OS MUNICÍPIOS

DOS

NO

PORTUGAL MODERNO

FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS

Colecção: BIBLIOTECA – ESTUDOS & COLÓQUIOS (Direcção: CIDEHUS.UE)
1. Diplomacia & Guerra: Política Externa e Política de Defesa em Portugal. Do final da Monarquia ao Marcelismo – Actas do I Ciclo de Conferências FERNANDO MARTINS (ed.) 2. Elites e Redes Clientelares na Idade Média: Problemas Metodológicos FILIPE THEMUDO BARATA (ed.) 3. Indústria e Conflito no Meio Rural: Os Mineiros Alentejanos (1858-1938) PAULO GUIMARÃES 4. Causas de Morte no Século XX: A transição da mortalidade e estruturas de causa de morte em Portugal Continental MARIA DA GRAÇA DAVID DE MORAIS 5. Concepções de História e de Ensino de História – Um Estudo no Alentejo OLGA MAGALHÃES 6. Elites e Poder. A Crise do Sistema Liberal em Portugal e Espanha (1918-1931) = = Elites y Poder. La Crisis del Sistema Liberal en Portugal y España (1918-1931) MANUEL BAIÔA (ed.) 7. D. Pedro de Meneses e a construção da Casa de Vila Real (1415-1437) NUNO SILVA CAMPOS 8. História e Relações Internacionais. Temas e debates LUÍS NUNO RODRIGUES e FERNANDO MARTINS (ED.) 9. Igreja, Caridade e Assistência na Península Ibérica (Sécs. XVI-XVIII) LAURINDA ABREU (ed.) 10. Os Municípios no Portugal Moderno: dos forais manuelinos à reformas liberais MAFALDA SOARES DA CUNHA e TERESA FONSECA (ed.)

Colecção: FONTES & INVENTÁRIOS (Direcção: CIDEHUS.UE) I. Série GAZETAS (Direcção: CHC-UNL e CIDEHUS.UE)
1. Gazetas Manuscritas da Biblioteca Pública de Évora. Vol. I (1729-1731) JOÃO LUÍS LISBOA; TIAGO C. P. DOS REIS MIRANDA; FERNANDA OLIVAL 2. Gazetas Manuscritas da Biblioteca Pública de Évora. Vol. II (1732-1734) JOÃO LUÍS LISBOA; TIAGO C. P. DOS REIS MIRANDA; FERNANDA OLIVAL

II. Série GERAL (Direcção: CIDEHUS.UE)
1. António Henriques da Silveira e as «Memórias analíticas da vila de Estremoz» TERESA FONSECA

Mafalda Soares da Cunha Teresa Fonseca (Ed.)

OS MUNICÍPIOS
DOS

NO

PORTUGAL MODERNO

FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS

Edições Colibri
CIDEHUS / UE – Centro Interdisciplinar de História, Culturas e Sociedades da Universidade de Évora

BIBLIOTECA NACIONAL – CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO Os municípios no Portugal Moderno : dos forais manuelinos às reformas liberais. - ed. Mafalda Soares da Cunha, Teresa Fonseca. - (Biblioteca - estudos & colóquios ; 10) ISBN 972-772-526-0 I - Cunha, Mafalda Soares da, 1960II - Fonseca, Teresa, 1950CDU 352 94(469)"15/17"(042.3)

TÍTULO ED. EDITOR EDIÇÃO PAGINAÇÃO CAPA DEP. LEGAL

Os Municípios no Portugal Moderno: Dos forais manuelinos às reformas liberais Mafalda Soares da Cunha e Teresa Fonseca Fernando Mão de Ferro Edições Colibri e CIDEHUS-UE Albertino Calamote
TVM Designers 220 656/05

Lisboa

Maio 2005

Índice
Introdução .................................................................................... Francisco Ribeiro da Silva (FL-UP) Historiografia dos municípios portugueses (séculos XVI e XVII) .......... José Viriato Capela (Univ. Minho) Administração local e municipal portuguesa do século XVIII às reformas liberais (Alguns tópicos da sua historiografia e nova História) .... Nuno Gonçalo Monteiro (ICS-UL) Sociologia das elites locais (séculos XVII-XVIII). Uma breve reflexão historiográfica ................................................................................ Teresa Fonseca (CIDEHUS.UE) O funcionalismo camarário no Antigo Regime. Sociologia e práticas administrativas .............................................................................. Mafalda Soares da Cunha (CIDEHUS.UE) Relações de poder, patrocínio e conflitualidade. Senhorios e municípios (século XVI-1640) ................................................................... Fernanda Olival (CIDEHUS.UE) As Ordens Militares e o poder local: problemas e perspectivas de estudo ............................................................................................ Laurinda Abreu (CIDEHUS.UE) Câmaras e Misericórdias. Relações políticas e institucionais ............... Rute Pardal (CIDEHUS.UE) As relações entre as Câmaras e as Misericórdias: exemplos de comunicação política e institucional ........................................................ Margarida Sobral Neto (FL-UC) Senhorios e concelhos na época moderna: relações entre dois poderes concorrentes ................................................................................... Pedro Cardim (FCSH-UNL) Entre o centro e as periferias. A assembleia de Cortes e a dinâmica política da época moderna ..............................................................
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................. XVII-XVIII) .........................................................................6 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS José Manuel Subtil (Inst. Rui Santos (FCSH-UNL) Balanço final: Questões para uma sociologia histórica das instituições municipais ............................. Politécnico Viana do Castelo/UAL) As relações entre o centro e a periferia no discurso do Desembargo do Paço (Sécs...................... 243 263 ........

que nesse ano comemorou em simultâneo os 800 anos da concessão do foral de D. nomeadamente as do Sul do país. contribuindo assim para aprofundar o conhecimento das especificidades regionais. a colaboração com a autarquia montemorense representou uma possibilidade de realização de um evento de particular interesse científico fora do âmbito académico. Sancho I e os 500 anos da atribuição do foral de D. Dos Forais Manuelinos às Reformas Liberais ocorrido na cidade de Montemor-o-Novo a 6 e 7 de Novembro de 2003. E o confronto de perspectivas de análise e dos diferentes casos estudados.Introdução O colóquio Os municípios no Portugal Moderno. O evento afirmou-se ainda como uma excelente oportunidade de reflexão sobre o municipalismo português. E para o CIDEHUS. Manuel I. . A sua realização revestiu-se de particular significado para Montemor-o-Novo. Permitiu efectuar o ponto da situação da historiografia relativa ao tema. possibilitou a caracterização da sociologia e das práticas político-administrativas em diferentes contextos espaciais. Culturas e Sociedades (CIDEHUS) da Universidade de Évora. através de abordagens respeitantes às suas diversas vertentes. constituiu uma iniciativa conjunta da Câmara Municipal de Montemor-o-Novo e do Centro Interdisciplinar de História. abarcando deste modo um auditório mais vasto e diversificado.

deveria ter-me levado às Faculdades e Institutos de investigação para fazer o levantamento das teses de mestrado e outros trabalhos que têm sido escritos. 2005. 9-37. no segundo. ensaiarei uma resenha das fontes publicadas. Entendi dividir o tratamento dos trabalhos conhecidos em três grandes pacotes: no primeiro. em listas bibliográficas contidas nas obras da especialidade e na web. I – Fontes Publicadas Num primeiro desenvolvimento pareceu-me oportuno fazer uma digressão pelo panorama das fontes impressas. . no terceiro tentarei um ponto da situação dos estudos sobre concelhos e administração municipal. considerarei os trabalhos sobre forais manuelinos. para além da pesquisa em catálogos de bibliotecas. Para tal não dispus de tempo e. Os Municípios no Portugal Moderno: dos forais manuelinos às reformas liberais Lisboa. pp.Historiografia dos Municípios Portugueses (séculos XVI e XVII) FRANCISCO RIBEIRO DA SILVA (Universidade do Porto – Faculdade de Letras) Introdução O desafio que me foi proposto pela Prof. provavelmente vão ficar fora das minhas considerações estudos e trabalhos dos quais não tive notícia.ª Teresa Fonseca – o de fazer o ponto da situação da bibliografia portuguesa sobre concelhos e administração municipal referente aos séculos XVI e XVII – é muito mais difícil do que o que parece. a matéria que me foi dada para estudo pode ser tratada e encarada sob diversas perspectivas e ângulos de observação. Para ser executado cabalmente. foram defendidos em provas públicas e permanecem inéditos. Edições Colibri – CIDEHUS-UE. Posta em causa a inventariação total por ser praticamente impossível. por isso.

Não será temerário da minha parte tentar um inventário? É com toda a certeza... Imprensa da Universidade. Quem sabe se de imediato as sugestões dos presentes não a irão completar? Numa primeira análise de fundo geográfico. uma vila ou um concelho. 1819. outra as correições ou sentenças relativas a um certo Concelho. códigos e leis. Leis Extravagantes collegidas e relatadas pelo licenciado . Collecção Chronologica de leis extravagantes. aparecida em Lisboa em 1955 por iniciativa do professor Marcelo Caetano sob os auspícios da Fundação da Casa de Bragança. . embora mais dia menos dia se torne indispensável aprender e calcorrear assiduamente os caminhos dos Arquivos. Collecção Chronologica da Legislação Portugueza. per mandado do muito alto e muito poderoso Rei Dom Sebastião Nosso Senhor. Lisboa. São sobretudo as normas. 1570. é possível recorrer a bons materiais que outros investigadores foram pondo à disposição dos vindouros em letra de imprensa. outra ainda os capítulos particulares e gerais levados a Cortes.. compiladas por. os alvarás válidos para todo o espaço nacional. de que destacámos: Para o século XVI – Duarte Nunes de Leão. – França. – Leys e provisões que el-rei Dom Sebastião nosso Senhor fez depois que começou a governar. farei referência às fontes que alcançam todo o Reino. F. 1569 Para o século XVII – José Justino de Andrade e Silva.. Coimbra. Uma coisa são as leis ou normas gerais como as Ordenações do Reino. vilas e lugares destes reinos. 1854-56. Mas as dificuldades para uma inventariação útil e completa são muitas. a correspondência ou os forais. Mesmo assim arriscarei na esperança de que a minha lista seja o começo de uma recolha que irá engrossar com o contributo de outros até se tornar exaustiva. em edição facsimilada do texto impresso por Valentim Fernandes em 1504. Uma coisa são as Actas de uma determinada Câmara. os regimentos régios. Lisboa.10 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS É sempre importante para quem se inicia nos segredos de Clio saber que. Francisco Correa.. Lisboa. Para além das Ordenações Manuelinas e Filipinas. Antes de mais. antigos e novos. da C.. Foram-me úteis e por isso aqui deixo notícia do: – Regimento dos oficiais das cidades. é necessário distinguir os tipos de fontes e a sua diversa natureza.. outra as provisões e cartas régias que não abrangem senão uma cidade. lembraremos as colecções de legislação. É uma dívida de gratidão para com esses beneméritos que nunca é demais realçar.

1938-1952 Livro 2. Lisboa de Quinhentos. Coimbra. às vezes inesperadamente ultrapassam a dimensão local).. 1815. Elementos para a História do Município de Lisboa. de Virgílio Correia. 2 tomos.. Lisboa. Porto. Livraria Avelar Machado. Lisboa. 1962 – Góis. Imprensa da Universidade..s 1 a 4.. – Documentos do Arquivo Histórico da Câmara Municipal de Lisboa. Descrição de Lisboa. trad. 1882-1889. com um suplemento. Lisboa. Lisboa. cujos títulos são respectivamente os seguintes: Livro da Contenda entre a Cidade e o Conde de Penaguiam. ed. publicadas depois das Ordenações. Filipe II de Espanha Rei de Portugal (Colecção de documentos filipinos guardados em Arquivos Portugueses). Repertorio Geral. Fundação Rei Afonso Henriques. Para além das fontes impressas de abrangência geral. As terras que dispõem de fontes históricas impressas (para o nosso período) são imensas: Sobre Lisboa – Eduardo Freire de Oliveira. 1818.º das Chapas. Livros de Reis. 2 vols. Lisboa. 1947-1948. 1926. de Raul Machado. ou Indice Alphabetico das Leis extravagantes do Reino de Portugal. Damião de. s/d. há que referir as fontes dirigidas às localidades (que. Porto. – Livro dos Regimentos dos officiaes mecanicos da mui nobre e sempre leal cidade de Lixboa (1572). Poderíamos incluir aqui os muitos Regimentos que foram publicados em colectâneas ou isoladamente. – Manuel Borges Carneiro. Sobre o Porto – Corpus Codicum Latinorum et Portugalensium. 1914-1915 Livro 1. Zamora. VI. Mappa chronologico das leis e mais disposições de direito portuguez. Porto. publicadas desde 1603 ate 1817.HISTORIOGRAFIA DOS MUNICÍPIOS PORTUGUESES (SÉCULOS XVI e XVII) 11 – Manoel Fernandes Thomaz.s III a V.º das Chapas. 1878 . Porto. – E já agora (perdoe-se a publicidade) de Francisco Ribeiro da Silva. 1953-1961 Privilégios dos cidadãos da cidade do Porto. Câmara Municipal. – Livro do lançamento e serviço (1565). interessam-nos os vol. Coimbra. 1937. Dizem respeito à época aqui considerada os vol.

XVI. «Acordos e Vreações da Câmara de Braga no Episcopado de D. Viseu. O Porto na Restauração. Livro 2. mas sendo constituída por resumos de actas e de outros documentos municipais que. (Capítulos de Cortes) Sobre Coimbra – José Branquinho de Carvalho. 1984. embora elaborados com mérito pelo seu Autor.º da Correia (Cartas. Subsídios para a sua História. 1605-1692. Porto. Câmara Municipal. 1970-1990. Imprensa Nacional-Casa da Moeda. Viseu. Viseu. 1955. Fernando. Notícia e índice do livro de registos da Câmara de Aveiro 1581-1792 in «Arquivo do Distrito de Aveiro». . 1998 Sobre Braga – Frei António do Rosário. Viseu.s XX-XL Braga. Sobre Évora – Gabriel Pereira. Documentos Históricos da Cidade de Évora. Administração Seiscentista do Município Vimaranense. (Na verdade. 1953. Coimbra. – Alexandre de Lucena e Vale. vol. da Rocha. Aveiro. provisões e alvarás régios registados na Câmara de Coimbra 1275-1754). Imprensa Nacional Casa da Moeda. O Porto seiscentista. 1943. Um século de administração municipal. de Leonel Cardoso Martins. 1941. 1948 Sobre Aveiro – Madail. int. esta obra em rigor não é uma publicação de fontes. decidimos metê-la aqui. 1559/82» in Bracara Augusta. Sobre Guimarães – Alberto Vieira Braga. Diogo Pereira. Sobre Portalegre – Sotto Maior. XXIII. Subsídios para a sua História. Tratado da cidade de Portalegre. permanecem muito próximos dos originais. Lisboa. Porto. 1967. Frei Bartolomeu dos Mártires. – Cruz.12 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS – Guimarães.G. Sobre Viseu (Do mesmo modo e por maioria de razão entendemos colocar neste elenco os trabalhos que seguem) – Alexandre de Lucena e Vale. 1956 – Alexandre de Lucena e Vale. Câmara Municipal. sem prejuízo de abaixo poder ser retomada). 1955. vol. Guimarães. António Augusto Ferreira da. Lisboa. Índice do livro dos acordos do séc. A. O livro dos Acordos de 1534.

ao Reyno de Portugal. por exemplo. 2000.s XV-XVIII. – Duarte. Funchal. vol. Francisco Manuel. Haverá por certo outros volumes contendo fontes. Biblioteca Pública Municipal. João Alberto. Doutor João de. Câmara Municipal. ed. Francisco Ferreira. convém não perder de vista certos textos de narrativa histórica que. A descrição de Alexandre Massaii (1621). Viagem da Catholica Real Magestade del-Rey D. Boletim do Arquivo Histórico Militar. Para além destas. pela sua antiguidade. Loulé. Subsídio para o estudo da vida municipal e nacional portuguesa. Abade de Baçal. 1988. revista. Luís Miguel e Machado. 1919. Sobre Esposende – Manuel Albino Penteado Neiva. CEHA. S. Lívio da Costa. etc. Lisboa. 1972-1974. Posturas municipais de Esposende – séculos XVII a XIX. Esposende. Vereações da Câmara Municipal do Funchal – segunda metade do século XVI. Mas desses nunca será possível uma memória exaustiva. é bom não esquecer que muitos historiadores e estudiosos conservam o bom hábito de publicar documentos em anexo aos seus trabalhos. Porto. Geografia d’antre Douro e Minho e Trás-os-Montes. Ou os escritos de Manuel Severim de Faria. 2002 – Luís Francisco Cardoso de Sousa Mello publicou um Tombo do Registo Geral da Câmara Municipal do Funchal na «Arquivo Histórico da Madeira». Filipe II. Porto. 1984 Sobre o Algarve em geral – Guedes. Afrontamento.n. 1998 – José Pereira da Costa. Aveiro. s. Por outro lado. Sobre Bragança e Trás-os-Montes – Alves. Actas das Vereações de Loulé. Aspectos do Reino do Algarve nos séculos XVI e XVII. N. Sobre Loulé. – Barros. acabaram por se converter em fontes. o Catálogo e História dos Bispos do Porto de D. Estão neste caso. Funchal. Livro dos Acordos da Câmara de Aveiro de 1580. 1987. CEHA. Vereações da Câmara Municipal do Funchal – primeira metade do século XVI. 1971. Rodrigo da Cunha. . Sobre as Ilhas – Funchal – José Pereira da Costa. Memórias Arqueológico-históricas do Distrito de Bragança.HISTORIOGRAFIA DOS MUNICÍPIOS PORTUGUESES (SÉCULOS XVI e XVII) 13 – Neves. o Anacrisis historial de Manuel Pereira de Novais ou as descrições de viagens como o livro de João Baptista Lavanha.

Longe disso. chegaram as reclamações e protestos dos . o historiador terá que ter bem apurado o seu sentido crítico para se dar conta de que uns autores merecem mais crédito do que outros. A questão é esta: fará algum sentido introduzir o tema dos forais numa comunicação sobre a historiografia do municipalismo português? Julgamos que sim. II – Forais É sabido que os concelhos se ufanam muito dos seus forais e quase se pode dizer que está na moda a sua publicação. precisamos estar de sobreaviso. Dito de outra forma: D. os donatários e senhores das terras por outro e o Rei-árbitro no cume do processo. através dos Procuradores dos Concelhos.14 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Como em tudo. Mas mesmo que apenas os concelhos em sentido estrito tivessem sido contemplados. Onde é que entravam os concelhos? No seguinte: é que os lavradores e foreiros. Manuel não aproveitou a reforma dos forais para reforçar os poderes concelhios. Vejamos: a questão da reforma dos forais punha-se no objectivo e no propósito de resolver bem uma relação triangular que se mostrava progressivamente mais difícil entre os lavradores e foreiros de um lado. os forais manuelinos pressupõem-nas. mas apenas a apoiar logisticamente as inquirições preparatórias e a servirem de guardiães e fiéis depositários do documento final. agrupavam-se em comunidades pequenas ou grandes inseridas e integradas em concelhos (ou elas próprias eram concelhos) cujos oficiais eram os porta-vozes das queixas e os Paços do Concelho a câmara de ressonância das mesmas. Mais do que confirmar ou reafirmar expressamente capacidades de intervenção das autoridades concelhias. É que. Manuel nem na letra nem no espírito tocam nas estruturas tradicionais da administração concelhia nem mexem nas competências governativas dos oficiais municipais. embora trabalhassem a terra individualmente ou em família. os concelhos não são chamados para arbitrarem o que quer que seja nas matérias a introduzir nos forais manuelinos. Com efeito. ao contrário do que se possa pensar. Os forais de D. a relação entre os forais manuelinos (é a esses que nos reportamos) e os concelhos é marcada mais por ambiguidades do que por cumplicidades aprofundadas. Foi às Cortes quatrocentistas e quinhentistas que. que englobavam ou podiam englobar mais que um concelho: exemplos terra da Feira ou de Ovar. apesar de não ignorar que muitos deles não foram dados a concelhos mas a territórios mais amplos a que se chamava Terras.

como seriam estes em grande percentagem. guardando-se no sítio próprio que era a Torre do Tombo e como era impensável fornecer um exemplar a cada foreiro. Embora muito desfasado no tempo. Évora. publicado no Boletim Cultural da Junta Distrital de Évora. do seguinte modo: A – Um primeiro tempo de análise da reforma dos forais no conjunto da governação de D. mantém-se o triângulo na sua distribuição ou encaminhamento: um exemplar é entregue ao senhorio. porque o mesmo foral previa mecanismos de punição do senhorio que abusasse ou levasse mais direitos do que os consagrados no diploma. E quando Fernão de Pina vai pelo Reino recolher elementos para proceder à correcta reforma dos forais. competindo aos Juízes e Vereadores conservá-lo em bom estado. E quem é que aplicava essas penas? São exactamente oficiais locais de eleição ou confirmação concelhia: juízes.HISTORIOGRAFIA DOS MUNICÍPIOS PORTUGUESES (SÉCULOS XVI e XVII) 15 lavradores explorados. os Condes da Feira! Mas essa é outra questão. teriam coragem e força para punir senhorios todos poderosos como. Os Forais de Évora. o terceiro confiava-se à guarda do Concelho. era o Rei que surgia através de peritos de grande competência e prestígio institucional por ele próprio nomeados. enquadro nesta lógica de interpretação global o tão breve quanto perspicaz ponto de vista . vintaneiros ou até quadrilheiros. 1967. A Igreja quando estava presente fazia mais o papel de senhorio do que o de porta-voz dos foreiros. sob pena de repreensão ou mesmo de punição por parte do Corregedor na sua correição anual.º 8. para além de conservarem informações preciosas sobre toponímia. Resta saber se oficiais rudes e analfabetos. Daí que os estudos sobre os forais se possam inserir numa visão genérica da historiografia municipal. E depois de elaborado e escrito o foral. Terminava aqui a relação do Concelho com o Foral? Não. por exemplo. Situo nesse enquadramento o ensaio de Marcelo Caetano. antroponímia. Outra razão para tal é que os forais podem fornecer elementos subsidiários para o estudo das relações de poder dentro de um determinado espaço. embora seja a pensar nessa circunstância que acima caracterizei de ambígua a relação entre os forais e os concelhos. outro fica na posse do poder central. Manuel. n. ainda que um pouco artificialmente. pode dizer-se que nos últimos tempos o estudos dos forais tem merecido a assinalada atenção dos historiadores que podemos caracterizar e fasear. Posto isto. faz as suas inquirições encontrando-se com a população em quadro municipal porque não havia outro com força representativa e capacidade de mobilização das pessoas. E quando chegava o momento da decisão. direitos e costumes tradicionais.

B – A um tempo de análise sucedeu o tempo de publicação dos textos dos forais. Creio ser esse o tempo em que nos encontrámos o qual remonta aos fins da década de oitenta do século passado.ª ed. 5 vols. estudo histórico de Manuela Santos Silva. 1961-1965. Forais de Coimbra. Câmara Municipal. 1993. Forais manuelinos da cidade e termo do Porto existentes no Arquivo Municipal.. Lisboa. O Foral Manuelino de Arraiolos. Câmara Municipal de Arraiolos. – Chorão. 1812. A primeira fase remonta ao clima de exaltação patriótica que se viveu nos inícios da década de 40 do século XX. Pinto Loureiro. ainda que não sob o mesmo impulso. Memoria para servir de índice dos foraes das terras do Reino de Portugal e seus domínios. Lisboa.l. Forais manuelinos do reino de Portugal e do Algarve conforme o exemplar do Arquivo Nacional da Torre do Tombo. – Forais de Silves. coord. Os forais manuelinos – 1497-1520. Lisboa. de Margarida Garcez Ventura. direcção. Câmara Municipal. 1993. 1990. Eis a bibliografia que pude coligir. um tempo que é simultaneamente de enquadramento histórico. jurídica e económica sobre a reforma dos forais no reinado do senhor D. e revisão científica de Maria Helena Cruz Coelho. apesar do esforço desenvolvido para que tal não aconteça.. surgiu o trabalho gigantesco de Luís Fernando de Carvalho Dias. e de – Francisco Nunes Franklin. de Maria Filomena Andrade. 1999. 2000.16 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS assinado por Margarida Sobral Neto no vol. Jorge. 1825. Guarda. Câmara Municipal. Manuel. 2. Colibri. Coimbra. de análise interna e de publicação textual facsimilada. – Foral (O) da Ericeira no arquivo-museu. s. Mais tarde. Academia das Ciências. estudo e transcrição de. 1940. 171-174) Essa tradição remonta ao século XIX tendo expressão nos textos de – João Pedro Ribeiro. Silves. se não cronológica ao menos logicamente. Maria José Mexia Bigotte. IANTT. Imprensa régia. .. Provavelmente haverá omissões. Biblioteca Municipal. – Forais e foros da Guarda. normalmente com o apoio e o interesse das Câmaras Municipais.. entre 1961 e 1965. III da História de Portugal dirigida por José Mattoso. pp. 1940 e António Augusto Ferreira da Cruz.. direcção introd. Dissertação histórica. C – Sucedeu-se.. Porto. (III. – Fonseca. edição do autor. Enquadro nesse contexto os trabalhos de J. Lisboa. introd. glossário de Maria do Rosário Morujão.

de.. – Santos. «O Foral de Cambra e a Reforma manuelina dos forais» in Revista da Faculdade de Letras. As cartas de Couto do Mosteiro de Arouca. 1994. Francisco Ribeiro da e Garcia. Coimbra. 1995. IV (1989) pp. «Os forais manuelinos da Comarca da Estremadura» in Revista de Ciências Históricas. Sociedade Martins Sarmento. transcrição e notas de. «O foral manuelino de Ansião» in Actas do II Colóquio sobre História de Leiria e da sua região.. estudo de Nuno Campos. apresentação de Maria Calado. Os forais manuelinos do Porto e do seu termo. ISCTE. II vol. – Silva. – Martins. – Silva. Câmara Municipal. 195-222. introdução. ed. de Eduardo Campos.HISTORIOGRAFIA DOS MUNICÍPIOS PORTUGUESES (SÉCULOS XVI e XVII) 17 – Foral concedido a Abrantes por D. Os Forais de Melgaço. – Silva. Sintra. 2001. Câmara Municipal. Câmara Municipal. – Marques. Porto. – Monteiro. Forais e regime senhorial.. Arouca.. vol. Lisboa. 2000. Melgaço. vol. . Os Forais de Barcelos. – Neto. Guimarães. 1998. 1990. 1992. Arquivo da Universidade. ed.71-90 e vol. – Silva. ed. fac-similada. de Carlos Santarém Andrade.º 3. 1991. ed. II série. 2001. transcrição de Maria Teresa Nobre Veloso. Câmara Municipal. VI. Câmara Municipal. Manuel. – Foral manuelino de Lisboa. Os contrastes regionais segundo o inquérito de 1824. n. José. – Foral de Guimarães-1517. Os Forais do Burgo e de Arouca. Câmara Municipal.. Câmara Municipal. José. – Foral de Colares. Leiria. Montemor-o-Novo.. transcrição e notas de. Joel Silva Ferreira.. – Foral de Besteiros. 1998. pp. Nuno Gonçalo. Francisco Ribeiro da. de Inês Morais Viegas. 1991 – Marques. 161-186. Francisco Ribeiro da. Póvoa de Varzim. História. Abrantes. Porto. – Foral de Coimbra de 1516. Montemor-o-Novo Quinhentista e o foral manuelino. VI. Câmara Municipal. introdução. Câmara Municipal. Manuela Alcina Oliveira e Mata. fac-similada. 2003. pp. José Manuel. Margarida Sobral da Silva. Cláudia Valle/Fonseca.. 1989. ed.. Coimbra. vol. José. «O Foral manuelino da Terra de Paiva: uma preciosidade patrimonial» in Poligrafia. Lisboa. Barcelos. – Marques. pp.. 1989. introd. Jorge/Branco. Manuel em 10 de Abril de 1518. 255-267. Lisboa. Os forais da Póvoa de Varzim e de Rates. 2003. Filomeno. Arouca. 1986 (mimeo). 1994. INAPA. V. 1991.

Foi necessário examinar todos. Santa Maria da Feira. 1996 Que temas em concreto é possível colher e apreender nestas publicações? Aspectos históricos e histórico-jurídicos dos forais. Ovar. as regras de uso e partilha dos meios de produção. Francisco Ribeiro da. Câmara Municipal.º 47/48. Alvito. – Silva. uma matéria que atravessa muitos forais manuelinos. . Os Forais manuelinos da Terra de Ovar e do Concelho de Pereira Jusã. n. Felgueiras. ed. Câmara Municipal. Os forais manuelinos de Alvito e Vila Nova da Baronia. – Silva. os foros e o seu significado económicosocial. Edição. Dezembro 1994. enquadramento histórico e análise estatístico-linguística. Câmara Municipal. «O Foral manuelino de Felgueiras: um marco histórico da identidade da Terra e das Gentes» in Felgueiras – Cidade. Eu próprio ensaiei. de que resultou um artigo a que chamei A pesca e os pescadores na rede dos forais manuelinos e foi publicado na revista «Oceanos». 4 vols. em 1999. João Azevedo. pp. Livro dos foraes novos da comarqua de Trallos Montes.18 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS – Silva. Lisboa. O Foral dado por D. Mas são possíveis e desejáveis estudos transversais. não só os do litoral onde era suposto encontrar as informações que procurava mas também os do interior. estudo comparado e leitura. estrutura formal e divisões internas. João António. Manuel I à Vila da Feira e Terra de Santa Maria a 10 de Fevereiro de 1514. – Valério. facsimilada do original. sobretudo das terras banhadas por rios. UTAD (policopiado) 1998.. D – Há ainda um quarto momento que foi inaugurado por Maria Olinda Rodrigues Santana. ano 2. publicado em parte pelo Editor de Mirandela. 2000. Julho-Dezembro 2001. as relações foraleiras entre lavradores e senhorios. glossário dos termos utilizados. introdução e estudo de…. tratou-se de combinar e cruzar cientificamente o estudo da história e do direito foraleiro com o tratamento linguístico do texto. Francisco Ribeiro da. senão com sucesso ao menos com grande autosatisfação. Como o título indica. notas sobre antroponímia e toponímia. 1989.º 6. a propriedade e o uso da terra. Apliquei a mesma metodologia ao estudo sobre o peso do sal nos forais manuelinos. Francisco Ribeiro da. etc. 8-28. forais e senhorialismo. n. da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro que em 1998 defendeu uma tese de doutoramento (de que tive a honra de ser co-orientador).

onde tive oportunidade de apreciar o trabalho de Rute Maria Lopes Pardal. nomeadamente ao nível dos mestrados e até dos doutoramentos nos quais o tema do municipalismo é assíduo. apenas 10 se dedicaram em todo ou em parte aos séculos referidos.HISTORIOGRAFIA DOS MUNICÍPIOS PORTUGUESES (SÉCULOS XVI e XVII) 19 III – Estudos sobre os Concelhos e a Administração Municipal Não são muito numerosos os estudos directos e exclusivos sobre os concelhos portugueses nos séculos XVI e XVII. De uma ou outra tive eu próprio oportunidade de ser arguente ou orientador. O caso mais recente de arguição foi precisamente na Universidade de Évora. directa ou indirectamente. as Actas do Congresso sobre o Município no Mundo Português realizado na Madeira em Outubro de 1998 que reuniu a maior parte dos investigadores que em Portugal (e no Brasil) se dedicam a estes temas. alguns de conteúdo muito vago face ao tema que nos foi sugerido. As elites de Évora ao tempo da dominação filipina: estratégias de controle do poder local (1580-1640). mais próprio para amadores desocupados do que para universitários. sítio da Biblioteca Nacional. De norte a sul têm sido elaboradas. «município». E não só nas Faculdades de Letras e não apenas nas Universidades Públicas. Gostaria antes de mais de começar esse balanço por duas ou três notas que nascem da observação da realidade actual do panorama lusitano: 1 – A sensibilização do Ensino Superior para estas matérias Começarei por constatar uma realidade e me congratular com ela: todos os cursos de História das Faculdades de Letras têm dedicado atenção e inserido os estudos sobre História Local e Regional nas suas ofertas de pós-graduação. Sinal do renovado interesse pelos estudos locais e regionais e talvez do desaparecimento do preconceito de que a História Local era um assunto menor. discutidas e às vezes publicadas teses. «municipal» ou «elites» indicaram-nos cerca de 30 títulos. sendo bastante mais abundantes os dedicados ao século XVIII e aos finais do Antigo Regime. utilizando palavras-chave lógicas tais como «concelhos». umas quantas sobre os séculos XVI e XVII. é possível apresentar aqui um ponto da situação que pode ser também uma espécie de balanço. De qualquer modo. As pesquisas que levamos a cabo na web. revelam-nos que sendo 39 o número total das comunicações publicadas. Provavelmente esta será uma tendência geral da historiografia portuguesa e não apenas da historiografia sobre o municipalismo. algumas de grande mérito e utilidade. Por outro lado. orientado por Laurinda Abreu. «administração». Como se pudesse haver verdadeira e séria História Nacional ou Geral sem o contributo das monografias dos espaços mais .

Alfa. Quanto às Histórias de Portugal. incidência da legislação central sobre a vida quotidiana dos municípios. pelo apoio que têm dado a publicações sobre a terra. Assuntos estudados Quanto aos assuntos estudados. tem o mérito de chamar a atenção para a importância da implantação dos concelhos nas Ilhas Atlânticas e nas «conquistas» ultramarinas. O exemplo dos forais acima lembrado é elucidativo. como se pode concluir dos repetidos colóquios e congressos sobre o poder local que têm patrocinado. nos quais incluo as Histórias de Portugal e outros estudos de síntese e por outro as monografias e estudos locais e regionais específicos. (Lisboa. mostravam sinais de decadência. . aqui e ali. Um outro dado a reter (ao qual não é a primeira vez que faço menção) é o progressivo interesse das Câmaras pelos estudos municipais. algo enigmática. segundo aquele eminente historiador. não serei eu a criticar quando da convergência dos interesses dos historiadores e estudiosos e dos governantes dessa terra resultam jornadas de divulgação e edições de livros. dialéctica entre a centralização e as pretensões autonómicas dos concelhos. A História de Portugal dirigida por Hermano José Saraiva no seu vol. funções administrativas dos mesmos. lugar que cada um dos concelhos ocupava na hierarquia dos bancos de Cortes. Nem sempre o que move os autarcas é o puro e desinteressado interesse científico. são consagradas algumas páginas aos concelhos e ao «país profundo» de que destaco os seguintes aspectos: evolução relativa das áreas regionais. promoção de vilas a cidades. 4. distinguirei por um lado os estudos de âmbito geral. Por isso. começando pela de A. A. com o suporte científico das Universidades e. em contraste com a metrópole onde.H. Também por esta via pode ser frutuosa a colaboração das Universidades com as Câmaras Municipais.20 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS pequenos e das micro-instituições ou como se entre uma e outras se pudessem estabelecer diferenças abissais de metodologia e de objecto. representação dos Concelhos em Cortes. força progressiva dos mesteres.1983). do desaparecimento das particularidades locais no período que nos ocupa. no conjunto. de Oliveira Marques (a de 1972 e a «Breve» mais recente) – embora não se demorando muito no que toca à administração municipal neste período. Nem tem que ser. tocam os séculos XVI e XVII. Nogueira dedica pouco mais de meia página ao assunto da divisão administrativa do Reino. em capítulo assinado por J. em cada um dos 3 volumes que. A única nota que vale a pena realçar é a afirmação. Quanto à História de Portugal de Joaquim Veríssimo Serrão. especialmente no Brasil onde as Câmaras adquiriram enorme importância.

Por sua vez. integradas num longo capítulo sobre os equilíbrios sociais do poder. O autor. procura sintetizar nessas três dezenas de páginas os estudos publicados em Portugal sobre administração municipal. Nelas . sobre competências próprias e delegações de poderes. coordenado por António Manuel Hespanha. na pressuposição já referida de Romero de Magalhães de que «o poder em Portugal é arregional ou anti-regional» e que o papel principal pertenceu à oligarquia dos homens bons (texto de José Adelino Maltez. Romero de Magalhães parte de D. Nuno Gonçalo Monteiro. 1998). de Oliveira Marques – vol. tal como Oliveira Marques. dedica-se um subcapítulo de 30 páginas aos Concelhos e às Comunidades. VII da mesma Nova História de Portugal (Lisboa. discorre sobre o binómio poder central/poder local. V coordenado por João Alves Dias. sobre o Antigo Regime. consagra 10 páginas aos Concelhos. no volume seguinte. consagra 8 páginas (pp. Lisboa. 56-68) ao tema dos concelhos. dedica algumas páginas às instituições concelhias e ao seu governo. a segunda é a de que o poder em Portugal é a-regional e anti-regional. Mesmo resumida. Duas ideias fortes de Romero de Magalhães devem ser destacadas. no volume dedicado ao Alvorecer da Modernidade. sem que isso signifique concordância ou discordância da nossa parte: a primeira é a de que cada unidade administrativa era completamente independente em relação às vizinhas. a matéria dos concelhos nesta História é relativamente abundante. Manuel cuja política interna analisa. A obrigação de síntese a que os Autores são constrangidos e provavelmente o plano geral do Coordenador leva-os a seleccionarem. os aspectos que mais substantivos lhes parecem. H. O vol. consagra algumas linhas aos Concelhos ultramarinos.HISTORIOGRAFIA DOS MUNICÍPIOS PORTUGUESES (SÉCULOS XVI e XVII) 21 A História de Portugal dirigida por José Mattoso. pelo que se indica no título genérico do volume. 406-412). Em concreto. para além de alusões avulsas aos concelhos ao longo do volume. de entre a bibliografia disponível. num longo desenvolvimento sobre a Arquitectura dos Poderes que. pp. 2001) coordenado por Avelino de Freitas de Meneses. oferecendo-se uma série de temas sugestivos que poderão proporcionar inspiração para ulteriores desenvolvimentos: – Instituições e poderes locais – Câmaras e ordenanças – centro e periferia – instrumentos de fiscalização do centro – A hipotética viragem da segunda metade do século XVIII – As repúblicas municipais – governo económico local e finanças locais – poderes municipais e elites locais – entre oligarquia e comunidade A Nova História de Portugal (direcção de Joel Serrão e A. coordenado por Joaquim Romero de Magalhães. assinadas por Maria Paula Marçal Lourenço. sobre o processo eleitoral e. abrange um período que vai de 1620 a 1807.

dedicado aos finais do Antigo Regime no subcapítulo escrito por mim próprio – tratará da administração municipal numa perspectiva predominantemente institucional: – As divisões do território e o seu significado – As leis reformistas dos finais da época moderna e a sua incidência na administração municipal – A importância dos Provedores. O vol. 1996. fazendo alarde de boa capacidade de síntese. nesta obra. Ana Cristina Nogueira da Silva. na 1.dir. Círculo de Leitores. dos Corregedores das Comarcas e dos Juízes de Fora e a problemática da centralização versus autonomia. Embora se encontre nesta obra alguma coisa de comum com o capítulo que o Autor escreveu na História de Portugal.s XV-XIX – cerca de 175 páginas) e o conferido aos séculos XIX e XX (mais de 400 páginas).ª parte. A progressiva influência do Corregedor em prejuízo das outras duas magistraturas (Juízes de Fora e Provedores). Nem isso é importante e se aludo aqui a tal é apenas porque a minha comunicação trata dos séculos XVI e XVII. (Dos finais da Idade Média à União Europeia). – Estruturas fundamentais da administração municipal e funções dos oficiais camarários e dos magistrados régios em relação aos serviços prestados e ao correcto ordenamento da vida quotidiana – Os oficiais das freguesias e aldeias. Além disso. Quanto a trabalhos gerais sobre o Municipalismo na época moderna. coordenador e principal autor1 dedica aos séculos XVI e XVII. Lisboa. Paulo Jorge Fernandes. José Vicente Serrão. Há algum desequilíbrio entre o espaço concedido ao Antigo Regime (isto é. não é fácil estabelecer ao certo a percentagem de páginas que. séc. Paulo Silveira e Sousa e Mafalda Soares da Cunha). desenvolve dois itens: a «administração central periférica e os poderes delegados» e ainda «o poder absoluto e as cortes». utilizando com habilidade e originalidade boa parte da bibliografia conhecida. é muito mais profundo. de César de Oliveira.s XIX e XX do que para o Antigo Regime. sugestivo e inovador. coordenado por Luís A de Oliveira Ramos. Nuno Gonçalo Monteiro. VIII da mesma Nova História de Portugal – em vias de publicação. Basta lembrar os títulos dos principais capítulos para evocar os conteúdos: 1 Com a colaboração pontual de Isabel dos Guimarães Sá. Compreende-se que assim seja não só pelo número potencial de leitores interessados como também pela bibliografia disponível: muito mais abundante para os séc. na minha opinião. sublinharemos o interesse da História dos Municípios e do Poder Local. .22 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS a autora.

Mas não apenas relativos a essas cidades: também Portimão. Viseu. A vida económica e social de Coimbra de 1537 a 1640. Viana do Castelo têm sido objecto de vários estudos. Aveiro. Vila do Conde. Lousã. na qual desempenha papel de relevo o que ele chama a administração periférica da Coroa. Braga. o longo capítulo da Arqueologia do Poder e a sua visão integrada do poder político-administrativo em Portugal na época moderna. E de entre o conjunto do trabalho emerge para nós. Lisboa. uma referência obrigatória para quem estuda o municipalismo em Portugal. 1994). Depois e para além disso. Évora. não poderemos deixar de lado uma tese de doutoramento que justamente tem constituído uma trabalho sempre citado. Instituições e Poder Político (Coimbra. 2 vols. Em Portugal continental. portanto. Porto. CEFA.HISTORIOGRAFIA DOS MUNICÍPIOS PORTUGUESES (SÉCULOS XVI e XVII) 23 – A sociedade local e os seus protagonistas em que louvavelmente desce até às paróquias – O central. pode dizer-se que existem trabalhos valiosos dedicados a muitas cidades.. tanto dos Açores como da Madeira. . há uma que me marcou desde muito cedo. uns artigos e ensaios de ambição moderada.. Notas de história social. Coimbra.. Refiro-me a António Manuel Hespanha e à sua obra As vésperas do Leviathan. há todo um acervo de obras de índole local no seu objectivo imediato ainda que possam conter sugestões metodológicas de largo alcance e até de valor universal. Não me parece que deva enveredar aqui pela análise de pormenor dos textos que se debruçaram sobre terras determinadas. o local e o inexistente regional – O espaço político e social local. Refiro-me a António de Oliveira. No entanto. 1986). Há também que dar a devida importância ao incremento dos estudos sobre o municipalismo nas Ilhas. pela inovação que introduz. Guimarães. Santarém. Coimbra. 1972. Dentro das obras de âmbito geral. de Maria Helena Coelho e Joaquim Romero de Magalhães (Coimbra. outros teses e obras de maior fôlego. através de instituições de investigação como o Instituto Histórico da Ilha Terceira ou o Centro de Estudos de História do Atlântico que nos últimos anos promoveu dois Congressos sobre o municipalismo e já prepara o terceiro. e quantas outras. Não deverei passar à frente sem uma breve alusão a um texto-síntese muito citado e esgotadíssimo – O Poder concelhio das origens às Cortes Constituintes. especialmente àquelas onde existem Estudos Superiores: (continuo a ater-me aos séculos XVI e XVII). Esta obra constitui. Esposende. Almedina. Ponte de Lima. Em ambos os arquipélagos a apetência por estas matérias está em crescendo.

Mas há dois aspectos que me parece de justiça enfatizar neste apanhado: o primeiro é o facto de. de água. O problema da ordem pública. Têm tido lugar aqui os estudos sobre movimentos sociais e tumultos. ter aberto caminhos com futuro para a história local e regional. As representações públicas do poder. • As actividades mesteirais e o controlo possível exercido pelas administrações municipais. actividades económicas. Como o título indica não foram propriamente as matérias de governo local que preocuparam o Autor mas antes os problemas da economia e da sociedade. organização da defesa. embora não fosse seu interesse imediato assumido o enquadramento institucional e administrativo ele não podia ser ignorado. António de Oliveira começou a investigar. A • participação cívica dos cidadãos e da plebe. dividiria assim as matérias: • A das infra-estruturas: aspectos geográficos. Parece. recenseamento dos moradores. demografia. Por outro lado. etc. de bens de consumo. propriedade da terra. diversificação e funcionamento das instituições e seus suportes materiais como os edifícios dos Paços do Concelho e Arquivo. e esse é o segundo aspecto. • A dos serviços: obras públicas. profissões. ao ter escolhido uma cidade e o seu aro como objecto da sua dissertação de doutoramento. Festas e cerimónias rituais locais comemorativas de nascimento de príncipes e da morte de membros da família real. abastecimento de alimentos. quantas vezes atribuídos pelo poder central à inércia das Câmaras. Começando pelas grandes áreas temáticas estudadas. questões de saúde e da higiene. As ordenanças. mais interessante e útil revisitar os conteúdos dos trabalhos académicos que ultimamente têm sido publicados. • A das finanças: receitas e despesas. • A das pessoas envolvidas e as estratégias do poder e das relações interfamiliares na perspectiva do acesso e do exercício do poder. Sistemas de organização fiscal e pessoal envolvido. por conseguinte. .24 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Rasgou caminhos e incentivou trabalhos de outros. No tempo em que o Prof. o primado da história económica e social era indiscutível e intocável. • A da estrutura. Os tempos de lazer e as festas na perspectiva dos que delas usufruem. Basta ler o seu primeiro longo capítulo sobre circunscrições administrativas e jurisdição municipal para se perceber o alcance destas matérias no conjunto do seu excelente e pioneiro trabalho. O património municipal.

Ligado a este. Outra pista a desenvolver será a do estudo da organização paroquial. Outro tema que se tem revelado extremamente fecundo é o da formação das elites e das oligarquias locais. Na verdade. em especial a do Corpo de Deus. ainda que o serviço público fosse a razão de ser de ambos. 1997) – Elites locais e mobilidade social em Portugal nos finais do Antigo Regime – não só por constituir uma excelente síntese de tudo (ou quase tudo) quanto se escreveu ultimamente entre nós sobre o assunto mas também por oferecer uma quase completa bibliografia dos títulos publicados sobre o nosso tema – municipalismo na época moderna. • A religiosidade e a influência dos Mosteiros no aro concelhio. sua múltipla caracterização. • Os diversos aspectos da vida quotidiana. XXXII. questões de segurança. das freguesias e das suas relações com a cabeça do Concelho. • A da conflitualidade no interior do concelho e o choque com outras entidades eclesiásticas ou civis. Câmara e Misericórdias cruzam-se e complementam-se. tais como alimentação. vol. É claro que mais uma vez se impõe referir o nome do Prof. o poder municipal exercido no âmbito concelhio e o poder feito de honra e de prestígio no seio das confrarias eram de natureza diferente. Não deixa de ser relevante que os nomes de topo das elites municipais se repitam nas listas dos nomes dos principais dirigentes das Misericórdias.º 141. Há ou não . Impressionou-me fortemente o ensaio publicado na «Análise Social». mobilidade social. História comparada dos Concelhos. Outro provável caminho do futuro creio que poderá ser o do estudo comparado dos concelhos de Portugal e dos países colonizados por Portugal. analisando as Irmandades não apenas nos seus aspectos organizacionais internos e na lógica da assistência mas procurando situá-las e inseri-las nas redes e estratégias de poder local. Entram aqui os estudos sobre o papel e atribuições dos agentes régios. têm-se retomado em Portugal há uns anos a esta parte os estudos sobre as Misericórdias. o Provedor ou o Juiz de Fora. As confrarias e as práticas de sociabilidade. Nuno Gonçalo Monteiro.HISTORIOGRAFIA DOS MUNICÍPIOS PORTUGUESES (SÉCULOS XVI e XVII) 25 • A das relações com o poder central e as chancelarias régias. nomeadamente o Brasil não só na época colonial como no período pós-independência. estratégias de poder. 4.ª série. As práticas religiosas privadas e públicas. higiene. (n. • A geografia do poder e a importância e sacralização de certos espaços públicos. Este novo enfoque interpretado por jovens historiadoras e historiadores parece-me muito promissor e justifica que se revisitem e provavelmente se reescrevam numerosas monografias sobre as Misericórdias portuguesas. As procissões. tais como o Corregedor da Comarca.

recorrendo antes de mais às normas. – outro tema que gostei de ter tratado foi o das relações entre o poder central e o poder local na perspectiva da participação dos concelhos nas Cortes. às leis que as estruturaram e lhes fixaram as regras de funcionamento. não podemos esquecer que a partir de 1697 não há mais Cortes em Portugal. além de funcionar sobretudo a nível local e concelhio. o que estudar mais dentro da história do municipalismo? Eu diria «tudo». Mas que é isso de tudo e de total? A mim parece-me algo simultaneamente desejável e inatingível. Como é sabido. Um exemplo: . Devo confessar que comecei por estudar as instituições municipais. por cada convocatória. me pareceu ainda mais favorável em Braga no tempo de D. como se fosse um jurista. e sobretudo nos séculos XVI e XVII. Frei Bartolomeu dos Mártires. ora a ser apresentados ao Rei na expectativa de uma resposta favorável. – o tema da venalidade e da hereditariedade dos ofícios públicos parece-me sugestivo na medida em que sou levado a concluir que essa prática. aliás. Contudo. houve ou não reivindicações neste domínio? Os concelhos foram espaço de coesão interna ou antes de conflitualidades e clivagens? Para além destes áreas. Sobre que incidiam esses capítulos e qual o seu encaminhamento na perspectiva do diálogo institucional entre a Corte e os concelhos parece-me um problema interessante e que poderá revelar que as indicações de governo não eram de sentido único – do centro para a periferia – mas provavelmente também da periferia para o centro. Para além de tudo isso. as Câmaras redigiam Capítulos gerais e particulares. perdoar-me-ão a imodéstia de lembrar alguns pequenos temas que tratei em artigos e ensaios que me pareceram interessantes e que podem ser desenvolvidos a nível municipal: – em primeiro lugar. os temas da alfabetização e a sua relação com o exercício de cargos municipais. se tal fosse possível! A história total é o objectivo teórico final do historiador. O meu posto de observação tem sido o Porto e daí talvez a provável sobreavaliação das capacidades de literacia dos investidos no poder municipal que.26 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS um espaço de autonomia para as freguesias. que eram ora pontos de vista e reclamações que se destinavam ora a ser discutidos pelo Terceiro Estado. Os livros das chancelarias régias fornecem muitos exemplos de contratação pelas Câmaras de Mestres de Ler e de Gramática que não têm sido aproveitados sistematicamente. desempenhou papel importante como factor de mobilidade social ascendente.

por essa razão viram adiado ( por 2 MOLAS RIBALTA. Mas um historiador depressa se dá conta que a realidade vivida é algo muito mais complicado que a realidade sonhada ou programada a qual às vezes tem pouco a ver com as normas. Muito cedo interiorizei a frase de Jaime Vicens Vives – «a História das Instituições não é História propriamente dita»! Mas as instituições são feitas por homens e para pessoas concretas. La Historia Social de la Administración in Historia Social de la Administración Española. mais do que fazer história das instituições. culturais. apurando-se as circunstâncias económicas. A História Social do Poder tenderá então a ser uma espécie de biografia colectiva. das atitudes. veio em meu auxílio um historiador catalão.HISTORIOGRAFIA DOS MUNICÍPIOS PORTUGUESES (SÉCULOS XVI e XVII) 27 a leitura do tit. da História Política. Como? Indagando as relações entre a instituição e os grupos sociais. 66 do Livro 1. dos comportamentos. Neste processo.º das Ordenações Filipinas (sobre os vereadores) foi importante como norma e como fonte para a fixação do perfil e do modelo institucional desses oficiais municipais tão típicos dos municípios lusitanos. talvez fosse melhor tentar a história social da administração. A História da Administração bem entendida tem que resultar da confluência da História do Direito. Ou seja. 1980. Pedro. Ou seja. Foi esse objectivo que me moveu em grande parte na preparação do meu doutoramento e em vários trabalhos posteriores e mesmo em teses de mestrado que tive o gosto de orientar. da História Económica e Social. sociais. tentando perceber a «estrutura efectiva do poder» inserida na comunidade até chegar ao reconhecimento da importância do exercício do poder como elemento determinante da estrutura interna dos estados e dos grupos. Pedro Molas Ribalta2 que me seduziu com a sua teoria da História Social da Administração. surge a surpresa: alguns afinal eram netos de oficiais mecânicos e. Barcelona. Quem eram afinal esses senhores Procuradores? Quando esperávamos que todos fossem fidalgos provavelmente de tradições bem alicerçadas e antigas. Se nós conseguirmos ligar as pessoas concretas que serviram as instituições às pessoas concretas a quem se dirigia a sua acção. . da História das Mentalidades. religiosas. chegaremos ao conhecimento das circunstâncias profundas da sedução e da conquista do poder e do seu exercício. então talvez a história das instituições possa ser história propriamente dita. Estudios sobre los siglos XVII y XVIII. A mesma preocupação esteve presente na minha Lição das provas de Agregação quanto aos Procuradores do Porto às Cortes do século XVII. e outras dos indivíduos que povoaram e deram vida às instituições do poder local e regional e exerceram efectivamente esse mesmo poder.

como que esqueletos sem carne. Mas o que não pode nem deseja é apagar as regiões e as multímodas diversidades regionais Por isso. pode adquirir e adquire valor global mas porque a vida real das pessoas. . Mas. Não só os de fundo histórico. É óbvio que os nomes sem mais são meras indicações. paradoxalmente. Conclusão Há que concluir. a sua habilitação para serem admitidos ao Hábito da Ordem de Cristo. Os estudos sobre os concelhos e o municipalismo foram suficientemente atractivos para ocuparem historiadores de excelência no passado de que basta lembrar o exemplo de Alexandre Herculano. Tal metodologia implicou que na Tese de Doutoramento tal como foi publicada. em virtude e por força das novas tecnologias. A Europa que se está a construir poderá esbater ainda mais as ditas soberanias nacionais. decorre normalmente em cenário local. e não valerão muito se não os situarmos na sua realidade existencial e institucional e na sua rede de relações. parece de incentivar os estudos locais e regionais. Não só nem sequer principalmente das instituições.28 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS algum tempo) o seu requerimento. e para que não se percam as identidades e o gosto pela diversidade. tenha utilizado 43 páginas com os «nomes das pessoas que animaram as Instituições». Não só porque de repente o que é vivido à escala local. é num mundo globalizado que o interesse real pelo que é que local e regional se vem acentuando. As circunstâncias do tempo presente pautadas pela ideia de globalização aparentemente privilegiam o universal e secundarizam o regional e o local. de cada pessoa. Mas das pessoas concretas na sua inserção social e comunitária. do modo como as famílias e os grupos se organizaram e que tipos de redes de relacionamento e que vias de desenvolvimento e de progresso conseguiram estabelecer.

ª edição. XVI-XVII) – Abreu. – Abreu. – Andrade. Laurinda. FLUC. – Abreu. Jorge Filipe Pereira de. Viseu. . Montemor-o-Novo.). Montemor-o-Novo no século XVI. – Basto. Ponte de Lima. Câmara Municipal. Setúbal.as Jornadas sobre formas de organização e exercício do poder na Europa do Sul. Sazes de Lorvão de 1660 a 1760: espaço. policopiado). António Alberto Banha de. A Santa Casa da Misericórdia de Setúbal entre 1500 e 1755. 1990. A Santa Casa da Misericórdia de Aveiro. Santa Casa da Misericórdia. sociabilidade e poderes numa paróquia rural. Porto. 1988.ª edição. – Arqueologia do Estado. Lisboa. 2 vols. Coimbra. – Barreira. «Misericórdias e poder local» in O Poder local em tempo de globalização. Lisboa. Dar aos pobres e emprestar a Deus: as misericórdias de Vila Viçosa e Ponte de Lima (sécs. de Mestrado).. 1990. Artur de Magalhães. Conspecto socioeconomico de uma vila no Renascimento. 2. séculos XIII-XVIII. Aspectos da sociabilidade e do poder.HISTORIOGRAFIA DOS MUNICÍPIOS PORTUGUESES (SÉCULOS XVI e XVII) 29 Anexo Subsídios para uma bibliografia sobre a história dos Concelhos e do Municipalismo em Portugal (sécs.. Santa Casa da Misericórdia. Maria Marta Lobo de. Memórias da alma e do corpo – A Misericórdia de Setúbal na Modernidade. 2 vols. História da Santa Casa da Misericórdia do Porto. 1988. Grupo dos amigos de Montemor-o-Novo. – Basto. – Araújo. 2. Artur de Magalhães. 1995 ( dissert.. 1979. 1997-1999. Vítor Fernandes da Silva. – Actas das Jornadas sobre o Município na Península Ibérica (sécs. Santa Casa da Misericórdia. 1989 (polic. 2 vols. Estudos Portuenses. XII a XIX). Biblioteca Pública Municipal. – Alves. António Alberto Banha de. FLUC. Porto.. – Araújo. A administração municipal do Porto 1508-1511. – Andrade. Palimage Editores. vila realenga: ensaio de história da administração local. XVI-XVIII). Laurinda. 2 vols. Coimbra. Actas das 1. Coimbra. 1999. Lisboa. Manuel de Oliveira. 2001 (Faculdade de Letras do Porto. Porto. Academia Portuguesa da História. Laurinda. Academia da História. 2000. 1976-1979. Santo Tirso. Pobreza e Solidariedade.

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tomo XXVI. Um século de administração municipal. CEHA. de. Coimbra. «A Câmara de Coimbra e a Universidade nos séculos XVII e XVIII». Um século de vida municipal (1594-1700)». Fraquelim Neiva. in O Município no Mundo Português. «Ponta do Sol. 117-138. Nelson. Víctor. 1003. «Os Vereadores da Universidade na Câmara de Coimbra (1640-1777)» in Revista Portuguesa de História. «Poder municipal e vida quotidiana: Machico no século XVII». Funchal. – Soares. 291-299. Angra do Heroismo. in Bracara Augusta.1993-1994. 1992. vol. 1988 (Sep. O Barreiro e a expansão portuguesa: imagens do concelho dos séculos XV a XVII. in O Município Português na História na Cultura e no desenvolvimento Regional. Direcção Regional dos Assuntos Culturais. «As Posturas Municipais da Madeira e Açores dos séculos XV a XVII». Viseu. – Vale. História e Crítica. 1955. Sérgio da Cunha. . – Soares. 1990. XL. – Vieira. Lisboa. Sérgio da Cunha. – Vieira. 2000. Universidade do Minho. Canárias) séculos XV a XVII. 1998. pp. Viseu. Alberto e Rodrigues. XLVIII-XLXIX. 1991. Seminário Internacional. pp. 1605-1692. Funchal. 265-280. de Arqueologia do Estado). Nelson. pp. in Actas do III Colóquio Internacional de História da Madeira. CEHA. «A freguesia de Sant’Iago da Sé na visitação capitular de 1562». – Veríssimo. Alberto. Braga. – Vieira. Alexandre de Lucena e.HISTORIOGRAFIA DOS MUNICÍPIOS PORTUGUESES (SÉCULOS XVI e XVII) 37 – Soares. José Guerra Soares. A dinâmica municipal no Atlântico Insular (Madeira. – Soares. vol. Coord. 1998. Barreiro. in Boletim do Instituto Histórico da Ilha Terceira. Câmara Municipal. – Veríssimo. Alberto. Relações de poder na sociedade madeirense do século XVII. Funchal. Açores. Braga.

na prática. 39-58. Breve perspectiva histórica 1. sem dúvida. O município como objecto por excelência dos estudos de História da Administração local A História Municipal e através dela a História da Administração Municipal é. Alguns tem mesmo sobre ele posições radicais ao ponto de afastar o Município do rol das instituições que propõem para a nova ordenação da nossa administração pública e territorial. Os Municípios no Portugal Moderno: dos forais manuelinos às reformas liberais Lisboa. Administração Pública e Economia Portuguesa. e ao qual se apresenta aliás no plano das realizações como instrumento. Edições Colibri – CIDEHUS-UE. A abordagem da questão municipal está já largamente presente nos textos dos reformistas e ilustrados do século XVIII e seus finais.Administração local e municipal portuguesa do século XVIII às reformas liberais (Alguns tópicos da sua Historiografia e nova História) JOSÉ VIRIATO CAPELA (Universidade do Minho – Dept. um dos ramos da Historiografia Portuguesa que mais se desenvolveu nos tempos mais recentes. de História/Instituto de Ciências Sociais) 1. Desenvolveu-se em forte articulação com a problemática da construção e reforço do Estado Moderno ou da sua crise e da Sociedade de Antigo Regime. pp. porque não estava em causa a sua legitimação e continuidade histórica. crise do Estado de Antigo Regime. Esta posição inviabilizaria. . de reforma ou mesmo alternativa.ª metade do século XVIII em diante. Pombalismo. É em geral um discurso muito crítico ao papel e lugar que o Município tem no bloqueamento aos desenvolvimentos e reformas necessárias da Sociedade.1. Pós-Pombalismo. 2005. ainda que a partir de um discurso mais político do que histórico. A Historiografia da administração local. Concentrou-se sobretudo na História Municipal da 2. fraco desenvolvimento da investigação histórica sobre o município português. para que aliás veio dar contributos essenciais pelo novo prisma de abordagem da questão.

economistas. que a História do Município fará novos avanços. Sampaio. quer no plano prático quer até no historiográfico.40 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS É verdadeiramente o século XIX – em particular da sua 1ª metade – que verá florescer a História do Município e emergir mesmo o ideário Municipalista. A República (1910-1926). e em grande medida como reacção aos excessos da Centralização promovida pela dinâmica das novas instituições liberais – a Divisão dos Poderes e o Código de 1842 – é a solução do municipalismo que se apresenta como alternativa global que emergirá em grande força no mito historiográfico do município medieval. o ideário corporativo anti-liberal e antidemocrático. que depois se continuarão. manter-se-á nas peugadas doutrinárias legadas pelos ideários de Oitocentos. Mas será com Félix Nogueira. socialista. Com A. Deste modo. Nogueira no seu Município Novo teria por então uma das suas primeiras grandes aplicações – interrompida com a crise financeira de 1890 – e que a República intentará de novo retomar. ultrapassando de vez o «enclausuramento» romântico medieval e fixando mais desenvolvidamente a sua acção e adaptação dos Tempos Modernos. do Centralismo e Absolutismo Monárquico. O ideário republicano. Neste último ponto sem grande sucesso. os estudos do Município português em tempos da Monarquia Absoluta. Intenta-se então também a elaboração de monografias sobre os concelhos e os municípios e obras de conjunto sobre a temática. Nas origens do Estado Novo. Herculano. A Reforma descentralizadora de Rodrigues Sampaio (1875-1890) promoverá sem dúvida um dos mais profundos desenvolvimentos das coordenadas da vida municipal portuguesa e também da História do Municipalismo. H. fazendo também seu o programa da descentralização e municipalização da administração e território. ensaístas e sobretudo de administrativistas. Lopes de Mendonça. haveria de trazer um novo fôlego e novos horizontes às investigações sobre o Município pela intensa reflexão histórica sobre as origens e natureza da instituição municipal – designadamente a sua anterioridade . consubstanciado por H. repondo o Código descentralizador de R. F. não tem porém lugar autónomo nas Histórias de Portugal de Oitocentos. Com significativo espaço na obra de políticos. se são esparsos os estudos históricos sobre o municipalismo dos Tempos Modernos em Herculano – que o Absolutismo segundo ele matara – com H. Rodrigues Sampaio quando o municipio se inserir mais realisticamente no jogo e na acção político-social dos equilíbrios e harmonias necessárias entre a centralização e a descentralização. Félix Nogueira e seus continuadores emergirão finalmente com grande desenvolvimento.

Pela 1. o que faz desenvolver particularmente os estudos posteriores ao século XV. Deste resultará em particular o enorme trabalho de estudo e publicação das fontes e fundos da produção administrativa camarária. Ela está certamente em relação com a emergência da figura do poder local no nosso .ADMINISTRAÇÃO LOCAL E MUNICIPAL PORTUGUESA DO SÉCULO XVIII ÀS REFORMAS LIBERAIS 41 ou filiação no Estado Português – em correlação com a fundamentação das raízes e natureza corporativa da Sociedade e do Estado. Esta ideologia de base corporativa não deixaria ainda de se fazer sentir nos estudos de História municipal que se desenvolveram entre nós. com um alargamento das temáticas que as novas questões a resolver exigiam. (Problemas de Administração Local – Centro de Estudos Político-Sociais. Lisboa. Na prática esse é também um período de grande discussão sobre a administração local autárquica no tocante a matérias que se referem a: problemáticas da centralização/descentralização. pelos anos 30 e 40 do século XX em correlação com os programas de desenvolvimento regional que pretende suportar e fazer assentar no município (e outras instituições históricas) programa desenvolvimentista a que então se prendem as elites locais portuguesas municipais e distritais para tirar a Província do seu letargo e abatimento e por eles regenerar o país. o desenvolvimento dos serviços municipalizados. Tal estará na origem de um novo reforço da análise da História e evolução histórica do Município. Tais programas tiveram eco nas discussões à volta do Código Administrativo de 1936 do Estado Novo. Mas muitos deles alargar-se-iam também ao estudo das corporações dos ofícios nos Tempos Modernos e em relação com eles também dos concelhos e até ao fim do Antigo Regime do trabalho mesteiral e oficinal. A Historiografia municipal para os Tempos Modernos sofrerá no pós 25 de Abril de 1974 um extraordinário desenvolvimento. tendo vingado a solução centralizadora do Regime contra as alternativas mais descentralizadoras de municipalistas e autarcas. a História do Município Moderno é estudada a partir das suas próprias fontes. quando se localizam os fundos mais completos e desenvolvidos da vida municipal. revelar-se-ia com muito mais pormenor a vida de outras instituições locais muito articuladas aos Municípios e que aí deixaram muitas marcas e registos nos fundos arquivisticos. E pela descoberta e exploração destes fundos. de um modo sistemático. o sistema e os problemas da administração local em si e em correlação com a descentralização e a intervenção e coordenação dos serviços técnicos e administrativos do Estado. com particular incidência no campo doutrinário mais do que no campo historiográfico. 1957). envolvendo-se no estudo histórico das corporações de ofícios medievais e também da “corporação” municipal. Este é um período de grandes evocações de História Municipal.ª vez.

A matriz e a base de História económica e social com que se renovou a historiografia municipal mais recente. com mais força e vigor. e agora. Mais decisivos ainda foram os desenvolvimentos da História Institucional. próprio à organização da Sociedade de Antigo Regime. mas também. da separação dos sectores. na História financeira e da contabilidade municipal. que iniciando-se pelo estudo da História Social da Administração Municipal – com contributos decisivos para a configuração social dos diferentes orgãos municipais – receberia contributos fundamentais do novo campo da História Social. Tal desenvolvimento continua as linhas de rumo tradicionais da historiografia municipal portuguesa. em correlação com ela. Para a renovação da historiografia municipal concorreram poderosamente novos domínios de investigação historiográfica que lhe foram aplicados: a História Económica. Nestes estudos.42 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS ordenamento político-administrativo revolucionário – que rompe com o conceito vindo do Estado Novo da administração local autárquica – e também com o seu particular desenvolvimento assente na mobilização social e política de que foi alvo. com importantes estudos monográficos dirigidos aos grandes municípios portugueses nos seus quadros institucionais. que estuda os mecanismos do reforço dos elementos da articulação económica e financeira dos municípios à Coroa e Fazenda Pública. que . a que lhe contrapõe o modelo corporativo. mas também nos seus territórios e até «regiões». os novos horizontes da Historiografia económica europeia do Pós-Guerra e da História Económica e Social dos Annales. o Metropolitano e logo também o Ultramarino. das finanças locais. Desta etapa histórica sai particularmente beneficiado o estudo histórico do município português na Época Moderna. essa entronca já na referida renovação do papel do município como autarquia local na administração pública e territorial portuguesa das décadas de 50 e 60. permitida e sustentada pelos 3 novos pilares constitutivos do seu desenvolvimento: a lei da autonomia. com desenvolvimentos particularmente notórios na História económica da administração municipal. sai particularmente beneficiada a perspectiva estadualista. no funcionamento das almotaçarias. mas também do papel das posturas e regimentos locais no desenvolvimento e enquadramento económico mais geral. mercados e formação de preços. das Elites e também à História da Mobilidade Social e dos Sistemas Eleitorais. certamente também pelo seu marcado cunho institucional. a que genericamente se vem apelidando de estadualista que privilegia o estudo do município nas suas relações e mútuas adaptações ao Estado. os mecanismos sociais no ordenamento social local e sua articulação com a Sociedade de Corte e nos elementos e agentes de articulação política pelo estudo do papel e acção dos magistrados régios para o governo da periferia.

os poderes e as instituições para a administração régia. U. dos baldios. e contribui para ajudar a definir um outro e novo modelo municipal. a História da Administração. Menos consequências teve a nosso ver. o estudo dos outros domínios da administração do território.2. designadamente para o estudo daquelas perspectivas que tão descuradas tem sido pela Historiografia Política e Institucional Municipal. Mousnier nos estudos integrados em La Plume. para a abordagem social da História e vida do Município. os campos. de Joel Serrão. P. provedores e as novas «instituições políticas» do Estado Moderno. E que Jorge Borges de Macedo aconselhou e seguiu no artigo “Absolutismo” do Dicionário de História de Portugal (dir. do Absolutismo e do Despotismo. também a dos corregedores. neles incluindo também os outros campos do exercício dos poderes sociais mais informais ou sem base territorial. apesar disso. profissionais ou religiosas. designadamente a territorial. Para além dos Municípios. 1971) mas sem grandes consequências futuras. designadamente o das comunidades confraternais. F. para a História municipal deste período. ao longo dos tempos. Se em geral forneceu novos enquadramentos e fixou outras coordenadas de abordagem e de percepção da chamada «estadualização» ou «politização» da Sociedade. a saber. 1. vista e vivida pelo lado dos administrados. dos usos e costumes comunitários. no plano institucional e das realizações. História e perspectiva esta que já R. não contribui tão decisivamente como parece dever ser o seu papel. Mas também no plano dos ideários. a mais antiga (do Estado Novo) e a mais recente. para cuja abordagem se tem recorrido sobretudo e quasi em exclusivo à perspectiva da História do Estado e da Administração. les Faucille et le Marteau (Paris. que é unilateral e insuficiente.ADMINISTRAÇÃO LOCAL E MUNICIPAL PORTUGUESA DO SÉCULO XVIII ÀS REFORMAS LIBERAIS 43 prestam atenção para além da acção dos juízes de fora. a saber. 1970) aconselha a fazer adentro do quadro analítico conhecido que é o da construção do Estado Moderno e seus limites e constrangimentos. a senhorial. a vincular e sobretudo a paroquial e a eclesiástica. A História e historiografia da paróquia O estudo histórico da administração territorial portuguesa tem sido configurado e reduzido à História Municipal. o das correntes anti- . a eleitoral e da nova configuração dos poderes. não se pode perder de vista. sobretudo sociais. Perspectiva e abordagem sem as quais nunca formaremos uma visão completa da História Municipal e muito menos da emergência das suas Reformas. naturalmente pela força e dimensão que a instituição municipal mas também o ideário municipal ganhou na Sociedade e Cultura Portuguesa. a perspectiva da Historiografia e do paradigma Corporativo. Mas.

a propor soluções alternativas ao município e a desenvolver ou propor outras soluções político-institucionais. sob a ordem e a . contestada. o papel político e administrativo da acção municipal ganharam particular vitalidade e envolvimento e apagaram. induziram e configuraram mesmo tal opinião. e assim o foram sempre na História local portuguesa e o devem continuar a ser para o futuro. que em geral. Ou a crer definitivamente que a solução municipal é originária e matricial à nossa constituição político-social ou uma dádiva divina e portanto perenes e inquestionáveis e por eles a subalternizar as doutrinas e os ideários político-administrativos que não priviligiam ou não entram em linha de conta com a instituição e solução municipal. alheia ou mesmo estranha e desconhecida. Tal reflexão é possível e ainda mais necessária no período de forte emergência do poder e ordem municipal. das suas legitimações incluindo a historiográfica e dos seus assentimentos. o estatuto e a força da argumentação do ideário e propaganda municipalista dos seus grandes e importantes doutrinadores e ideólogos que não deixaram de reduzir a força e o plano de actuação de outras correntes e doutrinas. designadamente com a acentuação no reforço da paróquia ou freguesia. Como se comprova também pelos testemunhos recolhidos junto das populações paroquiais designadamente nas Memórias Paroquiais do século XVIII (1758) onde a presença e domínio da instituição municipal aparece aí descrita de um modo ténue e esparsa. delimitando bem os espaços de actuação e concorrenciando-o inclusive. reduziram ou subalternizaram mais fortemente o papel e a acção das outras instituições.44 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS -municipalistas ou o dos críticos de soluções político-administrativas assentes na exclusiva solução municipal. por outro lado. é que nos permitirá avaliar a importância e predominância relativa das instituições que disputam o exercício dos campos do poder local. Com efeito a particular concentração e desenvolvimento da Historiografia dirigida ao estudo do Município face às outras instituições locais tem feito passar a ideia de que o Município e o seu território de jurisdição são as instituições exclusivas ou por excelência da administração local portuguesa neste século XVIII e finais do Antigo Regime. ou crítica dos abusos e excessos da concentração municipalista da doutrinação e programa descentralizador ou regionalizador. Só uma visão e acercamento mais amplo destas realidades dos poderes. E naturalmente também por uma atenção mais cuidada à força e continuidade da doutrina e argumentação das soluções que não as municipais e municipalistas. E nesse sentido os estudos demasiado configurados nas fontes e administração municipal e no estudo de casos onde a dimensão institucional. Porém a realidade é mais variada e complexa. como se comprova pelo papel desempenhado pelas outras instituições que no território do município exercem a sua actividade. Para o que concorrerá também.

ADMINISTRAÇÃO LOCAL E MUNICIPAL PORTUGUESA DO SÉCULO XVIII ÀS REFORMAS LIBERAIS 45 batuta do alargamento do Poder Real Absolutista e do Despotismo Esclarecido no século XVIII. Ora. mas também a esta “miniaturização” e irrelevância de municípios rurais. circunscrevendo e limitando os outros poderes e jurisdições. Tal realizou-se. máquinas e estruturas do poder ao serviço das velhas aristocracias e fidalguias. reforça a crítica político-social e também doutrinária. Com efeito subsiste ainda. em grande parte fortemente crítico do poder e organização municipal. antes pelo contrário. Sem este conhecimento não é possível seguir a emergência de outras soluções presentes no nosso pré-liberalismo e primeira vigência do regime liberal e suas soluções para a governação do território e seu enquadramento políti- . desenvolvimento orgânico e funcional. a mais completa tutela e configuração político-administrativa que o Liberalismo lhe dará no quadro do novo Centralismo burocrático e da nova Divisão dos Poderes. Que é uma crítica violentíssima ao seu pequeno papel para o desenvolvimento dos povos e do território. e utilizando em particular os maiores municípios portugueses. vem nesta etapa conquistando e alargando os seus poderes no território. segrega até. no fim de contas da Sociedade e Estado com que as gentes das Luzes pretendem romper por finais do século XVIII. a outra realidade municipal à margem destes desenvolvimentos: municípios que pela sua reduzida dimensão. É este o caso das críticas da Ilustração a este Municipalismo Histórico. é este ideário das Luzes. sobretudo quando ela é feita em proveito dos estratos que suportam o Estado fidalgo e aristocrático que se contesta ou são incapazes de suportar qualquer projecto de desenvolvimento. com profundas consequências para a instituição municipal que nos aparece no final desenvolvimento deste processo histórico – de profunda articulação e modelação com a ordem régia e os objectivos régios para o governo do território – com substancial limitação dos seus poderes “autónomos” e fortemente configurada ao exercício das tarefas que a Monarquia lhe impõe e distribui para o governo do território. Ora tal desenvolvimento não apaga a outra realidade institucional que ela mantém. naturalmente. vinda dos sectores contestatários a esta estadualização municipal. nalguns casos autênticas ilhas no mar de um profundo localismo e isolamento político e social. e em grande medida “desautorará” politicamente. umas vezes “reformista” outras vezes “abolicionista” que sem dúvida lançara as bases e os fundamentos da grande amputação e reforma concelhia de 1832-36. E não apaga também. posição no território permanecerão no todo ou em parte ainda arredados destes mecanismos de Centralização e desenvolvimento institucional uniformizador induzido pelos progressos da Monarquia e do Estado. em certa escala para largos espaços do território nacional. Que prefiguram nos casos mais desenvolvidos. mas também as bases de soluções locais paroquiais e regionais que são tão pouco conhecidas.

morta pelo Centralismo liberal de que os concelhos – sobretudo os das vilas e cidades – foram também agentes e suportes. desenvolver-se-á também com a historiografia eclesiástica o estudo da paróquia. também um concelho. Em paralelo da historiografia civil. a paróquia terá ainda um papel mais forte no enquadramento da vida das populações que os concelhos. Também para esta historiografia. administrativista e historiador estado-novista do Município medieval. Depois no contexto da construção do ideário municipalista houve também quem pretendesse associar a freguesia ao concelho. a Sociologia. isto é considerá-la na sua matriz histórica originária. E contudo e certamente por via disso. ao modo de Alberto Sampaio. que fizessem o contraponto às monografias concelhias que por então também promovia M. A História paroquial continuaria. a Antropologia. Depois. A ideia é pois. no pós 25 de Abril de 1974 a ser a parente pobre da investigação historiográfica sobre o poder e administra- . está presente a valorização da paróquia religiosa na conformação e origens da sociedade portuguesa. pois que em seu entender na paróquia se unem «vínculos quasi tão estreitos como os da família» e «sob o aspecto social excede em importância as instituições municipais». Reforçar e revigorar a vida social com base na freguesia é o caminho a seguir para regenerar a política e a sociedade portuguesa.º ideário municipalista do século XIX (Herculano). O Padre Miguel de Oliveira bateu-se pela produção de monografias paroquiais. E é deste contexto do movimento das Luzes que se reforça a ideia da paróquia civil ou freguesia que só muito mais tarde vingará. Só com Alberto Sampaio. a História paroquial ganhará também cidadania no panorama dos estudos locais portugueses.46 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS co-social e também a emergência do 1. no século XIX. Na paróquia viu A. a Geografia Humana. em consonância com a importância política e social da paróquia. Sampaio as bases e a matriz da nossa constituição social que arranca e se articula às villae romanas. este é um quadro muito activo no enquadramento e organização comunitário local. bem mais atentas ao estudo científico e positivo das comunidades de limites paroquiais estiveram por outro lado as demais Ciências Humanas. desde as suas origens no século XIX. valorizar esta instância local do enquadramento dos povos. Caetano. E para o padre Miguel de Oliveira. como a historiografia mais recente tem vindo a sublinhar. Mas não se nota qualquer movimento de legitimação historiográfica desta instituição que permitisse fazer vingar a freguesia ao lado do concelho ou município como instituição autárquica para a administração e governo civil do território. Com a crítica do município e seu fraco envolvimento e integração das comunidades locais emerge a vontade de valorização e afirmação política e administrativa da paróquia ou freguesia.

por via da uniformização institucional com a aplicação do modelo e da ordem legal régia e da acção corregedora e integradora dos magistrados régios à periferia. da Fazenda). Militar. pela rede social de articulação à Sociedade de Corte. na continuidade das abordagens de A. Sampaio e a sociologia histórica (entre outros) e a paróquia eclesiástica. A abordagem e o estudo dos casos dos pequenos municípios rurais. Não pôde como o município beneficiar da larga tradição de investigação e doutrinação sobre a História Municipal e o Municipalismo e também – e por via disso – a freguesia continuaria a desempenhar um papel subalterno na nossa administração. tem também por via deles. na tradição dos estudos sobre a paróquia civil. isto é. continuaria a fazer-se. hierarquização político-administrativa do território e propostas de novas divisões administrativas. seja ele marcado pela construção da rede político-administrativa (Judicial.1. urbanos ou de vilas de maior dimensão. Adaptações municipais A força dos vectores da centralização e mais ainda do paradigma da estadualização aplicado ao estudo da História Municipal Moderna tem privilegiado e acentuado sobretudo o estudo dos mecanismos da sua integração na ordem pública. agora ainda mais subalternizado dados os investimentos políticos e financeiros do 25 de Abril na administração municipal. de áreas menos importantes ou contribuintes para a construção do Estado Moderno. mais desenvolvidos organicamente e onde sedeiam os principais organismos e magistrados da Coroa para a administração e governo do território.ADMINISTRAÇÃO LOCAL E MUNICIPAL PORTUGUESA DO SÉCULO XVIII ÀS REFORMAS LIBERAIS 47 ção local. também. da Província. de juízes ordinários. esta em estudos mais atentos às origens e papel da ordem religiosa e eclesiástica. certamente contribuiria para conferir ao município uma realidade bastante dife- . pelo facto de se ter estudado particularmente a evolução política e institucional dos maiores municípios. Em busca de novas abordagens da História da Administração Local: o Município no Território 2. ou pelos suportes político-económicos da construção do Estado Nacional Mercantilista. 2. apesar de escassa. na senda dos estudos anteriores. da provedoria. concentrado os estudos nas manchas do território mais percorridos e articulados pelo processo centralizador. integrantes de vastas áreas à margem ou só marginalmente integradas no “território” do domínio régio ou em zonas de forte domínio ou concorrência do domínio senhorial. A investigação sobre a freguesia – paróquia do Antigo Regime. Centralização. da comarca. É uma análise e uma perspectiva que sai reforçada. E que para além de estudos individuais destes casos.

decorrente do paradigma estadualista e do município dominador do seu território. «regional» ou provincial. neles se exprimindo de forma diferenciada as dinâmicas desta modelação mais geral. o conceito de que o Município Moderno é a-regional e mesmo anti-regional. Tal obriga necessariamente romper com um outro lugar comum que se fixou mais recentemente na historiografia municipal. situá-lo nos “círculos” diferenciados da sua situação e centrifugação política e também no dos diferentes níveis do desenvolvimento social e institucional. a do quadro mais vasto. em primeiro lugar. uma apreciação mais ajustada dos níveis e patamares de modelação e integração do Município ao Estado e Ordem Pública Nacional é necessário seguir-lhe. de facto. Por isso é necessário estudar o município no seu território. E não só a do quadro e termo municipal – que tem sido tentada – mas também e muitas vezes sobretudo. com efeito. Maria desde 1790-92 . a Sociedade onde se insere. decisivamente com Pombal e os governantes de D. a quem desde 1790 se pretende conferir maior desenvolvimento e racionalidade administrativa para nela reorganizar o quadro da divisão e administração concelhia. o quadro por excelência da ordenação política do território. Se se pretende. para além da conformação institucional – por regra tão só orgânico-oficial – permitirá seguir os termos da sua configuração com o Território. mas seguir as dinâmicas próprias induzidas e até construídas pelo Território e pela Sociedade que naturalmente são em última instância os agentes e suportes destas realizações e nova construção política e ordenamento territorial. O município fortemente arreigado e enraizado no seu território. O estudo do Município no território permitirá fugir ao espartilho da explicação monista da modelação institucional realizada tão só do topo para a base. que tem de passar por um maior esforço de caracterização do município. sofre as vicissitudes que o próprio território vai sofrendo nas suas dinâmicas de aproximação ou afastamento político aos marcos territoriais e políticos mais activos e dinâmicos da construção do Estado. com desfasamentos significativos relativamente ao novo modelo e paradigma do “município régio”. O percurso deste outro caminho. os passos da sua modelação regional – comarcã e provincial. O governo monárquico do século XVIII. Tal conceito. teve como consequência esquecer ou secundarizar as dinâmicas estruturais de carácter geográfico-político que sobre ele se exercem e que o continuam a modelar profundamente.48 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS rente. progressivamente. resultado de um Absolutismo e Centralismo como factor exógeno às instituições e territórios neles envolvidos. A comarca volver-se-á. Muito mais do que a partir dos concelhos é a partir do quadro comarcão que o Estado e o governo comarcão quer olhar e governar o território.

que promovendo a forte hierarquização política nacional das instituições e por ela a sua mais forte integração institucional e territorial. O município e desde logo o município cabeça de comarca. e em particular nesta etapa decisiva no reforço do Centralismo e Absolutismo e logo do Reformismo pré-liberal. não tendo tocado nas bases e divisão territorial..ADMINISTRAÇÃO LOCAL E MUNICIPAL PORTUGUESA DO SÉCULO XVIII ÀS REFORMAS LIBERAIS 49 – adentro do mesmo espírito anterior – reforçam o papel dos corregedores e outros magistrados régios e com eles o quadro de unificação e racionalidade comarcã.. na continuidade aliás da criação do . Sobre as políticas é fundamental salientar algumas reformas pombalinas que embora não dirigidas directamente ao Município. racionalização e uniformização institucional. Tal passa naturalmente por reforço sobretudo do papel dos municípios maiores onde a administração periférica do “Estado” está já mais desenvolvida. o principal suporte da nova organização do território que promoverá. volver-se-á neste contexto.. nele acabaram de produzir efeitos fundamentais. Há muito que ele substituíra os braços dos concelhos. O concelho cabeça da comarca virá por isso a ser o pivot e ponto de partida e referência do novo referencial “autárquico” e regional. E a constituição de largos Privilégios em grandes municípios de centros urbanos que lhe concederam forte relevância e tutela regional sobre os outros territórios e municípios. nela envolveriam fortemente o Município. das Superintendências fiscais (das Sisas e Décimas) a produzir movimentos do mesmo sentido de centralização (regional). como é sabido. a uniformização e a unificação legal e administrativa do território da sua comarca. incluindo na sua base espacial. das Alfândegas. Os problemas e petições concelhias serão conduzidos ao Rei e seus Tribunais superiores pela voz do corregedor. suporte de muitas delas. uma forte articulação e hierarquia do território. e organização político-estadual. em especial os eclesiásticos. as vozes dissonantes dos concelhos e dos seus diferentes membros nas Cortes. a Reforma da Fazenda. Entre essas reformas é de referir as da Justiça – com a afirmação do Direito e Lei Régia sobre os demais direitos a extinguir os donatários nas ilhas – a promover a mais forte integração dos concelhos de juízes ordinários nos de juízes de fora e de um modo geral a afirmar a supremacia e a tutela dos concelhos régios sobre os concelhos e coutos senhoriais. para proceder ao reforço do poder em mais vastos territórios “regionais” e articulá-los por seu intermédio mais fortemente ao Estado. de reforço e alargamento do poder e hierarquia de concelhos estrategicamente posicionados no território. com a criação da Companhia de Vinhas do Alto Douro neste caso de alcance Provincial que lhe concedeu os suportes do largo domínio regional às 3 Províncias do Norte de Portugal. É o caso dos concedidos à cidade do Porto.. O corregedor do século XVIII promoverá num constante deambular pela comarca. No período pombalino este processo seguirá sobretudo na senda de reformas políticas.

Essas críticas sustentam em grande medida o programa de reformas a que as leis de 1790/92 querem dar seguimento. liberdade da terra que permita o mais lato desenvolvimento económico. . a ponte e outras obras do rio e da cidade. dos letrados e magistrados régios em luta pela mais larga afirmação do Direito régio e pátrio. Mas como não avocar aqui também o papel da Companhia das Lezírias para o Ribatejo (entre outras) e até a entrega do monopólio do Ensino Público à Universidade de Coimbra com a expulsão dos Jesuítas que faz conduzir para a cidade do Mondego os professores e estudantes e faz a Universidade e a cidade beneficiária de contribuições públicas gerais assentes nas Superintendências das Sisas do Reino com que pagam professores. que limite as jurisdições e poderes do direito senhorial e eclesiástico. em particular as obras nas barras dos maiores rios. alargamento dos mercados. ainda que os projectos e programas fossem definidos numa escala “regional” neste caso o das regiões hidrográficas. Elas terão sua origem em particular na Sociedade ilustrada dos economistas em luta pela livre formação dos preços. seus concelhos. desencadeados com as leis de 1790/92. Esse programa é activamente impulsionado pelos reformistas e ilustrados do século XVIII. das elites ilustradas locais que se querem impor nas governanças locais às velhas elites nobiliárquicas e fidalgas e colocar o município ao serviço da Pública administração e do Bem Comum e Felicidade dos Povos. cadeiras.50 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Tribunal da Relação ao tempo dos Filipes e que agora se manifestará particularmente activo a conduzir a si todos os processos de apelação e agravo de todos os Tribunais e em particular dos eclesiásticos (vg da Relação Eclesiástica de Braga). em particular pela geração de 1790 que produz a mais acérrima crítica ao papel e acção do município e o consideram em geral factor de bloqueio social. E até outros grandes projectos de desenvolvimento regional promovidos pelo Estado. em particular no domínio público. a sua canalização e navegabilidade que para estas obras faz contribuir os concelhos e terras limítrofes. tirando-o dos interesses privados e particulares das velhas governanças. político e económico ao desenvolvimento da Sociedade portuguesa e de uma adequada administração régia para o território. Avanços para um programa de nova “divisão” administrativa do território só se realizará porém nos finais do século XVIII. como instância político-administrativa mais actuante e presente em todo o território (com a extinção das Ouvidorias). mas de que os principais e grandes beneficiários são os portos ou os cofres das vilas ou cidades da respectiva embocadura. munícipes e oficiais. Da acção e directrizes dos juízes demarcantes de 1790 resultou essencialmente a proposta de um novo desenho das comarcas e dos concelhos. Pretende-se redimensionar os concelhos para os adequar ao nível das exigências e tarefas agora colocadas pelo Estado e reforçar a comarca.

são em última análise o resultado da sua adaptação e envolvimento nas dinâmicas e coordenadas próprias do seu território. iniciando mesmo a “desautoração” do poder municipal e uma primeira separação e/ou hierarquização dos poderes que prefigurariam em muitos casos uma primeira Divisão dos Poderes do Liberalismo e do Constitucionalismo. como a do Ministro Rodrigo de Sousa Coutinho do círculo da Ilustração governamental que faz tábua rasa do município enquanto orgão de divisão administrativa e o apaga da sua proposta da divisão administrativa territorial do Estado. articuladas com os projectos e programas reformistas do Estado e com ele em luta por novos concelhos inserido numa mais vasta região. as Intendências (da agricultura. inscrito numa comarca reforçada é um programa régio. que é preciso abordar neste desenvolvimento longo. A força da coesão territorial e a modelação regional do município Mas para além das dinâmicas políticas e territoriais induzidas pela construção do Estado Moderno. propondo a constituição ao lado ou por sobre os concelhos. ainda bastante “marginal”. fortemente centralizadoras e esvasiadoras da instituição municipal. sem plano e estrutura intermédia que sempre foi e pretendeu ser preenchida pelo município. O novo concelho. é preciso também atentar nas condicionantes territoriais de assentamento dos municípios que os aproximam e modelam em conjunto nas suas bases sociais. Há até propostas da nova divisão administrativa do território. permite entrever e destacar essas dinâmicas e aproximações . que prefiguram os futuros serviços públicos gerais. retirando desde logo poderes judiciais aos municípios de juízes iletrados (isto desde Pombal) diminuindo ou apagando em definitivo o poder das câmaras nestas matérias. da polícia. económicas e até instituições e incluindo a organização do espaço.2. é certo. Mas outras propostas de ilustrados pretendem também tocar no poder “absoluto” dos concelhos. Hoje a produção de elevado número de estudos de História municipal para amplos espaços regionais. que sofrendo é certo a modelação político-institucional da construção do Estado. Deste horizonte da crítica e das propostas de reformas ilustradas do século XVIII (desde Pombal e de novo activamente desde 1790/92) se configurarão o sentido e a matriz das reformas do século XIX e do Liberalismo. 2. que do plano da paróquia salta para o da Província.ADMINISTRAÇÃO LOCAL E MUNICIPAL PORTUGUESA DO SÉCULO XVIII ÀS REFORMAS LIBERAIS 51 Relativamente a estes procurou-se o seu redimensionamento territorial. onde se possam realizar mais intensa e extensivamente o programa do desenvolvimento económico e social e colocar as instituições ao serviço da Felicidade e Prosperidade Pública. entre outros). Mas conta e nele se envolveram as novas forças sociais locais.

piscatório e transitário que vieram a constituir para as câmaras (como para outros senhorios). também em assumir os municípios de áreas fronteiras a rios de grande valor económico. naturalmente. praças e fortale- . dimensão e origem das rendas municipais está naturalmente na origem e na base do relativo desenvolvimento e aproximação das estruturas institucionais municipais. e até o transmontano. Tal é patente desde logo na constituição das receitas próprias com base nas quais é possível fazer distinções ou aproximações de base territorial. pescarias e direitos sobre usos de água. um certo “esboço” de divisão municipal de certas tarefas. de lado. numa relativa militarização dos cargos políticos das vereações dos municípios de fronteira onde por força da estadia de regimentos. Tal é desde logo patente. Configuração singular virão. produzindo por vezes até nesse quadro.52 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS territoriais. Idêntica natureza. E se não permitem configurar um município regional – pela forte e precoce construção em Portugal do Estado Central e Mercantilista que promoveu uma acentuada uniformização política e institucional do Município Português – conferem-lhe pelo menos uma forte modelação regional que os anima e articula. moagens e pisões. Mas a acentuação do “tonus regional” afirma-se também nas diversificadas funções que os municípios são chamados a exercer em função da sua posição no território e corpo político da Nação. mas em particular no Minho). induzem os mercados na formação das rendas dos municípios que obrigam necessariamente desde logo à grande distinção nas estruturas político-administrativas e na base social das elites políticas entre municípios urbanos e municípios rurais sem núcleos ou pequenos núcleos urbanos. da apetência social e das elites ao acesso e governo das câmaras e da sua integração na orgânica estadual por interesses mútuos. e também um conjunto de municípios de vastos termos rurais que vieram a constituir importantes rendas sobre os foros dos baldios (como aconteceu um tanto por todo o lado. Deixaremos. Particular configuração e aproximação na sua base económica e natureza de rendas veio também a constituir o município das regiões de fronteira (terrestre e sobretudo marítima e fluvial) a realizar importantes receitas sobre as sisas mercantis (ou sobejos das sisas régias) e também rendas alfandegárias. Que se exprime na definição de um sistema e regime municipal muito aproximado. da governação central e das elites governantes. onde o peso das receitas provenientes de herdades e bens próprios agrários é muito importante e por isso lhe induzem comportamentos muito próximos dos dos senhorios fundiários. Para além disso. da Beira. importantes rendas sobre barcos de passagem. a induzir também comportamentos típicos de senhorios foreiros e donatariais. permite aproximar municípios como os do Alentejo. a análise comparativa da estrutura e natureza das receitas municipais. a principal separação ou distinção que neste domínio.

de um modo geral homens de Direito e letrados. do vintismo. escrivães. exercendo um recrutamento que pode extravasar o concelho. Se de um modo geral o Pombalismo poderia ser favorável à presença dos mesteres em câmara em correlação aliás com as coordenadas do alargamento da representação social e popular da Ilustração – como se verificou em Espanha com a criação e entrada da magistratura popular do síndico personero para as câmaras – a sua envolvência no Motim do Porto (1757) quebrou tais expectativas. E também nas diferentes modelações que toma a presença das elites locais na câmara. urbano. por virtude da afirmação do Direito Pátrio. a aristocracia militar local e regional estende o seu papel às câmaras e que se revigorou nos tempos de conflitos militares e guerras internacionais. almotaçarias) pretendem ascender às vereações. territorial. da Lei da Boa Razão (1769) e no consequente afastamento do direito costumeiro e das práticas orais sem proces- . mas também demográfico.º quartel do século XVIII ser-lhe-á totalmente desfavorável. mas agora já sem especial continuidade geográfica. E posteriormente o reforço e vontade do revigoramento das elites aristocráticas e fidalgas nos municípios ao longo do 3. Ou aos militares e sua mais forte entrada e participação nos governos municipais em tempos de guerra. expressas no diferenciado recrutamento social das elites políticas tradicionais: nobreza. quando o afastamento é acentuado. magistratura e Sociedade de Corte quando o município está poderosamente integrado na Coroa. ou mesmo. que dos seus locais próprios do governo camarário (procurador.ADMINISTRAÇÃO LOCAL E MUNICIPAL PORTUGUESA DO SÉCULO XVIII ÀS REFORMAS LIBERAIS 53 zas e papel militar e defensivo das terras. meirinhos. que poder-lhe-ão ser favoráveis e permitir passagens e acessos breves às vereações ou outros orgãos de poder político municipal. as burguesias mercantis e os letrados locais. Ou na diferenciada presença ou concorrência aos cargos políticos do governo camarário de outros ou novos grupos que a eles pretendem ascender. Como seria também bem ilustrativo seguir a sua ligação às câmaras nas crises políticas e sociais do tempo das invasões francesas. é necessário seguir em relação com a evolução da conjuntura política e social mais geral e a do município e sua estrutura sócio-profissional em particular. do desenvolvimento político e social das terras. que tem a ver com o da presença e representação dos mesteres na câmara. nobreza e aristocracias locais ditas de campanário. Relativamente aos grandes municípios urbanos (mas não só) é ainda possível proceder a algumas aproximações. naturalmente. em função. como se verifica de um modo geral nos municípios de mais forte envolvimento político e conjuntural nas revoluções políticas e sociais do Estado na passagem do Absolutismo ao Despotismo e deste à Revolução e Liberalismo. cuja geografia da representação em câmaras e vicissitudes da sua aproximação ou afastamento das vereações.

por outro. . que é o testemunho da sua enorme “plasticidade”. As situações podem ser as mais dispersas: nalguns casos onde é forte o poder real (sobretudo pela Fazenda) ou o poder donatarial (sobretudo o militar) estes assumem poderes que retiram aos concelhos. o que exprime de facto a sua irrelevância política. o de pautas e o de pelouros. que adopta ainda perfis e figurinos diferenciados em relação com os níveis mais ou menos acentuados de integração política e social no Reino.. alfândegas. em dois grandes conjuntos. cabeças de comarca – com Porto e Lisboa à parte – as diferenças se acentuem. naturalmente em relação muito directa com diferentes serviços públicos aí instalados e seu desenvolvimento e complexidade (justiça maior. expressões dessa acentuada diferenciação regional. servidos muitas vezes por escrivães vindos de outros concelhos. Muitas vezes os eleitos – vereadores e os juízes servem todas as tarefas. Os seus orgãos mal se distinguem dos das paróquias/freguesias. em regra como se verifica nos municípios metropolitanos distribuídos por outras instâncias territoriais e magistrados. Ainda mais forte adaptação às realidades político-sociais do território é o que se pode observar com o município insular e colonial-ultramarino. num 1. É possível seguir ainda nas diferentes configurações orgânicas-institucionais que assumem os municípios modernos. os honoráveis locais.) As aproximações de organização institucional fazem-se entre municípios de idêntica dignidade e hierarquia. ensino. Nestes municípios mais pequenos e inorgânicos não se verifica sequer qualquer intervenção do poder real. juízes iletrados. a saber. tesoureiros e às vezes mesmo vereadores. ainda que à medida que se progride para os grandes municípios urbanos. saúde. a afastar da administração camarária e da sua Justiça. o inverso também se verifica. onde os concelhos assumem totalmente os poderes régios e públicos.. Nos pequenos e minúsculos municípios as singularidades ainda são muitas. separados desde logo. que se fez de modo diverso pelos diferentes manchas do território. os de juíz ordinário que são construídos em dois modelos eleitorais também distintos. os municípios de juíz de fora. onde é frequente não existirem em alguns concelhos alguns ofícios ou corpos como a almotaçaria. por um lado.º nível. organização militar. O município adapta-se aí às possibilidades e necessidades públicas e comunitárias da terra. As aproximações são cada vez maiores entre os municípios de juíz de fora. procuradores dos concelhos.54 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS so escrito.

o termo e as aldeias é o território dos devassos. não tem com efeito estudado a História da Administração Municipal do lado dos administrados. do território e termos rurais. do lançamento e cobrança dos impostos régios e municipais. das condenações fiscais. A política municipal. de modo a permitir seguir os campos de oposição. de modo a confrontá-la com os seus críticos e sectores da população particularmente vexada com esta administração. da resistência. o poder e a organização municipal. da crítica aos poderes municipais. do lançamento dos serviços públicos e municipais forçados. A perspectiva dos administrados permite desde logo fixar mais claramente a conformação senhorial que adopta a generalidade dos municípios portugueses de Antigo Regime em meio urbano e sobretudo em meio rural e se exprime em particular. Às dificuldades decorrentes de natureza da estrutura do poder municipal – de carácter político-senhorial e fiscal – acresce o forte enquadramento e tutela da ordem religiosa sobre as paróquias. Por isso esta estrutura municipal. Como permite também fixar os termos da protecção e particular privilégio que o Município promove relativamente ao território urbano – sede de concelho – suas elites políticas e sociais urbanas. estabelece um conflito estrutural básico com as populações rústicas do termo. estabelece uma absoluta separação entre o espaço urbano e o seu território rural do termo concelhio. em especial nos municípios de assentamento urbano. sobretudo a fiscal. É pois de um modo geral “violenta” a relação do poder municipal com esta população devassa dos termos concelhios. enfim. mas também a “coimeira” é aí profundamente gravosa para os termos do concelho e suas populações rurais e faz-se em proveito das vilas e sua população política. A vila é o território das elites sociais e políticas e dos privilegiados desta ordem social e espacial municipal. em especial naqueles domínios e esferas de actuação que mais podem afrontar as populações: no domínio do exercício e aplicação da justiça. Pela sua natureza.ADMINISTRAÇÃO LOCAL E MUNICIPAL PORTUGUESA DO SÉCULO XVIII ÀS REFORMAS LIBERAIS 55 3. É um estudo que deve saber explorar de novos ângulos as fontes documentais da instituição municipal. dos ricos e poderosos locais. Em busca de novas abordagens da História Municipal da Administração Local: a administração vista pelos «administrados». A paróquia Os estudos da História Municipal. dos camaristas. dos colonos. que circunscreve ainda mais as relações entre aquelas ordens políticas administrativas. Daí decorre de um modo geral a dificuldade dos municípios levar e afirmar o seu poder e jurisdição nas aldeias. da condução e colocação da instituição municipal ao serviço do Estado. a . urbana e senhorial. na expropriação dos baldios e no sistema e rateação dos impostos em especial sobre as populações rurais e seguir as resistências e oposições dos grupos e territórios mais afectados.

É por isso necessário seguir melhor os modelos e as estruturas de aproximação das câmaras aos concelhos. Pouco sucesso teriam também os Zeladores de Polícia instalados pós 1790 que o Estado pretendeu estabelecer para impor a ordem pública às terras. pouco influente. pouco envolvente. das prestações de serviços. poucos avanços se produziram na aproximação das paróquias e comunidades inscritas no aro concelhio aos con- . como se pode seguir pelas Memórias Paroquiais de 1758. surgem os “concelhinhos” e governos de freguesias com uma estrutura muito aproximada à dos concelhos – a que tão só faltam às vezes os vereadores – e se avençam e contratam com os seus municípios para fugir aos excessos e violências dos maiores municípios. Ora a paróquia é. dos aforamentos e partilha indiscriminada dos baldios – são muito frequentes por todo o território. Eles são também a expressão do carácter opressivo desta organização. em grande parte por sobre a estrutura municipal. Com Pombal para além das reformas dos concelhos para os configurar no ordenamento régio houve um esforço para valorizar socialmente o exercício dos cargos municipais nas paróquias. É até muito desclassificado pelo papel dos seus juízes e rendeiros. sem qualquer significado para os povos. criam dificuldades intransponíveis à aproximação da Coroa e Municípios régios e da administração pública às populações. o clima de resistência de aldeias às ordens camarárias e municipal é enorme. onde a organização paroquial é menor e menos forte. directamente ou indirectamente pela sua mais forte articulação e dependência dos concelhos. em particular aos termos rurais das paróquias ou freguesias para avaliar melhor as formas de articulação entre ambos os territórios e suas instituições político-administrativas.56 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS civil dos concelhos e a religiosa nas paróquias. se arroga o direito de representar as comunidades fazendo frente ou condicionando fortemente o poder municipal ou seus representantes na paróquia. um poder muito forte sobre a comunidade. Como se pode seguir pelo rol das coimas e volume e montante das coimas. Esta realidade. por um lado. Com efeito apesar dos esforços. Por outro lado é preciso atentar na organização autónoma das paróquias que no Norte. ou a fazer submeter os poderes próprios da paróquia ao ordenamento geral do Reino. A Coroa no seu afã de aproximação e controlo de todas as esferas e espaços da Sociedade intentou as reformas necessárias para colocar os concelhos ao serviço de uma ordem pública. das fintas. esta organização concelhia e esta organização paroquial. Sem grande sucesso. Mas também pela resistência a vir-se empossar às câmaras. e por outro a criar um poder civil na paróquia que se integrasse no ordenamento político geral. pelo menos. o poder municipal é aí descrito muito periférico. Nas terras do Sul. Contratos de moradores dos termos com os municípios – para fugir à violência dos impostos.

da paróquia e dos paroquianos e na fixação de uma tutela e vigilância muito activa das autoridades diocesanas sobre a comunidade paroquial e de fiéis. a comunidade paroquial atinge o pleno do seu reforço. O termo do concelho dificilmente constitui com os moradores de sede e vila uma comunidade de vizinhos. se articulam mais poderosamente com o poder camarário e de algum modo se dignificam as suas tarefas. contra a dos moradores devassos das paróquias do termo rural concelhio. Para além da confraria do Subsino ou do Nome de Deus. a das Almas. Com efeito a comunidade paroquial vinha de uma longa evolução de reforço dos seus suportes demográficos. altura em que os juízes das paróquias. indiferença. alicerçados na construção de equipamentos religiosos e sobretudo de uma muito viva e activa organização sócio-religiosa à volta da constituição de importantes confrarias ou irmandades para o governo material e espiritual da igreja. sejam eles do subsino ou de vintena. mais próximo mal entrara. de 3 importantes confrarias que congregarão os esforços e os sentimentos religiosos da comunidade a saber. com Pombal intentará ir o mais longe possível neste afã de controlar e integrar todo o território. Em regra as paróquias e seus oficiais mantém relativamente às câmaras uma atitude de hostilidade. sociais e sobretudo administrativos. com a instalação dos sacrários e sobretudo da constituição em regra. Mas tal foi sempre a excepção. O Regalismo é sem dúvida o enquadramento privilegiado para tal submissão da ordem religiosa à civil na prossecução dos objectivos da Monarquia Cristianíssima. expresso designadamente na construção e embelezamento das suas igrejas e da animação da vida paroquial à volta da missa conventual. A paróquia é assim um quadro de extraordinária vitalidade. que governam toda a paróquia no civil e eclesiástico. em especial desde meados do século XVIII. afirmação e autonomia.ADMINISTRAÇÃO LOCAL E MUNICIPAL PORTUGUESA DO SÉCULO XVIII ÀS REFORMAS LIBERAIS 57 celhos e às câmaras. Mas a articulação social e política das comunidades à régia administração e poder municipal é uma tarefa localmente encomendada às câmaras. da vila. do Subsino e do Rosário. Aqui porém as dificuldades foram maiores. como se fizeram no neo-pombalismo (pós 1790-92) sob o signo do regalismo e do alargamento do direito régio. No Pombalismo fizeram-se avanços neste domínio. O concelho está fortemente dividido entre a comunidade dos eleitos e dos privilegiados. relativamente à qual os outros poderes e jurisdições tem uma acção totalmente periférica. económicos. O poder real. das elites e do . e religiosos. ao pretender instalar-se no seio da comunidade paroquial. Por meados do século XVIII. porque efectivamente não há continuidade de interesses entre esta ordem municipal tradicionalmente construída ao serviço das governanças. O assalto à fortaleza de paróquia é realmente uma das tarefas a que a Monarquia e a Administração civil se envolverá activamente ao longo da etapa histórica. aí onde o próprio poder municipal.

os regulamentos e posturas e outros ordenamentos e deliberações permitem claramente seguir os destinatários e os beneficiários desta administração. Múltiplos são os testemunhos por onde se podem seguir estas “violências” e “vexações” da administração municipal. almotaçarias. praças e equipamentos. com salários. os regimes das terças. propinas e emolumentos e demais gastos festivos e propagandísticos. a distribuição da renda municipal. E em particular a literatura Memorialística vinda do seio da Ilustração. seguir a sua evolução temporal e distribuição geográfica. nesta etapa. particularmente vexadas com o processo de aforamento dos baldios – particularmente activo pós 1790 – do agravamento fiscal sobre a população não privilegiada dos termos. da violência do recurso aos serviços a prestar nas obras e arranjos das vilas. com efeito. governo e ordem municipal que a constituição social dos orgãos de governo – câmaras. em particular. dos juízes gerais. dos excessos dos rendeiros e coimeiros municipais. Momentos críticos houve. Os aforamentos e os aforantes. calçadas. rendeiros – apresenta em toda a sua nudez nos verdadeiros beneficiários. ao longo do século XVIII as razões de queixa das populações paroquiais contra as câmaras. E há também uma importante literatura que é particularmente rica de informações sobre esta matéria e onde é possível seguir. A leitura atenta dos registos camarários permite entrevê-los.58 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS marco urbano que se constrói e reforça com base no domínio sobre as populações rurais dos termos. em particular a mais radical e revolucionária. em que se revoltariam mesmo em conjunto contra a prepotência dos senhores das câmaras e das vilas. Em grande medida o radicalismo da reforma dos concelhos em 1836 – que extingue cerca de metade dos concelhos portugueses – e lhes reduz os poderes e competências – designadamente retirando-lhe o judicial. Aumentam. . vintenas permite quantificá-las. almotaçarias. utentes e destinatários desta instituição. suas ruas. porque politicamente retrógrada e incapaz de regeneração. a crítica política à instituição. o estudo quantitativo e diferenciado dos actos e decisões das vereações. as tabelas de preços. juízos fiscais. espaço da nobreza mas também de muitas violências – exprime e mede de certo modo também. em especial daqueles ilustrados que seguem de perto a actuação do governo e instituição municipal. Que ganha particular expressão na etapa pombalina (propugnando sobretudo pelo seu enquadramento na ordem e Direito Público) e depois na fase posterior a 1789 em especial a 1790/92 (propugnando também agora pela sua colocação ao serviço do desenvolvimento e felicidade dos povos) assumindo a partir daqui por vezes um cunho particularmente crítico sobre o lugar e papel histórico e moderno do governo e instituição municipal ao ponto de alguns propugnarem pela sua abolição. os radicalismos e as violências com que vem sendo avaliado e criticado o nosso município desde o tempo da Ilustração. das coimas e condenações de câmaras.

Lisboa. Relações de poder na sociedade madeirense do século XVII. Lisboa. 2000. retomado de uma comunicação oral.. Outros trabalhos sobre o tema têm surgido que aí não se encontram referenciados. Mest. 59-72. Dis. Edições Colibri – CIDEHUS-UE. as misericórdias) vêm recebendo a atenção dos estudiosos2.Sociologia das elites locais (séculos XVII-XVIII) Uma breve reflexão historiográfica NUNO GONÇALO MONTEIRO (Universidade de Lisboa / Instituto de Ciências Sociais) Ao longo das duas últimas décadas. elites e poder. A imensa informação recolhida permite que se façam novos pontos da situação e que se renovem as reflexões sobre o tema. tentando apresentar. 2 Cf. 2003. parece necessário propor e discutir novas questões e as metodologias adequadas para se lhes dar resposta. Vila do Conde (1785-1800) : as gentes e o Governo Municipal. outras instituições locais (em especial. Porto. 2 vols. mimeo. . pp. Entre o Antigo Regime e o Liberalismo. entre os quais destacaria: Nelson Veríssimo. «Elites locais e mobilidade social em Portugal no Antigo Regime». Évora 1750-1820. 2003. 2005. 37-81. Ou seja. o estudo das elites municipais tem constituído um dos principais temas de investigação da historiografia portuguesa e objecto de diversas sínteses1. Absolutismo e municipalismo. São Miguel no século XVIII... para que a acumulação de nova informação alargue o horizonte das pesquisas e se não limite a fornecer mais um estudo de caso que ratifica tudo aquilo que se conhece. O objecto deste breve texto. António Ventura dos Santos Pinto. 1 Para uma bibliografia mais detalhada. remeto para Nuno Gonçalo Monteiro. 2001. Mes. Teresa Fonseca. Mas não deixa de revelar alguns impasses. mimeo. síntese recente de Isabel dos Guimarães Sá. 2002 e José Damião Rodrigues. Lisboa. na linha de alguns textos já antes publicados. Lisboa. 2001. Dis. mimeo. Lisboa. Ponta Delgada.. pp. Nuno Pouzinho. assim. Manuel a Pombal. As Misericórdias Portuguesas de D. o de debater algumas vias complementares para o estudo das elites locais. Casa. Dis. Mais recentemente. in Elites e Poder. A Elite Municipal de Castelo Branco entre 1792 e 1878. será.. 1998. Os Municípios no Portugal Moderno: dos forais manuelinos às reformas liberais Lisboa. Dout.

Idem. por um lado. Joaquim Romero Magalhães. diversos trabalhos recentes. sugerem que até às primeiras décadas de seis3 Cruzando informação de: Pedro Brito. O. 1986. São Miguel no século XVIII…. apesar da tendência apontada há muito por Romero Magalhães para a crescente elitização da vida política local7. «A sociedade portuguesa. 6 Cf. in L. in Notas económicas. Francisco Ribeiro da Silva. Coimbra4 e. Mimeo. Ora. 1995. e Ana S. A ideia central é alargar o campo de inquirição das leituras institucionais (como sejam as que pontificavam nas câmaras e misericórdias) para outros terrenos. Romero Magalhães. Coimbra. dout.E. 5 Cf. 1986. Ramos (dir. O Porto e o seu termo (1580-1640). Sérgio Cunha Soares. 1988.C. idem. O poder concelhio: das origens às cortes constituintes.60 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS novos tópicos de análise. 1. Um aspecto que parece fundamental ponderar são as modificações da arquitectura dos poderes locais resultantes da erosão do poder senhorial no decurso do século XVII. por outro lado. entre outros. Porto. O município de Coimbra da Restauração ao Pombalismo. Os escassos estudos sobre elites locais na longa duração A primeira questão que se quer levantar parte de uma constatação: apesar de existirem algumas excepções parciais (o Porto3. tendência que se aprofunda na centúria subsequente.). 1995. . Com efeito. História Social da Administração do Porto (1700-1750). 1986. A. «Os tempos modernos». E. Coimbra. José Damião Rodrigues.º16. Porto. O Algarve económico 1600-1773. sob alguns aspectos o Algarve5 e Ponta Delgada6). n. Revista de História Económica e Social. «As estruturas sociais de enquadramento da economia portuguesa de Antigo Regime: os concelhos». 1997. Acresce que as ilações que deles se podem tirar não são unívocas.º 4.. Ferreira (coord. Maria Helena Coelho e Joaquim Romero Magalhães. 1994 e Idem. 1994. n.).. «Reflexões sobre a estrutura municipal portuguesa e a sociedade colonial portuguesa». 1988. Porto. Lisboa.. Patriciado urbano quinhentista: famílias dominantes do Porto (1500-1580). 7 Cf. 2 vol. 4 Cf. séculos XVII e XVIII». Joaquim Romero Magalhães. Poder municipal e oligarquias urbanas: Ponta Delgada no século XVII. Dis. são escassos os estudos na longa duração sobre elites locais. Poder e poderosos na Idade Moderna. Ponta Delgada. é bem provável que as formas de exercício dos poderes nas províncias no século XVI e no início do seguinte não fossem as mesmas. 1999. Reflexões sobre a história e a cultura portuguesas. Porto. em particular os de Mafalda Soares da Cunha. contra uma imagem demasiado decalcada do século XVII tardio e do século XVIII (a da municipalização do espaço político local). e J. Lisboa. de Oliveira Nunes. cit. a verdade é que a continuidade das elites locais ao longo da época moderna carece ainda de confirmação empírica. in M. História do Porto.

A Restauração de 1640 constituiu. É certo que a venda de ofícios locais e de mercês supe- 8 Cf. 11 Cf. Por outro lado.. Dória. «Os poderes locais no Antigo Regime». 49-54 e 153-161. Lisboa. 12 Ideia desenvolvida em Nuno G. O caso andaluz de Córdova. os poucos estudos disponíveis não são concludentes sobre a continuidade ou descontinuidade multissecular das famílias. Representações (1580-1668).. in César Oliveira (dir.). 10 Cf. 2000. Monteiro. pp. A Casa de Bragança (1560-1640). pp.d. Lisboa. nova ed. Cultura. e A.105-138. História de Portugal Restaurado. 425-427. nota D. 1996. que o cenário era distinto do que encontramos no século XVIII. Mafalda Soares da Cunha. Nuno G. Porto. «Os poderes locais no Antigo Regime». quando quase toda a primeira nobreza do reino residia na corte e quando o número de terras sujeitas a jurisdição senhorial e. in Conde de Ericeira. Poder e oposição política em Portugal no período filipino (1580-1640).. 9 Cf. Se admitirmos que essa evolução representou uma efectiva mutação institucional12. História dos Municípios e do poder local. Monteiro.234-235. 1640-1820». então coloca-se a questão de avaliar até que ponto antes e depois as lógicas de estruturação dos equilíbrios e dos poderes locais eram diversas. António de Oliveira. 1998. uma viragem importante. s. «Poderes e circulação das elites em Portugal. «A nobreza portuguesa e a corte de Madrid». História dos Municípios…. A casa e o património da aristocracia em Portugal (1755-1832).. sobretudo pp. 2000. 1990. exemplarmente estudado por Enrique Soria Mesa. pp. A esse respeito um bom referente comparativo é nos fornecido pelos trabalhos sobre as elites locais dos territórios da coroa de Castela. Práticas senhoriais e redes clientelares. 207-256. a efectividade do exercício das respectivas prerrogativas por parte dos senhores parecem ter recuado sem apelo11. Lisboa. O Crepúsculo dos Grandes. constitui uma excelente ilustração. pp. in Portugal no tempo dos filipes.. que havia muitos fidalgos principais residentes nas províncias9 e que. 49-54. Monteiro. finalmente. in César Oliveira (dir. eventualmente. Lisboa. Nuno G. Política. Lisboa. Fernando Bouza Álvarez. Ou seja.).A. 488-489. Independentemente da legislação restritiva do século XVII sobre a elegibilidade para os ofícios locais. pp. Monteiro. as redes clientelares destes tinham uma efectiva vitalidade e influência10. . A migração por alturas de 1640 de muitas famílias principais para a corte. neste como em outros terrenos. in Elites e poder. pp. com evidentes implicações nos destinos individuais e familiares.SOCIOLOGIA DAS ELITES LOCAIS (SÉCULOS XVII-XVIII) 61 centos os poderes senhoriais eram geograficamente muito amplos8 e efectivamente exercidos. Nuno Gonçalo F. este elemento pode ter pesado também na composição dos grupos que nelas pontificavam. a gradual distensão dos laços clientelares que estas podiam estabelecer com as províncias pode ter dado lugar à emergência de novos protagonistas.

Transformaciones y permanências en una elite de poder (Córdoba. E.) las Casas medianas (. É certo que as fontes portuguesas (designadamente. Madrid. 1996.. é só depois de 1755 que os arrolamentos se tornam frequentes no Desembargo do Paço. muitas histórias de ascensão bem sucedidas18. en particular.) a finales del XVII»15. p. apesar das diferenças. No entanto. mas sempre com uma «ficção de provas» e de genealogias que lhes asseguravam uma antiguidade e fidalguia. muitas com sangue converso. O que designou por «el cambio inmóvil». p. 13 Enrique Soria Mesa. .101-103 16 Cf. alcanzaron el poder grupos oficialmente excluidos de los honores y las dignidades». Em todo o caso a comparação é legítima e possível. ss XVI-XVIII). as quais procuravam limitar de várias maneiras o acesso dos adventícios aos respectivos ofícios. «seguramente. «Elites locais e mobilidade social…»... ibidem.. 1606-1808). de forma general. o que em parte explica a abundância de estudos centrados nessa etapa tardia17. quase sempre antecedidas por uma etapa de acumulação de capital económico no terreno mercantil ou outro.. em seu lugar foram ascendendo outras.13 14 Idem. Poder y oligarquia urbana (Madrid.) para eso están los genealogistas»13. o caso de Madrid não parece ser radicalmente diferente daquele que se acaba de apresentar16.. Em Córdova. em larga medida inventadas. Também é verdade que muitos dos trabalhos já efectuados abrangendo centros urbanos de alguma relevância nesse período (grosso modo. nueva sangre en las élites. apesar disso.66 e seg.. Córdoba. A la sombra de la corona. ibidem. empiezaron a abandonar el municipio (.. O exemplo sumariamente descrito parece muito sugestivo.) las grandes Casas nobiliarias cordobesas (. mas necessárias para lhes conferir o estatuto de membro de pleno direito do restrito grupo dirigente local. 18 Cf. El cambio inmóvil. «las élites tradicionales. segunda metade de setecentos e início de oitocentos) indicam que a governança era controlada por um núcleo muito reduzido de famílias. y en la Córdoba de los siglos XVI al XVIII. los antiguós linajes.15 15 Idem. pero se mantendrá la ficción de que nada puede cambiar (. cambio sustancialmente la composición social de la élite gobernante. se transformaron muchas cosas. os arrolamentos da nobreza das terras) só se tornam profusas para finais do Antigo Regime.. «habrá transformaciones. Nuno Gonçalo Monteiro. pp. Mauro Hernández. não apenas conhecemos. 17 Na verdade. traduziu-se no facto de «en la Monarquia Española.) ya en le siglo XVI (. la ciudad más aristocratizada de España en la Edad Moderna»14. p.62 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS riores (senhorios e até títulos) introduzem uma componente que não tem paralelo no caso português. 2000. para onde eram remetidos os das terras da coroa..

19 Cf. depois. a única forma de comparar um grande número de municípios de distintas regiões. no fim de contas. Fidalgos de cota de armas do Algarve. Gostaria de acrescentar que.: Miguel Maria Telles Moniz Corte-Real. dita reino. contrariando a imagem da afirmação gradual de uma nobreza camarária sem raízes fidalgas numa província onde a nobreza de sangue teria sido sempre muito minoritária. . Camarate. Aí se constata que «é de verdadeira nobreza a maioria das famílias que detêm o poder nos concelhos urbanos do Algarve até ao século XVII. no entanto. e idem. de sublinhar duas questões: desde logo. com um máximo percentual de 64% no século XVI». p. 2003. Sem pretender refutar a crítica. Nos séculos XVIII e inícios do XIX «(a)ssiste-se à inversão da base sociológica do grupo dos vereadores nas principais câmaras do Algarve (…) o poder radica agora numa nobreza de função. gostaria. Em síntese. O seu autor. Tabardo. o facto de o uso desse tipo de fontes constituir. já depois de elaborada a versão inicial deste texto. representando a nobreza de sangue nos mesmos concelhos principais antes recenseados apenas 19% do total dos vereadores . 20 O autor afirma. em cada contexto. n. pp. que no texto «Elites locais e mobilidade social…» fui induzido em engano no que ao Algarve se refere. para a qual Romero Magalhães chamou há muito a atenção. «Para o estudo das elites do Algarve no antigo Regime. «Para o estudo…». que ascendeu graças à riqueza acumulada no trato mercantil». a cronologia e os ciclos na longa duração de maior estabilidade e de maior renovação das elites municipais. Fidalgos Nobres e demais privilegiados no poder concelhio». corroboradas pelas investigações muito mais aprofundadas do próprio autor. até ao século XVII. «o Algarve foi um espaço característico da nobreza de sangue». e. certamente com fundamento. modificou significativamente as perspectivas até agora prevalecentes sobre a evolução da elites locais na referida província.SOCIOLOGIA DAS ELITES LOCAIS (SÉCULOS XVII-XVIII) 63 como parece indispensável estabelecer. que as minhas conclusões acerca da escassa presença da fidalguia de sangue nas vereações algarvias no início do século XIX foram. ao usar os róis de vereadores por causa das «omissões» desse tipo de fontes (cf.º 2. portanto. cruzando relações de vereações camarárias20 com o estudo do acesso de naturais do Algarve a cartas de brasões de armas e outras distinções da monarquia. 53. o autor mostra-nos que esse processo foi a sequência da regressão das antigas famílias da fidalguia local dominantes nos séculos XV e XVII.51-110. associada à ruralização e decadência económica seiscentista. 2003. nota (3)). me foi dado consultar uma investigação sobre o Algarve que mostra bem as virtualidades dos estudos na longa duração19. no estado actual da investigação. «quando inicia a sua ruralização e decadência».

Em resumo. Desta forma. Fernanda Olival. mas. Nada de semelhante se verificava em Portugal. . frequentemente contraditória. muito sumariamente. as quais só se alcançavam pelo real serviço. quase só pelo serviço ao rei. A ascensão na hierarquia nobiliárquica podia fazer-se. que só tem relevância a certos níveis. mas ainda ofícios locais nobilitantes. para os efeitos agora considerados. podia chegar a abrir o topo da pirâmide nobiliárquica. mas as coisas são quase sempre mais complexas. de resto sempre em número de cerca de meia centena até 1790. 21 Cf. «Notas sobre nobreza. Nuno Gonçalo Monteiro. 15-51. 237 e seg.º 10. não só outras distinções nobiliárquicas inferiores. Poderíamos. a riqueza. pelo menos depois de meados de seiscentos. como uma forma de acumulação de capital económico – e pelo modo de vida. até certo patamar. são mesmo dois momentos distintos nas trajectórias das famílias ao longo de várias gerações. 2001. Honra. pp. 1987. n. ao invés da polarização entre nobres e não nobres (ou nobres e mecânicos). as diferenças com Castela são muito relevantes. in Ler História. fidalgos e primeira nobreza de corte21. fidalguia e titulares nos finais do Antigo Regime». mercê e venalidade: as Ordens Militares e o Estado Moderno. Como eloquentemente demonstrou Fernanda Olival22. consagrada pelo tempo. 22 Cf. A história das famílias constitui um terreno ainda em larga medida por explorar Tal como já tive muitas vezes oportunidade de destacar. pela riqueza – nesta se podendo incluir as alianças matrimoniais. não consta que se vendessem senão em casos excepcionais depois de 1640. foi sempre possível comprar hábitos a quem já tinha recebido a respectiva mercê da coroa. a legislação. pp. tal como os senhorios que antes se transaccionaram. daí para cima e de forma progressivamente mais apertada. A monarquia vizinha vendia. não consta que se comprassem comendas. a partir de finais do século XVII. aquilo com que nos defrontamos em Portugal é com uma miríade de distinções e hierarquias e com a extrema dificuldade em definir uma hierarquia nobiliárquica abrangendo todo o espaço geográfico e social da monarquia. Lisboa. De resto. Mas. Neste ponto. Em geral. está longe de nos resolver inteiramente o problema. ao contrário do modelo castelhano. não se podiam comprar as distinções superiores da monarquia. senhorios e até títulos.64 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS 2. distinguir entre simples nobres. Só que o serviço ao rei tinha inexoráveis condicionalismos. nem tão pouco os títulos nobiliárquicos.

no trabalho modelar de Pedro Brito26. F. 27 Op. no de José Damião 23 Cf.). Familia. etc.. Em termos muito sumários. pois também aí pesava. e. 25 Cf. no livro de Mafalda Soares da Cunha27. no governo das conquistas foi uma das portas possíveis. Não tanto porque se criassem instituições novas (matrículas da casa real. que constituía em si mesmo um signo de capital social25).. se foi tornando cada vez mais difícil. 2 vols. títulos. Elites Ibero-Americanas do Antigo Regime. Uma das formas de apreender essas apropriações e. Portugal – séc. in Francisco Chácon Jiménez e Juan Hernandez Franco (eds.SOCIOLOGIA DAS ELITES LOCAIS (SÉCULOS XVII-XVIII) 65 De facto. uma imensa ruptura no equilíbrio entre grupos nobiliárquicos. mais recentemente. 26 Op. Para além de só estes permitirem medir a difusão ou não do padrão da primogenitura (o que se pode designar de «modelo reprodutivo vincular». cf. de Murcia. pelo menos a prazo (depois do fim da Guerra. cit. . Nuno G. tanto em termo de produção de serviços à coroa ou de acumulação de capital económico. in Optima Pars. e esta é uma ideia forte que importa de reafirmar. a Restauração representou. «Governadores e capitães-mores do império Atlântico português nos séculos XVII e XVIII». Instituições e Poder Político. pp. No puzzle das instituições locais e centrais disponíveis. porque tendencialmente monopolizado pela «primeira nobreza de corte». tudo vinha de trás). e ao invés de Castela. pode afirmar-se que o acesso aos ofícios e aos serviços que permitiam receber as tais mercês superiores da monarquia. embora com limitações inexoráveis. e muito. quanto pelas novas apropriações sociais e institucionais que se fizeram das instituições existentes. poderosos y oligarquías. Lisboa. Univ. morgadios. 1668). são os estudos de reconstituição de famílias ao longo de períodos razoavelmente dilatados no tempo. Lisboa (no prelo). as lógicas de reprodução social. comendas. como no plano das alianças matrimoniais. As vésperas do Leviathan. porque em larga medida apropriadas pelas da corte24. senhorios. XVII. 17-37. a qualidade de nascimento. Há algumas aproximações a este tipo de abordagem – por exemplo. a ascensão das elites locais em Portugal desde finais de seiscentos encontrava-se limitada pelas dificuldades que encontravam em aceder aos ofícios e às mercês do centro23. sobretudo. habilitam-nos a medir até que ponto determinadas elites se enquistavam nas instituições locais ou se alargavam a espaços mais amplos. Murcia. chamada de atenção para o problema em António Manuel Hespanha. 24 O serviço no exército e. Mafalda Soares da Cunha e Nuno Gonçalo Monteiro. 1986. 2001. «Trajectórias sociais e formas familiares: o modelo de sucessão vincular». Monteiro. Deste ponto de vista. cit. mais globalmente. parece que estas últimas só dificilmente estiveram ao alcance das famílias provinciais.

acerca dos quais já antes se destacaram as dificuldades que levantam. nas não ainda uma utilização sistemática desta metodologia clássica. Existia.66 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Rodrigues28 –. existe um fantástico fundo de produção de genealogias que facilita muito o trabalho. Não se ignoram muitas objecções que se podem colocar a esta escolha. cit. Em trabalho anterior. a esse propósito. o ponto de partida. pelo menos para quem se ocupe de grupos fidalgos (mas não só)29. com efeito. Uma boa base de reconstituição de famílias permite muitos tipos de tratamento. Cit. o estudo das elites locais a partir das famílias e das casas tem inequívocas potencialidades. das famílias e das respectivas estratégias de reprodução social30. A maior dificuldade é. Apesar das limitações apontadas. evidentemente. Uma das quais é. Menos substantivas parecem as reservas sobre a informação conjuntural que se perde ou sobre as virtudes das análises de redes. Qual a base para a escolha? Qual o critério a eleger para reconstituir as famílias? A opção não é fácil e supõe sempre uma definição de critérios de hierarquização nobiliárquica. 30 Op. Geografia da nobreza e fidalguia e construção de casas nobres Nas mais de oito centenas de municípios do reino. as quais estavam longe de constituir o único centro de interesse para as principais famílias locais. O quadro que desenha fica assim muito mais completo e matizado. a famílias principais e as «elites camarárias» nunca constituíram uma categoria social uniforme. O livro recente de José Damião Rodrigues constitui. Ir-se-ão resumir esses dados para depois discutir uma outra dimensão da questão. uma geografia diferencial das elites provinciais. bem como outros ulteriores. um bom exemplo: estuda as famílias principais enquanto «oligarquias municipais». esboçou-se uma geografia dos níveis de riqueza e de nobreza das elites locais. matéria à qual se regressará. Os historiadores académicos pouco têm explorado as potencialidades dos fantásticos fundos de produção genealógica da época estudada. . mas depois procede também à sua análise detalhada do ponto de vista das casas. sem sombra de dúvidas. aos quais se poderiam acrescentar os das ilhas e até das conquistas.Miguel…. O exercício de comparação de arrolamentos camarários em finais do Antigo Regime permite concluir que genericamente as elites locais eram 28 29 S. o de emancipar este território de pesquisa de um excessivo enquistamento nas instituições municipais. 3. Ora.

do que as do interior (Lamego e Viseu). nesta matéria. os resultados apurados33 destacam. acabando as duas dimensões por tender a coincidir. o peso esmagador da antiga província do Entre-Douro-e-Minho. no Douro próximo da região demarcada do vinho do Porto. Nuno Gonçalo Monteiro. 33 Distribuição de casas por distritos actuais Braga Porto Viana Viseu Guarda Coimbra 40 31 28 28 18 14 Évora Aveiro Bragança Leiria Castelo Beja 13 12 10 6 5 4 Faro Vila Real Lisboa Setúbal Portalegre Santarém 4 4 3 3 2 1 . como seria de esperar. Mas 31 32 Cf. Cf. as povoações sede de comarca do litoral (Aveiro. mas agora concentradas em centros urbanos. em muitas povoações alentejanas não havia um único fidalgo reconhecido. principiando por retomar a divisão distrital actual (18 distritos do continente). Nuno Gonçalo Monteiro.SOCIOLOGIA DAS ELITES LOCAIS (SÉCULOS XVII-XVIII) 67 mais ricas nas mesmas terras onde eram também mais fidalgas. in José Portela e João Castro Caldas (ed. encontrando-se aí dispersas por muitas povoações e até termos concelhios. Globalmente. «Elites locais e mobilidade social…». Portugal Chão. Oeiras. Num exercício efectuado a partir de uma amostra escassa (apenas 223 casas) sobre a distribuição geográfica desse património edificado no território português do continente32. menos presente no Sul do que no Centro e no Norte) com a maior riqueza e alguma mobilidade social (muito dinheiro do Brasil foi parar às casas do vale do Lima. Algumas notas». Também. embora nunca demasiado rápida e abrangendo quase sempre apenas certas famílias ou casas31. O estudo das casas armoriadas no território do continente português edificadas ou restauradas dos séculos XVII e XVIII fornece um indicador da vitalidade e da densidade das fidalguias provinciais. «A patrimonialização do espaço social rural e o património edificado. De acordo com a informação recolhida. verifica-se que. ao mesmo tempo que sugere as dificuldade que estas tinham em aceder ao centro. pp. quase 44% do total. cit. Leiria. Coimbra. Torres Vedras) tinham claramente menos importância. com 99 casas. as câmaras mais ricas e mais fidalgas não traduziam linearmente a presença de uma fidalguia muito antiga mas sim a confluência de uma herança de fidalguia anterior (dos seus símbolos e modos de vida. eram mais ricas e mais fidalgas no Minho. 217-230. em apenas cerca de meia dúzia de terras do Alentejo. 2003.). por exemplo). de resto. que está longe de ser muito completa. No centro. na Beira Alta.

uma hierarquia nas nobrezas provinciais. Se. quer os estudos monográficos35 que se prendem com o tema que estudaremos de seguida. apesar de tudo. Subsídios para o estudo da nobreza arcoense. como se acaba de constatar. 1989-2004. No entanto.. Miranda Vila Viço. Casas armoriadas do concelho de Arcos de Valdevez. em larga medida.. A hierarquia da nobreza das províncias Existia. têm inequívocas potencialidades. . por exemplo. Luís Pimenta de Castro Damásio et al. portanto. será muito difícil identificar alguma vez todas as casas armoriadas ou inequivocamente fidalgas que existiram no continente português durante o Antigo Regime. torna-se possível esclarecer algumas dimensões suplementares: verificamos que. 4. as comarcas da Beira interior aparecem à frente do Centro Litoral. apesar da subavaliação do Sul e de todas as limitações das fontes. cujas virtualidades importa explorar. só parcialmente exploradas no caso português. de acordo com as fontes consultadas. partindo dos elementos recolhidos. diversamente. Armando Malheiro da Silva. Por razões várias. Uma vez mais. Acresce que. 5 vols. que aqui não cabe detalhar. muito à frente do Centro Litoral e do Sul. quando existiam 48 comarcas. a história casas-edifícios confunde-se com a das famílias e das «casas e morgados». 123 ficavam em comarcas «do interior»34. detectar uma apreciável correlação positiva entre as zonas e as localidades nas quais detectámos elites locais mais ricas e com signos nobiliárquicos mais destacados e aquelas nas quais se detectam também maior número de casas armoriadas. de resto. Para além da referida distinção entre nobres e fidalgos (explicita. em regimentos 34 As 16 comarcas de Antigo Regime com maior número de casas Viana Guimarães Viseu Coimbra 27 23 17 16 Porto Barcelos Braga Évora 15 13 13 10 Lamego Guarda Trancoso Feira 10 8 7 6 Penafiel Castelo B. é possível. trata-se de uma via de investigação alternativa à análise centrada na instituição municipal. num total de 226 casas. Arcos de Valdevez. 35 Cf. Embora a coincidência não seja perfeita. retomarmos a geografia em comarcas existente em 1825. As duas coisas parecem coincidir. quer as tentativas de aproximação de conjunto.68 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS depois vem claramente a Beira Interior. de resto. Uma vez mais. bem espelhada no espaço. 6 5 5 5 NOTA: Os territórios encravados da comarca de Barcelos foram incluídos naquelas com as quais tinham contiguidade territorial. no sentido antes referido de «modelo reprodutivo vincular».

de cujas listas já constavam os seus antepassados pelo menos século e meio antes37. Desembargo do Paço. a pertença a um mesmo rol de elegíveis para a governança de um município não servia para criar uma identidade social comum.º 1661). avultariam mais de cem mil cruzados por ano.) unidas no suplicante. Charles Boxer. Uma exemplar é a da impugnação que em 1786 João do Carvalhal Esmeraldo da Ilha da Madeira. Nelson Veríssimo. Joana Teresa do Carvalhal Esmeraldo Atouguia e Câmara. é possível. 1965. de Belmonte. e sendo. foram raríssimos os fidalgos de província que casaram os seus filhos ou filhas sucessoras com a prole dos Grandes do reino desde finais do século XVII a inícios do XIX. Macao. e o 36 Cf. ele era e tinham sido «seus Avós Paternos. Bahia and Luanda. Por outro lado. era imediato sucessor da grande casa que fora do avô materno e que administrava uma tia. assim como muitas outras da Primeira Nobreza». importa recordar duas questões sobre as quais muito se tem insistido. D. The Municipal Councils of Goa. é «fidalgo cavaleiro» (da casa real). ou em seu filho. descendendo pelo lado paterno do (único) Conde de Vila Pouca de Aguiar. 38 Francisco Roque de Freitas de Albuquerque da dita ilha pretendia contrair matrimónio com uma filha do personagem antes citado. embora muitas explicitamente o tivessem pretendido. fez ao matrimónio da sua quinta filha com outro fidalgo arrolado na mesma lista e acabado de fazer sargento-mor. Corte. maço n. como antes se disse. tendo como referência sobretudo o século XVIII. Poder-se-iam retomar muitas histórias. Existiam na província seguramente mais de uma. Em primeiro lugar. talvez mais de duas dezenas de casas com um rendimento equivalente ao das menos afortunadas casas na primeira nobreza da corte.. «pelo motivo de desigualdade em qualidades»38. Desde logo. tendo então 36 anos (IAN/TT. tentar esboçar outros limiares.. Fidalgo da Casa Real e o primeiro arrolado para a Câmara do Funchal. e Maternos.SOCIOLOGIA DAS ELITES LOCAIS (SÉCULOS XVII-XVIII) 69 como os da câmara de Goa36). . cit. além da casa que herdara de seu pai. que. No arrolamento dos elegíveis para vereador da câmara do Funchal em 1787 João Carvalhal Esmeraldo aparece em primeiro lugar. No entanto. Op. Portuguese Society in the Tropics. e da Cova. Entre outros argumentos. o que não desconheciam. 37 Cf. Fidalgos muito distintos». tem 53 anos e é reputado «rico». pelo que «a antiga Nobreza destas duas casas (. dos Mellos. ao contrário do pretendido noivo. no divórcio que se foi cavando cada vez mais entre as elites da corte e as das províncias. «aparentado com as casas de Unhão. Madison. mas em quadragésimo segundo lugar e apenas com «bens suficientes».. Francisco Roque de Albuquerque também surge na mesma lista. apesar das dificuldades apontadas. o pai da desejada noiva alegava que. pelo lado materno.

cit. cit. «Elites locais e mobilidade social…». e titulares famílias deste Reino. . a fronteira entre a nobreza antiga de pelourinho e a fidalguia de linhagem não é fácil de definir. fosse pelo rendimento respectivo. pois apenas se reportando aos que tivessem o foro de «moço fidalgo e daí para cima». como disse. não nos deve fazer esquecer que no século XVIII cada vez mais as instituições centrais tenderam a fazer equivaler a fidalguia às matriculas da casa real. Mafalda Soares da Cunha e Nuno Gonçalo Monteiro. no entanto. que veio a ser o 1.º Conde do Carvalhal feito em 1835. até pela consabida falta de controlo no acesso e uso das cartas de Brasão de Armas. Um indicador indirecto. o saldo da história não fugiu à expectativa: a filha acabou por casar como pretendia. ICS. 41 Cf. pois o único filho sobrevivente. por isso excepções) existiriam nas províncias do reino algumas centenas de fidalgos da casa real que delimitavam um segmento superior das nobrezas locais. na regulação do acesso ao Colégio dos Nobres ou na lei dos casamentos de 1775 (há muito poucos moços fidalgos fora da corte)40. estas casas tinham uma geografia das suas alianças matrimoniais que se estendia a todo o reino e aspiravam a servir a monarquia em lugares de algum destaque. num sentido ainda mais restritivo. «Governadores e capitães-mores do império Atlântico português nos séculos XVII e XVIII». mais antigos e que usavam armas nas fachadas das suas casas.70 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS intitulavam a pretender nobres e distintas alianças. mas significativo. pode encontrar-se no recrutamento dos cavaleiros da Ordem de Malta. Isso é claro. mas essa declarada pretensão seria dificultada pela aliança em causa. a quem algumas das mais distintas. não duvidariam dar uma filha». Curiosamente. Nuno Gonçalo Monteiro. Curiosamente. morreu solteiro39. Fosse pela qualidade dos imputados ascendentes. É importante destacar. e o pai não conseguiu o que queria. o que algumas vezes conseguiram (designadamente no exército e nas conquistas no século XVIII)41. As lutas pelo acesso às vereações e aos arrolamentos de nobres recentes contra presuntivos fidalgos. 40 Cf. principalmente para o seu filho mais Velho. que se pode circunscrever uma categoria ainda mais restrita que podemos definir como a da principal fidalguia das províncias. a única ordem efectivamente 39 Retomado da investigação em curso: Trinta Casamentos contrariados e outras histórias. Mas também nas habilitações da Ordem de Malta se tendia a fazer equivaler a fidalguia imemorial às matriculas da casa real. Embora a variação dos critérios locais não se possa perder de vista (e a regra tenha. É difícil. Litigiosidade inter-familiar e noções de nobreza em Portugal (1750-1832). estabelecer uma hierarquia das nobrezas abaixo dos Grandes e da primeira nobreza de corte.

estas casas e famílias casavam muitas vezes fora das províncias de origem. dispomos de informações para 174 cavaleiros. os Pereiras Coutinho de Penedono ou os Silva da Fonseca de Alcobaça. uma dimensão axial da questão e uma 42 Cf. Ou seja. 92 (ou seja. Mas dá uma excelente amostra do conjunto. aceder à corte. 5. Em síntese. 43 provinham da Beira. vamos encontrar precisamente muitos daqueles que mais buscavam fugir aos ofícios locais. portanto. os Pais do Amaral de Mangualde. Lisboa. Mimeo. 2003. 52%). para o período compreendido entre 1691 e 1826. sugerir vias possíveis de renovação de um território muito explorado nos últimos anos. E. servir a monarquia e. 324 e seg. Dis. Os cavaleiros da Ordem de S. militar e religiosa (destinava-se a secundogénitos) existente em Portugal. existia um pressuposto fundamental bem conhecido. Os 92 indivíduos reduzem-se assim a 70 casas ou famílias ou até a menos (56) se considerarmos os laços de parentesco em primeiro ou segundo grau. Trancoso e Viseu) e 18 do Minho. no sentido de que algumas casas nela criaram raízes e foram fornecendo recorrentemente maltezes (chegou a haver 5 irmãos maltezes!). Ao todo. não pertenciam à nobreza da corte. A Ordem de Malta não fornece. Maria Inês Versos. das mesmas zonas onde detectámos mais casas armoriadas! Entre os maltezes vemos filhos segundos de muitas das mais destacadas casas da primeira fidalguia provincial..SOCIOLOGIA DAS ELITES LOCAIS (SÉCULOS XVII-XVIII) 71 fidalga. que foi estudada recentemente por Inês Versos42. os Pintos de Lamego (que deram um Grão-Mestre e depois o Secretário de Estado e Visconde de Balsemão). dentro deste segmento mais restrito da fidalguia principais das províncias. De resto. Na época estudada. Nota final Nas páginas anteriores percorreram-se alguns temas da historiografia recente sobre as elites locais em Portugal no Antigo Regime. no plano geográfico: dos 92 referidos maltezes. pp. . Desde logo. que constitui. ao mesmo tempo. quase só do que hoje chamamos Beira interior (sobretudo comarcas de Lamego. como. uma relação de todas as casas da primeira nobreza das províncias.João de Malta em Portugal de finais do Antigo Regime ao Liberalismo. É claro que não se trata de uma imagem de conjunto da primeira fidalguia das províncias porque a Ordem de Malta era uma questão de casas e famílias. Guarda. Mest. Procurou-se. em particular. por fim. nem mesmo as poucas centenas de fidalgos da casa real existentes nas províncias chegavam a definir uma categoria social uniforme. Destes. mas à fidalguia das províncias.

1709). Em síntese. . que as «elites políticas» locais fossem recrutadas nas «elites sociais» locais (para retomar uma outra terminologia). identificadas pelo seu grau de nobreza. cristandade e desinteresse» (Alv. as famílias mais nobres e antigas podiam não estar interessadas no acesso aos ofícios locais. Inversamente. nos quais os seus antepassados pontificavam há muitas gerações. assim. procurava. o acesso à elite local podia ser a forma decisiva de serem reconhecidos como membros da elite social. a todos os níveis. de 18 de Out. Para os grupos em processo de acumulação de capital económico. das «pessoas da melhor nobreza. na qual não tinham nascido. Esse modelo do que numa terminologia weberiana chamaríamos uma administração de honoratiores. não coincidiam necessariamente. portanto. repousasse nas mãos dos mais nobre das terras. partindo do postulado de que estas seriam as mais desinteressadas e também aquelas cuja autoridade seria mais facilmente acatada. Alguns dos exemplos apontados nessa direcção parecem corroborar as suas indiscutíveis virtualidades.72 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS fonte quase perpétua de ambivalência: a cultura política prevalecente e a generalidade das intervenções legislativas da monarquia pretendiam que o governo local. nas próprias disposições normativas da época. No entanto. o que em larga medida se propôs nas páginas anteriores foi que se desloque o centro da análise dos grupos dominantes locais das «elites políticas» para as «elites sociais». Os dois planos confundiam-se.

I. . p. gradualmente organizadas. os vencimentos. aos munícipes. a partir da época liberal. mas também a debilidade burocrática da época1. as funções. a colaboração com materiais e mão de obra nas obras municipais e muitas outras. em serviços públicos. 43-48. Edições Colibri – CIDEHUS-UE. 373.). das reuniões de vereação. Lisboa. como a repartição e cobrança de impostos. Finanças. mais evidente no interior do país e fora dos grandes centros urbanos. Para a história da administração pública na Lisboa seiscentista. possuía. O seu número era também variável. No entanto. a extensão e os habitantes dos municípios. 2005. Braga. Em qualquer dos casos. entre a segunda metade do século XVII e o primeiro vinténio do século XVIII. dotada de um sistema administrativo excepcional no conjunto dos municípios portugueses. A designação. divergiam consoante os concelhos. reflectindo as especificidades administrativas concelhias da época. José Viriato CAPELA. vol. a função de guias e caminheiros. João Pedro FERRO. 1996. Planeta. auxiliando os seus agentes nas mais variadas tarefas da governação e assegurando o quotidiano camarário nos intervalos. reflectindo a escassez de quadros técnicos. polic. o modo de provimento e até a origem social. a média nacional do pessoal camarário nos municípios com juiz de fora não passava de sete elementos3. Os Municípios no Portugal Moderno: dos forais manuelinos às reformas liberais Lisboa. de um elevado número de funções.O funcionalismo camarário no Antigo Regime. compensado pela imposição. de longe a maior e mais populosa cidade do Reino. pp. 1750-1830. Nas vilas de Caminha e de Montemor-o-Novo era este precisamente o seu 1Este 2 3 reduzido aparelho administrativo era. Entre-Douro e Minho. 1987. o transporte de presos. Lisboa. um montante de funcionários excepcionalmente elevado: cerca de 6802. Sociologia e práticas administrativas TERESA FONSECA (CIDEHUS) O funcionalismo camarário constituiu um dos pilares da administração local do Antigo Regime. administração e bloqueamentos estruturais no Portugal Moderno (tese dout. no entanto. p. mantinha-se consideravelmente inferior ao actual. consoante a categoria políticoadministrativa. 73-86. mais ou menos longos e irregulares.

13 J.H. p. vol.. I. Colibri. (Arquivo Distrital de Évora) / C.E. aproximadamente o mesmo no Porto10 e 14 em Évora11. António Henriques da Silveira e as «Memórias analíticas da vila de Estremoz». era também variável.M. os aferidores dos pesos e medidas e o escrivão do real da água.A. CAPELA.037. Receita e Despesa (1813-1838). Nas localidades com categoria de sede de comarca. 37 em Vila Real9. vol. Câmara Municipal. . 8 J. 373. Mas Chaves e Arraiolos possuiam quatro5. p. Teresa FONSECA. Lisboa. 4 Para Caminha veja-se J.74 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS número4. Universidade do Minho. Braga. 2003. Cx. as instituições e o poder. 339. vol. p.. Relações de poder no Antigo Regime. p.M. O município de Chaves entre o absolutismo e o liberalismo (1790-1834).A. in Teresa FONSECA. 7 José Viriato CAPELA.E.). Elites. E para Montemor. Receita e Despesa (1809-1817). Porto. CAPELA. p. 1997. que no entanto provia ainda um elevado número de funcionários. Nos municípios presididos por juizes ordinários o seu número. O Porto e o seu termo (1580-1640). 8. Incluímos apenas os funcionários com ordenado pago pela edilidade. 86-87. f.. Entre-Douro e Minho . 9. 155-156. Estremoz.B. 271. Receita e Despesa (1800-1812). 528-532. 11. incluído nesta contagem do autor. 1995. os que dependiam do juízo do geral ou do juízo dos órfãos. . C. V. 1750-1820. “Memorias annaliticas da Villa de Estremoz”. I. 10 Francisco Ribeiro da SILVA. 595-689. do terreiro do pão. 12 Arquivo Histórico Municipal de Estremoz (A. f. I. Mas a sul do Tejo o montante crescia. Entre-Douro e Minho. (Câmara Municipal de Borba). CAPELA. 48 e 52. E para Arraiolos. Montemor-o-Novo. em virtude da maior extensão destas circunscrições administrativas e das distâncias entre as diferentes localidades. 24 (1775-1814). possuía 812.. 253 e 254. vol. p.). 5 Para Chaves veja-se Rogério Capelo Pereira BORRALHEIRO. / E / 001 / Lv. p. 77. Os homens. 372. p. Absolutismo e municipalismo. p.. pp.E. 2000. Câmara de Estremoz (C. Braga. p. Lisboa. 3. E Lv. no entanto. Entre-Douro e Minho ..038. constituíam uma média de doze para um conjunto de treze câmaras. A administração municipal em Montemor-o-Novo (1777-1820). Na região de Entre-Douro e Minho. 6 A. Vila Nova de Cerveira. Borba três6 e Vila Nova de Cerveira apenas dois7. o montante subia consideravelmente: 31 em Braga8. ed. Desconhecemos. 1988. embora inferior. a.D. 25. Entre-Douro e Minho.M. (Arquivo Histórico Municipal de Arraiolos). Estão no primeiro caso os funcionários da almotaçaria. poder e governo municipal. 46. sendo as principais funções exercidas por oficiais dos concelhos vizinhos13. 9 José Viriato CAPELA. 210. 27. . Excluímos o juiz de fora. e no segundo. Câmara Municipal.H. o segundo mais importante município da comarca de Évora e também sede da sua própria comarca até finais do século XVI. V. A.. V.M. se integrou neste cômputo outros magistrados régios sediados na cidade. Évora. II. (Câmara Municipal de Arraiolos). Colibri.. Sobre a questão da comarca de Estremoz. veja-se António Henriques da Silveira.. cujo ordenado provinha ou das receitas próprias dos serviços ou de entidades exteriores à câmara... 2002. 11 Teresa FONSECA.

f. 6. 103-108.. E para Cacela. assim. Na impossibilidade de abordarmos exaustivamente esta complexa e diversificada rede de funcionários. no cortejo da cerimónia da quebra dos escudos efectuada pela morte de D. José. 1993. Na vila de Santarém. 17 José Viriato CAPELA.O FUNCIONALISMO CAMARÁRIO NO ANTIGO REGIME 75 factores que inviabilizavam o aproveitamento de recursos humanos verificado a norte. Cacela no século XVII (Dez anos de governo autárquico). p. Eram. Em Lisboa. cinco em Évoramonte e no Vimieiro14. diss de doutoramento (polic.. . 12 e 13. (Câmara de Lavre). 20 Maria Virgínia Aníbal COELHO. partilhava a Mesa do Senado da Câmara com o presidente.M.M. (Câmara Municipal do Vimieiro). 038 (1791-1803).H. Vila Real de Santo António. os vereadores e os procuradores da cidade e dos mesteres18. p. O antigo concelho de Lavre encontra-se presentemente integrado no de Montemor-o-Novo. da SILVA. Id. / C. 41-42. 18 João Pedro FERRO. Câmara Municipal. f. Receita e Despesa (1810-1819).. Perfil de um poder concelhio. C. 1990. I. 036. O Porto e o seu termo. quatro em Almada e em Cabrela15 e três em Lavre e em Cacela16. vol.N. Lisboa. desfilava a seguir ao procurador do concelho e ao alferes da câmara20. sociedade. Administração. 15 Para Almada veja-se Aires dos Passos VIEIRA.M. 035. O Minho e os seus municípios.A.M.E. 42-43. economia e cultura (1580-1640). e Lv. No topo da hierarquia situava-se o escrivão da câmara.). 16 A. FONSECA.M. seleccionámos os mais significativos do ponto de vista político-administrativo. E para Cabrela veja-se A. No Porto. A importância do ofício patenteava-se no lugar de destaque ocupado em funções e cerimónias públicas e nos avultados ordenados e chorudas propinas auferidos nos grandes e médios concelhos. A. Câmara Municipal.M. Lv. Em Évora. Hugo CAVACO. Para a história da administração. p. B / 001 / Vereações Lv. E1 D1 Receita e Despesa (1797-1806). José a 17 de Março de 14 Para Évoramonte veja-se A. (1782-87). E para O Vimieiro. em situação equiparada à dos membros da governança19. 25.H.. 1995. 387-388. Universidade do Minho. F. p. desempenhava nele um papel imprescindível.M. 2v. Braga.. Almada no tempo dos Filipes. / U. T. que por isso mesmo se encontravam presentes na maioria das municípalidades. p. p.. p. 145.V. F1 D4. O antigo concelho de Cabrela faz hoje parte do de Montemor-o-Novo. Embora formalmente excluído do governo municipal.L. 1995. (Arquivo Histórico Municipal de Montemor-o-Novo) / C. (Câmara de Cabrela). / C.C. R. L. / Évoramonte. Évoramonte pertence actualmente ao concelho de Estremoz e o Vimieiro ao concelho de Arraiolos.. Absolutismo e municipalismo. 10v.H.N.N. Santarém durante o reinado de D. 483. / E / 001 / Lv 023 Receita e Despesa (1811-1825).. sentava-se em cadeiras da vereação. incluindo as presididas por juizes ordinários.H.. Receita e Despesa (1782-1800).. e 11 v.. (1779-81). em regra superiores aos do juiz de fora e muitas vezes também ao da totalidade dos restantes funcionários17.U. Almada..S. Estudos económico-administrativos sobre o município português nos horizontes da reforma liberal. 19 F.

livº 143. o único proprietário do cargo foi um fidalgo. 19 e 323. como pudemos constatar no Porto23. Cuba29. dois criados do Rei. Administração municipal em Gouveia em finais de setecentos.. Chaves25. Gouveia28..) / Arquivo da Câmara de Évora (A. 31 O escrivão da câmara de Terena afirmava. p. 1990. pertenceram todos a uma única família da pequena nobreza da cidade. Maço 634. fazenda e poder no Alentejo de setecentos.D.. 32 Os de Évora. Centro de Estudos e Formação Autárquica.).T.. 4. caminhou imediatamente a seguir aos vereadores e juiz. o filho de um procurador da cidade e um vereador no período posterior à Restauração. sendo um cavaleiro fidalgo e outro moço de câmara.. 24 Em Almada. entre a Restauração e o Pombalismo. 21 Arquivo Distrital de Évora (A. Seda 30. Veja-se A. I. 499. foi sempre atribuído a indivíduos incluídos na categoria de cidadãos. Eduardo MOTA. Poder e poderosos na Idade Moderna 2 vols. Cf. R. p. nomeadamente um escudeiro fidalgo da Casa Real. 29 Na vila de Cuba. p. Cf. vol. 22 Maria Helena da Cruz COELHO e Joaquim Romero de MAGALHÃES. T.T. Almada no tempo dos Filipes . 228. Cf. f. em Almada24. nos finais de setecentos. 493-494. ainda nos finais do Antigo Regime. embora de recursos modestos22. p.P. 58. Instituto Cultural. sentenças e alvarás (1795). 28 Em Gouveia. 30 O de Seda (comarca de Avis). no mesmo período. Das origens às cortes constituintes.. no século XVII. pai e filho.. C. 27 Em Coimbra. (Repartição das Justiças e Despachos da Mesa). T. à aristocracia local. Faculdade de Letras. Homens. FONSECA. Cf. p. em 1812. Coimbra.E. . . p. Cf. de doutoramento (polic.E. 1995. O poder concelhio... José Iº”.P. Ponta Delgada no século XVII. diss. o lugar esteve nas mãos de “notáveis locais”. 1994. p. Este prestigiado cargo era geralmente atribuído a pessoas nobres. J. entre 1770 e 1800.M.. provisão de 16-4-1795. T. Maço 1525. Livro 9º de Registos (1769-1828). antecedendo não só o tesoureiro. ter já por diversas vezes “servido na governança” da mesma vila. Poder municipal e oligarquias urbanas. 49. (Torre do Tombo) D. Gouveia. p. foi exercido por cidadãos de precária condição económica. VIEIRA.D. 23 No Porto no período filipino. dos P. José Damião RODRIGUES. pela morte do Senhor rei D. Ponta Delgada. Publicações Gaudela. O Porto e o seu termo. I. BORRALHEIRO. 104-106. 1986. eleitos diversas vezes almotacés. elevada à categoria de município em 1782. Cf. Coimbra. P. A. mas o próprio procurador do concelho21. 26-26v.-A. (Desembargo do Paço). os seus detentores eram homens de confiança do rei. Colibri. eram elementos da nobreza local.. 2000.. O município de Coimbra da Restauração ao pombalismo. Coimbra27. Lisboa. era da nobreza da vila e os seus parentes estavam “sempre na vereação”.76 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS 1777./D.79. Ponta Delgada26. Terena31 e Évora32. Provisões. “Forma por que se fés o quebramento dos Escudos nesta Cidade de Evora a 17 de Março de 1777.C. Doc. entre 1750 e 1820.. Veja-se Sérgio da Cunha SOARES. 87. Emília Salvado BORGES. 26 Em Ponta Delgada. O município de Chaves .). 25 Os de Chaves pertenciam. vol. o segundo e o terceiro proprietários do ofício. sendo até incluídos nos róis de elegíveis. seis dos quais chegaram a servir de vereadores e de procuradores. Absolutismo e municipalismo. p.. Veja-se Francisco Ribeiro da SILVA.

pertenceram a três gerações da mesma família.. SOARES.H. Perfil de um poder. MOTA. o ofício conheceu apenas três proprietários. 174.. O município de Coimbra. 37 Os cinco proprietários do ofício dos sessenta anos de dominação filipina. por Luís VIDIGAL.. Registava todos os mandatos. p. até à extinção da donataria. incluindo Gouveia35. p. Cf.. . em livro próprio.. nobreza e povo. Podia efectuar-se trienalmente. juntamente com os membros da edilidade34. 58... Anais do município de Tomar. 77.. p. que na prática se tornava. VI. Mas na maioria das localidades. 535. p.E. p.. nas terras de domínio senhorial33. Registava os processos 33 Maria Helena da Cruz COELHO e Joaquim Romero de MAGALHÃES.M. 49. F1 B2. 42 Entre 1733 e 1820. Em Évora. Colibri. p. as receitas e as despesas do concelho. alvarás. id. 35 E. em 1759. As funções do escrivão da câmara vinham estabelecidas nas Ordenações. Redigia as actas das eleições trienais dos agentes do governo local. p.M. mediante proposta camarária. Poder e sociedade em Vila Nova de Portimão (1755-1834). 36 Maria Virgínia Aníbal COELHO. p. O poder con- celhio. acordos.. 25. p. uma “poderosa dinastia” de escrivães. 228. o lugar foi ocupado sucessivamente por pai e filho.O FUNCIONALISMO CAMARÁRIO NO ANTIGO REGIME 77 A forma de provimento do ofício era variável. existiu igualmente. vol. 41 A. No município de Lavre o provimento competiu ao marquês de Gouveia. durante grande parte do século XVI.. S.. 2000. / C. FONSECA.N. ou pelo donatário.H. Alberto de Sousa Amorim Rosa.. termos de obrigação ou de fiança e outros similares. Coimbra38. nos séculos XVII e XVIII. na centúria seguinte e em Elvas. os detentores do cargo pertenceram a seis gerações da mesma família. hereditária. Campo Maior e Loulé até ao fim do Antigo Regime. entre a primeira metade do século XVII e a segunda metade do século XVIII. Anotava o movimento do gado e passava certidão dos requerimentos formulados aos membros da edilidade. 38 Em Coimbra. FONSECA. Terena. Vereações (1753-1770). da C. 147-149. Portimão. Lisboa. Absolutismo e municipalismo. 228-229. Câmara Municipal.E. Estremoz41 e Évora (a partir de finais de quinhentos)42 era de nomeação vitalícia. Cf. todos pertencentes à mesma família da pequena nobreza local... I.M. Abrantes37. A. Relações de poder. Joaquim Candeias da SILVA. cit.. FONSECA.. 123. / C. Santarém36.. Absolutismo e municipalismo.. 1993. L. 39 Em Tomar.. Assentava. Montemor-o-Novo40. pelo Desembargo do Paço. 34 T.. Veja-se T. 1771-1800. Abrantes – a vila e o seu termo no tempo dos Filipes (1580-1640). Receita e Despesa (1778-1787) e (1809-1817). em Viseu. respectivamente Teotónio Manuel de Melo e João Joaquim de Melo. p. geralmente.T... Administração municipal. Cf. Vereações (1815-1820). Câmara. vinha incluído anualmente na pauta régia. Tomar39. nos municípios directamente dependentes da coroa. 40 Entre 1777 e 1816.

44 T. pão. tanto da cobrança das rendas régias e camarárias. Competia-lhe ainda a posse de uma das chaves da arca do concelho. Participavam nas correições camarárias. carne e outros produtos.D. e cerimónias festivas ou de quebra dos escudos.T.. / D. competia-lhes ainda a elaboração das actas das reuniões camarárias e de outros actos públicos em que participassem os membros da governança. ... 45 T. (Ordenações Filipinas). T. Absolutismo e municipalismo. E secretariavam as vistorias e outras visitas de inspecção promovidas pelos camaristas44. 71. tombos. provisão de 7-9-1793. notificações e editais. Copiavam ordens. tinham a possibilidade de requerer ao Desembargo do Paço a nomeação de um escrevente ou ajudante.. bem como a correspondência endereçada à municipalidade. Porém. da SILVA.. Actualizavam o tombo dos bens concelhios. Elaboravam os manifestos do gado. V. I. privilégios e outra documentação importante43. T. FONSECA. licenças e termos de juramento. 487-488. 140.F. que os auxiliassem nas tarefas não abrangidas por segredo de justiça ou outra matéria sigilosa. 229-230.. alvarás e provisões emanados das instâncias superiores do poder.78 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS de injúrias verbais despachados em câmara. como posturas. p. 46 F. p. p.. Tal privilégio foi atribuído aos escrivães de Évora45. Redigiam os termos da tomada de posse dos oficiais e funcionários camarários e dos juizes e escrivães. redigindo as respectivas actas. ordenando a sua afixação em locais próprios. regimentos e tabelas de taxas. FONSECA. R. Provisões. devia ler aos oficiais da edilidade e almotacés os respectivos regimentos.. principalmente de natureza económica e militar. Com efeito. Procediam a inquéritos para fins diversos. trigo. do Porto46. de Aldeia Galega (actual Montijo)47. como entradas régias ou de prelados. Passavam aos munícipes as cartas. convocatórias. as suas tarefas ultrapassavam largamente as estabelecidas na lei geral. compra ou venda de bens do município. Registavam os actos de arrematação. onde se guardavam as escrituras. vinho e outros produtos ao concelho.M.. forais. Para cumprir eficazmente tão amplas obrigações.P. Passavam a escrito todo o tipo de determinações municipais. L. Organizavam os processos de aforamento dos baldios. tanto por particulares como pelas mais diversas instituições.. O Minho e os seus municípios . sentenças e alvarás (1793). vol. tanto de vintena como dos ofícios mecânicos... necessários ao exercício de certas actividades profissionais. 1. na prática. 230. de Valença 43 O. CAPELA. J. e 500-501. Redigiam proclamações. avisos. Maço 1523. O Porto e o seu termo. p. Na primeira vereação de cada mês. preços e salários. Elaboravam as escrituras notariais de arrendamento. 47 T.. passando as respectivas guias e certidões. azeite. como do fornecimento de carne.. Absolutismo e municipalismo.

provisões de 5-7-1794 e de 7-9-1793. sentenças e alvarás (1797). comarca de Coimbra.T. nestes concelhos importantes.N.. mas antes em virtude do prestígio do cargo de escrivão. Nos pequenos concelhos. assim.. 4v. Os escrivães exerciam frequentemente outros cargos públicos. provisão de 29-7-1794.M. f. provisão de 29-5-1797. E o de Évora. . p. 13 – 13v. o pouco trabalho dos ofícios e o seu baixo rendimento económico. / D. o escrivão da câmara de Pereira. estes oficiais camarários na capital alentejana.. O seu congénere de Aldeia Galega. obteve provisão régia para juntar aos três ofícios o de recebedor dos direitos reais da mesma vila. dispensando até a justificação prévia exigi48 Id.L. o escrivão da câmara era-o também do judicial e notas.M. Provisões.O FUNCIONALISMO CAMARÁRIO NO ANTIGO REGIME 79 do Minho48 e provavelmente de todos os concelhos onde se justificou a sua existência. FONSECA. Em Lamego. foi investido no ofício de tabelião do judicial e notas51.. Absolutismo e municipalismo. Dos três nomeados para assessorar.... as razões mais invocadas nos pedidos de acumulação eram a falta de pessoas capazes. onde os cargos eram mais trabalhosos e havia mais gente capaz de os exercer. dois foram procuradores da cidade e o terceiro era tabelião do judicial49. Maço 1527. 231. atribuídas não por qualquer razão prática.H. T. 50 A. Maço 1523. provisões de 8-8-1793 e 17-8-1793. Maço 1523. dos órfãos e das sisas de Vila Nova da Erra. o escrivão da câmara de Lavre servia simultaneamente os ofícios de tabelião de notas e os de escrivão da almotaçaria. juntando ainda a estes três cargos o de contador e distribuidor na mesma vila. E no mesmo mês e ano.. FONSECA. sentenças e alvarás (1793). Provisões... Porém. Absolutismo e municipalismo.. vereações de 10-10-1753.P. Maço 1525. 49 T. 53 T.. sentenças e alvarás (1793). Id. No século XVIII. Mas as acumulações ocorriam também nos municípios de superior dimensão e categoria. (1794). Vereações (1753-1770). 230. e de 12-11-1754. Em 1793. mas até nefastas ao eficaz exercício das funções. entre 1750 e 1820. além de escrivão do subsídio militar da décima da cidade e do termo escriturava também os reais da água da carne e do peixe53.M. f. p. F1 B2. as acumulações eram não apenas dispensáveis.D. comarca de Santarém. o escrivão da câmara. / C. Provisões. 51 T. já então também escrivão da almotaçaria e distribuidor. contador e inquiridor dos órfãos. Eram. 52 Id.. A categoria sócio-profissional destes escriturários confirma-nos o prestígio do cargo de escrivão. O de Alcácer do Sal era igualmente escrivão do celeiro comum52. do juizo do geral e das armas50.. exercia funções idênticas relativamente às sisas e aos direitos reais. Provisões.. o que levava frequentemente à nomeação dos escriturários acima referidos.

no entender do procurador. pelos magistrados da comarca. baseado num alvará seiscentista considerado. 231.E. o congénere de Estremoz. Maço 574. o lugar foi ocupado apenas por três proprietários pertencentes à mesma família55.M. no entanto. FONSECA. a familiarizarem-se com a realidade local. quando. numa evidente manifestação da sobreposição do critério do privilégio sobre o da racionalidade administrativa. 57 T. Absolutismo e municipalismo. delegava nestes oficiais prerrogativas excepcionais.. eram naturalmente auscultados pelas 54 T. tornando-os os principais depositários da memória camarária. 88. FONSECA. na altura procurador do concelho de Évora. compreensível. acrescentava a sua opinião. “quem tudo governa”. Receita e Despesa (1809-1817).. Absolutismo e municipalismo. proporcionava-lhes um perfeito conhecimento dos assuntos municipais. por não cumprir uma ordem sua e lhe responder com arrogância57. Nas reuniões do senado. p. Doc. f.. permitindo-lhes assim assegurar o normal funcionamento administrativo sem ter de reunir..P. José e a revolução vintista.F. p. A assistência. 159-160.. mais habituado a mandar que a obedecer. Em 1793. considerava que o então detentor daquele cargo. se devia limitar a redigir o que lhe era ordenado pela vereação54. durante longos períodos de tempo. Vejamos apenas alguns exemplos da influência dos escrivães na vida municipal. o advogado José António Xavier da Silva Sintrão. ajudando provavelmente os próprios juizes de fora. 56 A.. 156. em muitos casos durante décadas. .H.. redigiu uma nota no livro da receita e despesa camarária desse ano. I. Tal ascendente é. E em 1816.80 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS da aos pequenos concelhos.. enquanto lia as petições dos munícipes. 232. vol. Os Açores..-A...T. registado pouco antes no mesmo livro58. se considerarmos que nas sete décadas decorridas entre a entronização de D. foi preso pelo jovem e recém chegado juiz de fora. A maioria das edilidades açorianas da mesma época. Em 1804. de MENESES. Por isso. influenciando antecipadamente as deliberações do corpo camarário. contrária a um provimento do provedor. A sua “autoridade (. / C. quando chegavam de novo a uma terra. às vereações e outros actos administrativos..) e dispotismo” sobrepunha-se a “todas as Leys e Ordenações”... na câmara./D. eram os escrivães quem estabelecia a ligação entre as sucessivas vereações. A. 55 T. o plenário camarário56. p.E. 58 A. o escrivão da câmara do Redondo. Elementos de estabilidade. já ultrapassado. era. Francisco José Guedes de Melo.

O processo de nomeação do tesoureiro variava consoante as terras. No entanto. S.L. Horta. “por ser o procurador muito ocupado em andar por fora” .T. / C..H. pela administração dos dinheiros públicos. Alverca. Mas na centúria seguinte. O Porto e o seu termo. nestes casos. E. História social da administração do Porto (1700-1750). particularmente em situações de especial complexidade. evitando situações eventualmente caóticas ou de ruptura. 61 F. I. Universidade dos Açores. 1993. 66 F. Porto. ou pelo menos responsáveis pela escrituração camarária.-A. A. a maior parte dos municípios designava já uma pessoa para o desempenho específico do cargo.. cometendo até excessos e arbitrariedades. vereação de 31-12-1769. 1999. com discrição e alguma eficácia.. como sucedeu em 1769. Receita e Despesa (1810-1819).P. exercidas pelo procurador do concelho. não a podendo dispender em coisa alguma. Usufruindo de uma situação privilegiada. Guimarães61.... Ana Sílvia Albuquerque de Oliveira NUNES. Albufeira64 e ainda nos Açores65... L.. p. f. 211. T. apenas se nomeava um tesoureiro em situações excepcionais. Lagos. 70.O FUNCIONALISMO CAMARÁRIO NO ANTIGO REGIME 81 autoridades locais. da SILVA. 503. p. 62 A. Universidade Portucalense.. vol. Évoramonte62. Lajes e Santa Cruz.E. em Viseu67.M. Doc.N. vol. em épocas de crise administrativa local e nos períodos conturbados da vida política nacional. p. ultrapassavam frequentemente as suas competências legais. em última instância. p. R. Até ao século XVI.M. mesmo se para tal recebesse ordens dos ministros da comarca ou dos membros da edilidade “sob pena de a pagarem de suas casas”59. 64 T. as suas funções eram. 65 Designadamente na Praia. 1. I. F1 B2. 503.M. asseguraram. 40. R. Maço 831. p. Autores. Avelino de Freitas de MENESES. ./D.. Lavre63. com as do próprio governo camarário.. O Porto e o seu termo. Topo. confundindo-se. Albufeira e nas localidades alenteja59 60 O. Também arrecadava a terça régia. I. embora o tradicional sistema tivesse subsistido em diversas localidades. p. Administração municipal. Calhete.H. da SILVA. vol.. – A. 46. 63 Em Lavre. em regra. O Porto e o seu termo. responsáveis.. Competia-lhe receber as rendas do concelho e pagar as despesas ordenadas pelos vereadores. da SILVA. Ponta Delgada. Vereações (1753-1770). Madalena. Os Açores nas encruzilhadas de setecentos (1740-1770) – I – Poderes e instituições. a eles devemos uma boa parte do que hoje conhecemos da administração municipal do Antigo Regime. Sebastião. 225. No Porto66.. MOTA. a gestão dos assuntos correntes. 504. Velas. 67 F. 146-148. O tesoureiro tinha a seu cargo a actividade financeira do município.F. como Gouveia60. / Évoramonte. R.

proporcionava aos seus detentores a preferência na arrematação das rendas camarárias.. o corregedor acrescentava-lhes ao nome o presumível valor do património ou do rendimento. o mesmo sistema vigorou até 1501. verifica-se geralmente uma certa cumplicidade entre estes dois oficiais.T. Estremoz e Montemor-o-Novo. / D. FONSECA.. agravada nas últimas décadas do Antigo Regime pela sobrecarga de tarefas e encargos fiscais impostos pelo poder central. Viana. 70 T. era cobiçado nas de maior dimensão. no fornecimento de carne e outros bens essenciais. quando referia as características adequadas ao tesoureiro eborense: “um oficial dos que andam nos Mesteres. da sua fazenda. não obstante a responsabilidade que envolvia. no arrendamento de herdades e mais bens concelhios ou em outros negócios. Absolutismo e municipalismo. ou simplesmente as expressões “he abonado” ou “bastante abonado”. 71 T. e Escrivão da Camara e Thezoureiro . pouco apetecido nas pequenas localidades. que fica só entre (. e para o tal cargo e ofício mais apto”70. – A. sendo este último regime adoptado definitivamente a partir da centúria seguinte69. Absolutismo e municipalismo.. rico.-A... Odemira. p. A precária situação financeira da maioria das câmaras. 72 T. 233. os provedores 68 T. Como a escrituração da contabilidade camarária constituía matéria da competência do escrivão. Absolutismo e municipalismo. Doc.. à exploração fundiária e à produção artesanal ou manufactureira. O cargo de tesoureiro. FONSECA. 231... De facto eram. p.) o vereador mais velho.P. p. Além de conferir prestígio e possibilitar a almejada ascensão social da burguesia endinheirada. nos grandes e médios concelhos.. FONSECA. o provimento efectuou-se tanto trienalmente como vitaliciamente. burgueses enriquecidos pelo comércio. no século XVII. Manuel. 236-238. O referido procurador Xavier Sintrão. Quando arrolados nas pautas.. 32 e 40. Absolutismo e municipalismo. passando a partir de então a ser de nomeação régia.”72.. exigia deste oficial abastança suficiente para compensar. extensiva aos próprios vereadores. Com efeito. na cobrança dos impostos régios..82 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS nas de Portalegre. 235.. mediante prévia apresentação da câmara.. FONSECA. 69 T. Em Évora. Maço 831. e 394-399. tanto mais elevados quanto mais importante era o município. vinha anualmente incluído na pauta68.. os défices camarários.. denunciava o facto de as contas do município eborense constituírem “segredo. O perfil mais comum dos detentores deste cargo durante a Época Moderna havia já sido enunciado em 1501 por D.. geralmente associado à usura. p. cujos lucros compensariam largamente o prejuízo inerente a uma função aparentemente ingrata71. .

619-622. Superintendia na arrumação da sala das reuniões e no transporte de cadeiras. Procedia ao inventário do património municipal. Preparava a aposentadoria dos ministros da comarca e da provedoria. Enviava recados a casa dos oficiais camarários. vol. associado à importância e visibilidade das suas funções. O porteiro da câmara exercia funções similares às consignadas nas Ordenações para o guarda-mor da Casa da Suplicação ou da Relação73. Armava as igrejas para as cerimónias religiosas da iniciativa da câmara. entre as mais vulgares: a utilização de métodos contabilísticos ultrapassados. conferia-lhe algum prestígio. Deste modo. anunciando e encaminhando os munícipes que compareciam a prestar juramento perante a vereação ou para apresentar qualquer questão74.. F. por ocasião de festas e comemorações. do mesmo modo. Afixava editais. salvaguardando naturalmente a diferença institucional dos cargos. Assistia. II. p. O Porto e o seu termo. este oficial subalterno tinha... constituiu.. a retenção.. em nome da câmara. o pagamento de propinas sem a correspondente provisão régia. quando se deslocavam às localidades em serviço de correição.M. o cargo era vulgarmente transmitido de 73 74 F. do dinheiro dos impostos régios ou das verbas da comparticipação nos ordenados dos funcionários da administração central.E. conjugada e reforçada com o empenhamento dos dirigentes locais na defesa dos seus privilégios.. vol. as decisões camarárias cujo conteúdo se entendia necessário divulgar aos munícipes.. Absolutismo e municipalismo. de saber ler e escrever. O Porto e o seu termo. da SILVA... Efectuava diversas compras por ordem dos camaristas. Como sucedia na generalidade dos ofícios públicos. Receita e Despesa (1809-1817). notificações e embargos. Apregoava. R. 619-620. nos locais públicos habituais. II. tesoureiros e eleitos locais pelas irregularidades cometidas na gestão financeira dos municípios. De origem sócio-económica modesta. às sessões camarárias. p. A. R. pelo menos. convocatórias. contando-se. em muitos concelhos.H. p.E. . total ou parcial. da SILVA. dos paços do concelho para outros locais onde tivessem lugar cerimónias a que assistisse a vereação. do exterior da sala. Efectuava. 271-272. Tal atributo. FONSECA. Anunciava. Colocava luminárias nas janelas e varandas dos edifícios municipais. um obstáculo relativamente eficaz aos esforços dos magistrados régios. a imprecisão do registo das receitas e sobretudo das despesas. / C.. os diversos concursos e arrematações. a relutância dos dois funcionários em aceitar interferências nos seus tradicionais métodos de trabalho. a ocultação de ingressos paralelos. no sentido do cabal cumprimento das determinações do poder central em matéria de finanças locais. T.O FUNCIONALISMO CAMARÁRIO NO ANTIGO REGIME 83 corresponsabilizavam frequentemente escrivães.

era ajudado por cinco “porteiros do geral”. vol. Cf. L. era atribuído a membros do grupo clientelar das famílias protegidas pelas oligarquias locais. ao longo de várias gerações. Dada a abrangência do poder camarário.H. o da câmara de Évora. o Porto. Competia-lhe zelar pela ordem pública.. quase sempre analfabetas. não devendo. este cargo era também vitalício e hereditário80. II. em meados do século XVII.. 623. o porteiro da câmara possuía como coadjuvantes outros funcionários hierarquicamente inferiores. R. Vereações (1815-1820). das padeiras. / C... como se infere pelo mais baixo montante dos seus ordenados. já nos finais da Idade Média. mais de vinte porteiros. Sendo de provimento camarário. 77. estes dois subalternos colaboraram com o porteiro principal em numerosas actividades: assinavam o termo de juramento das mulheres. o responsável pela cadeia. segundo as Ordenações.F. em simultâneo. id... reduzidos na centúria seguinte a um “contínuo” e a um “porteiro do juízo do geral”76. 82. 77 A. Não podia soltá-los sem um mandato judicial. p.. FONSECA. Absolutismo e municipalismo. sujeitando-se a pesadas penas se deixasse fugir os presos.. FONSECA. como era o caso das medideiras do terreiro do pão..E. 75 76 F. ser confundidos com os funcionários judiciais. 80 Como por exemplo em Montemor-o-Novo e em Évora. T. frequentemente designado por alcaide pequeno81 ou simplesmente por alcaide. na arrematação das rendas régias e camarárias. O segundo. Nas municipalidades de maior relevo. 82 O meirinho. 81 Sobretudo nas terras onde havia um alcaide-mor. 1. Relações de poder. embora nesta cidade o carcereiro dependesse orgânicamente do corregedor da comarca. O primeiro era. assinando o respectivo auto. p.M. p. no século XVI. exercia funções de policiamento e fiscalização semelhantes às do meirinho82. como funcionário judicial. contava com sete75. porém. participavam. 271-272. devendo no entanto libertá-los imediatamente se tal lhe fosse ordenado79. Receita e Despesa (1778-1787) e (1809-1817). 78 T. 79 O. E os congéneres das câmaras de Estremoz e Montemor-o-Novo eram auxiliados respectivamente pelo contínuo77 e pelo porteiro do geral78. embora sujeito a confirmação régia.. da SILVA.. O Porto e o seu termo. Os mais frequentes eram o carcereiro e o alcaide da vara. não podendo por isso considerar-se um funcionário municipal. cuja profissão as obrigava a prestar juramento. das peixeiras e das parteiras. T. Entre 1750 e 1820. muitos municípios possuíam um ou vários oficiais menores cuja acção incluía as áreas da justiça e do policiamento. e colaboravam em todo o tipo de serviços correntes de apoio à administração municipal.E.. fica excluído deste trabalho.84 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS pais para filhos. Lisboa tinha. Em muitas localidades. .

frequentemente vítimas da contestação e até das ameaças dos comerciantes.M. A. 86 Para Lavre veja-se A.N. na ausência do juiz. No exercício da sua actividade.M. para o efeito. 669-672. estes funcionários procuravam.. 035. pra- 83 O. f. R.. favorecendo ainda o enraizamento de práticas anacrónicas incapazes de dar resposta às novas necessidades e exigências crescentes do reformismo estatal.M. T. / C. p.M. A coroa procurou.M.L.C. 84 A. especialmente os almotacés. da SILVA. Conduzia os cativos perante o juiz nos dias de julgamento e assegurava a manutenção da ordem no decorrer das audiências. a partir do pombalismo. tocava o sino de recolher e cuidava das aposentadorias dos ministros da comarca e da provedoria. com ajudantes nomeados pela câmara. / C.. / E / 001 / Lv 023 Receita e Despesa (1811-1825). 57 e 76.M.. Id. prioritariamente. 85 A. exercia ainda outras actividades: no Vimieiro. E para Estremoz. .. vulgarmente conhecidos por quadrilheiros. efectuar outro tipo de prisões. L. a respectiva transmissão familiar e o prestígio social decorrente do seu exercício. A semelhança de funções do alcaide e do carcereiro explica o facto de em Lavre e em Estremoz os dois ofícios se concentrarem na mesma pessoa86.H. 46. Nos municípios com um diminuto número de funcionários. F1B2. f.. (1782-87). Podia prender infractores em flagrante delito e até. através da carta de lei de 23 de Novembro de 1770. e em Cabrela acompanhava a vereação nas visitas de correição85..E.A. minimizar os obstáculos que a natureza de tais ofícios constituía para o processo de modernização administrativa.. T. como os açougues da carne e do peixe. do aboletamento dos exércitos e da manutenção do relógio. A patrimonialização dos ofícios da burocracia camarária conferia aos seus detentores um poder e autonomia difíceis de combater.N. / C. Vereações (1753-1770). 036. servir a elite dirigente local.H. contando. Relações de poder.M. p. a quem deviam. Levava ainda presos para localidades vizinhas e quando necessário transportava o dinheiro dos impostos régios cobrados no respectivo concelho para a sede da comarca83. Receita e Despesa (1809-1817). não apenas o lugar. Lv. F. 038 (1791-1803). 75.H.E. E montava guarda aos locais mais vulneráveis ao desencadear de conflitos. Protegia as autoridades municipais. (1779-81). 80. vereação de 6-7-1757.V..H. E1 D1 Receita e Despesa (1797-1806). . O Porto e o seu termo .O FUNCIONALISMO CAMARÁRIO NO ANTIGO REGIME 85 tanto de dia como de noite. mas ainda o acesso a outras ocupações públicas remuneradas ou a preferência em lucrativos negócios que envolviam a municipalidade.. F. FONSECA. funcionando como uma espécie de ajudante do porteiro84. / C.1. B / 001 / Vereações Lv.. Este diploma decretava a abolição da hereditariedade dos cargos públicos. e Lv.

na inventariação do património concelhio ou no lançamento contabilístico. bastando para a sua concretização a formulação de um requerimento ao Desembargo do Paço. pelos órgãos competentes. da idoneidade e adequada preparação do candidato. entre os quais se destacavam: a falta de rigor e transparência na escrituração camarária. no respeitante ao modo de exercício dos mesmos ofícios. acompanhado da atestação. nomeadamente na redacção das actas. No entanto. os atrasos na cobrança dos foros municipais e na transferência da terça régia e de outras verbas pertencentes à Fazenda Real. e as exacções e arbitrariedades exercidas sobre os munícipes mais vulneráveis. moroso e iníquo da gestão concelhia do Antigo Regime. responsabilizavam as autoridades camarárias pela sua condescendência para com os abusos e omissões destes funcionários. Os ministros territoriais tentaram. convertendo os municípios em um dos mais influentes focos de resistência à implementação da política de absolutismo esclarecido. a acção do poder central e dos seus delegados na periferia arrostou sempre com a cumplicidade entre os agentes do poder camarário e esta sua fiel clientela. por sua vez (embora com variável empenhamento) secundar os esforços do poder central. efectuadas com progressiva regularidade e a partir de 1790 num número sempre crescente de concelhos. Não obstante. rotineiro. a velha prática subsistiria. as demoras na execução de determinações emanadas das instâncias superiores. e ao mesmo tempo. Nas correições. os conluios com os grandes negociantes e outros poderosos. . Afonso V e considerada pelos legisladores esclarecidos uma introdução abusiva na lei e costumes nacionais e como tal atentatória da soberania régia. no registo das coimas. corregedores e provedores ameaçavam directamente os oficiais incumpridores ou no mínimo hostis às intromissões do reformismo estatal na sua actividade. Tal aliança determinou em boa parte o cariz predominantemente tradicionalista.86 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS ticada desde o reinado de D.

a tarefa impossível. É de todos conhecido que o tema do poder municipal não é novo. Não tornam. 2005 (no prelo). Os Municípios no Portugal Moderno: dos forais manuelinos às reformas liberais Lisboa. 2005. Assim. em meu entender. Francisco Ribeiro da Silva. antes de mais. impõe-se. patrocínio e conflitualidade Senhorios e municípios (século XVI-1640) MAFALDA SOARES DA CUNHA (Universidade de Évora – Dept. “Poderes locais nas áreas senhoriais (séculos XVI-1640)”. que se revestem. de desigual interesse1. 87-108. Edições Colibri – CIDEHUS-UE. uma das principais lacunas da história do poder local em geral prende-se com a caracterização sociológica dos diferentes actores. no entanto. A sua identificação tem sido feita de forma sumária. Requerem. de resto. Coimbra. a fim de complementar as falhas das séries disponíveis. de há duas ou três décadas a esta parte. ao século XVIII. é importante sublinhar que os séculos XVI e XVII têm sido subalternizados em relação. contributos marcantes de historiadores como Joaquim Romero Magalhães. bem como a atenção de alguns estudantes de doutoramento e mestrado e de estudiosos locais. Mafalda Soares da Cunha. António de Oliveira e António Manuel Hespanha. Pesem embora estes trabalhos. de História /CIDEHUS) Temas e lacunas historiográficas Sendo o objectivo do encontro a reflexão alargada sobre os municípios na época moderna e o tema deste texto as relações entre os donatários e os poderes locais. As razões são bastante óbvias e prendem-se com a maior escassez da documentação. pp. através dos apelidos e de breves apontamentos relativos ao estatuto social em que pontuam os títu1 Cf.Relações de poder. um breve ponto da situação historiográfica relativamente ao estado da situação dos estudos sobre os municípios senhoriais e sobre o grupo nobiliárquico primo-moderno. . podendo mesmo afirmar-se que para a primeira fase da época moderna acolheu. empenhada em cruzar informação de proveniência institucional variada. sobretudo. uma investigação mais esforçada.

por isso. neste âmbito seria ainda fundamental compreender de que modo as relações verticais.88 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS los dos foros da Casa Real ou os graus académicos que auferiram. complementar esses indicadores superficiais com incursões micro-analíticas através da reconstituição das trajectórias vitais e das redes de parentela e dependência do conjunto do oficialato local. em muitos casos. de monografias que abordem a questão das práticas políticas dos donatários. mais do que aproximações muito vagas relativamente aos níveis de reprodução endogâmica dos grupos familiares dominantes ou à tendência para a monopolização do poder por parte das elites locais. excluindo a ampla panóplia do restante funcionalismo municipal. Escuda-se a mais das vezes em um ou outro caso. de resto. Antecedentes. desenvolvimento e extinção de um fenómeno atlântico. circunscrita aos membros das vereações. Diz-se habitualmente que os povos preferiam a tutela régia à tutela senhorial. compadrio e até amizade. seja com os donatários das terras. mobilidade geográfica e ainda das relações interpessoais desenvolvidas ao longo da vida. faltando os enquadramentos gerais que permitiriam avaliar a representatividade dos fenómenos estudados. 2000. destacar a quase ausência de trabalhos que evidenciem as especificidades das relações entre os poderes locais e os poderes senhoriais face às terras realengas. Chega mesmo a referir-se a existência de uma reacção senhorial ou até refeudalização para o século XVII. Lisboa. ainda mais. E são também estas lacunas que condicionam 2 António Vasconcelos de Saldanha. o que permite uma análise apoiada da evolução dos patrimónios. seja com a Coroa ou os seus agentes periféricos. CNCDP. O apoio empírico é. As capitanias do Brasil. E. de estranhar que os estudos sobre senhorios ultramarinos sejam também tão escassos. por isso. não obstante o estudo global elaborado há já alguns anos por António Vasconcelos Saldanha2. Este tipo de abordagem permitiria também um esclarecimento mais cabal das fissuras e clivagens nos grupos de poder locais. Nela recolhem-se dados importantes relativamente à sua inserção familiar. De fora ficam cronologias mais finas desses processos e até a confirmação dessas interpretações que são. da falta de estudos sobre senhorios concretos e. bem como das estratégias desenvolvidas para a ascensão. Não será. na generalidade dos casos. Estas falhas decorrem. em boa medida. Não possibilitam. repetidas sem suficientes evidências empíricas. influíram nesses processos. E. . opções de investimento familiar e económico. então. elaborada a partir da documentação dos registos paroquiais e notariais. consolidação ou renovação. Neste contexto concreto cumpre. no entanto. frágil. fundando essas afirmações na descricionariedade dos abusos dos donatários e dos seus aparelhos administrativos sobre as populações. Proveitoso seria. laços de parentesco.

1985 e Idem. Na verdade. as afirmações que se fazem sobre a evolução. Círculo de Leitores. não só muito fortemente marcados pelos impactos da gesta expansionista.). Corona y Economías Aristocráticas en Castilla (Siglos XVI-XVIII). como referentes os já existentes estudos de síntese para a Alta Idade Média3.. Lisboa. Editorial Estampa. Lisboa. portanto. O Crepúsculo dos Grandes. Infanções e Cavaleiros. Granada. La Gestión del Poder. sabe-se que conferiam preeminência 3 José Mattoso. Bartolomé Yun Casalilla. Istmo.6% em 16407. No entanto. atitudes e papel político do grupo nobiliárquico em Portugal reduzem-se a uns quantos chavões. A Nobreza Medieval Portuguesa nos Séculos XI e XII. História dos Municípios e do Poder Local. 2 vols. in César de Oliveira (dir. 4 Nuno Gonçalo Freitas Monteiro. Madrid. Em trabalho já referido. p. Lisboa. Todavia.. 5 Antonio Dominguez Ortiz. 1992 (facsímile da ed. assim. especialmente pp. 6 Nuno G. para a fase final do Antigo Regime4 e as considerações gerais sobre outras realidades europeias. PATROCÍNIO E CONFLITUALIDADE 89 decisamente a possibilidade de elaboração de trabalhos gerais sobre o próprio grupo nobiliárquico. A Família e o Poder. o valor crescerá para cerca de 70%. Madrid.ª ed. 49-55. os senhorios das ordens militares que só incompletamente estavam sob dependência da Coroa. Monteiro (coord.). Las Classes Privilegiadas en la España del Antiguo Régimen. Ou ainda os resultados de abordagens de síntese sobre a evolução do peso das jurisdições senhoriais no conjunto do território português6. 1973. 2. 54. Ediciones Akal. Nuno G. 1998. A Casa e o Património da Aristocracia em Portugal (1750-1832). Guimarães Editores. Idem. Universidade de Granada. 2002. e que esse número crescia ligeiramente para 57. 7 Idem. Monteiro demonstrou que em 1527-1532. . Imprensa Nacional. ibidem. se incluirmos neste cômputo. com particular destaque para o caso da Monarquia Hispânica5. Um débil aumento. 1996.RELAÇÕES DE PODER. 1981. As reflexões de natureza geral que se têm proferido tomam. 17-175. No que a este último tópico diz respeito. como pelas ideias sobre a centralidade da Monarquia na organização social dos diferentes poderes. 52. Ricos-Homens. A amplitude das jurisdições senhoriais Comecemos por este último ponto. «Os poderes locais no Antigo Regime». La Sociedad Española en el Siglo XVII.6% do total das câmaras do país estavam sob a jurisdição senhorial (leiga e eclesiástica). de 1963). só estes valores (mais de metade dos concelhos) seriam suficientes para conferir primordial importância ao tema que aqui trago e até reflectir sobre a importância que as funções jurisdicionais exerciam no sistema de classificações dentro do grupo nobiliárquico. Lisboa. A Nobreza Medieval Portuguesa. pp.

porém. dizer-se que a posse de jurisdições era determinante na definição das hierarquias dentro do grupo nobiliárquico e que. História das Instituições. a distribuição das jurisdições pelos seus membros.BL. todavia. às mercês. quer demográficos. 48. por inerência. V. 499. à percentagem que cabia à extracção fiscal decorrente dos direitos senhoriais sobre bens da Coroa. Livraria Almedina. a partir do tipo de direitos e privilégios transferidos pela Coroa. p. Editorial Presença. 273-276. Já retomaremos a questão. H. entretanto.026. relativamente à composição desses rendimentos. vol. dir. Épocas Medieval e Moderna.026. 1867 (reimp. Se as doações genéricas criavam um ambiente comum. 503-504. 1982. o cume da pirâmide só incluía donatários. Mas significavam também um conjunto de funções políticas. b) 1577 . Nova História de Portugal. pp. o mesmo é dizer. Deve. militares e capacidade fiscal sobre o território cujos contornos estão expressos nas Ordenações e foram já analisados por Hespanha8 e pelo próprio Nuno Monteiro. 1998. De Oliveira Marques. Ora estes vectores são relevantes do ponto de vista da avaliação da importância de cada um dos senhorios e são decisivos para compreender a importância que o controlo político sobre as terras e as gentes detinha para cada uma das casas. João José Alves Dias. História de Portugal nos Séculos XVII e XVIII. nestas épocas. . a contiguidade ou dispersão geográfica do senhorio pode ser significativa relativamente à eficácia da administração senhorial. III. pelo que temos apenas uma ideia muito imprecisa sobre a configuração geográfica de cada um dos senhorios e a sua importância relativa. Não se conhece. Joel Serrão e A. De igual modo. Additionals. 9 Alguns exemplos: a) 1520 in João Cordeiro Pereira. vol. O princípio a que 8 António M. in Portugal do Renascimento à Crise Dinástica. É que as jurisdições senhoriais não eram todas idênticas. Additionals. Não nos elucidam. 48. “A Estrutura Social e o seu Devir”. Hespanha. 247v-249. coord. 497. fls. c) 1587 . as competências formais dos senhores sobre as terras e populações podiam ser extraordinariamente ampliadas pelas doações expressas. fls. todavia. de 1967). 319. ao braço da nobreza em cortes. quer em termos económicos. d) 1615 . começar a aprofundar-se um pouco mais o nível de análise. Imprensa Nacional. Um senhorio disperso tinha custos económicos superiores e propiciava gestões absentistas o que normalmente favorecia níveis de controlo senhoriais menos eficientes.90 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS simbólica e direitos de representação política pela pertença. tenças e assentamentos doados pela Monarquia ou às diversas formas de exploração dos bens patrimoniais. Existem listas coevas – muitas delas datadas do período da Monarquia Dual – que apontam valores globais dos rendimentos das casas9.Luís Augusto Rebello da Silva. Coimbra. Lisboa. No que toca às jurisdições pode. Lisboa.BL. Já o veremos com maior pormenor.

O quadro anexo demonstra que a casa de Bragança usufruía de um conjunto muito amplo de privilégios. níveis bastante diferenciados de poder dos senhores sobre as terras. Refere Hespanha que aqueles que tinham jurisdições exuberantes eram o arcebispo de Braga. O tipo de privilégios jurisdicionais a que me refiro pode ser melhor explicitado a partir do caso brigantino. impondo. excepto “que fique reservada ao Rey a mais alta superioridade e Real Senhorio”.RELAÇÕES DE PODER. Ora esta disparidade de funções jurisdicionais criava. Hespanha. em grande medida. as de Bragança e de Aveiro e as freiras de Arouca10. Não creio. concedidos ás tais pessoas. não imputável especificamente a um ou outro soberano ou a um ou outro duque. Ou seja. pois. com evidentes implicações nos níveis de autonomia dos concelhos. Dizia-se “Como entre as pessoas de grande stado e dignidade e as outras. todavia. 10 António M. PATROCÍNIO E CONFLITUALIDADE 91 estas obedeciam está globalmente exposto no preâmbulo do tit. de resto. XLV das Ordenações Filipinas. Relativamente a este ponto concreto haveria que apurar alguns dados que permitissem uma base de sustentação mais informada para algumas imagens historiográficas que se estabeleceram e para as quais seria importante estabelecer uma cronologia mais fina do peso do senhorialismo. sempre que possível. fazer-se através da análise das cartas de doação contidas nas chancelarias régias. desde logo. já que as Ordenações Filipinas acautelavam bastante este ponto. he razão que se faça differença. A preocupação régia era. Chega depois a afirmar-se que nos casos das doações às rainhas. o que pode. as casas da Rainha. pode afirmar-se de forma esquemática que tinha a ver com a combinação das qualidades de sangue e o capital de serviços prestados. e de maiores prerrogativas. de aferir a validade dos direitos extraordinários em uso. assi nas doações e privilegios. o resultado de uma acumulação secular. limites ao seu usufruto. explicitando que as doações expressas perdiam validade quando não eram confirmadas e renovadas pelos sucessivos reis e que essas cláusulas perdiam validade quando a terra era doada de novo. História das instituições…. Eram. 296-7 . p. costumaram os Reys pôr mais exuberantes clausulas. Pode mesmo dizer-se que correspondia praticamente ao caso de transferência total de jurisdição a que as Ordenações aludem. aos infantes e a alguns senhores de terras a Coroa “não reservara para si parte alguma da dita jurisdição”. para se mostrar a maior affeição e amor. que lhes tinham”. Esta questão é importante porque explica a própria manutenção destes privilégios excepcionais. que esgotem o universo dos principais beneficiados e este era um outro tópico que carecia melhor averiguação.

de 12/02/1530) Cobrar e despender as terças dos concelhos em todas as suas terras (c.92 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Alguns privilégios jurisdicionais extraordinários da Casa de Bragança Duques de Bragança «Possa ter chancellaria de sua Casa e de suas terras.) que não ponham em suas terras. salvo. Linhares. 13 António M. de 01/10/1544) Ordenações Filipinas11 «(. citado no quadro como a) António M. p.r. de 21/05/1579) Dízimas novas do pescado de: Vila Franca. e verdadeiramente tiverem por scudeiros. Monsaraz (c.) de 15/05/1549). Castanheira.)»a) Dízima novas do pescado não costumam ser doadas4 Não podiam ser doadas13 11 Ordenações Filipinas. taballiães..r. Calheta. Monforte (c. História das instituições….r. Meirinho (. Livro II.. Faro. Miranda. Torres Novas e Vila Hermosa. nem os Juizes e Tabelliães se chamarão por elles» a) Prerrogativa régia (Hespanha. de confirmação de 28/09/1627) Poder para por meirinho: Portel (c. João.) [não] dará Cartas de Scudeiro a outras algumas pessoas. Chancellaria alguma das cartas e sentenças..r. que passarem» a) «E não se chamarão Senhores das terras.r.)»a) «(. de 24/06/1549). XVII era detido pelos condes de S. Montalegre (c. Vila Viçosa (c...r.r. Hespanha.) defendemos a todos os Senhores de terras que não ponham nellas Juizes de fora e deixem os concelhos usar de suas eleições (..) que não dêem Cartas nem Alvarás de privilegios à pessoas algumas.. Chaves e Barcelos (carta régia (c. Hespanha..r.r. Benavente. que criarem. Lavradio e Barreiro (c. Unhão. 285) Tabeliães – por norma são providos por carta régia e depois de examinados pelo Desembargo Paçoa)12 «(. trazendoos a cavallo em sua casa» a) «(. 302 refere que este privilégio no séc. 294 12 . Vale de Reis. História das instituições…. Portel (c.. 06/03/1567). Borba e Alter do Chão (c.. aqueles.. per que os hajam por privilegiados e escussos dos encarregos e servidões dos Concelhos (. de 09/04/1551).) não levarão .. escriuaes das camara e Porteiros dellas e assj os que ouuerem de seruir ante os juizes de fora como ordinarios con declaração que os nam podera prouer sendo os ditos offiçios da apresentação e prouimento das camaras» (alvará de 02/10/1617) «Que possa em suas terras jsentar dos encargos dos conçelhos as pessoas que lhe parecer e isto per mandado e nam por priuillegio» (alvará de 02/10/1617) «Que faça escudeiros as pessoas que lhe parecer sendo Vassalos seus das suas terras posto que autoalmente não estejão no seruiço de sua casa» (alvará de 02/10/1617) Juizes de fora em: Bragança. e leuar os direitos della» (alvará de 02/10/1617) «Os offiçiaes das mesmas terras se chamem por elle na forma da lej noua» (alvará de 02/10/1617) Que seus ouuidores passem cartas de seguro (alvará de 02/10/1617) «Possa prouer os offiçios de escriuães dos orfãos.)»a) «(. Alhos Vedros. de 03/01/1567)...r.r. Arraiolos. p. de 30/03/1566). Azambuja. Samora Correia.. marquês de Castelo Rodrigo e duques de Aveiro. XLV. Vila do Conde (c. Povos. Alcochete. de 19/06/1608).. nem em algua dellas. Tit... Castelo Melhor.

º duque. O caso concreto refere-se à Casa de Aveiro que desde a década de 1580 viu uma série de alegados privilégios anteriores serem postos em dúvida pelos tribunais régios. Sabe-se que a Casa de Bragança manteve o essencial dos seus direitos. I. De qualquer modo e dada a importância do caso. publicados em Collecção Chronologica da Legislação Portuguesa …. que permitiriam avaliar a consistência de tais ideias e os ritmos evolutivos. havendo outros dados que sugerem que a Coroa levou a cabo uma política de fiscalização estreita. Todavia não se estudaram as posteriores práticas dos Habsburgo relativamente a esta matéria. vol. Desta feita. mas se iniciara muito antes. p. revelador do signifi14 Jorge Borges de Macedo. apoiada num caso. parecia que não havia dúvida que o duque D. PATROCÍNIO E CONFLITUALIDADE 93 Exponho uma hipótese. . Madrid. D. bem como a consulta de 1589 são outros exemplos do afã de controlo que a monarquia dos Habsburgo desenvolveu. Dessa forma. fl. 183 e 258-259. Iniciativas Editoriais. 1975. mandava-se que se revissem os papeis16. vol. Lisboa. em 1580. D. 388. 59v. Universidad Complutense. in Dicionário de História de Portugal. Em 1 de Setembro de 1590 dizia-se que se viram as doações e privilégios que tinha e usava o 3. Álvaro podia gozar do privilégio que se questionava e que era o de deverem ir as apelações dos seus almoxarifados ao oficial da sua Casa que fosse juiz da sua fazenda e depois disso voltar à casa do Porto ou ir à Casa da Suplicação. Álvaro. O que concorda com o já aludido aumento da área de jurisdicionalismo senhorial no Reino e também com outra imagem fixada pela historiografia que é a da proliferação de mercês régias como meio de persuasão do grupo nobiliárquico. 1987. pp. 481-522. e que por eles se demonstrava poder o duque usar dos privilégios e doações concedidas ao 2. O pleito que ainda corria em 1621. Jorge e este dos concedidos ao 1. Quanto à hipótese são conhecidas as assunções de que o período da Monarquia Dual teria compensado a nobreza portuguesa do afastamento da corte com o reforço do seu poder a nível local14. tendendo a restringir os privilégios em uso pelos donatários. dir.º duque.RELAÇÕES DE PODER. «Nobreza na Época Moderna». Esta tese foi acolhida por Fernando Bouza Álvarez. 44-XIV-4.ª ed. IV. D.º duque de Aveiro. mas só após bem sucedidas demandas com a Coroa15. 15 Podem citar-se a este propósito a carta régia de 18 de Novembro de 1615 e o alvará de Lisboa. pp. 2 de Outubro de 1617 (que abaixo se extracta) e que põem fim às demandas entre a Casa de Bragança e o Procurador da Coroa. Portugal en la Monarquia Hispanica (1580-1640). sempre que as provas apresentadas eram duvidosas e até a promulgar legislação geral mais restritiva. Joel Serrão. 16 Biblioteca da Ajuda (BA). Filipe II. Las Cortes de Tomar y la Genesis del Portugal Católico. João. 2.

em finais da década de 1580. depois dessa proibição. Mas essa alegação foi indeferida. 30 de Novembro de 1616 transcrita em Claude Gaillard. escriuaes das camara e Porteiros dellas e assj os que ouuerem de seruir ante os juizes de fora como ordinarios con declaração que os nam podera prouer sendo os ditos offiçios da apresentação e prouimento das camaras. 18 British Library (BL). adiantava o Aveiro. 44-XIV-4. Não conseguindo este apresentar documentos comprovativos desses direitos. não haver lugar a alegar “posse imemorial” como o arcebispo fizera. Ora. O duque entendia que ele não se devia incluir nessa determinação “por razão da dita posse em que estaua”. e que possa em suas terras jsentar dos encargos dos conçelhos as pessoas que lhe parecer e isto per mandado e nam por priuillegio. BA. ao marquês de Castelo Rodrigo e ao conde de Lumiares (filho deste) poder para prover serventes dos ofícios de justiça das suas terras. Grenoble. fls. pp. como constava dos traslados e alvarás que anexava ao processo.94 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS cado político da dada de ofícios e que creio que tem uma incidência que transcende a casa ducal de Aveiro17. 1982. o duque de Aveiro mantinha há algum tempo um contencioso com a Coroa sobre a extensão dos direitos nas suas terras. ao marquês de Alenquer19. E entre essas provas estava o traslado da carta régia de 2 de Outubro de 1617 em que se concediam amplos poderes ao duque de Bragança que se extracta “avendo respeito a mo pedir por sua carta o duque de Bragança meu muito amado e prezado primo e a seus serviços e muitos merecimentos de sua casa. taballiães. 1136. e por lhe fazer merçe ej por bem que elle possa ter chancellaria de sua Casa e de suas terras. L’action de Diego de Silva y Mendoza. . Com efeito. baseando-se na ausência de títulos e no facto de. Egerton. rei decidiu contra ele. 19 A afirmação era verdadeira como se comprova pelo conteúdo da carta régia de doação da jurisdição de Alenquer de Madrid. Na primeira situação18 estava em causa o facto de embora estando em posse do direito de prover as serventias de todos os ofícios de suas terras por si e pelos duques seus antecessores (ao abrigo das suas doações como constava da sentença). e leuar os direitos della e que os offiçiaes das mesmas terras se chamem por elle na forma da lej noua e que seus ouuidores passem cartas de seguro nos casos em que os corregedores das comarcas as podem passar na forma da ordenação e que possa prouer os offiçios de escriuães dos orfãos. Le Portugal sous Philippe III d’Espagne. e que proueja nas mesmas suas terras os offi17 Um outro exemplo de fiscalização da extensão das jurisdições surpreende-se na consulta do Desembargo do Paço sobre a correição feita na vila de Alhandra para verificar o direito da jurisdição e dada de ofícios do arcebispo de Lisboa. dado as Ordenações haverem sido impressas 70 anos antes. o rei tinha concedido ao duque de Bragança. 395-396. 113-115. Université de Langues et Lettres de Grenoble. o monarca ter mandado proibir que os donatários as provessem.

O segundo caso dizia respeito ao provimento de ofícios por renúncia do anterior titular. mas importante pelo teor contraditório das alegações dos juristas do Desembargo do Paço chamados a depor. Nesta última hipótese. O duque objectou. A descrição do episódio é longa. este lhe aceitasse tal renúncia e houvesse então o rei o tal ofício por vago. Egerton. pareceu que o duque donatário podia apresentar os ofícios de tabeliães que estivessem vagos tanto por morte. privilégio idêntico ao dos citados senhores. após a renúncia que um outro oficial fizera nas mãos do duque.RELAÇÕES DE PODER. Requeria. . fontes. “alegando muitas coisas e razões. Ora o caso oferecia dúvidas. Antes de proceder à emissão da provisão. mandou-se. e que das duas partes dos Rendimentos dos conçelhos das suas terras possa mandar despender o que lhe parecer nas obras do bem publico dellas com declaração que as obras serão somente pontes. A outro desembargador. 1136. o rei mandou que se vissem as cláusulas das doações do duque para certificar se ele detinha poderes para prover por renúncia. Dizia respeito a um caso concreto e fora suscitado pelo pedido de confirmação régia do cargo de tabelião do público e judicial da cidade de Coimbra outorgado pelo duque de Aveiro. 20 Alvará de Lisboa. e assj ey por bem que conforme a isto cesse a demanda que o Procurador de minha Coroa tem movido ao Duque o que tudo assj me praz sem embargo de quaesquer leis e ordenações que em contrario aya e mando as justiças offiçiaes e pessoas a que o isto pertençer cumprão…”20. como se fosse por morte. fls. calçadas. por isso. Como já se referiu José Justino de Andrade e Silva transcreve-o na íntegra em Collecção…. por onde diz que pode prover por renunciação. PATROCÍNIO E CONFLITUALIDADE 95 çios de Procuradores do numero em pessoas aptas e sufficientes não excedendo nisto o numero que delles costuma aver Os quaes serão primeiro abellitados per mjm ou pello meu desembargo do paço. mas tal não ocorria no caso em apreço. 258-259. 8-8v. ou que renunciando o proprietário nas mãos do rei. e que neste costume e posse estavam os Duques seus antecessores”. pp. porém. bem como o traslado da sentença da Relação de 15 de Fevereiro de 1603 em como se tinha achado por bem provida a serventia que o duque de Aveiro fizera de um ofício por estar em posse por si e por seus antepassados. Visto na Mesa do Desembargo. excepto quando os ofícios vagassem por morte. porque pelas doações parecia que não o podia fazer. por isso. 2 de Outubro de 1617. estradas publicas e outras desta callidade // e que proueja as seruentias dos offiçios de justiça das suas terras assj e da maneira que seus antepassados o fizeram e que faça escudeiros as pessoas que lhe parecer sendo Vassalos seus das suas terras posto que autoalmente não estejão no seruiço de sua casa. para análise pelo Procurador da Coroa que foi de parecer que não podia. o duque poderia apresentar o dito ofício. três desembargadores sustentaram que não. BL.

porque em negócios de tanta importância. Tal avaliação poderia sugerir uma tentativa de limitar o tipo de territorialização do poder nobiliárquico. porque em direito se igualava o poder de apresentar benefícios ao que se tinha no apresentar ofícios. onde o constante esforço de ocupação e desenvolvimento das terras o justificaria com maior pertinência23. 189-191. ordenava-se que fossem extintos os ofícios que o duque de Aveiro criara de novo em suas terras e dera de serventia a várias pessoas22. 44-XIV-4 (n. 19. pp. 1487. pois já o donatário não faz mais que apresentar no ofício que Sua Magestade há por bem que vague com efeito por renuncia do proprietário. Por carta régia de Novembro de 1603. não é de crer que os desembargadores do paço antigos dessem aos reis passados seu parecer sem muita consideração. 23 António Vasconcelos de Saldanha.º28). fls. nem parecia que o contrário disto foi julgado na Relação porque se fez muita diligência sem se achar feito em que houvesse sentença em contra disto. 41-42v apud Boletim da Filmoteca Ultramarina.96 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS como por renúncia. Archivo General de Simancas (AGS). embora seja. E no que referia aos benefícios. exigiria a análise dos privilégios e clausulado das novas doações e das confirmações régias feitas aos senhores de terras. . As capitanias do Brasil…. também. E acrescentava: “e que os inconvenientes que se apontam que intervêm na apresentação do dito ofício vago por renúncia se são todos se mostrar licença de Sua Magestade para se fazer tal renúncia. como aquela a que 21 22 BA. precedendo para ela licença de Sua Magestade”. fl. cód. quem tinha poder para apresentar ou colar os vagos o fazia quer fossem vagos por morte ou por renúncia. Pese embora esta longa alegação o caso foi indeferido pelo monarca que aceitou o parecer maioritário do Desembargo do Paço21. Como disse antes. porque isso parecia conceder-se na doação antiga que se oferecia interpretada e declarada pelo costume que se usou sempre nas ditas apresentações como constava das certidões que se ofereceram e. As Ordenações fixaram este direito real e tinha valia mesmo nas donatarias ultramarinas. trabalhosa. Outra questão onde a disciplina régia se fazia sentir com acuidade era a da criação de novos ofícios. Secretarias Provinciales. antes se afirma por oficiais do juízo dos feitos da coroa que num feito que trouxe Francisco de Sampaio com o Procurador da Coroa se julgou que podia o donatário apresentar o ofício vago quer fosse por morte quer por renúncia. claro está. nem parece em contra isto dizer-se as ditas certidões seriam acaso passadas. Parece assim que a análise na longa duração é indispensável.

É o que se verificava na confirmação das câmaras. a partir de onde controlavam uma extensa. confrarias e conventos. a deslocações. Granada. ocorria nos demais reinos peninsulares24. de dotes. Os diferentes tipos de mercês dispensados pela casa foram estratégicos nesse processo. Paternalismo e conflitualidade O segundo ponto. a compra de bens. de trocas e de negociação dos diferentes interesses em presença. No caso dos duques de Bragança sabemo-los sediados em Vila Viçosa. na dada de ofícios locais. na concessão de tenças. Universidad de Granada / Ayuntamiento de San Fernando / Ayuntamiento de Marchena. Utilizavam a mesma matriz formal. quanto à aplicação da justiça e à capacidade tributária. Muitos dos privilégios recebidos diziam justamente respeito à gestão dos espaços senhoriais. 24 David García Hernán. num modelo semelhante ao da administração régia. Ou seja. tanto no que respeita à nomeação de pessoas. por isso. mas com base territorial mais diminuta e menos poderes sobre as mesmas. mais senhores de terras. de esmolas. num organigrama que não se distinguia particularmente do da Coroa. nos apoios financeiros ao estudo. Exercitava-se a liberalidade para harmonizar relações interpessoais através de jogos de compensações. A sua gestão era. E é quase certo que exemplos similares se podem estender a outras casas senhoriais. De tudo um pouco. . também há que destacar que a estratégia de integração de membros de parentelas de elites locais na corte ducal em foros de moradores foi a este título absolutamente decisiva. tal como. É verdade que a Casa ducal de Bragança detinha privilégios que lhe asseguravam a nomeação directa não apenas dos ofícios locais como também de ofícios de justiça e fazenda destinados a intermediar os assuntos das terras com o centro do senhorio. refere-se à importância da governação presencial para promover o maior controlo político sobre as terras. de benefícios eclesiásticos. de resto. mas dispersa área territorial. Que não governavam presencialmente. Administração senhorial. La Casa de Arcos. no patrocínio às misericórdias. mediada por agentes administrativos próprios. com lógicas bastante similares. PATROCÍNIO E CONFLITUALIDADE 97 aludi relativamente à casa de Aveiro. Esses elementos agilizaram a comunicação entre o paço e as terras e ajudaram a amortizar tensões com a sede do senhorio. Aristocracia y señorío en la España de Filipe II. Igualmente relevante neste ponto seria apurar a tendência para a maior ou menor dispersão na titularidade de senhorios. 1999. Se esse fenómeno lhe assegurava os recursos humanos necessários para o exercício do poder. e ao qual já fizemos uma breve referência.RELAÇÕES DE PODER.

dos marqueses de Vila Real ou mesmo do infante D. GEsOS / Câmara Municipal de Palmela. Publicações do Arquivo Histórico do Ministério das Finanças. verificamos como no século XVI podia ser a própria Coroa a reforçar a influência política das casas nos respectivos senhorios. 2002. sep. João II (futuro D. em que Cristina Pimenta revela como os ofícios locais das terras das ordens de Santiago e de Avis eram muito frequentemente atribuídos a criadagem da sua casa senhorial ou a cavaleiros das ordens. para mobilizar os seus parentes a fim de apaziguar os tumultos «cada dia me disem que ha nessa Vila motins ou esperanças de os aver e que o pouo trata de soltar presos e queimar cartorios liuros e papeis da Camara naõ sendo cousa de que elles possaõ alcanssar bem nenhum particular nem o pouo utilidade algua e por me paresser que so vos com vossos parentes podereis ser o meo para isso se aquietar vos quis escreuer esta. Jorge. Com esta outra estratégia procurava-se garantir uma gestão dos recursos locais favorável ao donatário porque isenta das solidariedades de raiz local. 26 Maria Cristina Gomes Pimenta. depois duques de Aveiro. por isso mesmo. Manuel demonstra que os ofícios das terras do marquês de Vila Real que eram da dada régia foram providos em criados do 25 José Mendes da Cunha Saraiva.98 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Será. por ocasião dos levantamentos anti-fiscais. Um exemplo expressivo é o do meio utilizado pelo duque D. Gonçalo Soeiro de Azevedo. Cartas do Duque de Bragança a Gonçalo Soeiro de Azevedo (1632-1640). o duque pedia a intervenção do seu procurador do concelho. E que se assemelha à figura dos juízes de fora. sem cuidar da sua naturalidade ou local de residência26. Jorge. junto das populações. Em carta enviada para Sousel em Setembro de 1637. Mas outra situação possível.16. Luís. Neste último caso privilegiavam-se factores propiciadores do exercício da autoridade. Jorge. p. um pouco na linha do trabalho sobre o governo de D. As Ordens de Avis e de Santiago na Baixa Idade Média. Podem ser adiantados exemplos para o século XVI para as casas de D. 1942. . aquietar más vontades. era a de a dada de ofícios ser utilizada pelos senhores para recompensar serviços prestados à casa senhorial. natural esperar que os agentes senhoriais e o funcionalismo local de nomeação dos donatários tivessem maior capacidade negocial para.»25. Palmela. O governo de D. diga-se. comportamentos indisciplinados ou contrários aos interesses da casa.. João IV) para sossegar os motins no Alentejo.. mas talvez ainda mais interessante. e contraditória com o exemplo acima exposto. sem atender à naturalidade das pessoas em causa. Numa abordagem um pouco distinta. Lisboa. correndo embora o risco de produzir relações mais tensas nas terras. pois a análise da chancelaria de D.

pp.º duque de Caminha não hesitava em afirmar que “todos los caballeros y personas principales de la ciudad de Leyria [era o seu local de residência. confirmar negócios. fl. 1560-1640. Frei Bartolomeu dos Mártires. fosse para pedir instruções. a proximidade do arcebispo de Braga relativamente aos assuntos desse município31 são exemplos possíveis. Câmara Municipal. A Casa e Ducado de Aveiro. PATROCÍNIO E CONFLITUALIDADE 99 marquesado numerosas vezes. ms. não obstante terem cartas de inimizade uns com os outros29. 1972. acatar ordens. mas sobre a qual não tinha jurisdição] son criados y paniguados suios. fossem impedidas de servir juntas nos ofícios e cargos dos concelhos quando fossem eleitos. 1566 (VIII)-1567. Em todo o caso. Braga. dos duques de Aveiro para a de Aveiro30. 1973. Muitos outros existiriam seguramente e revelam de forma muito clara o elevado nível de controlo político dos senhores sobre os assuntos locais e também a importância da intermediação senhorial na obtenção de privilégios ou na solução de questões com a Coroa. 2000. a correspondência que as terras mantinham com os donatários é indiciadora de fluxos regulares de informação. Práticas senhoriais e redes clientelares. Sua origem. Estampa. Duarte para a câmara de Vila do Conde. A Casa de Bragança. . Egerton. quando constasse ao duque que as pessoas de Vila Viçosa conversavam e se comunicavam como amigos. está de resto evidenciado na necessidade de obter em 1627 a confirmação régia do privilégio para que. 31v. Talvez por isso. Frei Bartolomeu dos Mártires:1580-1582. 1979 e Acordos e vereações da Câmara de Braga nos dois últimos anos do Senhorio de D. Mafalda Soares da Cunha. o 1. 17. 243-245. Um bom exemplo disso. Para a Casa de Bragança conhecem-se numerosas situações28 que denotam o elevado nível de conhecimento que os duques tinham das suas terras. Aveiro. 31 Acordos e vreações da Câmara de Braga no Senhorio de D.RELAÇÕES DE PODER. Braga. neste caso associado às sociabilidades locais. evolução e extinção. por ocasião de uma das suas partidas para o governo de Ceuta. 1136. 29 Arquivo da Casa de Bragança (ACB). As cartas do infante D. um século mais tarde (1622). fl. Lisboa. y todos quedan para seruiço de la duqueza”27. Câmara Municipal. ms. 43. Mas a existência de canais de comunicação eficazes ocorria igualmente em outros senhorios. Vejam-se 27 28 BL. 30 Francisco Ferreira Neves. Seria então importante conhecer qual destes comportamentos era dominante nas relações entre as casas e os respectivos senhorios e avaliar depois se haveria modelos senhoriais mais e menos paternalista a fim de medir o impacto dessas diferentes atitudes na conflitualidade com as terras e os vassalos.

Ignacio Atienza Hernández.). todavia. de Producción y Parentesco en la Edad Media y Moderna. David García Hernán. Madrid. que muitos autores espanhóis também constataram existir nos reinos vizinhos33. Introduzia-se assim um mediador. reiterando as constatações feitas por Nuno G. n.º 9. “quanto ao que me dizeis (…). F. 155-204. Diga-se a este propósito. que os maiores focos de conflitualidade entre os donatários e as populações se reportavam às relações económicas. “Poderes locais nas áreas senhoriais…” (no prelo). O que é interessante constatar é o quase sistemático recurso aos tribunais para resolução dos diferendos inconciliáveis por vias informais. A Casa e Ducado de Aveiro…. Imprensa de Ciências Sociais. destinado a avaliar a pertinência e validade jurídica dos argumentos em confronto. Clientelismo y Patronazgo en el Antiguo Régimen» in Reyna Pastor (comp. pp. Monteiro há alguns anos34 e no já citado trabalho meu sobre a casa de Bragança35. 2003. e usando as palavras do próprio duque de Aveiro na carta que em 1572 dirigiu ao juiz. Lisboa. «Pater Familias. «El Señor Avisado: Programas Paternalistas y Control Social en la Castilla del Siglo XVII».100 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS as numerosas cartas de privilégio a terras de senhores contidas nas chancelarias onde se faz expressa menção que a mercê foi concedida pela intercessão. p. pp. mas porque todas estas cousas Requerem algum vagar quis fazer esta [carta] por que saibais que me he dado vosa carta E que trabalharei por fazer o que me pedis”32. mas deve assinalar-se que tinham menos eficácia quando o mal-estar era provocado pelo rigor na cobrança dos direitos senhoriais. afastado de vez que estava o uso medieval da coação física36. Julgo. Manuscrits. Aristocracia y señorío en la España de Filipe II…. «Lavradores. Monteiro. A Casa de Bragança… 36 Mafalda Soares da Cunha. 1990. Relaciones de Poder. amorteciam muitas vezes os descontentamentos. importante sublinhar que o que se verificava em muitos destes casos era a reacção dos povos contra direitos efectivos dos donatários e não abusos na sua cobrança por parte destes. 215-299 (primeiro editado em 1985 e 1986). 30. 35 Mafalda Soares da Cunha. Estas práticas paternalistas. A prová-lo estão as numerosas sentenças e despachos régios com fundamentação clara que deram razão aos senhores. pp. Veja-se um caso claramente difícil que opunha 32 33 Francisco Ferreira Neves. eu falarei logo niso a elRey meu senhor (…). teoricamente imparcial. CSIC. Idem. ou para fazer mercê a este ou aquele senhor. Señor y Patrón: Oeconómica. vereadores e procurador do concelho da sua vila de Aveiro. frades e forais: Revolução Liberal e regime senhorial na comarca de Alcobaça (1820-1824)» in Elites e Poder Entre o Antigo Regime e o Liberalismo. Ou ainda. sentenciando depois em conformidade. 34 Nuno G. 411-458. .

RELAÇÕES DE PODER. porém. que admito carecerem de estudos globais. em grande quietação da dita cidade e Pouo della”. a questão colocada nestes termos pode. e se lhe dá muito mais do que nunca rendeo e parese que o Duque deue ser pago conforme ao dito contrato”. ou embargo a não pagar podera otrosj requerer sua justiça como lhe pareser e quanto a confirmação que a cidade Pede do concerto e contrato que fez com o governador do Duque de aveiro por o Duque aggora não consente antes antes o contradiz pareçe se lhe não deue confirmar espeçialmente pello dito contrato ser nullo sendo feito sem liceça e authoridade de Sua Magestade. O que nesse caso configurava um sistema opressivo. mais aos povos. tanto mais que ambas as partes o requeriam “e se auerem com isso de escusar as grandes oppresões e molestias que o Pouo de aquella cidade padecia nas execuções que se fazião pellos rendeiros das ditas jugadas com grande desordem e violensia. Em 20 de Julho de 1591. O demorado diferendo sobre a matéria fora resolvido entre as partes por um contrato perpétuo. até porque o duque mudara de ideias. fls. Talvez também porque havia regiões onde os direitos que estavam estipulados eram de facto pesados. e Posto que fora valido. trabalhos com quadros geográficos alargados à escala do reino e que permitam. de abusos que se pudessem imputar aos donatários ou mesmo ao rei. então. Ora. dando azo a oposições e conflitos. avaliações mais precisas do impacto dos diversos tipos de direitos senhoriais no desenvolvimento agrário e na paz social. PATROCÍNIO E CONFLITUALIDADE 101 o duque de Aveiro à cidade de Coimbra sobre a arrecadação das jugadas. colocava-se a questão de o confirmar ou não. talvez reorientar. sendo atée aggora a que pior se arrecadaua. 187v-188. b) outros dois alegavam desfavoravelmente. e que com isso auer effeito fica ao donatario aquella renda de melhor condição que todas as de seu estado. mas que não estava confirmado pelo rei. . Tal ocorreria. Os pareceres dos desembargadores do Paço dividiram-se: a) dois achavam que o rei devia confirmar “por ser em euidente proueito dos Bens da Coroa. ou seja. enquanto não há confirmação de sua Magestade se pode o Duque apartar delle”37. portanto. e com mais clamor do Pouo. sobretudo em épocas de maiores dificuldades económicas. 44-XIV-4. 37 BA. O que talvez este tipo de comportamento indicie é atitudes de maior rigor na gestão dos direitos senhoriais que pesavam. pois “não he justo impedir sse ao Duque a arrecadação dos dereitos de jugadas que lhe são deuidos e que assim os deue Pedir e arrecadar ordinariamente e se a Cidade tiuer algua duuida. Não se tratavam. quarto ou até oitavo da produção que eram cobrados nalgumas áreas). ou mesmo muito pesados para os povos (penso no terço. a análise mais aprofundada destes tópicos.

entre os senhores e os procuradores da Coroa. 1988. Sebastião em que se dizia que os corregedores da comarca lá deviam residir seis meses e outros seis meses em Trancoso. António de Oliveira. 263-276. Paris. BL. 1136. 40 Cf. O rei deu então despacho favorável (1590/11/27). outros prendem-se com rivalidades locais. nos solicitadores e advogados das casas senhoriais sediados junto dos tribunais centrais. quer pelas 38 Alguns exemplos avulsos num tema que mereceria atenção e uma tipologia de análise. outros com disputas de preeminências: António Dias Miguel. Arquivo do Centro Cultural Português. por os julgadores que faziam a residência ao corregedor e provedor de Tomar obrigarem os moradores de Abrantes a deslocar-se a Tomar para testemunharem. quer pela capacidade de dissuasão de testemunhas menos favoráveis. Sabe-se que a litigância tinha custos económicos elevados.. pelo que sugere que os sindicantes sediassem quinze dias em Abrantes. embora de natureza distinta. em particular. fl. verdade que não se encontram registos de queixas contra senhorios muito numerosos. sobretudo se os processos se prolongavam com embargos e recursos sucessivos. por exemplo. 44-XIV-4): 1) Após queixa da câmara de Pinhel justificada por uma provisão de dada por D. pois enquanto muitos conflitos inter-senhoriais decorrem de partilhas. no entanto. procurando residir o maior tempo possível em Pinhel. (1689/09/23). Um primeiro está associado ao preço da justiça. o que não ocorria. Livraria Sá da Costa Editora. As possibilidades de influência também jogavam a favor dos senhores. 50-90 que correu pelo menos entre a década de 1590 e a de 1620. o rei decide que a provisão era antiga e já desadequada. podem colaborar na ocultação dos conflitos. sobretudo aqueles que disponham já de uma estrutura judicial própria. Penso. António Pereira Marramaque. embora se não devam descartar dois outros factores que. Egerton. mas que o corregedor devia atender ao caso. Lisboa. 2) Queixa. vol. pp. não obstante a existência de algumas excepções significativas40. sep. . Já o disse em anterior trabalho e creio dever reiterá-lo. 26v-27. beneficiando claramente os donatários. «A violência do poder dos cavaleiros de S. Na realidade. inter-municípios e inter-instituições locais ou até entre municípios e a administração periférica da Coroa39 do que com queixas de municípios e de vassalos das casas senhoriais contra os seus donatários. desta vez da câmara de Abrantes. A capacidade financeira para assegurar a sua continuidade era desigual. pelo que desembargadores opinaram que um terço do tempo das residências fosse passado em Abrantes. fls. João no período filipino» in Estudos e Ensaios em homenagem a Vitorino Magalhães Godinho. Os elementos explicativos dessa escassez reivindicativa podem assentar na eficácia desta gestão paternalista. 39 Dois exemplos a partir de consultas do Desembargo do Paço (BA. 1980. fls. Pleito entre o duque de Pastrana e o marquês de Alenquer sobre Chamusca e Ulme. Subsídios para o estudo da sua vida e da sua obra. senhor de Basto. ficando eles muito mais tempo em Trancoso. O argumento colheu. 103.102 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS É. tenho topado mais com registos de conflitos inter-senhoriais38. XV.

ms. O negócio já fora interrompido três vezes e queria o marquês interromper mais uma. 338. o rei acrescentava um alerta relativo à irregularidade que se havia cometido no Desembargo do Paço ao dar vista dos papeis do Procurador da Coroa ao duque de Aveiro e mandava. ou melhor. 43 BL. Dizia que tinha fundadas suspeições. O segundo argumento. ACB. “advertir disto os desembargadores do Paço pera que não aião nunca as partes uista das informações que se fiserem sobre suas pertenções”41. havia cinco anos e sete meses que o povo perseverantemente requeria justiça. Esta situação torna difícil a avaliação dos níveis e tipo de litigância exis- 41 BA. fl. O que gerava casos de suspeições e os necessários pedidos de substituição dos juizes ou desembargadores. Pediam. por isso. 42Processo . o duque objectara das alegações apresentadas pelo Procurador da Coroa. 19.RELAÇÕES DE PODER. fl. O argumento expresso por um desconfiado litigante contra os duques de Bragança. fls. y embargos” para atrasar a justiça. Há casos conhecidos que o revelam com amarga clareza. por isso. está associado à escassez da documentação de natureza judicial disponível para estas épocas. Arraiolos e Evoramonte onde deveria decorrer o inquérito e onde «elle daua os officiais e os aprezentaua e lhe fazia delles merce e erão todos seus vaçalos e escriuaes e Almoxarifes juizes e mais pessoas da dita vila e todos lhe obedecião e fazião tudo o que elle lhes mandaua e era seruido»42. 1135. com as demoras e custos inerentes. peremptorias. visto o autor da queixa (duque de Bragança) ser senhor das vilas de Vila Viçosa. invocando ainda o amor de vassalos que tinham para com Sua Magestade43. algures entre 1596 e 1605. particular atenção por esse dinheiro ser ganho com o suor do rosto e sangue de mãos. no que já gastara muitos mil ducados. declinatorias. iniciado em 1596 com sentença favorável à Casa em 1605 no processo contra um tal Bento Fernandes Bota e sua mulher. advertência. Egerton. 37v. 44-XIV-4. é também particularmente impressivo. Ora. dilatorias. utilizar todos os estratagemas jurídicos possíveis e imaginários “excepciones. através do seu advogado. Na carta régia de 8 de Outubro de 1589 que deu despacho ao caso. Quanto ao outro queixava-se o povo de Alenquer do Marquês. Citamos três. acusando-o de. reguengueiros de Evoramonte. 19. outro à casa de Bragança e outro à de Alenquer: No já citado processo analisado no Desembargo do Paço por causa dos direitos do duque de Aveiro a prover um ofício por renúncia. Um associado à casa de Aveiro. PATROCÍNIO E CONFLITUALIDADE 103 pressões junto do corpo de juristas dos tribunais. contribuindo nisso os pobres trabalhadores que deixavam de comer.

pelo menos até meados do século XVII. complementados com o enquadramento privilegiado que a Coroa lhes proporcionara. Difel. explica-se demorada e detalhadamente os fundamentos jurídicos. de resto. já fiz algumas referências). . Territorialização do poder senhorial e sociologia das elites políticas locais O terceiro e último ponto prende-se com o perfil social dos titulares dos ofícios locais. mas deve dizer-se que. 43-44 lista-nos uma série de confrontos e reivindicações lideradas por populares de muito variado cariz e com variados oponentes. Esta territorialização do poder senhorial verificada no continente e até nos arquipélagos da Madeira e Açores não ocorreu. em que avultam as queixas fiscais. nos senhorios ultramarinos. pertinente chamar a atenção para esta questão.104 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS tente. porém. seja contra os oficiais da Coroa. raramente os seus senhores aí residiram. tomando-as como um fenómeno atlântico. Monteiro e Teresa Fonseca referiram nos textos que integram este livro e que. e que o Arquivo Geral de Simancas contém abundante e riquíssima informação relativa às decisões da Monarquia e dos seus conselhos. Poder e Oposição Política em Portugal no Período Filipino (1580-1640). Camaristas e não só. Viu-se que os níveis de conhecimento das terras (recursos económicos e pessoas) que os donatários mais antigos e com maior amplitude de privilégios jurisdicionais detinham. seja contra senhores. práticas políticas e a evolução histórica das capitanias. a meu ver. sobreviveram alguns códices do Desembargo do Paço (sobretudo relativos ao Período da Monarquia Dual e aos quais. ou melhor nas capitanias-donatarias. parece-me. caracterizan- 44 António de Oliveira. O que significa que a análise de processos é possível. se apoiava em redes sociais locais e que lhes permitia transformá-las facilmente em redes de criaturas suas. confirmam as ideias de um poder nobiliárquico muito territorializado que. É uma chamada de atenção que reforça o que atrás se disse e um pouco no sentido do que Nuno G. pese embora a extensa transferência de jurisdições por parte da Coroa. mas uma conflitualidade muito mais plural e multifacetada44. O que aqui importa trazer é que. Clientelas pode dizer-se. Sem pretensão de acrescentar quaisquer novos dados a este tema. apesar de tudo. Lisboa. No já referido estudo de Saldanha. no entanto. 1991. até porque os temas do Império têm sido demasiadas vezes tratados de forma desligada dos do reino de Portugal continental. e o que deles sobressai não é a litigância entre senhores e terras ou vassalos. como se disse. se articula também com o tema da territorialização do poder senhorial. pp.

RELAÇÕES

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do-se a administração senhorial por um quase total absentismo. O exercício dos poderes judicial e fiscal, bem como a gestão corrente dos territórios, eram subdelegados em agentes senhoriais, nomeados pelos capitães-donatários – os capitães loco-tenentes. Os poderes de nomeação do oficialato local e de confirmação das câmaras constituíram-se, por isso, em instrumentos que reforçavam os poderes destes loco-tenentes, embora estivessem sempre sujeitos a sindicância por parte das justiças do Reino. Na verdade, para além das razões económicas, a posse dos títulos dos senhorios pouco mais interesse despertava junto dos capitães-donatários. As suas relações com os vassalos eram quase sempre mediadas pelos capitães loco-tenentes, sem que estes últimos dispusessem, todavia, da autoridade social que caracterizava os donatários. Eram na maior parte dos casos gente com origens sociais modestas, que se havia distinguido na guerra com os índios ou com os invasores franceses e holandeses e tinham acumulado património fundiário. Transformados em senhores de engenho, formavam as elites locais e foi à sua sombra que se constituíram importantes redes clientelares (de parentela, compadrio, vizinhança, etc.), que às vezes transcendiam até os limites das próprias capitanias. Há relatos de comportamentos bastante arbitrários de bandos de parentelas suas, ofensivos do direito e das instituições reinícolas, e que deram muitas vezes azo a reivindicações, confrontos e revoltas, sendo conhecidos numerosíssimos episódios de protestos armados das populações contra os loco-tenentes que conduziram até a bem sucedidas deposições do posto. Percebe-se então que estes senhorios ultramarinos só importavam aos donatários em função dos rendimentos que deles se podiam retirar. E, na realidade, a própria estrutura de delegação de poderes e de exploração do território tornou muitas dessas donatarias em negócios verdadeiramente ruinosos. É que os rendimentos mais significativos não provinham da cobrança de direitos jurisdicionais, mas sim da exploração fundiária, mineração e comércio de escravos e o absentismo senhorial dificultava a exploração eficaz dessas oportunidades. Daí o abandono a que os seus titulares votavam essas capitanias e até o interesse em se desfazerem delas. Existiam excepções, todavia, que respeitavam, sobretudo, a capitanias nos arquipélagos do Atlântico Norte e algumas do Brasil. Nesses poucos casos (em que se complementavam normalmente as jurisdições com as actividades mais rentáveis atrás referidas) os altos proventos serviram de meio para promoção e ascensão no Reino, apesar de, em boa verdade, tal só se verificar com as fortunas brasileiras (e não foram mais que dois ou três casos) na segunda metade do século XVII. Tal quadro não era exactamente análogo, porém, ao da posse das capitanias hereditárias nas praças do Norte de África. Embora com rigor estas não configurem senhorios jurisdicionais, o certo é que a natureza dos poderes regimentais dos capitães-mores, associada às doações desses cargos

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em propriedade ou em vidas, permitia práticas políticas muito semelhantes. E estas, do ponto de vista formal, podiam até ser abusivas, mas não deixam de traduzir a extensão dos poderes efectivamente exercidos e a importância que os capitães hereditários lhes conferiam. Demonstro-o com uma situação muito expressiva. D. Fernando de Mascarenhas, conde da Torre, nomeado para ocupar o cargo de capitão-mor de Ceuta em 1624, explicava ao rei por carta de 23 de Abril de 1625 que os fundamentos dos conflitos ocorridos durante a sua administração da praça eram o de ter tentado cercear as irregularidades cometidas pelo duque de Caminha ao que este reagira mal, levantando-lhe, logo no primeiro ano de funções, vários pleitos judiciais. Dizia “foi acudir eu pela jurisdição real de Vossa Magestade que ele tinha usurpado e fazer eu conhecer a Vossa Magestade por senhor dessa força fazendo guardar as provisões reais de Vossa Magestade e não as do duque”. Dava como exemplos o caso de um capitão de Infantaria que tinha provisão ducal e régia para servir, mas que usava sempre a do duque, pelo que D. Fernando fizera rasgar essa, pondo-o a servir pela provisão régia, e outros similares relativos aos tabeliães do público, judicial, órfãos e notas. Acrescentava que Diogo Nabo, adail, quisera servir pela provisão do rei e não do duque e “o duque lhe o encontrou de modo que correu a demanda na relação de Lisboa aonde se deve sentença por Vossa Magestade e com isto ser tão claro, o tem o duque hoje embaraçado de maneira que a pessoa que hoje serve esses ofícios é por data do duque e não tam somente os serve por provisão sua, mas tem alvará de lembrança para os poder vender. E destes alvarás tem o duque passado muitos não podendo porque isso só toca a Vossa Magestade em resolução”. Mais dizia “que o duque se havia de maneira que dos moradores desta praça foi tido até agora por rei e senhor dela, e porque eu lhe tenho feito entender que em Espanha não há mais rei que Vossa Magestade me tem o duque capitulado com opróbrios alheios de meu procedimento”. Concluía, por isso “pretendo com isto que Vossa Magestade me tire desta força antes dos três anos e lhe conceda a ele vir a ela, quiça não com tenções de servir a Vossa Magestade senão de tornar a pregar e fazer crer a estes cavaleiros e soldados esta falsa seita em que viviam”. Referia depois serem estas práticas habituais nos capitães hereditários de Ceuta e que os reis passados já tinham tido que se confrontar com elas: “lembrando mais a Vossa Magestade que por outras semelhantes a estas, sendo o marquês de Vila Real pai do dito duque que hoje chegado a esta força com sua mulher e família de mui poucos dias o mandou elrei D. Sebastião que Deus haja ir daqui para Portugal e o veio tirar Dom Lionis Pereira e não mais tornou a esta praça” 45.
45

BN, Ms. 206, fl. 264. Esta carta está transcrita em Isabel M. R. Mendes Drumond

RELAÇÕES

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É claro que, diversamente das capitanias-donatarias, nas praças do Norte de África a raiz dos seus poderes era militar e, talvez por isso mesmo, tais funções geravam muito prestígio social e político no Reino. A reputação que a posse desses cargos hereditários conferia equiparava-se quase à posse de senhorios jurisdicionais no continente. Permitia, para mais, acumulação de fortunas através dos direitos sobre as razias, resgates e até pirataria, bem como a estruturação de redes clientelares relevantes. De gente que aí servia momentaneamente hábitos ou comendas das ordens militares, mas também de grupos familiares enraizados localmente e que de há muito ocupavam os ofícios principais das praças. Com efeito, o esforço para tutelar e controlar a acção desses oficiais era evidente e está quase de certeza associado ao governo das praças durante os períodos de ausência do capitão hereditário no Reino e, portanto, da gestão de outros capitães-governadores como é o caso com o conde da Torre. Se estas situações são claras em Ceuta com os Meneses, julgo serem seguramente extensível a outros casos. Queria, por isso, chamar a atenção para a necessidade de investigar o tópico da territorialização do poder senhorial mais detalhadamente, não apenas para avaliar a importância (ou não) dos donatários, dos loco-tenentes e dos capitães e governadores na composição e mobilidade social dos grupos de poder locais, como para apurar o impacto ao nível do controlo político sobre as terras. Referi anteriormente que esta questão também pode estar dependente da própria configuração física dos senhorios, uma vez que a descontinuidade territorial podia fomentar uma administração menos presencial e, portanto, mais autónoma dos controlo directo dos senhores. O pedido que em finais da década de 1580 o conde de Sabugal formulou ao Desembargo do Paço espelhava-o e não constituía de forma alguma uma excepção. Solicitava o dito conde que fosse ouvidor de suas terras o corregedor que ficasse mais perto de seus lugares, uma vez que eles estavam muito distantes uns dos outros, em diferentes comarcas, e um só ouvidor não poderia administrar justiça em todas elas. E argumentava: “E se em cada lugar houver de fazer um ouvidor não pode achar tantos letrados em que seguramente desencarregue sua consciência”, chamando a atenção que tal pedido era em proveito evidente das partes46. Parece de facto óbvio
Braga e Paulo Drumond Braga, Ceuta Portuguesa (1415-1656), Ceuta, Instituto de Estudios Ceutíes, 1998, pp. 220-221. Diga-se, de resto, que o apêndice documental contém documentação muito interessante que lamentavelmente os autores pouco exploram no corpo da obra. 46 BA, 44-XIV-3 (n.º299), fl. 256.

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que a sindicância ao ser efectuada por um corregedor da Coroa poderia estar menos enfeudada aos interesses directos do donatário, reduzindo assim a pressão que estes podiam exercer sobre os denunciantes e as testemunhas. Igualmente relevante seria apurar o destino social dessas clientelas com a redução da territorialização do poder que vai progressivamente ocorrendo. Como se desfaziam as conexões, que efeitos sociais e políticos a nível local produziam ou se haveria algum mecanismo informal que mantivesse certo tipo de relacionamento entre essas periferias senhoriais e os donatários já transformados em cortesãos. Outra área a carecer de maior investimento de estudos são os casos em que os donatários detinham poderes jurisdicionais menos exuberantes. A hipótese que apoio é a da possibilidade de maior conflitualidade com maior autonomia. Resta confirmar.

Conclusão
Em síntese, julgo importante sublinhar que sob a aparente capa de uniformidade institucional, os municípios ocultavam uma imensa diversidade de realidades políticas e sociais. Algumas delas têm de há uns anos a esta parte vindo a ser sublinhadas pelos estudiosos. É o caso da dimensão física, do peso demográfico, da importância económica. Não se tem, todavia, atendido suficientemente aos impactos que a diversidade de tutelas quase forçosamente gerava, sobretudo do ponto de vista da história social dos poderes. Ora este tipo de abordagens permite, como espero ter demonstrado, oferecer visões bem mais complexas, dinâmicas e matizadas das realidades sociais e das práticas políticas municipais.

As Ordens Militares e o poder local: problemas e perspectivas de estudo
FERNANDA OLIVAL
(Universidade de Évora – Dept. de História /CIDEHUS)

1.
Quando, em 1551, os Mestrados das Ordens de Avis, Cristo e Santiago foram perpetuamente unidos à Coroa, a nível local ainda era relativamente fácil identificar as jurisdições destas Ordens. Se o quadro destas não está traçado, deve-se apenas à falta de investimento em estudos com esse objectivo. Restam, todavia, nos arquivos portugueses materiais que o permitem fazer de forma aproximada, nomeadamente para as Ordens de Avis e Santiago. A doação medieval das terras é um ponto de partida importante, bem como as mercês de jurisdições feitas posteriormente. O numeramento de 1527-32, as visitações, as chancelarias das Ordens, os tombos de comendas e as Memórias Paroquiais de 1758 oferecem também contributos essenciais para os séculos XVI, XVII e XVIII, que devem ser explorados de forma crítica e comparada. Desde logo um dado fundamental a ter presente é que uma comenda nem sempre implicava a jurisdição da terra. Só em poucos casos seria assim. Há até descrições de várias épocas que apontam para tantas comendas e determinadas vilas sob a tutela de uma Ordem. Assim, acontecia, por exemplo, nas Notícias de Portugal de Manuel Severim de Faria. A Ordem de Avis é referida nos seguintes moldes: “(...) ajudando a lançar fora os Árabes desde Coruche, até Alandroal, e Juromenha; em gratificação do qual [serviço] lhe deram os Reis 18 vilas, que são Cabeção, Mora, Juromenha, Alandroal, Noudar, Veiros, o Cano, Fronteira, Figueira, Cabeça de Vide, Avis, Galveias, Alter Pedroso, Seda, Albufeira, a vila de Coruche, o Concelho de Serpa1, Alcanede, e 48 Comendas, que rendem passante
1 Não

parece correcta esta referência a Serpa. Cf. sobre a jurisdição da Vila, J. M. Graça
Os Municípios no Portugal Moderno: dos forais manuelinos às reformas liberais Lisboa, Edições Colibri – CIDEHUS-UE, 2005, pp. 109-126.

3. India e Ilhas Adjacentes e outras particularidades. Colibri . BA. “Os fornos da Ordem de Santiago e seus comendadores. Conselho da Fazenda Vedoria e Repartição do Reino e Assentamento . Francis A. Disc. A Ordem de Santiago em 1611 teria cerca de 85 comendas.110 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS de 23 contos”2. 1884). A Ordem de Malta teria em Portugal 21 vilas “e lugares” e 24 comendas4. assente no almoxarifado da Távola Real da Vila de Setúbal6. 250-263. Relativamente a Santiago. Lisboa. que era da Ordem. de Isabel Cristina Fernandes. Nalgumas localidades. a Ordem de Cristo teria recebido 21 vilas e lugares e 454 comendas. 3 Seria este um número muito irreal.º de ordem 344-345. em Alcácer do Sal) e outras equivalentes à renda dos tabeliães. que além de bens rústicos. Vol. poder e cultura: actas do III Encontro sobre Ordens Militares. fac-similada. § 17.. Affreixo. Lisboa. indicavam-se 47 vilas e lugares e 150 comendas3.2. 29-62. cit.ª ed. como era o caso da comenda espatária de Mouguelas. mas nenhuma detinha a tutela do concelho. nomeadamente das três comendas estabelecidas na Casa da Índia. Havia comendas compostas por apenas dízimos. incluindo Malta.000 réis. de bens urbanos e de uma parcelas de certos dízimos. Uma comenda era antes de mais um rendimento com tal título que permitia ao encartado na mesma designar-se comendador. Op. Mç. 1993 (1. não incluindo nestas as da Mesa Mestral .Decretos. § 17. 1999. Neste caso. Imprensa Nacional. 49-IV-31. Colibri / Escola Sec. in Ordens Militares: guerra. . Memória historico-económica do Concelho de Serpa. ANTT. n. como Elvas. 4 Manuel Severm de Faria. e o Batel de Santa Ana. 3 (decreto régio de 20 de Setembro de 1762). 2003 (1. Tombos de comendas. religião. pp. a Vila de Benavente. 6 Cf. fl. Não faltavam também exemplos de comendas que aglutinavam recursos diversificados.ª ed. As situações eram. Câmara Municipal. Lisboa. 1655). pp. ANTT. 2. coord. outras ao rendimento de transporte naval (Barca de Tróia. Outros casos igualmente atípicos eram as comendas que se traduziam apenas por uma tença em dinheiro.Câmara Municipal de Palmela. I. por conseguinte. todavia. havia comendas de mais do que uma Ordem Militar.ª ed. 5 Cf. Na Ordem de Santiago havia até comendas que equivaliam ao rendimento de fornos (quase todos de pão e um de olarias)5. 1859. actualização e notas de Francisco A. com introd. Livro em que se contém toda a Fazenda e Real Patrimonio dos Reinos de Portugal.. Lourenço Vaz. 179-183. pp. tinha um padrão de juro de 22. elevado a cidade em 1513. Severim de Faria. 2 Ed. Claro que algumas destas povoações constituíam uma ou mais comendas das mencionadas.cf. 407-456 e Luiz de Figueiredo Falcão. como era o caso de várias na Ordem de Cristo. Faltava. em Setúbal. Dutra. 1550-1777”. Serpa. Disc. outras apenas por bens rústicos de diferente natureza ou por rústicos e urbanos. de todas.

pois não se situavam num só município ou zona. Em relação à Vila de Cabeço de Vide. Não só porque em geral os bens estavam dispersos por diferentes freguesias de um mesmo concelho. na Ordem tomarense tal situação abarcava apenas algumas comendas que vinham da época dos Templários. fl. O primeiro processo iniciou-se em 1514. por vezes. L. . Jorge de Lencastre eram em geral partilhados entre a Coroa. as chamadas comendas “velhas”. Retome-se de novo a comenda de Santa Maria de Mouguelas: reunia bens no termo de Setúbal (Mouguelas).º 203. as distâncias eram consideráveis. quando pertencia à Ordem. em 1538. quanto. Em 1532. Assim. indicando de quem era a jurisdição e as rendas. Quer nestas. Afonso (na qualidade de Bispo de Évora) e o Cabido eborense. Assim se mantinha na segunda metade do século XVIII. o segundo em 1517-1519. pertencia sempre à Ordem. a Ordem. além de terras da Ordem de Cristo e de Malta no Alentejo. No entanto. o comendador de cada uma e por vezes o Cardeal D. quando foram criadas as “comendas novas” e quando foram instituídas as ditas “comendas da Casa de Bragança”. A milícia espatária dispõe de um excelente conjunto de visitações para a primeira metade do século XVI. 2. Manuel. 3. segundo se escrevia em 15657. Estas duas últimas figuras marcavam maior presença nas comendas de Avis. Ordem de Santiago – Convento de Palmela. Com base no numeramento demográfico mandado fazer por D. É possível observar que os rendimentos das Vilas dos dois Mestrados nas mãos de D. é possível ter uma ideia tendencialmente clara das jurisdições das Ordens de Avis e Santiago a Sul do Tejo (com excepção do Algarve). quer num caso. em Óbidos e um ramo “aprestemado na comenda dalhos Vedros que vale quorenta mill reis”. Do ponto de vista territorial. descreveram-se 14 vilas da Ordem de Avis e 30 de Santiago. havia também comendas fortemente descontínuas. quer nas de Avis da mesma época referia-se quase sempre a jurisdição do lugar. Quanto ao senhorio jurisdicional. escrevia-se: “a Jurdição do cyvell e cryme da dita vylla he da ordem e a eleyção dos Juyzes e ofycyaes se faz pelo ouvydor do mestrado e os Juyzes ordenayros são comfyrmados pelo mestre noSo senhor a quall eleyção se faz de tres em 7 ANTT. quer no outro. o número de comendas aumentou muito no reinado de D. No caso da Ordem de Cristo. as comendas não abrangiam as jurisdições das terras implicadas. João III.AS ORDENS MILITARES E O PODER LOCAL: PROBLEMAS E PERSPECTIVAS DE ESTUDO 111 muito variadas. além do juro.

8 ANTT. “Memórias sobre a Ordem de Santiago no tombo velho da Vila de Sesimbra: a jurisdição de Coina (1330-1363). como aconteceu com o Duque de Aveiro12. o Duque de Aveiro. a partir de 154713. 12 Cf.º de ordem 205. Só por concessão do Mestre. fl. 1991. um lugar que numa consulta da Mesa da Consciência desse ano se considerava que “deve tocar a VMgde. Jorge.112 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS tres años e asy he o custume em todo mestrado”8. 13 Cf. 65v. n. Câmara Municipal. o Prior-mor ainda conseguia apresentar a própria alcaidaria-mor de Cabrela. ANTT. Maria Cristina Gomes Pimenta. Bernardo Sá-Nogueira.º 14. A apresentação dos oficiais (escrivão da câmara. 76v (visitação de 1516). partidor e avaliador dos órfãos) à Ordem pertencia também ao poder do comendador10. Ana de Sousa Leal. doc. sabe-se que cabia ao comendador. . fl. 1994.157.33-36. fl. 176.º de ordem 163. relativamente à comenda de Sesimbra. Palmela. L. fixava-se a regra: “A jurdiçam do ciuel e crime da dita Villa e seus termos he da Ordem. 3 tabeliães do judicial e notas. Mesa da Consciência – Ordem de Santiago/Convento de Palmela. Estes poderes são-lhe reconhecidos por uma provisão de 1627. ANTT.Ordens Militares . 45v-46v. um servia na Vila de Sesimbra e os outros dois em Azeitão (um deles em Coina. in As Ordens Militares em Portugal: actas do 1. 38v-39v. As Ordens de Avis e de Santiago na Baixa Idade Média: o governo de D.. Ordem de Avis. ANTT. 10 Cf. Comissão organizadora das Comemorações do 480. ou com o prior-mor do convento palmelense em relação à Câmara de Cabrela. Mesa da Consciência – Ordem de Santiago/Convento de Palmela. Alhos Vedros nas visitações da Ordem de Santiago. porém. distribuidor e inquiridor. seria o comendador a fazer a escolha seguinte11. L. Nem sempre. na visitação de 1523. 9 Cf.Papéis Diversos. como as das mais villas dos mestrados das ordens melitares”. Fernando Pires. GESOS – Câmara Municipal de Palmela. pp. com base nestes poderes. e a eleiçam dos juízes e ofeciaes se faz pell nosso Ouujdor ou quem nos pera jso ordenámos. n. Mç 24. Mesa da Consciência . Alhos Vedros. de acordo com uma composição feita com o Mosteiro de Santos)9. Seguia-se a enumeração dos oficiais postos pela Ordem e a indicação das rendas da mesma (geralmente dízimos) e o elencar das propriedades. Palmela. E os juizes ordenairos sam comfirmados per nós ou pello Comendador que nosso poder tem e pera ello ho povo dar em cada huum anno seis juizes eleitos e nós escolhemos delles dous ou o dito Comendador que confirmámos ou o dito Comendador comfirma e tal he o custume da dita Villa e Mestrado”. 2002. escrivão dos órfãos. juiz dos órfãos.º 18. Esta modalidade do povo apresentar seis juízes seria corrente noutras comendas de Santiago da primeira metade de Quinhentos.º Aniversário do Foral de Alhos Vedros. ibidem. dos quais quem detinha a comenda ratificava 3. Em 1641. p. Destes. Eram eleitos seis. p. Em 1565. O prior-mor podia também apresentar os restantes oficiais da Câmara que eram providos por carta da Ordem. escrivão da almotaçaria. contador.43. entre outros exemplos citáveis. 11 No caso da comenda de Alhos Vedros. a confirmação dos juízes ordinários.º Encontro sobre Ordens Militares. fl.

eventualmente a outra entidade. p. Op. Relativamente ao período posterior a 1551. Uma a uma inventariaram as comendas. E dadas em suas terras os Marquezes de Villareal. ou. com a letra e rubrica de Pedro Álvares Pereira foi a seguinte e com a qual esteve de acordo o rei: “Pareçeo que se lhe de a jurisdição de ficalho de juro conforme a ley mental com a dada dos officios de escrivães da camara almotacaria E orfãos E tabaliães das notas E possa dar per suas cartas com todas as mais preminençias com que estão dadas jurisdicoes a outras pessoas tirando o privilegio de não entrar corregedor por correição na dita villa por estar junto da raya de castella E ter tam pouca povoação que se não for visitada se pode recear que se acolhão a ella mal feitores de ambos Rejnos” (AGS. Era este poder que havia que acautelar em 1619-20. A resolução a esta consulta.) também seria escassas vezes atribuída. seria um tópico ao qual a Ordem dava muito relevo no início de Seiscentos. o normal parecia ser o Mestre dar a comenda a alguém. Em sentido inverso. Secretarias Provinciales. A mesma atenção mereciam os diferentes tipos de benefícios eclesiásticos que tutelava. Seria um dado adquirido? O que se destacava como significativo era a possibilidade de controlo mais global. nada era dito . 14 Cf. assi Como tem a propriedade da dita villa antes de ella o ser”. cit. Tenha-se presente o seguinte: em 1600. Em razão do seu título nobiliárquico solicitava a jurisdição da vila. Assim se designava se a comenda estava sujeita ao Ouvidor do Mestrado ou aos corregedores da Coroa. E outros titulos do Reino. através do Ouvidor. . Pelo frequência com a qual se insistia neste ponto. o Conselho de Portugal discutia uma petição do Conde de Ficalho.. E se houverem de Criar de novo na forma. Quanto à jurisdição específica de cada uma das terras. Jorge († 1550). no entanto. E da maneira que tem estas jurisdições. A possibilidade do comendador apresentar outros oficiais da comenda (tabeliães. resultantes dos definitórios de 1619-1620. escrivães da câmara e dos órfãos. Como. mesmo no tempo de D. n. a preocupação com os corregedores seria grande por parte da Coroa. impressos em 1631. nos inícios do século XVII. aliás.º 26). indicando se a jurisdição estava incluída “no Mestrado” ou “fora dele” (ver mapa).o que não deixava de ser um silêncio inquietante. o mesmo será dizer na Ordem. 163.AS ORDENS MILITARES E O PODER LOCAL: PROBLEMAS E PERSPECTIVAS DE ESTUDO 113 No caso da Ordem de Avis. Era das Ordens ligadas à Coroa a que tinha menos comendas. mas o senhorio jurisdicional permanecer nas suas mãos. também acontecia em Santiago14. as melhores fontes que restam nos arquivos são documentos que foram produzidos pela Ordem de Avis ou que a ela pertenceram. Seria através dele que se fazia a defesa da jurisdição da Ordem15. E CastelRodrigo. E isto de Juro conforme a Ley mental. recém criada pelo monarca.º 1460. E pedia nos seguintes termos: “a dada dos offiçios que nella ha de haver. equivaliam às mais rendíveis dos três Mestrados. L. Os estatutos desta milícia. 15 Cristina Gomes Pimenta. foram cuidadosamente preparados. etc.

Beja e Mourão) e no bispado de Elvas (Olivença e Santa Maria da Alcáçova de Elvas). Serpa. antes de exercer. . Borba. D. Pernes. Sousel. Regra da Cavallaria e Ordem Militar de S. Fernando ampliara o senhorio jurisdicional da Ordem de Cristo em todas as vilas e lugares que lhe pretenciam. a Ordem tomarense passava a usufruir do seguinte: – os tabeliães poderiam ser dados e confirmados por cartas do Mestre e da Ordem. que residia habitualmente em Avis. mas também as havia no Arcebispado de Évora (Freiria de Évora. Nesta salientava-se que. A anexação das Ordens à Coroa facilitou a aproximação de jurisdições e de pessoas em actividades que deviam ser diferenciadas.cf. 18 BN. Bento de Avis. de uma situada na arquidiocese de Braga e da comenda algarvia de Albufeira. um Ouvidor deste mestrado e assim foi ao longo do tempo. Moura. Yorge Royz. 206v (ano de 1753). Numa junta de reforma da Ordem de Cristo que encerrou em 1589. entrava o corregedor com poderes de ouvidor. Nesta altura. ANTT. A partir daí. mas que a pouco e pouco deixaram de o ser. – os corregedores não podiam actuar nas terras do Mestrado. 13216. jurava na Chancelaria da Ordem. 17 Em cartas passadas pela Chancelaria da Ordem de Avis chegava-se mesmo a dizer que determinado magistrado serviria de ouvidor nesta zona. dos juízes ordinários apelava-se para o Mestre e para o seu ouvidor. no caso de Alcanede.114 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Os mesmos estatutos esclareciam que.º 37. L. XII. A maioria destas equivaliam às mais distantes da sede da Ordem. Quanto ao mais. apenas enquanto servisse de corregedor de Santarém . salvo se houvesse prévia denúncia ou querela contra o Mestre e o seu ouvidor. 16 Cf. Lisboa. cerca de 51% das comendas não estavam sob a tutela do Ouvidor do Mestrado. Seria colocado do mesmo modo. 114-118v. portanto. mas deixava de se poder apelar desta instância para o rei. fl. Nas outras terras. Chancelaria da Ordem de Avis. em 1373. tít. fl. Estremoz. Vila Viçosa. como era usual nos processos crimes. como era o caso de todas as comendas do bispado de Coimbra e da Guarda. exercia o cargo durante três anos e em nada se diferenciava de outros magistrados da carreira de Letras da Coroa. sem que pudessem tais poderes ser revogados posteriormente. cap. O ouvidor de Avis. fez-se um balanço “da jurisdição secular que a Ordem tem em determinados locais”18. Só havia.I. 1631. Alpedriz e Rio Maior entrava em 1631 o corregedor de Santarém como Ouvidor da Ordem16. uma situação que se manteve ao longo do tempo17. Cód. – nos feitos cíveis.

358 (1679). em comparação com o Corregedor. João III. Deviam tirar duas cartas separadas no Desembargo do Paço: uma de corregedor. sobre estes procedimentos. porém.º 302. emitida em nome de Sua Majestade como rei.. que estas jurisdições. 1671(1. com maiores ou menores dificuldades. Op. Tal queixume passou para os Definitório impressos. e simultaneamente.. ANTT.ª ed. Tomar. Câmara Municipal de Tomar. como governador da Ordem de Cristo. e as outras que não couberem (. passada pelo monarca na qualidade de Governador da Ordem e feita por um escrivão da Mesa da Consciência20. 364 (1682). circunscrevia as apelações que o Ouvidor podia receber às “que couberem em sua Alçada sòmente. Pte. a ouvidoria de Tomar foi dividida em duas. limitaram-se os poderes do respectivo ouvidor do Mestrado. Em períodos posteriores. Anais do Município de Tomar. casos de duas cartas para a mesma pessoa21. tít. 1628). de ouvidores do Mestrado. porém. tinham sido mantidas até 1532. criando-se uma nova. conhecem-se. pela escassa documentação camarária de Tomar disponível. 20 . 291 (1658). Nota-se.AS ORDENS MILITARES E O PODER LOCAL: PROBLEMAS E PERSPECTIVAS DE ESTUDO 115 Apontava-se. e freires da Ordem de Nosso Senhor Iesu Christo com a Historia da Origem e principio della. Alberto de Sousa Amorim Rosa. 256-257 (com um erro de data). na sequência de um pedido feito pela Vila de Tomar. protestava-se contra a perda destes poderes e contra a confusa e indistinta jurisdição da Coroa e das Ordens. Por isso. Na Chancelaria da Ordem não foi emitido qualquer 19 Alberto de Sousa Amorim Rosa. cuja intenção não he que se tomem á Ordem suas terras legitimamente adquiridas por serviços”. na sequência do Capítulo Geral de 1619. X. todavia. Como se afirmava na citada junta.III. Nada se sabe sobre as eleições concelhias nas terras da Ordem de Cristo depois de 1551. pp. Mais tarde. Dizia-se que o corregedor de Tomar e o de Castelo Branco serviam também.VII.) irão a quem directamente pertencerem”19. 1971. em 1589. Ioam da Costa. Nessa altura. Vol. que o Ouvidor teria um papel meramente secundário. pp. 21 Cf. nas Cortes de Almeirim de 1544. D. 3. Cf. L. em 1589. onde se afirmava textualmente que a Ordem fora “esbulhada de suas jurisdições cõtra direito.. Lisboa. com cabeça em Castelo Branco. outra como ouvidor. O cargo de Ouvidor do Mestrado era. os magistrados já só obtinham uma única carta de corregedores. & com cargo da cõciencia de sua Magestade. exercido apenas enquanto o magistrado servisse de Corregedor da Comarca de Tomar. Mesa da Consciência. fl. 108v. Salientava-se que eram doações remuneratórias e como tal não podiam ser retiradas ao património da Ordem – Definicoens e Estatutos dos cavalleiros. cit. Vol. IV.

as serras.Tiago. E nestes termos he esta villa da Ordem de S. Tal documento. como ninguem cuidava de os inteirar.1995]. . fl.116 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS diploma a confirmar oficiais camarários eleitos ou não eleitos. puchando sempre os Ministros de El Rey para excluirem de tudo a Ordem (. É provável que não incluísse os elementos da câmara propriamente dita. Apontava que a jurisdição de Mértola era da ordem de Santiago. passado em nome do comendador-mor da Ordem. com a consequente perda de competências dos tribunais régios. Por outro lado. à segunda pergunta do interrogatório. Sobre este processo são muito esclarecedoras as palavras do Prior da Igreja Matriz de Mértola quando respondia.ª de Fátima Rombouts de Barros. a ingerência do Desembargo do Paço seria clara já no século XVII. o Juiz dos Direitos Riaes. que o antecederam na dignidade. pp. os rios: as memórias paroquiais de Mértola do ano de 1758. então enviado aos párocos.). Aliás. A julgar pelas aparências. em 1758.. ao delegar poderes no comendador. quando foi redigida a primeira versão dos definitórios impressos como estatutos da Ordem 22 ANTT. em bom rigor não se sabe verdadeiramente quais eram os ofícios referidos.. porém. O reparo feito é muito claro a este propósito. através do Desembargo do Paço. como a tiveram o seu progenitor e o seu avó. Campo Arqueológico. terras. nos seguintes moldes “e assim se conservou em sua posse a dita Ordem com todos os seos actos e provimento de justiça athé que encorporadas as ordens na Coroa lentamente se foram descahindo os exercicios da dita posse. talvez por volta de 1620. de Joaquim Ferreira Boiça e M. por deixados. não é de afastar a hipótese de muitas jurisdições terem sido assimiladas pela Coroa.59-60. L. mas em parte está da Coroa”23.lit. e outros mais sam providos pella secretaria do Mestrado da dita Ordem. ed. D. 257v. encerrava com uma valiosa ressalva: “cõ declaracao que não UZará Nunca de Conservatorias Nem Cemsuras E Sendo lhe necessario algum Requerimento o fara nos tribunais Seculares”22. A única excepção até agora identificada reporta-se a um alvará.º 22.L. mas ainda alguns officios. como he o Juiz dos Orphaons. [D. 23 As Chancelaria da Ordem de Cristo. Em forma que. Sobre esta atribuição impõem-se dois comentários. receava-se o efeito dos processos poderem eventualmente cair no alçada do foro privativo dos membros das Ordens Militares. na Ordem de Santiago. com a separação do que hera Coroa. Mértola. Afonso de Lencastre. Por um lado. Por aquele diploma era-lhe feita mercê vitalícia da confirmação dos ofícios das vilas da Ega e Dornes. Seria um dos problemas nos concelhos dependentes destes institutos. muitos estam confundidos. de 1623.

dos dittos officios como as eleyções dos Officiaes das Cameras. que costumaõ vir ao Desembargo do Paço. & conheça das novas acções. & que nas terras da Ordem. Juizes de fòra. porque os faça seus Ouvidores. & disto se naõ guardar se tem seguido perda à Ordem. embora D. Tabeliões dos Officiaes. Afonso VI. Contadores. fl. vão à Mesa das Ordens. & datas. LXXVI. & aggravos das terras do Mestrado. . chegou-se a propor que se a Ordem não nomeasse os juízes ordinários das terras do Mestrado. & confirmavaõ por elles. pelo que diffinimos.º 69. conforme a provisão que para isso hà. vale a pena ponderar uma consulta do Desembargo do Paço sobre o assunto. não possão elles entrar sem provisão do Mestre. & confusão na jurisdicção. consultas. Pretendia o contador do mestrado25 confirmar as eleições das já apontadas comendas da Ega e de Dornes. fl. 319v. No que respeita às eleições camarárias das terras do Mestrado da Ordem de Cristo.AS ORDENS MILITARES E O PODER LOCAL: PROBLEMAS E PERSPECTIVAS DE ESTUDO 117 de Santiago. 25 O facto de se tratar da comenda-mor terá de longa data correspondido a uma situação especial. L. tivesse permitido que o seu irmão D. No definitório em causa. que estão fòra do Mestrado. Francisco. Pedro usasse de tais poderes nestas comendas. Num livro de notas de Lázaro Leitão Aranha registou-se: “O provimento dos Officiães da Vila da Ega. & dentro das comarcas dos Corregedores. 300. & se goarda por costume immemorial. & jurisdicção nas terras do Mestrado. que ao menos pusesse em substituição destes um juiz de fora letrado com o mesmo estatuto. Def. No parecer deste indicava-se que “o Comfiar as doaçõens das Camaras hé Regalia da Coroa. & apure as outras como faz. Mesa da Consciência. por do contrario se seguir alienação da jurisdicção da Ordem”24. em 1742. e em sua falta ao contador do Mestrado. 26 ANTT. & ordenamos que se peça a vossa Majestade mande que assi os provimentos. tal facto não era era con- 24 Regra. & todos os mais Officiaes de Justiça tocantes à sua jurisdicção. Enqueredores. 9 de Novembro 1624 e fl.de Cujas doacoens Se expedem pello Desembargo do Paço”26. que nenhuma peSsoa nem ordem pode Competir. datada de 1744. definição e reformação da Ordem e Cavalaria de Santiago de Espada. De acordo com a mesma opinião. Miguel Manescal. & assim os pilouros das eleyções dos Officiaes das Cameras se apuravaõ. estatutos. 1694. 86” – ANTT. e de Dornes tocão ao Comendador môr. L.º 302. Sem expresa doação de Vmag. & provião os Ouvidores. Nestes fez-se registar o seguinte: “Os Mestres tiverão sempre o poder. Para solucionar o caso foi consultado o desembargador que servia de Procurador da Coroa. & o Ouvidor confirme. Lisboa. como Governador perpétuo da Ordem. “vagas” por morte do Infante D. Desembargo do Paço.

20. marcavam presença neste registo. mesmo para o cargo de vereador32. 305-305v. eleitos em Alcanede e Alpedriz que pediam nas décadas de 50 e 60 do século XVIII para serem dispensados de servir. as referidas são as únicas que aparecem a fazer confirmações das câmaras na Chancelaria da Ordem de Avis. o diploma com a anuência do 27 Cf. Segundo historiava o procurador da Coroa. Logo após a anexação. mas. L. O mesmo parecia acontecer com os Setúbal e Messejana. como se comprova pelo registo das cartas na respectiva Chancelaria. em ANTT. 244v. noutros locais. Estes seriam os “verdadeiros ouvidores do Mestrado”. Mesa da Consciência. 31 Cf. o Desembargo do Paço apropriou-se da regalia. 255. quando morreu. na Estremadura29. fl. Ibidem. 23v. Aberto o pelouro. E este era considerado o ponto crucial. Nestas casos. ambas situadas nas Beiras28.300v. Ibidem.º 39. fl. Desde logo. os que saíam para os lugares de juiz. mas apenas por isso. .º 302. L. A situação na Ordem de Avis parece ser um pouco diferente. L. ANTT. Do mesmo poder dispôs o comendador seguinte: o Infante D. o ouvidor de Avis não acumulava funções. distinguia-se claramente entre o poder de fazer as eleições. Até 1620 é fácil atestar a confirmação para a Câmara de Alpedriz.º 1. Pedro não fora feita oposição a este poder. 472. em 1552-1553. 236v. Será que. L. 108v. Havia. 19v. Nos séculos XVII e XVIII. Nesta mesma consulta. fl. fl. 28 Cf. L. Ibidem. mas não a confirmação dos eleitos: era competência. como os de Seixo do Ervedal e da comenda do Casal. na Ordem de Santiago27. pela proeminência do Infante D.º 17. inclusive. 32 Cf. 29 Cf. Ibidem. 32-32v. A Câmara de Alcanede e lugar de Pernes tinham idêntico comportamento. poder. confirmação de 1552. fl. passim. como se chegou a classificar no discurso da época. do monarca. A partir de 1681 há pedidos regulares dos eleitos anualmente para este município30.º 11. Chancelaria da Ordem de Avis. Nos anos de 1760 ainda se fazia o mesmo e é de crer que se continuou a fazer31.118 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS siderado grande argumento. que se admitia pudesse ser delegado. vereadores e procurador tratavam de ratificar na Mesa da Consciência tal facto. 30 Cf. fl. a Ordem confirmava as câmaras de diversas terras. Francisco. seria o facto de disporem de um “verdadeiro ouvidor” que dispensava tal atitude? É uma pergunta para a qual não temos resposta. Mesmo municípios afastados do centro nevrálgico da Ordem. 148v.

O que parecia estar em jogo em Alpedriz. 427. . Ibidem.º 373. até quando se prolongou no tempo esta particularidade. ANTT. L. 35 Excepto em 1681. A última das quais teria ocorrido em 20 de Março de 1680. 36 ANTT. fl. uma observação que todas as cartas de confirmação de Alpedriz e Alcanede referiam a partir dos anos 80 do século XVII35. Pondo de lado estes casos. no tombo da comenda. não é possível esclarecer o problema. e a quem mais tocar lhe cumprão e guardem esta Provisam Sendo paSsada pela Chancelaria da mesma Ordem”33. é bem possível que muitas das comendas que implicavam a tutela das vilas tivessem pautas confirmadas pelo Desembargo do Paço. 33 Ibidem. na figura de Mestre. indicava que se devia mandar fazer nova eleição.º 17.º 12. 157.º 8. Como se perdeu a documentação do citado Juízo.AS ORDENS MILITARES E O PODER LOCAL: PROBLEMAS E PERSPECTIVAS DE ESTUDO 119 monarca. e Sem iSso não terá effeito. no século XVII. Alegava-se assim com a origem das terras para justificar a situação jurisdicional. Também em Noudar. feito em 1607. Mesa da Consciência. L. a confirmação dos eleitos para as câmaras pelo Governador perpétuo da Ordem seria um assunto por diversas vezes discutido e julgado favoravelmente no Juízo da Conservatória das Ordens Militares. Tombos de Comendas. fl. 34 Cf. fl. Até que ponto a proximidade da fronteira e o facto de ter sido comenda do Duque de Aveiro também não terão contribuído para essa manutenção? Não se sabe. L. O reforço da ligação ao Mestrado seria um hipotético ponto de fuga. Alegava-se. 305. 255. também. assim. privilégios que isentavam a Vila da jurisdição régia34. eram problemas com os corregedores e outras autoridades de Leiria. fl. 202v. com os privilégios daí decorrentes. escrevia-se: “Achou o dito Juis do tombo que a Jurdicam da Justiça do crime E civel E governo da terra he do comemdador que he agora o comde de linhares E a teve tambem o duque daveiro Seu amtecesor porque esta comemda E terras dellas foram da igreiJa E da ordem de cystel E amtiguamente Sohya Ser E amtes delRey dom denis quãdo Eram de castella E vieram a Este Reino de portugal por virtude de hua demarquaçam”36. fl. Pelo que mando aos officiaes da Camera do dito Lugar. L. No século XVII. com os seguintes reparos: “cuja nova eleição virá a confirmar ao meu Tribunal da Mesa da Consciencia e Ordens.

E por sua morte para seu filho mais velho os quaes elle açeitou. Parte 1.. . não pareçe que ha aução para a pretender. E provisão dos offiçios do Mestrado de Christo porque alem de ser isto cousa muy grande E que não he justo tirarsse da Coroa estando Ja nella. E por sua morte os ouve o dito Comde. Mç.ª. pois a palavra “Mestrado” raramente era 37 ANTT.. fl. fl. nos seguintes termos: “E também pareçe que não ha que diffirir a dada. sem que o Conde alcançasse o seu intento inicial. entre outras mercês. 84. pois se conçedeo a seu pay cõ declaração que a averia Em sua vida somente”39. 4. Nessa altura estaria ele em necessidades. entre 1588 e 1591. Estas negociações ainda duraram mais três anos. numa carta régia de Junho de 1588 dizia-se que era “cousa muy grande (. doc. Passado um mês nova carta régia insistia na negativa. a dúvida se estes documentos se reportavam aos postos das comendas da Mesa Mestral e não aos das restantes comendas. Corpo Cronológico. E de que sabe dom christovão [de Moura]”37. 4v. sabe-se um pouco mais. No que respeita aos restantes ofícios das terras da ordem de Cristo e Avis.120 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS 4. e as justificações dadas são esclarecedoras. é importante atender à pretensões do 3. fl. porém.º Conde de Linhares († 1608). E se lhe passou padrão delles pello que não tendo os Comdes seu avoo. Não sabemos se o exemplo teria sido efectivamente imitado. Vedor da Fazenda e partidário de Filipe II. não pareçe que o Comde tem a isso aução porque sendo esta dada do Comde seu pay como ChançareL do dito mestrado dessistio delle cõ declaração que lhe ficasse em hua vida a dada dos ditos officios E se lhe derão em satisfação disso cõ çem mil réis de tença en sua vida. A Coroa ao longo dos anos apontados reagiu-se sempre mal a este tipo de aspiração.. teria solicitado à Coroa. 112. Resta. pois gastara muito na Jornada de Alcácer-Quibir.) que por ser de Jurdição foi sempre de tanta consideração neste Reino que sou informado que a Rainha que Deus tem largou á das suas terras a ElRej pera cõ isso se moverem pessoas particulares a fazer o mesmo”38. Primeiro. Mde. E tendo dissistido della cõ a dita satisfação que ora logra o Comde.5. Sobre o que se terá passado na Ordem sedeada em Tomar. 38 Ibidem. E pay a dita dada senão como Chançareis da dita ordem. 39 Ibidem. “a dada E provimento dos offiçios dos lugares do mestrado de Christo que foi de seu pay aVoos E visavoo que os governadores que forão destes Reinos lhe derão Em Setuvel ~a Certidão do Comde de Matosinhos que deu como diZ que consta de hu Em Elvas a V.

porque fora provido um cristão-novo no lugar de juiz dos órfãos da Vila de Albufeira e o monarca terá pedido contas do sucedido. e a de Fronteira na década seguinte. as atribuições mais exorbitantes que se conhecem são as da comenda das Galveias (Ordem de Avis). E provavelmente na manutenção de alguns formalismos teriam contado muito os ajustes quanto aos emolumentos e imposições afins. Averiguar a qualidade do sangue era uma das responsabilidades do Desembargo do Paço. as cartas de ofícios continuavam a ser emitidas pela Chancelaria da Ordem. apesar da carta figurar na Chancelaria e ser redigida pelo escrivão da Ordem. pelo escrivão da Câmara e Secretaria de Avis na Mesa da Consciência e assinava-as o Chanceler da Ordem. em nome do rei como administrador do Mestrado. todavia.111-112. ter-se-ia concedido a apresentação ou a data dos ofícios a uma ou outra personagem. apesar de ser terra de uma Ordem Militar. Assim ocorria na data invocada. Cabia a este examinar o provido apenas na suficiência de ler. Ibidem. em 1664. apenas significado económico. Deste modo. A Mesa da Consciência. como se comprova pela situação invocada Em qualquer das três Ordens Militares. . com a Marquesa de Arronches. poder. quem decidira o provimento fora o Desembargo do Paço. Em termos globais. Mesa da Consciência. num caso ou noutro. e com ela as Ordens Militares. 41 Cf. L. por exemplo. ultrapassou-se largamente a questão da apresentação dos oficiais. Nestes casos. Não se sabe desde quando. com o facto de Dinis de Melo e Castro (162440 Cf. tinha perdido terreno. não prejudicando esta instituição40. 320. Justificou-se a atribuição do senhorio das Galveias. todavia. que podia nomear almoxarife nas suas comendas enquanto as administrasse41. O cargo invocado tinha. que também consultava sobre a atribuição do ofício. O diploma passava depois pela Chancelaria da Ordem. onde pagava os direitos. Sua Majestade mandara que o passasse a fazer o Desembargo do Paço.AS ORDENS MILITARES E O PODER LOCAL: PROBLEMAS E PERSPECTIVAS DE ESTUDO 121 usada como sinónimo de “Ordem Militar”. esclareceu-se a tramitação processual. fl. cerca de 1731. No caso da Ordem de Avis. fl. mas os procedimentos só revelam o quanto as aparênciam por vezes iludem. Recebera também uma mercê idêntica para as “suas terras” que constituíam bens da Coroa. As cartas de provimento emitiam-se. Assim se fez. Em 1690.º 302. ANTT. escrever e capacidades. Embora o provimento dos oficiais das terras das Ordens pertencesse à Mesa da Consciência. como actualmente se tende a fazer.

122. fl.). terra espatária. Historia panegyrica da vida de Dinis de Mello de Castro. fl. fac-similada da de 1744. Cabia também ao agraciado apresentar os ofícios.diario de factos mais interessantes que succederam no Reino de 1662 a 1680.º 302. pp. Rezervando o Dominio direito â mesma ordem.374v-375. esclarecia-se perfeitamente que se incluía a data de todos os ofícios. a Cuja meza mestral. fl.Ed. Typ. Dinis de Melo e Castro ficava logo autorizado a impetrar diploma papal a corroborar a mercê. . excepto os das sisas e os de provimento da Câmara. 1940. a qual se Entende. Livraria Civilização. 1721). L.º 15. Manuscritos da Livraria. Mesa da Consciência.128-129). em Alcácer do Sal. para melhor Conservação da dita Sua Villa”43. ser capaz de a defender e fortificar no contexto da guerra que se vivia. Tombos de Comendas. ver Julio de Mello de Castro. Com declaração Expressa que por isto senão Entenda fazerselho prazo Em que tenha Lugar Renovação. do Conselho de Estado e Guerra dos Serenissimos Reys D. 1995 (1.º 168. cujas cartas seriam passadas pela Mesa da Consciência. L. da viuva Sousa Neves . fl. ed. 345. Chancelaria da Ordem de Avis. que equivalia a uma quinta sua.segundo um manuscrito da Biblioteca da Ajuda.142v.º 245. esclarecia-se que a jurisdição delegada era a ordinária. Pedro II e D. a doação foi sucessivamente reno42 Sobre este General.ª ed. pois alienavam-se bens de teor eclesiástico44. Lisboa. 45 ANTT. D. até hoje attribuido infundadamente ao benedictino Fr. 1888.. sôbre o seu reinado. fl. 47 Cf. em 1670.179-180.122 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS -1709)42. 44 Cf. com as prerrogativas que habitualmente podiam dispor os donatários da Coroa. que em 1691 se tornaria no I Conde das Galveias.Alexandre da Paixão (Lisboa. pp. E datas de officios tudo Em sua vida. para que não fosse prejudicada47. pelos anos de 1620. Ver também ANTT.º 16. Ficava com “sua Jurisdição. Mas sômente huma merce Em Vida. Chancelaria da Ordem de Avis.. n. 46 Cf.n. Afonso VI . se tentara dar a D. Em 1736. Apesar dos protestos iniciais da população que não queria passar para a tutela de um particular48. ANTT. L. O facto na época suscitou eco e mal estar. António Mascarenhas o título de Conde de Palma. Porto. Eduardo Brazão (apresentação e ed. Já antes disso. Na carta citada. pagara Dez Cruzados Cada anno por Reconhecimento. A Mesa conseguiu demover Filipe III de Portugal deste intento46. 43 ANTT. 62. primeyro Conde das Galveas. nem a ameaça do uso da força fora suficiente para demover a população. João V. L. então General da Cavalaria do Exército do Alentejo. 48 Segundo as Monstruosidades do tempo e da fortuna . que ficara sendo Em utilidade da Ordem. s. para que tenha sômente o Dominio Util. ainda o facto do II Conde das Galveias nomear as justiças da Vila causava problemas ao Ouvidor que as pretendia explusar dos lugares45. No caso da doação de Fronteira ao Marquês do mesmo título.

tendo em vista apurar o significado real do exercício de poderes deste teor a nível local. Os casos de Alpedriz e Alcanede merecem ser retomados. em 1727-1730. alguns municípios das Ordens Militares caracterizar-se-iam por apresentarem um duplo e hierárquico senhorio jurisdicional: o Mestre e abaixo dele. nomeadamente a religiosa e o direito de visitar igrejas e comendas. Por parte dos seus membros.º 27. antes da tutela perpétua da Coroa sobre os três Mestrados. Não será também descabido comparar os poderes exercidos nestes municípios e nos senhoriais (no sentido dos administrados por donatários laicos ou religiosos). Chancelaria da Ordem de Avis. 301. o comendador. mas não obstante tal facto. pois nem todas seriam iguais. O rei era o Mestre. Desde logo. pois o poder local – designadamente no caso das Ordens Militares – não se circunscre- 49 Cf. L. No entanto. Quanto mais não fosse. No começo de Seiscentos. que analisar as possíveis especificidades envolverá equacionar outras áreas. fl. L. ainda se temia a raiz eclesiástica destes institutos e o seu foro privativo. porém. com poderes delegados.º 28. ainda confirmava alguns ofícios nomeados pelo donatário49. . Resta.AS ORDENS MILITARES E O PODER LOCAL: PROBLEMAS E PERSPECTIVAS DE ESTUDO 123 vada na mesma família. não houve verdadeira incorporação. Valerá a pena saber se o sucedido em Mértola teve paralelo em todas as vilas espatárias. ANTT. A Ordem de Avis. Ou terá ocorrido apenas onde não havia “verdadeiro ouvidor”? Será fundamental analisar a documentação local das terras das Ordens e a efectiva composição das várias câmaras. importa aprofundar o problema da actuação concreta dos ouvidores. “verdadeiros” ou não. quando os comendadores e os senhores eram absentistas nas suas terras. todavia. se bem que em muitos casos quem tomara a decisão fora o Desembargo do Paço e não nenhuma instâncias dos três Mestrados. 92. Em que medida constituiriam excepções? A Ordem de Santiago era aquela que dispunha de maior número de terras com jurisdição. muito por esclarecer neste âmbito. a emissão dos diplomas procurava assinalar a marca das Ordens Militares. a anexação das Ordens à Monarquia facilitou que se confundissem as jurisdições locais das Ordens com as Coroa. fl. Seriam os municípios das Ordens diferentes? Note-se. Fazer passar muitos poderes para as mãos dos comendadores era uma prática que suscitava receio ao centro político. Em síntese. os ouvidores eram encarados na época como ministros essenciais na defesa da património de jurisdições locais das Ordens Militares. sobretudo nos século XVII e XVIII.

apesar do absentismo típico dos comendadores a partir do século XVI. 246-247. obrigando os comendadores a vendê-los na zona. No século XVIII. constituíam bons exemplos. Estampa. 50 Sobre estas questões. 1988. Em anos de escassez frumentária. O Algarve Económico: 1600-1773. convém pensar que a presença de uma comenda numa dada localidade. podia matizar a vivência local. mesmo sem abarcar a jurisdição da vila. . formadas essencialmente por dízimos. Algumas comendas espatárias do Algarve. problemas que só a documentação local pode ajudar a aclarar. vide Joaquim Romero Magalhães.124 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS via apenas ao direito de confirmar as câmaras e os restantes oficiais concelhios. Lisboa. apenas nos bons anos agrícolas. pp. Por fim. estavam autorizados a vender fora das terras de origem dois terços da receita50. Na realidade podia não ser um elemento inócuo. eram palco de conflitos porque a população e as câmaras impediam a saída dos cereais. Enfim.

em meados do século XVI Vila Alandroal Albufeira Alcanede Alpedriz Alter Pedroso Avis Benavente Cabeço de Vide Cano Casal Coruche Figueira Fronteira Galveias Juromenha Mora Noudar Seda Seixo do Ervedal Vieiros Observações Mesa Mestral em 1532 Mesa Mestral Mesa Mestral Mesa Mestral em 1532 Elevada a Vila em 1538 .AS ORDENS MILITARES E O PODER LOCAL: PROBLEMAS E PERSPECTIVAS DE ESTUDO 125 Anexos Vilas onde a Ordem de Avis teria seguramente a jurisdição.

I. XII. tít.126 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Comendas da Ordem de Avis C. Bento de Avis. . Lisboa. cap. Yorge Royz. 1631. 1619-1631 FONTE: Regra da Cavallaria e Ordem Militar de S.

é ainda a assistência institucionalizada aquela que melhor se conhece e sobre a qual se possui informações mais consistentes.). São precisamente estas duas instituições que constituem o objecto principal deste texto. Esclareça-se. que não é nossa intenção ava* Investigação realizada no âmbito do projecto POCTI/1999/HAR/33560: O papel das Misericórdias na sociedade portuguesa de Antigo Regime: o caso da Misericórdia de Évora. Cabidos e Assistência na Península Ibérica (Séculos XVI-XVIII). caridade e assistência na Península Ibérica (sécs. contudo. a que esteve a cargo da sociedade civil. já que se sabe que foi no seio das comunidades que se encontrou a maioria das respostas aos sucessivos problemas criados pela transformação da economia e da sociedade que o Ocidente viveu ao longo do período moderno. aliás. XVI-XVIII). de História /CIDEHUS) Apesar de a recente historiografia sobre caridade e assistência se mostrar empenhada na reabilitação das formas de apoio e inter-ajuda ditas informais. Os Municípios no Portugal Moderno: dos forais manuelinos às reformas liberais Lisboa. as atenções centram-se.Câmaras e Misericórdias. como bem se sabe – sobretudo devido ao quase desconhecimento das reais dimensões do papel que a Igreja desempenhou neste sector1 –. as atitudes e os discursos relativos à pobreza e à miséria terem transformado estas questões num fenómeno político. Lisboa. Edições Colibri – CIDEHUS-UE. 1 Foi. . No contexto português. realizado na Universidade de Évora em Junho de 2003. de que resultou o livro Igreja. Laurinda Abreu (ed. as de âmbito local. 2005. É aliás por esta razão que a análise das políticas assistenciais e de saúde pública requer o estudo prévio das estruturas do poder e das relações sociais estabelecidas entre as diferentes organizações que o detinham. Relações políticas e institucionais* LAURINDA ABREU (Universidade de Évora – Dept. este pressuposto que esteve na origem do Colóquio Ibérico. 127-138. pp. 2004. nas Misericórdias e nas Câmaras. desde cedo. Bispos. Edições Colibri e CIDHEUS-UE. Nomeadamente. Muito especificamente. que os poderes se apressaram a gerir mais de acordo com os seus próprios interesses do que com as necessidades dos pobres. Uma particularidade a que não será alheio o facto de.

assumidas aqui como mero ponto de partida para uma investigação de maior envergadura. questionar as consequências sociais de tais decisões. dentro das limitações existentes. pela oposição que as caracteriza. o carácter meramente introdutório de todas as considerações realizadas. Um trabalho que desenvolveremos a partir da identificação das linhas que orientaram a reforma da assistência iniciada em Portugal nos finais do século XV e dos objectivos políticos da actuação régia. como é do conhecimento geral. Lisboa. 1988. as implicações decorrentes de um modo de actuação cujas directrizes emanavam da Coroa que. em termos muito directos. London. e nalguns casos controlou. a forma como o sistema evoluiu. 1995 e a de Robert Jütte. destaquem-se a de Bronislaw Geremek. nalguns casos. vejam-se os trabalhos de P. dos incontroláveis fluxos migratórios. De entre as transformações registadas merecem destaque. condicionou. um longo período de profundas mudanças que não deixaram incólume nenhum grupo social. experimentaram novas formas de assistência e novas políticas sanitárias.. estrutura política ou sector económico. 2 Das imensas obras que abordam esta questão. que. . Especificamente para a realidade inglesa. A. todavia. as tendências políticas – claramente centralizadoras – e a procura de soluções para os problemas sociais decorrentes das novas situações de pobreza. e reforçaram o controlo da mendicidade. de facto. finalmente.História da Miséria e da Caridade na Europa. 1996. tornando mais violenta a legislação que. Foram as cidades. Poverty and Deviance in Early Modern Europe. Refira-se. Expansão urbana e reorganização da caridade: as linhas de intervenção da Coroa portuguesa A partir da segunda metade do século XV o Ocidente viveu. da mendicidade. diversificaram a oferta em termos de institutos assistenciais apostando na sua especialização.128 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS liar os fundamentos jurídicos das relações desenvolvidas entre as Santas Casas e os municípios. Poverty and Policy in Tudor and Stuart England. Cambridge. Basicamente o que nos interessa é identificar as principais competências das duas entidades no que respeita à saúde e ao bem-estar das populações – num tempo em que estes serviços eram organizados localmente mas não municipalizados –. de saúde pública que as cidades enfrentaram – estas a cargo das autoridades locais. 2nd ed. avaliando. de forma mais ou menos organizada. consequentemente. Slack. sobretudo. e. nem mesmo caracterizar os mecanismos político-institucionais que sustentaram a interdependência entre ambos e fortaleceram a sua capacidade de intervenção nas respectivas comunidades. acabou por a interditar2. A Piedade e a Forca . para.

CÂMARAS E MISERICÓRDIAS: RELAÇÕES POLÍTICAS E INSTITUCIONAIS 129 Sendo esta uma forma de actuação comum à maioria dos Estados Europeus. 2002. 2ª série. Das linhas mestras da intervenção manuelina nos mecanismos de caridade e assistência apenas se alteraria a que conduziu a reorganização hos- 3 Cf. mas também com atribuições ao nível da repressão da mendicidade (diploma de 8 de Julho de 1503) –. 420-421. Arquipélago. ainda. Como temos vindo a defender já há algum tempo. ao mesmo tempo que pretendia mobilizar os poderes locais para a sua execução. Ponta Delgada. Um elemento que seria matricial no processo a que agora se dava início era a não articulação entre as diferentes instituições detentoras de responsabilidades assistenciais e de saúde pública. ainda que marcada pelos particularismos locais. distinção que os visados respeitavam muito particularmente quando as suas atitudes tinham repercussões económicas. Assim aconteceu com a reforma geral dos hospitais ordenada por D. uma vez que aqui as políticas “modernas” de assistência aos pobres emanaram da Coroa e tiveram uma dimensão nacional. tratou-se de uma reorganização das estruturas assistenciais e das suas competências de âmbito social alargado. com a assistência às crianças desprotegidas. que tinha a particularidade de ser centralizada e orientada a partir da Coroa. as elites já representados nas Câmaras Municipais. pp. que eram agora chamadas a associar-se a um projecto novo. Não nos princípios ideológicos ou nos objectivos programáticos mas sim na forma como foi conduzido. que pela primeira vez viam reconhecido na lei (Ordenações Manuelinas) o seu direito à protecção3. Laurinda Abreu. VI. O mesmo é dizer. Com esse objectivo a monarquia convocou «os melhores das terras». as suas incumbências institucionais eram diferentes conforme o lugar que ocupavam. o processo teve em Portugal características próprias que o individualizaram dos restantes modelos. “A especificidade do sistema de assistência pública português: linhas estruturantes”. ainda que os responsáveis pelas Misericórdias e pelas Câmaras pudessem ser os mesmos – frequentemente em sistema de rotatividade entre as duas instituições –. confrarias que nasciam com uma renovada dinâmica de intervenção social. que esteve na origem de vários Hospitais Gerais – uma reforma que foi precedida de inquéritos (1499 e 1501) que avaliaram o estado do património dos hospitais e demais institutos pios e aferiram do cumprimento da vontade dos seus instituidores –. . e. com a fundação das Misericórdias – que o rei incentivou também em 1499. Manuel I no início do seu reinado. História. procurando dotar o país de uma rede de confrarias especialmente vocacionadas para o apoio aos presos e aos pobres. o das Misericórdias.

Santa Casa da Misericórdia de Setúbal. in Ole Peter Grell. Cf. E também Jon Arrizabalaga. Manuel mais marcaram o rumo da assistência portuguesa no século XVI – o Cardeal D. 2003.130 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS pitalar – que D. Andrew Cunningham and Jon Arrizabalaga. Cambridge. Recorde-se.º 8. numa orientação que de resto o próprio inflectiu acabando por reconhecer estas confrarias com vocação específica para a gestão dos hospitais4 – e a relativa ao combate à mendicidade e vagabundagem. a Igreja lutava pela recuperação do controle dos hospitais. 64 e ss. Lisboa. A Santa Casa da Misericórdia de Setúbal de 1500 a 1755: aspectos de sociabilidade e poder. pp. Poverty and welfare in Habsburgo Spain. Se este for estrita4 Conforme se pode concluir da leitura do alvará de 6 de Janeiro de 1518 pelo qual o rei retirou à confraria do Espírito Santo de Montemor-o-Novo o hospital que ela administrava entregando-o à Misericórdia com justificação de que a Santa Casa era a instituição melhor vocacionada para a administração do referido hospital . 6 Conforme chamámos pela primeira vez a atenção no nosso trabalho. Jorge Fonseca a indicação deste documento). “Misericórdias: patrimonialização e controle régio (séculos XVI e XVII)”. por exemplo. quando se intensificou a promulgação de diplomas que as submetem a rigorosa regulamentação. 1990. 7 Cf. n. Laurinda Abreu.º 44. 5-24. (Agradecemos ao Dr. Consequências da intervenção da Coroa nos mecanismos assistenciais Em termos de resultados sociais a avaliação da eficácia da actuação da monarquia portuguesa nas matérias referidas apresenta indicadores diferenciados consoante o ângulo de análise adoptado. João III. “ Poor relief in Counter-Reformation Castille: An overview”. n. . que foi durante a regência de D. 1999. Henrique e Filipe II – não só não se afastariam das orientações iniciais como reforçaram as intervenções centralizadoras verificadas no início do século. Linda Martz. Almansor – Revista de Cultura. Cambridge University Press. 30-31. 151-176. 1983. dos hospitais para a sua administração6. Setúbal. pp. (ed. Henrique que o direito nacional incorporou o privilégio das Misericórdias como confrarias de tutela régia5. Um movimento que se reveste de uma importância crucial dado o facto de ocorrer num momento em que. sistemática e continuada. London and New York. Os dois governantes que depois de D. a que se seguiu a transferência. 5 Cf. Tendência que depois seria continuada pelo monarca espanhol que reforçou em Portugal as condições de intervenção da Coroa nos diversos ramos da assistência institucionalizada enquanto lançava em Castela o processo de centralização hospitalar7. pp. na Europa católica. pp. competência que a Coroa já tinha recuperado no reinado de D.) Health Care and Poor Relief in Counter-Reformation Europe. 1990. Ler História. Manuel começou por separar das Misericórdias. 110-111. pp.

Isto porque. as opções da Coroa podem ser consideradas como uma solução de compromisso. E. Na nossa perspectiva. se é verdade que o rei confiou aos leigos a responsabilidade por uma parte considerável da assistência institucionalizada à pobreza. lei 2. mas também. as polémicas que o tema da assistência estava a suscitar no resto da Europa. Fundação Calouste Gulbenkian. da Santa Sé que permitiria aos hospitais a utilização dos bens deixados para a celebração das missas pelas almas do Purgatório para o financiamento das suas actividades assistenciais10. Os benefícios daqui recolhidos pela Coroa são evidentes. Leis Extravagantes e Reportório das Ordenações. que em 1586. também é certo que a manteve sob os princípios religiosos tradicionais. como bons cristãos. ligada à caridade. os reis portugueses poderiam. 153-171 e desenvolvemos em “A difícil gestão do Purgatório: os Breves de Redução de missas perpétuas do Arquivo da Nunciatura de Lisboa (séculos XVII-XIX)”. tomar para si as palavras do monarca francês. Duarte Nunes do Lião. pelo menos em Portugal. Isto porque. a monar- 8 Cf. Palimage Editores. A Piedade e a Forca .CÂMARAS E MISERICÓRDIAS: RELAÇÕES POLÍTICAS E INSTITUCIONAIS 131 mente político. respondia assim ao pedido que os estados gerais lhe haviam dirigido solicitando apoio económico para o combate ao problema da pobreza: “sua majestade não pode dar dinheiro algum para o sustento dos ditos pobres pois essa é uma questão que depende da caridade e da piedade que os bons cidadãos. tratou-se de um jogo de equilíbrio de forças que foi capaz de evitar. Viseu. 9 Citado por Bronislaw Geremek. as consequências destas políticas ao nível das comunidades locais. pp. (a publicar na revista Penélope). 1999. pp. e realizado numa perspectiva de longa duração. que escorava economicamente as instituições assistenciais. parte I. 1987. Dependente da caridade e piedade dos cidadãos sim. nesse sentido. por exemplo. Relevam de uma ordem diferente. XVI. o surgimento de conflitos liderados por leigos contra a aplicação das determinações do concílio de Trento. entre a sociedade civil e a Igreja. com plena propriedade e menores custos políticos. a acção centralizadora da Coroa conseguiu não só o apoio de alguns prelados como impediu. devem exercer para bem do próximo”9. 10 Assunto que iniciámos em Memórias da Alma e do Corpo – a Misericórdia de Setúbal na Modernidade. nomeadamente em relação à reforma dos hospitais e demais instituições caritativas. ao centralizar nas Misericórdias a assistência a vastos sectores da sociedade e ao fazer depender da Coroa a legislação relativa à mendicidade. .História da Miséria e da Caridade na Europa. mesmo conciliatória. a mesma provisão que reconhecia a tutela régia sobre as Misericórdias (2 de Março de 1568) reforçava a posição da Igreja na sociedade portuguesa8. e bastante mais negativa. Paralelamente. Em Portugal. ao que cremos. tit. o mesmo é dizer. 177-178. Lisboa.

Embora as edilidades reconhecessem a sua utilidade e necessidade e. Évora. a actividade e intervenção dos centros urbanos faziam-se sentir. e de forma particularmente activa. perante situações de epidemia ou de ameaça de epidemia. veja-se o nosso texto. 12 Importantes informações sobre o assunto podem colher-se em Nicolau Agostinho. A frágil situação financeira de muitos concelhos assim o determinava. Aqui sim. 1614. 11 Para o caso de Évora. “A cidade em tempos de peste: medidas de protecção e combate às epidemias. pelas razões aduzidas. os monarcas facilitaram a desresponsabilização dos municípios em relação a esta questão. entre 1579 e 1637”. Abril de 2004. a existência de tais profissionais não permite afirmar que as municipalidades administravam uma estrutura de assistência social minimamente consistente. Sobre . na maioria das cidades portuguesas a criação de hospitais temporários para os pestilentos foi fruto da iniciativa privada e da intervenção da Igreja12 e raramente dos municípios. Rellaçam sumaria da vida do Illustrissimo senhor Dom Theotonio de Bragança.132 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS quia condicionou a actividade das autoridades municipais. o seu papel em termos sanitários. logo que a situação acalmava tais projectos eram abandonados13. Comunicação apresentada no VII Congreso ADEH. 13 A questão da hospitalização esteve longe de ser pacífica no tempo em estudo. uma parteira e uma sanguessugadeira. Granada. O receio do contágio e da propagação das doenças tornava importante a limpeza dos espaços públicos e a manutenção da salubridade das águas. Porém. e ao impedir a tributação específica para custear esse tipo de despesas – a não ser se os impostos se destinassem aos enjeitados – . a correlação directa que se estabelecia entre a pobreza e a dimensão das epidemias. tão importantes em termos sociais e de saúde pública como os anteriores. Francisco Simões. a propósito. Diferente era. o poder local tendia a esquecer. Além do mais. um sangrador – que quase sempre acumulava as funções de cirurgião –. por exemplo). no entanto. Contudo. em Évora. O mesmo aconteceu com os hospitais para convalescentes. no auge das crises. para além da duvidosa eficácia da maioria das medidas tomadas11. quase sempre de peste. Só para dar um exemplo. temas recorrentes nas actas das sessões camarárias. elaborassem planos para a sua construção. Veja-se. ao não financiar o sistema criado. As provas de que as câmaras procuraram não se envolver demasiado na organização da assistência pública são múltiplas e bastante elucidativas. o caso da criação dos expostos que muitas câmaras transferiram para as Misericórdias assim que lhes surgiu a primeira oportunidade. É certo que a maioria mantinha à custa das rendas dos concelhos um médico. cerceando-lhes quaisquer hipóteses de intervenção na escolha dos meios mais adequados à especificidade de cada espaço (como aconteceu em França.

quando os atendiam. quase sempre. uma actuação concertada como ocorreu noutros espaços europeus? Não nos referimos. 15 Como aconteceu em Lisboa e é abundantemente documentado por Eduardo Freire de Oliveira. as suas reivindicações não tinham peso nas decisões camarárias. p. Lisboa. 2002. eram caritativos os pressupostos em que assentavam as estruturas das principais instituições assistenciais e eram religiosos os princípios registados nos estatutos que as governavam. faziam-no a título de esmola e. e centrando-nos exclusivamente no caso das Misericórdias. Mormente. 63. Como bem se sabe. 1887 e 1888. porque.CÂMARAS E MISERICÓRDIAS: RELAÇÕES POLÍTICAS E INSTITUCIONAIS 133 Chegados a este ponto. este assunto. Universidade Católica/União das Misericórdias Portuguesas. Do meu ponto de vista essa articulação não existiu por duas razões principais. Todavia. Lisboa. naturalmente. Les Hommes et la peste en France et dans les pays européens et méditerranéens. Não significa isto que os senados não respondessem aos pedidos de ajuda financeira que as Santas Casas lhes dirigiam ou que ignorassem completamente os problemas em análise. dos vereadores e dos mesários das confrarias. mas à conjugação de esforços tendo em vista um fim que era do interesse da comunidade e dos seus líderes. o que aqui quer dizer. muito mais frequente. regra geral. p. 173. Ou seja. frequentemente governadas pelos mesmos homens. no caso da criação dos enjeitados. vide Jean-Noel Biraben. 14 São muitos os exemplos de alvarás régios encontrados nas Chancelarias Régias onde se ordena às Câmaras que concedessem determinadas esmolas às Misericórdias. das Câmaras e das Misericórdias. porque sendo confrarias. Em segundo lugar. depois de muito pressionados pelo poder central – que várias vezes obrigou as Câmaras a concederem esmolas às Misericórdias14 – e pelas próprias confrarias. por opção da monarquia. uma questão bastante pertinente se impõe: porque é que não houve em Portugal. Em primeiro lugar. como aconteceu em Évora –. 16 Os casos que melhor conhecemos são os de Setúbal e Lisboa mas muitos outros poderiam ser apresentados. estas instituições não tinham representação política. procurando que as municipalidades respeitassem os acordos financeiros estabelecidos tendo em vista a partilha das despesas16. Typographia Universal. . tomos II e III. a assistência foi mantida demasiadamente ligada à «doutrina religiosa da caridade» que assumia a pobreza como uma questão ideológica. Vejam-se alguns casos que arrolámos em “As Misericórdias portuguesas de Filipe I a D. João V”. Elementos para a história do município de Lisboa. à realização de acordos prévios entre o poder político e o religioso – ainda que eles pudessem existir. 1975. e como já mencionámos. Portugaliae Monumenta Misericordiarum. muito especificamente quando os seus hospitais soçobravam ao peso dos surtos epidémicos15 ou. Mouton. em termos de assistência pública.

pp. esperava-se que actuassem como “bons cristãos. os notáveis locais agiam como políticos. desse ónus. A partir da obra de Eduardo Freire de Oliveira. com responsabilidades específicas. O resultado destas duas circunstâncias (natureza caritativa da assistência e ausência de representação política por parte das Misericórdias) parece-nos previsível: as Câmaras não se consideravam economicamente responsáveis nem pela assistência hospitalar nem pelas demais valências assistenciais asseguradas pelas Misericórdias ou pela Igreja. só em situações que poderiam ser consideradas de calamidade pública. libertando as suas receitas. E nesta imbricada relação institucional entre as Câmaras e as Misericórdias nem sequer se pode falar na existência de contradições. colhendo os benefícios que a lei lhes concedia por exercerem tão importantes funções. não parece terem existido em Portugal conflitos jurisdicionais a propósito da assistência como houve em outros pontos da Europa. como claramente se infere do diploma filipino de 6 de Dezembro de 1603 – que junta vereadores e responsáveis pelas Misericórdias na mesma acusação de usurpadores dos bens das referidas instituições. Houve-os sim. de resto. em prejuízo do bem público19. 47-77. São inúmeros os exemplos que o documentam. e graves. ultrapassando o permitido e o eticamente correcto. Na verdade. 19 Um diploma praticamente esquecido dos historiadores mas que contêm importante informação para o problema em análise. pelo menos no meu entender. João V”. é que se assiste a acções harmonizadas entre a Coroa. e estas não privilegiavam a assistência. Elementos para a história do município de Lisboa. “As Misericórdias portuguesas de Filipe I a D. Sempre que possível. como as que se viveram em Lisboa na passagem do século XVI para o século XVII. entre as autoridades municipais e as Santas Casas por questões económicas e de gestão patrimonial. como os que recolhemos da documentação que neste momento estamos a tratar para Lisboa18. a Câmara e a Misericórdia para. quando estavam nas Câmaras. Isto porque. não raras vezes. se tentar controlar a miséria urbana e as elevadíssimas taxas de mortalidade hospitalar. regressava a normalidade. E alguns deles verdadeiramente extraordinários. cit. finda a crise. As disposições eram provisórias e excepcionais e não alteravam o sistema instituído nem a forma como estava organizado17. Enquanto mesários. E. quase sempre reduzidas. para bem do próximo”. o cerne da questão. Do “Alvará em que se determinou que os provedores e officiaes da Mesa da Misericordia e hospitaes não podessem arrematar para . através da imposição de tributos às populações. para voltar a utilizar a expressão atribuída a Henrique III. O financiamento da assistência pública é. Todavia.134 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS A bem da verdade. Sem 17 18 Cf.

A ausência de regulamentos que definissem prioridades assistenciais e. repartindo-as entre si e seus parentes. atente-se. As formas institucionais de apoio que existiram nas duas áreas pautaram-se pela desorganização e ineficácia. a ideologia que estava subjacente ao sistema criado. 17-18. em termos de resultados sociais. no seu preâmbulo: «Eu ElRei faço saber aos que este alvará virem que sou informado que os vereadores e officiaes das camaras de muitas cidades. na minha opinião. dando-as uns aos outros com título de arrendamento. pelo menos. que são de minha protecção. 1819. sobretudo.CÂMARAS E MISERICÓRDIAS: RELAÇÕES POLÍTICAS E INSTITUCIONAIS 135 esquecer o manancial de informações sobre as irregularidades de gestão patrimonial cometidas pelos irmãos que nos são transmitidas pelas actas e contabilidade de muitas Santas Casas20. villas e lugares deste reino repartem entre si e as pessoas que costumão andar na governança. Por outro lado. pagando pouco ou nada ao concelho. e estas. ainda que mais em pormenor o da Santa Casa da Misericórdia de Setúbal. por sua vez. à Coroa e às elites locais. pp. Todavia. Tomo I. de que resulta mui grande prejuizo ás rendas dos concelhos e obrigações das ditas confrarias da Misericordia. as propriedades do concelho. e os sobejos dellas gastão sem ordem alguma. publicadas em 1603. e que tomão sobre si as rendas das correntes. Coimbra. 20 Conhecemos vários exemplos desta situação. ao defender o direito da liberdade da esmola e da mendicidade. o que he causa de faltar sempre dinheiro para as cousas necessárias. devendo as responsabilidades serem acometidas. Para concluir. E que outrosi os provedores e officiaes das confrarias da Misericordia. em nada contribuiu para a excelência desse mesmo sistema. A primeira porque cerceou a capacidade de intervenção das autarquias. si cousa alguma”. conforme demonstrámos em trabalhos anteriores. os alvos a atingir e os métodos a usar. Dezenas de documentos das Chancelarias Régias atestam situações semelhantes registadas um pouco por todo o país. porque não reclamaram poderes neste campo a não ser em tempos de crise ou em questões de índole sanitária. dos lugares aonde a ha. a realidade portuguesa foi efectivamente mais negativa que a de outros países onde se desenvolveram formas de organização e de financiamento da assistência que a tornaram mais profissional e menos permeável às contingências das doações particulares. como para as dos concelhos (…)». em simultâneo. na Real Imprensa da Universidade. dificultava a gestão racional das capacidades assistenciais das Misericórdias e de outras instituições similares. . assi para as despesas da Misericordia e hospitaes. Collecção Chronologica de Leis Extravagantes posteriores á nova compilação do reino das Ordenações do Reino. faltam-nos estudos comparativos que nos permitam avaliar se. os centros urbanos portugueses não tiveram ao longo do Antigo Regime uma política estruturada de assistência aos pobres ou mesmo de saúde pública. trazem usurpadas as mais propriedades da Misericordia.

a mulher e controlo social: o colégio de S. se dedicasse mais especificamente ao tratamento dos doentes e perdesse durante algum tempo a 21 Sobre as vicissitudes inerentes a este Recolhimento leia-se Marco Liberato. . com consequente partilha de responsabilidades entre a Igreja e a comunidade. em publicação no volume de homenagem ao Professor José Marques. Mas as generalizações são potencialmente perigosas e comportam riscos demasiado elevados. Faculdade de Letras. administrado pela Misericórdia. pelo menos durante três ou quatro décadas. vol. às prostitutas – Recolhimento da Madalena22 e aos pobres e mendigos – Hospício e Irmandade da Piedade (1587)23. caridade e assistência na Península Ibérica (sécs. 275-289. A necessidade de separar competências foi. Manços”. em Évora – uma experiência de reclusão e controle de pobres em Portugal”. I. se não contou com a participação do município. O seu objectivo não era. e hospedaria dos pobres de Nossa Senhora da Piedade da cidade de euora. Teotónio de Bragança (1578-1602). Tomo XXXVI. e não curar as infirmidades dos doentes. que tenhão pera isso hospitaes»24. “Trento. O seu principal mentor foi o Arcebispo D. contudo. 5-VIII – Livro dos estatutos desta casa. da existência de relações institucionais minimamente organizadas. 22 Continuamos à procura da documentação deste instituto que complemente as dispersas informações que sobre ele possuímos. detectamos que. “Reclusão e controle dos pobres: o lado desconhecido da assistência em Portugal”. pelo menos.527-540. 24 Arquivo do Cabido de Évora. porque o intento desta hospedaria he remediar as necessidades dos saos. quando nos centramos em Évora. na verdade. Nunca doentes «de qualquer infermidade das que em o dito hospital costumão curar. 23 Cf. A existência do Hospício da Piedade permitiu. pp. 2002/2003. Coimbra. por exemplo. entre o arcebispado e a Misericórdia. a cidade cumpriu um projecto assistencial que. Laurinda Abreu. que o Hospital do Espírito Santo. Universidade do Porto. autor de várias reformas no domínio da assistência que dotaram a cidade de estruturas com algum grau de especialização ao nível da assistência às raparigas de elevado estatuto social – Recolhimento de S. XVI-XVIII). potenciar resultados. pp. melhor dizendo. Por exemplo. que a deixou registada de uma forma clara nos Estatutos da Piedade: ao Hospício cabia o acolhimento temporário dos pobres. demarcar esferas de influência ou afirmação de poderes. uma preocupação recorrente nos escritos de D. pelo contrário. Teotónio de Bragança. Manços21 –. mas.136 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Aparentemente parece-nos que sim. peregrinos e convalescentes. beneficiou. in Instituicoes e regimentos que pertencem ao padroado do arcebispado de Évora mandados collegir pelos senhores Deão e Cabido sede vacante em Junho de mil e seiscentos e trinta e quatro annos. “Revista Portuguesa de História”. Transcrição apresentada no nosso texto “O hospício e irmandade da Piedade. Igreja. Cec.

pedagógica e moralizadora. as mulheres sozinhas que eram subvencionadas regularmente. de assistência social institucionalizada. cada uma delas entregue a uma equipa constituída por um médico. 27 Algumas informações sobre esta instituição já exclusivamente com funções de recolhimento para raparigas pobres podem encontrar-se em Sílvia Mestre e Marco Loja. podemos afirmar que a intervenção de D. A primeira de cariz educacional. caridade e assistência na Península Ibérica (sécs. “The Hospital do Espírito Santo. assente em três realidades de certa forma distintas ainda que complementares. Colégio dos Órfãos e Colégio de S. Maio de 2003. mais material. circunscrita a um pequeno grupo de naturais de Évora26. as órfãs dotadas para casamento. era assegurada pela Igreja e ministrada nos Recolhimentos da Piedade27. Menorca. Ainda que analisada à escala local. “O recolhimento de Nossa Senhora da Piedade de Évora: uma instituição de assistência pós-Tridentina”. Os inúmeros registos de “doentes da Piedade” que se encontram no hospital e as referências a “convalescentes da Misericórdia” existentes na documentação da Piedade mostram bem até que ponto foram cumpridos os propósitos dos mentores deste projecto. em tempos de peste29. 25 Cf. chamemos-lhe. cobria um vasto leque da população e estava a cargo da Misericórdia. and its relationship with the city”. Lázaro. particularmente interventora em tempos de desordem do quotidiano. Manços. as crianças que eram depositadas no Hospital de S. ainda que com algum anacronismo. centrada nas questões de saúde pública. pp. XVI-XVIII). 28 Basicamente tratava-se de um sistema de apoio domiciliário em que a cidade era dividida em “quadrelas”. Igreja. o nosso texto. A estas vertentes da assistência acrescia ainda a questão da mendicidade e da vagabundagem. um cirurgião e um sangrador. problemas de maior importância para as urbes. O seu propósito era procurar garantir a sobrevivência dos seus pobres: os milhares de migrantes sazonais que anualmente acorriam ao Hospital do Espírito Santo. desde 1649. Teotónio contribuiu para a fixação de um sistema. E. uma terceira. finalmente. conforme se conclui da análise dos registos de entradas no referido hospital nos anos que se seguiram à criação do hospício25. ou seja. fundado pelo cónego Manuel de Faria Severim. 291-298. in Évora. São Manços e Madalena e.CÂMARAS E MISERICÓRDIAS: RELAÇÕES POLÍTICAS E INSTITUCIONAIS 137 valência de albergue para pobres. Uma segunda. 26 Conforme os dados que já coligimos para os recolhimentos da Piedade. os presos ou os doentes das quadrelas28. da responsabilidade da Câmara Municipal. . mas que estava quase exclusivamente sob o controle da Coroa. comunicação apresentada ao I Encuentro de Demografía Historica de la Europa Meridional. no Colégio dos Órfãos.

em “A cidade em tempos de peste: medidas de protecção e combate às epidemias. E se é verdade que poucas cidades terão beneficiado de uma intervenção tão dinâmica e abrangente como aquela que D. 49-51. também não é menos correcto que as linhas mestras que enquadraram a sua actuação tinham sido definidas pelo governo central. Já representadas nas Câmaras. o que conduziu. durante os surtos de peste. entre 1579 e 1637”. à imposição dos próprios provedores. como bem demonstram as sucessivas interferências régias no quotidiano de muitas Misericórdias. pp. . João V”. É certo que a capacidade de a Coroa impor as suas políticas a todo o país era bastante limitada e. 225-237. O que se repetia quando. Teotónio protagonizou em Évora nas décadas finais de Quinhentos. o não incentivo à partilha de responsabilidades assistenciais entre os dois principais órgãos do poder local não pode deixar de ser visto como uma afirmação de poder por parte da monarquia. Neste sentido. “O relacionamento do Arcebispado com a Misericórdia de Évora entre 1552 e 1643”. cit. pp. Portugaliae Monumenta Misericordiarum. nalguns casos. XVI-XVIII). Com relativa autonomia.138 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Este trabalho de reconstituição das estruturas assistenciais da Évora moderna. caridade e assistência na Península Ibérica (sécs. não só por razões financeiras. Igreja. permitiu-nos dar fundamento documental à tese que temos vindo a defender segundo a qual as medidas de carácter centralizador tomadas pela monarquia portuguesa durante o século XVI foram determinantes para a forma como o sistema evoluiu ao longo dos dois séculos seguintes. nomeadamente. 31 Veja-se uma síntese da evolução da legislação relativa a esta questão em “As Misericórdias portuguesas de Filipe I a D. elas seriam igualmente chamadas a gerir os destinos das Misericórdias. ainda em curso. anulava as deliberações camarárias. 29 Como escrevemos. também para as questões da assistência o rei estava dependente do bom desempenho das elites locais30. 30 Para o caso especifico de Évora consultem-se os trabalhos de Rute Pardal. como aconteceu frequentemente desde o início do século XVIII31. em Évora. e justificámos. muitas vezes sem consultar os vereadores. Ou seja. mas sem capacidade para procederem a mudanças estruturais. é indiscutível.

2005. p. Universidade de Évora. em termos jurídicos e jurisdicionais. nomeadamente a nível administrativo/jurídico. pp. . 1 Cf. Nesta linha de pensamento. e da base de recrutamento social dos seus órgãos directivos. que abrange nesses dois domínios toda a população residente1. Se são bem conhecidas as relações institucionais entre as Câmaras e as Misericórdias. consubstanciada na liberdade de promulgação das posturas ou acórdãos de cariz organizativo da realidade local. (dissertação de mestrado policopiada). o que mais se destacava era a capacidade legislativa que possuíam. um universo muito mais restrito que o das edilidades. Em termos administrativos. pelas Câmaras. Edições Colibri – CIDEHUS-UE. Título Os Municípios no Portugal Moderno: dos forais manuelinos às reformas liberais Lisboa. Comecemos. pois. e por isso relativa. as Misericórdias são. Isto apesar das diferenças óbvias entre ambas. 34. referimo-nos. à autonomia que ambas gozaram – embora esta fosse tutelada pelo rei. Ordenações Afonsinas. ao nível administrativo/jurídico e financeiro. A importância desta competência revelou-se na irrevogabilidade das suas decisões quer por parte do representante local do rei – o Corregedor2 –. As elites de Évora ao tempo da dominação filipina: estratégias de controle do poder local (1580/1640). Évora. 2003. naturalmente. dos processos eleitorais. também sabemos que as duas instituições partilhavam características semelhantes. 2 Assim se infere da leitura das Ordenações. por exemplo. financeiro. Livro I. 139-148. Cf. Rute Pardal. quando nos referimos às similitudes entre Câmaras e Misericórdias. quer por parte do próprio rei. 2.As relações entre as Câmaras e as Misericórdias: exemplos de comunicação política e institucional RUTE PARDAL (CIDEHUS) 1.

1988. as especificidades das situações e o subsequente desajuste dos mesmos exigia um constante preceituar regulamentador. XLVI. 1993. regra geral. XXVII. Joaquim Romero Magalhães. Círculo de Leitores. Ordenações Manuelinas. ainda. 3 O assunto já foi referido por vários autores: Entre eles. sanitárias e de policiamento. Francisco Ribeiro da Silva. os arranjos das calçadas e arruamentos. a acção das Câmaras alargava-se à tributação e ao tabelamento dos produtos cerealíferos e. e acabavam por taxar praticamente todos os géneros alimentares. § 9. 6 Cf. Ou seja. a falta de hábitos de higiene era generalizada. a fragilidade ou mesmo inexistência de um sistema de saneamento público não só dificultava o trabalho legislativo. Título LXVI. Livro I. Edições Colibri. preocupações maiores para comunidades demograficamente carentes e financeiramente debilitadas. Absolutismo e Municipalismo em Évora: 1750-1820. especialmente temidas em tempos de peste. Livro I. Em termos práticos seriam os Almotacés que tomariam contacto diário com os vendedores de todos esses produtos. prioritariamente. temos a evidência dessa mesma dificuldade em vigiar cabalmente a limpeza da cidade. pp. como também a obrigação do cumprimento das posturas por parte dos oficiais concelhios7. das carnes e do peixe. Todavia. Ordenações Filipinas. A nível urbano. Belchior da Maia foi . Título XLVI. De facto. em sectores vitais para a comunidade. a regulamentação do quotidiano. sobre o despejo de detritos nas ruas devido às consequências que tais actos poderiam ter em termos de propagação das doenças. Lisboa. em matérias agrícolas. Daí a preocupação dos concelhos em lançar posturas e vigiar o seu efectivo cumprimento. reservando-se normalmente para as posturas a fixação do custo das obras dos mesteres4. Câmara Municipal do Porto. entre outros. assim como de todas as manufacturas produzidas pelos artífices5. Lisboa. O Porto e o seu termo (1580 – 1640). 629-630. 2002.). sem ir mais longe. Ainda no domínio agrícola. 4 Cf. §16. vide José Viriato Capela. a alçada do concelho estendia-se àquilo que definiríamos como «sector das obras públicas»: ou seja. Na sessão de vereação de 5 de Janeiro de 1618. a acção concentrava-se. Por outro lado. E. Universidade do Minho. Braga. 7 No caso de Évora. vol.III. 179.140 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS O âmbito desta autonomia dos concelhos foi. chafarizes e fontes6. estradas e pontes. nomeadamente o importante sector do abastecimento3. 5 Apesar de alguns destes aspectos já estarem conformados nos forais. «Os concelhos». as instituições e poder. 1995. O Minho e os seus municípios. a tarefa não era fácil uma vez que se. cabia à vereação providenciar de modo a fornecer a população dos bens alimentares e manufactureiros. História de Portugal. Teresa Fonseca. Os homens. por outro. documentos para a História do Porto. (José Mattoso dir. § 28. por um lado. Competia-lhe também zelar pela higiene e saúde pública. Porto. p. Arquivo Histórico.

ACME). alguns concelhos acordaram em comparticipar nas despesas com as crianças. Health and Child Care and Culture in History. e os concelhos. e aí ficaria até 1586. Cf. em alternativa lhe retirasse o encargo da criação. fls.º 47. Livro dos Privilégios do Hospital. A Santa Casa da Misericórdia de Setúbal de 1500 a 1755: aspectos de sociabilidade e poder. ASCME. e quase sempre associada ao movimento de anexação dos hospitais às Santas Casas da Misericórdia. Por outro lado. ainda. Setúbal. os parentes. Geneva Medical School. Isabel Guimarães dos Sá. Paulatinamente. Esta consubstanciava-se na faculdade dos próprios admoestado por se constar que as ruas da cidade estavam muito sujas. pouco depois da sua criação. Arquivo da Câmara Municipal de Évora (doravante ADE. a Câmara também teria demonstrado anteriormente que estava interessada em assumir novamente a administração do Hospital de São Lázaro e a criação dos enjeitados. ou. Na verdade. à missiva da Misericórdia. que pedia «que lhe desse renda» para que pudesse criar os enjeitados comodamente.º 47. 54-55). Lisboa. Ordenações Manuelinas. JNICT. (Cf. nomeadamente no que respeita à criação dos enjeitados. Livro dos Privilégios do Hospital. . Título CXVII. September 13th-16th. na sua ausência. nem sempre o dito acordo foi cumprido. seriam responsabilizados. Fundação Calouste Gulbenkian. Laurinda Abreu. foi nas Ordenações Manuelinas – a primeira vez que em Portugal se legislou sobre esta matéria –. os hospitais ou albergarias. (Cf. juntamente com a administração do Hospital de São Lázaro10. A circulação de crianças na Europa do sul: o caso dos expostos do Porto no século XVIII. 679). fl. 55-66. 11 O rei respondeu. Esta seria. Todavia. que os concelhos foram chamados a intervir a favor das crianças desprotegidas8. ADE. 1995. 10 Apesar das tentativas de embargo por parte do reitor do mosteiro de São João. p. European Association for the History of Medicine and Health – 5th Conference. 2001. § 10). Em Évora.RELAÇÕES ENTRE AS CÂMARAS E AS MISERICÓRDIAS 141 Sobre outro domínio. por exemplo. que ficaria com esse serviço até que a legislação liberal lho tirou. ou se quisermos da assistência. (Cf. 1990. por ordem de prioridade. os concelhos tiveram competências importantes. 8 Nestas Ordenações estabeleceu-se uma espécie de hierarquização de responsabilidades relativamente à criação dos enjeitados. 21-22). «The Évora foundlings between the 16th and 19th centuries: the Portuguese public welfare system in analysis». o que incluía a assistência médica. o cuidado dos expostos foi entregue à sua Misericórdia em 1568. pp. que abrangia as respectivas amas. 77. Santa Casa da Misericórdia de Setúbal. (Cf. n. ADE. E. ano em que regressou novamente para a alçada da Câmara11. obrigação dos pais e. Arquivo da Santa Casa da Misericórdia de Évora (doravante ADE. a criação dos expostos seria transferida para a alçada destas últimas9. fl. Livro I. em primeiro lugar. antigo Provedor do dito Hospital. ainda da saúde pública. Idem. Livro 9. 9 Apesar da responsabilidade dos enjeitados ter passado para as Misericórdias. Mas a autonomia administrativa dos concelhos seguia lado a lado com a autonomia financeira. Em 1618 retornou à Santa Casa. desta forma. n. Arquivo Distrital de Évora. ASCME).º das actas da Câmara.

os colocava sob a tutela régia. ou de autonomia jurisdicional. Todavia este autor. não foi nem permanente nem definitiva.. ASCME. fl.142 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS municípios arrecadarem as suas receitas para fazerem face às despesas. Instituições e poder político. estes últimos eram eleitos localmente e eram inspeccionados pelos Corregedores. em pri12 Enquadrando-se a matéria da sua acção na matéria da autonomia judicial de que os concelhos dispunham. as Misericórdias também usufruíram de uma apreciável autonomia. n. em muitos dos municípios era executada por indivíduos eleitos localmente.º48. a autonomia administrativa das Misericórdias também decorria da faculdade de serem as próprias. não dependendo de nenhuma outra instituição para fazer aprovar o seu orçamento. As vésperas do Leviathan. (Cf. Título LXV). (Cf. Livro I. Portugal – século XVII. Como referimos. Os Juízes de Fora eram nomeados pelo rei. Título LXV). Livro de privilégios da Santa Casa da Misericórdia de Évora. em última análise. nomeadamente no que se refere à eleição. o conteúdo da sua influência restringia-se apenas aos feitos cíveis que envolvessem bens móveis e imóveis.. 36). 13 Tal como o demonstra. ora cerceando-lhas. Para uma visão mais aprofundada sobre esta questão veja-se Rute Pardal. à semelhança das Câmaras. a Coroa só muito tardiamente conseguiu estender uma rede de Juízes de Fora a grande parte do país. Por isso. o que. as suas competências eram semelhantes às dos Juízes de Fora.n. .. “ o mesmo poderão fazer e farão no que tocar a receber irmãos ou os despedir quando lhes parecer sem serem obrigados a dar conta nem rezão aos que assi despedirem nem a nenhumas minhas justiças nem oficiais (. por exemplo. Como é do conhecimento geral. 14 Todavia. Livro I. ou seja. facto que... os Juízes Ordinários12.. Pelo contrário. Lisboa. onde de se refere que. menciona que subsistem algumas diferenças. s. Título XLIV. quando a actuação régia se pautou pela ambiguidade. o privilégio fundamental era o de poder aceitar e excluir irmãos sem dar satisfação a quaisquer tipos de justiças e oficiais13. depois de aprovados pelo Desembargo do Paço. ora outorgando competências fiscalizadoras aos Provedores das comarcas. (Cf. a cobrar as receitas. a justiça. Ordenações Filipinas. Por outro lado. ainda que não abrangessem um universo social tão vasto quanto o das Câmaras. o judicial. 1986). pp. Assim sendo. (Cf. As elites de Évora. o alvará régio de 24 de Janeiro de 1582. António Manuel Hespanha. limitava a actuação dos Provedores das comarcas14. Livro I. como por exemplo. 67-68. esta prerrogativa. em grande medida resultante da imediata protecção régia. 2 vols. Ordenações Manuelinas. que lhes conferia variados privilégios em diversos domínios. com base nas Ordenações Filipinas que António Espanha corrobora as semelhanças nas atribuições dos Juízes de Fora e Juízes Ordinários.. no plano jurisdicional interno. cit. e ainda no domínio das rendas. ADE. Mas no seio dos concelhos existiam ainda outros domínios relativamente autónomos. Apesar disso. tinham jurisdição privativa em relação aos Corregedores e maior alçada que os Juízes da terra.) ”. É de facto. Ordenações Filipinas. no essencial. Para além disso. em favor da Misericórdia de Lisboa.

e apesar de não ser um movimento simultâneo em todas as Misericórdias15. de forma indirecta e não de modo a permitir a participação alargada dos irmãos ou dos munícipes. Tipographia da Academia Real das Sciencias. eles passaram também pelos processos eleitorais. Quinhentos anos de História. aos finais da Idade Média16. tanto os municípios como as Santas Casas tinham liberdade de escolha dos seus magistrados e oficiais. As Misericórdias também não estariam isentas da tutela e da intervenção régia.RELAÇÕES ENTRE AS CÂMARAS E AS MISERICÓRDIAS 143 meiro lugar. 1999. por isso se procedeu à restrição do número dos considerados capacitados a intervir no processo. Lisboa. (Cf. A Santa Casa da Misericórdia de Lisboa: subsídios para a sua História. apesar do plano de actuação das Câmaras e Misericórdias ser diferente. O poder concelhio das origens às cortes constituintes. Em segundo lugar. ou seja. Uma liberdade condicionada nas Câmaras pelo facto de essas escolhas terem de ser sancionadas pelo rei ou pelo donatário. 1998. 321). essencialmente quando havia suspeitas de distúrbios. (cf. João I. que a eleição dos oficiais concelhios se fizesse pela maneira dos pelouros. não tinham a obrigação de verem aprovadas as pautas das eleições que anualmente faziam. em Maio de 1558. ou incumprimento dos processos eleitorais18. nas Misericórdias ele foi contemplado logo de início no compromisso de 151617 da Misericórdia de Lisboa – que serviria. as Misericórdias podiam dispor. p. não podemos deixar de parte o empenho que. da mesma maneira que os almoxarifados e recebedores do rei arrecadavam a fazenda real. 1986. Livros Horizonte/Misericórdia de Lisboa. Não obstante. Joaquim Romero Magalhães. Centro de Estudos e Formação Autárquica. Mas. . Este rei estabeleceu. 16 Por isso. se o processo de afunilamento da escolha dos oficiais camarários remontou. tal como os seguintes. p. 1902. Palimage Editores. 17 Cf. anexo IX. Joaquim Veríssimo Serrão. e. 129). Laurinda Abreu. 15 Com efeito este foi um privilégio que as Misericórdias foram solicitando ao rei. Lisboa. Neste ponto. p. Neste documento dá-se a entender nitidamente que a eleição dos oficiais locais não era de modo nenhum pacífica. Memórias da alma e do corpo: a Misericórdia de Setúbal na modernidade. os monarcas puseram na clarificação do processo eleitoral das magistraturas municipais. os pontos de contacto entre estas duas instituições não se ficaram pelos aspectos administrativos. o processo de escolha dos seus dirigentes mais importantes ser feita de forma colegial. Não obstante. ou seja. Maria Helena da Cruz Coelho. 18 Tal como aconteceu em Setúbal e Évora. desde D. elas tinham a possibilidade de arrecadar as suas dívidas via executiva. A Misericórdia de Lisboa. através do alvará de 12 de Junho de 1391. Ainda no campo eleitoral. (Cf. de um Juiz privativo como executor das suas rendas e esmolas. o mais importante a reter parece-nos ser o facto de. em Portugal. 598 e passim. com base na sua obtenção por parte da Misericórdia de Lisboa. Viseu. Coimbra. de modelo paras restantes Santas Casas. jurídicos e financeiros. Victor Ribeiro.

21 Cf. Quando o rico se faz pobre: Misericórdias. Idem. Os primeiros estudos sobre esta problemática surgem já na década de sessenta do século XX. As elites de Évora … cit. .25-50). que. 1997. Vejam-se ainda os exemplos apontados em Isabel dos Guimarães Sá. regra geral. Círculo de Leitores. 22 Ibidem. (Cf. 19 Sem pretender-mos entrar em conceptualizações. p.IV. Esta é uma situação recorrente.50-51. ou seja. 341). grupos formados por um número restrito de indivíduos. Análise Social. ou oligarquização. XXVIII (121). História de Portugal. pp. 143-150. com o objectivo explícito de se autoperpetuarem na governação de ambas as instituições20. O mesmo é dizer. veja-se Joaquim Romero Magalhães. quando aqui nos referimos a oligarquias. Laurinda Abreu. «Os concelhos e as comunidades. ao utilizarmos o termo oligarquias estamos conscientes dos recentes debates que tem suscitado o seu uso.144 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS 3. vol. p. a circulação de indivíduos entre as duas instituições. 324-325. E ainda. Rute Pardal. 1993. pp.º). A identificação destas características. pp. Maria Helena da Cruz Coelho. 333-338. controlavam o poder nas Câmaras e nas Misericórdias. Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses. «Elites e mobilidade social … cit. Rui Santos. é importante referir que. 20 Sobre a essência da perpetuação nos cargos por parte das elites locais. Nuno Gonçalo Monteiro. A Santa Casa da Misericórdia cit …. «Elites Locais e mobilidade social em Portugal nos finais do Antigo Regime». Contudo. Nele ficava bem vincada a rotatividade entre os cargos concelhios e da Santa Casa.339-345. válida para todo o Antigo Regime e para todos os espaços até agora estudados – com oscilações locais. 345-369. 81. 1997. mas seria apenas em finais dos anos 80 que ele seria quantificado no estudo sobre a misericórdia de Setúbal21. 1993 (2. Análise Social. É certo que a denominação “oligarquias municipais” tende a conferir uma identidade social a uma categoria institucional «a dos vereadores camarários» cuja existência como grupo social carece de demonstração”. como é óbvio. «Senhores da terra. Lisboa. Nuno Gonçalo Monteiro. Lisboa. vol. isto é: governo de poucos e predomínio de um pequeno grupo de pessoas e famílias. vol. Este estudo teve continuidade nos últimos anos. Sobre estas questões veja-se. um factor que nos pode remeter para a formação de oligarquias locais19. pp. entre outros. mas também entre outros ofícios régios e da ordem de Santiago22. parece-nos importante porque cremos que foram elas que facilitaram aquele que sabemos ter sido um comportamento habitual ao longo do Antigo Regime. XXXII. pp. tendo surgido vários trabalhos que demonstram que a maior parte dos irmãos das Misericórdias pp.. que são do domínio comum.». O poder concelhio … cit. 143-150. caridade e poder no império português – 1500/1800. pp. senhores da vila: elites e poderes locais em Mértola no século XVIII». pretendemos fazê-lo no sentido estrito da palavra. pp.

tão característicos da sociedade de Antigo Regime30. onde cerca de metade dos mesários eram também oficiais camarários28. Lisboa. a rotatividade entre estas duas instituições constituía. apesar de não fornecerem dados percentuais sobre esta estreita ligação. Faculdade de Letras. Instituto Cultural de Ponta Delgada.l. Imprensa Nacional/Casa da Moeda. pp. Coimbra. 130. 27 Américo Fernando da Silva Costa. Estampa. 29 Sobre este assunto veja-se Nuno Gonçalo Monteiro. 138. Estampa. Dar aos pobres e emprestar a Deus: as Misericórdias de Vila Viçosa e de Ponte de Lima. Poder Municipal e oligarquias urbanas: Ponta Delgada no século XVII. Mafalda Soares da Cunha. A Santa Casa da Misericórdia de Guimarães (1650-1800). s. 24 José Damião Rodrigues. História social da administração do Porto (1700/1750). 2000. um dos elementos que permitiam a autoperpetuação daqueles que controlavam estes órgãos do poder local. Modelos e práticas de comportamento linhagístico. pp. onde a endogamia. pp. 1997. 23 Cf. O morgadio em Portugal. e de Ponte de Lima.. pela sua complexidade. as estratégias de controlo alargavam-se a variados campos. p.111-128. 30 Este processo de elitização percorreu não somente as Câmaras e as Misericórdias. os 71. Parece-nos. não podemos desenvolver aqui29. (dissertação de mestrado policopiada) 1996. devido à influência da Casa de Bragança no panorama político local. 28 Cf. 1995. poder e conflito (1546-1803). A Casa de Bragança – 1560/1640: práticas senhoriais e redes clientelares. Lisboa. 25 Rute Pardal. Na verdade. 236-244. em percentagens que chegam a atingir os 75% em Montemor-o-Velho23. Já os trabalhos sobre as Misericórdias de Vila Viçosa26 e Guimarães27. Maria Marta Lobo de Araújo. Maria de Lurdes Rosa. 77-85. Ponta Delgada. 370-382. p. Mário José da Costa Silva. 1994.. Lisboa. 57-199. (Cf. pp. 2000. Assuntos que. 26 Apesar do caso de Vila Viçosa ser específico. Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho. reiteram o facto de a maior parte dos irmãos das respectivas Santas Casas estarem quase sempre em maioria na ocupação dos cargos na “República”. As elites de Évora … cit. 177.1% em Ponta Delgada24 e os 71% em Évora25. A Santa Casa da Misericórdia de Montemor-o-Velho. p. Braga. 4.RELAÇÕES ENTRE AS CÂMARAS E AS MISERICÓRDIAS 145 ocuparam cargos nas Câmaras. Como já referimos. vejam-se os dados indicados em Mafalda Soares da Cunha. espa- ço de sociabilidade. O mesmo se verificou no caso do Porto. (dissertação de mestrado policopiada).. 1998. 1999. A Casa de Bragança … cit. em última análise. Ainda para Vila Viçosa. Porto Universidade Portucalense. Santa Casa da Misericórdia de Vila Viçosa. Poder e conflito. pp. no entanto importante abordar o sistema eleitoral enquanto factor que contribuiu para manutenção do poder local e para a elitização.. mas . (séculos XIV-XV). o sistema de reprodução vincular e as redes clientelares exerciam um papel determinante. O crepúsculo dos grandes (1750-1832). Ana Sílvia Albuquerque de Oliveira Nunes.

Se o compromisso de 151636 não era ainda muito claro em termos de definição da qualidade dos seus membros – requerendo apenas que o Provedor fosse nobre. Livro I. as corporações de ofícios. sem raça alguma (. pp. ou houvessem sido seus pais e avós.) ”34. como por exemplo. 314. Ao mesmo tempo. Um processo que se foi complexificando até chegar às Ordenações Filipinas32. 314-316. e que os demais mesários. 598-599. J. Em primeiro lugar. mas que gozavam dos restantes privilégios materiais e espirituais. de entre os homens bons do concelho. ou o Ouvidor... veja-se José Viriato Capela. A. o alvará e regimento de 12 de Novembro de 161133. sendo o Corregedor. a tirar informações junto de duas ou três pessoas “das mais antigas e honradas”35.. élections et pouvoir à Guimarães entre absolutisme et libéralisme (1753-1834). em primeiro lugar e antes de apurar o colégio eleitoral. que estavam proibidos de participar nos órgãos administrativos e nos actos religiosos públicos das Misericórdias. Título XLV. Em segundo lugar porque a evolução destes textos normativos nos indica que houve uma a progressiva elitização dos seus cargos administrativos. 36 Joaquim Veríssimo Serrão. Lisboa. «As Misericórdias portuguesas de . Ordenações Afonsinas. Livro I. obrigado. neste particular. 33 Cf. estabelecia regras mais rigorosas no apuramento das magistraturas municipais. Colecção chronologica da legislação portuguesa – 1603-1612. ou seja. Livro I. 31 Cf. que reiteravam que a eleição se devia fazer pelo método dos pelouros de forma colegial. Título LXVII).. 24-25. Anos mais tarde o rei restringia ainda mais o universo de elegíveis. Veja-se sobre esta temática Laurinda Abreu. Ordenações Manuelinas. também as Misericórdias seleccionavam os seus membros. Sobre este assunto. 1854. pp. p. Imprensa de J. pp. Construction d’un gouvernement municipal: élites.) pessoas naturaes da terra. Silva. 32 Ainda que estas constituam. 2000. José Justino de Andrade e Silva.. Braga. Com efeito. existiam algumas excepções no que se refere à admissão de cristãos-novos. o compromisso de 1577 já apertava a malha de recrutamento social. p. Ordenações Filipinas. 37 Todavia. 35 Ibidem. A Santa Casa da Misericórdia de Lisboa … cit. Exigia o dito alvará que os elegíveis no futuro fossem “ (. de idade conveniente. mais a confirmação da legislação Manuelina. «Estudo prévio».146 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Nas Câmaras a regulamentação da eleição dos seus oficiais encontrava-se definida desde as Ordenações Afonsinas31. 315. Universidade do Minho. 34 Ibidem. À semelhança dos municípios. e da governança della. Título LXVII. doravante restrita a cristãos-velhos37. do que propriamente uma inovação sobre o tema. (Cf. determitambém outras instituições da sociedade do Antigo Regime. porque se constituíam como irmandades cujo número de irmãos estava delimitado nos compromissos. 6 fossem oficiais e 6 de outra condição –.

Elementos para a História da Misericórdia de Lagos. 41 Cf. Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (dissertação de mestrado policopiada). Francisco Ribeiro da Silva. Lisboa. Uma situação semelhante. ou ainda homens que se tinham nobilitado pelas armas40. Aqui. Desta maneira verificamos que. se terá passado em Ponta Delgada no século XVII43. 2002. A Santa Casa da Misericórdia de Aveiro: pobreza e solidariedade (1600-1750). ao Escrivão e ao Tesoureiro exigia que fossem honrados. 188. 43 Cf. União das Misericórdias Portuguesas. Lagos. Dar aos pobres e emprestar a Deus … cit. 116-118. a composição social desta nobreza variava de lugar para lugar. pp. Laurinda Abreu. p. João V»... Como Francisco Ribeiro da Silva afirma. José Damião Rodrigues. Todavia. 38 Fernando Calapêz Corrêa. Manuel de Oliveira Barreira. Em Setúbal. com autoridade e virtude. p. p. não eram raros os casos de mesteirais que eram tidos como gente nobre na cidade do Porto. 428. 44 Cf. 78. I. 88. Santa Casa da Misericórdia de Lagos. ainda que. Maria Marta Lobo de Araújo. A Casa de Bragança … cit. Já no compromisso de 1618 ao Escrivão e ao Tesoureiro exigir-se-lhes-ia que fossem nobres38. não muito remotas ao século XVII. vol.. 86. onde tivemos oportunidade de verificar que os ocupantes dos cargos da vereação e das mesas da Misericórdia Filipe I a D. e todas as actividades mercantis. o sal. já eram essencialmente donos de marinhas. para controlar a Câmara e a Misericórdia. estivessem em ocupações como as de mesteirais e comerciantes39. p. p. 377. a pertença social daqueles que conduziam os destinos municipais situava-se na esfera da aristocracia de projecção local. foram determinantes para a configuração das suas elites locais44. aqueles que controlavam o poder nas Câmaras e as Misericórdias pertenciam ao estamento social da nobreza. as suas origens. a partir do século XVIII. 42 Cf. 1998. segundo a tessitura social e económica do meio. A Santa Casa da Misericórdia … cit.53. serviriam. 40 Cf.RELAÇÕES ENTRE AS CÂMARAS E AS MISERICÓRDIAS 147 nava que o Provedor fosse fidalgo. Isto sem esquecer que em Setúbal e Aveiro o mar. proprietários de ofícios da ordem de Santiago. 1995. O Porto e o seu termo … cit. os eleitos eram fidalgos oriundos das mais antigas linhagens ao serviço da casa de Bragança42. . no que ao exército concerne. em Vila Viçosa41. Coimbra.. As mesmas armas que. 39 Cf. por exemplo. O que já não acontecia em Évora. 150.. pp. Poder municipal e oligarquias … cit. nas duas instituições. Com efeito. Mafalda Soares da Cunha. p. sendo que. Mas sobre Vila Viçosa pairava a Casa de Bragança. Portugaliae Monumenta Misericordiarum: fazer a História das Misericórdias.

. Rute Pardal. Todavia. estas comunicações entre as Câmaras e as Misericórdias surgem como uma característica marcante na sociedade do Antigo Regime. 45 Cf. isto é. essencialmente devido ao crescendo simbólico. As elites de Évora … cit. protagonizando doravante a característica mais destacada deste relacionamento. económico e político que o poder central conferiu às confrarias. Um facto que atraiu o interesse das elites locais por estas instituições – apesar de tudo emergentes –.148 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS – entre 1580 e 1640 – provinham de antigas famílias de proprietários fundiários. foi a partir da segunda metade do século XVI que as relações entre as duas instituições se intensificaram. as Santas Casas constituíram um desses campos. Sugerem ainda. p. a vontade do poder central em uniformizar sistemas institucionais e políticos. Pelas semelhanças com as estruturas camarárias. a circulação entre os cargos da vereação e os cargos administrativos nas Misericórdias. fixando-se na região após a crise de 1383/138545. Em suma. 133. . que apresentámos atrás.

Círculo de Leitores. Sobrepondo-se e imbricando-se nesta rede concelhia encontramos uma rede de senhorios. justiça. os denominados direitos reais. o território português estava coberto por uma rede de concelhos. Lisboa.) – História dos Municípios e do poder local. pp. Instituições e poder político. Letras / Centro de História da Sociedade e da Cultura) Na época moderna. in César de Oliveira (dir. as seguin- 2 tes obras de síntese: Maria Helena da Cruz Coelho. Nuno Gonçalo Monteiro – “Poder senhorial. consignados em doações régias e forais. enquanto fontes de renda e de poder. de Oliveira Marques – “Regime senhorial”. Quanto aos direitos de natureza tributária tinham origem em doações régias. ou de natureza régia. 2005. pp. Das Origens às Constituintes. Portugal -séc. Nuno Gonçalo. exercidos num determinado território. compras ou trocas. 149-165. Dicionário de História de Portugal. “O espaço político e social local”. 121-135. Sobre os senhorios portugueses ver as sínteses elaboradas por: A. Lisboa. 1971. CEFA. para além dos estudos monográficos. pp. volume III. de entidades nobres e eclesiásticas ao longo das épocas medieval e moderna. XVII. Os senhorios eram constituídos por um conjunto de bens e direitos. 1986.Senhorios e concelhos na época moderna: relações entre dois poderes concorrentes MARGARIDA SOBRAL NETO (Univ. 1996. . Coimbra. 1994. adquiridos através de doações de particulares. ou em contratos realizados entre as entidades senhoriais e as pessoas que assumiam o compromisso de exploração agrícola das terras ou a posse de casas ou de outros bens. Joaquim Romero Magalhães – O poder concelhio. 1 Sobre as competências das câmaras vide. H. Coimbra – Fac. provenientes de doações concedidas pelos monarcas. saúde. Edições Colibri – CIDEHUS-UE. instrução – constituindo-se também como intermediária entre o poder central e as populações1. Coimbra. Estes bens e direitos constituíram a base material de sustentação. Estatuto nobiliárquico Os Municípios no Portugal Moderno: dos forais manuelinos às reformas liberais Lisboa. Almedina. Editorial Caminho. Os bens podiam ser de natureza patrimonial. dotados de uma estrutura administrativa e judicial. Os direitos podiam ainda ser de natureza jurisdicional. 1992. cível ou crime. 380-438. Armando Castro – A Estrutura Dominial Portuguesa dos séculos XVI a XIX (1834). constituída por casas nobres e eclesiásticas2. que exercia o governo das terras em múltiplas áreas – economia. António Hespanha – As vésperas do Leviathan. Monteiro. Lisboa.

. in Nova História de Portugal. juízes dos órfãos. Op. competia aos corregedores. ou os bloqueios. pp. in César de Oliveira ( dir. os vereadores e os procuradores – bem como de apresentarem ou nomearem diversos oficiais que exerciam funções no seio dos concelhos – tabeliães. Lisboa. mas com particular incidência na Idade Média. Propomo-nos nesta comunicação reflectir sobre os condicionamentos. e em regimentos publicados posteriormente. . no exercício do poder e na apropriação de recursos dos espaços em que dominavam. 143-153. vol. os conteúdos dos seus poderes. 554 – 584. Op. 150-151). 380-438. confirmarem ou apurarem os elencos dos governos concelhios – os juízes. bem como com os instrumentos ao dispor dos donatários e que lhes permitiam ser mais ou menos eficazes no exercício do poder senhorial. in Nova História de Portugal. cit. de apresentarem. III (Portugal em definição de fronteiras. in História de Portugal. Lisboa. dir. etc. 2003. de Armando Luís de Carvalho Homem e Maria Helena da Cruz Coelho). Op. IV. ao longo do tempo. 4 Em 1640. 1996. pp. 584-602. Lisboa. 1996. Esses instrumentos consistiam no privilégio de nomearem juízes de fora4. Lisboa.) – “História dos Municípios e do poder local”. Círculo de Leitores. Os monarcas dotaram. Elites e poder. Instituições e poder político. algumas casas senhoriais de instrumentos de natureza jurisdicional susceptíveis de lhes assegurarem o controlo político e social das comunidades locais que tutelavam3. ouvidoe aristocracia”.150 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Senhorios e concelhos foram. pp. de acordo com os titulares dos senhorios. como em outros casos.. Marreiros. in César de Oliveira ( dir. os oficiais periféricos da coroa tornavam-se agentes de donatários (Nuno Gonçalo Monteiro – As Câmaras no equilíbrio dos poderes: funções sociais e dinâmicas locais. alcaides. ao exercício do poder concelhio decorrentes das presenças senhoriais nos territórios concelhios.cit. 3 Maria Helena da Cruz Coelho – “Concelhos”. pp. Neste. ouvidores. que exerciam funções similares às dos corregedores. Joel Serrão e A. 333-357. H.) – “História dos Municípios e do poder local”. 16% dos juizes de fora eram nomeados pela Casa de Bragança. 5 António Hespanha – As vésperas do Leviathan. na época moderna. Círculo de Leitores. Entre o Antigo Regime e o liberalismo. 1993. escrivães. Maria Rosa Ferreira – “Senhorios”. XVII. vol. pp. ICS. Idem. almoxarifes. Em algumas terras senhoriais essas funções eram asseguradas pelos donatários. Do condado portucalense à crise do século XIV.. os dois mais importantes corpos do “sistema tradicional de poder” a nível local. coord. Portugal-séc. O domínio senhorial sobre a vida concelhia terá assumido formas muito diversificadas. no entanto. de Oliveira Marques. concorrentes. aos juízes de fora ou aos ordinários a condução e supervisão dos processos eleitorais. pp.5 De acordo com o estabelecido nas Ordenações. Mafalda Soares da Cunha – Práticas do poder senhorial à escala local e regional (fins do século XV a 1640).cit.

º). bem como atribuía um papel mais interveniente da vereação cessante na escolha da nova vereação7. XXVIII (121). no entanto. 6 Maria Helena da Cruz Coelho. De notar. A forma como se processavam as eleições nas terras da Casa de Bragança reforçava essa característica do sistema. 345-369. as eleições não eram feitas por pelouros. ou às integradas nos termos dos concelhos. nas terras da Casa de Bragança o processo eleitoral não seguia o modelo das terras régias e senhoriais. 8 Rui Santos – Senhores da terra. 141-144. Como bem observou Rui Santos. nos concelhos cujas pautas eram apuradas pela chancelaria desta casa. bem como em documentos que enunciam os poderes senhoriais. Das Origens às Constituintes. Braga. circunstância que podia interferir na selecção das pessoas que eram integradas em pauta. regimento aplicável às terras cujas pautas não iam apurar ao Desembargo do Paço. favoráveis à prossecução dos seus interesses. O regimento para a eleição dos vereadores de 1611. Administração. pp. Senhores da vila: elites e poderes locais em Mértola no século XVIII. 7 Rogério Capelo Pereira Borralheiro – O Município de Chaves Entre o Absolutismo e o Liberalismo (1790-1834). de fora ou ordinários. Com efeito. método que. segundo Rogério Borralheiro. ed. igualmente. bem como a forma como esses processos decorriam. . apresentava como principal objectivo impedir “subornos e desordens” ocorridos nos processos eleitorais. o processo eleitoral em vigor nas terras da Coroa. nomeados pela entidade senhorial. nomeadamente o facto de se colocarem no governo das terras pessoas que não tinham as “qualidades para servirem”6. 1997. O que importa saber é. Joaquim Romero Magalhães – O poder concelhio. do seu poder de apresentar. inserindo-se assim num processo de uniformização de práticas judiciais e administrativas locais. A intervenção senhorial na escolha dos elencos camarários decorria. Op. fazia com que o sistema de escolha das vereações fosse auto-reprodutivo8. conferia uma “forte autonomia ao Duque face ao Rei”. confirmar ou apurar os oficiais das governanças. 1993 (2. como é que os senhores utilizaram os instrumentos de que dispunham.. mas por favas. Estes instrumentos estão há muito identificados pela historiografia construída com base em fontes legislativas e doutrinárias.SENHORIOS E CONCELHOS NA ÉPOCA MODERNA 151 res ou por juízes. do autor. pp. a legislação que regulava os processos eleitorais. Sociedade e Economia. Na prática este regimento aplicou às terras senhoriais. e saber igualmente se esses instrumentos geraram “sujeições e obediências”. “Análise Social”. tornando muito mais difícil a penetração de novos membros no seio das oligarquias fiéis às casas senhoriais. cit. no entanto que.

o que evidencia a intervenção directa da casa senhorial na selecção dos elencos camarários10. pessoas indicadas pelo donatário que não constavam das pautas. 9 Sérgio Soares – O ducado de Aveiro e a vila da Lousã no século XVIII (1732-1759). Sérgio Soares num estudo referente a este município concluiu que o governo concelhio era exercido pelo oficialato local provido pelo Duque de Aveiro que se comportava como uma clientela na estreita dependência da casa senhorial9. Com efeito. p. porém. devendo o juiz fazer oferta ao mosteiro de 4 leitões. A cerimónia de investidura realizava-se na Abadia. 1979. o procurador e outros oficiais concelhios. Com efeito. 58 10 De notar ainda que. Afirmavam “que as eleições deveriam ser feitas só pelos povos e o mosteiro abusando mandava a ellas presidir dois religiosos e nellas faziam votar as pessoas que os ditos religiosos lhe parecia sahindo eleitos todos os seus afilhados”11. exerceram o cargo de vereadores. exploração e produção agrícola no Vale do Cávado durante o Antigo Regime. os moradores do couto de Tibães denunciaram as intromissões do donatário nas eleições. 1630/80-1813. Por sua vez. Coimbra: Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. a partir de meados do século XVIII verificou-se um processo de elitização dos elencos camarários. na primeira metade do século XVIII.º 11-12. o escrivão do couto Brito Aranha era “ o mais grosso detentor de terras arrendadas” ( Aurélio de Oliveira – A Abadia de Tibães. 2 vols. policopiada. neste município. por vezes. pp. com as confirmadas por esta Casa levaram o mesmo autor a concluir que o Duque não se limitava a confirmar as listas decorrentes dos processos eleitorais locais. dependente da Casa de Aveiro. dissertação de doutoramento policopiada). Propriedade.. detentoras de propriedades vinculadas em morgadio. considerada abusiva. Em 1718. n.. ficavam os vereadores. Lousã no século XVIII. Por sua vez. 2003. 11 Neste couto o juiz era escolhido com base em dois nomes eleitos pela população. As pessoas “principais da terra”. a passagem do domínio da Casa de Aveiro para o da Coroa levou a uma reconfiguração social das vereações. 160-165). “ARUNCE”. na Lousã. o confronto entre as listas das pessoas nomeadas em pauta. Alguns acompanharam muito de perto as práticas de governo. e enviadas à casa de Aveiro. à intervenção na escolha das elites concelhias. . suscitando a contestação das comunidades. concelho integrado na ouvidoria de Montemor-o-Velho. quatro carneiros e 12 galinhas. A acção dos donatários não se confinava. Porto. substituíram o oficialato local na governança da terra (Maria do Rosário Castiço de Campos – Redes de Sociabilidade e Poder. A intervenção do poder senhorial nas eleições foi.152 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Outro caso em que se evidencia um forte controlo senhorial dos governos concelhios é o do município da Lousã. Na sua dependência.

67.SENHORIOS E CONCELHOS NA ÉPOCA MODERNA 153 O conhecimento histórico sobre as relações entre donatários e câmaras é ainda escasso. p. 1630/80-1813. p. As investigações já realizadas revelam-nos. No século XV. Op. 166). 14 Aurélio de Oliveira – A Abadia de Tibães. substituindo-se às justiças locais na decisão de matérias de interesse para o senhorio – caso da gestão dos espaços incultos18. Propriedade. ao longo da época moderna.. Montemor-o-Novo. tabeliães e dando posse às vereações e outros oficiais.cit.. em capítulo realizado em 1770. Op. a partir dos finais do século XVII. 1998. facto que motivou um pedido do concelho ao monarca no sentido de o manter “em sua antyga liberdade” quando se conseguiu libertar da tutela senhorial17. . Para além da fruição de prerrogativas concedidas pelo monarca. cit. Os estudos de Jorge Fonseca sobre Montemor-o-Novo no século XV13. os frades determinaram que não se deixasse “abrir monte sem licença de quem presidir no Mosteiro e de nenhuma sorte se conceder licença a Camara do Couto para os abrir” (Op. Câmara Municipal de Arraiolos. Por sua vez. 103-135. 64. nos diversos municípios com tutela senhorial12.. 1998. os abades de Tibães. exerceram um controlo apertado sobre as governanças concelhias do couto. a jurisdição em Montemor-o-Novo foi exercida por entidades senhoriais. vol.] de modo que quem julgava era o frade e os officiais viam-se metidos a testemunhas” (Op. juízes ordinários. D. Por sua vez. entretanto. p. Porto. nomeando ouvidores. VI. este senhor ultrapassou os limites do seu poder. Separata da “Revista da Faculdade de Letras”. de Aurélio de Oliveira acerca dos coutos beneditinos de Tibães na época moderna14 e o estudo de Teresa da Fonseca relativo à administração senhorial no concelho de Vimieiro na segunda metade do século XVIII15. p. João de Bragança. Aguardam-se os estudos monográficos que permitam esclarecer a forma como interactuaram estes dois poderes. Neste couto. Arraiolos. 168). 1989.cit. Um dos donatários. 17 Jorge Fonseca – Montemor-o-Novo no século XV. 18 Em 1718 os moradores do couto afirmavam que “a Abbadia se intrometia nas correições que a camara fazia 2 vezes por anno mandando juntamente um religiozo[. 16 Idem.. 13 Jorge Fonseca – Montemor-o-Novo no século XV. exploração e produção agrícola no Vale do Cávado durante o Antigo Regime. diversas articulações entre poder senhorial e concelhio. o 12 Para a época medieval vide Maria Helena da Cruz Coelho – Entre poderes – Análise de alguns casos na centúria de quatrocentos. Câmara Municipal de Montemor-o-Novo. Teresa – Administração senhorial e relações de poder no concelho do Vimieiro (1750-1801). 15 FONSECA. II série.cit. testemunham um “efectivo domínio das instituições concelhias por parte de donatários”16.. pp. desempenhou todos os direitos inerentes à jurisdição cível e crime.

IV. 21 Idem. algumas vezes requerida pelos próprios vereadores vimieirenses em matérias que lhes suscitavam dúvidas ou naquelas em que era difícil obter consensos. Sancho de Faro e Sousa conferiu “alguma regularidade e disciplina à administração municipal”19. vol. 260 . tendo sido os vereadores ameaçados com penas pecuniárias e de prisão se não executassem as ordens do ouvidor. atitude que motivou. favorável às boas práticas da governação concelhia e à prossecução do bem comum. Com efeito. os donatários do Vimieiro apropriaram-se das funções administrativas da câmara esvaziando-a das competências exercidas por outros municípios. pp.154 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS donatário deixava para a câmara apenas as matérias relativas à regulamentação do comércio local. p. a atitude “vigilante e autoritária” do conde D. Teresa Fonseca defende ainda que as práticas esclarecidas de exercício do poder dos senhores de Vimieiro se caracterizaram pelo respeito pelo poder régio e pelo empenhamento no cumprimento das leis. uma intervenção autoritária nas práticas de governo concelhio. 65. por vezes. p. Com efeito. nos casos atrás enunciados.. Francisco Ribeiro da Silva – “Estrutura administrativa do condado da Feira no século XVII”. a distância terá condicionado o exercício do poder senhorial. A intervenção senhorial na governação concelhia foi. no entanto. devido à proximidade física dos donatários das terras que dominavam. o exercício do poder senhorial foi desempenhado pelo ouvidor que acompanhou “muito de perto a acção governativa” da câmara. como acontecia com o poder régio. impondo a observância da lei. Neste condado. Revista de Ciências Históricas. 1989. 255-271. Segundo a mesma autora. defendendo a jurisdição do Donatário e os direitos dos vassalos”21. O controlo apertado da actuação das vereações e a “usurpação” das suas competências foi possível. A perda de autonomia municipal terá sido. Outro tipo de relação entre donatário e concelhos é o evidenciado no estudo de Francisco Ribeiro da Silva sobre a “Estrutura administrativa do condado da Feira”. Assumindo posição idêntica aos abades de Tibães. 19 20 Op. “denunciando ilegalidades. este autor considera ter existido “compatibilidade entre o domínio senhorial e o municipalismo” e “que a dinâmica municipal pôde processar-se na dependência directa de um senhor de vassalos sem que as instituições concelhias fossem bloqueadas”20. neste caso. Os ouvidores deste senhorio revelaram um particular empenhamento na defesa dos interesses das populações. cit.

seria novamente recompensado com a quantia de 12 mil réis pelos arrendamentos feitos na Comarca de . 20 mil réis “pelos arrendamentos que fez a favor do Duque”. D. Ora um percurso bem sucedido de ouvidor podia decorrer. bem como no cumprimento de outras funções. o seu sucessor. Mafalda Sousa Soares afirma que “a maioria ascendia a ouvidores depois de exercer o cargo de juiz de fora em vários concelhos do senhorio. Sérgio Soares. De notar ainda que mesmo a 22 O Município de Braga de 1750 a 1834. Em 1589.59. Percursos bem sucedidos podiam mesmo conduzir ao cargo de desembargador da Casa”24. comportando-se os ouvidores-provedores nomeados pelo donatário como magistrados régios22. João V. bem como a obtenção de outros recursos senhoriais. 25 Tomé de Mesquita. José Viriato Capela demonstra que. o comportamento dos donatários podia. José de Mascarenhas. no entanto. Estampa. o poder senhorial com o poder régio na submissão do poder concelhio. governou “o senhorio temporal da cidade e seus coutos com poder soberano e postura de príncipe. pp. na casa de Bragança. em estudo relativo à Lousã. Nesta matéria. função que recorrentemente assumiram25. concluiu que o grupo de oficiais que estava dependente da distribuição dos “recursos senhoriais” da casa de Aveiro se constituía como um núcleo de “obediências e fidelidades senhoriais”23. Referindo-se aos juízes de fora providos pelo duque de Bragança. 291. convergindo. Para além do papel mais ou menos interveniente dos donatários e dos oficiais por eles providos. Compreende-se que assim fosse se tivermos em conta que o bom desempenho das clientelas senhoriais no exercício do governo concelhio. de um bom desempenho na cobrança de rendas. as atitudes do donatário do Vimieiro e dos ouvidores do condado da feira actuaram no sentido da aplicação das leis e ordens régias. o Arcebispo de Braga. O Governo e a administração económica e financeira. caso dos ouvidores. Dom Gaspar. assim. podia condicionar a prossecução das suas próprias carreiras. Por sua vez.SENHORIOS E CONCELHOS NA ÉPOCA MODERNA 155 Como decorre do atrás exposto. p. 2000. na escolha dos elencos camarários. 9 e 15. recebeu. no reinado de D. ouvidor das comarcas de Barcelos e Bragança. convinha apurar se as práticas dos governos concelhios que passavam pelo crivo da selecção das casas senhoriais se pautaram ou não pela defesa dos interesses dessas casas. Práticas senhoriais e redes clientelares. 1991. defendendo as suas jurisdições contra as investidas das justiças régias”. em 1587. p. 24 Mafalda Soares da Cunha – A Casa de Bragança (1500-1640).. Lisboa. 23 Cit. Braga. variar em função da conjuntura e dos seus interesses pessoais. já exerceu o seu poder em articulação com a “política nacional”.

A atitude das vereações concelhias. Nuno Gonçalo Monteiro . em “Ler História”. nos finais do Antigo Regime. Instituto Cultural de Ponta Delgada. situação que se revelaria propícia à desobediência às entidades senhoriais das quais estavam dependentes. 46. Separata de “Barcellos-Revista”. De acordo com este entendimento. decorrer do relacionamento pessoal entre as vereações e os donatários.156 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS carreira dos oficiais régios podia ser afectada pela forma como desempenhavam determinados serviços às casas senhoriais. pelo facto de este não ter tido um bom desempenho na execução das dívidas da Universidade. eram também os seus. Frades e Forais: Revolução Liberal e Regime Senhorial na Comarca de Alcobaça (1820-1824). De facto. 274-318. 26 José Damião Rodrigues – Poder municipal e oligarquias urbanas. 1(2) 1983. Ponta Delgada. XVII. e enquanto pagadores de direitos senhoriais – em detrimento das instituições que os tutelavam. relativamente à defesa dos interesses das casas senhoriais de que estavam dependentes. 159. Nestes. Nuno Monteiro invocando o comportamento dos oficiais concelhios nas terras do mosteiro de Alcobaça. de menor monta nos pequenos concelhos. Devido a esta circunstância. pp.. cit. muitas câmaras assumiram no movimento de contestação anti-senhorial a defesa dos interesses das comunidades que governavam – interesses que. 31-87. p. em muitos casos. José Damião Rodrigues demonstra que “o compadrio e o clientelismo” são factores a ter em conta na compreensão das relações entre poder senhorial e poder municipal em Ponta Delgada no século XVII26.º 4. Lisboa. 1994. considerava que devia ser ouvida quando se avaliava o desempenho desses oficiais no momento do apuramento das residências. Ponta Delgada no séc. enquanto vereadores. um beneficio para se constituir como um pesado encargo a que muitos tentavam fugir. Mercês do Duque D. seria naturalmente condicionada pelos recursos que estas tinham para distribuir. Manuel Inácio Pestana – Barcelos nos Arquivos da Casa de Bragança. Teodósio I. os deputados da Junta da Fazenda protestaram contra a nomeação do juiz de fora de Viseu para o exercício do mesmo cargo em Lamego. As “obediências e fidelidades senhoriais” podiam. n. recursos que seriam significativos nas vilas e cidades. A Universidade de Coimbra possuía o privilégio de poder recorrer aos juízes de fora e corregedores para executar os seus devedores. pp. em 11 de Novembro de 1786. o exercício do governo concelhio ao longo do século XVIII deixou de ser. concluiu que as casas senhoriais não tinham capacidade de controlo sobre os governos das terras27. sublinhe-se.Lavradores.1985. ainda. p. Bragança (cf. . 27 Nuno Gonçalo Monteiro – O espaço político e social local.

Região de Coimbra. pp. como era. assim como de outros poderosos locais. Coimbra. por norma. pessoas que por norma tinham uma condição social inferior à dos vereadores. 2003. Faculdade de Letras. De notar ainda que são muito frequentes. 29 Por terem recusado reconhecer o mosteiro de Celas (Coimbra) como donatário de Eiras. Já os juízes ordinários se manifestaram. Com efeito. originado pela recusa de pagamento de direitos senhoriais e contestação de domínio directo do mosteiro de Santa Cruz de Coimbra (Licínio Gomes Neves – A comunidade rural de S. 179-320. 1997. tentando. e consequentes proclamações de obediência. . entretanto. 177-183. Os estudos que tenho elaborado sobre esta matéria levam-me a concluir que os procuradores dos concelhos. bem como a identificar algumas variações na atitude que manifestaram durante os processos de contestação. se revelaram mais rebeldes assumindo protagonismo em alguns movimentos. Estruturas. em 9 de Julho de 1814. pelo tribunal da Relação do Porto. salvaguardar-se das represálias motivadas pela desobediência às casas senhoriais. portanto difícil. por parte dos membros da vereação. 1700-1834. A comunidade de Eiras nos finais do século XVIII. bem como os direitos que lhe eram devidos. a introduzir alguns matizes no comportamento dos diversos membros das vereações. por norma. quando se apercebiam que não conseguiam atingir os seus objectivos. 21-30). Faculdade de Letras.SENHORIOS E CONCELHOS NA ÉPOCA MODERNA 157 Uma análise detalhada das atitudes das governanças. Palimage Editores. 2003. as desistências da contestação.João do Monte: propriedade e relações sociais (1786-1820). assim. O mesmo tribunal condenaria. dos pequenos concelhos. tese de mestrado policopiada. os moradores de S. Coimbra. leva-nos. Viseu. Em momentos de contestação. no momento da realização de um tombo. por exemplo a perda das terras que agricultavam ou o pagamento de indemnizações às casas senhoriais ou custas de processos29. sobretudo aqueles que seguiam as vias judiciais. João do Monte ao pagamento das custas de um processo judicial. redes e dinâmicas sociais. em 7 de Janeiro de 1749. porque se podia apoiar em múltiplos argumentos jurídicos. pelo menos dos pequenos concelhos. alguns consagrados em forais. alguns moradores foram condenados. aquando da realização dos tombos os oficiais concelhios eram chamados a reconhecer o domínio das casas senhoriais. pp. ao pagamento de uma indemnização ao convento (Ana Isabel Sacramento Sampaio Ribeiro. tese de mestrado policopiada. mais prudentes no apoio explícito às populações28. pp. Um deles era o que registava os “reconhecimentos” feitos pelos oficiais concelhios no momento da elaboração dos tombos. ao longo dos conflitos. confrontar uma vereação concelhia “rebelde” com um documento em que vereações anteriores tinham reconhecido 28 Margarida Sobral Neto – Terra e Conflito. a posição dos senhorios era. mais forte do que a dos concelhos. Não era.

A concorrência. . um dos lugares do termo de Coimbra. foi particularmente evidentes nos termos das vilas e das cidades em que a sede concelhia estava na dependência régia. confrontou-se ao longo do século XVIII com idêntico problema. I. Op. exercendo os senhorios. 28. Senhorio e propriedade: 1520-1720 (formação. estrutura e exploração do seu domínio). A posse alicerçada na tradição imemorial. pp.158 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS a obrigação de satisfazer ao senhor tributos. quando um concelho em luta contra uma casa senhorial. e consequentes conflitos. 1993. entre casas senhoriais e câmaras. Sérgio Cunha Soares – O Município de Coimbra da Restauração ao Pombalismo. em alguns lugares do termo. De facto. I. assumindo a vereação um evidente protagonismo30. 31 António de Oliveira – A vida económica e social de Coimbra. contava com o apoio de outro senhor. vol. 1985. O mosteiro de Grijó. entretanto. Braga. nos estudos que realizaram sobre o município de Coimbra. Um dos conflitos ocorreu com o mosteiro de Grijó (Inês Amorim. na maioria dos concelhos do termo apenas exercia jurisdição crime. ou na dificuldade em cobrar impostos municipais nas áreas em que detinha apenas jurisdição cível31. Faculdade de Letras. argumento que lhes ditou muitas sentenças favoráveis.cit. 33 Francisco Ribeiro da Silva – O Porto e o seu termo (1580-1640). doada a Dom Luís de Meneses. 89-95. 1700-1834. evidenciaram os múltiplos problemas com que a vereação coimbrã se deparou nos lugares do termo em que exercia apenas a jurisdição crime. Região de Coimbra. senhorio territorial deste lugar. situação que provocava frequentes conflitos de jurisdição32. foi desmembrado deste concelho para assumir o estatuto de vila. a contestação ao mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. A vereação de Montemor-o-Velho. tese de doutoramento policopiada. concelho em cujo termo senhoreavam também vários senhores leigos e eclesiásticos. Atitudes mais radicais das vereações ocorreram. Poder e poderosos. intensificou-se. vol. vol. Faculdade de Letras. 1971. foi um poderoso argumento invocado pelas casas senhoriais em momentos de conflito com as comunidades locais. 32 Margarida Sobral Neto – Terra e Conflito. a jurisdição cível e/ou crime. Porto.I. Os homens . 30 Margarida Sobral Neto – Regime senhorial em Ansião. Coimbra. 1995. Conflitos de jurisdição ocorreram igualmente entre a câmara do Porto e os donatários que senhoreavam no termo da cidade33. Coimbra. A partir do momento em que Ansião. as instituições e o poder. pp. “Revista Portuguesa de História”. 1997. Coimbra. Problemas que se materializaram na tentativa de apropriação da jurisdição crime por parte dos donatários que apenas detinham a cível. António de Oliveira e Sérgio Soares. 59-94. O foral manuelino e seus problemas nos séculos XVII e XVIII. e outras “opressões”. por vezes reconhecida pelas câmaras. que eram objecto da sua contestação.

. cit. traduzia-se numa perda efectiva de controlo e de capacidade de dominação sobre o governo dos termos concelhios. As instituições senhoriais sediadas sobretudo nas cidades usufruíam de outros privilégios que colidiam com o exercício das competências das câmaras.cit. Acrescente-se ainda que o conservador da Universidade chegou a contradizer posições assumidas pelo ouvidor da mesma instituição. peixe e água. Teresa Fonseca. anulando assim funções de controlo do exercício do poder senhorial assumidas por aquele36. o procurador do concelho de Algaça.. por ser “cabeça de motim em os juizos das sete varas de Poiares se levantarem contra a jurisdisam do Senado da Camara”.. Absolutismo e municipalismo. “subtraindo-o” às câmaras.. que poderiam ser accionados contra quem contestasse o seu poder. que julgava. Sérgio Cunha Soares – O município de Coimbra da Restauração ao pombalismo. estatuto nobiliárquico e aristocracia. na cadeia de Coimbra. Nos finais do século XVIII. em 1750. in “História de Portugal”. 121-124. por norma. Poder e Poderosos na Idade Moderna. Op. que podiam ir até à prisão de juízes ordinários em casos de clara desobediência34. em desfavor das populações. cit. facto que se repercutia muito negativamente no exercício do poder concelhio. conferidos pelos monarcas. cit. foram presos o procurador do concelho de Algaça e os juizes do concelho de Canedo e Hombres (Cf. Entre eles destacam-se as regalias em matéria de abastecimento de carne. mas serem investidos pelos donatários. juiz privativo de várias casas senhoriais. era a capacidade de intervenção na escolha de oficiais das orde- 34 35 36 37 Em 1724 estava preso.) Nuno Gonçalo Monteiro – O poder senhorial. 341-351. Os senhorios não jurisdicionais possuíam outros instrumentos. Região de Coimbra. 1700-1834. 352-353. pp. Op. ou pelos seus representantes.SENHORIOS E CONCELHOS NA ÉPOCA MODERNA 159 O facto de os juízes de primeira instância das localidades do termo concelhio não serem confirmados pelas vereação da sede concelhia. Por sua vez.. várias são as queixas contra o conservador da Universidade. . As pastagens de animais pertencentes a comunidades religiosas suscitaram também frequentes conflitos37. I. 62. Entre eles destaca-se a prerrogativa de possuir juiz privativo35. na região de Coimbra. p. pp. Mas os concelhos não foram condicionados apenas pelas entidades que detinha direitos jurisdicionais nos seus territórios. Op. Op. Outro poderoso instrumento que detinham algumas casas senhoriais. e que podia condicionar o jogo de forças a nível local. por elas confirmadas. Margarida Sobral Neto – Terra e Conflito. Sobre o relacionamento entre a câmara de Évora e outras instituições da cidade cf. pp. De notar que as vereações das sedes concelhias dispunham de instrumentos de coacção das justiças dos concelhos do termo. vol. Évora 1750-1820.

152-163. Na verdade. revelaram-se como instrumentos favoráveis à apropriação de recursos nas áreas con38 Sobre os poderes e a organização das ordenanças. Joaquim Romero Magalhães – O poder concelhio. 1998. cf. 352. Ora. de alguns agentes senhoriais rompiam equilíbrios que os donatários queriam preservar. A administração municipal em Montemor-o-Novo (1777-1816. o próprio Marquês de Marialva a afastá-lo do exercício da actividade de rendeiro39. os poderes jurisdicionais. Um exemplo paradigmático é revelado por Nuno Monteiro: o caso de um capitão-mor. entretanto. cit. em tempos de instabilidade. Maria Helena da Cruz Coelho. pensamos que a situação de conflito não seria a desejada por instituições que viviam num sistema marcado pela coexistência de múltiplos corpos e poderes.160 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS nanças. as mãos do poder senhorial que invadiam os campos. 39 Nuno Gonçalo Monteiro – “Os Poderes Locais no Antigo Regime”. os capitães de ordenança efectuaram a cobrança de rendas assegurando.. Um dos principais alvos de contestação das populações foram os cobradores de rendas das casas senhoriais. in César de Oliveira (dir. Com efeito. cargos muito requeridos a nível local pelo prestígio que conferiam e também pela capacidade de domínio sobre as populações38. levaria. p. . Nuno Monteiro invocando o papel de liderança dos capitães de ordenanças no movimento de contestação anti-senhorial afirmou que o facto de o cargo ser vitalício conferia aos capitães uma margem de liberdade relativamente às entidades que os tinham nomeado. os celeiros e os lagares esbulhando os camponeses de uma parte substancial do produto do seu trabalho. Montemor-o-Novo. deste modo. em defesa dos interesses do donatário.) – História dos Municípios e do poder local. Op. pp. Mas no movimento de contestação anti-senhorial os capitães de ordenanças assumiram atitudes diversas. assumiram-se como zelosos defensores dos interesses dos senhorios (que eram também os seus) contra os das comunidades. 31-32. Argumento pertinente. Teresa Fonseca – Relações de Poder no Antigo Regime. Nestes casos. se o conflito marcou muitas vezes o relacionamento entre poderes concelhios e senhoriais. ou a avidez. rendeiro do Marquês de Marialva. Horta. Das Origens às Constituintes. o excesso de zelo. Como já afirmámos. as receitas que alimentavam as casas senhoriais. pp. José Damião – Orgânica militar e estruturação social: companhias e oficiais de ordenança em São Jorge (séculos XVI-XVIII). que se distinguiu pela sua capacidade de vencer a resistência da população e da câmara de Cantanhede ao pagamento dos pesados direitos senhoriais. O excesso do zelo com que pautou a sua acção. separata de “O Faial e a periferia açoriana nos séculos XV a XX”. 1995. Rodrigues. bem como outros privilégios de que os monarcas dotaram as casas senhoriais. Câmara Municipal de Montemor-o-Novo.

º 7. caso das sisas. na Idade Média. Estudos económico-administrativos sobre o município português nos horizontes da reforma liberal. pontes. 106-151. A administração municipal em Montemor-o-Novo (1777-1816. Universidade do Minho.SENHORIOS E CONCELHOS NA ÉPOCA MODERNA 161 celhias. Teresa Fonseca – Relações de Poder no Antigo Regime. Braga. Op. Como é sabido. Alguns destes traduziam-se num conjunto de isenções relativas às obrigações concelhias: isenção do exercício de cargos concelhios. pontes ou fontes. em múltiplas áreas. Esta gestão pressupunha a existência de uma máquina administrativa que para funcionar necessitava de financiamento. condição de diferenciação social transversal aos diversos grupos sociais. 1995. Esta concorrência podia assumir diversas formas que passarei a explicitar. 1992. coimas decorrentes de transgressões. Entre as dificuldades económicas das câmaras. pp. reparação de edifícios camarários ou de cadeias.. nomeadamente no que concerne à realização de infra-estruturas: construção de estradas. rendimentos provenientes da gestão dos bens dos concelhos. Podem ser invocadas diversas explicações para os problemas financeiros das câmaras. municipais ou sobejos de tributos régios. estradas. Constituíam fontes de receitas das câmaras tributos. Os privilégios senhoriais. e de pagamento de coimas e de tributos. diminuindo a matéria colectável dos concelhos. cabia às câmaras a gestão corrente da vida das comunidades. nomeadamente as praticadas contra a legislação municipal40. Os historiadores que se têm dedicado ao estudo das finanças concelhias são unânimes em concluir que as dificuldades financeiras das câmaras foram um fenómeno estrutural no Antigo regime. o que se reflectia negativamente nas finanças concelhias. para além do seu peso político e simbólico. Luís Nuno Rodrigues – Um século de Finanças Municipais: Caldas da Rainha (1720-1820). mas um deles. Uma das estratégias utilizadas pelos senhores. cit. e talvez o de maior peso. . A sociedade de Antigo Regime estruturava-se no privilégio. assumiam-se como instrumentos favoráveis à apropriação de recursos económicos das comunidades. para atrair gentes aos seus territórios foi a concessão de privilégios aos seus “caseiros”. “Penélope”. em manifesto prejuízo do governança concelhia. Foi em matéria de captação de proventos económicos que a concorrência senhorial foi particularmente evidente. Este financiamento provinha de recursos gerados pela riqueza que se produzia no seio das comunidades. Por 40 José Viriato Capela – O Minho e os seus municípios. destacava-se a de custear a reparação ou construção de caminhos. n. nas áreas de domínio de senhorios. de participação em trabalhos exigidos pelas câmaras. constituindo-se como um factor de bloqueio ao desenvolvimento das políticas concelhias. foi a concorrência feita por estes na apropriação de recursos.

e câmaras43. mas também no país. XXXII. A apropriação dos recursos das áreas incultas constituiu um dos principais motivos de confronto entre senhorios. 43 José Viriato Capela – Tensões Sociais na Região de Entre-Douro e Minho. Salvador Mota –O senhorio cisterciense de Sta Maria de Bouro: património. ou jurisdicional. as câmaras a realizar contratos de aforamento de terras incultas para preservar áreas de utilização comunitária. 1858. nomeadamente as áreas de pastagem. vol.1984. as pessoas que possuíam o domínio útil de terras das casas senhoriais. volume III da 2.cit. 42 Margarida Sobral Neto .ª série (VII). no Séc. o que podia confinar a área do património concelhio a escassas terras42. Ana Isabel Ribeiro – Um conflito entre poderes na Gândara da Bunhosa no início do século XVII. o procurador da Câmara de Coimbra invocava a existência de muitos privilegiados na cidade para se eximir ao pagamento de uma finta para as obras do Reino (Aires de Campo – Questões forenses. 2. susceptíveis também de gerar receitas para os municípios. 14. 1700-1834. Muitas destas eram aplicadas às pessoas que transgrediam os regulamentos concelhios de utilização de áreas incultas. à partida. “O Distrito de Braga”.. Ora os senhorios reivindicavam por norma o domínio directo sobre toda a área cultivada e inculta situada nas suas áreas de domínio. 2000 (dissertação de doutoramento policopiada). Lisboa.186). Margarida Sobral Neto – Terra e Conflito. pp. Nos conflitos entre senhores e câmaras motivados pela posse de áreas incultas – alguns deram origem a longos processos judiciais – estavam em causas motivações de natureza política. Julho-Dezembro. Com efeito. . sobretudo eclesiásticos. as áreas incultas cobriam percentagens sig- 41 A existência de privilegiados. t. pp. Este privilégio. pp. Imprensa da Universidade. Um conflito em que por norma saíam vencedores os senhores. p. e de natureza económica. 1978. Coimbra. jornaleiros ou lavradores. reflectia-se no quotidiano das comunidades. Outro dos privilégios dos foreiros das casas senhoriais era a isenção de coimas. Região de Coimbra.162 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS este motivo.. “Revista Portuguesa de História”. bem como pelas casas senhoriais que lho haviam concedido. “Revista de História Económica e Social”. tentavam obrigar os habitantes da comunidade que viviam do seu trabalho. por vezes. Ora do universo dos potenciais prestadores de trabalho gratuito excluíam-se. 91-101. principalmente nas zonas onde se concentravam muitas casas senhoriais. a prestar serviços gratuitos. propriedade. Em 1618. 183-223. Op. XVIII. obrigando. abarcando agora um leque mais amplo. como era por exemplo a região centro41. que era ciosamente guardado por aqueles que o usufruíam.Uma Provisão sobre Foros e Baldios: problemas referentes a terras de logradouro comum na região de Coimbra... traduzia-se num forte constrangimento da acção camarária. Porto. exploração e produção agrícola (1570-1834). 587-631.

uma parte significativa da produção agrícola destinava-se ao pagamento de diversos direitos às casas senhoriais. seriam os grandes negociantes de pro- . Este facto repercutia-se negativamente no exercício de uma das principais competências dos concelhos: o governo económico. que se pautavam pela auto-suficiência. no comércio de géneros alimentares. as câmaras para além de intervirem na agricultura. Com efeito. Por sua vez. num tempo em que a renovação da fertilidade da terra passava pela utilização de adubos vegetais e animais a subtracção de terras que eram o suporte para a criação desses fertilizantes afectava os níveis de produção e de produtividade com repercussões directas no abastecimento em cereais. por parte dos senhorios. o que estava disposto na lei. intervinham. Ora. como afirmou Aurélio de Oliveira. como senhoras absolutas do que consideravam os seus domínios. Tendo em conta a complementaridade existente entre áreas cultivadas e incultas as alienações destas. Ora a impossibilidade de controlar os usos dessas áreas acarretava uma perda efectiva de poder sobre o território concelhio. após a consulta das vereações. Com efeito. base da alimentação das populações. por norma. determinavam que a sua alienação fosse feita “em camera”. Estas eram assim detentoras de produtos agrícolas para consumo nas próprias casas. também. contrariando. situando-se parte delas nas zonas fronteiriças entre concelhos. no sentido de evitar a saída de produtos necessários ao consumo do concelho. sector no qual o abastecimento se assumia como principal preocupação. alienando os espaços incultos sem consultar as vereações. Em muitos casos. As casas senhoriais comportavam-se. aliás. o grosso a ser comercializado. Este pagamento não era feito. no entanto. a diminuição das áreas de pastagem provocava uma diminuição da criação de gado o que interferia igualmente no abastecimento. o domínio das casas senhoriais sobre os incultos era abusivo. destinando-se. directamente aos senhorios. e também das câmaras. enquanto entidades a quem competia salvaguardar o bem comum. Mas os prejuízos mais visíveis eram de facto os de natureza económica: a impossibilidade de utilizar as terras incultas como fonte de receita significava uma enorme perda para as receitas municipais. provocaram um desequilíbrio susceptível de afectar a produção e produtividade agrícola bem como a criação de gado. A cobrança era intermediada através de contratadores de rendas que. Em articulação com as políticas de abastecimento. Muitos forais manuelinos que reconheciam o domínio senhorial sobre as terras incultas. nesta área as políticas concelhias podiam ser afectadas pelos interesses dos senhores. no entanto. isto é. também.SENHORIOS E CONCELHOS NA ÉPOCA MODERNA 163 nificativas dos territórios concelhios.

Estruturas.164 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS dutos agrícolas. Alguns estudos sobre rendas agrícolas. Com a mesma política colidiam os monopólios senhoriais de fabrico de azeite. Em 1483. com as necessárias consequências negativas para alguns estratos da população. 46 A população de Eiras e o mosteiro de Celas confrontaram-se. n. redes e dinâmicas sociais. A comunidade de Eiras nos finais do século XVIII. apesar dos protestos das populações e das câmaras46. “Revista de História Económica e Social”. E observou ainda que “tanto para os donatários leigos como para os eclesiásticos o 44 Aurélio de Oliveira – A renda agrícola em Portugal durante o Antigo Regime (Séculos XVII-XVIII). pelo menos na zona de Entre Douro e Minho44. in “História de Portugal”. o principal problema residia no excessivo peso da tributação senhorial que asfixiava a vida económica local. ao longo do século XVIII. Alguns aspectos e problemas. 45 Conhecem-se casos de câmaras que mandaram colocar cadeados em celeiros dos senhores para impedir o desvio de cereais em tempos de carestia. “se confundia com a cobrança de direitos e não com as jurisdições”47. vinho ou pão. atestam bem esta realidade.cit). estatuto nobiliárquico e aristocracia. . provocada pela diminuição da oferta. Ora. o concelho de Montemor-o-Novo solicitou a D. de acordo com o estabelecido nas Ordenações um terço da produção teria que ficar sempre no concelho em que era produzido. Mas teriam os contratadores de rendas respeitado sempre esse princípio? Esta é uma pergunta que eu venho a colocar aos documentos há já algum tempo. Ora. privilégios ciosamente preservados pelos senhores. Julho-Dezembro de 1980. mas para a qual não tenho encontrado muitas respostas45. 1-56. João II “que lhe permitisse tomar posse de certa quantidade de cereal. tal como ela se exprimiu de uma forma particular nos finais do século XVIII. 67). Nuno Monteiro observou que a “questão senhorial”. nomeadamente os decorrentes da subida de preços. p. de que o marquês se tinha apoderado”( Jorge Fonseca – Montemor-o-Novo no século XV. por causa do exclusivo senhorial do fabrico do azeite (Ana Isabel Sacramento Sampaio Ribeiro. 47 Nuno Gonçalo Monteiro – O poder senhorial. não se verificando retorno em investimento. 357. Com efeito.º 6. bem como o movimento de contestação anti-senhorial. p. o facto de uma parte significativa da riqueza produzida numa comunidade ser canalizada para as casas senhoriais. o sistema de cobrança de rendas utilizado pela maioria das casas senhoriais poderia contrariar a política de autarcia económica prosseguida pelos municípios. Op. comprometeu a vida económica das comunidades e consequentemente as políticas concelhias. Mas o problema não residia apenas no eventual desvio de produtos necessários ao abastecimento local. pp. pertencente ao município.

SENHORIOS E CONCELHOS NA ÉPOCA MODERNA 165 número de concelhos em que recebiam direitos com jurisdição era idêntico ao daqueles em que cobravam direitos sem jurisdição”48. in “Origens do Estado Moderno (Revista Século XVIII)”. agora reduzidos em número. será cerceada pelo poder central50. Lisboa. 1997. poder local. Câmara Municipal de Montemor. Reexame de um tema. tendentes a libertarem-se das presenças senhoriais nos territórios concelhios. de facto. Cosmos. 50 Sobre as transformações ocorridas na vida municipal no período liberal vide. Esta situação explica a conflitualidade que. Com efeito. o exercício dos poderes senhoriais constitui-se como um factor limitador da autonomia das câmaras e fortemente condicionante do exercício das políticas concelhias. 2000. que se intensificou na época pombalina decorrente das políticas. promovidas pelas vereações. poder regional. políticas que foram coadjuvadas pelos oficiais periféricos da Coroa. in “Poder central. pp. à aplicação integral da legislação que. A libertação dos municípios da tutela senhorial ocorrerá apenas na sequência da revolução liberal. . se gerou entre senhorios e municípios. A força do poder senhorial resistirá. poder. ao longo da época moderna. Luís Nuno Espinha da Silveira – Estado liberal e centralização.o-Novo. Margarida Sobral Neto – Poder central e poderes locais na época pombalina. o desempenhado pelos cobradores de rendas ou pelos executores das casas senhoriais. 65-84. Lisboa. Consideramos que o atrás exposto pode sustentar a tese de que o exercício do poder concelhio foi fortemente condicionado pelo poder senhorial com quem teve de partilhar jurisdições. na última década do séc. Sociedade Portuguesa de Estudos do Século XVIII. No quotidiano da vida das comunidades o poder senhorial mais sentido pelas populações era. Do Antigo Regime à Regeneração (1816-1851). 356-357. nomeadamente provedores e corregedores49. pp. no momento em que a autonomia dos concelhos. Paulo Jorge da Silva Fernandes – Elites e finanças municipais em Montemor-o-Novo. e sobretudo recursos. entretanto. 1999. 48 49 Idem. Uma perspectiva histórica”. XVIII aboliu os direitos jurisdicionais concedidos aos donatários.

Gelabert9. de História) Após duas décadas de significativos desenvolvimentos historiográficos. Edições Colibri – CIDEHUS-UE. mas também as investigações de Ernest Belenguer Cebrià11. pp. M. Trata-se de investigações que muito contribuíram para esclarecer o papel político desempenhado pelas assembleias de Cortes. Convém frisar que o interesse pelas assembleias representativas não é exclusivo dos historiadores que trabalham sobre a Península Ibérica19. A. entre os muitos estudos que poderiam ser citados. veja-se os estudos de Fernando de Arvizu y Galarraga15. são hoje uma referência obrigatória os trabalhos de Pablo Fernández Albaladejo1. de I. Os Municípios no Portugal Moderno: dos forais manuelinos às reformas liberais Lisboa. de José Manuel de Bernardo Ares8 ou de Juan E. . de Luis González Antón5. de Oriol Oleart i Piquet13 ou de Joan Lluis Palos Peñarroya14. A. de Juan Luis Castellano6. hoje dispomos de um conhecimento bastante razoável acerca as assembleias representativas da época moderna. e no que toca às Cortes de Castela-Leão. de J. 167-242. os trabalhos de Luis González Antón. Assim. A assembleia de Cortes e a dinâmica política da época moderna* PEDRO CARDIM (Universidade Nova de Lisboa – Dept. Grande parte dos estudos que foram realizados incidiu nas instituições representativas dos reinos ibéricos que integraram a Monarquia Hispânica. Em Inglaterra. 2005. por fim. de Charles Jago7. Thompson3. assistiu-se também ao surgimento de uma série Notas no final do trabalho. Acerca das instituições representativas de Navarra. de Angel Casals12. Carretero Zamora4. de José Ignacio Fortea Pérez2. para a Galiza cumpre ter em conta as investigações de Manuel Artaza Montero17 e de María del Cármen Saavedra Vázquez18. destacando-se.Entre o centro e as periferias. e para o País Basco os trabalhos de Jon Arrieta Alberdi16. de Xavier Gil Pujol10. por exemplo. Os órgãos representativos de Aragão e da Catalunha também mereceram alguma atenção.

das decisões tomadas. ainda não existem estudos abrangentes sobre o conjunto das reuniões dos séculos XVI e XVII. de Eduardo Freire de Oliveira31. não há dúvida de que muito subsiste por estudar. e ao contrário do que sucede para as Cortes da Idade Média – período para o qual dispomos dos trabalhos de José Mattoso34. na linha daquele que foi efectuado por Fernando Bouza para a assembleia de 158147. assinadas por historiadores como Blair Worden21. demasiado vasta para ser aqui apresentada. está por fazer a análise. dos estudos de Henrique da Gama Barros30. a Flandres26 ou o Sacro Império27. de António de Oliveira40. também foram objecto de aturado estudo. também. ainda que indirectamente. Por outro lado. de Amélia Aguiar Andrade e de Rita Costa Gomes37 –. a compreensão do papel desempenhado pelas Cortes no conjunto da administração central da Coroa. tendo em vista captar a percepção que os povos peninsulares tinham das assembleias representativas realizadas nos reinos vizinhos. Pensamos. de Maria Helena da Cruz Coelho36.168 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS de obras dedicadas ao Parlamento dos séculos XVI e XVII20. do contexto em que cada uma delas se realizou. nomeadamente. posteriormente. de António Manuel Hespanha42. Tirando partido das questões levantadas em trabalhos pioneiros – como os de João Pedro Ribeiro28 ou do Visconde de Santarém29. em particular enquanto espaço de articulação entre os poderes locais e a Coroa. das reuniões de Cortes. a recente historiografia manifestou algum interesse pelo estudo das assembleias representativas do Portugal da época moderna. de Luís Reis Torgal41. sobretudo. dos seus participantes. dos debates desenvolvidos. nos contributos de Joaquim Romero Magalhães38. de que resultou uma volumosa bibliografia. algumas das mais importantes investigações sobre a história política e administrativa do Portugal Moderno contribuíram para uma compreensão aprofundada do lugar das Cortes no sistema político. antes de mais. de Fernanda Olival44. etc. de Paulo Merêa32 ou de Marcelo Caetano33 –. de Armindo de Sousa35. As instituições representativas de outras partes da Europa moderna. As Cortes do século XVI. à escala ibérica. de Fernando Bouza Álvarez39. como a França24. No que toca às reuniões celebradas no período Seiscentista. caso a caso. de Francisco Ribeiro da Silva43. continuam à espera de um estudo aprofundado. os Estados Italianos25. de Pedro Cardim45 ou de Ângela Barreto Xavier46. e. urge levar a cabo o estudo comparativo. Conrad Russell23. . Todavia. Mark Kishlansky22 e. Seja como for. neste renovado interesse pelas Cortes da época moderna. A historiografia portuguesa participou. Importa aprofundar. e a despeito do trabalho que foi realizado. Todavia.

. o funcionamento das sessões. mas sim o laço de pertença que resultava do próprio . seria merecedora de um “estudo de caso” altamente contextualizado. as várias alusões à «assembleia dos três estados» nos reinados de D. de molde a reconstituir o sentido das intervenções dos participantes. João V e de D. abordagens na linha da história das ideias políticas. a fim de se perceber. e num contexto social onde coexistiam distintos sentimentos de pertença à comunidade política. é indispensável ter em conta que se trata de uma assembleia que operava num quadro comunitário eminentemente corporativo. Falta. por seu turno. 169 Cada uma das actas das sessões. Trata-se de um universo político onde o principal quadro de referência não era a divisão administrativa implementada pela Coroa. Urge efectuar. Questão importante é. e cumpre estudar.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS.. a da influência das autoridades senhoriais no comportamento dos procuradores oriundos de vilas situadas nos seus senhorios. está por cumprir toda uma vasta agenda de investigação sobre as Cortes do Portugal da época moderna. uma iniciativa sistematizada de publicação da documentação produzida pelas Cortes do século XVII50. As Cortes no ambiente político do Antigo Regime A fim de compreender o papel político das Cortes no quadro das relações entre o centro e as periferias. também. tendo em vista compreender a relação entre as sucessivas configurações do discurso político e o maior ou menor protagonismo das Cortes. igualmente. José I. por exemplo. A ASSEMBLEIA DE CORTES. igualmente. igualmente. Fundamental será. o mesmo se podendo dizer de questões como a hierarquia entre as cidades e vilas com voto em Cortes.. Quanto ao vasto conjunto de petições existente nos arquivos portugueses. É igualmente imprescindível dedicar alguma atenção à articulação entre as Cortes e o mundo local. Por último. os processos de decisão. Como se pode verificar nesta breve enumeração. também. urge avaliar o verdadeiro significado do debate sobre as Cortes na segunda metade de Setecentos. etc. assim como o impacto das suas decisões no mundo político das periferias48. ou do papel de Lisboa como «cabeça» do reino. trata-se de um corpus que continua à espera de uma análise de conjunto. a realização de investigações sobre a história da fiscalidade. temática largamente negligenciada pelos historiadores portugueses e de cujo estudo depende a compreensão cabal do significado político das Cortes da época moderna49. os processos de selecção e o estatuto dos procuradores. A participação do «estado da nobreza» e do «estado eclesiástico» nas sucessivas reuniões de Cortes é outro tema que ainda não foi objecto de um estudo sistemático.

el cabeça. um conjunto político plural. era tida como uma comunidade de famílias. encontrava-se bem expressa na titulatura régia. e a cidade ou vila onde se residia constituía o núcleo central da sociabilidade. perante um ambiente de pluralidade de pertenças e de identidades políticas. resultante da progressiva incorporação e agregação de territórios. assim. Convém não esquecer que a sociedade da época moderna assentava em corpos de todo o tipo. como se sabe um atributo essencial. do conceito de autoridade no Antigo Regime51. Cada um dos «reinos» que povoava a paisagem da época moderna era. no seu seio. y como en el cuerpo phisico ay correspondência de amor. cada um deles titular de uma diversa gama de poderes. era este o cenário que caracterizava toda a Península Ibérica53. Estamos. Tal heterogeneidade. a comunidade local era o elemento que precedia as demais unidades políticas. num primeiro momento. entre el Rey y sus vassallos…»52. a comunidade territorial de ordem superior que englobava. Os princípios fundamentais que regiam a coexistência no espaço do «reino» eram a partilha recíproca – entre o rei e o reino – de direitos e de deveres. Nesse quadro. o qual lhes concedia uma margem de autonomia mais ou menos ampla. O quadro de referência da Coroa era o «reino». as . Tanto uns como os outros formavam comunidades tendencialmente completas. Nas palavras do jurista João Salgado de Araújo. de resto. Todos esses territórios estavam sob a égide de um rei. também elas estavam presentes. y los vassallos miembros. todos os domínios que estavam sob a alçada do soberano. por sua vez. em especial o de administração da justiça. e com combinações de natureza bastante diversa. escalonadas segundo uma ordem fortemente hierárquica. assim. segundo uma escrupulosa ordem hierárquica. Em termos administrativos. ordem essa que atribuía a cada uma das instituições locais um lugar preciso na escala de dignidade política. onde sempre se enumerava. as principais instituições actuantes sobre o terreno eram os senhorios – eclesiásticos e seculares – e os municípios. A malha administrativa da Coroa desenvolveu-se mais lentamente. pequenas «repúblicas» virtualmente auto-governadas. assim como os variados corpos em que estava estruturada a sociedade. A urbe. O rei surgia.170 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS tecido social em que cada pessoa estava integrada. territórios esses que apresentavam perfis e estatutos bastante diversos. assi la deue auer en el mixtico de la Republica. y el Reyno hazen un cuerpo mixtico. adaptando-se à realidade social e jurisdicional que a precedia. estruturante. e fê-lo. embora a sua entrada em cena seja posterior à das divisões que acabámos de referir. No que respeita às divisões administrativas da Coroa. toda uma série de comunidades locais. Apesar dos inevitáveis contrastes regionais. «el Rey. entre cabeça y miembros. como a cabeça de um conjunto de territórios. e o reino como uma comunidade de cidades. por conseguinte.

de um império.. Contudo. mas também em obrigações inerentes à condição de parte integrante da comunidade reinícola54. A par destas pertenças. com a expansão das monarquias.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. e em que o «reino» se tornava momentaneamente visível enquanto enquadramento de pertença comum a todos os diversificados membros que o integravam. Pertencia-se. Todavia. até. No cenário político do Antigo Regime. Fizeram-no . todos estes quadros de pertença estavam englobados naquele que era o elemento identitário por excelência: a inserção na Respublica Christiana. 171 quais não eram necessariamente contraditórias. de seguida. bem se esforçaram por aprofundar o significado da pertença a unidades políticas mais vastas. por último. No decurso das «reuniões dos três estados» eram invocados sentimentos de pertença a um corpo político a que se dava o nome de «reino». tanto na Europa como fora dela55. sobretudo quando comparadas com os deveres para com a família. No ambiente político do Antigo Regime a assembleia das Cortes era o momento em que estas várias partes que compunham a comunidade se reuniam com o rei. de uma solidariedade geral. Sebastião I em Portugal. Faltava uma base para o surgimento de obrigações comuns. a uma família. a inserção em corpos como o estado social ou o grupo sócio-profissional. falando-se em «bem comum do reino» e em direitos. reuniram-se as condições para a reconfiguração dos laços de associação política. mas sim complementares. Quanto aos reis. A ASSEMBLEIA DE CORTES. depois. também ela senhora de vastos domínios. igualmente. Verificou-se que os sentimentos de ligação à comunidade local já não eram completamente compatíveis com a realidade cada vez mais extensa de entidades como a Coroa Portuguesa. podia-se também fazer parte de uma monarquia ou. a partir daí pertencia-se a uma cidade-província. a uma vila ou a um bairro. a um reino. depois a uma aldeia. Por fim. no século XVI. era-se habitante de uma cidade. D. As várias casas reais procuraram forjar outro tipo de vinculações e de sentimentos de pertença. O mesmo se poderia dizer da Coroa de Castela. ou para com a entidade corporativa de que se fazia parte. porque predominava um sentimento de pertença eminentemente orgânico e particularista. as obrigações associadas à condição de parte integrante do «reino» eram pouco consensuais e pouco mobilizadoras.. Carlos I e Filipe II nos domínios dos Habsburgo. importa ter em conta que as obrigações inerentes à pertença ao «reino» estavam longe de possuir a força que caracteriza os actuais deveres de cidadania. avultava. João III e D. primeiro. para com a comunidade onde se residia. a qual por essa altura se assumiu como a cabeça de um império pluricontinental. que não favorecia o desenvolvimento espontâneo de deveres para com organizações políticas mais vastas e de natureza artificial.. adicionando-os aos pré-existentes laços de natureza orgânica e de cariz particularista.

e durante muito tempo essa assembleia foi dominada pela nobreza. a fim de conferir mais homogeneidade à acção da Coroa. os nobres foram o único dos «três estados» a comparecer na . e vários territórios resistiram a esta dinâmica. as movimentações em torno do príncipe D. Em Castela. nessa ocasião um segmento da sociedade portuguesa não escondeu o seu temor perante as consequências que poderiam advir da entrada do reino lusitano para uma unidade política tão vasta57. Nos derradeiros anos de Quatrocentos. para que tivessem em conta não só o seu «bem particular». apenas as figuras mais proeminentes do reino. os representantes das cidades começaram a ser chamados às Cortes a partir de meados do século XIII. Em Portugal. incrementando o seu dispositivo administrativo. onde as obrigações inerentes à pertença a esses espaços políticos surgiam cada vez mais associadas às causas comuns da Cristandade. na primeira fase do seu percurso histórico as Cortes funcionaram sobretudo como o espaço de articulação entre a Coroa e a elite nobiliárquica. o projecto de conversão da Coroa lusitana na cabeça de um grande império também não se revelou consensual e. Manuel levou muito a sério a hipótese de liderar um projecto de união com Castela e Aragão sob a égide da Coroa portuguesa. A orgânica das Cortes Qual foi o papel desempenhado pelas assembleias de Cortes nesse período em que os líderes políticos do ocidente Europeu apelaram aos seus vassalos. em certos momentos. de forma cada vez mais insistente. numerosos foram os castelhanos que manifestaram reservas face aos propósitos imperiais de Carlos I e de Filipe II56. D.172 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS desenvolvendo uma pujante acção mecenática. Em Portugal. a primeira assembleia que contou com a presença de procuradores das cidades parece ter sido a que se realizou em 1254. secular e eclesiástica. congregando. Cumpre não esquecer que a família real de Portugal – a Casa de Avis – acalentou planos dinásticos. Seja como for. muitos questionaram as grandiloquentes visões régias de conversão do Reino lusitano na cabeça de um potentado pluricontinental. cumpre referir que. também. Aliás. no início. e os seus membros também fomentaram projectos de constituição de unidades políticas de carácter mais vasto. Como se sabe. Curiosamente. como é sabido. Fizeram-no. Miguel da Paz são reveladoras da hipótese de entrada de Portugal para uma união com Castela e Aragão. mas também o «bem comum do reino»? Convém lembrar que as Cortes começam por ser uma forma alargada de conselho régio. Assim. Todavia. os sentimentos particularistas de que atrás falámos revelaram-se muito resistentes.

nesse período. mas também jurídica.. designadamente os emergentes conselhos palatinos e alguns sectores da cada vez mais desenvolvida administração da Coroa. pelos membros dos grupos privilegiados. Por outras palavras. fundamentalmente. mais esbatida. que as Cortes começaram por ser compostas. como um tribunal. no processo governativo. e os «capítulos gerais». por isso mesmo. Assim. o qual. em vez de exercer uma jurisdição eminentemente voluntária. Nesses pedidos gerais a visão particularista surgia. . tendo como principal finalidade a manutenção dos equilíbrios pré-existentes. também as Cortes actuavam segundo uma matriz jurisdicionalista. mas sobretudo como uma espécie de instância judicial. Não devemos esquecer que. apenas. actuando o rei a pedido dos vassalos. os quais. uma vez reunidas as Cortes. portanto. todos os presentes assumiam a posição de autoridades imparciais chamadas a verificar a admissibilidade jurídica de pretensões e de contra-pretensões. as Cortes foram-se tornando menos relevantes para o grupo nobiliárquico. e que incluíam questões de alcance mais geral. produzidos pelos «três estados» na fase inicial de cada assembleia. desenvolveu outros canais para estabelecer a sua interacção com a Coroa. sobretudo enquanto espaço de comunicação política com o rei. como o seu próprio nome indica.. É fundamental não esquecer. a assembleia instava os vassalos a apresentar problemas. com o desenvolvimento dos vários órgãos da administração da Coroa e com a afirmação da corte régia como palco principal da política58. Assim. Enquanto órgão dotado de uma matriz judicial. mas sim para repor a ordem depois de rompida a natural disposição das coisas. Nas Cortes deparamos. a missão primordial do poder político consistia em reconhecer a ordem e garantir um equilíbrio inscrito na natureza das coisas. assim. desde reivindicações corporativas até advertências acerca de temas da actualidade do reino. A ASSEMBLEIA DE CORTES. Nessa fase as Cortes eram. as Cortes actuavam segundo uma técnica que estava pensada não tanto para evitar que a desordem se registasse.. 173 reunião. E à semelhança do que se passava com todos os órgãos administrativos da época. com uma prática de governo (e uma correlativa teoria) que tendia a conceber o poder antes de mais como instrumento para a conservação da ordem. os representantes do reino pensavam-se a si mesmos não só como conselheiros. de resto. e ao contrário do que sucedia com o clero e com a nobreza. faziam eco dos problemas «particulares» de cada comunidade local. uma modalidade alargada de conselho régio. a assembleia representativa foi-se tornando mais importante para as corporações urbanas. natural. Porém. sem dúvida. podendo. Paralelamente. e que só mais tarde esta assembleia abriu as suas portas ao chamado «terceiro estado». intervir.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. Esses pedidos eram formulados em dois principais tipos de documentos: os «capítulos particulares».

A prerrogativa de convocar os «três estados» era vista como uma marca de soberania. entre o rei e os seus vassalos. sobretudo em Castela. enquanto que em Portugal este princípio foi sempre respeitado. aos poucos. Vários chegavam mesmo a alegar que o parecer do conselho régio podia substituir o diálogo com as Cortes. A finalidade era «tornar presente» o reino ao rei. assim como resolver problemas governativos que estivessem pendentes. em princípio. Todavia. o que fazia com que. pois. No fundo. Assim. a fim de renovar o compromisso entre a Coroa e o reino. para alguns o rei tinha a obrigação de chamar a assembleia representativa antes de tomar qualquer decisão governativa de maior importância. e o mesmo se terá passado em juntas de cidades da América Espanhola61. reino onde o clero e a aristocracia. Thompson63. por excelência. A. e como notou I. desde a segunda metade do século XIV os únicos nobres e clérigos que participavam na reunião eram aqueles que desempenhavam algum cargo na corte régia ou que. não fosse delegável59. a partir de meados do século XIV o perfil dos órgãos representativos sofreu uma importante mudança. Esta indefinição marcará todo o percurso histórico da assembleia62. por exemplo. já nessa altura. É certo que o encontro físico entre o monarca e os «estados» do reino só tinha lugar na sessão de abertura solene e nas cerimónias de juramento que eventualmente tivessem lugar. importa referir que a situação constitucional das Cortes não era completamente clara. deparamos com alguns territórios cujas assembleias representativas foram frequentemente convocadas pelos representantes locais do monarca: nas possessões hispânicas de Itália60. durante os séculos XVI e XVII. os vice-reis presidiam a Cortes napolitanas e sicilianas. Trata-se de uma indefinição que remonta ao período medieval. Seja como for. estava em curso um processo de gradual afastamento dos magnates da nobreza em relação às Cortes. Os únicos que continuaram a marcar presença foram os representantes das cidades. no espaço da Monarquia Hispânica. pelo contrário. A. a consulta das Cortes era como que um acto de «graça». Todavia. o costume mandava que o rei deveria permanecer na localidade onde decorriam as Cortes até ao final dos trabalhos. para outros. e era precisamente essa proximidade física face ao monarca que fazia com que a assembleia fosse tão valorizada pela sensibilidade coetânea. enquanto que. por . só o rei em pessoa podia chamar e presidir às Cortes. dependente do arbítrio régio. De qualquer modo.174 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS De acordo com o costume. fruto da situação atrás mencionada: a aristocracia encontrara outros canais de influência e de articulação com a Coroa. as Cortes eram encaradas como o encontro. Como sugerimos atrás. foram deixando de comparecer nas reuniões de Cortes.

Quanto ao «estado do povo». se encontravam nas proximidades do local onde se realizava a reunião. pode dizer-se que. controlo administrativo). etc. grupos restritos de procuradores constituídos por iniciativa dos oficiais régios e que ficariam incumbidos de assegurar o andamento dos trabalhos. aquela que reunia os representantes das cidades. a gestão das clientelas locais. no período tardo-medieval. um valor muito superior ao que se registou no século posterior. a nobreza compareceu em apenas 23 das 44 reuniões realizadas entre 1385 e 1490.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. as Cortes evoluíram no mesmo sentido dos demais reinos ibéricos. embora se registe um certo desinteresse dos grupos nobiliárquicos. No tocante a Portugal. Além disso. a assembleia representativa desenvolveu uma considerável actividade de produção normativa. 175 acaso. o recrutamento militar. podemos afirmar que as Cortes de Portugal mantêm o seu perfil de assembleia com «três braços». De acordo com A. em Portugal. as Cortes portuguesas de finais da Idade Média terão contado com a participação regular de representantes de cerca de oito dezenas de cidades e vilas65. facto que aponta no mesmo sentido da valorização da importância da assembleia. e em 1477 surgiram as chamadas «comissões de definidores». uma instituição dotada de uma só câmara. sobretudo em áreas como a fiscalidade (cobrança. altura em que as convocatórias se tornaram muito menos numerosas. Um outro indicador a ter em conta é o elevado ritmo das suas convocatórias: na centúria de Quatrocentos realizaram-se mais de quatro dezenas de reuniões67. Trata-se de uma solução que tinha em vista agilizar os processos de decisão. ao mesmo tempo que interveio na política local. sendo sistematicamente chamadas para intervir em certas áreas fulcrais do governo do reino como o juramento do rei ou a fiscalidade régia66. A ASSEMBLEIA DE CORTES. Para além disso. também em terras lusitanas. Por isso. Assim. em 1480 as Cortes de Castela eram já.. Os trabalhos de Armindo de Sousa sugerem que. ou seja. Acresce que as Cortes portuguesas continuaram a decidir sobre matérias de “alta política”. entre as cidades registaram-se conflitos de precedência relacionados com o lugar em que participavam na «assembleia dos três estados».. os representantes dos núcleos urbanos costumavam ser os mais entusiastas na afluência às Cortes. oficiosamente. na reunião celebrada em Leiria. . foi em 1254 que os procuradores das cidades e vilas participaram pela primeira vez nas Cortes. Sousa. ou seja.. A partir da assembleia de 1331 os diversos «estados» passaram a reunir separadamente64. enquanto que o clero marcou presença em 24 reuniões. No que respeita ao afastamento dos grupos privilegiados. embora o distanciamento da nobreza e do clero seja menos pronunciado. no quadro da resposta às petições.

e como notou I. mas também como uma opção da aristocracia e do clero. de facto. esses dignitários par- . A. As formas de representação política nas Cortes Enquanto órgão representativo. um carácter senhorial. E com o abandono da aristocracia. participavam na reunião enquanto entidades que administravam territórios habitados por uma população mais ou menos significativa. Uma coisa é certa: a não comparência da nobreza retirou alguma força às Cortes de Castela. para a nobreza as Cortes tinham-se tornado pouco relevantes. os quais. encontraram canais alternativos para exercer a sua influência política e para defender os seus interesses económicos. como dissemos. ao longo da sua história. Como dissemos. Aliás. as Cortes de Castela converteram-se numa assembleia de procuradores de cidades e vilas. mas também o clero. em 1538 Carlos V tomou uma decisão marcante: exortou a nobreza e o clero a comparecer nas Cortes.176 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS No que concerne a Castela. por Carlos V. o mesmo se podendo dizer da sua capacidade de intervenção em questões da alta política69. vinham-se desinteressando das Cortes desde meados do século XV. O imperador desejava que esses grupos sociais tomassem parte. A dissolução das Cortes. razão pela qual a sua função consultiva diminuiu consideravelmente. Em 1538. essa assembleia jamais contaria com o «braço da nobreza» formalmente reunido. e também as cidades. em 1539. à data. e ao fazê-lo estava de algum modo a reeditar um modelo de reunião que. a nobreza. I. em vez de apoiar os projectos de Carlos V. a resposta da aristocracia castelhana ao apelo do Imperador foi muito expressiva: 80% dos titulares e do alto clero responderam à chamada. e terá sido esse o motivo que levou o imperador a ordenar a sua dissolução. formas razoavelmente diversas de representação política70. A. Thompson71 e José Ignacio Fortea Pérez72 assinalaram que. Tanto os nobres como os clérigos. Como assinalámos. marcou o fim da convocatória dos nobres e do «estado eclesiástico» para a assembleia castelhana. cumpre assinalar que essa foi uma das raras ocasiões em que os «três braços» actuaram de forma concertada contra a fiscalidade régia. A. A. Até ao último chamamento das Cortes de Castela durante o século XVII (registado em 1664). no período medieval. Thompson. na assembleia. a 1 de Fevereiro de 153968. Assim. sobretudo. facto que deve ser visto não só como uma forma de a Coroa evitar uma oposição mais concertada entre os «três braços». Todavia. a assembleia tornou-se no principal pólo de oposição aos novos impostos que a Coroa desejava introduzir. as Cortes activaram. a representação possuía. estava a cair em desuso naquele reino.

e ao longo de toda a existência das Cortes discutiu-se até que ponto os juramentos ou os votos nas assembleias obrigavam aqueles que não estavam presentes75. apesar da resistência de alguns procuradores. e he cousa que não padeseo numqua de comtrouersia». até. escreve D. 177 ticipavam nas Cortes não só como membros do «estado eclesiástico» ou do «estado da nobreza». respondendo a alguns procuradores que. Discutiu-se. António M. De facto. tanto cidades de grandes dimensões como vilas e. mas também como senhores de terras. as instituições urbanas passaram a ser o único «braço» chamado às Cortes de Castela. Como dissemos.. a propósito deste tema. a questão jamais reuniu consenso. João IV em Fevereiro de 1646. não podiam falar pelo conjunto do «estado da nobreza». e em seu nome concordava ou não com o que lhe era pedido74. No caso da assembleia de Castela-Leão. se o voto da maioria dos membros do «estado da nobreza» obrigava aqueles que tinham decidido noutro sentido76. não era claro se os nobres. às Cortes. Além disso. que o entendimento atomista de representação prevaleceu até ao final do Antigo Regime: em questões de política global do reino. . só a partir de finais do século XIII é que as comunidades urbanas começaram a ser chamadas. em princípio. os membros do «estado da nobreza» não eram eleitos nem recebiam qualquer procuração. no «terceiro estado». comparecendo um total de dezoito cidades. permaneceu a ideia de que cada participante se representava a si mesmo.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. quando compareciam nas Cortes. vimos atrás que. em questões como pedidos ou «serviços». para além disso.. Enquanto que no «estado da nobreza» e do clero o princípio da maioria suscitou algumas reservas. No entanto. No que respeita ao «terceiro estado». pequenos lugarejos. fazia com que os seus processos decisórios fossem algo diversos daqueles que vigoravam no «terceiro estado». representavam a nobreza enquanto corpo. entre outras coisas. parece que as Cortes se assumiam como uma assembleia que representava o conjunto do reino. Hespanha notou. como figuras que detinham uma margem de autoridade administrativa sobre parcelas significativas do território e sobre conjuntos populacionais nada desprezíveis73. também. esse princípio parece implantar-se: «o que se assenta e vence pela maior parte se assina e segue pela menor. Seja como for. tendo perdido uma votação sobre questões fiscais.. costumavam vincar que participavam nas Cortes não tanto por obrigação para com o rei. A ASSEMBLEIA DE CORTES. O caminho percorrido até se chegar a essa situação tinha sido longo. A nobreza e o clero. chegou a integrar mais de uma centena de urbes. as quais assumiram a tarefa de representação do conjunto da Coroa de Castela. mas sim como um direito que lhes assistia. ou seja. após 1539. razão pela qual. se recusavam a acatar a decisão maioritária77. com regularidade. o que.

Toledo. tendo sido esse o factor que ditou a fraca participação. Sória). coube a dezoito cidades falar em nome do conjunto da Coroa de Castela. Salamanca. Desse modo. a opção por não comparecer foi tomada pelas próprias localidades. Toro. Cuenca e Guadalajara). enquanto que regiões muito menos povoadas. Para além destas regiões. dependia de Zamora. Ávila. as áreas melhor representadas nas Cortes de Castela-Leão. Sevilha e Granada). À semelhança do que sucede nas demais Cortes ibéricas. quatro em terras de La Mancha (Madrid. e uma no reino de Múrcia (Múrcia). as quais. contavam com um grande número de assentos em Cortes. Segóvia. enquanto que Salamanca falava por toda a Extremadura80. e como assinala o mesmo J. nas Cortes. há também a registar a presença de um número considerável de procuradores enviados por cidades e vilas situadas na proximidade da fronteira. Córdova. a força do regime senhorial a norte do Mondego explica esta disparidade. o factor que motivava a participação das cidades nas Cortes era a forte tradição de governo participativo que existia em toda . como o Alentejo.178 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS com o passar do tempo o número de municípios representados nas Cortes de Castela foi claramente diminuindo: das 101 cidades presentes em 1315 passou-se para 17 em 1435. Valhadolide. pois. situação compensada pelo facto de o município de Burgos representar oficiosamente a zona Cantábrica. o norte peninsular carecia também de representação na assembleia castelhana. vastos territórios ficavam privados de representação nas Cortes. Fortea Pérez. então conhecia por «La Montaña». assim como os territórios das Ordens Militares. dos concelhos das regiões situadas a norte do rio Mondego81. A região mais densamente povoada do reino – Entre-Doutro e Minho – estava sub-representada. encararam a assembleia como uma instituição pouco relevante para a protecção dos seus direitos78. em Portugal a procedência geográfica dos procuradores também não obedece a nenhum critério de proporcionalidade aritmética. Zamora. A distribuição geográfica das urbes com voto em Cortes é também reveladora de que a representação política activada nessas reuniões não reflectia um critério de proporcionalidade geográfica ou demográfica. Desse modo. Por outro lado. José Ignacio Fortea Pérez79 notou que mais de metade dessas cidades se concentravam no interior de Castela: nove em torno da bacia do rio Douro (Burgos. De um modo geral. a cidade de León desempenhava idêntico papel para o Principado de Astúrias. nas juntas específicas completamente independentes das Cortes de Castela). quatro no reino andaluz (Jaén. tal como os nobres. Leão. I. León. Castela-a-Velha e Castela-la-Mancha eram. entre os quais avultavam as províncias bascas (que contavam com a sua própria estrutura representativa. Quanto ao reino da Galiza. Refira-se que. de um modo geral. Para Luís Miguel Duarte.

Acresce que as concepções políticas predominantes no mundo ibérico apontavam muito mais para um exercício do poder partilhado. 179 a Península Ibérica. durante séculos. Segundo Xavier Gil Pujol.. uma série de autores lembrava insistentemente que o povo – e não o rei – era o depositário do poder originário de Deus85. por seu turno. A ASSEMBLEIA DE CORTES. o exercício da autoridade régia era visto como parte de um sistema de poderes e de contra-poderes que se equilibravam. desse modo. A influência de Itália e do chamado «humanismo cívico». manifestaram uma menor disposição para convocar um órgão que. Quanto aos monarcas. as autoridades municipais reforçavam a sua identidade e constituíam-se como pequenas repúblicas locais. Todavia. também desempenhou o seu papel na persistência dessa tradição participativa. com toda a sua exaltação do governo republicano. E ao mesmo tempo que se desenvolvia esta tradição de governo participado. desprovido de competências decisórias de maior alcance. Desde tempos ancestrais os municípios vinham desenvolvendo formas colegiais de decisão. verdadeiras «comunidades de privilégios» (T. Para além disso. no quadro deste imaginário político que a Coroa concedia a certas cidades a «honra» de tomar parte nas assembleias.. é interessante verificar que o facto de a cultura política ibérica ser intrinsecamente regalista não foi necessariamente incompatível com o reconhecimento de que as Cortes tinham um determinado lugar na relação entre o rei e os seus vassalos. pois. e a situação de auto-governo em que viveram. no fundo. empenhados no processo de consolidação das bases do seu poderio. e o ideário «republicano» teve menos espaço para se desenvolver84. Formavam-se. Herzog82). garantindo à população que estava sob a sua égide toda uma série de liberdades e imunidades. É muito significativo que os escritos de teoria política em circulação a partir desse período retratem as Cortes como um mero fórum de debate. após a derrota dos comuneros a linha doutrinal de sentido regalista ganhou novo alento. como por exemplo no movimento das Comunidades de Castela83. No entanto. é possível escutar ecos deste ideário em alguns momentos da história ibérica do século XVI. dos valores cívicos e do individualismo. Era. lembrava que a pessoa régia não estava sozinha na decisão sobre questões governativas. doutrina acolhida nas obras dos principais teólogos e juristas daqueles anos86. facto que também terá contribuído para consolidar a presença das cidades nas Cortes. do que para modalidades decisórias mais individualistas. ainda mais contribuiu para enraizar tais processos de decisão..ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. De facto. . persistindo uma forte tradição discursiva que insistia na importância incontornável do consensus populi. e em muitos momentos as Cortes assumiram-se como um dos principais momentos de defesa desses privilégios ante as investidas da Coroa.

viram na assembleia representativa um bom palco para zelarem pelos seus direitos e pelas suas liberdades face ao crescente voluntarismo régio. Pode então dizer-se que a pertença à Monarquia Hispânica também contribuiu para que as Cortes assumissem um maior protagonismo. portuguesas. a afirmação do projecto político da Coroa não teve como consequência imediata o desaparecimento das Cortes. perante a afirmação da Coroa de Castela no conjunto da Monarquia. Nas diversas partes dos domínios dos Habsburgo os apelos régios para que se aumentasse o contributo fiscal tiveram o condão de fomentar o desenvolvimento de um discurso que vincava a natureza auto-governada das várias partes da Monarquia. Na verdade. O facto de reinos como Aragão. facto que favoreceu o discurso que via nas Cortes a única sede com legitimidade para aprovar novos tributos. os diversos reis aperceberam-se de que as Cortes poderiam desempenhar um papel importante enquanto espaço de inculcação de sentimentos de pertença ao «reino». as elites aragonesas. bem pelo contrário: o maior voluntarismo da Coroa traduziu-se na intensificação da comunicação política entre o rei e o reino. essa comunidade política alargada que comportava uma nova gama de obrigações e de sacrifícios. política essa que cada vez mais exigia o contributo de todos para o esforço conjunto da Monarquia.180 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Assim. e uma parte significativa dessa comunicação acabou por ter como palco a assembleia representativa. e ao contrário do que seria de supor. recorreram a alguns elementos do ideário republicano para potenciarem a defesa dos foros reinícolas e para amplificarem os seus protestos sempre que consideravam que tais foros estavam a ser postos em causa pelo centro político. também. napolitanas. Quanto aos vários grupos sociais. sicilianas e. de medidas impopulares – como os novos impostos – poderia contribuir para tornar mais aceitáveis esses sacrifícios. de que a aprovação. Na realidade. desta feita como uma espécie de símbolo dos foros de cada uma das partes desse conjunto político compósito. mais tarde. as assembleias representativas voltaram a desempenhar um papel mais interventivo na política. Esta tendência manteve-se no século XVII. . O aumento das solicitações dos Habsburgo incidiu sobretudo no terreno fiscal. a partir de meados de Quinhentos. altura em que se acentuou a faceta das Cortes como verdadeiros bastiões dos foros reinícolas e como pólos de obstrução à política régia. assim como a sua ancestral autonomia decisória87. Foi assim que. Aperceberam-se. em Cortes. Nápoles ou Sicília integrarem os domínios dos Habsburgo também contribuiu para vincar o papel político das Cortes.

Importa referir que as eleições nem sempre eram pacíficas. no contexto castelhano. é a partir do século XV que se regista a tendência para a generalização da regra de dois representantes por urbe88. existia uma norma que impedia que um mesmo regidor exercesse a função representativa em duas Cortes seguidas89. 181 Os procuradores. para além de um certo património. ou seja. ser avalizada pelo juiz de fora. Formas de selecção e poderes O número de procuradores enviado por cada cidade variou ao longo da existência histórica das Cortes. A ASSEMBLEIA DE CORTES. o escolhido deveria possuir o perfil moral adequado ao desempenho de um ofício. No início. Além disso. observando o que estava disposto nas Ordenações e abrangendo apenas os residentes na localidade que iria enviar os procuradores. os municípios começaram por contar com apenas um representante. devendo incluir o nome daqueles que haviam participado na escolha do representante. Quanto ao reino português. com o conhecimento de todos os residentes. De facto. o primeiro dado a assinalar é o facto de não existir uma normativa geral que definisse o modo de proceder na sua selecção. tendo retrocedido a partir dessa data. o mesmo sucedendo em Portugal. impondo algumas regras também elas bastante vagas: as eleições deveriam ser realizadas da forma costumeira.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. o eleito deveria ser escolhido entre a «gente da governança» e de forma pública.. a documentação de que dispomos sugere que os oficiais régios procuravam garantir que os representantes das principais cidades seriam coniventes com os projectos régios. Cada cidade tinha os seus costumes electivos. Fortea Pérez afirma que a interferência régia nos processos de selecção dos representantes terá sido relativamente frequente até ao final século XV. e conter a afirmação de que o procurador fora investido de «poderes bastantes» para decidir sobre a matéria que motivara a convocatória das Cortes. Acerca do reino de Castela. passando depois para dois procuradores por cidade... Em Castela. apesar de sabermos muito pouco acerca da interferência da Coroa portuguesa na escolha dos procuradores. até ao final de Seiscentos as Cortes lusas contaram com a participação de representantes de cerca de uma centena de cidades e vilas. No que respeita aos processos de escolha dos procuradores. e a Coroa limitava-se a fazer recomendações gerais. a procuração tinha de obedecer a certos requisitos formais. O mesmo estudioso sustenta que as disputas em torno da selecção dos representantes aumentaram no século XVII. reino onde a assembleia representativa continuou a ter uma afluência bastante numerosa de procuradores. até porque a escolha do procurador era um processo que costumava extremar posições entre «parcialidades» locais ou «bandos» rivais. o que pode estar ligado a um crescente interesse das oligarquias castelhanas em estarem presentes nas .

as cidades «dos primeiros bancos» – com destaque para Lisboa. Em finais de Quinhentos. designadamente através da venda da procuração90. Porto. Todavia. enquanto que as demais cidades e vilas com assento em Cortes tinham representantes de muito menor qualidade de nascimento. e tendo em vista superar a representação atomista de que atrás falámos. Desejoso de partir para Castela quanto antes. encarando-os como figuras que. a matéria nem sempre se revelou pacífica. mas também como fonte de rendimento. Tentou-se impor. Esta disparidade repercutia-se no desenrolar das sessões.182 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Cortes. mas também porque acabou por não garantir à Coroa a docilidade da assembleia representativa. pelo «voto consultivo». Filipe I. reduzir a reunião a esse assunto . apenas. depois da entrada de Portugal para a Monarquia Hispânica. proposta que também enfrentou forte resistência91. Por outro lado. que os procuradores votassem não propriamente por cidades. e as autoridades urbanas mostraram-se sempre relutantes em conceder aos seus representantes o «voto decisório». Nas Cortes portuguesas. pois as principais cidades eram frequentemente olhadas com desconfiança por parte das demais. D. mas sim individualmente. Em Castela. é preciso ter em conta que a governança das principais cidades era frequentemente composta por aristocratas e por membros da nobreza de corte. passavam a estar mais ao serviço da Coroa do que da cidade que os enviara. o que significa que uma parte do chamado «terceiro estado» era muito pouco “popular”. Assim. tal proposta levantou problemas não só no terreno das relações com as cidades. o monarca procurava. designadamente através de uma restrição explícita dos poderes dos procuradores. no mesmo sentido. em parte para defender os direitos da cidade que os enviara. os Habsburgo tentaram limitar o âmbito de intervenção das Cortes. a questão do controlo que as cidades exerciam sobre os seus procuradores suscitou bastantes discussões. Com efeito. ficando-se. medida que se inscrevia num esforço mais vasto de reestruturação da administração fiscal. convém recordar que. desse modo. uma vez nas Cortes. a Coroa tentou transferir do voto decisivo para as Cortes. Coimbra e Évora – também costumavam contar com uma representação bastante selecta em termos de estatuto social. de um modo geral. e a título de exemplo. Contudo. «poderes bastantes para jurar o príncipe». trata-se de uma questão que jamais foi debatia com o calor que caracterizou a polémica castelhana92. Quanto ao limite decisório dos procuradores. o direito a participar na assembleia representativa podia ser rentabilizado. na carta de convocatória para as Cortes de 1583. especificou que os procuradores deveriam trazer. Talvez resida aí uma parte da explicação para o facto de algumas cidades manifestarem pouca confiança nos seus representantes.

e no tempo de Filipe II registaram-se 11 reuniões. para além da decisiva reunião de 148295. e vários foram os núcleos urbanos que manifestaram o seu descontentamento por essa «novidade». Em quase todas as petições mesteirais advinha-se um ambiente tenso entre as corporações artesanais e a chamada «gente da governança». os chamados «procuradores dos mesteres». que é muito significativo que o aragonês Fadrique Furió Ceriol. pelo contrário.. esses hiatos contribuíram para o enfraquecimento do potencial político das assembleias representativas. Tais petições versavam. sobre matérias especificamente relacionadas com o quotidiano das corporações mecânicas.. 183 e evitar debates sobre outras matérias. habitualmente. A decisão foi mal acolhida. Algumas cidades com maior tradição mesteiral tinham o direito de enviar às reuniões de Cortes. autor de um dos mais importantes tratados sobre o governo e os conselheiros (El Concejo i consejeros del Príncipe…. os quais também podiam apresentar petições ao rei. deparamos com longos intervalos entre as convocatórias de Cortes. ou «Capítulos de el rey Dom . a expressão do protesto dos mesteres. mas também do facto de.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. caber cada vez mais ao Conselho de Aragão o principal papel representativo e de defesa dos foros reinícolas94. 1599) praticamente não se refira às Cortes. para além dos procuradores do concelho. com grande frequência. Das negociações que tiveram como palco essa reunião resultaram os «Artigos de Lisboa de 1499». Tal silêncio é provavelmente o resultado do número diminuto de reuniões então realizadas. tendo em vista converter as Cortes numa assembleia muito mais ágil e rápida. Nessa ocasião foi dada a oportunidade. As reuniões das Cortes de Portugal no século XVI Apesar do ritmo de convocatórias ter baixado. aos «três estados».. Por último. Segundo Xavier Gil Pujol. corria o ano de 1499. Antuérpia. ao facto de o monarca estar cada vez mais tempo ausente desses reinos. e o mesmo estudioso nota. no reinado de Carlos I. outro momento importante foi a assembleia que se celebrou na cidade de Lisboa. por exemplo. e nelas é possível encontrar. de discutir uma matéria da mais alta transcendência política: a entrada de Portugal para uma união dinástica com Castela e Aragão. naquela altura. com toda a pertinência. Em Aragão e na Catalunha. No que concerne às Cortes de Portugal. antes mais. durante o século XVI as Cortes continuaram a reunir com uma certa assiduidade: em Castela. fenómeno que se deveu. celebraram-se 15 assembleias. uma referência aos chamados «Procuradores dos Mesteres». pelo facto de as principais decisões locais serem tomadas pela Câmara sem que eles tenham sido consultados93. A ASSEMBLEIA DE CORTES.

assistiu-se. ter voltado a estar muito associado à assembleia representativa97.Cortes de Lisboa Um dos dados que ressalta da trajectória das Cortes de Portugal. o cerimonial mais correcto para as diversas solenidades ocorridas no decurso das Cortes98.Cortes de Lisboa 1580 .Cortes de Torres Novas 1535 . o que representou. do papel que cabia aos «três estados» na decisão sobre matérias que tinham a ver com a sucessão na Coroa e com o «bem comum do reino». uma série de garantias acertadas com os «estados» antes do juramento do príncipe D. também. no século XVI. os séculos XVI e XVII legaram-nos vasta documentação que atesta a preocupação dos coetâneos em definir.Cortes de Lisboa 1525 .Cortes de Lisboa 1579 . já que no período de Quatrocentos tinham-se realizado mais de quatro dezenas de reuniões. Um último indicador da importância desta reunião tem a ver com o facto de ela se realizar. Na mesma linha.184 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Manuel». uma quebra em relação ao ritmo anteriormente registado. Miguel. Além disso. o qual já era herdeiro jurado das Coroas de Aragão e Castela96.Cortes de Almeirim 1581 . a partir desta altura qualquer alteração ao cerimonial tendeu a ser encarada como um agravo e como uma ofensa aos direitos de cada um dos participantes no evento. é o facto de o juramento do príncipe herdeiro. em termos quantitativos. Tal evento representou o reconhecimento. Tal opção era motivada por vários factores: antes de mais. da parte dos círculos régios.Cortes de Tomar 1583 . pelos «três estados». a dimensão da cida- . Reuniões das Cortes de Portugal no século XVI 1502 . No século XVI as Cortes de Portugal reuniram 9 vezes. Outro indicador da importância das Cortes é toda a atenção concedida ao seu cerimonial. com minúcia.Cortes de Almeirim 1562 . o que aponta para a já referida maior intensidade da comunicação política entre centro e periferias.Cortes de Évora 1544 . Na verdade. com maior frequência. a um gradual incremento do número de petições – «gerais» e «particulares» – enviadas pelas autoridades urbanas. em Lisboa.

A ASSEMBLEIA DE CORTES. Manuel I não voltaria a chamar a assembleia representativa. em Lisboa (nos Paços do Castelo). João III. em 1502 D. foram impressas. Castilho assevera que D. só podendo ser revogadas em nova reunião da assembleia. De facto. corria o ano de 1535. João III relata que o rei decidiu chamar os «três estados». o facto de Lisboa se assumir cada vez mais. uma vez mais motivadas pelas necessidades financeiras da Coroa. o cronista António de Castilho lembra que por três vezes convocou os «três estados». para o Verão de 1525. inclusive depois da realização das outras Cortes que o mesmo rei convocou para Évora. Manuel I reuniu as Cortes. João como herdeiro da Coroa de Portugal. em 1544. Catarina de Áustria101. . acabando por desempenhar muitas das funções representativas. as Cortes de Torres Novas (1525) reuniram fundamentalmente para tratar de um serviço fiscal a conceder. aproveitando a ocasião para negociar mais um serviço fiscal99. antes de lançar novos impostos. e também para custear a vinda da rainha D. João III –. e o costume mandava que os procuradores lisboetas presidissem às sessões do «terceiro estado». D. consultivas e decisórias que antes cabiam às Cortes. mas não menos importante. tendo uma vez mais em vista solicitar apoio financeiro ao reino. 185 de. Até ao final do seu reinado D. Depois. Frei Luís de Sousa. É também por esta altura que se começa a difundir a ideia de que as leis resultantes de debates realizados nas Cortes tinham uma força especial. As Cortes voltariam a ser chamadas anos mais tarde. João III não voltaria a convocar os representantes dos «três estados». e que voltaria a ser repetido em algumas reuniões subsequentes102. teve sempre o cuidado de fazer «pesar» os tributos pelas Cortes100.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. que a habilitava a receber o grande número de pessoas que participava na reunião. assim como as leis delas resultantes. como «cabeça do reino» – o seu procurador falava em nome dos «três estados» na abertura solene das Cortes. a opção por realizar as Cortes em Lisboa era a forma de o rei demonstrar aos «três estados» que era o reino que ia ter com a Coroa.. pelo reino.. especificamente para o juramento do príncipe D. e não o contrário. devido aos gastos crescentes da sua casa. Quanto ao monarca que se seguiu – D. Depois desta reunião. As petições entregues nesta assembleia. o dispositivo governativo da Coroa foi adquirindo uma maior institucionalização.. E no que respeita ao controle da actuação governativa do monarca e à protecção dos direitos dos vassalos face a decisões da Coroa. esse papel foi sendo desempenhado pelo cada vez mais desenvolvido sistema judicial. O mesmo cronista recorda-nos que só treze anos mais tarde se deu resposta aos muitos pedidos apresentados nessa assembleia. Assim. gesto inédito até essa data. nos seus Anais de D. Paralelamente. Finalmente. à Coroa.

incluindo recomendações sobre temas como o governo geral do reino. Além disso. a 11 de Junho de 1557. Para além disso. antes de falecer. e nessa mesma tarde celebrou-se. assumiu as rédeas do governo a 20 de Janeiro de 1568. Sebastião não atingisse a maioridade. Henrique. Todavia. Não tivesse este reinado conhecido o desfecho trágico que todos conhecemos. declararam que só concederiam um novo serviço fiscal depois de o rei ter respondido às suas petições. João III. os casamentos da família régia. e até ao final do seu reinado jamais convocou as Cortes. foram também entregues numerosos «capítulos particulares». e os procuradores. empenhados em obter a resposta régia a esses pedidos. Sebastião I. para além de terem estabelecido uma série de condições que deveriam ser observadas pelo novo governante do reino105. as Cortes voltavam a ter uma intervenção na mais alta política: a entrega da regência do reino ao Cardeal D. que tinham de reunir o Senado para saber qual seria a vontade do povo. e que tal reunião se celebraria no dia seguinte.186 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Aquando da morte de D. Catarina manobrou para que as Cortes não reunissem para a aclamação do jovem D. e nessa ocasião o secretário de estado Pedro de Alcáçova Carneiro terá afirmado que o rei. porém. durante as quais anunciou a sua disposição de renunciar ao governo. Nesta assembleia foi produzido um significativo conjunto de «capítulos gerais». De acordo com a documentação da época. Depois de longos debates acerca do modo de transmissão do poder. Catarina enquanto D. alegando a sua naturalidade castelhana. e talvez as Cortes de Portugal acabassem então por cair no esquecimento. Quanto a D. Catarina. a reforma dos principais tribunais. Evitava-se. Catarina voltou a reunir as Cortes em 1562104. a pretensão da rainha acabou por ser aceite. a rainha D. Ao tomarem essa decisão. tinha manifestado a intenção de que o governo fosse confiado a D. Catarina terá chamado ao Paço Real alguns dignitários da nobreza e da Igreja103. Nessa reunião estavam também presentes os vereadores da câmara de Lisboa. acrescentando. discutiram mais um serviço de 100 mil cruzados à Coroa. Instados a dar a sua opinião. A rainha D. etc. a reunião na câmara foi mais agitada do que se previa. no Paço da Ribeira. a cerimónia que formalizava a constituição da regência. a convocatória das Cortes num período sempre delicado: a menoridade do rei. assim. os representantes do «terceiro estado» procuravam evitar algo que até aí vinha acontecendo de uma forma mais ou menos sistemática – o atraso da Coroa na resposta aos pedidos entregues nas Cortes106. algo de . Catarina. D. também eles votaram a favor da entrega do governo a D. Sebastião. e alguns dos que nela participaram manifestaram a sua oposição a D. Ao cabo de uma longa discussão. Todavia. de algum modo a representar o conjunto dos poderes urbanos do reino. o modo de organizar a administração central e a casa real. devido à sua crescente marginalização da alta política.

no seu conjunto a crise sucessória de 1578-80 contribuiu para potenciar do papel das Cortes de Portugal. a despeito destas revelações. Miguel.. Para além da mobilização de um complexo argumentário jurídico. António. Prior do Crato – socorreram-se. tanto mais que os teólogos de Salamanca e de Alcalá que tinham sido consultados sobre a . Mafalda Soares da Cunha reconstituiu. lembrando episódios do passado português em que os «três estados». podia «el pueblo eligir Rey»108. Henrique I para Lisboa. e como assinala Mafalda Soares da Cunha. fora aclamado rei. 187 diverso aconteceu: a crise sucessória provocada pela morte prematura do monarca contribuiu para relançar o papel político das Cortes. primeiro rei de Portugal. as Cortes de 1385. Trata-se de uma série de garantias que tinham sido estabelecidas nas Cortes de Lisboa de 1499. entre os finais de 1578 e boa parte de 1579. tal documento reforçava a tese de que as Cortes de Portugal tinham exercitado. com grande clareza. os diversos candidatos em presença – com destaque para Filipe de Habsburgo. João. Porém. em certos momentos da história do reino. D. assinalando que a coexistência de vários regimes sucessórios dificultou a avaliação dos fundamentos jurídicos invocados pelos vários candidatos ao trono português. Catarina de Bragança e D.. tinham intervindo. a disputa suscitada pela crise dinástica. em 1579. Afonso III109. foram recordados alguns precedentes da história portuguesa: o caso de D. os «três estados» – convocados por D. em Portugal. em contextos de crise sucessória. em Outubro de 1578. No essencial. e reunidos entre Abril e Junho de 1579 – nunca se decidiram. de uma forma taxativa. da tese da eleição do rei pelas Cortes. Sancho II fora declarado rex inutilis e substituído pelo seu irmão D. mestre de Avis. a sua faculdade decisória em matérias sucessórias. aquando do juramento do príncipe D. no sentido de levar por diante a eleição. A ASSEMBLEIA DE CORTES. aos «três estados» reunidos em Almeirim foi novamente dada a oportunidade de se pronunciarem sobre uma matéria crucial: a sucessão no trono.. Como dissemos. Afonso Henriques. em Setembro de 1578 Filipe II escreveu a Cristóvão de Moura pedindo-lhe que procurasse na Torre do Tombo papéis que provassem «como y cuándo». nas quais D. Cristóvão de Moura encontrou um documento importante no arquivo da Câmara de Lisboa: os «Artigos de Lisboa de 1499» ou «Capítulos del rey Dom Manuel». Segundo Bouza Álvarez. cada um à sua maneira. o episódio em que o rei D. Assim.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. vários foram os oficiais de Filipe II que estiveram ocupados com a preparação das várias alegações e pareceres jurídicos para sustentar a candidatura do Habsburgo ao trono português. O mesmo Fernando Bouza assinala que. Nesse contexto. Conta Fernando Bouza Álvarez107 que.

o que não impediu que as Cortes continuassem reunidas até 15 de Março. de não existirem candidatos e de a «república» se encontrar em necessidade extrema111. deixando o reino entregue a cinco Governadores. depois de vários dias de agonia. Apesar de se tratar de uma reunião que congregava apenas uma parte dos representantes do terceiro estado e que contava com uma reduzida representação do clero e da nobreza. em finais de 1579 o rei convocou os «três estados» para uma reunião em Almeirim. Filipe de Habsburgo fez a sua entrada em Portugal. outros juristas alegaram que só havia lugar para a intervenção das Cortes em última instância.188 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS matéria haviam declarado que as Cortes não tinham o poder para eleger reis110. mantendo uma acalorada discussão sobre o futuro da Coroa. e terá sido nessa altura que D. António. um gesto que visava transferir para os «três estados» a responsabilidade de uma decisão tão melindrosa. Ao optar por realizar o seu primeiro encontro com os «três estados» portu- . Em meados de Junho estava já em Santarém um número considerável de procuradores. decidiu precipitar os acontecimentos. no caso de o trono estar vago. exercido fora do controle da Coroa. por estar na posse de informações de que os demais pretendentes contavam com muitos apoiantes no seio do «braço do povo». Henrique. falecia a 31 de Janeiro. Na sequência destes eventos. prior do Crato e um dos pretendentes ao trono português. a questão sucessória. Nas sessões que se seguiram os «estados» debateram. a 30 de Abril de 1580 os cinco Governadores voltaram a convocar o «reino» para Santarém. Pela mesma altura. a que alguns deram a denominação de «Cortes» – a 19 de Junho de 1580112. cidade onde se situava a sede da prestigiada Ordem de Cristo. esse evento atemorizou bastante Filipe II e os seus apoiantes. Este acontecimento preocupou Filipe II e terá precipitado a acção militar que culminaria na derrota das forças apoiantes de D. António. D. fundamentalmente. nesta fase. fazendo-se aclamar – numa cerimónia atípica. Já bastante debilitado e muito pressionado pelos vários pretendentes ao trono português. e uma parte dos presentes manifestou-se a favor da capacidade electiva das Cortes – solução que. os acontecimentos precipitaram-se. ou seja. e pouco tempo depois convocou as Cortes para a localidade de Tomar. E num contexto em que era cada vez mais evidente que Filipe de Habsburgo pretendia dar início à intervenção militar sobre Portugal. contando com a comparência do monarca. Filipe de Habsburgo desejava evitar. escolhendo um dos candidatos e colocando de parte os demais113. entretanto. pois foi um exemplo concreto de voluntarismo do «reino». Aqueles que estiveram presentes no evento de Santarém manifestaram a sua vontade. Enquanto decorriam estas indagações. A abertura solene das Cortes realizou-se a 11 de Janeiro de 1580.

de fazer tábua rasa dos foros portugueses e de implementar um novo modelo de governo. Filipe de Habsburgo optou por negociar. o «rei prudente» optou pela via do compromisso. É isso. convocando as Cortes. um articulado onde ficou estabelecido o status de Portugal como reino agregado à Monarquia Hispânica. Como é evidente. o seu espaço jurisdicional. como assinalámos no início. e assy ao Principe Dom Diogo.. as suas instituições. A ASSEMBLEIA DE CORTES. semelhante opção envolveu uma cedência. do estatuto reinícola de Portugal e dos seus correlativos foros.. em terras lusas as Cortes só eram legítimas desde que fossem convocadas pelo rei. de resto. etc. na sequência disso. 189 gueses nesta localidade. pois era para todos evidente que os portugueses – ou pelo menos parte deles – tinham pegado em armas contra Filipe II e.. No entanto. A carta que enviou aos «três estados». A convocatória dos «três estados» surpreendeu alguns observadores coetâneos. Contudo. bem como tirar partido da força simbólica do Convento de Cristo. por Filipe II. local de onde emanava uma intensa memória do passado português. mas sim como mais um reino a agregar àqueles que já faziam parte dos seus domínios115. e me fazerem preito e menagem de vassalagem.116 Quanto à manutenção da assembleia representativa portuguesa. Tal significava que o monarca Habsburgo tivera a oportunidade de aplicar a Portugal o direito de conquista e de fazer tábua rasa dos privilégios reinícolas da Coroa portuguesa. a saber: o reconhecimento.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. uma vez que. Filipe de Habsburgo dava a indicação aos seus novos vassalos portugueses de que não pretendia tratar Portugal como uma simples conquista. tratar ni determinar cosa alguna que toque a los dichos Reynos»117. as suas leis. Para além disso. o artigo 2. haviam sido derrotados. meu sobre todo muito amado e muito prezado filho primogenito. especificava o motivo da convocatória: «Pera me jurarem por verdadeiro Rey e senhor destes Reynos e senhorios delles. pela nego- .»114.º do «Estatuto» era muito claro: «Que quando ubieren de hazer Cortes tocantes a estos Reynos sean dentro de Portogal y que en otras qualesquier que ouieren fuera dellas no se pueda proponer. como a meu verdadeiro e legitimo suçessor. a sua língua. fidelidade e obediencia em forma de direito. como o suo. ao invés de seguir por esse caminho.. Através desse gesto Filipe II procurou atingir dois objectivos: pretendeu mostrar que actuava já como rei de Portugal. ao optar por chamar os «três estados». o que está consagrado no «Estatuto de Tomar» de 1581. datada de Janeiro de 1581.. em termos que permitiram aos lusos preservar a sua dignidade reinícola. pela solução pactuada. A resistência antoniana dera a Filipe II a oportunidade de aplicar o direito de conquista a Portugal. Filipe de Habsburgo procurava transmitir um sinal de continuidade face à dinastia cessante. os seus costumes.

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ciação e pela cedência de contrapartidas aos seus novos vassalos portugueses. Todavia, é importante frisar que Filipe II, ao mesmo tempo que apostou numa solução de continuidade, quis deixar bem claro que o «Estatuto de Tomar» era algo que decorria da «graça real», e não de uma obrigação régia de respeitar os foros portugueses. Como assinalou Fernando Bouza, Filipe II procurou apresentar o “seu” Portugal como a continuação do «modo y manera» que D. Manuel havia idealizado para o seu filho D. Miguel, embora frisando que tal correspondia a uma decisão sua, e não ao eminente direito ou vontade dos portugueses118. No que respeita ao lugar constitucional das Cortes, como vimos a crise sucessória acabou por ser algo ambivalente. Por um lado, ao convocar as Cortes para sancionar a sua entrada em Portugal, Filipe II de alguma maneira concedeu a essa assembleia um protagonismo que ela tinha perdido durante o governo de D. Sebastião I. Esse relançamento das Cortes, associado às atribulações dos anos de 1579 e 1580, poderia até ter dado o mote para um movimento que visasse reequacionar o papel constitucional da assembleia, por exemplo consagrando a sua capacidade para vigiar, de forma permanente, a actuação do rei no que concerne ao respeito pelo estatuto reinícola de Portugal. Todavia, não foi isso o que aconteceu. Na verdade, ao mesmo tempo que concedeu esse protagonismo aos «três estados», Filipe de Habsburgo frisou que a intervenção das Cortes em matérias tão transcendentes como a sucessão no trono ou o estatuto de Portugal no seio da Monarquia Hispânica era limitada e circunscrita àquela ocasião excepcional. Aliás, convém não esquecer que as Cortes de Tomar foram, essencialmente, um evento cerimonial, uma vez que o fundamental da negociação se realizou previamente. Além disso, pouco depois de efectuado o juramento, Filipe II manifestou pouco empenho em que as reuniões de trabalho prosseguissem, revelando mais preocupação por seguir para Lisboa, onde, já na qualidade de soberano jurado pelos «três estados» portugueses, iria ser recebido com grande solenidade119. Além disso, importa ter presente que o monarca, até ao final do seu reinado, só por uma ocasião voltou a convocar as Cortes de Portugal, e fê-lo numa altura em que se preparava para deixar as terras lusas. Trata-se da reunião de 1583, especificamente pensada para que os portugueses jurassem o príncipe D. Filipe como novo herdeiro, e que teve como principal particularidade o facto de os procuradores terem sido chamados única e exclusivamente para jurar o príncipe. O rei tencionava partir, quanto antes, para Castela, razão pela qual desejava umas Cortes rápidas. Por isso, e como recordaria, anos mais tarde, o conde de Salinas, as cartas de convocatória para a cerimónia de 1583 incluíam a seguinte indicação:

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«Embiaréis vuestros procuradores con poder bastante para que juren al Príncipe Don Phelipe, mi hijo mayor, por Rey y Señor destos Reinos después de mis dias»120 – ou seja, a carta de convocatória circunscrevia o âmbito das matérias a debater na assembleia, um gesto pouco comum na tradição das Cortes de Portugal121. Depois desta reunião, Filipe II partiu para Castela e não voltou a visitar Portugal até ao final do seu reinado. Como consequência, até 1598 as Cortes portuguesas não voltaram a reunir. Ainda assim, cada vez que o monarca católico tomou a iniciativa de introduzir um novo imposto ou de repor uma taxa que tinha sido levantada – caso dos portos secos, abolidos em 1581 mas repostos em 1592 –, os descontentes fizeram-se ouvir, apresentando as Cortes como a instância competente para decidir sobre essa matéria122. Convém notar que estas e outras queixas similares continuaram a ser escutadas nas décadas subsequentes. Mais do que a expressão de um confronto “nacional”, eram, antes de mais, a reacção de uma sensibilidade política eminentemente jurisdicionalista, a qual não escondia a sua repugnância por modalidades decisórias mais voluntaristas e que não passavam pelos canais costumeiros.

As Cortes nos finais do século XVI e na primeira metade do século XVII
A partir de finais do século XVI os monarcas hispânicos cada vez menos se ausentaram de Castela. Em parte por causa disso, o número de reuniões das Cortes castelhanas aumentou, realizando-se aproximadamente de três em três anos: Filipe III convocou as Cortes por 6 vezes; quanto a Filipe IV, reuniu a assembleia representativa por 8 ocasiões. Importa frisar que quase todas as reuniões então efectuadas incidiram sobre a problemática fiscal. Viviam-se tempos em que as dificuldades financeiras da Coroa eram cada vez maiores, facto que levou o rei a optar por abandonar a fiscalidade directa-pessoal, adoptando, como substituição, a fiscalidade indirecta, através de impostos sobre o consumo. Assim, em Castela os servicios estagnaram, ao mesmo tempo que se dava um crescimento significativo das alcavalas e dos millones123. Tal opção fez com que as Cortes de Castela se tornassem num dos principais espaços de negociação da política fiscal. Como sugerimos atrás, a partir de meados do século XVI a Coroa tirou partido das reuniões de Cortes para incutir, nos representantes dos «três estados», novos sentimentos de pertença. Aproveitando a circunstância de estarem presentes representantes de todas as partes do corpo político, os oficiais régios lembraram que o facto de pertencerem à entidade política «reino» comportava obrigações e até mesmo sacrifícios – como por exem-

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plo o pagamento de impostos, o recrutamento militar, o apoio logístico às forças militares, etc. – que deveriam ser aceites sem qualquer questionamento. A estes apelos os representantes deram uma resposta plural. No que toca ao desempenho dos procuradores no decurso das reuniões, J. I. Fortea Pérez sublinha que, no quadro das Cortes de Castela, é evidente um forte contraste entre, por um lado, a perspectiva mais geral, à escala do reino, patenteada pelos oficiais régios e, por outro, a visão localista dos procuradores. Aliás, o facto de os custos inerentes à participação nas Cortes terem sido sempre suportados pelas finanças locais contribuía, certamente, para manter este apego dos procuradores às suas questões «particulares». Segundo J. I. Fortea Pérez124, esta distinção jamais foi superada, tendendo até a acentuar-se a partir do momento em que a Coroa procurou elevar o estatuto das Cortes de Castela e convertê-las num órgão superior (e autónomo) face às cidades. Tal sucedeu no final do século XVI, e nessa ocasião as cidades esforçaram-se por impedir que essa proposta régia fosse posta em prática. Terá sido precisamente neste contexto que se tornou mais visível a ambiguidade no modo como eram entendidas as relações entre o rei e o reino, e o papel que cabia às Cortes desempenhar. Para alguns o reino era contemplado como uma comunidade integrada, superior e distinta da soma das suas partes. Nesse âmbito, as Cortes eram vistas como o órgão de representação institucional, e a prioridade seria concentrar processos de tomada de decisão e homogeneizar procedimentos, através de uma assembleia única. Para outros, pelo contrário, o reino era visto como um agregado de comunidades autónomas, sendo as Cortes tidas como uma mera junta de cidades. Neste quadro as atribuições das cidades saíam claramente fortalecidas, uma vez que previa o controle, pelos poderes urbanos, das principais funções administrativas. De acordo com Fortea Pérez125, a Coroa castelhana, a fim de evitar o poderio das cidades e a sua estratégia de bloqueio da política fiscal, procurou potenciar as Cortes e colocá-las numa posição intermédia entre o rei e as cidades, mas em qualquer caso acima destas últimas. O objectivo era autonomizar as Cortes e libertá-las da obrigação de conferirem com as cidades cada uma das decisões que era necessário tomar. Paralelamente, os ministros régios actuaram no sentido de captar o favor dos procuradores e de dificultar a comunicação destes com as cidades de onde eram oriundos. No fundo, aquilo que interessava à Coroa era que os procuradores (e as Cortes) falassem em nome do conjunto do reino, e não como meros representantes dos seus lugares de procedência. Segundo A. M. Hespanha, foi esse o momento em que se começou a adquirir a ideia de que o reino era algo de diferente do conjunto das partes, caminhando-se para a representação do conjunto do corpo político por apenas alguns126.

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O debate em torno desta questão conheceu o seu auge nos últimos anos do século XVI e na primeira metade de Seiscentos, altura em que a Coroa – e alguns procuradores – tentaram instaurar uma maior distância entre as Cortes e as cidades. Porém, e como seria de prever, as urbes moveram uma tenaz resistência a estas medidas. De qualquer modo, o resultado esperado não se concretizou, pois apesar de mais potenciadas e independentes face às cidades, as Cortes de Filipe III e de Filipe IV revelaram-se morosas e difíceis de gerir por parte dos ministros da Coroa. Além disso, a transferência do «voto decisivo» das cidades para as Cortes, em 1632, não livrou a Coroa de negociações muito árduas com os procuradores127. Acresce que algumas urbes castelhanas encetaram processos de negociação em paralelo às Cortes. Na verdade, várias cidades preferiram negociar directamente com a Coroa em vez de o fazerem na assembleia representativa, pois, por essa via, alcançavam acordos bilaterais, evitando desse modo os pactos estabelecidos entre a Coroa e a maioria das cidades. Outro fenómeno que importa destacar é o facto de, em pleno período de Seiscentos, os aristocratas voltarem a manifestar um certo interesse pelas Cortes. Os nobres, em especial os de ascensão mais recente, verificaram que a assembleia podia ser usada como uma forma de captar oportunidades de serviço ao rei, assim como para consolidar a sua influência na corte régia. Dignitários poderosos como o duque de Lerma, o condeduque de Olivares ou D. Luis de Haro, por exemplo, tiveram lugares nas Cortes enquanto representantes de cidades. Contudo, este regresso dos aristocratas voltou a gerar tensões, pois determinadas cidades eram hostis a membros da nobreza que desempenhavam a função de procuradores128. Algo de semelhante se passava nas Cortes portuguesas, onde, como dissemos, foi sempre notória uma clivagem entre, por um lado, as cidades do primeiro banco, representadas em geral por membros da nobreza de corte que detinham um fácil acesso ao rei ou aos seus principais ministros, e, por outro, as restantes cidades. Com o acentuar da centralidade de Castela no quadro da Monarquia Hispânica, a corte régia permaneceu nesse reino por períodos cada vez mais longos, e os castelhanos assumiram, nessa fase, o papel de liderança dos territórios dos Habsburgo espanhóis129. Foi de Castela que partiram algumas das principais iniciativas de reforma, as quais visaram, fundamentalmente, inverter a tendência recessiva das décadas anteriores. O monarca hispânico efectuou muito menos visitas aos seus reinos, o que, consequentemente, levou à realização de um menor número de reuniões das Cortes de Aragão, de Portugal e da Catalunha, para já não falar das assembleias representativas dos reinos italianos que estavam na órbita dos Habsburgo.

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Como não podia deixar de ser, a dinâmica reformista que se viveu sob Filipe III e Filipe IV influenciou as relações entre o centro da Monarquia Hispânica e os demais reinos que integravam os domínios dos Habsburgo. Vários interesses estabelecidos foram afectados pelo voluntarismo político dos ministros régios, e os sinais de descontentamento não tardaram em surgir. No conjunto dos seus trabalhos, John H. Elliott demonstrou que, no quadro da cultura política do Antigo Regime, quando as pessoas se sentiam ameaçadas a típica atitude de defesa era o refúgio atrás de barreiras protectoras como os seus costumes, as suas leis, as suas instituições e as suas tradições. É precisamente nesse contexto que, em Aragão, em Portugal, na Catalunha e também nos territórios italianos da Monarquia, se procede a uma revalorização das Cortes enquanto símbolo dos foros reinícolas. Com efeito, no contexto da ofensiva fiscal da primeira metade de Seiscentos, as Cortes dos vice-reinados simbolizaram o estatuto reinícola e a defesa dos direitos dos vassalos contra os cada vez mais insistentes pedidos do rei para que aumentassem a sua contribuição fiscal. Por outras palavras, a maior agressividade da política fiscal da monarquia concorreu para que as Cortes – tanto as de Castela como as dos demais territórios da Monarquia – voltassem a estar no centro do debate político. Os portugueses também sentiram a nova dinâmica integradora das primeiras décadas de Seiscentos, e à semelhança do que se passou em outras partes da Península, os lusos também se voltaram para a assembleia de Cortes, encarando-a como o principal símbolo do estatuto reinícola de Portugal130. Aos apelos chegados da corte régia para que fossem mais solidários com a Monarquia, respondiam os lusos com o argumento de que Filipe III, enquanto rei, ainda não havia jurado os foros portugueses, e que as iniciativas fiscais que se anunciavam teriam necessariamente de passar pela aprovação das Cortes de Portugal, alegando que tal correspondia ao costume seguido no reino desde os tempos mais ancestrais. Quanto a Filipe III, rei mais voluntarista do que é costume pensar, deu a entender que só viajaria até Portugal para reunir as Cortes desde que os portugueses chegassem a acordo quanto ao montante da sua contribuição fiscal para a Monarquia131. A invocação das Cortes como argumento de resistência dos lusos contra as solicitações fiscais da Coroa dos Habsburgo tornou-se de tal modo insistente que, em Janeiro de 1613, D. Diego de Silva y Mendoza, conde de Salinas e figura proeminente no Conselho de Portugal132, apresentou ao rei um «memorial» sobre «las prerrogativas de la Corona y de las Cortes de Portugal». Trata-se de um parecer que se inscreve nos debates sobre a ida de Filipe III a Portugal para reunir as Cortes, e nele se discute não só

No seu interessantíssimo «memorial» Salinas critica também o desejo de protagonismo manifestado pela Câmara de Lisboa. na previsão de uma estadia mais ou menos próxima do rei em terras portuguesas. durante esse período de indefinição. representava os portugueses e a sua condição reinícola – ter sido temporariamente suspenso e substituído por uma junta restrita. em especial o facto de esta instituição ter insinuado que poderia jurar o príncipe Filipe (futuro Filipe IV) em sua ausência. Para provar esta última afirmação. y mandando que no se trate de otros». cuya soberanía en la Corona de Portugal es tan grande. y con poderes bastantes suyos»133. ni conuiene que las hagan. Perante essa situação. Devido à sua importância para o tema que estamos a analisar. quando as Cortes são legitimamente convocadas. Salinas critica o Senado de Lisboa. tivessem voltado a activar o Conselho de Portugal. equivalia a uma despromoção do reino no quadro da Monarquia Hispânica. Foi neste ambiente que D.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. ni que por ningún camino tengan el nombre de Reino. ou seja. A viagem esteve mesmo para ter lugar no início da segunda década do século XVII. este documento é merecedor de uma análise detalhada. sin preceder convocación y voluntad expresa de S. o rei não deveria ter qualquer dúvida de que havia sido jurado enquanto príncipe. e que. o Conselho de Portugal – o órgão que. mas sobretudo até que ponto era o monarca obrigado a fazer essa jornada. o monarca e os seus ministros hesitaram quanto à oportunidade da jornada. lacuna que. alguns portugueses manifestaram o seu descontentamento pelo facto de Portugal não contar com um conselho próprio junto do rei. uma vez que o juramento de 1583 continuava perfeitamente válido. também.. sem que. ao ponto de. Salinas recorda a convocatória de 1583. a prolongar-se. Salinas começa por afirmar que só se pode falar em «Reino». Filipe. Contudo. M. No seu parecer. por isso mesmo. por causa desse precedente histórico. a pretexto da vinda de Filipe III. ni las pueden hazer. Salinas sustenta que. A ASSEMBLEIA DE CORTES. futuro Filipe III. Para Salinas. 195 a conveniência da viagem. em Portugal. quando é o rei quem convoca a assembleia. particulariçando los cassos para que comboca. «todas las otras juntas que los pueblos hicieren. na corte. o que – segundo o conde de Salinas – transcendia em . porque é a pessoa régia quem confere poder a «todas las personas que tienen voto en ellas.. não carecia de se deslocar a Portugal para ser jurado pelas Cortes deste reino. no se llaman Reino de Portugal.. que puede convocar generalmente. quando Filipe II ordenara que se desse aos procuradores única e exclusivamente o poder para jurar o príncipe D. Diego de Silva y Mendoza produziu o seu parecer sobre as Cortes de Portugal. por esta instituição se ter apresentado como uma entidade que falava em nome do «Reino». no início do seu reinado..

con ocasión del juramento. em 1580. fora um gesto resultante da vontade régia e. afirma Salinas que «los Reinos que toman armas contra sus Reys pierden. i congregado. fê-lo não propriamente porque sobre ele pesava a obrigação de respeitar os foros portugueses. Com base nestes dados. sendo também mediante essa cerimónia que o reino conseguia que os seus privilégios fossem jurados pelo monarca. aya quien le congregue. Ou seja. y para el Reino. sin convocación del Rey para eligir a Don Antonio. não estava previsto no juramento que Filipe II efectuara em Tomar. donde se prosupone que el heredero es Rey. y quando se les restituyen. que. nalguns reinos a «utilidade» do juramento era recíproca. de motu proprio. António e a assembleia que se reuniu. i que sólo le tenga el que fuere ligitimamente congregado por su Rey en Cortes?»135. son solos los que la restitución y gracia declara». sem convocatória régia. Salinas relembra o caso de D. por ser através dele que o rei via a sua situação legitimada. De seguida. a principal preocupação de D. no que concerne a Portugal Salinas era da opinião de que a questão se colocava de uma maneira completamente diferente: «en Portugal. Salinas recorda que o privilégio de a população poder juntar-se com o nome de «Reino». ao reunir as Cortes e ao contemporizar com os portugueses. pues para el heredero es cirimonia el juramento. Todavia. no quadro da crise sucessória. voluntariamente e sem o prévio consentimento do monarca. logo. preueniendo de paso otros semejantes. sobre matérias tão transcendentais como a sucessão na Coroa. corria o ano de 1581.196 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS muito a jurisdição da dita câmara134. A esse respeito. acrescentando que a reunião de Cortes sem que a convocatória procedesse da vontade régia poderia ser equiparada a um gesto de rebelião. sus priuilegios. uma postura mais afirmativa do rei. revogável em qualquer momento que o monarca assim o decidisse136. sustancia. No fundo. defendendo. sem que tivesse sido chamada por um rei legítimo – «Porque si el delito fué juntarse el Reino. em vez disso. Salinas afirma que Portugal não era uma dessas «coronas en que el Reyno se puede congregar por propia autoridad y sin mandato real. sin que preceda juramento. Diego de Silva. mas sim por «graça real».. desde aquel punto. más justa i más bien considerada que la que prohibe que semejantes juntas no pueden tener nombre de Reino. efectua uma análise muito sugestiva das implicações do juramento efectuado em Cortes. qué pena se pudo proporcionar a este delito.. viene a ser el juramento en mayor utilidad del Reyno que del Rey. Salinas manifesta a sua veemente oposição à ida do monarca hispânico a Portugal naquele momento tão delicado. declara que Filipe II.». Prosseguindo na sua digressão pelos acontecimentos de 1581. Em face desta questão. le haga . Diego da Silva era negar a Lisboa a legitimidade de. assumir o título de «Reino em Cortes» e tomar decisões. De acordo com D.

o que inviabilizou o debate sobre outras questões governativas. nos anos que se seguiram. acrescentando que. Jean-Frédéric Schaub chamou recentemente a atenção para a importância do Memorial de la preferencia. que haze el Reyno de Portugal. a propósito. em vez disso. As Cortes não só não foram convocadas como. para um dignitário chegar a rei não bastava ser herdeiro. Salinas sustenta que bastava a condição de herdeiro para se ser rei. y su Consejo. A despeito destas observações. durante a qual os ministros régios tiveram de escutar uma série de queixas acerca da violação de algumas das condições do «Estatuto de Tomar»138. arbítrios e memoriais difundidos a partir de finais da década de 1620. nessa ocasião. Para Salinas. do que estava a suceder em outros pontos da P. nestas duas últimas condições. a resposta a muitas das petições que foram entregues nas Cortes139. Tais apelos não parecem ter comovido o conde duque de Olivares e os seus ministros. No reinado que se seguiu. Ibérica140. tornando-se também necessário ser jurado e ungido. aliás. Talvez para evitar essas críticas. o caso de França e o facto de os seus reis serem ungidos e jurados. o monarca se juntou com os «três estados» portugueses. Na década de 1630.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. razão pela qual os monarcas não estavam tão limitados como em França pela vontade dos seus vassalos.. os pretendentes dependiam dos vassalos. numa reunião praticamente reduzida à cerimónia do juramento do príncipe herdeiro e a uma rápida negociação sobre matérias fiscais. Anos mais tarde. Filipe IV e Olivares lançaram várias iniciativas fiscais sem consultarem as Cortes de Portugal. mas apenas em 1619. 197 parte para que pueda pedir al Rey que le jure sus preuilegios»137. a qual viu nesse gesto um sinal do mau governo dos Habsburgo em Portugal. al de . A ASSEMBLEIA DE CORTES. cada vez que surgiam planos de introdução de novos tributos. Foi a única vez que. a falta de resposta às petições de 1619 será relembrada pela publicística apoiante do duque de Bragança. o monarca apressou-se a abandonar Portugal. plasmado em propostas. também. nesse reino. impedindo. apoiando-se. Recorda. Filipe III acabou mesmo por viajar até Portugal. como é bem sabido. convocando. Como seria de prever. as Cortes. bem pelo contrário.. no seu reinado. em expedientes representativos mais ágeis – na linha. as instituições lusas (à semelhança do que se passava noutras partes da Península. incluindo Castela) lembravam que em Portugal existia o costume imemorial de os novos impostos não serem introduzidos sem o consentimento dos povos reunidos em Cortes. Em Portugal. floresceu um discurso de desvalorização da assembleia dos «três estados».. pelo contrário. esse contexto de crescente voluntarismo régio reforçou um processo que já se vinha fazendo sentir: a identificação entre as Cortes de Portugal e a condição reinícola de Portugal.

sem necessidade das Cortes. o rei de Portugal podia revogar leis de Cortes sem reunir os «três estados». para além de ter funcionado como elemento galvanizador para todos aqueles que foram atingidos pelas iniciativas de Olivares142. para alguns. as «actas» da assembleia de Lamego alegadamente provavam que. a maior liberdade de manobra do monarca constituía um factor de preeminência para o reino. o que foi interpretado como um indício seguro de que estava em curso um processo de despromoção do estatuto reinícola de Portugal. y de las dos Sicilias (Lisboa. encarando-as como um tribunal ad hoc. factor que conferia mais dignidade a Portugal no quadro da sua “competição” com os demais reinos que integravam a Monarquia Hispânica141.. os «três estados» tinham o direito a pronunciar-se sobre matérias governativas. 1627). pois fazia corpo imediatamente com a Coroa. assim como a oportuna revelação das «actas» das Cortes de Lamego. Contrariando de uma forma flagrante o estabelecido pelo «Estatuto de Tomar». da autoria de João Salgado de Araújo. um documento – apócrifo – que. Atribuídas ao período fundacional do reino. Para além do citado tratado de Barbosa de Luna.. Durante o valimento de Olivares sucederam-se os escritos – boa parte deles assinados por portugueses – onde se expressava uma opinião desfavorável sobre as Cortes lusitanas e acerca do seu papel no sistema político. Pouco tempo depois. Salgado de Araújo defende a legitimidade dessas juntas. Assim se compreende os apelos à reunião de Cortes escutados durante a década de 1630. o mesmo Salgado de Araújo volta a defender as juntas. um impresso da autoria de Pedro Barbosa de Luna e que surge no contexto da disputa de precedência entre a Coroa de Aragão e a Coroa de Portugal. Este exemplo demonstra que. Barbosa de Luna afirma que em terras lusas o rei era «mais absoluto». como um aperfeiçoamento pontual da administração da Coroa. sustentando também que a Coroa lusa era mais «absoluta» do que a aragonesa.. Como não podia deixar de ser. em Madrid.. ao contrário do que se passava em Aragão. Juan Delgado. 1627). onde se discute até que ponto era legítimo organizar. os negócios de Portugal. entre outras coisas. desde as origens de Portugal como unidade política independente. de forma célere. Não tardou a correr o rumor de que se planeava a supressão das Cortes. Entre os muitos argumentos esgrimidos nesta obra há um que se relaciona directamente com a «assembleia dos três estados»: para provar a preeminência de Portugal. juntas ad hoc para despachar. . (Madrd. proporcionava o aval histórico ao protagonismo político que muitos desejavam atribuir à «assembleia dos três estados». Geraldo de Vinha. um outro bom exemplo do que acabámos de afirmar é um breve manuscrito de meados da década de 1620. estes escritos tiveram algum impacto em Portugal.198 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Aragon. Para o autor do Memorial.. na obra Ley Regia de Portugal.

a junta realizada em Madrid acabou por não surtir o efeito desejado. Quanto à linha de actuação do valido de Filipe IV. A ASSEMBLEIA DE CORTES. para além do seu carácter ancestral. os principais responsáveis pela agitação social que se registou ao longo de toda a década de 1630. embora tivesse também a finalidade de encontrar uma forma de atenuar o descontentamento vivido em Portugal. A reunião visava encontrar uma solução para a substituição da duquesa de Mântua. em matérias de governo o valido concentrou a faculdade decisória no seu círculo de confiança. O valido de Filipe IV pretendia substituir esse conselho por um organismo con- . Para além de constituir um instrumento de defesa da condição reinícola do reino português. e que atingiu o seu ponto culminante no ano de 1637143. Importa não esquecer que a «assembleia dos três estados». uma espécie de reunião restrita das Cortes de Portugal. Convém não esquecer que se vivia uma conjuntura em que era cada vez mais forte a presença de Olivares e da sua clientela.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. para Madrid. Como se não bastasse.. como uma instância cuja actuação se inspirava no modelo judicial de gestão administrativa.. delegando a aplicação das decisões num conjunto de oficiais régios de carácter comissarial e revestido de uma considerável margem de poder. Todavia. como forma de resistência ao regime decisório eminentemente executivo instaurado pelo valido de Filipe IV. afectando grupos – e respectivos privilégios – que até esse momento tinham sido poupados. 199 Todavia. com essa lógica de actuação. e muitos daqueles que lutaram contra o seu estilo de governo – por se afastar do tradicional e muito mais consensual paradigma jurisdicionalista – usaram as Cortes como o símbolo da maneira consuetudinária de governar em Portugal. também. em muitos aspectos. o conde duque de Olivares decidiu convocar. Além disso. já que muitos viram na decisão de Olivares de consultar os notáveis do reino fora de Portugal a confirmação de que o valido estava mesmo apostado na revogação do «Estatuto de Tomar» e na despromoção de Portugal. e na sequência das perturbações ocorridas no ano antecedente. para além de se ter recusado a reunir Cortes. precisamente. implementou uma fiscalidade particularmente extensiva. é importante ter em conta que o apelo à convocatória dos «três estados» podia servir vários propósitos. podia funcionar.. A pressão fiscal do período de Olivares amplificou o ressentimento contra a sua pessoa e a sua clientela. se auto-representava como um tribunal. Em meados de 1638. com a consequente subalternização dos nobres e dos letrados até aí preponderantes. Terão sido estes. rompia. pouco tempo depois Olivares decidiu levar a cabo uma medida ainda mais drástica: a dissolução do Conselho de Portugal. Recorde-se que o conde-duque. órgão que se assumira como um dos principais obstáculos à sua política fiscal em terras lusas.

Todavia. J. Voltando aos papéis sobre Portugal em circulação na corte régia no final da década de 1630. uma Junta General ou um Consejo Supremo. Convém lembrar. também se propôs a criação de uma grande assembleia de toda a Espanha. Como facilmente se imagina. Entre os vários escritos que então circularam. a este respeito. Vasconcelos vai mais longe. Schaub destaca as sugestões que foram avançadas por Agostinho Manuel de Vasconcelos. Como J.-F. chegando mesmo a propor a celebração de uma reunião de Cortes comum às duas Coroas – Castela e Portugal – em Madrid. Pretendia Olivares que as Cortes deixassem de ser símbolos do particularismo reinícola. por Fernando Bouza148. esperava-se conseguir fomentar um mais intenso sentimento de pertença entre as várias partes que compunham a Monarquia.200 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS junto luso-castelhano e estreitamente controlado pela Coroa. de motu proprio. as decisões tomadas pelas Cortes. e que se convertessem em órgãos fomentadores de sentimentos de pertença ao conjunto da Ibéria. Sobre as Cortes de Portugal. outro caso a reter são. No «Discurso juridico-politico sobre el derecho que el Rey nuestro señor tiene en el reino de Portugal y union de su gobierno a la . nos anos de 1638 e 1639 Olivares recebeu numerosas propostas – muitos delas da autoria de portugueses – que apontavam no sentido da reconfiguração do estatuto de Portugal no quadro da Monarquia Hispânica. Convém assinalar que esta não foi a única proposta de criação institucional onde os limites jurisdicionais entre Portugal e a restante Monarquia Hispânica surgiam algo esbatidos.-F. ou então a convocação de uma vasta junta de personalidades portuguesas a realizar na corte régia146. Schaub bem reconheceu. escreve Agostinho Manuel algumas palavras que vão claramente no sentido da desvalorização dessa assembleia: «es de advertir que la precision que los principes comunmente platican en las promesas que hacen en Cortes nunca es tan exacta ni tan indispensable que sobreviniendo en la ejecuccion inconvenientes no queden con libertad de emendar-las interpretar-las i aun derogar-las porque parece que siempre llevan la tacita condicion de que las cumplira no obstando al bien publico del imperio»145. Contudo. esta decisão foi tudo menos pacífica. sobretudo. uma espécie de États Généraux de França. sem dúvida. nenhuma dessas propostas foi avante147. Xavier Gil Pujol recorda que. os escritos do português Diogo Manuel de Orta. o que estava basicamente em jogo era afirmar que o monarca tinha o poder de alterar. Dessa forma. no contexto das grandes dificuldades financeiras de 1599. que a proposta de convocatória de uma assembleia geral dos reinos da Península Ibérica não apareceu apenas em arbítrios que tinham a ver com matérias portuguesas. Como assinalou Jean-Frédéric Schaub144. estudados.

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Real Corona de Castilla»149, o argumento principal de Orta é que o contrato feito nas Cortes de Tomar, em 1581, não tinha qualquer validade, dado que o rei já era senhor do reino antes das Cortes. A acreditar em Orta, Portugal era um reino herdado, e a natureza separada do reino português desaparecia com a herança castelhana, o que levava o autor do «Discurso juridico-politico» a afirmar que as leis castelhanas podiam ser impostas em Portugal. Numa digressão pelo passado recente da Monarquia, Diogo Manuel de Orta aproveita para criticar Filipe II pelas concessões que havia feito e por ter sido demasiado contemporizador para com os lusos, os quais, convinha não esquecer, tinham resistido militarmente contra a entrada na Monarquia Hispânica. Além disso, lembra que os levantamentos de 1637 tinham de ser interpretados como uma revolta, devendo ser retiradas todas as consequências desse facto, ou seja, tais acontecimentos significavam a quebra unilateral do pacto entre os dois reinos, ficando Filipe IV livre de qualquer obrigação de respeitar os foros portugueses150. Como notou J.-F. Schaub, o que estava subjacente a este texto era a redução de Portugal à jurisdição da Coroa de Castela, ou seja, o desaparecimento da Coroa portuguesa enquanto entidade juridicamente separada da restante Monarquia Hispânica151. É importante não perder de vista que as iniciativas de Lerma e de Olivares têm lugar numa época em que, em termos da cultura política dominante, ainda não era socialmente aceitável a ideia de uma gestão governativa puramente executiva, tal como não era nada pacífica a actuação governativa que não estivesse confinada aos moldes da iurisdictio152. Assim, em Portugal, tal como noutras partes da Monarquia (incluindo Castela), boa parte dos apelos para que as Cortes fossem convocadas, no quadro da resistência a Lerma ou a Olivares, foram o resultado da repugnância pelas práticas governativas extra-judiciais e de sentido eminentemente executivo, e não propriamente o simples e espontâneo produto de factores nacionais. Muitos letrados demonstraram-se agravados com este estilo de governo, pois sentiam que os novos ministros favorecidos pelo valimento estavam a atropelar tanto a sua hierarquia profissional quanto o seu cursus honorum. Um número não negligenciável de disputas foi pois motivado por magistrados ciosos do seu ofício, os quais, dando corpo ao seu sentido de estrito cumprimento da jurisdição, reagiam contra intromissões jurisdicionais, independentemente da nacionalidade daquele que levava a cabo essa acção. Quanto à aristocracia, nestes anos também ela clamou a favor das Cortes, não só por ter sido relegada para segundo plano pela clientela do valido, mas também porque, do seu ponto de vista, a privança introduzia um grave desequilíbrio na «justiça distributiva»153. Um dado parece certo:

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o acumular desses episódios de tensão fez com que, aos poucos, a ideia do pacto rei-comunidade deixasse de ser um assunto abstracto e só discutido por teólogos ou por juristas, para se tornar num tema de debate quotidiano, perdendo muita da sua conotação metafísica e adquirindo uma feição histórica cada vez mais nítida154. Foi assim que, aos poucos, ficou criado o ambiente propício para o deflagrar de uma ruptura política de grande alcance.

As Cortes em Portugal sob a dinastia de Bragança
Poucos dias depois da revolta de 1 de Dezembro de 1640, os apoiantes de D. João, duque de Bragança, decidiram convocar os «três estados». À semelhança do que acontecera noutras ocasiões, a assembleia representativa foi nessa conjuntura encarada como uma instância que poderia dar alguma legitimidade ao movimento português de secessão da Monarquia Hispânica. Assim, em Janeiro de 1641 as Cortes reuniram em Lisboa, juntando uma pequena parte do «estado da nobreza» e do clero, bem como um número significativo de procuradores em representação das cidades e das vilas do reino. A assembleia decorreu sem grandes sobressaltos, acabando por sancionar a escolha que já havia sido feita a 8 de Dezembro – o duque de Bragança foi aclamado rei D. João IV pelos «três estados», e o seu filho D. Teodósio foi jurado príncipe herdeiro. Numa altura em que o apoio à causa brigantina era incerta, recorria-se assim ao juramento como mais uma forma de vinculação, numa época em que o comprometimento moral, devido às suas implicações religiosas, tinha muito mais força obrigante do que os pactos, os contratos ou a lei positiva. A assembleia de 1641 foi um acontecimento ímpar na história portuguesa, pois representou o momentâneo potenciar da capacidade política das Cortes. De facto, nesses breves momentos reconheceu-se às Cortes uma série de atribuições: antes de mais, a capacidade para avaliar a governação do rei D. Filipe III. Por outras palavras, as Cortes comportaram-se como um tribunal, como uma instância judicial titular de uma jurisdição excepcionalmente ampla, tão ampla que habilitava os «três estados» a julgar o comportamento do rei. E como se tal não bastasse, a reunião de 1641 reconhecia ao «reino», reunido em Cortes mais duas outras excepcionais faculdades: a capacidade para se eximir voluntariamente da obediência a um soberano a quem tinha sido efectuado um juramento de fidelidade; e, além disso, reconhecia-se também aos «três estados» a capacidade para escolher, voluntariamente, um novo soberano. Como se pode facilmente imaginar, aqueles que se decidiram pela reunião de Cortes, em 1641, moveram-se num terreno altamente melindro-

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so. Antes de mais, porque era do conhecimento de todos que a quebra do juramento tinha seríssimas implicações morais e religiosas. Não devemos esquecer que muitos reprovaram a revolta de 1640 porque representava uma ruptura com um compromisso moral assumido nas Cortes de 1619, altura em que Filipe IV – à data príncipe herdeiro – havia sido jurado pelos portugueses. Como se pode ler numa instrução entregue ao embaixador de Filipe IV em Roma, logo após 1640, «[na rebelião portuguesa] se considera en primer lugar la transgression del juramento de obediencia y fidelidad, solemne y publicamente hecho a Dios por el mismo Duque de Bragança, y todos los tres Estados a favor del Rey Don Felipe, que le acetó en Cortes Generales de todo el Reyno ligitimamente convocadas...»155. Para além da quebra do juramento, o melindre da situação tinha também a ver com a situação interna da realeza. Com efeito, na sequência desse evento a Coroa brigantina ficava numa posição particularmente débil, porquanto admitir que os «povos» podiam romper com o soberano a quem tinham jurado fidelidade e escolher um outro líder representava, sem dúvida, um precedente muito perigoso, pois fragilizava bastante a posição dos futuros titulares da Coroa. A justificação doutrinal da revolta de 1 de Dezembro encarregou-se de frisar todas as implicações constitucionais do sucedido. Francisco Velasco de Gouveia, autor de uma das principais obras legitimadoras da revolta de 1640 – Ivsta acclamação do serenissimo Rey de Portvgal Dom Ioão o IV… (Lisboa, Lourenço de Anveres, 1644) – foi muito claro ao enunciar aquilo que estava em jogo: «Que Ainda que os Povos transferissem o poder nos Reys, lhes ficou habitualmente, & o podem reassumir, quando lhes for necessario para sua conservação»156. De seguida, Velasco de Gouveia analisa o caso português, alegando que a revolta de 1640 era justificada e legitimada pela inequívoca tirania de Filipe IV. Quanto à capacidade electiva das Cortes, Velasco de Gouveia defende-a apoiado em duas linhas argumentativas: por um lado, na ideia de soberania popular e no conceito de pactum subjectionis; por outro, numa argumentação histórico-jurídica fundada nas já citadas «actas» das Cortes de Lamego, bem como no precedente histórico das Cortes de Coimbra, realizadas em 1385. No que toca ao imaginário da soberania popular, António Barbas Homem157 assinalou recentemente que o conceito de pactum subjectionis está presente no Assento das Cortes de 1641, uma vez que os redactores deste texto – que constitui o documento que fixa e publicita as decisões tomadas na assembleia – aceitam a ideia de mediação popular na transmissão do poder político de Deus para os príncipes. Cumpre lembrar que desde, pelo menos, o século XVI, o conceito de pactum subjectionis era

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mobilizado pelos juristas defensores do direito de defesa que assistia à comunidade face a uma governação mal exercida, classificada como «tirania». No quadro dessa leitura, a titularidade do poder pertencia ao povo, cabendo ao príncipe apenas o exercício desse poder. Uma vez aceite esse princípio, o povo, reunido em Cortes, ficava habilitado a exercer várias faculdades: avaliar a qualidade da governação; eximir-se da obediência devida ao seu Rei sem quebra do juramento, nos casos em que fosse dado como adquirido que o rei era tirano; e, em situações extremas, escolher – em sede de assembleia representativa – um novo soberano. Para além do imaginário da soberania popular, o Assento das Cortes de 1641 recorre, também, à argumentação histórico-jurídica, lembrando os princípios estabelecidos quer nas já referidas Cortes de Lamego158, quer nas Cortes de Coimbra de 1385, ocasião em que D. João, Mestre de Avis, fora aclamado rei de Portugal. O precedente histórico de 1385 foi sistematicamente invocado para justificar as opções de 1640, tendo-se também usado as apócrifas «actas» das Cortes de Lamego para consolidar essa pretensão. Este imaginário está presente na referida obra de Velasco de Gouveia, nela se apresentando a cerimónia inaugural do reinado como um pacto de atribuição do poder, como um pacto que tinha como objectivo não propriamente estabelecer a forma do governo, mas sim efectuar a transferência do poder do povo para o príncipe. E tal como sucede em qualquer transferência de poder, trata-se de um processo que envolve condições reciprocamente assumidas159. Além do livro de Velasco de Gouveia, a imagem das Cortes como «tribunal de reis» e como uma assembleia com capacidade electiva pode ser encontrada em boa parte da literatura favorável a D. João IV publicada nas décadas de 1640 e 1650, sobretudo porque a propaganda apostou nesse argumentário como forma de tornar legítima, tanto para o interior quanto para o exterior do reino, a ruptura de 1640. Procurava-se desse modo demonstrar que a separação da Monarquia Hispânica e a adesão a D. João IV eram sentimentos partilhados pela generalidade dos portugueses. Foi também por essa altura que se investiu na ideia de que a reunião de Cortes correspondia à forma como os reis portugueses, desde tempos imemoriais, costumavam tomar decisões governativas. Paralelamente, procedeu-se à demonização do governo de Filipe IV, recorrendo-se, de um modo bastante sistemático, ao tema da marginalização de que as Cortes haviam sido alvo. Fulgêncio Leitão, por exemplo, em Reduccion, Restituycion del Reyno de Portugal a la Serenissima Casa de Bragança en la Real Persona de D. Iuan IV… (Turim, Iuannetin Pennoto, 1648), relembra a década de 1630 e as várias fases da política fiscal de Filipe IV, denunciando os «acordos particulares» que a Coroa estabelecera com os povos no

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campo tributário, sem que o reino junto em Cortes tivesse podido dizer uma palavra sobre esse assunto. Nos escritos de Fulgêncio Leitão, as Cortes são elevadas ao estatuto de único órgão autorizado para decidir sobre questões fiscais. Logo, a opção de não chamar as Cortes para decidir sobre fiscalidade era apresentada como um sinal inequívoco da tirania de Filipe IV e do seu valido160. É interessante verificar que o olhar de alguns estrangeiros sobre as Cortes de Portugal, durante a década de 1640, também sublinha o poder que esta assembleia momentaneamente adquiriu. Lívio Giotta, em Raggioni del Ré di Portogallo D. Giovanni IV… (Lisboa, Paulo Craesbeeck, 1642), traça o seguinte retrato da assembleia representativa portuguesa: «Li tre Stati cioè gli Ecclesiastici la Nobiltà, e Popoli delli Regni di Portogallo ragunati nelle Corti doue rappresentano in vn corpo tutti li sudetti Regni, e tutta l’auttorità, e potere, ch’essi tengono, hanno risoluto per buon principio delle medesime Corti douersi con publica Scrittura da tutti sottoscritta decidere, estabilire, como il Ius d’essere Rè, e Signore loro spettaua, & spetta al potentissimo Rè Don Giouanni, il quarto di questo nome....». Acrescenta Giotta: «I supponendo per cosa chiara in Iure ch’al Regno, & alli tre Stati d’esso compete il giudicare, e dichiarare la legitima successione del medemo Regno, ogni volta che nasce qualche difficoltà, e dubbio trà i pretendenti per diffetto di descendenza dell’vltimo Rè possessore...»161. Quanto ao número de petições enviadas às Cortes realizadas após 1640, ele cresceu muitíssimo, e o monarca instruiu os seus oficiais para que respondessem, de forma diligente, a esses pedidos, tendo em vista demonstrar que, no que toca à comunicação com os seus vassalos, a dinastia de Bragança era fundamentalmente diferente dos Habsburgo, revelando uma constante disponibilidade para escutar as suas queixas e para os ajudar a resolver os seus problemas. O grande manancial de petições então apreciado proporcionou aos oficiais régios uma visão bastante detalhada da situação do reino, das suas localidades e dos seus habitantes162. Todavia, é curioso verificar que os oficiais régios tiveram dificuldade em interpretar essa informação, já que nalguns casos era nítido que os pedidos reflectiam a opinião generalizada da população que os enviara, enquanto que noutros casos era evidente que constituíam uma óbvia manobra para mobilizar os recursos régios a favor dos interesses de uma determinada parcialidade local163. Como sugerimos, D. João IV e os seus sequazes nutriam sentimentos ambivalentes face a toda esta ênfase na capacidade política das Cortes. Por um lado, partiu deles a opção de instrumentalizar a «assembleia dos três estados» e fomentar o uso propagandístico das Cortes enquanto instância legitimadora da mudança dinástica; por outro, ao potenciarem as facul-

Pedro. a despeito de todo o ambiente que foi criado a favor das Cortes. contribuição fiscal Dote para o casamento da princesa D. João. As assembleias de Cortes que se seguiram à histórica reunião de 1641 confirmam esta tendência. Todavia. Pedro II Motivo Juramento do príncipe D. Afonso. ou pelo menos de uma tentativa de reequacionamento do lugar constitucional ocupado pelas Cortes.206 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS dades políticas da assembleia. Filipe II D. A situação tornava-se tanto mais delicada quanto era para todos claro que a Coroa. em vez disso. Pedro como regente e governador do reino. nessa fase. Isabel com o primogénito do duque de Sabóia Juramento do príncipe D. Afonso VI D. João IV D. as Reuniões das Cortes de Portugal no século XVII Ano 1619 1641 1642 1645-46 1653-54 1667-68 1673-74 Reinado D. Afonso VI (D. sabiam perfeitamente que corriam o risco de contribuir para o surgimento de um movimento de cariz “republicano”. Ao contrário do que se poderia prever. Pedro. de uma forma sustentada. contribuição fiscal Juramento do infante D. Não devemos esquecer que o regime monárquico estava profundamente enraizado na cultura política. mais poder à assembleia representativa. regente) D. João IV D. revelando-se. tinha uma margem muito reduzida para resistir a qualquer desafio interno164. João IV D. Filipe Juramento e levantamento do duque de Bragança como rei de Portugal. declaração ou derrogação da lei sucessória. Teodósio. a verdade é que. Afonso VI (D. acabou por não surgir qualquer movimento concertado que tivesse como finalidade atribuir. muito mais preocupadas em preservar os seus privilégios e em travar as iniciativas da Coroa que violavam o seu espaço jurisdicional. João IV D. como por exemplo uma pujante tradição histórica de ideias e de práticas republicanas165. Isabel Luísa Josefa. regente) D. contribuição fiscal para a guerra Contribuição fiscal Contribuição fiscal Juramento do príncipe D. contribuição fiscal Juramento da princesa D. nem sequer as cidades mais poderosas enveredaram pelo caminho da afirmação da capacidade política das Cortes. e na história lusa faltavam ingredientes que pudessem galvanizar um processo de afirmação pactista. À excepção de movimentos muito pontuais de contestação a certos aspectos da governação dos anos de 1640 e 1650. contribuição fiscal 1679-80 1697-98 . juramento do príncipe D.

pedindo o remedio delles e como nos novos reynados os subditos tem mais confiança. acabando por ficar sobretudo associadas à política fiscal. que a El rey acodião. Assim. A despeito destas dúvidas. João IV e os seus seguidores convocaram as Cortes com uma regularidade inusitada. com grande frequencia ouvir em publico a seus vassalos. foi um dos muitos que notou esta renovada disposição do rei em escutar o parecer dos povos sobre questões governativas: «Continuavão os Reys da Europa. para vincar a diferença face à dinastia dos Habsburgo. uma entidade politica que trans- . D. é inegável que as Cortes continuaram a representar um momento importante de introspecção colectiva. de 1645-46 e de 1653-54. João. era sem número o número das petiçoens. 207 Cortes foram-se dedicando a um leque de questões cada vez mais restrito. por D. a negociação sobre novas imposições fiscais acabou por monopolizar grande parte das assembleias de 1642-43. e os Príncipes mayor paciencia. João da Silva. Acrescenta que «a resão a meu ver he manifesta: porque […] juntos os povos em Cortes parece que em certo modo fica algum tanto coarctada aquella soberania que os Príncipes tem no seu governo Monárquico…»167. em nenhuma dessas reuniões se vislumbrou qualquer esforço consistente para tirar partido do élan de 1641 tendo em vista reconfigurar. Francisco Manuel de Melo. algumas décadas mais tarde. [trata-se das cortes que deveriam ter reunido em 1649]». no entanto. como um alfobre de decisões onde se vislumbra a emergência de um novo sentimento de pertença ao «reino».. e elleytos Procuradores se não celebrarão. João IV em dialogar com os «três estados» é rotundamente desmentido. quanto mais despacho. Nessa missiva. Tal não significa. A ASSEMBLEIA DE CORTES. porém. drasticamente. Tal não significa.. de reflexão e de discussão sobre as medidas governativas. 2.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. o marquês confidencia que D.. Significativamente. Pelo contrário. após 1640 reforçou-se a noção de que a decisão régia em conjunto com as Cortes correspondia à forma costumeira de tomar decisões governativas em Portugal.º marquês de Gouveia. sempre que convocara as Cortes. não bastavão os dias inteyros…»166. para cuja comprehensão. também.. que o rei reunia as Cortes sempre de bom grado. que a assembleia tenha perdido a sua relevância política.. Tanto mais que.. numa carta enviada ao secretário de estado Francisco Correia de Lacerda. fizera-o «com grande repugnancia tanto assim que estando convocadas humas para Tomar. o regime de relações entre o rei e o reino. que por papel lhe aprezentavão a informação de seus negocios. O aparente contentamento sentido por D. no seu Tácito Portuguez. A consulta frequente dos «três estados» foi nestes anos retratada como a modalidade decisória que mais estava de acordo com os princípios constitucionais que regiam o reino. tendo funcionado. e os de Portugal.

É certo que. De qualquer modo. deveres esses que o rei e os seus oficiais se esforçaram por colocar acima das obrigações intrínsecas à pertença familiar. Na sequência disso. sobretudo. da uniformidade jurisdicional. Um grupo de representantes das câmaras tentou mobilizar as Cortes para exercer pressão sobre o monarca. não deixa de ser significativo que as sessões de Cortes tenham sido o palco desse tipo de afirmações. por vezes os oficiais régios viram nas Cortes uma boa oportunidade para fomentar a unanimidade face aos planos – sobretudo fiscais – da Coroa. a contestação aos planos fiscais da Coroa tornou-se especialmente forte. A fim de tornar esses apelos mais consensuais. dos deveres inerentes à condição de membro dessa comunidade política “vasta” que era o «reino». gerou-se uma situação de pré- . da agilização dos procedimentos administrativos e. em muitos casos. Como sugerimos. os pregadores que celebrassem missas na cidade onde a assembleia decorria profeririam sermões cujo conteúdo estaria orientado para convencer o auditório a ser conivente com os pedidos da Coroa. o alargado conjunto de pessoas que participava na assembleia. Para isso. Outra valência política das Cortes decorria do simples facto de essa assembleia reunir um número considerável de dignitários – cerca de três centenas – e poder ser facilmente instrumentalizada. e as várias entidades políticas em presença por diversas vezes tentaram utilizar. tendo em vista alcançar determinados objectivos. das necessidades em que se encontrava o reino. e alguns procuradores queixaram-se. fizeram-no não só através da repetição. a Coroa procurou garantir que. mas procurando associar o imaginário religioso aos sacrifícios que procuravam impor aos «três estados».208 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS cendia os limites das comunidades locais ou corporativas e que impunha sacrifícios nem sempre fáceis de aceitar. Quanto aos demais grupos sociais. também eles se aperceberam do potencial da reunião dos «três estados» como forma de pressão política. Em 1642. como forma de pressão. durante o período em que as Cortes estavam reunidas. até à exaustão. por exemplo. de que só uma parte do reino pagava os impostos. fazendo identificar as intenções da Coroa com os desígnios de Deus168. Como acabámos de ver. a fim de que a Coroa abdicasse dos seus propósitos fiscais. de um modo extremamente exaltado. nos debates das Cortes foram escutadas numerosas intervenções em defesa da igualdade fiscal. procurando desse modo assegurar a colaboração das elites locais na implementação das decisões tomadas pela assembleia. As manobras de influência junto das Cortes foram uma constante. Assim. os oficiais régios costumavam associar a essas obrigações para com o «reino» todo um discurso com ressonâncias religiosas. local ou corporativa. tais apelos não tiveram qualquer acolhimento.

podia suceder que as facções cortesãs usassem as Cortes como forma de pressão contra os seus inimigos – as manobras de descrédito movidas contra o secretário de estado Francisco de Lucena. as quais costumavam alegar. A Coroa também participava nesta exploração conjuntural do capital simbólico (e político) das Cortes. ou seja. Mais do que um assunto encerrado. em geral. Quando antevia dificuldades na negociação com as Cortes. etc. em defesa da sua reivindicação.. em princípio o «terceiro estado» era aquele que mais veementemente insistia na reunião com o rei para decidir sobre novas imposições fiscais. os representantes do «terceiro estado» foram os primeiros a opor-se à convocatória da assembleia.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. 209 -motim que muito atemorizou a Coroa. Uma questão que permaneceu em aberto. em determinadas conjunturas mostrou-se interessada em reunir a assembleia. Noutros casos. alegando motivos como o dispêndio inerente a cada nova reunião. esta matéria foi um pretexto para infindáveis debates entre a Coroa e os diversos grupos sociais. na expectativa de que dela resultariam decisões que seriam socialmente muito mais consensuais. encarando-as – sobretudo à Câmara de Lisboa – como uma instância de mediação com o resto do . são um excelente exemplo do que acabámos de dizer169. Todavia. a própria Coroa prescindia de dialogar com os «três estados» e optava por realizar consultas restritas às principais cidades. Da parte do reino. em finais de 1642. razão pela qual os procuradores mais radicais não tardaram em ser presos. A ASSEMBLEIA DE CORTES. é curioso verificar que. a lentidão do processo decisório.. pois acreditava que essa seria a melhor forma de instaurar uma situação de relativa igualdade fiscal. É muito sintomático que os apelos para a convocatória de Cortes a fim de aprovar novos tributos raramente tenham sido lançados por membros do clero e da nobreza. foi a da alegada obrigatoriedade do rei em consultar as Cortes sempre que tinha de tomar qualquer decisão na área fiscal170. risco de motim. pelo contrário. os apelos mais sonoros para que a assembleia fosse convocada partiram. durante toda a segunda metade de Seiscentos. obrigar o clero e a nobreza a contribuir. curiosamente invocando motivos aos quais os povos não eram indiferentes: lentidão dos processos decisórios.. das autoridades urbanas. Por esse motivo. Noutros momentos. etc. em certos momentos. que alguns dos princípios constitucionais do reino seriam violados pelo monarca caso não consultasse os representantes do reino. demonstrou uma aberta relutância em chamar os «três estados». Como sugerimos. receio de que os povos vissem na convocatória das Cortes um sinal de que a obrigatoriedade de pagar tributos tinha cessado. custos inerentes à reunião. Como vimos. de um modo geral estas manobras a favor ou contra as Cortes costumavam surgir em conjunturas de aprovação de novos impostos.

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reino. A esse respeito, cumpre reconhecer que a dinastia de Bragança acabaria por ter uma actuação bastante semelhante à dos monarcas Habsburgo, tão duramente criticados pela propaganda pós-1640 precisamente por terem levado a cabo iniciativas fiscais sem a consulta prévia da assembleia representativa171. Após 1640 várias exacções fiscais foram introduzidas sem que as Cortes tivessem sido consultadas, registando-se, também, alguns casos em que os tributos foram automaticamente aprovados por mais três anos, invocando-se o facto de continuar presente o motivo que tinha justificado a sua imposição172. Na linha do que já vinha sucedendo desde meados de Quinhentos, o Senado de Lisboa continuou a assumir-se como interlocutor privilegiado do rei, chegando mesmo a arvorar-se em representante das restantes cidades do reino. Convém notar, no entanto, que esse papel de que se arrogou Lisboa nem sempre foi bem aceite pelas demais cidades e vilas com assento em Cortes, tanto mais que, muitas vezes, os procuradores lisboetas se revelaram mais próximos do interesse da Coroa do que dos interesses das comunidades que compunham o reino. Após a morte de D. João IV – em 1656 –, a situação pouco se alterou. A 22 de Novembro de 1657, o conde de Comminges (embaixador francês em Lisboa) relatava, numa das muitas cartas que enviou para a corte francesa, que a regente D. Luísa estava a esforçar-se para reunir o dinheiro pedido por Mazarin para aceitar uma aliança com Portugal. Acrescentava que «o povo não tinha relutância em contribuir, mas os fidalgos faziam tudo para fugir ao pagamento, e [a rainha] não se atrevia a pedir nada ao clero». A acreditar em Comminges, o «povo» desejava a convocação de Cortes e a rainha estava de acordo, mas «o clero a desfavorecia e os fidalgos e os ministros se esforçavam para impedi-la, porque os primeiros teriam de pagar e os segundos de responder pela sua administração»173. Nos anos de 1650 e 1660 assistiu-se ao aumento exponencial da pressão fiscal, recrudescendo, também, a discussão acerca da margem de manobra da Coroa em matérias tributárias. Como assinalámos, a atitude mais frequente era o apelo para que as Cortes fossem consultadas sempre que se planeasse a introdução de uma nova exacção. Todavia, em certos casos eram os próprios «estados» a lembrar ao rei que o motivo do imposto continuava presente, não havendo por isso necessidade de convocar os «três estados». No entanto, convém ter presente que a renovação trienal de impostos sem a consulta das Cortes nem sempre foi uma solução pacífica, e momentos houve em que gerou autênticas tempestades políticas. A par desta profusão de debates sobre a competência das Cortes na área da fiscalidade, a «assembleia dos três estados» continuou a intervir, pontualmente, em matérias sucessórias, marcando presença em alguns dos

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momentos mais transcendentais para a Coroa, como por exemplo o levantamento de cada novo rei ou o juramento dos príncipes herdeiros. Os círculos régios condescenderam com esta pontual actuação da assembleia dos «três estados» nesse terreno tão importante, embora procurassem frisar que essa intervenção era circunscrita e localizada. Assim que o debate tocava em temas mais sensíveis, logo intervinham os oficiais régios, tudo fazendo para moderar as intervenções e para desmobilizar a discussão. Os próprios participantes nas Cortes parecem ter consciência de que havia certos temas que, pela sua delicadeza, não convinha discutir abertamente na assembleia portuguesa. Francisco Ferreira Rebelo, jurista e diplomata na agitada Londres da década de 1650, testemunhou as sucessivas reuniões do Parlamento inglês e as resoluções aí tomadas, e, nas cartas que enviou para Lisboa, observa que a assembleia representativa inglesa discutia matérias de grande transcendência político-constitucional, acrescentando que seria difícil ver as Cortes de Portugal debaterem, tão abertamente, temas tão sensíveis. Refere, a título de exemplo, a ampla discussão em torno do título que Oliver Cromwell deveria assumir174. É, em parte, verdade, que os debates nas Cortes portuguesas não costumavam ir tão longe. Seja como for, alguns anos depois de Ferreira Rebelo ter feito este comentário sobre o radicalismo das discussões que tinham lugar no Parlamento inglês, as Cortes de Portugal voltaram a tocar nesse transcendental tema que era a capacidade governativa do monarca. Tal sucedeu nas Cortes de 1667-68, reunidas em plena crise governativa motivada pelo descrédito em que a governação de D. Afonso VI tinha caído. Convocada numa altura em que estava já em curso o afastamento do rei e a sua substituição pelo seu irmão D. Pedro, a assembleia de 1667-68 constitui, sem dúvida, um momento ímpar, pois essa foi a ocasião em que as Cortes mais se envolveram na discussão sobre as questões do trono175. Tal como sucedera em 1641, em 1667 as Cortes foram convocadas tendo em vista sancionar uma situação que já estava praticamente consumada: o afastamento do rei D. Afonso VI. Os representantes dos «três estados» discutiram longa e acaloradamente a questão, apresentando diversas propostas para a resolução da crise. A par dos muitos debates que então tiveram lugar, circularam também vários pareceres de teólogos e de juristas acerca da aflitiva situação em que se encontrava a Coroa, o que ainda mais contribuiu para alargar o âmbito do debate. Exceptuando os contextos de ruptura dinástica, nunca antes se havia discutido, com tanta publicidade, matérias tão cruciais, e vários foram os oficiais régios que se aperceberam do melindre da situação. Depois de muitas hesitações, as Cortes acabaram por ser determinantes para sancionar a solução encontrada: D. Afonso VI

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manteria o título de rei, mas seria dado como incapaz para o governo, sendo por isso mesmo substituído nessas funções pelo seu irmão, o qual, por sua vez, foi jurado pelos «três estados» como «regente e governador do reino». O aval das Cortes serviu, de novo, para tornar socialmente mais aceitável essa situação profundamente anómala e que roçava a imoralidade. Uma vez mais era dada a oportunidade aos «três estados» para se pronunciarem sobre matérias da mais alta política. Contudo, e à semelhança do que sucedeu após 1640, da reunião de 1667-68 também não resultou qualquer iniciativa de relançamento do papel das Cortes no sistema político português. Na assembleia que se seguiu – celebrada em 1673-74 – alguns procuradores ainda tentaram pronunciar-se sobre a situação política que se vivia no reino, embora sem grande êxito, uma vez que os oficiais régios rapidamente circunscreveram o debate. A assembleia realizou-se em Lisboa, num momento em que corriam rumores de que o embaixador espanhol congeminava uma conspiração, facto que contribuiu para exaltar os ânimos176. A reunião terminou abruptamente, por ordem de D. Pedro, numa altura em que os debates ameaçavam provocar um tumulto, sobretudo porque a juntar aos rumores de que estava em curso uma conjura, vários foram os procuradores que fizeram declarações inflamadas sobre a situação em que se encontrava o governo do reino, reclamando o regresso de D. Afonso VI. Tendo em conta estes acontecimentos, compreende-se facilmente porque é que, nos anos que se seguiram, a Coroa favoreceu a identificação entre a assembleia de Cortes e a problemática fiscal. Ao concentrarem a atenção dos «três estados» na questão dos tributos, os oficiais régios evitavam que os debates tocassem em matérias consideradas demasiado sensíveis para serem discutidas na “praça pública”. Para além disso, a Coroa tinha plena consciência de que o aval das Cortes poderia ser decisivo para tornar socialmente mais consensuais as propostas fiscais, assim como para garantir que os influentes locais colaborariam com a Coroa no seu esforço para arrecadar o produto fiscal. Ainda assim, e apesar de ficarem cada vez mais centrados na questão fiscal – algo que ia ao encontro dos desejos da Coroa após 1640 –, os debates ocorridos nas Cortes nem por isso deixaram de contar com intervenções mais acaloradas, nas quais os vassalos não hesitaram em lembrar aos governantes do reino as suas obrigações, chegando mesmo a acusá-los de mau governo. Seja como for, no último quartel de Seiscentos assistiu-se a um gradual esvaziamento da capacidade das Cortes para intervir em matérias de alta política, com a excepção da fiscalidade, área que praticamente monopolizou as discussões. Tal não significa, no entanto, que a «assembleia dos três

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estados» se tivesse tornado na única instância competente nessas matérias. De facto, a par das Cortes, a Coroa foi explorando outras formas mais céleres de negociação fiscal. Assim, para além de ter confiado cada vez mais à Câmara de Lisboa o papel de principal interlocutor, favoreceu órgãos mais ágeis e politicamente mais controláveis pela Coroa – como a Junta dos Três Estados –, opção que acabou por ditar o esvaziamento de algumas das competências da «assembleia dos três estados». No que respeita à política tributária, convém ter presente que a grande questão se jogava no controle sobre a administração fiscal. Inicialmente, os municípios lograram manter nas suas mãos a gestão do fisco. Todavia, tal gerou numerosas situações de desvio de dinheiro e de cobrança fiscal muito abaixo das expectativas, o que levou à criação de uma série de órgãos vocacionados para o controlo da própria administração tributária da Coroa, de que um dos melhores exemplos é a referida Junta dos Três Estados, a qual desenvolveu uma tenaz luta com as câmaras das principais cidades do reino tendo em vista dominar os mecanismos de gestão dos impostos cobrados nessas urbes. Essa junta começou por ser composta por representantes dos «três estados», mas com o tempo foi deixando de contar com deputados directamente nomeados pelo «estado dos povos», o que suscitou algum descontentamento. O confronto entre as cidades do reino e a Junta dos Três Estados – órgão fundamental e que continua à espera de um estudo aprofundado – representa, afinal, o esforço da Coroa em penetrar nessas «comunidades de privilégios» que eram os núcleos urbanos.

Os territórios ultramarinos e a sua representação no centro político
Como é bem sabido, a tradição jurídica vigente na época moderna previa que a soberania sobre um reino poderia ser adquirida através das seguintes vias: por herança; por acordo de todos os representantes do reino, que livremente manifestavam a vontade, em sede de assembleia representativa, de se sujeitarem a um senhor, transferindo-se de um soberano para o outro; por casamento; por outorga do Papa; e, finalmente, por conquista. Cada uma destas formas de incorporação territorial previa determinadas consequências ao nível da dignidade e dos direitos políticos gozados pelas instituições que administravam as terras que eram objecto da incorporação. Vários destes mecanismos agregativos foram postos em prática pelas casas reais ibéricas, tanto na Europa, no quadro do processo de alargamento dos seus domínios, como fora dela, no âmbito do desenvolvimento dos seus impérios ultramarinos. Como começámos por sugerir, cada uma das unidades políticas mais “vastas” – como um reino, uma monarquia ou um império – era vista

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como uma comunidade de comunidades, como um conjunto de corpos políticos agregados por laços de natureza diversa e escalonados segundo uma ordem fortemente hierárquica, ordem essa que conferia a cada uma das partes direitos políticos desiguais. Tal desigualdade era bem visível no interior da Península Ibérica, onde, como verificámos, prevalecia uma rigorosa hierarquia entre os vários reinos e, dentro destes, entre as diversas cidades. É essa hierarquia que explica o facto de apenas uma pequena parte das urbes ter assento nas Cortes. No que toca aos territórios extra-europeus das Coroas ibéricas, esse escalonamento hierárquico também marcou presença, não só ao nível das relações entre as várias cidades ultramarinas, mas também dos laços que estas mantinham com as suas congéneres peninsulares. Assim, na fase inicial da colonização das possessões ultramarinas, a dignidade das instituições situadas nessas terras era muito inferior à das comunidades peninsulares, realidade que, desde logo, tinha uma consequência bem visível na «assembleia dos três estados»: as cidades ultramarinas começaram por estar ausentes da reunião que congregava as principais urbes do reino. Importa não esquecer que os domínios extra-europeus das Coroas Ibéricas foram inicialmente tratados como «conquistas», termo que, de resto, surge frequentemente na documentação coetânea. Como assinalámos, o estatuto de «conquista» evocava o modo como esses territórios tinham ingressado nos domínios dos monarcas ibéricos, envolvendo sérias consequências quanto aos direitos políticos gozados pelas suas instituições e pelos seus habitantes: eram territórios escalonados numa posição inferior face aos domínios europeus das Coroas ibéricas, estando as suas populações desprovidas de alguns dos mais substantivos direitos políticos, como por exemplo a «honra» de tomar parte na assembleia de Cortes. Tal não significa, porém, que as instituições representativas estivessem ausentes dos domínios ultramarinos das Cortes ibéricas. No caso das possessões extra-europeias da Coroa de Castela, por exemplo, o seu ordenamento jurídico admitiu a realização de reuniões entre cidades da América para a resolução dos conflitos surgidos entre elas, estabelecendo-se uma hierarquia que, de alguma maneira, evoca aquela que existia nos reinos de Castela entre as urbes com assento em Cortes e as restantes povoações. Como assinalou Carlos Dias Rementeria a propósito da administração da América Espanhola177, já em Junho de 1530 se contemplava a possibilidade de se celebrarem congressos de cidades da Nova Espanha, de entre as quais a cidade do México teria o primeiro voto. Anos mais tarde, em Abril de 1540, estipulava-se a realização de reuniões similares no ViceReinado do Peru, considerando-se a cidade de Cuzco como a principal entre as que integravam essa circunscrição administrativa. Importa frisar,

M.. conde de Chinchón. suelen ser los que tienen menos mano en ayudar a estos arbitrios. a própria Coroa tomou a iniciativa de as chamar. todavía creo que lo que importa a su real servicio es. Como já foi referido. em vez desse termo. [sublinhado nosso] Que aunque hay caballeros de calidad. pois nela o vice-rei constata a ausência de uma assembleia que servisse de fórum de negociação para estabelecer alguma concertação às iniciativas da Coroa em terras americanas. Estamentos ni Parlamentos. e.. no sólo en el poder que los vasallos tienen en estos casos. 215 contudo. a palavra «congresso». os coetâneos utilizavam. y que así la potestad real de S. Y a esto será mucho provecho la esperanza en unos y certidumbre en otros de ser remunerados»180. foi um dos governantes incumbidos de pôr em prática essas medidas. Esta declaração do conde de Chinchón reveste-se de um grande interesse.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. no sólo que se imponan los tributos. Y se suele hallar más ayuda . as suas pretensões políticas alargaram-se consideravelmente. O vice-rei do Peru. no quadro da «Unión de las Armas» a Coroa dirigiu insistentes apelos no sentido do aprofundamento da integração entre as distintas partes da Monarquia. Por vezes. dirigida ao Vice-rei da Nova Espanha. es libre y absoluta. Brazos. tendo em vista envolver os territórios ultramarinos no esforço de defesa da Monarquia Hispânica179.. sorteados entre as províncias integrantes desse Vice-Reinado. e algumas urbes chegaram mesmo a reivindicar o direito a tomar parte na assembleia representativa que reunia as cidades de Castela-Leão. a qual denota uma assembleia de menor dignidade do que a reunião dos «três estados». numa das suas missivas que enviou ao Real Consejo de las Indias. À medida que as instituições urbanas do continente americano se consolidaram. tendo em vista reforçar o laço de ligação entre a metrópole e suas possessões ultramarinas. que a estas reuniões jamais foi dada a denominação de «Cortes». Previa-se também que esses representantes aproveitassem a vinda à Europa para tratar de outros assuntos178. pois remete para a questão a que atrás aludimos: a diferença de hierarquia entre as cidades europeias e as urbes americanas. en quien caben todo este género de mercedes. A ASSEMBLEIA DE CORTES. deliberadamente. sino en la calidad dellos. O Consejo de las Indias afirma que «las Indias son muy diferentes de los otros reinos. A resposta que o Consejo de las Indias deu ao Vice-Rei do Peru não é menos sugestiva. acorressem às reuniões das Cortes de Castela e Leão onde fossem jurados príncipes. Assim aconteceu sob o valimento de Olivares: numa carta régia de Maio de 1635. sino que se reciban y paguen por sus vassallos con obediencia y gusto. assinala algo de muito interessante sobre a capacidade política das cidades americanas: «Si bien reconozco que en las Indias no hay Junta de Cortes. coloca-se a possibilidade de que quatro procuradores.

assumindo-se como interlocutores com a Coroa. o principal desafio consistiu em encontrar expedientes representativos que fossem capazes de espelhar os territórios cada vez mais vastos e as populações cada vez mais variadas que estavam sob o comando dos monarcas lusos182. tanto do reino como dos territórios extra-europeus sob a jurisdição dos monarcas portugueses183. também a Coroa portuguesa tinha consciência de que era necessário criar formas de participação das elites ultramarinas. concorrendo para fortalecer a identidade política local e para reafirmar a auto-suficiência das câmaras187. os poderes municipais do ultramar foram relativamente céleres a adquirir uma identidade política mais vincada. Assim. os quais eram. Na verdade. também as câmaras municipais desempenharam esse papel. Além disso. tendo sido necessário encontrar formas de tornar presentes. Todavia. cuales les parece. mas também política.216 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS en el consulado de los mercaderes y en otros hombres de trato. e tal como sucedia no império espanhol. No período de Quinhentos e de Seiscentos. entre outros. este problema tornou-se especialmente premente. por exemplo. aludindo a lendas fundadoras e enaltecendo os serviços militares desempenhados pelas gentes que aí viviam. da sua população e das suas instituições. com o contínuo processo de expansão territorial. y con aquellos acuerdos. sino que hacen los virreys juntas de ministros y llaman algunos vecinos. direitos e liberdades-imunidades. No caso português. fácilmente se introduce la materia en los cabildos eclesiásticos y seglares. cuando conviene y se halla dispuesta»181. têm contribuído para esclarecer o modo como se processava a comunicação política entre a corte e os territórios ultramarinos. Dificilmente encontraríamos uma declaração mais taxativa da “menor qualidade” social. como meio de as comprometer com o esforço conjunto do reino. Os trabalhos de Charles Boxer184 e de Evaldo Cabral de Mello185. Tais textos vinham muitas vezes acompanhados de longos escritos onde se descrevia a história local. Eram escritos com um fundo reivindicativo muito marcado. y comunicándolo con los corregidores y los prelados. Algo de semelhante se passava no reino de Portugal e nas suas possessões ultramarinas. muitas vezes. dos territórios americanos. são muitas as petições assinadas por um conjunto de municípios. Para o Brasil de finais do século XVI e do século XVII. portavozes das aspirações e das reivindicações dessas terras. os interesses dos vários corpos sociais. Y no hay votos en Cortes ni junta de ayuntamiento. junto da Coroa. falando em nome dos habitantes que estavam sob a sua alçada e «representando» – tornando presente ao rei – os problemas que afectavam essas populações186. com a realeza comunicavam os titulares dos cargos governativos e administrativos das regiões ultramarinas. . pois reclamavam prerrogativas.

como assumiram um grande protagonismo na sessões de trabalho das Cortes. ou seja. bem como da América Portuguesa. devido ao papel por elas desempenhado na luta contra os neerlandeses. Seja como for. A importante temática do estatuto de cada cidade – peninsular e ultramarina – carece ainda de um estudo aprofundado. numa época em que estes eram cobiçados por outras potências europeias. os trabalhos de Fernanda Bicalho e de Fátima Gouvêa sugerem que este fenómeno tem de ser associado ao aparecimento do título de «Príncipe do Brasil». com o rei. adquirindo. dessa forma. por exemplo. também explica esta camada das câmaras extra-europeias para as Cortes. o mesmo se podendo dizer da equiparação dos privilégios de alguns municípios ultramarinos àqueles que eram gozados pelos habitantes das principais cidades do reino (com a excepção de Lisboa. A ASSEMBLEIA DE CORTES.. podendo indiciar uma mudança de estatuto desta possessão ultramarina190. A preocupação por manter a ligação entre a Coroa portuguesa e os territórios ultramarinos. E nas assembleias realizadas após 1640 há representantes de câmaras municipais da cidade de Goa. em privado. uma maior capacidade de comunicação com a Coroa. chegando mesmo a ser nomeado «definidor».. No que respeita à presença de representantes de cidades americanas nas Cortes portuguesas. acompanhando o selecto grupo das cidades do primeiro banco que reunia. muitos deles ainda em fase embrionária. Já no século XVII. manifestaram a vontade de participar nas Cortes convocadas para 1619188. pois denuncia alguma mobilidade e algum voluntarismo. membro da comissão incumbida de acompanhar a reunião até ao seu termo189. ao contrário do que era predominante no caso das câmaras do reino191. importa ter em conta que algumas câmaras americanas. Durante o período de Quinhentos os municípios da parte Oriental do Império – de que o melhor exemplo é Goa – desfrutaram de um estatuto claramente destacado. Na assembleia de 1653. Convém notar que estes procuradores não só participaram na abertura solene.. 217 Além disso. ao saberem que estava para breve a vinda de Filipe III a Portugal. . e onde o único caso mais saliente era o da câmara da Bahia. para resolver os assuntos pendentes. deparamos com Jerónimo Serrão de Paiva a actuar como «procurador do Brazil». outras cidades brasileiras vão ver o seu estatuto dignificado: em 1642 os cidadãos do Rio de Janeiro recebem os mesmos privilégios. tudo indica que a “dignidade” das diversas partes do Império era algo de dinâmico e oscilante. Após 1654 algo de semelhante terá ocorrido com algumas câmaras de Pernambuco e das capitanias limítrofes. sobretudo quando comparados com a menor projecção dos poderes locais da América Portuguesa. Trata-se de um tema importante. «cabeça do reino»).ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. honras e liberdades que tinham sido conferidos aos cidadãos do Porto em 1490.

cada vez menos faziam parte do seu elenco de tarefas. na negociação fiscal. na Catalunha. da «assembleia dos três estados». como vimos. Além disso. Importa notar que os procuradores não se opuseram a esse processo. todas as suas assembleias representativas. pois. nessa época. A. pela sua complexidade. prescindindo. É certo que o caso português se reveste de alguma especificidade. e de um modo geral aceitaram que essas questões. favorecia a convocatória assídua das Cortes. a comparência de uma parte considerável da aristocracia e do alto clero nas Cortes portuguesas. traduzindo-se em reivindicações de carácter pontual. facto que. Para os aristocratas de finais do século XVII a política jogava-se. ao . sobretudo. no seu conjunto. com a Coroa. como vimos. A. enquanto corpo social. a oposição aristocrática no mundo ibérico tinha um cunho menos constitucional. concentrando-se. como por exemplo a exigência de que o rei fosse libertado da influência de um valido que se revelara mau ministro194. Quanto ao clero. porquanto os diversos sectores do «estado eclesiástico» desenvolveram os seus próprios canais de influência e de comunicação com os círculos régios. ou a recusa em aceitar a nomeação para um determinado cargo195. na corte e nos conselhos palatinos192.218 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS O fim da convocatória das Cortes No final de Seiscentos. e como bem notou I. tornava-se cada vez mais evidente que tanto a Coroa como os vários grupos sociais estavam a desinvestir nas Cortes. as principais instâncias de protecção da nobreza e de garantia dos seus direitos. Como assinala o mesmo Thompson. afectando. as reuniões dos «três estados» foram deixando de opinar sobre questões do governo geral do reino. Com o tempo. sobre a política dinástica ou sobre as relações internacionais da Coroa. as Cortes também estavam longe de ser o seu principal espaço de articulação com a Coroa. Assim se compreende porque é que os nobres castelhanos raramente escolheram as Cortes como principal espaço de confronto com a política da Coroa. era muito mais pessoal. Thompson. em Valência ou nos demais reinos peninsulares – com a óbvia excepção de Castela –. O fenómeno que acabámos de descrever é comum aos vários reinos da Península Ibérica. cada vez mais. O afastamento entre a aristocracia e as Cortes contribuiu para desviar dessa assembleia o debate sobre uma série de matérias da alta política. quando comparada com outros contextos europeus – como Inglaterra –. A aristocracia cada vez menos viu na assembleia representativa o seu principal fórum de diálogo. após 1640 Portugal passou a contar com um rei permanentemente residente no seu território. ao contrário do que se passou em Aragão. acabaram por ser os conselhos régios e as próprias instituições judiciais193.

conferiu a este órgão alguma força e prestígio. Também isso contribuiu para que. Fortea Pérez reconhece que. funcionava como factor de “resistência cultural” a iniciativas governativas mais voluntaristas e puramente executivas da Coroa. o controle constitucional foi cada vez mais desempenhado pelos conselhos palatinos e. por um mecanismo de procedimento administrativo materializado nos diversos tribunais. 219 longo de toda a segunda metade de Seiscentos. No que respeita à alegada competência legislativa das Cortes. de forma clara. deixando de exercer uma função consultiva e sendo paulatinamente substituídas. A ASSEMBLEIA DE CORTES.. Carlos V estabeleceu – em 1525 – uma Diputación del Reino. em Portugal. por si só. em todas as leis produzidas pelas Cortes era enunciado. Com efeito. por um sistema jurisdicional bastante independente. ao longo dos séculos XVI e XVII várias normas resultantes de Cortes acabaram por ser alteradas sem que os «três estados» tivessem podido pronunciar-se198. nessa função. o que. as Cortes lograram exercer uma assinalável influência sobre a legislação do reino. tanto com figuras do «estado eclesiástico» como com elementos da nobreza. perante os conselhos e tribunais . o que. Além diso. por exemplo. a partir de finais de Seiscentos. as assembleias de Cortes tenham sido postas à margem do principal processo político200. através das petições. Acresce que a cultura política do tempo continuava a ter no seu centro o primado da justiça. nas suas fileiras. sobretudo. a presença do «estado eclesiástico» e do «estado da nobreza» proporcionava às Cortes não só publicidade. Quanto à vigilância sobre o governo. uma vez que também ela participava – e dependia – desse imaginário jurisdicionalista197. Como assinalámos. cuja função era velar pelo cumprimento dos acordos de Cortes e gerir. órgãos que contavam. J. consequentemente. contribuiu para que os municípios deixassem de acreditar na eficácia dessa assembleia para resolver os seus problemas199.. em geral desprovidos de um carácter parlamentar e com uma composição menos numerosa. tal como em Castela. desde o século XVI. I. Cumpre notar que as Cortes não foram as únicas instituições representativas a actuar nos diversos reinos ibéricos. órgãos de natureza diversa. Em Castela. Seja como for. mas também autoridade moral196 e. facto que os tornava mais ágeis em termos de gestão dos assuntos governativos. pelo Conselho de Estado e pelos demais conselhos palatinos.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. que cabia ao monarca o mais eminente poder legislativo. De qualquer modo. e apesar disso. também em Portugal as Cortes foram perdendo protagonismo.. indirectamente. ou seja. Acresce que os oficiais régios tenderam a ser cada vez mais relapsos na resposta às petições entregues nas Cortes. uma maior capacidade de pressão sobre a Coroa. ao lado destas assembleias foram surgindo.

É importante frisar que a pluralidade de formas representativas a que temos vindo a fazer alusão estava intimamente relacionada com a heterogeneidade do espaço sócio-político dos séculos XVI e XVII.220 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS régios. da já referida Junta dos Três Estados (1643). a justiça distributiva das sociedades do Antigo Regime era governada por uma «igualdade geométrica». Fortea Pérez nota que. onde o princípio da igualdade pesava pouco. sobretudo quando o seu Senado se apresentava como «cabeça do reino» e falava em nome das demais cidades. Com o tempo. e em 1658 a Comisión acabaria por ser integralmente absorvida pelo Consejo de Hacienda da Coroa de Castela. porém. o direito de representação não podia assentar num único expediente representativo. As cidades. lidamos com um espaço social não-homogéneo e não-uniforme. entre outras atribuições. Como assinalou Giovanni Levi. e onde o direito de representação tinha mais em conta a qualidade do que a proporcionalidade aritmética entre as partes que compunham o todo203. Na realidade. A esta lógica se opõe. Tais partes eram muito diferentes entre si. um órgão inicialmente composto apenas por comissários nomeados pelas cidades. acima de tudo. o mesmo se podendo dizer do município de Lisboa. e profundamente hierarquizado no que toca ao estatuto de cada uma das partes que integrava o corpo político. os ministros régios conseguiram penetrar nesse órgão. por uma justiça típica de uma sociedade aristocrática e hierárquica. a pluralidade dos canais representativos coetâneos espelhava um ambiente profundamente heterogéneo em termos jurisdicionais. das juntas restritas do tempo de Filipe III e de Olivares. passou a existir uma duplicidade de órgãos representativos com competências na área fiscal202. J. foi criada a Comisión de Millones (1611). a partir da entrada em cena da Comisión de Millones. igual para todas as partes do corpo social. Como sugerimos no início deste ensaio. I. também concorriam com as Cortes. Portugal também assistiu à paulatina criação de órgãos que desempenhavam funções representativas e que eram titulares de atribuições potencialmente esvaziadores das competências das Cortes. onde cada um tinha direitos diferenciados e onde tudo o que era semelhante em status se devia unir e ser tratado com os seus semelhantes. essas diferenças. Por surgir num corpo social extremamente diversificado. eviden- . e que em 1639 se converteria num tribunal supremo sobre matérias fiscais. e a pluralidade de órgãos representativos de que falámos reflectia. e também em Castela. e. representar o reino nos períodos em que as Cortes não estavam reunidas. Cabia à Diputación. também. os problemas cuja resolução as cidades lhe confiavam201. quando negociavam directamente com o rei. Já no início do século XVII. É esse o caso de alguns dos conselhos palatinos.

momento em que foi concedido. embora tivessem tido. 221 temente. embora o confronto geral entre a Coroa e os poderes urbanos estivesse iminente em 1647. Quanto a Portugal. em última análise. No entanto. as Cortes não ficaram totalmente desprovidas de poder. Após a queda de Olivares. sem dúvida.. um excepcional protagonismo político às Cortes. A luta pela preservação dos privilégios corporativos teve lugar em outros órgãos e em outros sectores da vida política. Pedro. No caso de Castela. Para além do que acabou de ser mencionado. A ASSEMBLEIA DE CORTES. mesmo nesta fase de perda de protagonismo.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. os procuradores acabaram por não levar até ao limite a sua acção. e como assinalámos.. que as assembleias. Elliott. John H. determinados interesses de corpo207. Não obstante a concorrência que sofreram. o controle do novo imposto dos millones tornou-as capazes de desenvolver uma oposição de cariz mais constitucional. No que toca aos procuradores. no entanto. e em 1667-68. Seja como for. quando da ruptura com a Monarquia Hispânica. vimos atrás que jamais manifestaram muito empenho em usar a reunião dos «três estados» como instrumento para reconfigurar o regime de relacionamento que mantinham com o monarca português. Em plena crise. aquando do afastamento do rei D. não foram completamente inoperantes205. e ao contrário do que sucedeu com os Parlements de França. outros foram os motivos que concorreram para a marginalização das Cortes: a reunião dos «três estados» foi frequentemente substituída por conselhos (função consultiva e . a verdade é que nenhuma das assembleias representativas ibéricas funcionou como um órgão que congregasse. os tribunais e. um ano muito difícil para a monarquia206. a abertura das Cortes de 1646 também foi acompanhada por disputas com a Coroa. Os conselhos palatinos. Tal contribuiu. duas excelentes oportunidades para o fazer: em 1640. que não aceita diferenças de status e que se baseia na justiça comutativa204. pelo menos. de forma muito clara. estes dois grupos nunca encararam a assembleia como o seu principal palco de interacção com a Coroa. demonstrou. Afonso VI e da afirmação do seu irmão D. o conjunto do sistema administrativo-judicial.. conjunturalmente. foram as instâncias que. de forma homogénea. para que as Cortes jamais se tivessem tornado no principal palco de defesa dos direitos de cada um dos grupos sociais face às investidas da Coroa. exerceram o principal papel de vigilância e de controle constitucional sobre a acção da Coroa. não há dúvida de que o facto de o clero e a nobreza continuarem a comparecer nas Cortes proporcionou força moral a esta assembleia. a igualdade da proporção aritmética da sociedade democrática. por causa da concessão de plenos poderes aos procuradores. de uma forma geral.

Nessa data decidiu-se não propriamente suprimir as Cortes. por juntas (administração fiscal) e pela comunicação directa entre a Coroa a as cidades (negociação directa)208. até porque. Por último. adiar sine die a sua convocatória. os oficiais régios tornaram-se mais relapsos na resposta às petições. nos eventos cerimoniais que contavam com a participação do soberano. para não suscitar reacções adversas. caso das taxas alfandegárias. para alguns. ao «donativo». Da parte das cidades não se registou nenhuma reacção hostil a esta decisão. os reis e os seus ministros. Seja como for. convém lembrar que a decisão de 1667 tem também a ver com a circunstância de Carlos II ser um rei menor e de se recear que a assembleia se pudesse converter num foco de oposição ou de desestabilização210. sempre que introduziu novas exacções recorreu ao argumento de que o que estava em jogo não eram novas contribuições mas sim. Depois dessa data o monarca não voltou a convocar as Cortes.222 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS executiva). preferindo investir em outros canais de comunicação política e em outras formas de fiscalidade mais fáceis de introduzir sem a aprovação das Cortes. Quanto às contribuições fiscais estabelecidas em Cortes. a Coroa. apenas. por seu turno. e em vez disso. mas sim. a Coroa recorreu. embora jamais tenha declarado que não voltaria a convocar os três estados. Talvez por causa disso. com cada vez mais frequência. abandonando a reunião assim que podia. Por outro lado. um expediente fiscal que não carecia de aprovação das Cortes209. Em Portugal as últimas Cortes do Antigo Regime celebraram-se em 1697-98. a 25 de Julho de 1667. facto que. de não reunir as Cortes que o falecido Filipe IV havia deixado convocadas. o «estado eclesiástico» desenvolveu os seus próprios canais de influência. o que fez com que a Coroa olhasse para a assembleia como um órgão cada vez menos eficaz na criação de consenso em torno da fiscalidade. dispensava a convocatória da assembleia representativa. já que. As cidades e as vilas. mas a maioria dos seus membros acabava por participar. compreende-se melhor a decisão tomada pela regente de Castela Mariana de Áustria. A par disso. da sua parte. o certo é que os anos foram passando sem que as Cortes tives- . reunião que praticamente se limitou a debater questões fiscais. A nobreza e o clero continuaram a responder à convocatória. ficaram sempre muito aquém do prometido. a prática negocial com a Coroa à margem das Cortes estava já amplamente implantada. como vimos. aos poucos. cada vez mais encararam a participação nas Cortes como um dispêndio pouco compensador. a renovação das contribuições já existentes. para o clero a assembleia também foi perdendo peso no seu relacionamento com a Coroa. e em vez disso. Perante tudo isto. mostraram-se cada vez mais relutantes em chamar as Cortes.

Como tal. Na verdade. Pascoal de Melo Freire. cujo poder era partilhado com os demais corpos sociais. recusando-se a esse órgão qualquer veleidade de controle constitucional ou de limitação dos desígnios da Coroa. No entanto. Seja como for. uma atitude governativa mais abertamente voluntarista e executiva. A ASSEMBLEIA DE CORTES. Todavia.. na viragem para o período Setecentista. como uma cedência cada vez menos aceitável da parte de monarcas que se distinguiam por assumir. as Cortes passam a ser apresentadas como uma assembleia que reunia por mera opção do rei. a ausência de «assembleias dos três estados» não foi encarada como um atentado aos direitos dos vários corpos do reino. facto que travou a aprovação da reforma211. vários foram aqueles que continuaram a evocar as Cortes e a apresentá-las como um órgão que controlava a acção do monarca. foi . a doutrina de um poder régio moderado e alegadamente fiel à tradição portuguesa acabaria por vingar. ao passo que António Ribeiro dos Santos pugnava por um entendimento mais tradicional de monarquia. 223 sem sido chamadas. sintomaticamente. Depois de um longo debate. pelos círculos régios. Como acabámos de dizer. embora se tenha falado dessa assembleia a propósito de algumas das novas exacções que a Coroa foi impondo. e não obstante todo o avanço das doutrinas regalistas. por seu turno. postulava um conceito «absoluto» de realeza. encarando-as como repositório de elementos limitadores do poder régio. Bartolomé Clavero recordou que. agora sim. as Cortes do Antigo Regime voltaram a polarizar o debate político-constitucional. referindo-se às leis fundamentais e ao seu «carácter sagrado». No contexto das revoluções liberais. A «assembleia dos três estados» voltou a estar no centro do debate político no final de Setecentos.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. também não provocou qualquer escândalo. na Espanha dos primeiros anos de Oitocentos. sustentava que em Portugal nenhum órgão limitava o poder do rei.. nem como uma situação que punha em risco o equilíbrio de forças entre o rei e os estados sociais. à medida que se avançou no período de Setecentos. nem sequer para a inauguração de cada novo reinado. não foi só nesse momento que as Cortes voltaram a estar no centro do debate político-jurídico de finais de Setecentos e de início do século XIX. autor do Projecto de alteração do dito Livro II. os tribunais e o conjunto do sistema jurídico-administrativo eram garantias suficientemente fortes para resistir a iniciativas mais voluntaristas da Coroa. facto que. era para todos claro que. Ribeiro dos Santos defendeu as Cortes. foi-se instalando um ambiente político mais regalista.. no século XVIII as Cortes de Portugal jamais foram convocadas. Pascoal de Melo Freire. projecto esse que suscitou uma polémica pública sobre o «absolutismo» régio. no momento em que se projectou alterar o Livro II das Ordenações Filipinas. no qual a convocatória dos «três estados» começou a ser encarada. Nesse contexto.

«Las Ciudades.). El Mundo Urbano en la Corona de Castilla (s. Era toda uma nova leitura da política – e dos princípios constitucionais – que estava a ganhar forma. «Cortes y poder real: una perspectiva comparada» in AA. 1990. 2001. Centro de Estudios Políticos y Constitucionales-SEENM. acrescentando que os procuradores das cidades «nunca representaban la Nación»213. «Reino y Cortes: el servicio de milliones y la reestructuración del espacio fiscal en la corona de Castilla (1601-1621)» in J.). 17 (1997) pp. a debilidade das Cortes do Antigo Regime devia-se. Calderón de la Barca y la España del Barroco. 421-445. Universidad de Cantabria. I. 1990. 1992. «Entre dos servicios. «Las Cortes de Castilla y su Diputación en el reinado de Carlos II. o lugar das Cortes no sistema político do Antigo Regime. a fraca representatividade das Cortes e a sua falta de liberdade na escolha dos representantes. pp. Para os membros da dita comissão. 11 (1991) pp. 477-499. 11-34. Veja-se. NOTAS 1 Pablo Fernández Albaladejo. Estates and Representation. «Orto y ocaso de las Cortes de Castilla» in José Alcalá-Zamora & Ernest Belenguer (orgs. Cremades Griñán (orgs. Monarquía y Cortes en la corona de Castilla. Cortes de Castilla y León. pp. Revista de las Cortes Generales. Valhadolide. em boa medida. Madrid. las Cortes y el problema de la representación política en la Castilla Moderna» in Imágenes de la Diversidad. 117–138. Las ciudades y la política fiscal de Felipe II. Elliott & A. de uma forma sólida e clara. pp. 15 (III cuatrimestre. Revista de las Cortes Generales. Universidad de Valladolid.224 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS constituída uma Comissão que tinha como objectivo restabelecer a assembleia representativa212. Salamanca. Fragmentos de Monarquía. 113-208.). La España del Conde Duque de Olivares. 53-82. Las alternativas fiscales de una opción política (1590-1601)». territorio sin Cortes (siglos XV-XVII)». «The Cortes of Castile and Philip II’s Fiscal Policy». Trabajos de Historia Política. Nas Cortes da época moderna prevalecia «una forma de vana representación y una sombra de libertad». os membros da dita comissão ficaram também impressionados com a ausência de um articulado escrito e de natureza constitucional que estabelecesse. pp. Além disso. «Monarquia. de P. Fortea López & Carmen M. Pardos «Castilla. Fernández Albaladejo e J. La crisis de la hacienda real a fines del siglo XVI. à inexistência desse texto escrito. 2 José Ignacio Fortea Pérez. 779-803. «La resistencia en las Cortes» in John H. Madrid. vol. 317-337. XVI-XVIII). Valhadolide. Junta de Castilla y León. García Sanz (orgs. Las Cortes de Castilla y León en la Edad Moderna. essa comissão procurou reconstituir o modo como se processavam. Universidad de Murcia. I. desde tempos ancestrais. . Parliaments. Actas de la Segunda Etapa del Congreso Científico sobre la Historia de las Cortes de Castilla y León. 1992. Cortes y “cuestión constitucional” en Castilla durante la edad moderna». 1 (1984) pp. A. 1989. pp. também.. Ao analisarem as assembleias dos séculos antecedentes. Política y Hacienda en el Antiguo Régimen. Studia historica. Alianza. as sessões das Cortes. Reunida a partir de 1809. 63-90. Santander. os membros da dita comissão destacaram alguns dos aspectos que mais negativamente os impressionaram: antes de mais. afirmavam. Múrcia. Historia Moderna. 1997. Salamanca. VV. 1988) pp.

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Maria Helena da Cruz Coelho & J. Thompson.230 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS III a Portugal. Editorial Complutense. Juan Delgado. 17-175. em especial «Os Poderes Locais no Antigo Regime» in César Oliveira (org. 196-251. Imágenes de la Diversidad. Actas del VI Coloquio de Metodología Histórica Aplicada. Lisboa. Ley Regia de Portugal. «As Cortes de Torres Novas. I.). Santiago de Compostela. in genere.). 1973-2001. 49 (1970) pp. Cortes e Cultura Política no Portugal do século XVII.. Cosmos. El rei aonde póde. actas do Colóquio: Évora. 489-514. 45 Pedro Cardim. tanto nos domínios europeus da Coroa lusitana quanto no ultramar. Razões da política no Portugal seiscentista. pelo Centro de Estudos Históricos da Universidade Nova de Lisboa. Difel. pp. Fortea Pérez (org. 56 M. XVI-XVIII).A. 475-496. Traditio. G. Círculo de Leitores. Universidad. I. 1621-1700. González Lopo (orgs. 276-300.. 1986. Rivista Storica della Accademia. 52 João Salgado de Araújo. Itinerários e Problemáticas». veja-se. tratase de um vocábulo que não tinha uma correspondência administrativa muito clara. 1996. «Patriotismo y política exterior en la España de Carlos V y Felipe II» in Felipe Ruiz Martín (org. de Rita Costa Gomes. I. 223-260. Primera Parte… (Madrid. «La respuesta castellana ante la política internacional de Felipe II» in AA. um dos principais elementos a destacar é a inexistência de corpos intermédios entre as cidades e o reino. 1969. Lisboa. 46 Ângela Barreto Xavier. Fraude y Desobediencia Fiscal en la Corona de Castilla. cit. El Imperio de Carlos V. Procesos de Agregación y Conflictos.A. 1998. 1987. 1996. as Cortes de Évora e as reformas administrativas dos inícios do século XVI». também.). López & Domingo L. Fundación Carlos de Amberes. 47 Fernando Bouza Álvarez. Giuffrè. Novembro de 2001 (no prelo). J. 258 segs. 1997. 49 Cfr.). consulte-se. O Poder Concelhio…. os estudos de Nuno Gonçalo Monteiro. 2000. Milão.. Romero Magalhães. 48 Sobre este tema cfr. 49-104. 55 Cfr. também.A. Ramada Curto (org. Portugal en la Monarquía Hispánica. «Patronato Real e Integración Política en las Ciudades Castellanas Bajo los Austrias» in J. Acerca deste tema cumpre consultar. desde há alguns anos. . «A romano-canonical maxim: “Quod omnes tangit”». I. pp. designando simplesmente o espaço dependente das principais cidades – cfr. Junta de Castilla y León. de Beatriz Cárceles de Gea. 1998. Semantica del potere politico nella pubblicistica medievale (1100-1433). «Il principio “quod omnes tangit etc. 54 Gaines Post. pp. Para o contexto português. Apesar de o termo «província» surgir na documentação. Xunta de Galicia. Lisboa. Valhadolide. Balance de la Historiografía Modernista. Battista de Luca)». pp. Colibri. Pietro Costa. «Doctrinas y prácticas fiscales» in Roberto J. Iurisdictio. 51 Consulte-se. 50 Na linha do trabalho de edição de fontes históricas que está a ser efectuado. Bernardo García (dir. História dos Municípios e do Poder Local (Dos finais da Idade Média à União Europeia). & não aonde quer. Madrid.” nello stato della Chiesa del seicento (secondo il pensiero di G. cit. Ermini. o foral manuelino e o devir quinhentista. 1627) f. 111v. consulte-se. 2000. 2 (1987) pp.. 1998. pp. também. 2003. Santander. 34 segs. «As Cortes de 1481-1482» in D. Lisboa.). 44 Fernanda Olival. 4 (1946) pp. Revista de Ciências Históricas. O Tempo de Vasco da Gama. Madrid..). Fortea Pérez. La proyección europea de la Monarquía hispánica. Rodríguez-Salgado.A. o magnífico trabalho realizado por J. 53 No caso de Portugal. pp. El Mundo Urbano en la Corona de Castilla (s. Thompson.

75. 113. quer através dos canais cortesãos de influência política. «Celebration and Persuasion: reflections on the cultural evolution of medieval consultation». pp. 1992. 2 (1982) pp. porquanto o costume e a lei estabeleciam que só o monarca em pessoa podia chamar e presidir às Cortes. estudo que contém muitos dados sobre a percepção da política internacional nutrida pelos procuradores às Cortes de Castela. Blockmans.VV. 57 Fernando Bouza Álvarez.. Xavier Gil Pujol. 1990. pp. H... 60 A ausência do rei levantava problemas tanto para as Cortes de Aragão quanto para as da Catalunha. 61 Fred Bronner. 121-134. vol. 2003. 1988. também. o regente podia convocar as Cortes – cfr. 435-463. pp. Nocilla & L. W. «Roman Law and early representation». Giuffré Editore. 24 (1967) pp.A.. «Rappresentanza (Diritto intermedio)» in AA. 59 Em Portugal. As Cortes Medievais Portuguesas. 1964.. 1992. 18 (1943). 1529-1664» in W.. 1133-1176. 62 Thomas N. quer por meio do seu ascendente sobre o governo de algumas cidades – I. Forum. 111 segs. Ciaurro.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS.. As Cortes Medievais Portuguesas. Thompson & Pauline Croft. 543-609. Milão. 1995.P. La monarquía de Felipe II a debate. cit.. 1990. cit. mas de uma forma indirecta. Pedidos e empréstimos em Portugal durante a idade Média. «Republican Politics in Early Modern Spain…. Giuffrè Editore. cit.. Thompson & Pauline Croft. 279 segs. A Corte dos Reis Portugueses no final da Idade Média. vide. onde deparamos com vice-reis a convocar e a presidir a assembleias. 1988. Speculum. cit. pp. 64 Armindo de Sousa. porém. 1995.. 1990.. Valhadolide. Madrid. Legislative Studies Quarterly.. pp. 66 Vide Iria Gonçalves. Bicameralisme. Paolo Cappellini. Carlos José Hernando Sanchez.. pp. 1992. que os nobres tenham deixado de interferir nos trabalhos da assembleia.A. 75.A. Ministério das Finanças.. Udine. cit.. «La Unión de las Armas en el Perú. 181-204. Sdu Uitgeverij Koninginnegracht. Thompson & Pauline Croft.. vol. «Aristocracy and Representative Government…. pp. Unión de Coronas Ibéricas entre Don Manuel y Felipe II» in AA. «Aristocracy and Representative Government in Unicameral and Bicameral Institutions: the Role of the Peers in the Castilian Cortes and the English Parliament. Rappresentanze e Territori. cit.. As Cortes Medievais Portuguesas.. pp. p. na falta do rei.. Congreso Internacional de Historia . 329-387.. Blom. Parlamento Friuliano e Istituzioni Rappresentative Territoriali nell’Europa Moderna. XXXVIII. 67 Armindo de Sousa. pp. 142 segs. Difel. cit. de Schepper (orgs. Lisboa. Tweekamerstelsel vroeger en nu. 70 Gaines Post.). Sicília e Sardenha). Cfr. e também D.A. XXXVIII. 69 Tal não significa. Bisson. continuaram a fazê-lo. 63 I. SECCFC. Armindo de Sousa.). 1990. «Aristocracy and Representative Government….VV. Tal princípio foi respeitado excepto em Navarra e na Península Itálica (Nápoles. Haia. pp. «Rappresentanza politica» in AA. 1453-1463. as quais se realizaram com uma notável frequência. VV. Aspectos político-legales». 75 segs. Handelingen van de Internationale Conferentie ter gelegenheid van bet 175-jarig bestaan van de Eerste Kamer der Staten-Generaal in de Nederlanden. Enciclopedia del Diritto.. 58 Rita Costa Gomes. 464-465. 68 I. 2002. facciones y poder virreinal» in Laura Casella org.. «El parlamento del reino de Nápoles bajo Carlos V: formas de representación.A. Anuario de Estudios Americanos. 65 Armindo de Sousa. As Cortes Medievais Portuguesas. Enciclopedia del Diritto... . 231 VV. Lisboa.El Tratado de Tordesillas y su Época.A. «De un fin de siglo a otro.. p. ou na sua menoridade. p. A ASSEMBLEIA DE CORTES.. VII. Milão. Journal of maedieval studies.. 2000.

Hespanha. pp. New Haven y Londres. a troco de 80 mil ducados. «Orto y ocaso de las Cortes de Castilla»…. Jerez de la Frontera ou Oviedo . Fortea Pérez. p. pp. Thompson & Pauline Croft. «O Governo dos Áustria e a “Modernização” da constituição política portuguesa».brown. Forum. J. Defining Nations.. a oferta voltou a ser feita em 1650. Pedro Cardim. Fortea Pérez. 74. Universidad de Cantabria. 781 segs. cit. Fortea. 3722 f. 183-218. n. Em 1639 a Coroa decidiu vender outros dois votos às cidades que quisessem comprá-los. Santander. 75 Rita Costa Gomes. Fortea Pérez. «Le forme di rappresentanza nel sistema politico del Portogallo dell’Antico Regime» in Laura Casella org.A. pp. «Ciudadanía. Thompson & Pauline Croft.edu/Departments/Portuguese_Brazilian_Studies/ejph/html/issue2 /pdf/duarte. pp.pdf (Março de 2003)..A. 52 segs. 84 J. No século XVIII. 2002. las Cortes…. segundo J. 781 segs.. 73 Cfr. «Los abusos del poder: el común y el gobierno de las ciudades de Castilla trás la rebelión de las Comunidades» in J. 19 (2001) pp. Assim. cit.A. 2003. Porque nenhuma urbe se mostrou interessada. cit. 251 segs. «Orto y ocaso de las Cortes de Castilla»…. Assim. 72 José Ignacio Fortea Pérez. cit. «Aristocracy and Representative Government…. enquanto que o outro foi comprado por Palência. 424. 1992.A. 7 . em especial porque em Castela a Coroa usou a venda de lugares nas Cortes como fonte de rendimento..232 71 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS I. Luís Miguel Duarte. 77 Biblioteca Nacional.artigo disponível na Internet no seguinte sítio: http://www. Manuscrits. Violencia. Dessa forma. I. As Cortes Medievais Portuguesas. Seja como for.mas nenhuma alcançou os seus objectivos. n. Immigrants and Citizens in Early Modern Spain and Spanish America. 81 Armindo de Sousa. Málaga. «As Cortes de 1481-1482…. «Las Ciudades. pp.. Fortea Pérez. cit.. p.). 76 I. um dos votos foi adquirido colectivamente pelas cidades da Extremadura.A. «Aristocracy and Representative Government…. Volume 1. Juan Gelabert & T. cit. Lisboa. 134v.. Mantecón (orgs. Este dispositivo conheceu algumas modificações. I.. 78 I. I. Udine. I. Furor et rabies. Rappresentanze e Territori. Yale University Press. 1997. 80 Cfr. Fortea Pérez. patria y humanismo cívico en el Aragón foral: Juan Costa». conflicto y marginalización en la Edad Moderna.. 199. 74. Nessa ocasião. p. p. 83 Xavier Gil Pujol.. . 79 J. 81-101.). Fazer e desfazer a história. I.caso de Écija. p.. Parlamento Friuliano e Istituzioni Rappresentative Territoriali nell’Europa Moderna. 1990. 2003. Penélope. na sua versão final as Cortes de Castela contavam com 21 cidades com direito de voto – J.. 74 António M.A. Palência conseguiu realizar uma antiga pretensão: separar-se da cidade de Toro. 1992. outras cidades negociaram o seu direito de voto . cit. pp. Thompson & Pauline Croft. «The Portuguese Mediaeval Parliament: Are We Asking the Right Questions?». «Aristocracy and Representative Government…. 780 segs. I. 75.º 2 (Fevereiro de 1989) pp. 82 Tamar Herzog. E-Journal of Portuguese History. 2 (Winter 2003) p. cit. 1998. as Cortes de Castela deixaram de ser convocadas antes que Palência pudesse exercer o seu direito de voto. cit. 1992. em 1625 a Galiza conseguiu um voto em Cortes a troco de um serviço de 100 mil ducados. cód. «Orto y ocaso de las Cortes de Castilla»…. 215-236.

«Formas de elección de los procuradores de Cortes en Murcia (1444-1450). a manifestação da sua vontade política. o arcebispo local. aceitava. «Las Ciudades. cit.º 8 (199) pp. de J. cit. As autoridades urbanas de Cambrai rejeitaram o seu anterior soberano. no caso de Cambrai.. 99-120.. e como recorda Armindo de Sousa. pp. Fortea Pérez. cit. M. 1997. I. 784 segs. Obradoiro de Historia Moderna. 1989. 63-71. etc. «Organización e Integración Política de la Ciudades Gallegas en Tiempos de Felipe II».. 90 J.tinham uma leitura eminentemente popular. Centralismo y Autonomismo en los siglos XVI-XVII... Homenaje al Profesor Jesús Lalinde Abadía. 233 par destas reflexões de carácter “abstracto”. las Cortes y el problema de la representación política…. Cerdá y Ruiz-Funes. Xavier Gil Pujol.. «Republican Politics in Early Modern Spain…. Universidad de Barcelona. 1990. 92 O que não significa que o assunto não tenha vindo a lume. na condição de que os seus privilégios fossem respeitados.T. 267 segs. 1999. 782 segs. O mesmo Filipe II que negava às cidades ibéricas estas formas de voluntarismo. de J. É esse o caso de episódios em que certas comunidades fizeram demonstrações de voluntarismo. pp.. 91 J. pp. 93 Marcello Caetano.d.º 9/10 (1993) pp. 2002. consulte-se P. Fortea Pérez. cit.º 4 (1989) pp. «Cortes e Procuradores do reinado de D. a este respeito. e escolheram colocar-se sob a soberania e protecção de Filipe II. Alguns . 227 segs. A ASSEMBLEIA DE CORTES... Iglesia Ferreirós (dir. eleição original.. pp. alguns acontecimentos concorreram para perturbar a situação. acerca deste tema consulte-se. Carretero Zamora. para o contexto portugués. também. n. 173-194.. cidade localizada entre os Países Baixos espanhóis e a França. 87 Na Catalunha estas alusões tinham uma especial ressonância política. E. João IV». Cfr. Fortea Pérez. «La interferencia del Rey en la designación y poderes de los procuradores en las Cortes castellano-leonesas (siglos XVI-XVII)» in A. n. A crise sucessória de Portugal também suscitou o mesmo tipo de reflexões. Este interessantíssimo episódio foi estudado por José Javier Ruiz Ibáñez em Felipe II y Cambrai: el consenso del pueblo. Instituto de Historia de España. Madrid. Fortea Pérez. 86 Xavier Gil Pujol. abdicando de um rei e escolhendo abraçar. Fazer e desfazer a história. o exemplo de Cambrai. pp. 439 segs. por sua livre vontade. n. cumpre notar que não existia apenas uma visão do “constitucionalismo catalão”.F. cit. Barcelona. também.. coexistentes umas com as outras. pp. 782 segs. En torno a unos documentos de la ciudad y el Rey» in AA. 2002. I. para o espaço galego vide. I. cit. Sarrión Gualda. Estudios en Homenaje a Don Claudio Sánchez Albornoz en sus 90 años. SECCFC.. «Régimen electoral de Madrid a las procuraciones en Cortes: Las ordenanzas electorales de los siglos XVI y XVII». cit. s. La soberanía entre la práctica y la teoría política (1595-1677).ENTRE 85 A O CENTRO E AS PERIFERIAS.. «Orto y ocaso de las Cortes de Castilla»…. Buenos Aires. consulte-se. de María López Díaz. mas sim várias leituras do tema.). Facultad de Filosofia y Letras. desde o período tardo-medieval debateu-se a questão do voto imperativo dos procuradores – As Cortes Medievais Portuguesas. I. pp. «Orto y ocaso de las Cortes de Castilla»…. Homenaje al Prof.. «Republican Politics in Early Modern Spain…. De facto. 279 segs.como Andreu Bosch . Cardim. Penélope. Gil Pujol cita. 89 J. de J. «Orto y ocaso de las Cortes de Castilla»….VV. Bethencourt Massieu.). 88 J. Desde há muito que o principado se auto-representava como uma comunidade política de base contratual (origens carolíngias.. e. a fidelidade de um outro monarca. «Da Antiga Organização dos Mesteres» in Franz-Paul Langhans. Todavia. encarando as Cortes catalãs e a Generalitat como as instâncias representativas por excelência. As .

de Joaquim Romero Magalhães. 355 segs. «Lembrança do que sucedeu na morte de D. 271 segs. Maria. Ramada Curto. todo o processo decorreu sem que as Cortes fossem consultadas – As Cortes Medievais Portuguesas. III de José Mattoso (dir. Lisboa.. pp. pp..) No Alvorocer da Modernidade 1480-1620). Sebastião... 73-78. 1736-). 1993. filho de D. nesta ocasião. Fundação da Casa de Bragança. de D.M. As Regências na Menoridade de D. cit. Manuel de Menezes. 1998. 340 segs. 1453-1463..... 1730). Manuel. Chronica do Muito Alto. I. 1986. Subsídios para a sua História. cit. pp. 1995.. «Parliamentary Life in the Crown of Aragon…. Manuel de Menezes. II (1970) pp. . pp. 102 Capitolos de Cortes E Leys que sobre alguuns delles fezeram… (Lisboa. E Muito Esclarecido principe D. 1998. com prefácio e notas do prof.. M. cit. Lisboa. L. e Maria do Rosário Themudo Barata Azevedo Cruz. 340 segs. 1454. 199 segs. Romero Magalhães (coord. Sebastião por Rei de Portugal. As Regências na Menoridade de D. Elementos para uma história estrutural.. 18 segs.. Lisboa.. I.-C. e Conquistas em sua menoridade. 245-264. Sebastião Decimosexto Rey de Portugal.. D. 96 Fernando Bouza Álvarez. Sebastião. Centro de História da Universidade de Lisboa. 1. pp. durante a Idade Média a intervenção das Cortes em matérias sucessórias não era vinculativa.). 106 Maria do Rosário Themudo Barata Azevedo Cruz. vol. que comprehendem o Governo del rey D. João III. seu neto…». pp. Lisboa. «De un fin de siglo a otro….. Chronista mòr deste Reyno. Anais de D. cit. cit. Acerca das Cortes do tempo de D. 1943. Lisboa.. Cardim. Sebastião. 1995. 95 Cfr. I-LXXXIII. 97 Como notou Armindo de Sousa. (Lisboa. Officina Ferreyriana. 108 Fernando Bouza Álvarez. pp. 107 Fernando Bouza Álvarez. cit... pp.... vol. pp. Chronica do Muito Alto. cit. 105 Maria do Rosário Themudo Barata Azevedo Cruz. Imprensa Nacional. cit.. «De un fin de siglo a otro…. A única excepção foi a reunião de 1390-91. 1992.. 256 segs. Vila Viçosa. f. E Muito Esclarecido principe D. Lisboa. Rita Costa Gomes. 162 segs. pp.. João 3. Luís Miguel Duarte. as Cortes foram chamadas para exercer uma função até aí pouco frequente: o juramento do herdeiro ao trono. 1998. 94 Xavier Gil Pujol. João III” de António de Castilho».. Manoel de Menezes.VV. vol. e levantamento do principe D.N. e Diogo Barbosa Machado. 104 Acerca das Cortes de 1562 consulte-se. p. «As Cortes» in J. e pp. noutras conjunturas. p. Cortes e Cultura Política. pp.. João III.. Difel. História de Portugal. Arquivos do Centro Cultural Português. Vol. «As Cortes de Lisboa de 1502» in AA... (Lisboa. M. P. e da rainha D. 289 segs. porém. composta por D.. «O Estado Manuelino: a onça e o elefante» in O tempo de Vasco da Gama.. 190-191. pp.. 103 Cfr. Nalguns casos os três estados foram chamados para decidir ou sancionar a mudança de reinado. pp. de D. 54-57v. 100 Joaquim Veríssimo Serrão. Sebastião.. 1990. 99 Saúl António Gomes. 317-347. 98 Cfr. Sebastião. «A “Crónica de D. Livraria Sá da Costa. cit. 1995. Rodrigues Lapa. Mss. Joseph Antonio da Sylva. Duarte lembra que..234 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Corporações dos Ofícios Mecânicos. 1938. 1992. capítulo 2. consulte-se. «As Cortes de 1481-1482…. cit. 1539). Memorias para a Historia de Portugal. 2002. Germão Galharde. Círculo de Leitores. 50 segs. «De un fin de siglo a otro…. 101 Frei Luís de Sousa. pp. II. 1992. dir. 377. Primeiras Jornadas de História Moderna. 1730. As Regências na Menoridade de D.

119 O juramento teve lugar a 16 de Abril. 114 «Carta régia à cidade de Lisboa». No Alvorocer da Modernidade…. CML. nem he couza para se duvidar» (sem data. Fernando Bouza Álvarez... Dom Quixote.. Lisboa. 8.). tese de dout. Empresa Nacional de Publicidade. Lisboa. «A questão jurídica na crise dinástica» in J. Filipe foi jurado a 30 de Janeiro de 1583. Poder e poderes na crise sucessória portuguesa (1578-1581). em Lisboa. 51-VI-46 f. Romero Magalhães (coord. 1999. 1995. o «Parecer sobre se podia El rey fazer mercê aos Povos. António. Portugal nas cartas de D. Felipe II. 4 de Janeiro de 1581. 213 segs.ENTRE 109 O CENTRO E AS PERIFERIAS. Legajo 415. Elvas. Filipe I às suas filhas e os tempos de um Príncipe Moderno» in Cartas a duas infantas meninas.A. por exemplo. Ver também.. Lisboa. Dom Quixote. Faculdade de Letras. . 118 Fernando Bouza Álvarez.. e se resolue que sim podia. 22 segs. Universidad Complutense. No Alvorocer da Modernidade….A. 1933. 174v. 1946. «Las Ciudades. 124 J. cit. Yale. XII. Madrid. 1999 (2 vols. dirigida às suas filhas. Universidade de Lisboa. pp. pp. p. cit. 1999. Dom Quixote. 183. p. duas semanas mais tarde. Lisboa. Eduardo Freire de Oliveira (org. Carlos Margaça Veiga. «De un fin de siglo a otro…. Fortea Pérez. como fez nas Cortes de Thomar de os desobrigar dos direitos dos Portos Secos.Cartas a duas infantas meninas. 1903. pp. p. Universidade de Lisboa. Coimbra. 111 Mafalda Soares da Cunha. 235 Edward Peters. Fernando Bouza Álvarez. o monarca hispânico partia para Castela . pp. 1997. «A questão jurídica na crise dinástica» in J. 1999. 1992. ca. «Introdução.)... O Interregno dos Governadores. p.. 1987. A ASSEMBLEIA DE CORTES. 120 Erasmo Buceta. Elementos para a História do Município de Lisboa. cit. Portugal en la Monarquía Hispánica. Portugal en la Monarquía Hispánica (1580-1640). pp. pp. O Interregno dos Governadores e o Breve Reinado de D. cit.. 1993. 113 José Maria de Queirós Velozo. Romero Magalhães (coord. Romero Magalhães (coord. José Maria de Queirós Velozo. cit. 1458 segs. Em carta de 1 de Maio. de Carlos Margaça Veiga. idem. Anuario de Historia del Derecho Español. Filipe manifestava já a intenção de viajar para Lisboa . New Haven. 1993. D. 121 O príncipe D.).. 61 segs. Lisboa.. cit. Lisboa. de Letras. cód. 552-559. 117 Archivo General de Simancas. Estado. las Cortes de Tomar y la génesis del Portugal Católico. Rex Inutilis in Medieval Law and Literature. pp. O reinado de D.Cartas a duas infantas meninas. 122 Consulte-se. 112 Cfr. no Paço da Ribeira. 110 Mafalda Soares da Cunha. policopiados). The Shadow King....). 1970. Lisboa. Mafalda Soares da Cunha. No Alvorocer da Modernidade…. 1987. cit. IAC. las Cortes y el problema de la representación política…. 1956. p. Henrique.. Biblioteca da Ajuda. 236 segs. «Dictamen del Conde de Salinas en que se examinan las prerrogativas de la Corona y de las Cortes de Portugal». 76. 123 I. 558 segs. Fac. 115 Cfr. António Prior do Crato. O reinado do Cardeal D.. 56 segs. 116 O melhor estudo sobre esta temática é o de Fernando Bouza Álvarez. 1993. 1953.. 1953.. 1999. pp. 1595). Lisboa. Poder e Poderes na crise sucessória portuguesa (1578-1581). 427-428. 14. Academia Portuguesa da História. cit. Lisboa. I. Thompson & Pauline Croft. «A questão jurídica na crise dinástica» in J. Joaquim Veríssimo Serrão. 557 segs. pp. «Aristocracy and Representative Government…..

1989. Thomas Iunti. maxime. 1992. ao reyno de Portugal e rellação do solene recebimento que nelle se lhe fez… (Madrid. Le Portugal sous Philippe III d’Espagne…. I. «O Governo dos Áustria…. Filipe II. pp. cit. Sá da Costa. Fernando Bouza Álvarez. 55 segs. «Ritos e cerimónias da monarquia em Portugal (séculos XVI a XVIII)» in AA. 1933.. cit. «O Governo dos Áustria…. cit. cit.º 0 (2003) pp. 137 Erasmo Buceta. «Entre dos servicios. 201-265. 1987. pp. 1982. Pedro Gan Giménez. Acerca desta reunião de Cortes consulte-se F. Essays in honour of John H. Elliott. cit. Spain. Santiago de Luxán Meléndez. 1989.. cit. 1987.. a propaganda régia encarregou-se de apresentar o evento como um momento de intensa comunhão entre D. 1991.. L’action de Diego de Silva y Mendoza. Université des Langues et Lettres de Grenoble. 132 Acerca do Conselho de Portugal consulte-se.. Livraria Minerva. «La Jornada de Felipe III a Portugal en 1619 y la arquitectura efémera» in Pedro Dias (coord. Grenoble. Filipe II e os seus vassalos de Portugal – cfr. Ribeiro da Silva. 107 segs. 130 Ernest Belenguer Cebrià. pp. A Memória da Nação. 131 Claude Gaillard. 1997. 1994.Thompson. «Castile. 1580-1640.. 63-90. Don Felipe III deste nombre. 1933. «Orto y ocaso de las Cortes de Castilla»….). 5-6. Itinerários e Problemáticas». Europe and the Atlantic world. Viagem da Catholica Real Magestade del Rey D. «Dictamen del Conde de Salinas…. n. D.. Cambridge University Press. F.A. Apesar de as Cortes de 1619 terem ficado aquém do que os portugueses esperavam. Parker (orgs.. 35. pp. 4. 78. 129 I.. 1987. 1998. 136 Cfr. As relações artísticas entre Portugal e Espanha na época das Descobertas. cit.. Madrid. A Cultura Política em Portugal (1578-1642). S. sus fundamentos sociales y sus caracteres nacionales. Pizarro Gómez.. 123-146.. I. a gravura da sala de Cortes inserida na famosa obra de João Baptista Lavanha. cit. Cambridge. 792-795.).A. 1933. 1995. 135 Erasmo Buceta. 6. Revista de Ciências Históricas. Jacobo Sanz Hermida. Thompson & Pauline Croft. pp. 140 segs. 407-431.. cit. p... Fortea Pérez. p. 1987. 826 segs. «La jornada de Felipe III a Portugal (1619)» Chronica Nova. Portugal en la Monarquía Hispánica (1580-1640). 1988. Revista de Estudos Ibéricos. 2 (1987) pp. Portugal en la Monarquía Hispánica. 139 Claude Gaillard. p. cit.VV. Península. Ramada Curto. 134 Acerca do protagonismo da Câmara de Lisboa no período filipino. ritos e negócios. 53 segs.. S. 128 I.A. dissertação de doutoramento. 311 segs. pp. pp. «A viagem de Filipe III. Le Portugal sous Philippe III d’Espagne..236 125 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS J. Comportamentos. pp. pp. Spain and the monarchy: the political community from ‘patria natural’ to ‘patria nacional’» in R. «Dictamen del Conde de Salinas…. 223-260. Lisboa. «Un viaje conflictivo: relaciones de sucesos para la Jornada del Rey N. 127 J. 346 segs.A. 289-320. La crisis de la hacienda real…. 133 Erasmo Buceta. pp. «Aristocracy and Representative Government….J. N. D. Francisco Ribeiro da Silva. 126 António Manuel Hespanha... pp. António Manuel Hespanha. 321 segs. Editorial de la Universidad Complutense. 223-260.. pp. p. 19 (1991) pp. 1622). . Lisboa.. cit. cit. Fortea Pérez. cfr. «A viagem de Filipe III a Portugal. El Consejo de Portugal. pp. 138 Fernando Bouza Álvarez... Universidade Nova de Lisboa. «Dictamen del Conde de Salinas…. Kagan & G. al Reyno de Portugal (1619)». pp. cit. Coimbra. Ramada Curto. La Revolución de 1640 en Portugal. 1982. «La Monarquía Hispánica desde la perspectiva de Cataluña…..

Fazer e desfazer a história. Ideologia Política e Teoria do Estado…. Memória e juízo do Portugal dos Filipes». 865 segs. de Antonio Álvarez-Ossorio.-F. Relaciones. . I. Cosmos. Journal of European Economic History. 953. consulte-se.. cit. 1987. 161-188. 135 segs. Le Portugal au temps du comte-duc d’Olivares (1621-1640). 239-291.º 12 (1992) pp.. Portugal en la Monarquía Hispánica. Pedralbes. Biblos. 236 segs. Nobres e luta política no Portugal de Olivares» in Portugal no Tempo dos Filipes. 1991. o Protectorado também implementou um parlamento britânico com uma só câmara (1654) . 1580-1640».. 7-35. pp. Política. n. pp.. cit. «Dinámicas políticas en el Portugal de Felipe III (1598-1621)». 142 Luís Reis Torgal. 154 Algo de semelhante ter-se-á passado em Cambrai.. 545-562. 390 segs. 7130 – Memorial de Don Agustín Manuel de Vasconcelos sobre las advertencias a la juridizion y a la hazienda del reyno de Portugal.. pp. Juan José de Áustria y el reino paccionado de Aragón (1669-1678)». 152 Luca Mannori y Bernardo Sordi.. Serie: Derecho. Madrid. pp. anos mais tarde. 2002. Istituzioni e diritto. cit. Poder e Oposição Política. 2001. Maurizio (org. Revista de la Facultad de Ciencias Humanas y Sociales de la Universidad Pública de Navarra. 169-211.. 231-233. 146 Fernando Bouza Álvarez.. Consejos. 1989. cit.73 (1998) pp. 13 (1990) págs. 423 segs. Schaub. «Giustizia e amministrazione». Estudios de historia comparada.. Casa de Velázquez. Madrid. «Fueros.. pp. 149 Biblioteca Nacional... cit. António de Oliveira. «El conde-duque de Olivares y los tribunales de la Corte: oposición política y conflicto constitucional». 147 Xavier Gil Pujol nota que em Inglaterra. pp. 201 segs. de Jesús Morales Arrizabalaga. em Outubro de 1595. cit. Escritos seleccionados. «O Governo dos Áustria…. 2002. Cuadernos de investigación histórica. 141 Jean-Frédéric Schaub. Le Portugal au temps du comte-duc d’Olivares…. 148 Fernando Bouza Álvarez.. in Fioravanti.. 1987. Valência... pp. 50-73. 153 John H. pp. Representações (1580-1668). quando os seus habitantes habitantes optaram por aclamar Filipe II como o seu novo soberano. Penélope. também.. pp. 61 segs. Romero Magalhães. Veja-se. n. Fernando Bouza Álvarez. cit.«Parliamentary Life in the Crown of Aragon…. 9-10 (1993) pp. pp. Madrid. Lo Stato Moderno in Europa. 52 (1976). «1640 perante o Estatuto de Tomar. Peter Thomas Rooney.. 145 Archivo Historico Nacional. Fernando Bouza Álvarez. revista do Colegio de Michoacan. 2001. «Una sociedad no revolucionaria: Castilla en la década de 1640» in España en Europa. 130 segs. 207 segs. A ASSEMBLEIA DE CORTES. 144 Jean-Frédéric Schaub. «1637: motins da fome». 17 de Outubro de 1638.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. cit. 150 Cfr.. 23 83) (1994) pp. 2002.. 868 segs.. 1999. J.. Consideraciones de método y documentos para su interpretación» in Huarte de San Juan.. México. f. Mss. Universitat de València. 17-27. Para uma boa comparação com a Coroa de Aragão. onde os «Fueros de Sobrarbe» exerceram um efeito galvanizador semelhante ao das «actas» das Cortes de Lamego.. Portugal en la Monarquía Hispánica. «A nobreza portuguesa e a corte de Madrid entre 1630 e 1640.. Cortes y clientelas: el mito de Sobrarbe. Le conflit de juridictions comme exercice de la politique. Bari. Laterza. 151 J.. 143 Cfr. Lisboa. «Los Fueros de Sobrarbe como discurso político. Movimentos Sociais. pp. um episódio estudado por José Javier Ruiz Ibáñez em Felipe II y Cambrai. Cultura. 2002. 2000. pp. cit. 237 140 António Manuel Hespanha. leg. 161 segs. vol. idem. Elliott. «Habsburg Fiscal Policies in Portugal. 1 (1994) pp. Beatriz Cárceles de Gea..)..

Cardim. 164 Cfr. O Antigo Regime (1620-1807). Madrid. quando Olivares resolveu convocar as Corts tendo em vista fazer aprovar um novo pedido fiscal.. Power and Social Meaning (1400-1750). Lourenço de Anvers. 162 Cfr. Las Jurisdicciones.. f. 1644). A convocató- . que celebró con el Rey christianissimo.. Cortes e Cultura Política. e 244 segs. pp. Lisboa. 1641). 32 segs. M.. Rey de dicho Reyno. 386 segs. con le quali si proua. Acerca deste livro. e divulgado em nome do mesmo reyno. Biblioteca Nacional.. 4.. em justificação de sua acção… (Lisboa. (Lisboa. 351-368. Direito Constitucional. cfr. Mss. (Lisboa. Lexicoteca.. «Ceremonial. 67 segs. cit.. con las razones. «O processo político (1621-1822)» in História de Portugal. 2372. ordenado. y Político: Por Iuan Baptista Moreli Doctor in Vtroque. 2002.. Ivsta acclamação do serenissimo Rey de Portvgal Dom Ioão 157 António Barbas Homem. pp. I. consulte-se. cit. p. 1968. 1996. y otros Principes. 1-3. Palimage – European Science Foundation. o IV. pp.) Religious Cerimonials and Images. «Principios de gobierno urbano en la Castilla del siglo XVI» in Enrique Martínez Ruiz & Magdalena de Pazzis Pi (coords. pp. Giovanni IV. A Formação do conceito de Constituição. Fernando Dores Costa. Madrid. 2002. Paulo Craesbeeck. cit. Faculdade de Direito. 1642). José Mattoso. pp. che il suo Ambasciatore mandato in Roma deue esser accettato del Pontefice. 158 159 Acerca da presença do conceito de pactum subiectionis na paisagem política ibérica. Iuannetin Pennoto. Iuan IV.. Cardim. Discurso Moral. Retenção. pp.). Coimbra. Lei Fundamental e Lei Constitucional. coord.. (Turim. Raggioni del Ré di Portogallo D.. vol. 231 segs. 1642). Con vna breue relatione del successo nell’elettione del nuouo Rè. f. António Alvarez. Lisboa. 161 Lívio Giotta.). ISCSPU. cfr. 160 Fulgêncio Leitão. Tratado analytico diuidido em tres partes. Col Stabilimento Fatto nella Corti dalli tre Stadi di quel Regno et Alcvne Allegationi Giuridicopolitiche. O Poder Político no Renascimento Português. 1648). dir. «As forças sociais perante a guerra: as Cortes de 1645-46 e de 1653-54».. 238. Relatório apresentado no Curso de Mestrado. Tradotto dalla Lingva Portvghese nell’Italiana per Informatione de Signori Italiani da Liuio Giotta (Lisboa. y causa de la Confederación. de A.. political allegiance and religious constraints in 17th century Portugal» in José Pedro Paiva (org. 38 segs. XXXVI (161) (2002) pp. 2002. 163 P.. 156 Francisco Velasco de Gouveia. 1981. Cardim. vol. 165 Segundo Xavier Gil Pujol («Parliamentary Life in the Crown of Aragon…. Contributos para uma história do Direito Público. 1147-1181. I. 19. e tal memória terá sido determinante em Junho de 1640. 1998. P.238 155 «Deste OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS papel se há de formar la platica del Embaxador de Roma al Pontifice para que no admita la Embaxada del Obispo de Lamego y proceda en causas contra Portugal». cap.. Ideologia Política. pp. As cortes de Lamego são «a verdadeyra instituição do Reyno» escreve João Pinto Ribeiro em Uzurpação. 184 segs. J. Reduccion. 1985. Lisboa. de Luís Reis Torgal. y en la Sagrada Teología. Hespanha. pp. na Catalunha existia uma forte memória de governação republicana. p. Universidade de Lisboa. Fortea Pérez. Análise Social. Restituycion del Reyno de Portugal a la Serenissima Casa de Bragança en la Real Persona de D. vol. Estas «actas» foram oportunamente impressas em 1641: Cortes Primeiras que el Rey Dom Afonso Henriquez celebrou em Lamego aos Tres Estados depois de ser confirmado pelo Sumo Pontifice por Rey deste Reyno. Martim de Albuquerque. Actas Editorial. 261-308. Lourenço de Anvers. 242 segs. P. VIII. Restauração de Portugal.

Johannes Jansson. (Estocolmo. Londres 1655-1657. com introdução. 1642).I. Limencop. no qual o autor analisa as várias opiniões sobre o tema. Lourenço de Anveres. Rey de Suecia. 1982. Centenário da Restauração. pp.. Espacios de Poder.. Acerca deste tema é imprescindível a consulta do estudo clássico de John H. 1998. 562-587. 1989 (2 vols. 408 segs. 169 Cfr. informação. Razões da política no Portugal seiscentista. 719 segs. A ASSEMBLEIA DE CORTES. XXXII (1993) pp. Contiene la tercia. Todavia. Cambridge University Press. pois os representantes recusaram-se a comparecer. 1940. Lisboa. Diplomata e Político. (Estocolmo.. Em vez da Coroa. Tacito Portuguez. vol. 1655). 133 segs. 2002. Madrid. Johannes Jansson.. 239 ria foi expedida. in genere a obra de João Francisco Marques. Rio de Janeiro. 172 E. pois nas décadas que se seguiram a assembleia representativa perdeu boa parte da projecção política de que momentaneamente gozara. cfr. 141 segs. Ivizio o Vaticinio Politico Al Noble Reyno de Svecia: Debaxo de la conducta del Muy Alto. Arquivo da Universidade.. Ioão IV para paz. Cambridge. 171 Cfr. The political applications of a Philosophical Maxim».. em especial pp. 222v. segundo apógrafo inédito da Biblioteca Nacional.. A Study in the Decline of Spain (1598-1640). Cortes. 173 Citado por Edgar Prestage. Arquivos do Centro Cultural Português.R. Colibri. The Revolt of the Catalans. p. I. Esta reunião – que não foi convocada pelo rei – desenvolveu uma actividade muito intensa. 2. para as Corts catalãs a conjuntura de 1640 representou um breve momento de protagonismo. Vida. não chegando a nenhuma conclusão taxativa. 1642-1644». Elliott.).ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. em especial A Parenética Portuguesa e a Restauração. Imprensa da Universidade.A.. 122 segs. p. 22. e Morte. embaixador em Madrid. Lisboa. 1963. 175 Cfr. 1926. 105. para o secretário de Estado Francisco Correia de Lacerda. 29-50. (devo esta sugestiva referência a Rafael Valladares Ramirez).. P. 1673. y quinta parte de la segunda. Lisboa. Ciudades y Villas.C. foi a Diputació a entidade que conseguiu congregar os representantes do Principado. 1655) inclui um capítulo sobre impostos intitulado «Apunta se las condiciones que deven currir para imponer nuebos pechos.. y Poderoso Principe Carlos Gustavo. 167 Carta de D. Brown. Abril. revisão de Lígia Cruz. alegando que não poderiam votar com liberdade encontrando-se um exército régio em território catalão. 166 Francisco Manuel de Melo. «Correspondance diplomatique de François Lanier résident de France à Lisbonne. & não aonde quer. Bravo Losano (org. cód. Entre los Habsburgo y los Braganza» in J..). f. notas de Afrânio Peixoto. Coimbra. Coimbra. Stvdia Gratiana. Rodolfo Garcia e Pedro Calmon. & conseruação de seus Reynos. in genere Ângela Barreto Xavier.N. Disputa sse si deven imponer se de consentimiento de los tres Estados del Reyno (Cortes)». 168 Um bom exemplo: Avizo Exortatório aos Fidelíssimos Três estados do felicíssimo Reyno de Portugal. 15 (1972) pp. quarta. . 132. Dittos e Feytos de El-Rei Dom João IV. 170 O livro de António da Silva e Sousa. El rei aonde póde. & Senhorios… (Lisboa. «La Corona y las Autoridades Urbanas en el Portugal del Antíguo Régimen. seguido de Tomo Segvndo del Iuizio o Vaticinio Politico Al Noble Reyno de Svecia. y la tertercia de la obra. 49-X-6. 1640-1668. Cardim. mas a reunião não chegou a celebrar-se. Acerca da articulação entre a pregação e a política. pp. Ordenado por Ioão Rabello Vellozo que muito dezeja o seruiço de Deos & o de sua Augusta Magestade el rey D. Frei Domingos do Rosário.º marquês de Gouveia. Biblioteca da Ajuda. João da Silva. edição de Manuel Lopes de Almeida. «Cessante Causa and the taxes of the last Capetians. 35 174 Correspondência diplomática de Francisco Ferreira Rebelo.

261 segs. 1967. Biblioteca da Ajuda. Maria Fernanda Bicalho. VV. 1998. 1998. «A constituição do Império português. Mapfre. Rio de Janeiro. 285 segs.. 2001. Penélope. 181 Fred Bronner. O Antigo Regime nos Trópicos. portanto. 185 E. 1138. Cabral de Mello. The Municipal Councils of Goa. org. Topbooks. 179 Fred Bronner. a 14-3-1628 – cfr. cit. «La Unión de las Armas en el Perú…. cód. e. Portuguese Society in the Tropics. Dinâmicas políticas no Brasil no tempo de Filipe II de Portugal». uma certa capacidade para articular posições à escala regional. Bahia and Luanda. «La Constitución de la sociedad política» in Ismael Sánchez Bella. pp. Historia del Derecho Indiano. Olinda Restaurada. 27 (2002) pp.. Hespanha... pp. cit. pp. vol. 1980. Alberto de la Hera & Carlos Dias Rementeria. Revista de História e Ciências Sociais. Lisboa. 188 Guida 189 «Procuradores que estão por definidores com voto e declaração dos que estão com alternativa em as Cortes que se comessarão em 22 de Outubro de 1653». 177 Carlos Dias Rementeria. 51-VI-19. 186 As cidades e vilas do reino também costumavam preparar petições conjuntas. 190 Maria de Fátima Gouvêa.. 184. 2003. Do Índico ao Atlântico (1570-1697).. Marques. tuguês (1645-1808)» in AA. 345-347. n. Guerra e Açúcar no Nordeste. 7-36. «Política cortesana y administración en Portugal durante la segunda mitad del siglo XVII» in José Javier Ruiz Ibáñez (org. Chauduri.. O Antigo Regime nos Trópicos: A Dinâmica Imperial Portuguesa (séculos XVI-XVIII). Seminario Extraordi- 192 . pp. A Monarquia Portuguesa e a colonização da América.. 1992. «La Unión de las Armas en el Perú. «Poder Político e administração do complexo atlântico por- 191 Acerca do tema consulte-se. I (1973) pp. Rio de Janeiro. Junta de Castilla y León. Em algumas das sessões de Cortes é possível detectar sinais de concertação entre procuradores oriundos de uma mesma região. Valhadolide. O Rei no Espelho.. «O Estado do Brasil na União Ibérica…. veja-se. Civilização Brasileira. p. «La Constitución de la sociedad política…. 180 Carta escrita em Lima. Rio de Janeiro. O Rio de Janeiro no século XVIII.). 1992. 165-188. de Rodrigo Bentes Monteiro. pp. «A concessão do Foro de Cidade em Portugal dos séculos XII a XIX». 1135 segs. Bethencourt & K. «O Estado do Brasil na União Ibérica.. 1139. de João Fragoso. também. denotando. de F. org. cit. São Paulo.. org. p. 182 A. 1630-1654. Todavia. Madrid. 187 Guida Marques. A Cidade e o Império. 167-190. M.. Revisão de alguns enviesamentos correntes» in AA. estas atitudes coexistiam com tomadas de posição eminentemente particularistas e completamente desprovidas de qualquer sentido de solidariedade para com os problemas que afectavam o resto do «reino e conquistas». 183 Consulte-se in genere a Historia da Expansão Portuguesa. de João Fragoso. Portugaliae Historica. cit.. 1967. Madison. Macao.. Hucitec. La Rebellión de Portugal. Lisboa. 2002. 1998. VV. 1967. 30 segs.. cit. 13-80. fs. pp. Rio de Janeiro. A Cidade e o Império. Fred Bronner. A dinâmica Imperial Portuguesa (séculos XVI-XVIII). 2002. Guerra. cit. 184 Charles Boxer. pp. 1510-1800. Consulte-se P. 2001. 1640-1720. conflicto y poderes en la Monarquía Hispánica (1640-1680). 178 Carlos Dias Rementeria. Cardim. de Joaquim Veríssimo Serrão. «La Unión de las Armas en el Perú….240 176 Rafael OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Valladares. de Maria Fernanda Bicalho.

como mostrou I. 7-125. 2000. cit. «Orto y ocaso de las Cortes de Castilla»…. «The rule of law in early modern Castile». estabeleceu-se que o rei deveria incluir na escritura de los millones as respostas às petições. SECCFC. 197 Para uma excelente exposição sobre a eficácia conformadora do Direito no contexto do Antigo Regime. 193 Cfr. Historia de la Propiedad. 221-234. «Introdução Histórica à Teoria da Lei – Época Medieval».ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. cit.. Fortea Pérez. tais respostas tinham força de lei e eram incorporadas nas sucessivas edições da Nueva recopilación. VV. I. Legislação. «Derecho como cultura. pp. 2001. Universidade de Múrcia.. Madrid. Entre Clío y Casandra. 230 segs. 121-134..A. Música y ritual de corte en la Europa moderna. do qual se esperava. pp. Cambridge. Antonio Feros. 374... pp.A. 78-79. . 1992. 200 Não raras vezes eram as próprias Cortes a não revelar grande empenho em debater questões de alta política. 199 A questão da resposta aos «capítulos» merece também alguma atenção. J. Antonio Álvarez-Ossorio. Fortea Pérez chama a atenção para o facto de.A. La Capilla Real en la corte de Carlos II» in J. I. pp. Thompson & Pauline Croft.A. consulte-se. recusando-se a dar resposta às petições até que as Cortes aprovassem os servicios que o monarca reclamava. 241 nario Floridablanca. Anuario de Historia del Derecho Español. cit.. terem continuado abertos vários outros canais de comunicação entre a Coroa e as cidades. Fortea Pérez. «Aristocracy and Representative Government…. 345-410. pois a Coroa continuava a carecer da assembleia enquanto cenário natural de negociação entre o rei e o reino. Kingship and Favoritism in the Spain of Philip III. História das Instituições. consulte-se. uma colaboração activa no terreno fiscal – J.. de Jesús Vallejo. por vezes. Cadernos de Ciência de Legislação. pp. Fundación Carlos de Amberes. 790 segs..A. Madrid. Além disso. 2000. 202 J. usou essa matéria como forma de pressão. pp. 91 segs. Carreras & Bernardo García García (orgs. Com a implementação do novo regime dos millones. La Capilla real de los Austrias. «La Diputación de las Cortes de Castilla (1525-1601)». La monarquía de Felipe II a debate. 2002. de resto. O excelente artigo de I.A. 347-469. «Ceremonial de la Majestad y Protesta Aristocrática. Madrid.A. Cambridge University Press. Thompson & Pauline Croft. M. Hespanha. J. 788. de António Barbas Homem. o que obrigava a Coroa a antecipar-se à negociação fiscal na resposta aos pedidos. 1598-1621. a par das Cortes. European History Quarterly. cit. Patrimonio Cultural. «Orto y ocaso de las Cortes de Castilla»…. cit... 789 segs. Essa coexistência de várias vias de diálogo foi uma constante. cfr. 25 (Abril-Junho de 1999) pp. pp.. Fortea Pérez. também. 1992. 198 Acerca desta problemática é imprescindível a consulta de A.. «Orto y ocaso de las Cortes de Castilla»…. o que dava novo alento à capacidade das Cortes para influenciar o corpus normativo da Coroa. 195 Cfr. e. p. e no início não retirou força às Cortes. pp. I. «Aristocracy and Representative Government…. 53-60. 1982. de I. cit. Departamento de História (no prelo). pp.. Thompson em «La respuesta castellana ante la política internacional de Felipe II» in AA.A. p. 201 Francisco Tomás y Valiente.). 196 I. Thompson. Equidad y orden desde la óptica del Ius Commune» in Salustiano de Dios et al. XXXII (1962). A Coroa castelhana. 194 Acerca das críticas ao valimento. 14 (1984) pp. A ASSEMBLEIA DE CORTES. Servicio de Estudios del Colegio de Registradores..

«Cortes Tradicionales e Invención de la Historia de España…. «Orto y ocaso de las Cortes de Castilla»…. Lisboa. The Value of the Norm. cit. pp. 208. como lembra Xavier Gil Pujol. Elliott.. 209 Para J.). Sua origem e evolução. José Esteves Pereira. «Reciprocita mediterranea» in Renata Ago (org. «Una sociedad no revolucionaria. 149-195. cit. cit. 1188-1988. I.. Escritos seleccionados. Fortea Pérez. pp. consultes-se. Studia Historica. «Cortes Tradicionales e Invención de la Historia de España» in AA.. Roma. de David Alonso García. 2002. 212 Bartolomé Clavero. Estudios de historia comparada. 2001... Fortea Pérez. 2002. 208 Este fenómeno registou-se em toda a Península Ibérica. 2002. de Olivier Christin. 207 segs. pp. Biblink editori. 211 Maria da Glória Ferreira Pinto Dias Garcia. «À quoi sert de voter aux XVIe-XVIIIe siècles?».. 207 John H. 153. «Una sociedad no revolucionaria….. «La configuración de lo ordinario en el sistema fiscal de la Monarquia (1505-1536). cit. O modelo do servicio – entendido como auxílio temporário.. Daí que tanto a Coroa como o reino. Gelabert. Los Borbones. cit. 801-802. Cortes de Castilla y León. Castilla convulsa.. VV.. Elliott. 2002. 210 J. O Pensamento Político em Portugal no século XVIII. Las Cortes de Castilla y León. pp.242 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS 203 Acerca deste tema consulte-se. 207 segs. Marcial Pons. Valência. de Juan E. Valhadolide. p. Da Justiça Administrativa em Portugal. 205 John H. 1994. 140 (décembre 2001) pp. 204 . Imprensa Nacional. 187-188. Universitat de València. I.. 237 segs. Giovanni Levi.. António Ribeiro dos Santos. pp. Fortea Pérez. Dinastía y Memoria de Nación en la España del siglo XVIII. 21 (1999) pp. também. Acerca deste tema consulte-se. 801-802. 109 segs.. 2002. I. Madrid.). pp. Lisboa. 206 John H. 21-30. «Una sociedad no revolucionaria: Castilla en la década de 1640» in España en Europa. Una o dos ideas». tenham manifestado o interesse em recorrer a modalidades alternativas de financiamento – J. Historia Moderna. pp. 37-72. Universidade Católica Editora. para fins específicos e baseado em determinadas condições – estava a debilitar-se. p. a decisão de 1667 inscreve-se no quadro mais geral da reformulação do sistema fiscal castelhano. pp. 213 Bartolomé Clavero.. Actes de la recherche en sciences sociales. 117-152. pp. cit. «La Corona de Aragón a finales del siglo XVII: a vueltas com el Neoforalismo» in Pablo Fernández Albaladejo (org. 1990. 1983. 1990. Elliott. «Orto y ocaso de las Cortes de Castilla»….

o tribunal do Desembargo do Paço seguiu para submeter à apreciação superior as consultas relativas aos assuntos das câmaras depois de ter obtido as informações e os pareceres dos corregedores. ainda. as desobediências e. estratégicos ou efémeros. . provedores ou de outros ministros como o do Procurador da Coroa. que o conhecimento mais recente da realidade administrativa e política do Antigo Regime é complexa demais para se deixar classificar de forma tão simplista. Todavia. as propostas historiográficas para a caracterização do modelo de relação entre o centro e a periferia tenderão sempre a reconhecer fundamentos para apoiar a perspectiva centralizadora ou autonomista do poder. As excepções vão para pretensões fora do ordinário ou quando os ministros deixam os pareceres em aberto com o acostumado “Faça-se justiça” (fiat justitia). dos organismos envolvidos nas relações de poder. Edições Colibri – CIDEHUS-UE. 243-261. Acontece. então. Os objectivos. as tradições que envolvem as práticas sociais. O rei. por sua vez. 2005. XVII-XVIII) JOSÉ SUBTIL (Universidade Autónoma de Lisboa / Instituto Politécnico de Viana do Castelo) “E sendo tudo visto. Parece à Meza o mesmo que ao Ministro Informante” A fórmula de despacho em portada foi a que. portanto. quando decidia no quadro do seu regimento. implicam alguma indeterminação na configuração global do sistema de poderes e estruturas de probabilidades consoante os espaços onde se tecem as obediências. pp. são as questões quando se invocam outros poderes para além dos régios e muniOs Municípios no Portugal Moderno: dos forais manuelinos às reformas liberais Lisboa. os dispositivos disciplinares. na maioria dos casos. valorizando o poder local ou as intenções centralizadoras. Ou. o plano doutrinário. os recursos disponíveis e as motivações dos vários actores sociais. responde nos despachos “Como parece”. E outras. porém.As relações entre o centro e a periferia no discurso do Desembargo do Paço (sécs.

para o final do Antigo Regime. Será uma mudança com resultados. a relação entre a Coroa/concelhos e concelhos/freguesias recentra a geometria dos campos de domínio do poder e torce os lugares políticos e sociais. como os circuitos para a tomada das decisões. como os poderes senhoriais. 1 Sobre o poder local ver referências aos mais recentes trabalhos em Nuno Monteiro. ou do lado de quem obedece ou pretende obedecer. Não há dúvida que a persistência continuada e exclusiva de arquivos municipais e centrais. como unidades que podiam sustentar. 2003. unidades que serviam para circunscrever as funções de execução política e administrativa dos corregedores e/ou provedores na sua relação com a Corte e os concelhos. provavelmente. os problemas relacionados com o exercício do poder obedecem a interesses e mecanismos próprios de dominação bastante diferentes conforme o lugar que nos dispomos ocupar. Imprensa das Ciências Sociais. Elites e poder. da Igreja e das comunidades com juízes ordinários1. O significado dos arquivos Através da forma de organização dos arquivos administrativos e do seu conteúdo técnico podemos reconhecer. como foi sugerido para as paróquias por José Viriato Capela neste mesmo colóquio. isto é. apenas. tribunal que assegurava a comunicação política entre a Coroa e os poderes periféricos. Lisboa. A hierarquia do lugar que ocupam os concelhos em relação às freguesias não resulta imediatamente das relações estabelecidas pelos concelhos com a Coroa. Entre as diversas componentes destas lógicas. No discurso historiográfico. alguns corregedores as comecem a invocar como novos pólos de territorialidade política.244 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS cipais. . como memórias dos actos praticados. por exemplo. Naturalmente que uma geografia política que equacione. o verdadeiro papel da Coroa e dos municípios na conformidade da vida política e social. Entre o Antigo Regime e o Liberalismo. atentemos nalguns detalhes que dizem respeito ao Desembargo do Paço. qualquer movimento reformista. isto é. E as respostas que se procuram ou que se querem encontrar são imaginadas de acordo com a perspectiva em que nos coloquemos. Do lado de quem manda ou pretende mandar. sendo ignoradas as freguesias embora. revela que as comarcas e as provedorias não constituíam espaços sociais de relações de poder mas. a periferia tem sido identificada com os concelhos. em primeira instância. ao nível periférico. em simultâneo. tanto o papel desempenhado pela burocracia na maneira de exercer o poder. surpreendentes para avaliar.

para além do mais. uma grande economia de recursos humanos e financeiros uma vez que a duplicação da informação era demorada e implicava trabalhos acrescidos. pedidos que. revertiam em receitas de emolumentos para os magistrados e para a Coroa e. . o processamento burocrático se fazia de forma razoável para a época. sobretudo. que se destinava aos assuntos referentes aos concelhos. O corregedor e/ou provedor. Beira.RELAÇÕES ENTRE O CENTRO E A PERIFERIA NO DISCURSO DO DESEMBARGADOR DO PAÇO 245 Uma das evidências desta particularidade reside. Minho e Trás-os-Montes. na maioria dos casos. como funcionários volantes que exerciam. agilizava as suas acções e permitia. Um. Juízes. ou seja. públicas ou mais ou menos secretas. accionado o mecanismo dos traslados cujos custos. da responsabilidade da Secretaria das Comarcas onde se deviam tratar os que tocarem “às Cameras dos Lugares das suas Comarcas. a cargo da Secretaria das Justiças e do Despacho da Mesa. eram suportados pelos interessados. assim. um outro. tanto para as de carácter mais técnico. com os processos relativos a consultas. Estremadura e Ilhas. portanto. apesar destas características e das limitações da comunicação. ou ao bem commum”2. um poder de indagação da verdade não precisavam de uma secretaria de reserva que duplicasse a informação disponível nos arquivos referidos o que. ou dos Corregedores. e Alentejo e Algarve) cada uma 2 Parágrafo 8. podemos distinguir dois tipos de expediente. com excepção de alguma correspondência. não se encontram no Desembargo do Paço. por exemplo. em primeiro lugar. no facto das provas documentais do exercício do poder estarem nos arquivos municipais ou nos arquivos dos tribunais e conselhos da administração central. tendo em vista formar a decisão régia. então. Mas vejamos outros pormenores.º do Regimento Novo do Desembargo do Paço (27 de Julho de 1582). eram do interesse destes. no que tocar a seus officios. o conteúdo dos arquivos municipais e dos arquivos centrais não repetem. De acordo com a estrutura e a organização do arquivo do Desembargo do Paço. e Justiças dellas. também. como mesmo para outras indagações. não deixa de ser surpreendente como. a informação. de uma forma geral. Neste sentido. igualmente. As actas das vereações. nem as pautas das eleições nos arquivos concelhios o que nos mostra que as possibilidades de controlo estavam reservadas aos oficiais comarcais através dos quais o monarca podia chegar ao maior número possível de informações. que a produção documental servia. os interesses da instituição produtora da documentação. Em qualquer caso. aliás. relacionado com o despacho régio. Quando as circunstâncias o justificassem era. Esta secretaria era constituída por quatro repartições (Corte. Isto significa.

1996 (cap. cultivo das terras. No que diz respeito ao governo das câmaras. etc. higiene pública. uma prática que veio a ser abandonada por se mostrar inconsequente. que as unidades administrativas do Reino 3 Ver pormenores da estrutura do arquivo em José Subtil. . recebendo gratificações em troca. sobretudo. As funções e o papel político desempenhado por estes procuradores que. estão por conhecer como. Os assuntos dos particulares não entravam. A confirmação. porém. da boa organização do tribunal está expressa na forma como o arquivo funcionava apesar de tratar dos mais variados assuntos. Universidade Autónoma de Lisboa. dando conta aos seus clientes dos passos que foram e estavam a ser dados. doações e heranças. distribuídos pelas repartições das comarcas. nos municípios. dos procuradores das partes que se encarregavam de organizar o dossier com os documentos necessários aos processos sendo. II). Ou melhor dizendo. O acesso aos processos podia fazer-se por nome próprio do requerente. Alguns oficiais e escrivães do Desembargo do Paço foram acusados de cumplicidade com alguns destes procuradores para influenciarem ou acelerarem processos. a forma como se constituíam as redes entre os procuradores e advogados espalhados pelo Reino e os que tinham escrivaninhas na Corte. exclusivamente. conflitos jurisdicionais. desde os mais simples requerimentos dos particulares até aos mais complexos. normalmente. Lisboa. porém. relacionados com a administração da justiça e da magistratura. O Desembargo do Paço (1750-1833). A certa altura foi adoptado no tribunal a numeração do registo de entrada dos processos. para um advogado com quem repartiam os honorários. por esta secretaria mas sim pela Casa do Expediente através. em grande medida. portanto. Tudo parece indicar que os procuradores formavam uma verdadeira corporação profissional que exercia pressão sobre o andamento dos processos e a sua resolução final. que não existiam arquivos comarcais ou de provedoria o que nos remete para uma noção de periferia política e administrativa consubstanciada. O que se pode dizer. posteriormente. dos concelhos e dos donatários leigos. obras.246 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS remetendo para a respectiva comarca cujos processos se organizavam em maços. eleições municipais. também. administração dos bens da Igreja. o fomento económico. Trabalhavam. Formam uma interminável fonte de informação sobre o poder local. sobre a estrutura e funcionamento arquivístico do tribunal é. asseguravam a relação dos particulares com o monarca. os processos mais importantes tinham a ver com os actos eleitorais (pautas) e com a fiscalização sobre as comissões de serviço dos magistrados régios (autos de residência). por assuntos ou por toponímia3. em primeiro lugar.

apenas. pelos tribunais centrais da Corte e pelos senados das câmaras. desde logo. assim. os oficiais de ligação entre o centro e a periferia. 1996. Tanto para os processos documentalmente bem preparados como para os que precisavam de ser complementados com mais informação. emitirem pareceres para submeter à Mesa do Desembargo do Paço. continua a ser fundamental . os corregedores e provedores constituíam magistraturas muito especiais uma vez que as suas funções se destinavam a cumprir ordens dos tribunais superiores. Para o efeito. ou a exercerem o poder em sua representação. por um grupo cujo poder de intervenção dificultava a relação directa com o monarca. a cargo destes profissionais. Muito raramente tomavam iniciativas próprias. História dos Municípios e do Poder Local (direcção de César de Oliveira). depois de procederem às indagações e inquirições necessárias. Ao contrário de Espanha. o Reino estava dividido em comarcas e provedorias que incluíam. uma poderosa imagem do poder da Coroa porque obrigavam a descartar procedimentos que não estavam ao alcance de qualquer um. pp. A lógica das relações e da decisão política Os corregedores e provedores eram. A arte da explanação dos assuntos e a materialização da realidade objectiva em documentos. Lisboa. Círculo de Leitores. por cair nas competências dos corregedores e provedores para. isto é. deve registar-se que há uma clara distinção no tratamento burocrático de assuntos públicos e privados. os concelhos4. 4 5 Sobre a organização do poder à periferia ver Nuno Monteiro. em quaisquer dos casos. ou seja. a organização processual e o corpus documental constituíam.RELAÇÕES ENTRE O CENTRO E A PERIFERIA NO DISCURSO DO DESEMBARGADOR DO PAÇO 247 eram constituídas. Apesar das Histórias de Espanha recentemente editadas. como já se disse e se sabe. o local e o inexistente regional”. E. os assuntos particulares estavam dependentes das iniciativas tomadas pelos procuradores e advogados. todavia. Enquanto os primeiros dispunham do mecanismo político e administrativo assegurado pelos serviços destes magistrados. “O central. Em segundo lugar. mais tarde. sobretudo do Desembargo do Paço. 79-119. dentro das suas áreas jurisdicionais. em profissionais especializados que conferem pelas suas práticas um carácter institucional aos procedimentos administrativos. o processamento destes casos acabava. constituíam o signo de entendimento do poder régio que não reconhecia outros sentidos fora destas estruturas de modelização. Nesta medida. exigindo regras e rigores discursivos indispensáveis à apreciação régia. A acção da Coroa em relação à periferia apoia-se. estes delegados do poder régio foram sempre magistrados togados e nunca de capa e espada5.

autos de residência. 1997. capítulo IV. proceder à cobrança da décima. seria muito interessante termos estudos que nos permitissem reconstituir a actividade de um corregedor ao longo do seu mandato. tempos das aposentadorias. albergarias e hospitais bem como o cumprimento das vontades dos testamentos e obras pias. Apesar do que hoje já se conhece sobre o corregimento9. dar conta dos crimes e mendigos. 62. vereadores. Fundacion Universitária Española. As audiências gerais das câmaras. cit. tít. receber queixas contra as autoridades locais. O provedor tinha a seu cargo o controlo e fiscalização dos cofres da comarca e provedoria. das capelas. Desdevises du Dezert. Universidade do Minho. zelar pelo ordenamento da floresta. 10 Estes estudos só serão possíveis através do cruzamento de fontes. destinadas a informar o ministro do que seria justo a bem do povo. também. Tomavam conta das despesas e receitas dos concelhos e inspeccionavam as remessas para o Conselho da Fazenda8. La España del Antiguo Regímen. utilização de meios de transporte. locais e formas de inquirição de testemunhos. órfãos. confrarias. escrivão. logo suprimidos por Carlos IV6. liv. eram objecto de um auto assinado por todos os presentes. Política de Corregedores. visitar os cárceres. I. ainda não é possível termos uma imagem clara sobre as efectivas funções e acções no terreno dos corregedores.248 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Depois de diplomados. informar sobre as actividades dos juizes de fora e juizes ordinários que não cumpriam as leis e conhecer as apelações das sentenças dos juizes ordinários. etc. corregedor. 7 Ver Ordenações Filipinas. 9 Sobretudo com os trabalhos de José Viriato Capela em especial para este tema. particularmente. fazer a eleição dos vereadores e almotacés. I. Madrid. tomar posse dos bens da Coroa quando vagassem. 8 Idem.10. tít. liv. op. O corregedor estava encarregue de tirar devassas. fiscalizar os oficiais das sisas e fazer o seu lançamento na ausência dos juizes de fora. frequência das visitações por localidades e períodos. Na câmara existia. examinar obras. 1989.. conhecer da imunidade da Igreja. nobreza e povo chamados a pregão e toque de sino. um cartório onde se lançavam os provimentos dos corregedores. tinham de realizar um exame de acesso à carreira e fazer um tirocínio para obterem o encarte na correição o que só viria a acontecer no país vizinho durante o reinado de Carlos III. para uma visão de conjunto deste período a obra de G. A este propósito. procurador do concelho. informações solicitadas pelo Desembargo do . 58. 6 Sobre a carreira dos magistrados ver José Subtil. Braga. actos das vereações. momentos de trabalho com as vereações. entre outras tarefas ocasionais7.

ou não. a cartografia e cronologia das correições bem como o significado que as sedes das comarcas. a agenda dos corregedores. as câmaras não esperariam pela reunião com o corregedor. as solicitações do centro. que na maioria das contas que dão aos tribunais superiores. . estado das estradas. embora raros. assim. aos procuradores dos concelhos quando se deslocavam à Corte. sindicâncias. muito provavelmente. em grande parte. à resolução de problemas suscitados pelos tribunais superiores forçando. as reacções municipais aos pedidos régios para as agravar como. os corregedores assinalam a data e a localidade em que se encontram e os autos indicam os funcionários ao serviço. verifica-se que a grande maioria se reporta a grandes ou médios concelhos abaixo do Mondego. a este respeito. se outras variáveis (tempo. o lançamento de segundas terças. etc. inventário das presenças destes magistrados nas diversas corporações locais. através do Secretário de Estado dos Negócios do Reino. A fórmula a adoptar para estes estudos consistiria em delimitar no tempo os seus mandatos e correr a informação disponível nos tribunais superiores e nas câmaras de forma a estabelecer-se uma cronologia das suas actividades. aleatoriamente.RELAÇÕES ENTRE O CENTRO E A PERIFERIA NO DISCURSO DO DESEMBARGADOR DO PAÇO 249 Desconhece-se. a sua gestão. Saber quais as câmaras que raramente acolhiam o corregedor e as formas usadas para receber os munícipes na sede do concelho ou obter informações sobre a vida social. problemas das casas para aposentadoria. etc. escrivães e meirinhos de apoio. indicia que existiam formas alternativas cujas razões e mecanismos ignoramos mas que podemos presumir tenham sido usados com recurso. situadas no principal concelho. E tão pouco estamos em condições de podermos comparar o desempenho destes cargos para concelhos de diferente dimensão e estatuto o que nos permitiria. em contrapartida. económica e política. pautas eleitorais. Ou se o planeamento anual da correição obedecia a algum calendário standard ao qual se acopulavam. avaliar em que medida o corregimento se limitava. particular atenção as modalidades regionais utilizadas para os concelhos requererem sobras das terças e sisas destinadas a concertos e reparações de obras devido às despesas que implicavam ou. Mas se o Desembargo do Paço comunicava com as câmaras através dos corregedores e provedores. Merecem. Pode ser uma boa razão para se admitir que a relação com a centralidade polí- Paço e respostas às mesmas (ou de outros organismos centrais). também. De notar. dentro do possível. por exemplo. desempenhavam na vida profissional do corregedor.) influenciavam. O mesmo se dirá das apreciações que fizeram sobre as apelações dos juizes ordinários. os casos em que estas se dirigiam directamente ao tribunal. Compulsando algumas destas situações. Neste caso. ou indirectamente. desta forma. por exemplo.

Uma vez que a câmara . indirectamente por intermédio da Secretaria de Estado dos Negócios do Reino ou directamente pelos procuradores dos concelhos) e a consequente instrução processual mantiveram-se inalteráveis até ao final do Antigo Regime e a extinção do Desembargo do Paço (1833).250 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS tica é. porém. desembargador do tribunal do Desembargo do Paço e Conselheiro de Sua Majestade. nos casos que conhecemos. elegeu sempre o modelo jurisdicionalista como norteador das suas tomadas de decisão. por conseguinte. instruções para as mesmas câmaras ou que as remeta por intermédio dos corregedores e/ou provedores. Diogo Inácio Pina Manique. introduzindo tipos de relacionamento forçados por factores que não faziam parte das lógicas políticas do regime. igualmente rara. Por outro lado. nunca se enraizariam nos procedimentos habituais do tribunal. Um exemplo limite e. regalias e direitos adquiridos de tal sorte que os despachos não contradissessem a ordem estabelecida ou a viessem perturbar. com a excepção para outras modalidades de comunicação que emergiriam após o consulado pombalino mas com outros contornos políticos como adiante se verá. o Desembargo do Paço envia os requerimentos para o corregedor ouvir a Câmara. instruir o processo com as opiniões das partes envolvidas. emblemático desta conformidade diz respeito ao pedido (24 de Novembro de 1788) formulado pelo poderoso e influente Intendente Geral da Polícia. isto é. Também nestes casos. assim. com o argumento de possuir uma lavoura interessante tanto em “sementeira como em criação de Gados de Lãa. o ganho de tempo podia ser grande uma vez que eram suprimidos os tempos de correio entre o corregedor e o tribunal. o tribunal dá instruções para o corregedor ouvir sobre a matéria todos os interessados não decidindo. Mas a hipótese de que tal expediente pudesse corresponder a uma forma expedita de relacionamento com o tribunal deve. de imediato. Nobreza e Povo. refere-se aos pareceres que os corregedores decidem remeter para o tribunal sobre matérias de governo camarário sem que a iniciativa tenha pertencido aos senados. Temos. Outra situação. Contudo. e Cabelo”. por isso. compostas pela herdade de Tagarrães e o baldio de Lopo da Mouta. que o Desembargo do Paço não modificou o seu modo de proceder relativamente às decisões sobre o poder local. fomentada pela proximidade territorial a Lisboa ou por facilidades de comunicação. ou seja. Estas três formas de relacionamento entre o tribunal e o poder local (apenas através do corregedor. que pretendia aforar ou comprar umas terras em Arronches. também. o princípio de que todas as partes se deviam pronunciar para aferir dos privilégios. ser posta de lado na medida em que. exclusivamente com a opinião do magistrado. sempre que tal se verificava. Não se verificam situações em que o tribunal despache.

sobretudo. ganhava com o expediente uma certa centralidade que não podia assumir se aligeirasse os procedimentos. Este tipo de comunicação entre a Coroa e a periferia. de certo modo. maço 340. A decisão final acabou por não ser tomada. Neste sentido. o que afirmava não ter acontecido com os anteriores rendeiros. embora se saiba que ficou retida na Secretaria de Estado dos Negócios do Reino. mesmo que fossem. também “interessa ao Estado”.RELAÇÕES ENTRE O CENTRO E A PERIFERIA NO DISCURSO DO DESEMBARGADOR DO PAÇO 251 tinha vindo a arrendar essas herdades. Digamos que o modelo. O requerimento deu entrada directamente no tribunal mas a Mesa deliberou que não podia tomar qualquer decisão sem ser ouvida a Câmara. o facto do expediente não ser canalizado pelo corregedor que. inculcava em todos estes actores fórmulas universais e disciplinas processuais que contribuíam para a aceitação de uma linguagem especial. aliás o podia fazer. No que respeita aos particulares. ao alimentar com este modelo um conjunto numeroso de oficiais e profissionais encarregues da redacção dos textos e traslados. retirasse as informações que da praxe eram exigidas e remetesse para o tribunal o processo já instruído para ser ultimado. se tivermos em conta que durante a correição podia recolher os mesmos. desconhecendo-se as razões que a impediram. previsíveis. tanto pelo tempo que acabava por demorar como pelos custos que implicava. Na lógica dos nossos procedimentos seria óbvio que nos casos em que o corregedor pudesse recepcionar as petições. desde logo. No mínimo. fundamentava o acto jurisdicional. Ministério do Reino. pelo menos. cotava o tribunal como um lugar de escolhas. ao repetir-se. os do território onde se encontrava ou se presumisse que iria estar. no âmbito do corregimento. A gestão do tempo. ao repetir os actos e a homogeneizar as decisões. o desembargador pretendia “aumentar a sua Lavoura. portanto. instrumental do tribunal e que a Corte. no seu entender. própria de um certo poder indisponível à 11 IAN/TT. pode dizer-se que este género de expediente era tudo menos económico. e as criaçoens dos seus Gados” que. de procuradores das partes para levar os requerimentos à Corte parece significar que o papel do corregedor é. . o uso. dos circuitos e a escolha dos actores. Nobreza e Povo para se conhecer a verdadeira justiça e não poder vir a ser sujeita aos embargos de obrepção e subrepção de outros interessados ou lesados11. por parte dos peticionários. ao contrário do que pudesse parecer. de determinação de resultados e garante da não arbitrariedade política. significa que do cálculo dos peticionários não constava este tipo de procedimentos nem os mesmos se configuravam.

nem acontecimentos. nada fazia supor para o governo das câmaras que o tribunal tivesse uma estratégia de ocasião ou objectivos obscuros na apreciação que fazia dos processos. Digamos que o tribunal age. a razão de ser de todos estes oficiais que não tinham interesse algum em o destruir dado que no conhecimento que possuíam destas tecnologias residia. a suspensão da mesma. arbitrariedade ou estratégias de surpresa. essencialmente. a jusante ou a montante. o poder que exigia a formatação dos discursos adequados era. para nós que hoje somos movidos pela economia das acções. A consolidação deste estilo de governo. Mesmo que o viesse a fazer. o seu estatuto político e social. Limitar o poder do rei e limitar o poder das câmaras. deliberadamente ou não. se investisse demasiado em actos de duvidosa consequência prática. também. ficando reservado aos oficiais régios. pela habilidade retórica para a construção de verdades. pela via passiva. desde logo. é atestada. tantas repetições de procedimentos. assim e sobretudo. ou seja. achamos incompreensível e estranho que.252 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS extravagância. Nestas circunstâncias. De facto. na regularidade discursiva e na constituição de corpus documentais. ficaria sempre sujeito ao embargo das suas decisões o que de todo era de evitar pelas consequências que acarretava. pelo facto do tribunal não ter por hábito remeter ordens sobre o governo das câmaras ou tomar iniciativas políticas. Em contrapartida. A estratégia de dominação do centro sobre a periferia residiu. ao recorreram aos que as tinham. reage sempre a acontecimentos ou factos e não cria. neste período. fundada na previsibilidade dos textos e procedimentos. que permitiam o autogoverno dos senados. por um lado. de uma forma global. nem factos. assegurar o prosseguimento desses princípios. Desta forma. se fizessem tantas coisas da mesma forma. tanto legitimavam as suas autoridades como reconheciam que ao usá-las podiam aceder ao sistema de legitimação política. por outro. Deste modo existe uma enorme desproporção entre o aparato discursivo dos actos administrativos e a dimensão da acção política. . pelo ganho da celeridade e da eficácia. Por isso. os despojados destas competências. de facto. por sua vez. tal era o fundamento e a promessa do modelo jurisdicionalista que o Desembargo do Paço garantia como instituição central do sistema. e nos poderes jurisdicionais delegados ou normativos. a eficácia dos actos administrativos e de governo dependiam desta disciplina dos textos e da sua organização e nunca da excelência dos argumentos ou da exuberância literária como acontecerá a partir do pombalismo.

com L’ archéologie du savoir. Diritto e Potere nella Storia Europeia. a revolução tecnológica constituída pela criação dos caracteres metálicos permite a fixação das normas linguísticas e ao aparecimento de gramáticas e tratados ortográficos. 1969. na formulação dos enunciados e na utilização da retórica14. a elitização dos letrados na medida em que se tornavam elementos decisivos na manutenção das condições de produção discursiva. os grupos profissionais que tinham o domínio da escrita favoreciam. particularmente. verificamos que uma das constantes que impregna a actividade burocrática diz respeito à permanência da cultura manuscrita que cobria todos os momentos processuais e de expediente. 1982. também. que sendo a época dominada por uma cultura oral e exigindo o acto administrativo uma cultura escrita. promovendo uma tecnologia de dominação que privatizava o conhecimento o que não acontecia com o documento impresso que. por isso. ao vulgarizá-lo. 14 Sobre o mundo jurídico não letrado ver António Manuel Hespanha. consagrar o monopólio das produções discursivas por uma elite e evitar. 2000. É certo. Só para o final do século XVIII começaram a surgir documentos impressos que correspondem a um novo entendimento da produção documental. Ensaios de História Cultural (séculos XV-XVIII). “Les magistratures populaires dans l’organisation judiciaire d’Ancien Regime au Portugal”. evidentemente. sobretudo.. o prestígio simbólico do manuscrito terá resultado da singularidade do documento enquanto objecto único para. procede a uma análise sobre a cultura impressa e manuscrita durante a época moderna onde acentua. Firenze.RELAÇÕES ENTRE O CENTRO E A PERIFERIA NO DISCURSO DO DESEMBARGADOR DO PAÇO 253 O discurso manuscrito12 Se compulsarmos o discurso produzido pelo tribunal onde se materializavam os seus actos. e implica o definitivo desaparecimento do carácter “sagrado” da escrita”13. Por outro lado. .) Com o aparecimento da imprensa. a dominância do manuscrito sobre o impresso (transcrição p. Desta forma inculca-se a ideia de que as competências linguísticas. referências a conceitos e fórmulas. também. por vezes criadora.. repetidamen- 12 Sou aqui. pp. pelo contrário. Paris. 32). em Memória e Poder. ela integra um carácter sacrificial e um significado transcendente (. E como. influenciado por Michel Foucault. facilitava os actos administrativos. Lisboa. 13 Ana Isabel Buescu. Gallimard. o manuscrito implicava um ditado feito pelos magistrados ou escrivães. afirma Ana Buescu a “Escrita manual. Este facto mostra que a imprensa não terá assumido um papel inovador nos actos administrativos do tribunal e. sobretudo. 806-822. nomeadamente quanto à dominância de certos padrões e tipologias documentais. justamente. Cosmos. individualizada. a banalização das mesmas.

obrigados a fazer os despachos. Ao mesmo tempo. O acto que realizava e definia estas classificações era. Na altura dos votos. não tomarem afilhados de género algum. o rigor e a imparcialidade vertidas em textos cuja ordem do discurso era insuspeita pela ilustração das evidências conclusivas. Para evitar intimidades estavam proibidos de prover ofícios ou serventias nos tribunais em criados ou parentes até ao quarto grau. não podendo trazer capa sobre a beca15. igualmente. . só poderem fazer visitas uns aos outros.254 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS te inscritos nos discursos eram. como a prudência. as insígnias e as composturas deviam contribuir. gorra ou carapuça”. uma competência com carácter “sagrado” a que até o próprio monarca ficava submetido. ser interrompidos nem vistos enquanto trabalhavam. eram obrigados a cobrir as cabeças em sinal de recolhimento e meditação. portanto. Por isso. gerador de suspeitas de um saber quase misterioso exercido na inacessibilidade dos gabinetes ou em procedimentos ocultos. os desembargadores do Paço obedeciam a um ritual apertado e cerimonioso no exercício das suas funções quando estavam reunidos para despacho. o domínio que o governo dos togados detinha para produzir taxonomias na apreciação de processos já examinados estabelecia. Como. no trabalho dos tribunais ou em quaisquer actos públicos deviam usar “togas talares descobertas. serem obrigados a fazerem-se acompanhar da mulher e dos filhos. a probidade. as portas dos gabinetes eram fechadas e mesmo os escrivães só podiam entrar desde que chamados pelo toque das campainhas. depois da publicação das Ordenações Filipinas. Na presença do rei. pareceres e deliberações (tenções). desde as sete horas de Verão e oito de Inverno até ao final da manhã. Estavam. Não podiam. também. não podiam acumular com outras funções dentro do tribunal. As providências sobre os trajes. fundamentalmente. deveres e direitos dos desembargadores. para o “respeito que todos devem”. por isso. a legislação vai continuando a dar conta de algumas virtudes. tanto nas deslocações dentro do Reino como fora dele. ou declarações. estarem proibidos de frequentar casas de jogos. também. nem ter casa 15 Algumas destas disposições estão já consagradas no Alvará de 30 de Junho de 1652. garantindo uma certa permanência física dos trabalhos que começavam cedo e terminavam cedo. Por tudo isto. não poderem morar fora da cidade. Um saber recheado de qualidades indisponíveis à maioria. também. uma ordem final que regulava o certo e o errado. Quando começavam a trabalhar. por exemplo. pelas suas próprias mãos como que transmitindo ao documento a originalidade irrefutável e inquestionável das suas autoridades e conhecimentos. Ao longo do século XVII.

etc. Esboço de hum Diccionario Jurídico. . Lisboa. 16 Encontra-se referência a esta legislação em Joaquim Caetano Pereira e Sousa. ou. Por isso mesmo. testemunhos falsos ou preponderância de pareceres. formação de comissões volantes para inspeccionarem as comarcas ou até a chamada ao tribunal de vereadores ou representantes da Nobreza. 1825. continuando a observar os acontecimentos. a este respeito. que a relação entre o Desembargo do Paço e a periferia foi uma relação fundada em realidades discursivas mediatizadas pelos corpus documentais produzidos pelos corregedores. Com alguma frequência. fazia depender a confiança política nestes magistrados num qualquer fiscal das suas actividades. ainda. Repertório Gera. com raridade. Quando encontramos. podemos dizer. exclusivamente. exclusivamente. E nestes casos. O Conselho não dispunha destes dispositivos nem. uma forma de trabalho que se destinava a formar uma opinião meditada acerca das coisas sobre as quais os textos não se deviam equivocar. um trabalho sobre textos. os corregedores queixavam-se da falta de cerimonial dos senados e da rusticidade dos vereadores. através dos documentos. em altura alguma. Typographia Rollandiana. regra geral. muito raramente. e Practico. 1843. por vezes. abusos. a acção do Desembargo do Paço nunca se revestiu com carácter de indagação sobre a realidade política local com recurso a procedimentos de observação directa por parte dos desembargadores. de certas passagens das Ordenações e dos Regimentos lidas pelo seu escrivão. ou seja. os magistrados régios obrigavam os vereadores e os procuradores a escutar a leitura. Estavam isentos das responsabilidades recorrentes de sentenças injustas e não podiam dar consulta sobre mercês a parentes até ao quarto grau16. muitos sem instrução para saberem ler e escrever. Em conclusão. Clero ou Povo para serem ouvidos ou confrontados com opiniões favoráveis ou desfavoráveis. ou Índice Alphabetico das Leis Extravagantes. Em circunstância alguma podiam ser presos. Theoretico. suspensos ou despedidos sem expressa autorização régia. nem mesmo através de artifícios indirectos como podiam ser visitações às câmaras. Embora em menor escala. E todo este trabalho realizado no Desembargo do Paço era. o tribunal tomava a iniciativa de solicitar novas informações referindo os reparos que foram feitos. Imprensa da Universidade. em voz alta. em Manoel Fernandes Thomaz. o ritual das audiências das câmaras decorria em ambientes semelhantes e. críticas ao Desembargo do Paço por parte das câmaras.RELAÇÕES ENTRE O CENTRO E A PERIFERIA NO DISCURSO DO DESEMBARGADOR DO PAÇO 255 na cidade e a família fora. Coimbra. o que é sempre referido são a falta de informação. sequer o imaginou como necessário e indispensável para velar pelo bom desempenho dos corregedores e.

os novos fundamentos ideológicos e políticos da segunda metade do século XVIII acabariam por interromper a influência absoluta dos teólogos e juristas da tradição do período do ius commune e atribuir o papel principal de governo aos políticos que se esforçavam por produzir modelos racionais de compreensão do social. IV. vol. o governo das câmaras estava confinado a uma corte provinciana e local cujas lógicas emparedavam os limites da autoridade régia e controlavam os efeitos de qualquer estratégia que pretendesse invadir a soberania que detinham sobre os seus territórios. pp. 199 . também. e. passava a admitir a autonomia dos homens para se governarem. que o quadro doutrinário não vocacionava os corregedores para procedimentos que tivessem em vista desestruturar estas realidades18. o modelo de representação social fundado no indivíduo. doc. e que o mesmo he irmão do actual vereador Leonardo Ferreira”. apesar de outros dois candidatos terem tido mais votos17. maço 800. Como tem vindo a ser conhecido. efectivamente. 5). A formulação dos novos enunciados discursivos deixava. . Desembargo do Paço. “tinha servido de Vereador. Lisboa. Esta libertação da natureza e do social em relação ao divino produziu a possibilidade de o pensamento social se poder constituir como pensa- 17 Relato do corregedor de Portalegre (IAN/TT. cada vez com maior detalhe e expressão regional. 18 Ver síntese sobre os contornos dos modelos de representação em Ângela Barreto Xavier e António Manuel Hespanha. tendencialmente. campo de manobra política para a acção dos corregedores. Ao contrário do complexo conhecimento das coisas “divinas” e “humanas” que pedia um governo com prudência e justiça para assegurar uma ordem capaz de cumprir o desígnio transcendental. dotado de vontade e de razão. na altura em que se procede à devassa da correição consegue-se. apezar de haver pouco que deixou de guardar cabras.256 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS A nova centralidade pombalina Vila Flor que “he huma das mais piquenas. 121-156. João Ferreira. com regras e leis de governação. global da situação que se vivia na maior parte dos concelhos e que retirava. Os vereadores normalmente acabam em juízes. Todavia. sendo que o último. E é verdade. “A representação da sociedaded e do Poder”. repartição do Alentejo e Algarve. com muito sacrifício. miseráveis povoaçoens. naturais e indisponíveis à interpretação arbitrária da razão humana. por esta via. Este relato do corregedor de Portalegre expressa a imagem. até oito testemunhas”. Círculo de Leitores. de se legitimar em princípios que transcendiam a vontade dos homens. História de Portugal. que tem o titulo de Villa”. juntar “sete.

manifesta porquanto numa situação em que a mobilidade política e social é de baixa intensidade. em contrapartida. evidentemente. Contudo. criar doutrina sobre a ordem social mais adequada. também. a este respeito. Estes pressupostos significam. A razão passava agora a ser invocada para criar. doravante. os oficiais régios podiam aumentar as possibilidades da sua presença física directa impondo. permitir o movimento de pessoas e bens. mais e mais rapidamente. acabaria por ser.RELAÇÕES ENTRE O CENTRO E A PERIFERIA NO DISCURSO DO DESEMBARGADOR DO PAÇO 257 mento político autónomo e. nesta medida. ou seja. precisavam. também. construir e não conformar. o domínio da observação sobre o do relato. o melhoramento dos meios de comunicação tinha em vista. de mais autoridade sobre as câmaras e os magistrados locais para poderem dar sentido político efectivo às suas presenças. o Erário Régio e as novas secretarias de estado que elegeram para os seus programas políticos a usurpação funcional dos poderes corporativos. medido por resultados práticos. à oportunidade das suas missões e ao bom desempenho dos cargos. também. ao deslocaram-se. oficial encarregue de uma determinada área de governação com jurisdição plena mas disponível à vontade do príncipe. os poderes locais tendem a autonomizar-se enquanto que. embora claramente sedutora para os políticos. efectivamente. encanamento dos rios e melhoramento dos portos. alterando os condicionalismos da imobilidade onde se fundavam as particularidades locais para. a lógica da figura do intendente. E esta foi. o modelo de grande mobilidade aumenta o domínio do território por parte dos agentes do poder central que tenderão a diminuir a autonomia dos poderes locais. Curioso que. Como. aceleração na tomada de informações. criarem um dinamismo na governação e racionalização dos espaços e territórios. Do ponto de vista social. construção de estradas. a reforma das vias de comunicação permitiria maior rapidez na comunicação. que os novos agentes do poder central. concomitantemente. Um dos tópicos mais emblemáticos desta mudança de perspectiva é o continuado apelo às reformas dos meios de comunicação. A razão de tudo isto é. na segunda metade do século XVIII. no inverso. aliás. por exemplo. também. o modelo dominante continuou a ser o da legitimação pela tradição pelo que. ver mais e ler menos. a Intendência Geral da Polícia. Do ponto de vista dos poderes centrais. pelo menos. a mudança preconizada. imaginada por alguns magistrados tradicionais que recorreram para o Desembargo do Paço dispostos a distinguir pela positiva as vantagens . iremos assistir a abertura de conflitos entre o tribunal e outros organismos criados na matriz política como sejam. conservar. apresentação de inquéritos e relatórios capazes de mapearem e cartografarem os problemas da governação.

ao tombo das que existiam. onde não chegasse a dita imposição era igualmente do expediente desta Meza”. quem felicitava os Povos. E assimilava o efeito da mobilidade do comércio ao da virtude de um poder regional superior ao dos próprios corregedores. acusando os poderes camários “Vista a tristíssima experiência de que os officiaes das Cameras já mais olhavam para obra alguma pública. maço n. se as Estradas se achavam praticáveis (. o provedor encontrou como justificação para as suas ideias o facto destas “Providências parecia serem todas do Expediente desta Meza porque todas erão da Economia dos Povos. para além de ser marcada pelo entusiasmo nos novos ventos de mudança uma vez que não se eximia a dizer que a “Ovra do efeito que tinham produzido as Superintências particulares em cada objecto. atendendo ao “Grande Espírito com que V. igualmente. confundindo-se esta no concurso de todo o Corpo”. e que quanto ao Suprimento dos sobejos das Sizas. promovia o Bem dos seus Vassalos” defender que era “Princípio certo que o Comércio interior do Reino era. a importância dos pequenos poderes na relação com a autoridade do intendente. Na sua proposta reconhecia. E afirmava. M.. talvez porque cada hum de per si não adquiria a gloria de ser util ao público. . e senão.. porém.º 340). curiosamente. por exemplo. É o caso. Evidentemente que a proposta do provedor colocava um problema sério ao Desembargo do Paço que tinha a ver com a criação de um superintendente particular com poderes para intervir na esfera tradicional das competências das câmaras e dos corregedores. não só da sua provedoria mas das que se encontravam contíguas. ainda. e quem augmentva o Real Erário” pelo que. Não deixando. de ser um magistrado do Desembargo do Paço. era necessário separar a sua jurisdição de uma intendência que reformasse as estradas. como sejam o dos juízes de vintena. mostrava a necesidade de se adoptarem. com a ineficácia do corregimento. que olhassemos para o Reyno cheyo de Cameras e de Corregidores e que vissemos. inclusive. e sobre que a Camera podia fazer Postura guardada a forma da Ordenação do Reyno: Que isto pelo que respeitava a imposição sobre os carros. que tais proposições “Concorriam igualmente ao bem do Estado na exportação e importação” o que não se verificava na comarca de Torres Vedras que “Estava ao abandono da sua Policia”. do provedor de Torres Vedras. comparando-a.258 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS desta nova administração. Ministério do Reino. Chega mesmo a apresentar um plano para a construção e conservação das estradas a cargo de uma superintendência que procedesse. que se permitiu.) Que todo o 19 6 de Novembro de 1787 (IAN/TT. Manuel Inácio da Mota e Silva19. no seu entender.

VII. Com o apoio de outros organismos. que julgasse a propósito Que elle não avançava a que se tirasse às Cameras a economia que a ley lhe dava. E. como se depreendeu. sobretudo. o pólo de coordenação da nova centralidade para com as câmaras deslocou-se para a Secretaria de Estado dos Negócios do Reino que. Lexicultura. após a extinção do tribunal. por o Desembargo do Paço concordar com o parecer e não atender às súplicas do seu provedor. Mas a Secretaria de Estado dos Negócios do Reino. entre os mais importantes. como que desautorizando o tribunal. pela técnica de esvaziamento funcional 20 Ver síntese deste modelo em José Subtil. a de que o tribunal estava claramente contra a corrente do centralismo pombalino que advogava que a relação entre território e jurisdição. mas que no estado apoletico. estava criada uma outra administração que coabitaria com a do modelo tradicional em evidente ponto de ruptura. foi dando ordens aos corregedores e provedores sem informar o Desembargo do Paço passando. “Governo e Administração”. a disponibilidade para que o espaço administrativo. não coincida com as comunidades e com os limites dos poderes instalados teria que ser marcada pela implantação no terreno dos intendentes e superintendes com obediência directa às secretarias de estado e não ao Desembargo do Paço20. só remedios extraordinarios lhe convilhão” (o sublinhado é nosso). Lisboa. não fez seguir a consulta para despacho régio. A estratégia de consumação dos poderes tradicionais passaria. 199-234. em crescendo. Uma só cabeça. . em que se necessitava do Socorro dos Povos. a nível central como. devia ser tratado com muita Política prudencial. A conclusão a retirar deste processo é. claro está. pp. vol. o provedor defendia uma política de centralização administrativa a nível regional e o arbítrio do superintendente para administrar com total liberdade. isto é.RELAÇÕES ENTRE O CENTRO E A PERIFERIA NO DISCURSO DO DESEMBARGADOR DO PAÇO 259 Objecto grande e público. neste novo figurino e expediente político. particularmente. sem dúvida. Escusado será dizer que o Procurador da Coroa foi contra esta fantasia do provedor ao dizer que as Ordenações já regulavam estes assuntos na competência das câmaras e dos corregedores acabando. em que estavao as Estradas do Reyno. o Erário Régio (22 de Dezembro de 1761) e a Intendência Geral da Polícia (25 de Julho de 1760). também. a assenhorear-se da tramitação burocrática do próprio tribunal com o monarca. dias conturbados durante a implantação do liberalismo. mas que por hua só cabeça e que ella estabelleceria os braços. entretanto criados. a aliança do tribunal e das câmaras contra estes novos funcionários mostrou a lenta agonia do modelo de liberalidade nas relações entre o centro e a periferia que teria. A partir de então. 2002. História de Portugal.

como freguesias e paróquias.260 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS do Desembargo do Paço e pelo afrontamento político. também a proteger e a valorizar as suas opiniões quando eram. que as audições da Câmara. pp. demarcação das comarcas (1790)22.101-112 22 Sobre o disposto nestas reformas e as suas consequências na alteração do mapa político do Reino. Já no final do Antigo Regime. Destas reformas resultaria. apenas. praticamente. 21 Para uma síntese da reforma do governo pombalino ver José Subtil . a esta última. aos senados das câmaras através das magistraturas dos corregedores e provedores e foi. O discurso do Desembargo do Paço expressa e assinala. as alterações das relações entre a Corte e a periferia foram. aos seus pareceres e fundou-se. Conclusão Durante o Antigo Regime. durante o período neo-pombalino liderado por José de Seabra da Silva (1784-1799). 1998. em informações escritas preparadas pelos mesmos. regra geral. por outro lado. podemos dizer que. ver Ana Cristina da Silva. para o efeito. Actas do colóquio O Século XVIII e o Marquês de Pombal. As respostas do tribunal à actuação destes magistrados obedeceu. ainda mais. ainda mais longe. a abolição das ouvidorias. Nobreza e Povo deviam ser manifestas quanto às decisões tomadas para não se pôr em causa a justiça e o bem público. a nível local. a perda da influência do Desembargo do Paço na comunicação política com as câmaras. por esta via. mediatizavam a relação com o tribunal por intermédio do poder camarário que. exclusivamente. As câmaras perceberam tanto o rodeio destas inovações como a intromissão da secretaria de estado nas suas jurisdições privativas21. um papel determinante na organização e composição destas unidades. câmaras de Pombal e Oeiras. “A Reforma do Governo e da Administração (1750-1777)”. o poder das câmaras mas. com a regulação das jurisdições dos donatários. . os corregedores e os provedores. 2001. o tribunal e os seus os corregedores e/provedores tenderam a moderar. consultadas. criação do Superintendente Geral das Estradas (1791) e incorporação do Correio-Mor na Coroa (1797). desempenhou. a que assegurou a comunicação política entre a Corte e o Reino. Lisboa. As unidades orgânicas mais pequenas. a relação do Desembargo do Paço com a periferia resumiu-se. Separando a acção destes magistrados no terreno da que estabeleciam com o Desembargo do Paço e referindo-nos. essencialmente. O Modelo Espacial do estado Moderno. por um lado. Estampa. amiudadamente. de um modo geral.

regularidades discursivas e habitus burocráticos que promovessem o direito como tecnologia de decisão. outra activa) que concorrerem em conflitualidade pelo monopólio do poder. uma das quais. bem referenciada e assumida. veio colocar problemas à autoridade do Desembargo do Paço. pela Secretaria de Estado dos Negócios do Reino. outras estratégias e outras tecnologias de dominação que passaram por várias inovações. os poderes locais foram confrontados com duas centralidades (uma passiva. Compreende-se. a importância que revestiu para o tribunal a nomeação e o controlo das suas carreiras de forma a garantir que os seus serviços promovessem a paz e evitassem a discórdia. o papel desempenhado pelos mesmos magistrados no domínio comarcal onde tinham de agir para resolver abusos da administração municipal como sugerem muito dos capítulos das correições já estudados. foi a da criação de condições para uma maior mobilidade dos agentes de poder régio. A produção e reprodução dos mecanismos de dominação do centro à periferia consistiu. pelo menos. Intendência Geral da Polícia e. não perderem. pela geração liberal.RELAÇÕES ENTRE O CENTRO E A PERIFERIA NO DISCURSO DO DESEMBARGADOR DO PAÇO 261 Outro terá sido. o constrangimento do poder local. A questão do efectivo controlo da periferia pelo centro viria a ser assumida. a manutenção dos privilégios e regalias consolidadas ou que. liberdade para governarem e mais território para intervirem. no essencial. porém. em assegurar tipologias. o rumo tradicionalista pelo que. Mas estas actividades não enchem a documentação que chega ao tribunal. a partir de meados do século XVIII. não resultassem prejuízos graves para a ordem estabelecida. sobretudo. embora com outros contornos. das suas alterações. Entre esses problemas é de salientar a alteração das regras de intervenção política que passaram a considerar. especialmente. como fundamental. . Afinal todos esperavam ganhar com este expediente ou. Ou seja. Estavam em causa outros problemas. novamente. até à sua extinção (1833). O tribunal sentiu a mudança e a perda de autoridade mas não mudou. por isso. ao tribunal interessava-lhe. O surgimento de novos oficiais com competências para exercerem funções em áreas regionais que cobriam territórios de diversos concelhos e comarcas bem como o controlo da centralidade na comunicação com as comarcas e concelhos pelo Erário Régio. sobretudo.

sobre novos problemas e novas hipóteses de resposta. mas também. Não sendo especialista na matéria. de diversidade de assuntos. Agradeço à organização do encontro o ter-me prontamente facultado as gravações das sessões. no essencial. o que é ainda mais importante. que muito facilitaram o êxito desta iniciativa. Há muito mais estudos. 263-274. também do ponto de vista académico.Balanço final: Questões para uma sociologia histórica das instituições municipais1 RUI SANTOS (Univ. podemos hoje verificar um enorme contraste que denota uma grande progressão e um amadurecimento desta área temática. Sociologia Histórica) Antes de mais. também mais reflexão sobre o que ficou por fazer ao longo deste percurso. Em vez disso. há muito mais pensamento e análise. Foi elaborado sem conhecimento dos textos finais dos restantes autores. Por isso mesmo. Os Municípios no Portugal Moderno: dos forais manuelinos às reformas liberais Lisboa. bem como a eficaz organização e o excelente acolhimento facultado aos participantes. dificilmente este balanço poderia ser uma síntese competente da rica diversidade de informações e de pistas de trabalho deixadas pelas comunicações e pelos debates que tiveram lugar. Sociologia / Instit. em termos de orientações analíticas. gostaria de começar por agradecer ao CIDEHUS. 2005. em Reguengos de Monsaraz. pesem embora incursões pontuais lançadas a partir de investigações centradas em outros domínios. sobre a necessidade de corrigir enviesamentos dos resultados obtidos. mas também de maturação dos temas. . a comunicação de encerramento apresentada no encontro. à Câmara Municipal e à Biblioteca Municipal de Montemor-o-Novo o convite para participar neste encontro. tal como decorreram oralmente. procurando reflectir as comunicações e as discussões. Edições Colibri – CIDEHUS-UE. procurarei extrair e discutir os pon1 Este texto desenvolve. Se nos reportarmos ao encontro que teve lugar há uma dúzia de anos. sobre poderes centrais e poderes periféricos numa perspectiva histórica. pp. Nova de Lisboa – FCSH – Dept. pelo que não incorpora eventuais modificações entretanto introduzidas nas versões escritas.

segundo. que padece de uma excessiva concentração nos grandes municípios. o que me pareceu terem sido os grandes consensos emergentes das comunicações e das discussões. da falta de estudos sobre os municípios de fronteira e de áreas interiores. e têm-se generalizado para os séculos XVI e XVII imagens centradas no século XVIII.264 OS MUNICÍPIOS NO PORTIUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS tos que me parecem especialmente interessantes para a definição actual de problemáticas de investigação sobre o tema. Em primeiro lugar. ancorada na sociologia histórica e como tal privilegiando a análise comparativa das configurações e das instituições sociais. Foi sobejamente notada por vários intervenientes a carência de investigação sobre casos anteriores ao século XVIII. de comparabilidade e portanto de síntese e generalização. mas ao mesmo tempo do carácter pouco estruturado dessa acumulação que coloca problemas de representatividade. embora práticos. as omissões. bem como dos processos de reprodução e de mudança social. os consensos mais interessantes revelados por este encontro relacionam-se com o diagnóstico de uma acumulação de estudos de caso – veja-se o rico inventário apresentado por Francisco Ribeiro da Silva – que denota grandes ganhos de conhecimento. Seria necessário alargar os horizontes cronológicos para aferir melhor as continuidades e descontinuidades. como a influência da contiguidade das áreas estudadas às implantações universitárias detectada por Francisco Ribeiro da Silva. apesar de o considerar imprescindível numa agenda de investigação sobre as instituições municipais e as suas práticas no contexto do antigo regime. o que me pareceu ter ficado por tratar. Consensos Da perspectiva em que me coloco. a minha. 1. sem ilusões de exaustividade nem de imparcialidade do ponto de vista adoptado. e até da interferência de factores cientificamente espúrios. especialmente no Continente. destacou-se a necessidade de um alargamento da representatividade territorial. e mesmo na fase final do antigo regime. com vista a generalizações empírica e conceptualmente relevantes. São escassos os estudos longos. o alargamento também da representatividade cronológica. Abordarei consecutivamente três aspectos: primeiro. Espero assim dar um contributo para a clarificação e o debate das muitas e interessantes questões levantadas no encontro. terceiro. e pensar mais em termos de contrastes e de mudanças. o que me pareceu terem sido os pontos principais de ruptura e debate manifestos. Inevitavelmente. mas também a necessidade de os projectar na longa duração. sobre os pequenos municípios rurais. Em segundo lugar. . fá-lo-ei a partir de uma perspectiva.

que José Subtil sublinhou. por outro lado. existem corpos documentais nos próprios arquivos municipais onde alguma visibilidade pode ser recuperada. seleccionados e arquivados com que construímos as fontes. por vezes com surpreendente pormenor. é uma perspectiva que mais facilmente suscita interrogações do que respostas. Terceiro alargamento de representatividade. da resistência e do conflito – a que acrescentaria a anuência e a conformidade. alegações e contra-alegações. se as perguntas de investigação forem bem colocadas. As posturas camarárias repetindo ad nauseam durante décadas a proibição desta ou daquela prática (como a de criar porcos pelas ruas da cidade. Um quarto alargamento de representatividade identificado foi a correcção do que poderíamos chamar o enviesamento sociológico salientado por José Viriato Capela. Será necessária uma melhor caracterização.. e nas oportunidades de acesso a status sociais conferidos por essas hierarquias enquanto vias de mobilidade ascendente para elites subalternas. 265 não apenas de semelhanças – pese embora a estabilidade dos discursos jurídicos que moldavam as relações de poder no decurso do antigo regime. como apontou Nuno Monteiro. para além das fontes peticionárias e dos recursos para segunda instância. em termos de exercício e de relação entre os poderes. outra documentação largamente inexplorada.. por exemplo) não revelam bem a capacidade de resistência das populações nas suas práticas quotidianas? Mas também. Finalmente. Desde logo. o quase vazio do nosso conhecimento sobre as funções judiciais de primeira instância das câmaras.BALANÇO FINAL: QUESTÕES PARA UMA SOCIOLOGIA HISTÓRICA. como lembrou Teresa Fonseca. o estudo da importância do funcionariado concelhio e do oficialato das ordenanças nas configurações efectivas de exercício do poder. Em primeiro lugar. conterá provavelmente informação preciosa para este interrogatório. o da hierarquia burocrática e militar dos concelhos: concretamente. as próprias actas de vereação. ao menos em filigrana. avanços e recuos nas decisões camarárias em confronto com os administrados ficaram frequentemente registados. nomeadamente a carência de estudos sobre as instituições do ponto de vista dos administrados. como os livros de coimas. mas talvez parcialmente superável pelo estudo sistemático dos seus rastos nos processos depositados nos tribunais de segunda instância. os de licenças e os de fianças. onde conflitos. Mas é inegavelmente do maior interesse historiográfico e. infracções e sanções. que não fariam menos parte da vivência dos subordinados. devido à transferência dessa documentação dos arquivos municipais para os tribunais durante as reformas liberais do sistema judicial. dos fluxos da periferia para o centro e da influência . o alargamento da representatividade institucional. Dadas as assimetrias sociais dos actos discursivos escritos ou transcritos.

este último sugeriu como hipótese de trabalho a função dessa representação no tecer de uma consciência supra-local nos actores políticos locais. através da representação em cortes. e para resumir. concorrência ou conflito entre os poderes concelhios e outros poderes locais. como notaram Francisco Ribeiro da Silva e Pedro Cardim. por outro. podemos começar por reflectir em três problemas levantados para discussão nas intervenções. partilha. em várias intervenções. dos estudos sobre municípios senhoriais nos séculos XVI e XVII. provedores e mesários das misericórdias). Uma segunda ordem de problemas tem a ver com as articulações entre a história das instituições e dos poderes locais e a história social. José Subtil questionou a oposição corrente entre as instituições centrais (nomeadamente. tanto ao nível de instituições (freguesias. em parte por problemas de fontes. Várias intervenções questionaram a acção dos agentes da Coroa – provedores. a necessidade de serem mais consideradas unidades de análise infra-municipais e não-municipais. Debates Em articulação com o último ponto de consenso inventariado na secção anterior. párocos. tendo sido salientado por Mafalda Soares da Cunha o panorama muito rarefeito. sobre a esfera dos poderes municipais. como ressalta da comunicação de Fernanda Olival –. o da existência. eventualmente parte de uma estratégia da Coroa para a consolidação da entidade política Reino. corregedores – e de outros poderes supra-municipais. reciprocamente. ou não. senhoriais e supra-locais. como o Desembargo do Paço.266 OS MUNICÍPIOS NO PORTIUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS dos municípios na política da Coroa. como pólos de uma relação de concorrência. de instituições e de acção política de escala regional. foi constatada a necessidade de analisar mais sistematicamente a articulação. as relações de colaboração. o Desembargo do Paço) e os agentes da Coroa. Importante também se torna caracterizar e operar com a distinção institucional entre municípios de jurisdição régia e de jurisdição senhorial – incluindo a ambiguidade de que a este respeito parecem revestir-se os municípios das ordens militares sob a alçada da Coroa. as intendências e as secretarias de Estado. 2. por um lado. misericórdias como na comunicação de Laurinda Abreu e Rute Pardal) como de actores (juízes de vintena. Foi ainda bastante sublinhada. e os poderes locais. Em geral. todos remetendo para as configurações e a variabilidade das relações inter-institucionais e para os modos de as abordar teoricamente: o das relações entre instâncias de diferentes escalas institucionais. Tal oposição fundamenta-se nas tensões de poder pela decisão . e o da coexistência e do conflito entre poderes municipais e senhoriais.

fiscalizadores e fiscalizados. como um dos vectores de uma crise do municipalismo.. dos seus capitais sociais e culturais.BALANÇO FINAL: QUESTÕES PARA UMA SOCIOLOGIA HISTÓRICA. Na sua comunicação. de novos discursos (o administrativo. 267 jurídica legítima entre poderes centrais e poderes periféricos. de uma tensão entre o centro e a periferia. nomeadamente. dos actores (emissores. etc. o Desembargo do Paço. De acordo com esta perspectiva. e invoca mudanças da relação centro-periferia em finais do antigo regime por efeito de um reforço das instituições e dos actores políticos centrais. e pela crescente intromissão em torno desses novos objectos de agentes da Coroa externos à ordem tradicional e que escapavam à sua lógica discursiva (secretarias de Estado. mas entre discursos e agentes tradicionais e “modernos” no próprio centro.. decerto variáveis em função das suas posições. apenas interviria quando a ordem local era perturbada. De facto. assim. A mudança das relações centro-periferia em fins do antigo regime teria antes que ser entendida pela emergência. tanto locais como centrais. pondo em causa as instituições tradicionais. parece-me um problema especialmente estimulante para uma sociologia política do antigo regime – suspeito que o seu interesse poderá transcender muito a fase final daquele –. o autor propôs repor o problema a partir de um ângulo diferente. Não se trataria. Os discursos normativos podem ser apropriados como recursos da acção. não teria uma estratégia de intervenção sobre os poderes locais. o económico e o financeiro) que escapavam à lógica do discurso jurídico tradicional inventando novos objectos. receptores. primeira instância e instâncias de recurso. estáveis e reciprocamente previsíveis.. desde finais do século XVII. instigando ao estudo das intervenções e (des)articulações destes poderes. O problema fica em aberto. em todo o caso intérpretes)? À parte esta dúvida teórico-metodológica. relativa que seja. no quadro do discurso jurídico tradicional assente nas categorias de justiça e de graça. como conceptualizar um dispositivo institucional assente na execução e na apreciação de “actos linguísticos” procedendo à total elisão da autonomia. não sem levantar reservas o apelo à passagem de uma análise centrada nos actores para uma outra centrada nos discursos. e minando a estrutura e os equilíbrios de poder do antigo regime. que anularia a acção voluntária sob um modelo decisório tradicional completamente formatado pelo discurso jurídico. o de perspectivar as relações entre poderes centrais e periféricos à luz das tensões institucionais . na arquitectura tradicional de poderes do Antigo Regime as várias instâncias eram organicamente complementares. intendências). encobrindo e legitimando processos de decisão que decorrem de margens de liberdade dos actores. sobrepondo-se como diferentes camadas com lógicas de funcionamento próprias. deslocando-o de uma lógica dos actores e das “vontades” – subjacente à noção de concorrência – para uma lógica dos discursos.

se não regionais. apenas para dar alguns exemplos) e do económico (hierarquias de mercados. Colocar mais decididamente as relações. particularmente no século XVIII. nas redes familiares supra-municipais das gentes da governança. Esse questionamento permitiria talvez equacionar melhor a questão. referida pela mesma autora. as funções. José Viriato Capela contestou a tese do carácter a-regional ou mesmo anti-regional do município moderno. cujos poderes e privilégios lhes confeririam verdadeiras tutelas sobre territórios cujas configurações físicas. económicas e sociais tendiam por sua vez a criar fortes homogeneidades. No entanto. as hierarquias inter-municipais na agenda da investigação sobre a história local poderá certamente trazer perspectivas de articulação em espaços mais amplos. porque nesta discussão coexistem. estas tendências teriam levado a uma crise dos pequenos municípios – que seria a expressão fundamental da chamada crise do municipalismo – e a uma concentração de poderes. funções e recursos nos grandes municípios que assim teriam acentuado o seu peso relativo e constituído pólos. variável capacidade de gestão dos fluxos económicos inter-concelhios). merecem mais reflexão algumas ambiguidades em torno da operacionalização do conceito de região. da contextualização dos discursos iluministas anti-municipais que fundamentam a ideia de uma crise do municipalismo no final do século XVIII. Este questionamento apresenta as indiscutíveis virtudes de pôr na primeira linha do debate sobre o municípios os processos de mudança social e institucional de finais do antigo regime. nomeadamente por efeito da legislação pombalina e mariana no sentido da concentração. não só do ponto de vista institucional como também do social (pensemos nas eventuais relações entre mobilidade social e mobilidade geográfica. Parte dos argumentos aduzidos por José Viriato Capela referem-se. e de empreendimentos de desenvolvimento regional envolvendo os recursos de múltiplos concelhos. Resumindo. Salientou as dinâmicas políticas que favoreceram fortes homogeneidades regionais. da hierarquização e da racionalização político-institucionais. No plano das configurações espaciais. duas definições teoricamente distintas: a região como recorte definido pela homogeneidade ou pela polarização (que implica heterogeneidade e dominação). Por um lado. na detenção trans-municipal de propriedades ou de direitos. a homo- . de facto. ao menos “regionalizantes”. e elucidar. a sua aparente contradição com o apoio dos oficiais da Coroa à acção anti-senhorial dos municípios na época pombalina. de forma não problematizada. levantada no debate por Margarida Sobral Neto. numa lógica de acção política.268 OS MUNICÍPIOS NO PORTIUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS no centro. e de obrigar a transcender o quadro fortemente localizado e por assim dizer auto-contido de grande parte da historiografia municipal.

a hierarquias de poderes entre municípios. com a existência de identidades. ou pouco interesse em interferir com a esfera de autonomia dos concelhos) e de controle funcional (os poderes senhoriais exerciam um controle político “moderador” sobre a actuação das câmaras.. mas não beneficiários de obras promovidas pela Coroa. e faziam-no em proveito próprio. pela apropriação do território e dos recursos económicos.. seja a diferenciação entre concelhos com juiz de fora e com juiz ordinário. não correrá o risco de confundir. que realmente definiriam a escala regional no plano político? Se a crise dos municípios na segunda metade do século XVIII é sobretudo perceptível nos pequenos municípios. e sendo o problema do carácter regional ou a-regional dos municípios de natureza essencialmente política. seja a dotação de grandes municípios com sedes de instituições com importantes poderes supra-municipais (como no caso do Porto com a Real Companhia. a que poderíamos acrescentar Lisboa com a Corte e os seus privilégios de abastecimento). mais do que de um carácter regional daqueles? No que respeita à relação entre os poderes municipais e os poderes senhoriais. Os poderes senhoriais. Hierarquias que induziriam polarizações de dominação política do território. Por outro lado. Outra parte refere-se. no sentido da redução do arbítrio. não deveria falar-se de um aumento da hierarquização. A exacção das rendas . da manutenção do bem comum e do bom governo dos povos.BALANÇO FINAL: QUESTÕES PARA UMA SOCIOLOGIA HISTÓRICA. ou entre os municípios beneficiários e os envolventes contribuintes. ora as consequências de âmbito supra-municipal da implantação e da actuação dos grandes municípios. corpos e mecanismos de poder ou de representação intermédios entre o município e o reino. sem dimensão nem recursos para desempenhar as funções que lhes foram atribuídas pelas reformas políticas. 269 geneidades territoriais criadoras de semelhanças sócio-institucionais. o da concorrência e conflito institucional. ou de Coimbra com a Universidade. Margarida Sobral Neto contrapôs aos tipos ideais que poderíamos denominar de domínio senhorial limitado (os poderes senhoriais tinham escassa capacidade. diversamente. tinham efectivo interesse e capacidade de colocar bloqueios e constrangimentos à autonomia das câmaras. característica geopolítica que intersecta muitas outras de diferentes índoles). tipo ideal de algum modo subsidiário da ideia de domínio oligárquico dos municípios). com acréscimo do peso relativo dos grandes municípios mas sem mudança da sua escala de acção institucional. ora as continuidades de características territoriais relativamente homogéneas. de resto nem sempre correlacionadas (como é o caso dos municípios de fronteira. em concorrência pelo exercício do poder. e que seriam bem complementadas pela polarização mais estritamente económica do peso dos mercados das grandes cidades nas suas áreas de influência.

ao passo que os privilégios jurisdicionais subvertiam a jurisdição camarária de primeira instância. tendo proliferado em fins do antigo regime entre um variado tipo de instituições. devido ao carácter “natural” da governação oligárquica no quadro da cultura política do antigo regime: a governação era por definição uma responsabilidade dos maiores numa hierarquia de honra e nobreza. empobreciam os concelhos.270 OS MUNICÍPIOS NO PORTIUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS senhoriais e as isenções de coimas ou de taxas camarárias. a ver com a relação da história dos municípios e das instituições locais com os problemas e conceitos da história social. e a proposta de transformação da análise predominantemente institucional dos municípios pela sua subsunção numa problemática da história social das elites locais. da estratificação. Se não presumirmos que a relação entre normas e práticas sociais é transparente e imediata. que não eram especificamente senhoriais. Dois temas foram levantados a este respeito. nem que as hierarquias adscritivas codificadas em normas são fixas e se aplicam exaustivamente nas situações e nos processos sociais – ambas premissas sociologicamente insustentáveis –. dada a definição caberia mais falar de uma aristocracia. como tem feito em escritos passados. quer a diversidade e o peso relativo dos direitos senhoriais exercidos pelas casas (por contraste com direitos de propriedade). Passando por cima das questões de terminologia (na realidade. A segunda grande temática em debate tem. quer a interferência de privilégios jurisdicionais como os de juízo privativo. então há que verificar “no terreno” não só a hipotética dominância do modo de governo oligárquico decorrente da pauta nor- . Nuno Monteiro sustentou. Como decorreu da discussão. deixando de lado a sua tradução nas práticas sociais e políticas. da reprodução e da mobilidade sociais. em torno da caracterização dos grupos detentores do poderes locais como elites ou como oligarquias. mais do que teoricamente contraditórios. por isso. carece ela própria de investigação e de explicação comparativa. reflectem situações-tipo não generalizáveis e cuja variabilidade. dos melhores). tanto territorial como conjuntural ou mesmo situacional. particularmente em torno da história social das elites e. as intervenções no debate deram a entender que os três tipos ideais. que é em parte semântica e em parte substantiva. impedindo a capacidade de governação camarária e o desempenho das funções municipais na provisão de bens públicos. ambos por Nuno Monteiro: a discussão. já que um tal carácter tautológico remete tão-só para a dimensão normativa da cultura política. Encerrarei esta secção do texto com uma recapitulação crítica dessas propostas. haverá aqui a distinguir. teoricamente pouco profícuo. nomeadamente. como disse. mais genericamente. que a conceptualização em torno do conceito de oligarquia resulta tautológico e. esta posição enferma ela mesma de uma fragilidade teórica. Na realidade.

toma como unidades de análise entidades políticas e remete para um modo de governo e de exercício do poder. É na análise histórica de processos deste tipo que radica a associação dos conceitos de oligarquia e de oligarquização das instituições municipais às teses sobre a cristalização e o bloqueio da estrutura social do antigo regime. tal como aconteceu ao de aristocracia). verificar e explicar histórica e sociologicamente as apropriações e interpretações da pauta normativa pelas instituições..BALANÇO FINAL: QUESTÕES PARA UMA SOCIOLOGIA HISTÓRICA. cabendo talvez delimitar as circunstâncias em que será teoricamente preferível designá-los como processos de aristocratização. por seu turno. como as variações. mais do que a designação de um grupo ou de um conjunto de grupos sociais (pese embora a vulgarização do seu uso neste último sentido. que retomarei abaixo). pode haver variações nas fronteiras sociais de acesso aos lugares de poder (na definição dos maiores). dentro dos cânones de uma governação de tipo oligárquico. creio que os dois conceitos recobrem campos de aplicação distintos. remetendo para a definição de grupos que ocupam o topo de múltiplas dimensões de diferenciação e de hierarquização de status. cuja validade empírica no contexto do antigo regime é evidentemente muito discutível. Denota a restrição do status de governante aos maiores. e podem variar segundo as escalas de observação. O conceito de elite. etc. famílias. Podendo ser usado com conotações normativas. Mas se admitirmos que. A questão que verdadeiramente interessa colocar é a de qual o valor analítico e hermenêutico de oligarquia e elite como conceitos de análise histórica e sociológica. no sentido de fechamento social da estrutura de oportunidades de acesso aos cargos de poder político (estreitamento social do grupo dos maiores legitimamente elegíveis. embora relacionados. da distribuição social das oportunidades de acesso ao poder. no espaço e no tempo. casas. bem como as lutas em seu torno: em suma. pela imposição de parâmetros de diferenciação mais exclusivos e/ou redução das probabilidades de mobilidade para o seu interior). é no entanto um conceito fundamentalmente descritivo. podendo por isso assumir conotações ideológicas por oposição a ideais de governação municipal democrática. 271 mativa. porventura mais livre de conotações ideológicas e de juízos de valor implícitos do que o de oligarquia (ou tão-só portador de ideologias e de valores . pelos actores e pelos grupos (o que de resto me parece convergir com a sua segunda proposta. releva da teoria da estratificação social. que os compõem. mais ou menos correlacionadas entre si. não sendo por isso teoricamente alternativos. e para a análise dos processos e mecanismos sociais pelos quais esses grupos se constituem. então tem cabimento teórico a análise de processos de oligarquização. Deste ponto de vista. As unidades de análise são aqui os grupos sociais e os indivíduos.. se diferenciam e reproduzem (ou não) o seu status. O conceito de oligarquia releva da teoria política.

na sua dimensão política e administrativa formal. por isso. a vantagem de obrigar a pluralizar. O remédio . Nuno Monteiro propôs também uma descentração daquilo a que apelidou de “fetichismo” das instituições locais. relativamente a fenómenos de estruturação social mais amplos. necessário reinventar a problemática.e. nem unidade analítica do ponto de vista processual. distribuindo posições de destaque relativamente a diferentes grupos de referência. do que resulta uma deriva interessante e enriquecedora a partir de um interrogatório ancorado na história social. onde.. O facto de esses processos poderem ser protagonizados. À imagem homogénea de uma oligarquia. mas como disse acima. por exemplo. cargos que uma categoria social enjeita são definidores de uma posição de elite e de oportunidades de mobilidade social para outras categorias sociais (cf. segundo o qual cada novo estudo sujeito a este “fetichismo” pouco acaba por acrescentar ao que já se sabia. que lugar representavam as instituições locais – entre outros meios de mobilidade ou de defesa da posição social – nas metas e nas trajectórias sociais das elites locais. através do alargamento da perspectiva para uma história das elites locais. Dada a diversidade das dimensões de classificação social e dos grupos de referência relativamente aos quais os actores se posicionam. o conceito de elite tem sobre o de oligarquia. sem critérios de comparabilidade ou organizados em torno de categorias teoricamente pouco profícuas) e ao efeito contínuo e não corrigido das tendências de enviesamento identificadas acima. substitui-se a de uma estrutura de oportunidades estratificada. como meio de ultrapassar uma espécie de efeito ricardiano dos rendimentos marginais decrescentes. exemplos nas comunicações de Mafalda Soares da Cunha e de Teresa Fonseca). não o substitui. Passando ao segundo tema. tal dever-se-á mais ao paradoxo já sugerido de uma “acumulação não cumulativa” (i. agregação de casos isolados. em favor da abordagem unilateral da sua função como instrumentos de mobilidade social (ou de defesa contra ela). quando este é usado para designar o grupo detentor do poder e não a forma de governo. Seria. por actores provenientes de diferentes categorias sociais não lhes retira. nesta escala de observação. nem validade comparativa numa análise das dinâmicas sociais e políticas. Mas o interesse inegável desta problematização não deve fazer esquecer o questionamento específico das realidades políticas e administrativas enquanto tais. à escala local. apenas um ângulo analítico distinto e mais amplo.272 OS MUNICÍPIOS NO PORTIUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS hoje mais consensuais?). Mas isto não é contraditório com a noção de processo de oligarquização. Se na realidade há rendimentos marginais decrescentes. nem ainda potencialidade explicativa. elegendo as casas ou famílias como unidades de análise. numa duração multi-geracional. Pergunta.

Não deveria ser esse o desafio a lançar por um evento que comecei por caracterizar como de amadurecimento da área temática? 3. quando referidos. o foram de forma lateral e incidental.BALANÇO FINAL: QUESTÕES PARA UMA SOCIOLOGIA HISTÓRICA. ou ficaram de todo omissos.. bem como os referentes espaciais e cronológicos que permitam transcender o âmbito local dos somatórios de conclusões e eventualmente reinterpretar o que já foi feito para trás. entretecido com instituições e com rotinas sociais. quer directamente enquanto produtoras – de património edificado. por um lado. Trata-se de temas que se diria serem estruturantes e que. Em segundo lugar. o que permitirá encerrar este balanço final numa nota de desafio. 273 estará mais na negociação científica de uma agenda. decerto o da mobilidade e da reprodução das elites –. e das hierarquias e mobilidades sociais. etc. Não tendo sido objecto de reflexão no encontro. de investigação comparativa assentes em modelos analíticos explícitos que definam as lacunas. Omissões Num encontro muito marcado pela relação e pelas tensões entre as perspectivas institucional-política. paisagem no sentido clássico da geografia humana. a questão das actividades de produção e apropriação de território e de paisagem. uma vila ou cidade. Pouco ou nada sabemos sobre o eventual exercício desse poder simbólico pelas instituições municipais e sobre a sua eficiência. decerto em coexistência ou em concorrência com outras pertenças ou reivindicações identitárias. a um nome. reprodutoras ou cristalizadoras de identidades sociais simbolicamente representadas por atributos de pertença: a um espaço geográfico. investido de significado. ou agendas. foram flagrantes três ausências. a um povo do concelho. de vias de circulação. mas sim no de espaço socialmente marcado e apropriado.. um termo. as dimensões e os indicadores. não no sentido administrativo. funções de provisão de bens públicos que Margarida Sobral Neto brevemente mencionou na sua comunicação – quer enquanto reguladoras e fiscalizadoras. e não como objectos específicos de estudo ou sequer de problematização. território no sentido sociológico. os problemas – entre os quais. os conceitos. Em primeiro lugar. edificado e funcionalmente diferenciado. a um conjunto de símbolos edificados. a questão das instituições municipais como produtoras. por outro.. não procurarei aqui dar-lhes um desenvolvimento que resultaria marginal aos resultados substantivos que se verificaram. Refiro-me aqui a território. Limitar-me-ei a inventariar brevemente essas omissões. Actividades em que as instituições municipais detinham um papel fundamental. . ou.

impostos e coimas. que. e redefinem conjunturalmente essa legitimidade. que através das concessões de licenças e da exigência de fianças intervêm nas actividades económicas. que intervêm nos mercados fazendo uso das suas prerrogativas. também por ser o tema que me interessa mais. em equilíbrios de poder variáveis com outros agentes. nem essencialmente como legisladores. O estudo das práticas económicas concretas na esfera local – a exemplo do trabalho empírico pormenorizado apresentado por Laurinda Abreu e Rute Pardal sobre uma outra instituição – é uma dimensão crucial da sociologia económica do antigo regime. mas como instituições de enquadramento ou agentes activos nos mercados locais e regionais. creio que seria interessante. Agentes que gerem recursos económicos próprios. mormente se pensarmos que foi em grande parte em torno dela que se definiu o discurso iluminista sobre as “vexações” aos povos e os entraves ao progresso alegadamente protagonizados pelos governos municipais. que dentro dos seus territórios definem quais são os mercados. não só recuperá-las. . e contratos. e provêem (ou sonegam) bens públicos. sancionam direitos de propriedade. mas também interrogar reflexivamente os modos de fazer história que têm vindo a conduzir à sua perda. nas matrizes problemáticas que foram seminais deste campo de estudos. públicos e privados. enquanto jurisdições de primeira instância. a questão das actividades de intervenção económica directa e de regulação económica das instituições municipais. para manipular as ofertas de bens. as trocas e os actores legítimos. Não exclusiva. os preços e a circulação. Estando estas dimensões inscritas. arrematam rendas.274 OS MUNICÍPIOS NO PORTIUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Finalmente. sob formas e com pesos variáveis.

pt colibri@edi-colibri.qxd 06-07-2011 23:39 PÆgina 275 Colibri – Soc.Colof. de Artes Gráficas Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa Alameda da Universidade 1600-214 LISBOA Tel.pt ./Fax: 21 796 40 38 www.edi-colibri.

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