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A construção da ciência

 Para chegarem às leis e às teorias científicas, os investigadores usam o método experimental.

 Usar um método é seguir um conjunto de regras que determinam quais são os procedimentos e
os instrumentos adequados à investigação:

 regras relativas à observação, à realização de experiências e à recolha e seleção de dados.

Em que consiste o método científico? Quais são os procedimentos adequados à investigação


científica? Qual é o papel das observações, das experiências e dos dados na construção das leis e
das teorias científicas? Como chegam os investigadores às leis e às teorias científicas?
A construção da ciência

 As teorias científicas são propostas de


solução para os enigmas da Natureza e do
Universo.

 A investigação de um enigma relativo ao


funcionamento do mundo compreende dois
momentos:
 o da descoberta de uma solução para
o enigma.
 o da justificação do valor da solução
encontrada. Erupção do vulcão Mayón, Filipinas, 1984
A construção da ciência
DESCOBERTA

 Depende essencialmente de processos mentais inventivos e criativos:

 o cientista ocupa-se dos diversos aspetos do enigma por muito tempo, ensaiando e falhando
tentativas de solução.

 por fim, surge uma nova tentativa de solução, capaz de dar uma explicação sólida dos
diversos aspetos do enigma.
JUSTIFICAÇÃO

 Depende essencialmente de processos mentais racionais e analíticos:

 a teoria é submetida a testes, lógicos e empíricos, que determinam o valor da teoria.

 os testes só têm validade científica se forem metódicos e rigorosos.


Testes lógicos e empíricos
Testes lógicos e empíricos
Testes lógicos e empíricos
A perspetiva indutivista sobre o método científico

Como conhecemos o mundo? Como chegamos às leis e às teorias científicas?

 A ciência começa com a observação cuidadosa e com o registo sistemático dos resultados da
observação:

 a observação permite alcançar coleções de registos particulares.

 Por indução, a partir dos dados da observação, alcançam-se as leis:

 sucessivas inferências indutivas permitem progredir dos dados da observação até às leis e
das leis menos gerais até às leis mais gerais.

 o conhecimento das leis gerais permite fazer previsões exatas.


A perspetiva indutivista sobre o método científico

 A perspetiva indutivista do método Indutivismo clássico


científico e da ciência assenta em duas ideias
 descoberta – as inferências indutivas permitem
principais:
alcançar conclusões gerais a partir do
 a ciência começa com a observação e é conhecimento de casos particulares.
impossível conhecer o mundo sem o
 justificação – as inferências indutivas permitem
observar.
extrair conclusões dos resultados dos ensaios
 a inferência indutiva é a única forma de
experimentais e determinar se esses resultados
inferência capaz de produzir
constituem a evidência empírica necessária para
conhecimento genuinamente novo
se considerar que uma lei ou uma teoria foi
sobre o mundo.
provada.
Objeções à perspetiva indutivista
Entidades inobserváveis

 As teorias científicas mais avançadas e explicativas são, quase todas, teorias que pretendem
explicar fenómenos e entidades inobserváveis.

 Mesmo as teorias que pretendem explicar fenómenos observáveis, para explicarem esses
fenómenos, referem-se a fenómenos e entidades inobserváveis:

 por indução, partindo de premissas relativas a casos particulares observados, é impossível


chegar a uma conclusão que explique esses casos referindo fenómenos ou entidades
inobserváveis.

 se é verdade que muitas teorias científicas são acerca de fenómenos e de entidades


inobserváveis, então pelo menos essas teorias não foram descobertas indutivamente.
Objeções à perspetiva indutivista

Começamos por problemas

 toda a observação está impregnada de


teoria.

 a observação é sempre posterior à teoria.

 não existe a observação pura, ou


puramente sensorial, pressuposta pelo
Sem teorias sobre a Natureza e o Universo, sem indutivismo.
expectativas sobre o funcionamento do mundo,  segundo Popper, a investigação científica
nada se destaca ao ponto de ser um objeto de
tem origem em problemas.
inquietação ou curiosidade e, por consequência,
de observação.
Objeções à perspetiva indutivista - síntese

Teses do indutivismo Objeções ao indutivismo

 a ciência começa com a observação e é  segundo Popper, “nunca começamos por


impossível conhecer o mundo sem o observações, mas sempre por problemas: por
observar. problemas práticos ou por uma teoria que deparou
com dificuldades – quer dizer, uma teoria que criou, e
frustrou, determinadas expectativas”.

 a inferência indutiva é a única forma de  por indução, partindo de premissas relativas a


inferência capaz de produzir casos particulares observados, é impossível chegar a
conhecimento genuinamente novo sobre uma conclusão que explique esses casos referindo
o mundo. fenómenos ou entidades inobserváveis.
A confirmação experimental das hipóteses

A tese da confirmabilidade

 A indução não tem um papel relevante na descoberta científica, mas a justificação das leis e das
teorias científicas depende das inferências indutivas.

 A ciência empírica recorre ao método experimental para testar as leis e as teorias científicas:

 as experiências científicas consistem em testar consequências experimentais logicamente


deduzidas da hipótese.

 a hipótese é confirmada se as suas consequências experimentais forem verificadas em todos


os ensaios experimentais realizados.

 as hipóteses científicas podem ser experimentalmente confirmadas, mas nunca podem ser
experimentalmente verificadas.
A confirmação experimental das hipóteses

A tese da confirmabilidade

 As hipóteses científicas não podem ser verificadas porque são proposições universais:

 a verificação de uma proposição universal implicaria a verificação de todos os casos


particulares incluídos na proposição universal, e isso é impossível.

 podemos verificar que “este corpo pesado, quando suspenso no ar, cai perpendicularmente
ao chão”, mas não podemos verificar que “todos os corpos pesados, quando suspensos no ar,
caem perpendicularmente ao chão”, pois isso implicaria observar todos os corpos.
 A repetição de ensaios experimentais bem-sucedidos aumenta a probabilidade de a hipótese ser
verdadeira, mas nunca dá uma prova conclusiva da veracidade da hipótese.

 Os testes empíricos usados na justificação de uma hipótese científica apenas podem dar-lhe um
certo grau de confirmação experimental.
Objeções à tese da confirmabilidade

 Não é possível encontrar uma fórmula que, em cada caso, determine quantos ensaios
experimentais bem-sucedidos são necessários para obter uma confirmação da hipótese.

 Segundo Popper, o problema da indução é insuperável:

 se as inferências indutivas não podem ser justificadas, então também não podem ser usadas
para justificar as teorias científicas.

 a justificação científica depende exclusivamente de procedimentos dedutivos – os testes


lógicos e os testes empíricos a que as teorias científicas são submetidas dependem apenas de
inferências dedutivas.

 Popper resolveu o problema da indução, no domínio da justificação científica, afastando-o ou


dissolvendo-o.
O lugar da indução na ciência

Será que a indução desempenha um papel central na construção das leis e das teorias científicas?
A perspetiva falsificacionista de Popper

 Popper defendeu que a conceção indutivista da


ciência é errada e apresentou uma perspetiva
falsificacionista da ciência, segundo a qual o objetivo
dos testes experimentais é falsificar as hipóteses
avançadas pelos cientistas.

 para compreender o papel da falsificação de


teorias no método científico e a sua importância para
o progresso da ciência, é preciso compreender o que
é uma proposição falsificável.
Proposições falsificáveis

 Uma proposição é falsificável – ou empiricamente refutável – se, e apenas se, podemos conceber
um estado de coisas que a refuta e que, se for verificado, mostra que ela é falsa.

 Para mostrar que uma proposição é falsa, é suficiente uma única observação que a contradiga.

Todos os corpos metálicos flutuam na água.

 Para que a proposição seja falsificável, é suficiente que possamos conceber ou imaginar um estado
de coisas que a refute – não temos de observar um estado de coisas que efetivamente a falsifique.

Quando suspensas no ar, todas as pedras caem.


Proposições falsificáveis

Todos os corpos metálicos flutuam na água.

 É uma proposição falsificável porque podemos conceber um estado de coisas que a refuta e que,
se for verificado, mostra que ela é falsa.

 É uma proposição falsa porque já observámos um estado de coisas que a refuta.

Quando suspensas no ar, todas as pedras caem.

 É uma proposição falsificável porque podemos conceber um estado de coisas que a refuta e que,
se for verificado, mostra que ela é falsa (para sabermos que uma proposição é falsificável apenas
precisamos de a analisar, não precisamos de observar nada).

 Como ainda não observámos um estado de coisas que a refute, podemos aceitá-la
provisoriamente como verdadeira.
Proposições não falsificáveis

 Uma proposição não é falsificável – ou é empiricamente irrefutável – se não pudermos conceber


um estado de coisas que a refute.

 As proposições particulares são empiricamente irrefutáveis.

Alguns corpos metálicos afundam-se na água.

Algumas pedras flutuam no ar.

 As proposições tautológicas são empiricamente irrefutáveis.

Se protestarmos, o governo cederá ou não cederá.

 As proposições imprecisas são empiricamente irrefutáveis.

Se acreditarmos em nós, o governo cederá.


Proposições não falsificáveis

 As proposições empiricamente irrefutáveis, ao contrário das proposições falsificáveis, não


excluem estados de coisas e, por essa razão, não são informativas.

 Algumas proposições não falsificáveis podem ser tornadas falsificáveis.

Se acreditarmos em nós, o governo cederá.

 Para tornar esta proposição falsificável, é necessário descrever “acreditar em si” em termos
observacionais e tornar mais precisa a noção de “o governo ceder”.

Se todos fizermos greve por duas semanas, o governo aceitará o aumento salarial que os
sindicatos propuseram e manterá o atual código do trabalho.

 As proposições falsificáveis excluem estados de coisas e, por essa razão, são informativas.
Graus de falsificabilidade

 As proposições podem ter graus de


falsificabilidade diferentes.

Se formos firmes no nosso protesto, o governo não


poderá ignorar-nos.

Se fizermos greve, o governo cederá. Mineiros em greve, Reino Unido, 1984-85

Se todos fizermos greve, o governo aceitará as


principais exigências dos sindicatos.  Quanto mais falsificável é uma
Se todos fizermos greve por duas semanas, o governo proposição, quanto mais estados de
aceitará o aumento salarial proposto pelos sindicatos coisas exclui, tanto mais informativa e
e manterá o atual código do trabalho. ousada é essa proposição.
As teorias científicas – ousadia e resistência

Ousadia
 As leis e as teorias das ciências empíricas pretendem descrever e explicar, com elevado grau de
exatidão, o modo como o mundo se comporta.

Quando suspensos no ar, e na ausência de outras forças, todos os corpos pesados caem
perpendicularmente ao chão com movimento uniformemente acelerado e o valor dessa
aceleração uniforme é 9,8 m/s2.

 Ao mesmo tempo que dizem, com elevado grau de exatidão, como o mundo se comporta, as
teorias científicas dizem como o mundo não se comporta.

 Segundo Popper, “toda a boa teoria científica é uma interdição: proíbe que determinadas coisas
aconteçam; quanto mais a teoria proibir, melhor será”.

 As teorias científicas mais avançadas e explicativas são falsificáveis num grau muito elevado e
muito informativas, ou seja, são ousadas.
As teorias científicas – ousadia e resistência

Resistência
 Além de serem falsificáveis num grau muito elevado, as teorias científicas mais avançadas e
explicativas devem resistir às tentativas de falsificação, nomeadamente, aos testes empíricos severos
concebidos para as tentar falsificar.

Todas as pedras flutuam no ar.

 Esta proposição é falsificável num grau muito elevado, mas não é uma teoria científica, porque
cederia à primeira tentativa de falsificação.

 As melhores teorias científicas são, simultaneamente, muito ousadas e informativas e muito


resistentes à falsificação e à crítica.
O problema da demarcação

O que distingue as teorias científicas das teorias não científicas ou pseudo-científicas?

 Segundo Popper, as teorias científicas distinguem-se das teorias não científicas ou


pseudo-científicas pelo facto de serem falsificáveis, ou seja, a falsificabilidade é o critério de
demarcação da ciência.

 As teorias imunes à refutação empírica são teorias não científicas ou pseudo-científicas.

 A falsificabilidade é uma condição necessária, mas não suficiente, das teorias científicas.

 O critério da falsificabilidade só se aplica às teorias das ciências empíricas, ou seja, às teorias que
fazem afirmações sobre o modo como o mundo funciona (as teorias da Geometria, uma ciência
formal, não têm de cumprir este critério).
O problema da demarcação

O que distingue as teorias científicas das teorias não científicas ou pseudo-científicas?


O método científico

 Segundo Popper, a ciência começa por problemas:

 perante um problema, os cientistas avançam uma teoria.

 seguidamente, submetem a teoria a testes lógicos e empíricos (criticam a teoria).

 Para testar empiricamente a teoria, realizam-se experiências e aplicações práticas cuja finalidade
é verificar as consequências empíricas logicamente deduzidas da teoria.

 Se essas consequências não se verificam, então, dedutivamente, infere-se que a teoria avançada é
falsa e que tem de ser modificada, ou abandonada e substituída por outra.

 Para verificar que a teoria é falsa, é suficiente uma única falsificação das suas consequências
empíricas.
O método científico

 Se as consequências empíricas se verificam, apenas é possível inferir que, até ao momento, a


teoria não foi falsificada e que, na medida em que sobreviveu a testes empíricos severos, a teoria foi
corroborada pelos testes.

 Nenhum conjunto de verificações bem-sucedidas das consequências empíricas da teoria a pode


confirmar, nem sugerir que é provavelmente verdadeira.

 Um teste que falsifica uma teoria é mais informativo do que repetidos ensaios experimentais
bem-sucedidos.

 Os cientistas devem empenhar-se em submeter as teorias a testes empíricos severos, orientados


para a falsificação da teoria, em vez de repetirem ensaios experimentais orientados para a
confirmação da teoria.
A perspetiva falsificacionista de Popper – síntese

 A ciência consiste em, perante problemas, avançar e testar teorias.

 Os cientistas devem ser, simultaneamente, ousados nas teorias que avançam e críticos nos
testes a que as submetem.

 Quanto mais depressa uma teoria for falsificada, mais depressa terá de ser modificada, ou
abandonada e substituída por outra, obrigando os cientistas a avançarem continuamente novas
teorias, cada vez mais informativas ou mais resistentes aos testes lógicos e empíricos.

 A ciência progride na direção da verdade quando as melhores teorias disponíveis são por fim
falsificadas, ou seja, a ciência progride por conjecturas e refutações.

 O método científico compreende três passos: problemas, teorias, críticas.


Objeções à perspetiva falsificacionista de Popper

A história da ciência – uma história de confiança nas teorias e de perseverança

 os cientistas procuram salvar as teorias quando elas enfrentam uma refutação empírica.

 o progresso da ciência deve-se também à perseverança dos cientistas, que os leva a prosseguirem a
investigação e a desenvolverem a teoria, apesar das dificuldades que encontram, nomeadamente,
insucessos na obtenção dos resultados empíricos pretendidos.

Falsificações inconclusivas

 as teorias científicas são conjuntos articulados de proposições universais.

 um insucesso empírico pode ser atribuído quer ao teste, quer a uma das proposições acessórias da
teoria e, por isso, nenhuma teoria científica pode ser conclusivamente falsificada por uma única
observação ou por uma única experiência.

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