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Percursos da História 10º ano

III. A abertura europeia ao mundo – mutações nos


conhecimentos, sensibilidades e valores nos
séculos XV e XVI

O RENASCIMENTO:
HUMANISMO,
CLASSICISMO E
ANTROPOCENTRISMO
O Renascimento
Foi no contexto socioeconómico, político e cultural da Península Itálica que
emergiu o movimento designado Renascimento, e depois se difundiu pela Europa.

Península Itálica (1494). Principais focos do Renascimento europeu.


Percursos da História 10º ano | O Renascimento: humanismo, classicismo e antropocentrismo 
Humanismo
Os homens do Renascimento
desprezavam a Idade Média,
que viam como a Idade das
Trevas, valorizando a
Antiguidade Clássica, que
procuram imitar.

No entanto, existe uma


continuidade entre a Idade
Média e o Renascimento: por
exemplo, Petrarca e Bocaccio,
Bocaccio.
no século XIV, já estudavam
textos clássicos, que
Petrarca.
interpretam e criticam. 
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Humanismo
Humanistas:

• homens letrados do Renascimento,


interessados em várias áreas do  Estudo de obras greco-
saber; romanas.
• revitalizaram as línguas e letras da  Estudo do latim, greco e
Antiguidade Clássica; hebraico.
• ensinavam em universidades e  Tradução dos textos
publicavam obras; clássicos.
• procuraram harmonizar os valores
clássicos como o Cristianismo.

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Humanismo
Podemos falar de diferentes humanismos como: 

• o humanismo italiano que promoveu os studia


humanitatis (estudo das humanidades ou estudo
do humano): gramática, poesia, retórica, história
e ética.

• o humanismo doutrinário do norte e centro da


Europa, baseado num ativo espírito crítico em
relação aos vícios sociais e políticos e à Igreja,
criticando-a por sustentar a sua doutrina em
traduções incorretas dos textos bíblicos, onde se
destacou Erasmo de Roterdão. Erasmo de Roterdão por Holbein, 1523.

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Humanismo 
Os humanistas foram responsáveis pelo desenvolvimento de uma crítica social,
condenando os comportamentos indignos, a corrupção moral das elites. Alguns
destes humanistas conceberam mundos de perfeição em forma de utopias.

Em Inglaterra, destaca-se a Utopia de Thomas More:


• crítica a sociedade inglesa, o luxo e ostentação de
uns e a miséria de outros;
• na ilha imaginária da Utopia encontramos uma
sociedade justa e igualitária, de propriedade
coletiva;
• valorização das letras e da música;
• defesa da tolerância religiosa.
Thomas More por Holbein,
1527.
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Humanismo 
Nos Países Baixos, o Elogio da Loucura de Erasmo de Roterdão:
• A personagem central é a
loucura – Moria;
• Critica o clero,
denunciando o seu
desregramento e o
comércio das
indulgências;
• e as crendices e
superstições típicas da
sociedade do seu tempo.
Desenho de Hans Holbein, na Erasmo de Roterdão por Holbein,
primeira edição do Elogio da 1523.
Loucura, 1515. 
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Humanismo 
Em França, temos Gargântua e Pantagruel de François Rabelais:
• Crença nas capacidades do ser humano;
• Valorização da educação humanista e universalista;
• Ausência de regras rígidas;
• Afirmação do individualismo;
• Defesa da liberdade absoluta.
Gargântua bebia seu vinho e, então, se bem lhe parecia, continuavam a leitura, ou
começavam a falar alegremente da virtude, da propriedade, da eficácia e da natureza de tudo
quanto lhes era servido à mesa: do pão, do vinho, da água, do sal, das carnes, dos peixes, das
frutas, dos legumes, das raízes e do modo de prepará-las. Dessa forma aprendeu Gargântua,
em pouco tempo, todas as passagens sobre a temática de Plínio, Ateneu, Dioscóridis, Júlio
Pólux, Galeno, Porfírio, Opiano, Políbio, Heliodoro, Aristóteles, Eliano e outros. No decorrer François Rabelais (séc. XVI).
das conversas, muitas vezes mandavam vir à mesa, para se certificarem, os livros citados.

Rabelais, Gargântua, c. 1532.

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Humanismo 
Em Espanha, a obra D. Quixote de la Mancha de Miguel de Cervantes:

• Usa a ironia para criticar a sociedade do seu tempo;


• Contrapõe o herói ultrapassado, D. Quixote, ao
homem prático e realista, Sancho Pança;
• Sancho Pança governaria Barataria, a sua própria
utopia, com base em princípios práticos e simples.

Miguel de Cervantes (c. 1600).

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Humanismo 
Em Portugal, Os Lusíadas de Luís de Camões:

• No canto IX, Camões apresenta a sua utopia, a


"Ilha dos Amores", com a liberdade amorosa
para os marinheiros, heróis lusitanos da armada
de Vasco da Gama.
Assim a formosa e a forte companhia
O dia quase todo estão passando,
Numa alma, doce, incógnita alegria,
Os trabalhos tão longos compensando.
Porque dos feitos grandes, da ousadia
Forte e famosa, o mundo está guardando
O prêmio lá no fim, bem merecido,
Com fama grande e nome alto e subido. Luís de Camões (1577).

Luís de Camões, Os Lusíadas, Canto IX.

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Classicismo
O culto da estética e dos valores da Antiguidade Clássica,
o Classicismo, foi uma das características mais distintivas
da cultura renascentista.

Os fatores que motivaram este culto foram:


• a queda do Império Romano do Oriente, que levou
Vestígios materiais do Império
ao exílio de muitos intelectuais bizantinos para a Romano.
Península Itálica; 
• o desenvolvimento de um clima de curiosidade em
torno dos vestígios materiais e do passado glorioso
do Império Romano; 
• a difusão dos textos da Antiguidade, facilitada pela
invenção da imprensa;
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Classicismo
• a veneração do saber dos antigos a quem
era conferido o carácter de autoridade, o
que se refletiu na sobrevalorização das
letras em relação às demais áreas do
conhecimento; 
• a promoção cultural e artística pela ação
dos mecenas que tornavam os seus
palácios centros de erudição classicista; 
• as universidades tornaram-se focos ativos
de transformação do Renascimento e de
valorização do estudo dos antigos.
Na Escola de Atenas, Rafael coloca Platão e
Aristóteles no centro da composição.

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Antropocentrismo
O Renascimento também resulta de uma nova atitude face ao papel do
homem, uma vez que o coloca no centro do mundo, o antropocentrismo, em
oposição ao teocentrismo medieval.

Deus escolheu o Homem e, colocando-o no centro do


Mundo, disse-lhe: coloquei-te no centro do Mundo para
que daí possas facilmente observar as coisas. Não te
fizemos nem celeste, nem terreno, nem imortal, nem
mortal, para que, por teu livre arbítrio [livre vontade], tu
possas escolher. Pela tua vontade, poderás descer até às
formas mais degradadas da vida, que são os animais.
Pela tua vontade, poderás alcançar as formas mais
elevadas, que são divinas.

Pico della Mirandola, “Discurso sobre a Dignidade do Homem”,


1486.
Pico della Mirandola

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Antropocentrismo

O homem é a medida de todas as coisas… Cada parte do


corpor deve estar em proporção com o todo… (…)
Se abrirdes as pernas até terdes diminuído um catorze
avos da vossa altura e abrirdes e levantares os braços até
que os vossos dedos médios estejam alinhados com o
topo da cabeça sabei que o umbigo será o centro do
círculo a partir do qual os membros abertos tocam na
circunferência e o espaço entre as pernas formará um
triângulo equilátero.

Leonardo da Vinci, “Plano de estudos do Artista”.

O Homem de Vitrúvio, 1490.


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Antropocentrismo
Na visão antropocêntrica dos humanistas, o homem é senhor do seu próprio
destino, podendo, por meio do uso da razão, atingir a sua realização plena.

O lugar do Homem de acordo com o uso da razão, Charles de Bovelles, 1509.

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Antropocentrismo
Neste contexto antropocêntrico, os próprios artistas vão destacar-se dos
mesteirais, passam a ser visto como criadores, beneficiando de uma
assinalável promoção social: 

• a produção artística passou a ser equiparada à produção intelectual;


 
• alguns artistas eram humanistas; 

• a criação artística assemelhava-se à criação divina; 

• o artista tinha a capacidade de fazer uma leitura racional do


universo sensorial que o rodeava e de o verter nas suas obras.

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Antropocentrismo

Os artistas ascenderam à
categoria de intelectuais
e de «autores» – orgulho
pela autoria da obra de
arte, traduzida na
assinatura e no
autorretrato.

Casal Arnolfini e assinatura de Van Eyck, Autorretrato de Dürer, 1498.


1434.
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