou as formas de subjetividade.

• Assim, apresentam-se duas vias de análise para o uso do termo


sujeito:
• A primeira via de análise diz respeito ao sujeito-sujeitado: “[...] ao designar o
resultado de uma produção discursiva ou uma prática de dominação, o termo
‘sujeito’ deve também ser compreendido no sentido da sujeição.” Nessa
possibilidade, compreende-se o sujeito-sujeitado como sendo o sujeito que é
constituído “enquanto objeto de saber e objeto de dominação”.

• Na segunda via de análise, “[...] o termo ‘sujeito’ deve ser compreendido no seu
sentido mais forte, isto é, como sinônimo de subjetividade, e não mais como
sujeito-sujeitado, quando se referir ao sujeito constituído em função da relação
que o indivíduo estabelece consigo mesmo.” (NOTO, 2009, p. 19).
• Pela via de análise da subjetividade, é possível realizar a síntese da
possibilidade de dar sentidos outros a si mesmo e aos outros.
• A forma da subjetividade irá variar conforme a maneira que o
indivíduo conhece a si mesmo, o que implica como prática posicionar-
se em relação às normas que lhe vêm do exterior, e como age sobre si
mesmo, “[...] a fim de constituir-se como sujeito moral, político e
epistemológico e de como estabelece a finalidade dessa constituição.”
Em síntese, todo o processo de constituição de subjetividade passa,
obrigatoriamente, pelo conhecimento de si.
• “[...] aqui é preciso ressaltar a ideia de que tal procedimento é
condição necessária, mas não suficiente, para a constituição do
sujeito.” (NOTO, 2009, p. 39).
• Foucault (1999) conclui que:
• Não estamos sempre presos, ao contrário, somos livres; deste modo, sempre
existem possibilidades de transformação da vida, dos sujeitos e de seus modos
de subjetivação.
Referências

• AGAMBEN, G. Estado de exceção: Homo Sacer II. v. I. São Paulo: Boitempo, 2004.
• ______. Homo Sacer: o poder do soberano e a vida nua. Tradução de Henrique Burigo. 2. ed. Belo Horizonte: UFMG,
2010.
• FARHI NETO, L. Biopolítica como tecnologia de poder. R. Inter. Interdisc. INTERthesis, Florianópolis, v. 5. p. 47-65,
jan./jul. 2008.
•  FOUCAULT, M. Em defesa da sociedade: curso no Collège de France (1975-1976). Tradução de Maria Ermantina
Galvão. 2. ed. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2010.
•  ______. Nascimento da biopolítica. Tradução de Pedro Elói Duarte. Lisboa: 70, 2010.
•  ______. O sujeito e o poder. In: DREYFUS, H.; RABINOW, P. Uma trajetória filosófica: (para além do estruturalismo e
da hermenêutica). Rio de Janeiro: Universitária, 1995. p. 231-249.
• NEGRI, A. Exílio. São Paulo: Iluminuras, 2001.
• NOTO, C. S. A ontologia do sujeito em Michel Foucault. 2009. 147 f. Dissertação (Mestrado em Filosofia) – Faculdade
de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Departamento de Filosofia, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2009