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Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação - FABICO

Curso de Museologia
BIB03237 - História dos Museus e dos Processos Museológicos
Profª. Zita Rosane Possamai

A Fabricação do Imortal
Memória, História e Estratégias de Consagração no Brasil
Regina Abreu

Ana Gabriela da Conceição Laggazio


Caroline Brum Machado
Gabriela Schneider
Janeska Widholzer
Leonardo Zanini Wolff
Paola Laux
Regina Abreu

- Graduação em Ciências Políticas e Sociais (1977)

- Em 1994-1995 desenvolveu um programa de estudos e pesquisas no Centre de Sociologie de

l'Éducation et de Ia Culture da École des Hautes Études en Sciences Sociales sob a orientação da

professora Monique de Saint Martin, com bolsa da CAPES. (deu origem à publicação do livro)

- Doutora em Antropologia Social (UFRJ/Museu Nacional, 1996)

- Professora titular na UniRio, no Programa de Pós-Graduação em Memória Social

- Coordenação: Grupo de Pesquisa “Memória, Cultura e Patrimônio” (CNPq); Projeto: “Patrimonialização

das Diferenças e Processos Decoloniais em Territórios de Colonização Portuguesa”; Projeto “Museus

do Rio” (FAPERJ)
http://www.reginaabreu.com/site/
APRESENTAÇÃO - Monique de Saint Martin

O livro é o resultado da pesquisa de Regina Abreu, na qual são analisados os

processos culturais e simbólicos envolvidos na composição das elites políticas do Brasil

no período da Primeira República.

A pesquisa se debruça para compreender os processos envolvidos em uma doação de

objetos feita ao Museu Histórico Nacional, pela viúva de Miguel Calmon du Pin e

Almeida - Alice Porciúncula Calmon du Pin e Almeida, em 1936.


A pesquisa desvenda o ‘gesto de doação’

- deixa de ser um gesto singelo e desinteressado à medida que:


- “enuncia um complexo jogo de composição e de recomposição das elites”;
- “permite visualizar como o Museu Histórico Nacional, na primeira metade
deste século foi o canal de construção de uma versão específica da História
do Brasil”. (p.19-20)
- Gustavo Barroso, então diretor do Museu Histórico Nacional, teve papel
decisivo na difusão de um modelo de História baseado na crença dos
méritos de grandes personagens.
SAINDO DA VIDA PARA ENTRAR NA HISTÓRIA

Miguel Calmon - vida pública inicia em 1892, como Secretário de

Viação e Obras Públicas do Estado da Bahia; por duas vezes foi

ministro de Estado; Deputado Federal e Senador. Com a Revolução

de 30, Miguel Calmon perdeu seu mandato, distanciou-se da

política. Faleceu em 1935. Alice da Porciúncula Calmon du Pin e

Almeida - de "tradicional família gaúcha", a esposa mulher de

homem público; "senhora de rara distinção e bondade, dotada de

elevado espírito e exemplar formação intelectual". (p.21)


Trâmites da doação

Troca de cartas entre Alice Porciúncula e o diretor do Museu


Gustavo Barroso, sobre as intenções de doação por parte da
viúva e o interesse do Museu em receber os objetos. Processo é
mediado por Pedro Calmon, historiador no Museu Histórico
Nacional e sobrinho de Miguel Calmon.
PARCEIROS DE UMA TROCA DE PRESENTES

A reciprocidade constituía regra básica - modus operandi característico da

República Oligárquica.

No Museu, sob gerência de Gustavo Barroso, a memória de Calmon seria consagrada

na construção histórica da nacionalidade; Em retribuiçäo, Alice da Porciúncula doaria

objetos de valor intrínseco — como as jóias, por exemplo — e de valor histórico, com

objetos que figuraram acontecimentos importantes, imbuídos de valores simbólicos

(prestígio e poder)
Relação público/privado na coleção

Alice Porciúncula teve papel fundamental na escolha dos objetos doados, que forneceriam
uma narrativa sobre Miguel Calmon “homem público”

CLÁUSULAS: “objetos formam coleção que não pode ser desmembrada; a


segunda; que "a arrumaçäo, classificação e conservaçäo n dos objetos ficarão sob
seus cuidados; a terceira, que a sala chamar-se-á sempre Sala Miguel Calmon,
«em homenagem perene" ao seu "saudoso e idolatrado esposo"; a quarta
compromete o museu na limpeza e segurança dos objetos a quinta determina que
a coleçäo deverá permanecer para sempre no Museu Histórico Nacional, devendo
retornar à sua propriedade no caso da extinçäo do estabelecimento”. (p.32)
O SÉRIO E CIRCUNSPECTO HOMEM PÚBLICO OCUPADO DA
NAÇÃO

MOBILIÁRIO DOS SALÕES PEÇAS REQUINTADAS E ÚNICAS


Um homem-semióforo e seus objetos-semióforos
- Pontes entre o mundo visível e
o mundo invisível.
- Bahia era o maior e mais
poderoso estado do Nordeste
do Brasil na época da República
Velha / República do Café com
Leite.
- Um homem público,
representante das oligarquias
brasileiras
Um homem-semióforo e seus objetos-semióforos
Heranças e legados
- Os circuitos de famílias nobres
reafirmavam sua identidade
exclusiva por meio de símbolos
ao longo dos tempos.
- Marquês de Abrantes: tio de
Miguel Calmon e próximo ao
Imperador.
- As peças de Alice da Porciúncula,
viúva de Miguel Calmon.
- Os salões da aristocracia.
- Um República encoberta pelo véu
do Império.
Heranças e legados
- O bairro de Botafogo no Rio de Janeiro.
- Éthos de grupo: origem aristocrática,
educação refinada, acesso regular à
Europa, introjeção dos modernos ideais
do Ocidente, notadamente civilização e
progresso.
- O propósito da conservação dos objetos
era evocar um passado capaz de conferir
legitimidade e status às ações no
presente.
A nobreza se imortaliza
- A nobreza e sua homogeneidade.
- Um metal nobre indestrutível.
- A árvore genealógica de sangue puro.
- O Museu Histórico Nacional que imortaliza a
nobreza brasileira.
- Gustavo Barroso, um apreciador da nobreza.
- O imaginário aristocrático baseado nas tradições
francesas.
A nobreza se imortaliza

- Objetos semióforos da família


imperial brasileira.
- Uma República que dá as costas
a democracia e não rompe com
passado do Império.
- A imortalização proposital da
nobreza brasileira.
Enfim, o Imortal
- Memória como construção póstuma, a partir de biografias, objetos,
discursos…
- Homem-instituição X Homem-pessoa
- Relação entre a máscara e o eu.
- Máscara fúnebre para eternização dos abastados. Pode-se pensar
nas as fotografias post-mortem como parte dessa mestra
estratégia.
- O conjunto de máscaras fúnebres do MHN tem em comum o culto
à “pessoa-símbolo da nacionalidade”.
O Imortal é um Homem Público
- A preocupação dos biógrafos é com o homem público, o sujeito político e a sua relação
com a “grande história”.
- “Sujeitos incomuns que sintetizam e representam uma coletividade”.
- O homem modelo construído a partir de um discurso de verdade, ou uma “narrativa-
verdade”.
- Biografia, o museu e a rememoração essencialmente com objetivos didáticos.
- Esse homem público é identificado com um “bem maior”, a pátria.
- Evocação da trajetória familiar e educacional dos Calmon para, por fim, relatar seus
empreendimentos na construção da nação.
O Imortal é um Homem Público
- Conciliar a formação e atuação técnico-científica com a trajetória oligárquica/política da família.
- Biografia demonstra a tensão na conciliação entre duas éticas distintas - coletividade da nação X
oligarquia.
- Figura de Calmon atrelada a ideia de civilização e progresso, por sua racionalidade e qualidades
técnicas.
- Exposição do Centenário como um “atestado” das obras do homem público.
- Calmon traz a união de dois aspectos essenciais: o “berço”, que o liga às elites oligárquicas, ao
passado glorioso e à tradição, e a formação técnico-científica que o liga à modernidade.
- Biografia aponta momentos em que Calmon se distancia de interesses de um grupo específico e
passa a agir em nome de coletividade, do “bem maior”. Como no caso da epidemia de gripe
espanhola.
O público e o privado
- O privado encontra-se subordinado ao público no processo de imortalização do sujeito.
- Por vezes, as narrativas denotam uma oposição entre o público e o privado. Entre a origem
oligárquica e o impulso modernizador da formação técnico científica.
- Autora menciona a escola e o processo de individualização dos sujeitos, sua “entrada” na
esfera pública. Mas faz um contraponto com a escola que formou Calmon.
- Engenheiros como a nova categoria profissional capaz de trazer a modernização ao Brasil.
- A passagem de Calmon pela Escola Politécnica é enfatizada na biografia como uma
passagem ritual transformadora.
- Leve oposição entre o político e o engenheiro/técnico.
- Mas o que se mostra, por fim, é a conjugação dessas duas identidades.
- “Pode-se dizer que a biografia de Miguel Calmon é a conjugação de discursos e práticas
dicotômicas”.
Imortalização Por Meio Das Obras
O Criador e a
Criatura: o
missionário
salesiano posa ao
lado de índio
bororo já
transformado em
ser civilizado

Vista aérea dos pavilhões Missionárias


dos estados na Exposição ensinando
Nacional de 1908 religião para
indias bororos
no Mato Grosso,
início do séc XX
Insígnas do Homem Público
Conjunto
Caneta em
de canetas
ouro,
da coleção
esmeralda e
de Miguel
brilhantes,
Calmon,
comemorativa
em ouro e
da assinatura
pedras
da Lei Áurea
preciosas
Miguel Calmon numa vitória,
chegando para a abertura de
Exposição Nacional de 1908

O Presidente Afonso
Miniatura de
Pena e o Ministro
jangada
Miguel Calmon na
javanesa com
abertura da
pescador
Exposição Nacional
acompanhados
de 1908, nota-se as
de corvos
bengalas em
marinhos,
primeiro plano
seculo XX
Um Homem de Letras
● biografias
● livros contemporâneos
Construção Pessoal ● Historia Geral do brasil
● Historias do Sujeito
● ensaios biográficos
● textos de autoria própria

❖ relacionados a nação: Agricultura e educação


“O Brasil como ❖ relatórios da Câmara dos Deputados
Representação” ❖ Liga da Defesa Nacional
❖ Documentos da Exposições Universais
❖ Livros com ênfase na Bahia
❖ Publicações técnicas sobre obras de infraestrutura urbana
Culto a saudade

Dimensão pública do privado

Uma casa-memória para a


moderna nação brasileira
CONTANDO UMA HISTÓRIA DO BRASIL
- A reconstrução do passado feita pelo Museu Histórico Nacional. Qual história do Brasil era ali
contada?
- 1838- Ainda no Império- o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro: a história brasileira
enquanto palco de atuação de um Estado iluminado, esclarecido e civilizador.
- Francisco Varnhagen( principal expoente): a história era o meio indispensável para forjar a
nacionalidade/ processo linear marcado pela noção de progresso.
- Para o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, a especificidade nacional brasileira, sua
identidade partia da colonização européia.
cont.1
- Conceito de nação excludente: restrito aos brancos.
- heróis nacionais: propunham congregar em torno de um referencial comum grupos sociais
diversos culturalmente.
- O Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro possuía influência sobre o Museu Histórico Nacional:
Gustavo Barroso- séculos XIX e primeiras décadas do século XX.
- Museu Histórico Nacional: combinação de dois modelos de história, o clássico e o moderno.
- Modelo de história: organização das salas em - colônia/ primeiro e segundo reinado/ república
- Necessidade de afirmação de valores patrióticos.
- PAPEL EDUCATIVO DO MUSEU HISTÓRICO NACIONAL.
cont.2
- Para Gustavo Barroso: o Museu era um foco de cultura e aprimoramento que contribuia para o
desenvolvimento da cultura do país, trazendo o jovem e a criança para o museu segundo o
pressuposto de ¨modernas teorias¨de estudiosos e estrangeiros.
- O passado, por meio dos objetos ensinava sobre o presente.
- Estabelecimento de períodos históricos.
- Visava a consciência patriótica.
- O Museu era auxiliar do Estado Nacional em seu objetivo de transformar o conjunto de
habitantes de um território em cidadãos.
- Marca nacionalista do museu.
cont.3
- Visão hierárquica da sociedade.
- Para Barroso- diretor do Museu Histórico nacional- a tradição brasileira que deveria ser
preservada havia sido estabelecida pelo Império. Ele opunha-se a algumas medidas republicanas.
- A proclamação da república criou uma descontinuidade com relação ao império que barroso não
concordava.
- Museu Histórico Nacional: culto à tradição e culto a pessoas exemplares. Papel do Império na
formação da nacionalidade.
- Walter Benjamin - a noção de aura de um objeto está associada a sua singularidade, sua
originalidade e a uma relação genuína com o passado.
cont.4
- Sob a direção de Barroso, no Museu havia uma preocupação com a origem das peças, sua
autenticidade. Assim como a importância do doador nesse contexto.
- Barroso possuía legitimidade através das boas relações com os presidentes - Epitácio Pessoa e
Getúlio Vargas.
- Sob a liderança de Barroso, o Museu converteu-se em um espaço de articulação entre diversos
grupos sociais.
- O culto da saudade implicava em uma visão nostálgica do passado, onde alguns momentos eram
especialmente glorificados em detrimento de outros.
cont.5
-Na direção de Barroso, a civilização brasileira teria sido aquisição da nobreza brasileira, consolidada
durante o reinado de D. Pedro II.

-A distinção da nobreza brasileira, enquanto grupo social, e do Império inspirou muitos artigos para
os Anais do museu Histórico Nacional.

- Objetos tão diversos quanto espadas, louças, jóias, brasões, pinturas, fotografias, livros eram
preservados e exibidos segundo a lógica da tradição.
cont.6
- Exposições com a finalidade de construir cotidianamente a manutenção de uma ordem.
- Representações que faziam uma relação entre as categorias: museu, história e nação.
cont.7 - QUE PAÍS É ESTE?
- A construção da nação brasileira, na perspectiva de Barroso, ancorava-se no culto às tradições, na
ênfase na relação de continuidade do Brasil com Portugal.
- O papel da civilização portuguesa era o que assegurava em parte a construção da nação brasileira.
- O nascimento data da chegada da Coroa Portuguesa em 1808.
- Edificação nacional: sob essa perspectiva a nação é uma construção do Estado e da Coroa.
- Papel importante da nobreza e do Exército.
- Postura iluminista que formulou o pensar a nação no contexto brasileiro - visava a
homogeneização da visão do Brasil.
cont. 8
- Crença na necessidade de esclarecimento das elites para esclarecimento do resto da sociedade.
- Relação da visão do Museu Histórico Nacional e do Instituto histórico e Geográfico Brasileiro.
- Retrato da nação: desdobramento nos trópicos de uma civilização branca e européia.
- Índios e negros eram excluídos do projeto de nação por não terem a noção de civilização.
- Esse projeto de nação se transformou em uma espécie de matriz de um debate que se prolongou
por várias décadas.
- ¨Culto da saudade¨: passado idealizado, onde no Brasil havia tido brilho, beleza e civilidade.
cont.9
-Barroso estabeleceu como prioridade no Museu o estudo da heráldica - estudo de brasões, símbolo
da antiga nobreza.

- Augusto Comte considerava a heráldica como índice mais elevado e completo de civilização.

- A nobreza e o exército, como já foi dito, formariam os dois pilares de sustentação da nacionalidade.

- Reconstrução genealógica: ligando a nobreza à idade média.

- Principais qualidades da nobreza nessa visão: antiguidade, raridade e civilização.


cont.10
-Barroso: propósito de escrever a história militar no Brasil. Propósito sobretudo didático.

- Nesse sentido, vê-se o culto a heróis. Figuras destacadas: Duque de Caxias ( como unificador
nacional) e D. Pedro II(monarca esclarecido).

- Forma-se, assim, no museu um verdadeiro santuário com toda a sorte de objetos capazes de evocar
a consciência cívica.
cont.11 - A DESFABRICAÇÃO DO IMORTAL
- Relembrando: Barroso como primeiro diretor do Museu Histórico Nacional nos primeiros anos do
século XX. Apelo à conservação e a tradição.

- Como assinala Pierre Nora, nas sociedades modernas, onde a acentuada fragmentação da vida
coletiva e a crescente valorização do indivíduo gerou a necessidade de criação de lugares para a
preservação de memórias coletivas que antes eram geridas pelos próprios grupos sociais.

- A partir da década de 30: surgimento das universidades.

- Ingresso das mulheres na sociedade.


cont.12
- O fim do ¨Museu Barroso¨onde os objetos eram reunidos para evocar a memória nacional, foi
seguido por um esfacelamento acompanhado por uma dilatação da percepção histórica - reforma
do Museu Histórico Nacional de 1967.
Museu Histórico Nacional Parte interna do museu

Parte externa do museu


Referências
Entrevista com Regina Abreu, disponível em (acessado em 8 de out. de 2020):
https://www.youtube.com/watch?v=HmkQ1-JBOFE

Página da Regina de Abreu, disponível em (acessado em 8 de out. de 2020):


http://www.reginaabreu.com/site/

Livro “A fabricação do Imortal” de Regina Abreu, disponível em (acessado em 8 de out. de 2020):


https://www.academia.edu/6740676/A_fabrica%C3%A7%C3%A3o_do_imortal_Mem%C3%B3ria_Hist%C3%
B3ria_e_Estrat%C3%A9gias_de_Consagra%C3%A7%C3%A3o_no_Brasil

Conhecendo Museus - Episódio 52: Museu Histórico Nacional, disponível em (acessado em 8 de out. de
2020): https://www.youtube.com/watch?v=KlwmsCcEFSw&feature=youtu.be
Obrigado!

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