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O SIGNO IDEOLÓGICO

PONZIO, Augusto. Signo e ideologia. In: PONZIO,


Augusto. A revolução bakhtiniana: o
pensamento de Bakhtin e a ideologia
contemporânea. São Paulo: Contexto, 2008, p.
109-159.
Sobre o autor
Augusto Ponzio é considerado um dos maiores
especialistas em Bakhtin no mundo. Seus livros,
originalmente publicados em italiano, tiveram traduções
para diversas línguas, como inglês, francês, alemão e
espanhol. Professor de Linguagem e membro do
departamento de Práticas Linguísticas e Análise de Texto
na Universidade de Bari (Itália), suas principais áreas de
pesquisa são Filosofia da Linguagem, Linguística,
Semiótica e Teoria Literária. Além da obra A Revolução
Bakhtiniana, assina outras importantes contribuições como
Fundamentos de Filosofia da Linguagem e No Círculo
com Mikhail Bakhtin.
Visão geral do texto

• 1. Dupla materialidade do signo;


• 2. O signo verbal;
• 3. Duas tendências no estudo da linguagem;
• 4. Linguagem e classes sociais: Bakhtin, Marr e
as ideias de Stálin sobre a linguística;
• 5. Semiótica e marxismo;
Considerações iniciais
O estudo do signo ideológico se insere dentro de uma
investigação que envolve a ideologia, a linguagem
bem como a questão do “sentido” e a maneira como
este se diferencia do “significado”.
Para Bakhtin, preocupar-se com o “sentido” é estar
atento à linguagem verbal e ao signo, tomado em sua
generalidade, (PONZIO, 2008);
Ocupar-se do “sentido” é ir além dos limites da
linguística e analisar as relações “nos atos de palavra,
nos textos, nos gêneros do discurso e nas linguagens”
(PONZIO, 2008, p. 89).
Dupla materialidade do signo

• Existe como parte material de uma realidade


objetiva – “presença física”;

• Exerce uma função ideológica:


• Representa e organiza a realidade;
• Reflete e refrata a partir de um ponto de vista
valorativo, de uma determinada posição e em um
contexto.
O signo é sempre revestido por elementos
ideológicos

• 1. O domínio do ideológico corresponde ao


domínio dos signos (VOLÓCHINOV, 2017);
• 2. É determinado socialmente, valorado em um
dado contexto situacional;
• 3. Emerge do processo da interação discursiva
entre uma consciência individual e uma outra.
Tudo o que faz parte do social (que
nunca é abstrato, mas sempre material
e concreto) pode se transformar, na
dimensão histórico-social, em signo
ideológico.
“Enquanto um objeto não-sígnico é, por assim dizer, igual a si
mesmo, não remete a nada, embora coincida completamente
com suas características, um corpo sígnico adquire
significado ‘que está além de sua particularidade’”, torna-se
“material de expressão valorativa” (p. 110).

“Qualquer produto ideológico é não apenas uma parte da


realidade natural e social – seja ele um corpo físico, um
instrumento de produção ou um produto de consumo – mas
também, ao contrário desses fenômenos, reflete e refrata
outra realidade que se encontra fora dos seus limites”
(VOLÓCHINOV, 2017, p. 91).
• “A ideologia não é uma formulação da consciência,
mas, ao contrário, a ideologia forma, constitui a
consciência por meio de sua realidade material,
isto é, dos signos ideológicos. Esses signos
ideológicos, por sua vez, são constituídos no
processo de interação social em que os interesses
das diversas classes sociais direcionam o processo
das representações materializadas na palavra” e em
outros materiais sígnicos (GRILLO, 2017, p. 55).
Signo x fenômeno natural/objeto

• Todo signo faz parte de um processo de interação social,


pressupondo a relação recepção-interpretação;

• Todo signo reflete “a realidade de um ponto de vista ideológico”


(p. 112), portando valorações, acentos apreciativos.

• Todo signo requer uma “compreensão responsiva” (BAKHTIN,


2011), não uma mera identificação, tendo em vista que
estabelece uma relação dialógica que nos intima a uma tomada
de posição, a uma atitude responsiva (PONZIO, 2008).
A noção de ideologia

“Por ideologia entendemos todo o conjunto de


reflexos e interpretações da realidade social e natural
que se sucedem no cérebro do homem, fixados por
meio de palavras, desenhos, esquemas ou outras
formas sígnicas” (VOLÓCHINOV, [1930] 2013, p.
138).
Cada uma das “superestruturas” como um campo específico
da “criação ideológica” – a religião, a arte, a ciência, a moral,
a ética etc. – “ideologias” (MEDVIÉDEV, 2016);
O conjunto de todas as manifestações superestruturais ou
para todos os produtos da criação imaterial efetuada pelos
humanos em sociedade – “ideologia” (FARACO, 2009).
Posicionamento, valoração presente em todo enunciado.
Expressão das relações histórico-materiais das pessoas,
sendo também responsável por organizar tais relações.
A compreensão de qualquer elemento ideológico só é
possível considerando-se o “campo ideológico especial ao
qual pertence e que possui suas leis específicas” (p. 113).
“O processo de compreensão do signo ideológico
tem de proceder, basicamente, da introdução do
objeto de estudo em totalidades sempre mais
amplas, a partir da totalidade da forma ideológica
à qual está diretamente vinculado, sem perder de
vista o processo global de reprodução social – ‘o
processo da efetiva geração dialética da
sociedade [...]’ – ao qual essa forma ideológica [...]
pertence” (p. 113).
Dois aspectos importantes acerca da ideologia e do
signo ideológico em Bakhtin

• O signo ideológico nunca é o mero externar de uma ideia,


pois nele sempre estará presente o elemento avaliativo,
valorativo, axiológico, a manifestação de “uma tomada de
posição determinada, de uma práxis concreta” (p. 115).

• Isso se deve à percepção de Bakhtin de que a ideologia, de


um modo geral, permanentemente camufla/revela um
interesse em algo – “ideologia burguesa”, “ideologia
proletária”, “ideologia científica”, “ideologia religiosa”
etc.
• Os interesses são interesses de um grupo social, de uma
classe social, baseados em um sistema de valores que
condiciona atitudes, ações, decisões e os posicionamentos dos
sujeitos.
• A ideologia, para Bakhtin, é mais “projeção social” que
“cosmovisão”, podendo reproduzir e sustentar sentidos
atrelados a uma base infra-estrutural, como pode questionar e
subverter essas relações de sentido.
• Os signos ideológicos refletem e refratam a realidade a partir
de classes e sistemas de valores diferentes: dos que tentam
manter as coisas como estão ou dos que se colocam numa
posição crítica ao sistema.
O signo ideológico “fé” no discurso
cristão
• Fé no discurso [neo]pentecostal do bispo Edir Macedo
– contribui na manutenção da ordem social neoliberal
vigente e dos sentidos como “naturais” e “definitivos”
(movimento claramente centrípeto);

• Fé no discurso da Teologia da Missão Integral e da


Teologia da Libertação – contribui na discussão e no
questionamento do atual sistema de relações
socioeconômicas e políticas, propondo-se como
instrumento de luta e de crítica à ordem vigente
(movimento centrífugo).
• Vídeo da professora Cíntia Chagas -
“patrulhamento vocabular”.
Signo x sinal

• Diferentemente do sinal, o significado de um


signo ideológico não é estático, fixo, mas se
constrói nas situações de comunicação efetiva.
• “O sígnico é o campo da indeterminação, da
ambivalência, do desvio, da relatividade; é o
campo no qual tudo se decide socialmente e se
determina por circunstâncias, por relações, por
práticas sociais, que se especificam em cada
ocasião” (p. 121).
Signo ou sinal?
Alta no combustível leva motoristas de apps a
prejuízos e desistência
Lucro com corridas compensa pouco, na opinião de condutores de SP ouvidos pelo
R7, mesmo após empresas anunciarem reajustes
SÃO PAULO | Gabriel Croquer, do R7
17/10/2021 - 02H00 (ATUALIZADO EM 17/10/2021 - 12H08)
O aspecto material do signo e da ideologia
• Todo produto ideológico comparece “em materiais
ideológicos objetivamente compreensíveis”: palavras,
gestos, objetos físicos, cores, corpos vivos etc.
(MEDVIÉDEV, 2016, p. 65).
• Todo produto ideológico pertence à realidade social na qual
estamos circunscritos/as.
• A presença material do fenômeno ideológico não se refere
necessariamente à presença física ou ao mundo natural,
mas ao fato de a compreensão desse fenômeno se
estabelecer na relação entre indivíduos, dentro de um
ambiente social (MEDVIÉDEV, 2016).
• “Não existe significado fora da cadeia da compreensão
social” (MEDVIÉDEV, 2016, p. 65).
• É “corpo” porque faz parte da realidade, como um
“fragmento material” da mesma, “um fenômeno do mundo
exterior” (VOLÓCHINOV, 2017).
• É signo, porque pertence a uma realidade histórico
social”.
• Como “corpo”, “matéria”, o signo é um instrumento de
transmissão e de circulação da ideologia.
• Mas por ser uma realidade histórico-social, o signo
coincide com o ideológico, sendo que a ideologia e o
corpo que funciona como seu “veículo” são inseparáveis
(p. 120).
O que seria a “realidade material” e o
que seria a “realidade ideológica”?
Signo verbal
• A palavra é o signo ideológico por excelência;
• Toda a realidade da palavra é atravessada pela função
sígnica;
• Eliminando-se essa função da palavra, ela se torna
inutilizável para funções não sígnicas, o que não ocorre
com outros produtos que podem funcionar como signos;
• Ao contrário dos outros produtos ideológicos, o signo
verbal é produzido exclusivamente para comunicar;
• Em razão disso, a melhor maneira de se entender as leis
gerais da produção e da refração ideológica ocorre por
meio do estudo do signo verbal.
Como se pode compreender o signo verbal?
• Para Volóchinov, as duas tradicionais tendências nos
estudos da linguagem trazem percepções equivocadas
sobre o funcionamento da linguagem e sobre como os
signos devem ser compreendidos.
• Para ele, nem o “objetivismo abstrato” nem o
“subjetivismo idealista” fornecem um modelo adequado
para se compreender o signo verbal.
• Apenas em seu uso concreto, na interação discursiva, um
signo verbal pode ser compreendido em sua “novidade” –
“tema”, para Volóchinov (2017).
• “[...] o significado de toda enunciação é inseparável
de seu sentido ideológico e de sua relação com a
prática social; apenas existe em seu específico
contexto ideológico e prático” (p. 133).
• “Nenhuma enunciação verbalizada pode ser
atribuída exclusivamente a quem a enunciou: é
produto da interação entre falantes e, em termos
mais amplos, produto de toda uma situação social
em que ela surgiu (BAKHTIN [VOLÓCHINOV],
2017, p. 79).
Linguagem e classes sociais
• A relação entre a enunciação (também o signo ideológico) e a
dimensão histórico-social e de classe não é mecânica e
determinista, mas dialética.
• O signo ideológico cumpre o papel de mediador entre
infraestrutura e superestrutura.
• O signo responde ideologicamente a interesses de classe, mas
não tem um sentido fixo, sendo, pois, pluriacentuado,
atravessado por diferentes acentos ideológicos, de tendências
diversas.
• “A palavra concreta, e não sua abstração em nível de
dicionário, é sempre ideológica; forma-se e se modifica em um
determinado contexto de valores que estão dialeticamente
unidos às condições materiais de vida e à divisão do trabalho”
(p.137-138).
• “Antes que alguém se aproprie dela, a palavra não se
encontra na língua neutra e impessoal, mas é palavra
alheia, que já conta com um rastro ideológico
determinado, uma intenção valorativa concreta. Quando o
falante a torna própria, nunca é uma palavra vazia a ser
ocupada com conteúdos ideológicos, mas sim ‘palavra já
habitada’, cuja apropriação é obtida através do encontro,
da adesão ou do choque com conteúdos ideológicos que
já existiam nela. [...] na palavra do falante permanecem
intenções que lhe são estranhas, que ele nem sempre
consegue controlar, que nem sempre coincidem com as
próprias intenções” (p. 148).
• A “misteriosa” situação da “alienação linguística”;
• As palavras são sempre tomadas de contextos sociais
concretos.
• Uma palavra repercute de modo estranho no discurso de
uma pessoa, quando esta se apropria da palavra, mas
sem integrar-se aos contextos sociais concretos dos
quais ela veio.
• Contra a vontade do falante, a palavra se apresenta em
seu discurso, por si própria, entre aspas (BAKHTIN,
2015)
Semiótica e marxismo: sobre
as possibilidades de uma
fundamentação marxista da
semiótica
A raiz semiótica das reflexões marxistas
• 1. A crítica marxista da economia política se dá através de
uma análise semiótica da “linguagem das mercadorias”,
considerando “mercadorias como mensagens”, algo a ser
decifrado;
• 2. O marxismo está preocupado com a ideologia e “o estudo
das ideologias é inseparável dos sistemas sígnicos” (p. 152);
• 3. O marxismo, como uma “teoria do conhecimento”, precisa
desenvolver análises que incluem o estudo da linguagem
verbal e dos signos em geral;
• 4. A atenção do marxismo aos sistemas de comunicação
(propaganda política, comunicação de massa, luta ideológica
etc.) torna inevitável a entrada no terreno da semiótica.
A raiz marxista da semiótica
• 1. A semiótica se mostra uma disciplina crítica, atenta à análise
das estruturas histórico-sociais da produção dos signos;
• 2. “Os processos de produção sígnicas são também processos de
produção de ideologias” (p. 153);
• 3. Com base no materialismo histórico-dialético, a semiótica
assume uma postura crítica frente à suposta “naturalidade” ou
“espontaneidade” dos fenômenos sociais;
• 4. Os signos deixam de ser vistos como apenas “meios de
comunicação”, de “transmissão de significados”, “intercâmbio de
notícias” e passam a ser concebidos como elementos que estão
na base da existência humana (nada é anterior aos signos);
• 5. As estruturas sígnicas são vistas como estruturas de relações
sociais (sob um sistema sígnico vigente existem relações sociais).
• “O signo é a expressão viva das contradições de classe
(e não somente sua mera representação). É ideológico
por si mesmo, contraditório, ambíguo, plurivocal, e o é
mais quanto maiores são as contradições sociais e
quanto mais peso tem o sistema sígnico-ideológico na
organização social e no desenvolvimento das forças
produtivas. A classe dominante, que busca sua
reprodução, esforça-se por dar aos signos um caráter
unívoco, definitivo, sério. Mas os signos não são o
produto de uma só classe; são o produto de toda a
sociedade, e as contradições sociais fazem estourar nele
as plurivocidade, a ambiguidade, o duplo sentido” (p.
158).
Obrigado pela atenção!
Referências
• BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2011.
• Trad. Paulo Bezerra. 1ª. Ed. São Paulo: Editora 34, 2015.
• _______. A Teoria do Romance I: A estilística. Trad. Paulo Bezerra. 1ª. Ed. São Paulo: Editora 34,
2015.
• FARACO, C. A. Linguagem e diálogo: as ideias linguísticas do Círculo de Bakhtin. São Paulo:
Parábola, 2009.
• GRILLO, Sheila. Marxismo e filosofia da linguagem: uma resposta à ciência da linguagem do século
XIX e início do século XX. In: VOLÓCHINOV, Valentin Nikolaievich. Marxismo de Filosofia da
Linguagem. Trad. Sheila Grillo e EkaterinaVólkova Américo, 1ª. Ed. São Paulo: Editora 34, 2017,
p. 7-79.
• MEDVIÉDEV, Pável Nikoláievitch. O método formal nos estudos literários: introdução crítica a
uma poética sociológica. São Paulo: Contexto, 2016.
• PONZIO, Augusto. Signo e sentido em Bakhtin. In: PONZIO, Augusto. A revolução bakhtiniana: o
pensamento de Bakhtin e a ideologia contemporânea. São Paulo: Contexto, 2008, p. 89-100.
• _____. Signo e ideologia. In: PONZIO, Augusto. A revolução bakhtiniana: o pensamento de
Bakhtin e a ideologia contemporânea. São Paulo: Contexto, 2008, p. 109-159.
• VOLÓCHINOV, Valentin Nikolaievich. A construção da enunciação e Outros ensaios. São Carlos:
Pedro & João Editores, 2013.
• _____. Marxismo de Filosofia da Linguagem. Trad. Sheila Grillo e EkaterinaVólkova Américo, 1ª.
Ed. São Paulo: Editora 34, 2017.

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