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O Mediterrâneo

e o Mundo Mediterrâneo
na Época de Felipe II
Uma obra de Fernand Braudel

Seminário apresentado por Victor Toledo


12/05/2021
Fernand Braudel
(1902 – 1985)

“Amei apaixonadamente o mediterrâneo. Consagrei com alegria longos anos


de estudos – bem mais que toda minha juventude. Em compensação, espero
que um pouco dessa alegria e muito de sua luz iluminem as páginas deste
livro... Creio que o mar, tal como o vemos e amamos, continua sendo o mais
suntuoso documento sobre a vida passada.”
Fernand Braudel
 Francês, nasceu em 1902, na região da Lorena;

 Licenciado em Letras (1921), na Faculté des


Lettres de Paris, da Universidade de Sorbonne e
posteriormente torna-se professor de História em
1923;

 Lecionou em uma escola na Argélia (1923-1932),


enquanto trabalhava na elaboração de sua tese
sobre Filipe II da Espanha e o Mediterrâneo;

 Integrou um grupo de intelectuais franceses (1933-


1935) que colaborou na organização da
Universidade de São Paulo, onde foi professor de
Professores da missão francesa 1935 à 1937;
(Foto: Divulgação/ Agência Estado USP/CCS/
DVIDSON/Argus Documentação)
Fernand Braudel

 Passou quase toda a Segunda Guerra Mundial preso em um campo de concentração em Lübeck,
na Alemanha, onde conclui a redação de sua tese, apresentada (1947) e publicada dois anos
depois (1949);

 Em 1949, Braudel foi eleito para o "Collège de France" diante da aposentadoria de Febvre;

 Aposentou-se em 1968;

 Em 1983 foi eleito para a "Académie française“;

 Fernand Braudel foi fundamental para uma renovação nos métodos historiográficos e, como
Historiador, se destacou como um dos maiores intelectuais do século XX. Sua brilhante carreira
se encerrou na cidade de Cluses, quando faleceu no dia 27 de novembro de 1985.
PRINCIPAIS OBRAS

O Mediterrâneo
e o Mundo
Mediterrâneo
na Época de Felipe
II (1923 – 1949)

Identidade da
França (1970-1985)
Civilização e
Capitalismo (19
55-1979)
Fernand Braudel e a Escola dos Annales

 A primeira geração, liderada por Marc Bloch e Lucien Febvre, compreende o período entre 1929
e 1946.

 A segunda geração (1946-1968) dos Annales foi protagonizada por Fernand


Braudel que sucedeu Febvre como diretor efetivo da revista. Para o autor, a
contribuição especial do historiador às ciências sociais é a consciência de que
todas as ‘estruturas’ estão sujeitas a mudanças, mesmo que lentas. Braudel
teve grande importância para a inovação no conceito de tempo e da geo-
história. Como afirma Braudel, “a história é filha do seu tempo”.
O TEMPO PARA BRAUDEL

 A descoberta da longa duração

 Foi buscando além dos acontecimentos que o autor descobriu a longa duração. O conceito é a

ideia fundamental do livro.

 Diante do desafio de olhar e de entender esse cosmo geográfico que é o Mediterrâneo, composto

dos muitos mediterrâneos que os homens construíram ao longo da história, e buscando traduzi-lo

para a linguagem dos historiadores, Braudel terminou elaborando seu esquema das três

temporalidades ou durações diferenciais na história.


O Mediterrâneo e o Mundo Mediterrâneo
na Época de Felipe II
INTRODUÇÃO

 O livro é uma tese historiográfica que retrata a região do Mediterrâneo na segunda


metade do século XVI e divide-se em três partes, sendo cada um, uma tentativa de
explicação do conjunto da obra:

 A política, cujo tempo é curto. (Terceira parte)

 As economias e civilizações, de tempo médio. (Segunda parte)

 Estruturas geográficas de longa duração. (Primeira parte)


PRIMEIRA PARTE: A PARTE DO MEIO

 BRAUDEL E SUA RELAÇÃO COM A GEOGRAFIA:

 Há um equilíbrio entre uma geografia que determina o estilo de vida e outra que permite
diferentes formas de sociedades num mesmo ambiente geográfico. (Fredrich Ratzel X
Vidal de La Blache)

 “A geografia, nesse caso, deixa de ser um objetivo em si para se tornar um meio. Ela ajuda
a encontrar as mais lentas das realidades estruturais, a organizar uma perspectiva segundo
linhas de fuga de duração mais longa.” (p. 75)
MAR MEDITERRÂNEO SEGUNDO
BRAUDEL

Fonte: https://earth.google.com/web/search/Mar+Mediterr%c3%a2neo/@36.60136906,20.52649226,
Capítulo I. AS PENÍNSULAS: MONTANHAS, PLANALTOS E PLANÍCIES.

 “As cinco planícies do Mar Interior se parecem.


Levando-se em conta seu relevo, elas se dividem
regularmente entre montanhas, amplos planaltos
e algumas planícies,.” (p. 77)

 Mesmo no plano da história, essa fragmentação e


essa reclassificação trarão alguns esclarecimentos.
1. EM PRIMEIRO LUGAR, AS MONTANHAS

 “O Mediterrâneo não será, antes de tudo, um mar entre montanhas? É importante enfatizar
esse ponto no plano da história, pois frequentemente deixamos de observar o fato e suas
consequências, que são numerosas.” (p. 77)

 “Montanhas constituem o “esqueleto”: um esqueleto incômodo, desproporcional,


onipresente e que perfura a pele a seu redor.” (p.79)
EM PRIMEIRO LUGAR, AS MONTANHAS

 “Quem não conhece também aquelas neves atrasadas no auge do verão que,
segundo um viajante, “dão frio aos olhos”? Elas riscam com traços brancos o cume
de uma montanha, enquanto Granada, a seus pés, desfalece estarrecida pelo calor.”
(p.80)

 “No coração do quente Mediterrâneo, essas regiões de neve são de uma


originalidade formidável. Graças a mobilidade de suas populações e às próprias
características físicas, elas se impõem à planície, às orlas marítimas e às
organizações sociais.” (p.82)
EM PRIMEIRO LUGAR, AS MONTANHAS

 Definição de montanha para Braudel:

 Descrição meramente geográfica é inútil;

 Necessidade de inserir limites humanos, incertos, difíceis de descrever


nos mapas.

 Cada montanha tem suas características, “existem numerosas montanhas


que constituem exceção à regra de pobreza e de vazio”. (p.84)
EM PRIMEIRO LUGAR, AS MONTANHAS

 Montanhas, civilizações e religiões:

 “A montanha é habitualmente um mundo afastado das civilizações, essas


criações das cidades e regiões baixas. Sua história é não tê-las, é permanecer
regularmente à margem das grandes civilizações que, no entanto, passam
lentamente.” (p.87)

 “ Assim se desenha uma geografia religiosa específica do mundo montanhês,


que deve ser constantemente tomado, conquistado e reconquistado.” (p.89)
EM PRIMEIRO LUGAR, AS MONTANHAS

 A Liberdade Montanhesa:

 “Montanha é montanha. Isto é, um obstáculo. E ao mesmo tempo um abrigo, uma região


para homens livres.” (p.93)

 Recursos da Montanha:

 “A montanha Mediterrânea se abre para as estradas e pode-se andar por essas estradas, cujo
poder se estende às regiões altas.” (p.95)

 “Não é porque possua escassos recursos: não há montanha que não tenha terras aráveis no
fundo dos vales, em terraços abertos nas encostas.” (p.96)
2. PLANALTOS, ENCOSTAS E COLINAS

 “Os planaltos são como extensas e altas planícies expostas, de solo seco, ao
menos no Mediterrâneo, portanto de solo duro, com raras interrupções fluviais.
Esses planaltos estão intensamente cruzados por estradas [...] Em todo caso,
tiveram um papel importante pelo simples fato, já por si só considerável, de que
essas regiões eram espaços de estrada.” (p.109)
3. As Planícies

 “Com mais facilidade nos enganaríamos quanto ao papel da planície no


Mediterrâneo. Com efeito, a palavra montanha evoca desde logo austeridade,
rudeza, atraso, dispersão de populações. Já a palavra planície nos lembra
abundância, facilidade, riqueza, vida agradável. Na época que estudamos, em se
tratando dos países mediterrâneos, essas palavras podem enganar quem as
escuta.” (p.116)
AS PLANÍCIES

 Os Problemas da Água: A Malária

 “Não faremos a lista de todas as planícies que, no século XVI, ainda não prosperaram. A
prosperidade supõe esforços contínuos e a solução de um problema duplo, se não triplo.”
(p.118)

 As inundações;
 As doenças, principalmente a Malária;
 Drenagem das águas.
AS PLANÍCIES

 A Melhoria das Planícies:

 “Assim como a Europa setentrional se formou ou pelo menos se expandiu à custa das florestas,
o Mediterrâneo foi encontrar nas planícies suas terras novas, suas Américas interiores. Já no
século XV, e durante todo o século XVI, várias melhorias estão em curso com os minguados
recursos à disposição: fossos, canais e bombas de baixo rendimento.” (p. 126)

 “Qualquer planície submetida à grande cultura torna-se uma potência econômica e humana,
uma força...” (p.146)
4. Transumância ou Nomadismo: Dois Mediterrâneos

 Conceito para a Geografia:

 Transumância: nesse tipo de migração, um grupo de pessoas muda de cidade, estado ou


país por um determinado período, geralmente alguns meses, e continua tendo como
referência de moradia o local de origem.

 Nomadismo: apesar de ser muito rara na atualidade, essa modalidade de migração é


caracterizada pela ausência de fixação permanente. As pessoas nômades mudam de lugar
periodicamente e não estabelecem moradia fixa em nenhum lugar.
Transumância ou Nomadismo: Dois Mediterrâneos

 As Transumâncias, segundo Braudel:

 “Existem vários tipos de transumância, em primeiro lugar há a transumância ‘normal’:


proprietários e pastores são, nesse caso, gente da planície. Nessa operação, a função da
montanha é apenas a de providenciar espaço.” (p.147)

 “A transumância ‘inversa’ é uma descida de inverno, tumultuada. Animais e pastores, ao


fugir da montanha demasiado fria, atingem terras baixas como um exército entrando em
país conquistado.” (p.148)
Transumância ou Nomadismo: Dois Mediterrâneos

 O Nomadismo

 “O nomadismo, pelo contrário, arrasta tudo consigo e através de imensas distâncias:


pessoas, animais e até casas. Seus rebanhos, mesmo quando são grandes, se diluem em um
espaço imenso, em grupo por vezes muito pequenos.” (p.150)
Segundo Elli Muller, em Peterman’s Mitteilungen, 1938. (p.162 e 163)
CICLOS MAIS QUE SECULARES

“A observação geográfica do longo prazo nos leva ao conhecimento


das mais lentas oscilações que a história conhece” (p.167)

Referências:

 Braudel, Fernand. O Mediterrâneo e o Mundo Mediterrâneo na Época de Felipe II:


Volume I – São Paulo, Editora da Universidade de São Paulo, 2016;
 Braudel, Fernand. Minha formação de historiador. Escritos sobre la Historia. Madrid:
Alianza, 1991.