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A ideologia da competência

Marilena Chauí

Disciplina: Serviço Social e Processos


de Trabalho II
21/09/2021 – 2021.2
Marilena Chaiu
Tem experiência na área de
Filosofia, com ênfase em História
da Filosofia, atuando
principalmente nos seguintes
temas: democracia, política,
direitos, cidadania e luta de
classes. Atualmente é Professora
Sênior da Universidade de São
Paulo.
“A ideologia é um conjunto lógico, sistemático e coerente de
representações e de normas ou regras de conduta que
indicam e prescrevem aos membros de uma sociedade o
que devem pensar, o que devem valorizar, o que devem
sentir. É um corpo explicativo (representações) e prático
(normas, regras, preceitos) de caráter prescritivo, normativo,
regulador, cuja função é dar aos membros de uma
sociedade dividida em classes uma explicação racional para
as diferenças sociais, políticas e culturais, sem jamais
atribuir tais diferenças à divisão da sociedade em classes a
partir das divisões na esfera da produção econômica.
Pelo contrário, a função da ideologia é ocultar a divisão
social das classes, oferecendo aos membros da sociedade
o sentimento da identidade social, fundada em
referências, identificadores, como a Humanidade, a
Liberdade, a Justiça, a Igualdade, a Nação. Como salienta
Marx o primeiro a analisar o fenômeno ideológico, a
ideologia é a difusão para o todo da sociedade das ideias
e dos valores da classe dominante como se tais ideias e
valores fossem universais e aceitos como tais por todas
as classes.” p.53
- Racionalização dos processos de trabalho.
“...organizar é administrar, e administrar é introduzir
racionalidade nas relações sociais... A racionalidade
administrativa consiste em sustentar que não é
necessário discutir os fins de uma ação ou de uma
prática, e sim estabelecer meios eficazes para a obtenção
de um objetivo determinado.” p.55
- Função muito especializada e gerência científica.
“... Depois de despojar o trabalhador do conhecimento da
produção completa de um objeto, a organização divide e
separa os que possuem tal conhecimento – os gerentes e
administradores – e os que executam as tarefas
fragmentadas – os trabalhadores...” p.55
- Ideologia da competência.

“... Como toda a ideologia, oculta a divisão social das


classes, mas o faz com a peculiaridade de afirmar que
a divisão social se realiza entre os competentes [...] e
os incompetentes...” p.56-57
- Discurso especializado.

“ O discurso da competência privatizada é aquele que


ensina a cada um de nós, enquanto indivíduos privados,
como nos relacionarmos com o mundo e com os outros.
Esse ensino é feito por especialistas que nos ensinam a
viver[...] somos invalidados como seres competentes, tudo
precisa nos ser ensinado “cientificamente” ....” p.57
“Se reunirmos o discurso competente da
Organização e o discurso competente dos
especialistas, veremos que estão construídos
para assegurar dois aspectos hoje
indissociáveis no modo de produção
capitalista: o discurso da Organização afirma
que só existe racionalidade nas leis do
mercado; o discurso do especialista afirma
que só há felicidade na competição e no
sucesso de quem a vence.” p.58
- Impactos da ideologia competente na configurações
das universidades.

“... Isso se manifesta não só na busca do diploma


universitário a qualquer custo, mas também na nova
forma assumida pela universidade como organização
destinada não só a fornecer diplomas, mas também a
realizar suas pesquisas segundo as exigências e demandas
das organizações empresariais, isto é, do capital. Dessa
maneira, a universidade alimenta a ideologia da
competência e despoja-se de suas principais atividades: a
formação crítica e a pesquisa.”
2. Contra o discurso competente (p. 113 – 115)
- O competente e o incompetente.
“Quem é o competente? Em nossas sociedades, é aquele
que possui um saber determinado institucionalmente
reconhecido, graças ao qual pode não só falar e agir pelos
outros, mas ainda, e sobretudo, excluir outros do direito de
ser sujeito de seus discursos e de suas ações. Quem é o
incompetente? Em nossas sociedades, é aquele que foi
expropriado de sua condição de sujeito e convertido em
objeto do saber e da prática dos competentes. Sob a
auréola da neutralidade e da objetividade dos
conhecimentos técnicos-científicos, a competência é um
poderoso elemento ideológico para justificar (ocultando) o
exercício da dominação.” p. 113
“ A competência, como processo social de exclusão e de
invalidação de pessoas, redunda no discurso competente, cuja
marca distintiva é o direito conferido a alguns para falar pelos
outros e cujo exercício pode ser assim resumido: não é
qualquer um que pode dizer a qualquer outro qualquer coisa
em qualquer lugar e em qualquer circunstância. Regras,
normas e ritos burocráticos decidem quem pode falar e ouvir,
onde e quando isso pode ocorrer.” p.114
3. O pacote competente
- Características da ideologia da competência
“[...] (1) aceitação da divisão do conhecimento em especialidades cada
vez mais fragmentadas ditadas não por necessidades internas aos
próprios conhecimentos, mas por imperativos administrativos,
burocráticos e mercantis que nada têm a ver como o próprio saber; (2)
transformação das especialidades em propriedade de especialistas e
em direito a autoridade, ou ao poder de decisão e de controle sobre
ações, pensamentos e sentimentos dos não especialistas, isto e,
conversão do conhecimento em exercício de poderio; (3) uso desse
poderio para um verdadeiro processo de intimidação social e politica
no qual os que não possuem o suposto saber dos “competentes” são
transformados em incompetentes para agir pensar e sentir por conta
própria, precisando da aprovação e do consentimento dos guias
especializados de plantão. Em suma, a ideologia e o mito da
competência são o uso do conhecimento para criar incompetentes
sociais, desqualificando o que possam realmente saber e fazer”.
- A autora traz um exemplo de como a linguagem é
utilizada como um instrumento de poder/dominação.
“[...] Ninguém pode lutar contra o que não conhece
nem compreende [...]” p. 119
- Posto isso, a competência profissional que está subsidiada
no projeto ético-político pressupõe, antes, a compreensão
sobre o fundamentos do Serviço Social sob a inspiração da
tradição teórica marxista que não se resume as perspectivas
reducionistas da teoria restrita ao espaço das profissões. A
possibilidade de interlocução do fundamentos do Serviço
Social com tal teoria pressupõe reconhecer, de início, os
desafios em estabelecer um diálogo crítico entre a concepção
ontológico-dialética, pautada na totalidade, para
compreensão da realidade social.
- Isso requer, preliminarmente, a competência profissional em
desvelar a essência dos fenômenos que estão
ontologicamente no mundo social. O desafio aqui é
reconstruir a concepção sobre o objeto real e não construir
ideologicamente sob o viés lógico-racional.
O debate com a tradição marxiana passa pelo
reconhecimento de que, como profissão inserida
na divisão sociotécnica do trabalho, o Serviço
Social compõe essa realidade complexa e atua
em condições sócio-ocupacionais que colocam
limites aos objetivos do trabalho profissional.
Porém, tais condições objetivas não são
absolutas, fundadoras de um ser apático diante
do mundo, de um trabalho determinado que dá
uma direção social reduzida à reprodução do
homem.
-O aporte teórico-metodológico institui possibilidades
para um exercício crítico e questionador para a
construção de alternativas (possíveis), ontologicamente
dadas e carentes de movimento sem recaídas idealistas
(Sant’ana, 2013).
- Assim, a apreensão e adesão coerente à perspectiva
marxiana não se reduz a um aprendizado teórico
efetuado em sala de aula, mas exige revisão de
concepções arraigadas no modo de ser e pensar no
modo capitalista.
Na singularidade do trabalho profissional, isso não significa
que o AS possa, num passe de mágica, por um puro desejo
pessoal ou suicida, ultrapassar messianicamente os limites
institucionais e profissionais e viabilizar a própria
emancipação social e das pessoas com as quais trabalha por
meio da intervenção profissional. A adoção da perspectiva
marxista nos fundamentos do trabalho profissional exige a
competência de, na análise da realidade concreta,
reconhecer as contradições insolúveis sobre as quais se
assenta esse modo de ser e pensar na sociedade regida pelo
capital e sua impossibilidade de consertos, de remendos. O
capital e suas consequências estruturais não serão
controladas por ações mediadas por uma profissão e nem
mesmo por ações mais abrangentes que teimam em
acreditar em reformas sistêmicas através de ajustes.
- Portanto, “ainda que não possamos promover ações
que alterem os elementos que estruturam a ordem
burguesa, a identificação de suas contradições e da
possibilidade de participar do exercício da luta de
classes expresso no âmbito da profissão são essenciais
para que o Serviço Social possa dar contribuições no
âmbito das disputas materiais-ideológicas instauradas
no atual contexto, fortalecendo o interesse dos que
vivem da venda da força de trabalho”.
- Nesse sentido, uma das principais competências é a
capacidade de reconhecer as assimetrias entre o
projeto profissional e os projetos institucionais: a não
aplicação de modelos previamente estabelecidos na
direção da lógica do Estado empresarial.

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