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O CAMINHO DAS AGULHAS

E DOS ALFINETES, UMA COSTURA


PRÁTICA-TEORIA-PRÁTICA

Carolina Monteiro
PNAIC _ PÓLO SERRANA
Trabalhando com projetos
“Podemos definir projeto como antecipação de algo desejável
que ainda não foi realizado. Uma ideia para ser transformada
em ato.”

“Trabalhar com projetos na escola, desde a educação infantil,


é uma forma de vincular o aprendizado escolar aos interesses
e preocupações das crianças, aos problemas emergentes na
sociedade em que vivemos, à realidade fora da escola e às
questões culturais do grupo.”

(CORSINO, 2009, p. 105)


“O projeto não pode ser confundido com um
conjunto de atividades que o professor propõe
para as crianças realizarem a partir de um tema
dado.”

“O projeto surge a partir de uma questão, de algo


que desperta a curiosidade das crianças.”

(CORSINO, 2009, p. 106)


Definição de Projeto
1. Percurso por um tema-problema;
2. O professor como aprendiz e não um especialista;
3. Possibilita estabelecer conexões diversas para uma dada questão;
4. Percurso singular;
5. Aprende-se a escuta do outro;
6. Diferentes formas de aprender o que se quer ensinar;
7. Aproximação dos problemas entre os diferentes saberes;
8. Aprendizagens plurais (conhecimentos) e singulares (sujeitos);
9. Diferentes tempos-espaços/ saberes-fazeres são considerados.

(HERNÁNDEZ, 1998 apud CORSINO, 2009, p. 107-108)


Relato do projeto

• Histórias de Estimação, a proposta inicial;


• Mudando os rumos a partir de Chapeuzinho Amarelo;
• Com Chapeuzinho Vermelho em diferentes versões e releitura;
• Dialogando com os diferentes textos literários e produzindo
escritas a partir das experiências vivenciadas;
• Investigando o lobo “real”, o Guará e desdobrando esse estudo;
• E, ainda, produzindo um texto coletivo, que virou livro.
• E, ainda, descobrindo outras releituras para o conto tradicional.
Os 5 espaços discursivos

• A voz do aluno no coletivo


• A escrita espontânea no individual
• Negociação de sentidos no coletivo
• Revisão, refacção, reformulação no individual
• Publicação, circulação no coletivo
Histórias de Estimação, a proposta inicial

• Tendo em vista que as crianças traziam de casa,


com certa frequência, livros de literatura,
pensamos em elencar as histórias prediletas
delas e, a partir delas, pensar as propostas de
leitura e escrita que estivesse relacionada com
essas escolhas pessoais e particulares,
produzindo sentidos que seriam socializados
entre os membros do grupo.
A voz do aluno

“O objetivo maior de considerar a voz do aluno é a construção de


uma postura discursiva na escola: ter o que dizer, ter uma escuta na
interlocução com seus pares e com o professor.”

A partir da oralidade o sujeito:

“aprende que se podem mobilizar saberes sobre a oralidade para


se aprender a escrita.”

(ANDRADE, ano, p. 3_texto da Revista Pátio)


Histórias de Estimação, a proposta inicial

• Iniciamos com uma sondagem das histórias de


estimação de cada criança da turma e, com isso,
registramos em uma listagem, cuja escriba foi a
própria professora.

a literatura infantil, como uma forma


essencialmente lúdica de linguagem escrita,
constitui importante elemento mediador no processo
de aquisição da escrita (SMOLKA, 2008, p. 22).
Mudando os rumos a partir de Chapeuzinho Amarelo

Entretanto, antes mesmo de darmos início ao


que estava sendo proposto, uma questão foi
colocada:

• A maioria das crianças desconheciam a


história “Chapeuzinho Amarelo”, a preferida
da professora...
Estavam sendo definidos, a partir de então, os
novos caminhos do trabalho...

... A professora trouxe o livro “Chapeuzinho


Amarelo”, leu para a turma e, imediatamente,
esta história passou a compor o topo na lista de
preferências das crianças.
Exploramos duas possibilidades de projeto
gráfico, para a mesma história, publicadas em
momentos diferentes.
Com Chapeuzinho Vermelho
em diferentes versões e releituras

Imediatamente as crianças estabeleceram uma


relação com o conto tradicional “Chapeuzinho
Vermelho” e, portanto, começamos a trabalhar as
versões possíveis para a mesma história.

“Leituras anteriores, experiências coletivas...


...momentos que antecedem a Escrita Espontânea.”
(ANDRADE, ano)
Versões da mesma história: Chapeuzin
Vermelho
Partindo, inicialmente, de um
Versão Irmãos Grimm; Ilustr. Susan Jansen conversas informais, (gêner
primário) em direção às obra
literárias (gênero secundário
encontradas em diferente
produções editoriais.

Chapeuzinho Vermelho e outros con


Versão de Charles Perrault por imagem – Rui de Oliveira
As diferentes versões suscitam
a produção de escritas iniciais...

O lobo comeu a vovó e não comeu a Chapeuzinho.


Ela se escondeu no armário.

O sujeito que escreve: se diz, se expressa, cons


se nesta sua ação de produção de linguagem.
O caçador abri a barriga do lobo e o lobo morreu e a Chapeuzinho e a vovó
saiu da barriga do lobo e todos viveram felizes!
A Escrita Espontânea
“O espaço da escrita espontânea tem o objetivo mais
amplo de construção inicial de uma postura de escritor.”

Com isso,

“o aluno aprende, nesses momentos de escrita


espontânea, a necessidade de se dizer por meio da
escrita.”
(ANDRADE, ano, p. 3_texto da Revista Pátio)
No final da história o lobo morre e todos ficaram felizes para sempre.
Negociação sobre sentidos

“Volta-se aqui à primeira posição, e a voz dos


alunos é novamente assumida como importante,
o autor individualmente toma sua
porém focalizada sobre textos produzidos na etapa
decisão (estilo)
anterior, mobilizando saberes linguísticos.”

(ANDRADE, ano, p. 3_texto da Revista Pátio)


Descobrindo diálogos com o conto
“Chapeuzinho Vermelho”: réplicas possíveis
Produzindo textos e criando outros finais possíveis para
“Chapeuzinho Vermelho” com e a partir da linguagem escrita
O lobo bateu na porta. Quando ele entrou na casa, pediu para ela se
ela queria surfa(r). A vovó sabia muito surfa(r). Quando a
Chapeuzinho chegou disse, com uma prancha: “Vamos surfa(r),
vovó?
O lobo foi ao pet shop. Aí, a vovó e a Chapeuzinho limparam o pêlo do lobo.
Revisão -> Refacção
O autor individualmente toma sua decisão (estilo).

“Rever e refazer o texto escrito constitui um momento


individual, que pressupõe os anteriores: a discussão coletiva
e a escutas de vozes alheias, que sugeriram possibilidades
de reelaboração do texto escrito espontaneamente.”

(ANDRADE, ano, p. 4_texto da Revista Pátio)


O lobo vai no shopping com a vovó e aparece a
Chapeuzinho e também apareceu o caçador. Eles saem
do shopping, viram na rua bandeirinhas e iam ficar na
festa.
• As crianças trazem aspectos típicos das
suas experiências (BENJAMIN, 1994;
LAROSSA, 2002);
• Produzem e são produzidas na/ pela
cultura;
• Pet shop, shopping, Mc Donald’s, entre
outros elementos são entrelaçados ao
conto de fadas tradicional, mesclando
situações reais e imaginárias, de forma
criativa e imaginativa (VIGOTSKI, 2009)
O lobo bateu na porta do Mequidonaldi e comeu no
Mequidonaldi.
O lobo bateu na porta do shopping e comprou algumas roupas,
no total 10 roupas. Aí, a Chapeuzinho Vermelho apareceu e falou:
Ei, você quer ser meu amigo?”
O lobo disse que sim, eles fizeram amizade e fim.
Investigando o lobo “real”, o Guará: um dos desdobramentos do projeto

Ao questionarmos a
possibilidade de
existência de um lobo
“real”, descobrimos o
Lobo-Guará.
Investigando o lobo “real”, o Guará: um dos desdobramentos do projeto

Galeria de Bichos Ameaçados:


Lobo-Guará
Trabalhamos com o gênero
textual artigo científico. Resumo

Na história de Chapeuzinho Vermelho, o lobo ma


é o grande vilão. Mas, na vida real, há um lob
tímido e difícil de ser avistado que pode s
considerado uma vítima: o lobo-guará. O anima
que habita a América do Sul, corre o risco d
desaparecer do mapa. Descubra do que ele s
alimenta, como é sua família e por que ele es
em perigo na CHC deste mês.

Fonte: Revista Ciência Hoje para Crianças. Out/ 200


E o livro, que inspirou uma

investigação maior, onde

cada criança escolheu um

animal ameaçado de

extinção...
Lobo Guará

Ele vive na floresta.


Ele come passarinho.
Ele é mamífero.
Pavão-do-mato

Ele mora na mata.


Ele come inseto.
Ele (é uma) ave.
(Ele nasce do) ovo.
(Ele está) ameaçado de extinção.
Publicação
No espaço escolar, possíveis interlocutores: diretor,
pais, funcionários, professores de outras turmas e
crianças de outras turmas.

Novas interlocuções, para fora do espaço escolar:


crianças de outras escolas.

“A circulação do texto pronto deveria constar como horizonte de


possibilidades durante todas as etapas anteriores de sua preparação.”

(ANDRADE, ano, p. 4_texto da Revista Pátio)


O Tamanduá Bandeira

Sabia que eles comem 301000 (trinta mil)


insetos e comem de uma vez isso
Sabia que eles serão melhores que o cachorro e
eles não enxergam bem
Abelha-Uruçú

Ela faz pote de mel.


Ela gosta de flor de maracujá.
Produzindo textos coletivos
“Chapeuzinho Prateado

Era uma vez a Chapeuzinho Prateado. Ela estava brincando no quintal de sua casa, quando sua mãe lhe chamou.
A mãe da menina entregou uma cesta para ela. A cesta estava cheia de sonhos de creme e doce de leite e, também, suco de
cajú, para a vovó.
Chapeuzinho foi cantando pela floresta:
— Pela estrada afora,
eu vou bem sozinha
levar esses doces
para a vovózinha.
Ela mora longe
e o caminho é deserto.
E o lobo mau mora aqui por perto.
De repente ela entra numa casa por engano. Não era a casa da vovó, era a casa do lobo. O lobo estava lá dentro, se fingiu de
bonzinho, recebeu a menina e perguntou:
— Aonde você vai?
Ela falou que ia na casa da vovó, mas percebeu que tinha entrado na casa errada. Então, ela pulou a janela com medo e fugiu
apavorada.
Perto dali, ela entrou em outra casa, só que dessa vez era a da avó dela. A Chapeuzinho foi ‘pro’ quarto da vovó e se escondeu
embaixo da coberta.
A vovó estava dormindo no sofá e não viu a neta entrar.
O lobo entra escondido na casa da vovózinha e come ela.
Os caçadores viram o lobo entrar e pegaram ele. Depois, tiraram da barriga dele: a vovó e levaram ele ‘pro’ Zoológico.”
Chapeuzinho Prateada
E produzimos outro texto coletivo...
que virou livro
A escolha do Título
• Inspirada nas três Chapeuzinhos trabalhadas: a
Vermelho, tradicional; a Amarelo, de Chico
Buarque; e a Azul, irmã da Chapeuzinho
Vermelho, de Flávio Souza;
• Além disso, o grupo tinha uma criança que tinha
mais dois irmãos gêmeos, o que não seria possível
há pouco mais de 30 anos, quando o primeiro
bebê de proveta foi fecundado.
• Articula as três histórias, seus personagens e
características.
O encontro das personagens com os lobos...
... e as características de cada personagem são
emprestadas à nova narrativa
A TV
Alguns elementos da narrativa tradicional são
mantidos, mas acrescidos de outros novos
Com direito à coquetel de lançamento!
Letramento e literatura
Podemos pensar no letramento literário no sentido de que a
literatura nos letra e nos liberta, apresentando-nos diferentes
modos de vida social, socializando-nos e politizando-nos de várias
maneiras, porque nos textos literários pulsam forças que mostram
a grandeza e a fragilidade do ser humano; indicando-nos que
podemos ser diferentes, que nossos espaços e relações podem ser
outros. O outro nos diz a respeito de nós mesmos – é na relação
com o outro que temos a oportunidade de saber de nós mesmos de
uma forma diversa daquela que nos é apresentada apenas pelo
viés do nosso olhar. (GOULART, 2007, p.64)
... E peça de teatro!
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
SMOLKA, Ana Luiza Bustamante. A criança na fase inicial da escrita – a
alfabetização como processo discursivo. 12. ed. São Paulo: Cortez, 2008.

BENJAMIN, Walter. Magia e Técnica, arte e Política: ensaios sobre literatura e


história da cultura. Tradução de Paulo Sérgio Rouanet. São Paulo: Brasiliense,
1994. (Obras escolhidas Vol. I).

LARROSA, Jorge. Notas sobre a experiência e o saber de experiência. Revista


Brasileira de Educação. Rio de Janeiro/São Paulo: ANPEd/Autores Associados. Nº
19, Jan/Fev/Mar/Abr 2002, p. 20-28.

GOULART, Cecília. Alfabetização e letramento: os processos e o lugar da


literatura. In A. P. alli, Literatura: Saberes em movimento. Belo Horizonte:
Autêntica, CEALE, 2007, p. 57-66.

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