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Setembro/2008 1 Vejamos: diante da pergunta perspicaz, feita por um

“intérprete da Lei” (“com o intuito de pôr Jesus à prova”,


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A pedagogia de Jesus, a partir de: O samaritano bom v. 25), Jesus responde, com igual perspicácia, devolvendo
Lucas 10.25-37 ao interlocutor a pergunta: “Que está escrito na Lei?
Como interpretas?” (v. 26).
Estou cada vez mais convencido de que os textos bíblicos
mais conhecidos são também os menos compreendidos. - Jesus, aqui, apela para a lógica e a objetividade da
Justamente porque são lidos tão freqüentemente dos Lei, conhecida do interlocutor, uma vez que este era
nossos púlpitos e são tão recorrentes em nossas prédicas, especialista em sua interpretação.
que acabam por cauterizar (“blindar”, diriam alguns
políticos contemporâneos) nossas mentes e corações e - À pergunta objetiva de Jesus, o intérprete respondeu
tornamo-nos imunes à sua mensagem. citando uma conhecida síntese legal que os advogados de
então carregavam, literalmente, na manga (era costume
Recuperar o sentido original e o impacto que esses trazerem atadas à manga das vestes, tiras com resumo de
textos tiveram sobre seus primeiros ouvintes e leitores leis, para consultas rápidas):
é tarefa que, paradoxalmente, os estudiosos, só “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de
alcançam com muito esforço e com a graça de Deus. toda a tua alma, de todas as tuas forças e de todo o teu
entendimento; e: Amarás o teu próximo como a ti
Assim sendo, oramos para que Deus bendiga o nosso mesmo” (v.27).
esforço e nos dê a graça de lermos e refletirmos sobre este À resposta tão objetiva do intérprete, segue-se a
trecho, em forma de parábola, como se o estivéssemos conclusão lógica e sumária de Jesus:
fazendo pela a primeira vez. “Respondeste corretamente; faze isto e viverás.” (v. 28).
-Esta lei necessitava ser, obedecida, vivida....
Lucas 10: 25-37
Entretanto, como sabemos, o que o intérprete buscava era,
Introdução antes, um pretexto para “incriminar” Jesus. Por isso
insiste, deixando a lógica de lado (a gente sempre deixa
Em certa passagem, o autor da epístola aos coríntios a lógica de lado quando isso nos favorece ou interessa):
refere-se à “mente de Cristo”
(1Co 2.16). Lemos... “Ele, porém, querendo justificar-se, perguntou a
Mas o que é, afinal, a “mente de Cristo”? Jesus: Quem é o meu próximo?” (v. 29).
É aqui que entra em ação o lado “analógico” da “mente de
Ora, a narrativa do evangelho que acabamos de ler nos dá Cristo”: Jesus usa a sua técnica, a sua didática, diríamos
uma boa idéia de como a “mente de Cristo” funciona: hoje. A sua didática era extrordinária!
combinando de maneira fascinante os elementos lógicos e “Jesus prosseguiu, dizendo: Certo homem descia de
as analogias propostas por Ele. Jerusalém para Jericó...” (v. 30).
3 Uma segunda questão: geralmente pensamos que o
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Se a argumentação objetiva não surte efeito, então, sacerdote e o levita, que passaram “de largo”, faltaram com
tentemos a subjetiva! Jesus recorre à metáfora, à suas obrigações, mas isso não é bem verdade.
parábola, à linguagem simbólica, à força da imagem e
ao poder da imaginação. Veja: Havia leis muito claras e rígidas que diziam que os que
exerciam funções religiosas ficariam impedidos de realizá-las
Isto é a uma analogia. caso tocassem em um cadáver, ou em um estrangeiro, por
estar ritualmente impuros. Exemplo, Lev. 5
Sua narrativa descreve uma cena com inúmeras
contradições lógicas e paradoxos teológicos. Isto é, Três boas desculpas:
contrários ao pensamento comum. Observemos mais
atentamente alguns desses contrastes: >> Ora, esses senhores fizeram o que parecia certo, o que
era mais lógico. “Estavam cumprindo com a lei”
Primeiro: sabe-se que Jerusalém fica a cerca de 740m Devem ter pensado: Esse que está aí no chão pode ser um
(de altitude) acima do nível do mar, enquanto Jericó, a estrangeiro e pode me contaminar e impedir-me de realizar
400m (de baixitude) abaixo do nível do mar na região minhas funções.
do mar morto. Por essa razão, numa pequena distância
de menos de 30km há um desnível de mais de 1.100m. >> Ou pior, pode estar morto e, neste caso, nada poderei fazer
(1140Km). mesmo para ajudá-lo. Além do que, se esse sujeito se aventurou
a viajar por estas paragens, desacompanhado, é porque era
É um caminho íngreme, cheio de desfiladeiros, ideal mesmo um irresponsável e imprudente — teve, portanto, o que
para as emboscadas e a ação de salteadores (funcionava merecia.
assim como uma espécie de “Linha Vermelha” dos
tempos do novo testamento). >> Pensando bem, isso aqui bem pode ser uma emboscada.
Ele pode estar fingindo para me atrair e, assim que eu chegar
Ninguém, em sã consciência, se aventuraria a passar perto, salteadores cairão sobre mim, tornando-me a verdadeira
por ali a não ser que estivesse bem guardado. Por essa vítima desta história suspeita.
razão, as pessoas que tinham que fazer esse trajeto, Portanto, a lógica e o bom senso sugeriam a esses senhores
geralmente, viajavam em caravanas. que não haveria nada mais inteligente a fazer, a não ser dar
Nestes dias: Um jovem na estrada, parou para ajudar... ... ... o fora dali o mais rápido possível.

Ao que tudo indica, portanto, a vítima da parábola não >>>>>>>>>>>>>> Não devemos recriminá-los por isso, pois
era exatamente alguém a quem se poderia chamar de não fazemos nós exatamente a mesma coisa quase todos os
“prudente”. Hoje, se diria que ele “deu sopa pro azar”. dias, quando passamos por pessoas em situações
>>> Ele fez o ilógico. Então ele fez o errado. semelhantes nas estradas, nos semáforos, nas calçadas ... ?
5 > Quem fizeram o certo foram o sacerdote e o levita. 6
Em terceiro lugar: Finalmente, entra em cena o Eles cumpriram os preceitos religiosos; eles usaram de bom
“samaritano” (que em nenhum lugar no texto é senso, evitando o perigo; eles usaram a lógica e a inteligência
chamado de “bom”, a não ser no título que lhe para salvar a pele.
emprestou a tradição e o tradutor, João Ferreira de
Almeida). Sim, quem fez tudo errado foi o samaritano: arriscou-se,
O texto original não tem títulos nem subtítulos...... quebrou preceitos, rompeu com o bom senso, desperdiçou suas
reservas de medicamentos e ataduras, perdeu tempo e dinheiro —
Esse samaritano, sim, quebra todas as regras do bom além de tudo, o homem tomou prejuízo!? (acho que isso foi o que
senso, “fez tudo de errado!”. Isto do ponto de vista da mais impressionou os interlocutores de Jesus, pois sabemos de sua
lógica e da prudência. fama de alguns deles, de avarentos).

>> Aproxima-se do perigo. Se o sacerdote e o levita fizeram o que era certo, e quem
procedeu errado foi o samaritano, porque Jesus considera este
Quando está bem perto, não pode deixar de notar que a último o herói da história?
vítima era um desses judeus arrogantes por quem os
samaritanos nutriam um desprezo sistemático, mas isso não Esta é realmente uma questão intrigante. !!!!!!!!!!!!!!!!
o impede de aproximar-se ainda mais. Importa-se com um
semimorto. Aqui está pedagogia do mestre Jesus:
Parece que a chave para entendermos tudo está dada no
>> Correndo o risco de ser ele também tomado de versículo 33: “Certo samaritano, que seguia o seu
assalto e terminar do mesmo jeito que aquele que está caminho, passou-lhe perto e, vendo-o, compadeceu-se
diante dele, detém- se a cuidar dos seus ferimentos: “E, dele”
chegando-se, pensou-lhe os ferimentos, aplicando-lhes óleo Isto é: Usou de compaixão ... Teve compaixão.
e vinho” (v. 34). Compaixão não é sentir dor, ou pena como podemos pensar...
Compaixão não tem sinônimo em portugués.
E mais, servindo-se do seu próprio meio de transporte,
levou-o até uma hospedaria onde a vítima pudesse ser Antes - Não se trata, portanto, de um “bom samaritano” —como se fosse um
tratada e recuperar-se dos seus ferimentos (em gr. bom carioca, ou um bom paulista, “um bom Cuiabano”, etc (que conserva por
“Traumata”, daí trauma), e ainda.mais, gastou parte do exemplo a suas tradições...) — mas de um samaritano bom — como seria um
seu dinheiro com tudo isso. carioca bom, ou um paulista bom, um cuiabano bom... alguém que usa de
bondade. Para entender melhor um bom cuiabano conserva suas tradições,
Como se pode ver, nessa história, não há dúvida alguma a boas ou más... Assim como um bom corintiano....É diferente de um corintiano
bom...
respeito de quem teria feito o certo.
O verbo “compadecer-se” (em gr. splagchnizomai) deriva de
splagchnon, que significa “vísceras”, “intestinos”, “entranhas”.
7 Em outras palavras, com esta parábola, Jesus estava 8
O verdadeiro significado: propondo que quando tivermos que optar entre fazer o
Trata-se daquele sentimento que faz com que o estômago
certo ou fazer o bem, devemos sempre escolher fazer o bem!
fique embrulhado, revirado, diante do sofrimento humano; tal
compaixão é aquela que faz a gente ficar enojado, que solta >>> Como cristãos, reforçamos a idéia de que, para se fazer o
os intestinos, que dá ânsias de vômito ... Sentir com as certo, devemos exercitar a razão, e é isso mesmo, e assim
entranhas! devemos fazer sempre;
Perdoem-me se fazer essas alusões soe como mau gosto e
conversa de mau tom... Porém, as traduções ou versões da >>> mas, nunca devemos perder a noção de que o certo não
Bíblia, deixam muito a desejar...perde-se o verdadeiro é mais importante do que a Vida:
significado. É assim, que no se recomenda pra ninguém usar
a Bíblia na Linguagem de Hoje, para estudo doutrinário... Veja em estes outros exemplos bem conhecidos:
>> Mas esta é a chave para entendermos a “mente de Cristo”
e a sua proposta pedagógica, nesta passagem: Mat. 12: 1, 2 6 a 8 ou em Mat. 12: 9 a 13

É que quando a gente está na escola, ou mesmo na igreja, e “O sábado foi estabelecido por causa do homem, e não o
preocupado com a educação formal, tendemos a nos homem por causa do sábado” (Mt 2.27).
concentrar naquilo que é certo (a verdade/razão), e naquilo
que é inteligente (a lógica é que manda!).
Para a pergunta: “...É lícito curar no sábado?” V.10
Assim, parece natural que, quanto mais seguros estivermos R. - “É licito fazer o bem no sábado.” Mat. 12: 12
de estarmos certos, e de estarmos do lado da verdade, mais
justificativa encontramos para nossos atos de indiferença. E , Veja o exemplo usado pelo Mestre: Nos versos 11 e 12
pior, de intolerância.

>> Nesse sentido, fazer o que é certo, é o primeiro passo para Falando de Davi e seus companheiros conclue assim:
a intolerância, porque, surpreendente e contrário ao senso “Mas se vos soubésseis o que significa: Misericórdia (fazer o
comum, saber a verdade pode funcionar como antídoto para a bem) quero e não holocaustos (Cumprir a Lei) não teríeis
compaixão. Isto é para impedir que os nossos sentimentos se condenado inocentes.” Mat. 12: 7
transformem em ações em benefício do próximo.
>>> A prioridade sempre é a vida! E não a Lei...
Qual é a pedagogia de Jesus? É a pedagogia do bem... >>> Se a nossa pedagogia do certo nos impede de sermos
melhores e mais humanos, se nos incapacita para sentirmos
Qual é, então, a questão proposta por Jesus, aqui? indignação e nojo pela miséria e pela degradação da grande
comunidade universal, e se nos torna intolerantes ou
>>> O problema não é ter que escolher entre fazer o certo ou o
indiferentes ao sofrimento do nosso vizinho, a ponto de
errado.
guardarmos cada vez mais distância dele, algo vai muito mal
>>> A questão está entre fazer o certo ou fazer o bem! conosco e com a nossa pedagogia.
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Entretanto, como desenvolver nas igrejas e escolas, uma A análise da “mente de Cristo”, do pensamento Dele, da forma
pedagogia que vá além do certo? de pensar Dele, nos ajuda a entender como os aspectos lógicos
Filip 2.1 e as parábolas, podem corroborar para o triunfo do espírito
Como ensinar os “entranhados afetos de misericórdia” (Fp da vida sobre a lei da intolerância e da morte.
2.1) aos quais o Novo Testamento se refere de modo tão
enfático? Note entranhados vêm de entranhas.... Ao final da parábola (na analogia), Jesus, apela novamente
para a lógica, que oferece a conclusão do seu arrazoado:
Exemplo de falta deste sentimento são: “Qual destes três te parece ter sido o próximo do homem que
As estatísticas sobre a violência nas escolas (envolvendo caiu nas mãos dos salteadores?”
tanto alunos quanto professores) parecem reforçar essa noção.
“Respondeu-lhe o intérprete da Lei (e notem que, logicamente
>>> Mas tudo o que essas estatísticas, de fato, confirmam, falando, a resposta não poderia ser outra): O que usou de
é que não basta ensinar o certo para que as pessoas sejam misericórdia para com ele.” (v. 37).
melhores. Não há entranhados afetos de bondade ou amor.
Tal era a pedagogia de Jesus:
>>> Ora, não adianta ensinar o certo se não somos capazes uma proposta de diálogo entre a razão e o estômago, entre o
de aprender o que é realmente bom para todos nós. intelecto e os intestinos, entre o cérebro e o coração.
Isto é “ ... Amar o próximo como a ti mesmo”
Contudo, Jesus propõe o primado da vida sobre os preceitos ao
Conclusão defender que quando tivermos que optar entre fazer o certo ou
fazer o bem, devemos escolher sempre, fazer o bem!
Desenvolver, ao lado da pedagogia do certo, uma pedagogia
do bem, talvez seja o caminho da educação para a Assim Paulo diz: ”... e não vos canseis de fazer o bem” II Tess.
3:13
tolerância e a espiritualidade.
Porque só é intolerante quem tem certeza de que está >>> Quanto à pedagogia do certo: pratiquemo-la, e
fazendo o que é certo, mas nunca é intolerante o que está aprenderemos muitas coisas.
certo de estar fazendo o bem. >>> E quanto à pedagogia do bem, é Jesus quem diz: “faze isto e
viverás” Luc. 10:28
Ou desenvolvemos uma maneira de nos comunicarmos
com as “entranhas” do nosso próximo, ou acabaremos Fazendo assim alusão a vida eterna....!
todos vítimas da intolerância fatal e sumária que haverá Que acima de sermos um bom samaritano, um bom brasileiro, um
de nos tornar cada vez menos humanos.... Mais e mais bom uruguaio, um bom Cpaense...ou mesmo bom cristão...
insensíveis. Sejamos um Cristão Bom !