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Processo do

adoecimento, morte e
luto no sistema familiar
Profa. Dra. Patrícia Melo do Monte
O SISTEMA FAMILIAR
• A concepção de família hoje, do ponto de vista do
desenvolvimento, é, sem dúvida, sistêmica;
• A família não deve ser vista mais como um conjunto de
díades separadas;
• Dentro do sistema familiar, há numerosas relações
recíprocas, exigências de papéis e expectativas;
• O grau relativo de influência que um exerce sobre o
outro variará com a tarefa, o contexto, o estágio de
desenvolvimento e uma quantidade imensa de variáveis
históricas e de atitudes (PARKE, POWER E GOTTMANN,
1979) 
O SISTEMA FAMILIAR
• Como os subsistemas são interdependentes, as relações
genitores-criança e cônjuge-cônjuge estão intimamente
entrelaçadas e as evidências empíricas, teóricas e clínicas
apoiam a suposição de que um relacionamento positivo entre
o casal está ligado a características positivas no
relacionamento dos genitores com a criança (GOLDBERG E
EASTERBROOKS, 1984);
• O apoio da rede social (amigos, vizinhos e parentes próximos)
também exerce um impacto benéfico sobre as relações
familiares; no entanto, parece haver consenso na literatura de
que as relações maritais constituem fonte principal de apoio à
mãe (BRONFENBRENNER, 1986);
O SISTEMA FAMILIAR
• Comparando o apoio dos maridos com o apoio
derivado de outras relações íntimas, verifica-se
que, para a maioria das mães, o apoio é fornecido,
primeiro, por suas relações com o marido; segundo,
por suas relações com sua própria mãe; e,
finalmente, por um ou dois amigos ou membros
familiares como o pai, sogro e/ou sogra (LEVITT E
COIS, 1986).
O SISTEMA FAMILIAR
a) o sistema familiar é composto por vários
subsistemas: mãe-filho/a, pai-filho/filha, irmão-
irmão;
b) as relações desenvolvidas entre eles são únicas;
c) os processos pelos quais os padrões relacionais
são estabelecidos, mantidos e como eles mudam
em cada um dos subsistemas precisam ser
comparados;
d) os subsistemas são interdependentes e, para
compreendê-los, faz-se necessário considerar todos
os subsistemas componentes da família;
O SISTEMA FAMILIAR
e) as transições no desenvolvimento de qualquer
membro da família constituem desafio para o
sistema inteiro. Tais transições, quer sejam elas
normativas, como a entrada na escola, puberdade e
casamento ou não normativas, como doenças,
divórcio e mudanças, frequentemente servem como
um impulso direto para mudanças no
desenvolvimento que, por sua vez, afetam os
processos familiares (SCHAFFER, 1986).
O CICLO DE VIDA
FAMILIAR
A FAMILIA COMO UNIDADE DE
ANÁLISE
• Considerar a família como unidade de análise significa
vê-la, primeiramente, como um grupo e, como tal, com
seu próprio curso de desenvolvimento, tendo que
realizar uma série de tarefas desenvolvimentais ao
longo do tempo (KREPPNER, 1991);

• As mudanças no sistema familiar: o período de


expansão familiar, o adoecimento de um membro, a
morte... afetam cada um de seus membros de forma
distinta, especialmente as suas relações interpessoais.
AS PERDAS NO CICLO DE
VIDA
• Cada mudança de etapa no ciclo de vida de uma
família gera uma necessidade de adaptação e
transformação nas relações entre os seus membros, a
partir das tarefas a serem cumpridas em cada estágio
de desenvolvimento;

• Esse movimento de perdas consideradas naturais


permite que a família mantenha sua continuidade e o
crescimento de seus integrantes ao mesmo tempo;
O SISTEMA FAMILIAR
• Quando as famílias têm dificuldades na
adaptação, inerentes às diferentes etapas do
ciclo, podem instalar-se “crises de
desenvolvimento”;

• Caracterizam-se por serem universais e


previsíveis, gerando alterações na função
familiar e problemas nos seus membros;
AS PERDAS NO CICLO DE
VIDA
• Nessa transição entre as etapas, a família pode
também experimentar processos de luto por perdas
significativas, não naturais, que surgem
inesperadamente, como o luto de um bebê;

• Em qualquer tipo de perda, Carter e McGoldrick (2001)


ressaltam que todos os membros da família são
afetados, cada qual à sua maneira, havendo
afastamentos, realinhamentos, mudança de papéis,
novas exigências e tarefas, entre outras dificuldades
que podem levar à disfuncionalidade na família,
manifestando-se das mais diferentes maneiras.
O ADOECIMENTO DE UM
MEMBRO DA FAMÍLIA

• Quando um membro da família é hospitalizado ou


fica doente, o equilíbrio e os papéis ocupados por
cada um são afetados;
• A doença grave pode precipitar a desestruturação
familiar e fazer eclodir antigos conflitos;
• Reorganização dos papeis;
• Os cuidados com o membro doente;
• O medo da perda.
ASPECTOS EMOCIONAIS DA FAMÍLIA

• Oliveira, Voltarelli; Santos; Mastropietro (2005) ressaltam que a


família merece um cuidado especial desde o instante da
comunicação do diagnóstico;

• A notícia das impossibilidades terapêuticas provoca enorme


impacto sobre os familiares, que veem seu mundo desabar após a
descoberta de que uma doença potencialmente fatal atingiu um
dos seus membros;

• Isso faz com que, em muitas circunstâncias, suas necessidades


psicológicas excedam as do paciente;

• A ansiedade familiar;
ASPECTOS EMOCIONAIS
DA FAMÍLIA
• Considerando as profundas conexões históricas entre
os membros de um sistema familiar, não surpreende
que o ajustamento à morte seja mais difícil que o
ajustamento às outras transições da vida;

• O luto não começa com a morte. Ele já estará sendo


determinado a partir da qualidade das relações
familiares existentes antes dela, pela qualidade dos
vínculos estabelecidos e, também, afetado por
condições atuantes mais próximas à morte
propriamente dita (BROMBERG, 2000)
O IMPACTO SOBRE O SISTEMA
FAMILIAR
• Para Brown (1995), a morte e uma doença grave de
qualquer membro da família rompem o equilíbrio
familiar;

• O grau de ruptura do sistema familiar é afetado por


diversos fatores, sendo os mais significativos: o
contexto social da morte; histórias de perdas
anteriores; momento da morte no ciclo da vida; a
natureza da morte ou da doença grave; a posição e
função da pessoa no sistema familiar; e a abertura do
sistema familiar;
AS PERDAS NA FAMÍLIA
• Perdas passadas e a capacidade familiar de dominá-
las, podem cruzar com uma perda no ciclo atual e
criar um impasse no ciclo da vida – um impasse no
tempo, com a família ficando incapaz em mover-se
em busca de uma resolução;

• Sobre o momento da morte, de um modo geral,


quanto mais tarde no ciclo da vida, menor é o grau
de estresse associado à morte e à doença grave;
AS PERDAS NA FAMÍLIA
• Cada tipo de morte tem implicações na reação e no ajustamento
familiar;

• Sobre a natureza da morte, Brown (1995) fala que, a morte pode ser
esperada ou inesperada, e pode envolver períodos ou não de cuidados;

• As mortes súbitas pegam o indivíduo e/ou a família despreparada. A


família reage em choque. Não há tempo para despedidas ou resoluções
das questões de relacionamentos. Não há nenhum luto antecipatório;

• Nas famílias que estão lidando com a morte ou com a doença terminal,
Brown (1995) descobriu haver uma maior probabilidade de
desenvolvimento de sintomas emocionais e/ou físicos quando seus
membros são incapazes de se relacionarem francamente uns com os
outros em relação à morte.
NA
CONTEMPORANEIDADE...
• A centralidade das mulheres na vida familiar;
• Com a entrada das mulheres no mercado de trabalho,
mudou seu papel familiar;
• "Quem cuidará dos doentes e dos agonizantes;
• Culpa.
A perda de uma pessoa amada é uma das experiências
mais intensamente dolorosas que o ser humano pode
sofrer. É penosa não só para quem a experimenta,
como também para quem a observa, ainda que pelo
simples fato de sermos tão impotentes para ajudar.
(BOWLBY, 2004)
O LUTO ANTECIPATÓRIO
• É o que configura o luto antecipatório, ou seja, um
fenômeno adaptativo no qual é possível, tanto o
paciente como os familiares, prepararem-se
cognitiva e emocionalmente para o acontecimento
próximo, que é a morte;

• Isso causa um desequilíbrio, tanto no sistema


familiar, como em cada pessoa individualmente.
A MORTE
A morte chega em nossa casa, num dia qualquer,
interrompe um projeto, engaveta sonhos, esvazia os
abraços, emudece a voz, silencia os passos. Sua
chegada não pede grandes acontecimentos, se
espreita pelos cantos da casa em horários
corriqueiros – após o jantar, dormindo, antes do
amanhecer, vendo um programa de TV, no meio de
um filme, esperado o almoço de domingo – sem
cerimonias, uma visita certa, mas ainda assim intrusa
(GOUVÊA, 2018, p. 183)
Pouco ajudam frases como “ele está melhor agora” ou “você
tem de ser forte”, simplesmente porque precisamos de tempo
para que o pensamento convença o coração sobre a vida, suas
chegadas e partidas (GOUVÊA, 2018, p. 183).

No tempo do luto, a noite vira dia, o relógio estaciona, os dias


ficam confusos, muito tempo parece pouco e pouco tempo vira
muito – confusão que tem raízes na desobediência do coração
a qualquer ordem que provenha da dor. Queremos que as horas
voem porque não sabemos o que fazer dos costumes, da porta
que não se abre no horário esperado, da roupa deixada nos
cantos da casa, da cadeira vazia, do quarto esperançoso por
cheiros e sons que se perderam para longe dos nossos olhos
(GOUVÊA, 2018, p. 184).
No refazer do que não se desfaz e tecer modos de uso
da dor, tal qual uma colcha de retalhos elaborada dia
após dia, onde amanhecer e anoitecer nos dirão
sobre os dias que passam e as diversas cores da
tristeza e da saudade. De início, amanhecer
lentamente, tendo como projetos de vida pequenos
grandes feitos – arrumar a cama, ferver a agua do
café, estender as roupas no varal e molhar as plantas
do quintal, trazer de volta para os nossos dias os
detalhes, pois neles reside quem somos. Depois,
acalentar a nossa dor, tal qual uma criança que ainda
precisa de colo, aguardando amorosamente que
engatinhe, ande, amadureça e vire saudade
(GOUVÊA, 2018, p. 185).
A MORTE DO FILHO
A MORTE DE UM FILHO

• Embora o processo de conceber, dar à luz e criar os


filhos seja partilhado por praticamente todos os
seres vivos, a experiência humana deste processo
acrescenta muitos elementos de ordem psicológica,
social e de significado. Em várias fases do ciclo vital,
homens e mulheres referem-se ao papel de
conceber e educar os filhos como o centro da sua
existência.
• Perante essa perda, o mundo, antes seguro e
ordenado, é percebido como injusto e
incontrolável;

• Os pais debatem-se com um pensamento


ruminativo do “porquê” da morte do seu filho, na
tentativa de construir um mundo com significado e
descrevem a sensação de ter entrado num mundo
irreal, em que a sua vida não faz sentido (SANDERS,
1999);
• A morte de um filho é sentida e descrita pelos pais
como algo dilacerante. Perde-se o controle sobre o
futuro, planos, expectativas e sonhos e desestabiliza-
se a idealização de realização pessoal que esse filho
estava designado a alcançar;

• Silva (2013, p. 5) salienta que “[...] quando morre um


filho, morre em nós o futuro previsto junto àquele
filho, o sonho de vê-lo profissional, pai de nossos
netos, a pessoa que nos acompanharia até o fim de
nossa vida.”
A MORTE DE UM FILHO
• A morte de um filho, além do desgaste na vida do
casal, leva a um abalo na vida de outros filhos, que
passam a vivenciar a síndrome do sobrevivente;
• Muitas vezes, os irmãos podem passar por
experiências de culpabilidade, além de ter que
conviver coma fragilidade dos pais, e em algumas
situações, se exige protegê-los. Há uma tendência
da família em idealizar o falecido. Para os irmãos
sobreviventes, essa comparação passa a ser
desleal;
• Dos laços formados no seio familiar, o vínculo pais-
filho não é apenas particularmente forte, é também
parte integrante da identidade de muitos pais e filhos
(SANDERS, 1999);

• Há um processo de identificação, em que os pais


revêem-se a si próprios nos seus filhos, em termos de
características físicas e comportamentais.

• Há a questão da “imortalidade”, em que os filhos


assumem grande importância simbólica em termos
de esperança para o futuro dos pais (SANDERS, 1999).
• Além dos sonhos e expectativas que desenvolvem
quando a criança nasce, o futuro é garantido pelos
genes que mantém a linhagem da família. Quando os
filhos morrem, os pais podem sentir que esta
imortalidade foi adulterada, que o seu futuro foi
interrompido ou roubado e os sonhos podem morrer
(SANDERS, 1999);

• Esta morte do futuro parece essencial para a


intensidade das respostas de muitos pais (CHRIST ET
AL., 2003).
• Como continuar a viver diante desse doloroso fato?

• Viorst (2004) relata que a perda de um filho é sentida


como um golpe.
• Com o passar do tempo, os pais começam a
desenvolver a capacidade de assimilar a dor da perda
de um filho. Porém a sensação de continuar a ligação
com essa pessoa é algo que eles não querem que
desapareça. Nesse sentido, o enlutamento pela perda
de um filho é tarefa que não se supera (FUKUMITSU,
2018, p. 240);

• A morte de um filho não é só inesperada como trágica,


e passa a ser uma ameaça aos pais, irmãos, à família
ampliada, à rede social.
Houwarth (2008) realizou pesquisa a fim de compreender as
vivências de seis adultos que nasceram após a morte de um irmão;
Como resultados, quatro categorias temáticas foram encontradas:
“Aprendizagem sobre o irmão”; “Experienciando o irmão”; “Vivendo
em um sistema familiar impactado”; e “Integrando a experiência”;

O estudo sugere que a morte de uma criança pode atingir o filho


subsequente de maneira significativa. Pessoas com essas experiências
podem apresentar um sentido pessoal de perda, bem como se
sentirem impactadas de maneira secundária pelos múltiplos efeitos
gerados dentro do sistema familiar. De maneira geral, indivíduos que
nasceram após a morte de um irmão podem acreditar que tal morte
influenciou direta ou indiretamente o desenvolvimento de suas vidas
emocionais e também o modo como se relacionam com os outros.
• Sob a perspectiva parental, não existe uma idade
menos traumática para a morte de um filho e
estudos na área trazem que sentimentos como
frustração, decepção, revolta, tristeza, culpa e choro
são comuns aos pais e familiares (SANTOS;
ROSENBURG; BURALLI, 2004);

• A idade da criança não parece ser um fator


determinante para as reações de luto dos pais
(SANDERS, 1999); no entanto, Hunt e Greeff, (2011)
defendem que o impacto é maior perante a morte
de filhos mais novos.
A MORTE DO(A) FILHO(A)
ANTES DO NASCIMENTO
• A morte de um filho(a) antes do nascimento ou logo
após este rompe com a ordem natural da vida. Como
também, interrompe com os sonhos, as esperanças,
as expectativas e as esperas existenciais que
normalmente são depositadas na criança que está por
vir;

• Classificação quanto à idade gestacional: Precoce


(antes da 20ª semana), intermediário (entre a 20ª e a
28ª semana) e tardio (após a 28ª semana);
O LUTO PERINATAL
• Este é constituído por temas interditos e negados;

• Ressalta-se que o luto perinatal merece uma atenção especial


visto que é uma perda não reconhecida, que não é
abertamente apresentada e muito menos socialmente
validada (GESTEIRA et al, 2006);

• Não franqueamento intrapsíquico: quando não há autorização


social às manifestações das perdas (KAUFFMANN, 1989);

• Além disso, pode trazer repercussões consideráveis aqueles


que não tiveram a oportunidade de vivenciar essa perda de
forma mais saudável;
O LUTO PERINATAL
• O luto não é apenas um processo de sucessivas fases, mas um
emaranhado de reações e sentimentos que se alternam de
diferentes maneiras em cada situação de perda;

• A elaboração do luto pela morte de uma criança antes de seu


nascimento apresenta uma dinâmica diferente;

• De acordo com Duarte e Turato (2009), a construção de


vínculos afetivos fortes e de recordações de convivência mútua
fica impossibilitada, uma vez que lembranças não podem ser
evocadas posteriormente e a ausência da criança é
profundamente sentida, como se fosse retirada parte do corpo.
O LUTO PARENTAL
• O processo de luto parental é parte integrante do
processo de luto familiar, afetando todos os outros
subsistemas e sendo afetados por eles;

• A ameaça básica que paira sobre a função parental pode


gerar consequências, como: inabilidade provisória ou
permanente para o exercício dessa função, ou, ainda, um
isolamento social irrestrito e de duração indeterminada;
O LUTO PARENTAL-
GÊNERO E DESAMPARO SOCIAL

• Apesar de existir semelhança no que diz respeito ao


sofrimento e dor de pais enlutados, não se pode desconsiderar
as questões de gênero, entendendo que as respostas ao luto
se diferenciam entre homens e mulheres;

• As diferenças de gênero no enfrentamento do luto e na


expressão do pesar são apreendidas na convivência social;

• De acordo com Bartilotti (2007), não é incomum que o luto


perinatal afete o entendimento do papel feminino que passa a
ser acompanhado pelo desprezo, pela inadequação e por um
profundo sentimento de ineficiência. Atinge o autoconceito,
em sua capacidade maternal e sua feminilidade.
O LUTO PARENTAL-
GÊNERO E DESAMPARO SOCIAL

• Entende-se que a “criança morta” também é “mãe


morta”, pois a construção do papel de mãe e a
identidade materna que se constrói lentamente com a
gestação são, de forma abrupta, interrompidas;

• Constata-se descaso em relação ao sofrimento do


homem frente à sua perda;
O LUTO PERINATAL -
DESAMPARO SOCIAL
• A morte do filho inverte as expectativas das perdas
pressupostas na vida - morte dos pais, dos mais velhos,
deixando os pais sem referências temporais;

• A dificuldade de inscrever esta perda no psiquismo;

• Não há como compartilhar deste luto no senso comum


da modernidade, ficando os pais duplamente
desamparados: pelo bebê e pelos adultos.
OS RITUAIS
• Iaconelli (2007) ressalta que, no luto perinatal, nem sempre é
escutado o desejo dos pais de realizarem procedimentos
ritualísticos que fazem parte das demais perdas por morte e,
quando são realizados, não deixam de criar certo
constrangimento;

• Estas diferenças no tratamento destes casos revelam uma


impossibilidade de atribuir à morte de um bebê o status de
morte do filho;

• Quando os rituais são realizados, ainda assim, os pais


costumam ouvir declarações de que seus bebês são
substituíveis e sofrem pressão para acelerar o trabalho do luto.
• De acordo com Iaconelli (2007), não nos cabe
recomendar procedimentos ritualísticos adequados, se
desejáveis ou não, pois estes só poderiam sê-lo partindo
da perspectiva do psiquismo dos pais e das possibilidades
oferecidas pelo entorno;

• Para que os pais possam expressar seu desejo, há que se


evitar constrangimentos e interpelações precipitadas;

• No respeito ao desenrolar progressivo do luto, pode-se


realizar uma escuta sensível, no sentido de ajudar aos
pais a compreenderem e nomearem sua dor, evitando
maiores sofrimentos para si mesmos e para gerações
posteriores.
MODELO DE LUTO
PARENTAL
• Os pais enfrentam três períodos enquanto procuram
sentido para a sua nova identidade e vida:
• um período de torpor, choque, negação;
• um período de pesar intenso;
• e um período de reorganização e recuperação.

• A fase final do processo de luto parental coincide com o


encontrar um sentido para a perda. Nesta fase os pais já
conseguem lidar com a sua perda e reaprendem como o
mundo funciona sem o filho (MILES, 1984, CIT. DEGROOT;
CARMACK, 2013).
REAÇÕES DOS PAIS
• Reações cognitivas: a perda de memória e concentração, a
descrença, os efeitos sensoriais, sonhos e visões, um
sentimento de perda de um futuro para a criança e a procura
de compreensão;

• Reações emocionais: choque no momento da notificação,


tristeza associada a lugares, pessoas, memórias ou
pensamentos, medo e ansiedade;

• Reações físicas: falta de energia severa e dor física intensa;

• Reações espirituais: forte interesse na vida depois da morte;


sua luta entre Deus e a procura de um significado (HUNT;
GREEFF, 2011).
• Manter fotografias e objetos constitui a lembrança
imediata dos filhos. Alguns pais agarram-se muito a
estes objetos como forma de tentar acalentar a
difícil separação física;

• Sonhar com os filhos é uma experiência sentida


como um contato real.
A MORTE DO(A) GENITOR(A)

• Observa-se que a morte está ausente do dia-a-dia do


mundo familiar, pois foi transferida para os hospitais e
as crianças são impedidas, pelos adultos, de
participarem dos cerimoniais de despedidas (COSTA;
LIMA, 2005)
A MORTE DO(A) GENITOR(A) -
A AUSÊNCIA DE SUPORTE

• Repressão de sentimentos de tristeza;


• Conflitos consigo e com os demais membros da
família;
• Dificuldades de atenção / concentração;
• Problemas comportamentais;
• Distúrbios psicossomáticos.
A MORTE DO CÔNJUGE
Quando morre um dos membros do casal, o que
acontece com aquele que fica? 
• No casamento, um cônjuge conta com o outro como
suporte afetivo e pessoal (Novo, 2003).

• De toda forma, é inevitável o momento em que esse


sistema se desfaz, em decorrência do falecimento de
um ou de ambos os cônjuges.

• A pessoa viúva fica sozinha, com a sensação de ser


parte de uma unidade que já não existe mais
concretamente (Lira, 2005).
• A falta do cônjuge traz sensações subjetivas de
insegurança, incapacidade e desproteção.

• Na ausência do outro, o cônjuge sobrevivente precisa


lidar com a solidão, e a falta de alguém para compartilhar.

• A pessoa sente-se incapaz de realizar tarefas habituais, de


enfrentar a vida. O pesar é tão forte por um tempo que se
perde o contato com qualquer recurso de enfrentamento
da situação, e tudo é vivido como dificuldade (Parkes,
1998).
• A morte do marido pode representar a perda de
um amor, de um confidente, de um bom amigo, do
parceiro sexual, da fonte de renda, dependendo
das expectativas e tarefas atribuídas ao cônjuge
(Parkes, 1998);
• Há necessidade de aprender novos papéis, sem o
apoio da pessoa com quem se costumava contar.
Enfim, o luto é uma vivência de crise, e engloba
alterações no nível de planos, hábitos, costumes,
circunstâncias e comportamentos.
A MORTE DO CÔNJUGE
O trabalho de Boswell (2008), realizado com homens e
mulheres heterossexuais e homossexuais, visou a identificar,
descrever e comparar as estruturas do sofrimento resultante
do luto pela morte do cônjuge nas populações referidas.

Os resultados desse estudo indicaram que a maior parte dos


viúvos e viúvas homossexuais recebeu menos apoio social e
foram mais privados de expressar seu sofrimento, revelando
que o cônjuge homossexual sofre com o preconceito e
parece não ter os mesmos direitos de chorar o luto do
cônjuge como nos casais heterossexuais, entre os quais o
sofrimento foi amenizado com o suporte social.
A vida é mesmo um infinito de emoções… Um dia a felicidade é
imensa, tão grande que até parece eterna e imutável. Mais um
dia, e uma dor terrível se apresenta, bem na sequência da
alegria, varrendo a memória de ontem pra longe. Ou então é o
contrário: a dor, tão intensa que rasga o corpo em pedaços, e
depois a alegria que apaga o sofrimento, tão bem apagado que
quase desaparece da alma. Assim é quando a mulher tem o filho
que esperou pacientemente por meses a fio de construção de
ossos, sangue, músculos e alma. A entrada na vida é assim: dor e
alegria encadeadas, unidas como gêmeas.
A morte inverte a ordem dos sentimentos: a gente ama, é feliz
pelo tempo que a vida nos concede essa pausa, jura que é eterno,
acredita que pode prender no peito o ser amado. E por algum
tempo a ilusão se mantém acesa, e até parece verdadeira. Até
que um dia, num só golpe, a natureza pede de volta o tempo que
nos deu. A morte exige espaço e, sem pudor, nos rouba a alegria,
a esperança e a fé. Parece até que pra sempre…
O escuro nos envolve, o gelo cobre a alma, o coração bate
tão lento que mal sustenta a vida. Uma caverna abafada
recolhe os nossos gritos, e ecoa o terror da solidão que se
instalou na alma. Nem a luz do sol, nem o branco calor da
lua nos alcançam, e por muito, muito tempo. Um dia,
enfim, um clarão difuso nos acorda.
É a luz vida que se impõe outra vez, no ciclo eterno da
vida e da morte. E como uma fênix renascemos do limbo e
do fogo da morte que nos destruiu e devagar, bem
devagar, reaprendemos sobre a felicidade. O mundo já
não é o mesmo e nem jamais será como já foi antes. Mas
será o mundo novo que construímos com sangue e dor, e
será nosso…”
(Autoria: Dra. Graça Mota Figueiredo)
(Conexão Itajubá 158 – 11.03.18)
• “A psicologia entende que para dissipar a dor
psíquica de uma perda, é necessário que ela seja
dita, vivida, sentida, refletida e elaborada, mas
nunca negada” (GESTEIRA et al, 2006, p.465);

• Contudo, há um tempo para todo esse processo se


constituir.
• A dor virou esquisitice e adoecemos de solidão. Há
pouco espaço para a escuta: a fala do outro é sempre
mais importante e urgente que a nossa (GOUVÊA,
2018, p. 186).

• O luto é o contraponto do vínculo (FUKUMITSU, 2018,


p. 238).

• As perdas nos deixam um vazio que tanto pode ser


angustiante como libertador (FUKUMITSU, 2018, p.
238).
INTERVENÇÕES NO
SISTEMA FAMILIAR
• Segundo Carvalho e Meyer (2007), uma das intervenções
necessárias diante de intercorrências como o luto é desafiar a
mentalidade da morte como tema interdito, buscando
identificar as vulnerabilidades dos membros sobreviventes;

• É importante ajudar que os pais e familiares se apropriem da


situação que estão vivendo, para posteriormente conseguirem
falar e, aos poucos, assimilar, e bem posteriormente aceitar;

• Os rituais fúnebres ajudam no processo de luto, pois a


recuperação é centrada na aceitação, e o velório permite que
as pessoas se despeçam e que os enlutados sejam
considerados como tal (GESTEIRA, 2006);
O LUTO

• A experiência do luto é um momento


potencializador de crise, em face das possíveis
alterações no bem estar de saúde das pessoas que
vivenciam a perda, entre as quais as expressões
correlatas de sentimentos de tristeza, isolamento e
presença de humor depressivo;

• Há também pessoas que, ao contrário, apresentam


uma hiperatividade na execução de suas ocupações;
O luto, mesmo quando considerado normal, exige um grande
esforço de adaptação às novas condições de vida, tanto por
parte de cada um dos indivíduos afetados quanto no sistema
familiar, que também sofre impacto em seu funcionamento e
em sua identidade.
• Quando a família passa pelo processo de perda, os
papéis desempenhados pelos seus membros
consequentemente se modificam e, de acordo com
Worden (2013), o sobrevivente, na maioria das
vezes, não está consciente de todos os papéis que
até então eram desempenhados pela pessoa que
partiu, essa percepção acontece somente após um
período da perda;

• Os enlutados precisam ajustar-se aos papéis


anteriormente desempenhados pela pessoa que
faleceu.
• Diante dessa realidade, é possível identificar a
necessidade de uma rede social de apoio no sentindo
de ajudar essas famílias a superarem a experiência
vivida com tanto sofrimento;

• O grupo de pais pode ser uma estratégia muito eficaz


para evitar-se um luto patológico, pois “compartilhar a
dor com outros pais enlutados tem sido uma forma de
encontrar escuta do vivido e construir representações
que dêem conta da perda” (IACONELLI, 2007)
OS NORTEADORES DA INTERVENÇÃO NO SISTEMA
FAMILIAR EM CASO DE LUTO PERINATAL

• Conhecer a história da gestação;


• Entender se houve ou não intercorrências durante a
gestação;
• Identificar se há rede de apoio;
• Dar voz ao sofrimento quanto à dor dos pais e familiares
que perderam a criança, reconhecendo e valorizando o
que está sendo vivenciado;
• Identificar e conhecer que planos, sonhos e projetos que
já existiam para essa criança, como também, buscar novos
diante da realidade em que essas pessoas se encontram;
OS NORTEADORES DA INTERVENÇÃO NO
SISTEMA FAMILIAR
• Compreender medos, preocupações e culpas que possam envolver os
pais e familiares, oferecendo suporte e apoio quando necessário;

• Proporcionar a despedida do bebê, favorecendo ver, nomear, vestir a


criança, como também organizar rituais fúnebres e momentos de
despedida de acordo com as crenças da família;

• Não reforçar “a negação social” que existe diante da perda de um bebê.


Não incentivar o silêncio e o não dito;

• Cuidar para que não haja estímulo à pressa para uma nova gestação;

• Garantir a essas famílias um espaço de expressão dos sentimentos, para


que o luto possa ser elaborado e cursar favoravelmente.
INTERVENÇÕES NO
SISTEMA FAMILIAR
• Abordagens terapêuticas que possibilitam ajudar os pais
no processo de perda do filho, bem como torná-la mais
real, consistem em permitir que os pais visitem o recém
nascido, toquem-no, caso queiram, e que recolham
lembranças possíveis (BARTILOTTI, 2007);

• Esses procedimentos permitem desconstruir todo o


investimento subjetivo que foi feito no bebê,
proporcionando o momento de reconhecimento do lugar
do bebê falecido e assim comportando condições para a
elaboração da perda;
REFERÊNCIAS
•Bowlby, J. (2004). Perda: Tristeza e depressão. São Paulo: Martins Fontes.
•Bolze, S.D.A & Castoldi, L. (2005). O acompanhamento familiar antes e
depois da morte de uma criança: uma proposta de intervenção para o
psicólogo hospitalar. [versão eletrônica]. Aletheia, 15, 77 – 83. Último
acesso em 13/04/2011.
•Bromberg, M. H. P. F. (1994). Famílias enlutadas. Em M. M. M. J. Carvalho
(Coord.), Introdução à Psiconcologia (pp. 243-262). Campinas: Editorial
Psy.
•Brown, F.H. (1995) O impacto da morte e da doença grave sobre o ciclo de
vida familiar. Em: Carter, B., McGoldrick, M. (org). As mudanças no ciclo de
vida familiar: uma estrutura para a terapia familiar. Porto Alegre: Artes
Médicas, p. 393 – 414.
•Mendes, J.A., Lustosa, M.A. & Andrade, M.C.M.( 2009). Paciente terminal,
família e equipe de saúde. Revista SBPH, Rio de Janeiro, 12 (1), p. 151-173.
•Oliveira E.A, Voltarelli JC, Santos M.A, Mastropietro A.P. (2005).
Intervenção junto à família do paciente com alto risco de morte. Medicina
(Ribeirão Preto), SP, 38 (1): 63-68.

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