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Cristina Lopomo DEFENDI (PG-USP/IFSP/BRASIL) Raquel BRAGANÇA (UM/MACAU/CHINA) André Luiz RAUBER (PG-USP/UFMT

/BRASIL) Renata Barbosa VICENTE(PG-USP/UNIBAN/BRASIL)

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A organização da informação, via padrões textuais e gramaticais, é o foco deste estudo. Que funções os itens e/ou construções pronto, ainda que, portanto e quer dizer desempenham quando acionados pelos usuários da língua nas situações de interlocução?

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organizados por Lima-Hernandes.` Para análise. Vicente e Sampaio (2009). coletados por Lima-Hernandes (2011) Dados de entrevistas do projeto PHPP ± Projeto História do Português Paulista/ Projeto Caipira. ` ` . foram selecionados dados linguísticos de duas sincronias do português falado: Entrevistas de falantes do português de Macau.

Organização dos dados: variantes diatópicas semelhantes foram recolhidas a partir de sujeitos que vivem na zona urbana tanto na China como no Brasil. Ao todo. e todos os informantes são adultos e escolarizados. foram selecionadas seis horas de gravação de cada uma das amostras acima citadas.` ` ` Observação. O total de 12 horas de fala constitui o corpus aqui analisado. ainda que panorâmica. . de como se configura o português falado em Macau e sua relação com o português falado no Brasil.

Tais funções também ocorrem no português de Macau? . Ainda que tem assumido a função de elemento coesivo de contra-expectativa. tem assumido novas funções discursivas de explicação não-equativa.` ` ` Ocorrências de expressões introdutoras de informação: pronto. No português do Brasil. e quer dizer. ainda que. pronto é um adjetivo que passa a funcionar como elemento coesivo introdutor de uma conclusão. invariavelmente um elemento coesivo equativo. portanto e quer dizer. ao lado do item portanto.

usada com a intenção de estabelecer relações comunicativas. o que permite fenômenos de variação e mudança linguística. aqui tratados pelo prisma da gramaticalização. (1991). Para Hopper (1991). ` ` ` . As categorias são fluidas. segundo Dik (1989).` No paradigma funcional. a linguagem é entendida como um instrumento de interação social entre seres humanos. ou seja. de valores mais concretos para mais abstratos. a gramaticalização ocorre quando um item de estatuto lexical ou mais gramatical passa a desempenhar funções menos lexicais ou mais gramaticais. as categorias da língua estão em constante movimentação dentro do sistema linguístico. passando de domínios mais lexicais para outros mais gramaticais. Para Heine et al.

Para Taylor (2005). constatamos que a maior parte de nosso sistema conceptual ordinário é de natureza metafórica´. ³na evidência lingüística. a metonímia tem grande importância ` ` . molduras). No processo de categorização. que estão interconectados. podem ser modificados e podem ser usados genericamente para modelo de mapeamento dinâmico no pensamento e na linguagem. A linguagem é uma ferramenta e cabe à pragmática colocar a ferramenta em uso. Fauconnier e Turner (2003) mencionam os espaços mentais como estruturadores de frames (quadros.` Segundo Lakoff e Johnson (2002: 46). a linguagem interage com outros dois componentes mentais: a competência pragmática e o sistema conceptual.

Apesar de historicamente o Português ter sido a língua franca usada nas relações comerciais no Sul e Sudeste asiático. é o Inglês que serve de língua de contacto entre as diversas comunidades. e de ainda gozar do estatuto de língua oficial do território. social e linguístico. vale citar o escritor Luís Gonzaga Gomes que sugere uma Macau portuguesa. 2002: 87). presentemente é uma língua de uso minoritário. excepto na administração pública. sob pretexto de secar as mercadorias que se haviam molhado durante uma tempestade. . quando.` ` ` ` Mosaico cultural. Em termos linguísticos e culturais. Como data provável da chegada dos portugueses a Macau aponta-se o ano de 1553. um reflexo da complexidade linguística dessa cultura. desde o dia em que Ocidente e Oriente aí confluíram. Trata-se de um espaço de encontro de gentes e culturas. aí terão aportado (Loureiro. ³verifica-se também um crescente predomínio do Inglês sobre o Português a nível escrito. Como coloca Correia (1999: 58). 2001: 309). onde a língua mais utilizada. uma Macau chinesa e uma Macau macaense (Vale. Nas situações comunicacionais interétnicas. a nível escrito é ainda o Português´.

como marcador discursivo 30% como conector conclusivo 27% de função referencial. de retomada 5% marcador de estrutura equativa .` ` ` ` Alguns usos de portanto Foram encontradas 200 ocorrências do item portanto no corpus macaense / Somente 7 em corpus brasileiro Posição: 43 início de sentença. 148 posição medial e 9 em posição final. Função desempenhada: 38% de função pragmática.

e trabalhamos todos para o mesmo fim. com grande desenvolvimento e com as entradas que nós temos através. cabeça. eu agora não gosto de ir para as festas do serviço.... Ex.` (1) agora o terceiro governo tem trabalhado muito para que as pessoas mais necessitadas eh tenham o apoio suficiente da parte do governo. substituível por zero) (Macau. sinto « E portanto. completos. portanto não podemos comparar também com .:[1]) (2) nós temos que perceber que embora este passarinho é pequenino mas é tem todos os membros completos. portanto. divertimos. então) (Macau. equivalente a por isso que foi dito) (Macau. Ex. conversámos..: [3]) ` ` . das taxas do jogo eh podemos ter dinheiro suficiente para para incitarmos em muitos programas que ajudam especialmente as pessoas mais necessitadas. (marcador discursivo. (função referencial. outro país muito grande. falávamos « agora o ambiente é completamente diferente. Era só para satisfazer o chefe. (conector de conclusão.2011.. dizíamos muitos disparates. tronco e membros.: [2]) (3) Íamos festa. É bom que Macau. Ex. 2011. 2011. portanto. parafraseável por logo. isso não comparamos.

` ` ` ` Foram encontradas 36 ocorrências de quer dizer nos dados de fala de Macau e 41 nos dados do PHPP. . Originalmente: o verbo volitivo querer que funciona como modalizador do verbo dicendi dizer. essa expressão introduz uma informação igual ou de mesmo nível semântico do enunciado que a antecede. Como elemento coesivo equativo. Combinação quer + dizer parece desempenhar função pragmática de marcador discursivo.

` Função equativa: (4) Fashion Design quer dizer. essa também é nossa é uma das nossas prioridades também.. mas isto de facto é um hobby (Macau.. Mas.: [16]) .. de facto... que dizer é ter bom juristas para também formar os novos juristas.. de moda. eu gostava.. não é? Para podermos ter mais eh. não é? E a nossa missão é também a de formar mais juristas bilíngües locais.... mais pessoal. {sobreposição de vozes} (Macau. 2011Ex. 2011 Ex.. estilista.: [14]) ` Função explicativa/especificativa (a mais desempenhada) (5) é sempre bom ter mais juristas e a nossa missão para além de ter bons juristas e graças a Deus temos. Guia turística ou estilista. isso nós fazemos.

quer dizer o próprio Governo não consegue dar vazão.. há uma discriminação das projectos diferentes. já temos vindo a sentir ao longo dos dez anos. não consegue fazer bem as coisas (Macau. 2011. muitas teorias. (Macau. em certa razão eu acho que nós podemos. e muitas vezes as pessoas de Macau até são.. vejase que o diploma sobre as fontes normativas. há lugar sempre.: [18]) . vimos críticas. em termos da língua. veio um projecto para dentro. quer dizer. Ex. Ex.` Função conclusiva (neste caso. 2011. de fato. realmente.tomam iniciativas de nos propor. saiu outro para fora. ele é menos equativo) (6) Agora.: [17]) ` A função de desfocalizador (muda o tópico conversacional) (7) Recebemos críticas. de nos de nos ajudar também em fazer mais planos.

se há um projeto ainda que seja se viável ou não a que dar. (Macau. Ex. localizamos apenas duas ocorrências nas duas variedades Função de conector concessivo (8) obviamente das duas uma o estado português tem que ser muito claro para sua comunidade tem que ser muito claro portanto..` ainda que...: [19]) ` ` .. eu acho que o estado português deve. 2011.. a que dar.... que de mais não seja pra testar quanto mais não seja pra testar a reação da comunidade portuguesa...

como é que ainda não estourou esse artista (.)daí eu tenho normalmente a felicidade de ver que são trabalhos bons.. ainda não apareceu como é que ainda não se ouviu .... Ex. as letras são boas ..) (PHPP.. comum a essa construção. ainda que eu fico mais impressionado... enfatiza o ainda que. normalmente (é isso)os trabalhos são. encafifado.` Ainda que distanciando-se do valor concessivo ` No PB a sequência de três usos do ainda (valor temporal)..2009....... e você até fica pensando como é que essa pessoa...... as bandas são excelentes as músicas são boas..: [20]) ` ... quando eu vou ver show. daí que eu fico mais ainda.. (9) (. é muito raro (alguma) coisa que você despreze assim. distanciando-o do valor concessivo...

No corpus do PB localizamos um nº restrito de dados. apenas 7 ocorrências. Posição: 2 ocorrências localizadas no início da frase. sendo 9 no sentido de concluído.` ` ` No corpus de Macau identificamos 43 ocorrências. terminado apontando para o adjetivo e 34 apontando para o uso inovador de um marcador discursivo. . 7 no final e 34 no meio da sentença. sendo que 2 atuam na função de adjetivo e 5 na função de marcador discursivo.

confesso que ao menos o que eu vejo. Portanto. eu tenho aqui a minha frente... nós estamos prontos. Ex. (Macau. Ex. pronto. temos os quadros da assembléia legislativa e estamos a cumprir. estamos a seguir o plano aquém da idealização.` ` ` Na função de adjetivo (10) .. 2011.: [23]) ` . (Macau. vá lá que até agora estamos a cumprir aquela idealização.. (11) Eu não concordo.: [22]) Na função marcador discursivo preenchendo vazios e/ou interrupções (pausa) causados pela perda de continuidade da fala. estamos a concretizar os planos pouco e pouco. 2011. pronto. que os serviços sob a minha área e os serviços das outras áreas tamos a funcionar.

` Na função de marcador discursivo de conclusão finalizando o turno (12) Sim. francamente o seu o bispo também foi quando foi entrevistado eu acho que pronto rumores são rumores temos a consciência tranquila. Ex..: [24]) Na função de marcador discursivo conclusivo resumitivo (13) sobre esse caso concreto francamente eh não sei porque é que saiu na na na na na em alguns alguns rumores a dizer que eu tive eu tinha uma conversa com o bispo aqui para para não sei quantas. (Macau. (Macau..: [26]) ` ` ` . veio cá para Macau e ficou aqui x tempos não sei quantos. 2011. Ex. conheceram-se e juntaram os trapos e pronto. 2011.

. como no caso dos marcadores discursivos portanto em Macau e então no Brasil. em uma situação de interlocução. já que itens com marca de conclusão são recrutados para. serem usados como marcas de desenvolvimento de raciocínio a ser acompanhado pelo ouvinte. tanto no português macaense quanto no português brasileiro. Escolha motivada cognitivamente. Cada região em que uma língua é falada pode também eleger itens diferentes para passarem por transformações de uso.` ` ` Indícios de que alguns itens/construções estão trilhando percursos semelhantes de gramaticalização.

New York: Oxford University Press. China. Loureiro.). Heine. Revista de Filologia Românica. Macau: Imagem Redonda. Lima-Hernandes. Turner. s/d. Amsterdam/ Philadelphia: John Benjamins Publishing. 1991. George. A volta ao mundo (1941-1944). Preserving and interpreting intangible cultural heritage in an ethnolinguistic community: The case of Portuguese language. 2011. Sampaio. Vicente.301-322. do Passado para o Presente: que Futuro?. Macau. J. patois and creole in Macau. 2002. In: Traugott. On some principles of grammaticization. Bernd (eds. Corpus do português falado em Macau. University of Macau. 2002. 2001. Approaches to grammaticalization. Noronha. Lakoff. 2009. R. Macau. Trad. Anejos. . Renata Barbosa. A Língua Portuguesa em Macau.` ` ` ` ` ` ` ` ` ` ` ` ` Castro. Metáfora da vida cotidiana. 82-99. Gilles. Chicago/London: The University of Chicago Press. Elizabeth Closs e Heine. Grammaticalization: a conceptual framework. The theory of funcional grammar. Hopper. A escrita da cidade e a narrativa macaense. As Origens de Macau nas Fontes Ibéricas. 2002. Rui Manuel. Simon C. CORPUS DO PHPP: Entrevistas DID. I: Focus on theoretical and methodological issues. pp. Mara Sophia Zanotto (coord. Anejos. John. Mark. Maria Manuela. Edição Internacional 1. Taylor. Johnson. 1991. Vale. Claudi. P. Ferreira de. 3. The way we think: conceptual blending and the mind¶s hidden complexities. New York: Perseus Books Group.17-35. entrevistas (orgs. Chaplin. 2001. Manoel. In: Vale. Fauconnier. Rogério Menale. Maria Célia. A escrita da cidade e a narrativa macaense. 1999. São Paulo: USP (inédito). Bernd. Correia. Maria Célia. Maria Manuela. p. Hünnemeyer Friederike. 1989. SP: Mercado de Letras. Macau. In Revista de Cultura (Macau). Ian.). Ulrike. Dorderecht ± Holland/Providence RI-EUA: Foris Publications. 2005. Vol. Lima-Hernandes. Ana Cristina Rouillé.ed. Linguistic categorization. Revista de Filologia Românica. Dik.). p. Campinas.