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Do corpo grotesco do carnaval popular da

Idade Média e do Renascimento


ao
corpo bufo da Commedia dell’Arte
BAKHTIN, Mikhail. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento:
o contexto de François Rabelais.
Tradução de Yara Frateschi Vieira. São Paulo: Annablume, Hucitec, 2002.
CARVALHO, Ênio. O ator renascentista, p. 36-52, in Das origens ao século XVII.
História e formação do ator. São Paulo: Ática, 1989.
História do Teatro 2
Fátima Costa de Lima, Curso de Licenciatura em Teatro/DAC 2020/2
Na segunda vida do povo, relações humanas e não alienadas
no contato coletivo vivo, material e sensível em que a utopia e o real
são complementares na percepção carnavalesca do mundo
Formas e símbolos dinâmicos, mutáveis, flutuantes, ativas, da
renovação consciente da alegre relatividade de verdades e autoridades
Lógica das coisas “ao avesso”, “ao contrário”, “mundo ao revés”
das alternâncias alto-baixo em formas de paródias, travestis, degradações,
profanações, coroamentos e destronamentos
O riso carnavalesco é patrimônio do povo, universal e ambivalente
que se percebe como incompleto, zomba de si mesmo,
renasce e se renova com a morte
Princípio da vida material e corporal:
da festa, do banquete, da dança, com imagens abundantes de
corpo, bebida, comida, das necessidades naturais e sexuais satisfeitas
Realismo grotesco Concepção estética da vida prática,
o cômico, o social e o corporal unidos em totalidade viva e indivisível
-> Degradação frente ao sublime no século XVIII-XIX:
alto/céu (rosto e cabeça) x baixo/terra (ventre, genitálias e bunda)
Corpo carnavalesco Grávido, no parto, bebê, velho, facies hipocratica
(estado terminal), do sexo, desmedido, exuberante, despedaçado
(x corpo humano acabado, limpo, higienizado, depurado das escórias)
Ênfase nas partes do corpo que se comunicam com o mundo
Boca, órgãos genitais, seios, barriga e nariz
corpo criado e criador, dois corpos em um, fusão com coisas e animais
Corpo = campo semeado que começa a brotar
“É um corpo que não tem lugar dentro da ‘estética do belo’” (Bakhtin)
RENASCIMENTO
Vida terrena num ambiente dual entre a realidade e Deus
Passagens:
Cultura nobre cavaleiresca -> cultura burguesa prática e racional
Gigantescas catedrais góticas -> vida real e terrena
Itália assume a liderança da cultura europeia até o XVII (-> França)
Teocentrismo (Deus no centro) -> antropocentrismo (homem no centro)
Misticismo e medo -> beleza da criação
Retomada e atualização da cultura helênica
TRIONFI romanos -> TEATRO DA CORTE
Artistas (Ex.: Da Vinci) criam
máquinas, edifícios, palcos, cenários, cartazes e alegorias
Humanistas estudam como encenar Sêneca, Plauto e Terêncio em
ruínas de espaços romanos, num culto às glórias do passado
Autores dramáticos da corte e favoritos dos príncipes
Gêneros: comédia, pastoral e intermezzo na COMÉDIA ERUDITA que
vai aos poucos se afastando do modelo antigo, mas mantém cenário único
para preservar unidades de tempo, espaço e ação, em obediência aos
princípios neo-aristotélicos da estética renascentista
ATORES DA CORTE OU ACADÊMICOS atuação solta e com grandes
gestos
-> ESPECTADOR não incluído na ação
Transformação do espaço: ar livre medieval -> palco renascentista
MUDA A INTERPRETAÇÃO TEATRAL
GESTO simbólico -> movimentação e gestual individuais da personagem
Inverte-se: palavra interpreta gestos e ação ->
gestos e ação tornam-se elementos da interpretação da palavra ->
CARÁTER DECLAMATÓRIO palavra expressiva -> gesto conciso
PALCO LARGO movimentação esquerda-direita, sem profundidade
Figurinos do teatro da Corte: suntuosos, exóticos ou históricos,
emoldurados por faustosa decoração, cores e formas exageradas
ATORES DILETANTES -> ATORES PROFISSIONAIS
De Ruzzante aos atores precursores e intérpretes da commedia dell’arte,
Itália = centro do teatro professional, atores se tornam conhecidos ->
CULTO DA INDIVIDUALIDADE
Primeiras biografias e vida particular conhecida da vedete em destaque
no novo palco italiano
Na França, entrées solennelles (entradas solenes) ~ trionfi italianos
Ballet Comique de la Reine (XVI-> XVIII), até a Rainha representava
-> muitos ballets comédie + recitações, árias, pantomimas e danças ->
UNIDADE TEATRAL = balé + teatro
TEATRO FALADO Confrarias medievais -> atores profissionais
Confrarias medievais perdem privilégios -> alugam sedes para novas
companhias de atores profissionais da província -> apresentar na Corte
Primeira cia de atores italianos em Paris: 1530; 1570, I Comici Gelosi
Cias surgiram na França também, já na primeira metade do século XVI
Saído da cia Enfants sans Souci, Jean de l’Espine com filhos no elenco
CIAS CONTRATAM MULHERES, A EXEMPLO DOS
ITALIANOS
Ator: Jean-Baptiste Poquelin, Molière (mas isto já é outra história...)
Antes: vida cultural na província ainda forte, nova arte dramática por
grupos estudantis que se profissionalizaram e viajavam com suas
tragédias (que predominaram no teatro francês) e comédias
ENCENAÇÃO
Cenários suntuosos nas cortes italianas x
Palco neutro com tapetes e cortina em colégios e cias profissionais
Supremacia dos balés dramáticos nas cortes e
Tragédias e comédias eruditas (sostenuta) nos colégios ->
novos gêneros dramáticos das companhias ambulantes
Alemanha: palco neutro cria a ilusão cênica de um lugar e
uso de palco traseiro

X
https://www.youtube.com/watch?v=yl7HcNROOR8
COMMEDIA DELL’ARTE: o ator é soberano
Intérpretes profissionais e comediantes mais populares,
considerada o grande laboratório do ator moderno
Significado de Arte: profissão = ator especialista x diletante
Commedia dell’Arte = interpretada por hommes de l’art, tidos como
dotados naturalmente para improvisar um teatro sem texto escrito
Da dualidade e paralelismo entre
Teatro literário da corte com modelo greco-latino E
Teatro popular improvisado sem modelos, o
teatro erudito declina frente a supremacia da ópera = drama lírico x
(meados do século XVI) a comédia popular ganha relevância e juntam-se
aos primeiros comediantes os atores de todas as classes sociais
ATUAÇÃO = IMPROVISAÇÃO, GESTICULAÇÃO E MÍMICA
CORPORAL
Atores famosos: Angelo Beolco, de Pádua, Ruzzante e o discípulo
Andrea Calmo, de Veneza – pesquisa dos dialetos italianos
Alberto Ganassa, de Bégamo, Arlequim na Corte francesa
Flamínio Scala, dos Gelosi, enamorado Flávio
Francesco e Isabella Andreini, preferida de Henrique III
Domenico Dominique Biancolelli, Arlequim
Pietro Antonio Caracciola, de Piemonte
Nicolo Campan, de Siena
Anton Francesco Grazziani. Il Lasca
Tibério Fiorilli, Sacaramouche, o mestre de Moliére:
“Comediante de reis e rei dos comediantes”
I Gelosi: “Comédiens du Roi” Luiz XIV
Famílias de comediantes transmitiam a arte (técnica e disciplina) de
geração em geração: coleção de gestos corporais, expressões faciais e
mímica -> atuação = improvisação
Tradição do improviso herdada dos mimos ambulantes:
Adaptação ao lugar onde se apresentavam
Raiz popular x teatro literário dos humanistas
Fonte - festejos carnavalescos: máscaras, figurinos e acrobacias
Esquemas ou roteiros (x texto escrito)
Palco improvisado (x edifício ou sala teatral) em qualquer hora e lugar
Público de rua, desordenado e livre, falante e distraído
Estilo direto e rápido e sensível ao público: virtuose construída
Despersonalização da voz e dos gestos
Treino diário e estudo de música, dança, mimo, esgrima, circo e mágica
Elenco: c. 8 atores especializados em de 10 a 12 personagens = tipos
Diretor de cena: corago
Lazzi e canovaccio inspirados na comédia antiga, mistura de erros
Ator > poeta dramático
TIPO (personagem único de um ator)
Arlequim Criado esperto e ingênuo, produz a confusão que resolve, de
Bérgamo, meia máscara preta de testa alta, roupa de remendos coloridos,
um, zanno como outros criados do seu círculo de zanni: Pulcinella:
França -> Polichinelo, Inglaterra -> Punch,
Rússia -> Petruschka, Alemanha -> fusão com Kasperl
Outros criados
Brighella De briga, criado intriguista, de Bérgamo também
Polichinelo De Nápoles, sentimental, guloso, preguiçoso, tem 2 pais (das
atelanas: antigas farsas romanas), vestes brancas, cantor
Colombina Esmeraldina, Coralina, Diamantina, buscava ascensão social,
Alguns outros personagens
Pantaleone Velho mercador de Veneza, barba longa vermelha, avarento
negociante com poder sobre os aristocratas por causa dos empréstimos
Dottore Formado em Bolonha, médico ou advogado, veste preto, carrega
livros, discussões longas com Pantaleão, falseia erudição
Capitán Italiano, espanhol ou francês, mentiroso, covarde, se gaba de
suas façanhas bélicas, apaixonado por muitas princesas
Pedrolino Valete amoroso -> pierrô francês
Innamorati Enamorados, pares de jovens românticos sem máscaras,
inquietos, ridículos, linguagem aprimorada, modo de ser > personalidade
Máscaras -> corpo e atuação: mímica ~ dança com coreografia,
faz peripécias, truques e efeitos pré-ensaiados = lazzi
Ator constrói e premedita seu trabalho e repercussão, a fala vem da ação:
naturalidade <-> fantasia, virtuosismo <-> espontaneidade
Primeiro grande momento do ator na história do teatro europeu
Sua arte chega a Chaplin
Improviso por exercícios preparatórios
Zibaldoni = libretos, chega ao teatro de rua de hoje
Efeitos memorizados, modificados e aprimorados, de pai para filho
Arte popular italiana que se internacionaliza
Na França, sucesso e melhor posição social em cias teatrais do
Théâtre Français no Hotel de Bourgogne,
Théâtre Marais do ator Mondory e a Comédia italiana de Molière
Gramellot: língua inventada da Commedia dell’Arte
Franca Rame e Dario Fo (1926-2016) Nobel 1997, Manual Mínimo
do Ator
https://www.youtube.com/watch?v=ySAb8MTtLKw

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