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Proposta da colegao “A Obra-Prima de Cada Autor” “Colegdo” é uma palavra hé muito tempo dicionarizada e define © conjunto ou reunido de objetos da mesma natureza ou que tm alguma relagio entre si. Em um sentido editorial, significa 0 conjunto niio-limitado de obras de autores diversos, publicado por uma mes- ma editora, sob um titulo geral indicativo de assunto ou drea, para atendimento de segmentos definidos do mercado. Accolecdo “A Obra-Prima de Cada Autor” corresponde plenamen- te & definicao acima mencionada. Nosso principal objetivo é ofe- recer, em formato de bolso, a obra mais importante de cada autor, satisfazendo o leitor que procura qualidade,* Desde os tempos mais remotos existiram colecdes de livros, Em inive, em Pérgamo e na Anatdlia existiam colegdes de obras literérias de grande importancia cultural. Mas nenhuma delas supe- rou a eélebre biblioteca de Alexandria, incendiada em 48 a.C. pelas legides de Jalio César, quando estes arrasaram a cidade. A colegio “A Obra-Prima de Cada Autor” é uma série de livros a ser composta por mais de 400 volumes, em formato de bolso, com prego altamente competitivo, e pode ser encontrada em centenas de pontos-de-venda. O critério de selegaio dos titulos foi o jé estabele- cido pela tradigao e pela critica especializada, Em sua maioria, sd0 obras de ficcdo ¢ filosofia, embora possa haver textos sobre religiio, poesia, politica, psicologia e obras de auto-ajuda. Inauguram a cole- ‘do quatro textos cléssicos: Dom Casmurro, de Machado de Assis; 0 Principe, de Maquiavel; Mensagem, de Fernando Pessoa e O Lobo do Mar, de Jack London. Nossa proposta ¢ fazer uma colegio quantitativamente aberta. A periodicidade é mensal. Editorialmente, sentimo-nos orgulhosos de poder oferecer acolegio “A Obra-Prima de Cada Autor” aos leitores brasileiros. N6s acreditamos na fungdo do livro. uo * Atend sugestbes de leitores, livreiros e professores, a partir de certo ntimero da cole¢do comegamos a publicar, de alguns autores, 0 obras além da sua obra-prima, ANDROMACA | PERSONAGENS ANDROMACA ........ Vitiva de Heitor, cativa de Pirro. PIRRO .. .. filho de Aquiles, rei de Epiro ORESTES filho de Agamenon. HERMIONE..... filha de Helena, noiva de Pirro. PILADES amigo de Orestes. CLEONE seo . confidente de Hermione, CEFISE....... .. confidente de Andrémaca. FENIX 7 . aio de Aquiles, e depois de Pirro. SEQUITO DE ORESTES A cena se passa em Butroti, cidade de Epiro, numa sala do palécio de Pirro. Primeiro ato Cena I (Orestes, Pilades) ORESTES Sim, se a fortuna anuiu em restituir-me o amigo, Talvez mude de face, enfim, para comigo; E jé 0 seu rigor por suavizado tenho Apés fruir deste encontro o venturoso empenho. Crera eu, que sob um céu que o amor me contraria, Pilades ao olhar de Orestes surgitia, Que ele me fosse, um ano apés té-lo perdido, Na corte de Pirro, hoje, 2 vista restituido? PILADES Pois louvo o céu, que, sempre oposto 20 meu regresso, Da Grécia parecia interdizer-me 0 acesso, Do dia em que o furor do temporal bravio Ante 0 Epiro apartou do vosso 0 meu navio. No exilio, desde entao, que alarmes nao sotri, Por vossas afligdes, que prantos nao verti! Sempre a temer por vés algum novo perigo Do qual nao partilhasse o vosso ausente amigo, E ainda mais, receando essa melancolia Na qual, hé tempos, j4, vossa alma imersa via: No temor que do céu um cruel interesse A vosso af’ funesto a morte concedesse. Mas vejo-vos, senor, ¢ se diz8-lo ouso, Conduz-vos ao Epiro azo mais auspicioso: A pompa com que surge Orestes neste passo, Nao é de um infeliz que almeja o seu trespasso. ORESTES Do fado que me traz, quem sabe a meta obscura? ‘Uma inumana € a quem o meu amor procura; Mas, pode alguém prever o que hé de armar- E sea vida aqui vim procurar, ou a morte? sorte, PILADES Qué! de um funesto amor, vossa alma escrava cega, Vossa vida & mereé deste amor ainda entrega? E por que encanto, apés sofrerdes mil gravames, Quereis vos sujeitar de novo aos seus ditames? Se vistes em Esparta Hermione inexordvel, Mostrar-se-d, no Epiro, acaso mais tratvel? Ja, na ansia de olvidar desprezos inegaveis, Mostraveis-lhe édio; enfim, sobre ela silencidveis: Que engano! ORESTES Eu me iludia a mim mesmo: Se estimas Um infeliz que te ama, amigo, nao 0 oprimas. Meu fundo coragdo eu te ocultei jamais? Viste nascer meu fogo e meus primeiros ais: E quando Menelau a mio de sua filha Cedeu a Pirro, herdi vingador da familia, Minha dor conheceste, e desde entio me viste Levar de mar em mar meu desespero triste. o-s6 com afli¢go é que entdo te vi prestes A seguir no infortiinio o desgracado Orestes, E de meu transe enfreando a firia mundo afora, De mim mesmo, afinal, salvares-me a toda hora, Mas, a lembrar-me enfim de que, entre alarmes tantos, Hermione prodigava a Pirro os seus encantos, Sabes como a minha alma, em seu ressentimento, Quis punir-Ihe os desdéns com justo esquecimento. Fiz crer que em mim o amor matara, ¢ cu mesmo 0 cri ‘Transportes de ddio, s6, em meus transportes vi, E a rebaixar-lhe 0 encanto e odiando 0 seu rigor, Desafiando-a a jamais me inspirar novo amor, Quis assim sufocar a ternura em minha alma. A Grécia regressei nessa ilusdria calma, E vi-lhe em assembléia os principes reunidos, A quem um grave assunto alarmava os sentidos. A cles corr. Pensei que a guerra, a luta, a gloria De mais premente assunto imbuir-me-ia a mem E que assim recobrando 0 meu vigor primeiro, Fugir-me-ia o amor do peito por inteiro. Mas a perseguigio da sorte, amigo, admira: A uma cilada corro, a mesma a que eu De todo lado se haure um sopro de desgraga; Em queixas contra Pirro a Grécia se congraga: Trai suas juras, ougo, e a sua gloria, esquece-a: Pois cria em sua corte o inimigo da Grécia, Astianax, de Heitor infausto filho infante, Resto dos reis que viu tombar Trdia expirante. Ougo que do suplicio ele foi salvo, quando Andemaca, 0 ardiloso Ulisses enganando, Fez. que outra crianga ao seu seio arrancada, Com o nome do seu filho & morte fosse e Ougo ainda que, 20 poder de Hermione Pirro a outra leva o dom de seu cetro e seu leito. Sem cré-lo, Menelau de um himeneu se queixa, Que, sempre retardado, em incerteza 0 deixa. Mas, entre 0 desprazer que em sua alma assim gera, Da minha uma alegria oculta se apodera: Triunfo; ainda iludido, a imaginar que devo Ao prazer da vinganga 0 meu feliz enlevo. Mas toma af a ingrata a impor-me o seu prestigio: De um fogo mal extinto abrasa-se 0 vestigio; Sinto que aos poucos o édio em minha alma se finda, Ou melhor, o que sinto é estar a amé-la ainda. Aos gregos me oferego enti; seu voto obtendo A Pirro sou enviado, esta jornada empreendo, A ver se, em lhe arrancando a crianga que alarma Tantas nag6es, da Grécia a firia se desarma. Pudesse eu, mais feliz, no ardor do qual sou presa, Em vez de Astfanax, raptar minha princesa! Pois nao creias que possa esse ardor desmedido Por obstdculo algum ver-se ainda impedido Jé que apés tanto esforgo a resisténcia é va, Entrego-me qual cego a meu ardente af Amo: para a levar daqui, a Hermione acorro; ‘Conquisto-a, ou a rapto, ou ante os seus olhos morro! Mas tu, sabes do rei: Que pensas que ele faca? Dize-me 0 que na corte e em sua alma se passa. Sujeito a seu olhar minha Hermione ainda o tem? Crés que ele me devolva o meu perdido bem? PILADES Seria vos nutrir, senhor, de auspicios vaos, Julgar que ele a remeta agora a vossas mios. Nao € que esta conquista incite o seu ardor; Sou fogo se inflamou pela vitiva de Heitor. Mas até hoje, enfim, essa vitiva inclemente ‘Tem-the pago a paixio com rijo ddio somente. Dia apés dia, empreende ele algo, a ver se a abala: A afagé-la, primeiro, e em seguida, a assusté-la; Do filho, que conserva oculto, ameaga a vid: Seu pranto incita, e faz por secd-lo em seguida. A propria Hermione viu esse amante irritado Mais de cem vezes, jé, tornar a seu mandado, E da fé perturbada a renovar-lhe o preito, Menos gemer-lhe aos pés de amor, que de despeito, Nao € possivel, pois, ser-vos garante, aqui, De um coragao que jé nao é senhor de si. Ele pode, senhor, na desordem que o inflama, Desposar 0 que odeia, e aniquilar o que ama. ORESTES Mas dize por que forma Hermione pode ver Seu himencu adiado e inécuo 0 seu poder? PILADES Senor, a altiva Hermione, em aparéncia, ao menos, A inconstancia de Pirro ope ares serenos, E diz que ele, feliz de aplacar-Ihe o rigor, Ainda Ihe implorara aceitar seu amor. ‘Todavia, chegou a confiar-me os seus prantos; Chora o cruel desprezo imposto a seus encantos; Sempre a quedar-se aqui, e sempre a partir prestes, As vezes ela invoca 0 auxilio, até, de Orestes. ORESTES Pflades, ah! serd? Iria eu, se assim fosse, Langar-me. PILADES Ponde termo 2 missAo que vos trouxe O rei logo vird. Mostrai-Ihe, nesta altura, Contra 0 filho de Heitor, dos gregos a conjura. Longe de Ihe ceder de sua amada o filho, HA de incitar-Ihe 0 ardor esse novo empecilho. Querendo desuni-los, vao uni-los mais; Tudo exigi, a fim de que nada abtenhais. O rei vem ORESTES Vai, entéo; para a cruel apela; Que ouga o amante que aqui vem ter t0-86 por ela. CENA IL (Pirro, Orestes, Fénix) ORESTES Antes que a Grécia aqui por minha voz se expresse, Da escolha permiti que me ufane, e confesse Meu jiibilo, senhor, ao saudar em seu brilho De Tria 0 vencedor, de Aquiles magno filho. Sim, vossos feitos, como os dele, a Grécia admira; Ante ele tomba Heitor, ante vés Tréia expira. E demonstrou de Pirro a rara intrepidez O filho, s6, do heréi, poder tomar-Ihe a vez. Mas, o que nio faria, a Grécia vé, aflita, Que do sangue troiano atenuais a desdita, E, anuindo em que vos toque o peito dé funesto, Que de tio longa guerra acalentais 0 resto. Senhor, quem Heitor foi, acaso no lembrais? A Grécia enfraquecida o lembra por demais. Esposas, filhas, maes, ndo ha quem lhe ouga 0 nome, Sem que nos coragdes frémito de édio assome Cada um, sobre esse filho infausto, ao alvo aspira. Do esposo ou pai vingar que Heitor Ihe subtraira, E esse filho, com 0 tempo, o que fara? Talvez Que em nossos portos, qual seu pai, por sua vez Surja um dia, € a abrasear de nossas naus os mastros, Sobre a 4gua, facho em mAo, thes siga os flameos rastros. Vos mesmo, se eu usar dizer 0 que se pensa, Da injusta compaixao temei a recompensa E que a serpente criada em hora inoportuna, Por té-la conservado, um dia néo vos puna. Da Grécia inteira, enfim, acatai a ansia justa; Fimmai sua vinganga, ¢ a vossa vida augusta: Destruf um monstto, a fim de que, com mao perversa, Sobre vés, a guerred-la, um dia no se exerga. PIRRO A Grécia por demais em meu favor se agita: Com mais premente objeto a imaginava aflita, E visto @ projegdo do seu embaixador, Em seu intuito en quis gléria maior supor Poderia emprestar a to infima empresa De Agamenon o filho a titular grandeza? Eum povo inteiro, enfim, tio triunfante e forte, Dignar-se maquinar de uma crianga a morte? Que se pretende, alids? que a sacrifique a quem? Sobre essa vida a Grécia é quem direitos tem? Dos gregos, somente eu, entio nio disporei De um cativo que coube ao Epiro e a seu rei? Quando, rubro de sangue, aos pés de Trdia acesa, Partithava entre si o vencedor a presa, A sorte, de que entao 0 arbitrio se acatou, Andromaca e seu filho a Pirro destinou, Hécuba, ante Odlisseus finou-se: sem embargos Acompanhou Cassandra 0 vosso pai a Argos Sobre eles € seus bens estendi meus direitos? Porventura dispus do fruto dos seus feitos? Temem que, com Heitor, Trdia do pé ressaia, Que 0s dias que Ihe deixo 0 filho me subtraia. Demais cautela exige ansia tio prematura; De tio longe eu nao sei prever a desventura, Medito, otha o que foi essa cidade outror Tao soberba em bastides, rica em herdis, senhc Incontestada da Asia; e contemplo, admirado, Qual foi de Trdia a sorte, e qual hoje ¢ 0 seu fado. Torres vejo e bastides de cinza e pé coberto Um rio cor de sangue, agros, campos deserto: Cativa uma crianga, e nao possa Com que Tréia em tal pas: Allis, se desse filho a perda , Seu s Sob as rufnas de Trdia a Grécia o sepultasse, Tudo era justo, entdio; é em vio que da fraqueza A idade, a infancia, 0 sexo, invocava a defesa: Da noite e da vitéria 0 barbaro dom: Os golpes confundia e aguilhoava 0 assas: Também minha ira foi por demais vingativa, Mas que essa crueldade a fuiria sobreviva, Que, a vedar que em meu peito a compaixdo se entranhe, No sangue de uma crianga indefesa eu me banhe, Nao, no! Procure a Grécia outra presa inimiga, O que de Tréia resta, alhures se persiga: De minha inimizade o curso se esgotou; O Epiro salvaré o que Trdia salvou ORESTES Porém nao ignorais, senhor, por que artificio Foi um falso Astfanax conduzido ao suplicio A que devera ser de Heitor 0 filho entregue. Ja no é Trdia, € Heitor que a Grécia aqui persegue, Estende, contra o p: nda; Demais sangue cor escinda; ‘Tio-somente no dele é mister extingui-la, E para o Epiro pode essa ira ainda atrai-la: Pensai, rei! PIRRO Eu? N&o, nfo, com gosto isto se api Busque no Epiro a Grécia uma segunda Tréia; Que de ddio se alucine e deixe confundido O sangue pelo qual venceu, com o do vencido. Nao é a primeira vez que, em gratidao remissa, De Aquiles o valor paga com injustiga, Heitor valeu-se disso, e algum dia, talvez, Ao filho que deixou valha por sua vez. ORESTES Da Grécia o filho mais ilustre assim rebela? PIRRO E eu s6 venci, entiio, para depender dela? ORESTES 0 amor vos deterd em seus sagrados nés: Hermione hé de interpor-se entre 0 seu pai e vés. PIRRO Posso, senhor, a Hermione empenhar sempre aprego, Sem que da sujei¢io a seu pai pague o prego; E espero que algum dia ainda hao de se compor De minha gléria o zelo e 0 que me rege o amor, Podeis render, no entanto, a Hermione 0 vosso preito: Do sangue que vos une eu sei oliameestreito. Vossa presenga aqui, depois, senhor, se escusa, E aos gregos podereis levar minha recusa. r CENA HI (Pirro, Fénix) FENIX A sua amads 0 enviais, senhor, nest PIRRO Dizem que longamente ardeu pela princesa. FENIX Nao temeis que de novo este fogo se inflame? Que, a oferecer-the amor, faca que ela o ame? PIRRO Consinto, Fénix, ah! que se amem, que ela paria! Regressem, mutuamente encantados, a Esparta! Que esteja todo porto a sua fuga aberto! De que constrangimento estaria eu liberto! FENIX Senhor, PIRRO Basta, Outta vez, de encantos inegéveis. ‘Andromaca aqui vem. CENA IV (Pirro, Andrémaca, Fénix, Cefise) PIRRO A procurar-me estaveis Senhora? concedeis- spicio tio feliz? ANDROMACA Senhor, eu ia ver meu filho. J4 que anuis Em que uma vez por dia 0 dnico bem aviste Que de Heitor ¢ de Tréia 2 Andrémaca subsiste, Ta chorar com ele agora alguns instantes: Nao me fora ainda dado, hoje, abragé-lo antes! PIRRO Dos gregos dar-vos-4 o temor vingativo Das lagrimas, senhora, em breve mais motivo, ANDROMACA, Que susto Ihes abala agora o peito ufano? A vosso ago escapou acaso algum troiano? PIRRO Assume por Heitor seu ddio novo aspecto: Seu filho alarme influi. ANDROMACA, De temor digno objeto! Pobre crianga, insciente, ainda, sem favor, De que Pirro é seu amo, e que € filho de Heitor! PIRRO Seja o que for, a Grécia exige que pereca. De Agamenon o filho o seu suplicio apressa, ANDROMACA E haveis de pronunciar juizo tao impiedoso? E o amor de sua mae que 0 toma criminoso? Nao temem que dos seus um dia vingue a morte, Mas que de sua mie as lagrimas conforte. Ter-me-ia feito a vez de esposo, pai, irmaos; Mas devo perder tudo, e sempre as vossas méos PIRRO Senhora, recusando, adiantei-me a esse pranto. Clama por vosso filho a Grécia armada. Entanto Cruzasse, para obté-lo, o mar com mil navios, Corresse novamente 0 sangue todo em rios Que Helena fez verter aos gregos ¢ troianos, Se em cinzas meu palicio ardesse apés dez anos, ‘Nao hesito ainda assim: a defendé-lo corro, E a minha propria vida empenho em seu socorro. Mas, quando assim por vds em defensor me erijo, Nao me concedereis um olhar menos rijo? Odiado, a opor-me & Grécia inteira que me acossa, Com a sua inimizade, hei de enfrentar a vossa? De mim disponde, mas, posso esperar que agora J4 no repelireis quem tanto vos adora? Que ao enfrentar por vés intimeros perigos, Nao vos conte também entre os meus inimigos? ANDROMACA Senhor, que nao diré a Grécia? E em tal empresa Pode tio grande peito exibir tal fraqueza? Pretendeis que intencao to bela e generosa Passe por mero afi de uma febre amorosa? Cativa, sempre triste, a si mesma um gravame, Podereis desejar que Andrémaca vos ame? Que encanto vos influem olhos infortunados, Por vosso brago a pranto eterno condenados? Mas, seguir da cleméncia a magna diretriz, Render um filho & mae, salvar um infeliz, De dez povos, por ele, enfrentar a agressio, ‘Sem me exigir, senhor, em paga 0 coracio, A pesar meu, até, votar-Ihe 0 vosso au Seria digno, sim, de Aquiles, de seu ho. PIRRO. Nao se amainou vossa ira ainda para comigo? Serd vosso ddio eterno ¢ eterno 0 meu castigo? Sei que infelizes fiz; que Ilion, sem que o desminta, Com vosso sangue a mio cem vezes me viu tinta; ‘Mas que vinganga jA sobre mim exercestes! Quao caro nao paguei os prantos que vertestes! De que remorsos fui a vitima infeliz! Padego todo o mal que aos pés de Troia fiz, Vencido, nos grilhdes do jugo a que me rendo, Em fogos mais mortais de que acendi, ardendo, Que prantos, quantos ais, que afligdo sem quartel... Senhora, fui jamais como vés to cruel? Mas jé basta, afinal, que um de nés o outro puna; O inimigo comum, senhora, nos retina. Da esperanga uma s6 palavra me outorgai Vosso filho vos rendo e Ihe sirvo de pai; De Tria ensiné-lo-ei a vingar os destrogos; Os gregos pagaro seus males, meus, os vossos. Basta que me incentive um vosso olhar, um s6: Pode ainda ressurgir vossa Tréia do p6; Em menos tempo, até, do que foram destruidos, Coroarei vosso filho em seus muros reerguidos ANDROMACA Grandeza tal, senhor, j4 pouco nos atrai; E 0 que eu lhe prometia em vida de seu pai. Nao, nao nos espereis rever, muros sagrados, (Que nao puderam ser por Heitor conservados Contenta ao infeliz fortuna mais escassa; Senhor, to-s6 do exilio eu vos imploro a graga. Longe dos gregos, mais, senhor, longe de vés, Deixai que oculte o filho e 0 esposo chore a sés. Yosso amor contra nés 0 édio mais envenena; Voltai, senhor, voltai, para a filha de Helena. PIRRO Quanto me atormentais! Senhora, acaso 0 posso? Como Ihe devolver um coracdo que € vosso? Sei que de minha fé por certo o império tinha, Que ela ao Epiro veio, para aqui ser rainha; Quis vos trazer a sorte uma e outra a esta ourela, Cativa, em ferros, vés, para outorgé-los, ela. Algum empenho tive em Ihe agradar, no entanto? Nao parece, ao contrério, a quem vé vosso encanto Onipotente aqui, e o dela, inttil mais, Ser ela a prisioneira enquanto vés reinais? Um s6 dos ais que a vés envio, ah, que alegria, Se a ela o dirigisse, sua alma traria! ANDROMACA E por que se oporia Hermione a vossos ais? Vossos servigos, j4, nfo lembraria mais? Contra vés, na alma, Heitor, Trdia, édio the derrama? As cinzas de um esposo atribui vossa chama? E que esposo! ab! da dor recordagio fatal! S6 ele € quem tornou vosso pai imortal: Deve ao sangue de Heitor os louros desmedidos, E t8o-s6 por meu pranto ambos sois conhecidos. PIRRO Pois bem, senhora, entdo € mister terminar: Devo vos esquecer, ou, antes, vos odiar. De meus votos ndo pode a violéncia intensa Doravante estacar em mera indiferenga; Para o meu coragdo a alternativa é uma: Se no arder de amor, que de ddio se consuma. Em minha justa firia eu ja no me governo: O filho pagard pelo desdém materno. A Grécia 0 exige envio vou eu meter, a fé, Minha gloria em salvar quem tao ingrato 6. ANDROMACA, Aide mim! morre, entdo! Por titulo A cleméncia “Meu pranto apenas tem, tem s6 sua inocéncia, E em meu transe, afinal, a sua morte assim De meus males, talvez, possa adiantar 0 fim. Por ele prolongava a infortunada vida; Com seu pai poderei ento me ver reunida, E juntos afinal, os trés, por obra vossa... PIRRO Vosso filho ide ver, senhora; oxald possa ‘Ao vé-lo, 0 vosso amor, com timidez tardia, Deixar de ter t0-s6 rancor e dio por guia. Volto a saber de vés nosso fado em seguida: Pensai, a0 abragé-lo, em conservar-Ihe a vida. uM ene UNIFESP BRTFCArauDNIe Segundo ato Cenal (Hermione, Cleone) HERMIONE Faco 0 que queres, bem: no fujo a que me veja; Coneordo em conceder-Ihe essa alegria, seja! Pflades para aqui tio logo vem trazé-l Mas, cresse-me a mim mesma, e negar-me-ia a vé-lo. CLEONE Senhora, e pode haver algum mal em sua vinda? Acaso nao seré o mesmo Orestes ainda De quem mais de uma vez a volta desejastes? De cujo amor constante a auséncia lamentastes? HERMIONE A ingratido com a qual esse amor retribuf, Faz que mais me humilhe a sua presenga aqui Que triunfo, ah!, para ele, e que vergonha a minha! Vé a igualar-Ihe 0 enfado hoje & minha ignominia. Dira: E esta, entdo, aquela altiva Hermione? Ela me desprezou, para que outro a abandone: Punha seu coragio a ingrata 2 altura tal, Para, por sua vez, sofrer desprezo igual! Céus! CLEONE Dissipai, senhora, essa indigna suspeita: Sua alma é por demais a vosso olhar sujeita. Vir-vos-ia insultar 0 amante que vos traz ‘Aos pés um coracio de inconstancia incapaz? Porém de vosso pai calais-me os mandamentos HERMIONE Se Pirro persistir em seus retardamentos, Se no der curso a lei que o troiano condena, Partir com as naus da Grécia é 0 que meu pai me ordena, CLEONE Senhora, a Orestes dai, entiio, ouvidos plenos. © gue Pirro iniciou, terminai vés, a0 menos. Deveis € antecipar-Ihe as decisdes instéveis; Jé nao ouvi de vés mais de uma vez que 0 odidveis? HERMIONE i Odeio-o, sim, Cleone; exige-o a minha gléria . Apés bondades mil de que olvida a memoria; Ele, a quem tanto quis, e que p6de atraigoar-me! CLEONE, Fugi-lhe, pois, ¢ jf que de outro a fé infinda... HERMIONE Nao, deixa que me aumente 0 tempo a firia ainda! Que ainda com mais fervor dele o édio em mim se firme! Tendo-Ihe horror, pretendo a seu jugo evadir-me, No consegui-lo o infiel pode ser posto a proval CLEONE, Pretendeis aguardar-he ainda uma injdria nova? Que ele ame uma cativa, e que a ame & vossa vista, ‘Vemo-lo, sem que dele 0 vosso amor desista? Que mais fard que jé nao fez.a esse respeito? Pudesse abortecer-vos, ja 0 houvera feito. HERMIONE Cruel, pretendes mais ferir-me o transe extremo? Conhecer-me a mim mesma eu nesta altura temo. Nada me creias, j4, nada o que me vés € ouves: Cré que no o amo mais, minha vit6ria louves; Cré que se endureceu minha alma em seu desdém, E tenta, ah! persuadir-me a que o creia eu também. Sim nada mais aqui me incita a que persista: Basta jé de invejar sua indigna conquista! Que © ligue a uma cativa um desonroso enlace; Fujames... Mas, se o ingrato ao seu dever tomasse, Se da fé, da constncia, ainda ouvisse os conselhos, Se viesse, e 0 seu perdio implorasse aos meus joelhos, Se inda o amor conseguir que 2 lei do meu reaja... Mas que digo, ai de mim! ta0-s6 me humilha e ultraja. Permaneco, ainda assim: turbo-lhes a fortuna; Algum prazer terei em lhes ser importuna, Ou, forgando-o a romper um laco to solene, Farei que da Grécia a vinganga o condene. Sobre o filho atraf, j4, sua firia rija; Pretendo ainda fazer que a mie se Ihe exija, Pague-me as afligdes que me fez padecer; Que o perca, ou que ele, entdo, a ponha a perecer. CLEONE Julgais que olhos tao sempre abertos para o pranto, Pretendam ofuscar a luz. de vosso encanto? Que um coragdo, que a mais pesada mégoa oprime, De seu perseguidor os suspiros anime? Que ele sobre a sua dor algum alfvio exerga? Por que € que ela entdo vive em desespero imersa? Se esse amante Ihe praz, por que friezas tais? HERMIONE Ah! para pesar meu, eu o escutei demais Do mistério e silencio eu nao Ihe impus a espera: Sem temer-lhe a traicao cri poder ser sincera, E sem lhe impor jamais de um rigor meu as penas, Ao falar-lhe, acatei meu corag&o apenas. E quem a alma, como eu, nao abriria, e a mente, Sobre a fé de um amor jurado santamente? Como ele hoje me vé, acaso entio me via? Lembras-te, em seu favor entio tudo se unia: Toda a Grécia exultante, a honra dos meus vingada, Dos despojos de Trdia a armada carregada, Os feitos de seu pai nublados pelos seus, ‘Seus votos, que cu julgava ardentes mais que os meus, Meu coragao... Tu mesma A sua gléria rendide, Antes de sua traig20, por tudo fui traida. Mas seja ele o que for, Cleone, basta agora: Orestes é virtuoso e Hermione ndo 0 ignora; Ao menos sabe amar, e até sem ser amado, E talvez que algum dia ainda o amem por seu lado. Que venha, pois! i CLEONE Senhora, ei-lo a chegar-se c4. HERMIONE \ Ah! nao supus pudesse estar to perto jé. CENA IT | rmione, Orestes, Cleone) HERMIONE Principe, ousara eu crer que vos traz & procura De uma triste princesa um resto de ternura? Ou as leis do dever devo imputar somente Este empenho feliz que aqui vos traz presente? ORESTES Tal é do meu amor a cegueira funesta; De Orestes, jé 0 sabeis, senhora, a sorte € esta: Vir sem fim adorar 0 encanto que vos ora, E cada vez jurar que a ele jamais retorna. Sei que vai vosso olhar reviver-me as agruras, Que torno, ao vir a vés, perjuras minhas juras: Enrubescido o sei. Mas, que 0 atestem os deuses, Que outrora jé 0 furor viram dos meus adeuses, Que as regides s6 corti, onde um trespasse certo POr-me-ia enfim do transe e juras a coberto. A morte mendiguei a gente estranha e brava, Que s6 com sangue humano os seus deuses saciava Fecharam-me o seu templo; € esses povos sangrentos Mostraram-se do dom de meu sangue avarentos. Volto a v6s, reduzido enfim a que me arroje A.em vosso olhar buscar a morte que me foge. Meu desespero j4 a sua frieze mede: Basta que da esperanca a tiltima luz me vede; Para apressar a morte a que me precipito, Que ainda uma vez me diga 0 que sempre me hé dito, S6 este auspfcio hé um ano a vida ainda me incita; Tomai, tomai, senhora, a vitima que o cita A yossos golpes ja teria subtrafdo, Se cruel como vés o houvesse conhecido. HERMIONE Senhor, deveis deixar linguagem tio sombria: Obrigacio urgente a Grécia hoje vos cria. De meu rigor fatal, do cita, que falais? Recordai quantos reis aqui representais. Sua vinganga vai depender de um transporte E é de Orestes que aqui de vés se exige a morte? Cumpri vossa missfo, ¢ antes que se reviva ORESTES Desobrigou-me, j4, de Pirro a negativa. Ordena-me pattir, ¢ do filho de Heitor Outro poder, princesa, o erige em defensor. HERMIONE ‘Traidor! ORESTES Senhora, assim, j4 a deixé-lo prestes, Venho de vds saber o destino de Orestes. No coragiio j4 sei, 4 me parece ouvi-la, A sentenca fatal que minha alma aniquila. HERMIONE Sempre a me incriminar nalgum discurso triste, ‘Vossa voz na injustica e lastima persiste, Que € dessa inimizade a toda hora alegada? Vim para 0 Epiro onde eu fora relegada: Ordenara-o meu pai. Mas saheis, desde entio, Se no compartilhei j4 de vossa afligio? Julgais que vés, téo 86, sofrestes? Que entretanto Epiro nunca viu correr também meu pranto? E quem sabe se até, falhando ao meu dever, Eu no vos desejasse, uma e outra vez, rever? ORESTES Vos! desejastes ver-me? ah, princesa divina. Mas é a mim, por mercé, que a oracio se destina? Nao vos ilude 0 olhar? é Orestes a quem mira, Orestes, tanto tempo objeto de sua ira. HERMIONE \ Sim, sois vés, cujo amor, com o seu poder nascente Do encanto Ihe ensinou primeiro a arma potente. Vés, que virtudes mil faziam estimar, ‘V6s, de quem dé senti, vés, que eu quisera amar. ORESTES Compreendo, é 0 que me cabe em partilha funesta: De Pirro é 0 coraco; piedade a Orestes resta. HERMIONE Pirro? nao o invejeis! havia eui, sem favor, De vos odiar demais. ORESTES ‘Ter-me-feis mais amor. Quio diferente, entdo, ver-me-ia esse olhar vosso! ‘Vosso desejo é amar-me, e agradar-vos no posso. Mas, s6 0 amor, ento, se faria acatar, E ter-me-feis amor, fazendo por me odiar. Ah, céus; tanto respeito, uma afeicio tio firme... Por mim, quantas razbes, pudésseis s6 ouvir-me! Por Pirro, hoje, afinal, disputais vés somente; ‘A pesar vosso, até, a dele certamente: Sabeis que vos odeia e que 0 seu fogo aceso Por outra... HERMIONE E quem vos diz, senhor, ter-me desprezo? Um seu olhar ou dito instruiu-vos disso? Admira! Minha presenga, entdo, desprezo tal inspira? Os votos que ela influi sdo téo pouco duréveis? Outros olhos ser-me-fo, talvez, mais favordveis. ORESTES Belo € insultar-me assim! senhora, prossegui ‘Agora entiio sou eu quem vos despreza aqui! Meu fogo a vosso olhar assaz no se explicou? De seu fraco poder eu testemunha sou? Desprezei-o eu! Prouvera a vés que o meu rival Pudesse a seu poder votar desprezo igual! HERMIONE E que importa que me ame ou que me seja infiel! Dos gregos é mister agir contra um rebel; Ide, e da insurreigao vinde cobrar-Ihe o prego; ‘A que facam do Epiro uma outra Tréia aquiesgo. Depois disso ousareis ainda dizer que 0 amo? ORESTES Ah! que venhais comigo é 0 que de vés reclamo! Quereis neste lugar ficar como refém? ‘Vinde usar 0 poder que os vossos olhos tém. Com 0 nosso 6dio comum da Grécia a ira alevanto... HERMIONE Mas, se ele desposar Andrémaca, entretanto! ORESTES Princesa! HERMIONE Refleti! para nés que vergonha, Que como esposa 4 Grécia ele uma frigia imponha! ORESTES E assim o odiais! Senhora, isto por si responde! Confessai que numa alma a paixio nio se esconde: Olhos, siléncio, voz, tudo nos trai na certa; E melhor se revela a flama mal coberta. HERMIONE De vosso espiito haure a preveneZo inata Em tudo 0 que vos digo o veneno que o mata; E no que exponho vendo artificio a acusar-se, Julga 0 meu édio ser do amor, s6, 0 disfarce. Devo explicar-me, pois: agireis em seguida, ‘Ao Epiro eu me vi pelo dever trazida: E onde o dever me prende; e nao posso partir Sem que Pirro ou meu pai me obriguem a sair. Por meu pai adverti, pois, Pirro, sem apegos, Nio poder ser seu genro 0 inimigo dos gregos. Que entre mim ¢ o troiano a escolha firme, pois; Saiba a quem quer guardar ou retornar, dos dois. Despache-me, efinal, ou entio, v6-lo entregue. Sea tal no consentir, Hermione Orestes segue. CENA II ORESTES Entio, nem duvideis! sim, seguir-me-eis, portanto! Neste passo de Pirro a aquiescéncia garanto. Nio vou em recear que Hermione aqui retenha: S6 no amor da troiana a alma dele se empenha; Todo outro objeto o fere, e talvez dessa fala $6 o-pretexto aguarde a fim de hoje afasté-la. Esté feito, ah! feliz final de minha empresa, Subtrair 20 Epiro uma to bela presa! Salva, Epiro, o que aqui de Tréia reste ¢ Heitor, Guarda o seu filho, vitiva, ou seja quem mais for! A mimo que me basta é Hermione restitufda, Para sempre a teu rei e chio ser subtraida, Mas 0 acaso feliz para aqui o conduz. De tanto encanto, Amor, vela a sua alma a luz! CENA IV (Pirro, Orestes, Fénix) PIRRO Buscava-vos, senor. Da violéncia 0 excesso Fez-me antes combater vossas razdes, confesso. Mas pude eu ver, depois de vos deixar aqui, Toda a sua eqilidade, ea forga Ihe senti Vi que a meu pai, & Grécia, aos olhos do universo, A mim mesmo, afinal, eu me tornava adverso; Que eu reerguia Tréia e tomava imperfeito Tudo 0 que Aquiles fez, € eu mesmo tenho feito. Eu nao condeno mais célera tao legitima, E s vossas midos, senor, entrego a vossa vitima. ORESTES Por esse ato, senthor, prudente e rigoroso, Pagareis pela paz com um sangue inditoso. PIRRO Mas garanti-la mais, senhor, 6 0 que me apraz: Hermione € 0 penhor de uma perene paz; Desposo-a. A esse feliz ensejo s6 se impunha Termos presente aqui to grata testemunha. Representais seu pai e a Grécia em alto grau, J4 que revive em vés o irmio de Menelau. Ide comunicar-lhe que de vossa mio, Amanhi, com a paz, the aguardo 0 coragao. ORESTES (4 parte) Ah, céus! CENA V (Pirro, Fénix) PIRRO Fénix, e entio? ainda a paixdo me cega? Ainda a reconhecer-me o teu olhar se nega? FENIX Enfim vos reconheco! e esta ira mais que justa, Vos restitui & Grécia e a vossa gléria augusta. Ja no é de um vil fogo o joguete sem brilho; Sim, é Pirro, € 0 rival de Aquiles, é 0 seu filho, Cuja alma toma as leis da gldria e da altivez, Para triunfar de Tréia uma segunda vez. PIRRO Dize antes que comega, hoje, a minha vitoria, Que a partir de hoje, s6, minha alma frui a glé E tao altiva enfim quanto a viste servil Julga ela ter no amor vencido inimigos mil. V6 a que agitagdes, que transes fujo aqui, Que males niio arrasta o amor atrds de si! Quantas obrigagées ia sacrificar! Que riscos... tudo houvera apagado um olhar. Dos gregos sobre mim desabava a querela, E ainda prazer sentia em me perder por ela FENIX Eis por que o brio, enfim bendigo, que resiste... PIRRO Como ela me tratou, Fénix, também o viste. Julgava eu, ao Ihe ver a ternura alarmada, Que me restituiria 0 filho, desarmada: Dos seus abragos fui contemplar o sucesso; S6 encontrei do pranto e da violéncia 0 excesso: Seu desespero a irrita; e sempre mais bravia, O nome s6 de Heitor da boca the saia. Debalde eu Ihe afiangava o meu possante auxi “€ Heitor, sim!” exclamava, a beijar sempre o filho, “Seus olhos, Ibios, sto; é o seu porte, é 0 seu passo! Sim, é ele, sim! é a ti, caro esposo, que abrago| Mas que estaré a pensar? que me condiga & mente Deixar-lhe 0 filho a fim de que o amor lhe alimente? FENIX PG gieven este al aanmaacemmeem sage Mas € deixé-la... PIRRO Eu sei o que a mente the afaga: Sabe ser bela, e a crer que da raiva eu prescinda, A orgulhosa a seus pés ousa esperar-me ainda. Fénix, vé-la-ia aos meus sem sombra de tremor; De Aquiles eu sou filho, ¢ ela é vitiva de Heitor: Demasiado dio Pirro e Andrdmaca divide. FENIX Cumpre, senor, entao, nao falar nela: ide ‘Ter com Hermione, e grato e em agradar-Ihe atento, Aos seus pés esquecei todo ressentimento. Deveis, vés, a essa unio dispé-la: é a um rival Que se ha de conferir, entdio, encargo tal? Basta o amor que Ihe tem! PIRRO Se a esposar, nfio presumes Andrémaca, em segredo, alentar dela, citimes? FENIX Qué! sempre vos perturba Andrmaca 0 conceito! Que vos importam, céus! seu jaibilo ou despeito? Mas que encanto fatal sobre a vossa alma impera... PIRRO Nao, nao the disse eu tudo o que dizer devera: Minha ira ndo Ihe expus como o fago contigo; Ela ignora a que ponto eu sou seu inimigo. Face a face humilhé-la € 0 que a minha honra manda, Que ante ela, livremente, o meu édio se expanda. ver-lhe o encanto ofendido e ao invés De... Ve FENIX Ide, senhor, langar-vos a seus pés: Sim, e a jurar-Ihe mais quanto a vossa alma a adora, Ide a novos desdéns ainda animé-la agora. PIRRO Percebo: ests a crer que, prestes a perdoar, Meu coragao a segue, a fim de se aplacar. FENIX Amais, basta. PIRRO Eu? amar aquela desumana Que tanto 6dio me tem quanto amor meu a ufana? Sem um amparo, a nfo ser meu, sd, na viuvez. Posso destruir seu filho, € 0 que devo, talvez: Estrangeira... que digo? escrava ela no Epiro, Seu filho, meu amor, meu reino lhe confiro, E de seu coragio, tao rijo quio ingrato, S6 de perseguidor auferirei o trato? Nao, nao, jurei: é mais que certo o meu despique; E mister que afinal o dio Ihe justifique. Seu filho entrego. Ah céus! que prantos correrdo! De que nomes no me hé de chamar sua afligao! Que espeticulo atroz preparo & sua dor! Mati-la-4! e eu serei de sua morte o autor: Sou eu quem o punhal no coragao [he crava FENIX E por que essa intenco A luz se revelava? Devieis consultar vossa fraqueza, antes. PIRRO Compreendo. Da ternura escusa ainda uns instantes. Crés que em tio fraca luta a minha ira nao vingue? Eo tiltimo vislumbrar de um amor que se extingue. i" Fénix, tuas razdes € justo que eu abone, Devo entregar seu filho e procurar Hermione? FENIX ‘Sim, vede-a, e redimi, senhor, com mil ternuras Demoras... PIRRO Vou cumprir em tudo as minhas juras. uM Terceiro ato CENAI (Orestes, Pilades). PILADES Ah, principe, amainai o deliio em que estais: N&o vos conhe¢o assim, Orestes nao sois mais. Deixai.. ORESTES Nao, de teu juizo impr6pria hoje ¢ a ocasio, Pilades! fario estou de escutar a razio. Para arrastar tal vida é alto demais o prego; Basta deste suplicio; ou a rapto, ou perego. E minha decisao e quero executé-la. ‘Sim, custe 0 que custar, P{LADES Bem: vamos, pois, rapté-la ntretanto, onde estais, senhor, nao olvideis. Que pensario de vés, ao ver 0 que fazeis? Moderai, disfargai a fitria que em vés arde; Imponde a vosso olhar que ainda o segredo guarde. ‘A corte toda, a guarda, 0 ar que vos cerca, tudo De Pirro pende aqui, de Hermione sobretudo. Mormente a ela ocultai vosso ardor desvairado. Por que feis procuré-la, ah céus! em tal estado? ORESTES Nem eu mesmo ainda o sei. Acaso me continha? A fria me impelia e sei lA se nfo vinha Para ameagar de vez a ingrata ¢ 0 seu amante. P{LADES Que uso traria uma ira assim levada adiante? ORESTES E que razio, ah, céus, nao se alucinaria Com 0 transtorno mortal que a alma me desvaria’? Diz que a esposa amanhi; quer receber Hermione De minha prépria mao, em honra que me abone. Ah, que antes essa mo em seu sangue se banhe. PILADES Por que 0 acusais? nao é desfgnio que se estranhe? Talvez que a debater-se em seu préprio tormento, Seja de lamentar tal como a vés lamento ORESTES Nao, nao, conhego-o bem: meu desespero 0 ufana; Sem mim, sem meu amor, desprezava a inumana. Até hoje sempre foi a seu encanto infiel: ‘To-s6 para arrancar-ma é que a toma o cruel. Ah, céus; tudo ia bem: Hermione, conquistada, Da vista lhe ia ser para sempre afastada; Jé, entre o seu despeito e o seu amor confusa, Por se entregar, tio-s6 lhe aguardava a recusa. Ouvia, olhava j4 Orestes sem protesto, Falava-lhe... faria uma palavra o resto. P{LADES E podeis cré-lo? ORESTES Como! esse brio inflamado Contra um traidor. PILADES Jamais ele foi tio amado. Se Pirro vé-la houvesse entregue neste dia, Algum pretexto logo a no retardaria? Ah, crede-o, 2 uma atragdo fugi que em falso raia, E em vez de a raptar, para sempre olvidai-a Quereis a vosso amor impingir uma fiiria Que, a odiar-vos, chorard toda a vida esta injtria E um himeneu jé pronto a se realizar, Que lhe... ORESTES Por isso mesmo é que a quero raptar. Tudo havia de rir-Ihe e eu s6 teria ganho O furor e a ailico de um impotente assanho? Fugir-Ihe-ia outra vez tentando 0 esquecimento? Nao, no, quero associf-1a agora ao meu torment: Basta de influir piedade e que eu s6 chore e gema Quero, por sua vez, que a inumana me tema, E que, fadada ao pranto, em seu édio e gravame, Dos nomes que Ihe dei por sua vez me chame. PILADES E a esse triste fim vossa embaixada aborta: Orestes um raptor! ORESTES Pilades, pouco importa. Se o Estado se valer de meus cuidados plenos, De meu pranto a cruel vai vangloriar-se menos? Que adianta se hoje A Grécia admiragao inspiro, Se sou fadado a ser a fabula do Epiro? Alids, eu to confesso, ainda que isso te alarme: Minha inocéncia estd comecando a pesar-me. Nao sei a que poder injusto sempre praz Perseguir a inocéncia e o mal deixar em paz. Mas, olhe eu onde eu queira, a mim tio s6 me acenam Desgragas que do céu a justica condena. Pois bem: que eu Ihe merega enfim o ddio inimigo, E que 0 fruto do crime anteceda o castigo Mas tu, porque atrair, por que engano ¢ Joucura, Sobre ti um furor que a mim to-s6 procura? Minha amizade tempo a mais assim te oprime: Evita um infeliz, abandona-o ao seu crime. A tua compaixio, Pilades, te seduz. Entrega-me ao perigo a que eu s6 faco jus. Aos gregos leva tu a crianga indefesa Que me. PILADES Vamos, senhor, raptar vossa princesa. Surge a luz a amizade através do perigo. Quando € 0 amor que 0 conduz, que nao pode um amigo! Ide, de vossa escolta, encorajar 0 zelo: Esperam vossas naus, do vento sopra o apelo. Deste palicio eu sei os dédalos obscuros: Podeis ver que Ihe vem o mar bater os muros; E sem mais, esta noite um secreto desvio Levard vossa presa até 0 vosso navio. ORESTES E abuso meu deixar que a teu afeto cedas; ‘Mas perdoa a afligdes de que sé tu te apiedas, ‘A um infeliz que perde o seu tinico bem, Que € odiado pelo mundo ¢ a si mesmo édio tem. Oxald possa um dia, em mais feliz ensejo. PILADES Dissimulai, senhor, é s6 0 que desejo. Que nZo surja antes da hora & Juz. vossa intengao Até ld esquecei de Hermione a ingratidao; Esquecei vosso amor. Vern vindo; vejo-a, sim. ORESTES Responde tu por ela, e respondo eu por mim. CENA II (Hermione, Orestes, Cleone) ORESTES Restituiu-vos meu zelo hoje a vossa conquista; Vi Pirro, e a vossa unio, princesa, esté vista. HERMIONE E 0 que ouvi: e mais correu de boa fonte Que vindes me avisar que 20 himeneu me apronte. ORESTES E no serd yossa alma a seus yotos rebel? HERMIONE Pudera inda alguém crer Pirro no ser infiel? Que seu amor to tarde iria se inflamar? Que tornaria a mim quando o ia abandonar? Creio-o, qual vés: talvez da Grécia tema a ira; Mais do que a devogao, é 0 interesse que o inspira, ! Eu tinha sobre vés poder mais absoluto. ORESTES Nio, ama-vos, senhora, isto jé no discuto, Nao faz tudo 0 que quer fazer 0 vosso olhar? E niio timbrou decerto em Ihe desagradar. HERMIONE Senhor, fui prometida e que mais faria eu? Posso tirar-Ihe um bem que um pai lhe concedeu? Nao determina o amor de uma princesa a sina: E to-s6 da obediéncia a gloria se Ihe ensina. Nao obstante eu partia, e assim pudestes ver Como ia descurar por vés do meu dever. ORESTES An, sabicis, cruel... Mas que cada alma possa Dispor de si € justo. Assim, senhora, a vossa Pertence-vos. Senti, sim, da esperanga 0 surto; Mas 2 outro a destes j4 sem que isso fosse um furto Mas por que vos cansar com queixa inoportuna? E dever vosso, é certo, € 0 meu, sem que se insista, E vos desobrigar de tio triste entrevista, CENA IIL (Hermione, Cleone) HERMIONE Esperavas, Cleone, uma ira tio modesta? CLEONE A dor que silencia é sempre a mais funesta. Lamento-o mais por ser da prépria mégoa autor; Do golpe que o perdeu foi ele 0 causador. Vede que tempos ja vossa unio se prepara: Senhora, ele falou, e Pirro se declara. HERMIONE Crés que Pirro algo teme? E que influir-lhe-4 temor? A Grécia que fugiu dez anos ante Heitor? Que, Aquiles vendo ausente, os brios vacilantes Cem vezes asilou em suas naus flamantes, E que, nio transformasse 0 filho dele a cene, ! De Tréia impune ainda hoje exigiria Helena? | Nao, Cleone, de Pirro é diferente a fama Ele quer 0 que faz, e se me esposa, me ama. i Mas, que Orestes me impute a prazer suas dores; Outro assunto nao tens que nao seus dissabores? Pirro retorna a nds! Concebes, ah, Cleone, O juibilo sem par da venturosa Hermione? Conheces quem Pirro é? de seus feitos de monta Ouviste a narrag0? Mas quem thes sabe a conta? Intrépido, a seus pés sempre vendo a vitéria, Galante, fiel enfim: que mais & sua gloria. CLEONE, Parai: vossa rival, banhada em sua dor, A vossos pés, decerto, as magoas vem depor. HERMIONE Céus! nao posso entregar-me a meu ardor feliz. Vem! que Ihe diria eu? CENA IV (Andrémaca, Hermione, Cleone, Cefise) ANDROMACA Senhora, aonde fugis? Bastante a vosso olhar o triunfo ainda no praz, Que, em lagrimas, de Heitor a vitiva ante vos traz? Mas eu no venho aqui, com invejoso pranto, Pleitear um coragao rendido a vosso encanto. Ai de mim, vi varar, por uma mao cruel, O tinico a que o meu seré sempre fiel: Outrora por Heitor se incandesceu meu culto: Com ele hoje se vé no tuimulo sepulto, Mas tenho um filho. Um dia haveis de saber que extremos Pode atingir o amor que por um filho temos; No entanto é voto meu que em dia algum saibais Como nos pie seu fado em afligdes mortais, Quando de tantos bens que eram nosso regalo, E 0 tinico que nos resta e nos querem tiré-lo. Ai de mim! quando apés misérias de dez anos, Visava a vossa mie a ameaga dos troianos, Fiz que de meu Heitor a apoiasse a atitude: Sobre Pirro podeis 0 que sobre ele pude, Temor ainda um menino indefeso desperta Que aos seus sobreviveu? Nalguma ilha deserta Deixem que 0 leve; a t8-1o oculto 14 me obrigo, Eachorar, s6, meu filho aprender comigo. HERMIONE Ougo, mas o dever, malgrado o vosso alarme, Ja que meu pai falou, ordena-me calar-me. Instigou o rigor de Pirro a sua voz. Mas, para ainda o amainar, quem pode mais que vos? Imperou vosso olhar sobre ele até agora: Fazei-o pronunciar; subscrevé-lo-ei, senhora. ENA. '¥. (Andrémaca, Cefise) ANDROMACA Que desprezo a cruel mais & recusa CEFISE Seguir-Ihe-ia 0 conselho e Pirro ainda veria, Uma palavra, Hermione e a Grécia vencerd. Mas ele vos procura, CENA VI (Pirro, Andrémaca, Fénix, Cefise) PIRRO (a Fénix) A princesa, onde esté? Nao me disseste achar-se ela neste lugar? FENIX E 0 que pensava. ANDROMACA (a Cefise) ‘Vés? que uso tem meu olhar? PIRRO- Que diz ela? ANDROMACA Ai de mim! hé quem no me abandone? FENIX ‘Vamos seguir, senhor, & procura de Hermione. CEFISE Mas que esperais? Rompei um silencio obstinado. ANDROMACA Meu filho prometeu. CEFISE ‘Nao o tem ainda dado. ANDROMACA Nao, minha dor é va, Resolveu seu trespasse. PIRRO Nem ao menos se digna a nos virar a face? Que orgulho! ANDROMACA Irrito-o mais. Vem vindo, em seus extremos... PIRRO Vamos! De Heitor o filho aos gregos entreguemos. ANDROMACA (langando-se aos pés de Pirro). Que pretendeis fazer? Ah, principe! parai! Se entregardes 0 filho, a mie Ihes entregai! Juréveis-me inda hé pouco a maior amizade! Nao poderei sequer tocar yossa piedade? ‘Sem perdio condenais-me a fiiria que em vés Lavra PIRRO Fénix vé-lo dird: empenhei a palavra ANDROMACA Enfrentaveis por mim tantos perigos certos! PIRRO Estava cego; agora os olhos tenho abertos. Podia-the antes ser seu perdo concedido; Mas nao me foi por vds nem feito esse pedido. ANDROMACA, Ah, por demais, senhor, entendieis gemidos Que refreava o temor de serem repelidos. Perdoai 20 resplendor de uma ilustre fortuna, Um resto de altivez temer ser importuna. Nao o ignorais: sem vés, quem crera que algum dia Andrémaca de um amo os pés abragaria! PIRRO Nao; tendes-me ddio; e na alma abrigais o temor De serdes devedora em algo a meu amor. A vosso filho, até, de tais cuidados 0 alvo, Menos havieis j4 de amar, houvesse-o eu salvo. Contra mim tudo se une, 6dio, ftiria, desprezo; Mais me odiais a mim s6, do que aos gregos em peso. Ja no vos vedarei de tao nobre ira 0 gozo. Vem, Fénix. ANDROMACA, Reuni-me, 6 céus, 20 meu esposo! CEFISE, Senhora... ANDROMACA (a Cefise) Direi mais? O seu rigor nao vés? De meus males autor, que ele os ignore, crés? (a Pirro) Principe, podeis ver @ que estou reduzida. Vi Trsia em chamas; vi meu pai cair sem vida; O ferro vi ceifar minha famfia inteira, ‘Meu esposo em seu sangue arrastado na poeira, Meu filho reservado & serviddio no Epiro. Mas que nao pode um filho! Eu sou serva, e respiro. Fiz mais; reconfortou-me as vezes, que a esse filho : Coubesse aqui, em vez de outra regiao, 0 exilio; Que, feliz no infortiinio, ele, neto de reis, Condenado a servir, servisse a vossas leis. De que ser-Ihe-ia asilo a sua prisio, cria-mo: Jé respeitou, outrora, o proprio Aquiles, Priamo, De seu filho esperava ainda maior bondade Perdoa, caro Heitor, minha credulidade! Podia um teu opoente a um crime fazer jus? Apesar dele, até, magn&nimo o supus. Ahi se bastante 0 fosse, ao menos, para aqui A tumba nos deixar, que a tua cinza ergui, E que findando I4 seu édio e os nossos ais, Tao caros restos jd no separasse mais! PIRRO Fénix, espera ali. CENA VIL (Pirro, Andrémaca, Cefise) PIRRO Senhora, ouvi-me a s6s. filho que pranteais pode voltar a v6: Sinto ver que, instigando o vosso pranto e alarmas, S6 estou a vos dar contra mim novas armas. Supunha eu me chegar com maior édio aqui ‘Mas vosso olhar a mim ao menos dirigi: ‘Vede se 0 meu serd 0 de um severo juiz, Se ele é de quem jamais desagradar-vos quis. Mas € que a vos trair, v6s mesma me obrigais. Por quem vosso filho é, no nos odiemos mais. A salvé-lo, afinal, sou eu quem vos convida Exigis que eu de vés implore a sua vida? Quereis que em seu favor vossos joelhos abrace? Ab! pela tltima vez, subtraf-o ao trespasse. Sei que nés vou romper por v6s, que leis trair; Que 6dios tremendos vo sobre mim recair. Retorno Hermione a Grécia, e em vez do diadema, Sobre a fronte lhe aponho essa injiria suprema: Serd vosso himeneu que para ela se apresta; A tiara ostentareis que Ihe ornaria a testa Mas nfo € oferta, j4, de se menosprezar; Senhora, a escolha é: perecer ou reinar. Desesperado apés um ano de frieza, Meu coragdo nao mais suporta esta incerteza. Demais tempo é gemer, implorar, ameagar, Morro se eu vos perder; mas morro se esperar. Para vos conduzir ao templo, volto em breve: Vosso filho esté If, & espera que eu vos leve; E l4 ver-me-eis, submisso, ou num final abalo, Coroar-vos, ou, senhora, ante és, imol-lo. CENA VIIT (Andromaca, Cefise) CEFISE Disse-o eu: € vao da Grécia o furor malfadado; E senhora ainda sois de vosso proprio fado, ANDROMACA Teu conselho, al, que obteve! e como a dor me agrava! Se condenar meu filho era 0 que me restava! CEFISE Senhora, a vosso esposo & demasiada a fé Assim podeis tornar-vos criminosa, até. Ele proprio & cordura havia de dispor. ANDROMACA, Qué! iria eu Ihe dar Pirro por sucessor! CEFISE Seu filho © quer, de quem pede a Grécia a cabeca. E julgais que, afinal os manes Ihe enrubesga? ‘Que um vencedor despreze, um rei, por quem tornais Aum trono e a um resplendor digno de vossos pais? Que por v6s do feliz inimigo a ira trai, Que nao se lembra mais que Aquiles foi seu pai, Que do préprio triunfo 0s feitos esqueceu? ANDROMACA, E se esquecido os tem, devo esquecé-los eu? Devo esquecer Heitor, de funerais privado, Indignamente 20 pé dos bastides arrastado? Devo esquecer meu pai, em sangue a se esvair, Tingindo cm rubro o altar que abragara ao cair? Lembra o que foi, Cefise, essa noite fatal, Que a um povo inteiro foi uma noite eternal. Pirro imagina, a entrar, os olhos faiscantes, No ptirpuro clarao dos palacios flamantes, Por sobre os meus irmaos sem vida, a abrir passage, E, coberto de sangue, esquentando a carnagem; Os gritos de édio lembra os dos agonizantes, A arfar por entre 0 fogo, em seu sangue expirantes; Andrémaca aterrada evoca em tal horror: Assim se apresentou Pirro ante a minha di Esses seus feitos so, a coroar-Ihe o renome; Eis 0 heréi que se quer que eu por esposo tome. Nao, ciimplice jamais poderei ser do crime; Sobré nés, se o quiser, que ele a vinganga ultime. Meu 6dio entregar-Ihe-ia, e ele, sem empecilho.. CEFISE Bem, vamos ver, entdo, expirar vosso filho. Esperam s6 por vés... Mas, senhora, fremis, ANDROMACA Ah! que lembranga em mim reabres, infeliz! De ir ver morrer meu filho eu terei a coragem, Meu filho, meu amor, de meu Heitor a imagem, Que ele de sua fé me deixara em penhor! Lembro, ai de mim! que o dia em que o seu destemor Fé-lo a Aquiles buscar, ou antes ao trespasse, Cingindo o filho ao peito, as légrimas na face Me viu: “Querida esposa”, é 0 que disse, a enxugar-mas, “Ignoro o que reserva a sorte as minhas armas; Deixo em penhor de nossa unitio meu filho aqui: Quero, se me perder, que me encontre ainda em ti. Se a meméria de um né tao feliz te for cara, Mostra ao filho a que ponto a mae o pai amara, E um sangue to precioso eu deixarei verter! E com ele verei seus pais todos morrer! Rei bérbaro, por que o hé de arrastar o meu crime? Se te odeio, é mister que meu 6dio o vitime? De toda a sua raga a morte te exprobrou? Dos males que ainda ignora ele a ti se queixou? Mas morres, ah! meu filho, a nfo ser que eu me vergue, Desviando o ago fatal que sobre ti jé se ergue. Dele posso salvar-te e a ele te ofereco!.. ‘Mas no, naio morrerds, qualquer que seja 0 prego. Vou ter com Pirro. Nao, vai tu, Cefise amiga, Vai tu vé-lo por mim. CEFISE Que quereis que eu Ihe diga? ANDROMACA, Dize-lhe ser 0 amor por meu filho mais forte... Crés que ele resolveu de fato a sua morte? Pode a paixao levar a barbarie a tal ponto? CEFISE Senhora, em fiiria vai voltar aqui de pronto, ANDROMACA Vai the afiancar, entZo. CEFISE O qué? a vossa fé? ANDROMACA Aj de mim! para déla, ainda minha é? O meu esposo! © Tréia! © cinzas de meu pai! Quai caro, 6 filho meu, tua vida me sai! Vamos. CEFISE Senhora, aonde? ah, por vosso repouso, ANDROMACA Vou sobre a sua tumba evocar meu esposo. a Quarto ato CENAL (Andrémaca, Cefise) CEFISE Ah! no duvido: € 0 vosso esposo, é Heitor, senhora, Que, em vossa alma produz este milagre agora E a seu reerguimento ainda Tréie reserva, Com o venturoso filho a quem por v6s preserva. ; Pirro j& 0 prometeu. 34 vos foi dado ouvi-lo; Z Vosso aceno esperou, $6, para restitui-lo. Em seus transportes crede: aliados, cetro, escudo, Feliz por vos obter, a vossos pés poe tudo, E ante 0 seu povo inteiro ao trono vos conduz. Pois € este 0 vencedor que a tanto 6dio fez jus? Jé nobre indignagao contra os gregos o inspira: S6 pensa em subtrair vosso filho & sua ira; Previne-a, de antemio; cede-Ihe a propria guarda: Por nao exp6-lo, ele a si mesmo, nao resguarda. ‘Mas prometestes vir; no templo, ja, com brilho... ANDROMACA Sim, li me encontrarei, Mas vamos ver meu filho. CBFISE Deixai para depois. Basta que doravante, Senhora, o possais ter convosco a todo instante Prodigar-Ihe-eis em breve os carinhos e agrados, E 0 vossos beijos jé nfo mais serdo contados. Que alegria criar-se um filho em sua flor, Nio como escravo afeito as ordens de um senhor, Mas por ver renascer tantos reis ¢ talvez. ANDROMACA, Cefise, vamos vé-lo pela iiltima vez CEFISE Que estais dizendo? ah, céus! ANDROMACA, Ah, querida Cefise! A ti posso a alma abrir sem que fingir precise: Tua fé me provaste em meus mais negros dias; Mas julguei que methor também me conhecias. Crestes Andrémaca infiel, e que ela trairia O esposo que ao morrer reviver nela cria? Que dos mortos a dor reavivando em seu pouso, Turbar-Ihes-ia em prol do meu prdprio o repouso? Fi Seria & sua cinza este o jurado zelo? ‘Mas, seu filho morria, urgia defendé-lo. Pirro, ao me desposar, se arvora em seu esteio; Basta: fio-me nele e em seus empenhos crei Sei quem Pirro é: violento, é sincero, ainda assim; Mais do que prometeu, talvez. faca por fim, Em meu favor também dos gregos a ira sai: Vai ao filho de Heitor seu dio dar um pai. E assim, j4 que € preciso imolar-me, me apresto Para a Pirro empenhar de minha vida o resto; Vou, ao Ihe receber a fé sobre os altares, i A meu filho o ligar por lagos tutelares. Mas, logo apés, verds, to s6 a mim cruel, Minha mio abreviar minha existéncia infiel, E, salvando a minha honra, eu render 0 que assim Devo a Pirro, a meu filho, a meu esposo, a mim. Este ¢ de meu amor o justo estratagema: Esta € de meu esposo a mensagem suprema. Vou, solitéria, unir-me a Heitor e meus avés. Cefise, has de fechar-me os olhios, tu, apés. CEFISE Senhora, ah! pretendeis que eu sobreviva, quando. ANDROMACA Nao, nao deves seguir-me; é a ti que estou confiando O tesouro, Cefise, a que até hoje me ative, Vivias para mim, para o meu filho vive. Da esperanga de Trdia és tu a depositéria; Recorda a quantos reis te tornas necesséria, De Pirro vela a fé; fica de sobreaviso: Consinto em que de mim Ihe fales, se preciso, Faze valer-lhe a minha anuéncia ao nosso enlace, E eu ter-me a ele empenhaco antes do meu trespasse; ‘Todo ressentimento é mister que suprima; Confiando-Ihe o meu filho, assaz lhe provo estima A meu filho, os herdis pinta de sua raga: O seu exemplo, o mais que possas, Ihe retraga: Saiba o que Ihes firmou do nome a magnitude, ‘Mais do que eles tém feito, o que tém sido; e amitide De seu pai a virtude & sua alma evocando, Lembra-lhe a sua mie também de vez em quando. ‘Mas, que nao leve mais nossa vinganga a peito: Deixamos-lhe um senhor a quem deve respeito, Recorde os seus avés, mas sem ser imodesto: Se do sangue de Heitor, dele é também 0 resto. E aeste resto, num dia, eu terei, por meu lado, rl Meu 6dio, meu amor, € meu sangue imolado. CEFISE Aide mim, ai! ANDROMACA Ja no me sigas, se no espanto De tua alma prevés no reprimir o pranto. Vem gente. Oculta a magoa e lembra neste dia Que Andrémaca o seu fado tua fconfia. * Vamos, é Hermione. Vem, fujamos & sua ira, CENA IL (Hermione, Cleone) CLEONE, Senhora, ah! por demais vosso siléncio admiral Conservais-vos calada ¢ & face desse ultraje Vossa alma, alheia ao édio e & injéria, nao reage! Sofreis tal golpe, e sem que firia em vs assome, Vos, fremente ao ouvir de Andrémaca até o nome! ‘Vs, a quem desespero empalecia a face, Bastando que de Piero um mero olhar a honrasse! No templo logo a esposa, e com a real coroa, A fé a vés empenhada a Andrémaca ele doa; E mudos tal perfidia os vossos labios deixa! Nao se dignam sequer soltar uma justa queixa! Que temor singular me influi contraste destes! Seria, ah, quio melhor.. HERMIONE, Mandaste vir Orestes? CLEONE Senhora, sim, vem vindo: a vosso mando afeito, Jamais falha em vos vir aos pés depor seu preito; Pronto sempre a servir sem recompensa vossa, ‘Nao hé 0 que sobre ele o vosso olhar nao possa, Ei-lo, CENA TIT (Orestes, Hermione, Cleone) ORESTES Ah, poderei crer, princesa, que atesteis Que Orestes, vindo a vés, se rende a vossas leis? Senhora, nfo me engana uma ilus6ria crenga? Desejastes de fato uma vez minha presenga? E, desarmado, enfim, vosso olhar que jamais. HERMIONE Quero saber, senhor Orestes, me amais. ORESTES Eu? se vos amo? 6 céus! Os meus perjirios, juras, Minha fuga e regresso, injiirias e temuras, Meus ais, meu desespero, os meus suspiros, prantos, Em que crereis, se nfo cm testemunhos tantos? HERMIONE Vingai-me, creio tudo. ORESTES Entio, senhora, avante: ‘Vamos em chamas por a Grécia; que a alevante De meu brago o valor, de vosso nome o som, Vés, no lugar de Helena, e eu, no de Agamenon De Trdia espethe o Epiro as misérias fatais, E fale-se de nds como de nossos pais, Partamos, pronto estou, HERMIONE Senhor, nao estou pronta; Fiquemos: eu no levo ao longe tal afronta, Qué! iria eu coroar-thes a insoléncia odienta E alhures esperar uma vinganga lenta? Deixaria & mereé da guerra um desenlace Cujo imprevisto enfim talvez nao me vingasse? Nao! Parto, mas que chore o Epiro inteiro agora. Se me vingais, vingai-me dentro de uma hora. Todo atraso € recusa: anda! ao templo correi. E preciso imolar. ORESTES Senhora, quem? HERMIONE, Orel, Pirro. ORESTES Pirro, ah, princesa! HERMIONE Entio, jé vacilais? Que eu torne a vos chamar, devieis temer mais. Se algum direito houver, no vou eu recordé-lo, E nao vos cabe a vés ainda justificé-lo ORESTES Desculpé-lo, eu? Senhora, em tudo vos secundo; Seus crimes em minha alma esto gravados fundo, Vinguemo-nos: contudo, unamos os destinos Seus inimigos sendo, ¢ nao seus assassinos. Fagamos que em justo embate ele perega. Podeis querer que eu leve A Grécia essa cabega? E terei eu do Estado assumido 0 mandato Para dele eximir-me pelo assassinato? Permiti, por mercé, que a Grécia a ele acorra, E que sab a pressdo do édio piblico morra. Lembrai-vos de seu cetro, e que de um rei coroado... HERMIONE E niio vos basta, a vés, eu té-lo condenado? Nao basta que a minha honra ultrajada hoje exija Vitima que a mim s6, sé a mim se dirija? Hermione o prémio ser da morte de um traidor? Que Ihe tenho édio; enfim, que jé lhe tive amor? Nio o nego: soubera o ingrato influir-me agrado; Fosse por meu amor ou meu pai ordenado, Tanto faz; mas deveis € levar isto em conta: Nao obstante a trai¢ao de que me imps a afronta, Do horror que de seu crime em minha alma derivo, Temei que ev Ihe perdoe, enquanto ele for vivo. Duvidai até o fim de uma ira incerta e va Se ele hoje nio morrer, posso amé-lo amanha. ORESTES Devo imolé-Io, pois; prevenir que o agracieis; Devo... mas, para agir, que € que de mim quereis? Como vos contentar, senhora, a ira tao ja? Que caminho meu golpe a ele conduzira? Mal no Epiro pus pé, dais-me por ministério Ousar por minhas maos derrubar um império; Ordenais que um rei morra, e achais tempo bastante Para tal golpe um dia, uma hora, um mero instante; Devo sacrificd-lo ante o seu povo inteiro, ‘Mas deixai que ao altar 0 acompanhe primeiro; Jé no resisto; mas, mister é que o lugar Reconheca, onde apés, vé-lo possa imolar. Esta noite eu vos sirvo, esta noite ainda, enquanto... HERMIONE Neste dia ele esposa Andromaca, entretanto: No templo se acha jé armado 0 nupeial trono, Firmando-me a desonra, ¢ a seu crime em abono Que esperais? se ele, até, se entrega a vossa empresa: Marcha a essa festa s6, sem guarda, sem defesa, Toda ela destacou junto ao filho de Heitor, E se abandona inerme ao ago vingador. Quereis, v6s, protegé-lo a forga do petigo? Vossos gregos armai, e os que vieram comigo. Convosco esto: subleve a todos vossa voz: Pirro nos burla, wai, despreza a todos nés. Sim! deles todos, j4, 0 6dio com 0 meu se irmana: A contragosto poupa o esposo da troiana. Nao vos pode esse meu inimigo escapar, Falai: trata-se s6 de deixé-los golpear: Conduzi, ou segui o seu assanho certo: ‘Mas, com o sangue do ingrato, a mim voltai coberto; Ide: em estado tal tudo esperai de mim. ORESTES Mas, semhora, é pensar... HERMIONE An! senhor, basta enfim Meu brio ofendem jé tanta objegdo, receio. De agradar-me, julguei a Orestes dar 0 meio, Quis contenté-lo; mas, sem mais, é de se ver Que quer queixar-se sempre ¢ nada merecer. Levai a outras regides essa fieldade mansa, E deixai que arme eu mesma aqui minha vinganca. De vos favorecer eu tive a covardia, Mas € aturar demais recusas num s6 dia. Corro ao templo onde esté, de Pirro, a unio & Onde no ousais ir merecer-me a conquista La sei como achegar-me a ele e traspassar ingrato coragéo que ao meu se quis negar, Eo meu varando apés, minha sangrenta mio Consumaré, enfim, de nosso fado a unio. Seja Pirro o que for, prefiro a perspectiva De com ele morrer, a que convosco viva. ORESTES Nao, eu vos privarei desse prazer funesto; Morrerd pela mao de Orestes, v6-l0 atesto. Ser-vos~ por mim s6 vosso inimigo imolado; Reconhecei-o apés, se for do vosso agrado. HERMIONE Ide, pois; tudo mais deixai por minha conta, E para a fuga esteja a vossa armada pronta, CENA IV (Hermione, Cleone) LEONE ‘Minha senhora, estais a vos perder: que alarme... HERMIONE Esteja a me perder ou nao, penso em vingar-me. Eu nem sei se malgrado o que promete assim, Devo entregar de Pirro o fado a outrem que a mim. ‘A seus olhos no é culpado como aos meus: E meus golpes terei por certos mais que os seus. ‘Ab, que prazer vingar eu mesma a minha injéria, Ver com o sangue do infiel a minha mao purpirea, E, aumentando-lhe mais a angéstia, triunfante, Velar minha rival a seu olho expirante! Pudesse ao menos dar-Ihe, com a expiacdo legitima, Orestes a saber que morre minha vitima! Vai: que sem falta dé a entender ao malvado Que ele a meu édio, ¢ nao a Grécia, é imolada. Corre: minha vinganga eu terei por perdida, Se ignorar ao morrer ser eu quem o trucida. CLEONE Vossas ordens, senhora, em tudo seguirei. Mas que estou vendo? ah, céus! quem 0 crera? € 0 rei! HERMIONE Ah, vai correndo! alcanga Orestes, vai, Cleone! Nada deve empreender sem que reveja Hermione. CENA V (Pirro, Hermione, Fénix) PIRRO Vejo que ao vir a vés, princesa, sem licenga, Turbou vosso coléquio aqui minha presenga. Sobre a minha injustiga eu no venho, entretanto, De um indigno artificio apor 0 falso manto. Basta que me condene intimamente o seio, E muito mal diria aquilo que nao creio. Sim, senhora, eu desposo a troiana, e confesso Que a v6s j prometera a f6 que Ihe professo. Diria outro, talvez, que os nossos pais, sem nés, Nas planicies de Trdia ataram esses nés, E que, sem consultar meu coragéo ou 0 vosso, Forjaram, sem amor, comum destino nosso, Mas, a mim me bastou eu ter-me submetido, E por enviados meus, eu vos fui prometido; Longe de os revocar, a tudo subscrevi; Com eles eu vos vi chegar, senhora, aqui; E ainda que de outro olhar 0 vitorioso brilho J4 ao poder do vosso opusesse empecilho, Fiz por me recusar 4 nova chama minha, E em vos ser fiel teimei; assim, como rainha, Vos recebi no Epiro, € ori até este dia Que a fé jurada a vez do amor em mim faria, Mas esse amor venceu, ¢ em sua fatal teia ‘Andrémaca me arranca um coragao que odeia: ‘Um pelo outro arrastado, aos altares corremos De eterna fé e unio trocar votos supremos De perjuro e traidor aplicai, pois, 0 selo, ‘A quem s6 0 € com magoa e ainda assim, quer sé-lo. Longe de reprimir de to justa ira a voz, Seus transportes me vio aliviar mais que v6s. Vossas exprobragées levai, pois, ao extremo: Vosso siléncio, € nao injurias, é o que temo; E mil vozes sutis, soando em meu coragao, Quanto menos direis, a mim mais me dirt. HERMIONE Vejo em tal confissao, no artificio remissa, Que ao menos Pirro faz-se, a si mesmo, justiga E que, quando ele um né tio solene suprime, Se entrega em plena luz qual criminoso ao crime. Serd justo, afinal, que a um vencedor se peca Curvar-se a lei comum de honrar sua promessa? ‘Nao, vossa alma afinal sua perfidia revela, E aqui vindes tao-s6 para jactar-vos dela. Qué! numa ago que fé, dever e lei profana, Requestar uma grega o amante da troiana, Deixar-me, retomar-me, e da filha de Helena Ainda a vitiva de Heitor tornar com calma plena; Coroar uma hora a escrava, outra, a princesa e, ufano, Imolar Tréia & Grécia e os gregos a0 troiano, Isto € de um coragio sempre senhor de De um herdi que a f€ nega e das juras se ri Em preito a vossa esposa exigis que eu vos chame Amitide de traidor, de perjuro e de infame. Vinheis de minha fronte observar o palor, Para em seus bragos rir depois de minha dor. ‘A seu carro quereis ver-me atrelada em prantos; Mas seriam demais num dia gozos tantos. A buscar gl6ria nova, aliés, que vos induz? ‘Nao vos bastam as mais a que jé fazeis jus? Do pai de Heitor golpeado o valor venerando; ‘Sua familia toda a seus pés expirando, Enquanto inda em seu seio 0 vosso aco funesto De um sangue, que gelara a idade, busca o resto; Tréia, em maré de fogo e sangue mergulhada; Polixena por vés de morte traspassada, Vossas tropas, até, a0 ver-vos, de horror presas: Que podemos negar a tao gloriosas proezas! PIRRO Senhora, eu no ignoro 0 excesso de furor A que a causa de Helena arrastou meu valor: Posso queixar-me € a vés do sangue derramado; Mas, enfim, consinto eu em riscar 0 passado. Rendo gracas aos céus que a vossa indiferenga De meu feliz ardor lave a culpa pretensa. Meu coragio, demais propenso a se acusar, Devia conhecer-vos e se examinar, Meu remorso vos foi mortal injtria, até: S6 pode crer-se infiel, quem amado se cré. ‘Nao viséveis reter-me em vossos nds, e em vez De estar a vos trair, cu vos sirva, talvez; : E com dois coragdes, um a outro inadaptaveis, Seguia cu meu dever, vés, 0 vosso acativeis, Nada vos induzia a amar-me, com efeito. HERMIONE Eu no te amei, cruel! e que mais tenho feito? Reis, principes da Grécia eu rejeitei por ti; Aos teus Estados mais longinquos te segui: E onde estou, a aturar ainda a tua inconstincia E aenvergonhar os meus com a minha tolerancia. A minha injaria impus siléncio, e a sua revolta, Cria em segredo ver de um perjuro ainda a volta, Que virias um dia, ao teu dever rendido, Volver-me 0 coragiio que ao meu era devido. Se inconstante te amei, que niio faria eu, fiel? E neste instante, até, que o teu Ifbio cruel Com tal trangiiilidade a morte me proclama, Ainda meu coragdo duvida se néo te ama. ‘Mas, senhor, seja assim; j4 que dos deuses a ira ‘A gloria de agradar-vos a outro olhar inspira, Concluf vosso himeneu, porém, que no me imponha De Ihe ser testemunha, ainda, Pirro a vergonha. Ea derradeira vez, presumo, que vos falo: Sereis livre amanha, podeis de um dia adié-lo. Nao respondeis? Traidor, nem ouves 0 que digo! Contas cada momento aqui gasto comigo. Teu coragio, no aff de rever tua amante, Foge a que te entretenha uma outra um mero instante. Chama-a a tua alma infiel, procura-a o teu olhar. No te retenho mais, foge deste lugar; Vai lhe jurar a f€ que me havias juradi Vai profanar dos céus 0 mistério sagrado: Os deuses que na voz da justiga se inspiram Recordar-se-4o que a mim iguais juras te uniram. Leva o teu coragao: que ante 0 altar me abandon¢ Vai, corre; mas teme ainda encontrar la Hermione. CENA VI (Pirro, Fenix) FENIX Ouvistes rei: convém que tudo af se guarde De uma amante em furor, que, por vingar-se, arde. Demais gente aqui hé que a sustenta; a querela Dos gregos é ligada intimamente & dela, Talvez que a Orestes, que a ama, em prémio a seu auxiflio... PIRRO Andrémaca me espera. E tu, guarda o seu filho. ou Quinto ato CENA I HERMIONE Onde € que estou? que fiz? que mais farei agora? Que delirio arde em mim, que migoa me devora? Corro neste palécio, 0 intuito a tudo alheio, Errante, sem saber se eu amo ou se eu odeio. Como 0 cruel me ouviu! com que impassivel rosto! Sem ao menos fingir algum dé ou desgosto! Vi-o, ai de mim! um s6 momento comovido? Pude dele tirar um tinieo gemido? Alheio 8 minha dor, a fronte e a voz serenas, Cénscio nem parecia estar de minhas penas. E ainda me compadeco, e por auge de enfado Meu coragio covarde ainda liga a seu fado! Tremo s6 a0 pensar no destino que o ameaga; Destruindo-o, inda é afa meu que mereé se Ihe faga! Nao, que a seu justo fim minha ira ndo se esquive: Morra! alids, para nés o ingrato ja nao vive. Pérfido! a triunfar, do meu furor se ri Desfeito em choro, j4, cré ver meu frenesi; Cré que sempre com fraco e incerta corago, Meu braco aparard os golpes da outra mio. ‘Vale ainda a seu olhar minha bondade antiga. Mas que digo: 0 malvado a nada disso liga! No templo a triunfar esté, sem que lhe importe Que alhures se deseje a sua vida ou morte. Ele me deixa a mim tio funesto embaraco. ‘Nao, niio, mais uma vez, de Orestes vingue 0 brago. Perega, jd que enfim devia ele prevé-lo, E jd que me obrigou finalmente a queré-lo. Eu, 2 quer8-lo? Como! ordenei eu tal feito? Sua morte ser do amor de Hermione efeito? O principe de quem minha alma se fazia As proezas redizer com tamanha alegria, A quem, no fntimo, jé, me destinara eu Antes que se concluisse este triste himeneu; Terei por terra e mar transposto tanto espaco, Para vir de tio longe armar o seu trespasso? Perdé-lo, assassind-lo? Ah! antes que pereca. CENA II (Hermione, Cleone) HERMIONE Que fiz? Cleone, ah, vens narrar-mo? Dize-o, a pressa, Que ha? Pirro... CLEONE No auge esté do encanto; dos mortais Ele 0 mais orgulhoso e 0 apaixonado mais. Vi-o conduzindo ao templo, ao povo todo a vista, Como conquistador sua nova conquist Eos olhos a brilhar de esperanca e alegria, Marchando, do prazer de vé-la se embebia, Em meio a aclamagGes que a turba ao ar eleva, Andr6maca, até o altar, de Tréia a visio leva; De amor, de ddio, incapaz, sem queixa ou regozijo, 86 a cega obediéncia entrega 0 passo rijo. HERMIONE Levou 0 ultraje, pois, até o tiltimo instante! Mas dize, nao pudeste observar seu semblante? De fruir prazer perfeito e tranqililo € capaz? Nem uma vez desviou os olhos para tras? Dize-me, nao te tens, Cleone, ante ele posto? N§o se ruborizou, quando te viu, seu rosto? Seu susto confessou sua negra inconstancia? Sustentou até o fim a pérfida arrogncia? CLEONE Senhora, nada vé: seguranca, honra, gl6ria, Convosco hoje lhe tém safdo da memsria Stidito ou inimigo, ignora quem o segue, E do amoroso afa t0-s6 0 alvo persegue. Junto ao filho de Heitor destacou sua guarda, E julga que € a ele, s6, que algum perigo aguarda. Fénix vela-o, e 0 Jevou, sem perda de um instante, A.um forte, do paidcio e templo o mais distante. E s6 do que ainda cuida em seu ardor feliz. HERMIONE Pérfido!_morrerd! E Orestes, que € que diz? CLEONE Com seus gregos, no templo, Orestes entrou jé, HERMIONE E eno? por me vingar, preparado ele esta? CLEONE Ignoro-o. HERMIONE O ignoras? Como? £ Orestes quem agora Est4 a me trair? CLEONE Orestes vos adora, Mas com remorsos mil a acirrar-Ihe a inquietude, Cré ora em seu amor, ora em sua virtude, Do diadema régio em Pirro a aura venera; Venera Aquiles nele, e 0 Pirro de outra era; Teme o universo, teme os gregos, e também Diz que temor maior ainda a si mesmo tem. Prouvera-Ihe imolar-vos Pirro em ardua guerra! Mas, de assassino, j4 0 nome o espanta e aterra, Entrou, pois, sem saber em seu peito abalado Se espectador de la sairia ou culpado. HERMIONE Nio, nao, ele os verd triunfar sem obstéculo; Guardar-se-A de turbar em nada esse espetdculo. Vejo de que remorso est fazendo alarde. S6 a morte € 0 que esté a temer 0 covarde, Qué! sem que minha mae a um rogo recorresse, A Grécia inteira pés de pé seu interesse; Péde em dez. anos ver de combates renhidos, Perecer vinte reis dela desconhecidos; E eu, pela morte s6 de um perjuro porfio, E 0 encargo de vingar-me a um amante confio; Pode me conquistar, destarte, sem perigo; Dou-me eu mesma, e ainda assim, vingar-me no consigo! ‘Nao! justiga far-me-ei eu mesma, a mais abrupta. Que de gritos de dor o templo repercuta! Desse himeneu fatal perturhemos 0 evento, E dure a sua unizo apenas um momento. Ja nao escolherei num desvario destes: Verei em tudo Pirro, e até no préprio Orestes. Morrendo, a minha morte ainda me vingaré; Nao morrerei sozinha e alguém me seguird. CENA IT (Orestes, Hermione, Cleone) ORESTES Vossa ordem se cumpriu, senhora, ¢ estais servida: Pirro exala ao altar sua inconstante vida, HERMIONE, Morreu! ORESTES Expira, sim: e dos gregos a fuiria Em seu sangue lavou seu crime e vossa injtiria Prometera-o; e apesar de encarar com protesto Meu brio essa conjura e 0 seu quadro funesto, Para 0 templo corri, onde em grupos diversos Nossos gregos do altar se acercaram, dispersos. Pirro me conheceu, mas sem mudar de face: Era como se o ver-me a audécia Ihe aumentasse: Como se, desafiada em seu embaixador, A Grécia do himeneu Ihe algasse ainda o esplendor. Com transporte, por fim, erguendo-a ele em pessoa, Sobre a fronte assentou a Andrémaca a coroa: “Meu cetro e minha £6”, disse ele, “eu vos confiro, Andrémaca; reinai sobre mim, sobre o Epiro. Como a um pai me seré o vosso filho caro E A sua mie o juro, ante os céus 0 declaro: imigos meus todos os seus tere E dos troianos Pirro hoje 0 proclama rei A essa fala que o povo aos vivas sufragava, Dos nossos se elevou clamor de fuiria brava; Num ai, de seu assanho, a onda 0 infiel envolveu, E lugar nfo achei jé para um golpe meu. Cada qual de abat8-lo a honra chamava a si; Um tempo a debater-se em suas maos 0 vi, Aos golpes esquivar-se, mas, todo sangrento, Junto 20 altar tombou com moribundo alento. Rompi do povo a massa imével, do horror presa, Para ao porto daqui levar minha princesa, E com ela esperar os amigos que ali Virdo rubros do sangue, ainda, que prometi. HERMIONE Que fizeram! ORESTES Perdoai a impaciente investida: Vossa vinganca, admito-o, assim julgais trafda; Quisestes que eu primeiro os golpes assestasse, Que sentisse ao morrer dever-vos seu trespasse. ‘Mas fui eu cujo ardor a eles serviu de exemplo: Fui eu que os arrastei por vossa causa ao templo, Senhora, e vos podeis gabar neste momento De um fim a que tio s6 servicam de instrumento, O golpe s6 de vés... HERMIONE Cala-te, infortunado, E ati s6 atribui teu monstruoso atentado. Vai, e faze admirar aos gregos teu furor; Renego-o eu, e revolta é 0 que me influis e horror, Barbaro, que fizeste! e com que feroz lida Ousaste interromper uma tio bela vida? Péde-o imolar, cruéis, o vosso golpe atroz, ‘Sem que se sublevasse o coragio em vés? Mas fala: quem te fez Arbitro de tal gesto? Por que maté-lo? Enfim, que fez? Qual o pretexto? Quem te o disse? ORESTES Altos céus! hé pouco, & minha face, Nao me ordenastes v6s, vés mesma, o seu trespasse? HERMIONE E devias crer, tu, na insdnia de uma amante? Nao me podias ler no peito mais avante? E nio viste que em meio & minha firia louca Meu coragao vivia a desmentir-me a boca? E quando 0 quisesse eu, devias tu aceité-lo? Nao devias me ouvir cem vezes reafirmé-10? Tu mesmo, antes do golpe, ainda vir consultar-me, E mais tomar a mim, ou antes, evitar-me? Quem te fez assumir minha vinganca aqui? Que te traz a um lugar onde fogem de ti? Cruel, de teu amor € 0 detestavel fruto: ‘Trazes-ne a maldicZio que te segue em tributo. Fé-lo a tua embaixada, a ambos nés fatal, Para mal seu, pender para a minha rival. Voraria, a ambas nds, ainda os tratos amenos; ‘Amar-me-ia, talvez; ou fingi-lo-ia, a menos. Adeus. Vai, podes ir. Nao esperes que eu parta: A Grécia renuncio, a seu império, a Esparta, A toda a minha estirpe, ¢ a mim, traidor, me basta Que 0 monstro que és gerasse, e a sua alma nefasta. CENA IV ORESTES Que vejo? é Hermione? Céus! que foi que ouvi aqui? Por quem é que ainda corre o sangue que verti? Um monstro sou, se a creio, um assassino horrendo. ‘Sou ew Orestes? Pirro € quem est morrendo? Céus! da razao sufoco o ditado em meu peito, Com mégoa imolo um rei que venero € respeito, Violo num sé dia 0 jus dos soberanos, Embaixadores, mais, de todos os humanos, Dos céus a cujo altar meu assanho o trucida, Sacrilego tornei-me, traidor, parricida: E uma fiiria é por quem esposo crimes tais, Que, inda que ele no morra, a mim nao vera mais, E que depois de ver sua sanha servida, Toma a exigir de mim seu sangue e sua vidal Ela o ama! e eu sou um monstro, uma alia vil, nefastal E vejo-a que de mim para sempre se afasta! E fugindo me deixa a ingrata em paga aqui Estes nomes fatais que por ela assumi. CENA V (Orestes, Pflades, Soldados de Orestes) PILADES Partirmos, meu senhor, cumpre que decidais, Ou entio resolver nao sairmos jamais, Nossos gregos esto defendendo ainda a entrada: Persegue-nos 0 povo inteiro a mao armada. Tudo aqui sob as leis de Andrémaca se alinha, Por inimigos tém-nos, e a ela, por rainha. Andrémaca, ontem ainda a Pirro tdo rebel, Rende-lhe obrigagdes, hoje, de vitiva fiel; Que o vinguem, é 0 que ordena, e talvez seja a vor Da vinganga de Heitor ainda a clamar por nés. ‘Antes que 0 povo aqui nos cerque, é irmos, portanto; Virdo os nossos, logo, a ter conosco, enquanto Hermione ao seu redor prende ainda a multidao, Saiamos sem perigo: eis nossa direcio. ORESTES Nao, a seguir Hermione, amigo eu nfo me esquivo: A sua decisao final nao sobrevivo. Parti: do crime a culpa é minha e devo expié-la. PILADES Hermione? Ora, senhor, cumpre-vos olvidé-la. Como! de seu furor sempre objeto e instrumento, No val dos mortos, ainda, ireis buscar tormento? E deveis vos morrer porque ela est morrendo? ORESTES Morre? Céus! que ougo? PILADES ‘Como? agora 0 estais sabendo? Ao regressarmos ca, vimo-la no caminho; Corrie para o templo, inquieta, em desalinho. ‘Viu Pirro a sua guarda a carregé-lo, exangue, Que excitava a vinganga a vista de seu sangue. Decerto Ihe inflamou o delitio a visio; E, do alto dos degraus, com um punhal na mao Vimo-la sobre Pirro enfim se debrugar, Erguer a vista ao céu, traspassar-se e tombar. ORESTES 6 céu, tu que em golpear-me, 0 auspicio me ultrapassas! A esta tua constincia Orestes rende gracas! Empenhado sem trégua em me infelicitar, Fizeste-me atingir 0 auge, enfim, do pesar; Tomou prazer teu ddio em me votar & dor; Nasci para servir de exemplo a teu rigor, Para ser do infortiinio um modelo perfeito. Pois bem, cumpriste o intuito e morro satisfeito. Onde esto? desses dois mais me alegre o himeneu: E mister que me afogue em seu sangue, no meu; Que contemple ao morrer aquele par de amantes, E una trés coragies em vida discordantes. Mas stibito me envolve, ah, que negror espesso! Por que lado sait? Com que pasmo estremego? Que faz com que ante mim visGes de horror se borrem? Céus! que rios de sangue ao meu redor escorrem! PILADES Ah, principe! ORESTES Qué, Pirro, ainda tomo a encontrar-te! Verei esse rival que odeio em toda parte? De cem golpes crivado, ainda assim te tens salvo? ‘Toma mais este af: guardei-o para esse alvo. Mas que estou vendo! Hermione minha vista o abraga! Ela vem arrancé-lo & investida que 0 ameaga Céus!_langa sobre mim, ah, que olhares medonhos! Que arrasta atrds de si? que répteis, que deménios? Vés, filhas do Orco, ento, vossas mos nao vacilam? Que serpentes, pelo ar, por sobre vés sibilam? O horror que vos escolta, a quem o destinais? Vindes arrebatar-me as trevas eternais? Cumpre que & vossa firia Orestes se abandone, Pronto estou. Nao! parti, deixai agir Hermione: Melhor que vés me vai a ingrata espedacar, E o coragao Ihe levo enfim a devorar. PILADES Perde os sentidos. Urge, amigos, afasté-lo. Salvemo-lo: nos deixa instantes este abalo. Seriam vaos quaisquer esforgos empreendidos Se recobrasse aqui a ftiria com os sentidos, a