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Lógica Proposicional - H

9. Inferências válidas (e inválidas)


O nosso pensamento obedece a esquemas
mentais.
A lógica permite-nos estudar as regras a que
esses esquemas mentais.
Por isso, os argumentos válidos (e inválidos).
São o objeto de estudo da lógica.
Formas de inferência válidas (e inválidas)

- Contraposição;
- Leis de De Morgan: lei da negação da
conjunção e lei da negação da disjunção;
- Silogismo disjuntivo;
- Silogismo hipotético;
- Modus ponens (e falácia do modus
ponens – inválido);
- Modus tollens (e falácia do modus
tollens/inválido).
A contraposição

A contraposição (CONTRA) designa uma


forma de argumentar válida em que a
premissa é um condicional e a conclusão o
mesmo condicional, com as posições do
antecedente e consequente trocadas.

Formas da contraposição:
P→Q ou ¬Q → ¬P
 ¬Q → ¬P P→Q
Exemplo de uma contraposição:
Se é um furacão, então tem uma forma em
espiral. P→Q
Logo, se não tem uma forma em espiral, então
não é um furacão.  ¬Q → ¬P
Aplicação do inspetor de circunstâncias ao
argumento P → Q  ¬Q → ¬ P.
P Q P→Q ⊨ ¬Q → ¬P
V V V F V F
V F F V F F
F V V F V V
F F V V V V

Conclusão:
A premissa P → Q é equivalente
à conclusão ¬Q → ¬P.
Outro exemplo de uma contraposição:
Se não navega com o vento, então não é um
barco à vela. ¬Q → ¬P
Logo, se é um barco à vela, então navega com
o vento. P→Q
Aplicação do inspetor de circunstâncias ao
argumento ¬Q → ¬P P → Q.
P Q ¬Q → ¬P ⊨P→
Q
V V F V F V
V F V F F F
F V F V V V
F F V V V V
Conclusão:
A premissa ¬Q → ¬P é equivalente
à conclusão P → Q.
Exercício:
Identifique as contraposições
(válidas) entre os enunciados.
1. Se é pão então é cozido. Logo, se não é cozido
então não é pão. C
2. Se é professor então dá aulas. Logo, se não é
professor então não dá aulas. X
3. Se não tem 31 então não é janeiro. Logo, é
janeiro se e somente se tem 31 dias.
X
4. Se é peixe então vive na água. Logo, se não vive
na água então não é peixe. C
5. Se não pensa então não é filósofo. Logo, se é
filósofo então pensa. C
6. Se não copio no teste então o professor não
descobre. Logo, se o professor descobre então não
copio no teste. X
Leis de De Morgan

August De Morgan (1806-1871) foi um


matemático e lógico britânico.

As leis de De Morgan (DeM) são equivalências


lógicas pois permitem transformar:
- as conjunções em disjunções (lei da negação
da conjunção);
- as disjunções em conjunções (lei da negação
da disjunção).
Lei da negação da conjunção

A negação de uma conjunção é equivalente à


disjunção das negações das suas proposições
ou argumentos.

Proposição:
Argumento:
¬ (P ∧ Q) ⇔ ¬ P ∨ ¬Q
¬ (P ∧ Q)
¬ P ∨ ¬Q
Lei da negação da conjunção

Exemplo:
É falso que seja um animal selvagem e um
animal domesticado. ¬ (P ∧ Q)
Logo, não é um animal selvagem ou não é um
animal domesticado.  ¬P∨
¬Q
Lei da negação da conjunção

P Q ¬ (P ∧ Q)  ¬P ∨ ¬Q
V V F V F F F
V F V F F V V
F V V F V V F
F F V F V V V
Lei da negação da disjunção

A negação de uma disjunção é equivalente à


conjunção das negações das suas proposições
ou argumentos.

Proposição: Argumento:
¬ (P ∨ Q) ⇔ ¬P ∧ ¬Q ¬ (P ∨ Q)
 ¬P ∧ ¬Q
Lei da negação da disjunção

Exemplo:
É falso que seja um peixe ou que seja um
animal terrestre. ¬ (P ∨ Q)
Logo, não é um peixe e não é um animal
terrestre.  ¬P∧
¬Q
Lei da negação da conjunção

P Q ¬ (P ∨ Q)  ¬ P ∧ ¬Q
V V F V F F F
V F F V F F V
F V F V V F F
F F V F V VV
Exercício:
Identifique os argumentos válidos
segundo as leis de De Morgan entre
os enunciados.
1. É falso que há pão e água. Logo, não há pão e
não há água. X
2. Não é verdade que é inglês ou francês. Logo,
não é inglês e não é francês.C
3. Não é verdade que oiço música ou danço. Logo,
não oiço música ou não danço. X
4. É falso que chove e há Sol. Logo, não chove ou
não há Sol.
C
O silogismo disjuntivo

O silogismo disjuntivo (SD) designa uma


forma de argumentar válida em que a primeira
premissa é uma disjunção, a segunda premissa
a negação de um dos disjuntos e a conclusão a
afirmação do outro.

Formas do silogismo disjuntivo:


P∨Q P∨Q
¬P ou ¬Q
Q P
Exemplo de um
silogismo disjuntivo:

É uma árvore ou é
uma flor. P∨Q
Não é uma árvore. ¬P
Logo, é uma flor. Q
Aplicação do inspetor de circunstâncias ao
argumento P ∨ Q, ¬P  Q.
P Q P ∨ Q ¬P ⊨Q
V V V F V
V F V F F
F V V V V
F F F V F

Conclusão: O argumento P ∨ Q, ¬P  Q é válido


(há uma linha na qual as premissas são
verdadeiras e a conclusão também o é).
Outro exemplo de
um silogismo
disjuntivo:

É uma casa ou é
uma escola. P∨Q
Não é uma escola. ¬Q
Logo, é uma casa. P
Aplicação do inspetor de circunstâncias ao
argumento P ∨ Q, ¬Q  P.
P Q P ∨ Q ¬Q ⊨P
V V V F V
V F V V V
F V V F F
F F F V F

Conclusão: O argumento P ∨ Q, ¬Q  P é válido


(há uma linha na qual as premissas são
verdadeiras e a conclusão também o é).
O silogismo hipotético

O silogismo hipotético (SH) designa uma forma


de argumentar válida formada por três
proposições condicionais e construída a partir de
três variáveis, disposta na sequência seguinte:

P→Q
Q→R
P→R
Exemplo de um
silogismo hipotético:

Se é um pinheiro,
então é uma árvore. P→Q
Se é uma árvore, então
é um ser vivo. Q→R
Logo, se é um pinheiro,
então é um ser vivo. P→R
Aplicação do inspetor de circunstâncias ao
argumento P → Q, Q → R,  P → R.
P Q R P→Q Q→R ⊨ P→
R
V V V V V V
V V F V F F
V F V F V V
V F F F V F
F V V V V V
F V F V F V
F F V V V V
F F F V V V
Conclusão: O argumento P → Q, Q → R,  P → R. é válido (nas linhas
nas quais as premissas são verdadeiras, a conclusão também é
verdadeira).
Exercício A:
Identifique os argumentos seguintes:

Respostas possíveis:
- Contraposição;
- Lei de De Morgan da negação da conjunção;
- Lei de De Morgan da negação da disjunção;
- Silogismo disjuntivo;
- Silogismo hipotético.
1. Se mr. Bean não nos faz rir, então não é humorista.
Logo, se mr. Bean é humorista, então faz-nos rir.

2. Os ABBA foram populares na década de 90 ou foram


populares na década de 70. Como não foram populares na
década de 90, consequentemente foram populares na
década de 70.

3. Se Picasso é pintor, então pinta quadros. Por


conseguinte, se Picasso não pinta quadros, então não é
um pintor.

4. É falso que Elvis está vivo ou se escondeu no Brasil.


Assim sendo, Elvis não está vivo e não se escondeu no
Brasil.
5. Se Beethoven nasceu na cidade de Bonn então
nasceu na Alemanha. Se nasceu na Alemanha, então
nasceu na Europa. Conclui-se que se Beethoven
nasceu na cidade de Bonn então nasceu na Europa.

6. Fernando Pessoa escreve poemas ou compõe


músicas. Dado que Fernando Pessoa não compõe
músicas, logo Fernando Pessoa escreve poemas.

7. Não é verdade que Obama é o atual presidente do


EUA e vive na Casa Branca. Portanto, Obama não é
presidente do EUA ou Obama não vive na Casa
Branca.
1. Se mr. Bean não nos faz rir, então não é
humorista. Logo, se mr. Bean é humorista,
então faz-nos rir.

Dicionário
P: Mr. Bean é humorista.
Q: Mr. Bean faz-nos rir.

Formalização:
¬Q → ¬P
\ P→Q

Tipo de inferência:
Contraposição
2. Os ABBA foram populares na década de 90 ou foram
populares na década de 70. Como não foram populares na
década de 90, consequentemente foram populares na
década de 70.
Dicionário
P: Os ABBA foram populares na
década de 90.
Q: Os ABBA foram populares
na década de 70.
Formalização:
P∨Q
¬P
Q
Tipo de inferência:
Silogismo disjuntivo
3. Se Picasso é pintor, então pinta quadros. Por
conseguinte, se Picasso não pinta quadros, então
não é um pintor.
Dicionário
P: Picasso é pintor.
Q: Picasso pinta quadros.

Formalização:
P→Q
\ ¬Q → ¬P

Tipo de inferência:
Contraposição
4. É falso que Elvis esteja vivo ou se escondeu no
Brasil. Assim sendo, Elvis não está vivo e não se
escondeu no Brasil.
Dicionário
P: Elvis está vivo.
Q: Elvis escondeu-se no
Brasil.
Formalização:
¬ (P ∨ Q)
\ ¬P ∧ ¬Q

Tipo de inferência:
Lei de De Morgan da
negação da disjunção
5. Se Beethoven nasceu na cidade de Bonn então nasceu
na Alemanha. Se nasceu na Alemanha, então nasceu na
Europa. Conclui-se que se Beethoven nasceu na cidade de
Bonn então nasceu na Europa.
Dicionário
P: Beethoven nasceu na cidade de
Bonn.
Q: Beethoven nasceu na Alemanha.
R: Beethoven nasceu na Europa.
Formalização:
P→Q
Q→R
\ P→R
Tipo de inferência:
Silogismo hipotético
6. Fernando Pessoa escreve poemas ou compõe músicas.
Dado que Fernando Pessoa não compõe músicas, logo
Fernando Pessoa escreve poemas.
Dicionário
P: Fernando Pessoa
escreve poemas.
Q: Fernando Pessoa
compõe músicas.
Formalização:
P∨Q
¬Q
\ P
Tipo de inferência:
Silogismo disjuntivo
7. Não é verdade que Obama é o atual presidente do
EUA e vive na Casa Branca. Portanto, Obama não é
presidente do EUA ou Obama não vive na Casa Branca.
Dicionário
P: Obama é o atual presidente
do EUA.
Q: Obama vive na Casa Branca.
Formalização:
¬ (P ∧ Q)
¬ P ∨ ¬Q
Tipo de inferência:
Lei de De Morgan da negação
da conjunção
O modus ponens

O modus ponens é um forma argumentativa


na qual a primeira premissa é uma proposição
condicional, a segunda premissa afirma a
condição ou antecedente e a conclusão afirma
o condicionado ou consequente.
Forma do modus ponens:

P→Q
P
Q
Exemplo de um
argumento modus
ponens:

Se é janeiro, então
o mês tem 31 dias. P→Q
É janeiro. P
Logo, o mês tem 31
dias. Q
Aplicação do inspetor de circunstâncias ao
argumento P → Q, P  Q.

P Q P→Q P ⊨Q
V V V V V
V F F V F
F V V F V
F F V F F

Conclusão: O argumento P → Q, P  Q é válido


(há uma linha na qual as premissas são
verdadeiras e a conclusão também o é).
A Falácia do modus ponens ou
Falácia da afirmação do consequente
A falácia do modus ponens é um forma
argumentativa inválida na qual a segunda
premissa afirma o condicionado ou
consequente e a conclusão afirma a condição
ou antecedente.
Forma da falácia modus ponens:

P→Q
Q
P
Exemplo de uma
falácia do modus
ponens:

Se é maio, então
é primavera. P→Q
É primavera. Q
Logo, é maio. P

Inválido
Aplicação do inspetor de circunstâncias ao
argumento P → Q, Q  P.

P Q P→Q Q ⊨P
V V V V V
V F F F V
F V V V F
F F V F F

Conclusão: O argumento P → Q, Q  P é inválido


(há uma circunstância em que as premissas são
verdadeiras e a conclusão é falsa).
No modus ponens podemos encontrar
também a negação na premissa maior:

Inferência ¬P → Q P → ¬Q ¬P → ¬Q
válida ¬P P ¬P
Q  ¬Q  ¬Q
Inferência ¬P → Q P → ¬Q ¬P → ¬Q
inválida Q ¬Q ¬Q
 ¬P P  ¬P
Exercício: B
Formalize e determine a validade dos
argumentos.
Nº Argumento Formalização Validade
1. Se está chovendo então o avô não sai P → ¬Q Inválido
de casa. ¬Q
O avô não sai de casa. P
Logo, está chovendo.
2. Se não há farinha em casa então a mãe ¬P → ¬Q Inválido
não faz um bolo.
A mãe não faz um bolo.
Logo, não há farinha em casa. ¬Q

 ¬P
3. Se o gato passa no muro então o cão P → Q Válido
ladra. P
O gato passa no muro. Q
Logo, o cão ladra.
Nº Argumento Formalização Validade
4. Se é fim de semana então não há P → ¬Q Válido
aulas. P
É fim de semana.  ¬Q
Logo, não há aulas.
5. Se não faço compras então não gasto ¬P → ¬Q Válido
dinheiro.
Não faço compras.
Logo não gasto dinheiro. ¬P

 ¬Q
6. Se é Janeiro então é um mês com 31 P→Q Inválido
dias. Q
É um mês com 31 dias- P
Logo, é janeiro.
Nº Argumento Formalização Validade
7. Se o professor não falta então temos ¬P → Q Válido
aula. ¬P
O professor não falta. Q
Logo, temos aula.
8. Se não há café então bebo chá. ¬P → Q Inválido
Bebo chá. Q
Logo, não há café.  ¬P
O modus tollens

O modus tollens é um forma argumentativa


na qual a primeira premissa é uma proposição
condicional, a segunda premissa nega o
condicionado ou consequente e a conclusão
nega a condição ou antecedente.
Forma do modus tollens:

P→Q
¬Q
 ¬P
Exemplo de um
argumento modus
tollens:

Se é julho, então
é verão. P→Q
Não é verão. ¬Q
Logo, não é julho. ¬P
Aplicação do inspetor de circunstâncias ao
argumento P → Q, ¬Q  ¬P.

P Q P→Q ¬Q ⊨ ¬P
V V V F F
V F F V F
F V V F V
F F V V V

Conclusão: O argumento P → Q, ¬Q  ¬P é
válido (não há uma circunstância em que as
premissas são verdadeiras e a conclusão é falsa).
A Falácia do modus tollens ou
Falácia da negação do antecedente
O modus tollens é um forma argumentativa
na qual a primeira premissa é uma proposição
condicional, a segunda premissa nega a
condição ou antecedente e a conclusão nega a
condicionado ou consequente.
Forma do modus tollens:

P→Q
¬P
 ¬Q
Exemplo de uma
falácia do modus
tollens:

Se é novembro,
então é outono. P→Q
Não é novembro. ¬P
Logo, não é
outono.  ¬Q

Inválido
Aplicação do inspetor de circunstâncias ao
argumento P → Q, ¬P  ¬Q.

P Q P→Q ¬P ⊨ ¬Q
V V V F F
V F F F V
F V V V F
F F V V V

Conclusão: O argumento P → Q, ¬P  ¬Q é
inválido (há uma circunstância em que as
premissas são verdadeiras e a conclusão é falsa).
No modus tollens podemos encontrar
também a negação na premissa maior:

Inferência ¬P → Q P → ¬Q ¬P → ¬Q
válida ¬Q Q Q
P  ¬P P
Inferência ¬P → Q P → ¬Q ¬P → ¬Q
inválida P ¬P P
 ¬Q Q Q
Exercício: C
Formalize e determine a validade dos
argumentos.
Nº Argumento Formalização Validade
1. Se está chovendo, então não há aula P → ¬Q Válido
de educação física no campo. Q
Há aula de educação física no campo.  ¬P
Logo, não está chovendo.
2. Se como chocolate, então tenho P→Q Inválido
alergia.
Não como chocolate. ¬P
Logo, não tenho alergia.

¬Q
3. Se não durmo bem então não ¬P → ¬Q Inválido
raciocino bem. P
Durmo bem. Q
Logo, raciocino bem.
Nº Argumento Formalização Validade
4. Se a Leónia não veste o casaco então ¬P → Q Inválido
fica com frio. P
A Leónia veste o casaco.  ¬Q
Logo, a Leónia não fica com frio.
5. Se não há pão em casa não comemos ¬P → ¬Q Válido
sandes. Q
Comemos sandes. P
Logo, há pão em casa.

6. Se passeio então sinto-me bem. P→Q Válido


Não me sinto bem.
Logo, não passeio. ¬Q

 ¬P
Nº Argumento Formalização Validade
7. Se o autocarro atrasa então não sou P → ¬Q Inválido
pontual à aula. ¬P
O autocarro não atrasa. Q
Logo, sou pontual à aula.

8. Se ele não é estrangeiro então é ¬P → Q Válido


português. ¬Q
Ele não é português. P
Logo, ele é estrangeiro.
Silogismo Formalização
Quadro Contraposição P→Q ¬Q → ¬P
 ¬ Q → ¬P P→Q
das formas Leis de De Da conjunção Da disjunção
de Morgan da ¬ (P ∧ Q) ¬ (P ∨ Q)
negação ¬ P ∨ ¬Q  ¬P ∧ ¬Q
inferências
Silogismo P∨Q P∨Q
válidas (e disjuntivo ¬P ¬Q
inválidas) Q P
Silogismo P→Q
hipotético Q→R
P→R
Modus ponens Válido Falácia
P→Q P→Q
P
Q
Q
P
X
Modus tollens Válido Falácia
P→Q P→Q
¬Q
 ¬P
¬P
 ¬Q X

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