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O que é a filosofia?

Índice
1. Os temas e as questões da filosofia
2. A natureza e a utilidade da filosofia
 

Objetivos
 Conhecer os temas e problemas estudados pela Filosofia.
 Caracterizar o conhecimento filosófico e compreender a especificidade
dos métodos nele utilizados.
 Compreender as razões para estudar Filosofia.
1. Os temas e as questões da filosofia
As perguntas filosóficas incluem algumas das perguntas mais emocionantes,
intrigantes e importantes jamais colocadas. Conseguem pôr em causa as nossas
crenças mais básicas.
Stephen Law, Filosofia

A origem da palavra e a definição da filosofia

• A filosofia apareceu pela primeira vez na Grécia Antiga.


• “Filosofia” deriva da contração de duas palavras gregas:
- philia - amor, no sentido de amizade e respeito;
- sophia - sabedoria, conhecimento.
• Filosofia = amor ao saber, interesse e dedicação para com o conhecimento.
• Não é muito esclarecedor – nem todas as pessoas que se interessam pelo
conhecimento (“amigos do saber”) são filósofos.
A filosofia como busca incessante do saber e a natureza dos seus problemas

A filosofia ocupa-se de questões muito difíceis de responder de forma definitiva.


Essas questões:
- surgem-nos naturalmente, mesmo que não tenhamos grandes conhecimentos;
- interessaram à humanidade desde sempre.
Quem coloca questões filosóficas?
Dois exemplos:
 A vida terá sentido? Se sim, qual?
 Se Deus não existir, deixa de haver razões para pensar que há bem e mal, e
tudo é permitido?
Essas questões, embora colocadas por filósofos e escritores, ocorrem a
qualquer pessoa quando reflete sobre o mundo e a vida.
2. A natureza e a utilidade da filosofia
Após o primeiro contacto com as questões filosóficas, podemos perguntar:
• Por que razão serão estas as questões filosóficas e não outras?
• Há algo de comum a todas elas que as torna problemas específicos da filosofia
e não das ciências?
• Ou simplesmente aconteceu serem estas?
Não basta pensar em questões deste tipo para estar a fazer filosofia.
É preciso pensar de certo modo.
Há realmente características comuns a todos estes problemas e aos métodos
usados para investigar tais problemas.
Vejamos os mais importantes.
A profundidade das questões filosóficas
A complexidade e a dificuldade das questões apresentadas são evidentes.
• São, geralmente, questões difíceis de compreender numa primeira abordagem.
• Mesmo que as compreendamos, é muito difícil responder-lhes.
Estamos a caminho de identificar uma das características fundamentais da filosofia.
Por que razão serão as questões em causa tão difíceis de entender e de responder?
A razão mais natural: colocam em causa aspetos da realidade e de nós mesmos
que não estamos habituados a discutir.
Na vida de todos os dias, geralmente não surgem situações que nos levem a
colocar questões tão gerais e profundas – as que colocam em causa muitas ideias
de grande importância.
As questões filosóficas colocam problemas que vão aos níveis mais profundos
daquilo que acreditamos sobre o mundo, as pessoas e nós mesmos.
Exemplos:
1. Se o Governo perseguir um amigo próximo de José com base em leis que José
considera injustas, e ele lhe pedir que o esconda, deve José escondê-lo?
2. O que são realmente a amizade e a justiça?

1 é uma pergunta acerca do que é bom, mau, justo ou injusto fazer. Coloca o problema
a propósito do que José deve fazer, mas de tal modo que nos leva a pensar o que nós ou
qualquer outra pessoa deveríamos fazer numa situação semelhante.
2 envolve colocar em causa muitas coisas em que acreditamos acerca do bem, da
justiça, do dever e da lei, e não apenas o que acontece a José. Responder-lhe é difícil
porque temos de levar em conta valores e princípios, factos acerca de muitos aspetos
da realidade, e até situações hipotéticas.

Embora pensar filosoficamente possa ser estimulante, também pode ser


perturbador. Quando começamos a pensar filosoficamente, começamos a
pensar sem rede de segurança.
Stephen Law , Filosofia
Poderá a filosofia seguir este método? Não.
Ex.: “Haverá uma realidade diferente por trás daquela que observamos?”
Nenhum conjunto de testes e observações poderá responder-lhe: é uma questão
acerca da possibilidade de haver algo que não pode ser observado. Não podemos
observar se há algo que não podemos observar.
 
Ciências exatas: também não podem recorrer a testes e observações - não
lidam com factos físicos, mas com abstrações.
Ex.: Sabemos que 2 + 3 = 5 sem precisarmos de confirmá-lo juntando muitas
vezes grupos de duas coisas com grupos de três.
O seu método é a análise conceptual. Triângulo, lado, dois, soma, igualdade são
conceitos.
Conhecê-los não é olhar para o mundo; é prestar atenção às suas definições e
perceber o que implicam e como se relacionam.
Estes conceitos são definidos de um modo completo e universalmente aceite.
Uma vez compreendidos, temos resultados definitivos. Uma vez demonstrado que
um resultado se segue das definições, e não havendo erro de cálculo, nada mais
há a fazer.
Mas…
Na filosofia, os conceitos não são definidos de modo absoluto e consensual.
A solução que parece correta a um filósofo é proposta com argumentos a apoiá-la e
é geralmente contestada por outros. Não pode ser demonstrada como verdade
definitiva.
Se os problemas filosóficos nunca foram definitivamente resolvidos, então são
eternos - discutimos hoje muitos problemas que os filósofos do passado discutiram.
Os filósofos não se repetem ao longo da história. O que é permanente são os
problemas e o interesse das propostas de resposta dos filósofos do passado.
O resto muda, surgindo:
- novas propostas de resposta;
- novos problemas ou novos modos de colocar problemas antigos;
- novos argumentos a favor e contra as respostas passadas e atuais.
Porquê estudar filosofia?
• Os filósofos interessam-se por pensar em soluções para certos problemas
eternos.
• Quem pensa que não o devem fazer terá de o justificar.
 A filosofia decorre da curiosidade natural
 

 Foi, com efeito, o espanto que empurrou os primeiros pensadores para as


especulações filosóficas, tal como hoje acontece.
Aristóteles, Metafísica
 

É natural ao ser humano o espanto perante o mundo e a necessidade de


compreender o porquê de tudo. Essa é origem da filosofia, tal como das ciências.
Cabe ao crítico da filosofia dizer por que razão deverão os filósofos parar e
refrear esse interesse que não é só deles, mas é de toda a espécie humana.
O carácter inevitável da filosofia 
Certos ataques à filosofia envolvem-se numa contradição.

Fazer troça da filosofia é, na verdade, filosofar.


Pascal

Uma crítica séria deve apresentar ideias e razões importantes a favor de


desistirmos da filosofia. Mas isso é algo típico do que faz o filósofo.
Assim, o crítico da filosofia: 
- Confronta-se com um problema: a filosofia tem valor? Deve ser praticada?
 Problema acerca do valor de algo. 
- Defende uma resposta (negativa) a esse problema.
 Razões, justificações, em apoio da sua tese.
Estas razões não são observações científicas nem factos físicos. São semelhantes
às que os filósofos apresentam em defesa das suas teses - argumentos.
Certezas, dúvidas, aplicações e o valor da filosofia
Crítica:
• A filosofia não satisfaz a curiosidade natural do ser humano acerca dos seus
temas.
• Ao longo dos tempos, não fez uma só descoberta universalmente aceite por todos
os filósofos.
Bertrand Russell sintetiza as vantagens de filosofar.
 

Devemos procurar o valor da filosofia, de facto, em grande medida na sua própria


incerteza. O Homem sem rudimentos de filosofia passa pela vida preso a preconceitos
derivados do senso comum, a crenças costumeiras da sua época ou da sua nação, e a
convicções que cresceram na sua mente sem a cooperação ou o consentimento da sua
razão deliberativa. Para tal Homem o mundo tende a tornar-se definitivo, finito, óbvio; os
objetos comuns não levantam questões, e as possibilidades incomuns são rejeitadas com
desdém.
…/…
…/…
Pelo contrário, mal começamos a filosofar, descobrimos, como vimos nos
nossos capítulos de abertura, que mesmo as coisas mais quotidianas levam a
problemas aos quais só se podem dar respostas muito incompletas. A filosofia,
apesar de não poder dizer-nos com certeza qual é a resposta verdadeira às
dúvidas que levanta, é capaz de sugerir muitas possibilidades que alargam os
nossos pensamentos e os libertam da tirania do costume.
Assim, apesar de diminuir a nossa sensação de certeza quanto ao que as
coisas são, aumenta em muito o nosso conhecimento quanto ao que podem ser;
remove o dogmatismo algo arrogante de quem nunca viajou pela região da
dúvida libertadora, e mantém vivo o nosso sentido de admiração ao mostrar
coisas comuns a uma luz incomum.
Bertrand Russell, Os Problemas da Filosofia
A dúvida, se for encarada como busca de conhecimento sobre certos temas, não
é inteiramente um defeito. Mesmo na vida prática, a filosofia é útil porque
cultiva uma atitude crítica.
Desenvolve:
• o hábito de compreender e avaliar perspetivas e argumentos diferentes
de modo rigoroso e racional, desconfiar das aparências e formar opiniões
informadas e amadurecidas pelo contacto com outras opiniões e
argumentos;
• a dúvida atenta, cuidadosa e informada em todos os domínios;
• a reflexão para compreender o que nos dizem, as suas consequências,
implicações e relações com toda a outra informação;
• uma atitude interrogativa que não admite como verdadeiro nada que não
tenha sido analisado de forma ponderada e rigorosa.
Em sociedades democráticas, é importante desenvolver esta atitude crítica
filosófica - as nossas escolhas políticas determinam o modo como somos
governados. 
Dois aspetos da atitude crítica:
• ponderação: reservar tempo e ter independência para submeter à reflexão
aquilo de que nos tentam convencer;
• exercício mental: permite perceber erros de raciocínio ou argumentação,
involuntários ou propositados, ver todos os lados de uma questão e julgar
de modo autónomo.
Curiosidade, prazer, desafio intelectual e filosofia
A filosofia tem valor pelo prazer que podemos ter ao estudá-la. É o tipo de prazer
que temos na leitura ou na contemplação da arte e de coisas belas.
 Libertamo-nos das preocupações materiais para cuidar do nosso mundo
mental - parece ser um bem poder experimentar estes tipos de prazer.
A filosofia tem o valor pelo prazer do desafio para resolver qualquer tipo de enigma.
 É importante lutar por ter esse espaço para deixar o espírito “respirar” e
ocupar-se daquilo que também é importante na vida.
A vida não merece ser vivida se não refletirmos sobre ela.
Atribuída a Sócrates (séc. V a. C.)

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