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Topoi – esquemas

argumentativos
PROFA. DRA. ALESSANDRA CASTILHO FERREIRA DA COSTA
PPGEL/UFRN; PROFLETRAS/UFRN
Roteiro
 Topoi, lugares argumentativos. O que são?
 Exemplos de topoi no debate entre a deputada estadual Janaína Paschoal
(PSL-São Paulo) e o padre Júlio Lancellotti (da Pastoral do Povo da Rua
de São Paulo).
 Categorização de topoi na Nova Retórica
 Lugares de quantidade
 Lugares de qualidade
 Lugares de ordem
 Lugares do existente
 Lugares de essência
 Lugares de pessoa
Topoi – lugares argumentativos
 Vocêjá ouviu falar de topoi, também conhecidos como lugares
argumentativos?
 A definição de topos ou lugar argumentativo é debatida na literatura
especializada. Não há um consenso.
 Por exemplo, em Aristóteles, os topoi aparecem como esquemas
argumentativos abstratos que podem ser usados para discutir qualquer
assunto.
 Na sua Retórica, ele apresenta uma lista de cerca de 30 topoi.
 Na sua Tópica, essa lista chega a 300 esquemas ou mais.
 Outros autores entendem por topos não um esquema argumentativo abstrato,
mas determinados conteúdos consensuais.
 Oswald Ducrot, por exemplo, afirma que, num enunciado como “Está fazendo
calor! Vamos para a praia”, há um topos “O calor torna a praia agradável”.
 Quer dizer, o topos pode ser entendido como uma premissa (nem sempre
explicitada no texto), que guia o raciocínio para uma determinada conclusão.
 Essas premissas são decisivas para identificarmos os cálculos argumentativos
nos textos. Se não identificarmos tais premissas, não interpretaremos
adequadamente o texto.
 Nesta aula, abordaremos principalmente os esquemas argumentativos abstratos
de que fala Aristóteles. Vamos começar com alguns exemplos.
Exemplos de topoi na linguagem do
cotidiano
► Usarei como exemplo um debate ocorrido
recentemente no twitter entre a deputada
estadual Janaína Paschoal (PSL-SP) e o
padre Júlio Lancellotti (da Pastoral do
Povo da Rua de São Paulo).
► No dia 07 de agosto de 2021, o padre Júlio
Lancellotti acusou a polícia militar de São
Paulo de intimidar agentes da Pastoral
durante distribuição de alimentos no bairro
da Luz, em São Paulo.
 No mesmo dia, a deputada Janaína Paschoal criticou o padre e os voluntários
que distribuem comida às pessoas em situação de rua, na região da
Cracolândia (centro de São Paulo).
 Ela escreveu o seguinte:
“As pessoas que moram e trabalham naquela região já não aguentam mais. O
Padre e os voluntários ajudariam se convencessem seus assistidos a se tratarem e
irem para os abrigos. A distribuição de alimentos na Cracolândia só ajuda o
crime. O tema precisa ser debatido com honestidade.”
Topos das consequências
negativas

 A argumentação da deputada baseia-se no topos das consequências negativas, que diz o seguinte:
 Se p, então q.
 Q é consequência negativa/indesejável.
 Logo, p não deve ocorrer.
 “As pessoas que moram e trabalham naquela região já não aguentam mais. O Padre e os voluntários ajudariam
se convencessem seus assistidos a se tratarem e irem para os abrigos. A distribuição de alimentos na
Cracolândia só ajuda o crime. O tema precisa ser debatido com honestidade.”
 Premissa 1: Se alimentar os dependentes, então o crime aumentará.
 Premissa 2: Aumentar o crime é indesejável.
 Conclusão: Logo, alimentar os dependentes não deve ocorrer.
Topos da posição de saber algo
 Outro topos que ocorre no debate é o da posição de saber algo:
 Premissa 1: Todo mundo no grupo G aceita A.
 Premissa 2: O grupo G está em posição de saber que A é
verdadeiro.
 Conclusão: Portanto, A é verdadeiro.

Exemplo:
“Pergunto a todas as pessoas que estão me detonando o seguinte: Se você tivesse um parente se
matando com drogas na Cracolândia, o que preferiria, alguém que o alimentasse ali,
possibilitando sua permanência no vício? Ou alguém que o estimulasse a sair daquela
condição?”

Premissa 1: Todo mundo no grupo G (parentes de dependentes de crack) aceita A (alimentar é


possibilitar a permanência no vício).
Premissa 2: O grupo G (parentes de dependentes de crack) está em posição de saber que A
(alimentar é possibilitar a permanência no vício) é verdadeiro.
Conclusão: Portanto, A (alimentar é possibilitar a permanência no vício) é verdadeiro.
Topos do exemplo
 Em sua crítica à deputada, André Janones usa do topos do exemplo:
 Premissa 1: O indivíduo P é prestigiado por indivíduos Q.
 Premissa 2: P executa o ato A.
 Premissa 3: Qs querem ser como P.
 Conclusão: Qs devem executar ato A.

 “Janaina, a imagem que você segura em sua foto de perfil é Jesus, talvez você não o conheça e só usou a
imagem pra foto, mas ele com toda certeza, ficou enojado lendo esse seu tweet.”

 Premissa 1: O indivíduo P (Jesus) é prestigiado por indivíduos Q (cristãos).


 Premissa 2: P (Jesus) executa o ato A (ficar enojado com o tweet de Janaína Paschoal).
 Premissa 3: Qs (cristãos) querem ser como P (Jesus).
 Conclusão: Qs (cristãos) devem executar ato A (ficar enojados com o tweet de Janaína Paschoal).
Topos da correlação
 Em sua réplica à deputada, o padre Júlio
Lancellotti invoca o topos da correlação:
 Premissa: Há uma correlação positiva entre A e
B.
 Conclusão: Logo, A causa B.

“Padre Júlio rebate Janaína: corrupção, e não alimento, mantém a Cracolândia”.

Premissa: Há uma correlação positiva entre A (corrupção) e B (existência da


Cracolândia).
Conclusão: Logo, A (corrupção) causa B (Existência da Cracolândia)
Topoi – esquemas abstratos
 Como você percebe, esses esquemas argumentativos são abstratos e podem ser acionados para
diversos tópicos.
 Walton/Reed/Macagno (2008) coletaram 96 esquemas argumentativos em sua obra “Argumentation
schemes”.
 Perelman /Tyteca (1996 [1958]) recategorizaram os topoi aristotélicos do em um número menor de
categorias:
1.Lugares de quantidade
2.Lugares de qualidade
3.Lugares de ordem
4.Lugares de essência
5.Lugares do existente
6.Lugares de pessoa
Na sequência, veremos exemplos de cada um deles.
Lugares de quantidade
Os lugares de quantidade fundamentam-se em proporções e graus.
 Por exemplo, um topos muito importante é o do mais e do menos:
 “Se uma propriedade pertence a quem é menos provável pertencer, ela
também pertence a quem é mais provável pertencer.”
 “Se o que é mais provável acontecer não acontece, então o que é menos
provável também não acontece”.
 Quem faz o mais, faz o menos; quem não faz o menos, não faz o mais: Se
alguém bate no próprio pai, bate no vizinho. Se alguém não é capaz de
ajudar a propria família, não ajudará ninguém.
 Veja alguns exemplos a seguir.
Exemplo 1: O mais provável é que o parto seja normal. Dado que o mais provável não ocorreu, o que é menos provável (a
pessoa ser normal), também não pode ocorrer.
Exemplo 2: O mais provável é a família apoiar a pessoa. Dado que o mais provável não ocorreu (a família não apoia, mas
fala mal do indivíduo, então menos provável (outras pessoas apoiarem) também não ocorrerá.

Exemplo 3: O mais provável é o Cascão não lavar as mãos. Dado que o menos improvável ocorreu (o Cascão lavar as mãos),
então o mais provável também deve ocorrer (outras pessoas lavarem as mãos).
Exemplo 4: O mais provável é que a risada do indivíduo não seja exagerada. Como o menos provável ocorreu (a risada ser
exagerada), então o mais provável também ocorrerá (o amor do indivíduo ser exagerado).
Lugares de qualidade

 “Obem mais conspícuo é mais desejável do que o menos


conspícuo, e o mais difícil do que o mais fácil” (Aristóteles,
Topics, Book 3, Part 2).
 “Alémdisso, a posse mais pessoal é mais desejável do que a mais
amplamente compartilhada.” (Aristóteles, Topics, Book 3, Part 2).
 Esses lugares valorizam o único, o raro, o exclusivo, o difícil.
 Todaa publicidade em torno de artigos de luxo fundamenta-se
nesse topos.
 Nesse contexto, é interessante a reportagem de Isto É sobre o compartilhamento de bens luxuosos.
 O topos da qualidade diz que, quanto mais algo é raro, difícil e menos compartilhado, tanto mais valioso é.
 Do ponto de vista desse topos, o mero compartilhamento de bens de luxo tornaria tais bens menos valiosos,
porque menos exclusivos.
Topos da qualidade em “O
Pequeno Príncipe”
 Tu não és para mim senão uma
pessoa inteiramente igual a cem mil
outras pessoas. E eu não tenho
necessidade de ti. E tu não tens
necessidade de mim. Mas, se tu me
cativas, nós teremos necessidade
um do outro. Serás para mim o
único no mundo. E eu serei para ti a
única no mundo...
 No exemplo acima, a raposa deixa
claro que o que é comum é pouco
valioso (“pessoa inteiramente igual a
cem mil outras”) e o que é único,
valioso (“serás para mim o único no
mundo”).
Topos da qualidade no Wiki How: um homem difícil é mais valioso do que um fácil.
Lugares de ordem
 Valorizam o anterior como superior ao posterior, a causa como superior aos efeitos, os princípios
como superiores às finalidades.
 Por exemplo, um modo de valorizar o anterior ao superior é conceder superioridade ao que é
tradicional. Muitas marcas usam desse topos, com expressões como “a cerveja original”.
 Aristóteles diz que “aquilo que é mais semelhante ao que é superior é melhor/superior ao que é mais
semelhante ao inferior” (Aristóteles, Topics, Book III, Part 2).
 Aristóteles defende que “se uma coisa não pode ser trazida à existência sem a segunda, enquanto a
segunda pode existir sem a primeira, a segunda é melhor/superior” Aristóteles, Rhetoric, Book I, Part
7.
 Aristóteles afirma ainda que “aquilo que tem valor por si mesmo é melhor/superior ao que tem valor
por outra razão” Aristóteles, Topics, Book III, Part 1.
 Nos exemplos a seguir, o que é tradicional é mais valorizado do que é contemporâneo: mãe raiz vs.
mãe Nutella; Iô-iô Cream vs. Nutella .
Lugares do existente
 Valorizam mais o que existe do que o que é meramente possível ou impossível.
 A menina e o leite (conto infantil) 
Era uma vez uma menininha linda e sonhadora, que ganhou um pote de leite. Feliz, foi ao mercado
vender o presente. No caminho, cumprimentava toda a bicharada e fazia planos:
  — Com o dinheiro do leite, vou comprar muitos ovos. Dos ovos vão nascer muitos pintinhos. Quando
crescerem, vou vendê-los e comprar um porco. Depois de gordo, vou trocá-lo por uma vaca e um
bezerrinho. Enquanto o bezerro cresce, a vaca me dará leite todos os dias. Com o leite, vou fazer queijos
pra vender. Com o dinheiro que ganhar…
  Distraída com tantos sonhos, ela tropeçou numa pedra. O pote caiu. Virou mil pedaços. Coitadinha!
 No conto infantil acima, a moralidade (não contar com o que não é real) valoriza o existente.
Lugares de essência
 Valorizam indivíduos como a representação de um ideal/de uma essência.
 É superior/vale mais aquilo que encerra uma essência.
 “Aquele que é conhecido como 'um x' é mais desejável do que aquele que não pertence ao gênero 'x' -
por exemplo, justiça é melhor do que um homem justo; pois o primeiro pertence ao gênero 'bom',
enquanto o outro não, e o primeiro é chamado de 'um bem', enquanto o último não é, pois nada que não
aconteça pertencer ao gênero em questão é chamado pelo nome genérico; por exemplo, um 'homem
branco' não é 'uma cor’. (Aristóteles, Topics, Book III, Part 1).

No exemplo ao lado, atribui-se o predicado “não é aquele que


ganha uma batalha, mas sim aquele que evita uma guerra) a
um indivíduo x, que é “um verdadeiro homem”. Argumenta-se
aqui pela essência do que seria a categoria “homem”.
Como no exemplo anterior,
argumenta-se aqui sobre a
essência de ser amigo. Ao
indivíduo x (aquele que
representa idealmente um
amigo) atribui-se o predicado
p: “não é aquele que concorda
com tudo, mas o que discorda
de você nos momentos certos”.
Lugares de pessoa
 O lugar de pessoa valoriza mais o ser humano do que fatos, coisas, desastres, etc.
 Com a pandemia, houve uma polêmica com relação ao isolamento social e suas consequências para a
economia. Os que defendem o isolamento argumentam que a saúde das pessoas é mais importante do
que a economia; já aqueles contrários ao isolamento argumentam que as pessoas passarão fome se a
economia colapsar. Ambos usam o lugar de pessoa.
A tarefa de vocês...

 É ler o item 2.1.2, intitulado “O lugar dos lugares”, da tese de doutorado de Ana
Maria Junqueiro Fabrino (páginas 53 a 63).
Referências

 FABRINO, Ana Maria Junqueiro. O lugar dos lugares – a escrita argumentativa na


universidade. Tese de Doutorado, USP, 2008.
 WALTON, Douglas; REED, Christopher; MACAGNO, Fabrizio. Argumentation
schemes. Cambridge University Press, 2008.
 PERELMAN, Chaim; OLDBRECTS- TYTECA,
Lucie. Tratado de Argumentação: a nova retórica.
Trad. Maria Ermantina Galvão G. Pereira. São Paulo: Martins Fontes, 1996
[1958].