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crônicas de mentes em ação

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crônicas de mentes em ação

Fernanda Almeida Rafaela Lemes Wilson Nunes Marli Moreira Marlene Chiepe Org. Juliana Maringoni

Créditos: Edição, coordenação e organização: Juliana Maringoni Capa: Juliana Maringoni, Fernanda Almeida e Rafaela Lemes Agradecimento: Prefeitura Municipal de Indaiatuba – Secretaria de Cultura.

Este livro foi produzido durante Oficina de Crônicas realizada pela Prefeitura Municipal de Indaiatuba – Secretaria de Cultura e ministrada pela jornalista Juliana Maringoni Copyright – Todos os direitos reservados

Índice
Apresentação......................................................6 Dona Brasilina e outras histórias Por Fernanda Almeida O primeiro amor de Dona Brasilina...............8 A paisagem........................................................10 Número errado.................................................12 Aviões................................................................16 Pedro na construção e outras histórias Por Rafaela Lemes Pedro na construção.......................................20 Coisas.................................................................23 Perguntas inúteis..............................................27 O orador desbocado e outras histórias Por Wilson Nunes O orador desbocado....................................35 As relativas boas intensões............................38 Com quem não estou falando........................41 Insólito e outras histórias Por Marli Moreira Insólito..............................................................46 A geometria das aves......................................49 Antigamente.....................................................52 Do medo nasce a paixão e outras histórias Por Marlene Chiepe Do medo nasce a paixão.................................56 A primeira morte da escritora........................60 Azul de Elefante........................................63 Por Fernanda Almeida e Rafaela Lemes

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Prezado leitor, O cotidiano está repleto de pequenos grandes detalhes que dão sentido a rotina do dia-a-dia de forma a torna-la mais leve, engraçada e até mesmo emocionante. Foram estes detalhes que os escritores Fernanda Almeida ,Rafaela Lemes, Wilson Nunes, Marli Moreira e Marlene Chiepe conseguiram captar por meio de um apurado olhar sobre a realidade, transformando-a por vezes em histórias de ficção não menos reais e apaixonantes. Boa leitura! Juliana Maringoni, organizadora

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Dona Brasilina e outras histórias
Por Fernanda Almeida Nascida em 1996 na cidade de São Paulo. Gosta de ler, escrever, mitologia grega, romana e egípcia e sonha em ser uma jornalista e escritora respeitada.

Gostaria de dedicar esse e-book para meus pais que me incentivaram a participar do curso, minha vó Brasilina que me serviu de inspiração para várias crônicas e para meu irmãozinho.

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O primeiro amor de Dona Brasilina

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Dona Brasilina tinha 17 anos quando foi ao seu primeiro jogo do Palmeiras. Estava muito animada, que até já havia feito todas as exigências de sua mãe: arrumou a casa, foi buscar água no poço, fez comida e deu banho em seus irmãos menores. Acabou tudo o que tinha que fazer e foi para o estágio. Ao chegar em seu lugar, viu que estava sentada ao lado de um rapaz com o rosto pintado de verde e branco, gritando freneticamente. O jogo começou e os gritos do rapaz só haviam aumentado, só que dessa vez, ela o acompanhou. A cada gol, ela e o rapaz – que mais tarde descobriu que seu nome era Adelino – se abraçavam felizes e logo voltavam a gritar. Felizes que o jogo tinha ido bem, os dois ficaram conversando até anoitecer, quando ela teve que ir embora, mas não sem o endereço de onde ele morava. Chegou em casa feliz e triste ao mesmo tempo: Feliz por causa do jogo e triste pois tinha certeza que não veria Adelino nunca mais. Mal ela sabia que iriam passar 38 anos juntos. 9

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A paisagem

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Marli admirava a paisagem como sempre fizera desde os seus dez anos. Havia crescido na casa em frente a seu lugar favorito. Sempre que podia, ia brincar se balançando nas arvores, correndo junto ao seu cachorro atrás das pombas e se melecando na lama. Lá era um lugar perfeito para crianças brincarem, se divertirem ou apenas admirarem. Hoje, no entanto, não era mais assim. Marli não via ninguém ali brincando fazia muito tempo. Nem seus filhos iam mais lá. Tudo mudou: agora é um campo sem graça, sem nada, apenas grama. Mas o importante era a lembrança que tinha de seu lugar favorito.

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Número errado

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- Alô? - Oi João, aqui é o Pedro. - Olá, Pedro. - Então, você viu o jogo ontem? - Jogo? Qual? - Aquele que passou ontem! - Ah, claro, agora me lembro. Sim, vi, e você? - Claro que vi. E foi bom, não foi? - Pode apostar. E não foi um jogo qualquer, foi o melhor do ano. - Todos foram muito bem, mas sempre tem um que se destaca, não é? - Sim, é verdade. E ele foi muito bom. Você viu aquele ultimo lance? - Ah, sim, aquele foi o melhor! - E pensar que foi esse que nos fez ganhar! - Eu já sabia que íamos ganhar só de ver que o numero 12 estava no campo. 13

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- Ele é um dos melhores do time. - Certamente sem ele, não ganharíamos. - Não, não ganharíamos. Mas sabe de uma coisa? - O que? - Com aquele começo, pensei que o jogo não iria dar em nada. Se não fosse pela defesa do Marcão... - Marcão? Quem é esse? - O goleiro! - Que goleiro? - O do Palmeiras, ué! - Palmeiras? - Sim, estamos falando do jogo do Palmeiras de ontem. - Eu não estava falando dele. - E de quem você estava falando, então? - Do Santos! Eu sou santista! 14

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- Desde quando? - Desde sempre. - Aí não é a casa do João Borges? - Borges? Eu sou o João Almeida. E pelo visto, você não é o Pedro Gomes. - Não! Meu nome é Pedro Ferreira. Desculpe pelo engano. Tchau.

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Aviões

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Dona Brasilina ficou intrigada ao ver todo aquele alvoroço em frente a sua casa. Havia ouvido há algum tempo, um barulho, mas não ligou muito, esperando que acabasse logo. Ao sair de casa, percebeu que estava totalmente enganada ao ver um grande publico assistindo aviões bem acima de sua casa. Não viu motivo algum para todo aquele barulho, mas ficou assistindo-os pensando em sua infância e que aquilo, certamente, não existia. Perdidas em memórias, não percebeu quando sua vizinha apareceu ao seu lado. - Gostando do show, Dona Brasilina? - Claro que não! – Disse a senhora fazendo careta – Essas pessoas não têm mais nada para fazer do que ficar vendo aviões brincarem no céu? Esses aviões deveriam estar fazendo qualquer outra coisa, além de ficar acima da minha casa? - Ora, mas eles são pagos para fazerem isso!

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- Pagos? Pois esse dinheiro deveria ir para algo que preste. Quando era pequena, não tinha isso. Nós trabalhávamos na roça e não ficávamos a toa como essas pessoas. Ralávamos para sobreviver. E ela continuou falando sobre seu tempo até a exibição acabar e todos irem embora. Ao entrar em casa, sorriu satisfeita: finalmente poderia ficar em paz.

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Pedro na construção e outras histórias
Por Rafaela Lemes

Rafaela Sant’ Ana Lemes, nascida em 1995, na cidade de Indaiatuba. Adora ler e escrever e acredita que a leitura seja a porta principal para o conhecimento. Apaixonada por música e artes.

Aos meus pais e amigos.

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Pedro na Construção

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Andando pela cidade, me deparei com uma figura engraçada: o Pedro Bigode. Pedro estava vermelho de tanta raiva ao ver a sujeira da construção na porta de sua casa. Gritava que eram todos uns folgados, que além de destruírem a paisagem maravilhosa que costumava existir ao lado de sua casa para fazerem um trambolho gigantesco, deixavam a rua e calçada emporcalhadas com todo o material da obra, até mesmo cimento! Se não bastasse a sujeira e o barulho causado pelas maquinas, atrapalhavam o transito, estacionando enormes caminhões por toda a rua. “Uma palhaçada!” Bigode não gostava daquela mudança. Detestava ver o crescimento de um prédio que tomava o lugar da antiga paisagem. “O homem e sua ganância! Só pensa no dinheiro! Esqueça a natureza!” Aqueles preguiçosos da obra também atrapalhavam o seu comércio! Tomavam conta da rua e os clientes não tinham onde estacionar, indo embora muitas vezes. ”Uns 21

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individualistas! Só pensam neles mesmos! Uma palhaçada!” Aquele baixinho que passava sem parar as mãos sobre o bigode estava realmente muito bravo. Quase inconsciente tomado pela raiva. Fiquei ali durante um tempo só observando a cena, mas quando enfim fui embora, tomei cuidado para guardar tudo o que presenciei na memória, pois tinha encontrado o tema de minha próxima crônica!

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Coisas

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- Já são quase onze horas, desliga isso. - Mas ainda estou usando, não dá! - Mas olhe a hora! Deveria ter usado antes. - Não dava, estava ocupada. - Ocupada com o que? - Coisas, do dia sabe... - Já esta tarde, desliga. - Não dá! - Faça suas coisas depois. - Depois não dá! - Faça amanhã. - Amanhã não dá, estarei ocupada. - Outra vez? - Sim - Com o que? - Coisas. 24

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A paciência dele já estava se esgotando. - Que coisas?! - Ah... do dia... Tarefas! - Faça as tarefas e depois usa isso! - Não sei se depois dá tempo, terei outras coisas para fazer. - Mas que coisas?! Há esta altura, nenhum dos dois sabia mais ao certo sobre o que estavam falando. - Desliga isso. - Ok, já estou desligando. Um breve silêncio se passou. - Filha, já desligou? - Ainda não... - Mas por que não? - Estou terminando de fazer umas coisas. 25

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- Faça depois, desliga isso, já esta tarde! - Mais cinco minutinhos... - Cinco minutos! Vinte minutos... - Filha já desligou? - Calma, tô terminando já... Só falta uma coisinha... - Mas não acabou ainda?! - Pronto! Acabei! - Ótimo, agora desliga. Silêncio. - Filha? - O que foi?! - Já desligou?

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Perguntas Inúteis

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- Vai demorar muito ainda? Seus olhos atentos pareciam perdidos em meio à multidão. O que eram todas aquelas pessoas em um lugar só? E aquele barulho todo? -Por que tem tanta gente assim? -É normal, você espera o que? -Só alguns amigos... Era possível perceber a agitação e ate mesmo a ansiedade do pequeno ruivinho, talvez apenas para se livrar de mim e sair correndo e poder aproveitar toda a diversão. Estava em um lugar como aquele pela primeira vez, e apesar de sua empolgação, notei um pouco de medo em seu olhar. Tentava se esconder atrás de mim, ao mesmo tempo em que desejava soltar-se das minhas mãos que o seguravam com força. - Vai demorar ainda? - Temos que esperar nossa vez para comprar os ingressos. 28

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- Você tem que pagar com o seu dinheiro? - Sim, ou não nos deixam entrar. - Ah... Pensei que todo mundo pudesse vir. - E pode. Desde que pague pra isso! - E é muito dinheiro? - Um pouquinho. À medida que nos aproximávamos da entrada, o pequeno ia ficando cada vez mais impaciente e ansioso. - Tá demorando muito! Já está chegando a nossa vez? - Quase, logo seremos nós... E enfim chegamos! Ingressos pagos, era hora de entrar! Aquele medo em seus olhos havia se transformado em um brilho repleto de alegria, refletindo todos aqueles balões coloridos e brinquedos enormes. Ali estava ele, pela primeira vez, em um parque de diversão.

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Uma pequena perfeição

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Era difícil se conformar com o fato de algo tão pequeno ser perfeito daquela forma. Perdia-se entre as muitas mãos e olhares dos que estavam loucos de ansiedade para vê-la e segura-la. Realmente incrível! Os olhos chegavam a se encher de lágrimas ao perceber a felicidade que tê-la em meus braços trazia. A longa espera fora recompensada com a coisinha mais linda que meus olhos viam desde muito tempo. Seus pais estavam radiantes! Ao redor, a felicidade contagiava a todos. O momento mais marcante, sem dúvida alguma, foi ter aquelas mãos pequeninas e frágeis segurando meus dedos com força, como se me pedisse que nunca mais a soltasse e a mantivesse em meus braços, protegendo-a. Difícil descrever a emoção daquele instante. Ela estava ali! E podia observá-la fitar seus olhinhos puxados em tudo e em todos, dando a impressão que sabia exatamente o que estava acontecendo. 31

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Seu sorriso disfarçado parecia agradecer pelas visitas e presentes. E nos deixava encantados e bobos ao fazer isso. Sabia que estávamos ali para conhecê-la e dizer: bem-vinda ao mundo princesinha!

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O orador desbocado e outras histórias
Por Wilson Nunes O seu desenvolvimento na elaboração de textos se deu ao atuar como engenheiro perito em ações na Justiça. A advocacia representante da parte litigante que se sente desfavorecida pelo trabalho pericial se empenha em tentar desqualificar as conclusões do laudo. Por isso, todo cuidado redatorial é pouco: clareza e acuidade são imprescindíveis. Suas incursões literárias se iniciaram quando cursou na universidade a disciplina Português e Literatura. Sentiu-se encorajado a participar de concursos de contos e crônicas. Foi brindado em algumas primeiras classificações no Acrício Camargo em Indaiatuba e no Mapa Cultural Paulista de âmbito estadual. Pretende prosseguir como autor competitivo. Sua meta mais ambiciosa é produzir textos de maior fôlego com episódios contando com 33

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personagens reais. No seu entender os enredos da vida real são produzidos a partir de fatos forjados pelo destino. Veracidade produz mais impacto no leitor do que ficção, inventada e, portanto reconhecidamente manipulada pela autoria. Identifica-se melhor com leitor que gosta de refletir sobre idéias sujeitas à discussão. Tem como assuntos prediletos os relacionados à contínua luta das pessoas contra as vicissitudes da vida. Também aproveita lembranças tanto da própria existência como de amigos e conhecidos que sirvam para acentuar acontecimentos considerados marcantes. Não perde oportunidade, se houver, de aplicar pitadas de ironia ou sarcasmo.

Dedico estas crônicas aos amigos que fazem muita falta: Sergio V. Brandão, Arlindo Ramos e Paulo Faria Vieira.

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O orador desbocado

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Eu tinha onze anos. O colégio que frequentava ia receber a visita de prefeito e figuras importantes da cidade na próxima data da independência da pátria. Alguns estudantes foram convocados para dirigir a palavra aos convidados em solenidade comemorativa ao evento. Sem me consultarem fui também escalado. Tive bastante tempo para elaborar o meu primeiro discurso. Caprichei escolhendo frases de efeito encontradas em livros. Ah! A distinta plateia não perderia por esperar a mensagem retumbante! Após milhares de rascunhos, passei o texto a limpo em tirinhas cortadas de folhas de caderno. Pretendia proceder à oratória lendo a obra-prima transcrita nas tirinhas devidamente ajeitadas para facilitar a leitura. Não contava com o excessivo nervosismo que se apossou de mim quando visualizei em primeiro instante à minha frente o diretor da escola, professores e autoridades municipais. Nossa! Encaravamme de maneira tão séria! As palavras que eu dizia trêmulo e hesitante eram os únicos sons a agredir o ambiente. Nos intervalos entre as frases ditas e a dizer se impunha um incômodo silêncio. À medida que ia 36

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soletrando as palavras, as tirinhas tremiam em minhas mãos. Não via a hora de terminar aquele suplício. Num dado momento, dominado por intenso pânico, soltei em alto e bom som, em lugar de uma palavra respeitável, um palavrão. Assim que proferi o inconveniente vocábulo, tomei imediata consciência da baixaria e petrifiquei. Esperei que se seguisse uma reação reprovadora ou surpreendida de ouvintes tão atentos. Nenhuma manifestação. Apenas um silêncio constrangedor, Talvez compreensão de um ato falho impertinente reconhecido por um nobre auditório. Ou perdão pelo jeito atrevido de orador tão inexperiente. Daí então, sem titubear, tal qual uma metralhadora atirando, prossegui até o fim. E aturdido e sem graça, ainda assim, ouvi calorosas palmas. Depois daquele fiasco nunca mais tive receio de me dirigir a qualquer público. Com os devidos cuidados, é claro. Desse episódio somente lamento ter deixado de fazer o que na oportunidade não me ocorreu: aplaudir a plateia. 37

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As relativas boas intensões

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Zé Marreta e Zeca Relativo, embora amigos, tinham posturas diferentes em relação a qualquer assunto. Zé era incisivo, gostava das coisas nos seus devidos lugares, tendo opinião fechada sobre tudo. Gostava de impressionar com citações alheias sem citar a fonte. Impiedoso com o que, no seu entender, pudesse contrariar os costumes vigentes. O amigo, geralmente de cenho franzido, era questionador e não tão categórico, nunca tendo certeza de nada. Para ele não existia nada absoluto. Estavam a conversar sentados num banco da praça. Das estridentes caixas de som instaladas no logradouro público ecoou a mensagem: faça parte da campanha - “Não dê esmolas” Zeca indagou: - Só isso? E qual a alternativa? Afinal, o objetivo é desestimular a mendicância ou poupar os cidadãos de gastos considerados supérfluos? 39

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“Do jeito que você diz”, alertou Zé, “não há motivo para a sociedade tomar uma decisão a respeito”. O parceiro retrucou, não deixando de lembrar numa ocasião que ao dar uma moeda a um pedinte, acrescentou: “Não vá tomar pinga!”. O mendigo não deixou por menos, replicando que “- podia ficar tranquilo. Estava mesmo é com vontade de adquirir um carro 0 km. E se não desse, faria uma viagem à Europa”. Desde então, não ficou claro para Zeca se a esmola procura atender apenas uma carência imediata, desejo remotamente atingível, ideologia ou necessidade de poder. “De fato”, concordou Zé, “qualquer atitude traz como reflexo uma consequência É hipocrisia acreditar que o destino das boas intenções é sempre voltado a uma compensação plena”.

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Com quem não estou falando?

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- Alô! O Sinergildo está? - Sinergildo? Que Sinergildo? Aqui não há ninguém com esse nome estranho e muito menos telefone. - Como não tem telefone? Você está atendendo com o quê? Com uma cuíca ou com a panela de pressão? - Para ser sincero, estou tendo esse desprazer à custa de um celular. Portanto, não por aparelho fixo em determinado endereço. Por isso, estou dizendo que cá telefone não há. No caso, fixo, pois celular pode ser atendido de qualquer lugar e não especificamente daqui. Entendeu, ilustre falante que nem sequer se apresentou quando iniciou a chamada? - E daí? Não interessa saber onde Vossa Senhoria esteja. Quero dialogar com o Sinergildo e não com um sujeito que vive zanzando por aí. Esse aparelho é seu ou do Sinergildo? - Por que quer saber isso? Quer falar com determinada pessoa ou exclusivamente com o assinante da linha? 42

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- Já disse que quero o Sinergildo e não com o locador, locatário ou lá o quem quer que seja. - Não está claro que não sou quem procura? E nem posso dar recado ou chamar. Não sei quem é o procurado e mesmo que soubesse, seria impossível contatá-lo, pois poderia não estar provavelmente onde costuma permanecer. Eu poderia também não ter a menor ideia onde fica. - Se não é ele que atende, quem é então? Pelo menos se identifique para que se possa saber quem é o intruso no lugar do Sinergildo. - Estou falando do meu lugar e não em nome de algum Sinergildo da Silva. Quer saber? Acho que discou errado. - Como saber que me equivoquei, se quando atendeu não se identificou e muito menos citou o número, como recomenda a boa prática de atender? - Não tenho a mínima obrigação de conferir o número com o qual o interlocutor pretende se comunicar. Meu dever é perguntar com quem deseja tagarelar e isso eu fiz. 43

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- Se enfatizei com quem queria trocar algumas palavras, como posso adivinhar se existe Sinergildo do seu conhecimento em condições de receber a ligação? Se há, por que não pede logo para atender? Tenha, pelo menos, um pouco de boa vontade. Nota: caiu a linha!

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Insólito e outras histórias
Por Marli Moreira

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Insólito

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Entrou na loja e, decididamente, juntou alguns itens. Marchou para a fila do caixa e esperou. Automaticamente, a operadora do caixa passou os produtos pelo leitor óptico. - Qual a forma de pagamento? – pergunta robotizada. - O quê? – responde fingindo distração. - Vai pagar como – simplifica a operadora do caixa. - Com um poema de minha autoria, responde solene. Desta vez a operadora do caixa tem que voltar à sua forma humana e lançar um olhar para a pessoa a sua frente. - Como? - Posso deixa-lo aqui por escrito ou em formato mp3, declamado... - Olha, eu não tenho tempo para brincadeiras – começa querendo por fim a situação.

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- Nem eu, responde sacando de uma pasta as folhas impressas e um cd com capa personalizada. Escolha rápido, por favor. - Vou chamar o gerente! - Perfeito! Sempre é bom ter mais de uma opinião, mesmo porque depois eu não troco.

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A geometria das aves

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Sempre me perguntei o porquê das pessoas daqui onde eu trabalho percorrerem o caminho longo e íngreme até o estacionamento ao invés de cortarem caminho pelo gramado ao redor do heliporto. Não diz a geometria euclidiana que a menor distância entre dois pontos é uma linha reta? Estariam os reflexos tão condicionados ao “Não pise na grama” que mesmo sem a severa presença do aviso evitavam pisar o gramado? Ontem, no meio da tarde, uma figura anônima e alheia aos usos e costumes locais, começou a subir os poucos degraus que levam ao gramado. A direção do seu olhar denunciava a intenção de chegar ao estacionamento. Parei e fiquei de longe observando aquela pessoa caminhar tranquilamente em linha reta. Mas, de repente, a resposta ao meu “por que” surgiu do meio da grama, com perninhas longas e finas, topete eriçado e fúria titânica. Meia dúzia de quero-queros partiu esganiçada para cima da moça. Cercam-na, ainda que de certa distância, cerceando seu caminhar e protegendo, escandalosos, o seu território. 50

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Minha heroína, com a serenidade de quem ocupa o topo da cadeia alimentar, desviou seus passos para a esquerda, condescendente, até alcançar o tradicional caminho de pedras ladeado por arbustos. De longe, esperei que ela desaparecesse em uma curva do caminho. Os quero-queros, inquietos, ainda patrulhavam a área. Um carcará solitário desistiu de pousar por ali. Olhei então para a coruja que no meio da balbúrdia voara para o galho da árvore longe do conflito e de onde me olhava fixamente, com seus olhos arregalados. Sorri e voltei para minha sala, com um “por que” à menos na minha vida.

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Antigamente

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Descendo a escadaria da portaria principal, vê-se ao longe a cidade que começa a se tornar vertical. Para qualquer direção na qual se olhe já não se reconhece a cidadezinha pequena e pacata de antigamente. Para chegar ao riozinho onde agora os patos se exercitam atentos aos outros pássaros e aos homens que pescam despreocupados, já não é necessário atravessar uma selva em miniatura e quase não existem taboas* em suas margens. Onde terão se abrigado os sacís, curupiras e todas as criaturas fantásticas que antigamente habitavam a mata nativa? Já não somos mais Pedrinhos e Narizinhos vivendo aventuras ao ir pescar. Enquanto me sentia assim, nostálgica e estrangeira em minha própria terra, um senhor com ares de avô bonzinho que passava por mim notou meu olhar perdido na paisagem e disse a frase tão tradicional aqui na cidade:

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- Isto aqui tudo, minha filha, era tudo mato! Tudo mato! – repetiu fazendo com o braço o gesto típico que abrange até onde a vista alcança. Continuou seu caminho me deixando a certeza de que o meu antigamente ainda tem muito o que perder. * taboa = planta aquática

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Do medo nasce a paixão
e outras histórias
Por Marlene Chiepe

Natural de Santo André, ABC Paulista reside há quase 10 anos em Indaiatuba. Adora escrever - e aproveitou um curso da Oficina de Escrita para iniciar uma tímida jornada pelo universo das crônicas, com estes pequenos textos produzidos durante as aulas da professora Juliana. Escrever renova ideias e fortalece emoções!

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Do medo nasce a paixão

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Lembro-me dos instantes exatos que antecederam minha primeira viagem à praia... e se passaram no velho Corcel da família, em companhia de tia Gisa e a prima Rose - num percurso delineado por belas paisagens e muita tensão, já que não sabia o que me esperava no tão comentado litoral. Temia o inusitado e também a imensidão que me revelavam ser o mar. Neste cenário, os primeiros instantes foram marcados por um insuportável silêncio. - Como é o mar, Rose? - inaugurei o som. - Grande. – respondeu-me secamente. - Grande como o quê? - Como a maior coisa que existe. -É fundo? Tentei obter mais detalhes. - É fundo, gelado e aterrorizador! Você pode, inclusive, nem mais voltar pra casa! dramatizou já ironicamente a prima. - Então não podemos entrar nele? 57

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Ninguém me respondeu nada e nenhum outro som que não fosse o do vento fora ouvido até o final do percurso. O silêncio era tão pesado naquele carro que eu pensei em gritar, pedir para descer, chorar. Mas me contive. Segui trêmula e aflita até o até o final daquela missão. A casa de tia Gisa ficava a uma quadra da praia e ao desembarcamos pude identificar rapidamente o cheiro e o barulho característicos do mar, apesar de ainda me serem desconhecidos à época. Descemos, arrumamos as coisas e nos trocamos. Segui para o meu primeiro banho de mar -com pernas ainda mais bambas. Meus pés pareciam ganhar mais peso a cada passo e Rose, percebendo meu pavor, foi tirando onda, sorrindo-me pelo olhar, fazendo caretas. Nisso, meu coração já parecia bater na garganta, mas eis que ao dobrar a esquina, dei de cara com o famoso mar! Assim de repente, sem apresentações. Deparei-me com sua imponência e beleza, ouvindo de perto o seu som. Aos poucos, admirada por aquela 58

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vista, fui me acalmando, como se a voz que brotava no Oceano me convidasse a relaxar. Em êxtase por aquele encontro, sem palavras, fui transformando meu medo em admiração e, lentamente, aproximei-me de suas águas... molhei meus pés, meus joelhos e minha alma. Molhei de vez o medo! E a imensidão do mar, aquela que eu tanto temia, fez-me repensar a grandeza do desconhecido. Nascia ali o gosto pela aventura e, com ela, amores e dissabores... essências!

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A primeira morte da escritora

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O texto, de tão espesso pelos ruídos da imaginação, entupia a ponta da caneta, forçava sua saída – como se a fórceps - mas não conseguia vir ao mundo. Minha mão agitava a caneta de um lado para o outro do papel, tentando impressionar a professora que, obviamente, percebia a minha inércia diante da avaliação. Para piorar a cena, além da ausência de ideias, o som do relógio atrapalhava ainda mais minha concentração - que a esta altura, começava a morrer pela fuga total de pensamentos! - Dez minutos! - gritou a mestre; e um balde de ansiedade nocauteou meu desafio. Era como se eu tivesse acabado de sair do quadro “O Grito” de Edvard Munch, implorando por uma chance, uma luz, um alento; ou ainda como se eu fosse parte da tela “Guernica”, de Picasso, considerando que todos aqueles personagens aflitos eram de fato partes da minha luta interna. Entrei em trabalho de palpitação. - Cinco minutos! - soou outro grito. 61

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E aí já não tinha mais chão, bateu-me o desespero completo, iniciara-se o caos! A um passo de entregar a prova, a única coisa que consegui riscar no papel foi uma figura primitiva de gente, quase rupestre - em uma tentativa alucinada de tentar a comunicação. Um reflexo rápido para disfarçar meu fracasso criativo, sem palavras, nem garganta... e àquele instante sem nem direito à nota de redação. Morria, pela primeira de muitas vezes, meu sonho de escrever!

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Azul de Elefante
Por Fernanda Almeida e Rafaela Lemes

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Ao saber que ganharia um presente, logo me animei. Estava ansiosa. Quando meu pai chegou, fui correndo encontra-lo para descobrir o que havia me comprado. Abri as pressas o presente e sorri ao me deparar com a enorme figura na capa azul. Acabara de ganhar um livro chamado “A Vida do Elefante Basílio”, do autor Érico Veríssimo. Ao abri-lo, vi muitas e muitas páginas e palavras e logo me desanimei. Não queria um livro, mas sim, um brinquedo. Meu pai, vendo que não havia gostado do presente, ficou desapontado, mas não desistiu com esperança que me interessasse pelo universo das palavras. Depois de muita enrolação e de muitas cobranças, comecei enfim a ler aquele livro azul, mas nunca chegando ao fim. Hoje ele permanece em minha estante com todos os outros que adquiri com o tempo e apesar de nunca o ter terminado, foi aquele – da capa azul de elefante – que me despertou o amor pela leitura. 64

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Sobre a organizadora: Juliana Maringoni, graduada em Jornalismo – PUC Campinas, especialista em Jornalismo Literário – Academia Brasileira de Jornalismo Literário e em Planejamento e Implementação e Gestão da Educação – Universidade Federal Fluminense Atua como professora de Escrita e Criatividade em oficinas culturais e faculdades.

Contato contato@editorarosarose.com.br www.editorarosarose.com.br

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