ÉTICA E RELAÇÕES DE GÊNERO

Anderson Camila Stefanon Cisane Bordin

Géssica Kolling
Márcio do Couto Marcus Mello

Ética – Prof. Gilmar Zampieri UNILASALLE/2011

GÊNERO E SEXO

“Ninguém nasce mulher: torna-se mulher”

Essa frase da filósofa Simone de Beauvoir exprime com clareza o status de dominação no qual as mulheres convivem a milhares de anos. E toda nossa cultura é marcada por essa divisão. O ser humano construiu ao seu redor todo um sistema de ideias e imagens para dar sentido ao mundo. Desta forma, a identidade sexual, a sexualidade e as relações entre sexos também são construídas socialmente e interpretadas através da cultura. Além disso, poder e hierarquia também são componentes das relações interpessoais. Assim, também o sexo é político na medida que ele é permeado por relações de poder.

Somos sempre mediados pelo conjunto de significados partilhados construídos por nós para explicar o mundo. o masculino. a cultura.” (p. e de uma determinada forma de viver. “A relação de gênero que vivemos hoje é uma relação de desigualdade social e pessoal baseada na diferença entre os sexos e legitimada em nome de um determinismo biológico da superioridade de um dos sexos. a heterossexual. 97) .O gênero é o sexo socialmente construído O homem ou mulher nunca tem acesso à sua sexualidade de maneira direta ou “pura”.

PATRIARCALISMO NAS SOCIEDADES ANTIGAS .

principalmente. de mulheres e escravos (ambos os sexos). todos imbuídos em satisfazer as necessidades do varão. Nada mais comum nas sociedades antigas do que a força da economia derivar-se.Nas sociedades da Antiguidade a família preocupava-se. A mulher grega – V. de Alte-Mearim . em primeiro lugar. com a produção econômica. Fatos esses legitimados pela Igreja e legais para a época.

As fiandeiras – Diego Velásquez (1657) . teria dado ao tear a propriedade de fiar sozinho”.“Se a natureza não tivesse criado as mulheres e os escravos.

excluindo-as assim. veja o menor número de coisas possível. ouça o menor número de coisas possível. . e o homem para todas as outras”. Afirmava ainda que “.. do acesso ao mundo do pensamento.Assim se referia Platão. ao lugar ocupado na sociedade por escravos e mulheres. Outro discípulo de Sócrates. Ambas as declarações mostram o caráter coercitivo do aprendizado das mulheres.. Xenofonte. viva sob uma estreita vigilância. faça o menor número de perguntas possível”. afirmava que “os Deuses haviam criado a mulher para as funções domésticas.

Essa realidade era a mesma para as escravas. a esposa ou filha não tinha direito de controlar o seu próprio corpo. porém mais duras. pois eram do chefe de família. não tinham direito de usá-las. assassinadas ou vendidas.A lição de tricô – Jean Millet (1854) O papel das mulheres na sociedade era o trabalho doméstico: procriar. sabão. etc. fazer velas. lavar roupas. cultivar a horta.. para desfrute e procriação de filhos. Mesmo que produzissem essa diversidade de coisas. pois podiam ser violentadas. Somando-se a isso.. ele era propriedade do marido. .

Apesar de tais diferenças. . o status das mulheres variava segundo sua classe social. As mulheres mais abastadas. tinham privilégios dos quais servas e escravas não desfrutavam. de classes dominantes. todas compartilhavam da situação de minoridade e opressão.Preparando para uma caminhada – Samuel Baldwin Assim como hoje.

NA IDADE MÉDIA .

frequentes no período). em alguns casos.De herdeira a bruxa A vida comunitária permitiu as mulheres retomar em parte sua participação. No entanto. Assim. ser aceitas em corporações de ofício. elas podiam assumir os negócios da família. . ainda que casada. tais ocupações não lhes valiam prestígio. podendo. principalmente devido ao maior contingente da população adulta ser formado por mulheres (já que os homens iam às guerras. na ausência destes. já que a ascensão social estava condicionada ao pertencimento da nobreza e do clero. Além disso. não era incomum uma herdeira gerir sua própria renda.

Caça às Bruxas A cozinha das bruxas – Hieronymus Fracken. o Velho (1610) .

como nos sabás.Do saber produzido sobre a Mulher A inquisição pode ser vista como uma reafirmação do elemento masculino dentro da própria Igreja. principal tratado da perseguição às bruxas do Renascimento. (Malleus Maleficarum. muitos inquisidores se apoiavam na ideia que todas as mulheres eram impuras por natureza. fruto da crise de identidade que a mesma passou no fim da idade Média e início da Idade Moderna. . Ademais. e as chamadas “bruxas” seriam aquelas que exerciam determinados malefícios comuns a todas. Tal conjuntura foi produtora e difusora de um discurso ligava a figura feminina à corrupção. ao pecado. na Alemanha). A corrupção da mulher se faz pelo sexo. publicado em 1487. onde elas copulariam com o diabo.

Inquisição The Inquisition Tribunal – Francisco de Goya (1812-16) .

O corpo da mulher é. então. e de outro Maria. XVI. uma representação quase assexuada. ao pecado. Ambroise Paré. é a alimentação que não se torna “um sangue bom. Prova disso seria a menstruação. . exaltada pelas virtudes. das quais a mulher sadia se purga e se limpa”. tanto q a maior parte se torna indigesta e se transforma em menstruações. a geradora do pecado original.Evas e Marias Baseada no entendimento teológico da dualidade do feminino: de um lado Eva. mesmo assim. inevitavelmente ligado à lascívia. à impureza inerente à sua própria condição de mulher. que na fala do médico e cientista do séc. pela representação da mãe.

. Ela é queimada. porém.” .. à custa de sofrimentos. Uma feiticeira confessa ter roubado do Cemitério o corpo de uma criança. um engano do Diabo..A partida das Bruxas – Luis Ricardo Falero (1878) Jules Michelet. resolve... Começa por utilizar a tortura para as testemunhas. Desenterram-no e lá o encontram dentro do caixão. qualquer confissão. em seu livro “Sobre as feiticeiras”. O juiz. contrariando o que os olhos dizem.. nos dá uma ideia de como ocorriam as condenações: “O processo é simples. que se trata de uma aparência.. Extrair ao acusado..

que vinculavam tais práticas à bruxaria.Dos Discursos Formação do discurso médico: a legitimação do discurso médico passa pela exclusão da mulher ao saber e ao poder da cura. ao qual esteve secularmente ligada na figura da parteira e da curandeira. Tal discurso ia de encontro às posições religiosas. a possibilidade de gerência dos próprios bens. restringindo. assim como o direito de representar-se perante a Justiça. Reintrodução do Direito Romano no Renascimento. seus direitos à recebimento de herança. por exemplo. . Tudo isso gerou uma defasagem entre a posição da mulher e sua representação simbólica construída socialmente.

NAS SOCIEDADES MODERNAS .

tal variação era de 35 dólares para as mulheres e 75 para os homens. os homens ganhavam de 18 a 20 marcos. na Alemanha. .14 francos e os masculinos de 4.A indústria A situação das mulheres nas sociedades patriarcais foi modificada nas sociedades contemporâneas. de 9 a 12. onde a disparidade salarial era justificada pelo fato de que as mulheres deveriam ter quem as sustentasse. na indústria do papel. já que agora a própria produção assumia um caráter diferenciado com o desenvolvimento do capitalismo. Em Paris. os salários femininos eram em média de 2. em Massachusetts. A Revolução Industrial desencadeou um processo de superexploração. na indústria dos calçados. e as mulheres.75. As mulheres e os escravos passaram a ser desnecessários para a produção doméstica.

Fim do séc. XIX .Novo método de produção Fábrica de tecidos em São Paulo .

Numa análise de viés materialista. August Bebel. A igualdade no âmbito da produção seria suficiente para a plena emancipação das mulheres trabalhadoras. o casamento e a sujeição da mulher teriam surgido como garantia para a transmissão da propriedade. com ele. terminará também o poder do homem sobre a mulher”. Engels afirma que a dominação da mulher está ligada à gênese da propriedade privada. assim. O feminismo não era necessário para as mulheres operárias.Os movimentos emancipatórios Os principais movimentos libertários e emancipatórios dos séculos XIX e XX sempre deram ênfase quase que exclusiva à transformação política e econômica deixando para segundo plano a questão da mulher. Os líderes da Revolução Russa de 1917 denunciaram os movimentos feministas. afirma que “o poder de uma classe sobre a outra terminará e. autor de “A mulher sob o socialismo”. .

XIX e XX Sufragistas nova iorquinas – New York (1913) .Lutas nos séc.

. nos Estados Unidos em 1920 e no Brasil em 1934 (homens e mulheres alfabetizados). principalmente entre as mulheres (o voto “universal“ não era tão universal assim). e só no final da década de 1910 e no início dos anos 20 começa a obter algumas vitórias. As mudanças nas sociedades modernas não significaram de maneira alguma o fim do patriarcalismo ou dominação de homens sobre as mulheres. A luta pelo voto das mulheres começou na segunda metade do século XIX. mas não uma mudança radical. Houve uma melhora. XIX foram principalmente o sufrágio universal e a luta por melhores condições de trabalho. Porém existia no Brasil um alto índice de analfabetismo.Voto e Trabalho digno As frentes de atuação do movimento feminista no início do séc.

DIVERSAS FACES DO PATRIARCALISMO .

Faces do Patriarcalismo Talvez a parte mais expressiva do problema seja a visão de intolerância infundada que se tem em praticamente todos os setores e organizações (indústria. etc). governos. Ainda hoje se percebe uma falta ou mesmo ausência de mulheres em setores como política. seitas religiosas. indústria ou religião. House of Commons– Sir George Hayter (1833) .

Essa aprendizagem é um processo social. como tal. Estupro das Mulheres Sabinas – Pablo Picasso (1963) . ainda fazem parte do nosso cotidiano. ciência e desenvolvimento ainda é forte mesmo nos dias de hoje.O “masculino” e o “feminino” são criações culturais e. espancamento e por vezes mesmo a morte de mulheres infelizmente. A generalização de que apenas o homem tem domínio sobre tecnologia. são comportamentos apreendidos através do processo de socialização que condiciona diferentemente os sexos para cumprirem funções sociais específicas e diversas. Casos de estupro.

tanto em postos de trabalho iguais aos dos homens quanto em sua base salarial. ou pelo menos esbocem uma tendência.Sociedade Muito embora alguns países já caminhem para uma abertura maior. é um fato conhecido que as mulheres na maioria dos casos ainda não tem acesso a um tratamento igualitário. .

A LUTA DAS MULHERES E A ÉTICA .

Valie Export (1970) .A questão de gênero se ocupa. acrescentando à análise do gênero outras variantes. como a situação de classe e de raça – o que amplia as matizes da análise. sociais. se ocupa também na compreensão de vários processos sociais. então. ou seja do predomínio da figura masculina como principio direcionador e orientador das grandes decisões econômicas. Além disso. políticas e culturais. da crítica do patriarcado.

é fruto das lutas das mulheres. mas também nas outras dimensões como no campo do conhecimento. da memória intuição e a imaginação – áreas até pouco legadas a segundo plano. apesar de sua persistência. O movimento feminista busca igualdade não só nas relações sociais. já que sempre foram tidas como atributos femininos.O declínio do patriarcalismo que vemos na nossa civilização. Smart Export – Valie Export (1970) .

Valie Export . através dos meios de comunicação social é transformado como disputa de poder entre homens e mulheres. Infelizmente. de subordinação ou de dominação.Feminismo e Sociedade O destaque do movimento feminista. a interiorização de uma cultura machista e patriarcal impele muitos a uma relação de companheirismo. ao mesmo tempo. que deve ser.

acrescentando a tal dominação um caráter mercadológico – a mulher. e visto através do sujeito. Conforme Simone de Beauvoir. é o homem que se afirma através de sua identificação com seu sexo. em nossa cultura. e esta autoafirmação. . que o transforma em sujeito.Sobre a Dominação Ligações Perigosas – Rene Magritte (1926) Como mostramos. juntamente com a sexualidade. a mercadoria. Entretanto. não foi o capitalismo o gerador de tal dominação. transformado em objeto. ele foi capaz de perpetuá-la. é feita em oposição ao sexo feminino. foi reduzida a objeto.

Os amantes – René Magritte (1928) . a sensibilidade. o patriarcalismo interiorizado impede muitos varões de usufruírem dos muitos aspectos humanizantes da vida. a expressão da afetividade. como a emotividade. a intuição e o perdão.Assim.

ao macros. assim. A luta contra a discriminação. onde as relações de dominação e lutas emancipatórias perpassam desde as relações interpessoais até as macroestruturais. do molecular. aos grandes processos de mudanças sociais. indo do micro. implica. mas como uma partes de uma totalidade que é o ser humano. que a dicotomia masculino feminino não se coloque como oposto definidores. na recriação de uma identidade própria. .La Clef de champs – Rene Magritte (1936) As lutas das mulheres mostraram que a vida é um feixe de relações complexas.

LEI MARIA DA PENHA .

.. entendida como qualquer conduta que a constranja a presenciar. difamação ou injúria. IV . destruição parcial ou total de seus objetos.. II .a violência patrimonial. entendida como qualquer conduta que configure calúnia. vir e permanecer III .DAS FORMAS DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E FAMILIAR CONTRA A MULHER Art. V . entendida como qualquer conduta que configure retenção.a violência física.. entendida como qualquer conduta que ofenda sua integridade ou saúde corporal.a violência sexual. ou controlar suas ações – ir. bens. instrumentos de trabalho. entendida como qualquer conduta que lhe cause dano emocional e diminuição da auto-estima.. entre outras: I .a violência moral. a manter ou a participar de relação sexual não desejada. subtração... .a violência psicológica. documentos pessoais. 7o São formas de violência doméstica e familiar contra a mulher.

preservar sua saúde física e mental e seu aperfeiçoamento moral.Falta de fiscalização por parte do Estado quanto ao cumprimento das Medidas Protetivas. . . .Viver sem violência.Não representação judicial por parte da vítima. intelectual e social.Aspectos Positivos e Negativos NEGATIVOS . POSITIVOS .Valorização da mulher enquanto pessoa humana.

• GONÇALVES. Belo Horizonte: Autêntica. Andréa Lisly. PITANGUY. O que é feminismo. São Paulo: Brasiliense. 2006. Branca Moreira. 2003. . História & gênero.REFERÊNCIAS • Ética e Gênero – texto fornecido pelo professor • ALVES. Jacqueline.

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