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Disciplina Jornalismo Impresso

Narrativas do Presente

Prof. Dr. Vicente Darde


Narrativas do Presente

O trabalho dos jornalistas gira em torno da produção de


narrativas, tendo a realidade factual como grande referente.

Se concluirmos que o jornalismo é narrativa,


como ele configura e nos conta as suas histórias? Como
estimula e projeta a imaginação dos leitores e ouvintes?
Como constrói significações?
Narrativas do Presente

Estamos nos referindo aqui ao jornalismo objetivo do lide e


da "pirâmide invertida", das hard news ou notícias escritas
na forma direta, descritiva, factual.
Esse tipo de notícias constitui a essência do jornalismo
diário, contrapõe-se à ficção e nega qualquer parentesco
com a literatura e as artes. Queremos indagar a esse
jornalismo objetivo se ele pode ser interpretado como
narrativa.
Narrativas do Presente

Uma reportagem é um texto narrativo, pois, por meia dela, o


jornalista narra um acontecimento, o que implica uma
sucessão de estados (conjunto de condições em que se
encontram em determinado momento).

Noticiar é, portanto, uma forma de narrar.


Narrativas do Presente

As narrativas jornalísticas tratam de fatos verídicos: os


personagens, lugar e tempo e eventos retratados são todos
reais. Uma segunda distinção importante é que narrativas
jornalísticas visam a ser objetivas e, portanto, impessoais. O
jornalista é um observador dos fatos. Outra distinção é que
reportagens costumam empregar linguagem direta e
simples, pois o objetivo consiste em transmitir informações
de forma rápida e clara. Uma narrativa jornalística não deve
ser passível de interpretação. 
Narrativas do Presente

Mieke Bal (2001) diz que um texto narrativo é aquele em


que um agente relata uma narração. Um texto narrativo,
diz ele, é uma história que se conta através da linguagem,
isto é, uma história que se converte em signos linguísticos.
Isto implica dizer que o texto narrativo é aquele no qual se
relata uma história, mas o texto não é a história. Os textos
podem diferir entre si e contar a mesma história.
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A primeira distinção contrapõe narração e descrição.


Narração é o procedimento representativo dominado pelo
relato de eventos que configuram o desenvolvimento de
uma ação temporal (cronológica) que estimula a imaginação.
A descrição, por outro lado, é o procedimento
representativo de um momento único, estático,
temporalmente suspenso, que procura "naturalizar" o
discurso e criar o efeito de real pelo excesso de informações
geradoras de verossimilhança.
Narrativas do Presente

No jornalismo (como em outros gêneros) é praticamente


impossível encontrar textos puramente descritivos tanto
quanto aqueles exclusivamente narrativos. Entretanto, o
discurso jornalístico parece tender para a descrição mais do
que para a narração na medida em que sua forma
direta, clara, precisa e concisa cria o efeito de real mais do
que estimula imaginários.
Narrativas do Presente

Outra oposição no campo da identidade do enunciado:


showing x telling, utilizando terminologia inglesa da Teoria
Literária. O showing é a técnica de representação dramática
que mostra uma sucessão de cenas e revelam situações
particulares, deixando para o espectador configurar o
enredo (mostra, mais que narra, como no teatro e no
cinema). O telling se distingue pelo esforço do narrador em
conectar, juntar as partes, contar enfim.
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Essa oposição nos remete à questão da distância (ou do


posicionamento) que o narrador quer manter das coisas
narradas. No showing o narrador aumenta a distância ao
desvanecer a sua presença, dramatiza as histórias, privilegia
as citações permitindo que as personagens e os fatos falem
por si mesmos. No telling o narrador encurta a distância na
medida em que se transforma no foco da narrativa, com
intervenções afetivas, éticas e estéticas frequentes.
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Em relação a essa última oposição, o jornalismo tende para o


showing (ainda que as duas formas possam ocorrer
alternadamente num mesmo discurso jornalístico), não só
porque dramatiza os fatos, atribui importância aos
personagens e suas falas, mas principalmente porque o
narrador procura se distanciar e deixar as conclusões éticas,
morais e políticas para os leitores e ouvintes.
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No jornalismo hard news, o jornalista não pretende contar


histórias (sejam elas realistas ou ficcionais), quer apenas
descrever fatos tal como ocorridos na realidade. Neste
sentido, afasta-se da narrativa tradicional. Confirmação da
precisão dos fatos relatados ou a eventual interpretação
criativa são deixadas por conta do leitor ou ouvinte, pois
essas intencionalidades estão ausentes do exercício da
profissão devido à precisão e imediatismo da prática
jornalística.
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A distinção entre a narrativa literária e a jornalística se dá,


segundo J.F.Sánchez (1992), pela diferente intenção de cada um
desses discursos (pretensão de verdade). O discurso informativo
tem uma finalidade externa ou instrumental, precisa ajustar-se
ao mundo real, o conhecimento e o fato conhecido são distintos
e o sujeito falante é empírico desde uma situação
determinada, se dirige a alguém com a finalidade de comunicar
informação. É um ato político e social.
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O discurso literário, por outro lado, só se compara consigo


mesmo, cria o que diz, o sujeito é universal em uma situação
eterna, não se dirige a nada, mas a todos
indiferenciadamente em todos os tempos.
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Paul Ricoeur (1994) diz que as narrativas são um meio de


reconfigurar a nossa confusa e difusa experiência temporal.
Abre para a nossa discussão uma nova trilha, mais densa e
pródiga, que perpassa a questão do tempo. A identidade de
um texto narrativo, diz o autor, deve ser buscada no caráter
temporal da experiência humana porque qualquer narrativa
é sempre um mundo temporal.
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11 de setembro de 2001: o exemplo de narrativa com


pluralidade de efeitos de sentidos.
O acontecimento midiático é objeto de uma dupla construção: a
de uma encenação levada a efeito pela transmissão, a qual
revela o olhar e a leitura feita pela instância midiática, e a do
leitor-ouvinte-telespectador que a recebe e interpreta.
Os efeitos resultantes são múltiplos, ligados à maneira pela qual
as encenações visuais, os relatos e os comentários jornalísticos
se influenciam mutualmente.
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11 de setembro de 2001: Escalada do Jornal Nacional
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No acontecimento do 11 de setembro, a roteirização televisual é
formada por dois tipos de roteiro: os dos filmes catástrofes e os
das reportagens que relatam os conflitos, as guerras e as
catástrofes naturais.
O roteiro do filme catástrofe é formado por uma situação inicial
(pessoas vivendo a sua rotina); o surgimento da catástrofe
durante a qual são mostradas a explosão destruidora e as reações
das pessoas; e os heróis vindos de fora (bombeiros, policiais,
exército, autoridades locais e nacionais) que acabam vencendo o
perigo e salvando o maior número possível de pessoas.
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O roteiro da reportagem se caracteriza pelo anúncio do


desencadear de um conflito; exibição das imagens
posteriores ao conflito (é difícil ter câmeras na hora do
acontecimento, como ocorreu no 11 de setembro), imagens
que se detêm no resultado dos estragos materiais e nas
vítimas; a ação de socorro (bombeiros, médicos, policiais).
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Esses dois roteiros têm entretanto um ponto em comum: sempre


põem em cena três tipos de atores: as vítimas, os responsáveis e os
salvadores.
Insistem nas vítimas para produzir efeito de compaixão; no agressor
pra produzir efeito de antipatia; e no salvador, para produzir efeito
de simpatia.
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O acontecimento de 11 de setembro foi relatado utilizando


elementos desses dois tipos de roteiros, com algumas
particularidades.
A situação inicial, feita de tranquilidade, está ausente. Do
ponto de vista das mídias, a ordem do mundo é suposta
como anterior à desordem de que devem falar.
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O surgimento dos fatos como nos roteiros de filmes foi


filmado ao vivo, de início por acaso, com câmeras de
amadores, depois pelas câmeras de profissionais as mídias.
As vítimas foram tratadas com as imagens habituais das
reportagens: exibição dos feridos e contabilidade do número
de mortos e feridos.
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Nota-se, no entanto, que não foram vistas vítimas mortas


nem cadáveres, e que foram mostrados poucos corpos
sendo transportados com urgência. A CNN declarou não
querer “traumatizar o povo americano” e não dar prova de
“mau gosto”.
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Entrevistas com testemunhas que escaparam da morte: o


testemunho de um sobrevivente sempre produz um efeito
de fascinação, pois nos remete ao acaso de nosso próprio
destino: por que alguns morrem e outros permanecem
vivos?
Narrativas do Presente

Quanto aos salvadores, foram mostrados até “enjoar”,


particularmente a intervenção e as entrevistas com o bombeiros,
cujo heroísmo foi destacado, assim como a presença no local de
personalidades políticas.
Por fim, o grande salvador, presidente dos Estados Unidos, George
W. Bush, apareceu na cena midiática, de início com um discurso
com tendência de preservar a identidade do povo americano, a
integridade e a potência da América, depois sob a figura do
vingador conclamando a cruzada e a guerra contra o terrorismo.
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A imagem das torres que desabam em 11 de setembro de


2001 não tem apenas uma significação. Essa imagem é
dotada de uma forte carga semântica (significado).
As imagens simplificadas e fortemente reiteradas acabam
por ocupar um lugar nas memórias coletivas, como sintomas
de acontecimentos dramáticos.
Do conjunto dos relatos e comentários produzidos pelos
jornalistas sobre o 11 de setembro, destacam-se duas
características: o acontecimento é inexplicável e os atores e
as causas são essencializados.
Narrativas do Presente

Como numa narrativa fantástica, o suspense se mantém por


não se saber qual é a causa dos acontecimentos nem a
mente oculta que lhes deu origem.
Essencialização dos pró-americanos e antiamericanos; bem
versus mal; Bin Laden versus George W. Bush.
Narrativas do Presente

O jornalismo configura narrativas de experimentação ética e


moral, revela-se como via de reconfiguração da cultura
contemporânea. Essa reconfiguração se realiza nos atos de
leitura das notícias de cada dia quando o leitor, ouvinte ou
telespectador criativamente reinterpreta, sob o mesmo
fundo cultural do autor, o percurso de representação dos
dramas e tragédias do homem moderno.
Narrativas do Presente

O receptor das fragmentadas notícias quem vai conectar as


partes, tecer os laços de significação temporal, preencher
as lacunas, reconfigurar as indeterminações, articular
passado, presente e futuro, montar os atravessados quebra-
cabeças das intrigas e significados através de atos criativos
de recepção.
Narrativas do Presente

Há algo singular no caráter da narrativa jornalística,


além de sua configuração moral. Diferentemente da história,
a narrativa jornalística, ainda que utilize
predominantemente o pretérito perfeito ou imperfeito em
seu discurso, refere-se ao presente, ao momento
contemporâneo. Um momento fugaz, fugidio, sempre
provisório. O jornalista narra continuamente a história do
presente imediato, urna história fugidia, inacabada.
Obrigado!

Prof. Dr. Vicente Darde

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