OS MUNICÍPIOS

DOS

NO

PORTUGAL MODERNO

FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS

Colecção: BIBLIOTECA – ESTUDOS & COLÓQUIOS (Direcção: CIDEHUS.UE)
1. Diplomacia & Guerra: Política Externa e Política de Defesa em Portugal. Do final da Monarquia ao Marcelismo – Actas do I Ciclo de Conferências FERNANDO MARTINS (ed.) 2. Elites e Redes Clientelares na Idade Média: Problemas Metodológicos FILIPE THEMUDO BARATA (ed.) 3. Indústria e Conflito no Meio Rural: Os Mineiros Alentejanos (1858-1938) PAULO GUIMARÃES 4. Causas de Morte no Século XX: A transição da mortalidade e estruturas de causa de morte em Portugal Continental MARIA DA GRAÇA DAVID DE MORAIS 5. Concepções de História e de Ensino de História – Um Estudo no Alentejo OLGA MAGALHÃES 6. Elites e Poder. A Crise do Sistema Liberal em Portugal e Espanha (1918-1931) = = Elites y Poder. La Crisis del Sistema Liberal en Portugal y España (1918-1931) MANUEL BAIÔA (ed.) 7. D. Pedro de Meneses e a construção da Casa de Vila Real (1415-1437) NUNO SILVA CAMPOS 8. História e Relações Internacionais. Temas e debates LUÍS NUNO RODRIGUES e FERNANDO MARTINS (ED.) 9. Igreja, Caridade e Assistência na Península Ibérica (Sécs. XVI-XVIII) LAURINDA ABREU (ed.) 10. Os Municípios no Portugal Moderno: dos forais manuelinos à reformas liberais MAFALDA SOARES DA CUNHA e TERESA FONSECA (ed.)

Colecção: FONTES & INVENTÁRIOS (Direcção: CIDEHUS.UE) I. Série GAZETAS (Direcção: CHC-UNL e CIDEHUS.UE)
1. Gazetas Manuscritas da Biblioteca Pública de Évora. Vol. I (1729-1731) JOÃO LUÍS LISBOA; TIAGO C. P. DOS REIS MIRANDA; FERNANDA OLIVAL 2. Gazetas Manuscritas da Biblioteca Pública de Évora. Vol. II (1732-1734) JOÃO LUÍS LISBOA; TIAGO C. P. DOS REIS MIRANDA; FERNANDA OLIVAL

II. Série GERAL (Direcção: CIDEHUS.UE)
1. António Henriques da Silveira e as «Memórias analíticas da vila de Estremoz» TERESA FONSECA

Mafalda Soares da Cunha Teresa Fonseca (Ed.)

OS MUNICÍPIOS
DOS

NO

PORTUGAL MODERNO

FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS

Edições Colibri
CIDEHUS / UE – Centro Interdisciplinar de História, Culturas e Sociedades da Universidade de Évora

BIBLIOTECA NACIONAL – CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO Os municípios no Portugal Moderno : dos forais manuelinos às reformas liberais. - ed. Mafalda Soares da Cunha, Teresa Fonseca. - (Biblioteca - estudos & colóquios ; 10) ISBN 972-772-526-0 I - Cunha, Mafalda Soares da, 1960II - Fonseca, Teresa, 1950CDU 352 94(469)"15/17"(042.3)

TÍTULO ED. EDITOR EDIÇÃO PAGINAÇÃO CAPA DEP. LEGAL

Os Municípios no Portugal Moderno: Dos forais manuelinos às reformas liberais Mafalda Soares da Cunha e Teresa Fonseca Fernando Mão de Ferro Edições Colibri e CIDEHUS-UE Albertino Calamote
TVM Designers 220 656/05

Lisboa

Maio 2005

Índice
Introdução .................................................................................... Francisco Ribeiro da Silva (FL-UP) Historiografia dos municípios portugueses (séculos XVI e XVII) .......... José Viriato Capela (Univ. Minho) Administração local e municipal portuguesa do século XVIII às reformas liberais (Alguns tópicos da sua historiografia e nova História) .... Nuno Gonçalo Monteiro (ICS-UL) Sociologia das elites locais (séculos XVII-XVIII). Uma breve reflexão historiográfica ................................................................................ Teresa Fonseca (CIDEHUS.UE) O funcionalismo camarário no Antigo Regime. Sociologia e práticas administrativas .............................................................................. Mafalda Soares da Cunha (CIDEHUS.UE) Relações de poder, patrocínio e conflitualidade. Senhorios e municípios (século XVI-1640) ................................................................... Fernanda Olival (CIDEHUS.UE) As Ordens Militares e o poder local: problemas e perspectivas de estudo ............................................................................................ Laurinda Abreu (CIDEHUS.UE) Câmaras e Misericórdias. Relações políticas e institucionais ............... Rute Pardal (CIDEHUS.UE) As relações entre as Câmaras e as Misericórdias: exemplos de comunicação política e institucional ........................................................ Margarida Sobral Neto (FL-UC) Senhorios e concelhos na época moderna: relações entre dois poderes concorrentes ................................................................................... Pedro Cardim (FCSH-UNL) Entre o centro e as periferias. A assembleia de Cortes e a dinâmica política da época moderna ..............................................................
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.....6 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS José Manuel Subtil (Inst........................ Politécnico Viana do Castelo/UAL) As relações entre o centro e a periferia no discurso do Desembargo do Paço (Sécs. Rui Santos (FCSH-UNL) Balanço final: Questões para uma sociologia histórica das instituições municipais ..... XVII-XVIII) .................................................................... 243 263 ...............................................

Culturas e Sociedades (CIDEHUS) da Universidade de Évora. nomeadamente as do Sul do país. Sancho I e os 500 anos da atribuição do foral de D. a colaboração com a autarquia montemorense representou uma possibilidade de realização de um evento de particular interesse científico fora do âmbito académico. E para o CIDEHUS. contribuindo assim para aprofundar o conhecimento das especificidades regionais. possibilitou a caracterização da sociologia e das práticas político-administrativas em diferentes contextos espaciais.Introdução O colóquio Os municípios no Portugal Moderno. através de abordagens respeitantes às suas diversas vertentes. . abarcando deste modo um auditório mais vasto e diversificado. O evento afirmou-se ainda como uma excelente oportunidade de reflexão sobre o municipalismo português. constituiu uma iniciativa conjunta da Câmara Municipal de Montemor-o-Novo e do Centro Interdisciplinar de História. Manuel I. Dos Forais Manuelinos às Reformas Liberais ocorrido na cidade de Montemor-o-Novo a 6 e 7 de Novembro de 2003. que nesse ano comemorou em simultâneo os 800 anos da concessão do foral de D. Permitiu efectuar o ponto da situação da historiografia relativa ao tema. E o confronto de perspectivas de análise e dos diferentes casos estudados. A sua realização revestiu-se de particular significado para Montemor-o-Novo.

Posta em causa a inventariação total por ser praticamente impossível. 9-37. 2005. no segundo. ensaiarei uma resenha das fontes publicadas. no terceiro tentarei um ponto da situação dos estudos sobre concelhos e administração municipal. para além da pesquisa em catálogos de bibliotecas.Historiografia dos Municípios Portugueses (séculos XVI e XVII) FRANCISCO RIBEIRO DA SILVA (Universidade do Porto – Faculdade de Letras) Introdução O desafio que me foi proposto pela Prof. I – Fontes Publicadas Num primeiro desenvolvimento pareceu-me oportuno fazer uma digressão pelo panorama das fontes impressas. Para ser executado cabalmente. foram defendidos em provas públicas e permanecem inéditos. em listas bibliográficas contidas nas obras da especialidade e na web. a matéria que me foi dada para estudo pode ser tratada e encarada sob diversas perspectivas e ângulos de observação. considerarei os trabalhos sobre forais manuelinos.ª Teresa Fonseca – o de fazer o ponto da situação da bibliografia portuguesa sobre concelhos e administração municipal referente aos séculos XVI e XVII – é muito mais difícil do que o que parece. Para tal não dispus de tempo e. provavelmente vão ficar fora das minhas considerações estudos e trabalhos dos quais não tive notícia. por isso. pp. Entendi dividir o tratamento dos trabalhos conhecidos em três grandes pacotes: no primeiro. Edições Colibri – CIDEHUS-UE. . Os Municípios no Portugal Moderno: dos forais manuelinos às reformas liberais Lisboa. deveria ter-me levado às Faculdades e Institutos de investigação para fazer o levantamento das teses de mestrado e outros trabalhos que têm sido escritos.

farei referência às fontes que alcançam todo o Reino.. outra as provisões e cartas régias que não abrangem senão uma cidade. 1569 Para o século XVII – José Justino de Andrade e Silva. Lisboa. . Collecção Chronologica da Legislação Portugueza. Uma coisa são as leis ou normas gerais como as Ordenações do Reino. compiladas por. embora mais dia menos dia se torne indispensável aprender e calcorrear assiduamente os caminhos dos Arquivos.. é possível recorrer a bons materiais que outros investigadores foram pondo à disposição dos vindouros em letra de imprensa. Francisco Correa.. Mesmo assim arriscarei na esperança de que a minha lista seja o começo de uma recolha que irá engrossar com o contributo de outros até se tornar exaustiva. Imprensa da Universidade. Não será temerário da minha parte tentar um inventário? É com toda a certeza. Collecção Chronologica de leis extravagantes. – França. Leis Extravagantes collegidas e relatadas pelo licenciado . – Leys e provisões que el-rei Dom Sebastião nosso Senhor fez depois que começou a governar. uma vila ou um concelho. Lisboa. 1819. 1854-56. aparecida em Lisboa em 1955 por iniciativa do professor Marcelo Caetano sob os auspícios da Fundação da Casa de Bragança. Mas as dificuldades para uma inventariação útil e completa são muitas.. per mandado do muito alto e muito poderoso Rei Dom Sebastião Nosso Senhor.. em edição facsimilada do texto impresso por Valentim Fernandes em 1504. Quem sabe se de imediato as sugestões dos presentes não a irão completar? Numa primeira análise de fundo geográfico. Uma coisa são as Actas de uma determinada Câmara. 1570. É uma dívida de gratidão para com esses beneméritos que nunca é demais realçar. Foram-me úteis e por isso aqui deixo notícia do: – Regimento dos oficiais das cidades. Lisboa. São sobretudo as normas. de que destacámos: Para o século XVI – Duarte Nunes de Leão. códigos e leis. é necessário distinguir os tipos de fontes e a sua diversa natureza. os regimentos régios.. Coimbra. os alvarás válidos para todo o espaço nacional. a correspondência ou os forais. vilas e lugares destes reinos. Para além das Ordenações Manuelinas e Filipinas. outra as correições ou sentenças relativas a um certo Concelho. da C. outra ainda os capítulos particulares e gerais levados a Cortes. Antes de mais. F..10 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS É sempre importante para quem se inicia nos segredos de Clio saber que. lembraremos as colecções de legislação. antigos e novos.

Coimbra. – Livro do lançamento e serviço (1565). com um suplemento.HISTORIOGRAFIA DOS MUNICÍPIOS PORTUGUESES (SÉCULOS XVI e XVII) 11 – Manoel Fernandes Thomaz. Para além das fontes impressas de abrangência geral. Descrição de Lisboa. de Raul Machado. cujos títulos são respectivamente os seguintes: Livro da Contenda entre a Cidade e o Conde de Penaguiam..s III a V. Elementos para a História do Município de Lisboa.1938-1952 Livro 2.. As terras que dispõem de fontes históricas impressas (para o nosso período) são imensas: Sobre Lisboa – Eduardo Freire de Oliveira.. Repertorio Geral. há que referir as fontes dirigidas às localidades (que. Zamora.º das Chapas. 1937. Damião de. Lisboa.º das Chapas. 2 vols. Porto. Lisboa. Lisboa. 1914-1915 Livro 1. – Livro dos Regimentos dos officiaes mecanicos da mui nobre e sempre leal cidade de Lixboa (1572). publicadas depois das Ordenações. Poderíamos incluir aqui os muitos Regimentos que foram publicados em colectâneas ou isoladamente. Lisboa. 1818. – Documentos do Arquivo Histórico da Câmara Municipal de Lisboa. 1815. interessam-nos os vol. publicadas desde 1603 ate 1817. Câmara Municipal. Sobre o Porto – Corpus Codicum Latinorum et Portugalensium. Fundação Rei Afonso Henriques. 2 tomos. 1947-1948. 1882-1889.s 1 a 4. 1878 . Mappa chronologico das leis e mais disposições de direito portuguez. 1962 – Góis. Livraria Avelar Machado.. s/d. VI. de Virgílio Correia. Livros de Reis. Dizem respeito à época aqui considerada os vol. Lisboa. Imprensa da Universidade. Filipe II de Espanha Rei de Portugal (Colecção de documentos filipinos guardados em Arquivos Portugueses). Coimbra. 1926. Porto. ou Indice Alphabetico das Leis extravagantes do Reino de Portugal. Porto. – E já agora (perdoe-se a publicidade) de Francisco Ribeiro da Silva. 1953-1961 Privilégios dos cidadãos da cidade do Porto. às vezes inesperadamente ultrapassam a dimensão local). Porto. ed. – Manuel Borges Carneiro. trad. Lisboa de Quinhentos.

1605-1692. vol. Aveiro. 1559/82» in Bracara Augusta. – Cruz. 1967. Viseu. 1941. António Augusto Ferreira da. Tratado da cidade de Portalegre. Imprensa Nacional Casa da Moeda. Frei Bartolomeu dos Mártires. O livro dos Acordos de 1534. Viseu. decidimos metê-la aqui. esta obra em rigor não é uma publicação de fontes. Viseu. mas sendo constituída por resumos de actas e de outros documentos municipais que. Lisboa. de Leonel Cardoso Martins. Câmara Municipal. 1998 Sobre Braga – Frei António do Rosário. int. Subsídios para a sua História. Sobre Guimarães – Alberto Vieira Braga. O Porto na Restauração. Sobre Évora – Gabriel Pereira. O Porto seiscentista. Imprensa Nacional-Casa da Moeda. Diogo Pereira. Fernando. Documentos Históricos da Cidade de Évora. Guimarães. Sobre Portalegre – Sotto Maior.s XX-XL Braga. provisões e alvarás régios registados na Câmara de Coimbra 1275-1754). vol. .12 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS – Guimarães. XXIII. «Acordos e Vreações da Câmara de Braga no Episcopado de D. 1955. XVI. 1956 – Alexandre de Lucena e Vale. (Na verdade. Livro 2. Coimbra. Notícia e índice do livro de registos da Câmara de Aveiro 1581-1792 in «Arquivo do Distrito de Aveiro». embora elaborados com mérito pelo seu Autor. permanecem muito próximos dos originais. 1970-1990. Índice do livro dos acordos do séc. Porto. Porto. sem prejuízo de abaixo poder ser retomada). A.º da Correia (Cartas. 1948 Sobre Aveiro – Madail. 1943. 1955. 1984. Sobre Viseu (Do mesmo modo e por maioria de razão entendemos colocar neste elenco os trabalhos que seguem) – Alexandre de Lucena e Vale. Um século de administração municipal. Viseu. Subsídios para a sua História. Lisboa. da Rocha. 1953. – Alexandre de Lucena e Vale. Administração Seiscentista do Município Vimaranense. (Capítulos de Cortes) Sobre Coimbra – José Branquinho de Carvalho.G. Câmara Municipal.

etc. Vereações da Câmara Municipal do Funchal – segunda metade do século XVI. Livro dos Acordos da Câmara de Aveiro de 1580. 1998 – José Pereira da Costa.s XV-XVIII. convém não perder de vista certos textos de narrativa histórica que. 2002 – Luís Francisco Cardoso de Sousa Mello publicou um Tombo do Registo Geral da Câmara Municipal do Funchal na «Arquivo Histórico da Madeira». N. 2000. Viagem da Catholica Real Magestade del-Rey D. Vereações da Câmara Municipal do Funchal – primeira metade do século XVI. Câmara Municipal. s. Actas das Vereações de Loulé. o Catálogo e História dos Bispos do Porto de D. Afrontamento. Filipe II. Sobre Loulé. Esposende.n. Luís Miguel e Machado. – Barros.HISTORIOGRAFIA DOS MUNICÍPIOS PORTUGUESES (SÉCULOS XVI e XVII) 13 – Neves. 1988. 1987. Porto. Funchal. pela sua antiguidade. 1972-1974. Mas desses nunca será possível uma memória exaustiva. 1919. vol. acabaram por se converter em fontes. Haverá por certo outros volumes contendo fontes. Loulé. Aveiro. Aspectos do Reino do Algarve nos séculos XVI e XVII. 1984 Sobre o Algarve em geral – Guedes. . é bom não esquecer que muitos historiadores e estudiosos conservam o bom hábito de publicar documentos em anexo aos seus trabalhos. Ou os escritos de Manuel Severim de Faria. Funchal. Para além destas. por exemplo. João Alberto. – Duarte. Rodrigo da Cunha. CEHA. ao Reyno de Portugal. Francisco Manuel. Porto. Sobre Bragança e Trás-os-Montes – Alves. ed. Subsídio para o estudo da vida municipal e nacional portuguesa. Memórias Arqueológico-históricas do Distrito de Bragança. Lívio da Costa. CEHA. Boletim do Arquivo Histórico Militar. Doutor João de. Francisco Ferreira. Estão neste caso. revista. Geografia d’antre Douro e Minho e Trás-os-Montes. Sobre as Ilhas – Funchal – José Pereira da Costa. Por outro lado. Abade de Baçal. 1971. Posturas municipais de Esposende – séculos XVII a XIX. S. Sobre Esposende – Manuel Albino Penteado Neiva. Lisboa. A descrição de Alexandre Massaii (1621). Biblioteca Pública Municipal. o Anacrisis historial de Manuel Pereira de Novais ou as descrições de viagens como o livro de João Baptista Lavanha.

Mas mesmo que apenas os concelhos em sentido estrito tivessem sido contemplados. Foi às Cortes quatrocentistas e quinhentistas que. Vejamos: a questão da reforma dos forais punha-se no objectivo e no propósito de resolver bem uma relação triangular que se mostrava progressivamente mais difícil entre os lavradores e foreiros de um lado. precisamos estar de sobreaviso. agrupavam-se em comunidades pequenas ou grandes inseridas e integradas em concelhos (ou elas próprias eram concelhos) cujos oficiais eram os porta-vozes das queixas e os Paços do Concelho a câmara de ressonância das mesmas. através dos Procuradores dos Concelhos. os forais manuelinos pressupõem-nas.14 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Como em tudo. Onde é que entravam os concelhos? No seguinte: é que os lavradores e foreiros. Com efeito. embora trabalhassem a terra individualmente ou em família. Dito de outra forma: D. a relação entre os forais manuelinos (é a esses que nos reportamos) e os concelhos é marcada mais por ambiguidades do que por cumplicidades aprofundadas. Mais do que confirmar ou reafirmar expressamente capacidades de intervenção das autoridades concelhias. os concelhos não são chamados para arbitrarem o que quer que seja nas matérias a introduzir nos forais manuelinos. ao contrário do que se possa pensar. Manuel não aproveitou a reforma dos forais para reforçar os poderes concelhios. o historiador terá que ter bem apurado o seu sentido crítico para se dar conta de que uns autores merecem mais crédito do que outros. Manuel nem na letra nem no espírito tocam nas estruturas tradicionais da administração concelhia nem mexem nas competências governativas dos oficiais municipais. que englobavam ou podiam englobar mais que um concelho: exemplos terra da Feira ou de Ovar. É que. Longe disso. os donatários e senhores das terras por outro e o Rei-árbitro no cume do processo. apesar de não ignorar que muitos deles não foram dados a concelhos mas a territórios mais amplos a que se chamava Terras. II – Forais É sabido que os concelhos se ufanam muito dos seus forais e quase se pode dizer que está na moda a sua publicação. Os forais de D. mas apenas a apoiar logisticamente as inquirições preparatórias e a servirem de guardiães e fiéis depositários do documento final. A questão é esta: fará algum sentido introduzir o tema dos forais numa comunicação sobre a historiografia do municipalismo português? Julgamos que sim. chegaram as reclamações e protestos dos .

o terceiro confiava-se à guarda do Concelho. 1967. pode dizer-se que nos últimos tempos o estudos dos forais tem merecido a assinalada atenção dos historiadores que podemos caracterizar e fasear. Os Forais de Évora. A Igreja quando estava presente fazia mais o papel de senhorio do que o de porta-voz dos foreiros. E quando Fernão de Pina vai pelo Reino recolher elementos para proceder à correcta reforma dos forais. vintaneiros ou até quadrilheiros. teriam coragem e força para punir senhorios todos poderosos como. Outra razão para tal é que os forais podem fornecer elementos subsidiários para o estudo das relações de poder dentro de um determinado espaço. Posto isto. Daí que os estudos sobre os forais se possam inserir numa visão genérica da historiografia municipal. competindo aos Juízes e Vereadores conservá-lo em bom estado. do seguinte modo: A – Um primeiro tempo de análise da reforma dos forais no conjunto da governação de D. Évora. antroponímia. Manuel.º 8. guardando-se no sítio próprio que era a Torre do Tombo e como era impensável fornecer um exemplar a cada foreiro. Embora muito desfasado no tempo. mantém-se o triângulo na sua distribuição ou encaminhamento: um exemplar é entregue ao senhorio. outro fica na posse do poder central. embora seja a pensar nessa circunstância que acima caracterizei de ambígua a relação entre os forais e os concelhos. como seriam estes em grande percentagem. E quando chegava o momento da decisão. enquadro nesta lógica de interpretação global o tão breve quanto perspicaz ponto de vista . porque o mesmo foral previa mecanismos de punição do senhorio que abusasse ou levasse mais direitos do que os consagrados no diploma. sob pena de repreensão ou mesmo de punição por parte do Corregedor na sua correição anual. publicado no Boletim Cultural da Junta Distrital de Évora. para além de conservarem informações preciosas sobre toponímia. Terminava aqui a relação do Concelho com o Foral? Não. ainda que um pouco artificialmente. era o Rei que surgia através de peritos de grande competência e prestígio institucional por ele próprio nomeados. direitos e costumes tradicionais. faz as suas inquirições encontrando-se com a população em quadro municipal porque não havia outro com força representativa e capacidade de mobilização das pessoas. os Condes da Feira! Mas essa é outra questão. E quem é que aplicava essas penas? São exactamente oficiais locais de eleição ou confirmação concelhia: juízes. n. E depois de elaborado e escrito o foral. Situo nesse enquadramento o ensaio de Marcelo Caetano.HISTORIOGRAFIA DOS MUNICÍPIOS PORTUGUESES (SÉCULOS XVI e XVII) 15 lavradores explorados. Resta saber se oficiais rudes e analfabetos. por exemplo.

. 1993.. Câmara Municipal. Academia das Ciências. – Fonseca. Lisboa. 1993. glossário de Maria do Rosário Morujão. 1961-1965. Colibri. Porto. Dissertação histórica. Coimbra. Silves. apesar do esforço desenvolvido para que tal não aconteça. B – A um tempo de análise sucedeu o tempo de publicação dos textos dos forais. Eis a bibliografia que pude coligir. estudo e transcrição de.. surgiu o trabalho gigantesco de Luís Fernando de Carvalho Dias. O Foral Manuelino de Arraiolos.. – Forais e foros da Guarda. Maria José Mexia Bigotte. Forais manuelinos do reino de Portugal e do Algarve conforme o exemplar do Arquivo Nacional da Torre do Tombo. Lisboa. introd. de Maria Filomena Andrade. Câmara Municipal de Arraiolos. Câmara Municipal. 1825. 1940. 5 vols. 1812. Lisboa. C – Sucedeu-se. III da História de Portugal dirigida por José Mattoso. e revisão científica de Maria Helena Cruz Coelho. direcção.ª ed.l. Enquadro nesse contexto os trabalhos de J. direcção introd. 1990. entre 1961 e 1965.16 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS assinado por Margarida Sobral Neto no vol. Os forais manuelinos – 1497-1520. Pinto Loureiro. de Margarida Garcez Ventura. – Forais de Silves. Mais tarde. pp. Guarda. 2000. um tempo que é simultaneamente de enquadramento histórico. jurídica e económica sobre a reforma dos forais no reinado do senhor D. 2. . 1940 e António Augusto Ferreira da Cruz. s. 171-174) Essa tradição remonta ao século XIX tendo expressão nos textos de – João Pedro Ribeiro.. de análise interna e de publicação textual facsimilada. Provavelmente haverá omissões. edição do autor. IANTT. (III. Jorge. A primeira fase remonta ao clima de exaltação patriótica que se viveu nos inícios da década de 40 do século XX.. Creio ser esse o tempo em que nos encontrámos o qual remonta aos fins da década de oitenta do século passado. estudo histórico de Manuela Santos Silva. Câmara Municipal. – Chorão. Memoria para servir de índice dos foraes das terras do Reino de Portugal e seus domínios. Imprensa régia. se não cronológica ao menos logicamente. – Foral (O) da Ericeira no arquivo-museu. Biblioteca Municipal. Forais de Coimbra. Lisboa. ainda que não sob o mesmo impulso. 1999. e de – Francisco Nunes Franklin. normalmente com o apoio e o interesse das Câmaras Municipais. Manuel. Forais manuelinos da cidade e termo do Porto existentes no Arquivo Municipal. coord.

– Silva. 1998. de Carlos Santarém Andrade. – Foral de Besteiros. José. As cartas de Couto do Mosteiro de Arouca. Arouca. – Foral de Colares. Manuel em 10 de Abril de 1518. – Marques. – Neto. estudo de Nuno Campos. Montemor-o-Novo. ed. Câmara Municipal. «O foral manuelino de Ansião» in Actas do II Colóquio sobre História de Leiria e da sua região. 1990. introd. Lisboa.... – Marques. «O Foral manuelino da Terra de Paiva: uma preciosidade patrimonial» in Poligrafia. – Monteiro. Os forais da Póvoa de Varzim e de Rates. 1989. Coimbra. Câmara Municipal. 1995. vol.HISTORIOGRAFIA DOS MUNICÍPIOS PORTUGUESES (SÉCULOS XVI e XVII) 17 – Foral concedido a Abrantes por D. Câmara Municipal. Câmara Municipal. – Foral de Coimbra de 1516. 255-267. Arouca. Joel Silva Ferreira. Câmara Municipal.º 3. ed. II vol. «O Foral de Cambra e a Reforma manuelina dos forais» in Revista da Faculdade de Letras. Barcelos. 1991. VI. Câmara Municipal. . 2003. Francisco Ribeiro da. 1998. Francisco Ribeiro da e Garcia. pp. – Foral de Guimarães-1517. 2003. V. transcrição e notas de. Forais e regime senhorial. Os Forais de Melgaço. – Silva. Manuela Alcina Oliveira e Mata. 2001. Nuno Gonçalo. ed. Margarida Sobral da Silva. de Eduardo Campos. Câmara Municipal. introdução. n.. Os contrastes regionais segundo o inquérito de 1824. VI. José. Póvoa de Varzim. – Silva.. pp. Porto. Sociedade Martins Sarmento. Lisboa. Arquivo da Universidade. Cláudia Valle/Fonseca. fac-similada. – Silva. 195-222. Francisco Ribeiro da. ISCTE.71-90 e vol. – Santos. 161-186. Melgaço. II série.. 2000. – Foral manuelino de Lisboa. Sintra. 2001. 1991.. de. Lisboa. fac-similada. Câmara Municipal.. Montemor-o-Novo Quinhentista e o foral manuelino. 1992. 1989. vol. ed. – Martins. Guimarães. História. INAPA. Câmara Municipal. introdução. José Manuel. Jorge/Branco. 1994. José. Manuel. Porto. Os Forais de Barcelos. transcrição e notas de. de Inês Morais Viegas. 1994. vol.. Coimbra. Filomeno. transcrição de Maria Teresa Nobre Veloso. apresentação de Maria Calado. pp. Os forais manuelinos do Porto e do seu termo. Leiria. Os Forais do Burgo e de Arouca.. 1991 – Marques. IV (1989) pp. 1986 (mimeo). «Os forais manuelinos da Comarca da Estremadura» in Revista de Ciências Históricas. Abrantes. ed.

sobretudo das terras banhadas por rios. Lisboa. estudo comparado e leitura. ed. Como o título indica. introdução e estudo de…. n. enquadramento histórico e análise estatístico-linguística. facsimilada do original.º 6. etc. Os Forais manuelinos da Terra de Ovar e do Concelho de Pereira Jusã. Ovar.º 47/48. Apliquei a mesma metodologia ao estudo sobre o peso do sal nos forais manuelinos. em 1999. publicado em parte pelo Editor de Mirandela. O Foral dado por D. – Silva. Foi necessário examinar todos. 8-28. a propriedade e o uso da terra. . D – Há ainda um quarto momento que foi inaugurado por Maria Olinda Rodrigues Santana. senão com sucesso ao menos com grande autosatisfação. Dezembro 1994. – Valério. tratou-se de combinar e cruzar cientificamente o estudo da história e do direito foraleiro com o tratamento linguístico do texto. Santa Maria da Feira. 2000. forais e senhorialismo. notas sobre antroponímia e toponímia. Francisco Ribeiro da. UTAD (policopiado) 1998. João Azevedo. – Silva. Câmara Municipal. Eu próprio ensaiei. Francisco Ribeiro da.18 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS – Silva. de que resultou um artigo a que chamei A pesca e os pescadores na rede dos forais manuelinos e foi publicado na revista «Oceanos». 1996 Que temas em concreto é possível colher e apreender nestas publicações? Aspectos históricos e histórico-jurídicos dos forais. glossário dos termos utilizados. Mas são possíveis e desejáveis estudos transversais. João António. Os forais manuelinos de Alvito e Vila Nova da Baronia. pp. Francisco Ribeiro da. «O Foral manuelino de Felgueiras: um marco histórico da identidade da Terra e das Gentes» in Felgueiras – Cidade. Câmara Municipal. ano 2. uma matéria que atravessa muitos forais manuelinos. Julho-Dezembro 2001.. Câmara Municipal. 1989. Manuel I à Vila da Feira e Terra de Santa Maria a 10 de Fevereiro de 1514. 4 vols. os foros e o seu significado económicosocial. estrutura formal e divisões internas. Edição. Alvito. não só os do litoral onde era suposto encontrar as informações que procurava mas também os do interior. n. da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro que em 1998 defendeu uma tese de doutoramento (de que tive a honra de ser co-orientador). as regras de uso e partilha dos meios de produção. as relações foraleiras entre lavradores e senhorios. Livro dos foraes novos da comarqua de Trallos Montes. Felgueiras.

utilizando palavras-chave lógicas tais como «concelhos». «municipal» ou «elites» indicaram-nos cerca de 30 títulos. Como se pudesse haver verdadeira e séria História Nacional ou Geral sem o contributo das monografias dos espaços mais . De norte a sul têm sido elaboradas. mais próprio para amadores desocupados do que para universitários. sítio da Biblioteca Nacional. Por outro lado. sendo bastante mais abundantes os dedicados ao século XVIII e aos finais do Antigo Regime. Provavelmente esta será uma tendência geral da historiografia portuguesa e não apenas da historiografia sobre o municipalismo. De qualquer modo. directa ou indirectamente. As pesquisas que levamos a cabo na web. «município». apenas 10 se dedicaram em todo ou em parte aos séculos referidos. revelam-nos que sendo 39 o número total das comunicações publicadas. onde tive oportunidade de apreciar o trabalho de Rute Maria Lopes Pardal. De uma ou outra tive eu próprio oportunidade de ser arguente ou orientador. as Actas do Congresso sobre o Município no Mundo Português realizado na Madeira em Outubro de 1998 que reuniu a maior parte dos investigadores que em Portugal (e no Brasil) se dedicam a estes temas. é possível apresentar aqui um ponto da situação que pode ser também uma espécie de balanço. umas quantas sobre os séculos XVI e XVII. Sinal do renovado interesse pelos estudos locais e regionais e talvez do desaparecimento do preconceito de que a História Local era um assunto menor. E não só nas Faculdades de Letras e não apenas nas Universidades Públicas. discutidas e às vezes publicadas teses. nomeadamente ao nível dos mestrados e até dos doutoramentos nos quais o tema do municipalismo é assíduo. As elites de Évora ao tempo da dominação filipina: estratégias de controle do poder local (1580-1640). algumas de grande mérito e utilidade. O caso mais recente de arguição foi precisamente na Universidade de Évora. orientado por Laurinda Abreu. Gostaria antes de mais de começar esse balanço por duas ou três notas que nascem da observação da realidade actual do panorama lusitano: 1 – A sensibilização do Ensino Superior para estas matérias Começarei por constatar uma realidade e me congratular com ela: todos os cursos de História das Faculdades de Letras têm dedicado atenção e inserido os estudos sobre História Local e Regional nas suas ofertas de pós-graduação. «administração».HISTORIOGRAFIA DOS MUNICÍPIOS PORTUGUESES (SÉCULOS XVI e XVII) 19 III – Estudos sobre os Concelhos e a Administração Municipal Não são muito numerosos os estudos directos e exclusivos sobre os concelhos portugueses nos séculos XVI e XVII. alguns de conteúdo muito vago face ao tema que nos foi sugerido.

O exemplo dos forais acima lembrado é elucidativo. Também por esta via pode ser frutuosa a colaboração das Universidades com as Câmaras Municipais. Alfa. mostravam sinais de decadência.1983). Um outro dado a reter (ao qual não é a primeira vez que faço menção) é o progressivo interesse das Câmaras pelos estudos municipais. . A História de Portugal dirigida por Hermano José Saraiva no seu vol. distinguirei por um lado os estudos de âmbito geral. A única nota que vale a pena realçar é a afirmação. representação dos Concelhos em Cortes. força progressiva dos mesteres. em capítulo assinado por J. A. como se pode concluir dos repetidos colóquios e congressos sobre o poder local que têm patrocinado. Nem sempre o que move os autarcas é o puro e desinteressado interesse científico. segundo aquele eminente historiador. Quanto à História de Portugal de Joaquim Veríssimo Serrão. nos quais incluo as Histórias de Portugal e outros estudos de síntese e por outro as monografias e estudos locais e regionais específicos. lugar que cada um dos concelhos ocupava na hierarquia dos bancos de Cortes. de Oliveira Marques (a de 1972 e a «Breve» mais recente) – embora não se demorando muito no que toca à administração municipal neste período. tocam os séculos XVI e XVII. começando pela de A.H. incidência da legislação central sobre a vida quotidiana dos municípios. não serei eu a criticar quando da convergência dos interesses dos historiadores e estudiosos e dos governantes dessa terra resultam jornadas de divulgação e edições de livros. 4. em contraste com a metrópole onde. algo enigmática.20 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS pequenos e das micro-instituições ou como se entre uma e outras se pudessem estabelecer diferenças abissais de metodologia e de objecto. Nogueira dedica pouco mais de meia página ao assunto da divisão administrativa do Reino. (Lisboa. funções administrativas dos mesmos. dialéctica entre a centralização e as pretensões autonómicas dos concelhos. pelo apoio que têm dado a publicações sobre a terra. em cada um dos 3 volumes que. são consagradas algumas páginas aos concelhos e ao «país profundo» de que destaco os seguintes aspectos: evolução relativa das áreas regionais. Assuntos estudados Quanto aos assuntos estudados. aqui e ali. promoção de vilas a cidades. Nem tem que ser. no conjunto. com o suporte científico das Universidades e. tem o mérito de chamar a atenção para a importância da implantação dos concelhos nas Ilhas Atlânticas e nas «conquistas» ultramarinas. Por isso. Quanto às Histórias de Portugal. especialmente no Brasil onde as Câmaras adquiriram enorme importância. do desaparecimento das particularidades locais no período que nos ocupa.

dedica-se um subcapítulo de 30 páginas aos Concelhos e às Comunidades. para além de alusões avulsas aos concelhos ao longo do volume. num longo desenvolvimento sobre a Arquitectura dos Poderes que. abrange um período que vai de 1620 a 1807. 1998). no volume seguinte. sobre o Antigo Regime. discorre sobre o binómio poder central/poder local. oferecendo-se uma série de temas sugestivos que poderão proporcionar inspiração para ulteriores desenvolvimentos: – Instituições e poderes locais – Câmaras e ordenanças – centro e periferia – instrumentos de fiscalização do centro – A hipotética viragem da segunda metade do século XVIII – As repúblicas municipais – governo económico local e finanças locais – poderes municipais e elites locais – entre oligarquia e comunidade A Nova História de Portugal (direcção de Joel Serrão e A. pelo que se indica no título genérico do volume. consagra algumas linhas aos Concelhos ultramarinos. consagra 10 páginas aos Concelhos. H. Nuno Gonçalo Monteiro. integradas num longo capítulo sobre os equilíbrios sociais do poder. sobre competências próprias e delegações de poderes. Manuel cuja política interna analisa. coordenado por António Manuel Hespanha. A obrigação de síntese a que os Autores são constrangidos e provavelmente o plano geral do Coordenador leva-os a seleccionarem. consagra 8 páginas (pp. V coordenado por João Alves Dias. Duas ideias fortes de Romero de Magalhães devem ser destacadas. tal como Oliveira Marques. assinadas por Maria Paula Marçal Lourenço. Em concreto. pp. 406-412). O autor. O vol. 2001) coordenado por Avelino de Freitas de Meneses. Nelas . de Oliveira Marques – vol. de entre a bibliografia disponível. procura sintetizar nessas três dezenas de páginas os estudos publicados em Portugal sobre administração municipal. no volume dedicado ao Alvorecer da Modernidade. Mesmo resumida. os aspectos que mais substantivos lhes parecem. Por sua vez. a segunda é a de que o poder em Portugal é a-regional e anti-regional. na pressuposição já referida de Romero de Magalhães de que «o poder em Portugal é arregional ou anti-regional» e que o papel principal pertenceu à oligarquia dos homens bons (texto de José Adelino Maltez. coordenado por Joaquim Romero de Magalhães.HISTORIOGRAFIA DOS MUNICÍPIOS PORTUGUESES (SÉCULOS XVI e XVII) 21 A História de Portugal dirigida por José Mattoso. Lisboa. dedica algumas páginas às instituições concelhias e ao seu governo. sobre o processo eleitoral e. a matéria dos concelhos nesta História é relativamente abundante. VII da mesma Nova História de Portugal (Lisboa. Romero de Magalhães parte de D. 56-68) ao tema dos concelhos. sem que isso signifique concordância ou discordância da nossa parte: a primeira é a de que cada unidade administrativa era completamente independente em relação às vizinhas.

. (Dos finais da Idade Média à União Europeia). coordenador e principal autor1 dedica aos séculos XVI e XVII. dedicado aos finais do Antigo Regime no subcapítulo escrito por mim próprio – tratará da administração municipal numa perspectiva predominantemente institucional: – As divisões do território e o seu significado – As leis reformistas dos finais da época moderna e a sua incidência na administração municipal – A importância dos Provedores. Nuno Gonçalo Monteiro. na minha opinião.s XIX e XX do que para o Antigo Regime. Paulo Silveira e Sousa e Mafalda Soares da Cunha). O vol. Embora se encontre nesta obra alguma coisa de comum com o capítulo que o Autor escreveu na História de Portugal. Ana Cristina Nogueira da Silva. coordenado por Luís A de Oliveira Ramos.22 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS a autora. Círculo de Leitores. 1996.dir. nesta obra. Lisboa.s XV-XIX – cerca de 175 páginas) e o conferido aos séculos XIX e XX (mais de 400 páginas). Nem isso é importante e se aludo aqui a tal é apenas porque a minha comunicação trata dos séculos XVI e XVII. sugestivo e inovador. séc. na 1. Paulo Jorge Fernandes. José Vicente Serrão.ª parte. Compreende-se que assim seja não só pelo número potencial de leitores interessados como também pela bibliografia disponível: muito mais abundante para os séc. dos Corregedores das Comarcas e dos Juízes de Fora e a problemática da centralização versus autonomia. Além disso. Quanto a trabalhos gerais sobre o Municipalismo na época moderna. Basta lembrar os títulos dos principais capítulos para evocar os conteúdos: 1 Com a colaboração pontual de Isabel dos Guimarães Sá. de César de Oliveira. não é fácil estabelecer ao certo a percentagem de páginas que. – Estruturas fundamentais da administração municipal e funções dos oficiais camarários e dos magistrados régios em relação aos serviços prestados e ao correcto ordenamento da vida quotidiana – Os oficiais das freguesias e aldeias. desenvolve dois itens: a «administração central periférica e os poderes delegados» e ainda «o poder absoluto e as cortes». VIII da mesma Nova História de Portugal – em vias de publicação. fazendo alarde de boa capacidade de síntese. sublinharemos o interesse da História dos Municípios e do Poder Local. Há algum desequilíbrio entre o espaço concedido ao Antigo Regime (isto é. utilizando com habilidade e originalidade boa parte da bibliografia conhecida. é muito mais profundo. A progressiva influência do Corregedor em prejuízo das outras duas magistraturas (Juízes de Fora e Provedores).

Mas não apenas relativos a essas cidades: também Portimão. Não me parece que deva enveredar aqui pela análise de pormenor dos textos que se debruçaram sobre terras determinadas. de Maria Helena Coelho e Joaquim Romero de Magalhães (Coimbra. portanto. Coimbra. não poderemos deixar de lado uma tese de doutoramento que justamente tem constituído uma trabalho sempre citado. Aveiro. pode dizer-se que existem trabalhos valiosos dedicados a muitas cidades. Esposende. 2 vols. Instituições e Poder Político (Coimbra. Évora. A vida económica e social de Coimbra de 1537 a 1640. Esta obra constitui. Lisboa. Em ambos os arquipélagos a apetência por estas matérias está em crescendo. E de entre o conjunto do trabalho emerge para nós. Santarém. e quantas outras. Viseu. na qual desempenha papel de relevo o que ele chama a administração periférica da Coroa. pela inovação que introduz.. o local e o inexistente regional – O espaço político e social local. há todo um acervo de obras de índole local no seu objectivo imediato ainda que possam conter sugestões metodológicas de largo alcance e até de valor universal. uma referência obrigatória para quem estuda o municipalismo em Portugal. tanto dos Açores como da Madeira. Em Portugal continental. especialmente àquelas onde existem Estudos Superiores: (continuo a ater-me aos séculos XVI e XVII). Coimbra. 1994). Lousã. uns artigos e ensaios de ambição moderada. 1986). há uma que me marcou desde muito cedo. Vila do Conde.. Almedina. Depois e para além disso. No entanto. 1972.. Ponte de Lima. o longo capítulo da Arqueologia do Poder e a sua visão integrada do poder político-administrativo em Portugal na época moderna. Guimarães. Não deverei passar à frente sem uma breve alusão a um texto-síntese muito citado e esgotadíssimo – O Poder concelhio das origens às Cortes Constituintes. Notas de história social. através de instituições de investigação como o Instituto Histórico da Ilha Terceira ou o Centro de Estudos de História do Atlântico que nos últimos anos promoveu dois Congressos sobre o municipalismo e já prepara o terceiro. outros teses e obras de maior fôlego. Viana do Castelo têm sido objecto de vários estudos. CEFA. Há também que dar a devida importância ao incremento dos estudos sobre o municipalismo nas Ilhas. Porto. Refiro-me a António Manuel Hespanha e à sua obra As vésperas do Leviathan. Dentro das obras de âmbito geral. . Refiro-me a António de Oliveira. Braga.HISTORIOGRAFIA DOS MUNICÍPIOS PORTUGUESES (SÉCULOS XVI e XVII) 23 – A sociedade local e os seus protagonistas em que louvavelmente desce até às paróquias – O central.

mais interessante e útil revisitar os conteúdos dos trabalhos académicos que ultimamente têm sido publicados. Festas e cerimónias rituais locais comemorativas de nascimento de príncipes e da morte de membros da família real. • A dos serviços: obras públicas. quantas vezes atribuídos pelo poder central à inércia das Câmaras. organização da defesa. Os tempos de lazer e as festas na perspectiva dos que delas usufruem. António de Oliveira começou a investigar. No tempo em que o Prof. Parece. de bens de consumo. Por outro lado. demografia. • A das finanças: receitas e despesas. questões de saúde e da higiene. • A das pessoas envolvidas e as estratégias do poder e das relações interfamiliares na perspectiva do acesso e do exercício do poder. embora não fosse seu interesse imediato assumido o enquadramento institucional e administrativo ele não podia ser ignorado. O problema da ordem pública. abastecimento de alimentos. profissões. recenseamento dos moradores. Sistemas de organização fiscal e pessoal envolvido. Basta ler o seu primeiro longo capítulo sobre circunscrições administrativas e jurisdição municipal para se perceber o alcance destas matérias no conjunto do seu excelente e pioneiro trabalho. dividiria assim as matérias: • A das infra-estruturas: aspectos geográficos. • A da estrutura. e esse é o segundo aspecto. O património municipal. por conseguinte. Têm tido lugar aqui os estudos sobre movimentos sociais e tumultos. ao ter escolhido uma cidade e o seu aro como objecto da sua dissertação de doutoramento. • As actividades mesteirais e o controlo possível exercido pelas administrações municipais. A • participação cívica dos cidadãos e da plebe. ter aberto caminhos com futuro para a história local e regional. Começando pelas grandes áreas temáticas estudadas. Mas há dois aspectos que me parece de justiça enfatizar neste apanhado: o primeiro é o facto de. actividades económicas. As representações públicas do poder. diversificação e funcionamento das instituições e seus suportes materiais como os edifícios dos Paços do Concelho e Arquivo.24 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Rasgou caminhos e incentivou trabalhos de outros. o primado da história económica e social era indiscutível e intocável. . Como o título indica não foram propriamente as matérias de governo local que preocuparam o Autor mas antes os problemas da economia e da sociedade. As ordenanças. etc. propriedade da terra. de água.

o Provedor ou o Juiz de Fora. Não deixa de ser relevante que os nomes de topo das elites municipais se repitam nas listas dos nomes dos principais dirigentes das Misericórdias.ª série. As procissões. ainda que o serviço público fosse a razão de ser de ambos. higiene. em especial a do Corpo de Deus. Impressionou-me fortemente o ensaio publicado na «Análise Social». vol. História comparada dos Concelhos.º 141. • A religiosidade e a influência dos Mosteiros no aro concelhio. 4. das freguesias e das suas relações com a cabeça do Concelho. As práticas religiosas privadas e públicas. o poder municipal exercido no âmbito concelhio e o poder feito de honra e de prestígio no seio das confrarias eram de natureza diferente. É claro que mais uma vez se impõe referir o nome do Prof. 1997) – Elites locais e mobilidade social em Portugal nos finais do Antigo Regime – não só por constituir uma excelente síntese de tudo (ou quase tudo) quanto se escreveu ultimamente entre nós sobre o assunto mas também por oferecer uma quase completa bibliografia dos títulos publicados sobre o nosso tema – municipalismo na época moderna. Este novo enfoque interpretado por jovens historiadoras e historiadores parece-me muito promissor e justifica que se revisitem e provavelmente se reescrevam numerosas monografias sobre as Misericórdias portuguesas. XXXII. analisando as Irmandades não apenas nos seus aspectos organizacionais internos e na lógica da assistência mas procurando situá-las e inseri-las nas redes e estratégias de poder local. • A da conflitualidade no interior do concelho e o choque com outras entidades eclesiásticas ou civis. Outro provável caminho do futuro creio que poderá ser o do estudo comparado dos concelhos de Portugal e dos países colonizados por Portugal. mobilidade social. sua múltipla caracterização. • A geografia do poder e a importância e sacralização de certos espaços públicos. tais como o Corregedor da Comarca. nomeadamente o Brasil não só na época colonial como no período pós-independência. questões de segurança. As confrarias e as práticas de sociabilidade. Há ou não . (n. Nuno Gonçalo Monteiro. Outro tema que se tem revelado extremamente fecundo é o da formação das elites e das oligarquias locais. tais como alimentação. • Os diversos aspectos da vida quotidiana. Ligado a este. Câmara e Misericórdias cruzam-se e complementam-se. Outra pista a desenvolver será a do estudo da organização paroquial.HISTORIOGRAFIA DOS MUNICÍPIOS PORTUGUESES (SÉCULOS XVI e XVII) 25 • A das relações com o poder central e as chancelarias régias. Na verdade. estratégias de poder. têm-se retomado em Portugal há uns anos a esta parte os estudos sobre as Misericórdias. Entram aqui os estudos sobre o papel e atribuições dos agentes régios.

se tal fosse possível! A história total é o objectivo teórico final do historiador. O meu posto de observação tem sido o Porto e daí talvez a provável sobreavaliação das capacidades de literacia dos investidos no poder municipal que. – outro tema que gostei de ter tratado foi o das relações entre o poder central e o poder local na perspectiva da participação dos concelhos nas Cortes. Os livros das chancelarias régias fornecem muitos exemplos de contratação pelas Câmaras de Mestres de Ler e de Gramática que não têm sido aproveitados sistematicamente. o que estudar mais dentro da história do municipalismo? Eu diria «tudo». Frei Bartolomeu dos Mártires. Sobre que incidiam esses capítulos e qual o seu encaminhamento na perspectiva do diálogo institucional entre a Corte e os concelhos parece-me um problema interessante e que poderá revelar que as indicações de governo não eram de sentido único – do centro para a periferia – mas provavelmente também da periferia para o centro. aliás. perdoar-me-ão a imodéstia de lembrar alguns pequenos temas que tratei em artigos e ensaios que me pareceram interessantes e que podem ser desenvolvidos a nível municipal: – em primeiro lugar. desempenhou papel importante como factor de mobilidade social ascendente. as Câmaras redigiam Capítulos gerais e particulares. como se fosse um jurista. Um exemplo: . além de funcionar sobretudo a nível local e concelhio. Mas que é isso de tudo e de total? A mim parece-me algo simultaneamente desejável e inatingível. Como é sabido. recorrendo antes de mais às normas. Para além de tudo isso. – o tema da venalidade e da hereditariedade dos ofícios públicos parece-me sugestivo na medida em que sou levado a concluir que essa prática. me pareceu ainda mais favorável em Braga no tempo de D. que eram ora pontos de vista e reclamações que se destinavam ora a ser discutidos pelo Terceiro Estado. por cada convocatória. os temas da alfabetização e a sua relação com o exercício de cargos municipais.26 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS um espaço de autonomia para as freguesias. Contudo. houve ou não reivindicações neste domínio? Os concelhos foram espaço de coesão interna ou antes de conflitualidades e clivagens? Para além destes áreas. e sobretudo nos séculos XVI e XVII. às leis que as estruturaram e lhes fixaram as regras de funcionamento. Devo confessar que comecei por estudar as instituições municipais. ora a ser apresentados ao Rei na expectativa de uma resposta favorável. não podemos esquecer que a partir de 1697 não há mais Cortes em Portugal.

talvez fosse melhor tentar a história social da administração. Como? Indagando as relações entre a instituição e os grupos sociais. Pedro Molas Ribalta2 que me seduziu com a sua teoria da História Social da Administração. por essa razão viram adiado ( por 2 MOLAS RIBALTA. Estudios sobre los siglos XVII y XVIII. veio em meu auxílio um historiador catalão. Se nós conseguirmos ligar as pessoas concretas que serviram as instituições às pessoas concretas a quem se dirigia a sua acção. da História Económica e Social. . A História Social do Poder tenderá então a ser uma espécie de biografia colectiva. Ou seja. 1980. religiosas. tentando perceber a «estrutura efectiva do poder» inserida na comunidade até chegar ao reconhecimento da importância do exercício do poder como elemento determinante da estrutura interna dos estados e dos grupos. culturais. Pedro. chegaremos ao conhecimento das circunstâncias profundas da sedução e da conquista do poder e do seu exercício. Ou seja. A mesma preocupação esteve presente na minha Lição das provas de Agregação quanto aos Procuradores do Porto às Cortes do século XVII. Quem eram afinal esses senhores Procuradores? Quando esperávamos que todos fossem fidalgos provavelmente de tradições bem alicerçadas e antigas. das atitudes. sociais. mais do que fazer história das instituições. Mas um historiador depressa se dá conta que a realidade vivida é algo muito mais complicado que a realidade sonhada ou programada a qual às vezes tem pouco a ver com as normas. Neste processo. La Historia Social de la Administración in Historia Social de la Administración Española. da História das Mentalidades. dos comportamentos. Muito cedo interiorizei a frase de Jaime Vicens Vives – «a História das Instituições não é História propriamente dita»! Mas as instituições são feitas por homens e para pessoas concretas. surge a surpresa: alguns afinal eram netos de oficiais mecânicos e. Foi esse objectivo que me moveu em grande parte na preparação do meu doutoramento e em vários trabalhos posteriores e mesmo em teses de mestrado que tive o gosto de orientar. 66 do Livro 1. da História Política.HISTORIOGRAFIA DOS MUNICÍPIOS PORTUGUESES (SÉCULOS XVI e XVII) 27 a leitura do tit. então talvez a história das instituições possa ser história propriamente dita. Barcelona. apurando-se as circunstâncias económicas. A História da Administração bem entendida tem que resultar da confluência da História do Direito.º das Ordenações Filipinas (sobre os vereadores) foi importante como norma e como fonte para a fixação do perfil e do modelo institucional desses oficiais municipais tão típicos dos municípios lusitanos. e outras dos indivíduos que povoaram e deram vida às instituições do poder local e regional e exerceram efectivamente esse mesmo poder.

As circunstâncias do tempo presente pautadas pela ideia de globalização aparentemente privilegiam o universal e secundarizam o regional e o local. Não só os de fundo histórico. Mas o que não pode nem deseja é apagar as regiões e as multímodas diversidades regionais Por isso. de cada pessoa. parece de incentivar os estudos locais e regionais. Não só porque de repente o que é vivido à escala local. do modo como as famílias e os grupos se organizaram e que tipos de redes de relacionamento e que vias de desenvolvimento e de progresso conseguiram estabelecer. a sua habilitação para serem admitidos ao Hábito da Ordem de Cristo. como que esqueletos sem carne. Conclusão Há que concluir. A Europa que se está a construir poderá esbater ainda mais as ditas soberanias nacionais. pode adquirir e adquire valor global mas porque a vida real das pessoas. tenha utilizado 43 páginas com os «nomes das pessoas que animaram as Instituições». Os estudos sobre os concelhos e o municipalismo foram suficientemente atractivos para ocuparem historiadores de excelência no passado de que basta lembrar o exemplo de Alexandre Herculano. em virtude e por força das novas tecnologias. e não valerão muito se não os situarmos na sua realidade existencial e institucional e na sua rede de relações. e para que não se percam as identidades e o gosto pela diversidade. . Mas das pessoas concretas na sua inserção social e comunitária. paradoxalmente. Mas. Tal metodologia implicou que na Tese de Doutoramento tal como foi publicada. é num mundo globalizado que o interesse real pelo que é que local e regional se vem acentuando. decorre normalmente em cenário local.28 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS algum tempo) o seu requerimento. É óbvio que os nomes sem mais são meras indicações. Não só nem sequer principalmente das instituições.

2001 (Faculdade de Letras do Porto. – Abreu. 1999. Coimbra. António Alberto Banha de. António Alberto Banha de. 1989 (polic. FLUC. Conspecto socioeconomico de uma vila no Renascimento. policopiado).ª edição. Porto. 2 vols. Santo Tirso. 1995 ( dissert. 1976-1979. Academia Portuguesa da História. Montemor-o-Novo. Grupo dos amigos de Montemor-o-Novo. Santa Casa da Misericórdia. sociabilidade e poderes numa paróquia rural. – Actas das Jornadas sobre o Município na Península Ibérica (sécs. Viseu. 2. – Barreira. Santa Casa da Misericórdia. 2 vols. A Santa Casa da Misericórdia de Setúbal entre 1500 e 1755.. – Andrade. Laurinda. Porto. – Basto. – Araújo. A administração municipal do Porto 1508-1511. XII a XIX).. Manuel de Oliveira. Artur de Magalhães. XVI-XVIII). FLUC. 2. – Andrade. Lisboa. 2 vols.ª edição. Lisboa.. 1979. História da Santa Casa da Misericórdia do Porto. Setúbal. de Mestrado). Coimbra. Dar aos pobres e emprestar a Deus: as misericórdias de Vila Viçosa e Ponte de Lima (sécs. Laurinda. 1990. Santa Casa da Misericórdia. 2000. – Basto. 1990. Coimbra.. Aspectos da sociabilidade e do poder. Sazes de Lorvão de 1660 a 1760: espaço. Palimage Editores. Academia da História. Biblioteca Pública Municipal. Actas das 1. «Misericórdias e poder local» in O Poder local em tempo de globalização. séculos XIII-XVIII.). vila realenga: ensaio de história da administração local. . Artur de Magalhães. Montemor-o-Novo no século XVI. Porto. – Abreu. 1988. A Santa Casa da Misericórdia de Aveiro. Ponte de Lima. Maria Marta Lobo de. – Alves. Estudos Portuenses. 1988.as Jornadas sobre formas de organização e exercício do poder na Europa do Sul. 1997-1999. – Arqueologia do Estado. Pobreza e Solidariedade. Memórias da alma e do corpo – A Misericórdia de Setúbal na Modernidade. XVI-XVII) – Abreu. Laurinda.HISTORIOGRAFIA DOS MUNICÍPIOS PORTUGUESES (SÉCULOS XVI e XVII) 29 Anexo Subsídios para uma bibliografia sobre a história dos Concelhos e do Municipalismo em Portugal (sécs. Jorge Filipe Pereira de. Câmara Municipal. 2 vols. Lisboa. Vítor Fernandes da Silva. – Araújo.

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Alguns tem mesmo sobre ele posições radicais ao ponto de afastar o Município do rol das instituições que propõem para a nova ordenação da nossa administração pública e territorial.1. sem dúvida. porque não estava em causa a sua legitimação e continuidade histórica. de História/Instituto de Ciências Sociais) 1. 39-58. 2005. um dos ramos da Historiografia Portuguesa que mais se desenvolveu nos tempos mais recentes. É em geral um discurso muito crítico ao papel e lugar que o Município tem no bloqueamento aos desenvolvimentos e reformas necessárias da Sociedade. pp. Pombalismo. fraco desenvolvimento da investigação histórica sobre o município português. para que aliás veio dar contributos essenciais pelo novo prisma de abordagem da questão.ª metade do século XVIII em diante. Concentrou-se sobretudo na História Municipal da 2. Edições Colibri – CIDEHUS-UE. A Historiografia da administração local. e ao qual se apresenta aliás no plano das realizações como instrumento. O município como objecto por excelência dos estudos de História da Administração local A História Municipal e através dela a História da Administração Municipal é. A abordagem da questão municipal está já largamente presente nos textos dos reformistas e ilustrados do século XVIII e seus finais. Esta posição inviabilizaria. Os Municípios no Portugal Moderno: dos forais manuelinos às reformas liberais Lisboa. crise do Estado de Antigo Regime.Administração local e municipal portuguesa do século XVIII às reformas liberais (Alguns tópicos da sua Historiografia e nova História) JOSÉ VIRIATO CAPELA (Universidade do Minho – Dept. ainda que a partir de um discurso mais político do que histórico. na prática. Pós-Pombalismo. Desenvolveu-se em forte articulação com a problemática da construção e reforço do Estado Moderno ou da sua crise e da Sociedade de Antigo Regime. . Breve perspectiva histórica 1. Administração Pública e Economia Portuguesa. de reforma ou mesmo alternativa.

que depois se continuarão.40 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS É verdadeiramente o século XIX – em particular da sua 1ª metade – que verá florescer a História do Município e emergir mesmo o ideário Municipalista. O ideário republicano. consubstanciado por H. Com A. repondo o Código descentralizador de R. o ideário corporativo anti-liberal e antidemocrático. Intenta-se então também a elaboração de monografias sobre os concelhos e os municípios e obras de conjunto sobre a temática. Neste último ponto sem grande sucesso. Nas origens do Estado Novo. Lopes de Mendonça. Com significativo espaço na obra de políticos. ensaístas e sobretudo de administrativistas. A República (1910-1926). Félix Nogueira e seus continuadores emergirão finalmente com grande desenvolvimento. Rodrigues Sampaio quando o municipio se inserir mais realisticamente no jogo e na acção político-social dos equilíbrios e harmonias necessárias entre a centralização e a descentralização. quer no plano prático quer até no historiográfico. não tem porém lugar autónomo nas Histórias de Portugal de Oitocentos. se são esparsos os estudos históricos sobre o municipalismo dos Tempos Modernos em Herculano – que o Absolutismo segundo ele matara – com H. do Centralismo e Absolutismo Monárquico. que a História do Município fará novos avanços. Mas será com Félix Nogueira. os estudos do Município português em tempos da Monarquia Absoluta. Herculano. ultrapassando de vez o «enclausuramento» romântico medieval e fixando mais desenvolvidamente a sua acção e adaptação dos Tempos Modernos. economistas. Deste modo. manter-se-á nas peugadas doutrinárias legadas pelos ideários de Oitocentos. F. Nogueira no seu Município Novo teria por então uma das suas primeiras grandes aplicações – interrompida com a crise financeira de 1890 – e que a República intentará de novo retomar. socialista. fazendo também seu o programa da descentralização e municipalização da administração e território. e em grande medida como reacção aos excessos da Centralização promovida pela dinâmica das novas instituições liberais – a Divisão dos Poderes e o Código de 1842 – é a solução do municipalismo que se apresenta como alternativa global que emergirá em grande força no mito historiográfico do município medieval. Sampaio. haveria de trazer um novo fôlego e novos horizontes às investigações sobre o Município pela intensa reflexão histórica sobre as origens e natureza da instituição municipal – designadamente a sua anterioridade . H. A Reforma descentralizadora de Rodrigues Sampaio (1875-1890) promoverá sem dúvida um dos mais profundos desenvolvimentos das coordenadas da vida municipal portuguesa e também da História do Municipalismo.

envolvendo-se no estudo histórico das corporações de ofícios medievais e também da “corporação” municipal. o sistema e os problemas da administração local em si e em correlação com a descentralização e a intervenção e coordenação dos serviços técnicos e administrativos do Estado. revelar-se-ia com muito mais pormenor a vida de outras instituições locais muito articuladas aos Municípios e que aí deixaram muitas marcas e registos nos fundos arquivisticos. Esta ideologia de base corporativa não deixaria ainda de se fazer sentir nos estudos de História municipal que se desenvolveram entre nós.ª vez. a História do Município Moderno é estudada a partir das suas próprias fontes. tendo vingado a solução centralizadora do Regime contra as alternativas mais descentralizadoras de municipalistas e autarcas. pelos anos 30 e 40 do século XX em correlação com os programas de desenvolvimento regional que pretende suportar e fazer assentar no município (e outras instituições históricas) programa desenvolvimentista a que então se prendem as elites locais portuguesas municipais e distritais para tirar a Província do seu letargo e abatimento e por eles regenerar o país. Deste resultará em particular o enorme trabalho de estudo e publicação das fontes e fundos da produção administrativa camarária. o que faz desenvolver particularmente os estudos posteriores ao século XV. Mas muitos deles alargar-se-iam também ao estudo das corporações dos ofícios nos Tempos Modernos e em relação com eles também dos concelhos e até ao fim do Antigo Regime do trabalho mesteiral e oficinal. Tais programas tiveram eco nas discussões à volta do Código Administrativo de 1936 do Estado Novo. Pela 1. de um modo sistemático. (Problemas de Administração Local – Centro de Estudos Político-Sociais. com um alargamento das temáticas que as novas questões a resolver exigiam. quando se localizam os fundos mais completos e desenvolvidos da vida municipal. E pela descoberta e exploração destes fundos. o desenvolvimento dos serviços municipalizados. com particular incidência no campo doutrinário mais do que no campo historiográfico. 1957). Na prática esse é também um período de grande discussão sobre a administração local autárquica no tocante a matérias que se referem a: problemáticas da centralização/descentralização. A Historiografia municipal para os Tempos Modernos sofrerá no pós 25 de Abril de 1974 um extraordinário desenvolvimento. Este é um período de grandes evocações de História Municipal. Ela está certamente em relação com a emergência da figura do poder local no nosso . Lisboa. Tal estará na origem de um novo reforço da análise da História e evolução histórica do Município.ADMINISTRAÇÃO LOCAL E MUNICIPAL PORTUGUESA DO SÉCULO XVIII ÀS REFORMAS LIBERAIS 41 ou filiação no Estado Português – em correlação com a fundamentação das raízes e natureza corporativa da Sociedade e do Estado.

42 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS ordenamento político-administrativo revolucionário – que rompe com o conceito vindo do Estado Novo da administração local autárquica – e também com o seu particular desenvolvimento assente na mobilização social e política de que foi alvo. permitida e sustentada pelos 3 novos pilares constitutivos do seu desenvolvimento: a lei da autonomia. que . com mais força e vigor. que iniciando-se pelo estudo da História Social da Administração Municipal – com contributos decisivos para a configuração social dos diferentes orgãos municipais – receberia contributos fundamentais do novo campo da História Social. com importantes estudos monográficos dirigidos aos grandes municípios portugueses nos seus quadros institucionais. a que lhe contrapõe o modelo corporativo. próprio à organização da Sociedade de Antigo Regime. da separação dos sectores. essa entronca já na referida renovação do papel do município como autarquia local na administração pública e territorial portuguesa das décadas de 50 e 60. Desta etapa histórica sai particularmente beneficiado o estudo histórico do município português na Época Moderna. Tal desenvolvimento continua as linhas de rumo tradicionais da historiografia municipal portuguesa. a que genericamente se vem apelidando de estadualista que privilegia o estudo do município nas suas relações e mútuas adaptações ao Estado. os mecanismos sociais no ordenamento social local e sua articulação com a Sociedade de Corte e nos elementos e agentes de articulação política pelo estudo do papel e acção dos magistrados régios para o governo da periferia. mas também. que estuda os mecanismos do reforço dos elementos da articulação económica e financeira dos municípios à Coroa e Fazenda Pública. mercados e formação de preços. e agora. certamente também pelo seu marcado cunho institucional. Nestes estudos. no funcionamento das almotaçarias. em correlação com ela. das finanças locais. Mais decisivos ainda foram os desenvolvimentos da História Institucional. na História financeira e da contabilidade municipal. A matriz e a base de História económica e social com que se renovou a historiografia municipal mais recente. o Metropolitano e logo também o Ultramarino. mas também nos seus territórios e até «regiões». sai particularmente beneficiada a perspectiva estadualista. mas também do papel das posturas e regimentos locais no desenvolvimento e enquadramento económico mais geral. os novos horizontes da Historiografia económica europeia do Pós-Guerra e da História Económica e Social dos Annales. com desenvolvimentos particularmente notórios na História económica da administração municipal. das Elites e também à História da Mobilidade Social e dos Sistemas Eleitorais. Para a renovação da historiografia municipal concorreram poderosamente novos domínios de investigação historiográfica que lhe foram aplicados: a História Económica.

a perspectiva da Historiografia e do paradigma Corporativo. designadamente para o estudo daquelas perspectivas que tão descuradas tem sido pela Historiografia Política e Institucional Municipal. também a dos corregedores.ADMINISTRAÇÃO LOCAL E MUNICIPAL PORTUGUESA DO SÉCULO XVIII ÀS REFORMAS LIBERAIS 43 prestam atenção para além da acção dos juízes de fora. para cuja abordagem se tem recorrido sobretudo e quasi em exclusivo à perspectiva da História do Estado e da Administração. designadamente o das comunidades confraternais. Menos consequências teve a nosso ver. que é unilateral e insuficiente. designadamente a territorial. F. naturalmente pela força e dimensão que a instituição municipal mas também o ideário municipal ganhou na Sociedade e Cultura Portuguesa.2. apesar disso. os campos. profissionais ou religiosas. neles incluindo também os outros campos do exercício dos poderes sociais mais informais ou sem base territorial. vista e vivida pelo lado dos administrados. para a abordagem social da História e vida do Município. os poderes e as instituições para a administração régia. a vincular e sobretudo a paroquial e a eclesiástica. o estudo dos outros domínios da administração do território. 1970) aconselha a fazer adentro do quadro analítico conhecido que é o da construção do Estado Moderno e seus limites e constrangimentos. provedores e as novas «instituições políticas» do Estado Moderno. dos usos e costumes comunitários. 1971) mas sem grandes consequências futuras. e contribui para ajudar a definir um outro e novo modelo municipal. sobretudo sociais. ao longo dos tempos. do Absolutismo e do Despotismo. Perspectiva e abordagem sem as quais nunca formaremos uma visão completa da História Municipal e muito menos da emergência das suas Reformas. les Faucille et le Marteau (Paris. Se em geral forneceu novos enquadramentos e fixou outras coordenadas de abordagem e de percepção da chamada «estadualização» ou «politização» da Sociedade. não contribui tão decisivamente como parece dever ser o seu papel. de Joel Serrão. a saber. dos baldios. Mousnier nos estudos integrados em La Plume. Mas. a saber. 1. Mas também no plano dos ideários. Para além dos Municípios. no plano institucional e das realizações. A História e historiografia da paróquia O estudo histórico da administração territorial portuguesa tem sido configurado e reduzido à História Municipal. a senhorial. P. E que Jorge Borges de Macedo aconselhou e seguiu no artigo “Absolutismo” do Dicionário de História de Portugal (dir. a mais antiga (do Estado Novo) e a mais recente. o das correntes anti- . não se pode perder de vista. a eleitoral e da nova configuração dos poderes. História e perspectiva esta que já R. U. para a História municipal deste período. a História da Administração.

a propor soluções alternativas ao município e a desenvolver ou propor outras soluções político-institucionais. Ou a crer definitivamente que a solução municipal é originária e matricial à nossa constituição político-social ou uma dádiva divina e portanto perenes e inquestionáveis e por eles a subalternizar as doutrinas e os ideários político-administrativos que não priviligiam ou não entram em linha de conta com a instituição e solução municipal. Porém a realidade é mais variada e complexa. Para o que concorrerá também. E naturalmente também por uma atenção mais cuidada à força e continuidade da doutrina e argumentação das soluções que não as municipais e municipalistas. ou crítica dos abusos e excessos da concentração municipalista da doutrinação e programa descentralizador ou regionalizador. delimitando bem os espaços de actuação e concorrenciando-o inclusive. o papel político e administrativo da acção municipal ganharam particular vitalidade e envolvimento e apagaram. que em geral. alheia ou mesmo estranha e desconhecida. o estatuto e a força da argumentação do ideário e propaganda municipalista dos seus grandes e importantes doutrinadores e ideólogos que não deixaram de reduzir a força e o plano de actuação de outras correntes e doutrinas. sob a ordem e a . induziram e configuraram mesmo tal opinião. por outro lado. Como se comprova também pelos testemunhos recolhidos junto das populações paroquiais designadamente nas Memórias Paroquiais do século XVIII (1758) onde a presença e domínio da instituição municipal aparece aí descrita de um modo ténue e esparsa. Com efeito a particular concentração e desenvolvimento da Historiografia dirigida ao estudo do Município face às outras instituições locais tem feito passar a ideia de que o Município e o seu território de jurisdição são as instituições exclusivas ou por excelência da administração local portuguesa neste século XVIII e finais do Antigo Regime. Tal reflexão é possível e ainda mais necessária no período de forte emergência do poder e ordem municipal. reduziram ou subalternizaram mais fortemente o papel e a acção das outras instituições. Só uma visão e acercamento mais amplo destas realidades dos poderes. E nesse sentido os estudos demasiado configurados nas fontes e administração municipal e no estudo de casos onde a dimensão institucional. é que nos permitirá avaliar a importância e predominância relativa das instituições que disputam o exercício dos campos do poder local. designadamente com a acentuação no reforço da paróquia ou freguesia. das suas legitimações incluindo a historiográfica e dos seus assentimentos. contestada.44 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS -municipalistas ou o dos críticos de soluções político-administrativas assentes na exclusiva solução municipal. como se comprova pelo papel desempenhado pelas outras instituições que no território do município exercem a sua actividade. e assim o foram sempre na História local portuguesa e o devem continuar a ser para o futuro.

máquinas e estruturas do poder ao serviço das velhas aristocracias e fidalguias. circunscrevendo e limitando os outros poderes e jurisdições. a outra realidade municipal à margem destes desenvolvimentos: municípios que pela sua reduzida dimensão. mas também as bases de soluções locais paroquiais e regionais que são tão pouco conhecidas. vinda dos sectores contestatários a esta estadualização municipal. Com efeito subsiste ainda. em grande parte fortemente crítico do poder e organização municipal. umas vezes “reformista” outras vezes “abolicionista” que sem dúvida lançara as bases e os fundamentos da grande amputação e reforma concelhia de 1832-36. a mais completa tutela e configuração político-administrativa que o Liberalismo lhe dará no quadro do novo Centralismo burocrático e da nova Divisão dos Poderes. e em grande medida “desautorará” politicamente. no fim de contas da Sociedade e Estado com que as gentes das Luzes pretendem romper por finais do século XVIII. segrega até. posição no território permanecerão no todo ou em parte ainda arredados destes mecanismos de Centralização e desenvolvimento institucional uniformizador induzido pelos progressos da Monarquia e do Estado.ADMINISTRAÇÃO LOCAL E MUNICIPAL PORTUGUESA DO SÉCULO XVIII ÀS REFORMAS LIBERAIS 45 batuta do alargamento do Poder Real Absolutista e do Despotismo Esclarecido no século XVIII. antes pelo contrário. reforça a crítica político-social e também doutrinária. Sem este conhecimento não é possível seguir a emergência de outras soluções presentes no nosso pré-liberalismo e primeira vigência do regime liberal e suas soluções para a governação do território e seu enquadramento políti- . sobretudo quando ela é feita em proveito dos estratos que suportam o Estado fidalgo e aristocrático que se contesta ou são incapazes de suportar qualquer projecto de desenvolvimento. nalguns casos autênticas ilhas no mar de um profundo localismo e isolamento político e social. naturalmente. É este o caso das críticas da Ilustração a este Municipalismo Histórico. E não apaga também. e utilizando em particular os maiores municípios portugueses. vem nesta etapa conquistando e alargando os seus poderes no território. com profundas consequências para a instituição municipal que nos aparece no final desenvolvimento deste processo histórico – de profunda articulação e modelação com a ordem régia e os objectivos régios para o governo do território – com substancial limitação dos seus poderes “autónomos” e fortemente configurada ao exercício das tarefas que a Monarquia lhe impõe e distribui para o governo do território. Ora. é este ideário das Luzes. mas também a esta “miniaturização” e irrelevância de municípios rurais. Ora tal desenvolvimento não apaga a outra realidade institucional que ela mantém. em certa escala para largos espaços do território nacional. Tal realizou-se. Que prefiguram nos casos mais desenvolvidos. Que é uma crítica violentíssima ao seu pequeno papel para o desenvolvimento dos povos e do território. desenvolvimento orgânico e funcional.

Mas não se nota qualquer movimento de legitimação historiográfica desta instituição que permitisse fazer vingar a freguesia ao lado do concelho ou município como instituição autárquica para a administração e governo civil do território. no pós 25 de Abril de 1974 a ser a parente pobre da investigação historiográfica sobre o poder e administra- . O Padre Miguel de Oliveira bateu-se pela produção de monografias paroquiais. em consonância com a importância política e social da paróquia. administrativista e historiador estado-novista do Município medieval. que fizessem o contraponto às monografias concelhias que por então também promovia M. E para o padre Miguel de Oliveira. este é um quadro muito activo no enquadramento e organização comunitário local. a História paroquial ganhará também cidadania no panorama dos estudos locais portugueses. desenvolver-se-á também com a historiografia eclesiástica o estudo da paróquia. pois que em seu entender na paróquia se unem «vínculos quasi tão estreitos como os da família» e «sob o aspecto social excede em importância as instituições municipais». Só com Alberto Sampaio. bem mais atentas ao estudo científico e positivo das comunidades de limites paroquiais estiveram por outro lado as demais Ciências Humanas.46 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS co-social e também a emergência do 1. também um concelho. Com a crítica do município e seu fraco envolvimento e integração das comunidades locais emerge a vontade de valorização e afirmação política e administrativa da paróquia ou freguesia. desde as suas origens no século XIX. Na paróquia viu A. E contudo e certamente por via disso. Sampaio as bases e a matriz da nossa constituição social que arranca e se articula às villae romanas.º ideário municipalista do século XIX (Herculano). no século XIX. Reforçar e revigorar a vida social com base na freguesia é o caminho a seguir para regenerar a política e a sociedade portuguesa. está presente a valorização da paróquia religiosa na conformação e origens da sociedade portuguesa. ao modo de Alberto Sampaio. a Antropologia. Também para esta historiografia. Caetano. a Geografia Humana. A História paroquial continuaria. A ideia é pois. a paróquia terá ainda um papel mais forte no enquadramento da vida das populações que os concelhos. valorizar esta instância local do enquadramento dos povos. como a historiografia mais recente tem vindo a sublinhar. Depois. morta pelo Centralismo liberal de que os concelhos – sobretudo os das vilas e cidades – foram também agentes e suportes. Depois no contexto da construção do ideário municipalista houve também quem pretendesse associar a freguesia ao concelho. E é deste contexto do movimento das Luzes que se reforça a ideia da paróquia civil ou freguesia que só muito mais tarde vingará. a Sociologia. isto é considerá-la na sua matriz histórica originária. Em paralelo da historiografia civil.

concentrado os estudos nas manchas do território mais percorridos e articulados pelo processo centralizador. seja ele marcado pela construção da rede político-administrativa (Judicial. também. na continuidade das abordagens de A. ou pelos suportes político-económicos da construção do Estado Nacional Mercantilista. de juízes ordinários. na senda dos estudos anteriores.1. 2. de áreas menos importantes ou contribuintes para a construção do Estado Moderno. A investigação sobre a freguesia – paróquia do Antigo Regime. esta em estudos mais atentos às origens e papel da ordem religiosa e eclesiástica. Adaptações municipais A força dos vectores da centralização e mais ainda do paradigma da estadualização aplicado ao estudo da História Municipal Moderna tem privilegiado e acentuado sobretudo o estudo dos mecanismos da sua integração na ordem pública. Sampaio e a sociologia histórica (entre outros) e a paróquia eclesiástica. Em busca de novas abordagens da História da Administração Local: o Município no Território 2. por via da uniformização institucional com a aplicação do modelo e da ordem legal régia e da acção corregedora e integradora dos magistrados régios à periferia.ADMINISTRAÇÃO LOCAL E MUNICIPAL PORTUGUESA DO SÉCULO XVIII ÀS REFORMAS LIBERAIS 47 ção local. na tradição dos estudos sobre a paróquia civil. integrantes de vastas áreas à margem ou só marginalmente integradas no “território” do domínio régio ou em zonas de forte domínio ou concorrência do domínio senhorial. tem também por via deles. Centralização. pela rede social de articulação à Sociedade de Corte. continuaria a fazer-se. da provedoria. certamente contribuiria para conferir ao município uma realidade bastante dife- . urbanos ou de vilas de maior dimensão. Militar. hierarquização político-administrativa do território e propostas de novas divisões administrativas. agora ainda mais subalternizado dados os investimentos políticos e financeiros do 25 de Abril na administração municipal. E que para além de estudos individuais destes casos. mais desenvolvidos organicamente e onde sedeiam os principais organismos e magistrados da Coroa para a administração e governo do território. da Província. pelo facto de se ter estudado particularmente a evolução política e institucional dos maiores municípios. da comarca. A abordagem e o estudo dos casos dos pequenos municípios rurais. da Fazenda). isto é. Não pôde como o município beneficiar da larga tradição de investigação e doutrinação sobre a História Municipal e o Municipalismo e também – e por via disso – a freguesia continuaria a desempenhar um papel subalterno na nossa administração. apesar de escassa. É uma análise e uma perspectiva que sai reforçada.

com efeito. para além da conformação institucional – por regra tão só orgânico-oficial – permitirá seguir os termos da sua configuração com o Território. Tal obriga necessariamente romper com um outro lugar comum que se fixou mais recentemente na historiografia municipal. a Sociedade onde se insere. progressivamente.48 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS rente. O governo monárquico do século XVIII. mas seguir as dinâmicas próprias induzidas e até construídas pelo Território e pela Sociedade que naturalmente são em última instância os agentes e suportes destas realizações e nova construção política e ordenamento territorial. O percurso deste outro caminho. os passos da sua modelação regional – comarcã e provincial. Por isso é necessário estudar o município no seu território. a do quadro mais vasto. O estudo do Município no território permitirá fugir ao espartilho da explicação monista da modelação institucional realizada tão só do topo para a base. em primeiro lugar. a quem desde 1790 se pretende conferir maior desenvolvimento e racionalidade administrativa para nela reorganizar o quadro da divisão e administração concelhia. Tal conceito. decorrente do paradigma estadualista e do município dominador do seu território. sofre as vicissitudes que o próprio território vai sofrendo nas suas dinâmicas de aproximação ou afastamento político aos marcos territoriais e políticos mais activos e dinâmicos da construção do Estado. Muito mais do que a partir dos concelhos é a partir do quadro comarcão que o Estado e o governo comarcão quer olhar e governar o território. Se se pretende. o quadro por excelência da ordenação política do território. uma apreciação mais ajustada dos níveis e patamares de modelação e integração do Município ao Estado e Ordem Pública Nacional é necessário seguir-lhe. neles se exprimindo de forma diferenciada as dinâmicas desta modelação mais geral. decisivamente com Pombal e os governantes de D. resultado de um Absolutismo e Centralismo como factor exógeno às instituições e territórios neles envolvidos. com desfasamentos significativos relativamente ao novo modelo e paradigma do “município régio”. E não só a do quadro e termo municipal – que tem sido tentada – mas também e muitas vezes sobretudo. Maria desde 1790-92 . que tem de passar por um maior esforço de caracterização do município. A comarca volver-se-á. de facto. teve como consequência esquecer ou secundarizar as dinâmicas estruturais de carácter geográfico-político que sobre ele se exercem e que o continuam a modelar profundamente. «regional» ou provincial. situá-lo nos “círculos” diferenciados da sua situação e centrifugação política e também no dos diferentes níveis do desenvolvimento social e institucional. o conceito de que o Município Moderno é a-regional e mesmo anti-regional. O município fortemente arreigado e enraizado no seu território.

É o caso dos concedidos à cidade do Porto. não tendo tocado nas bases e divisão territorial. a uniformização e a unificação legal e administrativa do território da sua comarca. o principal suporte da nova organização do território que promoverá. nele acabaram de produzir efeitos fundamentais. incluindo na sua base espacial. como é sabido. Entre essas reformas é de referir as da Justiça – com a afirmação do Direito e Lei Régia sobre os demais direitos a extinguir os donatários nas ilhas – a promover a mais forte integração dos concelhos de juízes ordinários nos de juízes de fora e de um modo geral a afirmar a supremacia e a tutela dos concelhos régios sobre os concelhos e coutos senhoriais. uma forte articulação e hierarquia do território. de reforço e alargamento do poder e hierarquia de concelhos estrategicamente posicionados no território.. das Alfândegas. com a criação da Companhia de Vinhas do Alto Douro neste caso de alcance Provincial que lhe concedeu os suportes do largo domínio regional às 3 Províncias do Norte de Portugal. em especial os eclesiásticos. Tal passa naturalmente por reforço sobretudo do papel dos municípios maiores onde a administração periférica do “Estado” está já mais desenvolvida. e organização político-estadual. volver-se-á neste contexto. Os problemas e petições concelhias serão conduzidos ao Rei e seus Tribunais superiores pela voz do corregedor.. e em particular nesta etapa decisiva no reforço do Centralismo e Absolutismo e logo do Reformismo pré-liberal. a Reforma da Fazenda. para proceder ao reforço do poder em mais vastos territórios “regionais” e articulá-los por seu intermédio mais fortemente ao Estado. O município e desde logo o município cabeça de comarca. as vozes dissonantes dos concelhos e dos seus diferentes membros nas Cortes. O corregedor do século XVIII promoverá num constante deambular pela comarca. racionalização e uniformização institucional. na continuidade aliás da criação do . Sobre as políticas é fundamental salientar algumas reformas pombalinas que embora não dirigidas directamente ao Município. Há muito que ele substituíra os braços dos concelhos.. que promovendo a forte hierarquização política nacional das instituições e por ela a sua mais forte integração institucional e territorial. suporte de muitas delas. E a constituição de largos Privilégios em grandes municípios de centros urbanos que lhe concederam forte relevância e tutela regional sobre os outros territórios e municípios. O concelho cabeça da comarca virá por isso a ser o pivot e ponto de partida e referência do novo referencial “autárquico” e regional. nela envolveriam fortemente o Município. No período pombalino este processo seguirá sobretudo na senda de reformas políticas.ADMINISTRAÇÃO LOCAL E MUNICIPAL PORTUGUESA DO SÉCULO XVIII ÀS REFORMAS LIBERAIS 49 – adentro do mesmo espírito anterior – reforçam o papel dos corregedores e outros magistrados régios e com eles o quadro de unificação e racionalidade comarcã. das Superintendências fiscais (das Sisas e Décimas) a produzir movimentos do mesmo sentido de centralização (regional)..

. liberdade da terra que permita o mais lato desenvolvimento económico. Esse programa é activamente impulsionado pelos reformistas e ilustrados do século XVIII. como instância político-administrativa mais actuante e presente em todo o território (com a extinção das Ouvidorias). Elas terão sua origem em particular na Sociedade ilustrada dos economistas em luta pela livre formação dos preços. em particular no domínio público. cadeiras. Da acção e directrizes dos juízes demarcantes de 1790 resultou essencialmente a proposta de um novo desenho das comarcas e dos concelhos. em particular pela geração de 1790 que produz a mais acérrima crítica ao papel e acção do município e o consideram em geral factor de bloqueio social. Essas críticas sustentam em grande medida o programa de reformas a que as leis de 1790/92 querem dar seguimento. Mas como não avocar aqui também o papel da Companhia das Lezírias para o Ribatejo (entre outras) e até a entrega do monopólio do Ensino Público à Universidade de Coimbra com a expulsão dos Jesuítas que faz conduzir para a cidade do Mondego os professores e estudantes e faz a Universidade e a cidade beneficiária de contribuições públicas gerais assentes nas Superintendências das Sisas do Reino com que pagam professores. munícipes e oficiais. que limite as jurisdições e poderes do direito senhorial e eclesiástico. dos letrados e magistrados régios em luta pela mais larga afirmação do Direito régio e pátrio. Avanços para um programa de nova “divisão” administrativa do território só se realizará porém nos finais do século XVIII. alargamento dos mercados. mas de que os principais e grandes beneficiários são os portos ou os cofres das vilas ou cidades da respectiva embocadura. ainda que os projectos e programas fossem definidos numa escala “regional” neste caso o das regiões hidrográficas.50 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Tribunal da Relação ao tempo dos Filipes e que agora se manifestará particularmente activo a conduzir a si todos os processos de apelação e agravo de todos os Tribunais e em particular dos eclesiásticos (vg da Relação Eclesiástica de Braga). em particular as obras nas barras dos maiores rios. a ponte e outras obras do rio e da cidade. desencadeados com as leis de 1790/92. seus concelhos. tirando-o dos interesses privados e particulares das velhas governanças. a sua canalização e navegabilidade que para estas obras faz contribuir os concelhos e terras limítrofes. Pretende-se redimensionar os concelhos para os adequar ao nível das exigências e tarefas agora colocadas pelo Estado e reforçar a comarca. político e económico ao desenvolvimento da Sociedade portuguesa e de uma adequada administração régia para o território. E até outros grandes projectos de desenvolvimento regional promovidos pelo Estado. das elites ilustradas locais que se querem impor nas governanças locais às velhas elites nobiliárquicas e fidalgas e colocar o município ao serviço da Pública administração e do Bem Comum e Felicidade dos Povos.

que prefiguram os futuros serviços públicos gerais. Deste horizonte da crítica e das propostas de reformas ilustradas do século XVIII (desde Pombal e de novo activamente desde 1790/92) se configurarão o sentido e a matriz das reformas do século XIX e do Liberalismo. articuladas com os projectos e programas reformistas do Estado e com ele em luta por novos concelhos inserido numa mais vasta região. Mas outras propostas de ilustrados pretendem também tocar no poder “absoluto” dos concelhos. onde se possam realizar mais intensa e extensivamente o programa do desenvolvimento económico e social e colocar as instituições ao serviço da Felicidade e Prosperidade Pública.2. são em última análise o resultado da sua adaptação e envolvimento nas dinâmicas e coordenadas próprias do seu território. Mas conta e nele se envolveram as novas forças sociais locais. A força da coesão territorial e a modelação regional do município Mas para além das dinâmicas políticas e territoriais induzidas pela construção do Estado Moderno. permite entrever e destacar essas dinâmicas e aproximações . como a do Ministro Rodrigo de Sousa Coutinho do círculo da Ilustração governamental que faz tábua rasa do município enquanto orgão de divisão administrativa e o apaga da sua proposta da divisão administrativa territorial do Estado. Hoje a produção de elevado número de estudos de História municipal para amplos espaços regionais. as Intendências (da agricultura. económicas e até instituições e incluindo a organização do espaço. ainda bastante “marginal”. retirando desde logo poderes judiciais aos municípios de juízes iletrados (isto desde Pombal) diminuindo ou apagando em definitivo o poder das câmaras nestas matérias. iniciando mesmo a “desautoração” do poder municipal e uma primeira separação e/ou hierarquização dos poderes que prefigurariam em muitos casos uma primeira Divisão dos Poderes do Liberalismo e do Constitucionalismo. da polícia. O novo concelho. é preciso também atentar nas condicionantes territoriais de assentamento dos municípios que os aproximam e modelam em conjunto nas suas bases sociais. propondo a constituição ao lado ou por sobre os concelhos. que sofrendo é certo a modelação político-institucional da construção do Estado. Há até propostas da nova divisão administrativa do território. é certo. fortemente centralizadoras e esvasiadoras da instituição municipal. que do plano da paróquia salta para o da Província. sem plano e estrutura intermédia que sempre foi e pretendeu ser preenchida pelo município. que é preciso abordar neste desenvolvimento longo. inscrito numa comarca reforçada é um programa régio. entre outros).ADMINISTRAÇÃO LOCAL E MUNICIPAL PORTUGUESA DO SÉCULO XVIII ÀS REFORMAS LIBERAIS 51 Relativamente a estes procurou-se o seu redimensionamento territorial. 2.

Deixaremos. a induzir também comportamentos típicos de senhorios foreiros e donatariais. e até o transmontano. Que se exprime na definição de um sistema e regime municipal muito aproximado. Idêntica natureza. da Beira. também em assumir os municípios de áreas fronteiras a rios de grande valor económico. onde o peso das receitas provenientes de herdades e bens próprios agrários é muito importante e por isso lhe induzem comportamentos muito próximos dos dos senhorios fundiários. moagens e pisões. da apetência social e das elites ao acesso e governo das câmaras e da sua integração na orgânica estadual por interesses mútuos. Para além disso. praças e fortale- .52 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS territoriais. a análise comparativa da estrutura e natureza das receitas municipais. produzindo por vezes até nesse quadro. de lado. dimensão e origem das rendas municipais está naturalmente na origem e na base do relativo desenvolvimento e aproximação das estruturas institucionais municipais. induzem os mercados na formação das rendas dos municípios que obrigam necessariamente desde logo à grande distinção nas estruturas político-administrativas e na base social das elites políticas entre municípios urbanos e municípios rurais sem núcleos ou pequenos núcleos urbanos. Mas a acentuação do “tonus regional” afirma-se também nas diversificadas funções que os municípios são chamados a exercer em função da sua posição no território e corpo político da Nação. permite aproximar municípios como os do Alentejo. a principal separação ou distinção que neste domínio. numa relativa militarização dos cargos políticos das vereações dos municípios de fronteira onde por força da estadia de regimentos. da governação central e das elites governantes. um certo “esboço” de divisão municipal de certas tarefas. E se não permitem configurar um município regional – pela forte e precoce construção em Portugal do Estado Central e Mercantilista que promoveu uma acentuada uniformização política e institucional do Município Português – conferem-lhe pelo menos uma forte modelação regional que os anima e articula. Tal é patente desde logo na constituição das receitas próprias com base nas quais é possível fazer distinções ou aproximações de base territorial. e também um conjunto de municípios de vastos termos rurais que vieram a constituir importantes rendas sobre os foros dos baldios (como aconteceu um tanto por todo o lado. Tal é desde logo patente. Particular configuração e aproximação na sua base económica e natureza de rendas veio também a constituir o município das regiões de fronteira (terrestre e sobretudo marítima e fluvial) a realizar importantes receitas sobre as sisas mercantis (ou sobejos das sisas régias) e também rendas alfandegárias. importantes rendas sobre barcos de passagem. naturalmente. Configuração singular virão. piscatório e transitário que vieram a constituir para as câmaras (como para outros senhorios). pescarias e direitos sobre usos de água. mas em particular no Minho).

escrivães. Ou na diferenciada presença ou concorrência aos cargos políticos do governo camarário de outros ou novos grupos que a eles pretendem ascender. urbano. que poder-lhe-ão ser favoráveis e permitir passagens e acessos breves às vereações ou outros orgãos de poder político municipal. nobreza e aristocracias locais ditas de campanário. quando o afastamento é acentuado. Se de um modo geral o Pombalismo poderia ser favorável à presença dos mesteres em câmara em correlação aliás com as coordenadas do alargamento da representação social e popular da Ilustração – como se verificou em Espanha com a criação e entrada da magistratura popular do síndico personero para as câmaras – a sua envolvência no Motim do Porto (1757) quebrou tais expectativas. que dos seus locais próprios do governo camarário (procurador. Ou aos militares e sua mais forte entrada e participação nos governos municipais em tempos de guerra. por virtude da afirmação do Direito Pátrio. magistratura e Sociedade de Corte quando o município está poderosamente integrado na Coroa. E posteriormente o reforço e vontade do revigoramento das elites aristocráticas e fidalgas nos municípios ao longo do 3. naturalmente. Como seria também bem ilustrativo seguir a sua ligação às câmaras nas crises políticas e sociais do tempo das invasões francesas. de um modo geral homens de Direito e letrados. do desenvolvimento político e social das terras. expressas no diferenciado recrutamento social das elites políticas tradicionais: nobreza. da Lei da Boa Razão (1769) e no consequente afastamento do direito costumeiro e das práticas orais sem proces- . almotaçarias) pretendem ascender às vereações. Relativamente aos grandes municípios urbanos (mas não só) é ainda possível proceder a algumas aproximações. meirinhos. mas agora já sem especial continuidade geográfica. E também nas diferentes modelações que toma a presença das elites locais na câmara. as burguesias mercantis e os letrados locais. como se verifica de um modo geral nos municípios de mais forte envolvimento político e conjuntural nas revoluções políticas e sociais do Estado na passagem do Absolutismo ao Despotismo e deste à Revolução e Liberalismo. que tem a ver com o da presença e representação dos mesteres na câmara.º quartel do século XVIII ser-lhe-á totalmente desfavorável. é necessário seguir em relação com a evolução da conjuntura política e social mais geral e a do município e sua estrutura sócio-profissional em particular. territorial. do vintismo. mas também demográfico. exercendo um recrutamento que pode extravasar o concelho. em função. cuja geografia da representação em câmaras e vicissitudes da sua aproximação ou afastamento das vereações. ou mesmo. a aristocracia militar local e regional estende o seu papel às câmaras e que se revigorou nos tempos de conflitos militares e guerras internacionais.ADMINISTRAÇÃO LOCAL E MUNICIPAL PORTUGUESA DO SÉCULO XVIII ÀS REFORMAS LIBERAIS 53 zas e papel militar e defensivo das terras.

os de juíz ordinário que são construídos em dois modelos eleitorais também distintos. O município adapta-se aí às possibilidades e necessidades públicas e comunitárias da terra. os honoráveis locais.. a saber. tesoureiros e às vezes mesmo vereadores. o que exprime de facto a sua irrelevância política. ainda que à medida que se progride para os grandes municípios urbanos. naturalmente em relação muito directa com diferentes serviços públicos aí instalados e seu desenvolvimento e complexidade (justiça maior. As aproximações são cada vez maiores entre os municípios de juíz de fora. . num 1. organização militar. Muitas vezes os eleitos – vereadores e os juízes servem todas as tarefas.54 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS so escrito. em dois grandes conjuntos. o de pautas e o de pelouros. Ainda mais forte adaptação às realidades político-sociais do território é o que se pode observar com o município insular e colonial-ultramarino. onde é frequente não existirem em alguns concelhos alguns ofícios ou corpos como a almotaçaria. alfândegas. por outro. a afastar da administração camarária e da sua Justiça. por um lado. em regra como se verifica nos municípios metropolitanos distribuídos por outras instâncias territoriais e magistrados. que é o testemunho da sua enorme “plasticidade”. saúde.º nível. As situações podem ser as mais dispersas: nalguns casos onde é forte o poder real (sobretudo pela Fazenda) ou o poder donatarial (sobretudo o militar) estes assumem poderes que retiram aos concelhos. servidos muitas vezes por escrivães vindos de outros concelhos. procuradores dos concelhos. o inverso também se verifica.. ensino. onde os concelhos assumem totalmente os poderes régios e públicos.) As aproximações de organização institucional fazem-se entre municípios de idêntica dignidade e hierarquia. É possível seguir ainda nas diferentes configurações orgânicas-institucionais que assumem os municípios modernos. juízes iletrados. cabeças de comarca – com Porto e Lisboa à parte – as diferenças se acentuem. os municípios de juíz de fora. Nestes municípios mais pequenos e inorgânicos não se verifica sequer qualquer intervenção do poder real. que adopta ainda perfis e figurinos diferenciados em relação com os níveis mais ou menos acentuados de integração política e social no Reino. separados desde logo. que se fez de modo diverso pelos diferentes manchas do território. Os seus orgãos mal se distinguem dos das paróquias/freguesias. expressões dessa acentuada diferenciação regional. Nos pequenos e minúsculos municípios as singularidades ainda são muitas.

dos camaristas. do território e termos rurais. enfim. em especial naqueles domínios e esferas de actuação que mais podem afrontar as populações: no domínio do exercício e aplicação da justiça. o termo e as aldeias é o território dos devassos. da resistência. Pela sua natureza. A vila é o território das elites sociais e políticas e dos privilegiados desta ordem social e espacial municipal. sobretudo a fiscal. de modo a permitir seguir os campos de oposição. não tem com efeito estudado a História da Administração Municipal do lado dos administrados. do lançamento e cobrança dos impostos régios e municipais. Como permite também fixar os termos da protecção e particular privilégio que o Município promove relativamente ao território urbano – sede de concelho – suas elites políticas e sociais urbanas. de modo a confrontá-la com os seus críticos e sectores da população particularmente vexada com esta administração. da crítica aos poderes municipais. mas também a “coimeira” é aí profundamente gravosa para os termos do concelho e suas populações rurais e faz-se em proveito das vilas e sua população política. Em busca de novas abordagens da História Municipal da Administração Local: a administração vista pelos «administrados». É pois de um modo geral “violenta” a relação do poder municipal com esta população devassa dos termos concelhios. A política municipal. estabelece uma absoluta separação entre o espaço urbano e o seu território rural do termo concelhio. É um estudo que deve saber explorar de novos ângulos as fontes documentais da instituição municipal. a . A paróquia Os estudos da História Municipal. A perspectiva dos administrados permite desde logo fixar mais claramente a conformação senhorial que adopta a generalidade dos municípios portugueses de Antigo Regime em meio urbano e sobretudo em meio rural e se exprime em particular. na expropriação dos baldios e no sistema e rateação dos impostos em especial sobre as populações rurais e seguir as resistências e oposições dos grupos e territórios mais afectados. em especial nos municípios de assentamento urbano. dos colonos. dos ricos e poderosos locais. urbana e senhorial. que circunscreve ainda mais as relações entre aquelas ordens políticas administrativas. Às dificuldades decorrentes de natureza da estrutura do poder municipal – de carácter político-senhorial e fiscal – acresce o forte enquadramento e tutela da ordem religiosa sobre as paróquias. da condução e colocação da instituição municipal ao serviço do Estado. das condenações fiscais.ADMINISTRAÇÃO LOCAL E MUNICIPAL PORTUGUESA DO SÉCULO XVIII ÀS REFORMAS LIBERAIS 55 3. o poder e a organização municipal. do lançamento dos serviços públicos e municipais forçados. Daí decorre de um modo geral a dificuldade dos municípios levar e afirmar o seu poder e jurisdição nas aldeias. Por isso esta estrutura municipal. estabelece um conflito estrutural básico com as populações rústicas do termo.

um poder muito forte sobre a comunidade. Sem grande sucesso. Mas também pela resistência a vir-se empossar às câmaras. Esta realidade. pouco influente. como se pode seguir pelas Memórias Paroquiais de 1758. Eles são também a expressão do carácter opressivo desta organização. Contratos de moradores dos termos com os municípios – para fugir à violência dos impostos. Como se pode seguir pelo rol das coimas e volume e montante das coimas. o clima de resistência de aldeias às ordens camarárias e municipal é enorme. sem qualquer significado para os povos. das prestações de serviços. ou a fazer submeter os poderes próprios da paróquia ao ordenamento geral do Reino. poucos avanços se produziram na aproximação das paróquias e comunidades inscritas no aro concelhio aos con- . Ora a paróquia é. criam dificuldades intransponíveis à aproximação da Coroa e Municípios régios e da administração pública às populações. Nas terras do Sul. É até muito desclassificado pelo papel dos seus juízes e rendeiros. Por outro lado é preciso atentar na organização autónoma das paróquias que no Norte.56 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS civil dos concelhos e a religiosa nas paróquias. pouco envolvente. Com efeito apesar dos esforços. o poder municipal é aí descrito muito periférico. É por isso necessário seguir melhor os modelos e as estruturas de aproximação das câmaras aos concelhos. Pouco sucesso teriam também os Zeladores de Polícia instalados pós 1790 que o Estado pretendeu estabelecer para impor a ordem pública às terras. por um lado. em particular aos termos rurais das paróquias ou freguesias para avaliar melhor as formas de articulação entre ambos os territórios e suas instituições político-administrativas. em grande parte por sobre a estrutura municipal. Com Pombal para além das reformas dos concelhos para os configurar no ordenamento régio houve um esforço para valorizar socialmente o exercício dos cargos municipais nas paróquias. dos aforamentos e partilha indiscriminada dos baldios – são muito frequentes por todo o território. esta organização concelhia e esta organização paroquial. A Coroa no seu afã de aproximação e controlo de todas as esferas e espaços da Sociedade intentou as reformas necessárias para colocar os concelhos ao serviço de uma ordem pública. e por outro a criar um poder civil na paróquia que se integrasse no ordenamento político geral. pelo menos. directamente ou indirectamente pela sua mais forte articulação e dependência dos concelhos. se arroga o direito de representar as comunidades fazendo frente ou condicionando fortemente o poder municipal ou seus representantes na paróquia. onde a organização paroquial é menor e menos forte. surgem os “concelhinhos” e governos de freguesias com uma estrutura muito aproximada à dos concelhos – a que tão só faltam às vezes os vereadores – e se avençam e contratam com os seus municípios para fugir aos excessos e violências dos maiores municípios. das fintas.

das elites e do . Para além da confraria do Subsino ou do Nome de Deus. com Pombal intentará ir o mais longe possível neste afã de controlar e integrar todo o território. e religiosos. Por meados do século XVIII. relativamente à qual os outros poderes e jurisdições tem uma acção totalmente periférica. aí onde o próprio poder municipal. da vila. como se fizeram no neo-pombalismo (pós 1790-92) sob o signo do regalismo e do alargamento do direito régio. No Pombalismo fizeram-se avanços neste domínio. mais próximo mal entrara. A paróquia é assim um quadro de extraordinária vitalidade. O poder real. indiferença. O concelho está fortemente dividido entre a comunidade dos eleitos e dos privilegiados. ao pretender instalar-se no seio da comunidade paroquial. Em regra as paróquias e seus oficiais mantém relativamente às câmaras uma atitude de hostilidade. altura em que os juízes das paróquias. sejam eles do subsino ou de vintena. a das Almas. Mas a articulação social e política das comunidades à régia administração e poder municipal é uma tarefa localmente encomendada às câmaras. se articulam mais poderosamente com o poder camarário e de algum modo se dignificam as suas tarefas. Com efeito a comunidade paroquial vinha de uma longa evolução de reforço dos seus suportes demográficos. O Regalismo é sem dúvida o enquadramento privilegiado para tal submissão da ordem religiosa à civil na prossecução dos objectivos da Monarquia Cristianíssima. da paróquia e dos paroquianos e na fixação de uma tutela e vigilância muito activa das autoridades diocesanas sobre a comunidade paroquial e de fiéis. sociais e sobretudo administrativos. de 3 importantes confrarias que congregarão os esforços e os sentimentos religiosos da comunidade a saber. a comunidade paroquial atinge o pleno do seu reforço. O assalto à fortaleza de paróquia é realmente uma das tarefas a que a Monarquia e a Administração civil se envolverá activamente ao longo da etapa histórica. porque efectivamente não há continuidade de interesses entre esta ordem municipal tradicionalmente construída ao serviço das governanças. Mas tal foi sempre a excepção. que governam toda a paróquia no civil e eclesiástico. afirmação e autonomia. O termo do concelho dificilmente constitui com os moradores de sede e vila uma comunidade de vizinhos. em especial desde meados do século XVIII. expresso designadamente na construção e embelezamento das suas igrejas e da animação da vida paroquial à volta da missa conventual. do Subsino e do Rosário. com a instalação dos sacrários e sobretudo da constituição em regra. económicos. Aqui porém as dificuldades foram maiores.ADMINISTRAÇÃO LOCAL E MUNICIPAL PORTUGUESA DO SÉCULO XVIII ÀS REFORMAS LIBERAIS 57 celhos e às câmaras. contra a dos moradores devassos das paróquias do termo rural concelhio. alicerçados na construção de equipamentos religiosos e sobretudo de uma muito viva e activa organização sócio-religiosa à volta da constituição de importantes confrarias ou irmandades para o governo material e espiritual da igreja.

seguir a sua evolução temporal e distribuição geográfica. calçadas. suas ruas. ao longo do século XVIII as razões de queixa das populações paroquiais contra as câmaras. . juízos fiscais. os radicalismos e as violências com que vem sendo avaliado e criticado o nosso município desde o tempo da Ilustração. os regulamentos e posturas e outros ordenamentos e deliberações permitem claramente seguir os destinatários e os beneficiários desta administração. nesta etapa. Momentos críticos houve. almotaçarias. das coimas e condenações de câmaras. em particular. em particular a mais radical e revolucionária. em que se revoltariam mesmo em conjunto contra a prepotência dos senhores das câmaras e das vilas. da violência do recurso aos serviços a prestar nas obras e arranjos das vilas. as tabelas de preços. dos excessos dos rendeiros e coimeiros municipais. Em grande medida o radicalismo da reforma dos concelhos em 1836 – que extingue cerca de metade dos concelhos portugueses – e lhes reduz os poderes e competências – designadamente retirando-lhe o judicial. praças e equipamentos.58 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS marco urbano que se constrói e reforça com base no domínio sobre as populações rurais dos termos. a distribuição da renda municipal. com salários. os regimes das terças. Os aforamentos e os aforantes. particularmente vexadas com o processo de aforamento dos baldios – particularmente activo pós 1790 – do agravamento fiscal sobre a população não privilegiada dos termos. dos juízes gerais. porque politicamente retrógrada e incapaz de regeneração. vintenas permite quantificá-las. Aumentam. a crítica política à instituição. propinas e emolumentos e demais gastos festivos e propagandísticos. E há também uma importante literatura que é particularmente rica de informações sobre esta matéria e onde é possível seguir. utentes e destinatários desta instituição. almotaçarias. espaço da nobreza mas também de muitas violências – exprime e mede de certo modo também. rendeiros – apresenta em toda a sua nudez nos verdadeiros beneficiários. Que ganha particular expressão na etapa pombalina (propugnando sobretudo pelo seu enquadramento na ordem e Direito Público) e depois na fase posterior a 1789 em especial a 1790/92 (propugnando também agora pela sua colocação ao serviço do desenvolvimento e felicidade dos povos) assumindo a partir daqui por vezes um cunho particularmente crítico sobre o lugar e papel histórico e moderno do governo e instituição municipal ao ponto de alguns propugnarem pela sua abolição. Múltiplos são os testemunhos por onde se podem seguir estas “violências” e “vexações” da administração municipal. o estudo quantitativo e diferenciado dos actos e decisões das vereações. em especial daqueles ilustrados que seguem de perto a actuação do governo e instituição municipal. E em particular a literatura Memorialística vinda do seio da Ilustração. governo e ordem municipal que a constituição social dos orgãos de governo – câmaras. A leitura atenta dos registos camarários permite entrevê-los. com efeito.

. para que a acumulação de nova informação alargue o horizonte das pesquisas e se não limite a fornecer mais um estudo de caso que ratifica tudo aquilo que se conhece. Mas não deixa de revelar alguns impasses. «Elites locais e mobilidade social em Portugal no Antigo Regime». Casa. Manuel a Pombal. pp. Mest. 1998. 2 vols. Os Municípios no Portugal Moderno: dos forais manuelinos às reformas liberais Lisboa. in Elites e Poder. 2003. 37-81. 2001. elites e poder. Outros trabalhos sobre o tema têm surgido que aí não se encontram referenciados. Teresa Fonseca. mimeo. outras instituições locais (em especial. As Misericórdias Portuguesas de D. 2005. entre os quais destacaria: Nelson Veríssimo. parece necessário propor e discutir novas questões e as metodologias adequadas para se lhes dar resposta.. na linha de alguns textos já antes publicados. mimeo. A imensa informação recolhida permite que se façam novos pontos da situação e que se renovem as reflexões sobre o tema. Edições Colibri – CIDEHUS-UE. mimeo. Ou seja.. O objecto deste breve texto. Entre o Antigo Regime e o Liberalismo. António Ventura dos Santos Pinto.. síntese recente de Isabel dos Guimarães Sá.. Dout. retomado de uma comunicação oral. 2001. 1 Para uma bibliografia mais detalhada. Évora 1750-1820. Ponta Delgada. Dis. Dis. 2002 e José Damião Rodrigues. Nuno Pouzinho.Sociologia das elites locais (séculos XVII-XVIII) Uma breve reflexão historiográfica NUNO GONÇALO MONTEIRO (Universidade de Lisboa / Instituto de Ciências Sociais) Ao longo das duas últimas décadas. Porto. Lisboa. Vila do Conde (1785-1800) : as gentes e o Governo Municipal. Dis. Mais recentemente. será. o estudo das elites municipais tem constituído um dos principais temas de investigação da historiografia portuguesa e objecto de diversas sínteses1.. remeto para Nuno Gonçalo Monteiro. Lisboa. Relações de poder na sociedade madeirense do século XVII. Lisboa. São Miguel no século XVIII. o de debater algumas vias complementares para o estudo das elites locais. A Elite Municipal de Castelo Branco entre 1792 e 1878. 2003. Lisboa. 2000. 59-72. Absolutismo e municipalismo. as misericórdias) vêm recebendo a atenção dos estudiosos2. tentando apresentar. Mes. assim. pp. Lisboa. 2 Cf.

por outro lado. Poder municipal e oligarquias urbanas: Ponta Delgada no século XVII. em particular os de Mafalda Soares da Cunha. Com efeito. Sérgio Cunha Soares. Os escassos estudos sobre elites locais na longa duração A primeira questão que se quer levantar parte de uma constatação: apesar de existirem algumas excepções parciais (o Porto3. «Reflexões sobre a estrutura municipal portuguesa e a sociedade colonial portuguesa». 1995. O. Joaquim Romero Magalhães. História do Porto. Ora. Poder e poderosos na Idade Moderna. Lisboa. 1994. contra uma imagem demasiado decalcada do século XVII tardio e do século XVIII (a da municipalização do espaço político local). Francisco Ribeiro da Silva. entre outros. 7 Cf.60 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS novos tópicos de análise. O município de Coimbra da Restauração ao Pombalismo. Coimbra4 e. sugerem que até às primeiras décadas de seis3 Cruzando informação de: Pedro Brito. O Algarve económico 1600-1773. Porto. a verdade é que a continuidade das elites locais ao longo da época moderna carece ainda de confirmação empírica. Idem. de Oliveira Nunes.. por um lado. O poder concelhio: das origens às cortes constituintes. Lisboa. Porto. cit. 4 Cf. in Notas económicas. 2 vol. Um aspecto que parece fundamental ponderar são as modificações da arquitectura dos poderes locais resultantes da erosão do poder senhorial no decurso do século XVII. Porto. 5 Cf. Joaquim Romero Magalhães. e J. E. Acresce que as ilações que deles se podem tirar não são unívocas.º 4. São Miguel no século XVIII…. Patriciado urbano quinhentista: famílias dominantes do Porto (1500-1580).C.. 1994 e Idem. e Ana S. História Social da Administração do Porto (1700-1750).º16. diversos trabalhos recentes. José Damião Rodrigues. Ponta Delgada.). n. apesar da tendência apontada há muito por Romero Magalhães para a crescente elitização da vida política local7. Porto. Coimbra. A. 1986. sob alguns aspectos o Algarve5 e Ponta Delgada6).E. 1988. «As estruturas sociais de enquadramento da economia portuguesa de Antigo Regime: os concelhos». dout. são escassos os estudos na longa duração sobre elites locais. Coimbra. Reflexões sobre a história e a cultura portuguesas. 1986. 6 Cf. séculos XVII e XVIII». 1995. Dis. Ferreira (coord. 1999. Revista de História Económica e Social. 1. A ideia central é alargar o campo de inquirição das leituras institucionais (como sejam as que pontificavam nas câmaras e misericórdias) para outros terrenos. é bem provável que as formas de exercício dos poderes nas províncias no século XVI e no início do seguinte não fossem as mesmas. «A sociedade portuguesa. Maria Helena Coelho e Joaquim Romero Magalhães. . Romero Magalhães. 1997. tendência que se aprofunda na centúria subsequente. 1986.). in L. O Porto e o seu termo (1580-1640). Ramos (dir. Mimeo. idem. 1988.. in M. n. «Os tempos modernos».

Lisboa. Fernando Bouza Álvarez. «Poderes e circulação das elites em Portugal. uma viragem importante. Nuno Gonçalo F. pp. Se admitirmos que essa evolução representou uma efectiva mutação institucional12. Monteiro. Dória. A casa e o património da aristocracia em Portugal (1755-1832). pp. 1990.234-235. O Crepúsculo dos Grandes.SOCIOLOGIA DAS ELITES LOCAIS (SÉCULOS XVII-XVIII) 61 centos os poderes senhoriais eram geograficamente muito amplos8 e efectivamente exercidos. 207-256. Mafalda Soares da Cunha. Lisboa.A.). nota D. «A nobreza portuguesa e a corte de Madrid». as redes clientelares destes tinham uma efectiva vitalidade e influência10. neste como em outros terrenos. 2000. 2000. então coloca-se a questão de avaliar até que ponto antes e depois as lógicas de estruturação dos equilíbrios e dos poderes locais eram diversas. História dos Municípios e do poder local. eventualmente. Cultura. Política. Lisboa.105-138.. Práticas senhoriais e redes clientelares. O caso andaluz de Córdova. Ou seja. Nuno G. História de Portugal Restaurado. a gradual distensão dos laços clientelares que estas podiam estabelecer com as províncias pode ter dado lugar à emergência de novos protagonistas. 12 Ideia desenvolvida em Nuno G. 425-427. 1996. sobretudo pp. Independentemente da legislação restritiva do século XVII sobre a elegibilidade para os ofícios locais. Monteiro. in Conde de Ericeira. pp. É certo que a venda de ofícios locais e de mercês supe- 8 Cf. exemplarmente estudado por Enrique Soria Mesa. 11 Cf. Monteiro. Monteiro. in César Oliveira (dir. 1998. este elemento pode ter pesado também na composição dos grupos que nelas pontificavam. História dos Municípios…. A migração por alturas de 1640 de muitas famílias principais para a corte. António de Oliveira. Representações (1580-1668). s. pp. A esse respeito um bom referente comparativo é nos fornecido pelos trabalhos sobre as elites locais dos territórios da coroa de Castela. quando quase toda a primeira nobreza do reino residia na corte e quando o número de terras sujeitas a jurisdição senhorial e. pp.. com evidentes implicações nos destinos individuais e familiares. Porto. 9 Cf. nova ed.. 49-54 e 153-161.. «Os poderes locais no Antigo Regime». os poucos estudos disponíveis não são concludentes sobre a continuidade ou descontinuidade multissecular das famílias. A Casa de Bragança (1560-1640). que o cenário era distinto do que encontramos no século XVIII. finalmente. in César Oliveira (dir..d. in Portugal no tempo dos filipes. A Restauração de 1640 constituiu. 1640-1820». in Elites e poder. . Lisboa. Poder e oposição política em Portugal no período filipino (1580-1640). «Os poderes locais no Antigo Regime». a efectividade do exercício das respectivas prerrogativas por parte dos senhores parecem ter recuado sem apelo11. que havia muitos fidalgos principais residentes nas províncias9 e que. 488-489. 49-54. e A. 10 Cf. Nuno G. Por outro lado. pp. Lisboa.). constitui uma excelente ilustração.

en particular. mas sempre com uma «ficção de provas» e de genealogias que lhes asseguravam uma antiguidade e fidalguia. o que em parte explica a abundância de estudos centrados nessa etapa tardia17. quase sempre antecedidas por uma etapa de acumulação de capital económico no terreno mercantil ou outro. muitas com sangue converso.66 e seg.. ibidem.) las grandes Casas nobiliarias cordobesas (. Madrid. para onde eram remetidos os das terras da coroa. p.. nueva sangre en las élites. mas necessárias para lhes conferir o estatuto de membro de pleno direito do restrito grupo dirigente local. ibidem. em seu lugar foram ascendendo outras.. se transformaron muchas cosas. 1606-1808). y en la Córdoba de los siglos XVI al XVIII. 2000. No entanto. pp. «habrá transformaciones. em larga medida inventadas. Mauro Hernández. ss XVI-XVIII). Em todo o caso a comparação é legítima e possível.) las Casas medianas (. 17 Na verdade.) ya en le siglo XVI (. O exemplo sumariamente descrito parece muito sugestivo. muitas histórias de ascensão bem sucedidas18. Em Córdova. alcanzaron el poder grupos oficialmente excluidos de los honores y las dignidades». El cambio inmóvil. não apenas conhecemos.) para eso están los genealogistas»13. A la sombra de la corona.. O que designou por «el cambio inmóvil». segunda metade de setecentos e início de oitocentos) indicam que a governança era controlada por um núcleo muito reduzido de famílias.. Poder y oligarquia urbana (Madrid. É certo que as fontes portuguesas (designadamente.13 14 Idem. pero se mantendrá la ficción de que nada puede cambiar (. . Córdoba. apesar das diferenças. de forma general.) a finales del XVII»15. Nuno Gonçalo Monteiro. p. «las élites tradicionales. traduziu-se no facto de «en la Monarquia Española. 18 Cf. p. E. os arrolamentos da nobreza das terras) só se tornam profusas para finais do Antigo Regime.101-103 16 Cf. «Elites locais e mobilidade social…». «seguramente....15 15 Idem. los antiguós linajes. la ciudad más aristocratizada de España en la Edad Moderna»14. apesar disso. Também é verdade que muitos dos trabalhos já efectuados abrangendo centros urbanos de alguma relevância nesse período (grosso modo. Transformaciones y permanências en una elite de poder (Córdoba. 1996. cambio sustancialmente la composición social de la élite gobernante. é só depois de 1755 que os arrolamentos se tornam frequentes no Desembargo do Paço. 13 Enrique Soria Mesa.62 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS riores (senhorios e até títulos) introduzem uma componente que não tem paralelo no caso português. empiezaron a abandonar el municipio (.. as quais procuravam limitar de várias maneiras o acesso dos adventícios aos respectivos ofícios.. o caso de Madrid não parece ser radicalmente diferente daquele que se acaba de apresentar16.

«Para o estudo…». depois.º 2. Tabardo.51-110. Fidalgos Nobres e demais privilegiados no poder concelhio». 53. corroboradas pelas investigações muito mais aprofundadas do próprio autor. a única forma de comparar um grande número de municípios de distintas regiões. e. Nos séculos XVIII e inícios do XIX «(a)ssiste-se à inversão da base sociológica do grupo dos vereadores nas principais câmaras do Algarve (…) o poder radica agora numa nobreza de função. modificou significativamente as perspectivas até agora prevalecentes sobre a evolução da elites locais na referida província. até ao século XVII. com um máximo percentual de 64% no século XVI». de sublinhar duas questões: desde logo.SOCIOLOGIA DAS ELITES LOCAIS (SÉCULOS XVII-XVIII) 63 como parece indispensável estabelecer. Fidalgos de cota de armas do Algarve. Gostaria de acrescentar que. 20 O autor afirma. p. Sem pretender refutar a crítica. já depois de elaborada a versão inicial deste texto. que no texto «Elites locais e mobilidade social…» fui induzido em engano no que ao Algarve se refere. o facto de o uso desse tipo de fontes constituir. «Para o estudo das elites do Algarve no antigo Regime. certamente com fundamento. 19 Cf. portanto. o autor mostra-nos que esse processo foi a sequência da regressão das antigas famílias da fidalguia local dominantes nos séculos XV e XVII. que ascendeu graças à riqueza acumulada no trato mercantil». me foi dado consultar uma investigação sobre o Algarve que mostra bem as virtualidades dos estudos na longa duração19. Aí se constata que «é de verdadeira nobreza a maioria das famílias que detêm o poder nos concelhos urbanos do Algarve até ao século XVII. n. associada à ruralização e decadência económica seiscentista.: Miguel Maria Telles Moniz Corte-Real. «quando inicia a sua ruralização e decadência». pp. em cada contexto. 2003. a cronologia e os ciclos na longa duração de maior estabilidade e de maior renovação das elites municipais. para a qual Romero Magalhães chamou há muito a atenção. nota (3)). 2003. «o Algarve foi um espaço característico da nobreza de sangue». Em síntese. contrariando a imagem da afirmação gradual de uma nobreza camarária sem raízes fidalgas numa província onde a nobreza de sangue teria sido sempre muito minoritária. Camarate. cruzando relações de vereações camarárias20 com o estudo do acesso de naturais do Algarve a cartas de brasões de armas e outras distinções da monarquia. que as minhas conclusões acerca da escassa presença da fidalguia de sangue nas vereações algarvias no início do século XIX foram. no entanto. dita reino. ao usar os róis de vereadores por causa das «omissões» desse tipo de fontes (cf. no estado actual da investigação. O seu autor. . no fim de contas. gostaria. representando a nobreza de sangue nos mesmos concelhos principais antes recenseados apenas 19% do total dos vereadores . e idem.

está longe de nos resolver inteiramente o problema. Honra. 237 e seg.64 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS 2. não só outras distinções nobiliárquicas inferiores. 15-51. quase só pelo serviço ao rei. mas as coisas são quase sempre mais complexas. Fernanda Olival. foi sempre possível comprar hábitos a quem já tinha recebido a respectiva mercê da coroa. mas. para os efeitos agora considerados. pelo menos depois de meados de seiscentos. ao contrário do modelo castelhano. Só que o serviço ao rei tinha inexoráveis condicionalismos. 22 Cf. tal como os senhorios que antes se transaccionaram. consagrada pelo tempo. mercê e venalidade: as Ordens Militares e o Estado Moderno. mas ainda ofícios locais nobilitantes. Nada de semelhante se verificava em Portugal. «Notas sobre nobreza. pp. Desta forma. pela riqueza – nesta se podendo incluir as alianças matrimoniais. são mesmo dois momentos distintos nas trajectórias das famílias ao longo de várias gerações. 1987.º 10. Como eloquentemente demonstrou Fernanda Olival22. A monarquia vizinha vendia. que só tem relevância a certos níveis. as diferenças com Castela são muito relevantes. senhorios e até títulos. in Ler História. não consta que se comprassem comendas. frequentemente contraditória. as quais só se alcançavam pelo real serviço. De resto. podia chegar a abrir o topo da pirâmide nobiliárquica. 2001. fidalguia e titulares nos finais do Antigo Regime». A ascensão na hierarquia nobiliárquica podia fazer-se. Em geral. pp. Mas. muito sumariamente. fidalgos e primeira nobreza de corte21. a riqueza. aquilo com que nos defrontamos em Portugal é com uma miríade de distinções e hierarquias e com a extrema dificuldade em definir uma hierarquia nobiliárquica abrangendo todo o espaço geográfico e social da monarquia. nem tão pouco os títulos nobiliárquicos. daí para cima e de forma progressivamente mais apertada. até certo patamar. Poderíamos. a legislação. ao invés da polarização entre nobres e não nobres (ou nobres e mecânicos). Em resumo. não se podiam comprar as distinções superiores da monarquia. Neste ponto. a partir de finais do século XVII. de resto sempre em número de cerca de meia centena até 1790. como uma forma de acumulação de capital económico – e pelo modo de vida. Nuno Gonçalo Monteiro. A história das famílias constitui um terreno ainda em larga medida por explorar Tal como já tive muitas vezes oportunidade de destacar. distinguir entre simples nobres. . 21 Cf. Lisboa. n. não consta que se vendessem senão em casos excepcionais depois de 1640.

etc. 2001. Lisboa (no prelo). Deste ponto de vista. As vésperas do Leviathan. 1668). senhorios. F. cf. se foi tornando cada vez mais difícil. No puzzle das instituições locais e centrais disponíveis. e. embora com limitações inexoráveis. Univ. Lisboa. 25 Cf. de Murcia. 2 vols. XVII. no de José Damião 23 Cf. . a Restauração representou. in Optima Pars. pode afirmar-se que o acesso aos ofícios e aos serviços que permitiam receber as tais mercês superiores da monarquia. cit. e muito. habilitam-nos a medir até que ponto determinadas elites se enquistavam nas instituições locais ou se alargavam a espaços mais amplos. pois também aí pesava. 24 O serviço no exército e. as lógicas de reprodução social. in Francisco Chácon Jiménez e Juan Hernandez Franco (eds. e ao invés de Castela. sobretudo. Elites Ibero-Americanas do Antigo Regime. tanto em termo de produção de serviços à coroa ou de acumulação de capital económico. cit. no livro de Mafalda Soares da Cunha27. como no plano das alianças matrimoniais. Para além de só estes permitirem medir a difusão ou não do padrão da primogenitura (o que se pode designar de «modelo reprodutivo vincular». uma imensa ruptura no equilíbrio entre grupos nobiliárquicos. «Trajectórias sociais e formas familiares: o modelo de sucessão vincular». Não tanto porque se criassem instituições novas (matrículas da casa real. pp.SOCIOLOGIA DAS ELITES LOCAIS (SÉCULOS XVII-XVIII) 65 De facto. Portugal – séc. Murcia. «Governadores e capitães-mores do império Atlântico português nos séculos XVII e XVIII». 27 Op. títulos.). Uma das formas de apreender essas apropriações e. Familia. 26 Op.. mais globalmente. quanto pelas novas apropriações sociais e institucionais que se fizeram das instituições existentes. parece que estas últimas só dificilmente estiveram ao alcance das famílias provinciais. chamada de atenção para o problema em António Manuel Hespanha. Há algumas aproximações a este tipo de abordagem – por exemplo. e esta é uma ideia forte que importa de reafirmar. Mafalda Soares da Cunha e Nuno Gonçalo Monteiro. mais recentemente. a ascensão das elites locais em Portugal desde finais de seiscentos encontrava-se limitada pelas dificuldades que encontravam em aceder aos ofícios e às mercês do centro23. pelo menos a prazo (depois do fim da Guerra. tudo vinha de trás). Instituições e Poder Político. comendas. porque em larga medida apropriadas pelas da corte24. no governo das conquistas foi uma das portas possíveis. são os estudos de reconstituição de famílias ao longo de períodos razoavelmente dilatados no tempo. 17-37.. 1986. a qualidade de nascimento. Monteiro. morgadios. que constituía em si mesmo um signo de capital social25). Nuno G. poderosos y oligarquías. no trabalho modelar de Pedro Brito26. porque tendencialmente monopolizado pela «primeira nobreza de corte». Em termos muito sumários.

3. das famílias e das respectivas estratégias de reprodução social30. bem como outros ulteriores. Menos substantivas parecem as reservas sobre a informação conjuntural que se perde ou sobre as virtudes das análises de redes. a esse propósito. as quais estavam longe de constituir o único centro de interesse para as principais famílias locais. A maior dificuldade é. Ora. O quadro que desenha fica assim muito mais completo e matizado. um bom exemplo: estuda as famílias principais enquanto «oligarquias municipais». a famílias principais e as «elites camarárias» nunca constituíram uma categoria social uniforme. Uma boa base de reconstituição de famílias permite muitos tipos de tratamento. aos quais se poderiam acrescentar os das ilhas e até das conquistas. Cit. esboçou-se uma geografia dos níveis de riqueza e de nobreza das elites locais. 30 Op. com efeito. O livro recente de José Damião Rodrigues constitui. matéria à qual se regressará. Qual a base para a escolha? Qual o critério a eleger para reconstituir as famílias? A opção não é fácil e supõe sempre uma definição de critérios de hierarquização nobiliárquica. mas depois procede também à sua análise detalhada do ponto de vista das casas. uma geografia diferencial das elites provinciais. Não se ignoram muitas objecções que se podem colocar a esta escolha. o estudo das elites locais a partir das famílias e das casas tem inequívocas potencialidades. o ponto de partida. Geografia da nobreza e fidalguia e construção de casas nobres Nas mais de oito centenas de municípios do reino. o de emancipar este território de pesquisa de um excessivo enquistamento nas instituições municipais. Ir-se-ão resumir esses dados para depois discutir uma outra dimensão da questão. acerca dos quais já antes se destacaram as dificuldades que levantam. evidentemente. Em trabalho anterior. nas não ainda uma utilização sistemática desta metodologia clássica.66 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Rodrigues28 –.Miguel…. sem sombra de dúvidas. pelo menos para quem se ocupe de grupos fidalgos (mas não só)29. Uma das quais é. O exercício de comparação de arrolamentos camarários em finais do Antigo Regime permite concluir que genericamente as elites locais eram 28 29 S. cit. Apesar das limitações apontadas. Os historiadores académicos pouco têm explorado as potencialidades dos fantásticos fundos de produção genealógica da época estudada. existe um fantástico fundo de produção de genealogias que facilita muito o trabalho. Existia. .

Leiria. acabando as duas dimensões por tender a coincidir. embora nunca demasiado rápida e abrangendo quase sempre apenas certas famílias ou casas31. O estudo das casas armoriadas no território do continente português edificadas ou restauradas dos séculos XVII e XVIII fornece um indicador da vitalidade e da densidade das fidalguias provinciais. Nuno Gonçalo Monteiro. os resultados apurados33 destacam. «Elites locais e mobilidade social…». Oeiras. na Beira Alta. in José Portela e João Castro Caldas (ed. ao mesmo tempo que sugere as dificuldade que estas tinham em aceder ao centro.SOCIOLOGIA DAS ELITES LOCAIS (SÉCULOS XVII-XVIII) 67 mais ricas nas mesmas terras onde eram também mais fidalgas. pp. que está longe de ser muito completa. cit. Cf.). Torres Vedras) tinham claramente menos importância. «A patrimonialização do espaço social rural e o património edificado. Algumas notas». Mas 31 32 Cf. Portugal Chão. quase 44% do total. 217-230. 2003. de resto. Também. no Douro próximo da região demarcada do vinho do Porto. mas agora concentradas em centros urbanos. verifica-se que. com 99 casas. em apenas cerca de meia dúzia de terras do Alentejo. do que as do interior (Lamego e Viseu). menos presente no Sul do que no Centro e no Norte) com a maior riqueza e alguma mobilidade social (muito dinheiro do Brasil foi parar às casas do vale do Lima. como seria de esperar. as povoações sede de comarca do litoral (Aveiro. Globalmente. por exemplo). De acordo com a informação recolhida. eram mais ricas e mais fidalgas no Minho. Nuno Gonçalo Monteiro. No centro. 33 Distribuição de casas por distritos actuais Braga Porto Viana Viseu Guarda Coimbra 40 31 28 28 18 14 Évora Aveiro Bragança Leiria Castelo Beja 13 12 10 6 5 4 Faro Vila Real Lisboa Setúbal Portalegre Santarém 4 4 3 3 2 1 . nesta matéria. principiando por retomar a divisão distrital actual (18 distritos do continente). Coimbra. encontrando-se aí dispersas por muitas povoações e até termos concelhios. em muitas povoações alentejanas não havia um único fidalgo reconhecido. Num exercício efectuado a partir de uma amostra escassa (apenas 223 casas) sobre a distribuição geográfica desse património edificado no território português do continente32. as câmaras mais ricas e mais fidalgas não traduziam linearmente a presença de uma fidalguia muito antiga mas sim a confluência de uma herança de fidalguia anterior (dos seus símbolos e modos de vida. o peso esmagador da antiga província do Entre-Douro-e-Minho.

. Se. A hierarquia da nobreza das províncias Existia. Por razões várias. No entanto. no sentido antes referido de «modelo reprodutivo vincular». Acresce que. Uma vez mais. de resto. Uma vez mais. que aqui não cabe detalhar. As duas coisas parecem coincidir. 1989-2004. detectar uma apreciável correlação positiva entre as zonas e as localidades nas quais detectámos elites locais mais ricas e com signos nobiliárquicos mais destacados e aquelas nas quais se detectam também maior número de casas armoriadas. num total de 226 casas. Casas armoriadas do concelho de Arcos de Valdevez. bem espelhada no espaço. torna-se possível esclarecer algumas dimensões suplementares: verificamos que. em larga medida. por exemplo. Luís Pimenta de Castro Damásio et al. será muito difícil identificar alguma vez todas as casas armoriadas ou inequivocamente fidalgas que existiram no continente português durante o Antigo Regime. Arcos de Valdevez. uma hierarquia nas nobrezas provinciais. 35 Cf. têm inequívocas potencialidades. quer as tentativas de aproximação de conjunto. 5 vols. Miranda Vila Viço. as comarcas da Beira interior aparecem à frente do Centro Litoral. Armando Malheiro da Silva. 4. portanto. Embora a coincidência não seja perfeita. diversamente. partindo dos elementos recolhidos.. a história casas-edifícios confunde-se com a das famílias e das «casas e morgados». quer os estudos monográficos35 que se prendem com o tema que estudaremos de seguida. em regimentos 34 As 16 comarcas de Antigo Regime com maior número de casas Viana Guimarães Viseu Coimbra 27 23 17 16 Porto Barcelos Braga Évora 15 13 13 10 Lamego Guarda Trancoso Feira 10 8 7 6 Penafiel Castelo B. apesar da subavaliação do Sul e de todas as limitações das fontes. quando existiam 48 comarcas.68 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS depois vem claramente a Beira Interior. de resto. apesar de tudo. Subsídios para o estudo da nobreza arcoense. é possível.. trata-se de uma via de investigação alternativa à análise centrada na instituição municipal. retomarmos a geografia em comarcas existente em 1825. como se acaba de constatar. 123 ficavam em comarcas «do interior»34. de acordo com as fontes consultadas. só parcialmente exploradas no caso português. Para além da referida distinção entre nobres e fidalgos (explicita. muito à frente do Centro Litoral e do Sul. 6 5 5 5 NOTA: Os territórios encravados da comarca de Barcelos foram incluídos naquelas com as quais tinham contiguidade territorial. cujas virtualidades importa explorar.

Op. pelo lado materno. fez ao matrimónio da sua quinta filha com outro fidalgo arrolado na mesma lista e acabado de fazer sargento-mor. além da casa que herdara de seu pai. Fidalgos muito distintos». Bahia and Luanda. Portuguese Society in the Tropics. e da Cova. «aparentado com as casas de Unhão. tendo então 36 anos (IAN/TT. 1965. Existiam na província seguramente mais de uma. «pelo motivo de desigualdade em qualidades»38. .) unidas no suplicante. Entre outros argumentos.º 1661). Francisco Roque de Albuquerque também surge na mesma lista. no divórcio que se foi cavando cada vez mais entre as elites da corte e as das províncias. D. embora muitas explicitamente o tivessem pretendido. Joana Teresa do Carvalhal Esmeraldo Atouguia e Câmara. apesar das dificuldades apontadas. e o 36 Cf. Charles Boxer. que. Poder-se-iam retomar muitas histórias. mas em quadragésimo segundo lugar e apenas com «bens suficientes». No arrolamento dos elegíveis para vereador da câmara do Funchal em 1787 João Carvalhal Esmeraldo aparece em primeiro lugar.SOCIOLOGIA DAS ELITES LOCAIS (SÉCULOS XVII-XVIII) 69 como os da câmara de Goa36). tem 53 anos e é reputado «rico». pelo que «a antiga Nobreza destas duas casas (. Nelson Veríssimo. de cujas listas já constavam os seus antepassados pelo menos século e meio antes37. Corte. descendendo pelo lado paterno do (único) Conde de Vila Pouca de Aguiar. e Maternos. tendo como referência sobretudo o século XVIII. é possível. ele era e tinham sido «seus Avós Paternos. maço n. o pai da desejada noiva alegava que. Uma exemplar é a da impugnação que em 1786 João do Carvalhal Esmeraldo da Ilha da Madeira.. é «fidalgo cavaleiro» (da casa real). como antes se disse. ao contrário do pretendido noivo. avultariam mais de cem mil cruzados por ano. ou em seu filho. The Municipal Councils of Goa. a pertença a um mesmo rol de elegíveis para a governança de um município não servia para criar uma identidade social comum. foram raríssimos os fidalgos de província que casaram os seus filhos ou filhas sucessoras com a prole dos Grandes do reino desde finais do século XVII a inícios do XIX. assim como muitas outras da Primeira Nobreza». No entanto. e sendo.. 38 Francisco Roque de Freitas de Albuquerque da dita ilha pretendia contrair matrimónio com uma filha do personagem antes citado. Macao. dos Mellos. importa recordar duas questões sobre as quais muito se tem insistido. 37 Cf. era imediato sucessor da grande casa que fora do avô materno e que administrava uma tia. Madison. o que não desconheciam. Fidalgo da Casa Real e o primeiro arrolado para a Câmara do Funchal. de Belmonte. Em primeiro lugar. Desembargo do Paço.. tentar esboçar outros limiares. Por outro lado. Desde logo. talvez mais de duas dezenas de casas com um rendimento equivalente ao das menos afortunadas casas na primeira nobreza da corte. cit.

cit. pois apenas se reportando aos que tivessem o foro de «moço fidalgo e daí para cima». ICS. no entanto.70 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS intitulavam a pretender nobres e distintas alianças. por isso excepções) existiriam nas províncias do reino algumas centenas de fidalgos da casa real que delimitavam um segmento superior das nobrezas locais. principalmente para o seu filho mais Velho. num sentido ainda mais restritivo. fosse pelo rendimento respectivo. mas significativo. estas casas tinham uma geografia das suas alianças matrimoniais que se estendia a todo o reino e aspiravam a servir a monarquia em lugares de algum destaque. na regulação do acesso ao Colégio dos Nobres ou na lei dos casamentos de 1775 (há muito poucos moços fidalgos fora da corte)40. o que algumas vezes conseguiram (designadamente no exército e nas conquistas no século XVIII)41. Curiosamente. Curiosamente. mais antigos e que usavam armas nas fachadas das suas casas. a fronteira entre a nobreza antiga de pelourinho e a fidalguia de linhagem não é fácil de definir. não duvidariam dar uma filha». Mas também nas habilitações da Ordem de Malta se tendia a fazer equivaler a fidalguia imemorial às matriculas da casa real. 40 Cf. que se pode circunscrever uma categoria ainda mais restrita que podemos definir como a da principal fidalguia das províncias. Um indicador indirecto. Embora a variação dos critérios locais não se possa perder de vista (e a regra tenha. Litigiosidade inter-familiar e noções de nobreza em Portugal (1750-1832). não nos deve fazer esquecer que no século XVIII cada vez mais as instituições centrais tenderam a fazer equivaler a fidalguia às matriculas da casa real. Fosse pela qualidade dos imputados ascendentes. mas essa declarada pretensão seria dificultada pela aliança em causa. É difícil. . Nuno Gonçalo Monteiro. «Elites locais e mobilidade social…». e titulares famílias deste Reino. o saldo da história não fugiu à expectativa: a filha acabou por casar como pretendia. É importante destacar. As lutas pelo acesso às vereações e aos arrolamentos de nobres recentes contra presuntivos fidalgos. cit. «Governadores e capitães-mores do império Atlântico português nos séculos XVII e XVIII». Isso é claro. Mafalda Soares da Cunha e Nuno Gonçalo Monteiro. a quem algumas das mais distintas. até pela consabida falta de controlo no acesso e uso das cartas de Brasão de Armas. como disse. que veio a ser o 1. morreu solteiro39. e o pai não conseguiu o que queria. pois o único filho sobrevivente. a única ordem efectivamente 39 Retomado da investigação em curso: Trinta Casamentos contrariados e outras histórias. pode encontrar-se no recrutamento dos cavaleiros da Ordem de Malta.º Conde do Carvalhal feito em 1835. 41 Cf. estabelecer uma hierarquia das nobrezas abaixo dos Grandes e da primeira nobreza de corte.

mas à fidalguia das províncias. 2003. 324 e seg. no plano geográfico: dos 92 referidos maltezes. aceder à corte. 43 provinham da Beira. das mesmas zonas onde detectámos mais casas armoriadas! Entre os maltezes vemos filhos segundos de muitas das mais destacadas casas da primeira fidalguia provincial. portanto. que foi estudada recentemente por Inês Versos42. pp. existia um pressuposto fundamental bem conhecido. A Ordem de Malta não fornece. Procurou-se. uma relação de todas as casas da primeira nobreza das províncias. servir a monarquia e. 92 (ou seja. por fim. E. Desde logo. dentro deste segmento mais restrito da fidalguia principais das províncias. De resto. no sentido de que algumas casas nela criaram raízes e foram fornecendo recorrentemente maltezes (chegou a haver 5 irmãos maltezes!). Ao todo. Em síntese. 5. Maria Inês Versos. Destes. para o período compreendido entre 1691 e 1826. Trancoso e Viseu) e 18 do Minho.. os Pais do Amaral de Mangualde. Guarda.João de Malta em Portugal de finais do Antigo Regime ao Liberalismo. Na época estudada. 52%). os Pintos de Lamego (que deram um Grão-Mestre e depois o Secretário de Estado e Visconde de Balsemão). vamos encontrar precisamente muitos daqueles que mais buscavam fugir aos ofícios locais. sugerir vias possíveis de renovação de um território muito explorado nos últimos anos. Ou seja. Os 92 indivíduos reduzem-se assim a 70 casas ou famílias ou até a menos (56) se considerarmos os laços de parentesco em primeiro ou segundo grau. quase só do que hoje chamamos Beira interior (sobretudo comarcas de Lamego. Mas dá uma excelente amostra do conjunto. como. Mimeo. nem mesmo as poucas centenas de fidalgos da casa real existentes nas províncias chegavam a definir uma categoria social uniforme. Lisboa.SOCIOLOGIA DAS ELITES LOCAIS (SÉCULOS XVII-XVIII) 71 fidalga. dispomos de informações para 174 cavaleiros. que constitui. Nota final Nas páginas anteriores percorreram-se alguns temas da historiografia recente sobre as elites locais em Portugal no Antigo Regime. uma dimensão axial da questão e uma 42 Cf. militar e religiosa (destinava-se a secundogénitos) existente em Portugal. Dis. . É claro que não se trata de uma imagem de conjunto da primeira fidalguia das províncias porque a Ordem de Malta era uma questão de casas e famílias. não pertenciam à nobreza da corte. estas casas e famílias casavam muitas vezes fora das províncias de origem. Mest. em particular. os Pereiras Coutinho de Penedono ou os Silva da Fonseca de Alcobaça. ao mesmo tempo. Os cavaleiros da Ordem de S.

repousasse nas mãos dos mais nobre das terras. . o acesso à elite local podia ser a forma decisiva de serem reconhecidos como membros da elite social. portanto. o que em larga medida se propôs nas páginas anteriores foi que se desloque o centro da análise dos grupos dominantes locais das «elites políticas» para as «elites sociais». identificadas pelo seu grau de nobreza. Os dois planos confundiam-se.72 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS fonte quase perpétua de ambivalência: a cultura política prevalecente e a generalidade das intervenções legislativas da monarquia pretendiam que o governo local. partindo do postulado de que estas seriam as mais desinteressadas e também aquelas cuja autoridade seria mais facilmente acatada. Para os grupos em processo de acumulação de capital económico. Inversamente. assim. as famílias mais nobres e antigas podiam não estar interessadas no acesso aos ofícios locais. das «pessoas da melhor nobreza. nos quais os seus antepassados pontificavam há muitas gerações. nas próprias disposições normativas da época. cristandade e desinteresse» (Alv. 1709). de 18 de Out. não coincidiam necessariamente. que as «elites políticas» locais fossem recrutadas nas «elites sociais» locais (para retomar uma outra terminologia). Alguns dos exemplos apontados nessa direcção parecem corroborar as suas indiscutíveis virtualidades. No entanto. Esse modelo do que numa terminologia weberiana chamaríamos uma administração de honoratiores. a todos os níveis. Em síntese. na qual não tinham nascido. procurava.

divergiam consoante os concelhos. gradualmente organizadas. compensado pela imposição. a colaboração com materiais e mão de obra nas obras municipais e muitas outras. as funções. O seu número era também variável. Lisboa. p. mas também a debilidade burocrática da época1. A designação. o modo de provimento e até a origem social. p. consoante a categoria políticoadministrativa. reflectindo a escassez de quadros técnicos. 1987. possuía. Entre-Douro e Minho. reflectindo as especificidades administrativas concelhias da época. Lisboa. Os Municípios no Portugal Moderno: dos forais manuelinos às reformas liberais Lisboa. 1750-1830. .). Planeta. de um elevado número de funções. administração e bloqueamentos estruturais no Portugal Moderno (tese dout. dotada de um sistema administrativo excepcional no conjunto dos municípios portugueses. José Viriato CAPELA.O funcionalismo camarário no Antigo Regime. entre a segunda metade do século XVII e o primeiro vinténio do século XVIII. 43-48. pp. em serviços públicos. Braga. como a repartição e cobrança de impostos. João Pedro FERRO. mais evidente no interior do país e fora dos grandes centros urbanos. 73-86. auxiliando os seus agentes nas mais variadas tarefas da governação e assegurando o quotidiano camarário nos intervalos. a média nacional do pessoal camarário nos municípios com juiz de fora não passava de sete elementos3. Em qualquer dos casos. Edições Colibri – CIDEHUS-UE. de longe a maior e mais populosa cidade do Reino. 2005. 373. a função de guias e caminheiros. a extensão e os habitantes dos municípios. polic. os vencimentos. no entanto. mantinha-se consideravelmente inferior ao actual. No entanto. 1996. Nas vilas de Caminha e de Montemor-o-Novo era este precisamente o seu 1Este 2 3 reduzido aparelho administrativo era. um montante de funcionários excepcionalmente elevado: cerca de 6802. o transporte de presos. das reuniões de vereação. I. mais ou menos longos e irregulares. a partir da época liberal. Para a história da administração pública na Lisboa seiscentista. Sociologia e práticas administrativas TERESA FONSECA (CIDEHUS) O funcionalismo camarário constituiu um dos pilares da administração local do Antigo Regime. Finanças. aos munícipes. vol.

p. CAPELA. I. CAPELA. Braga. (Arquivo Histórico Municipal de Arraiolos). A administração municipal em Montemor-o-Novo (1777-1820). Colibri. 24 (1775-1814). em virtude da maior extensão destas circunscrições administrativas e das distâncias entre as diferentes localidades.). 271. V. O município de Chaves entre o absolutismo e o liberalismo (1790-1834).. os aferidores dos pesos e medidas e o escrivão do real da água. Receita e Despesa (1800-1812). 253 e 254. 373.D... 155-156. p. cujo ordenado provinha ou das receitas próprias dos serviços ou de entidades exteriores à câmara. 9 José Viriato CAPELA. p.A. p. Na região de Entre-Douro e Minho. Sobre a questão da comarca de Estremoz. 46. Mas a sul do Tejo o montante crescia.. I.). 5 Para Chaves veja-se Rogério Capelo Pereira BORRALHEIRO. poder e governo municipal. 8 J. a. sendo as principais funções exercidas por oficiais dos concelhos vizinhos13. Entre-Douro e Minho . Receita e Despesa (1809-1817). p.. f.E. o montante subia consideravelmente: 31 em Braga8. vol. Estão no primeiro caso os funcionários da almotaçaria.M. Relações de poder no Antigo Regime. Câmara de Estremoz (C. 3. 86-87. 1995. Incluímos apenas os funcionários com ordenado pago pela edilidade.E. E para Montemor. Os homens. (Câmara Municipal de Arraiolos). Câmara Municipal. no entanto. pp. Borba três6 e Vila Nova de Cerveira apenas dois7. vol. p. incluído nesta contagem do autor. Vila Nova de Cerveira. 528-532. 9..E. e no segundo. / E / 001 / Lv. 1988. Desconhecemos. era também variável. ed. I. embora inferior. Universidade do Minho. 4 Para Caminha veja-se J.. (Câmara Municipal de Borba). do terreiro do pão.H. 6 A. 11. 372. Receita e Despesa (1813-1838). 25. as instituições e o poder. 11 Teresa FONSECA. O Porto e o seu termo (1580-1640). p. que no entanto provia ainda um elevado número de funcionários. vol. 2002. p.74 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS número4. António Henriques da Silveira e as «Memórias analíticas da vila de Estremoz». Nas localidades com categoria de sede de comarca. 48 e 52. 1997.M. Mas Chaves e Arraiolos possuiam quatro5.. Lisboa. 1750-1820. 37 em Vila Real9. Évora.. 10 Francisco Ribeiro da SILVA. os que dependiam do juízo do geral ou do juízo dos órfãos. Entre-Douro e Minho. Nos municípios presididos por juizes ordinários o seu número. veja-se António Henriques da Silveira. in Teresa FONSECA. Porto. (Arquivo Distrital de Évora) / C. se integrou neste cômputo outros magistrados régios sediados na cidade. Colibri. “Memorias annaliticas da Villa de Estremoz”.H.M. vol. o segundo mais importante município da comarca de Évora e também sede da sua própria comarca até finais do século XVI. 2000. Entre-Douro e Minho. constituíam uma média de doze para um conjunto de treze câmaras. Lisboa. 8. Teresa FONSECA. 12 Arquivo Histórico Municipal de Estremoz (A. Elites. CAPELA. aproximadamente o mesmo no Porto10 e 14 em Évora11. . 2003. Entre-Douro e Minho . 27. Braga. Montemor-o-Novo. f. V.B.038. E Lv.037. 13 J. . .A.. Cx. Absolutismo e municipalismo. Câmara Municipal. Excluímos o juiz de fora.M. E para Arraiolos. possuía 812. 7 José Viriato CAPELA. p. A.. C. V. 595-689. p. II. 339. Estremoz. 210. 77.

p. 6.A. os vereadores e os procuradores da cidade e dos mesteres18. F1 D4. E para Cacela. Eram.L. sentava-se em cadeiras da vereação. Embora formalmente excluído do governo municipal. (Arquivo Histórico Municipal de Montemor-o-Novo) / C. 483. / U. p. (1779-81). José a 17 de Março de 14 Para Évoramonte veja-se A. / C. Na impossibilidade de abordarmos exaustivamente esta complexa e diversificada rede de funcionários.. O Minho e os seus municípios. Vila Real de Santo António.V. Em Lisboa. 1993.. T. Estudos económico-administrativos sobre o município português nos horizontes da reforma liberal. p. 18 João Pedro FERRO.O FUNCIONALISMO CAMARÁRIO NO ANTIGO REGIME 75 factores que inviabilizavam o aproveitamento de recursos humanos verificado a norte. 10v. Para a história da administração. da SILVA. e Lv.. seleccionámos os mais significativos do ponto de vista político-administrativo. desempenhava nele um papel imprescindível.M. Almada no tempo dos Filipes. 19 F. Receita e Despesa (1810-1819). 1995.H.N. e 11 v. 20 Maria Virgínia Aníbal COELHO. Câmara Municipal.M. no cortejo da cerimónia da quebra dos escudos efectuada pela morte de D. Almada.. Lisboa. 1990. Em Évora. C. F.. f. (Câmara de Lavre). sociedade.. p.N. (1782-87).H. . / Évoramonte.M. / E / 001 / Lv 023 Receita e Despesa (1811-1825). 038 (1791-1803). (Câmara Municipal do Vimieiro).. E1 D1 Receita e Despesa (1797-1806).M. que por isso mesmo se encontravam presentes na maioria das municípalidades. 16 A. desfilava a seguir ao procurador do concelho e ao alferes da câmara20. L. quatro em Almada e em Cabrela15 e três em Lavre e em Cacela16. 103-108. A. 036. em situação equiparada à dos membros da governança19. partilhava a Mesa do Senado da Câmara com o presidente.. p. Braga. 2v.N. Administração. 1995. economia e cultura (1580-1640). 17 José Viriato CAPELA.C.H. O Porto e o seu termo. Cacela no século XVII (Dez anos de governo autárquico). B / 001 / Vereações Lv. FONSECA. / C. em regra superiores aos do juiz de fora e muitas vezes também ao da totalidade dos restantes funcionários17. 145. No Porto. Perfil de um poder concelhio.U.E. cinco em Évoramonte e no Vimieiro14. No topo da hierarquia situava-se o escrivão da câmara. diss de doutoramento (polic. assim. Lv.. A importância do ofício patenteava-se no lugar de destaque ocupado em funções e cerimónias públicas e nos avultados ordenados e chorudas propinas auferidos nos grandes e médios concelhos.. Receita e Despesa (1782-1800).M. 387-388. 12 e 13. E para Cabrela veja-se A. E para O Vimieiro.H. José. 25. (Câmara de Cabrela).S. p. R. 41-42. Id. 42-43.M. O antigo concelho de Cabrela faz hoje parte do de Montemor-o-Novo.. I.. Hugo CAVACO. Santarém durante o reinado de D. f. Évoramonte pertence actualmente ao concelho de Estremoz e o Vimieiro ao concelho de Arraiolos. vol. Absolutismo e municipalismo. Universidade do Minho. 035.M. O antigo concelho de Lavre encontra-se presentemente integrado no de Montemor-o-Novo.). 15 Para Almada veja-se Aires dos Passos VIEIRA. p. incluindo as presididas por juizes ordinários. Na vila de Santarém. Câmara Municipal.

Publicações Gaudela. Cf. Cf.-A. foi exercido por cidadãos de precária condição económica. p.P. 26 Em Ponta Delgada. provisão de 16-4-1795.D. 87./D. Este prestigiado cargo era geralmente atribuído a pessoas nobres. 1994. dois criados do Rei.. 228.D.T. 2000. p. sentenças e alvarás (1795). Centro de Estudos e Formação Autárquica. pertenceram todos a uma única família da pequena nobreza da cidade. caminhou imediatamente a seguir aos vereadores e juiz. Veja-se A..T. Das origens às cortes constituintes. José Damião RODRIGUES. o filho de um procurador da cidade e um vereador no período posterior à Restauração. Ponta Delgada26. 28 Em Gouveia. Veja-se Sérgio da Cunha SOARES. Lisboa. p... 493-494. o segundo e o terceiro proprietários do ofício. (Torre do Tombo) D. ainda nos finais do Antigo Regime. como pudemos constatar no Porto23.) / Arquivo da Câmara de Évora (A. em Almada24. O município de Coimbra da Restauração ao pombalismo. Coimbra. Doc. p. O Porto e o seu termo. (Repartição das Justiças e Despachos da Mesa). vol. 26-26v.). 21 Arquivo Distrital de Évora (A. T. Eduardo MOTA. eleitos diversas vezes almotacés. T. Livro 9º de Registos (1769-1828). Chaves25. 19 e 323. Cuba29. Administração municipal em Gouveia em finais de setecentos. antecedendo não só o tesoureiro. T. 104-106. 1995. Gouveia. sendo um cavaleiro fidalgo e outro moço de câmara. eram elementos da nobreza local. p. Coimbra. o lugar esteve nas mãos de “notáveis locais”. 22 Maria Helena da Cruz COELHO e Joaquim Romero de MAGALHÃES.E. elevada à categoria de município em 1782. . Poder e poderosos na Idade Moderna 2 vols. de doutoramento (polic. R. Emília Salvado BORGES. (Desembargo do Paço)..M. pela morte do Senhor rei D. FONSECA. p. “Forma por que se fés o quebramento dos Escudos nesta Cidade de Evora a 17 de Março de 1777. 23 No Porto no período filipino. 1986. Maço 1525. José Iº”. Homens. dos P. sendo até incluídos nos róis de elegíveis. 29 Na vila de Cuba. p. entre a Restauração e o Pombalismo. Provisões. I. 31 O escrivão da câmara de Terena afirmava. . Instituto Cultural. em 1812. mas o próprio procurador do concelho21. O município de Chaves . à aristocracia local. diss. ter já por diversas vezes “servido na governança” da mesma vila. no século XVII. 58. nos finais de setecentos.. vol. Maço 634. era da nobreza da vila e os seus parentes estavam “sempre na vereação”. Terena31 e Évora32.79. fazenda e poder no Alentejo de setecentos.. os seus detentores eram homens de confiança do rei. Gouveia28.C.. no mesmo período. 25 Os de Chaves pertenciam. Ponta Delgada. 4. Cf. entre 1750 e 1820. 32 Os de Évora. Veja-se Francisco Ribeiro da SILVA.76 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS 1777.. Cf. nomeadamente um escudeiro fidalgo da Casa Real.. 499. Colibri.. pai e filho.. 49. entre 1770 e 1800.). BORRALHEIRO. I. 24 Em Almada. Cf. C. 30 O de Seda (comarca de Avis). Almada no tempo dos Filipes . o único proprietário do cargo foi um fidalgo. Faculdade de Letras. 1990. foi sempre atribuído a indivíduos incluídos na categoria de cidadãos. embora de recursos modestos22. Ponta Delgada no século XVII. p.E. Poder municipal e oligarquias urbanas.. VIEIRA. Coimbra27. p. seis dos quais chegaram a servir de vereadores e de procuradores. 27 Em Coimbra. livº 143. A. J. Cf.P. O poder concelhio. P. Absolutismo e municipalismo. f.. Seda 30.

.. uma “poderosa dinastia” de escrivães. p. o ofício conheceu apenas três proprietários. O poder con- celhio.. todos pertencentes à mesma família da pequena nobreza local. em Viseu. que na prática se tornava. existiu igualmente. O município de Coimbra. 228-229. Receita e Despesa (1778-1787) e (1809-1817). Alberto de Sousa Amorim Rosa. em livro próprio. VI. Absolutismo e municipalismo. Registava todos os mandatos. FONSECA. cit. o lugar foi ocupado sucessivamente por pai e filho. Poder e sociedade em Vila Nova de Portimão (1755-1834). 174. 35 E. 49.. Redigia as actas das eleições trienais dos agentes do governo local. Cf. vinha incluído anualmente na pauta régia. p. 41 A. até à extinção da donataria. . p...H..O FUNCIONALISMO CAMARÁRIO NO ANTIGO REGIME 77 A forma de provimento do ofício era variável. ou pelo donatário. Joaquim Candeias da SILVA. 38 Em Coimbra. Abrantes37. p. em 1759. L.E. 77.M. Mas na maioria das localidades. da C. 535. na centúria seguinte e em Elvas. 37 Os cinco proprietários do ofício dos sessenta anos de dominação filipina.N. por Luís VIDIGAL. durante grande parte do século XVI.. entre a primeira metade do século XVII e a segunda metade do século XVIII. vol. 36 Maria Virgínia Aníbal COELHO. p. hereditária. 1771-1800. Assentava.E.. p. mediante proposta camarária.. os detentores do cargo pertenceram a seis gerações da mesma família. As funções do escrivão da câmara vinham estabelecidas nas Ordenações. A. p. Colibri. id. SOARES. juntamente com os membros da edilidade34. 25.. No município de Lavre o provimento competiu ao marquês de Gouveia. p. 42 Entre 1733 e 1820. Câmara. Perfil de um poder. Veja-se T. 40 Entre 1777 e 1816.. MOTA. FONSECA. nobreza e povo. geralmente. Campo Maior e Loulé até ao fim do Antigo Regime. Abrantes – a vila e o seu termo no tempo dos Filipes (1580-1640). 58.. / C. 39 Em Tomar. Vereações (1815-1820). FONSECA. nas terras de domínio senhorial33..M. Absolutismo e municipalismo. 123. Tomar39. alvarás. Santarém36. Relações de poder. p. Anais do município de Tomar. Lisboa. Administração municipal. Terena. F1 B2. p. Cf. Coimbra38.. incluindo Gouveia35. 34 T. 1993. 2000. 228. pelo Desembargo do Paço. 147-149.. Podia efectuar-se trienalmente. / C.. Câmara Municipal.. as receitas e as despesas do concelho. Vereações (1753-1770). nos séculos XVII e XVIII. acordos. Montemor-o-Novo40.. Anotava o movimento do gado e passava certidão dos requerimentos formulados aos membros da edilidade.... Portimão. Estremoz41 e Évora (a partir de finais de quinhentos)42 era de nomeação vitalícia. I.T. nos municípios directamente dependentes da coroa. pertenceram a três gerações da mesma família..M. Em Évora. Registava os processos 33 Maria Helena da Cruz COELHO e Joaquim Romero de MAGALHÃES. S. termos de obrigação ou de fiança e outros similares.H. respectivamente Teotónio Manuel de Melo e João Joaquim de Melo. Cf.

tinham a possibilidade de requerer ao Desembargo do Paço a nomeação de um escrevente ou ajudante. Absolutismo e municipalismo. 71. de Aldeia Galega (actual Montijo)47.F. compra ou venda de bens do município. FONSECA. p. bem como a correspondência endereçada à municipalidade. T. Com efeito. 229-230. (Ordenações Filipinas). Absolutismo e municipalismo.. e 500-501. tombos. L. Maço 1523. devia ler aos oficiais da edilidade e almotacés os respectivos regimentos. Registavam os actos de arrematação. ordenando a sua afixação em locais próprios. p. competia-lhes ainda a elaboração das actas das reuniões camarárias e de outros actos públicos em que participassem os membros da governança. I.. Redigiam proclamações. R. Redigiam os termos da tomada de posse dos oficiais e funcionários camarários e dos juizes e escrivães. 44 T. do Porto46. Provisões. 45 T.. tanto de vintena como dos ofícios mecânicos. 487-488.. Elaboravam os manifestos do gado. 46 F. e cerimónias festivas ou de quebra dos escudos.D. convocatórias. tanto por particulares como pelas mais diversas instituições.. preços e salários. tanto da cobrança das rendas régias e camarárias. licenças e termos de juramento. Tal privilégio foi atribuído aos escrivães de Évora45. Actualizavam o tombo dos bens concelhios. Procediam a inquéritos para fins diversos. O Porto e o seu termo... como do fornecimento de carne. azeite. Participavam nas correições camarárias. como posturas. Organizavam os processos de aforamento dos baldios.M. CAPELA.... privilégios e outra documentação importante43. vinho e outros produtos ao concelho. redigindo as respectivas actas. p. p. Passavam a escrito todo o tipo de determinações municipais.78 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS de injúrias verbais despachados em câmara. que os auxiliassem nas tarefas não abrangidas por segredo de justiça ou outra matéria sigilosa.. provisão de 7-9-1793. sentenças e alvarás (1793). Elaboravam as escrituras notariais de arrendamento. regimentos e tabelas de taxas. principalmente de natureza económica e militar. T. O Minho e os seus municípios . da SILVA. as suas tarefas ultrapassavam largamente as estabelecidas na lei geral. vol. notificações e editais. .. Na primeira vereação de cada mês. passando as respectivas guias e certidões. de Valença 43 O. E secretariavam as vistorias e outras visitas de inspecção promovidas pelos camaristas44.P. Copiavam ordens. Para cumprir eficazmente tão amplas obrigações. forais. onde se guardavam as escrituras. na prática. como entradas régias ou de prelados. 140. trigo.. V. carne e outros produtos. FONSECA.. / D. alvarás e provisões emanados das instâncias superiores do poder. 1. Passavam aos munícipes as cartas. necessários ao exercício de certas actividades profissionais. pão. 230. Competia-lhe ainda a posse de uma das chaves da arca do concelho. Porém.T. 47 T. avisos. J.

dispensando até a justificação prévia exigi48 Id. as razões mais invocadas nos pedidos de acumulação eram a falta de pessoas capazes. Dos três nomeados para assessorar. Absolutismo e municipalismo. . o escrivão da câmara de Pereira.O FUNCIONALISMO CAMARÁRIO NO ANTIGO REGIME 79 do Minho48 e provavelmente de todos os concelhos onde se justificou a sua existência. provisão de 29-7-1794. além de escrivão do subsídio militar da décima da cidade e do termo escriturava também os reais da água da carne e do peixe53. 13 – 13v. Em 1793. Maço 1523. sentenças e alvarás (1797).M. Maço 1527. provisões de 8-8-1793 e 17-8-1793. F1 B2.M..M. / D.H... vereações de 10-10-1753. o escrivão da câmara era-o também do judicial e notas. entre 1750 e 1820. mas antes em virtude do prestígio do cargo de escrivão. p. obteve provisão régia para juntar aos três ofícios o de recebedor dos direitos reais da mesma vila. Porém. 53 T. o pouco trabalho dos ofícios e o seu baixo rendimento económico. provisão de 29-5-1797. comarca de Coimbra. foi investido no ofício de tabelião do judicial e notas51. 52 Id. / C. onde os cargos eram mais trabalhosos e havia mais gente capaz de os exercer. Provisões. Provisões. T.. Mas as acumulações ocorriam também nos municípios de superior dimensão e categoria. Provisões. Vereações (1753-1770). atribuídas não por qualquer razão prática. f. E o de Évora. A categoria sócio-profissional destes escriturários confirma-nos o prestígio do cargo de escrivão. assim. FONSECA... Em Lamego. dos órfãos e das sisas de Vila Nova da Erra.. Absolutismo e municipalismo.T. O de Alcácer do Sal era igualmente escrivão do celeiro comum52. E no mesmo mês e ano. dois foram procuradores da cidade e o terceiro era tabelião do judicial49.. p.. 4v. O seu congénere de Aldeia Galega. nestes concelhos importantes. Provisões. FONSECA. Eram. Id. (1794). mas até nefastas ao eficaz exercício das funções. No século XVIII. 50 A. do juizo do geral e das armas50. comarca de Santarém.. provisões de 5-7-1794 e de 7-9-1793. as acumulações eram não apenas dispensáveis. f. 51 T. exercia funções idênticas relativamente às sisas e aos direitos reais. sentenças e alvarás (1793).. estes oficiais camarários na capital alentejana. o escrivão da câmara de Lavre servia simultaneamente os ofícios de tabelião de notas e os de escrivão da almotaçaria.. contador e inquiridor dos órfãos.P.. Maço 1523.. 231.L. Os escrivães exerciam frequentemente outros cargos públicos. juntando ainda a estes três cargos o de contador e distribuidor na mesma vila. 230. sentenças e alvarás (1793). já então também escrivão da almotaçaria e distribuidor.N. 49 T. o que levava frequentemente à nomeação dos escriturários acima referidos.. o escrivão da câmara. Nos pequenos concelhos. Maço 1525. e de 12-11-1754.D.

de MENESES. delegava nestes oficiais prerrogativas excepcionais. 159-160. Absolutismo e municipalismo. Vejamos apenas alguns exemplos da influência dos escrivães na vida municipal.M.. enquanto lia as petições dos munícipes. FONSECA.H. I. Maço 574. era. redigiu uma nota no livro da receita e despesa camarária desse ano. 232. Em 1793. vol. pelos magistrados da comarca. quando chegavam de novo a uma terra. / C. 231. na altura procurador do concelho de Évora. E em 1816. Nas reuniões do senado.. p. registado pouco antes no mesmo livro58. Doc. 57 T.. FONSECA. Tal ascendente é. foi preso pelo jovem e recém chegado juiz de fora.. no entanto. na câmara. influenciando antecipadamente as deliberações do corpo camarário. 88. permitindo-lhes assim assegurar o normal funcionamento administrativo sem ter de reunir. baseado num alvará seiscentista considerado. durante longos períodos de tempo. contrária a um provimento do provedor. proporcionava-lhes um perfeito conhecimento dos assuntos municipais. o congénere de Estremoz. 156.F. p. se devia limitar a redigir o que lhe era ordenado pela vereação54. A assistência.) e dispotismo” sobrepunha-se a “todas as Leys e Ordenações”. o escrivão da câmara do Redondo. Elementos de estabilidade.. Por isso.. Francisco José Guedes de Melo. 58 A. mais habituado a mandar que a obedecer. acrescentava a sua opinião.E... quando. se considerarmos que nas sete décadas decorridas entre a entronização de D. Em 1804.. . ajudando provavelmente os próprios juizes de fora. Receita e Despesa (1809-1817). A maioria das edilidades açorianas da mesma época. “quem tudo governa”. eram naturalmente auscultados pelas 54 T. o plenário camarário56. 56 A./D. às vereações e outros actos administrativos. por não cumprir uma ordem sua e lhe responder com arrogância57. A sua “autoridade (. considerava que o então detentor daquele cargo. o lugar foi ocupado apenas por três proprietários pertencentes à mesma família55.E. p. Absolutismo e municipalismo.. tornando-os os principais depositários da memória camarária. em muitos casos durante décadas... 55 T.P. José e a revolução vintista.-A. f. a familiarizarem-se com a realidade local..80 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS da aos pequenos concelhos. o advogado José António Xavier da Silva Sintrão. eram os escrivães quem estabelecia a ligação entre as sucessivas vereações.T. numa evidente manifestação da sobreposição do critério do privilégio sobre o da racionalidade administrativa. já ultrapassado. no entender do procurador. compreensível. A. Os Açores..

“por ser o procurador muito ocupado em andar por fora” . em Viseu67. 66 F.M... p. 64 T. p.O FUNCIONALISMO CAMARÁRIO NO ANTIGO REGIME 81 autoridades locais. Lagos. Calhete. 503. com discrição e alguma eficácia. vol. Horta. Guimarães61. R.. Évoramonte62. No entanto. vereação de 31-12-1769. da SILVA. 503. da SILVA.. Lajes e Santa Cruz. I. 40. p..P. – A. 1. Topo. 46. S. Até ao século XVI. Alverca. Ponta Delgada. 65 Designadamente na Praia. E.. responsáveis. 61 F. 63 Em Lavre. com as do próprio governo camarário. 70.-A. História social da administração do Porto (1700-1750). I.. O Porto e o seu termo. f. ou pelo menos responsáveis pela escrituração camarária. apenas se nomeava um tesoureiro em situações excepcionais. No Porto66. Porto. 62 A. Receita e Despesa (1810-1819). Sebastião. p. R. embora o tradicional sistema tivesse subsistido em diversas localidades. exercidas pelo procurador do concelho. L. cometendo até excessos e arbitrariedades. Universidade dos Açores. 225. Velas. 211. p. O tesoureiro tinha a seu cargo a actividade financeira do município. Albufeira e nas localidades alenteja59 60 O. p. como Gouveia60.. não a podendo dispender em coisa alguma. Doc. Avelino de Freitas de MENESES. em épocas de crise administrativa local e nos períodos conturbados da vida política nacional. Usufruindo de uma situação privilegiada.M. O Porto e o seu termo.H.. a maior parte dos municípios designava já uma pessoa para o desempenho específico do cargo. O Porto e o seu termo.. I.. 1993. Mas na centúria seguinte. Universidade Portucalense.. 146-148. . Também arrecadava a terça régia. T. Maço 831. particularmente em situações de especial complexidade.H. as suas funções eram. vol. confundindo-se.E. ultrapassavam frequentemente as suas competências legais. F1 B2. em última instância. Administração municipal. Ana Sílvia Albuquerque de Oliveira NUNES. O processo de nomeação do tesoureiro variava consoante as terras. a eles devemos uma boa parte do que hoje conhecemos da administração municipal do Antigo Regime. asseguraram. mesmo se para tal recebesse ordens dos ministros da comarca ou dos membros da edilidade “sob pena de a pagarem de suas casas”59. Autores. vol. 67 F. nestes casos.T. como sucedeu em 1769. Os Açores nas encruzilhadas de setecentos (1740-1770) – I – Poderes e instituições. 1999. Albufeira64 e ainda nos Açores65.N. A. evitando situações eventualmente caóticas ou de ruptura. Competia-lhe receber as rendas do concelho e pagar as despesas ordenadas pelos vereadores. Vereações (1753-1770).. / Évoramonte.M. R.. 504. a gestão dos assuntos correntes. Madalena./D..L.F. MOTA. da SILVA. Lavre63. / C. pela administração dos dinheiros públicos. em regra.

O perfil mais comum dos detentores deste cargo durante a Época Moderna havia já sido enunciado em 1501 por D. Absolutismo e municipalismo.. no arrendamento de herdades e mais bens concelhios ou em outros negócios.. no fornecimento de carne e outros bens essenciais. exigia deste oficial abastança suficiente para compensar. O cargo de tesoureiro. na cobrança dos impostos régios. à exploração fundiária e à produção artesanal ou manufactureira. e Escrivão da Camara e Thezoureiro . FONSECA. A precária situação financeira da maioria das câmaras. 32 e 40. Em Évora. Com efeito. Além de conferir prestígio e possibilitar a almejada ascensão social da burguesia endinheirada.. p. p.. os provedores 68 T. Quando arrolados nas pautas. Maço 831.82 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS nas de Portalegre.-A. e para o tal cargo e ofício mais apto”70. 71 T. 235. Doc. no século XVII. denunciava o facto de as contas do município eborense constituírem “segredo. O referido procurador Xavier Sintrão. p. e 394-399. ou simplesmente as expressões “he abonado” ou “bastante abonado”.. extensiva aos próprios vereadores.”72. 70 T. FONSECA..T. . Viana. p. geralmente associado à usura. o provimento efectuou-se tanto trienalmente como vitaliciamente. burgueses enriquecidos pelo comércio. 233.. / D. Absolutismo e municipalismo. De facto eram..P. FONSECA.. verifica-se geralmente uma certa cumplicidade entre estes dois oficiais.) o vereador mais velho. 69 T. cujos lucros compensariam largamente o prejuízo inerente a uma função aparentemente ingrata71. agravada nas últimas décadas do Antigo Regime pela sobrecarga de tarefas e encargos fiscais impostos pelo poder central. o corregedor acrescentava-lhes ao nome o presumível valor do património ou do rendimento. Estremoz e Montemor-o-Novo. vinha anualmente incluído na pauta68. mediante prévia apresentação da câmara. não obstante a responsabilidade que envolvia. pouco apetecido nas pequenas localidades. os défices camarários. Manuel.. nos grandes e médios concelhos. Absolutismo e municipalismo.. Absolutismo e municipalismo.. Como a escrituração da contabilidade camarária constituía matéria da competência do escrivão. passando a partir de então a ser de nomeação régia... que fica só entre (. da sua fazenda. sendo este último regime adoptado definitivamente a partir da centúria seguinte69.. 72 T. rico. era cobiçado nas de maior dimensão. quando referia as características adequadas ao tesoureiro eborense: “um oficial dos que andam nos Mesteres. proporcionava aos seus detentores a preferência na arrematação das rendas camarárias. 231. – A. tanto mais elevados quanto mais importante era o município. FONSECA.. o mesmo sistema vigorou até 1501.. Odemira. 236-238.

salvaguardando naturalmente a diferença institucional dos cargos. da SILVA. 619-622. a retenção. em nome da câmara. p. Como sucedia na generalidade dos ofícios públicos. quando se deslocavam às localidades em serviço de correição.H. do dinheiro dos impostos régios ou das verbas da comparticipação nos ordenados dos funcionários da administração central. anunciando e encaminhando os munícipes que compareciam a prestar juramento perante a vereação ou para apresentar qualquer questão74.. a ocultação de ingressos paralelos. Procedia ao inventário do património municipal.. dos paços do concelho para outros locais onde tivessem lugar cerimónias a que assistisse a vereação.. este oficial subalterno tinha.. Deste modo. O porteiro da câmara exercia funções similares às consignadas nas Ordenações para o guarda-mor da Casa da Suplicação ou da Relação73. um obstáculo relativamente eficaz aos esforços dos magistrados régios. Apregoava. o cargo era vulgarmente transmitido de 73 74 F.. De origem sócio-económica modesta.. a relutância dos dois funcionários em aceitar interferências nos seus tradicionais métodos de trabalho. Armava as igrejas para as cerimónias religiosas da iniciativa da câmara.. do exterior da sala. conjugada e reforçada com o empenhamento dos dirigentes locais na defesa dos seus privilégios. notificações e embargos. Superintendia na arrumação da sala das reuniões e no transporte de cadeiras. II. por ocasião de festas e comemorações.E. constituiu. 619-620. pelo menos. Anunciava. às sessões camarárias.M.E. nos locais públicos habituais. O Porto e o seu termo. do mesmo modo. da SILVA. p. vol. Colocava luminárias nas janelas e varandas dos edifícios municipais. entre as mais vulgares: a utilização de métodos contabilísticos ultrapassados. conferia-lhe algum prestígio. 271-272. Enviava recados a casa dos oficiais camarários. no sentido do cabal cumprimento das determinações do poder central em matéria de finanças locais. A. Efectuava diversas compras por ordem dos camaristas. de saber ler e escrever..O FUNCIONALISMO CAMARÁRIO NO ANTIGO REGIME 83 corresponsabilizavam frequentemente escrivães. Efectuava. O Porto e o seu termo. Absolutismo e municipalismo. / C. R. p. T. total ou parcial. as decisões camarárias cujo conteúdo se entendia necessário divulgar aos munícipes.. Afixava editais. convocatórias. tesoureiros e eleitos locais pelas irregularidades cometidas na gestão financeira dos municípios. vol. R. a imprecisão do registo das receitas e sobretudo das despesas. o pagamento de propinas sem a correspondente provisão régia. associado à importância e visibilidade das suas funções. II.. os diversos concursos e arrematações. F. contando-se. Receita e Despesa (1809-1817). . Preparava a aposentadoria dos ministros da comarca e da provedoria. em muitos concelhos. FONSECA. Assistia. Tal atributo.

porém. Os mais frequentes eram o carcereiro e o alcaide da vara... o Porto.. da SILVA. 623. L. FONSECA. / C. 79 O. das peixeiras e das parteiras.. era atribuído a membros do grupo clientelar das famílias protegidas pelas oligarquias locais. cuja profissão as obrigava a prestar juramento. 78 T. estes dois subalternos colaboraram com o porteiro principal em numerosas actividades: assinavam o termo de juramento das mulheres. em simultâneo. Nas municipalidades de maior relevo. O segundo. E os congéneres das câmaras de Estremoz e Montemor-o-Novo eram auxiliados respectivamente pelo contínuo77 e pelo porteiro do geral78. o porteiro da câmara possuía como coadjuvantes outros funcionários hierarquicamente inferiores. p. no século XVI. Lisboa tinha. contava com sete75. Dada a abrangência do poder camarário.F. 77. assinando o respectivo auto. Competia-lhe zelar pela ordem pública.. T. quase sempre analfabetas. frequentemente designado por alcaide pequeno81 ou simplesmente por alcaide. 82.H. muitos municípios possuíam um ou vários oficiais menores cuja acção incluía as áreas da justiça e do policiamento. das padeiras. O Porto e o seu termo. Absolutismo e municipalismo. Sendo de provimento camarário. ao longo de várias gerações. este cargo era também vitalício e hereditário80.. fica excluído deste trabalho.. como era o caso das medideiras do terreiro do pão.E. Vereações (1815-1820). não devendo. segundo as Ordenações.. e colaboravam em todo o tipo de serviços correntes de apoio à administração municipal. Cf. p.. R...M. já nos finais da Idade Média. 77 A.. II. Entre 1750 e 1820. embora sujeito a confirmação régia. 82 O meirinho. . o responsável pela cadeia. não podendo por isso considerar-se um funcionário municipal. vol. 75 76 F. reduzidos na centúria seguinte a um “contínuo” e a um “porteiro do juízo do geral”76. Relações de poder. devendo no entanto libertá-los imediatamente se tal lhe fosse ordenado79. T. 1. 271-272. Receita e Despesa (1778-1787) e (1809-1817). participavam. exercia funções de policiamento e fiscalização semelhantes às do meirinho82. na arrematação das rendas régias e camarárias. 81 Sobretudo nas terras onde havia um alcaide-mor. o da câmara de Évora. embora nesta cidade o carcereiro dependesse orgânicamente do corregedor da comarca. como funcionário judicial. FONSECA. O primeiro era. p. Não podia soltá-los sem um mandato judicial. em meados do século XVII. como se infere pelo mais baixo montante dos seus ordenados. Em muitas localidades. mais de vinte porteiros.E. ser confundidos com os funcionários judiciais.84 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS pais para filhos. id. era ajudado por cinco “porteiros do geral”. 80 Como por exemplo em Montemor-o-Novo e em Évora. sujeitando-se a pesadas penas se deixasse fugir os presos.

pra- 83 O. L. (1782-87). não apenas o lugar. T. 84 A. . B / 001 / Vereações Lv.L. / C.V. frequentemente vítimas da contestação e até das ameaças dos comerciantes. com ajudantes nomeados pela câmara. prioritariamente.M. Nos municípios com um diminuto número de funcionários.1. tocava o sino de recolher e cuidava das aposentadorias dos ministros da comarca e da provedoria. da SILVA.M.. Receita e Despesa (1809-1817). A patrimonialização dos ofícios da burocracia camarária conferia aos seus detentores um poder e autonomia difíceis de combater. 85 A.H. e em Cabrela acompanhava a vereação nas visitas de correição85. T. exercia ainda outras actividades: no Vimieiro.H. contando.H. F1B2.M.. vulgarmente conhecidos por quadrilheiros... 57 e 76. a partir do pombalismo.M.E. 75. 036. 669-672. na ausência do juiz. No exercício da sua actividade. A. O Porto e o seu termo . estes funcionários procuravam. F. / E / 001 / Lv 023 Receita e Despesa (1811-1825). / C.C..H. vereação de 6-7-1757. A semelhança de funções do alcaide e do carcereiro explica o facto de em Lavre e em Estremoz os dois ofícios se concentrarem na mesma pessoa86. Protegia as autoridades municipais. / C. 038 (1791-1803). p.. Podia prender infractores em flagrante delito e até. e Lv. 46. mas ainda o acesso a outras ocupações públicas remuneradas ou a preferência em lucrativos negócios que envolviam a municipalidade..M. R. a quem deviam. f.. E1 D1 Receita e Despesa (1797-1806). A coroa procurou.N.M.. Relações de poder. Este diploma decretava a abolição da hereditariedade dos cargos públicos. para o efeito.M. / C.. Lv. funcionando como uma espécie de ajudante do porteiro84. favorecendo ainda o enraizamento de práticas anacrónicas incapazes de dar resposta às novas necessidades e exigências crescentes do reformismo estatal.O FUNCIONALISMO CAMARÁRIO NO ANTIGO REGIME 85 tanto de dia como de noite. E montava guarda aos locais mais vulneráveis ao desencadear de conflitos. do aboletamento dos exércitos e da manutenção do relógio. F.E. Vereações (1753-1770). p. Levava ainda presos para localidades vizinhas e quando necessário transportava o dinheiro dos impostos régios cobrados no respectivo concelho para a sede da comarca83.N. . como os açougues da carne e do peixe.A. f. FONSECA. minimizar os obstáculos que a natureza de tais ofícios constituía para o processo de modernização administrativa. (1779-81). a respectiva transmissão familiar e o prestígio social decorrente do seu exercício. 80. 035. através da carta de lei de 23 de Novembro de 1770. servir a elite dirigente local. efectuar outro tipo de prisões. Conduzia os cativos perante o juiz nos dias de julgamento e assegurava a manutenção da ordem no decorrer das audiências. Id. 86 Para Lavre veja-se A. E para Estremoz. especialmente os almotacés..

da idoneidade e adequada preparação do candidato. rotineiro. as demoras na execução de determinações emanadas das instâncias superiores. bastando para a sua concretização a formulação de um requerimento ao Desembargo do Paço. convertendo os municípios em um dos mais influentes focos de resistência à implementação da política de absolutismo esclarecido. responsabilizavam as autoridades camarárias pela sua condescendência para com os abusos e omissões destes funcionários. os conluios com os grandes negociantes e outros poderosos. efectuadas com progressiva regularidade e a partir de 1790 num número sempre crescente de concelhos. Nas correições. No entanto.86 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS ticada desde o reinado de D. Os ministros territoriais tentaram. Tal aliança determinou em boa parte o cariz predominantemente tradicionalista. a acção do poder central e dos seus delegados na periferia arrostou sempre com a cumplicidade entre os agentes do poder camarário e esta sua fiel clientela. Não obstante. acompanhado da atestação. no respeitante ao modo de exercício dos mesmos ofícios. a velha prática subsistiria. entre os quais se destacavam: a falta de rigor e transparência na escrituração camarária. Afonso V e considerada pelos legisladores esclarecidos uma introdução abusiva na lei e costumes nacionais e como tal atentatória da soberania régia. e ao mesmo tempo. por sua vez (embora com variável empenhamento) secundar os esforços do poder central. moroso e iníquo da gestão concelhia do Antigo Regime. e as exacções e arbitrariedades exercidas sobre os munícipes mais vulneráveis. corregedores e provedores ameaçavam directamente os oficiais incumpridores ou no mínimo hostis às intromissões do reformismo estatal na sua actividade. na inventariação do património concelhio ou no lançamento contabilístico. no registo das coimas. os atrasos na cobrança dos foros municipais e na transferência da terça régia e de outras verbas pertencentes à Fazenda Real. pelos órgãos competentes. nomeadamente na redacção das actas. .

As razões são bastante óbvias e prendem-se com a maior escassez da documentação. uma das principais lacunas da história do poder local em geral prende-se com a caracterização sociológica dos diferentes actores. um breve ponto da situação historiográfica relativamente ao estado da situação dos estudos sobre os municípios senhoriais e sobre o grupo nobiliárquico primo-moderno. 2005. patrocínio e conflitualidade Senhorios e municípios (século XVI-1640) MAFALDA SOARES DA CUNHA (Universidade de Évora – Dept. através dos apelidos e de breves apontamentos relativos ao estatuto social em que pontuam os títu1 Cf. Não tornam. Mafalda Soares da Cunha. de desigual interesse1. podendo mesmo afirmar-se que para a primeira fase da época moderna acolheu. Pesem embora estes trabalhos. A sua identificação tem sido feita de forma sumária. “Poderes locais nas áreas senhoriais (séculos XVI-1640)”. ao século XVIII. Requerem. António de Oliveira e António Manuel Hespanha. de há duas ou três décadas a esta parte. Edições Colibri – CIDEHUS-UE. uma investigação mais esforçada. . no entanto. de resto. impõe-se.Relações de poder. pp. sobretudo. de História /CIDEHUS) Temas e lacunas historiográficas Sendo o objectivo do encontro a reflexão alargada sobre os municípios na época moderna e o tema deste texto as relações entre os donatários e os poderes locais. é importante sublinhar que os séculos XVI e XVII têm sido subalternizados em relação. a tarefa impossível. Assim. empenhada em cruzar informação de proveniência institucional variada. bem como a atenção de alguns estudantes de doutoramento e mestrado e de estudiosos locais. Os Municípios no Portugal Moderno: dos forais manuelinos às reformas liberais Lisboa. É de todos conhecido que o tema do poder municipal não é novo. a fim de complementar as falhas das séries disponíveis. em meu entender. 2005 (no prelo). contributos marcantes de historiadores como Joaquim Romero Magalhães. 87-108. Francisco Ribeiro da Silva. que se revestem. antes de mais. Coimbra.

E.88 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS los dos foros da Casa Real ou os graus académicos que auferiram. mais do que aproximações muito vagas relativamente aos níveis de reprodução endogâmica dos grupos familiares dominantes ou à tendência para a monopolização do poder por parte das elites locais. As capitanias do Brasil. seja com a Coroa ou os seus agentes periféricos. ainda mais. laços de parentesco. E. Não possibilitam. por isso. Este tipo de abordagem permitiria também um esclarecimento mais cabal das fissuras e clivagens nos grupos de poder locais. Nela recolhem-se dados importantes relativamente à sua inserção familiar. na generalidade dos casos. desenvolvimento e extinção de um fenómeno atlântico. destacar a quase ausência de trabalhos que evidenciem as especificidades das relações entre os poderes locais e os poderes senhoriais face às terras realengas. em boa medida. repetidas sem suficientes evidências empíricas. influíram nesses processos. por isso. complementar esses indicadores superficiais com incursões micro-analíticas através da reconstituição das trajectórias vitais e das redes de parentela e dependência do conjunto do oficialato local. . O apoio empírico é. no entanto. em muitos casos. neste âmbito seria ainda fundamental compreender de que modo as relações verticais. Proveitoso seria. Não será. Lisboa. excluindo a ampla panóplia do restante funcionalismo municipal. de resto. compadrio e até amizade. frágil. o que permite uma análise apoiada da evolução dos patrimónios. de estranhar que os estudos sobre senhorios ultramarinos sejam também tão escassos. elaborada a partir da documentação dos registos paroquiais e notariais. da falta de estudos sobre senhorios concretos e. Chega mesmo a referir-se a existência de uma reacção senhorial ou até refeudalização para o século XVII. bem como das estratégias desenvolvidas para a ascensão. faltando os enquadramentos gerais que permitiriam avaliar a representatividade dos fenómenos estudados. De fora ficam cronologias mais finas desses processos e até a confirmação dessas interpretações que são. circunscrita aos membros das vereações. mobilidade geográfica e ainda das relações interpessoais desenvolvidas ao longo da vida. de monografias que abordem a questão das práticas políticas dos donatários. consolidação ou renovação. Escuda-se a mais das vezes em um ou outro caso. opções de investimento familiar e económico. então. Estas falhas decorrem. Antecedentes. Diz-se habitualmente que os povos preferiam a tutela régia à tutela senhorial. Neste contexto concreto cumpre. seja com os donatários das terras. fundando essas afirmações na descricionariedade dos abusos dos donatários e dos seus aparelhos administrativos sobre as populações. 2000. não obstante o estudo global elaborado há já alguns anos por António Vasconcelos Saldanha2. CNCDP. E são também estas lacunas que condicionam 2 António Vasconcelos de Saldanha.

6 Nuno G. Guimarães Editores. La Sociedad Española en el Siglo XVII. se incluirmos neste cômputo. 1985 e Idem.).. 1992 (facsímile da ed.6% em 16407. Madrid. Nuno G. assim.. 7 Idem. p. Monteiro (coord. Universidade de Granada. Monteiro demonstrou que em 1527-1532. atitudes e papel político do grupo nobiliárquico em Portugal reduzem-se a uns quantos chavões. Em trabalho já referido. Ediciones Akal. Lisboa. Lisboa. «Os poderes locais no Antigo Regime». com particular destaque para o caso da Monarquia Hispânica5. A amplitude das jurisdições senhoriais Comecemos por este último ponto. in César de Oliveira (dir.6% do total das câmaras do país estavam sob a jurisdição senhorial (leiga e eclesiástica). pp. ibidem. 1973. 4 Nuno Gonçalo Freitas Monteiro. só estes valores (mais de metade dos concelhos) seriam suficientes para conferir primordial importância ao tema que aqui trago e até reflectir sobre a importância que as funções jurisdicionais exerciam no sistema de classificações dentro do grupo nobiliárquico. 49-55. sabe-se que conferiam preeminência 3 José Mattoso. Granada. No que a este último tópico diz respeito. A Casa e o Património da Aristocracia em Portugal (1750-1832). o valor crescerá para cerca de 70%. 17-175. como pelas ideias sobre a centralidade da Monarquia na organização social dos diferentes poderes. A Nobreza Medieval Portuguesa. Ricos-Homens.ª ed. Lisboa. como referentes os já existentes estudos de síntese para a Alta Idade Média3. Idem. La Gestión del Poder. Círculo de Leitores. 1981. 1996. Istmo. portanto. Ou ainda os resultados de abordagens de síntese sobre a evolução do peso das jurisdições senhoriais no conjunto do território português6. Na verdade.RELAÇÕES DE PODER. 5 Antonio Dominguez Ortiz. não só muito fortemente marcados pelos impactos da gesta expansionista. e que esse número crescia ligeiramente para 57. especialmente pp. Um débil aumento. Madrid. Lisboa. 2 vols. As reflexões de natureza geral que se têm proferido tomam. 2. Las Classes Privilegiadas en la España del Antiguo Régimen. de 1963). Todavia. No entanto. Editorial Estampa. . Corona y Economías Aristocráticas en Castilla (Siglos XVI-XVIII). 54. PATROCÍNIO E CONFLITUALIDADE 89 decisamente a possibilidade de elaboração de trabalhos gerais sobre o próprio grupo nobiliárquico. para a fase final do Antigo Regime4 e as considerações gerais sobre outras realidades europeias. Imprensa Nacional. 52. A Família e o Poder. O Crepúsculo dos Grandes. A Nobreza Medieval Portuguesa nos Séculos XI e XII. 1998.). os senhorios das ordens militares que só incompletamente estavam sob dependência da Coroa. História dos Municípios e do Poder Local. Bartolomé Yun Casalilla. as afirmações que se fazem sobre a evolução. 2002. Infanções e Cavaleiros.

Luís Augusto Rebello da Silva. Joel Serrão e A. coord. Já retomaremos a questão. vol. 499. Imprensa Nacional. 319.BL. Ora estes vectores são relevantes do ponto de vista da avaliação da importância de cada um dos senhorios e são decisivos para compreender a importância que o controlo político sobre as terras e as gentes detinha para cada uma das casas. História das Instituições. fls. ao braço da nobreza em cortes.90 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS simbólica e direitos de representação política pela pertença. por inerência. Já o veremos com maior pormenor. quer em termos económicos. d) 1615 . Lisboa. De igual modo. dir. É que as jurisdições senhoriais não eram todas idênticas. de 1967). o mesmo é dizer. . dizer-se que a posse de jurisdições era determinante na definição das hierarquias dentro do grupo nobiliárquico e que. começar a aprofundar-se um pouco mais o nível de análise.BL. Um senhorio disperso tinha custos económicos superiores e propiciava gestões absentistas o que normalmente favorecia níveis de controlo senhoriais menos eficientes. in Portugal do Renascimento à Crise Dinástica. Se as doações genéricas criavam um ambiente comum. Épocas Medieval e Moderna. p. 273-276. Lisboa. a contiguidade ou dispersão geográfica do senhorio pode ser significativa relativamente à eficácia da administração senhorial. De Oliveira Marques. 247v-249. relativamente à composição desses rendimentos. Deve. tenças e assentamentos doados pela Monarquia ou às diversas formas de exploração dos bens patrimoniais. O princípio a que 8 António M. à percentagem que cabia à extracção fiscal decorrente dos direitos senhoriais sobre bens da Coroa. No que toca às jurisdições pode. “A Estrutura Social e o seu Devir”. porém. João José Alves Dias. Additionals. H. as competências formais dos senhores sobre as terras e populações podiam ser extraordinariamente ampliadas pelas doações expressas. vol. pelo que temos apenas uma ideia muito imprecisa sobre a configuração geográfica de cada um dos senhorios e a sua importância relativa. c) 1587 . nestas épocas. Mas significavam também um conjunto de funções políticas. Coimbra. pp. Existem listas coevas – muitas delas datadas do período da Monarquia Dual – que apontam valores globais dos rendimentos das casas9.026. Nova História de Portugal. militares e capacidade fiscal sobre o território cujos contornos estão expressos nas Ordenações e foram já analisados por Hespanha8 e pelo próprio Nuno Monteiro. a partir do tipo de direitos e privilégios transferidos pela Coroa. entretanto. 48. 1982. 503-504. 9 Alguns exemplos: a) 1520 in João Cordeiro Pereira. Não se conhece. quer demográficos.026. III. V. todavia. Não nos elucidam. 48. às mercês. 497. 1867 (reimp. Hespanha. 1998. b) 1577 . a distribuição das jurisdições pelos seus membros. o cume da pirâmide só incluía donatários. Editorial Presença. Additionals. História de Portugal nos Séculos XVII e XVIII. todavia. Livraria Almedina. fls.

Não creio. A preocupação régia era. concedidos ás tais pessoas. excepto “que fique reservada ao Rey a mais alta superioridade e Real Senhorio”. PATROCÍNIO E CONFLITUALIDADE 91 estas obedeciam está globalmente exposto no preâmbulo do tit. de aferir a validade dos direitos extraordinários em uso. costumaram os Reys pôr mais exuberantes clausulas. O tipo de privilégios jurisdicionais a que me refiro pode ser melhor explicitado a partir do caso brigantino. Relativamente a este ponto concreto haveria que apurar alguns dados que permitissem uma base de sustentação mais informada para algumas imagens historiográficas que se estabeleceram e para as quais seria importante estabelecer uma cronologia mais fina do peso do senhorialismo. 10 António M. que esgotem o universo dos principais beneficiados e este era um outro tópico que carecia melhor averiguação. explicitando que as doações expressas perdiam validade quando não eram confirmadas e renovadas pelos sucessivos reis e que essas cláusulas perdiam validade quando a terra era doada de novo. Eram. Pode mesmo dizer-se que correspondia praticamente ao caso de transferência total de jurisdição a que as Ordenações aludem. pode afirmar-se de forma esquemática que tinha a ver com a combinação das qualidades de sangue e o capital de serviços prestados. níveis bastante diferenciados de poder dos senhores sobre as terras. XLV das Ordenações Filipinas. as de Bragança e de Aveiro e as freiras de Arouca10. O quadro anexo demonstra que a casa de Bragança usufruía de um conjunto muito amplo de privilégios. pois. Refere Hespanha que aqueles que tinham jurisdições exuberantes eram o arcebispo de Braga. Hespanha. assi nas doações e privilegios. Dizia-se “Como entre as pessoas de grande stado e dignidade e as outras. já que as Ordenações Filipinas acautelavam bastante este ponto. com evidentes implicações nos níveis de autonomia dos concelhos. desde logo. he razão que se faça differença. o que pode. sempre que possível. que lhes tinham”. impondo. Ora esta disparidade de funções jurisdicionais criava. História das instituições…. 296-7 . Chega depois a afirmar-se que nos casos das doações às rainhas. e de maiores prerrogativas. Esta questão é importante porque explica a própria manutenção destes privilégios excepcionais. as casas da Rainha. Ou seja. limites ao seu usufruto. em grande medida. o resultado de uma acumulação secular. todavia. fazer-se através da análise das cartas de doação contidas nas chancelarias régias. de resto. não imputável especificamente a um ou outro soberano ou a um ou outro duque. p.RELAÇÕES DE PODER. aos infantes e a alguns senhores de terras a Coroa “não reservara para si parte alguma da dita jurisdição”. para se mostrar a maior affeição e amor.

História das instituições…. Chancellaria alguma das cartas e sentenças.)»a) Dízima novas do pescado não costumam ser doadas4 Não podiam ser doadas13 11 Ordenações Filipinas. de 30/03/1566). Miranda. citado no quadro como a) António M.) que não ponham em suas terras.. marquês de Castelo Rodrigo e duques de Aveiro.r. escriuaes das camara e Porteiros dellas e assj os que ouuerem de seruir ante os juizes de fora como ordinarios con declaração que os nam podera prouer sendo os ditos offiçios da apresentação e prouimento das camaras» (alvará de 02/10/1617) «Que possa em suas terras jsentar dos encargos dos conçelhos as pessoas que lhe parecer e isto per mandado e nam por priuillegio» (alvará de 02/10/1617) «Que faça escudeiros as pessoas que lhe parecer sendo Vassalos seus das suas terras posto que autoalmente não estejão no seruiço de sua casa» (alvará de 02/10/1617) Juizes de fora em: Bragança. 13 António M. 285) Tabeliães – por norma são providos por carta régia e depois de examinados pelo Desembargo Paçoa)12 «(. Monsaraz (c. nem em algua dellas. p. que passarem» a) «E não se chamarão Senhores das terras. Calheta... Linhares. Unhão.92 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Alguns privilégios jurisdicionais extraordinários da Casa de Bragança Duques de Bragança «Possa ter chancellaria de sua Casa e de suas terras. Vale de Reis.) [não] dará Cartas de Scudeiro a outras algumas pessoas. Portel (c.. Castelo Melhor.)»a) «(.r. 294 12 . Castanheira. João. p. Vila Viçosa (c.)»a) «(.. Samora Correia. Borba e Alter do Chão (c..r. de 09/04/1551)..) de 15/05/1549). Alhos Vedros.r..r. de 19/06/1608). de 21/05/1579) Dízimas novas do pescado de: Vila Franca. Azambuja..) não levarão . taballiães. de 01/10/1544) Ordenações Filipinas11 «(. 302 refere que este privilégio no séc. Hespanha. Torres Novas e Vila Hermosa.. Meirinho (. Vila do Conde (c.r. Povos.r. Montalegre (c. Arraiolos..r. Benavente. salvo. Chaves e Barcelos (carta régia (c. 06/03/1567). XLV.r..) que não dêem Cartas nem Alvarás de privilegios à pessoas algumas... e verdadeiramente tiverem por scudeiros. Hespanha.. Lavradio e Barreiro (c. História das instituições…. aqueles. trazendoos a cavallo em sua casa» a) «(. e leuar os direitos della» (alvará de 02/10/1617) «Os offiçiaes das mesmas terras se chamem por elle na forma da lej noua» (alvará de 02/10/1617) Que seus ouuidores passem cartas de seguro (alvará de 02/10/1617) «Possa prouer os offiçios de escriuães dos orfãos. Faro. nem os Juizes e Tabelliães se chamarão por elles» a) Prerrogativa régia (Hespanha. de 12/02/1530) Cobrar e despender as terças dos concelhos em todas as suas terras (c. Alcochete. de confirmação de 28/09/1627) Poder para por meirinho: Portel (c. que criarem. XVII era detido pelos condes de S... Livro II. de 24/06/1549).) defendemos a todos os Senhores de terras que não ponham nellas Juizes de fora e deixem os concelhos usar de suas eleições (.r. Tit. Monforte (c.r. de 03/01/1567).. per que os hajam por privilegiados e escussos dos encarregos e servidões dos Concelhos (.

O que concorda com o já aludido aumento da área de jurisdicionalismo senhorial no Reino e também com outra imagem fixada pela historiografia que é a da proliferação de mercês régias como meio de persuasão do grupo nobiliárquico. Jorge e este dos concedidos ao 1. 388. 16 Biblioteca da Ajuda (BA). Madrid. Portugal en la Monarquia Hispanica (1580-1640). fl. Dessa forma. p. Quanto à hipótese são conhecidas as assunções de que o período da Monarquia Dual teria compensado a nobreza portuguesa do afastamento da corte com o reforço do seu poder a nível local14. . Filipe II. Iniciativas Editoriais. pp.º duque. apoiada num caso. publicados em Collecção Chronologica da Legislação Portuguesa …. 2 de Outubro de 1617 (que abaixo se extracta) e que põem fim às demandas entre a Casa de Bragança e o Procurador da Coroa.ª ed. Joel Serrão. «Nobreza na Época Moderna». D. O caso concreto refere-se à Casa de Aveiro que desde a década de 1580 viu uma série de alegados privilégios anteriores serem postos em dúvida pelos tribunais régios. que permitiriam avaliar a consistência de tais ideias e os ritmos evolutivos. Lisboa. De qualquer modo e dada a importância do caso. tendendo a restringir os privilégios em uso pelos donatários. 1987. parecia que não havia dúvida que o duque D. Universidad Complutense. pp. João. 1975. D. vol. D. Desta feita. sempre que as provas apresentadas eram duvidosas e até a promulgar legislação geral mais restritiva. e que por eles se demonstrava poder o duque usar dos privilégios e doações concedidas ao 2. mas se iniciara muito antes. 44-XIV-4. in Dicionário de História de Portugal. 15 Podem citar-se a este propósito a carta régia de 18 de Novembro de 1615 e o alvará de Lisboa. O pleito que ainda corria em 1621. dir. IV. havendo outros dados que sugerem que a Coroa levou a cabo uma política de fiscalização estreita.º duque de Aveiro. em 1580. PATROCÍNIO E CONFLITUALIDADE 93 Exponho uma hipótese. revelador do signifi14 Jorge Borges de Macedo. 183 e 258-259. Em 1 de Setembro de 1590 dizia-se que se viram as doações e privilégios que tinha e usava o 3. vol. Sabe-se que a Casa de Bragança manteve o essencial dos seus direitos. Las Cortes de Tomar y la Genesis del Portugal Católico. Álvaro. Esta tese foi acolhida por Fernando Bouza Álvarez. mas só após bem sucedidas demandas com a Coroa15.RELAÇÕES DE PODER. 59v. 481-522. Álvaro podia gozar do privilégio que se questionava e que era o de deverem ir as apelações dos seus almoxarifados ao oficial da sua Casa que fosse juiz da sua fazenda e depois disso voltar à casa do Porto ou ir à Casa da Suplicação. 2. bem como a consulta de 1589 são outros exemplos do afã de controlo que a monarquia dos Habsburgo desenvolveu.º duque. Todavia não se estudaram as posteriores práticas dos Habsburgo relativamente a esta matéria. mandava-se que se revissem os papeis16. I.

taballiães. e por lhe fazer merçe ej por bem que elle possa ter chancellaria de sua Casa e de suas terras. o monarca ter mandado proibir que os donatários as provessem. Com efeito. 30 de Novembro de 1616 transcrita em Claude Gaillard. em finais da década de 1580. Université de Langues et Lettres de Grenoble. dado as Ordenações haverem sido impressas 70 anos antes. e leuar os direitos della e que os offiçiaes das mesmas terras se chamem por elle na forma da lej noua e que seus ouuidores passem cartas de seguro nos casos em que os corregedores das comarcas as podem passar na forma da ordenação e que possa prouer os offiçios de escriuães dos orfãos. o duque de Aveiro mantinha há algum tempo um contencioso com a Coroa sobre a extensão dos direitos nas suas terras. Le Portugal sous Philippe III d’Espagne. 113-115. 395-396. depois dessa proibição. Ora. O duque entendia que ele não se devia incluir nessa determinação “por razão da dita posse em que estaua”. o rei tinha concedido ao duque de Bragança.94 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS cado político da dada de ofícios e que creio que tem uma incidência que transcende a casa ducal de Aveiro17. 44-XIV-4. fls. L’action de Diego de Silva y Mendoza. baseando-se na ausência de títulos e no facto de. adiantava o Aveiro. E entre essas provas estava o traslado da carta régia de 2 de Outubro de 1617 em que se concediam amplos poderes ao duque de Bragança que se extracta “avendo respeito a mo pedir por sua carta o duque de Bragança meu muito amado e prezado primo e a seus serviços e muitos merecimentos de sua casa. não haver lugar a alegar “posse imemorial” como o arcebispo fizera. Grenoble. pp. e que proueja nas mesmas suas terras os offi17 Um outro exemplo de fiscalização da extensão das jurisdições surpreende-se na consulta do Desembargo do Paço sobre a correição feita na vila de Alhandra para verificar o direito da jurisdição e dada de ofícios do arcebispo de Lisboa. BA. Na primeira situação18 estava em causa o facto de embora estando em posse do direito de prover as serventias de todos os ofícios de suas terras por si e pelos duques seus antecessores (ao abrigo das suas doações como constava da sentença). Egerton. 18 British Library (BL). 1136. Mas essa alegação foi indeferida. escriuaes das camara e Porteiros dellas e assj os que ouuerem de seruir ante os juizes de fora como ordinarios con declaração que os nam podera prouer sendo os ditos offiçios da apresentação e prouimento das camaras. Não conseguindo este apresentar documentos comprovativos desses direitos. 19 A afirmação era verdadeira como se comprova pelo conteúdo da carta régia de doação da jurisdição de Alenquer de Madrid. e que possa em suas terras jsentar dos encargos dos conçelhos as pessoas que lhe parecer e isto per mandado e nam por priuillegio. . ao marquês de Castelo Rodrigo e ao conde de Lumiares (filho deste) poder para prover serventes dos ofícios de justiça das suas terras. como constava dos traslados e alvarás que anexava ao processo. rei decidiu contra ele. ao marquês de Alenquer19. 1982.

Egerton. fls. mas importante pelo teor contraditório das alegações dos juristas do Desembargo do Paço chamados a depor. por isso. PATROCÍNIO E CONFLITUALIDADE 95 çios de Procuradores do numero em pessoas aptas e sufficientes não excedendo nisto o numero que delles costuma aver Os quaes serão primeiro abellitados per mjm ou pello meu desembargo do paço. o rei mandou que se vissem as cláusulas das doações do duque para certificar se ele detinha poderes para prover por renúncia. pp. como se fosse por morte. A descrição do episódio é longa. O segundo caso dizia respeito ao provimento de ofícios por renúncia do anterior titular. 20 Alvará de Lisboa. Visto na Mesa do Desembargo. fontes. pareceu que o duque donatário podia apresentar os ofícios de tabeliães que estivessem vagos tanto por morte. porém. privilégio idêntico ao dos citados senhores. 1136. 8-8v. BL. estradas publicas e outras desta callidade // e que proueja as seruentias dos offiçios de justiça das suas terras assj e da maneira que seus antepassados o fizeram e que faça escudeiros as pessoas que lhe parecer sendo Vassalos seus das suas terras posto que autoalmente não estejão no seruiço de sua casa. este lhe aceitasse tal renúncia e houvesse então o rei o tal ofício por vago. Nesta última hipótese. três desembargadores sustentaram que não. e assj ey por bem que conforme a isto cesse a demanda que o Procurador de minha Coroa tem movido ao Duque o que tudo assj me praz sem embargo de quaesquer leis e ordenações que em contrario aya e mando as justiças offiçiaes e pessoas a que o isto pertençer cumprão…”20. mas tal não ocorria no caso em apreço. . e que das duas partes dos Rendimentos dos conçelhos das suas terras possa mandar despender o que lhe parecer nas obras do bem publico dellas com declaração que as obras serão somente pontes. O duque objectou. Antes de proceder à emissão da provisão. o duque poderia apresentar o dito ofício. 2 de Outubro de 1617. calçadas. “alegando muitas coisas e razões. 258-259. por isso. após a renúncia que um outro oficial fizera nas mãos do duque. por onde diz que pode prover por renunciação.RELAÇÕES DE PODER. Dizia respeito a um caso concreto e fora suscitado pelo pedido de confirmação régia do cargo de tabelião do público e judicial da cidade de Coimbra outorgado pelo duque de Aveiro. Requeria. A outro desembargador. Como já se referiu José Justino de Andrade e Silva transcreve-o na íntegra em Collecção…. bem como o traslado da sentença da Relação de 15 de Fevereiro de 1603 em como se tinha achado por bem provida a serventia que o duque de Aveiro fizera de um ofício por estar em posse por si e por seus antepassados. porque pelas doações parecia que não o podia fazer. mandou-se. para análise pelo Procurador da Coroa que foi de parecer que não podia. excepto quando os ofícios vagassem por morte. ou que renunciando o proprietário nas mãos do rei. Ora o caso oferecia dúvidas. e que neste costume e posse estavam os Duques seus antecessores”.

As Ordenações fixaram este direito real e tinha valia mesmo nas donatarias ultramarinas. trabalhosa. também. 1487. Por carta régia de Novembro de 1603. embora seja.º28). 189-191. Parece assim que a análise na longa duração é indispensável. 23 António Vasconcelos de Saldanha. nem parecia que o contrário disto foi julgado na Relação porque se fez muita diligência sem se achar feito em que houvesse sentença em contra disto. Tal avaliação poderia sugerir uma tentativa de limitar o tipo de territorialização do poder nobiliárquico. pois já o donatário não faz mais que apresentar no ofício que Sua Magestade há por bem que vague com efeito por renuncia do proprietário. 41-42v apud Boletim da Filmoteca Ultramarina. 19. porque isso parecia conceder-se na doação antiga que se oferecia interpretada e declarada pelo costume que se usou sempre nas ditas apresentações como constava das certidões que se ofereceram e. fl. como aquela a que 21 22 BA. porque em negócios de tanta importância. E no que referia aos benefícios.96 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS como por renúncia. Secretarias Provinciales. Outra questão onde a disciplina régia se fazia sentir com acuidade era a da criação de novos ofícios. Como disse antes. 44-XIV-4 (n. Archivo General de Simancas (AGS). quem tinha poder para apresentar ou colar os vagos o fazia quer fossem vagos por morte ou por renúncia. onde o constante esforço de ocupação e desenvolvimento das terras o justificaria com maior pertinência23. cód. não é de crer que os desembargadores do paço antigos dessem aos reis passados seu parecer sem muita consideração. antes se afirma por oficiais do juízo dos feitos da coroa que num feito que trouxe Francisco de Sampaio com o Procurador da Coroa se julgou que podia o donatário apresentar o ofício vago quer fosse por morte quer por renúncia. Pese embora esta longa alegação o caso foi indeferido pelo monarca que aceitou o parecer maioritário do Desembargo do Paço21. fls. nem parece em contra isto dizer-se as ditas certidões seriam acaso passadas. . E acrescentava: “e que os inconvenientes que se apontam que intervêm na apresentação do dito ofício vago por renúncia se são todos se mostrar licença de Sua Magestade para se fazer tal renúncia. ordenava-se que fossem extintos os ofícios que o duque de Aveiro criara de novo em suas terras e dera de serventia a várias pessoas22. As capitanias do Brasil…. porque em direito se igualava o poder de apresentar benefícios ao que se tinha no apresentar ofícios. exigiria a análise dos privilégios e clausulado das novas doações e das confirmações régias feitas aos senhores de terras. claro está. precedendo para ela licença de Sua Magestade”. pp.

mediada por agentes administrativos próprios. Utilizavam a mesma matriz formal. Muitos dos privilégios recebidos diziam justamente respeito à gestão dos espaços senhoriais. Paternalismo e conflitualidade O segundo ponto. mas dispersa área territorial. De tudo um pouco. A sua gestão era. mas com base territorial mais diminuta e menos poderes sobre as mesmas. Que não governavam presencialmente. 24 David García Hernán. confrarias e conventos. É verdade que a Casa ducal de Bragança detinha privilégios que lhe asseguravam a nomeação directa não apenas dos ofícios locais como também de ofícios de justiça e fazenda destinados a intermediar os assuntos das terras com o centro do senhorio. PATROCÍNIO E CONFLITUALIDADE 97 aludi relativamente à casa de Aveiro. de trocas e de negociação dos diferentes interesses em presença. Administração senhorial. e ao qual já fizemos uma breve referência. na concessão de tenças. ocorria nos demais reinos peninsulares24.RELAÇÕES DE PODER. 1999. No caso dos duques de Bragança sabemo-los sediados em Vila Viçosa. Igualmente relevante neste ponto seria apurar a tendência para a maior ou menor dispersão na titularidade de senhorios. a deslocações. na dada de ofícios locais. de resto. tal como. . a compra de bens. a partir de onde controlavam uma extensa. Universidad de Granada / Ayuntamiento de San Fernando / Ayuntamiento de Marchena. Os diferentes tipos de mercês dispensados pela casa foram estratégicos nesse processo. com lógicas bastante similares. no patrocínio às misericórdias. de benefícios eclesiásticos. E é quase certo que exemplos similares se podem estender a outras casas senhoriais. Esses elementos agilizaram a comunicação entre o paço e as terras e ajudaram a amortizar tensões com a sede do senhorio. de dotes. de esmolas. La Casa de Arcos. nos apoios financeiros ao estudo. Aristocracia y señorío en la España de Filipe II. É o que se verificava na confirmação das câmaras. Ou seja. refere-se à importância da governação presencial para promover o maior controlo político sobre as terras. Granada. Exercitava-se a liberalidade para harmonizar relações interpessoais através de jogos de compensações. num organigrama que não se distinguia particularmente do da Coroa. tanto no que respeita à nomeação de pessoas. num modelo semelhante ao da administração régia. mais senhores de terras. por isso. quanto à aplicação da justiça e à capacidade tributária. também há que destacar que a estratégia de integração de membros de parentelas de elites locais na corte ducal em foros de moradores foi a este título absolutamente decisiva. Se esse fenómeno lhe assegurava os recursos humanos necessários para o exercício do poder.

. por ocasião dos levantamentos anti-fiscais. Jorge. para mobilizar os seus parentes a fim de apaziguar os tumultos «cada dia me disem que ha nessa Vila motins ou esperanças de os aver e que o pouo trata de soltar presos e queimar cartorios liuros e papeis da Camara naõ sendo cousa de que elles possaõ alcanssar bem nenhum particular nem o pouo utilidade algua e por me paresser que so vos com vossos parentes podereis ser o meo para isso se aquietar vos quis escreuer esta. verificamos como no século XVI podia ser a própria Coroa a reforçar a influência política das casas nos respectivos senhorios. Jorge. sep. Manuel demonstra que os ofícios das terras do marquês de Vila Real que eram da dada régia foram providos em criados do 25 José Mendes da Cunha Saraiva. dos marqueses de Vila Real ou mesmo do infante D. E que se assemelha à figura dos juízes de fora. depois duques de Aveiro. Publicações do Arquivo Histórico do Ministério das Finanças. João IV) para sossegar os motins no Alentejo. 1942. Palmela. Mas outra situação possível. . correndo embora o risco de produzir relações mais tensas nas terras. Podem ser adiantados exemplos para o século XVI para as casas de D. O governo de D. mas talvez ainda mais interessante.»25. Lisboa.98 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Será. GEsOS / Câmara Municipal de Palmela.16. Em carta enviada para Sousel em Setembro de 1637. diga-se. Com esta outra estratégia procurava-se garantir uma gestão dos recursos locais favorável ao donatário porque isenta das solidariedades de raiz local. em que Cristina Pimenta revela como os ofícios locais das terras das ordens de Santiago e de Avis eram muito frequentemente atribuídos a criadagem da sua casa senhorial ou a cavaleiros das ordens. 26 Maria Cristina Gomes Pimenta. Luís. aquietar más vontades. um pouco na linha do trabalho sobre o governo de D. Um exemplo expressivo é o do meio utilizado pelo duque D. era a de a dada de ofícios ser utilizada pelos senhores para recompensar serviços prestados à casa senhorial. Gonçalo Soeiro de Azevedo. por isso mesmo. Numa abordagem um pouco distinta. As Ordens de Avis e de Santiago na Baixa Idade Média. Cartas do Duque de Bragança a Gonçalo Soeiro de Azevedo (1632-1640). sem cuidar da sua naturalidade ou local de residência26. Neste último caso privilegiavam-se factores propiciadores do exercício da autoridade. pois a análise da chancelaria de D. e contraditória com o exemplo acima exposto. 2002. p. João II (futuro D. junto das populações. natural esperar que os agentes senhoriais e o funcionalismo local de nomeação dos donatários tivessem maior capacidade negocial para.. o duque pedia a intervenção do seu procurador do concelho. sem atender à naturalidade das pessoas em causa. Jorge. comportamentos indisciplinados ou contrários aos interesses da casa.

a correspondência que as terras mantinham com os donatários é indiciadora de fluxos regulares de informação. Para a Casa de Bragança conhecem-se numerosas situações28 que denotam o elevado nível de conhecimento que os duques tinham das suas terras. A Casa e Ducado de Aveiro. Sua origem. Egerton. Seria então importante conhecer qual destes comportamentos era dominante nas relações entre as casas e os respectivos senhorios e avaliar depois se haveria modelos senhoriais mais e menos paternalista a fim de medir o impacto dessas diferentes atitudes na conflitualidade com as terras e os vassalos. fl. 1973. pp. a proximidade do arcebispo de Braga relativamente aos assuntos desse município31 são exemplos possíveis. evolução e extinção. 31v.º duque de Caminha não hesitava em afirmar que “todos los caballeros y personas principales de la ciudad de Leyria [era o seu local de residência. Câmara Municipal. PATROCÍNIO E CONFLITUALIDADE 99 marquesado numerosas vezes. Câmara Municipal. 1560-1640. fosse para pedir instruções. Em todo o caso. 1979 e Acordos e vereações da Câmara de Braga nos dois últimos anos do Senhorio de D. um século mais tarde (1622). Práticas senhoriais e redes clientelares. Duarte para a câmara de Vila do Conde. Lisboa. neste caso associado às sociabilidades locais. 243-245. Vejam-se 27 28 BL. confirmar negócios. Mas a existência de canais de comunicação eficazes ocorria igualmente em outros senhorios. quando constasse ao duque que as pessoas de Vila Viçosa conversavam e se comunicavam como amigos. 43. Frei Bartolomeu dos Mártires. 1136. ms. 29 Arquivo da Casa de Bragança (ACB). Mafalda Soares da Cunha. y todos quedan para seruiço de la duqueza”27. Talvez por isso. 17. Braga. 31 Acordos e vreações da Câmara de Braga no Senhorio de D. Braga. A Casa de Bragança. não obstante terem cartas de inimizade uns com os outros29. fl. Frei Bartolomeu dos Mártires:1580-1582. ms. fossem impedidas de servir juntas nos ofícios e cargos dos concelhos quando fossem eleitos. Aveiro. está de resto evidenciado na necessidade de obter em 1627 a confirmação régia do privilégio para que.RELAÇÕES DE PODER. acatar ordens. Estampa. 30 Francisco Ferreira Neves. 1566 (VIII)-1567. 2000. mas sobre a qual não tinha jurisdição] son criados y paniguados suios. dos duques de Aveiro para a de Aveiro30. por ocasião de uma das suas partidas para o governo de Ceuta. 1972. Muitos outros existiriam seguramente e revelam de forma muito clara o elevado nível de controlo político dos senhores sobre os assuntos locais e também a importância da intermediação senhorial na obtenção de privilégios ou na solução de questões com a Coroa. As cartas do infante D. o 1. . Um bom exemplo disso.

n. “quanto ao que me dizeis (…). Idem. Monteiro há alguns anos34 e no já citado trabalho meu sobre a casa de Bragança35. «El Señor Avisado: Programas Paternalistas y Control Social en la Castilla del Siglo XVII». Estas práticas paternalistas. . reiterando as constatações feitas por Nuno G. Relaciones de Poder. todavia. A prová-lo estão as numerosas sentenças e despachos régios com fundamentação clara que deram razão aos senhores. sentenciando depois em conformidade. “Poderes locais nas áreas senhoriais…” (no prelo). Imprensa de Ciências Sociais. pp. 411-458. ou para fazer mercê a este ou aquele senhor. destinado a avaliar a pertinência e validade jurídica dos argumentos em confronto. «Pater Familias. A Casa e Ducado de Aveiro…. teoricamente imparcial. 1990. Veja-se um caso claramente difícil que opunha 32 33 Francisco Ferreira Neves. Julgo. Monteiro. vereadores e procurador do concelho da sua vila de Aveiro. importante sublinhar que o que se verificava em muitos destes casos era a reacção dos povos contra direitos efectivos dos donatários e não abusos na sua cobrança por parte destes. afastado de vez que estava o uso medieval da coação física36. «Lavradores.º 9. 30.). p. e usando as palavras do próprio duque de Aveiro na carta que em 1572 dirigiu ao juiz.100 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS as numerosas cartas de privilégio a terras de senhores contidas nas chancelarias onde se faz expressa menção que a mercê foi concedida pela intercessão. 2003. Introduzia-se assim um mediador. 34 Nuno G. Diga-se a este propósito. Lisboa. Clientelismo y Patronazgo en el Antiguo Régimen» in Reyna Pastor (comp. F. CSIC. 35 Mafalda Soares da Cunha. que muitos autores espanhóis também constataram existir nos reinos vizinhos33. David García Hernán. A Casa de Bragança… 36 Mafalda Soares da Cunha. Ignacio Atienza Hernández. amorteciam muitas vezes os descontentamentos. Madrid. mas porque todas estas cousas Requerem algum vagar quis fazer esta [carta] por que saibais que me he dado vosa carta E que trabalharei por fazer o que me pedis”32. Ou ainda. mas deve assinalar-se que tinham menos eficácia quando o mal-estar era provocado pelo rigor na cobrança dos direitos senhoriais. Aristocracia y señorío en la España de Filipe II…. frades e forais: Revolução Liberal e regime senhorial na comarca de Alcobaça (1820-1824)» in Elites e Poder Entre o Antigo Regime e o Liberalismo. de Producción y Parentesco en la Edad Media y Moderna. Manuscrits. pp. 155-204. Señor y Patrón: Oeconómica. 215-299 (primeiro editado em 1985 e 1986). eu falarei logo niso a elRey meu senhor (…). que os maiores focos de conflitualidade entre os donatários e as populações se reportavam às relações económicas. pp. O que é interessante constatar é o quase sistemático recurso aos tribunais para resolução dos diferendos inconciliáveis por vias informais.

e Posto que fora valido. PATROCÍNIO E CONFLITUALIDADE 101 o duque de Aveiro à cidade de Coimbra sobre a arrecadação das jugadas. porém. Tal ocorreria. ou embargo a não pagar podera otrosj requerer sua justiça como lhe pareser e quanto a confirmação que a cidade Pede do concerto e contrato que fez com o governador do Duque de aveiro por o Duque aggora não consente antes antes o contradiz pareçe se lhe não deue confirmar espeçialmente pello dito contrato ser nullo sendo feito sem liceça e authoridade de Sua Magestade. e se lhe dá muito mais do que nunca rendeo e parese que o Duque deue ser pago conforme ao dito contrato”. avaliações mais precisas do impacto dos diversos tipos de direitos senhoriais no desenvolvimento agrário e na paz social. ou seja. de abusos que se pudessem imputar aos donatários ou mesmo ao rei. trabalhos com quadros geográficos alargados à escala do reino e que permitam. colocava-se a questão de o confirmar ou não. portanto. fls. 187v-188. 44-XIV-4. Não se tratavam. Talvez também porque havia regiões onde os direitos que estavam estipulados eram de facto pesados. 37 BA. em grande quietação da dita cidade e Pouo della”. Os pareceres dos desembargadores do Paço dividiram-se: a) dois achavam que o rei devia confirmar “por ser em euidente proueito dos Bens da Coroa. mas que não estava confirmado pelo rei. sobretudo em épocas de maiores dificuldades económicas. O que talvez este tipo de comportamento indicie é atitudes de maior rigor na gestão dos direitos senhoriais que pesavam. talvez reorientar. Ora. a questão colocada nestes termos pode. O que nesse caso configurava um sistema opressivo. que admito carecerem de estudos globais. quarto ou até oitavo da produção que eram cobrados nalgumas áreas). dando azo a oposições e conflitos. Em 20 de Julho de 1591. b) outros dois alegavam desfavoravelmente. e com mais clamor do Pouo. enquanto não há confirmação de sua Magestade se pode o Duque apartar delle”37. e que com isso auer effeito fica ao donatario aquella renda de melhor condição que todas as de seu estado. ou mesmo muito pesados para os povos (penso no terço. pois “não he justo impedir sse ao Duque a arrecadação dos dereitos de jugadas que lhe são deuidos e que assim os deue Pedir e arrecadar ordinariamente e se a Cidade tiuer algua duuida. O demorado diferendo sobre a matéria fora resolvido entre as partes por um contrato perpétuo.RELAÇÕES DE PODER. sendo atée aggora a que pior se arrecadaua. . então. mais aos povos. até porque o duque mudara de ideias. tanto mais que ambas as partes o requeriam “e se auerem com isso de escusar as grandes oppresões e molestias que o Pouo de aquella cidade padecia nas execuções que se fazião pellos rendeiros das ditas jugadas com grande desordem e violensia. a análise mais aprofundada destes tópicos.

50-90 que correu pelo menos entre a década de 1590 e a de 1620. João no período filipino» in Estudos e Ensaios em homenagem a Vitorino Magalhães Godinho. o rei decide que a provisão era antiga e já desadequada. podem colaborar na ocultação dos conflitos.102 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS É. Livraria Sá da Costa Editora. BL. entre os senhores e os procuradores da Coroa. no entanto. Um primeiro está associado ao preço da justiça. Já o disse em anterior trabalho e creio dever reiterá-lo. embora de natureza distinta. 1988. quer pela capacidade de dissuasão de testemunhas menos favoráveis. fls. fls. o que não ocorria. embora se não devam descartar dois outros factores que. fl. Egerton. Penso. Arquivo do Centro Cultural Português. inter-municípios e inter-instituições locais ou até entre municípios e a administração periférica da Coroa39 do que com queixas de municípios e de vassalos das casas senhoriais contra os seus donatários. 1980. outros com disputas de preeminências: António Dias Miguel. 1136. pp. quer pelas 38 Alguns exemplos avulsos num tema que mereceria atenção e uma tipologia de análise. 40 Cf. beneficiando claramente os donatários. nos solicitadores e advogados das casas senhoriais sediados junto dos tribunais centrais. O argumento colheu. tenho topado mais com registos de conflitos inter-senhoriais38. As possibilidades de influência também jogavam a favor dos senhores. 26v-27. Subsídios para o estudo da sua vida e da sua obra. 2) Queixa. António de Oliveira. outros prendem-se com rivalidades locais. 44-XIV-4): 1) Após queixa da câmara de Pinhel justificada por uma provisão de dada por D. Sebastião em que se dizia que os corregedores da comarca lá deviam residir seis meses e outros seis meses em Trancoso. XV. O rei deu então despacho favorável (1590/11/27). Sabe-se que a litigância tinha custos económicos elevados. 103. . sobretudo aqueles que disponham já de uma estrutura judicial própria. verdade que não se encontram registos de queixas contra senhorios muito numerosos. desta vez da câmara de Abrantes. 39 Dois exemplos a partir de consultas do Desembargo do Paço (BA. vol. por os julgadores que faziam a residência ao corregedor e provedor de Tomar obrigarem os moradores de Abrantes a deslocar-se a Tomar para testemunharem. Pleito entre o duque de Pastrana e o marquês de Alenquer sobre Chamusca e Ulme. mas que o corregedor devia atender ao caso. pelo que desembargadores opinaram que um terço do tempo das residências fosse passado em Abrantes. sep. «A violência do poder dos cavaleiros de S. 263-276. não obstante a existência de algumas excepções significativas40. Lisboa. pelo que sugere que os sindicantes sediassem quinze dias em Abrantes.. por exemplo. António Pereira Marramaque. Os elementos explicativos dessa escassez reivindicativa podem assentar na eficácia desta gestão paternalista. em particular. sobretudo se os processos se prolongavam com embargos e recursos sucessivos. senhor de Basto. Na realidade. ficando eles muito mais tempo em Trancoso. procurando residir o maior tempo possível em Pinhel. Paris. (1689/09/23). pois enquanto muitos conflitos inter-senhoriais decorrem de partilhas. A capacidade financeira para assegurar a sua continuidade era desigual.

Um associado à casa de Aveiro. está associado à escassez da documentação de natureza judicial disponível para estas épocas. ou melhor. “advertir disto os desembargadores do Paço pera que não aião nunca as partes uista das informações que se fiserem sobre suas pertenções”41. 19. visto o autor da queixa (duque de Bragança) ser senhor das vilas de Vila Viçosa. 338. Esta situação torna difícil a avaliação dos níveis e tipo de litigância exis- 41 BA. havia cinco anos e sete meses que o povo perseverantemente requeria justiça. fl. 42Processo . peremptorias. Quanto ao outro queixava-se o povo de Alenquer do Marquês. por isso. outro à casa de Bragança e outro à de Alenquer: No já citado processo analisado no Desembargo do Paço por causa dos direitos do duque de Aveiro a prover um ofício por renúncia. advertência. o duque objectara das alegações apresentadas pelo Procurador da Coroa. 43 BL. utilizar todos os estratagemas jurídicos possíveis e imaginários “excepciones. declinatorias. 1135. com as demoras e custos inerentes. O que gerava casos de suspeições e os necessários pedidos de substituição dos juizes ou desembargadores. 37v. PATROCÍNIO E CONFLITUALIDADE 103 pressões junto do corpo de juristas dos tribunais. Ora. acusando-o de. ACB. iniciado em 1596 com sentença favorável à Casa em 1605 no processo contra um tal Bento Fernandes Bota e sua mulher. através do seu advogado. 44-XIV-4. O argumento expresso por um desconfiado litigante contra os duques de Bragança. no que já gastara muitos mil ducados. fls. é também particularmente impressivo. reguengueiros de Evoramonte. Na carta régia de 8 de Outubro de 1589 que deu despacho ao caso. Há casos conhecidos que o revelam com amarga clareza. o rei acrescentava um alerta relativo à irregularidade que se havia cometido no Desembargo do Paço ao dar vista dos papeis do Procurador da Coroa ao duque de Aveiro e mandava. Citamos três. fl. O negócio já fora interrompido três vezes e queria o marquês interromper mais uma.RELAÇÕES DE PODER. y embargos” para atrasar a justiça. Pediam. contribuindo nisso os pobres trabalhadores que deixavam de comer. Arraiolos e Evoramonte onde deveria decorrer o inquérito e onde «elle daua os officiais e os aprezentaua e lhe fazia delles merce e erão todos seus vaçalos e escriuaes e Almoxarifes juizes e mais pessoas da dita vila e todos lhe obedecião e fazião tudo o que elle lhes mandaua e era seruido»42. O segundo argumento. Dizia que tinha fundadas suspeições. algures entre 1596 e 1605. Egerton. por isso. 19. particular atenção por esse dinheiro ser ganho com o suor do rosto e sangue de mãos. invocando ainda o amor de vassalos que tinham para com Sua Magestade43. dilatorias. ms.

Lisboa. complementados com o enquadramento privilegiado que a Coroa lhes proporcionara. se apoiava em redes sociais locais e que lhes permitia transformá-las facilmente em redes de criaturas suas. 43-44 lista-nos uma série de confrontos e reivindicações lideradas por populares de muito variado cariz e com variados oponentes. mas uma conflitualidade muito mais plural e multifacetada44. ou melhor nas capitanias-donatarias. e que o Arquivo Geral de Simancas contém abundante e riquíssima informação relativa às decisões da Monarquia e dos seus conselhos. Territorialização do poder senhorial e sociologia das elites políticas locais O terceiro e último ponto prende-se com o perfil social dos titulares dos ofícios locais. confirmam as ideias de um poder nobiliárquico muito territorializado que. Difel. tomando-as como um fenómeno atlântico. como se disse. É uma chamada de atenção que reforça o que atrás se disse e um pouco no sentido do que Nuno G. pelo menos até meados do século XVII. pese embora a extensa transferência de jurisdições por parte da Coroa. e o que deles sobressai não é a litigância entre senhores e terras ou vassalos. Sem pretensão de acrescentar quaisquer novos dados a este tema. seja contra os oficiais da Coroa. parece-me. no entanto.104 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS tente. 1991. Camaristas e não só. sobreviveram alguns códices do Desembargo do Paço (sobretudo relativos ao Período da Monarquia Dual e aos quais. Clientelas pode dizer-se. mas deve dizer-se que. O que significa que a análise de processos é possível. de resto. já fiz algumas referências). pertinente chamar a atenção para esta questão. pp. a meu ver. Poder e Oposição Política em Portugal no Período Filipino (1580-1640). apesar de tudo. se articula também com o tema da territorialização do poder senhorial. em que avultam as queixas fiscais. No já referido estudo de Saldanha. raramente os seus senhores aí residiram. Viu-se que os níveis de conhecimento das terras (recursos económicos e pessoas) que os donatários mais antigos e com maior amplitude de privilégios jurisdicionais detinham. Monteiro e Teresa Fonseca referiram nos textos que integram este livro e que. caracterizan- 44 António de Oliveira. . nos senhorios ultramarinos. Esta territorialização do poder senhorial verificada no continente e até nos arquipélagos da Madeira e Açores não ocorreu. explica-se demorada e detalhadamente os fundamentos jurídicos. até porque os temas do Império têm sido demasiadas vezes tratados de forma desligada dos do reino de Portugal continental. práticas políticas e a evolução histórica das capitanias. seja contra senhores. O que aqui importa trazer é que. porém.

RELAÇÕES

DE PODER, PATROCÍNIO E CONFLITUALIDADE

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do-se a administração senhorial por um quase total absentismo. O exercício dos poderes judicial e fiscal, bem como a gestão corrente dos territórios, eram subdelegados em agentes senhoriais, nomeados pelos capitães-donatários – os capitães loco-tenentes. Os poderes de nomeação do oficialato local e de confirmação das câmaras constituíram-se, por isso, em instrumentos que reforçavam os poderes destes loco-tenentes, embora estivessem sempre sujeitos a sindicância por parte das justiças do Reino. Na verdade, para além das razões económicas, a posse dos títulos dos senhorios pouco mais interesse despertava junto dos capitães-donatários. As suas relações com os vassalos eram quase sempre mediadas pelos capitães loco-tenentes, sem que estes últimos dispusessem, todavia, da autoridade social que caracterizava os donatários. Eram na maior parte dos casos gente com origens sociais modestas, que se havia distinguido na guerra com os índios ou com os invasores franceses e holandeses e tinham acumulado património fundiário. Transformados em senhores de engenho, formavam as elites locais e foi à sua sombra que se constituíram importantes redes clientelares (de parentela, compadrio, vizinhança, etc.), que às vezes transcendiam até os limites das próprias capitanias. Há relatos de comportamentos bastante arbitrários de bandos de parentelas suas, ofensivos do direito e das instituições reinícolas, e que deram muitas vezes azo a reivindicações, confrontos e revoltas, sendo conhecidos numerosíssimos episódios de protestos armados das populações contra os loco-tenentes que conduziram até a bem sucedidas deposições do posto. Percebe-se então que estes senhorios ultramarinos só importavam aos donatários em função dos rendimentos que deles se podiam retirar. E, na realidade, a própria estrutura de delegação de poderes e de exploração do território tornou muitas dessas donatarias em negócios verdadeiramente ruinosos. É que os rendimentos mais significativos não provinham da cobrança de direitos jurisdicionais, mas sim da exploração fundiária, mineração e comércio de escravos e o absentismo senhorial dificultava a exploração eficaz dessas oportunidades. Daí o abandono a que os seus titulares votavam essas capitanias e até o interesse em se desfazerem delas. Existiam excepções, todavia, que respeitavam, sobretudo, a capitanias nos arquipélagos do Atlântico Norte e algumas do Brasil. Nesses poucos casos (em que se complementavam normalmente as jurisdições com as actividades mais rentáveis atrás referidas) os altos proventos serviram de meio para promoção e ascensão no Reino, apesar de, em boa verdade, tal só se verificar com as fortunas brasileiras (e não foram mais que dois ou três casos) na segunda metade do século XVII. Tal quadro não era exactamente análogo, porém, ao da posse das capitanias hereditárias nas praças do Norte de África. Embora com rigor estas não configurem senhorios jurisdicionais, o certo é que a natureza dos poderes regimentais dos capitães-mores, associada às doações desses cargos

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em propriedade ou em vidas, permitia práticas políticas muito semelhantes. E estas, do ponto de vista formal, podiam até ser abusivas, mas não deixam de traduzir a extensão dos poderes efectivamente exercidos e a importância que os capitães hereditários lhes conferiam. Demonstro-o com uma situação muito expressiva. D. Fernando de Mascarenhas, conde da Torre, nomeado para ocupar o cargo de capitão-mor de Ceuta em 1624, explicava ao rei por carta de 23 de Abril de 1625 que os fundamentos dos conflitos ocorridos durante a sua administração da praça eram o de ter tentado cercear as irregularidades cometidas pelo duque de Caminha ao que este reagira mal, levantando-lhe, logo no primeiro ano de funções, vários pleitos judiciais. Dizia “foi acudir eu pela jurisdição real de Vossa Magestade que ele tinha usurpado e fazer eu conhecer a Vossa Magestade por senhor dessa força fazendo guardar as provisões reais de Vossa Magestade e não as do duque”. Dava como exemplos o caso de um capitão de Infantaria que tinha provisão ducal e régia para servir, mas que usava sempre a do duque, pelo que D. Fernando fizera rasgar essa, pondo-o a servir pela provisão régia, e outros similares relativos aos tabeliães do público, judicial, órfãos e notas. Acrescentava que Diogo Nabo, adail, quisera servir pela provisão do rei e não do duque e “o duque lhe o encontrou de modo que correu a demanda na relação de Lisboa aonde se deve sentença por Vossa Magestade e com isto ser tão claro, o tem o duque hoje embaraçado de maneira que a pessoa que hoje serve esses ofícios é por data do duque e não tam somente os serve por provisão sua, mas tem alvará de lembrança para os poder vender. E destes alvarás tem o duque passado muitos não podendo porque isso só toca a Vossa Magestade em resolução”. Mais dizia “que o duque se havia de maneira que dos moradores desta praça foi tido até agora por rei e senhor dela, e porque eu lhe tenho feito entender que em Espanha não há mais rei que Vossa Magestade me tem o duque capitulado com opróbrios alheios de meu procedimento”. Concluía, por isso “pretendo com isto que Vossa Magestade me tire desta força antes dos três anos e lhe conceda a ele vir a ela, quiça não com tenções de servir a Vossa Magestade senão de tornar a pregar e fazer crer a estes cavaleiros e soldados esta falsa seita em que viviam”. Referia depois serem estas práticas habituais nos capitães hereditários de Ceuta e que os reis passados já tinham tido que se confrontar com elas: “lembrando mais a Vossa Magestade que por outras semelhantes a estas, sendo o marquês de Vila Real pai do dito duque que hoje chegado a esta força com sua mulher e família de mui poucos dias o mandou elrei D. Sebastião que Deus haja ir daqui para Portugal e o veio tirar Dom Lionis Pereira e não mais tornou a esta praça” 45.
45

BN, Ms. 206, fl. 264. Esta carta está transcrita em Isabel M. R. Mendes Drumond

RELAÇÕES

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É claro que, diversamente das capitanias-donatarias, nas praças do Norte de África a raiz dos seus poderes era militar e, talvez por isso mesmo, tais funções geravam muito prestígio social e político no Reino. A reputação que a posse desses cargos hereditários conferia equiparava-se quase à posse de senhorios jurisdicionais no continente. Permitia, para mais, acumulação de fortunas através dos direitos sobre as razias, resgates e até pirataria, bem como a estruturação de redes clientelares relevantes. De gente que aí servia momentaneamente hábitos ou comendas das ordens militares, mas também de grupos familiares enraizados localmente e que de há muito ocupavam os ofícios principais das praças. Com efeito, o esforço para tutelar e controlar a acção desses oficiais era evidente e está quase de certeza associado ao governo das praças durante os períodos de ausência do capitão hereditário no Reino e, portanto, da gestão de outros capitães-governadores como é o caso com o conde da Torre. Se estas situações são claras em Ceuta com os Meneses, julgo serem seguramente extensível a outros casos. Queria, por isso, chamar a atenção para a necessidade de investigar o tópico da territorialização do poder senhorial mais detalhadamente, não apenas para avaliar a importância (ou não) dos donatários, dos loco-tenentes e dos capitães e governadores na composição e mobilidade social dos grupos de poder locais, como para apurar o impacto ao nível do controlo político sobre as terras. Referi anteriormente que esta questão também pode estar dependente da própria configuração física dos senhorios, uma vez que a descontinuidade territorial podia fomentar uma administração menos presencial e, portanto, mais autónoma dos controlo directo dos senhores. O pedido que em finais da década de 1580 o conde de Sabugal formulou ao Desembargo do Paço espelhava-o e não constituía de forma alguma uma excepção. Solicitava o dito conde que fosse ouvidor de suas terras o corregedor que ficasse mais perto de seus lugares, uma vez que eles estavam muito distantes uns dos outros, em diferentes comarcas, e um só ouvidor não poderia administrar justiça em todas elas. E argumentava: “E se em cada lugar houver de fazer um ouvidor não pode achar tantos letrados em que seguramente desencarregue sua consciência”, chamando a atenção que tal pedido era em proveito evidente das partes46. Parece de facto óbvio
Braga e Paulo Drumond Braga, Ceuta Portuguesa (1415-1656), Ceuta, Instituto de Estudios Ceutíes, 1998, pp. 220-221. Diga-se, de resto, que o apêndice documental contém documentação muito interessante que lamentavelmente os autores pouco exploram no corpo da obra. 46 BA, 44-XIV-3 (n.º299), fl. 256.

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que a sindicância ao ser efectuada por um corregedor da Coroa poderia estar menos enfeudada aos interesses directos do donatário, reduzindo assim a pressão que estes podiam exercer sobre os denunciantes e as testemunhas. Igualmente relevante seria apurar o destino social dessas clientelas com a redução da territorialização do poder que vai progressivamente ocorrendo. Como se desfaziam as conexões, que efeitos sociais e políticos a nível local produziam ou se haveria algum mecanismo informal que mantivesse certo tipo de relacionamento entre essas periferias senhoriais e os donatários já transformados em cortesãos. Outra área a carecer de maior investimento de estudos são os casos em que os donatários detinham poderes jurisdicionais menos exuberantes. A hipótese que apoio é a da possibilidade de maior conflitualidade com maior autonomia. Resta confirmar.

Conclusão
Em síntese, julgo importante sublinhar que sob a aparente capa de uniformidade institucional, os municípios ocultavam uma imensa diversidade de realidades políticas e sociais. Algumas delas têm de há uns anos a esta parte vindo a ser sublinhadas pelos estudiosos. É o caso da dimensão física, do peso demográfico, da importância económica. Não se tem, todavia, atendido suficientemente aos impactos que a diversidade de tutelas quase forçosamente gerava, sobretudo do ponto de vista da história social dos poderes. Ora este tipo de abordagens permite, como espero ter demonstrado, oferecer visões bem mais complexas, dinâmicas e matizadas das realidades sociais e das práticas políticas municipais.

As Ordens Militares e o poder local: problemas e perspectivas de estudo
FERNANDA OLIVAL
(Universidade de Évora – Dept. de História /CIDEHUS)

1.
Quando, em 1551, os Mestrados das Ordens de Avis, Cristo e Santiago foram perpetuamente unidos à Coroa, a nível local ainda era relativamente fácil identificar as jurisdições destas Ordens. Se o quadro destas não está traçado, deve-se apenas à falta de investimento em estudos com esse objectivo. Restam, todavia, nos arquivos portugueses materiais que o permitem fazer de forma aproximada, nomeadamente para as Ordens de Avis e Santiago. A doação medieval das terras é um ponto de partida importante, bem como as mercês de jurisdições feitas posteriormente. O numeramento de 1527-32, as visitações, as chancelarias das Ordens, os tombos de comendas e as Memórias Paroquiais de 1758 oferecem também contributos essenciais para os séculos XVI, XVII e XVIII, que devem ser explorados de forma crítica e comparada. Desde logo um dado fundamental a ter presente é que uma comenda nem sempre implicava a jurisdição da terra. Só em poucos casos seria assim. Há até descrições de várias épocas que apontam para tantas comendas e determinadas vilas sob a tutela de uma Ordem. Assim, acontecia, por exemplo, nas Notícias de Portugal de Manuel Severim de Faria. A Ordem de Avis é referida nos seguintes moldes: “(...) ajudando a lançar fora os Árabes desde Coruche, até Alandroal, e Juromenha; em gratificação do qual [serviço] lhe deram os Reis 18 vilas, que são Cabeção, Mora, Juromenha, Alandroal, Noudar, Veiros, o Cano, Fronteira, Figueira, Cabeça de Vide, Avis, Galveias, Alter Pedroso, Seda, Albufeira, a vila de Coruche, o Concelho de Serpa1, Alcanede, e 48 Comendas, que rendem passante
1 Não

parece correcta esta referência a Serpa. Cf. sobre a jurisdição da Vila, J. M. Graça
Os Municípios no Portugal Moderno: dos forais manuelinos às reformas liberais Lisboa, Edições Colibri – CIDEHUS-UE, 2005, pp. 109-126.

49-IV-31. de bens urbanos e de uma parcelas de certos dízimos. Serpa. Mç. actualização e notas de Francisco A.º de ordem 344-345. Imprensa Nacional. I. 5 Cf. 3 Seria este um número muito irreal. com introd. que era da Ordem.2. coord. Severim de Faria. não incluindo nestas as da Mesa Mestral . em Setúbal. pp. § 17. . “Os fornos da Ordem de Santiago e seus comendadores. Lisboa. India e Ilhas Adjacentes e outras particularidades. 2003 (1. fac-similada. Lisboa. em Alcácer do Sal) e outras equivalentes à renda dos tabeliães. 1999. fl. Claro que algumas destas povoações constituíam uma ou mais comendas das mencionadas. Colibri . havia comendas de mais do que uma Ordem Militar. 407-456 e Luiz de Figueiredo Falcão. § 17. 1655). como era o caso da comenda espatária de Mouguelas. 4 Manuel Severm de Faria. Memória historico-económica do Concelho de Serpa. 250-263. todavia. de todas.. Affreixo.ª ed. A Ordem de Malta teria em Portugal 21 vilas “e lugares” e 24 comendas4. As situações eram. que além de bens rústicos. 29-62. Uma comenda era antes de mais um rendimento com tal título que permitia ao encartado na mesma designar-se comendador. Havia comendas compostas por apenas dízimos. religião.ª ed. ANTT. como Elvas. outras apenas por bens rústicos de diferente natureza ou por rústicos e urbanos. outras ao rendimento de transporte naval (Barca de Tróia. pp.Decretos. e o Batel de Santa Ana. elevado a cidade em 1513. Faltava. Op. Livro em que se contém toda a Fazenda e Real Patrimonio dos Reinos de Portugal. indicavam-se 47 vilas e lugares e 150 comendas3. Lourenço Vaz. cit. mas nenhuma detinha a tutela do concelho. 6 Cf. 1884). Dutra. 1993 (1. Relativamente a Santiago.Câmara Municipal de Palmela. Disc. pp. Tombos de comendas. Lisboa.110 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS de 23 contos”2. Colibri / Escola Sec. in Ordens Militares: guerra. como era o caso de várias na Ordem de Cristo. 3. 1550-1777”.. 2 Ed. 1859. Neste caso. a Vila de Benavente. poder e cultura: actas do III Encontro sobre Ordens Militares. incluindo Malta. tinha um padrão de juro de 22. 179-183. Vol.000 réis. a Ordem de Cristo teria recebido 21 vilas e lugares e 454 comendas. Não faltavam também exemplos de comendas que aglutinavam recursos diversificados. Na Ordem de Santiago havia até comendas que equivaliam ao rendimento de fornos (quase todos de pão e um de olarias)5. Francis A. n.ª ed. Nalgumas localidades. por conseguinte. A Ordem de Santiago em 1611 teria cerca de 85 comendas. Câmara Municipal. BA.cf. Outros casos igualmente atípicos eram as comendas que se traduziam apenas por uma tença em dinheiro. ANTT. 2. Disc. 3 (decreto régio de 20 de Setembro de 1762). nomeadamente das três comendas estabelecidas na Casa da Índia. assente no almoxarifado da Távola Real da Vila de Setúbal6. de Isabel Cristina Fernandes. Conselho da Fazenda Vedoria e Repartição do Reino e Assentamento .

Afonso (na qualidade de Bispo de Évora) e o Cabido eborense. em Óbidos e um ramo “aprestemado na comenda dalhos Vedros que vale quorenta mill reis”. o segundo em 1517-1519. havia também comendas fortemente descontínuas. quer nas de Avis da mesma época referia-se quase sempre a jurisdição do lugar. escrevia-se: “a Jurdição do cyvell e cryme da dita vylla he da ordem e a eleyção dos Juyzes e ofycyaes se faz pelo ouvydor do mestrado e os Juyzes ordenayros são comfyrmados pelo mestre noSo senhor a quall eleyção se faz de tres em 7 ANTT. além de terras da Ordem de Cristo e de Malta no Alentejo. Manuel. Do ponto de vista territorial. quer no outro. Assim se mantinha na segunda metade do século XVIII. na Ordem tomarense tal situação abarcava apenas algumas comendas que vinham da época dos Templários. a Ordem. 2. as distâncias eram consideráveis. quando pertencia à Ordem. O primeiro processo iniciou-se em 1514. as chamadas comendas “velhas”. quanto. Ordem de Santiago – Convento de Palmela. L. Retome-se de novo a comenda de Santa Maria de Mouguelas: reunia bens no termo de Setúbal (Mouguelas). o comendador de cada uma e por vezes o Cardeal D. além do juro. Em relação à Vila de Cabeço de Vide. A milícia espatária dispõe de um excelente conjunto de visitações para a primeira metade do século XVI. quando foram criadas as “comendas novas” e quando foram instituídas as ditas “comendas da Casa de Bragança”. Quanto ao senhorio jurisdicional. é possível ter uma ideia tendencialmente clara das jurisdições das Ordens de Avis e Santiago a Sul do Tejo (com excepção do Algarve). pois não se situavam num só município ou zona. as comendas não abrangiam as jurisdições das terras implicadas. No caso da Ordem de Cristo. Assim. segundo se escrevia em 15657. Não só porque em geral os bens estavam dispersos por diferentes freguesias de um mesmo concelho. indicando de quem era a jurisdição e as rendas. descreveram-se 14 vilas da Ordem de Avis e 30 de Santiago. por vezes. quer num caso. Quer nestas. Jorge de Lencastre eram em geral partilhados entre a Coroa. Com base no numeramento demográfico mandado fazer por D. Em 1532. É possível observar que os rendimentos das Vilas dos dois Mestrados nas mãos de D.º 203. 3.AS ORDENS MILITARES E O PODER LOCAL: PROBLEMAS E PERSPECTIVAS DE ESTUDO 111 muito variadas. fl. No entanto. . em 1538. João III. pertencia sempre à Ordem. o número de comendas aumentou muito no reinado de D. Estas duas últimas figuras marcavam maior presença nas comendas de Avis.

fixava-se a regra: “A jurdiçam do ciuel e crime da dita Villa e seus termos he da Ordem. sabe-se que cabia ao comendador. de acordo com uma composição feita com o Mosteiro de Santos)9. Ordem de Avis. doc. como as das mais villas dos mestrados das ordens melitares”. um servia na Vila de Sesimbra e os outros dois em Azeitão (um deles em Coina. juiz dos órfãos. a confirmação dos juízes ordinários. ANTT. distribuidor e inquiridor.112 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS tres años e asy he o custume em todo mestrado”8. Maria Cristina Gomes Pimenta. entre outros exemplos citáveis. 1991. in As Ordens Militares em Portugal: actas do 1. Seguia-se a enumeração dos oficiais postos pela Ordem e a indicação das rendas da mesma (geralmente dízimos) e o elencar das propriedades. Alhos Vedros nas visitações da Ordem de Santiago. 38v-39v. Destes. GESOS – Câmara Municipal de Palmela. ou com o prior-mor do convento palmelense em relação à Câmara de Cabrela.43. E os juizes ordenairos sam comfirmados per nós ou pello Comendador que nosso poder tem e pera ello ho povo dar em cada huum anno seis juizes eleitos e nós escolhemos delles dous ou o dito Comendador que confirmámos ou o dito Comendador comfirma e tal he o custume da dita Villa e Mestrado”. 1994. 176.º 14. fl. partidor e avaliador dos órfãos) à Ordem pertencia também ao poder do comendador10. e a eleiçam dos juízes e ofeciaes se faz pell nosso Ouujdor ou quem nos pera jso ordenámos. Bernardo Sá-Nogueira. 10 Cf. ibidem. 3 tabeliães do judicial e notas. fl. Mç 24. escrivão da almotaçaria. Nem sempre.º Aniversário do Foral de Alhos Vedros. o Prior-mor ainda conseguia apresentar a própria alcaidaria-mor de Cabrela. um lugar que numa consulta da Mesa da Consciência desse ano se considerava que “deve tocar a VMgde. Comissão organizadora das Comemorações do 480. Mesa da Consciência – Ordem de Santiago/Convento de Palmela. 65v. seria o comendador a fazer a escolha seguinte11. p.33-36. L. contador. Só por concessão do Mestre. p. Palmela. Palmela. A apresentação dos oficiais (escrivão da câmara. a partir de 154713. n. escrivão dos órfãos. porém. 11 No caso da comenda de Alhos Vedros. na visitação de 1523. Jorge. ANTT. com base nestes poderes. Câmara Municipal. Mesa da Consciência .º Encontro sobre Ordens Militares.157. 12 Cf. 8 ANTT. pp.. dos quais quem detinha a comenda ratificava 3.º de ordem 205. Mesa da Consciência – Ordem de Santiago/Convento de Palmela. Eram eleitos seis. o Duque de Aveiro.º 18. ANTT. . 45v-46v. O prior-mor podia também apresentar os restantes oficiais da Câmara que eram providos por carta da Ordem. “Memórias sobre a Ordem de Santiago no tombo velho da Vila de Sesimbra: a jurisdição de Coina (1330-1363). como aconteceu com o Duque de Aveiro12. fl. L. Fernando Pires. 9 Cf. As Ordens de Avis e de Santiago na Baixa Idade Média: o governo de D. Alhos Vedros. 76v (visitação de 1516).Ordens Militares . fl.º de ordem 163. Em 1565. Esta modalidade do povo apresentar seis juízes seria corrente noutras comendas de Santiago da primeira metade de Quinhentos. relativamente à comenda de Sesimbra. Ana de Sousa Leal. 13 Cf. n.Papéis Diversos. Estes poderes são-lhe reconhecidos por uma provisão de 1627. Em 1641. 2002.

A resolução a esta consulta. Pelo frequência com a qual se insistia neste ponto. resultantes dos definitórios de 1619-1620. E dadas em suas terras os Marquezes de Villareal. 163. . seria um tópico ao qual a Ordem dava muito relevo no início de Seiscentos. E da maneira que tem estas jurisdições. Era das Ordens ligadas à Coroa a que tinha menos comendas. 14 Cf. foram cuidadosamente preparados. ou. o Conselho de Portugal discutia uma petição do Conde de Ficalho. cit. recém criada pelo monarca. com a letra e rubrica de Pedro Álvares Pereira foi a seguinte e com a qual esteve de acordo o rei: “Pareçeo que se lhe de a jurisdição de ficalho de juro conforme a ley mental com a dada dos officios de escrivães da camara almotacaria E orfãos E tabaliães das notas E possa dar per suas cartas com todas as mais preminençias com que estão dadas jurisdicoes a outras pessoas tirando o privilegio de não entrar corregedor por correição na dita villa por estar junto da raya de castella E ter tam pouca povoação que se não for visitada se pode recear que se acolhão a ella mal feitores de ambos Rejnos” (AGS. E pedia nos seguintes termos: “a dada dos offiçios que nella ha de haver. Seria um dado adquirido? O que se destacava como significativo era a possibilidade de controlo mais global. Relativamente ao período posterior a 1551. a preocupação com os corregedores seria grande por parte da Coroa.) também seria escassas vezes atribuída. impressos em 1631. eventualmente a outra entidade. 15 Cristina Gomes Pimenta.. Assim se designava se a comenda estava sujeita ao Ouvidor do Mestrado ou aos corregedores da Coroa.o que não deixava de ser um silêncio inquietante. o mesmo será dizer na Ordem.º 26). Em razão do seu título nobiliárquico solicitava a jurisdição da vila. Quanto à jurisdição específica de cada uma das terras. Era este poder que havia que acautelar em 1619-20. nada era dito . aliás. indicando se a jurisdição estava incluída “no Mestrado” ou “fora dele” (ver mapa). Uma a uma inventariaram as comendas. mas o senhorio jurisdicional permanecer nas suas mãos. E isto de Juro conforme a Ley mental. n. E outros titulos do Reino.AS ORDENS MILITARES E O PODER LOCAL: PROBLEMAS E PERSPECTIVAS DE ESTUDO 113 No caso da Ordem de Avis. nos inícios do século XVII. Jorge († 1550). as melhores fontes que restam nos arquivos são documentos que foram produzidos pela Ordem de Avis ou que a ela pertenceram. E CastelRodrigo. mesmo no tempo de D. através do Ouvidor. o normal parecia ser o Mestre dar a comenda a alguém. Em sentido inverso. escrivães da câmara e dos órfãos. também acontecia em Santiago14. etc. p. Como. L. E se houverem de Criar de novo na forma. Seria através dele que se fazia a defesa da jurisdição da Ordem15. A possibilidade do comendador apresentar outros oficiais da comenda (tabeliães. A mesma atenção mereciam os diferentes tipos de benefícios eclesiásticos que tutelava. no entanto. Op. Os estatutos desta milícia. assi Como tem a propriedade da dita villa antes de ella o ser”. Secretarias Provinciales.º 1460. Tenha-se presente o seguinte: em 1600. equivaliam às mais rendíveis dos três Mestrados.

– nos feitos cíveis. A anexação das Ordens à Coroa facilitou a aproximação de jurisdições e de pessoas em actividades que deviam ser diferenciadas. Numa junta de reforma da Ordem de Cristo que encerrou em 1589. 18 BN. Fernando ampliara o senhorio jurisdicional da Ordem de Cristo em todas as vilas e lugares que lhe pretenciam. Serpa. mas que a pouco e pouco deixaram de o ser. como era usual nos processos crimes. Sousel. Borba. D. tít. 17 Em cartas passadas pela Chancelaria da Ordem de Avis chegava-se mesmo a dizer que determinado magistrado serviria de ouvidor nesta zona. Nesta altura. portanto. dos juízes ordinários apelava-se para o Mestre e para o seu ouvidor. Alpedriz e Rio Maior entrava em 1631 o corregedor de Santarém como Ouvidor da Ordem16. mas deixava de se poder apelar desta instância para o rei. que residia habitualmente em Avis. Bento de Avis. Seria colocado do mesmo modo. A partir daí. Vila Viçosa. .cf. O ouvidor de Avis. fl. 206v (ano de 1753).º 37. entrava o corregedor com poderes de ouvidor. como era o caso de todas as comendas do bispado de Coimbra e da Guarda. XII. sem que pudessem tais poderes ser revogados posteriormente. mas também as havia no Arcebispado de Évora (Freiria de Évora. Regra da Cavallaria e Ordem Militar de S. apenas enquanto servisse de corregedor de Santarém . de uma situada na arquidiocese de Braga e da comenda algarvia de Albufeira. em 1373. a Ordem tomarense passava a usufruir do seguinte: – os tabeliães poderiam ser dados e confirmados por cartas do Mestre e da Ordem. antes de exercer. cerca de 51% das comendas não estavam sob a tutela do Ouvidor do Mestrado. fez-se um balanço “da jurisdição secular que a Ordem tem em determinados locais”18. Nas outras terras. 16 Cf. 1631. Lisboa. uma situação que se manteve ao longo do tempo17. Pernes. salvo se houvesse prévia denúncia ou querela contra o Mestre e o seu ouvidor. – os corregedores não podiam actuar nas terras do Mestrado. Moura. 114-118v. Chancelaria da Ordem de Avis. fl. cap. Quanto ao mais. ANTT. Cód. Beja e Mourão) e no bispado de Elvas (Olivença e Santa Maria da Alcáçova de Elvas). jurava na Chancelaria da Ordem. 13216. Yorge Royz. Só havia.114 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Os mesmos estatutos esclareciam que. exercia o cargo durante três anos e em nada se diferenciava de outros magistrados da carreira de Letras da Coroa.I. Estremoz. L. Nesta salientava-se que. um Ouvidor deste mestrado e assim foi ao longo do tempo. A maioria destas equivaliam às mais distantes da sede da Ordem. no caso de Alcanede.

O cargo de Ouvidor do Mestrado era.º 302. 364 (1682). X. conhecem-se. sobre estes procedimentos. Câmara Municipal de Tomar. 1971.. 3. e freires da Ordem de Nosso Senhor Iesu Christo com a Historia da Origem e principio della. 358 (1679). na sequência de um pedido feito pela Vila de Tomar. em 1589. Na Chancelaria da Ordem não foi emitido qualquer 19 Alberto de Sousa Amorim Rosa. Cf. como governador da Ordem de Cristo. na sequência do Capítulo Geral de 1619. & com cargo da cõciencia de sua Magestade. Alberto de Sousa Amorim Rosa. porém. L. circunscrevia as apelações que o Ouvidor podia receber às “que couberem em sua Alçada sòmente. tít. pp. Tal queixume passou para os Definitório impressos. os magistrados já só obtinham uma única carta de corregedores. Por isso. outra como ouvidor. João III.. Pte. criando-se uma nova. Tomar. Nota-se. ANTT. Mesa da Consciência. pela escassa documentação camarária de Tomar disponível. todavia. 291 (1658). tinham sido mantidas até 1532.) irão a quem directamente pertencerem”19. a ouvidoria de Tomar foi dividida em duas. 21 Cf. Nada se sabe sobre as eleições concelhias nas terras da Ordem de Cristo depois de 1551.III. Vol. passada pelo monarca na qualidade de Governador da Ordem e feita por um escrivão da Mesa da Consciência20. pp. Vol. com cabeça em Castelo Branco. 256-257 (com um erro de data). em comparação com o Corregedor. que o Ouvidor teria um papel meramente secundário.. Anais do Município de Tomar. cit. Lisboa. nas Cortes de Almeirim de 1544. 108v.ª ed. 20 . Dizia-se que o corregedor de Tomar e o de Castelo Branco serviam também. Salientava-se que eram doações remuneratórias e como tal não podiam ser retiradas ao património da Ordem – Definicoens e Estatutos dos cavalleiros. e simultaneamente. D. Como se afirmava na citada junta. em 1589. com maiores ou menores dificuldades. 1671(1. exercido apenas enquanto o magistrado servisse de Corregedor da Comarca de Tomar. onde se afirmava textualmente que a Ordem fora “esbulhada de suas jurisdições cõtra direito.AS ORDENS MILITARES E O PODER LOCAL: PROBLEMAS E PERSPECTIVAS DE ESTUDO 115 Apontava-se. IV. Nessa altura. Em períodos posteriores. porém. Ioam da Costa. casos de duas cartas para a mesma pessoa21. emitida em nome de Sua Majestade como rei. limitaram-se os poderes do respectivo ouvidor do Mestrado.VII. e as outras que não couberem (. fl. de ouvidores do Mestrado. que estas jurisdições. Deviam tirar duas cartas separadas no Desembargo do Paço: uma de corregedor. cuja intenção não he que se tomem á Ordem suas terras legitimamente adquiridas por serviços”. Mais tarde. Op. protestava-se contra a perda destes poderes e contra a confusa e indistinta jurisdição da Coroa e das Ordens. 1628).

o Juiz dos Direitos Riaes. Apontava que a jurisdição de Mértola era da ordem de Santiago. fl. Por outro lado. A julgar pelas aparências. Tal documento. os rios: as memórias paroquiais de Mértola do ano de 1758. quando foi redigida a primeira versão dos definitórios impressos como estatutos da Ordem 22 ANTT. Por um lado. Seria um dos problemas nos concelhos dependentes destes institutos. L. E nestes termos he esta villa da Ordem de S. receava-se o efeito dos processos poderem eventualmente cair no alçada do foro privativo dos membros das Ordens Militares. com a separação do que hera Coroa. talvez por volta de 1620. . à segunda pergunta do interrogatório.L.º 22. 23 As Chancelaria da Ordem de Cristo. as serras. como he o Juiz dos Orphaons.. Em forma que. Sobre esta atribuição impõem-se dois comentários. [D. 257v.116 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS diploma a confirmar oficiais camarários eleitos ou não eleitos. nos seguintes moldes “e assim se conservou em sua posse a dita Ordem com todos os seos actos e provimento de justiça athé que encorporadas as ordens na Coroa lentamente se foram descahindo os exercicios da dita posse.lit. Por aquele diploma era-lhe feita mercê vitalícia da confirmação dos ofícios das vilas da Ega e Dornes. e outros mais sam providos pella secretaria do Mestrado da dita Ordem. a ingerência do Desembargo do Paço seria clara já no século XVII. com a consequente perda de competências dos tribunais régios. de 1623. Sobre este processo são muito esclarecedoras as palavras do Prior da Igreja Matriz de Mértola quando respondia. através do Desembargo do Paço. ao delegar poderes no comendador. ed.ª de Fátima Rombouts de Barros. passado em nome do comendador-mor da Ordem. terras. em bom rigor não se sabe verdadeiramente quais eram os ofícios referidos. O reparo feito é muito claro a este propósito. na Ordem de Santiago. A única excepção até agora identificada reporta-se a um alvará. Campo Arqueológico. mas em parte está da Coroa”23. Mértola.1995]. como a tiveram o seu progenitor e o seu avó. mas ainda alguns officios. por deixados. Afonso de Lencastre.). É provável que não incluísse os elementos da câmara propriamente dita. Aliás.. então enviado aos párocos. puchando sempre os Ministros de El Rey para excluirem de tudo a Ordem (. muitos estam confundidos. encerrava com uma valiosa ressalva: “cõ declaracao que não UZará Nunca de Conservatorias Nem Cemsuras E Sendo lhe necessario algum Requerimento o fara nos tribunais Seculares”22. D. que o antecederam na dignidade.59-60. em 1758. não é de afastar a hipótese de muitas jurisdições terem sido assimiladas pela Coroa. de Joaquim Ferreira Boiça e M. como ninguem cuidava de os inteirar. pp. porém.Tiago.

e de Dornes tocão ao Comendador môr. & conheça das novas acções. que estão fòra do Mestrado. chegou-se a propor que se a Ordem não nomeasse os juízes ordinários das terras do Mestrado. tivesse permitido que o seu irmão D. Def. & disto se naõ guardar se tem seguido perda à Ordem. L. & o Ouvidor confirme. como Governador perpétuo da Ordem. & dentro das comarcas dos Corregedores. “vagas” por morte do Infante D.º 302. Mesa da Consciência. e em sua falta ao contador do Mestrado. & confirmavaõ por elles. que nenhuma peSsoa nem ordem pode Competir. datada de 1744. Francisco. por do contrario se seguir alienação da jurisdicção da Ordem”24. LXXVI. 9 de Novembro 1624 e fl. não possão elles entrar sem provisão do Mestre. No parecer deste indicava-se que “o Comfiar as doaçõens das Camaras hé Regalia da Coroa. fl. & jurisdicção nas terras do Mestrado. Miguel Manescal. fl. embora D. Tabeliões dos Officiaes. No que respeita às eleições camarárias das terras do Mestrado da Ordem de Cristo. . Para solucionar o caso foi consultado o desembargador que servia de Procurador da Coroa. 26 ANTT. conforme a provisão que para isso hà. Nestes fez-se registar o seguinte: “Os Mestres tiverão sempre o poder. Pretendia o contador do mestrado25 confirmar as eleições das já apontadas comendas da Ega e de Dornes. porque os faça seus Ouvidores. 300. De acordo com a mesma opinião. & provião os Ouvidores. Lisboa. & assim os pilouros das eleyções dos Officiaes das Cameras se apuravaõ. em 1742. L. Desembargo do Paço. vão à Mesa das Ordens. & datas. & que nas terras da Ordem. & ordenamos que se peça a vossa Majestade mande que assi os provimentos. 86” – ANTT. Sem expresa doação de Vmag. & apure as outras como faz. & todos os mais Officiaes de Justiça tocantes à sua jurisdicção. que costumaõ vir ao Desembargo do Paço. & se goarda por costume immemorial. tal facto não era era con- 24 Regra. 25 O facto de se tratar da comenda-mor terá de longa data correspondido a uma situação especial. & aggravos das terras do Mestrado. 319v. definição e reformação da Ordem e Cavalaria de Santiago de Espada. que ao menos pusesse em substituição destes um juiz de fora letrado com o mesmo estatuto. Num livro de notas de Lázaro Leitão Aranha registou-se: “O provimento dos Officiães da Vila da Ega. dos dittos officios como as eleyções dos Officiaes das Cameras. Contadores. Juizes de fòra. Pedro usasse de tais poderes nestas comendas. Enqueredores. estatutos. & confusão na jurisdicção. 1694. pelo que diffinimos. No definitório em causa. Afonso VI. consultas.de Cujas doacoens Se expedem pello Desembargo do Paço”26. vale a pena ponderar uma consulta do Desembargo do Paço sobre o assunto.º 69.AS ORDENS MILITARES E O PODER LOCAL: PROBLEMAS E PERSPECTIVAS DE ESTUDO 117 de Santiago.

L.º 1. 236v. em ANTT.º 11. L. na Estremadura29. eleitos em Alcanede e Alpedriz que pediam nas décadas de 50 e 60 do século XVIII para serem dispensados de servir. Nestas casos. ANTT. que se admitia pudesse ser delegado. a Ordem confirmava as câmaras de diversas terras. 108v. na Ordem de Santiago27. vereadores e procurador tratavam de ratificar na Mesa da Consciência tal facto. L. Nos anos de 1760 ainda se fazia o mesmo e é de crer que se continuou a fazer31. L. 31 Cf. marcavam presença neste registo. Mesmo municípios afastados do centro nevrálgico da Ordem. Pedro não fora feita oposição a este poder. fl. distinguia-se claramente entre o poder de fazer as eleições. fl.º 302. 19v. A Câmara de Alcanede e lugar de Pernes tinham idêntico comportamento. Do mesmo poder dispôs o comendador seguinte: o Infante D. 305-305v. fl. mas. Havia. E este era considerado o ponto crucial. em 1552-1553. os que saíam para os lugares de juiz. 20. o diploma com a anuência do 27 Cf. o Desembargo do Paço apropriou-se da regalia. as referidas são as únicas que aparecem a fazer confirmações das câmaras na Chancelaria da Ordem de Avis. 32-32v. ambas situadas nas Beiras28. poder.º 17. fl. Desde logo. como os de Seixo do Ervedal e da comenda do Casal. Ibidem. inclusive. Aberto o pelouro.º 39. A situação na Ordem de Avis parece ser um pouco diferente. Mesa da Consciência. Será que. Francisco. 472. Nos séculos XVII e XVIII. Ibidem. L. pela proeminência do Infante D. passim. Até 1620 é fácil atestar a confirmação para a Câmara de Alpedriz. 30 Cf. 244v. . fl. Logo após a anexação. fl. Segundo historiava o procurador da Coroa. O mesmo parecia acontecer com os Setúbal e Messejana.300v. como se comprova pelo registo das cartas na respectiva Chancelaria. Ibidem. 23v. 32 Cf. mas apenas por isso. seria o facto de disporem de um “verdadeiro ouvidor” que dispensava tal atitude? É uma pergunta para a qual não temos resposta.118 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS siderado grande argumento. do monarca. A partir de 1681 há pedidos regulares dos eleitos anualmente para este município30. Estes seriam os “verdadeiros ouvidores do Mestrado”. quando morreu. 29 Cf. Ibidem. como se chegou a classificar no discurso da época. mesmo para o cargo de vereador32. noutros locais. o ouvidor de Avis não acumulava funções. Nesta mesma consulta. 148v. 255. mas não a confirmação dos eleitos: era competência. 28 Cf. Chancelaria da Ordem de Avis. confirmação de 1552.

é bem possível que muitas das comendas que implicavam a tutela das vilas tivessem pautas confirmadas pelo Desembargo do Paço. L. até quando se prolongou no tempo esta particularidade. 36 ANTT. L. O que parecia estar em jogo em Alpedriz.º 17. a confirmação dos eleitos para as câmaras pelo Governador perpétuo da Ordem seria um assunto por diversas vezes discutido e julgado favoravelmente no Juízo da Conservatória das Ordens Militares. Como se perdeu a documentação do citado Juízo. Alegava-se assim com a origem das terras para justificar a situação jurisdicional. fl. Até que ponto a proximidade da fronteira e o facto de ter sido comenda do Duque de Aveiro também não terão contribuído para essa manutenção? Não se sabe. privilégios que isentavam a Vila da jurisdição régia34. com os privilégios daí decorrentes. 34 Cf. assim. fl. .º 12. Pelo que mando aos officiaes da Camera do dito Lugar. Alegava-se. e Sem iSso não terá effeito. fl. indicava que se devia mandar fazer nova eleição. e a quem mais tocar lhe cumprão e guardem esta Provisam Sendo paSsada pela Chancelaria da mesma Ordem”33. 305.º 8. 427. L. na figura de Mestre. Também em Noudar. 157. 202v. Ibidem. não é possível esclarecer o problema. L. escrevia-se: “Achou o dito Juis do tombo que a Jurdicam da Justiça do crime E civel E governo da terra he do comemdador que he agora o comde de linhares E a teve tambem o duque daveiro Seu amtecesor porque esta comemda E terras dellas foram da igreiJa E da ordem de cystel E amtiguamente Sohya Ser E amtes delRey dom denis quãdo Eram de castella E vieram a Este Reino de portugal por virtude de hua demarquaçam”36. O reforço da ligação ao Mestrado seria um hipotético ponto de fuga. fl. feito em 1607. uma observação que todas as cartas de confirmação de Alpedriz e Alcanede referiam a partir dos anos 80 do século XVII35. fl. Mesa da Consciência. 35 Excepto em 1681.AS ORDENS MILITARES E O PODER LOCAL: PROBLEMAS E PERSPECTIVAS DE ESTUDO 119 monarca. no tombo da comenda. também. No século XVII. 33 Ibidem. no século XVII. 255.º 373. Tombos de Comendas. A última das quais teria ocorrido em 20 de Março de 1680. com os seguintes reparos: “cuja nova eleição virá a confirmar ao meu Tribunal da Mesa da Consciencia e Ordens. ANTT. eram problemas com os corregedores e outras autoridades de Leiria. Pondo de lado estes casos.

Não sabemos se o exemplo teria sido efectivamente imitado. nos seguintes termos: “E também pareçe que não ha que diffirir a dada. porém. teria solicitado à Coroa. E de que sabe dom christovão [de Moura]”37. No que respeita aos restantes ofícios das terras da ordem de Cristo e Avis.ª. . 4v. pois se conçedeo a seu pay cõ declaração que a averia Em sua vida somente”39. Nessa altura estaria ele em necessidades. fl. E pay a dita dada senão como Chançareis da dita ordem. Parte 1. sabe-se um pouco mais. e as justificações dadas são esclarecedoras... Primeiro. 84. Mç.5. fl.120 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS 4. Resta. pois gastara muito na Jornada de Alcácer-Quibir. E provisão dos offiçios do Mestrado de Christo porque alem de ser isto cousa muy grande E que não he justo tirarsse da Coroa estando Ja nella. Estas negociações ainda duraram mais três anos.) que por ser de Jurdição foi sempre de tanta consideração neste Reino que sou informado que a Rainha que Deus tem largou á das suas terras a ElRej pera cõ isso se moverem pessoas particulares a fazer o mesmo”38. numa carta régia de Junho de 1588 dizia-se que era “cousa muy grande (.º Conde de Linhares († 1608). fl. 4. não pareçe que o Comde tem a isso aução porque sendo esta dada do Comde seu pay como ChançareL do dito mestrado dessistio delle cõ declaração que lhe ficasse em hua vida a dada dos ditos officios E se lhe derão em satisfação disso cõ çem mil réis de tença en sua vida. E por sua morte os ouve o dito Comde. Vedor da Fazenda e partidário de Filipe II. pois a palavra “Mestrado” raramente era 37 ANTT. Sobre o que se terá passado na Ordem sedeada em Tomar. “a dada E provimento dos offiçios dos lugares do mestrado de Christo que foi de seu pay aVoos E visavoo que os governadores que forão destes Reinos lhe derão Em Setuvel ~a Certidão do Comde de Matosinhos que deu como diZ que consta de hu Em Elvas a V. A Coroa ao longo dos anos apontados reagiu-se sempre mal a este tipo de aspiração. 39 Ibidem. Corpo Cronológico. a dúvida se estes documentos se reportavam aos postos das comendas da Mesa Mestral e não aos das restantes comendas. 38 Ibidem. é importante atender à pretensões do 3. entre 1588 e 1591. 112. E por sua morte para seu filho mais velho os quaes elle açeitou. Mde. E se lhe passou padrão delles pello que não tendo os Comdes seu avoo. não pareçe que ha aução para a pretender. Passado um mês nova carta régia insistia na negativa. sem que o Conde alcançasse o seu intento inicial. doc. E tendo dissistido della cõ a dita satisfação que ora logra o Comde.. entre outras mercês.

e a de Fronteira na década seguinte. as cartas de ofícios continuavam a ser emitidas pela Chancelaria da Ordem. poder. fl. O cargo invocado tinha. Assim se fez. Sua Majestade mandara que o passasse a fazer o Desembargo do Paço. apesar de ser terra de uma Ordem Militar. ANTT. Averiguar a qualidade do sangue era uma das responsabilidades do Desembargo do Paço. porque fora provido um cristão-novo no lugar de juiz dos órfãos da Vila de Albufeira e o monarca terá pedido contas do sucedido. esclareceu-se a tramitação processual. como actualmente se tende a fazer.AS ORDENS MILITARES E O PODER LOCAL: PROBLEMAS E PERSPECTIVAS DE ESTUDO 121 usada como sinónimo de “Ordem Militar”. . por exemplo. fl. escrever e capacidades. com a Marquesa de Arronches. que podia nomear almoxarife nas suas comendas enquanto as administrasse41. onde pagava os direitos.111-112. com o facto de Dinis de Melo e Castro (162440 Cf. Mesa da Consciência. pelo escrivão da Câmara e Secretaria de Avis na Mesa da Consciência e assinava-as o Chanceler da Ordem. 41 Cf. Em termos globais. Ibidem. tinha perdido terreno. O diploma passava depois pela Chancelaria da Ordem. ultrapassou-se largamente a questão da apresentação dos oficiais. quem decidira o provimento fora o Desembargo do Paço. e com ela as Ordens Militares. ter-se-ia concedido a apresentação ou a data dos ofícios a uma ou outra personagem. A Mesa da Consciência. num caso ou noutro. em 1664. cerca de 1731. em nome do rei como administrador do Mestrado.º 302. as atribuições mais exorbitantes que se conhecem são as da comenda das Galveias (Ordem de Avis). Nestes casos. Cabia a este examinar o provido apenas na suficiência de ler. E provavelmente na manutenção de alguns formalismos teriam contado muito os ajustes quanto aos emolumentos e imposições afins. Deste modo. Recebera também uma mercê idêntica para as “suas terras” que constituíam bens da Coroa. As cartas de provimento emitiam-se. mas os procedimentos só revelam o quanto as aparênciam por vezes iludem. que também consultava sobre a atribuição do ofício. Em 1690. todavia. No caso da Ordem de Avis. apesar da carta figurar na Chancelaria e ser redigida pelo escrivão da Ordem. Embora o provimento dos oficiais das terras das Ordens pertencesse à Mesa da Consciência. Não se sabe desde quando. Assim ocorria na data invocada. todavia. Justificou-se a atribuição do senhorio das Galveias. não prejudicando esta instituição40. L. 320. como se comprova pela situação invocada Em qualquer das três Ordens Militares. apenas significado económico.

ª ed. Ver também ANTT.Alexandre da Paixão (Lisboa. ver Julio de Mello de Castro.diario de factos mais interessantes que succederam no Reino de 1662 a 1680. No caso da doação de Fronteira ao Marquês do mesmo título. sôbre o seu reinado. Na carta citada. António Mascarenhas o título de Conde de Palma. Em 1736.). 1940.º 15. do Conselho de Estado e Guerra dos Serenissimos Reys D. João V. a doação foi sucessivamente reno42 Sobre este General. excepto os das sisas e os de provimento da Câmara.segundo um manuscrito da Biblioteca da Ajuda. ed.128-129). com as prerrogativas que habitualmente podiam dispor os donatários da Coroa. Eduardo Brazão (apresentação e ed. Pedro II e D. pp. então General da Cavalaria do Exército do Alentejo. Cabia também ao agraciado apresentar os ofícios. esclarecia-se perfeitamente que se incluía a data de todos os ofícios. ANTT. n.Ed. nem a ameaça do uso da força fora suficiente para demover a população. fl. 1888. 46 Cf.º 245. para que tenha sômente o Dominio Util. Chancelaria da Ordem de Avis. fl. até hoje attribuido infundadamente ao benedictino Fr.n. L. Historia panegyrica da vida de Dinis de Mello de Castro. que em 1691 se tornaria no I Conde das Galveias.º 302. Mesa da Consciência. Chancelaria da Ordem de Avis. 345. terra espatária. Manuscritos da Livraria. L. 45 ANTT. 48 Segundo as Monstruosidades do tempo e da fortuna . a Cuja meza mestral. 1995 (1. O facto na época suscitou eco e mal estar. 44 Cf. L. Com declaração Expressa que por isto senão Entenda fazerselho prazo Em que tenha Lugar Renovação. 43 ANTT. s. D. Ficava com “sua Jurisdição. pois alienavam-se bens de teor eclesiástico44. Porto. fl. para que não fosse prejudicada47. Livraria Civilização. a qual se Entende. .º 168.374v-375. da viuva Sousa Neves . em 1670. em Alcácer do Sal.142v. esclarecia-se que a jurisdição delegada era a ordinária. Apesar dos protestos iniciais da população que não queria passar para a tutela de um particular48. E datas de officios tudo Em sua vida. A Mesa conseguiu demover Filipe III de Portugal deste intento46. pelos anos de 1620.122 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS -1709)42. ser capaz de a defender e fortificar no contexto da guerra que se vivia. ainda o facto do II Conde das Galveias nomear as justiças da Vila causava problemas ao Ouvidor que as pretendia explusar dos lugares45. primeyro Conde das Galveas. L. cujas cartas seriam passadas pela Mesa da Consciência. fl. Typ. Dinis de Melo e Castro ficava logo autorizado a impetrar diploma papal a corroborar a mercê. Afonso VI ..179-180. fl. Rezervando o Dominio direito â mesma ordem. 1721). que equivalia a uma quinta sua. fac-similada da de 1744. pagara Dez Cruzados Cada anno por Reconhecimento. 62. pp. 122. Lisboa. que ficara sendo Em utilidade da Ordem. para melhor Conservação da dita Sua Villa”43. 47 Cf.. Tombos de Comendas.º 16. se tentara dar a D. Mas sômente huma merce Em Vida. Já antes disso.

301. . Em síntese. Por parte dos seus membros. Fazer passar muitos poderes para as mãos dos comendadores era uma prática que suscitava receio ao centro político. “verdadeiros” ou não. mas não obstante tal facto. fl. muito por esclarecer neste âmbito. nomeadamente a religiosa e o direito de visitar igrejas e comendas. importa aprofundar o problema da actuação concreta dos ouvidores.º 27. os ouvidores eram encarados na época como ministros essenciais na defesa da património de jurisdições locais das Ordens Militares. pois nem todas seriam iguais. antes da tutela perpétua da Coroa sobre os três Mestrados. Chancelaria da Ordem de Avis. o comendador. Não será também descabido comparar os poderes exercidos nestes municípios e nos senhoriais (no sentido dos administrados por donatários laicos ou religiosos). a emissão dos diplomas procurava assinalar a marca das Ordens Militares. Os casos de Alpedriz e Alcanede merecem ser retomados. Desde logo. Quanto mais não fosse. fl. Ou terá ocorrido apenas onde não havia “verdadeiro ouvidor”? Será fundamental analisar a documentação local das terras das Ordens e a efectiva composição das várias câmaras. tendo em vista apurar o significado real do exercício de poderes deste teor a nível local. com poderes delegados. ainda confirmava alguns ofícios nomeados pelo donatário49. Em que medida constituiriam excepções? A Ordem de Santiago era aquela que dispunha de maior número de terras com jurisdição. todavia. L. que analisar as possíveis especificidades envolverá equacionar outras áreas. a anexação das Ordens à Monarquia facilitou que se confundissem as jurisdições locais das Ordens com as Coroa. alguns municípios das Ordens Militares caracterizar-se-iam por apresentarem um duplo e hierárquico senhorio jurisdicional: o Mestre e abaixo dele. em 1727-1730.AS ORDENS MILITARES E O PODER LOCAL: PROBLEMAS E PERSPECTIVAS DE ESTUDO 123 vada na mesma família. No entanto. A Ordem de Avis. Resta. 92.º 28. quando os comendadores e os senhores eram absentistas nas suas terras. pois o poder local – designadamente no caso das Ordens Militares – não se circunscre- 49 Cf. No começo de Seiscentos. não houve verdadeira incorporação. L. ainda se temia a raiz eclesiástica destes institutos e o seu foro privativo. porém. se bem que em muitos casos quem tomara a decisão fora o Desembargo do Paço e não nenhuma instâncias dos três Mestrados. Valerá a pena saber se o sucedido em Mértola teve paralelo em todas as vilas espatárias. Seriam os municípios das Ordens diferentes? Note-se. sobretudo nos século XVII e XVIII. ANTT. O rei era o Mestre.

pp. formadas essencialmente por dízimos. estavam autorizados a vender fora das terras de origem dois terços da receita50.124 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS via apenas ao direito de confirmar as câmaras e os restantes oficiais concelhios. Na realidade podia não ser um elemento inócuo. constituíam bons exemplos. podia matizar a vivência local. obrigando os comendadores a vendê-los na zona. Por fim. Algumas comendas espatárias do Algarve. problemas que só a documentação local pode ajudar a aclarar. O Algarve Económico: 1600-1773. No século XVIII. Estampa. Lisboa. eram palco de conflitos porque a população e as câmaras impediam a saída dos cereais. apenas nos bons anos agrícolas. 246-247. mesmo sem abarcar a jurisdição da vila. apesar do absentismo típico dos comendadores a partir do século XVI. 1988. vide Joaquim Romero Magalhães. Em anos de escassez frumentária. Enfim. 50 Sobre estas questões. convém pensar que a presença de uma comenda numa dada localidade. .

em meados do século XVI Vila Alandroal Albufeira Alcanede Alpedriz Alter Pedroso Avis Benavente Cabeço de Vide Cano Casal Coruche Figueira Fronteira Galveias Juromenha Mora Noudar Seda Seixo do Ervedal Vieiros Observações Mesa Mestral em 1532 Mesa Mestral Mesa Mestral Mesa Mestral em 1532 Elevada a Vila em 1538 .AS ORDENS MILITARES E O PODER LOCAL: PROBLEMAS E PERSPECTIVAS DE ESTUDO 125 Anexos Vilas onde a Ordem de Avis teria seguramente a jurisdição.

1631. cap. Bento de Avis.I. tít. 1619-1631 FONTE: Regra da Cavallaria e Ordem Militar de S.126 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Comendas da Ordem de Avis C. Lisboa. Yorge Royz. . XII.

as atitudes e os discursos relativos à pobreza e à miséria terem transformado estas questões num fenómeno político. aliás. Laurinda Abreu (ed. a que esteve a cargo da sociedade civil. No contexto português. Edições Colibri e CIDHEUS-UE. as de âmbito local. já que se sabe que foi no seio das comunidades que se encontrou a maioria das respostas aos sucessivos problemas criados pela transformação da economia e da sociedade que o Ocidente viveu ao longo do período moderno. 1 Foi. XVI-XVIII). que os poderes se apressaram a gerir mais de acordo com os seus próprios interesses do que com as necessidades dos pobres. Uma particularidade a que não será alheio o facto de. é ainda a assistência institucionalizada aquela que melhor se conhece e sobre a qual se possui informações mais consistentes. como bem se sabe – sobretudo devido ao quase desconhecimento das reais dimensões do papel que a Igreja desempenhou neste sector1 –. Muito especificamente. nas Misericórdias e nas Câmaras. Relações políticas e institucionais* LAURINDA ABREU (Universidade de Évora – Dept. as atenções centram-se. 2005. de que resultou o livro Igreja. 2004. Os Municípios no Portugal Moderno: dos forais manuelinos às reformas liberais Lisboa. Lisboa. contudo. pp. É aliás por esta razão que a análise das políticas assistenciais e de saúde pública requer o estudo prévio das estruturas do poder e das relações sociais estabelecidas entre as diferentes organizações que o detinham. que não é nossa intenção ava* Investigação realizada no âmbito do projecto POCTI/1999/HAR/33560: O papel das Misericórdias na sociedade portuguesa de Antigo Regime: o caso da Misericórdia de Évora. desde cedo. São precisamente estas duas instituições que constituem o objecto principal deste texto. realizado na Universidade de Évora em Junho de 2003. de História /CIDEHUS) Apesar de a recente historiografia sobre caridade e assistência se mostrar empenhada na reabilitação das formas de apoio e inter-ajuda ditas informais. 127-138.Câmaras e Misericórdias.). caridade e assistência na Península Ibérica (sécs. Nomeadamente. Esclareça-se. este pressuposto que esteve na origem do Colóquio Ibérico. . Bispos. Cabidos e Assistência na Península Ibérica (Séculos XVI-XVIII). Edições Colibri – CIDEHUS-UE.

e. todavia. Refira-se. de forma mais ou menos organizada. pela oposição que as caracteriza. sobretudo. as implicações decorrentes de um modo de actuação cujas directrizes emanavam da Coroa que.História da Miséria e da Caridade na Europa. De entre as transformações registadas merecem destaque. dentro das limitações existentes. para. 2 Das imensas obras que abordam esta questão. Expansão urbana e reorganização da caridade: as linhas de intervenção da Coroa portuguesa A partir da segunda metade do século XV o Ocidente viveu. Poverty and Deviance in Early Modern Europe. vejam-se os trabalhos de P. que. Basicamente o que nos interessa é identificar as principais competências das duas entidades no que respeita à saúde e ao bem-estar das populações – num tempo em que estes serviços eram organizados localmente mas não municipalizados –. e nalguns casos controlou. London. 2nd ed. Poverty and Policy in Tudor and Stuart England. A Piedade e a Forca . as tendências políticas – claramente centralizadoras – e a procura de soluções para os problemas sociais decorrentes das novas situações de pobreza. questionar as consequências sociais de tais decisões. Slack. de facto. destaquem-se a de Bronislaw Geremek. 1995 e a de Robert Jütte. diversificaram a oferta em termos de institutos assistenciais apostando na sua especialização. tornando mais violenta a legislação que. A. consequentemente. Lisboa. dos incontroláveis fluxos migratórios. Foram as cidades. assumidas aqui como mero ponto de partida para uma investigação de maior envergadura. um longo período de profundas mudanças que não deixaram incólume nenhum grupo social. e reforçaram o controlo da mendicidade. como é do conhecimento geral. estrutura política ou sector económico. avaliando. nem mesmo caracterizar os mecanismos político-institucionais que sustentaram a interdependência entre ambos e fortaleceram a sua capacidade de intervenção nas respectivas comunidades. acabou por a interditar2. condicionou.128 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS liar os fundamentos jurídicos das relações desenvolvidas entre as Santas Casas e os municípios. . em termos muito directos. de saúde pública que as cidades enfrentaram – estas a cargo das autoridades locais. nalguns casos. 1988. da mendicidade. Um trabalho que desenvolveremos a partir da identificação das linhas que orientaram a reforma da assistência iniciada em Portugal nos finais do século XV e dos objectivos políticos da actuação régia. Cambridge. finalmente. o carácter meramente introdutório de todas as considerações realizadas. experimentaram novas formas de assistência e novas políticas sanitárias. Especificamente para a realidade inglesa. 1996.. a forma como o sistema evoluiu.

que esteve na origem de vários Hospitais Gerais – uma reforma que foi precedida de inquéritos (1499 e 1501) que avaliaram o estado do património dos hospitais e demais institutos pios e aferiram do cumprimento da vontade dos seus instituidores –. VI. e. uma vez que aqui as políticas “modernas” de assistência aos pobres emanaram da Coroa e tiveram uma dimensão nacional. com a assistência às crianças desprotegidas. as elites já representados nas Câmaras Municipais. ainda que marcada pelos particularismos locais. confrarias que nasciam com uma renovada dinâmica de intervenção social. Manuel I no início do seu reinado. Arquipélago. ainda que os responsáveis pelas Misericórdias e pelas Câmaras pudessem ser os mesmos – frequentemente em sistema de rotatividade entre as duas instituições –. mas também com atribuições ao nível da repressão da mendicidade (diploma de 8 de Julho de 1503) –. o processo teve em Portugal características próprias que o individualizaram dos restantes modelos. que pela primeira vez viam reconhecido na lei (Ordenações Manuelinas) o seu direito à protecção3. Um elemento que seria matricial no processo a que agora se dava início era a não articulação entre as diferentes instituições detentoras de responsabilidades assistenciais e de saúde pública. Das linhas mestras da intervenção manuelina nos mecanismos de caridade e assistência apenas se alteraria a que conduziu a reorganização hos- 3 Cf. História. Laurinda Abreu. . distinção que os visados respeitavam muito particularmente quando as suas atitudes tinham repercussões económicas. Como temos vindo a defender já há algum tempo. Com esse objectivo a monarquia convocou «os melhores das terras». Assim aconteceu com a reforma geral dos hospitais ordenada por D. pp. com a fundação das Misericórdias – que o rei incentivou também em 1499. O mesmo é dizer. 2ª série. ainda. que tinha a particularidade de ser centralizada e orientada a partir da Coroa. Não nos princípios ideológicos ou nos objectivos programáticos mas sim na forma como foi conduzido. 420-421. que eram agora chamadas a associar-se a um projecto novo. tratou-se de uma reorganização das estruturas assistenciais e das suas competências de âmbito social alargado. Ponta Delgada. as suas incumbências institucionais eram diferentes conforme o lugar que ocupavam. 2002.CÂMARAS E MISERICÓRDIAS: RELAÇÕES POLÍTICAS E INSTITUCIONAIS 129 Sendo esta uma forma de actuação comum à maioria dos Estados Europeus. “A especificidade do sistema de assistência pública português: linhas estruturantes”. ao mesmo tempo que pretendia mobilizar os poderes locais para a sua execução. o das Misericórdias. procurando dotar o país de uma rede de confrarias especialmente vocacionadas para o apoio aos presos e aos pobres.

Lisboa. (Agradecemos ao Dr. 2003. 5 Cf. in Ole Peter Grell. sistemática e continuada. Consequências da intervenção da Coroa nos mecanismos assistenciais Em termos de resultados sociais a avaliação da eficácia da actuação da monarquia portuguesa nas matérias referidas apresenta indicadores diferenciados consoante o ângulo de análise adoptado. 151-176. 1983. Andrew Cunningham and Jon Arrizabalaga. 7 Cf. A Santa Casa da Misericórdia de Setúbal de 1500 a 1755: aspectos de sociabilidade e poder. “ Poor relief in Counter-Reformation Castille: An overview”. dos hospitais para a sua administração6. pp. quando se intensificou a promulgação de diplomas que as submetem a rigorosa regulamentação. Cambridge. (ed. 1990. Cambridge University Press. Jorge Fonseca a indicação deste documento). . pp. Henrique e Filipe II – não só não se afastariam das orientações iniciais como reforçaram as intervenções centralizadoras verificadas no início do século. n.130 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS pitalar – que D. Santa Casa da Misericórdia de Setúbal. pp. pp. Recorde-se. pp. Setúbal. a que se seguiu a transferência. 64 e ss. Poverty and welfare in Habsburgo Spain. Almansor – Revista de Cultura. Laurinda Abreu. Henrique que o direito nacional incorporou o privilégio das Misericórdias como confrarias de tutela régia5. Ler História. Manuel começou por separar das Misericórdias. Tendência que depois seria continuada pelo monarca espanhol que reforçou em Portugal as condições de intervenção da Coroa nos diversos ramos da assistência institucionalizada enquanto lançava em Castela o processo de centralização hospitalar7. Se este for estrita4 Conforme se pode concluir da leitura do alvará de 6 de Janeiro de 1518 pelo qual o rei retirou à confraria do Espírito Santo de Montemor-o-Novo o hospital que ela administrava entregando-o à Misericórdia com justificação de que a Santa Casa era a instituição melhor vocacionada para a administração do referido hospital . na Europa católica.º 8. por exemplo. a Igreja lutava pela recuperação do controle dos hospitais. numa orientação que de resto o próprio inflectiu acabando por reconhecer estas confrarias com vocação específica para a gestão dos hospitais4 – e a relativa ao combate à mendicidade e vagabundagem. Cf. E também Jon Arrizabalaga. 30-31.) Health Care and Poor Relief in Counter-Reformation Europe. competência que a Coroa já tinha recuperado no reinado de D. 6 Conforme chamámos pela primeira vez a atenção no nosso trabalho. Os dois governantes que depois de D. 1990. n. que foi durante a regência de D. 5-24. Um movimento que se reveste de uma importância crucial dado o facto de ocorrer num momento em que. Linda Martz. Manuel mais marcaram o rumo da assistência portuguesa no século XVI – o Cardeal D.º 44. 1999. 110-111. “Misericórdias: patrimonialização e controle régio (séculos XVI e XVII)”. João III. London and New York.

a mesma provisão que reconhecia a tutela régia sobre as Misericórdias (2 de Março de 1568) reforçava a posição da Igreja na sociedade portuguesa8. com plena propriedade e menores custos políticos. Na nossa perspectiva. E. devem exercer para bem do próximo”9. o surgimento de conflitos liderados por leigos contra a aplicação das determinações do concílio de Trento. entre a sociedade civil e a Igreja. Duarte Nunes do Lião. e realizado numa perspectiva de longa duração. respondia assim ao pedido que os estados gerais lhe haviam dirigido solicitando apoio económico para o combate ao problema da pobreza: “sua majestade não pode dar dinheiro algum para o sustento dos ditos pobres pois essa é uma questão que depende da caridade e da piedade que os bons cidadãos. Paralelamente. tomar para si as palavras do monarca francês. 9 Citado por Bronislaw Geremek. mesmo conciliatória. Dependente da caridade e piedade dos cidadãos sim. 10 Assunto que iniciámos em Memórias da Alma e do Corpo – a Misericórdia de Setúbal na Modernidade. a acção centralizadora da Coroa conseguiu não só o apoio de alguns prelados como impediu. os reis portugueses poderiam. Relevam de uma ordem diferente. 1987. lei 2. Em Portugal. (a publicar na revista Penélope). que escorava economicamente as instituições assistenciais. nomeadamente em relação à reforma dos hospitais e demais instituições caritativas. as polémicas que o tema da assistência estava a suscitar no resto da Europa. pp. que em 1586. Palimage Editores. A Piedade e a Forca . Viseu. tratou-se de um jogo de equilíbrio de forças que foi capaz de evitar. ao centralizar nas Misericórdias a assistência a vastos sectores da sociedade e ao fazer depender da Coroa a legislação relativa à mendicidade. Lisboa. Fundação Calouste Gulbenkian. da Santa Sé que permitiria aos hospitais a utilização dos bens deixados para a celebração das missas pelas almas do Purgatório para o financiamento das suas actividades assistenciais10. 1999. como bons cristãos. nesse sentido. as opções da Coroa podem ser consideradas como uma solução de compromisso. também é certo que a manteve sob os princípios religiosos tradicionais. e bastante mais negativa. 177-178. pp. a monar- 8 Cf. Os benefícios daqui recolhidos pela Coroa são evidentes. as consequências destas políticas ao nível das comunidades locais. se é verdade que o rei confiou aos leigos a responsabilidade por uma parte considerável da assistência institucionalizada à pobreza. XVI. tit.CÂMARAS E MISERICÓRDIAS: RELAÇÕES POLÍTICAS E INSTITUCIONAIS 131 mente político.História da Miséria e da Caridade na Europa. Isto porque. . ao que cremos. por exemplo. Leis Extravagantes e Reportório das Ordenações. mas também. ligada à caridade. pelo menos em Portugal. o mesmo é dizer. parte I. 153-171 e desenvolvemos em “A difícil gestão do Purgatório: os Breves de Redução de missas perpétuas do Arquivo da Nunciatura de Lisboa (séculos XVII-XIX)”. Isto porque.

em Évora. 12 Importantes informações sobre o assunto podem colher-se em Nicolau Agostinho. temas recorrentes nas actas das sessões camarárias. O mesmo aconteceu com os hospitais para convalescentes. a propósito. Sobre . 13 A questão da hospitalização esteve longe de ser pacífica no tempo em estudo. uma parteira e uma sanguessugadeira. pelas razões aduzidas. Évora. 11 Para o caso de Évora. perante situações de epidemia ou de ameaça de epidemia. Veja-se. logo que a situação acalmava tais projectos eram abandonados13. entre 1579 e 1637”. 1614. elaborassem planos para a sua construção. tão importantes em termos sociais e de saúde pública como os anteriores. e ao impedir a tributação específica para custear esse tipo de despesas – a não ser se os impostos se destinassem aos enjeitados – . o seu papel em termos sanitários. quase sempre de peste. a existência de tais profissionais não permite afirmar que as municipalidades administravam uma estrutura de assistência social minimamente consistente. Aqui sim. veja-se o nosso texto. e de forma particularmente activa. “A cidade em tempos de peste: medidas de protecção e combate às epidemias. para além da duvidosa eficácia da maioria das medidas tomadas11. Diferente era. Embora as edilidades reconhecessem a sua utilidade e necessidade e. Só para dar um exemplo. na maioria das cidades portuguesas a criação de hospitais temporários para os pestilentos foi fruto da iniciativa privada e da intervenção da Igreja12 e raramente dos municípios. A frágil situação financeira de muitos concelhos assim o determinava. cerceando-lhes quaisquer hipóteses de intervenção na escolha dos meios mais adequados à especificidade de cada espaço (como aconteceu em França. Granada. Porém. Rellaçam sumaria da vida do Illustrissimo senhor Dom Theotonio de Bragança. por exemplo). É certo que a maioria mantinha à custa das rendas dos concelhos um médico. ao não financiar o sistema criado. As provas de que as câmaras procuraram não se envolver demasiado na organização da assistência pública são múltiplas e bastante elucidativas. os monarcas facilitaram a desresponsabilização dos municípios em relação a esta questão. o caso da criação dos expostos que muitas câmaras transferiram para as Misericórdias assim que lhes surgiu a primeira oportunidade. a actividade e intervenção dos centros urbanos faziam-se sentir. no entanto. Além do mais. um sangrador – que quase sempre acumulava as funções de cirurgião –. no auge das crises. Contudo.132 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS quia condicionou a actividade das autoridades municipais. Abril de 2004. a correlação directa que se estabelecia entre a pobreza e a dimensão das epidemias. O receio do contágio e da propagação das doenças tornava importante a limpeza dos espaços públicos e a manutenção da salubridade das águas. Comunicação apresentada no VII Congreso ADEH. Francisco Simões. o poder local tendia a esquecer.

p. eram caritativos os pressupostos em que assentavam as estruturas das principais instituições assistenciais e eram religiosos os princípios registados nos estatutos que as governavam. 14 São muitos os exemplos de alvarás régios encontrados nas Chancelarias Régias onde se ordena às Câmaras que concedessem determinadas esmolas às Misericórdias. p. 1975. naturalmente. a assistência foi mantida demasiadamente ligada à «doutrina religiosa da caridade» que assumia a pobreza como uma questão ideológica. este assunto. Universidade Católica/União das Misericórdias Portuguesas. Lisboa. Elementos para a história do município de Lisboa. faziam-no a título de esmola e. quase sempre. João V”. Les Hommes et la peste en France et dans les pays européens et méditerranéens. Não significa isto que os senados não respondessem aos pedidos de ajuda financeira que as Santas Casas lhes dirigiam ou que ignorassem completamente os problemas em análise. Portugaliae Monumenta Misericordiarum. e centrando-nos exclusivamente no caso das Misericórdias. 15 Como aconteceu em Lisboa e é abundantemente documentado por Eduardo Freire de Oliveira. Todavia.CÂMARAS E MISERICÓRDIAS: RELAÇÕES POLÍTICAS E INSTITUCIONAIS 133 Chegados a este ponto. procurando que as municipalidades respeitassem os acordos financeiros estabelecidos tendo em vista a partilha das despesas16. o que aqui quer dizer. frequentemente governadas pelos mesmos homens. Mormente. como aconteceu em Évora –. muito mais frequente. mas à conjugação de esforços tendo em vista um fim que era do interesse da comunidade e dos seus líderes. porque sendo confrarias. 2002. 16 Os casos que melhor conhecemos são os de Setúbal e Lisboa mas muitos outros poderiam ser apresentados. Vejam-se alguns casos que arrolámos em “As Misericórdias portuguesas de Filipe I a D. depois de muito pressionados pelo poder central – que várias vezes obrigou as Câmaras a concederem esmolas às Misericórdias14 – e pelas próprias confrarias. em termos de assistência pública. Lisboa. . no caso da criação dos enjeitados. tomos II e III. Typographia Universal. à realização de acordos prévios entre o poder político e o religioso – ainda que eles pudessem existir. muito especificamente quando os seus hospitais soçobravam ao peso dos surtos epidémicos15 ou. regra geral. Mouton. dos vereadores e dos mesários das confrarias. Em segundo lugar. 63. as suas reivindicações não tinham peso nas decisões camarárias. das Câmaras e das Misericórdias. por opção da monarquia. uma actuação concertada como ocorreu noutros espaços europeus? Não nos referimos. porque. Em primeiro lugar. uma questão bastante pertinente se impõe: porque é que não houve em Portugal. 1887 e 1888. e como já mencionámos. 173. vide Jean-Noel Biraben. Como bem se sabe. quando os atendiam. Ou seja. Do meu ponto de vista essa articulação não existiu por duas razões principais. estas instituições não tinham representação política.

O resultado destas duas circunstâncias (natureza caritativa da assistência e ausência de representação política por parte das Misericórdias) parece-nos previsível: as Câmaras não se consideravam economicamente responsáveis nem pela assistência hospitalar nem pelas demais valências assistenciais asseguradas pelas Misericórdias ou pela Igreja. quase sempre reduzidas. de resto. a Câmara e a Misericórdia para. para voltar a utilizar a expressão atribuída a Henrique III. ultrapassando o permitido e o eticamente correcto. regressava a normalidade. Na verdade. Todavia. pelo menos no meu entender. através da imposição de tributos às populações. os notáveis locais agiam como políticos. São inúmeros os exemplos que o documentam. Isto porque. Enquanto mesários. e estas não privilegiavam a assistência. como os que recolhemos da documentação que neste momento estamos a tratar para Lisboa18. o cerne da questão. libertando as suas receitas. é que se assiste a acções harmonizadas entre a Coroa. E alguns deles verdadeiramente extraordinários. finda a crise. como as que se viveram em Lisboa na passagem do século XVI para o século XVII. quando estavam nas Câmaras. 19 Um diploma praticamente esquecido dos historiadores mas que contêm importante informação para o problema em análise. como claramente se infere do diploma filipino de 6 de Dezembro de 1603 – que junta vereadores e responsáveis pelas Misericórdias na mesma acusação de usurpadores dos bens das referidas instituições.134 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS A bem da verdade. não raras vezes. entre as autoridades municipais e as Santas Casas por questões económicas e de gestão patrimonial. cit. O financiamento da assistência pública é. E. não parece terem existido em Portugal conflitos jurisdicionais a propósito da assistência como houve em outros pontos da Europa. só em situações que poderiam ser consideradas de calamidade pública. Sem 17 18 Cf. Elementos para a história do município de Lisboa. As disposições eram provisórias e excepcionais e não alteravam o sistema instituído nem a forma como estava organizado17. com responsabilidades específicas. João V”. em prejuízo do bem público19. desse ónus. A partir da obra de Eduardo Freire de Oliveira. e graves. esperava-se que actuassem como “bons cristãos. se tentar controlar a miséria urbana e as elevadíssimas taxas de mortalidade hospitalar. Sempre que possível. colhendo os benefícios que a lei lhes concedia por exercerem tão importantes funções. E nesta imbricada relação institucional entre as Câmaras e as Misericórdias nem sequer se pode falar na existência de contradições. Do “Alvará em que se determinou que os provedores e officiaes da Mesa da Misericordia e hospitaes não podessem arrematar para . pp. para bem do próximo”. “As Misericórdias portuguesas de Filipe I a D. 47-77. Houve-os sim.

pagando pouco ou nada ao concelho. villas e lugares deste reino repartem entre si e as pessoas que costumão andar na governança. 17-18. assi para as despesas da Misericordia e hospitaes. a realidade portuguesa foi efectivamente mais negativa que a de outros países onde se desenvolveram formas de organização e de financiamento da assistência que a tornaram mais profissional e menos permeável às contingências das doações particulares. na minha opinião. Coimbra. As formas institucionais de apoio que existiram nas duas áreas pautaram-se pela desorganização e ineficácia. dando-as uns aos outros com título de arrendamento. pelo menos. como para as dos concelhos (…)». o que he causa de faltar sempre dinheiro para as cousas necessárias. e estas. 20 Conhecemos vários exemplos desta situação. Por outro lado. e que tomão sobre si as rendas das correntes. atente-se. por sua vez. A primeira porque cerceou a capacidade de intervenção das autarquias. dos lugares aonde a ha. Tomo I. pp. faltam-nos estudos comparativos que nos permitam avaliar se. E que outrosi os provedores e officiaes das confrarias da Misericordia. na Real Imprensa da Universidade. em nada contribuiu para a excelência desse mesmo sistema. publicadas em 1603.CÂMARAS E MISERICÓRDIAS: RELAÇÕES POLÍTICAS E INSTITUCIONAIS 135 esquecer o manancial de informações sobre as irregularidades de gestão patrimonial cometidas pelos irmãos que nos são transmitidas pelas actas e contabilidade de muitas Santas Casas20. trazem usurpadas as mais propriedades da Misericordia. as propriedades do concelho. ao defender o direito da liberdade da esmola e da mendicidade. Todavia. ainda que mais em pormenor o da Santa Casa da Misericórdia de Setúbal. e os sobejos dellas gastão sem ordem alguma. no seu preâmbulo: «Eu ElRei faço saber aos que este alvará virem que sou informado que os vereadores e officiaes das camaras de muitas cidades. a ideologia que estava subjacente ao sistema criado. porque não reclamaram poderes neste campo a não ser em tempos de crise ou em questões de índole sanitária. si cousa alguma”. os centros urbanos portugueses não tiveram ao longo do Antigo Regime uma política estruturada de assistência aos pobres ou mesmo de saúde pública. devendo as responsabilidades serem acometidas. repartindo-as entre si e seus parentes. em simultâneo. os alvos a atingir e os métodos a usar. em termos de resultados sociais. dificultava a gestão racional das capacidades assistenciais das Misericórdias e de outras instituições similares. de que resulta mui grande prejuizo ás rendas dos concelhos e obrigações das ditas confrarias da Misericordia. sobretudo. A ausência de regulamentos que definissem prioridades assistenciais e. . que são de minha protecção. conforme demonstrámos em trabalhos anteriores. à Coroa e às elites locais. 1819. Collecção Chronologica de Leis Extravagantes posteriores á nova compilação do reino das Ordenações do Reino. Dezenas de documentos das Chancelarias Régias atestam situações semelhantes registadas um pouco por todo o país. Para concluir.

às prostitutas – Recolhimento da Madalena22 e aos pobres e mendigos – Hospício e Irmandade da Piedade (1587)23. pp. Mas as generalizações são potencialmente perigosas e comportam riscos demasiado elevados. melhor dizendo. a cidade cumpriu um projecto assistencial que. se não contou com a participação do município. “Trento. Manços”. quando nos centramos em Évora. pelo contrário. mas. em publicação no volume de homenagem ao Professor José Marques. “Reclusão e controle dos pobres: o lado desconhecido da assistência em Portugal”. caridade e assistência na Península Ibérica (sécs. 5-VIII – Livro dos estatutos desta casa. Teotónio de Bragança (1578-1602). XVI-XVIII). pelo menos durante três ou quatro décadas. que tenhão pera isso hospitaes»24. demarcar esferas de influência ou afirmação de poderes. pp. entre o arcebispado e a Misericórdia. . Transcrição apresentada no nosso texto “O hospício e irmandade da Piedade. a mulher e controlo social: o colégio de S. A existência do Hospício da Piedade permitiu. contudo. vol. 2002/2003. Nunca doentes «de qualquer infermidade das que em o dito hospital costumão curar. 275-289.527-540. autor de várias reformas no domínio da assistência que dotaram a cidade de estruturas com algum grau de especialização ao nível da assistência às raparigas de elevado estatuto social – Recolhimento de S. in Instituicoes e regimentos que pertencem ao padroado do arcebispado de Évora mandados collegir pelos senhores Deão e Cabido sede vacante em Junho de mil e seiscentos e trinta e quatro annos. O seu objectivo não era. Tomo XXXVI. pelo menos. A necessidade de separar competências foi. em Évora – uma experiência de reclusão e controle de pobres em Portugal”. se dedicasse mais especificamente ao tratamento dos doentes e perdesse durante algum tempo a 21 Sobre as vicissitudes inerentes a este Recolhimento leia-se Marco Liberato. Coimbra. Teotónio de Bragança. potenciar resultados. Faculdade de Letras. por exemplo. 24 Arquivo do Cabido de Évora. peregrinos e convalescentes. “Revista Portuguesa de História”. detectamos que. administrado pela Misericórdia. Cec. que o Hospital do Espírito Santo. Por exemplo. com consequente partilha de responsabilidades entre a Igreja e a comunidade. uma preocupação recorrente nos escritos de D. I. Igreja. beneficiou. Universidade do Porto. e não curar as infirmidades dos doentes. 22 Continuamos à procura da documentação deste instituto que complemente as dispersas informações que sobre ele possuímos. porque o intento desta hospedaria he remediar as necessidades dos saos. O seu principal mentor foi o Arcebispo D. da existência de relações institucionais minimamente organizadas. Laurinda Abreu. 23 Cf.136 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Aparentemente parece-nos que sim. na verdade. que a deixou registada de uma forma clara nos Estatutos da Piedade: ao Hospício cabia o acolhimento temporário dos pobres. Manços21 –. e hospedaria dos pobres de Nossa Senhora da Piedade da cidade de euora.

podemos afirmar que a intervenção de D. . XVI-XVIII). O seu propósito era procurar garantir a sobrevivência dos seus pobres: os milhares de migrantes sazonais que anualmente acorriam ao Hospital do Espírito Santo. conforme se conclui da análise dos registos de entradas no referido hospital nos anos que se seguiram à criação do hospício25. os presos ou os doentes das quadrelas28. mais material. pp. A estas vertentes da assistência acrescia ainda a questão da mendicidade e da vagabundagem. “The Hospital do Espírito Santo. and its relationship with the city”. Igreja. circunscrita a um pequeno grupo de naturais de Évora26. em tempos de peste29. 27 Algumas informações sobre esta instituição já exclusivamente com funções de recolhimento para raparigas pobres podem encontrar-se em Sílvia Mestre e Marco Loja. assente em três realidades de certa forma distintas ainda que complementares. uma terceira. Manços. ainda que com algum anacronismo. centrada nas questões de saúde pública. era assegurada pela Igreja e ministrada nos Recolhimentos da Piedade27. 25 Cf. Colégio dos Órfãos e Colégio de S. E. finalmente. 291-298. mas que estava quase exclusivamente sob o controle da Coroa. da responsabilidade da Câmara Municipal. pedagógica e moralizadora. 26 Conforme os dados que já coligimos para os recolhimentos da Piedade. de assistência social institucionalizada. “O recolhimento de Nossa Senhora da Piedade de Évora: uma instituição de assistência pós-Tridentina”. problemas de maior importância para as urbes. Lázaro. cobria um vasto leque da população e estava a cargo da Misericórdia. particularmente interventora em tempos de desordem do quotidiano. 28 Basicamente tratava-se de um sistema de apoio domiciliário em que a cidade era dividida em “quadrelas”. as crianças que eram depositadas no Hospital de S. um cirurgião e um sangrador. ou seja.CÂMARAS E MISERICÓRDIAS: RELAÇÕES POLÍTICAS E INSTITUCIONAIS 137 valência de albergue para pobres. as mulheres sozinhas que eram subvencionadas regularmente. caridade e assistência na Península Ibérica (sécs. São Manços e Madalena e. chamemos-lhe. Uma segunda. comunicação apresentada ao I Encuentro de Demografía Historica de la Europa Meridional. Teotónio contribuiu para a fixação de um sistema. desde 1649. Maio de 2003. Os inúmeros registos de “doentes da Piedade” que se encontram no hospital e as referências a “convalescentes da Misericórdia” existentes na documentação da Piedade mostram bem até que ponto foram cumpridos os propósitos dos mentores deste projecto. o nosso texto. Menorca. A primeira de cariz educacional. Ainda que analisada à escala local. in Évora. fundado pelo cónego Manuel de Faria Severim. cada uma delas entregue a uma equipa constituída por um médico. no Colégio dos Órfãos. as órfãs dotadas para casamento.

também não é menos correcto que as linhas mestras que enquadraram a sua actuação tinham sido definidas pelo governo central. à imposição dos próprios provedores. É certo que a capacidade de a Coroa impor as suas políticas a todo o país era bastante limitada e. João V”. Portugaliae Monumenta Misericordiarum. “O relacionamento do Arcebispado com a Misericórdia de Évora entre 1552 e 1643”. durante os surtos de peste. cit. 49-51. também para as questões da assistência o rei estava dependente do bom desempenho das elites locais30. O que se repetia quando. é indiscutível. Neste sentido. anulava as deliberações camarárias. pp. Ou seja. . como aconteceu frequentemente desde o início do século XVIII31. Igreja. pp. XVI-XVIII). 225-237. como bem demonstram as sucessivas interferências régias no quotidiano de muitas Misericórdias. Já representadas nas Câmaras. e justificámos. E se é verdade que poucas cidades terão beneficiado de uma intervenção tão dinâmica e abrangente como aquela que D. nalguns casos. em Évora. não só por razões financeiras. 30 Para o caso especifico de Évora consultem-se os trabalhos de Rute Pardal. Com relativa autonomia. caridade e assistência na Península Ibérica (sécs. o não incentivo à partilha de responsabilidades assistenciais entre os dois principais órgãos do poder local não pode deixar de ser visto como uma afirmação de poder por parte da monarquia. 31 Veja-se uma síntese da evolução da legislação relativa a esta questão em “As Misericórdias portuguesas de Filipe I a D. nomeadamente. entre 1579 e 1637”. em “A cidade em tempos de peste: medidas de protecção e combate às epidemias. o que conduziu. mas sem capacidade para procederem a mudanças estruturais.138 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Este trabalho de reconstituição das estruturas assistenciais da Évora moderna. elas seriam igualmente chamadas a gerir os destinos das Misericórdias. muitas vezes sem consultar os vereadores. Teotónio protagonizou em Évora nas décadas finais de Quinhentos. 29 Como escrevemos. ainda em curso. permitiu-nos dar fundamento documental à tese que temos vindo a defender segundo a qual as medidas de carácter centralizador tomadas pela monarquia portuguesa durante o século XVI foram determinantes para a forma como o sistema evoluiu ao longo dos dois séculos seguintes.

um universo muito mais restrito que o das edilidades. naturalmente. que abrange nesses dois domínios toda a população residente1. Livro I. pelas Câmaras. 34. (dissertação de mestrado policopiada). as Misericórdias são. por exemplo. em termos jurídicos e jurisdicionais. à autonomia que ambas gozaram – embora esta fosse tutelada pelo rei. e por isso relativa. consubstanciada na liberdade de promulgação das posturas ou acórdãos de cariz organizativo da realidade local. Nesta linha de pensamento. A importância desta competência revelou-se na irrevogabilidade das suas decisões quer por parte do representante local do rei – o Corregedor2 –. quando nos referimos às similitudes entre Câmaras e Misericórdias. 2003. Universidade de Évora. o que mais se destacava era a capacidade legislativa que possuíam. . Comecemos. As elites de Évora ao tempo da dominação filipina: estratégias de controle do poder local (1580/1640). 2. Edições Colibri – CIDEHUS-UE. Évora. 2 Assim se infere da leitura das Ordenações. e da base de recrutamento social dos seus órgãos directivos. quer por parte do próprio rei. Se são bem conhecidas as relações institucionais entre as Câmaras e as Misericórdias. Rute Pardal. referimo-nos. nomeadamente a nível administrativo/jurídico. pois. Ordenações Afonsinas. pp. ao nível administrativo/jurídico e financeiro. Isto apesar das diferenças óbvias entre ambas. 2005. p. Título Os Municípios no Portugal Moderno: dos forais manuelinos às reformas liberais Lisboa. Em termos administrativos. financeiro. 1 Cf. dos processos eleitorais. 139-148.As relações entre as Câmaras e as Misericórdias: exemplos de comunicação política e institucional RUTE PARDAL (CIDEHUS) 1. também sabemos que as duas instituições partilhavam características semelhantes. Cf.

Lisboa. 2002. por outro. 7 No caso de Évora. Daí a preocupação dos concelhos em lançar posturas e vigiar o seu efectivo cumprimento. § 28. a tarefa não era fácil uma vez que se. Lisboa. a acção das Câmaras alargava-se à tributação e ao tabelamento dos produtos cerealíferos e. cabia à vereação providenciar de modo a fornecer a população dos bens alimentares e manufactureiros. a fragilidade ou mesmo inexistência de um sistema de saneamento público não só dificultava o trabalho legislativo. (José Mattoso dir. 1993. os arranjos das calçadas e arruamentos. Competia-lhe também zelar pela higiene e saúde pública. a acção concentrava-se. especialmente temidas em tempos de peste. Ordenações Filipinas. 3 O assunto já foi referido por vários autores: Entre eles. estradas e pontes. chafarizes e fontes6. sanitárias e de policiamento. «Os concelhos». O Minho e os seus municípios. Ou seja. como também a obrigação do cumprimento das posturas por parte dos oficiais concelhios7. Ainda no domínio agrícola. em sectores vitais para a comunidade. XXVII. nomeadamente o importante sector do abastecimento3. sem ir mais longe. E. reservando-se normalmente para as posturas a fixação do custo das obras dos mesteres4. Título LXVI.). Título XLVI. 1988. História de Portugal. Na sessão de vereação de 5 de Janeiro de 1618. a regulamentação do quotidiano. temos a evidência dessa mesma dificuldade em vigiar cabalmente a limpeza da cidade. Círculo de Leitores. Todavia. Braga. Belchior da Maia foi . Os homens.140 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS O âmbito desta autonomia dos concelhos foi. O Porto e o seu termo (1580 – 1640). e acabavam por taxar praticamente todos os géneros alimentares. 629-630. 1995. Por outro lado. as especificidades das situações e o subsequente desajuste dos mesmos exigia um constante preceituar regulamentador. p. Em termos práticos seriam os Almotacés que tomariam contacto diário com os vendedores de todos esses produtos. vide José Viriato Capela. documentos para a História do Porto. 4 Cf. Universidade do Minho. as instituições e poder. 5 Apesar de alguns destes aspectos já estarem conformados nos forais. a alçada do concelho estendia-se àquilo que definiríamos como «sector das obras públicas»: ou seja. prioritariamente. preocupações maiores para comunidades demograficamente carentes e financeiramente debilitadas. assim como de todas as manufacturas produzidas pelos artífices5. ainda. Livro I. Absolutismo e Municipalismo em Évora: 1750-1820. vol. em matérias agrícolas. A nível urbano. por um lado. sobre o despejo de detritos nas ruas devido às consequências que tais actos poderiam ter em termos de propagação das doenças. De facto. §16. Francisco Ribeiro da Silva. regra geral. Edições Colibri. Porto. Ordenações Manuelinas. 6 Cf.III. Câmara Municipal do Porto. XLVI. 179. Teresa Fonseca. Arquivo Histórico. § 9. Livro I. entre outros. Joaquim Romero Magalhães. a falta de hábitos de higiene era generalizada. pp. das carnes e do peixe.

Lisboa. n. na sua ausência. ou se quisermos da assistência. Todavia. os concelhos tiveram competências importantes. Arquivo Distrital de Évora. Livro 9. Fundação Calouste Gulbenkian. 10 Apesar das tentativas de embargo por parte do reitor do mosteiro de São João. Esta seria. Livro dos Privilégios do Hospital. Cf. Livro I. A circulação de crianças na Europa do sul: o caso dos expostos do Porto no século XVIII. Ordenações Manuelinas. por exemplo. Isabel Guimarães dos Sá. § 10). que ficaria com esse serviço até que a legislação liberal lho tirou. foi nas Ordenações Manuelinas – a primeira vez que em Portugal se legislou sobre esta matéria –. antigo Provedor do dito Hospital.º 47. «The Évora foundlings between the 16th and 19th centuries: the Portuguese public welfare system in analysis». 1995. 77. fl. a Câmara também teria demonstrado anteriormente que estava interessada em assumir novamente a administração do Hospital de São Lázaro e a criação dos enjeitados. ACME). (Cf. ADE. e aí ficaria até 1586. fl. que abrangia as respectivas amas. ASCME). Na verdade. ano em que regressou novamente para a alçada da Câmara11. p. September 13th-16th. que pedia «que lhe desse renda» para que pudesse criar os enjeitados comodamente. pouco depois da sua criação. nem sempre o dito acordo foi cumprido. em primeiro lugar. 54-55). Título CXVII. (Cf. n.RELAÇÕES ENTRE AS CÂMARAS E AS MISERICÓRDIAS 141 Sobre outro domínio. ainda da saúde pública. JNICT. Em 1618 retornou à Santa Casa. E. Em Évora. Paulatinamente. Mas a autonomia administrativa dos concelhos seguia lado a lado com a autonomia financeira. o que incluía a assistência médica. European Association for the History of Medicine and Health – 5th Conference. os hospitais ou albergarias. 9 Apesar da responsabilidade dos enjeitados ter passado para as Misericórdias. A Santa Casa da Misericórdia de Setúbal de 1500 a 1755: aspectos de sociabilidade e poder. seriam responsabilizados. 679). 8 Nestas Ordenações estabeleceu-se uma espécie de hierarquização de responsabilidades relativamente à criação dos enjeitados. Santa Casa da Misericórdia de Setúbal. à missiva da Misericórdia. juntamente com a administração do Hospital de São Lázaro10. por ordem de prioridade. . em alternativa lhe retirasse o encargo da criação.º 47. a criação dos expostos seria transferida para a alçada destas últimas9. alguns concelhos acordaram em comparticipar nas despesas com as crianças. (Cf. nomeadamente no que respeita à criação dos enjeitados.º das actas da Câmara. ADE. Livro dos Privilégios do Hospital. Geneva Medical School. Arquivo da Santa Casa da Misericórdia de Évora (doravante ADE. 21-22). obrigação dos pais e. ASCME. Arquivo da Câmara Municipal de Évora (doravante ADE. 55-66. e os concelhos. 11 O rei respondeu. Laurinda Abreu. ainda. Por outro lado. que os concelhos foram chamados a intervir a favor das crianças desprotegidas8. Esta consubstanciava-se na faculdade dos próprios admoestado por se constar que as ruas da cidade estavam muito sujas. pp. os parentes. e quase sempre associada ao movimento de anexação dos hospitais às Santas Casas da Misericórdia. 1990. Health and Child Care and Culture in History. ou. desta forma. Idem. Setúbal. o cuidado dos expostos foi entregue à sua Misericórdia em 1568. 2001. fls. (Cf.

em muitos dos municípios era executada por indivíduos eleitos localmente. Título XLIV.. Os Juízes de Fora eram nomeados pelo rei. . ora outorgando competências fiscalizadoras aos Provedores das comarcas. as suas competências eram semelhantes às dos Juízes de Fora.. no essencial. como por exemplo. limitava a actuação dos Provedores das comarcas14. Lisboa. António Manuel Hespanha. a autonomia administrativa das Misericórdias também decorria da faculdade de serem as próprias. em favor da Misericórdia de Lisboa. o alvará régio de 24 de Janeiro de 1582. As elites de Évora. 36). a cobrar as receitas. Ordenações Filipinas. cit. Como referimos.º48. facto que.. os colocava sob a tutela régia. Por outro lado. 14 Todavia. a justiça. (Cf. Livro I. Apesar disso. Assim sendo. no plano jurisdicional interno. (Cf. (Cf. as Misericórdias também usufruíram de uma apreciável autonomia. Título LXV). depois de aprovados pelo Desembargo do Paço.. a Coroa só muito tardiamente conseguiu estender uma rede de Juízes de Fora a grande parte do país. ora cerceando-lhas. Título LXV). ou de autonomia jurisdicional. Todavia este autor. As vésperas do Leviathan. Como é do conhecimento geral. por exemplo. o que. (Cf. o judicial. Livro de privilégios da Santa Casa da Misericórdia de Évora. não dependendo de nenhuma outra instituição para fazer aprovar o seu orçamento.) ”.142 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS municípios arrecadarem as suas receitas para fazerem face às despesas. Ordenações Filipinas. não foi nem permanente nem definitiva. 1986). É de facto. nomeadamente no que se refere à eleição. n. com base nas Ordenações Filipinas que António Espanha corrobora as semelhanças nas atribuições dos Juízes de Fora e Juízes Ordinários. Pelo contrário. Livro I. Portugal – século XVII.. tinham jurisdição privativa em relação aos Corregedores e maior alçada que os Juízes da terra.. os Juízes Ordinários12. Ordenações Manuelinas. em pri12 Enquadrando-se a matéria da sua acção na matéria da autonomia judicial de que os concelhos dispunham. o privilégio fundamental era o de poder aceitar e excluir irmãos sem dar satisfação a quaisquer tipos de justiças e oficiais13. em grande medida resultante da imediata protecção régia. pp. fl. quando a actuação régia se pautou pela ambiguidade. ASCME. Livro I. ainda que não abrangessem um universo social tão vasto quanto o das Câmaras. menciona que subsistem algumas diferenças. ou seja. Para uma visão mais aprofundada sobre esta questão veja-se Rute Pardal. 13 Tal como o demonstra.n. Por isso. à semelhança das Câmaras. e ainda no domínio das rendas. 2 vols. Mas no seio dos concelhos existiam ainda outros domínios relativamente autónomos. Instituições e poder político. ADE. 67-68. que lhes conferia variados privilégios em diversos domínios. onde de se refere que. estes últimos eram eleitos localmente e eram inspeccionados pelos Corregedores. Para além disso. o conteúdo da sua influência restringia-se apenas aos feitos cíveis que envolvessem bens móveis e imóveis. “ o mesmo poderão fazer e farão no que tocar a receber irmãos ou os despedir quando lhes parecer sem serem obrigados a dar conta nem rezão aos que assi despedirem nem a nenhumas minhas justiças nem oficiais (. esta prerrogativa. em última análise. s..

Em segundo lugar. Lisboa. de modelo paras restantes Santas Casas. Centro de Estudos e Formação Autárquica. Uma liberdade condicionada nas Câmaras pelo facto de essas escolhas terem de ser sancionadas pelo rei ou pelo donatário. Tipographia da Academia Real das Sciencias. de um Juiz privativo como executor das suas rendas e esmolas. As Misericórdias também não estariam isentas da tutela e da intervenção régia. p. Neste ponto. Viseu. Palimage Editores. 18 Tal como aconteceu em Setúbal e Évora. Maria Helena da Cruz Coelho. (Cf. em Maio de 1558. que a eleição dos oficiais concelhios se fizesse pela maneira dos pelouros. aos finais da Idade Média16. as Misericórdias podiam dispor. o processo de escolha dos seus dirigentes mais importantes ser feita de forma colegial. . (cf. João I. com base na sua obtenção por parte da Misericórdia de Lisboa. 17 Cf. Neste documento dá-se a entender nitidamente que a eleição dos oficiais locais não era de modo nenhum pacífica. se o processo de afunilamento da escolha dos oficiais camarários remontou. Não obstante. Não obstante. eles passaram também pelos processos eleitorais. o mais importante a reter parece-nos ser o facto de. os pontos de contacto entre estas duas instituições não se ficaram pelos aspectos administrativos. apesar do plano de actuação das Câmaras e Misericórdias ser diferente. não podemos deixar de parte o empenho que. ou seja.RELAÇÕES ENTRE AS CÂMARAS E AS MISERICÓRDIAS 143 meiro lugar. A Santa Casa da Misericórdia de Lisboa: subsídios para a sua História. p. por isso se procedeu à restrição do número dos considerados capacitados a intervir no processo. anexo IX. nas Misericórdias ele foi contemplado logo de início no compromisso de 151617 da Misericórdia de Lisboa – que serviria. 321). 598 e passim. p. Joaquim Veríssimo Serrão. Coimbra. através do alvará de 12 de Junho de 1391. Laurinda Abreu. 1999. e apesar de não ser um movimento simultâneo em todas as Misericórdias15. não tinham a obrigação de verem aprovadas as pautas das eleições que anualmente faziam. da mesma maneira que os almoxarifados e recebedores do rei arrecadavam a fazenda real. ou seja. essencialmente quando havia suspeitas de distúrbios. ou incumprimento dos processos eleitorais18. O poder concelhio das origens às cortes constituintes. 16 Por isso. em Portugal. Mas. desde D. tanto os municípios como as Santas Casas tinham liberdade de escolha dos seus magistrados e oficiais. tal como os seguintes. jurídicos e financeiros. 15 Com efeito este foi um privilégio que as Misericórdias foram solicitando ao rei. Memórias da alma e do corpo: a Misericórdia de Setúbal na modernidade. Quinhentos anos de História. 1902. os monarcas puseram na clarificação do processo eleitoral das magistraturas municipais. Lisboa. 1998. elas tinham a possibilidade de arrecadar as suas dívidas via executiva. 129). (Cf. Ainda no campo eleitoral. 1986. e. Joaquim Romero Magalhães. Victor Ribeiro. de forma indirecta e não de modo a permitir a participação alargada dos irmãos ou dos munícipes. Este rei estabeleceu. Livros Horizonte/Misericórdia de Lisboa. A Misericórdia de Lisboa.

81. senhores da vila: elites e poderes locais em Mértola no século XVIII». vol. Idem. 21 Cf. ou seja. quando aqui nos referimos a oligarquias. «Senhores da terra. Maria Helena da Cruz Coelho. 1993. ou oligarquização. regra geral. 1997. A identificação destas características. Análise Social. pp. XXVIII (121). 324-325. Rui Santos. pp. A Santa Casa da Misericórdia cit ….». Sobre estas questões veja-se. «Elites Locais e mobilidade social em Portugal nos finais do Antigo Regime». Nuno Gonçalo Monteiro.IV. Os primeiros estudos sobre esta problemática surgem já na década de sessenta do século XX. pretendemos fazê-lo no sentido estrito da palavra.144 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS 3. que. O poder concelhio … cit. 341). História de Portugal. um factor que nos pode remeter para a formação de oligarquias locais19. vol. p. Nele ficava bem vincada a rotatividade entre os cargos concelhios e da Santa Casa. Quando o rico se faz pobre: Misericórdias.. Lisboa. As elites de Évora … cit. Nuno Gonçalo Monteiro. Rute Pardal. XXXII. Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses. O mesmo é dizer. Lisboa. 19 Sem pretender-mos entrar em conceptualizações. vol. caridade e poder no império português – 1500/1800. 1997. grupos formados por um número restrito de indivíduos. controlavam o poder nas Câmaras e nas Misericórdias.25-50). Este estudo teve continuidade nos últimos anos. «Elites e mobilidade social … cit. 22 Ibidem. isto é: governo de poucos e predomínio de um pequeno grupo de pessoas e famílias. pp. 20 Sobre a essência da perpetuação nos cargos por parte das elites locais. tendo surgido vários trabalhos que demonstram que a maior parte dos irmãos das Misericórdias pp. com o objectivo explícito de se autoperpetuarem na governação de ambas as instituições20. 345-369. Círculo de Leitores. é importante referir que. É certo que a denominação “oligarquias municipais” tende a conferir uma identidade social a uma categoria institucional «a dos vereadores camarários» cuja existência como grupo social carece de demonstração”. ao utilizarmos o termo oligarquias estamos conscientes dos recentes debates que tem suscitado o seu uso.º). p. pp.50-51. «Os concelhos e as comunidades. veja-se Joaquim Romero Magalhães. Vejam-se ainda os exemplos apontados em Isabel dos Guimarães Sá. Laurinda Abreu. 1993 (2. mas também entre outros ofícios régios e da ordem de Santiago22. Contudo. E ainda. Análise Social. pp. parece-nos importante porque cremos que foram elas que facilitaram aquele que sabemos ter sido um comportamento habitual ao longo do Antigo Regime. pp. mas seria apenas em finais dos anos 80 que ele seria quantificado no estudo sobre a misericórdia de Setúbal21. como é óbvio.339-345. 143-150. válida para todo o Antigo Regime e para todos os espaços até agora estudados – com oscilações locais. 143-150. a circulação de indivíduos entre as duas instituições. . 333-338. que são do domínio comum. pp. Esta é uma situação recorrente. (Cf. entre outros.

p. 130. p. as estratégias de controlo alargavam-se a variados campos. 26 Apesar do caso de Vila Viçosa ser específico. A Casa de Bragança … cit. Como já referimos. Mário José da Costa Silva. Maria de Lurdes Rosa. 1997. e de Ponte de Lima. a rotatividade entre estas duas instituições constituía.. Ainda para Vila Viçosa. tão característicos da sociedade de Antigo Regime30. no entanto importante abordar o sistema eleitoral enquanto factor que contribuiu para manutenção do poder local e para a elitização. pp.. p. Maria Marta Lobo de Araújo. Mafalda Soares da Cunha.1% em Ponta Delgada24 e os 71% em Évora25. 57-199. um dos elementos que permitiam a autoperpetuação daqueles que controlavam estes órgãos do poder local. Poder e conflito. Santa Casa da Misericórdia de Vila Viçosa. 27 Américo Fernando da Silva Costa. em percentagens que chegam a atingir os 75% em Montemor-o-Velho23. mas . 177. Estampa. o sistema de reprodução vincular e as redes clientelares exerciam um papel determinante. espa- ço de sociabilidade. pp. 1998. 1999. O morgadio em Portugal. (dissertação de mestrado policopiada) 1996. os 71. 2000. (Cf. O mesmo se verificou no caso do Porto. 236-244. 30 Este processo de elitização percorreu não somente as Câmaras e as Misericórdias. pp. Parece-nos. A Casa de Bragança – 1560/1640: práticas senhoriais e redes clientelares. 4. poder e conflito (1546-1803). em última análise. (dissertação de mestrado policopiada). apesar de não fornecerem dados percentuais sobre esta estreita ligação. 29 Sobre este assunto veja-se Nuno Gonçalo Monteiro.RELAÇÕES ENTRE AS CÂMARAS E AS MISERICÓRDIAS 145 ocuparam cargos nas Câmaras. pela sua complexidade. Já os trabalhos sobre as Misericórdias de Vila Viçosa26 e Guimarães27. 25 Rute Pardal. Coimbra. O crepúsculo dos grandes (1750-1832). Imprensa Nacional/Casa da Moeda. Braga. s. Poder Municipal e oligarquias urbanas: Ponta Delgada no século XVII. Ana Sílvia Albuquerque de Oliveira Nunes. Dar aos pobres e emprestar a Deus: as Misericórdias de Vila Viçosa e de Ponte de Lima. Modelos e práticas de comportamento linhagístico. Lisboa. Na verdade.111-128. 77-85. onde cerca de metade dos mesários eram também oficiais camarários28. 28 Cf. reiteram o facto de a maior parte dos irmãos das respectivas Santas Casas estarem quase sempre em maioria na ocupação dos cargos na “República”. pp. 24 José Damião Rodrigues. Faculdade de Letras. Assuntos que. não podemos desenvolver aqui29. pp. vejam-se os dados indicados em Mafalda Soares da Cunha. A Santa Casa da Misericórdia de Guimarães (1650-1800). As elites de Évora … cit.. Lisboa. 1995. 1994. devido à influência da Casa de Bragança no panorama político local. Estampa. 23 Cf. Porto Universidade Portucalense. Lisboa. onde a endogamia. História social da administração do Porto (1700/1750). Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho. 2000.l. 138.. (séculos XIV-XV). Ponta Delgada. 370-382. Instituto Cultural de Ponta Delgada. A Santa Casa da Misericórdia de Montemor-o-Velho.

Título XLV. ou seja. 314-316. Veja-se sobre esta temática Laurinda Abreu. existiam algumas excepções no que se refere à admissão de cristãos-novos. o compromisso de 1577 já apertava a malha de recrutamento social. de idade conveniente. do que propriamente uma inovação sobre o tema. mais a confirmação da legislação Manuelina.. Ordenações Filipinas. pp. 36 Joaquim Veríssimo Serrão. mas que gozavam dos restantes privilégios materiais e espirituais. 1854. Braga. em primeiro lugar e antes de apurar o colégio eleitoral. Livro I. Anos mais tarde o rei restringia ainda mais o universo de elegíveis.146 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Nas Câmaras a regulamentação da eleição dos seus oficiais encontrava-se definida desde as Ordenações Afonsinas31. «As Misericórdias portuguesas de . pp. como por exemplo.) pessoas naturaes da terra. de entre os homens bons do concelho. doravante restrita a cristãos-velhos37. Universidade do Minho.. ou o Ouvidor. José Justino de Andrade e Silva. 2000. Com efeito. Ordenações Afonsinas. 32 Ainda que estas constituam. também as Misericórdias seleccionavam os seus membros. Livro I. sendo o Corregedor. 315. ou houvessem sido seus pais e avós. determitambém outras instituições da sociedade do Antigo Regime. que reiteravam que a eleição se devia fazer pelo método dos pelouros de forma colegial. «Estudo prévio». 34 Ibidem. 37 Todavia. (Cf. e da governança della.) ”34.. 598-599. Um processo que se foi complexificando até chegar às Ordenações Filipinas32. Título LXVII. e que os demais mesários. Livro I. p. a tirar informações junto de duas ou três pessoas “das mais antigas e honradas”35. Ao mesmo tempo. Em primeiro lugar.. o alvará e regimento de 12 de Novembro de 161133. Imprensa de J. neste particular. p. Silva. que estavam proibidos de participar nos órgãos administrativos e nos actos religiosos públicos das Misericórdias. porque se constituíam como irmandades cujo número de irmãos estava delimitado nos compromissos. estabelecia regras mais rigorosas no apuramento das magistraturas municipais. Construction d’un gouvernement municipal: élites. 35 Ibidem. Lisboa. Se o compromisso de 151636 não era ainda muito claro em termos de definição da qualidade dos seus membros – requerendo apenas que o Provedor fosse nobre. veja-se José Viriato Capela. 6 fossem oficiais e 6 de outra condição –. 314. obrigado. 24-25. pp. Colecção chronologica da legislação portuguesa – 1603-1612. sem raça alguma (. A Santa Casa da Misericórdia de Lisboa … cit. A. Sobre este assunto. Exigia o dito alvará que os elegíveis no futuro fossem “ (. élections et pouvoir à Guimarães entre absolutisme et libéralisme (1753-1834). Em segundo lugar porque a evolução destes textos normativos nos indica que houve uma a progressiva elitização dos seus cargos administrativos. as corporações de ofícios.. À semelhança dos municípios. J. 33 Cf. 31 Cf. Ordenações Manuelinas. Título LXVII).

Isto sem esquecer que em Setúbal e Aveiro o mar. onde tivemos oportunidade de verificar que os ocupantes dos cargos da vereação e das mesas da Misericórdia Filipe I a D. proprietários de ofícios da ordem de Santiago. . Uma situação semelhante. pp. Lisboa. 86. estivessem em ocupações como as de mesteirais e comerciantes39. a composição social desta nobreza variava de lugar para lugar.. Aqui. 42 Cf.. A Santa Casa da Misericórdia … cit. Elementos para a História da Misericórdia de Lagos. p. Já no compromisso de 1618 ao Escrivão e ao Tesoureiro exigir-se-lhes-ia que fossem nobres38. João V». Maria Marta Lobo de Araújo. Laurinda Abreu. 38 Fernando Calapêz Corrêa. 39 Cf. 41 Cf. 1995. 188. 116-118. 88. O que já não acontecia em Évora. no que ao exército concerne. p. segundo a tessitura social e económica do meio. se terá passado em Ponta Delgada no século XVII43. As mesmas armas que. para controlar a Câmara e a Misericórdia. Mas sobre Vila Viçosa pairava a Casa de Bragança. os eleitos eram fidalgos oriundos das mais antigas linhagens ao serviço da casa de Bragança42. 44 Cf. Poder municipal e oligarquias … cit. já eram essencialmente donos de marinhas. José Damião Rodrigues. ainda que. ao Escrivão e ao Tesoureiro exigia que fossem honrados. Santa Casa da Misericórdia de Lagos.. aqueles que controlavam o poder nas Câmaras e as Misericórdias pertenciam ao estamento social da nobreza. Francisco Ribeiro da Silva. O Porto e o seu termo … cit. Mafalda Soares da Cunha. com autoridade e virtude. Todavia. e todas as actividades mercantis. I. nas duas instituições. 43 Cf. Manuel de Oliveira Barreira. 78. não eram raros os casos de mesteirais que eram tidos como gente nobre na cidade do Porto. p. Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (dissertação de mestrado policopiada). pp. A Santa Casa da Misericórdia de Aveiro: pobreza e solidariedade (1600-1750). Coimbra. União das Misericórdias Portuguesas. Com efeito. 150. 1998. Lagos.53. p. ou ainda homens que se tinham nobilitado pelas armas40... A Casa de Bragança … cit. Desta maneira verificamos que. a pertença social daqueles que conduziam os destinos municipais situava-se na esfera da aristocracia de projecção local. p. Como Francisco Ribeiro da Silva afirma. Portugaliae Monumenta Misericordiarum: fazer a História das Misericórdias.RELAÇÕES ENTRE AS CÂMARAS E AS MISERICÓRDIAS 147 nava que o Provedor fosse fidalgo. as suas origens. vol. não muito remotas ao século XVII. por exemplo. Dar aos pobres e emprestar a Deus … cit. p. 2002. a partir do século XVIII. 428. sendo que. em Vila Viçosa41. serviriam. 40 Cf. Em Setúbal. o sal. 377. foram determinantes para a configuração das suas elites locais44.

económico e político que o poder central conferiu às confrarias.148 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS – entre 1580 e 1640 – provinham de antigas famílias de proprietários fundiários. essencialmente devido ao crescendo simbólico. a vontade do poder central em uniformizar sistemas institucionais e políticos. As elites de Évora … cit. Um facto que atraiu o interesse das elites locais por estas instituições – apesar de tudo emergentes –. 45 Cf. isto é. fixando-se na região após a crise de 1383/138545. 133. Rute Pardal. foi a partir da segunda metade do século XVI que as relações entre as duas instituições se intensificaram. a circulação entre os cargos da vereação e os cargos administrativos nas Misericórdias. Em suma. p. estas comunicações entre as Câmaras e as Misericórdias surgem como uma característica marcante na sociedade do Antigo Regime. que apresentámos atrás.. Sugerem ainda. protagonizando doravante a característica mais destacada deste relacionamento. as Santas Casas constituíram um desses campos. Pelas semelhanças com as estruturas camarárias. . Todavia.

Coimbra – Fac. Nuno Gonçalo Monteiro – “Poder senhorial. 1992. Das Origens às Constituintes. saúde. Dicionário de História de Portugal. volume III. Almedina. Sobrepondo-se e imbricando-se nesta rede concelhia encontramos uma rede de senhorios. Quanto aos direitos de natureza tributária tinham origem em doações régias. pp. 380-438. justiça. 1996. Edições Colibri – CIDEHUS-UE. pp. adquiridos através de doações de particulares. consignados em doações régias e forais. pp. Monteiro. exercidos num determinado território.Senhorios e concelhos na época moderna: relações entre dois poderes concorrentes MARGARIDA SOBRAL NETO (Univ. dotados de uma estrutura administrativa e judicial. enquanto fontes de renda e de poder. de Oliveira Marques – “Regime senhorial”. Os direitos podiam ainda ser de natureza jurisdicional. instrução – constituindo-se também como intermediária entre o poder central e as populações1. 2005. Os bens podiam ser de natureza patrimonial. XVII. Instituições e poder político. Estatuto nobiliárquico Os Municípios no Portugal Moderno: dos forais manuelinos às reformas liberais Lisboa. Lisboa. que exercia o governo das terras em múltiplas áreas – economia.) – História dos Municípios e do poder local. Coimbra. provenientes de doações concedidas pelos monarcas. Joaquim Romero Magalhães – O poder concelhio. Estes bens e direitos constituíram a base material de sustentação. “O espaço político e social local”. Nuno Gonçalo. Sobre os senhorios portugueses ver as sínteses elaboradas por: A. cível ou crime. 121-135. H. os denominados direitos reais. . de entidades nobres e eclesiásticas ao longo das épocas medieval e moderna. Lisboa. Os senhorios eram constituídos por um conjunto de bens e direitos. Coimbra. Armando Castro – A Estrutura Dominial Portuguesa dos séculos XVI a XIX (1834). 1994. Círculo de Leitores. as seguin- 2 tes obras de síntese: Maria Helena da Cruz Coelho. Lisboa. 149-165. ou de natureza régia. Letras / Centro de História da Sociedade e da Cultura) Na época moderna. in César de Oliveira (dir. constituída por casas nobres e eclesiásticas2. CEFA. 1 Sobre as competências das câmaras vide. Portugal -séc. ou em contratos realizados entre as entidades senhoriais e as pessoas que assumiam o compromisso de exploração agrícola das terras ou a posse de casas ou de outros bens. compras ou trocas. 1986. o território português estava coberto por uma rede de concelhos. 1971. para além dos estudos monográficos. Editorial Caminho. António Hespanha – As vésperas do Leviathan.

Entre o Antigo Regime e o liberalismo. Lisboa. 584-602. 1996. alcaides. vol. 333-357. 4 Em 1640. in César de Oliveira ( dir. os vereadores e os procuradores – bem como de apresentarem ou nomearem diversos oficiais que exerciam funções no seio dos concelhos – tabeliães. pp. Marreiros. Op. os dois mais importantes corpos do “sistema tradicional de poder” a nível local.. no exercício do poder e na apropriação de recursos dos espaços em que dominavam. de acordo com os titulares dos senhorios. dir. ao exercício do poder concelhio decorrentes das presenças senhoriais nos territórios concelhios. de apresentarem. Lisboa. 150-151). Mafalda Soares da Cunha – Práticas do poder senhorial à escala local e regional (fins do século XV a 1640). escrivães. Elites e poder. XVII. confirmarem ou apurarem os elencos dos governos concelhios – os juízes. os conteúdos dos seus poderes. Esses instrumentos consistiam no privilégio de nomearem juízes de fora4. que exerciam funções similares às dos corregedores. Em algumas terras senhoriais essas funções eram asseguradas pelos donatários. pp. 143-153. pp. H. Lisboa. os oficiais periféricos da coroa tornavam-se agentes de donatários (Nuno Gonçalo Monteiro – As Câmaras no equilíbrio dos poderes: funções sociais e dinâmicas locais. vol. ouvidoe aristocracia”.cit. de Oliveira Marques. de Armando Luís de Carvalho Homem e Maria Helena da Cruz Coelho). Os monarcas dotaram. Joel Serrão e A. 380-438. pp. pp. Op.) – “História dos Municípios e do poder local”. IV. in História de Portugal. Círculo de Leitores.. in César de Oliveira ( dir. 3 Maria Helena da Cruz Coelho – “Concelhos”. ao longo do tempo. competia aos corregedores. mas com particular incidência na Idade Média. aos juízes de fora ou aos ordinários a condução e supervisão dos processos eleitorais. cit. como em outros casos. Portugal-séc.cit. in Nova História de Portugal. bem como com os instrumentos ao dispor dos donatários e que lhes permitiam ser mais ou menos eficazes no exercício do poder senhorial. na época moderna. in Nova História de Portugal. ouvidores. etc. almoxarifes. algumas casas senhoriais de instrumentos de natureza jurisdicional susceptíveis de lhes assegurarem o controlo político e social das comunidades locais que tutelavam3. 2003. concorrentes. no entanto.5 De acordo com o estabelecido nas Ordenações. ou os bloqueios. Lisboa.. Do condado portucalense à crise do século XIV. Propomo-nos nesta comunicação reflectir sobre os condicionamentos. . coord. Maria Rosa Ferreira – “Senhorios”. O domínio senhorial sobre a vida concelhia terá assumido formas muito diversificadas. Círculo de Leitores.) – “História dos Municípios e do poder local”. Idem. e em regimentos publicados posteriormente. 16% dos juizes de fora eram nomeados pela Casa de Bragança. 1996. 1993. ICS. III (Portugal em definição de fronteiras. Neste.150 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Senhorios e concelhos foram. juízes dos órfãos. 554 – 584. Op. pp. 5 António Hespanha – As vésperas do Leviathan. Instituições e poder político.

favoráveis à prossecução dos seus interesses. Como bem observou Rui Santos. bem como a forma como esses processos decorriam. regimento aplicável às terras cujas pautas não iam apurar ao Desembargo do Paço. 7 Rogério Capelo Pereira Borralheiro – O Município de Chaves Entre o Absolutismo e o Liberalismo (1790-1834). Das Origens às Constituintes. Senhores da vila: elites e poderes locais em Mértola no século XVIII. XXVIII (121).. cit. mas por favas. ed. Joaquim Romero Magalhães – O poder concelhio. De notar. . a legislação que regulava os processos eleitorais. tornando muito mais difícil a penetração de novos membros no seio das oligarquias fiéis às casas senhoriais. nos concelhos cujas pautas eram apuradas pela chancelaria desta casa. Braga. ou às integradas nos termos dos concelhos. Estes instrumentos estão há muito identificados pela historiografia construída com base em fontes legislativas e doutrinárias. Op. A forma como se processavam as eleições nas terras da Casa de Bragança reforçava essa característica do sistema. “Análise Social”. do seu poder de apresentar. 141-144. inserindo-se assim num processo de uniformização de práticas judiciais e administrativas locais. pp. de fora ou ordinários. igualmente. O regimento para a eleição dos vereadores de 1611. 8 Rui Santos – Senhores da terra. 6 Maria Helena da Cruz Coelho. nas terras da Casa de Bragança o processo eleitoral não seguia o modelo das terras régias e senhoriais. do autor. Sociedade e Economia. circunstância que podia interferir na selecção das pessoas que eram integradas em pauta. pp. como é que os senhores utilizaram os instrumentos de que dispunham. 1993 (2. fazia com que o sistema de escolha das vereações fosse auto-reprodutivo8. O que importa saber é. e saber igualmente se esses instrumentos geraram “sujeições e obediências”. bem como atribuía um papel mais interveniente da vereação cessante na escolha da nova vereação7. o processo eleitoral em vigor nas terras da Coroa. 1997. conferia uma “forte autonomia ao Duque face ao Rei”.SENHORIOS E CONCELHOS NA ÉPOCA MODERNA 151 res ou por juízes. método que. segundo Rogério Borralheiro. as eleições não eram feitas por pelouros. confirmar ou apurar os oficiais das governanças. bem como em documentos que enunciam os poderes senhoriais.º). no entanto. 345-369. no entanto que. nomeadamente o facto de se colocarem no governo das terras pessoas que não tinham as “qualidades para servirem”6. Administração. apresentava como principal objectivo impedir “subornos e desordens” ocorridos nos processos eleitorais. Com efeito. Na prática este regimento aplicou às terras senhoriais. nomeados pela entidade senhorial. A intervenção senhorial na escolha dos elencos camarários decorria.

dependente da Casa de Aveiro. Sérgio Soares num estudo referente a este município concluiu que o governo concelhio era exercido pelo oficialato local provido pelo Duque de Aveiro que se comportava como uma clientela na estreita dependência da casa senhorial9. os moradores do couto de Tibães denunciaram as intromissões do donatário nas eleições. e enviadas à casa de Aveiro. 2 vols. Afirmavam “que as eleições deveriam ser feitas só pelos povos e o mosteiro abusando mandava a ellas presidir dois religiosos e nellas faziam votar as pessoas que os ditos religiosos lhe parecia sahindo eleitos todos os seus afilhados”11. “ARUNCE”. A acção dos donatários não se confinava. dissertação de doutoramento policopiada). pessoas indicadas pelo donatário que não constavam das pautas. na Lousã. p. considerada abusiva. a passagem do domínio da Casa de Aveiro para o da Coroa levou a uma reconfiguração social das vereações. o que evidencia a intervenção directa da casa senhorial na selecção dos elencos camarários10. 160-165).. 1630/80-1813. Por sua vez. exploração e produção agrícola no Vale do Cávado durante o Antigo Regime. Com efeito. na primeira metade do século XVIII. devendo o juiz fazer oferta ao mosteiro de 4 leitões. suscitando a contestação das comunidades. Por sua vez. Porto. . 1979. n. Alguns acompanharam muito de perto as práticas de governo.. A intervenção do poder senhorial nas eleições foi. As pessoas “principais da terra”. exerceram o cargo de vereadores. Na sua dependência. pp.152 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Outro caso em que se evidencia um forte controlo senhorial dos governos concelhios é o do município da Lousã. neste município. Em 1718. o escrivão do couto Brito Aranha era “ o mais grosso detentor de terras arrendadas” ( Aurélio de Oliveira – A Abadia de Tibães. 11 Neste couto o juiz era escolhido com base em dois nomes eleitos pela população.º 11-12. com as confirmadas por esta Casa levaram o mesmo autor a concluir que o Duque não se limitava a confirmar as listas decorrentes dos processos eleitorais locais. o confronto entre as listas das pessoas nomeadas em pauta. Coimbra: Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. quatro carneiros e 12 galinhas. policopiada. à intervenção na escolha das elites concelhias. a partir de meados do século XVIII verificou-se um processo de elitização dos elencos camarários. ficavam os vereadores. concelho integrado na ouvidoria de Montemor-o-Velho. 58 10 De notar ainda que. por vezes. Lousã no século XVIII. detentoras de propriedades vinculadas em morgadio. 9 Sérgio Soares – O ducado de Aveiro e a vila da Lousã no século XVIII (1732-1759). substituíram o oficialato local na governança da terra (Maria do Rosário Castiço de Campos – Redes de Sociabilidade e Poder. o procurador e outros oficiais concelhios. A cerimónia de investidura realizava-se na Abadia. 2003. Com efeito. porém. Propriedade.

1998. No século XV. 13 Jorge Fonseca – Montemor-o-Novo no século XV. ao longo da época moderna. desempenhou todos os direitos inerentes à jurisdição cível e crime. p. p.. de Aurélio de Oliveira acerca dos coutos beneditinos de Tibães na época moderna14 e o estudo de Teresa da Fonseca relativo à administração senhorial no concelho de Vimieiro na segunda metade do século XVIII15. Os estudos de Jorge Fonseca sobre Montemor-o-Novo no século XV13. 64. VI. vol. 16 Idem. Um dos donatários. João de Bragança. As investigações já realizadas revelam-nos. Porto. Neste couto. II série. cit. 14 Aurélio de Oliveira – A Abadia de Tibães. Para além da fruição de prerrogativas concedidas pelo monarca. . tabeliães e dando posse às vereações e outros oficiais.] de modo que quem julgava era o frade e os officiais viam-se metidos a testemunhas” (Op. 1630/80-1813.cit. substituindo-se às justiças locais na decisão de matérias de interesse para o senhorio – caso da gestão dos espaços incultos18. p. juízes ordinários. este senhor ultrapassou os limites do seu poder. pp. testemunham um “efectivo domínio das instituições concelhias por parte de donatários”16. entretanto. p. Propriedade. 1998.. Op. os abades de Tibães. Separata da “Revista da Faculdade de Letras”. nos diversos municípios com tutela senhorial12.cit. exploração e produção agrícola no Vale do Cávado durante o Antigo Regime.. 166). 168). Câmara Municipal de Montemor-o-Novo. a jurisdição em Montemor-o-Novo foi exercida por entidades senhoriais. a partir dos finais do século XVII. Por sua vez. Arraiolos. exerceram um controlo apertado sobre as governanças concelhias do couto. Câmara Municipal de Arraiolos. Aguardam-se os estudos monográficos que permitam esclarecer a forma como interactuaram estes dois poderes. 103-135. os frades determinaram que não se deixasse “abrir monte sem licença de quem presidir no Mosteiro e de nenhuma sorte se conceder licença a Camara do Couto para os abrir” (Op. Op.. nomeando ouvidores.SENHORIOS E CONCELHOS NA ÉPOCA MODERNA 153 O conhecimento histórico sobre as relações entre donatários e câmaras é ainda escasso. 17 Jorge Fonseca – Montemor-o-Novo no século XV.cit.. 1989. o 12 Para a época medieval vide Maria Helena da Cruz Coelho – Entre poderes – Análise de alguns casos na centúria de quatrocentos. 18 Em 1718 os moradores do couto afirmavam que “a Abbadia se intrometia nas correições que a camara fazia 2 vezes por anno mandando juntamente um religiozo[. facto que motivou um pedido do concelho ao monarca no sentido de o manter “em sua antyga liberdade” quando se conseguiu libertar da tutela senhorial17. Teresa – Administração senhorial e relações de poder no concelho do Vimieiro (1750-1801). Montemor-o-Novo. diversas articulações entre poder senhorial e concelhio. em capítulo realizado em 1770. 67. D. 15 FONSECA. Por sua vez.

Neste condado. Com efeito. IV. Assumindo posição idêntica aos abades de Tibães. nos casos atrás enunciados. 21 Idem. p. tendo sido os vereadores ameaçados com penas pecuniárias e de prisão se não executassem as ordens do ouvidor. A perda de autonomia municipal terá sido. 1989.. vol. como acontecia com o poder régio. Outro tipo de relação entre donatário e concelhos é o evidenciado no estudo de Francisco Ribeiro da Silva sobre a “Estrutura administrativa do condado da Feira”. “denunciando ilegalidades. este autor considera ter existido “compatibilidade entre o domínio senhorial e o municipalismo” e “que a dinâmica municipal pôde processar-se na dependência directa de um senhor de vassalos sem que as instituições concelhias fossem bloqueadas”20. 65. algumas vezes requerida pelos próprios vereadores vimieirenses em matérias que lhes suscitavam dúvidas ou naquelas em que era difícil obter consensos. 19 20 Op. 260 . devido à proximidade física dos donatários das terras que dominavam. a atitude “vigilante e autoritária” do conde D. Com efeito. Sancho de Faro e Sousa conferiu “alguma regularidade e disciplina à administração municipal”19. pp. Teresa Fonseca defende ainda que as práticas esclarecidas de exercício do poder dos senhores de Vimieiro se caracterizaram pelo respeito pelo poder régio e pelo empenhamento no cumprimento das leis. a distância terá condicionado o exercício do poder senhorial. uma intervenção autoritária nas práticas de governo concelhio. defendendo a jurisdição do Donatário e os direitos dos vassalos”21. Segundo a mesma autora. A intervenção senhorial na governação concelhia foi. favorável às boas práticas da governação concelhia e à prossecução do bem comum. neste caso. O controlo apertado da actuação das vereações e a “usurpação” das suas competências foi possível. Revista de Ciências Históricas. 255-271.154 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS donatário deixava para a câmara apenas as matérias relativas à regulamentação do comércio local. atitude que motivou. impondo a observância da lei. Francisco Ribeiro da Silva – “Estrutura administrativa do condado da Feira no século XVII”. por vezes. cit. os donatários do Vimieiro apropriaram-se das funções administrativas da câmara esvaziando-a das competências exercidas por outros municípios. no entanto. p. o exercício do poder senhorial foi desempenhado pelo ouvidor que acompanhou “muito de perto a acção governativa” da câmara. Os ouvidores deste senhorio revelaram um particular empenhamento na defesa dos interesses das populações.

ouvidor das comarcas de Barcelos e Bragança. José Viriato Capela demonstra que. D. o Arcebispo de Braga. o comportamento dos donatários podia. caso dos ouvidores. Práticas senhoriais e redes clientelares. Estampa. Para além do papel mais ou menos interveniente dos donatários e dos oficiais por eles providos. na escolha dos elencos camarários. bem como no cumprimento de outras funções. p. podia condicionar a prossecução das suas próprias carreiras. 25 Tomé de Mesquita. em estudo relativo à Lousã. o seu sucessor. convinha apurar se as práticas dos governos concelhios que passavam pelo crivo da selecção das casas senhoriais se pautaram ou não pela defesa dos interesses dessas casas. Compreende-se que assim fosse se tivermos em conta que o bom desempenho das clientelas senhoriais no exercício do governo concelhio. função que recorrentemente assumiram25. Percursos bem sucedidos podiam mesmo conduzir ao cargo de desembargador da Casa”24. as atitudes do donatário do Vimieiro e dos ouvidores do condado da feira actuaram no sentido da aplicação das leis e ordens régias.59. concluiu que o grupo de oficiais que estava dependente da distribuição dos “recursos senhoriais” da casa de Aveiro se constituía como um núcleo de “obediências e fidelidades senhoriais”23. De notar ainda que mesmo a 22 O Município de Braga de 1750 a 1834. já exerceu o seu poder em articulação com a “política nacional”. José de Mascarenhas. p.. Mafalda Sousa Soares afirma que “a maioria ascendia a ouvidores depois de exercer o cargo de juiz de fora em vários concelhos do senhorio. 9 e 15. 20 mil réis “pelos arrendamentos que fez a favor do Duque”. Referindo-se aos juízes de fora providos pelo duque de Bragança. Ora um percurso bem sucedido de ouvidor podia decorrer.SENHORIOS E CONCELHOS NA ÉPOCA MODERNA 155 Como decorre do atrás exposto. no reinado de D. João V. Por sua vez. convergindo. de um bom desempenho na cobrança de rendas. recebeu. Em 1589. na casa de Bragança. Lisboa. Braga. defendendo as suas jurisdições contra as investidas das justiças régias”. Sérgio Soares. O Governo e a administração económica e financeira. Nesta matéria. pp. em 1587. 23 Cit. seria novamente recompensado com a quantia de 12 mil réis pelos arrendamentos feitos na Comarca de . 291. 2000. Dom Gaspar. 24 Mafalda Soares da Cunha – A Casa de Bragança (1500-1640). variar em função da conjuntura e dos seus interesses pessoais. bem como a obtenção de outros recursos senhoriais. no entanto. assim. o poder senhorial com o poder régio na submissão do poder concelhio. governou “o senhorio temporal da cidade e seus coutos com poder soberano e postura de príncipe. 1991. comportando-se os ouvidores-provedores nomeados pelo donatário como magistrados régios22.

recursos que seriam significativos nas vilas e cidades. pp. A Universidade de Coimbra possuía o privilégio de poder recorrer aos juízes de fora e corregedores para executar os seus devedores. em “Ler História”. 31-87.Lavradores. Nestes. Nuno Gonçalo Monteiro . nos finais do Antigo Regime. seria naturalmente condicionada pelos recursos que estas tinham para distribuir. Manuel Inácio Pestana – Barcelos nos Arquivos da Casa de Bragança. 26 José Damião Rodrigues – Poder municipal e oligarquias urbanas. José Damião Rodrigues demonstra que “o compadrio e o clientelismo” são factores a ter em conta na compreensão das relações entre poder senhorial e poder municipal em Ponta Delgada no século XVII26. Instituto Cultural de Ponta Delgada.. 274-318. De facto. de menor monta nos pequenos concelhos. p. Ponta Delgada. Lisboa. muitas câmaras assumiram no movimento de contestação anti-senhorial a defesa dos interesses das comunidades que governavam – interesses que. 1994. 27 Nuno Gonçalo Monteiro – O espaço político e social local. relativamente à defesa dos interesses das casas senhoriais de que estavam dependentes. em muitos casos. considerava que devia ser ouvida quando se avaliava o desempenho desses oficiais no momento do apuramento das residências. os deputados da Junta da Fazenda protestaram contra a nomeação do juiz de fora de Viseu para o exercício do mesmo cargo em Lamego. Nuno Monteiro invocando o comportamento dos oficiais concelhios nas terras do mosteiro de Alcobaça. enquanto vereadores. Separata de “Barcellos-Revista”. decorrer do relacionamento pessoal entre as vereações e os donatários. ainda. n.º 4. 46. As “obediências e fidelidades senhoriais” podiam. o exercício do governo concelhio ao longo do século XVIII deixou de ser. sublinhe-se. em 11 de Novembro de 1786. A atitude das vereações concelhias. Ponta Delgada no séc. e enquanto pagadores de direitos senhoriais – em detrimento das instituições que os tutelavam. p. Devido a esta circunstância.156 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS carreira dos oficiais régios podia ser afectada pela forma como desempenhavam determinados serviços às casas senhoriais. Teodósio I. eram também os seus. pp. De acordo com este entendimento. pelo facto de este não ter tido um bom desempenho na execução das dívidas da Universidade. . Mercês do Duque D.1985. 1(2) 1983. Frades e Forais: Revolução Liberal e Regime Senhorial na Comarca de Alcobaça (1820-1824). situação que se revelaria propícia à desobediência às entidades senhoriais das quais estavam dependentes. cit. XVII. concluiu que as casas senhoriais não tinham capacidade de controlo sobre os governos das terras27. Bragança (cf. 159. um beneficio para se constituir como um pesado encargo a que muitos tentavam fugir.

ao pagamento de uma indemnização ao convento (Ana Isabel Sacramento Sampaio Ribeiro. 2003. tese de mestrado policopiada. como era. 177-183. assim. assim como de outros poderosos locais. Região de Coimbra. pelo menos dos pequenos concelhos. 1997. em 7 de Janeiro de 1749.João do Monte: propriedade e relações sociais (1786-1820). pelo tribunal da Relação do Porto. Já os juízes ordinários se manifestaram. a introduzir alguns matizes no comportamento dos diversos membros das vereações. 29 Por terem recusado reconhecer o mosteiro de Celas (Coimbra) como donatário de Eiras. . bem como a identificar algumas variações na atitude que manifestaram durante os processos de contestação. salvaguardar-se das represálias motivadas pela desobediência às casas senhoriais. tese de mestrado policopiada. por norma. Com efeito. De notar ainda que são muito frequentes. pp. dos pequenos concelhos. quando se apercebiam que não conseguiam atingir os seus objectivos. confrontar uma vereação concelhia “rebelde” com um documento em que vereações anteriores tinham reconhecido 28 Margarida Sobral Neto – Terra e Conflito. Coimbra. Os estudos que tenho elaborado sobre esta matéria levam-me a concluir que os procuradores dos concelhos. pp. mais prudentes no apoio explícito às populações28. Coimbra. entretanto. a posição dos senhorios era. ao longo dos conflitos. por exemplo a perda das terras que agricultavam ou o pagamento de indemnizações às casas senhoriais ou custas de processos29. Palimage Editores. redes e dinâmicas sociais. mais forte do que a dos concelhos. Estruturas. se revelaram mais rebeldes assumindo protagonismo em alguns movimentos. pessoas que por norma tinham uma condição social inferior à dos vereadores. 2003. Em momentos de contestação. e consequentes proclamações de obediência. porque se podia apoiar em múltiplos argumentos jurídicos. Um deles era o que registava os “reconhecimentos” feitos pelos oficiais concelhios no momento da elaboração dos tombos. 21-30). bem como os direitos que lhe eram devidos.SENHORIOS E CONCELHOS NA ÉPOCA MODERNA 157 Uma análise detalhada das atitudes das governanças. no momento da realização de um tombo. alguns moradores foram condenados. O mesmo tribunal condenaria. João do Monte ao pagamento das custas de um processo judicial. os moradores de S. aquando da realização dos tombos os oficiais concelhios eram chamados a reconhecer o domínio das casas senhoriais. sobretudo aqueles que seguiam as vias judiciais. em 9 de Julho de 1814. leva-nos. Não era. 179-320. tentando. 1700-1834. por parte dos membros da vereação. Viseu. Faculdade de Letras. pp. Faculdade de Letras. portanto difícil. por norma. originado pela recusa de pagamento de direitos senhoriais e contestação de domínio directo do mosteiro de Santa Cruz de Coimbra (Licínio Gomes Neves – A comunidade rural de S. alguns consagrados em forais. A comunidade de Eiras nos finais do século XVIII. as desistências da contestação.

1993. por vezes reconhecida pelas câmaras. Conflitos de jurisdição ocorreram igualmente entre a câmara do Porto e os donatários que senhoreavam no termo da cidade33. 32 Margarida Sobral Neto – Terra e Conflito. 1971. assumindo a vereação um evidente protagonismo30. e consequentes conflitos. a contestação ao mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. A partir do momento em que Ansião. De facto. pp. O mosteiro de Grijó. A concorrência. tese de doutoramento policopiada.I. 1997. 28. pp. senhorio territorial deste lugar. situação que provocava frequentes conflitos de jurisdição32. Faculdade de Letras. I. I. Região de Coimbra. foi particularmente evidentes nos termos das vilas e das cidades em que a sede concelhia estava na dependência régia. “Revista Portuguesa de História”. O foral manuelino e seus problemas nos séculos XVII e XVIII. argumento que lhes ditou muitas sentenças favoráveis. A posse alicerçada na tradição imemorial. Sérgio Cunha Soares – O Município de Coimbra da Restauração ao Pombalismo. exercendo os senhorios.cit. 1995. 89-95. 30 Margarida Sobral Neto – Regime senhorial em Ansião. vol. vol. confrontou-se ao longo do século XVIII com idêntico problema. ou na dificuldade em cobrar impostos municipais nas áreas em que detinha apenas jurisdição cível31. foi um poderoso argumento invocado pelas casas senhoriais em momentos de conflito com as comunidades locais. 31 António de Oliveira – A vida económica e social de Coimbra. estrutura e exploração do seu domínio). intensificou-se. 59-94. entretanto. Coimbra. 1700-1834. Um dos conflitos ocorreu com o mosteiro de Grijó (Inês Amorim. António de Oliveira e Sérgio Soares. Poder e poderosos.158 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS a obrigação de satisfazer ao senhor tributos. Atitudes mais radicais das vereações ocorreram. . Coimbra. evidenciaram os múltiplos problemas com que a vereação coimbrã se deparou nos lugares do termo em que exercia apenas a jurisdição crime. concelho em cujo termo senhoreavam também vários senhores leigos e eclesiásticos. um dos lugares do termo de Coimbra. 33 Francisco Ribeiro da Silva – O Porto e o seu termo (1580-1640). 1985. a jurisdição cível e/ou crime. Problemas que se materializaram na tentativa de apropriação da jurisdição crime por parte dos donatários que apenas detinham a cível. as instituições e o poder. quando um concelho em luta contra uma casa senhorial. e outras “opressões”. entre casas senhoriais e câmaras. que eram objecto da sua contestação. Faculdade de Letras. doada a Dom Luís de Meneses. em alguns lugares do termo. Porto. Op. contava com o apoio de outro senhor. foi desmembrado deste concelho para assumir o estatuto de vila. Braga. nos estudos que realizaram sobre o município de Coimbra. vol. Os homens . Senhorio e propriedade: 1520-1720 (formação. A vereação de Montemor-o-Velho. Coimbra. na maioria dos concelhos do termo apenas exercia jurisdição crime.

por norma. traduzia-se numa perda efectiva de controlo e de capacidade de dominação sobre o governo dos termos concelhios. Acrescente-se ainda que o conservador da Universidade chegou a contradizer posições assumidas pelo ouvidor da mesma instituição. vol. Absolutismo e municipalismo. pp. 1700-1834. Entre eles destaca-se a prerrogativa de possuir juiz privativo35. que podiam ir até à prisão de juízes ordinários em casos de clara desobediência34. anulando assim funções de controlo do exercício do poder senhorial assumidas por aquele36. cit.. As pastagens de animais pertencentes a comunidades religiosas suscitaram também frequentes conflitos37. em 1750. Entre eles destacam-se as regalias em matéria de abastecimento de carne.. pp. 121-124. As instituições senhoriais sediadas sobretudo nas cidades usufruíam de outros privilégios que colidiam com o exercício das competências das câmaras. De notar que as vereações das sedes concelhias dispunham de instrumentos de coacção das justiças dos concelhos do termo. Mas os concelhos não foram condicionados apenas pelas entidades que detinha direitos jurisdicionais nos seus territórios. Op. “subtraindo-o” às câmaras. Op. Outro poderoso instrumento que detinham algumas casas senhoriais. cit. conferidos pelos monarcas. facto que se repercutia muito negativamente no exercício do poder concelhio. Évora 1750-1820. Poder e Poderosos na Idade Moderna.SENHORIOS E CONCELHOS NA ÉPOCA MODERNA 159 O facto de os juízes de primeira instância das localidades do termo concelhio não serem confirmados pelas vereação da sede concelhia. mas serem investidos pelos donatários. peixe e água. Teresa Fonseca. era a capacidade de intervenção na escolha de oficiais das orde- 34 35 36 37 Em 1724 estava preso. 62.) Nuno Gonçalo Monteiro – O poder senhorial. 341-351. Sérgio Cunha Soares – O município de Coimbra da Restauração ao pombalismo. em desfavor das populações. Região de Coimbra. ... várias são as queixas contra o conservador da Universidade. na região de Coimbra. estatuto nobiliárquico e aristocracia. e que podia condicionar o jogo de forças a nível local. Sobre o relacionamento entre a câmara de Évora e outras instituições da cidade cf. I. ou pelos seus representantes. o procurador do concelho de Algaça. pp. que julgava.. Op. juiz privativo de várias casas senhoriais. por ser “cabeça de motim em os juizos das sete varas de Poiares se levantarem contra a jurisdisam do Senado da Camara”. Nos finais do século XVIII. Por sua vez. Os senhorios não jurisdicionais possuíam outros instrumentos. cit. por elas confirmadas. que poderiam ser accionados contra quem contestasse o seu poder. na cadeia de Coimbra.cit. Margarida Sobral Neto – Terra e Conflito. in “História de Portugal”. Op. foram presos o procurador do concelho de Algaça e os juizes do concelho de Canedo e Hombres (Cf. 352-353. p.

pensamos que a situação de conflito não seria a desejada por instituições que viviam num sistema marcado pela coexistência de múltiplos corpos e poderes. separata de “O Faial e a periferia açoriana nos séculos XV a XX”. as mãos do poder senhorial que invadiam os campos. bem como outros privilégios de que os monarcas dotaram as casas senhoriais. cargos muito requeridos a nível local pelo prestígio que conferiam e também pela capacidade de domínio sobre as populações38. Maria Helena da Cruz Coelho. os poderes jurisdicionais.. Com efeito. rendeiro do Marquês de Marialva. de alguns agentes senhoriais rompiam equilíbrios que os donatários queriam preservar. os celeiros e os lagares esbulhando os camponeses de uma parte substancial do produto do seu trabalho. pp. 1995. Nestes casos. Um exemplo paradigmático é revelado por Nuno Monteiro: o caso de um capitão-mor. Nuno Monteiro invocando o papel de liderança dos capitães de ordenanças no movimento de contestação anti-senhorial afirmou que o facto de o cargo ser vitalício conferia aos capitães uma margem de liberdade relativamente às entidades que os tinham nomeado. Op. 352. in César de Oliveira (dir. entretanto.160 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS nanças. p. Rodrigues. o excesso de zelo. Câmara Municipal de Montemor-o-Novo. ou a avidez. em defesa dos interesses do donatário. 152-163. assumiram-se como zelosos defensores dos interesses dos senhorios (que eram também os seus) contra os das comunidades. Teresa Fonseca – Relações de Poder no Antigo Regime. as receitas que alimentavam as casas senhoriais.) – História dos Municípios e do poder local. os capitães de ordenança efectuaram a cobrança de rendas assegurando. em tempos de instabilidade. levaria. pp. Joaquim Romero Magalhães – O poder concelhio. Mas no movimento de contestação anti-senhorial os capitães de ordenanças assumiram atitudes diversas. revelaram-se como instrumentos favoráveis à apropriação de recursos nas áreas con38 Sobre os poderes e a organização das ordenanças. Como já afirmámos. . Horta. se o conflito marcou muitas vezes o relacionamento entre poderes concelhios e senhoriais. Um dos principais alvos de contestação das populações foram os cobradores de rendas das casas senhoriais. Montemor-o-Novo. 31-32. Argumento pertinente. José Damião – Orgânica militar e estruturação social: companhias e oficiais de ordenança em São Jorge (séculos XVI-XVIII). 1998. A administração municipal em Montemor-o-Novo (1777-1816. que se distinguiu pela sua capacidade de vencer a resistência da população e da câmara de Cantanhede ao pagamento dos pesados direitos senhoriais. Das Origens às Constituintes. O excesso do zelo com que pautou a sua acção. cf. Na verdade. deste modo. o próprio Marquês de Marialva a afastá-lo do exercício da actividade de rendeiro39. cit. Ora. 39 Nuno Gonçalo Monteiro – “Os Poderes Locais no Antigo Regime”.

caso das sisas. de participação em trabalhos exigidos pelas câmaras. para atrair gentes aos seus territórios foi a concessão de privilégios aos seus “caseiros”. reparação de edifícios camarários ou de cadeias. o que se reflectia negativamente nas finanças concelhias. 1995. Os privilégios senhoriais. cit. destacava-se a de custear a reparação ou construção de caminhos. pontes ou fontes. Teresa Fonseca – Relações de Poder no Antigo Regime.. Este financiamento provinha de recursos gerados pela riqueza que se produzia no seio das comunidades. condição de diferenciação social transversal aos diversos grupos sociais. constituindo-se como um factor de bloqueio ao desenvolvimento das políticas concelhias. Uma das estratégias utilizadas pelos senhores. para além do seu peso político e simbólico. coimas decorrentes de transgressões. n. Alguns destes traduziam-se num conjunto de isenções relativas às obrigações concelhias: isenção do exercício de cargos concelhios. mas um deles. A sociedade de Antigo Regime estruturava-se no privilégio. municipais ou sobejos de tributos régios. Esta gestão pressupunha a existência de uma máquina administrativa que para funcionar necessitava de financiamento.º 7. 1992. estradas. na Idade Média. Os historiadores que se têm dedicado ao estudo das finanças concelhias são unânimes em concluir que as dificuldades financeiras das câmaras foram um fenómeno estrutural no Antigo regime. nas áreas de domínio de senhorios. nomeadamente as praticadas contra a legislação municipal40. e de pagamento de coimas e de tributos. assumiam-se como instrumentos favoráveis à apropriação de recursos económicos das comunidades. Foi em matéria de captação de proventos económicos que a concorrência senhorial foi particularmente evidente. Esta concorrência podia assumir diversas formas que passarei a explicitar. nomeadamente no que concerne à realização de infra-estruturas: construção de estradas. . em múltiplas áreas. foi a concorrência feita por estes na apropriação de recursos. Braga. “Penélope”. A administração municipal em Montemor-o-Novo (1777-1816. Constituíam fontes de receitas das câmaras tributos. pp. Universidade do Minho. 106-151. diminuindo a matéria colectável dos concelhos. pontes.SENHORIOS E CONCELHOS NA ÉPOCA MODERNA 161 celhias. em manifesto prejuízo do governança concelhia. Por 40 José Viriato Capela – O Minho e os seus municípios. e talvez o de maior peso. Op. cabia às câmaras a gestão corrente da vida das comunidades. Estudos económico-administrativos sobre o município português nos horizontes da reforma liberal. Entre as dificuldades económicas das câmaras. Como é sabido. rendimentos provenientes da gestão dos bens dos concelhos. Luís Nuno Rodrigues – Um século de Finanças Municipais: Caldas da Rainha (1720-1820). Podem ser invocadas diversas explicações para os problemas financeiros das câmaras.

susceptíveis também de gerar receitas para os municípios. ou jurisdicional.Uma Provisão sobre Foros e Baldios: problemas referentes a terras de logradouro comum na região de Coimbra. Este privilégio. 91-101. Região de Coimbra. Nos conflitos entre senhores e câmaras motivados pela posse de áreas incultas – alguns deram origem a longos processos judiciais – estavam em causas motivações de natureza política. e câmaras43. Porto. 1700-1834.162 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS este motivo.. propriedade. 2000 (dissertação de doutoramento policopiada). sobretudo eclesiásticos. jornaleiros ou lavradores. Ora do universo dos potenciais prestadores de trabalho gratuito excluíam-se. Outro dos privilégios dos foreiros das casas senhoriais era a isenção de coimas. “Revista de História Económica e Social”. nomeadamente as áreas de pastagem. principalmente nas zonas onde se concentravam muitas casas senhoriais.. XVIII. Muitas destas eram aplicadas às pessoas que transgrediam os regulamentos concelhios de utilização de áreas incultas.ª série (VII). 43 José Viriato Capela – Tensões Sociais na Região de Entre-Douro e Minho. no Séc. Um conflito em que por norma saíam vencedores os senhores. 14. 1978. “O Distrito de Braga”. e de natureza económica. Com efeito. reflectia-se no quotidiano das comunidades. Ora os senhorios reivindicavam por norma o domínio directo sobre toda a área cultivada e inculta situada nas suas áreas de domínio. 1858. Em 1618.1984. o que podia confinar a área do património concelhio a escassas terras42. pp. as áreas incultas cobriam percentagens sig- 41 A existência de privilegiados. pp. A apropriação dos recursos das áreas incultas constituiu um dos principais motivos de confronto entre senhorios. mas também no país. “Revista Portuguesa de História”. Lisboa. volume III da 2. as pessoas que possuíam o domínio útil de terras das casas senhoriais. . 2. tentavam obrigar os habitantes da comunidade que viviam do seu trabalho. abarcando agora um leque mais amplo. Julho-Dezembro. Coimbra. 183-223. Ana Isabel Ribeiro – Um conflito entre poderes na Gândara da Bunhosa no início do século XVII.. a prestar serviços gratuitos. bem como pelas casas senhoriais que lho haviam concedido. vol.186). p. Margarida Sobral Neto – Terra e Conflito. exploração e produção agrícola (1570-1834). Op. o procurador da Câmara de Coimbra invocava a existência de muitos privilegiados na cidade para se eximir ao pagamento de uma finta para as obras do Reino (Aires de Campo – Questões forenses. Imprensa da Universidade. 42 Margarida Sobral Neto . obrigando. XXXII. por vezes. como era por exemplo a região centro41. Salvador Mota –O senhorio cisterciense de Sta Maria de Bouro: património. as câmaras a realizar contratos de aforamento de terras incultas para preservar áreas de utilização comunitária. t. traduzia-se num forte constrangimento da acção camarária. pp. à partida.cit. que era ciosamente guardado por aqueles que o usufruíam.. 587-631.

uma parte significativa da produção agrícola destinava-se ao pagamento de diversos direitos às casas senhoriais. Tendo em conta a complementaridade existente entre áreas cultivadas e incultas as alienações destas. por parte dos senhorios. o que estava disposto na lei. Ora a impossibilidade de controlar os usos dessas áreas acarretava uma perda efectiva de poder sobre o território concelhio. determinavam que a sua alienação fosse feita “em camera”. directamente aos senhorios. que se pautavam pela auto-suficiência. após a consulta das vereações. Este facto repercutia-se negativamente no exercício de uma das principais competências dos concelhos: o governo económico. As casas senhoriais comportavam-se. num tempo em que a renovação da fertilidade da terra passava pela utilização de adubos vegetais e animais a subtracção de terras que eram o suporte para a criação desses fertilizantes afectava os níveis de produção e de produtividade com repercussões directas no abastecimento em cereais. intervinham. sector no qual o abastecimento se assumia como principal preocupação. o domínio das casas senhoriais sobre os incultos era abusivo. destinando-se. por norma. Ora. A cobrança era intermediada através de contratadores de rendas que. seriam os grandes negociantes de pro- . no entanto. alienando os espaços incultos sem consultar as vereações. Este pagamento não era feito. Estas eram assim detentoras de produtos agrícolas para consumo nas próprias casas. Mas os prejuízos mais visíveis eram de facto os de natureza económica: a impossibilidade de utilizar as terras incultas como fonte de receita significava uma enorme perda para as receitas municipais. como senhoras absolutas do que consideravam os seus domínios. contrariando. base da alimentação das populações. Com efeito. isto é. no sentido de evitar a saída de produtos necessários ao consumo do concelho. como afirmou Aurélio de Oliveira. as câmaras para além de intervirem na agricultura. também. Por sua vez. também. Muitos forais manuelinos que reconheciam o domínio senhorial sobre as terras incultas. provocaram um desequilíbrio susceptível de afectar a produção e produtividade agrícola bem como a criação de gado. no comércio de géneros alimentares. o grosso a ser comercializado. a diminuição das áreas de pastagem provocava uma diminuição da criação de gado o que interferia igualmente no abastecimento. aliás. Com efeito.SENHORIOS E CONCELHOS NA ÉPOCA MODERNA 163 nificativas dos territórios concelhios. Em articulação com as políticas de abastecimento. enquanto entidades a quem competia salvaguardar o bem comum. situando-se parte delas nas zonas fronteiriças entre concelhos. no entanto. e também das câmaras. Em muitos casos. nesta área as políticas concelhias podiam ser afectadas pelos interesses dos senhores.

“se confundia com a cobrança de direitos e não com as jurisdições”47. vinho ou pão. com as necessárias consequências negativas para alguns estratos da população. apesar dos protestos das populações e das câmaras46. Alguns estudos sobre rendas agrícolas. atestam bem esta realidade. . in “História de Portugal”. Nuno Monteiro observou que a “questão senhorial”. p. 46 A população de Eiras e o mosteiro de Celas confrontaram-se. mas para a qual não tenho encontrado muitas respostas45. pelo menos na zona de Entre Douro e Minho44. Julho-Dezembro de 1980. “Revista de História Económica e Social”. 1-56. A comunidade de Eiras nos finais do século XVIII. Com a mesma política colidiam os monopólios senhoriais de fabrico de azeite. de acordo com o estabelecido nas Ordenações um terço da produção teria que ficar sempre no concelho em que era produzido. de que o marquês se tinha apoderado”( Jorge Fonseca – Montemor-o-Novo no século XV. pp. comprometeu a vida económica das comunidades e consequentemente as políticas concelhias. Com efeito. o facto de uma parte significativa da riqueza produzida numa comunidade ser canalizada para as casas senhoriais. Em 1483. ao longo do século XVIII. bem como o movimento de contestação anti-senhorial. o concelho de Montemor-o-Novo solicitou a D. p. Alguns aspectos e problemas.164 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS dutos agrícolas. 357. Mas o problema não residia apenas no eventual desvio de produtos necessários ao abastecimento local. 47 Nuno Gonçalo Monteiro – O poder senhorial. estatuto nobiliárquico e aristocracia. por causa do exclusivo senhorial do fabrico do azeite (Ana Isabel Sacramento Sampaio Ribeiro. privilégios ciosamente preservados pelos senhores. o principal problema residia no excessivo peso da tributação senhorial que asfixiava a vida económica local. Ora. pertencente ao município. o sistema de cobrança de rendas utilizado pela maioria das casas senhoriais poderia contrariar a política de autarcia económica prosseguida pelos municípios. João II “que lhe permitisse tomar posse de certa quantidade de cereal. n.cit). redes e dinâmicas sociais. Mas teriam os contratadores de rendas respeitado sempre esse princípio? Esta é uma pergunta que eu venho a colocar aos documentos há já algum tempo. nomeadamente os decorrentes da subida de preços. Ora. E observou ainda que “tanto para os donatários leigos como para os eclesiásticos o 44 Aurélio de Oliveira – A renda agrícola em Portugal durante o Antigo Regime (Séculos XVII-XVIII).º 6. tal como ela se exprimiu de uma forma particular nos finais do século XVIII. 67). não se verificando retorno em investimento. Op. Estruturas. 45 Conhecem-se casos de câmaras que mandaram colocar cadeados em celeiros dos senhores para impedir o desvio de cereais em tempos de carestia. provocada pela diminuição da oferta.

1997. in “Poder central.SENHORIOS E CONCELHOS NA ÉPOCA MODERNA 165 número de concelhos em que recebiam direitos com jurisdição era idêntico ao daqueles em que cobravam direitos sem jurisdição”48. 1999. A libertação dos municípios da tutela senhorial ocorrerá apenas na sequência da revolução liberal. Esta situação explica a conflitualidade que. Do Antigo Regime à Regeneração (1816-1851). Com efeito. poder local. Cosmos. nomeadamente provedores e corregedores49. pp. pp. in “Origens do Estado Moderno (Revista Século XVIII)”. na última década do séc. No quotidiano da vida das comunidades o poder senhorial mais sentido pelas populações era. Margarida Sobral Neto – Poder central e poderes locais na época pombalina. o exercício dos poderes senhoriais constitui-se como um factor limitador da autonomia das câmaras e fortemente condicionante do exercício das políticas concelhias. à aplicação integral da legislação que. Sociedade Portuguesa de Estudos do Século XVIII. promovidas pelas vereações. entretanto. A força do poder senhorial resistirá. no momento em que a autonomia dos concelhos. políticas que foram coadjuvadas pelos oficiais periféricos da Coroa.o-Novo. . ao longo da época moderna. tendentes a libertarem-se das presenças senhoriais nos territórios concelhios. será cerceada pelo poder central50. Lisboa. Paulo Jorge da Silva Fernandes – Elites e finanças municipais em Montemor-o-Novo. 2000. e sobretudo recursos. agora reduzidos em número. XVIII aboliu os direitos jurisdicionais concedidos aos donatários. poder regional. de facto. 48 49 Idem. Lisboa. poder. 65-84. que se intensificou na época pombalina decorrente das políticas. 50 Sobre as transformações ocorridas na vida municipal no período liberal vide. Uma perspectiva histórica”. Reexame de um tema. Consideramos que o atrás exposto pode sustentar a tese de que o exercício do poder concelhio foi fortemente condicionado pelo poder senhorial com quem teve de partilhar jurisdições. se gerou entre senhorios e municípios. Câmara Municipal de Montemor. o desempenhado pelos cobradores de rendas ou pelos executores das casas senhoriais. 356-357. Luís Nuno Espinha da Silveira – Estado liberal e centralização.

hoje dispomos de um conhecimento bastante razoável acerca as assembleias representativas da época moderna.Entre o centro e as periferias. destacando-se. Grande parte dos estudos que foram realizados incidiu nas instituições representativas dos reinos ibéricos que integraram a Monarquia Hispânica. Gelabert9. para a Galiza cumpre ter em conta as investigações de Manuel Artaza Montero17 e de María del Cármen Saavedra Vázquez18. de Luis González Antón5. de José Ignacio Fortea Pérez2. Convém frisar que o interesse pelas assembleias representativas não é exclusivo dos historiadores que trabalham sobre a Península Ibérica19. Carretero Zamora4. Trata-se de investigações que muito contribuíram para esclarecer o papel político desempenhado pelas assembleias de Cortes. Em Inglaterra. são hoje uma referência obrigatória os trabalhos de Pablo Fernández Albaladejo1. A. entre os muitos estudos que poderiam ser citados. veja-se os estudos de Fernando de Arvizu y Galarraga15. Os Municípios no Portugal Moderno: dos forais manuelinos às reformas liberais Lisboa. Edições Colibri – CIDEHUS-UE. de Oriol Oleart i Piquet13 ou de Joan Lluis Palos Peñarroya14. e no que toca às Cortes de Castela-Leão. 2005. 167-242. de Angel Casals12. de Juan Luis Castellano6. os trabalhos de Luis González Antón. de Charles Jago7. A assembleia de Cortes e a dinâmica política da época moderna* PEDRO CARDIM (Universidade Nova de Lisboa – Dept. A. M. por fim. Os órgãos representativos de Aragão e da Catalunha também mereceram alguma atenção. mas também as investigações de Ernest Belenguer Cebrià11. assistiu-se também ao surgimento de uma série Notas no final do trabalho. Assim. de História) Após duas décadas de significativos desenvolvimentos historiográficos. de J. Acerca das instituições representativas de Navarra. e para o País Basco os trabalhos de Jon Arrieta Alberdi16. de I. . Thompson3. de Xavier Gil Pujol10. por exemplo. de José Manuel de Bernardo Ares8 ou de Juan E. pp.

posteriormente. na linha daquele que foi efectuado por Fernando Bouza para a assembleia de 158147. tendo em vista captar a percepção que os povos peninsulares tinham das assembleias representativas realizadas nos reinos vizinhos. de Fernanda Olival44. ainda não existem estudos abrangentes sobre o conjunto das reuniões dos séculos XVI e XVII. Conrad Russell23. de Fernando Bouza Álvarez39. nos contributos de Joaquim Romero Magalhães38. A historiografia portuguesa participou. e a despeito do trabalho que foi realizado. Por outro lado. do contexto em que cada uma delas se realizou. os Estados Italianos25. de Armindo de Sousa35. No que toca às reuniões celebradas no período Seiscentista. caso a caso. à escala ibérica. etc. Mark Kishlansky22 e. dos debates desenvolvidos. também foram objecto de aturado estudo. de Paulo Merêa32 ou de Marcelo Caetano33 –. de Pedro Cardim45 ou de Ângela Barreto Xavier46. como a França24. Todavia. não há dúvida de que muito subsiste por estudar. dos seus participantes. . demasiado vasta para ser aqui apresentada. algumas das mais importantes investigações sobre a história política e administrativa do Portugal Moderno contribuíram para uma compreensão aprofundada do lugar das Cortes no sistema político. ainda que indirectamente. de Luís Reis Torgal41. de António Manuel Hespanha42. Todavia. de Francisco Ribeiro da Silva43. de Eduardo Freire de Oliveira31. de que resultou uma volumosa bibliografia. urge levar a cabo o estudo comparativo. está por fazer a análise. e. a recente historiografia manifestou algum interesse pelo estudo das assembleias representativas do Portugal da época moderna. Seja como for. das reuniões de Cortes. a compreensão do papel desempenhado pelas Cortes no conjunto da administração central da Coroa. dos estudos de Henrique da Gama Barros30. nomeadamente. antes de mais. de Amélia Aguiar Andrade e de Rita Costa Gomes37 –. assinadas por historiadores como Blair Worden21. As instituições representativas de outras partes da Europa moderna. de Maria Helena da Cruz Coelho36. de António de Oliveira40. e ao contrário do que sucede para as Cortes da Idade Média – período para o qual dispomos dos trabalhos de José Mattoso34. Tirando partido das questões levantadas em trabalhos pioneiros – como os de João Pedro Ribeiro28 ou do Visconde de Santarém29. As Cortes do século XVI. continuam à espera de um estudo aprofundado. das decisões tomadas. sobretudo. Importa aprofundar. a Flandres26 ou o Sacro Império27.168 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS de obras dedicadas ao Parlamento dos séculos XVI e XVII20. em particular enquanto espaço de articulação entre os poderes locais e a Coroa. também. neste renovado interesse pelas Cortes da época moderna. Pensamos.

de molde a reconstituir o sentido das intervenções dos participantes. mas sim o laço de pertença que resultava do próprio . igualmente. e num contexto social onde coexistiam distintos sentimentos de pertença à comunidade política. por seu turno. assim como o impacto das suas decisões no mundo político das periferias48. igualmente. o funcionamento das sessões. o mesmo se podendo dizer de questões como a hierarquia entre as cidades e vilas com voto em Cortes. tendo em vista compreender a relação entre as sucessivas configurações do discurso político e o maior ou menor protagonismo das Cortes.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. A ASSEMBLEIA DE CORTES. igualmente. abordagens na linha da história das ideias políticas. temática largamente negligenciada pelos historiadores portugueses e de cujo estudo depende a compreensão cabal do significado político das Cortes da época moderna49. 169 Cada uma das actas das sessões. Falta. trata-se de um corpus que continua à espera de uma análise de conjunto... a da influência das autoridades senhoriais no comportamento dos procuradores oriundos de vilas situadas nos seus senhorios. também. ou do papel de Lisboa como «cabeça» do reino. e cumpre estudar. seria merecedora de um “estudo de caso” altamente contextualizado. as várias alusões à «assembleia dos três estados» nos reinados de D. Por último. As Cortes no ambiente político do Antigo Regime A fim de compreender o papel político das Cortes no quadro das relações entre o centro e as periferias. urge avaliar o verdadeiro significado do debate sobre as Cortes na segunda metade de Setecentos. está por cumprir toda uma vasta agenda de investigação sobre as Cortes do Portugal da época moderna. os processos de decisão. a realização de investigações sobre a história da fiscalidade. José I. É igualmente imprescindível dedicar alguma atenção à articulação entre as Cortes e o mundo local. é indispensável ter em conta que se trata de uma assembleia que operava num quadro comunitário eminentemente corporativo. Como se pode verificar nesta breve enumeração. Questão importante é.. os processos de selecção e o estatuto dos procuradores. Quanto ao vasto conjunto de petições existente nos arquivos portugueses. Trata-se de um universo político onde o principal quadro de referência não era a divisão administrativa implementada pela Coroa. etc. também. por exemplo. Fundamental será. a fim de se perceber. João V e de D. A participação do «estado da nobreza» e do «estado eclesiástico» nas sucessivas reuniões de Cortes é outro tema que ainda não foi objecto de um estudo sistemático. Urge efectuar. uma iniciativa sistematizada de publicação da documentação produzida pelas Cortes do século XVII50.

Estamos. no seu seio. territórios esses que apresentavam perfis e estatutos bastante diversos. A urbe. el cabeça. por sua vez. de resto. um conjunto político plural. num primeiro momento. Tal heterogeneidade. Em termos administrativos. Apesar dos inevitáveis contrastes regionais. por conseguinte. como a cabeça de um conjunto de territórios. Nesse quadro. assim. Tanto uns como os outros formavam comunidades tendencialmente completas. ordem essa que atribuía a cada uma das instituições locais um lugar preciso na escala de dignidade política. a comunidade local era o elemento que precedia as demais unidades políticas. O quadro de referência da Coroa era o «reino». perante um ambiente de pluralidade de pertenças e de identidades políticas. Convém não esquecer que a sociedade da época moderna assentava em corpos de todo o tipo. Todos esses territórios estavam sob a égide de um rei. e fê-lo. assi la deue auer en el mixtico de la Republica. as . encontrava-se bem expressa na titulatura régia. assim. y como en el cuerpo phisico ay correspondência de amor. entre cabeça y miembros. escalonadas segundo uma ordem fortemente hierárquica. também elas estavam presentes. estruturante. era este o cenário que caracterizava toda a Península Ibérica53. pequenas «repúblicas» virtualmente auto-governadas. resultante da progressiva incorporação e agregação de territórios.170 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS tecido social em que cada pessoa estava integrada. A malha administrativa da Coroa desenvolveu-se mais lentamente. e a cidade ou vila onde se residia constituía o núcleo central da sociabilidade. do conceito de autoridade no Antigo Regime51. em especial o de administração da justiça. as principais instituições actuantes sobre o terreno eram os senhorios – eclesiásticos e seculares – e os municípios. e o reino como uma comunidade de cidades. Nas palavras do jurista João Salgado de Araújo. era tida como uma comunidade de famílias. y los vassallos miembros. toda uma série de comunidades locais. Cada um dos «reinos» que povoava a paisagem da época moderna era. y el Reyno hazen un cuerpo mixtico. segundo uma escrupulosa ordem hierárquica. assim como os variados corpos em que estava estruturada a sociedade. a comunidade territorial de ordem superior que englobava. No que respeita às divisões administrativas da Coroa. como se sabe um atributo essencial. Os princípios fundamentais que regiam a coexistência no espaço do «reino» eram a partilha recíproca – entre o rei e o reino – de direitos e de deveres. «el Rey. cada um deles titular de uma diversa gama de poderes. embora a sua entrada em cena seja posterior à das divisões que acabámos de referir. onde sempre se enumerava. adaptando-se à realidade social e jurisdicional que a precedia. e com combinações de natureza bastante diversa. O rei surgia. o qual lhes concedia uma margem de autonomia mais ou menos ampla. entre el Rey y sus vassallos…»52. todos os domínios que estavam sob a alçada do soberano.

Por fim. bem se esforçaram por aprofundar o significado da pertença a unidades políticas mais vastas. a um reino. importa ter em conta que as obrigações inerentes à pertença ao «reino» estavam longe de possuir a força que caracteriza os actuais deveres de cidadania. a qual por essa altura se assumiu como a cabeça de um império pluricontinental. sobretudo quando comparadas com os deveres para com a família. O mesmo se poderia dizer da Coroa de Castela. A ASSEMBLEIA DE CORTES. e em que o «reino» se tornava momentaneamente visível enquanto enquadramento de pertença comum a todos os diversificados membros que o integravam. D. falando-se em «bem comum do reino» e em direitos. Quanto aos reis. porque predominava um sentimento de pertença eminentemente orgânico e particularista. A par destas pertenças.. de seguida. Verificou-se que os sentimentos de ligação à comunidade local já não eram completamente compatíveis com a realidade cada vez mais extensa de entidades como a Coroa Portuguesa. Fizeram-no . de um império. a uma família. que não favorecia o desenvolvimento espontâneo de deveres para com organizações políticas mais vastas e de natureza artificial. tanto na Europa como fora dela55. todos estes quadros de pertença estavam englobados naquele que era o elemento identitário por excelência: a inserção na Respublica Christiana. mas também em obrigações inerentes à condição de parte integrante da comunidade reinícola54. No ambiente político do Antigo Regime a assembleia das Cortes era o momento em que estas várias partes que compunham a comunidade se reuniam com o rei.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. 171 quais não eram necessariamente contraditórias. Contudo. Faltava uma base para o surgimento de obrigações comuns. era-se habitante de uma cidade. reuniram-se as condições para a reconfiguração dos laços de associação política. Pertencia-se.. No decurso das «reuniões dos três estados» eram invocados sentimentos de pertença a um corpo político a que se dava o nome de «reino». Todavia. também ela senhora de vastos domínios. por último. Sebastião I em Portugal. a partir daí pertencia-se a uma cidade-província. primeiro. No cenário político do Antigo Regime. As várias casas reais procuraram forjar outro tipo de vinculações e de sentimentos de pertença. ou para com a entidade corporativa de que se fazia parte. com a expansão das monarquias. para com a comunidade onde se residia. depois a uma aldeia. João III e D. a inserção em corpos como o estado social ou o grupo sócio-profissional. depois. no século XVI.. adicionando-os aos pré-existentes laços de natureza orgânica e de cariz particularista. avultava. até. igualmente. Carlos I e Filipe II nos domínios dos Habsburgo. a uma vila ou a um bairro. de uma solidariedade geral. as obrigações associadas à condição de parte integrante do «reino» eram pouco consensuais e pouco mobilizadoras. podia-se também fazer parte de uma monarquia ou. mas sim complementares.

A orgânica das Cortes Qual foi o papel desempenhado pelas assembleias de Cortes nesse período em que os líderes políticos do ocidente Europeu apelaram aos seus vassalos. Todavia. para que tivessem em conta não só o seu «bem particular». apenas as figuras mais proeminentes do reino. Em Portugal. a primeira assembleia que contou com a presença de procuradores das cidades parece ter sido a que se realizou em 1254. muitos questionaram as grandiloquentes visões régias de conversão do Reino lusitano na cabeça de um potentado pluricontinental. Assim. onde as obrigações inerentes à pertença a esses espaços políticos surgiam cada vez mais associadas às causas comuns da Cristandade. Manuel levou muito a sério a hipótese de liderar um projecto de união com Castela e Aragão sob a égide da Coroa portuguesa. Fizeram-no. e os seus membros também fomentaram projectos de constituição de unidades políticas de carácter mais vasto. Miguel da Paz são reveladoras da hipótese de entrada de Portugal para uma união com Castela e Aragão. incrementando o seu dispositivo administrativo. em certos momentos. secular e eclesiástica. numerosos foram os castelhanos que manifestaram reservas face aos propósitos imperiais de Carlos I e de Filipe II56. as movimentações em torno do príncipe D. nessa ocasião um segmento da sociedade portuguesa não escondeu o seu temor perante as consequências que poderiam advir da entrada do reino lusitano para uma unidade política tão vasta57. como é sabido. Aliás. congregando. e vários territórios resistiram a esta dinâmica. Em Portugal. Em Castela. mas também o «bem comum do reino»? Convém lembrar que as Cortes começam por ser uma forma alargada de conselho régio. também. Nos derradeiros anos de Quatrocentos. cumpre referir que. Seja como for. a fim de conferir mais homogeneidade à acção da Coroa.172 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS desenvolvendo uma pujante acção mecenática. Como se sabe. os representantes das cidades começaram a ser chamados às Cortes a partir de meados do século XIII. o projecto de conversão da Coroa lusitana na cabeça de um grande império também não se revelou consensual e. Cumpre não esquecer que a família real de Portugal – a Casa de Avis – acalentou planos dinásticos. os sentimentos particularistas de que atrás falámos revelaram-se muito resistentes. os nobres foram o único dos «três estados» a comparecer na . de forma cada vez mais insistente. no início. Curiosamente. D. e durante muito tempo essa assembleia foi dominada pela nobreza. na primeira fase do seu percurso histórico as Cortes funcionaram sobretudo como o espaço de articulação entre a Coroa e a elite nobiliárquica.

fundamentalmente. os representantes do reino pensavam-se a si mesmos não só como conselheiros. por isso mesmo.. com o desenvolvimento dos vários órgãos da administração da Coroa e com a afirmação da corte régia como palco principal da política58. a assembleia representativa foi-se tornando mais importante para as corporações urbanas. pelos membros dos grupos privilegiados. portanto. que as Cortes começaram por ser compostas. sobretudo enquanto espaço de comunicação política com o rei. Nas Cortes deparamos. tendo como principal finalidade a manutenção dos equilíbrios pré-existentes. . a missão primordial do poder político consistia em reconhecer a ordem e garantir um equilíbrio inscrito na natureza das coisas. com uma prática de governo (e uma correlativa teoria) que tendia a conceber o poder antes de mais como instrumento para a conservação da ordem. actuando o rei a pedido dos vassalos. uma vez reunidas as Cortes. A ASSEMBLEIA DE CORTES. como o seu próprio nome indica. mas sobretudo como uma espécie de instância judicial. É fundamental não esquecer. sem dúvida. Paralelamente. e que incluíam questões de alcance mais geral. mas também jurídica. o qual. Por outras palavras. as Cortes foram-se tornando menos relevantes para o grupo nobiliárquico. a assembleia instava os vassalos a apresentar problemas. Assim. intervir. 173 reunião. Não devemos esquecer que. e os «capítulos gerais». Assim.. natural.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. todos os presentes assumiam a posição de autoridades imparciais chamadas a verificar a admissibilidade jurídica de pretensões e de contra-pretensões.. e que só mais tarde esta assembleia abriu as suas portas ao chamado «terceiro estado». Nessa fase as Cortes eram. mas sim para repor a ordem depois de rompida a natural disposição das coisas. de resto. E à semelhança do que se passava com todos os órgãos administrativos da época. desenvolveu outros canais para estabelecer a sua interacção com a Coroa. apenas. produzidos pelos «três estados» na fase inicial de cada assembleia. podendo. Porém. nesse período. assim. Esses pedidos eram formulados em dois principais tipos de documentos: os «capítulos particulares». mais esbatida. e ao contrário do que sucedia com o clero e com a nobreza. uma modalidade alargada de conselho régio. designadamente os emergentes conselhos palatinos e alguns sectores da cada vez mais desenvolvida administração da Coroa. as Cortes actuavam segundo uma técnica que estava pensada não tanto para evitar que a desordem se registasse. também as Cortes actuavam segundo uma matriz jurisdicionalista. em vez de exercer uma jurisdição eminentemente voluntária. faziam eco dos problemas «particulares» de cada comunidade local. os quais. Nesses pedidos gerais a visão particularista surgia. no processo governativo. desde reivindicações corporativas até advertências acerca de temas da actualidade do reino. Enquanto órgão dotado de uma matriz judicial. como um tribunal.

aos poucos. A prerrogativa de convocar os «três estados» era vista como uma marca de soberania. Todavia. por excelência. a partir de meados do século XIV o perfil dos órgãos representativos sofreu uma importante mudança. não fosse delegável59. No fundo. as Cortes eram encaradas como o encontro. para outros. durante os séculos XVI e XVII. Trata-se de uma indefinição que remonta ao período medieval. só o rei em pessoa podia chamar e presidir às Cortes. entre o rei e os seus vassalos. e como notou I. enquanto que em Portugal este princípio foi sempre respeitado. reino onde o clero e a aristocracia. A. sobretudo em Castela. e era precisamente essa proximidade física face ao monarca que fazia com que a assembleia fosse tão valorizada pela sensibilidade coetânea. assim como resolver problemas governativos que estivessem pendentes. no espaço da Monarquia Hispânica. em princípio. por . a consulta das Cortes era como que um acto de «graça». Os únicos que continuaram a marcar presença foram os representantes das cidades. Thompson63. Como sugerimos atrás. É certo que o encontro físico entre o monarca e os «estados» do reino só tinha lugar na sessão de abertura solene e nas cerimónias de juramento que eventualmente tivessem lugar. para alguns o rei tinha a obrigação de chamar a assembleia representativa antes de tomar qualquer decisão governativa de maior importância. Seja como for. importa referir que a situação constitucional das Cortes não era completamente clara. enquanto que. desde a segunda metade do século XIV os únicos nobres e clérigos que participavam na reunião eram aqueles que desempenhavam algum cargo na corte régia ou que. A. pois. Todavia. o que fazia com que. A finalidade era «tornar presente» o reino ao rei.174 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS De acordo com o costume. a fim de renovar o compromisso entre a Coroa e o reino. já nessa altura. De qualquer modo. Esta indefinição marcará todo o percurso histórico da assembleia62. pelo contrário. estava em curso um processo de gradual afastamento dos magnates da nobreza em relação às Cortes. foram deixando de comparecer nas reuniões de Cortes. o costume mandava que o rei deveria permanecer na localidade onde decorriam as Cortes até ao final dos trabalhos. por exemplo. Assim. os vice-reis presidiam a Cortes napolitanas e sicilianas. fruto da situação atrás mencionada: a aristocracia encontrara outros canais de influência e de articulação com a Coroa. e o mesmo se terá passado em juntas de cidades da América Espanhola61. dependente do arbítrio régio. deparamos com alguns territórios cujas assembleias representativas foram frequentemente convocadas pelos representantes locais do monarca: nas possessões hispânicas de Itália60. Vários chegavam mesmo a alegar que o parecer do conselho régio podia substituir o diálogo com as Cortes.

ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. controlo administrativo). na reunião celebrada em Leiria. se encontravam nas proximidades do local onde se realizava a reunião. embora o distanciamento da nobreza e do clero seja menos pronunciado. altura em que as convocatórias se tornaram muito menos numerosas. 175 acaso. oficiosamente. ou seja. a assembleia representativa desenvolveu uma considerável actividade de produção normativa. Sousa. em 1480 as Cortes de Castela eram já. e em 1477 surgiram as chamadas «comissões de definidores». no período tardo-medieval. foi em 1254 que os procuradores das cidades e vilas participaram pela primeira vez nas Cortes. os representantes dos núcleos urbanos costumavam ser os mais entusiastas na afluência às Cortes. grupos restritos de procuradores constituídos por iniciativa dos oficiais régios e que ficariam incumbidos de assegurar o andamento dos trabalhos. Quanto ao «estado do povo». No que respeita ao afastamento dos grupos privilegiados. ao mesmo tempo que interveio na política local. aquela que reunia os representantes das cidades. Um outro indicador a ter em conta é o elevado ritmo das suas convocatórias: na centúria de Quatrocentos realizaram-se mais de quatro dezenas de reuniões67. etc. no quadro da resposta às petições. as Cortes evoluíram no mesmo sentido dos demais reinos ibéricos. sobretudo em áreas como a fiscalidade (cobrança. podemos afirmar que as Cortes de Portugal mantêm o seu perfil de assembleia com «três braços». enquanto que o clero marcou presença em 24 reuniões. Acresce que as Cortes portuguesas continuaram a decidir sobre matérias de “alta política”. Trata-se de uma solução que tinha em vista agilizar os processos de decisão.. Assim.. sendo sistematicamente chamadas para intervir em certas áreas fulcrais do governo do reino como o juramento do rei ou a fiscalidade régia66. A partir da assembleia de 1331 os diversos «estados» passaram a reunir separadamente64. No tocante a Portugal. Além disso. ou seja. a nobreza compareceu em apenas 23 das 44 reuniões realizadas entre 1385 e 1490. Por isso. . uma instituição dotada de uma só câmara. a gestão das clientelas locais. Os trabalhos de Armindo de Sousa sugerem que. Para além disso. também em terras lusitanas. um valor muito superior ao que se registou no século posterior. pode dizer-se que.. De acordo com A. as Cortes portuguesas de finais da Idade Média terão contado com a participação regular de representantes de cerca de oito dezenas de cidades e vilas65. em Portugal. A ASSEMBLEIA DE CORTES. facto que aponta no mesmo sentido da valorização da importância da assembleia. entre as cidades registaram-se conflitos de precedência relacionados com o lugar em que participavam na «assembleia dos três estados». o recrutamento militar. embora se registe um certo desinteresse dos grupos nobiliárquicos.

A. cumpre assinalar que essa foi uma das raras ocasiões em que os «três braços» actuaram de forma concertada contra a fiscalidade régia. facto que deve ser visto não só como uma forma de a Coroa evitar uma oposição mais concertada entre os «três braços». O imperador desejava que esses grupos sociais tomassem parte. à data. participavam na reunião enquanto entidades que administravam territórios habitados por uma população mais ou menos significativa. Em 1538. um carácter senhorial. por Carlos V. A dissolução das Cortes. vinham-se desinteressando das Cortes desde meados do século XV. as Cortes activaram.176 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS No que concerne a Castela. Aliás. A. as Cortes de Castela converteram-se numa assembleia de procuradores de cidades e vilas. estava a cair em desuso naquele reino. mas também como uma opção da aristocracia e do clero. o mesmo se podendo dizer da sua capacidade de intervenção em questões da alta política69. Como assinalámos. e terá sido esse o motivo que levou o imperador a ordenar a sua dissolução. As formas de representação política nas Cortes Enquanto órgão representativo. e ao fazê-lo estava de algum modo a reeditar um modelo de reunião que. Como dissemos. esses dignitários par- . ao longo da sua história. e também as cidades. no período medieval. Thompson. em vez de apoiar os projectos de Carlos V. a 1 de Fevereiro de 153968. Assim. sobretudo. como dissemos. formas razoavelmente diversas de representação política70. A. a representação possuía. e como notou I. Até ao último chamamento das Cortes de Castela durante o século XVII (registado em 1664). I. de facto. a assembleia tornou-se no principal pólo de oposição aos novos impostos que a Coroa desejava introduzir. a resposta da aristocracia castelhana ao apelo do Imperador foi muito expressiva: 80% dos titulares e do alto clero responderam à chamada. razão pela qual a sua função consultiva diminuiu consideravelmente. em 1538 Carlos V tomou uma decisão marcante: exortou a nobreza e o clero a comparecer nas Cortes. A. essa assembleia jamais contaria com o «braço da nobreza» formalmente reunido. na assembleia. Uma coisa é certa: a não comparência da nobreza retirou alguma força às Cortes de Castela. encontraram canais alternativos para exercer a sua influência política e para defender os seus interesses económicos. a nobreza. os quais. para a nobreza as Cortes tinham-se tornado pouco relevantes. Todavia. em 1539. Thompson71 e José Ignacio Fortea Pérez72 assinalaram que. mas também o clero. marcou o fim da convocatória dos nobres e do «estado eclesiástico» para a assembleia castelhana. Tanto os nobres como os clérigos. E com o abandono da aristocracia.

em questões como pedidos ou «serviços». Enquanto que no «estado da nobreza» e do clero o princípio da maioria suscitou algumas reservas.. razão pela qual. mas sim como um direito que lhes assistia. De facto. parece que as Cortes se assumiam como uma assembleia que representava o conjunto do reino. não era claro se os nobres. António M. Além disso. 177 ticipavam nas Cortes não só como membros do «estado eclesiástico» ou do «estado da nobreza». ou seja. no «terceiro estado». as instituições urbanas passaram a ser o único «braço» chamado às Cortes de Castela. entre outras coisas. Como dissemos. pequenos lugarejos. . a questão jamais reuniu consenso. a propósito deste tema. e ao longo de toda a existência das Cortes discutiu-se até que ponto os juramentos ou os votos nas assembleias obrigavam aqueles que não estavam presentes75. No que respeita ao «terceiro estado». No caso da assembleia de Castela-Leão. até. escreve D. em princípio. quando compareciam nas Cortes. O caminho percorrido até se chegar a essa situação tinha sido longo. A ASSEMBLEIA DE CORTES. tanto cidades de grandes dimensões como vilas e. não podiam falar pelo conjunto do «estado da nobreza». respondendo a alguns procuradores que.. com regularidade. às Cortes. Discutiu-se. o que. fazia com que os seus processos decisórios fossem algo diversos daqueles que vigoravam no «terceiro estado». chegou a integrar mais de uma centena de urbes. as quais assumiram a tarefa de representação do conjunto da Coroa de Castela. Seja como for. para além disso. vimos atrás que. A nobreza e o clero.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. os membros do «estado da nobreza» não eram eleitos nem recebiam qualquer procuração. apesar da resistência de alguns procuradores. só a partir de finais do século XIII é que as comunidades urbanas começaram a ser chamadas. João IV em Fevereiro de 1646. representavam a nobreza enquanto corpo. mas também como senhores de terras. permaneceu a ideia de que cada participante se representava a si mesmo. Hespanha notou. que o entendimento atomista de representação prevaleceu até ao final do Antigo Regime: em questões de política global do reino.. e he cousa que não padeseo numqua de comtrouersia». No entanto. se o voto da maioria dos membros do «estado da nobreza» obrigava aqueles que tinham decidido noutro sentido76. costumavam vincar que participavam nas Cortes não tanto por obrigação para com o rei. também. se recusavam a acatar a decisão maioritária77. esse princípio parece implantar-se: «o que se assenta e vence pela maior parte se assina e segue pela menor. comparecendo um total de dezoito cidades. após 1539. tendo perdido uma votação sobre questões fiscais. como figuras que detinham uma margem de autoridade administrativa sobre parcelas significativas do território e sobre conjuntos populacionais nada desprezíveis73. e em seu nome concordava ou não com o que lhe era pedido74.

Quanto ao reino da Galiza. Toledo. Castela-a-Velha e Castela-la-Mancha eram. Para Luís Miguel Duarte. a opção por não comparecer foi tomada pelas próprias localidades. contavam com um grande número de assentos em Cortes. dos concelhos das regiões situadas a norte do rio Mondego81. Para além destas regiões. e uma no reino de Múrcia (Múrcia). em Portugal a procedência geográfica dos procuradores também não obedece a nenhum critério de proporcionalidade aritmética. e como assinala o mesmo J. encararam a assembleia como uma instituição pouco relevante para a protecção dos seus direitos78. quatro em terras de La Mancha (Madrid. o factor que motivava a participação das cidades nas Cortes era a forte tradição de governo participativo que existia em toda . pois. Refira-se que. nas Cortes. as quais. Ávila. enquanto que regiões muito menos povoadas. Toro. tal como os nobres. À semelhança do que sucede nas demais Cortes ibéricas. A distribuição geográfica das urbes com voto em Cortes é também reveladora de que a representação política activada nessas reuniões não reflectia um critério de proporcionalidade geográfica ou demográfica. Desse modo. De um modo geral. entre os quais avultavam as províncias bascas (que contavam com a sua própria estrutura representativa. de um modo geral. o norte peninsular carecia também de representação na assembleia castelhana. I. Sória). vastos territórios ficavam privados de representação nas Cortes. Sevilha e Granada). então conhecia por «La Montaña». José Ignacio Fortea Pérez79 notou que mais de metade dessas cidades se concentravam no interior de Castela: nove em torno da bacia do rio Douro (Burgos.178 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS com o passar do tempo o número de municípios representados nas Cortes de Castela foi claramente diminuindo: das 101 cidades presentes em 1315 passou-se para 17 em 1435. Cuenca e Guadalajara). enquanto que Salamanca falava por toda a Extremadura80. Valhadolide. assim como os territórios das Ordens Militares. Segóvia. situação compensada pelo facto de o município de Burgos representar oficiosamente a zona Cantábrica. Salamanca. Fortea Pérez. dependia de Zamora. a força do regime senhorial a norte do Mondego explica esta disparidade. coube a dezoito cidades falar em nome do conjunto da Coroa de Castela. Por outro lado. nas juntas específicas completamente independentes das Cortes de Castela). León. como o Alentejo. quatro no reino andaluz (Jaén. as áreas melhor representadas nas Cortes de Castela-Leão. há também a registar a presença de um número considerável de procuradores enviados por cidades e vilas situadas na proximidade da fronteira. tendo sido esse o factor que ditou a fraca participação. Desse modo. a cidade de León desempenhava idêntico papel para o Principado de Astúrias. Córdova. Zamora. Leão. A região mais densamente povoada do reino – Entre-Doutro e Minho – estava sub-representada.

o exercício da autoridade régia era visto como parte de um sistema de poderes e de contra-poderes que se equilibravam. verdadeiras «comunidades de privilégios» (T. durante séculos. empenhados no processo de consolidação das bases do seu poderio. também desempenhou o seu papel na persistência dessa tradição participativa. do que para modalidades decisórias mais individualistas. com toda a sua exaltação do governo republicano. De facto.. lembrava que a pessoa régia não estava sozinha na decisão sobre questões governativas. . e em muitos momentos as Cortes assumiram-se como um dos principais momentos de defesa desses privilégios ante as investidas da Coroa. por seu turno. dos valores cívicos e do individualismo. E ao mesmo tempo que se desenvolvia esta tradição de governo participado. 179 a Península Ibérica. facto que também terá contribuído para consolidar a presença das cidades nas Cortes. doutrina acolhida nas obras dos principais teólogos e juristas daqueles anos86. Desde tempos ancestrais os municípios vinham desenvolvendo formas colegiais de decisão. Acresce que as concepções políticas predominantes no mundo ibérico apontavam muito mais para um exercício do poder partilhado. Formavam-se. desse modo. no quadro deste imaginário político que a Coroa concedia a certas cidades a «honra» de tomar parte nas assembleias. Segundo Xavier Gil Pujol. Herzog82). é possível escutar ecos deste ideário em alguns momentos da história ibérica do século XVI. é interessante verificar que o facto de a cultura política ibérica ser intrinsecamente regalista não foi necessariamente incompatível com o reconhecimento de que as Cortes tinham um determinado lugar na relação entre o rei e os seus vassalos. no fundo. após a derrota dos comuneros a linha doutrinal de sentido regalista ganhou novo alento. desprovido de competências decisórias de maior alcance. as autoridades municipais reforçavam a sua identidade e constituíam-se como pequenas repúblicas locais. manifestaram uma menor disposição para convocar um órgão que. Era.. ainda mais contribuiu para enraizar tais processos de decisão. como por exemplo no movimento das Comunidades de Castela83. e o ideário «republicano» teve menos espaço para se desenvolver84. No entanto.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. persistindo uma forte tradição discursiva que insistia na importância incontornável do consensus populi. Todavia. Para além disso. garantindo à população que estava sob a sua égide toda uma série de liberdades e imunidades. A ASSEMBLEIA DE CORTES.. uma série de autores lembrava insistentemente que o povo – e não o rei – era o depositário do poder originário de Deus85. pois. Quanto aos monarcas. e a situação de auto-governo em que viveram. A influência de Itália e do chamado «humanismo cívico». É muito significativo que os escritos de teoria política em circulação a partir desse período retratem as Cortes como um mero fórum de debate.

Na realidade. e uma parte significativa dessa comunicação acabou por ter como palco a assembleia representativa. as assembleias representativas voltaram a desempenhar um papel mais interventivo na política. . a partir de meados de Quinhentos. de que a aprovação. O facto de reinos como Aragão. perante a afirmação da Coroa de Castela no conjunto da Monarquia. e ao contrário do que seria de supor. Nápoles ou Sicília integrarem os domínios dos Habsburgo também contribuiu para vincar o papel político das Cortes. Pode então dizer-se que a pertença à Monarquia Hispânica também contribuiu para que as Cortes assumissem um maior protagonismo. de medidas impopulares – como os novos impostos – poderia contribuir para tornar mais aceitáveis esses sacrifícios. viram na assembleia representativa um bom palco para zelarem pelos seus direitos e pelas suas liberdades face ao crescente voluntarismo régio. as elites aragonesas. Esta tendência manteve-se no século XVII. facto que favoreceu o discurso que via nas Cortes a única sede com legitimidade para aprovar novos tributos. O aumento das solicitações dos Habsburgo incidiu sobretudo no terreno fiscal. Nas diversas partes dos domínios dos Habsburgo os apelos régios para que se aumentasse o contributo fiscal tiveram o condão de fomentar o desenvolvimento de um discurso que vincava a natureza auto-governada das várias partes da Monarquia. os diversos reis aperceberam-se de que as Cortes poderiam desempenhar um papel importante enquanto espaço de inculcação de sentimentos de pertença ao «reino». napolitanas. bem pelo contrário: o maior voluntarismo da Coroa traduziu-se na intensificação da comunicação política entre o rei e o reino. sicilianas e. assim como a sua ancestral autonomia decisória87. desta feita como uma espécie de símbolo dos foros de cada uma das partes desse conjunto político compósito. mais tarde. também. Na verdade. essa comunidade política alargada que comportava uma nova gama de obrigações e de sacrifícios. Aperceberam-se. Foi assim que. altura em que se acentuou a faceta das Cortes como verdadeiros bastiões dos foros reinícolas e como pólos de obstrução à política régia. em Cortes.180 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Assim. portuguesas. recorreram a alguns elementos do ideário republicano para potenciarem a defesa dos foros reinícolas e para amplificarem os seus protestos sempre que consideravam que tais foros estavam a ser postos em causa pelo centro político. a afirmação do projecto político da Coroa não teve como consequência imediata o desaparecimento das Cortes. Quanto aos vários grupos sociais. política essa que cada vez mais exigia o contributo de todos para o esforço conjunto da Monarquia.

Cada cidade tinha os seus costumes electivos. com o conhecimento de todos os residentes. impondo algumas regras também elas bastante vagas: as eleições deveriam ser realizadas da forma costumeira. até porque a escolha do procurador era um processo que costumava extremar posições entre «parcialidades» locais ou «bandos» rivais.. Fortea Pérez afirma que a interferência régia nos processos de selecção dos representantes terá sido relativamente frequente até ao final século XV.. observando o que estava disposto nas Ordenações e abrangendo apenas os residentes na localidade que iria enviar os procuradores. 181 Os procuradores. A ASSEMBLEIA DE CORTES. passando depois para dois procuradores por cidade. devendo incluir o nome daqueles que haviam participado na escolha do representante. O mesmo estudioso sustenta que as disputas em torno da selecção dos representantes aumentaram no século XVII. ou seja. Em Castela. no contexto castelhano. ser avalizada pelo juiz de fora. reino onde a assembleia representativa continuou a ter uma afluência bastante numerosa de procuradores. os municípios começaram por contar com apenas um representante.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. o que pode estar ligado a um crescente interesse das oligarquias castelhanas em estarem presentes nas . Quanto ao reino português. existia uma norma que impedia que um mesmo regidor exercesse a função representativa em duas Cortes seguidas89. e a Coroa limitava-se a fazer recomendações gerais. até ao final de Seiscentos as Cortes lusas contaram com a participação de representantes de cerca de uma centena de cidades e vilas. é a partir do século XV que se regista a tendência para a generalização da regra de dois representantes por urbe88. para além de um certo património.. o mesmo sucedendo em Portugal. o primeiro dado a assinalar é o facto de não existir uma normativa geral que definisse o modo de proceder na sua selecção. De facto. e conter a afirmação de que o procurador fora investido de «poderes bastantes» para decidir sobre a matéria que motivara a convocatória das Cortes. Formas de selecção e poderes O número de procuradores enviado por cada cidade variou ao longo da existência histórica das Cortes. No que respeita aos processos de escolha dos procuradores. apesar de sabermos muito pouco acerca da interferência da Coroa portuguesa na escolha dos procuradores. tendo retrocedido a partir dessa data. Além disso. Acerca do reino de Castela. Importa referir que as eleições nem sempre eram pacíficas. a documentação de que dispomos sugere que os oficiais régios procuravam garantir que os representantes das principais cidades seriam coniventes com os projectos régios. o escolhido deveria possuir o perfil moral adequado ao desempenho de um ofício. a procuração tinha de obedecer a certos requisitos formais. o eleito deveria ser escolhido entre a «gente da governança» e de forma pública. No início.

proposta que também enfrentou forte resistência91. mas também como fonte de rendimento. depois da entrada de Portugal para a Monarquia Hispânica. Em finais de Quinhentos. Filipe I. Com efeito. pois as principais cidades eram frequentemente olhadas com desconfiança por parte das demais. Nas Cortes portuguesas. Tentou-se impor. ficando-se. e as autoridades urbanas mostraram-se sempre relutantes em conceder aos seus representantes o «voto decisório». especificou que os procuradores deveriam trazer. a Coroa tentou transferir do voto decisivo para as Cortes. apenas. medida que se inscrevia num esforço mais vasto de reestruturação da administração fiscal.182 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Cortes. Em Castela. no mesmo sentido. tal proposta levantou problemas não só no terreno das relações com as cidades. é preciso ter em conta que a governança das principais cidades era frequentemente composta por aristocratas e por membros da nobreza de corte. de um modo geral. Todavia. o monarca procurava. os Habsburgo tentaram limitar o âmbito de intervenção das Cortes. desse modo. passavam a estar mais ao serviço da Coroa do que da cidade que os enviara. que os procuradores votassem não propriamente por cidades. Esta disparidade repercutia-se no desenrolar das sessões. Por outro lado. Desejoso de partir para Castela quanto antes. Talvez resida aí uma parte da explicação para o facto de algumas cidades manifestarem pouca confiança nos seus representantes. mas também porque acabou por não garantir à Coroa a docilidade da assembleia representativa. mas sim individualmente. as cidades «dos primeiros bancos» – com destaque para Lisboa. Assim. uma vez nas Cortes. em parte para defender os direitos da cidade que os enviara. Porto. reduzir a reunião a esse assunto . trata-se de uma questão que jamais foi debatia com o calor que caracterizou a polémica castelhana92. D. o que significa que uma parte do chamado «terceiro estado» era muito pouco “popular”. designadamente através da venda da procuração90. Quanto ao limite decisório dos procuradores. pelo «voto consultivo». encarando-os como figuras que. «poderes bastantes para jurar o príncipe». enquanto que as demais cidades e vilas com assento em Cortes tinham representantes de muito menor qualidade de nascimento. o direito a participar na assembleia representativa podia ser rentabilizado. a matéria nem sempre se revelou pacífica. designadamente através de uma restrição explícita dos poderes dos procuradores. a questão do controlo que as cidades exerciam sobre os seus procuradores suscitou bastantes discussões. e tendo em vista superar a representação atomista de que atrás falámos. Contudo. Coimbra e Évora – também costumavam contar com uma representação bastante selecta em termos de estatuto social. convém recordar que. e a título de exemplo. na carta de convocatória para as Cortes de 1583.

Em quase todas as petições mesteirais advinha-se um ambiente tenso entre as corporações artesanais e a chamada «gente da governança». durante o século XVI as Cortes continuaram a reunir com uma certa assiduidade: em Castela.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. Algumas cidades com maior tradição mesteiral tinham o direito de enviar às reuniões de Cortes.. caber cada vez mais ao Conselho de Aragão o principal papel representativo e de defesa dos foros reinícolas94. Tais petições versavam. ao facto de o monarca estar cada vez mais tempo ausente desses reinos. A decisão foi mal acolhida. com toda a pertinência. mas também do facto de. autor de um dos mais importantes tratados sobre o governo e os conselheiros (El Concejo i consejeros del Príncipe…. os quais também podiam apresentar petições ao rei. Em Aragão e na Catalunha. para além da decisiva reunião de 148295. aos «três estados». No que concerne às Cortes de Portugal.. ou «Capítulos de el rey Dom . a expressão do protesto dos mesteres. 183 e evitar debates sobre outras matérias. pelo contrário. e vários foram os núcleos urbanos que manifestaram o seu descontentamento por essa «novidade». e o mesmo estudioso nota. Das negociações que tiveram como palco essa reunião resultaram os «Artigos de Lisboa de 1499». sobre matérias especificamente relacionadas com o quotidiano das corporações mecânicas. por exemplo. corria o ano de 1499. A ASSEMBLEIA DE CORTES. tendo em vista converter as Cortes numa assembleia muito mais ágil e rápida. que é muito significativo que o aragonês Fadrique Furió Ceriol. Nessa ocasião foi dada a oportunidade. uma referência aos chamados «Procuradores dos Mesteres». deparamos com longos intervalos entre as convocatórias de Cortes. As reuniões das Cortes de Portugal no século XVI Apesar do ritmo de convocatórias ter baixado. Segundo Xavier Gil Pujol. Por último. celebraram-se 15 assembleias. naquela altura. Antuérpia. e nelas é possível encontrar. para além dos procuradores do concelho. fenómeno que se deveu. e no tempo de Filipe II registaram-se 11 reuniões. com grande frequência.. de discutir uma matéria da mais alta transcendência política: a entrada de Portugal para uma união dinástica com Castela e Aragão. os chamados «procuradores dos mesteres». habitualmente. pelo facto de as principais decisões locais serem tomadas pela Câmara sem que eles tenham sido consultados93. antes mais. outro momento importante foi a assembleia que se celebrou na cidade de Lisboa. no reinado de Carlos I. 1599) praticamente não se refira às Cortes. esses hiatos contribuíram para o enfraquecimento do potencial político das assembleias representativas. Tal silêncio é provavelmente o resultado do número diminuto de reuniões então realizadas.

a partir desta altura qualquer alteração ao cerimonial tendeu a ser encarada como um agravo e como uma ofensa aos direitos de cada um dos participantes no evento.184 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Manuel».Cortes de Torres Novas 1535 . ter voltado a estar muito associado à assembleia representativa97.Cortes de Lisboa 1525 .Cortes de Tomar 1583 .Cortes de Almeirim 1562 .Cortes de Lisboa 1580 . Reuniões das Cortes de Portugal no século XVI 1502 . com maior frequência. No século XVI as Cortes de Portugal reuniram 9 vezes. do papel que cabia aos «três estados» na decisão sobre matérias que tinham a ver com a sucessão na Coroa e com o «bem comum do reino». Na mesma linha. os séculos XVI e XVII legaram-nos vasta documentação que atesta a preocupação dos coetâneos em definir. uma série de garantias acertadas com os «estados» antes do juramento do príncipe D. Na verdade. o que aponta para a já referida maior intensidade da comunicação política entre centro e periferias.Cortes de Évora 1544 . Outro indicador da importância das Cortes é toda a atenção concedida ao seu cerimonial. assistiu-se. no século XVI. a dimensão da cida- . também. já que no período de Quatrocentos tinham-se realizado mais de quatro dezenas de reuniões. o qual já era herdeiro jurado das Coroas de Aragão e Castela96. é o facto de o juramento do príncipe herdeiro.Cortes de Lisboa 1579 . o cerimonial mais correcto para as diversas solenidades ocorridas no decurso das Cortes98. Miguel. da parte dos círculos régios. uma quebra em relação ao ritmo anteriormente registado. o que representou. com minúcia. a um gradual incremento do número de petições – «gerais» e «particulares» – enviadas pelas autoridades urbanas. Tal evento representou o reconhecimento. em termos quantitativos.Cortes de Lisboa Um dos dados que ressalta da trajectória das Cortes de Portugal. Tal opção era motivada por vários factores: antes de mais.Cortes de Almeirim 1581 . Um último indicador da importância desta reunião tem a ver com o facto de ela se realizar. Além disso. em Lisboa. pelos «três estados».

A ASSEMBLEIA DE CORTES. tendo uma vez mais em vista solicitar apoio financeiro ao reino. . aproveitando a ocasião para negociar mais um serviço fiscal99. o dispositivo governativo da Coroa foi adquirindo uma maior institucionalização. É também por esta altura que se começa a difundir a ideia de que as leis resultantes de debates realizados nas Cortes tinham uma força especial.. a opção por realizar as Cortes em Lisboa era a forma de o rei demonstrar aos «três estados» que era o reino que ia ter com a Coroa. Quanto ao monarca que se seguiu – D.. e não o contrário. em 1502 D. João III. antes de lançar novos impostos. para o Verão de 1525. O mesmo cronista recorda-nos que só treze anos mais tarde se deu resposta aos muitos pedidos apresentados nessa assembleia. Catarina de Áustria101. como «cabeça do reino» – o seu procurador falava em nome dos «três estados» na abertura solene das Cortes. esse papel foi sendo desempenhado pelo cada vez mais desenvolvido sistema judicial. gesto inédito até essa data. em 1544. E no que respeita ao controle da actuação governativa do monarca e à protecção dos direitos dos vassalos face a decisões da Coroa. D. acabando por desempenhar muitas das funções representativas. De facto. e que voltaria a ser repetido em algumas reuniões subsequentes102. o cronista António de Castilho lembra que por três vezes convocou os «três estados». Paralelamente. Manuel I reuniu as Cortes. uma vez mais motivadas pelas necessidades financeiras da Coroa. João como herdeiro da Coroa de Portugal. Depois desta reunião. João III relata que o rei decidiu chamar os «três estados». pelo reino. foram impressas. inclusive depois da realização das outras Cortes que o mesmo rei convocou para Évora. Manuel I não voltaria a chamar a assembleia representativa. Assim. em Lisboa (nos Paços do Castelo). nos seus Anais de D. corria o ano de 1535. à Coroa. consultivas e decisórias que antes cabiam às Cortes. João III não voltaria a convocar os representantes dos «três estados». 185 de. e também para custear a vinda da rainha D. o facto de Lisboa se assumir cada vez mais. que a habilitava a receber o grande número de pessoas que participava na reunião. teve sempre o cuidado de fazer «pesar» os tributos pelas Cortes100. as Cortes de Torres Novas (1525) reuniram fundamentalmente para tratar de um serviço fiscal a conceder. e o costume mandava que os procuradores lisboetas presidissem às sessões do «terceiro estado». As Cortes voltariam a ser chamadas anos mais tarde. Finalmente. Até ao final do seu reinado D.. só podendo ser revogadas em nova reunião da assembleia. Depois. assim como as leis delas resultantes. João III –. Castilho assevera que D. Frei Luís de Sousa. mas não menos importante.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. especificamente para o juramento do príncipe D. devido aos gastos crescentes da sua casa. As petições entregues nesta assembleia.

a 11 de Junho de 1557. antes de falecer. algo de . a reforma dos principais tribunais. durante as quais anunciou a sua disposição de renunciar ao governo. e nessa mesma tarde celebrou-se. Ao tomarem essa decisão. Quanto a D. a cerimónia que formalizava a constituição da regência. acrescentando. discutiram mais um serviço de 100 mil cruzados à Coroa. também eles votaram a favor da entrega do governo a D. Depois de longos debates acerca do modo de transmissão do poder. Catarina enquanto D. Nesta assembleia foi produzido um significativo conjunto de «capítulos gerais». os casamentos da família régia. foram também entregues numerosos «capítulos particulares». o modo de organizar a administração central e a casa real. Para além disso. tinha manifestado a intenção de que o governo fosse confiado a D. assumiu as rédeas do governo a 20 de Janeiro de 1568. alegando a sua naturalidade castelhana. empenhados em obter a resposta régia a esses pedidos. devido à sua crescente marginalização da alta política. porém. Catarina. e talvez as Cortes de Portugal acabassem então por cair no esquecimento. a pretensão da rainha acabou por ser aceite. etc. no Paço da Ribeira. Sebastião. a rainha D. e nessa ocasião o secretário de estado Pedro de Alcáçova Carneiro terá afirmado que o rei. incluindo recomendações sobre temas como o governo geral do reino. Sebastião não atingisse a maioridade. Catarina manobrou para que as Cortes não reunissem para a aclamação do jovem D. e que tal reunião se celebraria no dia seguinte. Catarina terá chamado ao Paço Real alguns dignitários da nobreza e da Igreja103. Henrique. A rainha D. Catarina voltou a reunir as Cortes em 1562104.186 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Aquando da morte de D. Catarina. Instados a dar a sua opinião. Sebastião I. que tinham de reunir o Senado para saber qual seria a vontade do povo. a convocatória das Cortes num período sempre delicado: a menoridade do rei. Não tivesse este reinado conhecido o desfecho trágico que todos conhecemos. e os procuradores. Ao cabo de uma longa discussão. Evitava-se. e alguns dos que nela participaram manifestaram a sua oposição a D. a reunião na câmara foi mais agitada do que se previa. e até ao final do seu reinado jamais convocou as Cortes. Nessa reunião estavam também presentes os vereadores da câmara de Lisboa. Todavia. declararam que só concederiam um novo serviço fiscal depois de o rei ter respondido às suas petições. as Cortes voltavam a ter uma intervenção na mais alta política: a entrega da regência do reino ao Cardeal D. assim. para além de terem estabelecido uma série de condições que deveriam ser observadas pelo novo governante do reino105. os representantes do «terceiro estado» procuravam evitar algo que até aí vinha acontecendo de uma forma mais ou menos sistemática – o atraso da Coroa na resposta aos pedidos entregues nas Cortes106. de algum modo a representar o conjunto dos poderes urbanos do reino. João III. Todavia. Além disso. D. De acordo com a documentação da época.

Afonso III109. Conta Fernando Bouza Álvarez107 que. 187 diverso aconteceu: a crise sucessória provocada pela morte prematura do monarca contribuiu para relançar o papel político das Cortes. Como dissemos. entre os finais de 1578 e boa parte de 1579. da tese da eleição do rei pelas Cortes. e reunidos entre Abril e Junho de 1579 – nunca se decidiram. Sancho II fora declarado rex inutilis e substituído pelo seu irmão D. em 1579.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. em Setembro de 1578 Filipe II escreveu a Cristóvão de Moura pedindo-lhe que procurasse na Torre do Tombo papéis que provassem «como y cuándo». aquando do juramento do príncipe D. em certos momentos da história do reino. Cristóvão de Moura encontrou um documento importante no arquivo da Câmara de Lisboa: os «Artigos de Lisboa de 1499» ou «Capítulos del rey Dom Manuel». os «três estados» – convocados por D. nas quais D. foram recordados alguns precedentes da história portuguesa: o caso de D. as Cortes de 1385. primeiro rei de Portugal. fora aclamado rei. No essencial. João. e como assinala Mafalda Soares da Cunha. cada um à sua maneira. Mafalda Soares da Cunha reconstituiu.. Porém. António. o episódio em que o rei D. Segundo Bouza Álvarez. a disputa suscitada pela crise dinástica. aos «três estados» reunidos em Almeirim foi novamente dada a oportunidade de se pronunciarem sobre uma matéria crucial: a sucessão no trono. em Portugal. D. em Outubro de 1578. tanto mais que os teólogos de Salamanca e de Alcalá que tinham sido consultados sobre a . lembrando episódios do passado português em que os «três estados». com grande clareza. a despeito destas revelações. Trata-se de uma série de garantias que tinham sido estabelecidas nas Cortes de Lisboa de 1499. a sua faculdade decisória em matérias sucessórias. Afonso Henriques. os diversos candidatos em presença – com destaque para Filipe de Habsburgo. Para além da mobilização de um complexo argumentário jurídico. tinham intervindo. assinalando que a coexistência de vários regimes sucessórios dificultou a avaliação dos fundamentos jurídicos invocados pelos vários candidatos ao trono português. em contextos de crise sucessória. Miguel. A ASSEMBLEIA DE CORTES. Prior do Crato – socorreram-se. mestre de Avis. Assim. Nesse contexto. O mesmo Fernando Bouza assinala que. de uma forma taxativa. tal documento reforçava a tese de que as Cortes de Portugal tinham exercitado.. no sentido de levar por diante a eleição. Catarina de Bragança e D.. vários foram os oficiais de Filipe II que estiveram ocupados com a preparação das várias alegações e pareceres jurídicos para sustentar a candidatura do Habsburgo ao trono português. Henrique I para Lisboa. no seu conjunto a crise sucessória de 1578-80 contribuiu para potenciar do papel das Cortes de Portugal. podia «el pueblo eligir Rey»108.

Nas sessões que se seguiram os «estados» debateram. o que não impediu que as Cortes continuassem reunidas até 15 de Março. Já bastante debilitado e muito pressionado pelos vários pretendentes ao trono português. a questão sucessória. cidade onde se situava a sede da prestigiada Ordem de Cristo. nesta fase. no caso de o trono estar vago. por estar na posse de informações de que os demais pretendentes contavam com muitos apoiantes no seio do «braço do povo». a que alguns deram a denominação de «Cortes» – a 19 de Junho de 1580112. um gesto que visava transferir para os «três estados» a responsabilidade de uma decisão tão melindrosa. esse evento atemorizou bastante Filipe II e os seus apoiantes. E num contexto em que era cada vez mais evidente que Filipe de Habsburgo pretendia dar início à intervenção militar sobre Portugal. contando com a comparência do monarca. em finais de 1579 o rei convocou os «três estados» para uma reunião em Almeirim.188 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS matéria haviam declarado que as Cortes não tinham o poder para eleger reis110. António. pois foi um exemplo concreto de voluntarismo do «reino». Filipe de Habsburgo desejava evitar. prior do Crato e um dos pretendentes ao trono português. a 30 de Abril de 1580 os cinco Governadores voltaram a convocar o «reino» para Santarém. e pouco tempo depois convocou as Cortes para a localidade de Tomar. mantendo uma acalorada discussão sobre o futuro da Coroa. fundamentalmente. Em meados de Junho estava já em Santarém um número considerável de procuradores. A abertura solene das Cortes realizou-se a 11 de Janeiro de 1580. fazendo-se aclamar – numa cerimónia atípica. Filipe de Habsburgo fez a sua entrada em Portugal. decidiu precipitar os acontecimentos. deixando o reino entregue a cinco Governadores. Este acontecimento preocupou Filipe II e terá precipitado a acção militar que culminaria na derrota das forças apoiantes de D. outros juristas alegaram que só havia lugar para a intervenção das Cortes em última instância. Ao optar por realizar o seu primeiro encontro com os «três estados» portu- . ou seja. Enquanto decorriam estas indagações. Henrique. D. escolhendo um dos candidatos e colocando de parte os demais113. falecia a 31 de Janeiro. depois de vários dias de agonia. Aqueles que estiveram presentes no evento de Santarém manifestaram a sua vontade. e uma parte dos presentes manifestou-se a favor da capacidade electiva das Cortes – solução que. exercido fora do controle da Coroa. Apesar de se tratar de uma reunião que congregava apenas uma parte dos representantes do terceiro estado e que contava com uma reduzida representação do clero e da nobreza. Na sequência destes eventos. os acontecimentos precipitaram-se. entretanto. de não existirem candidatos e de a «república» se encontrar em necessidade extrema111. António. Pela mesma altura. e terá sido nessa altura que D.

pois era para todos evidente que os portugueses – ou pelo menos parte deles – tinham pegado em armas contra Filipe II e. de fazer tábua rasa dos foros portugueses e de implementar um novo modelo de governo. as suas instituições. mas sim como mais um reino a agregar àqueles que já faziam parte dos seus domínios115. especificava o motivo da convocatória: «Pera me jurarem por verdadeiro Rey e senhor destes Reynos e senhorios delles. como assinalámos no início. meu sobre todo muito amado e muito prezado filho primogenito. Filipe de Habsburgo optou por negociar. como a meu verdadeiro e legitimo suçessor. a sua língua. como o suo. do estatuto reinícola de Portugal e dos seus correlativos foros. o «rei prudente» optou pela via do compromisso. 189 gueses nesta localidade. fidelidade e obediencia em forma de direito. Como é evidente.116 Quanto à manutenção da assembleia representativa portuguesa. o artigo 2. ao invés de seguir por esse caminho. semelhante opção envolveu uma cedência. ao optar por chamar os «três estados».. em termos que permitiram aos lusos preservar a sua dignidade reinícola. os seus costumes. Filipe de Habsburgo dava a indicação aos seus novos vassalos portugueses de que não pretendia tratar Portugal como uma simples conquista.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. datada de Janeiro de 1581. A convocatória dos «três estados» surpreendeu alguns observadores coetâneos. por Filipe II. Através desse gesto Filipe II procurou atingir dois objectivos: pretendeu mostrar que actuava já como rei de Portugal. A resistência antoniana dera a Filipe II a oportunidade de aplicar o direito de conquista a Portugal. em terras lusas as Cortes só eram legítimas desde que fossem convocadas pelo rei. A carta que enviou aos «três estados». Tal significava que o monarca Habsburgo tivera a oportunidade de aplicar a Portugal o direito de conquista e de fazer tábua rasa dos privilégios reinícolas da Coroa portuguesa. e me fazerem preito e menagem de vassalagem. Para além disso. pela solução pactuada. tratar ni determinar cosa alguna que toque a los dichos Reynos»117. o seu espaço jurisdicional. e assy ao Principe Dom Diogo. Contudo. a saber: o reconhecimento. Filipe de Habsburgo procurava transmitir um sinal de continuidade face à dinastia cessante.. No entanto. as suas leis. bem como tirar partido da força simbólica do Convento de Cristo.»114... local de onde emanava uma intensa memória do passado português. um articulado onde ficou estabelecido o status de Portugal como reino agregado à Monarquia Hispânica. pela nego- . É isso.º do «Estatuto» era muito claro: «Que quando ubieren de hazer Cortes tocantes a estos Reynos sean dentro de Portogal y que en otras qualesquier que ouieren fuera dellas no se pueda proponer. o que está consagrado no «Estatuto de Tomar» de 1581. haviam sido derrotados. de resto.. etc. uma vez que. convocando as Cortes. A ASSEMBLEIA DE CORTES. na sequência disso.

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ciação e pela cedência de contrapartidas aos seus novos vassalos portugueses. Todavia, é importante frisar que Filipe II, ao mesmo tempo que apostou numa solução de continuidade, quis deixar bem claro que o «Estatuto de Tomar» era algo que decorria da «graça real», e não de uma obrigação régia de respeitar os foros portugueses. Como assinalou Fernando Bouza, Filipe II procurou apresentar o “seu” Portugal como a continuação do «modo y manera» que D. Manuel havia idealizado para o seu filho D. Miguel, embora frisando que tal correspondia a uma decisão sua, e não ao eminente direito ou vontade dos portugueses118. No que respeita ao lugar constitucional das Cortes, como vimos a crise sucessória acabou por ser algo ambivalente. Por um lado, ao convocar as Cortes para sancionar a sua entrada em Portugal, Filipe II de alguma maneira concedeu a essa assembleia um protagonismo que ela tinha perdido durante o governo de D. Sebastião I. Esse relançamento das Cortes, associado às atribulações dos anos de 1579 e 1580, poderia até ter dado o mote para um movimento que visasse reequacionar o papel constitucional da assembleia, por exemplo consagrando a sua capacidade para vigiar, de forma permanente, a actuação do rei no que concerne ao respeito pelo estatuto reinícola de Portugal. Todavia, não foi isso o que aconteceu. Na verdade, ao mesmo tempo que concedeu esse protagonismo aos «três estados», Filipe de Habsburgo frisou que a intervenção das Cortes em matérias tão transcendentes como a sucessão no trono ou o estatuto de Portugal no seio da Monarquia Hispânica era limitada e circunscrita àquela ocasião excepcional. Aliás, convém não esquecer que as Cortes de Tomar foram, essencialmente, um evento cerimonial, uma vez que o fundamental da negociação se realizou previamente. Além disso, pouco depois de efectuado o juramento, Filipe II manifestou pouco empenho em que as reuniões de trabalho prosseguissem, revelando mais preocupação por seguir para Lisboa, onde, já na qualidade de soberano jurado pelos «três estados» portugueses, iria ser recebido com grande solenidade119. Além disso, importa ter presente que o monarca, até ao final do seu reinado, só por uma ocasião voltou a convocar as Cortes de Portugal, e fê-lo numa altura em que se preparava para deixar as terras lusas. Trata-se da reunião de 1583, especificamente pensada para que os portugueses jurassem o príncipe D. Filipe como novo herdeiro, e que teve como principal particularidade o facto de os procuradores terem sido chamados única e exclusivamente para jurar o príncipe. O rei tencionava partir, quanto antes, para Castela, razão pela qual desejava umas Cortes rápidas. Por isso, e como recordaria, anos mais tarde, o conde de Salinas, as cartas de convocatória para a cerimónia de 1583 incluíam a seguinte indicação:

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«Embiaréis vuestros procuradores con poder bastante para que juren al Príncipe Don Phelipe, mi hijo mayor, por Rey y Señor destos Reinos después de mis dias»120 – ou seja, a carta de convocatória circunscrevia o âmbito das matérias a debater na assembleia, um gesto pouco comum na tradição das Cortes de Portugal121. Depois desta reunião, Filipe II partiu para Castela e não voltou a visitar Portugal até ao final do seu reinado. Como consequência, até 1598 as Cortes portuguesas não voltaram a reunir. Ainda assim, cada vez que o monarca católico tomou a iniciativa de introduzir um novo imposto ou de repor uma taxa que tinha sido levantada – caso dos portos secos, abolidos em 1581 mas repostos em 1592 –, os descontentes fizeram-se ouvir, apresentando as Cortes como a instância competente para decidir sobre essa matéria122. Convém notar que estas e outras queixas similares continuaram a ser escutadas nas décadas subsequentes. Mais do que a expressão de um confronto “nacional”, eram, antes de mais, a reacção de uma sensibilidade política eminentemente jurisdicionalista, a qual não escondia a sua repugnância por modalidades decisórias mais voluntaristas e que não passavam pelos canais costumeiros.

As Cortes nos finais do século XVI e na primeira metade do século XVII
A partir de finais do século XVI os monarcas hispânicos cada vez menos se ausentaram de Castela. Em parte por causa disso, o número de reuniões das Cortes castelhanas aumentou, realizando-se aproximadamente de três em três anos: Filipe III convocou as Cortes por 6 vezes; quanto a Filipe IV, reuniu a assembleia representativa por 8 ocasiões. Importa frisar que quase todas as reuniões então efectuadas incidiram sobre a problemática fiscal. Viviam-se tempos em que as dificuldades financeiras da Coroa eram cada vez maiores, facto que levou o rei a optar por abandonar a fiscalidade directa-pessoal, adoptando, como substituição, a fiscalidade indirecta, através de impostos sobre o consumo. Assim, em Castela os servicios estagnaram, ao mesmo tempo que se dava um crescimento significativo das alcavalas e dos millones123. Tal opção fez com que as Cortes de Castela se tornassem num dos principais espaços de negociação da política fiscal. Como sugerimos atrás, a partir de meados do século XVI a Coroa tirou partido das reuniões de Cortes para incutir, nos representantes dos «três estados», novos sentimentos de pertença. Aproveitando a circunstância de estarem presentes representantes de todas as partes do corpo político, os oficiais régios lembraram que o facto de pertencerem à entidade política «reino» comportava obrigações e até mesmo sacrifícios – como por exem-

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plo o pagamento de impostos, o recrutamento militar, o apoio logístico às forças militares, etc. – que deveriam ser aceites sem qualquer questionamento. A estes apelos os representantes deram uma resposta plural. No que toca ao desempenho dos procuradores no decurso das reuniões, J. I. Fortea Pérez sublinha que, no quadro das Cortes de Castela, é evidente um forte contraste entre, por um lado, a perspectiva mais geral, à escala do reino, patenteada pelos oficiais régios e, por outro, a visão localista dos procuradores. Aliás, o facto de os custos inerentes à participação nas Cortes terem sido sempre suportados pelas finanças locais contribuía, certamente, para manter este apego dos procuradores às suas questões «particulares». Segundo J. I. Fortea Pérez124, esta distinção jamais foi superada, tendendo até a acentuar-se a partir do momento em que a Coroa procurou elevar o estatuto das Cortes de Castela e convertê-las num órgão superior (e autónomo) face às cidades. Tal sucedeu no final do século XVI, e nessa ocasião as cidades esforçaram-se por impedir que essa proposta régia fosse posta em prática. Terá sido precisamente neste contexto que se tornou mais visível a ambiguidade no modo como eram entendidas as relações entre o rei e o reino, e o papel que cabia às Cortes desempenhar. Para alguns o reino era contemplado como uma comunidade integrada, superior e distinta da soma das suas partes. Nesse âmbito, as Cortes eram vistas como o órgão de representação institucional, e a prioridade seria concentrar processos de tomada de decisão e homogeneizar procedimentos, através de uma assembleia única. Para outros, pelo contrário, o reino era visto como um agregado de comunidades autónomas, sendo as Cortes tidas como uma mera junta de cidades. Neste quadro as atribuições das cidades saíam claramente fortalecidas, uma vez que previa o controle, pelos poderes urbanos, das principais funções administrativas. De acordo com Fortea Pérez125, a Coroa castelhana, a fim de evitar o poderio das cidades e a sua estratégia de bloqueio da política fiscal, procurou potenciar as Cortes e colocá-las numa posição intermédia entre o rei e as cidades, mas em qualquer caso acima destas últimas. O objectivo era autonomizar as Cortes e libertá-las da obrigação de conferirem com as cidades cada uma das decisões que era necessário tomar. Paralelamente, os ministros régios actuaram no sentido de captar o favor dos procuradores e de dificultar a comunicação destes com as cidades de onde eram oriundos. No fundo, aquilo que interessava à Coroa era que os procuradores (e as Cortes) falassem em nome do conjunto do reino, e não como meros representantes dos seus lugares de procedência. Segundo A. M. Hespanha, foi esse o momento em que se começou a adquirir a ideia de que o reino era algo de diferente do conjunto das partes, caminhando-se para a representação do conjunto do corpo político por apenas alguns126.

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O debate em torno desta questão conheceu o seu auge nos últimos anos do século XVI e na primeira metade de Seiscentos, altura em que a Coroa – e alguns procuradores – tentaram instaurar uma maior distância entre as Cortes e as cidades. Porém, e como seria de prever, as urbes moveram uma tenaz resistência a estas medidas. De qualquer modo, o resultado esperado não se concretizou, pois apesar de mais potenciadas e independentes face às cidades, as Cortes de Filipe III e de Filipe IV revelaram-se morosas e difíceis de gerir por parte dos ministros da Coroa. Além disso, a transferência do «voto decisivo» das cidades para as Cortes, em 1632, não livrou a Coroa de negociações muito árduas com os procuradores127. Acresce que algumas urbes castelhanas encetaram processos de negociação em paralelo às Cortes. Na verdade, várias cidades preferiram negociar directamente com a Coroa em vez de o fazerem na assembleia representativa, pois, por essa via, alcançavam acordos bilaterais, evitando desse modo os pactos estabelecidos entre a Coroa e a maioria das cidades. Outro fenómeno que importa destacar é o facto de, em pleno período de Seiscentos, os aristocratas voltarem a manifestar um certo interesse pelas Cortes. Os nobres, em especial os de ascensão mais recente, verificaram que a assembleia podia ser usada como uma forma de captar oportunidades de serviço ao rei, assim como para consolidar a sua influência na corte régia. Dignitários poderosos como o duque de Lerma, o condeduque de Olivares ou D. Luis de Haro, por exemplo, tiveram lugares nas Cortes enquanto representantes de cidades. Contudo, este regresso dos aristocratas voltou a gerar tensões, pois determinadas cidades eram hostis a membros da nobreza que desempenhavam a função de procuradores128. Algo de semelhante se passava nas Cortes portuguesas, onde, como dissemos, foi sempre notória uma clivagem entre, por um lado, as cidades do primeiro banco, representadas em geral por membros da nobreza de corte que detinham um fácil acesso ao rei ou aos seus principais ministros, e, por outro, as restantes cidades. Com o acentuar da centralidade de Castela no quadro da Monarquia Hispânica, a corte régia permaneceu nesse reino por períodos cada vez mais longos, e os castelhanos assumiram, nessa fase, o papel de liderança dos territórios dos Habsburgo espanhóis129. Foi de Castela que partiram algumas das principais iniciativas de reforma, as quais visaram, fundamentalmente, inverter a tendência recessiva das décadas anteriores. O monarca hispânico efectuou muito menos visitas aos seus reinos, o que, consequentemente, levou à realização de um menor número de reuniões das Cortes de Aragão, de Portugal e da Catalunha, para já não falar das assembleias representativas dos reinos italianos que estavam na órbita dos Habsburgo.

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Como não podia deixar de ser, a dinâmica reformista que se viveu sob Filipe III e Filipe IV influenciou as relações entre o centro da Monarquia Hispânica e os demais reinos que integravam os domínios dos Habsburgo. Vários interesses estabelecidos foram afectados pelo voluntarismo político dos ministros régios, e os sinais de descontentamento não tardaram em surgir. No conjunto dos seus trabalhos, John H. Elliott demonstrou que, no quadro da cultura política do Antigo Regime, quando as pessoas se sentiam ameaçadas a típica atitude de defesa era o refúgio atrás de barreiras protectoras como os seus costumes, as suas leis, as suas instituições e as suas tradições. É precisamente nesse contexto que, em Aragão, em Portugal, na Catalunha e também nos territórios italianos da Monarquia, se procede a uma revalorização das Cortes enquanto símbolo dos foros reinícolas. Com efeito, no contexto da ofensiva fiscal da primeira metade de Seiscentos, as Cortes dos vice-reinados simbolizaram o estatuto reinícola e a defesa dos direitos dos vassalos contra os cada vez mais insistentes pedidos do rei para que aumentassem a sua contribuição fiscal. Por outras palavras, a maior agressividade da política fiscal da monarquia concorreu para que as Cortes – tanto as de Castela como as dos demais territórios da Monarquia – voltassem a estar no centro do debate político. Os portugueses também sentiram a nova dinâmica integradora das primeiras décadas de Seiscentos, e à semelhança do que se passou em outras partes da Península, os lusos também se voltaram para a assembleia de Cortes, encarando-a como o principal símbolo do estatuto reinícola de Portugal130. Aos apelos chegados da corte régia para que fossem mais solidários com a Monarquia, respondiam os lusos com o argumento de que Filipe III, enquanto rei, ainda não havia jurado os foros portugueses, e que as iniciativas fiscais que se anunciavam teriam necessariamente de passar pela aprovação das Cortes de Portugal, alegando que tal correspondia ao costume seguido no reino desde os tempos mais ancestrais. Quanto a Filipe III, rei mais voluntarista do que é costume pensar, deu a entender que só viajaria até Portugal para reunir as Cortes desde que os portugueses chegassem a acordo quanto ao montante da sua contribuição fiscal para a Monarquia131. A invocação das Cortes como argumento de resistência dos lusos contra as solicitações fiscais da Coroa dos Habsburgo tornou-se de tal modo insistente que, em Janeiro de 1613, D. Diego de Silva y Mendoza, conde de Salinas e figura proeminente no Conselho de Portugal132, apresentou ao rei um «memorial» sobre «las prerrogativas de la Corona y de las Cortes de Portugal». Trata-se de um parecer que se inscreve nos debates sobre a ida de Filipe III a Portugal para reunir as Cortes, e nele se discute não só

. durante esse período de indefinição. Perante essa situação. 195 a conveniência da viagem. porque é a pessoa régia quem confere poder a «todas las personas que tienen voto en ellas. no início do seu reinado. no se llaman Reino de Portugal. representava os portugueses e a sua condição reinícola – ter sido temporariamente suspenso e substituído por uma junta restrita.. tivessem voltado a activar o Conselho de Portugal. por isso mesmo. Filipe. y con poderes bastantes suyos»133. No seu parecer. Foi neste ambiente que D. Devido à sua importância para o tema que estamos a analisar. e que. não carecia de se deslocar a Portugal para ser jurado pelas Cortes deste reino. sin preceder convocación y voluntad expresa de S. o Conselho de Portugal – o órgão que.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. Salinas critica o Senado de Lisboa. sem que. y mandando que no se trate de otros». também.. na corte. Salinas começa por afirmar que só se pode falar em «Reino». Para provar esta última afirmação. ni que por ningún camino tengan el nombre de Reino. ni conuiene que las hagan. por causa desse precedente histórico.. lacuna que. particulariçando los cassos para que comboca. em especial o facto de esta instituição ter insinuado que poderia jurar o príncipe Filipe (futuro Filipe IV) em sua ausência. Diego de Silva y Mendoza produziu o seu parecer sobre as Cortes de Portugal. por esta instituição se ter apresentado como uma entidade que falava em nome do «Reino». M. quando Filipe II ordenara que se desse aos procuradores única e exclusivamente o poder para jurar o príncipe D. futuro Filipe III. Salinas recorda a convocatória de 1583. «todas las otras juntas que los pueblos hicieren. cuya soberanía en la Corona de Portugal es tan grande. ao ponto de. A ASSEMBLEIA DE CORTES. o rei não deveria ter qualquer dúvida de que havia sido jurado enquanto príncipe. No seu interessantíssimo «memorial» Salinas critica também o desejo de protagonismo manifestado pela Câmara de Lisboa. Para Salinas. mas sobretudo até que ponto era o monarca obrigado a fazer essa jornada. Salinas sustenta que. este documento é merecedor de uma análise detalhada. quando é o rei quem convoca a assembleia. ou seja. alguns portugueses manifestaram o seu descontentamento pelo facto de Portugal não contar com um conselho próprio junto do rei. a prolongar-se. em Portugal. ni las pueden hazer. na previsão de uma estadia mais ou menos próxima do rei em terras portuguesas. A viagem esteve mesmo para ter lugar no início da segunda década do século XVII. equivalia a uma despromoção do reino no quadro da Monarquia Hispânica. quando as Cortes são legitimamente convocadas. a pretexto da vinda de Filipe III. o que – segundo o conde de Salinas – transcendia em . o monarca e os seus ministros hesitaram quanto à oportunidade da jornada. que puede convocar generalmente. Contudo. uma vez que o juramento de 1583 continuava perfeitamente válido.

sin que preceda juramento. corria o ano de 1581. ao reunir as Cortes e ao contemporizar com os portugueses. mas sim por «graça real».». donde se prosupone que el heredero es Rey. Todavia. más justa i más bien considerada que la que prohibe que semejantes juntas no pueden tener nombre de Reino. sem que tivesse sido chamada por um rei legítimo – «Porque si el delito fué juntarse el Reino. no quadro da crise sucessória. a principal preocupação de D. Diego de Silva. viene a ser el juramento en mayor utilidad del Reyno que del Rey. Diego da Silva era negar a Lisboa a legitimidade de. Ou seja. sus priuilegios. Prosseguindo na sua digressão pelos acontecimentos de 1581. sobre matérias tão transcendentais como a sucessão na Coroa.. declara que Filipe II. fora um gesto resultante da vontade régia e. no que concerne a Portugal Salinas era da opinião de que a questão se colocava de uma maneira completamente diferente: «en Portugal. y para el Reino. Salinas afirma que Portugal não era uma dessas «coronas en que el Reyno se puede congregar por propia autoridad y sin mandato real. defendendo. De acordo com D. acrescentando que a reunião de Cortes sem que a convocatória procedesse da vontade régia poderia ser equiparada a um gesto de rebelião. son solos los que la restitución y gracia declara». não estava previsto no juramento que Filipe II efectuara em Tomar. sem convocatória régia.. y quando se les restituyen. preueniendo de paso otros semejantes. pues para el heredero es cirimonia el juramento. sin convocación del Rey para eligir a Don Antonio. A esse respeito. revogável em qualquer momento que o monarca assim o decidisse136. sustancia. desde aquel punto. Com base nestes dados. por ser através dele que o rei via a sua situação legitimada. No fundo. em 1580. Salinas manifesta a sua veemente oposição à ida do monarca hispânico a Portugal naquele momento tão delicado. i que sólo le tenga el que fuere ligitimamente congregado por su Rey en Cortes?»135. assumir o título de «Reino em Cortes» e tomar decisões. Salinas relembra o caso de D. voluntariamente e sem o prévio consentimento do monarca. de motu proprio. Salinas recorda que o privilégio de a população poder juntar-se com o nome de «Reino». i congregado. le haga . De seguida. sendo também mediante essa cerimónia que o reino conseguia que os seus privilégios fossem jurados pelo monarca. nalguns reinos a «utilidade» do juramento era recíproca. efectua uma análise muito sugestiva das implicações do juramento efectuado em Cortes. uma postura mais afirmativa do rei. qué pena se pudo proporcionar a este delito. António e a assembleia que se reuniu. em vez disso. con ocasión del juramento. Em face desta questão. aya quien le congregue. que. logo. afirma Salinas que «los Reinos que toman armas contra sus Reys pierden. fê-lo não propriamente porque sobre ele pesava a obrigação de respeitar os foros portugueses.196 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS muito a jurisdição da dita câmara134.

as Cortes.. 197 parte para que pueda pedir al Rey que le jure sus preuilegios»137. impedindo. razão pela qual os monarcas não estavam tão limitados como em França pela vontade dos seus vassalos. nesse reino. Tais apelos não parecem ter comovido o conde duque de Olivares e os seus ministros. aliás. Como seria de prever. plasmado em propostas. Filipe III acabou mesmo por viajar até Portugal. que haze el Reyno de Portugal. Na década de 1630. o caso de França e o facto de os seus reis serem ungidos e jurados. o monarca se juntou com os «três estados» portugueses. arbítrios e memoriais difundidos a partir de finais da década de 1620.. Salinas sustenta que bastava a condição de herdeiro para se ser rei. do que estava a suceder em outros pontos da P. durante a qual os ministros régios tiveram de escutar uma série de queixas acerca da violação de algumas das condições do «Estatuto de Tomar»138.. a qual viu nesse gesto um sinal do mau governo dos Habsburgo em Portugal. o monarca apressou-se a abandonar Portugal. apoiando-se. y su Consejo. como é bem sabido. numa reunião praticamente reduzida à cerimónia do juramento do príncipe herdeiro e a uma rápida negociação sobre matérias fiscais. nessa ocasião. esse contexto de crescente voluntarismo régio reforçou um processo que já se vinha fazendo sentir: a identificação entre as Cortes de Portugal e a condição reinícola de Portugal. em vez disso. tornando-se também necessário ser jurado e ungido. nestas duas últimas condições. As Cortes não só não foram convocadas como. No reinado que se seguiu. os pretendentes dependiam dos vassalos. a propósito.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. mas apenas em 1619. também. Talvez para evitar essas críticas. Para Salinas. Em Portugal. bem pelo contrário. o que inviabilizou o debate sobre outras questões governativas. floresceu um discurso de desvalorização da assembleia dos «três estados». Foi a única vez que. em expedientes representativos mais ágeis – na linha. a falta de resposta às petições de 1619 será relembrada pela publicística apoiante do duque de Bragança. para um dignitário chegar a rei não bastava ser herdeiro. no seu reinado. as instituições lusas (à semelhança do que se passava noutras partes da Península. A despeito destas observações. nos anos que se seguiram. Anos mais tarde. Ibérica140. Filipe IV e Olivares lançaram várias iniciativas fiscais sem consultarem as Cortes de Portugal. convocando. A ASSEMBLEIA DE CORTES. Jean-Frédéric Schaub chamou recentemente a atenção para a importância do Memorial de la preferencia. Recorda. cada vez que surgiam planos de introdução de novos tributos. a resposta a muitas das petições que foram entregues nas Cortes139. acrescentando que. incluindo Castela) lembravam que em Portugal existia o costume imemorial de os novos impostos não serem introduzidos sem o consentimento dos povos reunidos em Cortes. pelo contrário. al de .

da autoria de João Salgado de Araújo. Como não podia deixar de ser... assim como a oportuna revelação das «actas» das Cortes de Lamego. o mesmo Salgado de Araújo volta a defender as juntas. factor que conferia mais dignidade a Portugal no quadro da sua “competição” com os demais reinos que integravam a Monarquia Hispânica141. os «três estados» tinham o direito a pronunciar-se sobre matérias governativas. Contrariando de uma forma flagrante o estabelecido pelo «Estatuto de Tomar». Atribuídas ao período fundacional do reino. encarando-as como um tribunal ad hoc. sustentando também que a Coroa lusa era mais «absoluta» do que a aragonesa. 1627). o que foi interpretado como um indício seguro de que estava em curso um processo de despromoção do estatuto reinícola de Portugal. Para além do citado tratado de Barbosa de Luna. entre outras coisas. um documento – apócrifo – que. um impresso da autoria de Pedro Barbosa de Luna e que surge no contexto da disputa de precedência entre a Coroa de Aragão e a Coroa de Portugal. a maior liberdade de manobra do monarca constituía um factor de preeminência para o reino. Juan Delgado. um outro bom exemplo do que acabámos de afirmar é um breve manuscrito de meados da década de 1620. juntas ad hoc para despachar. o rei de Portugal podia revogar leis de Cortes sem reunir os «três estados». Não tardou a correr o rumor de que se planeava a supressão das Cortes. ao contrário do que se passava em Aragão. Entre os muitos argumentos esgrimidos nesta obra há um que se relaciona directamente com a «assembleia dos três estados»: para provar a preeminência de Portugal. Assim se compreende os apelos à reunião de Cortes escutados durante a década de 1630.198 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Aragon. (Madrd. Salgado de Araújo defende a legitimidade dessas juntas. Pouco tempo depois. sem necessidade das Cortes. pois fazia corpo imediatamente com a Coroa. para alguns. Barbosa de Luna afirma que em terras lusas o rei era «mais absoluto». onde se discute até que ponto era legítimo organizar. Para o autor do Memorial. em Madrid. proporcionava o aval histórico ao protagonismo político que muitos desejavam atribuir à «assembleia dos três estados». de forma célere.. Este exemplo demonstra que.. as «actas» da assembleia de Lamego alegadamente provavam que. Geraldo de Vinha. desde as origens de Portugal como unidade política independente. estes escritos tiveram algum impacto em Portugal. os negócios de Portugal. y de las dos Sicilias (Lisboa. como um aperfeiçoamento pontual da administração da Coroa. 1627). . Durante o valimento de Olivares sucederam-se os escritos – boa parte deles assinados por portugueses – onde se expressava uma opinião desfavorável sobre as Cortes lusitanas e acerca do seu papel no sistema político. na obra Ley Regia de Portugal. para além de ter funcionado como elemento galvanizador para todos aqueles que foram atingidos pelas iniciativas de Olivares142..

pouco tempo depois Olivares decidiu levar a cabo uma medida ainda mais drástica: a dissolução do Conselho de Portugal. Quanto à linha de actuação do valido de Filipe IV. podia funcionar. A reunião visava encontrar uma solução para a substituição da duquesa de Mântua. implementou uma fiscalidade particularmente extensiva. e que atingiu o seu ponto culminante no ano de 1637143. Como se não bastasse. rompia. e muitos daqueles que lutaram contra o seu estilo de governo – por se afastar do tradicional e muito mais consensual paradigma jurisdicionalista – usaram as Cortes como o símbolo da maneira consuetudinária de governar em Portugal. os principais responsáveis pela agitação social que se registou ao longo de toda a década de 1630. A ASSEMBLEIA DE CORTES.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. O valido de Filipe IV pretendia substituir esse conselho por um organismo con- . como uma instância cuja actuação se inspirava no modelo judicial de gestão administrativa. para além de se ter recusado a reunir Cortes. com essa lógica de actuação. e na sequência das perturbações ocorridas no ano antecedente. delegando a aplicação das decisões num conjunto de oficiais régios de carácter comissarial e revestido de uma considerável margem de poder. órgão que se assumira como um dos principais obstáculos à sua política fiscal em terras lusas. afectando grupos – e respectivos privilégios – que até esse momento tinham sido poupados. para além do seu carácter ancestral. precisamente. embora tivesse também a finalidade de encontrar uma forma de atenuar o descontentamento vivido em Portugal.. em matérias de governo o valido concentrou a faculdade decisória no seu círculo de confiança. já que muitos viram na decisão de Olivares de consultar os notáveis do reino fora de Portugal a confirmação de que o valido estava mesmo apostado na revogação do «Estatuto de Tomar» e na despromoção de Portugal. Em meados de 1638. Além disso. como forma de resistência ao regime decisório eminentemente executivo instaurado pelo valido de Filipe IV. Todavia. se auto-representava como um tribunal... Terão sido estes. para Madrid. com a consequente subalternização dos nobres e dos letrados até aí preponderantes. Para além de constituir um instrumento de defesa da condição reinícola do reino português. 199 Todavia. a junta realizada em Madrid acabou por não surtir o efeito desejado. o conde duque de Olivares decidiu convocar. Importa não esquecer que a «assembleia dos três estados». também. uma espécie de reunião restrita das Cortes de Portugal. Convém não esquecer que se vivia uma conjuntura em que era cada vez mais forte a presença de Olivares e da sua clientela. A pressão fiscal do período de Olivares amplificou o ressentimento contra a sua pessoa e a sua clientela. Recorde-se que o conde-duque. é importante ter em conta que o apelo à convocatória dos «três estados» podia servir vários propósitos. em muitos aspectos.

uma espécie de États Généraux de França. e que se convertessem em órgãos fomentadores de sentimentos de pertença ao conjunto da Ibéria. Dessa forma. no contexto das grandes dificuldades financeiras de 1599. J.200 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS junto luso-castelhano e estreitamente controlado pela Coroa. Voltando aos papéis sobre Portugal em circulação na corte régia no final da década de 1630. as decisões tomadas pelas Cortes. outro caso a reter são.-F. Todavia. Como assinalou Jean-Frédéric Schaub144. Como J. estudados. o que estava basicamente em jogo era afirmar que o monarca tinha o poder de alterar. nos anos de 1638 e 1639 Olivares recebeu numerosas propostas – muitos delas da autoria de portugueses – que apontavam no sentido da reconfiguração do estatuto de Portugal no quadro da Monarquia Hispânica. Sobre as Cortes de Portugal. Xavier Gil Pujol recorda que. sem dúvida. ou então a convocação de uma vasta junta de personalidades portuguesas a realizar na corte régia146. por Fernando Bouza148. também se propôs a criação de uma grande assembleia de toda a Espanha. Entre os vários escritos que então circularam. Como facilmente se imagina. Convém lembrar. Vasconcelos vai mais longe. esta decisão foi tudo menos pacífica. nenhuma dessas propostas foi avante147. de motu proprio. uma Junta General ou um Consejo Supremo. Schaub bem reconheceu. No «Discurso juridico-politico sobre el derecho que el Rey nuestro señor tiene en el reino de Portugal y union de su gobierno a la . chegando mesmo a propor a celebração de uma reunião de Cortes comum às duas Coroas – Castela e Portugal – em Madrid. os escritos do português Diogo Manuel de Orta. que a proposta de convocatória de uma assembleia geral dos reinos da Península Ibérica não apareceu apenas em arbítrios que tinham a ver com matérias portuguesas. a este respeito. esperava-se conseguir fomentar um mais intenso sentimento de pertença entre as várias partes que compunham a Monarquia. Pretendia Olivares que as Cortes deixassem de ser símbolos do particularismo reinícola. sobretudo. Convém assinalar que esta não foi a única proposta de criação institucional onde os limites jurisdicionais entre Portugal e a restante Monarquia Hispânica surgiam algo esbatidos. Contudo. escreve Agostinho Manuel algumas palavras que vão claramente no sentido da desvalorização dessa assembleia: «es de advertir que la precision que los principes comunmente platican en las promesas que hacen en Cortes nunca es tan exacta ni tan indispensable que sobreviniendo en la ejecuccion inconvenientes no queden con libertad de emendar-las interpretar-las i aun derogar-las porque parece que siempre llevan la tacita condicion de que las cumplira no obstando al bien publico del imperio»145. Schaub destaca as sugestões que foram avançadas por Agostinho Manuel de Vasconcelos.-F.

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Real Corona de Castilla»149, o argumento principal de Orta é que o contrato feito nas Cortes de Tomar, em 1581, não tinha qualquer validade, dado que o rei já era senhor do reino antes das Cortes. A acreditar em Orta, Portugal era um reino herdado, e a natureza separada do reino português desaparecia com a herança castelhana, o que levava o autor do «Discurso juridico-politico» a afirmar que as leis castelhanas podiam ser impostas em Portugal. Numa digressão pelo passado recente da Monarquia, Diogo Manuel de Orta aproveita para criticar Filipe II pelas concessões que havia feito e por ter sido demasiado contemporizador para com os lusos, os quais, convinha não esquecer, tinham resistido militarmente contra a entrada na Monarquia Hispânica. Além disso, lembra que os levantamentos de 1637 tinham de ser interpretados como uma revolta, devendo ser retiradas todas as consequências desse facto, ou seja, tais acontecimentos significavam a quebra unilateral do pacto entre os dois reinos, ficando Filipe IV livre de qualquer obrigação de respeitar os foros portugueses150. Como notou J.-F. Schaub, o que estava subjacente a este texto era a redução de Portugal à jurisdição da Coroa de Castela, ou seja, o desaparecimento da Coroa portuguesa enquanto entidade juridicamente separada da restante Monarquia Hispânica151. É importante não perder de vista que as iniciativas de Lerma e de Olivares têm lugar numa época em que, em termos da cultura política dominante, ainda não era socialmente aceitável a ideia de uma gestão governativa puramente executiva, tal como não era nada pacífica a actuação governativa que não estivesse confinada aos moldes da iurisdictio152. Assim, em Portugal, tal como noutras partes da Monarquia (incluindo Castela), boa parte dos apelos para que as Cortes fossem convocadas, no quadro da resistência a Lerma ou a Olivares, foram o resultado da repugnância pelas práticas governativas extra-judiciais e de sentido eminentemente executivo, e não propriamente o simples e espontâneo produto de factores nacionais. Muitos letrados demonstraram-se agravados com este estilo de governo, pois sentiam que os novos ministros favorecidos pelo valimento estavam a atropelar tanto a sua hierarquia profissional quanto o seu cursus honorum. Um número não negligenciável de disputas foi pois motivado por magistrados ciosos do seu ofício, os quais, dando corpo ao seu sentido de estrito cumprimento da jurisdição, reagiam contra intromissões jurisdicionais, independentemente da nacionalidade daquele que levava a cabo essa acção. Quanto à aristocracia, nestes anos também ela clamou a favor das Cortes, não só por ter sido relegada para segundo plano pela clientela do valido, mas também porque, do seu ponto de vista, a privança introduzia um grave desequilíbrio na «justiça distributiva»153. Um dado parece certo:

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o acumular desses episódios de tensão fez com que, aos poucos, a ideia do pacto rei-comunidade deixasse de ser um assunto abstracto e só discutido por teólogos ou por juristas, para se tornar num tema de debate quotidiano, perdendo muita da sua conotação metafísica e adquirindo uma feição histórica cada vez mais nítida154. Foi assim que, aos poucos, ficou criado o ambiente propício para o deflagrar de uma ruptura política de grande alcance.

As Cortes em Portugal sob a dinastia de Bragança
Poucos dias depois da revolta de 1 de Dezembro de 1640, os apoiantes de D. João, duque de Bragança, decidiram convocar os «três estados». À semelhança do que acontecera noutras ocasiões, a assembleia representativa foi nessa conjuntura encarada como uma instância que poderia dar alguma legitimidade ao movimento português de secessão da Monarquia Hispânica. Assim, em Janeiro de 1641 as Cortes reuniram em Lisboa, juntando uma pequena parte do «estado da nobreza» e do clero, bem como um número significativo de procuradores em representação das cidades e das vilas do reino. A assembleia decorreu sem grandes sobressaltos, acabando por sancionar a escolha que já havia sido feita a 8 de Dezembro – o duque de Bragança foi aclamado rei D. João IV pelos «três estados», e o seu filho D. Teodósio foi jurado príncipe herdeiro. Numa altura em que o apoio à causa brigantina era incerta, recorria-se assim ao juramento como mais uma forma de vinculação, numa época em que o comprometimento moral, devido às suas implicações religiosas, tinha muito mais força obrigante do que os pactos, os contratos ou a lei positiva. A assembleia de 1641 foi um acontecimento ímpar na história portuguesa, pois representou o momentâneo potenciar da capacidade política das Cortes. De facto, nesses breves momentos reconheceu-se às Cortes uma série de atribuições: antes de mais, a capacidade para avaliar a governação do rei D. Filipe III. Por outras palavras, as Cortes comportaram-se como um tribunal, como uma instância judicial titular de uma jurisdição excepcionalmente ampla, tão ampla que habilitava os «três estados» a julgar o comportamento do rei. E como se tal não bastasse, a reunião de 1641 reconhecia ao «reino», reunido em Cortes mais duas outras excepcionais faculdades: a capacidade para se eximir voluntariamente da obediência a um soberano a quem tinha sido efectuado um juramento de fidelidade; e, além disso, reconhecia-se também aos «três estados» a capacidade para escolher, voluntariamente, um novo soberano. Como se pode facilmente imaginar, aqueles que se decidiram pela reunião de Cortes, em 1641, moveram-se num terreno altamente melindro-

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so. Antes de mais, porque era do conhecimento de todos que a quebra do juramento tinha seríssimas implicações morais e religiosas. Não devemos esquecer que muitos reprovaram a revolta de 1640 porque representava uma ruptura com um compromisso moral assumido nas Cortes de 1619, altura em que Filipe IV – à data príncipe herdeiro – havia sido jurado pelos portugueses. Como se pode ler numa instrução entregue ao embaixador de Filipe IV em Roma, logo após 1640, «[na rebelião portuguesa] se considera en primer lugar la transgression del juramento de obediencia y fidelidad, solemne y publicamente hecho a Dios por el mismo Duque de Bragança, y todos los tres Estados a favor del Rey Don Felipe, que le acetó en Cortes Generales de todo el Reyno ligitimamente convocadas...»155. Para além da quebra do juramento, o melindre da situação tinha também a ver com a situação interna da realeza. Com efeito, na sequência desse evento a Coroa brigantina ficava numa posição particularmente débil, porquanto admitir que os «povos» podiam romper com o soberano a quem tinham jurado fidelidade e escolher um outro líder representava, sem dúvida, um precedente muito perigoso, pois fragilizava bastante a posição dos futuros titulares da Coroa. A justificação doutrinal da revolta de 1 de Dezembro encarregou-se de frisar todas as implicações constitucionais do sucedido. Francisco Velasco de Gouveia, autor de uma das principais obras legitimadoras da revolta de 1640 – Ivsta acclamação do serenissimo Rey de Portvgal Dom Ioão o IV… (Lisboa, Lourenço de Anveres, 1644) – foi muito claro ao enunciar aquilo que estava em jogo: «Que Ainda que os Povos transferissem o poder nos Reys, lhes ficou habitualmente, & o podem reassumir, quando lhes for necessario para sua conservação»156. De seguida, Velasco de Gouveia analisa o caso português, alegando que a revolta de 1640 era justificada e legitimada pela inequívoca tirania de Filipe IV. Quanto à capacidade electiva das Cortes, Velasco de Gouveia defende-a apoiado em duas linhas argumentativas: por um lado, na ideia de soberania popular e no conceito de pactum subjectionis; por outro, numa argumentação histórico-jurídica fundada nas já citadas «actas» das Cortes de Lamego, bem como no precedente histórico das Cortes de Coimbra, realizadas em 1385. No que toca ao imaginário da soberania popular, António Barbas Homem157 assinalou recentemente que o conceito de pactum subjectionis está presente no Assento das Cortes de 1641, uma vez que os redactores deste texto – que constitui o documento que fixa e publicita as decisões tomadas na assembleia – aceitam a ideia de mediação popular na transmissão do poder político de Deus para os príncipes. Cumpre lembrar que desde, pelo menos, o século XVI, o conceito de pactum subjectionis era

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mobilizado pelos juristas defensores do direito de defesa que assistia à comunidade face a uma governação mal exercida, classificada como «tirania». No quadro dessa leitura, a titularidade do poder pertencia ao povo, cabendo ao príncipe apenas o exercício desse poder. Uma vez aceite esse princípio, o povo, reunido em Cortes, ficava habilitado a exercer várias faculdades: avaliar a qualidade da governação; eximir-se da obediência devida ao seu Rei sem quebra do juramento, nos casos em que fosse dado como adquirido que o rei era tirano; e, em situações extremas, escolher – em sede de assembleia representativa – um novo soberano. Para além do imaginário da soberania popular, o Assento das Cortes de 1641 recorre, também, à argumentação histórico-jurídica, lembrando os princípios estabelecidos quer nas já referidas Cortes de Lamego158, quer nas Cortes de Coimbra de 1385, ocasião em que D. João, Mestre de Avis, fora aclamado rei de Portugal. O precedente histórico de 1385 foi sistematicamente invocado para justificar as opções de 1640, tendo-se também usado as apócrifas «actas» das Cortes de Lamego para consolidar essa pretensão. Este imaginário está presente na referida obra de Velasco de Gouveia, nela se apresentando a cerimónia inaugural do reinado como um pacto de atribuição do poder, como um pacto que tinha como objectivo não propriamente estabelecer a forma do governo, mas sim efectuar a transferência do poder do povo para o príncipe. E tal como sucede em qualquer transferência de poder, trata-se de um processo que envolve condições reciprocamente assumidas159. Além do livro de Velasco de Gouveia, a imagem das Cortes como «tribunal de reis» e como uma assembleia com capacidade electiva pode ser encontrada em boa parte da literatura favorável a D. João IV publicada nas décadas de 1640 e 1650, sobretudo porque a propaganda apostou nesse argumentário como forma de tornar legítima, tanto para o interior quanto para o exterior do reino, a ruptura de 1640. Procurava-se desse modo demonstrar que a separação da Monarquia Hispânica e a adesão a D. João IV eram sentimentos partilhados pela generalidade dos portugueses. Foi também por essa altura que se investiu na ideia de que a reunião de Cortes correspondia à forma como os reis portugueses, desde tempos imemoriais, costumavam tomar decisões governativas. Paralelamente, procedeu-se à demonização do governo de Filipe IV, recorrendo-se, de um modo bastante sistemático, ao tema da marginalização de que as Cortes haviam sido alvo. Fulgêncio Leitão, por exemplo, em Reduccion, Restituycion del Reyno de Portugal a la Serenissima Casa de Bragança en la Real Persona de D. Iuan IV… (Turim, Iuannetin Pennoto, 1648), relembra a década de 1630 e as várias fases da política fiscal de Filipe IV, denunciando os «acordos particulares» que a Coroa estabelecera com os povos no

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campo tributário, sem que o reino junto em Cortes tivesse podido dizer uma palavra sobre esse assunto. Nos escritos de Fulgêncio Leitão, as Cortes são elevadas ao estatuto de único órgão autorizado para decidir sobre questões fiscais. Logo, a opção de não chamar as Cortes para decidir sobre fiscalidade era apresentada como um sinal inequívoco da tirania de Filipe IV e do seu valido160. É interessante verificar que o olhar de alguns estrangeiros sobre as Cortes de Portugal, durante a década de 1640, também sublinha o poder que esta assembleia momentaneamente adquiriu. Lívio Giotta, em Raggioni del Ré di Portogallo D. Giovanni IV… (Lisboa, Paulo Craesbeeck, 1642), traça o seguinte retrato da assembleia representativa portuguesa: «Li tre Stati cioè gli Ecclesiastici la Nobiltà, e Popoli delli Regni di Portogallo ragunati nelle Corti doue rappresentano in vn corpo tutti li sudetti Regni, e tutta l’auttorità, e potere, ch’essi tengono, hanno risoluto per buon principio delle medesime Corti douersi con publica Scrittura da tutti sottoscritta decidere, estabilire, como il Ius d’essere Rè, e Signore loro spettaua, & spetta al potentissimo Rè Don Giouanni, il quarto di questo nome....». Acrescenta Giotta: «I supponendo per cosa chiara in Iure ch’al Regno, & alli tre Stati d’esso compete il giudicare, e dichiarare la legitima successione del medemo Regno, ogni volta che nasce qualche difficoltà, e dubbio trà i pretendenti per diffetto di descendenza dell’vltimo Rè possessore...»161. Quanto ao número de petições enviadas às Cortes realizadas após 1640, ele cresceu muitíssimo, e o monarca instruiu os seus oficiais para que respondessem, de forma diligente, a esses pedidos, tendo em vista demonstrar que, no que toca à comunicação com os seus vassalos, a dinastia de Bragança era fundamentalmente diferente dos Habsburgo, revelando uma constante disponibilidade para escutar as suas queixas e para os ajudar a resolver os seus problemas. O grande manancial de petições então apreciado proporcionou aos oficiais régios uma visão bastante detalhada da situação do reino, das suas localidades e dos seus habitantes162. Todavia, é curioso verificar que os oficiais régios tiveram dificuldade em interpretar essa informação, já que nalguns casos era nítido que os pedidos reflectiam a opinião generalizada da população que os enviara, enquanto que noutros casos era evidente que constituíam uma óbvia manobra para mobilizar os recursos régios a favor dos interesses de uma determinada parcialidade local163. Como sugerimos, D. João IV e os seus sequazes nutriam sentimentos ambivalentes face a toda esta ênfase na capacidade política das Cortes. Por um lado, partiu deles a opção de instrumentalizar a «assembleia dos três estados» e fomentar o uso propagandístico das Cortes enquanto instância legitimadora da mudança dinástica; por outro, ao potenciarem as facul-

Pedro II Motivo Juramento do príncipe D. a verdade é que. João IV D. Afonso VI (D. Teodósio. As assembleias de Cortes que se seguiram à histórica reunião de 1641 confirmam esta tendência. como por exemplo uma pujante tradição histórica de ideias e de práticas republicanas165. em vez disso. revelando-se. A situação tornava-se tanto mais delicada quanto era para todos claro que a Coroa. as Reuniões das Cortes de Portugal no século XVII Ano 1619 1641 1642 1645-46 1653-54 1667-68 1673-74 Reinado D. contribuição fiscal Dote para o casamento da princesa D. Não devemos esquecer que o regime monárquico estava profundamente enraizado na cultura política. Afonso. Isabel Luísa Josefa. juramento do príncipe D. a despeito de todo o ambiente que foi criado a favor das Cortes. acabou por não surgir qualquer movimento concertado que tivesse como finalidade atribuir. regente) D. João IV D. contribuição fiscal 1679-80 1697-98 . sabiam perfeitamente que corriam o risco de contribuir para o surgimento de um movimento de cariz “republicano”. regente) D. muito mais preocupadas em preservar os seus privilégios e em travar as iniciativas da Coroa que violavam o seu espaço jurisdicional. declaração ou derrogação da lei sucessória. tinha uma margem muito reduzida para resistir a qualquer desafio interno164. nessa fase. À excepção de movimentos muito pontuais de contestação a certos aspectos da governação dos anos de 1640 e 1650. João IV D.206 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS dades políticas da assembleia. Todavia. Pedro. Filipe Juramento e levantamento do duque de Bragança como rei de Portugal. João. Pedro como regente e governador do reino. Afonso VI (D. Filipe II D. Isabel com o primogénito do duque de Sabóia Juramento do príncipe D. Ao contrário do que se poderia prever. contribuição fiscal Juramento da princesa D. João IV D. nem sequer as cidades mais poderosas enveredaram pelo caminho da afirmação da capacidade política das Cortes. Pedro. contribuição fiscal para a guerra Contribuição fiscal Contribuição fiscal Juramento do príncipe D. contribuição fiscal Juramento do infante D. ou pelo menos de uma tentativa de reequacionamento do lugar constitucional ocupado pelas Cortes. e na história lusa faltavam ingredientes que pudessem galvanizar um processo de afirmação pactista. de uma forma sustentada. Afonso VI D. mais poder à assembleia representativa.

º marquês de Gouveia. e os de Portugal.. no entanto. drasticamente. no seu Tácito Portuguez. João IV e os seus seguidores convocaram as Cortes com uma regularidade inusitada. foi um dos muitos que notou esta renovada disposição do rei em escutar o parecer dos povos sobre questões governativas: «Continuavão os Reys da Europa. com grande frequencia ouvir em publico a seus vassalos. João. para cuja comprehensão.. uma entidade politica que trans- . que por papel lhe aprezentavão a informação de seus negocios. era sem número o número das petiçoens... Significativamente. o marquês confidencia que D. fizera-o «com grande repugnancia tanto assim que estando convocadas humas para Tomar. Francisco Manuel de Melo. também. não bastavão os dias inteyros…»166. Tal não significa. quanto mais despacho. o regime de relações entre o rei e o reino. [trata-se das cortes que deveriam ter reunido em 1649]». sempre que convocara as Cortes. e elleytos Procuradores se não celebrarão. acabando por ficar sobretudo associadas à política fiscal... Assim. como um alfobre de decisões onde se vislumbra a emergência de um novo sentimento de pertença ao «reino». após 1640 reforçou-se a noção de que a decisão régia em conjunto com as Cortes correspondia à forma costumeira de tomar decisões governativas em Portugal. João da Silva. Nessa missiva. Tal não significa. D. Acrescenta que «a resão a meu ver he manifesta: porque […] juntos os povos em Cortes parece que em certo modo fica algum tanto coarctada aquella soberania que os Príncipes tem no seu governo Monárquico…»167. de reflexão e de discussão sobre as medidas governativas. porém. Tanto mais que. que a assembleia tenha perdido a sua relevância política. João IV em dialogar com os «três estados» é rotundamente desmentido. A despeito destas dúvidas. a negociação sobre novas imposições fiscais acabou por monopolizar grande parte das assembleias de 1642-43. numa carta enviada ao secretário de estado Francisco Correia de Lacerda. que a El rey acodião. algumas décadas mais tarde. de 1645-46 e de 1653-54. 2. e os Príncipes mayor paciencia. O aparente contentamento sentido por D. é inegável que as Cortes continuaram a representar um momento importante de introspecção colectiva. para vincar a diferença face à dinastia dos Habsburgo.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. tendo funcionado. A ASSEMBLEIA DE CORTES. pedindo o remedio delles e como nos novos reynados os subditos tem mais confiança. 207 Cortes foram-se dedicando a um leque de questões cada vez mais restrito. A consulta frequente dos «três estados» foi nestes anos retratada como a modalidade decisória que mais estava de acordo com os princípios constitucionais que regiam o reino. que o rei reunia as Cortes sempre de bom grado. por D. Pelo contrário. em nenhuma dessas reuniões se vislumbrou qualquer esforço consistente para tirar partido do élan de 1641 tendo em vista reconfigurar.

mas procurando associar o imaginário religioso aos sacrifícios que procuravam impor aos «três estados». Como acabámos de ver. durante o período em que as Cortes estavam reunidas. a contestação aos planos fiscais da Coroa tornou-se especialmente forte. os pregadores que celebrassem missas na cidade onde a assembleia decorria profeririam sermões cujo conteúdo estaria orientado para convencer o auditório a ser conivente com os pedidos da Coroa. o alargado conjunto de pessoas que participava na assembleia. da agilização dos procedimentos administrativos e. Como sugerimos. a Coroa procurou garantir que.208 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS cendia os limites das comunidades locais ou corporativas e que impunha sacrifícios nem sempre fáceis de aceitar. a fim de que a Coroa abdicasse dos seus propósitos fiscais. As manobras de influência junto das Cortes foram uma constante. Um grupo de representantes das câmaras tentou mobilizar as Cortes para exercer pressão sobre o monarca. fizeram-no não só através da repetição. fazendo identificar as intenções da Coroa com os desígnios de Deus168. como forma de pressão. os oficiais régios costumavam associar a essas obrigações para com o «reino» todo um discurso com ressonâncias religiosas. não deixa de ser significativo que as sessões de Cortes tenham sido o palco desse tipo de afirmações. da uniformidade jurisdicional. tais apelos não tiveram qualquer acolhimento. em muitos casos. de que só uma parte do reino pagava os impostos. de um modo extremamente exaltado. e as várias entidades políticas em presença por diversas vezes tentaram utilizar. procurando desse modo assegurar a colaboração das elites locais na implementação das decisões tomadas pela assembleia. por vezes os oficiais régios viram nas Cortes uma boa oportunidade para fomentar a unanimidade face aos planos – sobretudo fiscais – da Coroa. Para isso. A fim de tornar esses apelos mais consensuais. até à exaustão. Na sequência disso. deveres esses que o rei e os seus oficiais se esforçaram por colocar acima das obrigações intrínsecas à pertença familiar. Assim. por exemplo. gerou-se uma situação de pré- . e alguns procuradores queixaram-se. Outra valência política das Cortes decorria do simples facto de essa assembleia reunir um número considerável de dignitários – cerca de três centenas – e poder ser facilmente instrumentalizada. Quanto aos demais grupos sociais. Em 1642. das necessidades em que se encontrava o reino. De qualquer modo. tendo em vista alcançar determinados objectivos. também eles se aperceberam do potencial da reunião dos «três estados» como forma de pressão política. local ou corporativa. nos debates das Cortes foram escutadas numerosas intervenções em defesa da igualdade fiscal. dos deveres inerentes à condição de membro dessa comunidade política “vasta” que era o «reino». É certo que. sobretudo.

é curioso verificar que. obrigar o clero e a nobreza a contribuir. as quais costumavam alegar. curiosamente invocando motivos aos quais os povos não eram indiferentes: lentidão dos processos decisórios.. em geral. esta matéria foi um pretexto para infindáveis debates entre a Coroa e os diversos grupos sociais. pois acreditava que essa seria a melhor forma de instaurar uma situação de relativa igualdade fiscal. de um modo geral estas manobras a favor ou contra as Cortes costumavam surgir em conjunturas de aprovação de novos impostos. Noutros momentos. Noutros casos. 209 -motim que muito atemorizou a Coroa. Mais do que um assunto encerrado.. Da parte do reino. em determinadas conjunturas mostrou-se interessada em reunir a assembleia. podia suceder que as facções cortesãs usassem as Cortes como forma de pressão contra os seus inimigos – as manobras de descrédito movidas contra o secretário de estado Francisco de Lucena. demonstrou uma aberta relutância em chamar os «três estados». receio de que os povos vissem na convocatória das Cortes um sinal de que a obrigatoriedade de pagar tributos tinha cessado. razão pela qual os procuradores mais radicais não tardaram em ser presos. foi a da alegada obrigatoriedade do rei em consultar as Cortes sempre que tinha de tomar qualquer decisão na área fiscal170. em certos momentos. os apelos mais sonoros para que a assembleia fosse convocada partiram. Todavia. são um excelente exemplo do que acabámos de dizer169. em princípio o «terceiro estado» era aquele que mais veementemente insistia na reunião com o rei para decidir sobre novas imposições fiscais. pelo contrário. os representantes do «terceiro estado» foram os primeiros a opor-se à convocatória da assembleia. Como vimos. custos inerentes à reunião. a própria Coroa prescindia de dialogar com os «três estados» e optava por realizar consultas restritas às principais cidades. na expectativa de que dela resultariam decisões que seriam socialmente muito mais consensuais. etc. Como sugerimos. durante toda a segunda metade de Seiscentos. encarando-as – sobretudo à Câmara de Lisboa – como uma instância de mediação com o resto do . Por esse motivo.. das autoridades urbanas. que alguns dos princípios constitucionais do reino seriam violados pelo monarca caso não consultasse os representantes do reino. etc. A Coroa também participava nesta exploração conjuntural do capital simbólico (e político) das Cortes. a lentidão do processo decisório. alegando motivos como o dispêndio inerente a cada nova reunião. em finais de 1642. ou seja. A ASSEMBLEIA DE CORTES. Quando antevia dificuldades na negociação com as Cortes. É muito sintomático que os apelos para a convocatória de Cortes a fim de aprovar novos tributos raramente tenham sido lançados por membros do clero e da nobreza. Uma questão que permaneceu em aberto. risco de motim.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. em defesa da sua reivindicação.

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reino. A esse respeito, cumpre reconhecer que a dinastia de Bragança acabaria por ter uma actuação bastante semelhante à dos monarcas Habsburgo, tão duramente criticados pela propaganda pós-1640 precisamente por terem levado a cabo iniciativas fiscais sem a consulta prévia da assembleia representativa171. Após 1640 várias exacções fiscais foram introduzidas sem que as Cortes tivessem sido consultadas, registando-se, também, alguns casos em que os tributos foram automaticamente aprovados por mais três anos, invocando-se o facto de continuar presente o motivo que tinha justificado a sua imposição172. Na linha do que já vinha sucedendo desde meados de Quinhentos, o Senado de Lisboa continuou a assumir-se como interlocutor privilegiado do rei, chegando mesmo a arvorar-se em representante das restantes cidades do reino. Convém notar, no entanto, que esse papel de que se arrogou Lisboa nem sempre foi bem aceite pelas demais cidades e vilas com assento em Cortes, tanto mais que, muitas vezes, os procuradores lisboetas se revelaram mais próximos do interesse da Coroa do que dos interesses das comunidades que compunham o reino. Após a morte de D. João IV – em 1656 –, a situação pouco se alterou. A 22 de Novembro de 1657, o conde de Comminges (embaixador francês em Lisboa) relatava, numa das muitas cartas que enviou para a corte francesa, que a regente D. Luísa estava a esforçar-se para reunir o dinheiro pedido por Mazarin para aceitar uma aliança com Portugal. Acrescentava que «o povo não tinha relutância em contribuir, mas os fidalgos faziam tudo para fugir ao pagamento, e [a rainha] não se atrevia a pedir nada ao clero». A acreditar em Comminges, o «povo» desejava a convocação de Cortes e a rainha estava de acordo, mas «o clero a desfavorecia e os fidalgos e os ministros se esforçavam para impedi-la, porque os primeiros teriam de pagar e os segundos de responder pela sua administração»173. Nos anos de 1650 e 1660 assistiu-se ao aumento exponencial da pressão fiscal, recrudescendo, também, a discussão acerca da margem de manobra da Coroa em matérias tributárias. Como assinalámos, a atitude mais frequente era o apelo para que as Cortes fossem consultadas sempre que se planeasse a introdução de uma nova exacção. Todavia, em certos casos eram os próprios «estados» a lembrar ao rei que o motivo do imposto continuava presente, não havendo por isso necessidade de convocar os «três estados». No entanto, convém ter presente que a renovação trienal de impostos sem a consulta das Cortes nem sempre foi uma solução pacífica, e momentos houve em que gerou autênticas tempestades políticas. A par desta profusão de debates sobre a competência das Cortes na área da fiscalidade, a «assembleia dos três estados» continuou a intervir, pontualmente, em matérias sucessórias, marcando presença em alguns dos

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momentos mais transcendentais para a Coroa, como por exemplo o levantamento de cada novo rei ou o juramento dos príncipes herdeiros. Os círculos régios condescenderam com esta pontual actuação da assembleia dos «três estados» nesse terreno tão importante, embora procurassem frisar que essa intervenção era circunscrita e localizada. Assim que o debate tocava em temas mais sensíveis, logo intervinham os oficiais régios, tudo fazendo para moderar as intervenções e para desmobilizar a discussão. Os próprios participantes nas Cortes parecem ter consciência de que havia certos temas que, pela sua delicadeza, não convinha discutir abertamente na assembleia portuguesa. Francisco Ferreira Rebelo, jurista e diplomata na agitada Londres da década de 1650, testemunhou as sucessivas reuniões do Parlamento inglês e as resoluções aí tomadas, e, nas cartas que enviou para Lisboa, observa que a assembleia representativa inglesa discutia matérias de grande transcendência político-constitucional, acrescentando que seria difícil ver as Cortes de Portugal debaterem, tão abertamente, temas tão sensíveis. Refere, a título de exemplo, a ampla discussão em torno do título que Oliver Cromwell deveria assumir174. É, em parte, verdade, que os debates nas Cortes portuguesas não costumavam ir tão longe. Seja como for, alguns anos depois de Ferreira Rebelo ter feito este comentário sobre o radicalismo das discussões que tinham lugar no Parlamento inglês, as Cortes de Portugal voltaram a tocar nesse transcendental tema que era a capacidade governativa do monarca. Tal sucedeu nas Cortes de 1667-68, reunidas em plena crise governativa motivada pelo descrédito em que a governação de D. Afonso VI tinha caído. Convocada numa altura em que estava já em curso o afastamento do rei e a sua substituição pelo seu irmão D. Pedro, a assembleia de 1667-68 constitui, sem dúvida, um momento ímpar, pois essa foi a ocasião em que as Cortes mais se envolveram na discussão sobre as questões do trono175. Tal como sucedera em 1641, em 1667 as Cortes foram convocadas tendo em vista sancionar uma situação que já estava praticamente consumada: o afastamento do rei D. Afonso VI. Os representantes dos «três estados» discutiram longa e acaloradamente a questão, apresentando diversas propostas para a resolução da crise. A par dos muitos debates que então tiveram lugar, circularam também vários pareceres de teólogos e de juristas acerca da aflitiva situação em que se encontrava a Coroa, o que ainda mais contribuiu para alargar o âmbito do debate. Exceptuando os contextos de ruptura dinástica, nunca antes se havia discutido, com tanta publicidade, matérias tão cruciais, e vários foram os oficiais régios que se aperceberam do melindre da situação. Depois de muitas hesitações, as Cortes acabaram por ser determinantes para sancionar a solução encontrada: D. Afonso VI

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manteria o título de rei, mas seria dado como incapaz para o governo, sendo por isso mesmo substituído nessas funções pelo seu irmão, o qual, por sua vez, foi jurado pelos «três estados» como «regente e governador do reino». O aval das Cortes serviu, de novo, para tornar socialmente mais aceitável essa situação profundamente anómala e que roçava a imoralidade. Uma vez mais era dada a oportunidade aos «três estados» para se pronunciarem sobre matérias da mais alta política. Contudo, e à semelhança do que sucedeu após 1640, da reunião de 1667-68 também não resultou qualquer iniciativa de relançamento do papel das Cortes no sistema político português. Na assembleia que se seguiu – celebrada em 1673-74 – alguns procuradores ainda tentaram pronunciar-se sobre a situação política que se vivia no reino, embora sem grande êxito, uma vez que os oficiais régios rapidamente circunscreveram o debate. A assembleia realizou-se em Lisboa, num momento em que corriam rumores de que o embaixador espanhol congeminava uma conspiração, facto que contribuiu para exaltar os ânimos176. A reunião terminou abruptamente, por ordem de D. Pedro, numa altura em que os debates ameaçavam provocar um tumulto, sobretudo porque a juntar aos rumores de que estava em curso uma conjura, vários foram os procuradores que fizeram declarações inflamadas sobre a situação em que se encontrava o governo do reino, reclamando o regresso de D. Afonso VI. Tendo em conta estes acontecimentos, compreende-se facilmente porque é que, nos anos que se seguiram, a Coroa favoreceu a identificação entre a assembleia de Cortes e a problemática fiscal. Ao concentrarem a atenção dos «três estados» na questão dos tributos, os oficiais régios evitavam que os debates tocassem em matérias consideradas demasiado sensíveis para serem discutidas na “praça pública”. Para além disso, a Coroa tinha plena consciência de que o aval das Cortes poderia ser decisivo para tornar socialmente mais consensuais as propostas fiscais, assim como para garantir que os influentes locais colaborariam com a Coroa no seu esforço para arrecadar o produto fiscal. Ainda assim, e apesar de ficarem cada vez mais centrados na questão fiscal – algo que ia ao encontro dos desejos da Coroa após 1640 –, os debates ocorridos nas Cortes nem por isso deixaram de contar com intervenções mais acaloradas, nas quais os vassalos não hesitaram em lembrar aos governantes do reino as suas obrigações, chegando mesmo a acusá-los de mau governo. Seja como for, no último quartel de Seiscentos assistiu-se a um gradual esvaziamento da capacidade das Cortes para intervir em matérias de alta política, com a excepção da fiscalidade, área que praticamente monopolizou as discussões. Tal não significa, no entanto, que a «assembleia dos três

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estados» se tivesse tornado na única instância competente nessas matérias. De facto, a par das Cortes, a Coroa foi explorando outras formas mais céleres de negociação fiscal. Assim, para além de ter confiado cada vez mais à Câmara de Lisboa o papel de principal interlocutor, favoreceu órgãos mais ágeis e politicamente mais controláveis pela Coroa – como a Junta dos Três Estados –, opção que acabou por ditar o esvaziamento de algumas das competências da «assembleia dos três estados». No que respeita à política tributária, convém ter presente que a grande questão se jogava no controle sobre a administração fiscal. Inicialmente, os municípios lograram manter nas suas mãos a gestão do fisco. Todavia, tal gerou numerosas situações de desvio de dinheiro e de cobrança fiscal muito abaixo das expectativas, o que levou à criação de uma série de órgãos vocacionados para o controlo da própria administração tributária da Coroa, de que um dos melhores exemplos é a referida Junta dos Três Estados, a qual desenvolveu uma tenaz luta com as câmaras das principais cidades do reino tendo em vista dominar os mecanismos de gestão dos impostos cobrados nessas urbes. Essa junta começou por ser composta por representantes dos «três estados», mas com o tempo foi deixando de contar com deputados directamente nomeados pelo «estado dos povos», o que suscitou algum descontentamento. O confronto entre as cidades do reino e a Junta dos Três Estados – órgão fundamental e que continua à espera de um estudo aprofundado – representa, afinal, o esforço da Coroa em penetrar nessas «comunidades de privilégios» que eram os núcleos urbanos.

Os territórios ultramarinos e a sua representação no centro político
Como é bem sabido, a tradição jurídica vigente na época moderna previa que a soberania sobre um reino poderia ser adquirida através das seguintes vias: por herança; por acordo de todos os representantes do reino, que livremente manifestavam a vontade, em sede de assembleia representativa, de se sujeitarem a um senhor, transferindo-se de um soberano para o outro; por casamento; por outorga do Papa; e, finalmente, por conquista. Cada uma destas formas de incorporação territorial previa determinadas consequências ao nível da dignidade e dos direitos políticos gozados pelas instituições que administravam as terras que eram objecto da incorporação. Vários destes mecanismos agregativos foram postos em prática pelas casas reais ibéricas, tanto na Europa, no quadro do processo de alargamento dos seus domínios, como fora dela, no âmbito do desenvolvimento dos seus impérios ultramarinos. Como começámos por sugerir, cada uma das unidades políticas mais “vastas” – como um reino, uma monarquia ou um império – era vista

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como uma comunidade de comunidades, como um conjunto de corpos políticos agregados por laços de natureza diversa e escalonados segundo uma ordem fortemente hierárquica, ordem essa que conferia a cada uma das partes direitos políticos desiguais. Tal desigualdade era bem visível no interior da Península Ibérica, onde, como verificámos, prevalecia uma rigorosa hierarquia entre os vários reinos e, dentro destes, entre as diversas cidades. É essa hierarquia que explica o facto de apenas uma pequena parte das urbes ter assento nas Cortes. No que toca aos territórios extra-europeus das Coroas ibéricas, esse escalonamento hierárquico também marcou presença, não só ao nível das relações entre as várias cidades ultramarinas, mas também dos laços que estas mantinham com as suas congéneres peninsulares. Assim, na fase inicial da colonização das possessões ultramarinas, a dignidade das instituições situadas nessas terras era muito inferior à das comunidades peninsulares, realidade que, desde logo, tinha uma consequência bem visível na «assembleia dos três estados»: as cidades ultramarinas começaram por estar ausentes da reunião que congregava as principais urbes do reino. Importa não esquecer que os domínios extra-europeus das Coroas Ibéricas foram inicialmente tratados como «conquistas», termo que, de resto, surge frequentemente na documentação coetânea. Como assinalámos, o estatuto de «conquista» evocava o modo como esses territórios tinham ingressado nos domínios dos monarcas ibéricos, envolvendo sérias consequências quanto aos direitos políticos gozados pelas suas instituições e pelos seus habitantes: eram territórios escalonados numa posição inferior face aos domínios europeus das Coroas ibéricas, estando as suas populações desprovidas de alguns dos mais substantivos direitos políticos, como por exemplo a «honra» de tomar parte na assembleia de Cortes. Tal não significa, porém, que as instituições representativas estivessem ausentes dos domínios ultramarinos das Cortes ibéricas. No caso das possessões extra-europeias da Coroa de Castela, por exemplo, o seu ordenamento jurídico admitiu a realização de reuniões entre cidades da América para a resolução dos conflitos surgidos entre elas, estabelecendo-se uma hierarquia que, de alguma maneira, evoca aquela que existia nos reinos de Castela entre as urbes com assento em Cortes e as restantes povoações. Como assinalou Carlos Dias Rementeria a propósito da administração da América Espanhola177, já em Junho de 1530 se contemplava a possibilidade de se celebrarem congressos de cidades da Nova Espanha, de entre as quais a cidade do México teria o primeiro voto. Anos mais tarde, em Abril de 1540, estipulava-se a realização de reuniões similares no ViceReinado do Peru, considerando-se a cidade de Cuzco como a principal entre as que integravam essa circunscrição administrativa. Importa frisar,

deliberadamente. Y se suele hallar más ayuda . coloca-se a possibilidade de que quatro procuradores. Y a esto será mucho provecho la esperanza en unos y certidumbre en otros de ser remunerados»180. sorteados entre as províncias integrantes desse Vice-Reinado. assinala algo de muito interessante sobre a capacidade política das cidades americanas: «Si bien reconozco que en las Indias no hay Junta de Cortes. que a estas reuniões jamais foi dada a denominação de «Cortes». [sublinhado nosso] Que aunque hay caballeros de calidad. en quien caben todo este género de mercedes. Assim aconteceu sob o valimento de Olivares: numa carta régia de Maio de 1635. Esta declaração do conde de Chinchón reveste-se de um grande interesse.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. e. os coetâneos utilizavam. O Consejo de las Indias afirma que «las Indias son muy diferentes de los otros reinos. numa das suas missivas que enviou ao Real Consejo de las Indias. em vez desse termo. y que así la potestad real de S. Brazos. es libre y absoluta. dirigida ao Vice-rei da Nova Espanha. conde de Chinchón. suelen ser los que tienen menos mano en ayudar a estos arbitrios. no sólo en el poder que los vasallos tienen en estos casos.. pois remete para a questão a que atrás aludimos: a diferença de hierarquia entre as cidades europeias e as urbes americanas.. acorressem às reuniões das Cortes de Castela e Leão onde fossem jurados príncipes. a palavra «congresso». M. a qual denota uma assembleia de menor dignidade do que a reunião dos «três estados». tendo em vista reforçar o laço de ligação entre a metrópole e suas possessões ultramarinas. sino en la calidad dellos. a própria Coroa tomou a iniciativa de as chamar. Como já foi referido. as suas pretensões políticas alargaram-se consideravelmente. foi um dos governantes incumbidos de pôr em prática essas medidas. sino que se reciban y paguen por sus vassallos con obediencia y gusto. À medida que as instituições urbanas do continente americano se consolidaram. todavía creo que lo que importa a su real servicio es. Previa-se também que esses representantes aproveitassem a vinda à Europa para tratar de outros assuntos178. tendo em vista envolver os territórios ultramarinos no esforço de defesa da Monarquia Hispânica179. no quadro da «Unión de las Armas» a Coroa dirigiu insistentes apelos no sentido do aprofundamento da integração entre as distintas partes da Monarquia. Estamentos ni Parlamentos. A resposta que o Consejo de las Indias deu ao Vice-Rei do Peru não é menos sugestiva.. pois nela o vice-rei constata a ausência de uma assembleia que servisse de fórum de negociação para estabelecer alguma concertação às iniciativas da Coroa em terras americanas. 215 contudo. Por vezes. A ASSEMBLEIA DE CORTES. e algumas urbes chegaram mesmo a reivindicar o direito a tomar parte na assembleia representativa que reunia as cidades de Castela-Leão. no sólo que se imponan los tributos. O vice-rei do Peru.

portavozes das aspirações e das reivindicações dessas terras. Na verdade. Todavia. Dificilmente encontraríamos uma declaração mais taxativa da “menor qualidade” social. com a realeza comunicavam os titulares dos cargos governativos e administrativos das regiões ultramarinas. cuando conviene y se halla dispuesta»181. tendo sido necessário encontrar formas de tornar presentes. Além disso. são muitas as petições assinadas por um conjunto de municípios. . também a Coroa portuguesa tinha consciência de que era necessário criar formas de participação das elites ultramarinas. Eram escritos com um fundo reivindicativo muito marcado. os interesses dos vários corpos sociais. por exemplo. direitos e liberdades-imunidades. Algo de semelhante se passava no reino de Portugal e nas suas possessões ultramarinas. muitas vezes. da sua população e das suas instituições. fácilmente se introduce la materia en los cabildos eclesiásticos y seglares. têm contribuído para esclarecer o modo como se processava a comunicação política entre a corte e os territórios ultramarinos. y con aquellos acuerdos.216 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS en el consulado de los mercaderes y en otros hombres de trato. Y no hay votos en Cortes ni junta de ayuntamiento. pois reclamavam prerrogativas. y comunicándolo con los corregidores y los prelados. falando em nome dos habitantes que estavam sob a sua alçada e «representando» – tornando presente ao rei – os problemas que afectavam essas populações186. concorrendo para fortalecer a identidade política local e para reafirmar a auto-suficiência das câmaras187. entre outros. os quais eram. com o contínuo processo de expansão territorial. Assim. os poderes municipais do ultramar foram relativamente céleres a adquirir uma identidade política mais vincada. como meio de as comprometer com o esforço conjunto do reino. assumindo-se como interlocutores com a Coroa. junto da Coroa. mas também política. No período de Quinhentos e de Seiscentos. sino que hacen los virreys juntas de ministros y llaman algunos vecinos. No caso português. este problema tornou-se especialmente premente. e tal como sucedia no império espanhol. aludindo a lendas fundadoras e enaltecendo os serviços militares desempenhados pelas gentes que aí viviam. dos territórios americanos. Tais textos vinham muitas vezes acompanhados de longos escritos onde se descrevia a história local. cuales les parece. também as câmaras municipais desempenharam esse papel. Para o Brasil de finais do século XVI e do século XVII. o principal desafio consistiu em encontrar expedientes representativos que fossem capazes de espelhar os territórios cada vez mais vastos e as populações cada vez mais variadas que estavam sob o comando dos monarcas lusos182. Os trabalhos de Charles Boxer184 e de Evaldo Cabral de Mello185. tanto do reino como dos territórios extra-europeus sob a jurisdição dos monarcas portugueses183.

em privado. numa época em que estes eram cobiçados por outras potências europeias. A ASSEMBLEIA DE CORTES. os trabalhos de Fernanda Bicalho e de Fátima Gouvêa sugerem que este fenómeno tem de ser associado ao aparecimento do título de «Príncipe do Brasil». honras e liberdades que tinham sido conferidos aos cidadãos do Porto em 1490. o mesmo se podendo dizer da equiparação dos privilégios de alguns municípios ultramarinos àqueles que eram gozados pelos habitantes das principais cidades do reino (com a excepção de Lisboa. muitos deles ainda em fase embrionária. A preocupação por manter a ligação entre a Coroa portuguesa e os territórios ultramarinos. e onde o único caso mais saliente era o da câmara da Bahia. 217 Além disso.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. podendo indiciar uma mudança de estatuto desta possessão ultramarina190. adquirindo. importa ter em conta que algumas câmaras americanas. manifestaram a vontade de participar nas Cortes convocadas para 1619188. como assumiram um grande protagonismo na sessões de trabalho das Cortes. chegando mesmo a ser nomeado «definidor». A importante temática do estatuto de cada cidade – peninsular e ultramarina – carece ainda de um estudo aprofundado. No que respeita à presença de representantes de cidades americanas nas Cortes portuguesas. Seja como for. também explica esta camada das câmaras extra-europeias para as Cortes. Já no século XVII. . por exemplo. ou seja. sobretudo quando comparados com a menor projecção dos poderes locais da América Portuguesa.. pois denuncia alguma mobilidade e algum voluntarismo. membro da comissão incumbida de acompanhar a reunião até ao seu termo189. ao contrário do que era predominante no caso das câmaras do reino191. «cabeça do reino»). Durante o período de Quinhentos os municípios da parte Oriental do Império – de que o melhor exemplo é Goa – desfrutaram de um estatuto claramente destacado. bem como da América Portuguesa... Convém notar que estes procuradores não só participaram na abertura solene. outras cidades brasileiras vão ver o seu estatuto dignificado: em 1642 os cidadãos do Rio de Janeiro recebem os mesmos privilégios. devido ao papel por elas desempenhado na luta contra os neerlandeses. E nas assembleias realizadas após 1640 há representantes de câmaras municipais da cidade de Goa. Trata-se de um tema importante. ao saberem que estava para breve a vinda de Filipe III a Portugal. Na assembleia de 1653. uma maior capacidade de comunicação com a Coroa. tudo indica que a “dignidade” das diversas partes do Império era algo de dinâmico e oscilante. dessa forma. Após 1654 algo de semelhante terá ocorrido com algumas câmaras de Pernambuco e das capitanias limítrofes. para resolver os assuntos pendentes. acompanhando o selecto grupo das cidades do primeiro banco que reunia. deparamos com Jerónimo Serrão de Paiva a actuar como «procurador do Brazil». com o rei.

no seu conjunto. Assim se compreende porque é que os nobres castelhanos raramente escolheram as Cortes como principal espaço de confronto com a política da Coroa. Como assinala o mesmo Thompson. como por exemplo a exigência de que o rei fosse libertado da influência de um valido que se revelara mau ministro194. afectando.218 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS O fim da convocatória das Cortes No final de Seiscentos. Para os aristocratas de finais do século XVII a política jogava-se. enquanto corpo social. ou a recusa em aceitar a nomeação para um determinado cargo195. sobretudo. Thompson. em Valência ou nos demais reinos peninsulares – com a óbvia excepção de Castela –. prescindindo. na negociação fiscal. concentrando-se. O fenómeno que acabámos de descrever é comum aos vários reinos da Península Ibérica. as Cortes também estavam longe de ser o seu principal espaço de articulação com a Coroa. da «assembleia dos três estados». e como bem notou I. Importa notar que os procuradores não se opuseram a esse processo. A. a oposição aristocrática no mundo ibérico tinha um cunho menos constitucional. todas as suas assembleias representativas. a comparência de uma parte considerável da aristocracia e do alto clero nas Cortes portuguesas. facto que. Além disso. O afastamento entre a aristocracia e as Cortes contribuiu para desviar dessa assembleia o debate sobre uma série de matérias da alta política. cada vez mais. pois. ao contrário do que se passou em Aragão. Com o tempo. como vimos. as reuniões dos «três estados» foram deixando de opinar sobre questões do governo geral do reino. ao . após 1640 Portugal passou a contar com um rei permanentemente residente no seu território. com a Coroa. sobre a política dinástica ou sobre as relações internacionais da Coroa. traduzindo-se em reivindicações de carácter pontual. A. cada vez menos faziam parte do seu elenco de tarefas. na corte e nos conselhos palatinos192. quando comparada com outros contextos europeus – como Inglaterra –. tornava-se cada vez mais evidente que tanto a Coroa como os vários grupos sociais estavam a desinvestir nas Cortes. Quanto ao clero. nessa época. na Catalunha. acabaram por ser os conselhos régios e as próprias instituições judiciais193. e de um modo geral aceitaram que essas questões. era muito mais pessoal. como vimos. A aristocracia cada vez menos viu na assembleia representativa o seu principal fórum de diálogo. pela sua complexidade. É certo que o caso português se reveste de alguma especificidade. porquanto os diversos sectores do «estado eclesiástico» desenvolveram os seus próprios canais de influência e de comunicação com os círculos régios. as principais instâncias de protecção da nobreza e de garantia dos seus direitos. favorecia a convocatória assídua das Cortes.

Fortea Pérez reconhece que. 219 longo de toda a segunda metade de Seiscentos. em geral desprovidos de um carácter parlamentar e com uma composição menos numerosa. ou seja. as Cortes lograram exercer uma assinalável influência sobre a legislação do reino. o que. Quanto à vigilância sobre o governo. Acresce que a cultura política do tempo continuava a ter no seu centro o primado da justiça. De qualquer modo. deixando de exercer uma função consultiva e sendo paulatinamente substituídas. No que respeita à alegada competência legislativa das Cortes... tal como em Castela. Com efeito. nas suas fileiras. Além diso. J. por exemplo.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. Também isso contribuiu para que. as assembleias de Cortes tenham sido postas à margem do principal processo político200. I. a presença do «estado eclesiástico» e do «estado da nobreza» proporcionava às Cortes não só publicidade. e apesar disso. desde o século XVI. de forma clara. contribuiu para que os municípios deixassem de acreditar na eficácia dessa assembleia para resolver os seus problemas199. pelo Conselho de Estado e pelos demais conselhos palatinos. A ASSEMBLEIA DE CORTES. órgãos que contavam. por um mecanismo de procedimento administrativo materializado nos diversos tribunais. por um sistema jurisdicional bastante independente. funcionava como factor de “resistência cultural” a iniciativas governativas mais voluntaristas e puramente executivas da Coroa. Cumpre notar que as Cortes não foram as únicas instituições representativas a actuar nos diversos reinos ibéricos. cuja função era velar pelo cumprimento dos acordos de Cortes e gerir. tanto com figuras do «estado eclesiástico» como com elementos da nobreza. Como assinalámos. o controle constitucional foi cada vez mais desempenhado pelos conselhos palatinos e. também em Portugal as Cortes foram perdendo protagonismo. Seja como for. consequentemente. facto que os tornava mais ágeis em termos de gestão dos assuntos governativos. em todas as leis produzidas pelas Cortes era enunciado. sobretudo. indirectamente. Carlos V estabeleceu – em 1525 – uma Diputación del Reino. órgãos de natureza diversa.. que cabia ao monarca o mais eminente poder legislativo. a partir de finais de Seiscentos. em Portugal. Em Castela. perante os conselhos e tribunais . por si só. ao longo dos séculos XVI e XVII várias normas resultantes de Cortes acabaram por ser alteradas sem que os «três estados» tivessem podido pronunciar-se198. ao lado destas assembleias foram surgindo. o que. nessa função. uma vez que também ela participava – e dependia – desse imaginário jurisdicionalista197. conferiu a este órgão alguma força e prestígio. uma maior capacidade de pressão sobre a Coroa. Acresce que os oficiais régios tenderam a ser cada vez mais relapsos na resposta às petições entregues nas Cortes. através das petições. mas também autoridade moral196 e.

Fortea Pérez nota que. A esta lógica se opõe. e. porém. um órgão inicialmente composto apenas por comissários nomeados pelas cidades. É esse o caso de alguns dos conselhos palatinos. os ministros régios conseguiram penetrar nesse órgão. essas diferenças. das juntas restritas do tempo de Filipe III e de Olivares. e também em Castela. o direito de representação não podia assentar num único expediente representativo. Tais partes eram muito diferentes entre si. os problemas cuja resolução as cidades lhe confiavam201. onde o princípio da igualdade pesava pouco. Na realidade. o mesmo se podendo dizer do município de Lisboa. também. passou a existir uma duplicidade de órgãos representativos com competências na área fiscal202. e profundamente hierarquizado no que toca ao estatuto de cada uma das partes que integrava o corpo político. onde cada um tinha direitos diferenciados e onde tudo o que era semelhante em status se devia unir e ser tratado com os seus semelhantes. a justiça distributiva das sociedades do Antigo Regime era governada por uma «igualdade geométrica». Como sugerimos no início deste ensaio. I. sobretudo quando o seu Senado se apresentava como «cabeça do reino» e falava em nome das demais cidades. Como assinalou Giovanni Levi. Portugal também assistiu à paulatina criação de órgãos que desempenhavam funções representativas e que eram titulares de atribuições potencialmente esvaziadores das competências das Cortes. a pluralidade dos canais representativos coetâneos espelhava um ambiente profundamente heterogéneo em termos jurisdicionais. As cidades. J. e a pluralidade de órgãos representativos de que falámos reflectia.220 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS régios. representar o reino nos períodos em que as Cortes não estavam reunidas. a partir da entrada em cena da Comisión de Millones. Cabia à Diputación. eviden- . igual para todas as partes do corpo social. quando negociavam directamente com o rei. também concorriam com as Cortes. da já referida Junta dos Três Estados (1643). É importante frisar que a pluralidade de formas representativas a que temos vindo a fazer alusão estava intimamente relacionada com a heterogeneidade do espaço sócio-político dos séculos XVI e XVII. e que em 1639 se converteria num tribunal supremo sobre matérias fiscais. entre outras atribuições. e em 1658 a Comisión acabaria por ser integralmente absorvida pelo Consejo de Hacienda da Coroa de Castela. e onde o direito de representação tinha mais em conta a qualidade do que a proporcionalidade aritmética entre as partes que compunham o todo203. lidamos com um espaço social não-homogéneo e não-uniforme. Por surgir num corpo social extremamente diversificado. por uma justiça típica de uma sociedade aristocrática e hierárquica. Com o tempo. acima de tudo. Já no início do século XVII. foi criada a Comisión de Millones (1611).

que as assembleias. as Cortes não ficaram totalmente desprovidas de poder. pelo menos. No entanto. demonstrou. Afonso VI e da afirmação do seu irmão D. John H. no entanto. a verdade é que nenhuma das assembleias representativas ibéricas funcionou como um órgão que congregasse. Para além do que acabou de ser mencionado. Os conselhos palatinos. para que as Cortes jamais se tivessem tornado no principal palco de defesa dos direitos de cada um dos grupos sociais face às investidas da Coroa. vimos atrás que jamais manifestaram muito empenho em usar a reunião dos «três estados» como instrumento para reconfigurar o regime de relacionamento que mantinham com o monarca português. Em plena crise. os tribunais e. duas excelentes oportunidades para o fazer: em 1640. não foram completamente inoperantes205. de forma homogénea. conjunturalmente. a abertura das Cortes de 1646 também foi acompanhada por disputas com a Coroa. de uma forma geral. foram as instâncias que. outros foram os motivos que concorreram para a marginalização das Cortes: a reunião dos «três estados» foi frequentemente substituída por conselhos (função consultiva e . um ano muito difícil para a monarquia206. que não aceita diferenças de status e que se baseia na justiça comutativa204. 221 temente. e como assinalámos. sem dúvida. o controle do novo imposto dos millones tornou-as capazes de desenvolver uma oposição de cariz mais constitucional. Após a queda de Olivares. Pedro. Quanto a Portugal. A luta pela preservação dos privilégios corporativos teve lugar em outros órgãos e em outros sectores da vida política. aquando do afastamento do rei D. e ao contrário do que sucedeu com os Parlements de França. estes dois grupos nunca encararam a assembleia como o seu principal palco de interacção com a Coroa. Seja como for. a igualdade da proporção aritmética da sociedade democrática. momento em que foi concedido.. os procuradores acabaram por não levar até ao limite a sua acção. determinados interesses de corpo207. No caso de Castela. mesmo nesta fase de perda de protagonismo. um excepcional protagonismo político às Cortes. No que toca aos procuradores.. exerceram o principal papel de vigilância e de controle constitucional sobre a acção da Coroa. por causa da concessão de plenos poderes aos procuradores. Não obstante a concorrência que sofreram. o conjunto do sistema administrativo-judicial. embora tivessem tido. embora o confronto geral entre a Coroa e os poderes urbanos estivesse iminente em 1647. de forma muito clara.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. quando da ruptura com a Monarquia Hispânica. não há dúvida de que o facto de o clero e a nobreza continuarem a comparecer nas Cortes proporcionou força moral a esta assembleia. e em 1667-68. Elliott. em última análise. Tal contribuiu.. A ASSEMBLEIA DE CORTES.

e em vez disso. mostraram-se cada vez mais relutantes em chamar as Cortes. Quanto às contribuições fiscais estabelecidas em Cortes. os oficiais régios tornaram-se mais relapsos na resposta às petições. Perante tudo isto. para não suscitar reacções adversas. caso das taxas alfandegárias. o certo é que os anos foram passando sem que as Cortes tives- . Depois dessa data o monarca não voltou a convocar as Cortes. a Coroa. o «estado eclesiástico» desenvolveu os seus próprios canais de influência. o que fez com que a Coroa olhasse para a assembleia como um órgão cada vez menos eficaz na criação de consenso em torno da fiscalidade. apenas. com cada vez mais frequência. a 25 de Julho de 1667. para alguns. reunião que praticamente se limitou a debater questões fiscais. As cidades e as vilas. facto que. Nessa data decidiu-se não propriamente suprimir as Cortes. da sua parte. compreende-se melhor a decisão tomada pela regente de Castela Mariana de Áustria. aos poucos. mas sim. a renovação das contribuições já existentes. ficaram sempre muito aquém do prometido. um expediente fiscal que não carecia de aprovação das Cortes209. por seu turno. até porque.222 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS executiva). como vimos. os reis e os seus ministros. de não reunir as Cortes que o falecido Filipe IV havia deixado convocadas. cada vez mais encararam a participação nas Cortes como um dispêndio pouco compensador. Por outro lado. nos eventos cerimoniais que contavam com a participação do soberano. embora jamais tenha declarado que não voltaria a convocar os três estados. preferindo investir em outros canais de comunicação política e em outras formas de fiscalidade mais fáceis de introduzir sem a aprovação das Cortes. convém lembrar que a decisão de 1667 tem também a ver com a circunstância de Carlos II ser um rei menor e de se recear que a assembleia se pudesse converter num foco de oposição ou de desestabilização210. já que. a Coroa recorreu. Seja como for. adiar sine die a sua convocatória. A par disso. para o clero a assembleia também foi perdendo peso no seu relacionamento com a Coroa. ao «donativo». sempre que introduziu novas exacções recorreu ao argumento de que o que estava em jogo não eram novas contribuições mas sim. Talvez por causa disso. mas a maioria dos seus membros acabava por participar. Da parte das cidades não se registou nenhuma reacção hostil a esta decisão. A nobreza e o clero continuaram a responder à convocatória. Por último. Em Portugal as últimas Cortes do Antigo Regime celebraram-se em 1697-98. por juntas (administração fiscal) e pela comunicação directa entre a Coroa a as cidades (negociação directa)208. abandonando a reunião assim que podia. e em vez disso. a prática negocial com a Coroa à margem das Cortes estava já amplamente implantada. dispensava a convocatória da assembleia representativa.

Nesse contexto. referindo-se às leis fundamentais e ao seu «carácter sagrado». agora sim. pelos círculos régios. nem como uma situação que punha em risco o equilíbrio de forças entre o rei e os estados sociais.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. Todavia. como uma cedência cada vez menos aceitável da parte de monarcas que se distinguiam por assumir. era para todos claro que. não foi só nesse momento que as Cortes voltaram a estar no centro do debate político-jurídico de finais de Setecentos e de início do século XIX. na viragem para o período Setecentista. no momento em que se projectou alterar o Livro II das Ordenações Filipinas. ao passo que António Ribeiro dos Santos pugnava por um entendimento mais tradicional de monarquia. Na verdade. foi . facto que travou a aprovação da reforma211. projecto esse que suscitou uma polémica pública sobre o «absolutismo» régio. autor do Projecto de alteração do dito Livro II. Pascoal de Melo Freire. por seu turno. no qual a convocatória dos «três estados» começou a ser encarada. postulava um conceito «absoluto» de realeza. No contexto das revoluções liberais. sustentava que em Portugal nenhum órgão limitava o poder do rei. cujo poder era partilhado com os demais corpos sociais. facto que. Ribeiro dos Santos defendeu as Cortes. Depois de um longo debate. as Cortes do Antigo Regime voltaram a polarizar o debate político-constitucional. na Espanha dos primeiros anos de Oitocentos. Seja como for.. os tribunais e o conjunto do sistema jurídico-administrativo eram garantias suficientemente fortes para resistir a iniciativas mais voluntaristas da Coroa. também não provocou qualquer escândalo. recusando-se a esse órgão qualquer veleidade de controle constitucional ou de limitação dos desígnios da Coroa.. as Cortes passam a ser apresentadas como uma assembleia que reunia por mera opção do rei. A «assembleia dos três estados» voltou a estar no centro do debate político no final de Setecentos. No entanto. à medida que se avançou no período de Setecentos. uma atitude governativa mais abertamente voluntarista e executiva. e não obstante todo o avanço das doutrinas regalistas. foi-se instalando um ambiente político mais regalista. a doutrina de um poder régio moderado e alegadamente fiel à tradição portuguesa acabaria por vingar. 223 sem sido chamadas. a ausência de «assembleias dos três estados» não foi encarada como um atentado aos direitos dos vários corpos do reino. sintomaticamente. Como acabámos de dizer. A ASSEMBLEIA DE CORTES. Pascoal de Melo Freire. encarando-as como repositório de elementos limitadores do poder régio. no século XVIII as Cortes de Portugal jamais foram convocadas. embora se tenha falado dessa assembleia a propósito de algumas das novas exacções que a Coroa foi impondo.. Como tal. Bartolomé Clavero recordou que. vários foram aqueles que continuaram a evocar as Cortes e a apresentá-las como um órgão que controlava a acção do monarca. nem sequer para a inauguração de cada novo reinado.

Universidad de Murcia. «Las Ciudades. «Cortes y poder real: una perspectiva comparada» in AA. «Orto y ocaso de las Cortes de Castilla» in José Alcalá-Zamora & Ernest Belenguer (orgs.. Salamanca. I. A. 11-34. 1988) pp. Fortea López & Carmen M. Era toda uma nova leitura da política – e dos princípios constitucionais – que estava a ganhar forma. Las ciudades y la política fiscal de Felipe II. Actas de la Segunda Etapa del Congreso Científico sobre la Historia de las Cortes de Castilla y León. Studia historica.224 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS constituída uma Comissão que tinha como objectivo restabelecer a assembleia representativa212. La España del Conde Duque de Olivares.). I. 53-82. XVI-XVIII). em boa medida. Universidad de Cantabria.). NOTAS 1 Pablo Fernández Albaladejo. «Monarquia. «Reino y Cortes: el servicio de milliones y la reestructuración del espacio fiscal en la corona de Castilla (1601-1621)» in J. 317-337. os membros da dita comissão destacaram alguns dos aspectos que mais negativamente os impressionaram: antes de mais. Cortes y “cuestión constitucional” en Castilla durante la edad moderna». 15 (III cuatrimestre. 421-445. de P. Junta de Castilla y León. 17 (1997) pp. 1992. 1990. 477-499. Trabajos de Historia Política. os membros da dita comissão ficaram também impressionados com a ausência de um articulado escrito e de natureza constitucional que estabelecesse. «Las Cortes de Castilla y su Diputación en el reinado de Carlos II. . pp. Nas Cortes da época moderna prevalecia «una forma de vana representación y una sombra de libertad». Cremades Griñán (orgs. Alianza. Cortes de Castilla y León. Valhadolide. «The Cortes of Castile and Philip II’s Fiscal Policy». García Sanz (orgs. Calderón de la Barca y la España del Barroco. à inexistência desse texto escrito. Centro de Estudios Políticos y Constitucionales-SEENM. 1992. 2001. também. Madrid. pp. pp. Veja-se. 1990. afirmavam. Revista de las Cortes Generales. Ao analisarem as assembleias dos séculos antecedentes. as sessões das Cortes. Elliott & A. 113-208. Universidad de Valladolid. «Entre dos servicios. Pardos «Castilla. territorio sin Cortes (siglos XV-XVII)». 11 (1991) pp. Revista de las Cortes Generales. Santander. El Mundo Urbano en la Corona de Castilla (s. pp. Madrid. Las alternativas fiscales de una opción política (1590-1601)». de uma forma sólida e clara. VV. Historia Moderna. 1 (1984) pp. Além disso. o lugar das Cortes no sistema político do Antigo Regime. Política y Hacienda en el Antiguo Régimen. Las Cortes de Castilla y León en la Edad Moderna. Reunida a partir de 1809. a debilidade das Cortes do Antigo Regime devia-se. a fraca representatividade das Cortes e a sua falta de liberdade na escolha dos representantes. Fragmentos de Monarquía. Valhadolide. Múrcia. 1997. 117–138. Salamanca. Parliaments. pp. 779-803. Estates and Representation. acrescentando que os procuradores das cidades «nunca representaban la Nación»213. essa comissão procurou reconstituir o modo como se processavam. 1989. las Cortes y el problema de la representación política en la Castilla Moderna» in Imágenes de la Diversidad. 63-90. vol.). Para os membros da dita comissão. Monarquía y Cortes en la corona de Castilla. «La resistencia en las Cortes» in John H. desde tempos ancestrais. Fernández Albaladejo e J. 2 José Ignacio Fortea Pérez. La crisis de la hacienda real a fines del siglo XVI.

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Ley Regia de Portugal. González Lopo (orgs.A. El Mundo Urbano en la Corona de Castilla (s. Cosmos. 1998. 55 Cfr. 50 Na linha do trabalho de edição de fontes históricas que está a ser efectuado. Cortes e Cultura Política no Portugal do século XVII. Battista de Luca)». El Imperio de Carlos V.A.).. Xunta de Galicia. cit. 1997. Bernardo García (dir. «As Cortes de 1481-1482» in D. G. Actas del VI Coloquio de Metodología Histórica Aplicada. o foral manuelino e o devir quinhentista. designando simplesmente o espaço dependente das principais cidades – cfr.. Acerca deste tema cumpre consultar. 1969. 489-514. I.. Thompson. 1986. «Patriotismo y política exterior en la España de Carlos V y Felipe II» in Felipe Ruiz Martín (org. J. 111v. de Rita Costa Gomes. 49-104. 1996. 54 Gaines Post. I. 17-175. 49 Cfr.). tratase de um vocábulo que não tinha uma correspondência administrativa muito clara. de Beatriz Cárceles de Gea. actas do Colóquio: Évora. in genere. 49 (1970) pp. 1973-2001. Romero Magalhães. pp. também. pp. em especial «Os Poderes Locais no Antigo Regime» in César Oliveira (org. 1621-1700. 34 segs. Iurisdictio. pp. Semantica del potere politico nella pubblicistica medievale (1100-1433). Novembro de 2001 (no prelo). consulte-se. cit. 2000. «La respuesta castellana ante la política internacional de Felipe II» in AA. XVI-XVIII). I. Juan Delgado. 1987. 4 (1946) pp. Pietro Costa. pp. Fundación Carlos de Amberes. 45 Pedro Cardim.. 52 João Salgado de Araújo. 1998. Lisboa. Giuffrè. Ramada Curto (org. Para o contexto português. tanto nos domínios europeus da Coroa lusitana quanto no ultramar. 48 Sobre este tema cfr. 46 Ângela Barreto Xavier. Traditio. 2000. «As Cortes de Torres Novas. Madrid. pp. Procesos de Agregación y Conflictos. Fortea Pérez (org. Maria Helena da Cruz Coelho & J. Fortea Pérez.). os estudos de Nuno Gonçalo Monteiro. Revista de Ciências Históricas. 1627) f. 196-251. 53 No caso de Portugal.A. «Doctrinas y prácticas fiscales» in Roberto J. o magnífico trabalho realizado por J. Círculo de Leitores. Madrid. «Il principio “quod omnes tangit etc. Lisboa. 475-496. pelo Centro de Estudos Históricos da Universidade Nova de Lisboa. Milão. López & Domingo L. Junta de Castilla y León. Santander. & não aonde quer.. Fraude y Desobediencia Fiscal en la Corona de Castilla. 47 Fernando Bouza Álvarez. Valhadolide. consulte-se. desde há alguns anos. .” nello stato della Chiesa del seicento (secondo il pensiero di G. I.). Imágenes de la Diversidad. Balance de la Historiografía Modernista. O Tempo de Vasco da Gama. «A romano-canonical maxim: “Quod omnes tangit”». Difel. 258 segs. Razões da política no Portugal seiscentista.A. Ermini. 56 M. Editorial Complutense. 1996. pp. 44 Fernanda Olival. um dos principais elementos a destacar é a inexistência de corpos intermédios entre as cidades e o reino. Portugal en la Monarquía Hispánica. Universidad. Rodríguez-Salgado. 2003. Colibri. História dos Municípios e do Poder Local (Dos finais da Idade Média à União Europeia). Santiago de Compostela. Lisboa. 2 (1987) pp. Primera Parte… (Madrid. 51 Consulte-se. também. 1998. Thompson.). 223-260. 276-300.). El rei aonde póde. também. «Patronato Real e Integración Política en las Ciudades Castellanas Bajo los Austrias» in J. Lisboa. Itinerários e Problemáticas». La proyección europea de la Monarquía hispánica. O Poder Concelhio…. as Cortes de Évora e as reformas administrativas dos inícios do século XVI».230 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS III a Portugal. Apesar de o termo «província» surgir na documentação. veja-se. Rivista Storica della Accademia.

p. pp.VV.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. 142 segs.. 181-204.P.A. 113. Paolo Cappellini. 60 A ausência do rei levantava problemas tanto para as Cortes de Aragão quanto para as da Catalunha. Haia. porém. As Cortes Medievais Portuguesas. 64 Armindo de Sousa. «Aristocracy and Representative Government…. 435-463. A Corte dos Reis Portugueses no final da Idade Média.. VII.A. «Aristocracy and Representative Government…. 1988. Lisboa. 1964. 464-465. «El parlamento del reino de Nápoles bajo Carlos V: formas de representación.. 1133-1176. 1990.. cit. e também D. Blockmans.A. Tweekamerstelsel vroeger en nu. «La Unión de las Armas en el Perú.. «Rappresentanza politica» in AA. também. Enciclopedia del Diritto. «Roman Law and early representation». Giuffré Editore. porquanto o costume e a lei estabeleciam que só o monarca em pessoa podia chamar e presidir às Cortes. Ministério das Finanças. cit. Milão.. 1992.. «Celebration and Persuasion: reflections on the cultural evolution of medieval consultation».. cit. As Cortes Medievais Portuguesas. Enciclopedia del Diritto. 329-387. facciones y poder virreinal» in Laura Casella org. 1990.El Tratado de Tordesillas y su Época.VV.. mas de uma forma indirecta. que os nobres tenham deixado de interferir nos trabalhos da assembleia. Madrid. 1453-1463. Sicília e Sardenha). 66 Vide Iria Gonçalves. pp. 111 segs. «Aristocracy and Representative Government in Unicameral and Bicameral Institutions: the Role of the Peers in the Castilian Cortes and the English Parliament. 1992. Sdu Uitgeverij Koninginnegracht. H. pp. as quais se realizaram com uma notável frequência. quer através dos canais cortesãos de influência política. pp. 543-609. cit. vol. Ciaurro. Journal of maedieval studies... XXXVIII. de Schepper (orgs.. Armindo de Sousa.A.). Difel. 1990. 1990. 75. vide. 231 VV. 57 Fernando Bouza Álvarez. 62 Thomas N. cit. 24 (1967) pp. 2003. 67 Armindo de Sousa.. p. 61 Fred Bronner. cit. 68 I. Aspectos político-legales». 1988.. Speculum. «Republican Politics in Early Modern Spain…. Valhadolide. Congreso Internacional de Historia . 1995. Handelingen van de Internationale Conferentie ter gelegenheid van bet 175-jarig bestaan van de Eerste Kamer der Staten-Generaal in de Nederlanden. 75.. continuaram a fazê-lo. 279 segs.. pp. pp. Giuffrè Editore. ou na sua menoridade. Bicameralisme. pp. La monarquía de Felipe II a debate. 69 Tal não significa. «De un fin de siglo a otro. 121-134. Rappresentanze e Territori. p. vol. Thompson & Pauline Croft. As Cortes Medievais Portuguesas. quer por meio do seu ascendente sobre o governo de algumas cidades – I. 59 Em Portugal. Bisson. Lisboa.). cit. Legislative Studies Quarterly. «Rappresentanza (Diritto intermedio)» in AA. 1529-1664» in W. pp. 1992. Cfr. Thompson & Pauline Croft. Anuario de Estudios Americanos. Forum.A. Blom. Carlos José Hernando Sanchez. 1995. VV. W. 70 Gaines Post. 65 Armindo de Sousa. pp. XXXVIII.. estudo que contém muitos dados sobre a percepção da política internacional nutrida pelos procuradores às Cortes de Castela. o regente podia convocar as Cortes – cfr. na falta do rei... Parlamento Friuliano e Istituzioni Rappresentative Territoriali nell’Europa Moderna.A. 2 (1982) pp. 58 Rita Costa Gomes. As Cortes Medievais Portuguesas. pp. 18 (1943).. Pedidos e empréstimos em Portugal durante a idade Média.. 2002. Tal princípio foi respeitado excepto em Navarra e na Península Itálica (Nápoles. 75 segs.. Thompson & Pauline Croft.. 2000... 63 I. . Unión de Coronas Ibéricas entre Don Manuel y Felipe II» in AA.. onde deparamos com vice-reis a convocar e a presidir a assembleias. Xavier Gil Pujol. Milão. A ASSEMBLEIA DE CORTES.. SECCFC. Nocilla & L. Udine.

cit. Juan Gelabert & T.A.A. «Aristocracy and Representative Government…. Defining Nations. 134v.. 1997. No século XVIII. pp. pp. «Las Ciudades.caso de Écija. Assim. I. Mantecón (orgs. Fortea Pérez. Palência conseguiu realizar uma antiga pretensão: separar-se da cidade de Toro.. Udine. enquanto que o outro foi comprado por Palência. a troco de 80 mil ducados. p. «Aristocracy and Representative Government…. Fortea Pérez. Este dispositivo conheceu algumas modificações. 83 Xavier Gil Pujol. Yale University Press. «Orto y ocaso de las Cortes de Castilla»…. Thompson & Pauline Croft. 780 segs. em 1625 a Galiza conseguiu um voto em Cortes a troco de um serviço de 100 mil ducados. Thompson & Pauline Croft.. 19 (2001) pp.A. Fortea. 79 J. cit. Immigrants and Citizens in Early Modern Spain and Spanish America. 80 Cfr. 424. Thompson & Pauline Croft. I. segundo J. 74.. 81-101. cit. patria y humanismo cívico en el Aragón foral: Juan Costa». «Aristocracy and Representative Government….. 2003. 72 José Ignacio Fortea Pérez. Furor et rabies. 183-218. Fortea Pérez..). cit.A. «Orto y ocaso de las Cortes de Castilla»…. 215-236.. Fortea Pérez.º 2 (Fevereiro de 1989) pp. Universidad de Cantabria.). 781 segs. Volume 1. 1990. um dos votos foi adquirido colectivamente pelas cidades da Extremadura. Santander. I. Manuscrits. 77 Biblioteca Nacional. cit. outras cidades negociaram o seu direito de voto . «Orto y ocaso de las Cortes de Castilla»…. Assim. 2003. Málaga. Penélope. 251 segs. Nessa ocasião. na sua versão final as Cortes de Castela contavam com 21 cidades com direito de voto – J.. p. 1992. Fazer e desfazer a história. p. 1998. 74 António M. cit. . 1992. Forum.. a oferta voltou a ser feita em 1650. I. I. 78 I. em especial porque em Castela a Coroa usou a venda de lugares nas Cortes como fonte de rendimento. pp. «As Cortes de 1481-1482…. «Ciudadanía. 7 . E-Journal of Portuguese History. Jerez de la Frontera ou Oviedo . Parlamento Friuliano e Istituzioni Rappresentative Territoriali nell’Europa Moderna. Seja como for. 73 Cfr. Hespanha. las Cortes…. pp. Dessa forma.232 71 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS I. 81 Armindo de Sousa. Lisboa. J. Violencia. cit. 2002. Porque nenhuma urbe se mostrou interessada.. 2 (Winter 2003) p. cit. p. 1992. pp.brown. Em 1639 a Coroa decidiu vender outros dois votos às cidades que quisessem comprá-los.. n. as Cortes de Castela deixaram de ser convocadas antes que Palência pudesse exercer o seu direito de voto.A. p. Fortea Pérez. 52 segs. pp.artigo disponível na Internet no seguinte sítio: http://www. I. «O Governo dos Áustria e a “Modernização” da constituição política portuguesa».mas nenhuma alcançou os seus objectivos.edu/Departments/Portuguese_Brazilian_Studies/ejph/html/issue2 /pdf/duarte. 82 Tamar Herzog. «Los abusos del poder: el común y el gobierno de las ciudades de Castilla trás la rebelión de las Comunidades» in J. conflicto y marginalización en la Edad Moderna. cit. New Haven y Londres.. 781 segs. 84 J. 199. As Cortes Medievais Portuguesas. Pedro Cardim. 75 Rita Costa Gomes. «The Portuguese Mediaeval Parliament: Are We Asking the Right Questions?». 3722 f. 76 I.pdf (Março de 2003). cód. 75. n. Rappresentanze e Territori.A. «Le forme di rappresentanza nel sistema politico del Portogallo dell’Antico Regime» in Laura Casella org. Luís Miguel Duarte. 74.

). cit. coexistentes umas com as outras. De facto. 227 segs. cit. 2002. I. João IV». «Formas de elección de los procuradores de Cortes en Murcia (1444-1450). abdicando de um rei e escolhendo abraçar. O mesmo Filipe II que negava às cidades ibéricas estas formas de voluntarismo.. o arcebispo local. 89 J. Cerdá y Ruiz-Funes. e escolheram colocar-se sob a soberania e protecção de Filipe II.. I.. Homenaje al Profesor Jesús Lalinde Abadía. Madrid. Homenaje al Prof. 233 par destas reflexões de carácter “abstracto”. Xavier Gil Pujol..º 9/10 (1993) pp. Barcelona. etc. consulte-se. «Republican Politics in Early Modern Spain…. 1989. Carretero Zamora. 782 segs. por sua livre vontade. «Orto y ocaso de las Cortes de Castilla»…. 88 J. a este respeito. de J. E. las Cortes y el problema de la representación política…. 2002. Facultad de Filosofia y Letras. pp. e. Fortea Pérez.. Instituto de Historia de España. o exemplo de Cambrai. É esse o caso de episódios em que certas comunidades fizeram demonstrações de voluntarismo. cidade localizada entre os Países Baixos espanhóis e a França. no caso de Cambrai. «Orto y ocaso de las Cortes de Castilla»…. Este interessantíssimo episódio foi estudado por José Javier Ruiz Ibáñez em Felipe II y Cambrai: el consenso del pueblo. pp.º 8 (199) pp. Cfr. para o contexto portugués. n.). cumpre notar que não existia apenas uma visão do “constitucionalismo catalão”. La soberanía entre la práctica y la teoría política (1595-1677).d. s...º 4 (1989) pp. En torno a unos documentos de la ciudad y el Rey» in AA. cit. Cardim. de J. 267 segs. 93 Marcello Caetano. «Cortes e Procuradores do reinado de D. pp. 782 segs.T.ENTRE 85 A O CENTRO E AS PERIFERIAS. e como recorda Armindo de Sousa. «Da Antiga Organização dos Mesteres» in Franz-Paul Langhans. 1990.. Penélope. encarando as Cortes catalãs e a Generalitat como as instâncias representativas por excelência. Fortea Pérez. 99-120.F. As .. consulte-se P. Fortea Pérez. cit. 784 segs. A ASSEMBLEIA DE CORTES.. a fidelidade de um outro monarca. alguns acontecimentos concorreram para perturbar a situação.tinham uma leitura eminentemente popular. Bethencourt Massieu.. pp. a manifestação da sua vontade política. 92 O que não significa que o assunto não tenha vindo a lume. Universidad de Barcelona. «Organización e Integración Política de la Ciudades Gallegas en Tiempos de Felipe II». 279 segs. I.. para o espaço galego vide. Estudios en Homenaje a Don Claudio Sánchez Albornoz en sus 90 años.VV. aceitava. As autoridades urbanas de Cambrai rejeitaram o seu anterior soberano. Todavia. 439 segs. n. 90 J. 91 J. n. na condição de que os seus privilégios fossem respeitados. pp. Sarrión Gualda.. Iglesia Ferreirós (dir. 1997. Alguns . 1999. acerca deste tema consulte-se. mas sim várias leituras do tema. também. desde o período tardo-medieval debateu-se a questão do voto imperativo dos procuradores – As Cortes Medievais Portuguesas. de J. A crise sucessória de Portugal também suscitou o mesmo tipo de reflexões. 86 Xavier Gil Pujol. «Régimen electoral de Madrid a las procuraciones en Cortes: Las ordenanzas electorales de los siglos XVI y XVII». I. cit. SECCFC. «La interferencia del Rey en la designación y poderes de los procuradores en las Cortes castellano-leonesas (siglos XVI-XVII)» in A. Buenos Aires. 173-194. Gil Pujol cita. pp. pp. cit. 63-71. cit. Obradoiro de Historia Moderna. também. Fazer e desfazer a história. «Las Ciudades. M. «Orto y ocaso de las Cortes de Castilla»….como Andreu Bosch . «Republican Politics in Early Modern Spain….. eleição original. Centralismo y Autonomismo en los siglos XVI-XVII. Fortea Pérez. Desde há muito que o principado se auto-representava como uma comunidade política de base contratual (origens carolíngias. de María López Díaz. 87 Na Catalunha estas alusões tinham uma especial ressonância política...

«As Cortes» in J.... p.. cit. João III.. 190-191. de Joaquim Romero Magalhães. 108 Fernando Bouza Álvarez.. Lisboa. História de Portugal. III de José Mattoso (dir. 1986.. filho de D. pp. Luís Miguel Duarte. 1995. 245-264. 377. Germão Galharde. Duarte lembra que. 1998. As Regências na Menoridade de D.. pp. pp. 199 segs. Centro de História da Universidade de Lisboa.. Officina Ferreyriana. 1998. 289 segs. «De un fin de siglo a otro….. consulte-se. porém. A única excepção foi a reunião de 1390-91. Subsídios para a sua História. Rita Costa Gomes. Sebastião Decimosexto Rey de Portugal. pp. 1453-1463. cit. Rodrigues Lapa.. 18 segs. cit. Memorias para a Historia de Portugal. Chronica do Muito Alto. cit.. 50 segs.. M. 1454. Chronista mòr deste Reyno. e Diogo Barbosa Machado. 1992. f. 1995. 1938. noutras conjunturas. Imprensa Nacional. Arquivos do Centro Cultural Português. cit. Lisboa. «Parliamentary Life in the Crown of Aragon…. As Regências na Menoridade de D. I. Cortes e Cultura Política. 54-57v. M.. Sebastião.. Manuel de Menezes. pp.N. Manoel de Menezes.234 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Corporações dos Ofícios Mecânicos. Fundação da Casa de Bragança. 1730). (Lisboa. e Conquistas em sua menoridade. p. cit. seu neto…». pp. (Lisboa. 94 Xavier Gil Pujol. Ramada Curto. 1992. Maria. 340 segs. 1730. as Cortes foram chamadas para exercer uma função até aí pouco frequente: o juramento do herdeiro ao trono.). Sebastião. 95 Cfr. 102 Capitolos de Cortes E Leys que sobre alguuns delles fezeram… (Lisboa.. composta por D. As Regências na Menoridade de D... Difel. dir.. 1943. 104 Acerca das Cortes de 1562 consulte-se. Círculo de Leitores. que comprehendem o Governo del rey D. Acerca das Cortes do tempo de D. pp. 162 segs.. 105 Maria do Rosário Themudo Barata Azevedo Cruz. 107 Fernando Bouza Álvarez. 340 segs. 1736-). durante a Idade Média a intervenção das Cortes em matérias sucessórias não era vinculativa. 2002.. vol. II (1970) pp... 271 segs. Sebastião. pp. Lisboa. I-LXXXIII.-C.VV. «A “Crónica de D. Chronica do Muito Alto. «Lembrança do que sucedeu na morte de D. e pp. Livraria Sá da Costa. Cardim. cit. 106 Maria do Rosário Themudo Barata Azevedo Cruz. cit. Vila Viçosa.M. P. cit. João III. 355 segs. pp. Sebastião. pp. 97 Como notou Armindo de Sousa. Joseph Antonio da Sylva. com prefácio e notas do prof. 100 Joaquim Veríssimo Serrão. João III” de António de Castilho». pp. Sebastião. E Muito Esclarecido principe D. II. Lisboa. 1995.. «O Estado Manuelino: a onça e o elefante» in O tempo de Vasco da Gama. 1998. 1992... vol. I. 317-347. «As Cortes de Lisboa de 1502» in AA. Manuel. Vol. 1539). Lisboa. Sebastião por Rei de Portugal... E Muito Esclarecido principe D.. Primeiras Jornadas de História Moderna. 103 Cfr. de D. 1990.. Anais de D. João 3. «De un fin de siglo a otro…. «As Cortes de 1481-1482…. Nalguns casos os três estados foram chamados para decidir ou sancionar a mudança de reinado. Romero Magalhães (coord. 1993. .. Elementos para uma história estrutural. pp.. cit. Lisboa. todo o processo decorreu sem que as Cortes fossem consultadas – As Cortes Medievais Portuguesas. 99 Saúl António Gomes. vol. pp. 101 Frei Luís de Sousa. L. nesta ocasião. e da rainha D. e levantamento do principe D. de D. Mss. Manuel de Menezes. pp. 1.. 73-78. D. capítulo 2.. 98 Cfr.) No Alvorocer da Modernidade 1480-1620). 96 Fernando Bouza Álvarez. 256 segs. «De un fin de siglo a otro…. e Maria do Rosário Themudo Barata Azevedo Cruz.

119 O juramento teve lugar a 16 de Abril. O reinado de D. 115 Cfr. Universidade de Lisboa. o monarca hispânico partia para Castela . 1987. D.. 116 O melhor estudo sobre esta temática é o de Fernando Bouza Álvarez. IAC. Romero Magalhães (coord. p. cit. 183. tese de dout.). Filipe I às suas filhas e os tempos de um Príncipe Moderno» in Cartas a duas infantas meninas. de Carlos Margaça Veiga.. «Introdução. Joaquim Veríssimo Serrão. Lisboa. Romero Magalhães (coord. 236 segs. 1999. 56 segs. José Maria de Queirós Velozo. nem he couza para se duvidar» (sem data. No Alvorocer da Modernidade…. Dom Quixote. policopiados). 1993. o «Parecer sobre se podia El rey fazer mercê aos Povos. 1933.A. Universidad Complutense. pp. 22 segs. «A questão jurídica na crise dinástica» in J. Elvas. 1999. «A questão jurídica na crise dinástica» in J. Felipe II. e se resolue que sim podia. 123 I. cit... de Letras.. Coimbra. Rex Inutilis in Medieval Law and Literature. 174v. O reinado do Cardeal D. 213 segs. 1999. Dom Quixote. p.).. 117 Archivo General de Simancas. las Cortes y el problema de la representación política…. Eduardo Freire de Oliveira (org. Fortea Pérez. O Interregno dos Governadores. 1997.. Fernando Bouza Álvarez. Estado. 124 J. Filipe manifestava já a intenção de viajar para Lisboa . Yale. Lisboa. «Las Ciudades.). cit. 1970. las Cortes de Tomar y la génesis del Portugal Católico. Filipe foi jurado a 30 de Janeiro de 1583. 112 Cfr. «Dictamen del Conde de Salinas en que se examinan las prerrogativas de la Corona y de las Cortes de Portugal». 558 segs. 1903.. Empresa Nacional de Publicidade. 1992. 552-559. pp. I. ca. 14. cit. 1987. pp. The Shadow King. p. Faculdade de Letras. . Elementos para a História do Município de Lisboa. cit. António. 1993. 1999. pp.. Universidade de Lisboa. Em carta de 1 de Maio.. 51-VI-46 f.A. como fez nas Cortes de Thomar de os desobrigar dos direitos dos Portos Secos. Academia Portuguesa da História. Portugal nas cartas de D.ENTRE 109 O CENTRO E AS PERIFERIAS. p. «Aristocracy and Representative Government….Cartas a duas infantas meninas. Portugal en la Monarquía Hispánica (1580-1640). Lisboa. Legajo 415. Henrique. 1953... Poder e poderes na crise sucessória portuguesa (1578-1581). «A questão jurídica na crise dinástica» in J. Lisboa. 8. 1953. 114 «Carta régia à cidade de Lisboa». Biblioteca da Ajuda.... 557 segs. Dom Quixote. 61 segs. No Alvorocer da Modernidade…. Mafalda Soares da Cunha. No Alvorocer da Modernidade…. 1956. pp.Cartas a duas infantas meninas. Lisboa. 76. «De un fin de siglo a otro….. 122 Consulte-se. A ASSEMBLEIA DE CORTES. 4 de Janeiro de 1581. cit. 1458 segs. idem. Lisboa. 113 José Maria de Queirós Velozo. 1995. Portugal en la Monarquía Hispánica.. Ver também. Carlos Margaça Veiga. CML. duas semanas mais tarde. António Prior do Crato. pp.. pp. Anuario de Historia del Derecho Español. no Paço da Ribeira. cód. Fac. cit. 118 Fernando Bouza Álvarez. 111 Mafalda Soares da Cunha. p. Lisboa. 121 O príncipe D. pp. 427-428. por exemplo. Lisboa. Fernando Bouza Álvarez. Poder e Poderes na crise sucessória portuguesa (1578-1581). cit. 120 Erasmo Buceta. 110 Mafalda Soares da Cunha.). pp. dirigida às suas filhas. 235 Edward Peters. New Haven. em Lisboa.. O Interregno dos Governadores e o Breve Reinado de D. 1993. Madrid. Lisboa. XII. Romero Magalhães (coord. 1595). Thompson & Pauline Croft. 1999 (2 vols. 1946.

236 125 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS J. a gravura da sala de Cortes inserida na famosa obra de João Baptista Lavanha. 1998. 407-431. Francisco Ribeiro da Silva. 78. 1994. cit. pp. Parker (orgs.A. «Orto y ocaso de las Cortes de Castilla»…. cit. «La Monarquía Hispánica desde la perspectiva de Cataluña…. p. pp. «Un viaje conflictivo: relaciones de sucesos para la Jornada del Rey N. ritos e negócios. Fernando Bouza Álvarez. L’action de Diego de Silva y Mendoza. Thomas Iunti.. Portugal en la Monarquía Hispánica (1580-1640). Lisboa. 826 segs. sus fundamentos sociales y sus caracteres nacionales.. Elliott. 127 J. pp. As relações artísticas entre Portugal e Espanha na época das Descobertas.º 0 (2003) pp.. El Consejo de Portugal.A. ao reyno de Portugal e rellação do solene recebimento que nelle se lhe fez… (Madrid. cfr. 132 Acerca do Conselho de Portugal consulte-se. Revista de Estudos Ibéricos. Coimbra. cit. al Reyno de Portugal (1619)».. pp. 131 Claude Gaillard.J. «Dictamen del Conde de Salinas…. Livraria Minerva. Universidade Nova de Lisboa. 19 (1991) pp. . pp. 201-265. Fortea Pérez. 1989... Filipe II e os seus vassalos de Portugal – cfr. Europe and the Atlantic world. pp. cit. Don Felipe III deste nombre. 6. cit. Ribeiro da Silva. Fortea Pérez. La Revolución de 1640 en Portugal. p. 126 António Manuel Hespanha. Pedro Gan Giménez. N. 1580-1640. cit. I.. cit. 137 Erasmo Buceta. 1987. «Castile. cit.. Lisboa. Le Portugal sous Philippe III d’Espagne…. 1995. cit..VV. «A viagem de Filipe III. 1982.A. 55 segs. I. «Entre dos servicios.. Spain and the monarchy: the political community from ‘patria natural’ to ‘patria nacional’» in R. 311 segs. «La jornada de Felipe III a Portugal (1619)» Chronica Nova. 107 segs.. Editorial de la Universidad Complutense. pp. 133 Erasmo Buceta. 223-260. pp. 1933. 5-6. A Cultura Política em Portugal (1578-1642). pp. 63-90. Pizarro Gómez. a propaganda régia encarregou-se de apresentar o evento como um momento de intensa comunhão entre D. «La Jornada de Felipe III a Portugal en 1619 y la arquitectura efémera» in Pedro Dias (coord. 136 Cfr. Península. 128 I.. Revista de Ciências Históricas. Spain. 1989. 1987. 1997.. Cambridge University Press. Essays in honour of John H. 134 Acerca do protagonismo da Câmara de Lisboa no período filipino. 1992. Portugal en la Monarquía Hispánica. 2 (1987) pp. 1987. 1933.). «O Governo dos Áustria…. 1933. 123-146. 1982. cit.. A Memória da Nação. dissertação de doutoramento. maxime. «O Governo dos Áustria…. pp. Le Portugal sous Philippe III d’Espagne. António Manuel Hespanha. D. 53 segs. 140 segs. Ramada Curto. Madrid.. Ramada Curto. 792-795. 135 Erasmo Buceta. p. p.. S. Thompson & Pauline Croft... Cambridge.A. 129 I.... «Ritos e cerimónias da monarquia em Portugal (séculos XVI a XVIII)» in AA. «Aristocracy and Representative Government…. pp. Santiago de Luxán Meléndez. S. pp. cit. Jacobo Sanz Hermida. cit. 1991. 1988. 346 segs. Comportamentos. Apesar de as Cortes de 1619 terem ficado aquém do que os portugueses esperavam. Itinerários e Problemáticas».. 130 Ernest Belenguer Cebrià. Viagem da Catholica Real Magestade del Rey D. 1622). 321 segs. Acerca desta reunião de Cortes consulte-se F. 1987. «A viagem de Filipe III a Portugal. Université des Langues et Lettres de Grenoble. Grenoble. 223-260. n. Sá da Costa. 4.. «Dictamen del Conde de Salinas…. pp. 289-320. 138 Fernando Bouza Álvarez.).Thompson. Filipe II. 139 Claude Gaillard.. D. La crisis de la hacienda real…. F. 35. «Dictamen del Conde de Salinas…. cit. pp. Kagan & G.

2000. 2002. 1991.. in Fioravanti. 2001. 148 Fernando Bouza Álvarez. 149 Biblioteca Nacional. 201 segs. Serie: Derecho. Schaub. 144 Jean-Frédéric Schaub. Penélope. cit. pp.. 135 segs. quando os seus habitantes habitantes optaram por aclamar Filipe II como o seu novo soberano. Fernando Bouza Álvarez. em Outubro de 1595. 61 segs.. Le conflit de juridictions comme exercice de la politique.. pp.. cit. Madrid. «Habsburg Fiscal Policies in Portugal. 50-73. 545-562. de Antonio Álvarez-Ossorio. cit. «Fueros. 953. 142 Luís Reis Torgal... Revista de la Facultad de Ciencias Humanas y Sociales de la Universidad Pública de Navarra. Cortes y clientelas: el mito de Sobrarbe. 390 segs. 7130 – Memorial de Don Agustín Manuel de Vasconcelos sobre las advertencias a la juridizion y a la hazienda del reyno de Portugal. Elliott.. 154 Algo de semelhante ter-se-á passado em Cambrai. n. também. pp. 17-27. «O Governo dos Áustria…... 237 140 António Manuel Hespanha. 2002... Estudios de historia comparada. Casa de Velázquez. Veja-se. 207 segs. pp. pp.. Nobres e luta política no Portugal de Olivares» in Portugal no Tempo dos Filipes. Consideraciones de método y documentos para su interpretación» in Huarte de San Juan.. cit. Cuadernos de investigación histórica.73 (1998) pp. 153 John H. Mss. «Dinámicas políticas en el Portugal de Felipe III (1598-1621)». um episódio estudado por José Javier Ruiz Ibáñez em Felipe II y Cambrai.. pp. Laterza. 1989. Fernando Bouza Álvarez. Poder e Oposição Política. onde os «Fueros de Sobrarbe» exerceram um efeito galvanizador semelhante ao das «actas» das Cortes de Lamego. 23 83) (1994) pp. «El conde-duque de Olivares y los tribunales de la Corte: oposición política y conflicto constitucional».. Ideologia Política e Teoria do Estado….. Journal of European Economic History. «Los Fueros de Sobrarbe como discurso político. leg. Biblos. cit. 141 Jean-Frédéric Schaub. António de Oliveira. 2002. Relaciones... Beatriz Cárceles de Gea. Memória e juízo do Portugal dos Filipes». Lisboa. cit.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. Portugal en la Monarquía Hispánica. 143 Cfr. 236 segs. Representações (1580-1668). de Jesús Morales Arrizabalaga.. I. revista do Colegio de Michoacan. 423 segs.. Escritos seleccionados. Juan José de Áustria y el reino paccionado de Aragón (1669-1678)». 1987.. 151 J. Le Portugal au temps du comte-duc d’Olivares…. 152 Luca Mannori y Bernardo Sordi. 145 Archivo Historico Nacional. Movimentos Sociais. idem. 1987. cit. 146 Fernando Bouza Álvarez. México.«Parliamentary Life in the Crown of Aragon…. A ASSEMBLEIA DE CORTES. 17 de Outubro de 1638. cit. Le Portugal au temps du comte-duc d’Olivares (1621-1640). pp.. 1999. Fazer e desfazer a história. «Giustizia e amministrazione». Lo Stato Moderno in Europa.. pp. consulte-se. 52 (1976). 2001. 161 segs.).. o Protectorado também implementou um parlamento britânico com uma só câmara (1654) . 1 (1994) pp. 9-10 (1993) pp. 865 segs. «A nobreza portuguesa e a corte de Madrid entre 1630 e 1640. 2002. . 147 Xavier Gil Pujol nota que em Inglaterra. Cosmos. 130 segs. Romero Magalhães..-F. 13 (1990) págs. Madrid. Madrid. «1637: motins da fome». pp. Peter Thomas Rooney. Maurizio (org. 868 segs.. Pedralbes. Valência. 161-188. vol.. 169-211. Istituzioni e diritto. Universitat de València. 231-233. 1580-1640». Consejos. 239-291..º 12 (1992) pp. «Una sociedad no revolucionaria: Castilla en la década de 1640» in España en Europa. Portugal en la Monarquía Hispánica. 150 Cfr. Cultura. Política. J. Bari. 7-35. pp. cit. Para uma boa comparação com a Coroa de Aragão. f. «1640 perante o Estatuto de Tomar. n. pp. pp. anos mais tarde.

1-3. cit. P. Paulo Craesbeeck. 1644). Faculdade de Direito. Power and Social Meaning (1400-1750).. P. O Antigo Regime (1620-1807). de A. Lourenço de Anvers. 2002. A Formação do conceito de Constituição.. Palimage – European Science Foundation.) Religious Cerimonials and Images. cfr. ordenado. Lourenço de Anvers. «O processo político (1621-1822)» in História de Portugal. Madrid. XXXVI (161) (2002) pp. con le quali si proua. em justificação de sua acção… (Lisboa. 1981. «Principios de gobierno urbano en la Castilla del siglo XVI» in Enrique Martínez Ruiz & Magdalena de Pazzis Pi (coords. pp. 1998. dir. 4. Retenção. Reduccion. 162 Cfr. Ivsta acclamação do serenissimo Rey de Portvgal Dom Ioão 157 António Barbas Homem. António Alvarez. 165 Segundo Xavier Gil Pujol («Parliamentary Life in the Crown of Aragon…. Biblioteca Nacional. 242 segs. I. y Político: Por Iuan Baptista Moreli Doctor in Vtroque. 161 Lívio Giotta. Col Stabilimento Fatto nella Corti dalli tre Stadi di quel Regno et Alcvne Allegationi Giuridicopolitiche. J. 2002. Fortea Pérez. 238. pp. e divulgado em nome do mesmo reyno. Martim de Albuquerque. 67 segs. pp. 156 Francisco Velasco de Gouveia. quando Olivares resolveu convocar as Corts tendo em vista fazer aprovar um novo pedido fiscal. cfr.. As cortes de Lamego são «a verdadeyra instituição do Reyno» escreve João Pinto Ribeiro em Uzurpação.. pp. 351-368. «Ceremonial.. (Lisboa.. Actas Editorial. pp. 1641). y en la Sagrada Teología. p. Restituycion del Reyno de Portugal a la Serenissima Casa de Bragança en la Real Persona de D. A convocató- . M. Lisboa. consulte-se. 231 segs. José Mattoso. Iuan IV. Tradotto dalla Lingva Portvghese nell’Italiana per Informatione de Signori Italiani da Liuio Giotta (Lisboa. 1642). 1968. pp. que celebró con el Rey christianissimo. 1985. con las razones. Lisboa. 164 Cfr. y causa de la Confederación. Madrid. 184 segs. Cardim. Hespanha. Universidade de Lisboa.... Análise Social. Acerca deste livro. Lisboa. Fernando Dores Costa. Relatório apresentado no Curso de Mestrado. Raggioni del Ré di Portogallo D. f. e tal memória terá sido determinante em Junho de 1640. Mss. 2002. 1642).. Cardim.).. 163 P. VIII. e 244 segs. che il suo Ambasciatore mandato in Roma deue esser accettato del Pontefice. 32 segs. Lei Fundamental e Lei Constitucional. 1996. Giovanni IV. 386 segs. 1648). vol. I.. coord. Tratado analytico diuidido em tres partes. Iuannetin Pennoto. na Catalunha existia uma forte memória de governação republicana. (Lisboa. Con vna breue relatione del successo nell’elettione del nuouo Rè. y otros Principes. (Turim.. 1147-1181. de Luís Reis Torgal. 160 Fulgêncio Leitão.).. Estas «actas» foram oportunamente impressas em 1641: Cortes Primeiras que el Rey Dom Afonso Henriquez celebrou em Lamego aos Tres Estados depois de ser confirmado pelo Sumo Pontifice por Rey deste Reyno. Las Jurisdicciones. ISCSPU.238 155 «Deste OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS papel se há de formar la platica del Embaxador de Roma al Pontifice para que no admita la Embaxada del Obispo de Lamego y proceda en causas contra Portugal». pp. «As forças sociais perante a guerra: as Cortes de 1645-46 e de 1653-54». 19. Coimbra. Direito Constitucional.. Lexicoteca. political allegiance and religious constraints in 17th century Portugal» in José Pedro Paiva (org. vol. Contributos para uma história do Direito Público.. cit. cap. 2372. Restauração de Portugal. cit. vol. p. o IV. f. Cardim. Discurso Moral. Cortes e Cultura Política. Ideologia Política. Rey de dicho Reyno. pp. 38 segs. 261-308. O Poder Político no Renascimento Português. 158 159 Acerca da presença do conceito de pactum subiectionis na paisagem política ibérica.

. Cambridge. vol. Dittos e Feytos de El-Rei Dom João IV. Lisboa. 1963. Biblioteca da Ajuda. Lisboa. Arquivo da Universidade. 167 Carta de D.. Acerca da articulação entre a pregação e a política.. Ciudades y Villas. Stvdia Gratiana. 408 segs. Disputa sse si deven imponer se de consentimiento de los tres Estados del Reyno (Cortes)». 105. Contiene la tercia. P. y Poderoso Principe Carlos Gustavo. 171 Cfr.. 175 Cfr. Rio de Janeiro.. 168 Um bom exemplo: Avizo Exortatório aos Fidelíssimos Três estados do felicíssimo Reyno de Portugal. revisão de Lígia Cruz. Diplomata e Político. 172 E. «Cessante Causa and the taxes of the last Capetians. João da Silva.A. Cortes. 169 Cfr. 1642-1644». in genere Ângela Barreto Xavier. Arquivos do Centro Cultural Português. 132. 1673. 1926.. 133 segs.. p..C. alegando que não poderiam votar com liberdade encontrando-se um exército régio em território catalão. Ordenado por Ioão Rabello Vellozo que muito dezeja o seruiço de Deos & o de sua Augusta Magestade el rey D. Limencop. & não aonde quer. (Estocolmo. 1640-1668. 22. 239 ria foi expedida. Coimbra. edição de Manuel Lopes de Almeida. p. Esta reunião – que não foi convocada pelo rei – desenvolveu uma actividade muito intensa. foi a Diputació a entidade que conseguiu congregar os representantes do Principado. com introdução. Ivizio o Vaticinio Politico Al Noble Reyno de Svecia: Debaxo de la conducta del Muy Alto. em especial pp. quarta. no qual o autor analisa as várias opiniões sobre o tema. 222v.º marquês de Gouveia. seguido de Tomo Segvndo del Iuizio o Vaticinio Politico Al Noble Reyno de Svecia. segundo apógrafo inédito da Biblioteca Nacional. pp.N. 170 O livro de António da Silva e Sousa. & conseruação de seus Reynos.. mas a reunião não chegou a celebrar-se. 141 segs. Colibri. 2. & Senhorios… (Lisboa. 49-X-6. El rei aonde póde. cód. 1982. informação. Entre los Habsburgo y los Braganza» in J. XXXII (1993) pp.). 1655). f. em especial A Parenética Portuguesa e a Restauração. 166 Francisco Manuel de Melo. 562-587. in genere a obra de João Francisco Marques. 29-50. The Revolt of the Catalans. embaixador em Madrid. Todavia. 1655) inclui um capítulo sobre impostos intitulado «Apunta se las condiciones que deven currir para imponer nuebos pechos. (devo esta sugestiva referência a Rafael Valladares Ramirez). e Morte.R. 719 segs. Razões da política no Portugal seiscentista. pp. para o secretário de Estado Francisco Correia de Lacerda. (Estocolmo. Rodolfo Garcia e Pedro Calmon. 1642). . Centenário da Restauração. Johannes Jansson. notas de Afrânio Peixoto. Madrid.I. I. Imprensa da Universidade. Frei Domingos do Rosário. Johannes Jansson. Vida. Brown. Abril. y la tertercia de la obra. 173 Citado por Edgar Prestage. 122 segs.. cfr.. A ASSEMBLEIA DE CORTES. Bravo Losano (org. Espacios de Poder. Rey de Suecia.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. y quinta parte de la segunda. Coimbra. para as Corts catalãs a conjuntura de 1640 representou um breve momento de protagonismo. Cardim. Elliott. Londres 1655-1657. Lourenço de Anveres. The political applications of a Philosophical Maxim». Acerca deste tema é imprescindível a consulta do estudo clássico de John H. Ioão IV para paz. Em vez da Coroa. 1940. Tacito Portuguez. «Correspondance diplomatique de François Lanier résident de France à Lisbonne. 1998. A Study in the Decline of Spain (1598-1640). não chegando a nenhuma conclusão taxativa. Cambridge University Press. 35 174 Correspondência diplomática de Francisco Ferreira Rebelo. Lisboa. 2002. 15 (1972) pp. 1989 (2 vols. pois nas décadas que se seguiram a assembleia representativa perdeu boa parte da projecção política de que momentaneamente gozara. «La Corona y las Autoridades Urbanas en el Portugal del Antíguo Régimen.). pois os representantes recusaram-se a comparecer.

188 Guida 189 «Procuradores que estão por definidores com voto e declaração dos que estão com alternativa em as Cortes que se comessarão em 22 de Outubro de 1653». pp. Madison. de João Fragoso. Lisboa. Biblioteca da Ajuda. Penélope. Guerra e Açúcar no Nordeste. Seminario Extraordi- 192 . O Rio de Janeiro no século XVIII. 345-347. Cardim. Maria Fernanda Bicalho. 2002. 2003. pp. p. A Cidade e o Império. pp. 2001. 1992. 183 Consulte-se in genere a Historia da Expansão Portuguesa. «O Estado do Brasil na União Ibérica. Guerra. São Paulo. p.. 179 Fred Bronner. The Municipal Councils of Goa. Madrid. 165-188.. também. VV. fs. estas atitudes coexistiam com tomadas de posição eminentemente particularistas e completamente desprovidas de qualquer sentido de solidariedade para com os problemas que afectavam o resto do «reino e conquistas».). Rio de Janeiro. 1992. org. 1510-1800.. Portugaliae Historica. 51-VI-19. A Cidade e o Império. Hespanha. 180 Carta escrita em Lima.. cit. 190 Maria de Fátima Gouvêa.. 13-80. vol.. 1138. Marques. Bethencourt & K..240 176 Rafael OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Valladares. VV. 177 Carlos Dias Rementeria. Hucitec. 2002. Civilização Brasileira. cit. Do Índico ao Atlântico (1570-1697). Todavia. 27 (2002) pp. 285 segs. cit. 30 segs. cód. pp. 1967. Mapfre. a 14-3-1628 – cfr. 186 As cidades e vilas do reino também costumavam preparar petições conjuntas. «La Constitución de la sociedad política…. denotando. Chauduri. Fred Bronner. e. cit. n. tuguês (1645-1808)» in AA. Revista de História e Ciências Sociais. 1640-1720. pp. Olinda Restaurada. Topbooks. «A constituição do Império português. 2001. Alberto de la Hera & Carlos Dias Rementeria.. de João Fragoso. Valhadolide. 1139. Revisão de alguns enviesamentos correntes» in AA. Lisboa.. 1980. Portuguese Society in the Tropics. O Antigo Regime nos Trópicos. «La Unión de las Armas en el Perú…. cit.. «A concessão do Foro de Cidade em Portugal dos séculos XII a XIX».. 1135 segs. 181 Fred Bronner. veja-se. A dinâmica Imperial Portuguesa (séculos XVI-XVIII). Bahia and Luanda. 187 Guida Marques. cit. 1998. O Antigo Regime nos Trópicos: A Dinâmica Imperial Portuguesa (séculos XVI-XVIII). «La Unión de las Armas en el Perú…. pp.. A Monarquia Portuguesa e a colonização da América. «La Constitución de la sociedad política» in Ismael Sánchez Bella. 1998.. 7-36. 167-190.. «Poder Político e administração do complexo atlântico por- 191 Acerca do tema consulte-se. Rio de Janeiro. 261 segs. 1630-1654. «Política cortesana y administración en Portugal durante la segunda mitad del siglo XVII» in José Javier Ruiz Ibáñez (org. Consulte-se P. O Rei no Espelho. Historia del Derecho Indiano.. conflicto y poderes en la Monarquía Hispánica (1640-1680). I (1973) pp. 178 Carlos Dias Rementeria. org. Rio de Janeiro. Macao. 185 E. M. «La Unión de las Armas en el Perú. de Rodrigo Bentes Monteiro. 182 A. de Joaquim Veríssimo Serrão. Cabral de Mello. Em algumas das sessões de Cortes é possível detectar sinais de concertação entre procuradores oriundos de uma mesma região. Junta de Castilla y León. pp. 1967. de F. La Rebellión de Portugal. 1967. «O Estado do Brasil na União Ibérica…. 1998. 184 Charles Boxer. de Maria Fernanda Bicalho. uma certa capacidade para articular posições à escala regional. Dinâmicas políticas no Brasil no tempo de Filipe II de Portugal». org. Rio de Janeiro. portanto. 184.

pp.A. Além disso. 347-469. 196 I. Fortea Pérez. Fundación Carlos de Amberes.A. . o que obrigava a Coroa a antecipar-se à negociação fiscal na resposta aos pedidos.... O excelente artigo de I. «Aristocracy and Representative Government…. Madrid. 199 A questão da resposta aos «capítulos» merece também alguma atenção. cit. J. estabeleceu-se que o rei deveria incluir na escritura de los millones as respostas às petições. Universidade de Múrcia. por vezes. pp. 2001. cit.A. Legislação. «Orto y ocaso de las Cortes de Castilla»…. p. 53-60. J. de Jesús Vallejo. European History Quarterly. 193 Cfr. A ASSEMBLEIA DE CORTES. e. pp. La Capilla Real en la corte de Carlos II» in J. Antonio Álvarez-Ossorio. cit. 201 Francisco Tomás y Valiente. 198 Acerca desta problemática é imprescindível a consulta de A. 121-134. de resto. La Capilla real de los Austrias..A. de I.). I. como mostrou I. p. pp.. Anuario de Historia del Derecho Español. Carreras & Bernardo García García (orgs. Antonio Feros. «La Diputación de las Cortes de Castilla (1525-1601)».A. Essa coexistência de várias vias de diálogo foi uma constante. Fortea Pérez. «Introdução Histórica à Teoria da Lei – Época Medieval». Madrid. 202 J. «Ceremonial de la Majestad y Protesta Aristocrática. pp. pp.. VV.. A Coroa castelhana. 1598-1621. 345-410. terem continuado abertos vários outros canais de comunicação entre a Coroa e as cidades. Fortea Pérez. 14 (1984) pp. 789 segs. Thompson. pois a Coroa continuava a carecer da assembleia enquanto cenário natural de negociação entre o rei e o reino. pp. e no início não retirou força às Cortes.A. 1982. de António Barbas Homem. «Orto y ocaso de las Cortes de Castilla»…. usou essa matéria como forma de pressão. 790 segs. XXXII (1962). do qual se esperava. o que dava novo alento à capacidade das Cortes para influenciar o corpus normativo da Coroa... 374.. 1992. Departamento de História (no prelo). 1992. Cambridge. 2002. recusando-se a dar resposta às petições até que as Cortes aprovassem os servicios que o monarca reclamava. 91 segs. 195 Cfr. Madrid.A. «Derecho como cultura. «Orto y ocaso de las Cortes de Castilla»…. Servicio de Estudios del Colegio de Registradores. Cadernos de Ciência de Legislação. 2000. M. pp. Thompson & Pauline Croft.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. I. Thompson & Pauline Croft. Thompson em «La respuesta castellana ante la política internacional de Felipe II» in AA. cfr. 7-125.. Equidad y orden desde la óptica del Ius Commune» in Salustiano de Dios et al. Cambridge University Press. Historia de la Propiedad.A. 194 Acerca das críticas ao valimento. 230 segs. 2000. tais respostas tinham força de lei e eram incorporadas nas sucessivas edições da Nueva recopilación. Música y ritual de corte en la Europa moderna. «Aristocracy and Representative Government….. cit. uma colaboração activa no terreno fiscal – J.. 197 Para uma excelente exposição sobre a eficácia conformadora do Direito no contexto do Antigo Regime. Kingship and Favoritism in the Spain of Philip III. pp. também. I. consulte-se. 241 nario Floridablanca. «The rule of law in early modern Castile». Com a implementação do novo regime dos millones. 78-79. La monarquía de Felipe II a debate. Fortea Pérez chama a atenção para o facto de. cit. Patrimonio Cultural. 200 Não raras vezes eram as próprias Cortes a não revelar grande empenho em debater questões de alta política. História das Instituições. 788. 221-234. Hespanha. Entre Clío y Casandra. 25 (Abril-Junho de 1999) pp.. a par das Cortes. cit. consulte-se. SECCFC.

801-802. «Cortes Tradicionales e Invención de la Historia de España…. 207 segs. a decisão de 1667 inscreve-se no quadro mais geral da reformulação do sistema fiscal castelhano. José Esteves Pereira. Fortea Pérez. de David Alonso García. «Una sociedad no revolucionaria: Castilla en la década de 1640» in España en Europa. O Pensamento Político em Portugal no século XVIII. «Una sociedad no revolucionaria…. «Orto y ocaso de las Cortes de Castilla»…. Imprensa Nacional. «Una sociedad no revolucionaria. Acerca deste tema consulte-se. Las Cortes de Castilla y León.. pp. 21-30. Fortea Pérez. Roma. I. «Cortes Tradicionales e Invención de la Historia de España» in AA.. Una o dos ideas»... 801-802... 2001. pp. cit. Gelabert. pp. 153. para fins específicos e baseado em determinadas condições – estava a debilitar-se. I. pp. Escritos seleccionados. 2002. Elliott. 187-188. Elliott. Giovanni Levi. 204 .). consultes-se.. The Value of the Norm. 207 segs. Sua origem e evolução. pp. cit. 213 Bartolomé Clavero. 2002.. Universidade Católica Editora. 117-152. cit. 1990. Valência. p. 2002. «À quoi sert de voter aux XVIe-XVIIIe siècles?». VV. 2002. Fortea Pérez. 206 John H.. 237 segs. Estudios de historia comparada. «Reciprocita mediterranea» in Renata Ago (org. 1994. Marcial Pons. Los Borbones. Studia Historica. 140 (décembre 2001) pp. de Juan E. também. Lisboa. 208 Este fenómeno registou-se em toda a Península Ibérica. «La configuración de lo ordinario en el sistema fiscal de la Monarquia (1505-1536). Universitat de València. pp. 210 J. «La Corona de Aragón a finales del siglo XVII: a vueltas com el Neoforalismo» in Pablo Fernández Albaladejo (org. p. 109 segs. Daí que tanto a Coroa como o reino.).. 1983. Madrid.242 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS 203 Acerca deste tema consulte-se. como lembra Xavier Gil Pujol. tenham manifestado o interesse em recorrer a modalidades alternativas de financiamento – J. cit. Cortes de Castilla y León. Dinastía y Memoria de Nación en la España del siglo XVIII. O modelo do servicio – entendido como auxílio temporário. cit. António Ribeiro dos Santos... cit. 21 (1999) pp. 205 John H. 212 Bartolomé Clavero. 208. pp. «Orto y ocaso de las Cortes de Castilla»…. Da Justiça Administrativa em Portugal. de Olivier Christin. 211 Maria da Glória Ferreira Pinto Dias Garcia. pp.. 207 John H. I.. 209 Para J. 37-72. 2002. Actes de la recherche en sciences sociales. Biblink editori. Valhadolide. Castilla convulsa. 1188-1988. 1990. pp. Lisboa. Elliott. 149-195. Historia Moderna.

provedores ou de outros ministros como o do Procurador da Coroa. O rei. o tribunal do Desembargo do Paço seguiu para submeter à apreciação superior as consultas relativas aos assuntos das câmaras depois de ter obtido as informações e os pareceres dos corregedores. Edições Colibri – CIDEHUS-UE. E outras. 2005. são as questões quando se invocam outros poderes para além dos régios e muniOs Municípios no Portugal Moderno: dos forais manuelinos às reformas liberais Lisboa. Acontece. dos organismos envolvidos nas relações de poder. quando decidia no quadro do seu regimento. ainda. os dispositivos disciplinares. . então. na maioria dos casos. os recursos disponíveis e as motivações dos vários actores sociais. as tradições que envolvem as práticas sociais. Parece à Meza o mesmo que ao Ministro Informante” A fórmula de despacho em portada foi a que. Ou. o plano doutrinário. Os objectivos. valorizando o poder local ou as intenções centralizadoras. implicam alguma indeterminação na configuração global do sistema de poderes e estruturas de probabilidades consoante os espaços onde se tecem as obediências. 243-261. portanto. responde nos despachos “Como parece”. As excepções vão para pretensões fora do ordinário ou quando os ministros deixam os pareceres em aberto com o acostumado “Faça-se justiça” (fiat justitia). que o conhecimento mais recente da realidade administrativa e política do Antigo Regime é complexa demais para se deixar classificar de forma tão simplista. estratégicos ou efémeros. XVII-XVIII) JOSÉ SUBTIL (Universidade Autónoma de Lisboa / Instituto Politécnico de Viana do Castelo) “E sendo tudo visto. as desobediências e. pp. as propostas historiográficas para a caracterização do modelo de relação entre o centro e a periferia tenderão sempre a reconhecer fundamentos para apoiar a perspectiva centralizadora ou autonomista do poder. Todavia. porém. por sua vez.As relações entre o centro e a periferia no discurso do Desembargo do Paço (sécs.

Do lado de quem manda ou pretende mandar. para o final do Antigo Regime. Entre o Antigo Regime e o Liberalismo. provavelmente. como foi sugerido para as paróquias por José Viriato Capela neste mesmo colóquio. sendo ignoradas as freguesias embora. por exemplo. o verdadeiro papel da Coroa e dos municípios na conformidade da vida política e social. como unidades que podiam sustentar. ao nível periférico. O significado dos arquivos Através da forma de organização dos arquivos administrativos e do seu conteúdo técnico podemos reconhecer. como memórias dos actos praticados. os problemas relacionados com o exercício do poder obedecem a interesses e mecanismos próprios de dominação bastante diferentes conforme o lugar que nos dispomos ocupar. Imprensa das Ciências Sociais. isto é. atentemos nalguns detalhes que dizem respeito ao Desembargo do Paço. a relação entre a Coroa/concelhos e concelhos/freguesias recentra a geometria dos campos de domínio do poder e torce os lugares políticos e sociais. Elites e poder. Lisboa. qualquer movimento reformista. tanto o papel desempenhado pela burocracia na maneira de exercer o poder. unidades que serviam para circunscrever as funções de execução política e administrativa dos corregedores e/ou provedores na sua relação com a Corte e os concelhos. tribunal que assegurava a comunicação política entre a Coroa e os poderes periféricos. 1 Sobre o poder local ver referências aos mais recentes trabalhos em Nuno Monteiro. Será uma mudança com resultados. E as respostas que se procuram ou que se querem encontrar são imaginadas de acordo com a perspectiva em que nos coloquemos. No discurso historiográfico. em primeira instância. da Igreja e das comunidades com juízes ordinários1. Entre as diversas componentes destas lógicas. em simultâneo. como os circuitos para a tomada das decisões. apenas. . alguns corregedores as comecem a invocar como novos pólos de territorialidade política. 2003.244 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS cipais. ou do lado de quem obedece ou pretende obedecer. revela que as comarcas e as provedorias não constituíam espaços sociais de relações de poder mas. isto é. surpreendentes para avaliar. a periferia tem sido identificada com os concelhos. como os poderes senhoriais. Naturalmente que uma geografia política que equacione. A hierarquia do lugar que ocupam os concelhos em relação às freguesias não resulta imediatamente das relações estabelecidas pelos concelhos com a Coroa. Não há dúvida que a persistência continuada e exclusiva de arquivos municipais e centrais.

ou dos Corregedores. aliás. o conteúdo dos arquivos municipais e dos arquivos centrais não repetem. a cargo da Secretaria das Justiças e do Despacho da Mesa. nem as pautas das eleições nos arquivos concelhios o que nos mostra que as possibilidades de controlo estavam reservadas aos oficiais comarcais através dos quais o monarca podia chegar ao maior número possível de informações. Mas vejamos outros pormenores. Estremadura e Ilhas. revertiam em receitas de emolumentos para os magistrados e para a Coroa e. que se destinava aos assuntos referentes aos concelhos. a informação. na maioria dos casos. por exemplo. Em qualquer caso. de uma forma geral. Isto significa. Quando as circunstâncias o justificassem era. assim. como mesmo para outras indagações. da responsabilidade da Secretaria das Comarcas onde se deviam tratar os que tocarem “às Cameras dos Lugares das suas Comarcas. no facto das provas documentais do exercício do poder estarem nos arquivos municipais ou nos arquivos dos tribunais e conselhos da administração central. Esta secretaria era constituída por quatro repartições (Corte. no que tocar a seus officios. De acordo com a estrutura e a organização do arquivo do Desembargo do Paço. tanto para as de carácter mais técnico. como funcionários volantes que exerciam. não se encontram no Desembargo do Paço. igualmente. um outro. Juízes. Um.RELAÇÕES ENTRE O CENTRO E A PERIFERIA NO DISCURSO DO DESEMBARGADOR DO PAÇO 245 Uma das evidências desta particularidade reside. para além do mais. sobretudo. agilizava as suas acções e permitia. não deixa de ser surpreendente como. accionado o mecanismo dos traslados cujos custos. podemos distinguir dois tipos de expediente. o processamento burocrático se fazia de forma razoável para a época. os interesses da instituição produtora da documentação. então. . O corregedor e/ou provedor. e Justiças dellas. públicas ou mais ou menos secretas. uma grande economia de recursos humanos e financeiros uma vez que a duplicação da informação era demorada e implicava trabalhos acrescidos. portanto.º do Regimento Novo do Desembargo do Paço (27 de Julho de 1582). e Alentejo e Algarve) cada uma 2 Parágrafo 8. Beira. Neste sentido. apesar destas características e das limitações da comunicação. pedidos que. com excepção de alguma correspondência. um poder de indagação da verdade não precisavam de uma secretaria de reserva que duplicasse a informação disponível nos arquivos referidos o que. também. em primeiro lugar. ou seja. Minho e Trás-os-Montes. As actas das vereações. com os processos relativos a consultas. tendo em vista formar a decisão régia. relacionado com o despacho régio. eram do interesse destes. que a produção documental servia. eram suportados pelos interessados. ou ao bem commum”2.

dos procuradores das partes que se encarregavam de organizar o dossier com os documentos necessários aos processos sendo. uma prática que veio a ser abandonada por se mostrar inconsequente. a forma como se constituíam as redes entre os procuradores e advogados espalhados pelo Reino e os que tinham escrivaninhas na Corte. normalmente. que as unidades administrativas do Reino 3 Ver pormenores da estrutura do arquivo em José Subtil. Alguns oficiais e escrivães do Desembargo do Paço foram acusados de cumplicidade com alguns destes procuradores para influenciarem ou acelerarem processos. também. Lisboa. exclusivamente. asseguravam a relação dos particulares com o monarca. As funções e o papel político desempenhado por estes procuradores que. eleições municipais. dos concelhos e dos donatários leigos. Tudo parece indicar que os procuradores formavam uma verdadeira corporação profissional que exercia pressão sobre o andamento dos processos e a sua resolução final. O que se pode dizer. No que diz respeito ao governo das câmaras. Formam uma interminável fonte de informação sobre o poder local. relacionados com a administração da justiça e da magistratura. cultivo das terras. nos municípios. A confirmação. que não existiam arquivos comarcais ou de provedoria o que nos remete para uma noção de periferia política e administrativa consubstanciada. Universidade Autónoma de Lisboa. Os assuntos dos particulares não entravam. O Desembargo do Paço (1750-1833). portanto. conflitos jurisdicionais. sobretudo. porém. recebendo gratificações em troca. o fomento económico. administração dos bens da Igreja. por assuntos ou por toponímia3. II). em primeiro lugar. para um advogado com quem repartiam os honorários. O acesso aos processos podia fazer-se por nome próprio do requerente. . Ou melhor dizendo. dando conta aos seus clientes dos passos que foram e estavam a ser dados. doações e heranças. obras. os processos mais importantes tinham a ver com os actos eleitorais (pautas) e com a fiscalização sobre as comissões de serviço dos magistrados régios (autos de residência). porém. higiene pública. em grande medida. desde os mais simples requerimentos dos particulares até aos mais complexos. A certa altura foi adoptado no tribunal a numeração do registo de entrada dos processos. por esta secretaria mas sim pela Casa do Expediente através. etc. estão por conhecer como. Trabalhavam. sobre a estrutura e funcionamento arquivístico do tribunal é. distribuídos pelas repartições das comarcas. posteriormente. da boa organização do tribunal está expressa na forma como o arquivo funcionava apesar de tratar dos mais variados assuntos. 1996 (cap.246 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS remetendo para a respectiva comarca cujos processos se organizavam em maços.

a cargo destes profissionais. Ao contrário de Espanha. Lisboa. 1996.RELAÇÕES ENTRE O CENTRO E A PERIFERIA NO DISCURSO DO DESEMBARGADOR DO PAÇO 247 eram constituídas. apenas. 4 5 Sobre a organização do poder à periferia ver Nuno Monteiro. continua a ser fundamental . Muito raramente tomavam iniciativas próprias. sobretudo do Desembargo do Paço. todavia. isto é. assim. os oficiais de ligação entre o centro e a periferia. por cair nas competências dos corregedores e provedores para. uma poderosa imagem do poder da Coroa porque obrigavam a descartar procedimentos que não estavam ao alcance de qualquer um. em quaisquer dos casos. A arte da explanação dos assuntos e a materialização da realidade objectiva em documentos. História dos Municípios e do Poder Local (direcção de César de Oliveira). pelos tribunais centrais da Corte e pelos senados das câmaras. A acção da Coroa em relação à periferia apoia-se. como já se disse e se sabe. desde logo. A lógica das relações e da decisão política Os corregedores e provedores eram. o local e o inexistente regional”. os concelhos4. constituíam o signo de entendimento do poder régio que não reconhecia outros sentidos fora destas estruturas de modelização. Apesar das Histórias de Espanha recentemente editadas. Em segundo lugar. deve registar-se que há uma clara distinção no tratamento burocrático de assuntos públicos e privados. por um grupo cujo poder de intervenção dificultava a relação directa com o monarca. Círculo de Leitores. o processamento destes casos acabava. mais tarde. exigindo regras e rigores discursivos indispensáveis à apreciação régia. 79-119. pp. estes delegados do poder régio foram sempre magistrados togados e nunca de capa e espada5. depois de procederem às indagações e inquirições necessárias. o Reino estava dividido em comarcas e provedorias que incluíam. E. Tanto para os processos documentalmente bem preparados como para os que precisavam de ser complementados com mais informação. ou seja. “O central. os corregedores e provedores constituíam magistraturas muito especiais uma vez que as suas funções se destinavam a cumprir ordens dos tribunais superiores. dentro das suas áreas jurisdicionais. em profissionais especializados que conferem pelas suas práticas um carácter institucional aos procedimentos administrativos. os assuntos particulares estavam dependentes das iniciativas tomadas pelos procuradores e advogados. Nesta medida. emitirem pareceres para submeter à Mesa do Desembargo do Paço. Enquanto os primeiros dispunham do mecanismo político e administrativo assegurado pelos serviços destes magistrados. a organização processual e o corpus documental constituíam. Para o efeito. ou a exercerem o poder em sua representação.

procurador do concelho. Universidade do Minho. I. 62. corregedor. destinadas a informar o ministro do que seria justo a bem do povo. tít.10. confrarias. zelar pelo ordenamento da floresta. etc. para uma visão de conjunto deste período a obra de G. fiscalizar os oficiais das sisas e fazer o seu lançamento na ausência dos juizes de fora. seria muito interessante termos estudos que nos permitissem reconstituir a actividade de um corregedor ao longo do seu mandato. autos de residência. tempos das aposentadorias. informações solicitadas pelo Desembargo do . Na câmara existia. 1989. Braga. I. das capelas. utilização de meios de transporte. fazer a eleição dos vereadores e almotacés. tomar posse dos bens da Coroa quando vagassem. dar conta dos crimes e mendigos. capítulo IV. particularmente. Fundacion Universitária Española. cit. albergarias e hospitais bem como o cumprimento das vontades dos testamentos e obras pias. op. entre outras tarefas ocasionais7. visitar os cárceres. 58. vereadores. um cartório onde se lançavam os provimentos dos corregedores. órfãos. 10 Estes estudos só serão possíveis através do cruzamento de fontes. A este propósito. examinar obras. 6 Sobre a carreira dos magistrados ver José Subtil. logo suprimidos por Carlos IV6. eram objecto de um auto assinado por todos os presentes. tinham de realizar um exame de acesso à carreira e fazer um tirocínio para obterem o encarte na correição o que só viria a acontecer no país vizinho durante o reinado de Carlos III. 1997. tít. proceder à cobrança da décima. também. liv. conhecer da imunidade da Igreja. momentos de trabalho com as vereações. ainda não é possível termos uma imagem clara sobre as efectivas funções e acções no terreno dos corregedores. O corregedor estava encarregue de tirar devassas. informar sobre as actividades dos juizes de fora e juizes ordinários que não cumpriam as leis e conhecer as apelações das sentenças dos juizes ordinários. escrivão. Desdevises du Dezert. actos das vereações. 7 Ver Ordenações Filipinas. 8 Idem. O provedor tinha a seu cargo o controlo e fiscalização dos cofres da comarca e provedoria. liv. Política de Corregedores. 9 Sobretudo com os trabalhos de José Viriato Capela em especial para este tema. receber queixas contra as autoridades locais. frequência das visitações por localidades e períodos. Tomavam conta das despesas e receitas dos concelhos e inspeccionavam as remessas para o Conselho da Fazenda8. Apesar do que hoje já se conhece sobre o corregimento9. As audiências gerais das câmaras. locais e formas de inquirição de testemunhos. nobreza e povo chamados a pregão e toque de sino.248 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Depois de diplomados.. Madrid. La España del Antiguo Regímen.

ou indirectamente. Merecem. aleatoriamente. a sua gestão. pautas eleitorais. avaliar em que medida o corregimento se limitava. Neste caso. o lançamento de segundas terças. O mesmo se dirá das apreciações que fizeram sobre as apelações dos juizes ordinários. os casos em que estas se dirigiam directamente ao tribunal. etc. Compulsando algumas destas situações. situadas no principal concelho. problemas das casas para aposentadoria. embora raros. por exemplo. indicia que existiam formas alternativas cujas razões e mecanismos ignoramos mas que podemos presumir tenham sido usados com recurso. sindicâncias. a este respeito. estado das estradas. à resolução de problemas suscitados pelos tribunais superiores forçando. Saber quais as câmaras que raramente acolhiam o corregedor e as formas usadas para receber os munícipes na sede do concelho ou obter informações sobre a vida social. dentro do possível. A fórmula a adoptar para estes estudos consistiria em delimitar no tempo os seus mandatos e correr a informação disponível nos tribunais superiores e nas câmaras de forma a estabelecer-se uma cronologia das suas actividades. as solicitações do centro. as reacções municipais aos pedidos régios para as agravar como. se outras variáveis (tempo.RELAÇÕES ENTRE O CENTRO E A PERIFERIA NO DISCURSO DO DESEMBARGADOR DO PAÇO 249 Desconhece-se. em grande parte. particular atenção as modalidades regionais utilizadas para os concelhos requererem sobras das terças e sisas destinadas a concertos e reparações de obras devido às despesas que implicavam ou. verifica-se que a grande maioria se reporta a grandes ou médios concelhos abaixo do Mondego. desempenhavam na vida profissional do corregedor. em contrapartida. através do Secretário de Estado dos Negócios do Reino. escrivães e meirinhos de apoio. económica e política. Mas se o Desembargo do Paço comunicava com as câmaras através dos corregedores e provedores. por exemplo. muito provavelmente. também. . E tão pouco estamos em condições de podermos comparar o desempenho destes cargos para concelhos de diferente dimensão e estatuto o que nos permitiria. etc. Ou se o planeamento anual da correição obedecia a algum calendário standard ao qual se acopulavam. De notar. ou não. inventário das presenças destes magistrados nas diversas corporações locais. desta forma.) influenciavam. a agenda dos corregedores. aos procuradores dos concelhos quando se deslocavam à Corte. as câmaras não esperariam pela reunião com o corregedor. a cartografia e cronologia das correições bem como o significado que as sedes das comarcas. os corregedores assinalam a data e a localidade em que se encontram e os autos indicam os funcionários ao serviço. Pode ser uma boa razão para se admitir que a relação com a centralidade polí- Paço e respostas às mesmas (ou de outros organismos centrais). que na maioria das contas que dão aos tribunais superiores. assim.

igualmente rara. Nobreza e Povo. o Desembargo do Paço envia os requerimentos para o corregedor ouvir a Câmara. o ganho de tempo podia ser grande uma vez que eram suprimidos os tempos de correio entre o corregedor e o tribunal. emblemático desta conformidade diz respeito ao pedido (24 de Novembro de 1788) formulado pelo poderoso e influente Intendente Geral da Polícia. que o Desembargo do Paço não modificou o seu modo de proceder relativamente às decisões sobre o poder local. regalias e direitos adquiridos de tal sorte que os despachos não contradissessem a ordem estabelecida ou a viessem perturbar. Temos. refere-se aos pareceres que os corregedores decidem remeter para o tribunal sobre matérias de governo camarário sem que a iniciativa tenha pertencido aos senados. nos casos que conhecemos. nunca se enraizariam nos procedimentos habituais do tribunal. Um exemplo limite e. exclusivamente com a opinião do magistrado. por isso. Não se verificam situações em que o tribunal despache.250 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS tica é. também. instruir o processo com as opiniões das partes envolvidas. fomentada pela proximidade territorial a Lisboa ou por facilidades de comunicação. com o argumento de possuir uma lavoura interessante tanto em “sementeira como em criação de Gados de Lãa. elegeu sempre o modelo jurisdicionalista como norteador das suas tomadas de decisão. sempre que tal se verificava. que pretendia aforar ou comprar umas terras em Arronches. Uma vez que a câmara . assim. isto é. Contudo. introduzindo tipos de relacionamento forçados por factores que não faziam parte das lógicas políticas do regime. instruções para as mesmas câmaras ou que as remeta por intermédio dos corregedores e/ou provedores. ser posta de lado na medida em que. Mas a hipótese de que tal expediente pudesse corresponder a uma forma expedita de relacionamento com o tribunal deve. por conseguinte. Também nestes casos. ou seja. indirectamente por intermédio da Secretaria de Estado dos Negócios do Reino ou directamente pelos procuradores dos concelhos) e a consequente instrução processual mantiveram-se inalteráveis até ao final do Antigo Regime e a extinção do Desembargo do Paço (1833). de imediato. compostas pela herdade de Tagarrães e o baldio de Lopo da Mouta. e Cabelo”. desembargador do tribunal do Desembargo do Paço e Conselheiro de Sua Majestade. o princípio de que todas as partes se deviam pronunciar para aferir dos privilégios. Por outro lado. Diogo Inácio Pina Manique. Estas três formas de relacionamento entre o tribunal e o poder local (apenas através do corregedor. Outra situação. o tribunal dá instruções para o corregedor ouvir sobre a matéria todos os interessados não decidindo. com a excepção para outras modalidades de comunicação que emergiriam após o consulado pombalino mas com outros contornos políticos como adiante se verá. porém.

de determinação de resultados e garante da não arbitrariedade política. desde logo. sobretudo. Ministério do Reino. No mínimo. os do território onde se encontrava ou se presumisse que iria estar. própria de um certo poder indisponível à 11 IAN/TT. ao alimentar com este modelo um conjunto numeroso de oficiais e profissionais encarregues da redacção dos textos e traslados. embora se saiba que ficou retida na Secretaria de Estado dos Negócios do Reino. o que afirmava não ter acontecido com os anteriores rendeiros. dos circuitos e a escolha dos actores. no âmbito do corregimento. cotava o tribunal como um lugar de escolhas. Este tipo de comunicação entre a Coroa e a periferia. pode dizer-se que este género de expediente era tudo menos económico. inculcava em todos estes actores fórmulas universais e disciplinas processuais que contribuíam para a aceitação de uma linguagem especial. No que respeita aos particulares. . o uso. ao repetir os actos e a homogeneizar as decisões. previsíveis. o desembargador pretendia “aumentar a sua Lavoura. desconhecendo-se as razões que a impediram. de certo modo. A gestão do tempo. significa que do cálculo dos peticionários não constava este tipo de procedimentos nem os mesmos se configuravam. o facto do expediente não ser canalizado pelo corregedor que. e as criaçoens dos seus Gados” que. Na lógica dos nossos procedimentos seria óbvio que nos casos em que o corregedor pudesse recepcionar as petições.RELAÇÕES ENTRE O CENTRO E A PERIFERIA NO DISCURSO DO DESEMBARGADOR DO PAÇO 251 tinha vindo a arrendar essas herdades. Neste sentido. portanto. também “interessa ao Estado”. maço 340. retirasse as informações que da praxe eram exigidas e remetesse para o tribunal o processo já instruído para ser ultimado. fundamentava o acto jurisdicional. se tivermos em conta que durante a correição podia recolher os mesmos. tanto pelo tempo que acabava por demorar como pelos custos que implicava. mesmo que fossem. no seu entender. Digamos que o modelo. Nobreza e Povo para se conhecer a verdadeira justiça e não poder vir a ser sujeita aos embargos de obrepção e subrepção de outros interessados ou lesados11. pelo menos. por parte dos peticionários. de procuradores das partes para levar os requerimentos à Corte parece significar que o papel do corregedor é. O requerimento deu entrada directamente no tribunal mas a Mesa deliberou que não podia tomar qualquer decisão sem ser ouvida a Câmara. aliás o podia fazer. A decisão final acabou por não ser tomada. ganhava com o expediente uma certa centralidade que não podia assumir se aligeirasse os procedimentos. instrumental do tribunal e que a Corte. ao contrário do que pudesse parecer. ao repetir-se.

nem factos. desde logo. ao recorreram aos que as tinham. por um lado. ficaria sempre sujeito ao embargo das suas decisões o que de todo era de evitar pelas consequências que acarretava. Em contrapartida. A estratégia de dominação do centro sobre a periferia residiu. para nós que hoje somos movidos pela economia das acções. De facto. também. tantas repetições de procedimentos. e nos poderes jurisdicionais delegados ou normativos. Deste modo existe uma enorme desproporção entre o aparato discursivo dos actos administrativos e a dimensão da acção política. arbitrariedade ou estratégias de surpresa. deliberadamente ou não. assim e sobretudo. a jusante ou a montante. Por isso. essencialmente. tal era o fundamento e a promessa do modelo jurisdicionalista que o Desembargo do Paço garantia como instituição central do sistema. a razão de ser de todos estes oficiais que não tinham interesse algum em o destruir dado que no conhecimento que possuíam destas tecnologias residia. Digamos que o tribunal age. o seu estatuto político e social. ficando reservado aos oficiais régios. a eficácia dos actos administrativos e de governo dependiam desta disciplina dos textos e da sua organização e nunca da excelência dos argumentos ou da exuberância literária como acontecerá a partir do pombalismo. se investisse demasiado em actos de duvidosa consequência prática. . o poder que exigia a formatação dos discursos adequados era. nada fazia supor para o governo das câmaras que o tribunal tivesse uma estratégia de ocasião ou objectivos obscuros na apreciação que fazia dos processos. reage sempre a acontecimentos ou factos e não cria. que permitiam o autogoverno dos senados. de facto. tanto legitimavam as suas autoridades como reconheciam que ao usá-las podiam aceder ao sistema de legitimação política. pelo facto do tribunal não ter por hábito remeter ordens sobre o governo das câmaras ou tomar iniciativas políticas. nem acontecimentos. pela via passiva. na regularidade discursiva e na constituição de corpus documentais.252 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS extravagância. ou seja. pela habilidade retórica para a construção de verdades. neste período. A consolidação deste estilo de governo. fundada na previsibilidade dos textos e procedimentos. Nestas circunstâncias. de uma forma global. os despojados destas competências. pelo ganho da celeridade e da eficácia. Limitar o poder do rei e limitar o poder das câmaras. se fizessem tantas coisas da mesma forma. Mesmo que o viesse a fazer. Desta forma. é atestada. por sua vez. por outro. achamos incompreensível e estranho que. assegurar o prosseguimento desses princípios. a suspensão da mesma.

pp. É certo.) Com o aparecimento da imprensa. Ensaios de História Cultural (séculos XV-XVIII). o manuscrito implicava um ditado feito pelos magistrados ou escrivães. o prestígio simbólico do manuscrito terá resultado da singularidade do documento enquanto objecto único para. 1982. sobretudo. e implica o definitivo desaparecimento do carácter “sagrado” da escrita”13. nomeadamente quanto à dominância de certos padrões e tipologias documentais. na formulação dos enunciados e na utilização da retórica14. Firenze. 32).RELAÇÕES ENTRE O CENTRO E A PERIFERIA NO DISCURSO DO DESEMBARGADOR DO PAÇO 253 O discurso manuscrito12 Se compulsarmos o discurso produzido pelo tribunal onde se materializavam os seus actos. sobretudo. os grupos profissionais que tinham o domínio da escrita favoreciam. repetidamen- 12 Sou aqui. pelo contrário. 1969.. 14 Sobre o mundo jurídico não letrado ver António Manuel Hespanha. Desta forma inculca-se a ideia de que as competências linguísticas. Gallimard. que sendo a época dominada por uma cultura oral e exigindo o acto administrativo uma cultura escrita. com L’ archéologie du savoir. 13 Ana Isabel Buescu. consagrar o monopólio das produções discursivas por uma elite e evitar. particularmente. facilitava os actos administrativos. ao vulgarizá-lo. Este facto mostra que a imprensa não terá assumido um papel inovador nos actos administrativos do tribunal e. procede a uma análise sobre a cultura impressa e manuscrita durante a época moderna onde acentua. evidentemente. verificamos que uma das constantes que impregna a actividade burocrática diz respeito à permanência da cultura manuscrita que cobria todos os momentos processuais e de expediente. individualizada. Diritto e Potere nella Storia Europeia. . a elitização dos letrados na medida em que se tornavam elementos decisivos na manutenção das condições de produção discursiva. 806-822. ela integra um carácter sacrificial e um significado transcendente (. E como. Só para o final do século XVIII começaram a surgir documentos impressos que correspondem a um novo entendimento da produção documental. afirma Ana Buescu a “Escrita manual. Por outro lado. influenciado por Michel Foucault. também. Paris. também. “Les magistratures populaires dans l’organisation judiciaire d’Ancien Regime au Portugal”. promovendo uma tecnologia de dominação que privatizava o conhecimento o que não acontecia com o documento impresso que. justamente. por isso. referências a conceitos e fórmulas. Cosmos. Lisboa. em Memória e Poder. 2000. por vezes criadora. a dominância do manuscrito sobre o impresso (transcrição p. a revolução tecnológica constituída pela criação dos caracteres metálicos permite a fixação das normas linguísticas e ao aparecimento de gramáticas e tratados ortográficos. a banalização das mesmas..

Ao longo do século XVII. ser interrompidos nem vistos enquanto trabalhavam. garantindo uma certa permanência física dos trabalhos que começavam cedo e terminavam cedo. Para evitar intimidades estavam proibidos de prover ofícios ou serventias nos tribunais em criados ou parentes até ao quarto grau. também. ou declarações. não podendo trazer capa sobre a beca15. depois da publicação das Ordenações Filipinas. gorra ou carapuça”. por isso. as portas dos gabinetes eram fechadas e mesmo os escrivães só podiam entrar desde que chamados pelo toque das campainhas. portanto. as insígnias e as composturas deviam contribuir. não podiam acumular com outras funções dentro do tribunal. fundamentalmente. estarem proibidos de frequentar casas de jogos. Não podiam. não poderem morar fora da cidade. pareceres e deliberações (tenções). obrigados a fazer os despachos. não tomarem afilhados de género algum.254 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS te inscritos nos discursos eram. igualmente. uma competência com carácter “sagrado” a que até o próprio monarca ficava submetido. por exemplo. nem ter casa 15 Algumas destas disposições estão já consagradas no Alvará de 30 de Junho de 1652. também. os desembargadores do Paço obedeciam a um ritual apertado e cerimonioso no exercício das suas funções quando estavam reunidos para despacho. . uma ordem final que regulava o certo e o errado. As providências sobre os trajes. Na presença do rei. também. deveres e direitos dos desembargadores. Por isso. serem obrigados a fazerem-se acompanhar da mulher e dos filhos. Ao mesmo tempo. só poderem fazer visitas uns aos outros. Na altura dos votos. o domínio que o governo dos togados detinha para produzir taxonomias na apreciação de processos já examinados estabelecia. eram obrigados a cobrir as cabeças em sinal de recolhimento e meditação. Como. Um saber recheado de qualidades indisponíveis à maioria. O acto que realizava e definia estas classificações era. Quando começavam a trabalhar. desde as sete horas de Verão e oito de Inverno até ao final da manhã. Estavam. a legislação vai continuando a dar conta de algumas virtudes. para o “respeito que todos devem”. gerador de suspeitas de um saber quase misterioso exercido na inacessibilidade dos gabinetes ou em procedimentos ocultos. Por tudo isto. o rigor e a imparcialidade vertidas em textos cuja ordem do discurso era insuspeita pela ilustração das evidências conclusivas. no trabalho dos tribunais ou em quaisquer actos públicos deviam usar “togas talares descobertas. pelas suas próprias mãos como que transmitindo ao documento a originalidade irrefutável e inquestionável das suas autoridades e conhecimentos. tanto nas deslocações dentro do Reino como fora dele. como a prudência. a probidade.

um trabalho sobre textos.RELAÇÕES ENTRE O CENTRO E A PERIFERIA NO DISCURSO DO DESEMBARGADOR DO PAÇO 255 na cidade e a família fora. fazia depender a confiança política nestes magistrados num qualquer fiscal das suas actividades. muitos sem instrução para saberem ler e escrever. testemunhos falsos ou preponderância de pareceres. ou seja. o que é sempre referido são a falta de informação. ou. formação de comissões volantes para inspeccionarem as comarcas ou até a chamada ao tribunal de vereadores ou representantes da Nobreza. 16 Encontra-se referência a esta legislação em Joaquim Caetano Pereira e Sousa. ainda. Em conclusão. críticas ao Desembargo do Paço por parte das câmaras. Clero ou Povo para serem ouvidos ou confrontados com opiniões favoráveis ou desfavoráveis. com raridade. de certas passagens das Ordenações e dos Regimentos lidas pelo seu escrivão. Typographia Rollandiana. Imprensa da Universidade. muito raramente. o ritual das audiências das câmaras decorria em ambientes semelhantes e. abusos. Com alguma frequência. O Conselho não dispunha destes dispositivos nem. exclusivamente. Coimbra. os corregedores queixavam-se da falta de cerimonial dos senados e da rusticidade dos vereadores. sequer o imaginou como necessário e indispensável para velar pelo bom desempenho dos corregedores e. Quando encontramos. que a relação entre o Desembargo do Paço e a periferia foi uma relação fundada em realidades discursivas mediatizadas pelos corpus documentais produzidos pelos corregedores. por vezes. através dos documentos. a acção do Desembargo do Paço nunca se revestiu com carácter de indagação sobre a realidade política local com recurso a procedimentos de observação directa por parte dos desembargadores. em Manoel Fernandes Thomaz. . em voz alta. continuando a observar os acontecimentos. exclusivamente. Em circunstância alguma podiam ser presos. e Practico. os magistrados régios obrigavam os vereadores e os procuradores a escutar a leitura. Repertório Gera. regra geral. Theoretico. Por isso mesmo. uma forma de trabalho que se destinava a formar uma opinião meditada acerca das coisas sobre as quais os textos não se deviam equivocar. nem mesmo através de artifícios indirectos como podiam ser visitações às câmaras. Lisboa. Esboço de hum Diccionario Jurídico. em altura alguma. a este respeito. o tribunal tomava a iniciativa de solicitar novas informações referindo os reparos que foram feitos. Embora em menor escala. E nestes casos. suspensos ou despedidos sem expressa autorização régia. Estavam isentos das responsabilidades recorrentes de sentenças injustas e não podiam dar consulta sobre mercês a parentes até ao quarto grau16. ou Índice Alphabetico das Leis Extravagantes. podemos dizer. 1825. 1843. E todo este trabalho realizado no Desembargo do Paço era. etc.

João Ferreira. A formulação dos novos enunciados discursivos deixava. 199 . miseráveis povoaçoens. também. o governo das câmaras estava confinado a uma corte provinciana e local cujas lógicas emparedavam os limites da autoridade régia e controlavam os efeitos de qualquer estratégia que pretendesse invadir a soberania que detinham sobre os seus territórios. os novos fundamentos ideológicos e políticos da segunda metade do século XVIII acabariam por interromper a influência absoluta dos teólogos e juristas da tradição do período do ius commune e atribuir o papel principal de governo aos políticos que se esforçavam por produzir modelos racionais de compreensão do social. com muito sacrifício. até oito testemunhas”. Esta libertação da natureza e do social em relação ao divino produziu a possibilidade de o pensamento social se poder constituir como pensa- 17 Relato do corregedor de Portalegre (IAN/TT. Desembargo do Paço. IV. pp. campo de manobra política para a acção dos corregedores. cada vez com maior detalhe e expressão regional. “tinha servido de Vereador. apezar de haver pouco que deixou de guardar cabras. maço 800. dotado de vontade e de razão. Ao contrário do complexo conhecimento das coisas “divinas” e “humanas” que pedia um governo com prudência e justiça para assegurar uma ordem capaz de cumprir o desígnio transcendental. História de Portugal. Círculo de Leitores. que tem o titulo de Villa”. . naturais e indisponíveis à interpretação arbitrária da razão humana. “A representação da sociedaded e do Poder”. 121-156. tendencialmente. de se legitimar em princípios que transcendiam a vontade dos homens. o modelo de representação social fundado no indivíduo. Este relato do corregedor de Portalegre expressa a imagem. sendo que o último. juntar “sete. E é verdade. apesar de outros dois candidatos terem tido mais votos17. 18 Ver síntese sobre os contornos dos modelos de representação em Ângela Barreto Xavier e António Manuel Hespanha. com regras e leis de governação. 5). passava a admitir a autonomia dos homens para se governarem. por esta via. na altura em que se procede à devassa da correição consegue-se. efectivamente. vol. Lisboa. doc. e que o mesmo he irmão do actual vereador Leonardo Ferreira”. Todavia. que o quadro doutrinário não vocacionava os corregedores para procedimentos que tivessem em vista desestruturar estas realidades18. e. global da situação que se vivia na maior parte dos concelhos e que retirava. Os vereadores normalmente acabam em juízes. repartição do Alentejo e Algarve.256 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS A nova centralidade pombalina Vila Flor que “he huma das mais piquenas. Como tem vindo a ser conhecido.

os poderes locais tendem a autonomizar-se enquanto que. Do ponto de vista social. a este respeito. pelo menos. em contrapartida. Curioso que. Como. o Erário Régio e as novas secretarias de estado que elegeram para os seus programas políticos a usurpação funcional dos poderes corporativos. construção de estradas. iremos assistir a abertura de conflitos entre o tribunal e outros organismos criados na matriz política como sejam. a mudança preconizada. imaginada por alguns magistrados tradicionais que recorreram para o Desembargo do Paço dispostos a distinguir pela positiva as vantagens . medido por resultados práticos. aliás. encanamento dos rios e melhoramento dos portos. a reforma das vias de comunicação permitiria maior rapidez na comunicação. à oportunidade das suas missões e ao bom desempenho dos cargos. construir e não conformar. Contudo. acabaria por ser. a lógica da figura do intendente. A razão passava agora a ser invocada para criar. precisavam. permitir o movimento de pessoas e bens. apresentação de inquéritos e relatórios capazes de mapearem e cartografarem os problemas da governação. ou seja. no inverso. também. por exemplo. também. também. o modelo dominante continuou a ser o da legitimação pela tradição pelo que. doravante. na segunda metade do século XVIII. criar doutrina sobre a ordem social mais adequada. evidentemente. os oficiais régios podiam aumentar as possibilidades da sua presença física directa impondo. nesta medida. de mais autoridade sobre as câmaras e os magistrados locais para poderem dar sentido político efectivo às suas presenças. E esta foi. a Intendência Geral da Polícia. alterando os condicionalismos da imobilidade onde se fundavam as particularidades locais para. o domínio da observação sobre o do relato. concomitantemente. o melhoramento dos meios de comunicação tinha em vista.RELAÇÕES ENTRE O CENTRO E A PERIFERIA NO DISCURSO DO DESEMBARGADOR DO PAÇO 257 mento político autónomo e. A razão de tudo isto é. o modelo de grande mobilidade aumenta o domínio do território por parte dos agentes do poder central que tenderão a diminuir a autonomia dos poderes locais. mais e mais rapidamente. também. conservar. embora claramente sedutora para os políticos. efectivamente. manifesta porquanto numa situação em que a mobilidade política e social é de baixa intensidade. ver mais e ler menos. Um dos tópicos mais emblemáticos desta mudança de perspectiva é o continuado apelo às reformas dos meios de comunicação. aceleração na tomada de informações. Estes pressupostos significam. que os novos agentes do poder central. Do ponto de vista dos poderes centrais. criarem um dinamismo na governação e racionalização dos espaços e territórios. ao deslocaram-se. oficial encarregue de uma determinada área de governação com jurisdição plena mas disponível à vontade do príncipe.

comparando-a. onde não chegasse a dita imposição era igualmente do expediente desta Meza”. acusando os poderes camários “Vista a tristíssima experiência de que os officiaes das Cameras já mais olhavam para obra alguma pública. para além de ser marcada pelo entusiasmo nos novos ventos de mudança uma vez que não se eximia a dizer que a “Ovra do efeito que tinham produzido as Superintências particulares em cada objecto.. por exemplo. não só da sua provedoria mas das que se encontravam contíguas. como sejam o dos juízes de vintena. promovia o Bem dos seus Vassalos” defender que era “Princípio certo que o Comércio interior do Reino era. que tais proposições “Concorriam igualmente ao bem do Estado na exportação e importação” o que não se verificava na comarca de Torres Vedras que “Estava ao abandono da sua Policia”. ao tombo das que existiam. se as Estradas se achavam praticáveis (. maço n.º 340). que se permitiu. e que quanto ao Suprimento dos sobejos das Sizas. . Ministério do Reino. E afirmava.. Evidentemente que a proposta do provedor colocava um problema sério ao Desembargo do Paço que tinha a ver com a criação de um superintendente particular com poderes para intervir na esfera tradicional das competências das câmaras e dos corregedores. e senão. porém. no seu entender. Não deixando. M. E assimilava o efeito da mobilidade do comércio ao da virtude de um poder regional superior ao dos próprios corregedores. quem felicitava os Povos. Manuel Inácio da Mota e Silva19. mostrava a necesidade de se adoptarem. a importância dos pequenos poderes na relação com a autoridade do intendente. talvez porque cada hum de per si não adquiria a gloria de ser util ao público. confundindo-se esta no concurso de todo o Corpo”. atendendo ao “Grande Espírito com que V. É o caso. Na sua proposta reconhecia. o provedor encontrou como justificação para as suas ideias o facto destas “Providências parecia serem todas do Expediente desta Meza porque todas erão da Economia dos Povos. com a ineficácia do corregimento. inclusive.258 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS desta nova administração. Chega mesmo a apresentar um plano para a construção e conservação das estradas a cargo de uma superintendência que procedesse. de ser um magistrado do Desembargo do Paço. e sobre que a Camera podia fazer Postura guardada a forma da Ordenação do Reyno: Que isto pelo que respeitava a imposição sobre os carros. que olhassemos para o Reyno cheyo de Cameras e de Corregidores e que vissemos. igualmente.) Que todo o 19 6 de Novembro de 1787 (IAN/TT. curiosamente. do provedor de Torres Vedras. e quem augmentva o Real Erário” pelo que. ainda. era necessário separar a sua jurisdição de uma intendência que reformasse as estradas.

A conclusão a retirar deste processo é. sem dúvida. que julgasse a propósito Que elle não avançava a que se tirasse às Cameras a economia que a ley lhe dava. Uma só cabeça. Escusado será dizer que o Procurador da Coroa foi contra esta fantasia do provedor ao dizer que as Ordenações já regulavam estes assuntos na competência das câmaras e dos corregedores acabando. devia ser tratado com muita Política prudencial. “Governo e Administração”. foi dando ordens aos corregedores e provedores sem informar o Desembargo do Paço passando. o provedor defendia uma política de centralização administrativa a nível regional e o arbítrio do superintendente para administrar com total liberdade. só remedios extraordinarios lhe convilhão” (o sublinhado é nosso). mas que no estado apoletico. entre os mais importantes. dias conturbados durante a implantação do liberalismo. Lisboa. a disponibilidade para que o espaço administrativo. vol. Lexicultura. em que estavao as Estradas do Reyno.RELAÇÕES ENTRE O CENTRO E A PERIFERIA NO DISCURSO DO DESEMBARGADOR DO PAÇO 259 Objecto grande e público. após a extinção do tribunal. também. VII. entretanto criados. não fez seguir a consulta para despacho régio. a de que o tribunal estava claramente contra a corrente do centralismo pombalino que advogava que a relação entre território e jurisdição. pela técnica de esvaziamento funcional 20 Ver síntese deste modelo em José Subtil. a assenhorear-se da tramitação burocrática do próprio tribunal com o monarca. claro está. em que se necessitava do Socorro dos Povos. neste novo figurino e expediente político. o Erário Régio (22 de Dezembro de 1761) e a Intendência Geral da Polícia (25 de Julho de 1760). História de Portugal. a aliança do tribunal e das câmaras contra estes novos funcionários mostrou a lenta agonia do modelo de liberalidade nas relações entre o centro e a periferia que teria. particularmente. estava criada uma outra administração que coabitaria com a do modelo tradicional em evidente ponto de ruptura. E. A partir de então. Com o apoio de outros organismos. como que desautorizando o tribunal. mas que por hua só cabeça e que ella estabelleceria os braços. como se depreendeu. a nível central como. sobretudo. em crescendo. . por o Desembargo do Paço concordar com o parecer e não atender às súplicas do seu provedor. 199-234. não coincida com as comunidades e com os limites dos poderes instalados teria que ser marcada pela implantação no terreno dos intendentes e superintendes com obediência directa às secretarias de estado e não ao Desembargo do Paço20. 2002. o pólo de coordenação da nova centralidade para com as câmaras deslocou-se para a Secretaria de Estado dos Negócios do Reino que. pp. Mas a Secretaria de Estado dos Negócios do Reino. A estratégia de consumação dos poderes tradicionais passaria. isto é.

demarcação das comarcas (1790)22. ainda mais longe. os corregedores e os provedores. por esta via. Nobreza e Povo deviam ser manifestas quanto às decisões tomadas para não se pôr em causa a justiça e o bem público. um papel determinante na organização e composição destas unidades. As respostas do tribunal à actuação destes magistrados obedeceu. o poder das câmaras mas. a que assegurou a comunicação política entre a Corte e o Reino. Separando a acção destes magistrados no terreno da que estabeleciam com o Desembargo do Paço e referindo-nos. ainda mais. 21 Para uma síntese da reforma do governo pombalino ver José Subtil . criação do Superintendente Geral das Estradas (1791) e incorporação do Correio-Mor na Coroa (1797). Lisboa. Actas do colóquio O Século XVIII e o Marquês de Pombal. o tribunal e os seus os corregedores e/provedores tenderam a moderar. consultadas.260 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS do Desembargo do Paço e pelo afrontamento político. desempenhou. regra geral. O discurso do Desembargo do Paço expressa e assinala. 2001. mediatizavam a relação com o tribunal por intermédio do poder camarário que. com a regulação das jurisdições dos donatários. Conclusão Durante o Antigo Regime. também a proteger e a valorizar as suas opiniões quando eram. praticamente. como freguesias e paróquias. essencialmente. pp. câmaras de Pombal e Oeiras. Estampa. a nível local. a relação do Desembargo do Paço com a periferia resumiu-se. 1998. por um lado. exclusivamente. . de um modo geral. podemos dizer que. As unidades orgânicas mais pequenas. apenas. para o efeito. durante o período neo-pombalino liderado por José de Seabra da Silva (1784-1799). O Modelo Espacial do estado Moderno. a esta última. as alterações das relações entre a Corte e a periferia foram.101-112 22 Sobre o disposto nestas reformas e as suas consequências na alteração do mapa político do Reino. amiudadamente. que as audições da Câmara. Destas reformas resultaria. “A Reforma do Governo e da Administração (1750-1777)”. aos senados das câmaras através das magistraturas dos corregedores e provedores e foi. em informações escritas preparadas pelos mesmos. aos seus pareceres e fundou-se. a abolição das ouvidorias. a perda da influência do Desembargo do Paço na comunicação política com as câmaras. Já no final do Antigo Regime. ver Ana Cristina da Silva. As câmaras perceberam tanto o rodeio destas inovações como a intromissão da secretaria de estado nas suas jurisdições privativas21. por outro lado.

outra activa) que concorrerem em conflitualidade pelo monopólio do poder. especialmente. por isso. veio colocar problemas à autoridade do Desembargo do Paço. das suas alterações. O surgimento de novos oficiais com competências para exercerem funções em áreas regionais que cobriam territórios de diversos concelhos e comarcas bem como o controlo da centralidade na comunicação com as comarcas e concelhos pelo Erário Régio. o constrangimento do poder local. a manutenção dos privilégios e regalias consolidadas ou que. O tribunal sentiu a mudança e a perda de autoridade mas não mudou. os poderes locais foram confrontados com duas centralidades (uma passiva. ao tribunal interessava-lhe. . pela Secretaria de Estado dos Negócios do Reino. a importância que revestiu para o tribunal a nomeação e o controlo das suas carreiras de forma a garantir que os seus serviços promovessem a paz e evitassem a discórdia. não resultassem prejuízos graves para a ordem estabelecida. o papel desempenhado pelos mesmos magistrados no domínio comarcal onde tinham de agir para resolver abusos da administração municipal como sugerem muito dos capítulos das correições já estudados.RELAÇÕES ENTRE O CENTRO E A PERIFERIA NO DISCURSO DO DESEMBARGADOR DO PAÇO 261 Outro terá sido. liberdade para governarem e mais território para intervirem. Afinal todos esperavam ganhar com este expediente ou. a partir de meados do século XVIII. Entre esses problemas é de salientar a alteração das regras de intervenção política que passaram a considerar. o rumo tradicionalista pelo que. bem referenciada e assumida. até à sua extinção (1833). Estavam em causa outros problemas. pelo menos. embora com outros contornos. A produção e reprodução dos mecanismos de dominação do centro à periferia consistiu. sobretudo. no essencial. porém. regularidades discursivas e habitus burocráticos que promovessem o direito como tecnologia de decisão. Ou seja. foi a da criação de condições para uma maior mobilidade dos agentes de poder régio. uma das quais. pela geração liberal. Intendência Geral da Polícia e. A questão do efectivo controlo da periferia pelo centro viria a ser assumida. em assegurar tipologias. não perderem. outras estratégias e outras tecnologias de dominação que passaram por várias inovações. Compreende-se. como fundamental. novamente. Mas estas actividades não enchem a documentação que chega ao tribunal. sobretudo.

. procurando reflectir as comunicações e as discussões. Agradeço à organização do encontro o ter-me prontamente facultado as gravações das sessões. 263-274. Sociologia Histórica) Antes de mais.Balanço final: Questões para uma sociologia histórica das instituições municipais1 RUI SANTOS (Univ. também mais reflexão sobre o que ficou por fazer ao longo deste percurso. no essencial. pesem embora incursões pontuais lançadas a partir de investigações centradas em outros domínios. Edições Colibri – CIDEHUS-UE. Se nos reportarmos ao encontro que teve lugar há uma dúzia de anos. que muito facilitaram o êxito desta iniciativa. mas também. pelo que não incorpora eventuais modificações entretanto introduzidas nas versões escritas. pp. gostaria de começar por agradecer ao CIDEHUS. sobre a necessidade de corrigir enviesamentos dos resultados obtidos. também do ponto de vista académico. dificilmente este balanço poderia ser uma síntese competente da rica diversidade de informações e de pistas de trabalho deixadas pelas comunicações e pelos debates que tiveram lugar. Por isso mesmo. em termos de orientações analíticas. Nova de Lisboa – FCSH – Dept. em Reguengos de Monsaraz. tal como decorreram oralmente. Os Municípios no Portugal Moderno: dos forais manuelinos às reformas liberais Lisboa. Não sendo especialista na matéria. bem como a eficaz organização e o excelente acolhimento facultado aos participantes. há muito mais pensamento e análise. procurarei extrair e discutir os pon1 Este texto desenvolve. 2005. Sociologia / Instit. podemos hoje verificar um enorme contraste que denota uma grande progressão e um amadurecimento desta área temática. à Câmara Municipal e à Biblioteca Municipal de Montemor-o-Novo o convite para participar neste encontro. o que é ainda mais importante. de diversidade de assuntos. mas também de maturação dos temas. sobre novos problemas e novas hipóteses de resposta. sobre poderes centrais e poderes periféricos numa perspectiva histórica. a comunicação de encerramento apresentada no encontro. Há muito mais estudos. Em vez disso. Foi elaborado sem conhecimento dos textos finais dos restantes autores.

. e pensar mais em termos de contrastes e de mudanças.264 OS MUNICÍPIOS NO PORTIUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS tos que me parecem especialmente interessantes para a definição actual de problemáticas de investigação sobre o tema. sobre os pequenos municípios rurais. fá-lo-ei a partir de uma perspectiva. de comparabilidade e portanto de síntese e generalização. Espero assim dar um contributo para a clarificação e o debate das muitas e interessantes questões levantadas no encontro. a minha. Abordarei consecutivamente três aspectos: primeiro. o que me pareceu terem sido os pontos principais de ruptura e debate manifestos. destacou-se a necessidade de um alargamento da representatividade territorial. e têm-se generalizado para os séculos XVI e XVII imagens centradas no século XVIII. ancorada na sociologia histórica e como tal privilegiando a análise comparativa das configurações e das instituições sociais. apesar de o considerar imprescindível numa agenda de investigação sobre as instituições municipais e as suas práticas no contexto do antigo regime. especialmente no Continente. Foi sobejamente notada por vários intervenientes a carência de investigação sobre casos anteriores ao século XVIII. que padece de uma excessiva concentração nos grandes municípios. terceiro. Consensos Da perspectiva em que me coloco. da falta de estudos sobre os municípios de fronteira e de áreas interiores. mas também a necessidade de os projectar na longa duração. Em segundo lugar. Em primeiro lugar. São escassos os estudos longos. o que me pareceu ter ficado por tratar. segundo. e até da interferência de factores cientificamente espúrios. com vista a generalizações empírica e conceptualmente relevantes. bem como dos processos de reprodução e de mudança social. Inevitavelmente. como a influência da contiguidade das áreas estudadas às implantações universitárias detectada por Francisco Ribeiro da Silva. mas ao mesmo tempo do carácter pouco estruturado dessa acumulação que coloca problemas de representatividade. as omissões. embora práticos. sem ilusões de exaustividade nem de imparcialidade do ponto de vista adoptado. o alargamento também da representatividade cronológica. 1. o que me pareceu terem sido os grandes consensos emergentes das comunicações e das discussões. os consensos mais interessantes revelados por este encontro relacionam-se com o diagnóstico de uma acumulação de estudos de caso – veja-se o rico inventário apresentado por Francisco Ribeiro da Silva – que denota grandes ganhos de conhecimento. Seria necessário alargar os horizontes cronológicos para aferir melhor as continuidades e descontinuidades. e mesmo na fase final do antigo regime.

Mas é inegavelmente do maior interesse historiográfico e. como lembrou Teresa Fonseca. que José Subtil sublinhou. Em primeiro lugar. 265 não apenas de semelhanças – pese embora a estabilidade dos discursos jurídicos que moldavam as relações de poder no decurso do antigo regime. Terceiro alargamento de representatividade. o estudo da importância do funcionariado concelhio e do oficialato das ordenanças nas configurações efectivas de exercício do poder. alegações e contra-alegações. o quase vazio do nosso conhecimento sobre as funções judiciais de primeira instância das câmaras. infracções e sanções. para além das fontes peticionárias e dos recursos para segunda instância. onde conflitos. o alargamento da representatividade institucional. conterá provavelmente informação preciosa para este interrogatório. outra documentação largamente inexplorada.. mas talvez parcialmente superável pelo estudo sistemático dos seus rastos nos processos depositados nos tribunais de segunda instância. o da hierarquia burocrática e militar dos concelhos: concretamente. devido à transferência dessa documentação dos arquivos municipais para os tribunais durante as reformas liberais do sistema judicial.. Um quarto alargamento de representatividade identificado foi a correcção do que poderíamos chamar o enviesamento sociológico salientado por José Viriato Capela. como apontou Nuno Monteiro. as próprias actas de vereação. em termos de exercício e de relação entre os poderes. ao menos em filigrana. se as perguntas de investigação forem bem colocadas. por exemplo) não revelam bem a capacidade de resistência das populações nas suas práticas quotidianas? Mas também. seleccionados e arquivados com que construímos as fontes. Finalmente. dos fluxos da periferia para o centro e da influência . Dadas as assimetrias sociais dos actos discursivos escritos ou transcritos. por vezes com surpreendente pormenor. é uma perspectiva que mais facilmente suscita interrogações do que respostas. como os livros de coimas. Será necessária uma melhor caracterização. por outro lado. e nas oportunidades de acesso a status sociais conferidos por essas hierarquias enquanto vias de mobilidade ascendente para elites subalternas. nomeadamente a carência de estudos sobre as instituições do ponto de vista dos administrados. As posturas camarárias repetindo ad nauseam durante décadas a proibição desta ou daquela prática (como a de criar porcos pelas ruas da cidade. da resistência e do conflito – a que acrescentaria a anuência e a conformidade.BALANÇO FINAL: QUESTÕES PARA UMA SOCIOLOGIA HISTÓRICA. que não fariam menos parte da vivência dos subordinados. existem corpos documentais nos próprios arquivos municipais onde alguma visibilidade pode ser recuperada. Desde logo. avanços e recuos nas decisões camarárias em confronto com os administrados ficaram frequentemente registados. os de licenças e os de fianças.

misericórdias como na comunicação de Laurinda Abreu e Rute Pardal) como de actores (juízes de vintena. as relações de colaboração. corregedores – e de outros poderes supra-municipais. Debates Em articulação com o último ponto de consenso inventariado na secção anterior. tendo sido salientado por Mafalda Soares da Cunha o panorama muito rarefeito. e os poderes locais. através da representação em cortes. Várias intervenções questionaram a acção dos agentes da Coroa – provedores. ou não. Uma segunda ordem de problemas tem a ver com as articulações entre a história das instituições e dos poderes locais e a história social. eventualmente parte de uma estratégia da Coroa para a consolidação da entidade política Reino. Foi ainda bastante sublinhada. por um lado. Tal oposição fundamenta-se nas tensões de poder pela decisão . como ressalta da comunicação de Fernanda Olival –. o Desembargo do Paço) e os agentes da Coroa. e para resumir.266 OS MUNICÍPIOS NO PORTIUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS dos municípios na política da Coroa. concorrência ou conflito entre os poderes concelhios e outros poderes locais. e o da coexistência e do conflito entre poderes municipais e senhoriais. como pólos de uma relação de concorrência. de instituições e de acção política de escala regional. Em geral. provedores e mesários das misericórdias). tanto ao nível de instituições (freguesias. como o Desembargo do Paço. todos remetendo para as configurações e a variabilidade das relações inter-institucionais e para os modos de as abordar teoricamente: o das relações entre instâncias de diferentes escalas institucionais. 2. sobre a esfera dos poderes municipais. podemos começar por reflectir em três problemas levantados para discussão nas intervenções. o da existência. partilha. a necessidade de serem mais consideradas unidades de análise infra-municipais e não-municipais. este último sugeriu como hipótese de trabalho a função dessa representação no tecer de uma consciência supra-local nos actores políticos locais. párocos. José Subtil questionou a oposição corrente entre as instituições centrais (nomeadamente. por outro. foi constatada a necessidade de analisar mais sistematicamente a articulação. as intendências e as secretarias de Estado. senhoriais e supra-locais. reciprocamente. Importante também se torna caracterizar e operar com a distinção institucional entre municípios de jurisdição régia e de jurisdição senhorial – incluindo a ambiguidade de que a este respeito parecem revestir-se os municípios das ordens militares sob a alçada da Coroa. em várias intervenções. em parte por problemas de fontes. dos estudos sobre municípios senhoriais nos séculos XVI e XVII. como notaram Francisco Ribeiro da Silva e Pedro Cardim.

BALANÇO FINAL: QUESTÕES PARA UMA SOCIOLOGIA HISTÓRICA. A mudança das relações centro-periferia em fins do antigo regime teria antes que ser entendida pela emergência. instigando ao estudo das intervenções e (des)articulações destes poderes. tanto locais como centrais. e pela crescente intromissão em torno desses novos objectos de agentes da Coroa externos à ordem tradicional e que escapavam à sua lógica discursiva (secretarias de Estado. estáveis e reciprocamente previsíveis. no quadro do discurso jurídico tradicional assente nas categorias de justiça e de graça. parece-me um problema especialmente estimulante para uma sociologia política do antigo regime – suspeito que o seu interesse poderá transcender muito a fase final daquele –.. em todo o caso intérpretes)? À parte esta dúvida teórico-metodológica. e minando a estrutura e os equilíbrios de poder do antigo regime.. o de perspectivar as relações entre poderes centrais e periféricos à luz das tensões institucionais . De acordo com esta perspectiva. 267 jurídica legítima entre poderes centrais e poderes periféricos. o económico e o financeiro) que escapavam à lógica do discurso jurídico tradicional inventando novos objectos. na arquitectura tradicional de poderes do Antigo Regime as várias instâncias eram organicamente complementares. primeira instância e instâncias de recurso. não sem levantar reservas o apelo à passagem de uma análise centrada nos actores para uma outra centrada nos discursos. de novos discursos (o administrativo. como conceptualizar um dispositivo institucional assente na execução e na apreciação de “actos linguísticos” procedendo à total elisão da autonomia. desde finais do século XVII. encobrindo e legitimando processos de decisão que decorrem de margens de liberdade dos actores. O problema fica em aberto. apenas interviria quando a ordem local era perturbada. e invoca mudanças da relação centro-periferia em finais do antigo regime por efeito de um reforço das instituições e dos actores políticos centrais. deslocando-o de uma lógica dos actores e das “vontades” – subjacente à noção de concorrência – para uma lógica dos discursos. De facto. Na sua comunicação. intendências). o autor propôs repor o problema a partir de um ângulo diferente. sobrepondo-se como diferentes camadas com lógicas de funcionamento próprias. não teria uma estratégia de intervenção sobre os poderes locais. assim. receptores. mas entre discursos e agentes tradicionais e “modernos” no próprio centro. Os discursos normativos podem ser apropriados como recursos da acção. relativa que seja. de uma tensão entre o centro e a periferia. como um dos vectores de uma crise do municipalismo. fiscalizadores e fiscalizados. dos actores (emissores. dos seus capitais sociais e culturais.. que anularia a acção voluntária sob um modelo decisório tradicional completamente formatado pelo discurso jurídico. pondo em causa as instituições tradicionais. etc. Não se trataria. o Desembargo do Paço. decerto variáveis em função das suas posições. nomeadamente.

funções e recursos nos grandes municípios que assim teriam acentuado o seu peso relativo e constituído pólos. e de empreendimentos de desenvolvimento regional envolvendo os recursos de múltiplos concelhos. duas definições teoricamente distintas: a região como recorte definido pela homogeneidade ou pela polarização (que implica heterogeneidade e dominação). Esse questionamento permitiria talvez equacionar melhor a questão. nomeadamente por efeito da legislação pombalina e mariana no sentido da concentração. ao menos “regionalizantes”. não só do ponto de vista institucional como também do social (pensemos nas eventuais relações entre mobilidade social e mobilidade geográfica. económicas e sociais tendiam por sua vez a criar fortes homogeneidades. Este questionamento apresenta as indiscutíveis virtudes de pôr na primeira linha do debate sobre o municípios os processos de mudança social e institucional de finais do antigo regime. José Viriato Capela contestou a tese do carácter a-regional ou mesmo anti-regional do município moderno. Salientou as dinâmicas políticas que favoreceram fortes homogeneidades regionais. referida pela mesma autora. levantada no debate por Margarida Sobral Neto. de facto. na detenção trans-municipal de propriedades ou de direitos. e elucidar. se não regionais. Resumindo. a homo- . variável capacidade de gestão dos fluxos económicos inter-concelhios). da hierarquização e da racionalização político-institucionais. as hierarquias inter-municipais na agenda da investigação sobre a história local poderá certamente trazer perspectivas de articulação em espaços mais amplos. apenas para dar alguns exemplos) e do económico (hierarquias de mercados. merecem mais reflexão algumas ambiguidades em torno da operacionalização do conceito de região. No plano das configurações espaciais. particularmente no século XVIII.268 OS MUNICÍPIOS NO PORTIUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS no centro. No entanto. cujos poderes e privilégios lhes confeririam verdadeiras tutelas sobre territórios cujas configurações físicas. numa lógica de acção política. Por um lado. nas redes familiares supra-municipais das gentes da governança. e de obrigar a transcender o quadro fortemente localizado e por assim dizer auto-contido de grande parte da historiografia municipal. Colocar mais decididamente as relações. da contextualização dos discursos iluministas anti-municipais que fundamentam a ideia de uma crise do municipalismo no final do século XVIII. a sua aparente contradição com o apoio dos oficiais da Coroa à acção anti-senhorial dos municípios na época pombalina. Parte dos argumentos aduzidos por José Viriato Capela referem-se. as funções. de forma não problematizada. estas tendências teriam levado a uma crise dos pequenos municípios – que seria a expressão fundamental da chamada crise do municipalismo – e a uma concentração de poderes. porque nesta discussão coexistem.

seja a diferenciação entre concelhos com juiz de fora e com juiz ordinário.BALANÇO FINAL: QUESTÕES PARA UMA SOCIOLOGIA HISTÓRICA. Por outro lado. Os poderes senhoriais. o da concorrência e conflito institucional. não correrá o risco de confundir. ou pouco interesse em interferir com a esfera de autonomia dos concelhos) e de controle funcional (os poderes senhoriais exerciam um controle político “moderador” sobre a actuação das câmaras. ou entre os municípios beneficiários e os envolventes contribuintes. e faziam-no em proveito próprio. seja a dotação de grandes municípios com sedes de instituições com importantes poderes supra-municipais (como no caso do Porto com a Real Companhia. tinham efectivo interesse e capacidade de colocar bloqueios e constrangimentos à autonomia das câmaras. no sentido da redução do arbítrio. corpos e mecanismos de poder ou de representação intermédios entre o município e o reino. diversamente. não deveria falar-se de um aumento da hierarquização. da manutenção do bem comum e do bom governo dos povos. ou de Coimbra com a Universidade. A exacção das rendas . Outra parte refere-se. e que seriam bem complementadas pela polarização mais estritamente económica do peso dos mercados das grandes cidades nas suas áreas de influência. ora as consequências de âmbito supra-municipal da implantação e da actuação dos grandes municípios. mais do que de um carácter regional daqueles? No que respeita à relação entre os poderes municipais e os poderes senhoriais. que realmente definiriam a escala regional no plano político? Se a crise dos municípios na segunda metade do século XVIII é sobretudo perceptível nos pequenos municípios. mas não beneficiários de obras promovidas pela Coroa. tipo ideal de algum modo subsidiário da ideia de domínio oligárquico dos municípios). Margarida Sobral Neto contrapôs aos tipos ideais que poderíamos denominar de domínio senhorial limitado (os poderes senhoriais tinham escassa capacidade. 269 geneidades territoriais criadoras de semelhanças sócio-institucionais. característica geopolítica que intersecta muitas outras de diferentes índoles). de resto nem sempre correlacionadas (como é o caso dos municípios de fronteira. sem dimensão nem recursos para desempenhar as funções que lhes foram atribuídas pelas reformas políticas.. em concorrência pelo exercício do poder. pela apropriação do território e dos recursos económicos.. ora as continuidades de características territoriais relativamente homogéneas. a hierarquias de poderes entre municípios. com a existência de identidades. a que poderíamos acrescentar Lisboa com a Corte e os seus privilégios de abastecimento). e sendo o problema do carácter regional ou a-regional dos municípios de natureza essencialmente política. Hierarquias que induziriam polarizações de dominação política do território. com acréscimo do peso relativo dos grandes municípios mas sem mudança da sua escala de acção institucional.

deixando de lado a sua tradução nas práticas sociais e políticas. dada a definição caberia mais falar de uma aristocracia. haverá aqui a distinguir. Como decorreu da discussão. Se não presumirmos que a relação entre normas e práticas sociais é transparente e imediata. ao passo que os privilégios jurisdicionais subvertiam a jurisdição camarária de primeira instância. que é em parte semântica e em parte substantiva. mais do que teoricamente contraditórios. dos melhores). a ver com a relação da história dos municípios e das instituições locais com os problemas e conceitos da história social. A segunda grande temática em debate tem. tanto territorial como conjuntural ou mesmo situacional. nomeadamente. da reprodução e da mobilidade sociais. em torno da caracterização dos grupos detentores do poderes locais como elites ou como oligarquias. mais genericamente. as intervenções no debate deram a entender que os três tipos ideais. esta posição enferma ela mesma de uma fragilidade teórica. como tem feito em escritos passados. que não eram especificamente senhoriais. então há que verificar “no terreno” não só a hipotética dominância do modo de governo oligárquico decorrente da pauta nor- . Encerrarei esta secção do texto com uma recapitulação crítica dessas propostas. ambos por Nuno Monteiro: a discussão. Passando por cima das questões de terminologia (na realidade. Dois temas foram levantados a este respeito. como disse. nem que as hierarquias adscritivas codificadas em normas são fixas e se aplicam exaustivamente nas situações e nos processos sociais – ambas premissas sociologicamente insustentáveis –. particularmente em torno da história social das elites e. e a proposta de transformação da análise predominantemente institucional dos municípios pela sua subsunção numa problemática da história social das elites locais. por isso. reflectem situações-tipo não generalizáveis e cuja variabilidade. devido ao carácter “natural” da governação oligárquica no quadro da cultura política do antigo regime: a governação era por definição uma responsabilidade dos maiores numa hierarquia de honra e nobreza. que a conceptualização em torno do conceito de oligarquia resulta tautológico e. quer a diversidade e o peso relativo dos direitos senhoriais exercidos pelas casas (por contraste com direitos de propriedade). teoricamente pouco profícuo. empobreciam os concelhos.270 OS MUNICÍPIOS NO PORTIUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS senhoriais e as isenções de coimas ou de taxas camarárias. tendo proliferado em fins do antigo regime entre um variado tipo de instituições. Na realidade. carece ela própria de investigação e de explicação comparativa. impedindo a capacidade de governação camarária e o desempenho das funções municipais na provisão de bens públicos. já que um tal carácter tautológico remete tão-só para a dimensão normativa da cultura política. Nuno Monteiro sustentou. da estratificação. quer a interferência de privilégios jurisdicionais como os de juízo privativo.

por seu turno. famílias. embora relacionados. dentro dos cânones de uma governação de tipo oligárquico. bem como as lutas em seu torno: em suma. creio que os dois conceitos recobrem campos de aplicação distintos. remetendo para a definição de grupos que ocupam o topo de múltiplas dimensões de diferenciação e de hierarquização de status. Deste ponto de vista. tal como aconteceu ao de aristocracia).. O conceito de oligarquia releva da teoria política. A questão que verdadeiramente interessa colocar é a de qual o valor analítico e hermenêutico de oligarquia e elite como conceitos de análise histórica e sociológica. Podendo ser usado com conotações normativas. pelos actores e pelos grupos (o que de resto me parece convergir com a sua segunda proposta. se diferenciam e reproduzem (ou não) o seu status. casas. no espaço e no tempo.BALANÇO FINAL: QUESTÕES PARA UMA SOCIOLOGIA HISTÓRICA. podendo por isso assumir conotações ideológicas por oposição a ideais de governação municipal democrática. mais ou menos correlacionadas entre si. cabendo talvez delimitar as circunstâncias em que será teoricamente preferível designá-los como processos de aristocratização. que retomarei abaixo). toma como unidades de análise entidades políticas e remete para um modo de governo e de exercício do poder. como as variações. e podem variar segundo as escalas de observação. cuja validade empírica no contexto do antigo regime é evidentemente muito discutível. etc. 271 mativa. verificar e explicar histórica e sociologicamente as apropriações e interpretações da pauta normativa pelas instituições.. As unidades de análise são aqui os grupos sociais e os indivíduos. O conceito de elite. Denota a restrição do status de governante aos maiores. no sentido de fechamento social da estrutura de oportunidades de acesso aos cargos de poder político (estreitamento social do grupo dos maiores legitimamente elegíveis. da distribuição social das oportunidades de acesso ao poder. é no entanto um conceito fundamentalmente descritivo. É na análise histórica de processos deste tipo que radica a associação dos conceitos de oligarquia e de oligarquização das instituições municipais às teses sobre a cristalização e o bloqueio da estrutura social do antigo regime. mais do que a designação de um grupo ou de um conjunto de grupos sociais (pese embora a vulgarização do seu uso neste último sentido. releva da teoria da estratificação social. pela imposição de parâmetros de diferenciação mais exclusivos e/ou redução das probabilidades de mobilidade para o seu interior). porventura mais livre de conotações ideológicas e de juízos de valor implícitos do que o de oligarquia (ou tão-só portador de ideologias e de valores . não sendo por isso teoricamente alternativos. e para a análise dos processos e mecanismos sociais pelos quais esses grupos se constituem. que os compõem. Mas se admitirmos que. então tem cabimento teórico a análise de processos de oligarquização. pode haver variações nas fronteiras sociais de acesso aos lugares de poder (na definição dos maiores).

numa duração multi-geracional. quando este é usado para designar o grupo detentor do poder e não a forma de governo. substitui-se a de uma estrutura de oportunidades estratificada. por isso. À imagem homogénea de uma oligarquia. à escala local. nem unidade analítica do ponto de vista processual. Mas o interesse inegável desta problematização não deve fazer esquecer o questionamento específico das realidades políticas e administrativas enquanto tais. O facto de esses processos poderem ser protagonizados. segundo o qual cada novo estudo sujeito a este “fetichismo” pouco acaba por acrescentar ao que já se sabia. O remédio . como meio de ultrapassar uma espécie de efeito ricardiano dos rendimentos marginais decrescentes. agregação de casos isolados. elegendo as casas ou famílias como unidades de análise. Dada a diversidade das dimensões de classificação social e dos grupos de referência relativamente aos quais os actores se posicionam.e. Mas isto não é contraditório com a noção de processo de oligarquização. apenas um ângulo analítico distinto e mais amplo. relativamente a fenómenos de estruturação social mais amplos. Se na realidade há rendimentos marginais decrescentes. por exemplo. na sua dimensão política e administrativa formal.272 OS MUNICÍPIOS NO PORTIUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS hoje mais consensuais?). onde. através do alargamento da perspectiva para uma história das elites locais. nem ainda potencialidade explicativa. distribuindo posições de destaque relativamente a diferentes grupos de referência. o conceito de elite tem sobre o de oligarquia. Seria. do que resulta uma deriva interessante e enriquecedora a partir de um interrogatório ancorado na história social. em favor da abordagem unilateral da sua função como instrumentos de mobilidade social (ou de defesa contra ela). Passando ao segundo tema. sem critérios de comparabilidade ou organizados em torno de categorias teoricamente pouco profícuas) e ao efeito contínuo e não corrigido das tendências de enviesamento identificadas acima. cargos que uma categoria social enjeita são definidores de uma posição de elite e de oportunidades de mobilidade social para outras categorias sociais (cf. a vantagem de obrigar a pluralizar.. por actores provenientes de diferentes categorias sociais não lhes retira. tal dever-se-á mais ao paradoxo já sugerido de uma “acumulação não cumulativa” (i. que lugar representavam as instituições locais – entre outros meios de mobilidade ou de defesa da posição social – nas metas e nas trajectórias sociais das elites locais. necessário reinventar a problemática. Nuno Monteiro propôs também uma descentração daquilo a que apelidou de “fetichismo” das instituições locais. Pergunta. nem validade comparativa numa análise das dinâmicas sociais e políticas. mas como disse acima. exemplos nas comunicações de Mafalda Soares da Cunha e de Teresa Fonseca). nesta escala de observação. não o substitui.

ou agendas. o que permitirá encerrar este balanço final numa nota de desafio. bem como os referentes espaciais e cronológicos que permitam transcender o âmbito local dos somatórios de conclusões e eventualmente reinterpretar o que já foi feito para trás.. a um conjunto de símbolos edificados. uma vila ou cidade. decerto em coexistência ou em concorrência com outras pertenças ou reivindicações identitárias. decerto o da mobilidade e da reprodução das elites –. 273 estará mais na negociação científica de uma agenda. Em primeiro lugar. por outro. Em segundo lugar. ou ficaram de todo omissos. . quando referidos. a um povo do concelho. de vias de circulação. mas sim no de espaço socialmente marcado e apropriado. a um nome. Omissões Num encontro muito marcado pela relação e pelas tensões entre as perspectivas institucional-política. foram flagrantes três ausências. Limitar-me-ei a inventariar brevemente essas omissões. investido de significado. a questão das instituições municipais como produtoras. ou. por um lado. e não como objectos específicos de estudo ou sequer de problematização.. os problemas – entre os quais. um termo. entretecido com instituições e com rotinas sociais. as dimensões e os indicadores. Trata-se de temas que se diria serem estruturantes e que. paisagem no sentido clássico da geografia humana. Actividades em que as instituições municipais detinham um papel fundamental. Pouco ou nada sabemos sobre o eventual exercício desse poder simbólico pelas instituições municipais e sobre a sua eficiência. quer directamente enquanto produtoras – de património edificado. o foram de forma lateral e incidental.BALANÇO FINAL: QUESTÕES PARA UMA SOCIOLOGIA HISTÓRICA. não procurarei aqui dar-lhes um desenvolvimento que resultaria marginal aos resultados substantivos que se verificaram. Não tendo sido objecto de reflexão no encontro. reprodutoras ou cristalizadoras de identidades sociais simbolicamente representadas por atributos de pertença: a um espaço geográfico. Refiro-me aqui a território.. não no sentido administrativo. a questão das actividades de produção e apropriação de território e de paisagem. território no sentido sociológico. funções de provisão de bens públicos que Margarida Sobral Neto brevemente mencionou na sua comunicação – quer enquanto reguladoras e fiscalizadoras. Não deveria ser esse o desafio a lançar por um evento que comecei por caracterizar como de amadurecimento da área temática? 3. edificado e funcionalmente diferenciado. os conceitos. e das hierarquias e mobilidades sociais. de investigação comparativa assentes em modelos analíticos explícitos que definam as lacunas. etc.

nas matrizes problemáticas que foram seminais deste campo de estudos. os preços e a circulação. O estudo das práticas económicas concretas na esfera local – a exemplo do trabalho empírico pormenorizado apresentado por Laurinda Abreu e Rute Pardal sobre uma outra instituição – é uma dimensão crucial da sociologia económica do antigo regime. mormente se pensarmos que foi em grande parte em torno dela que se definiu o discurso iluminista sobre as “vexações” aos povos e os entraves ao progresso alegadamente protagonizados pelos governos municipais. que. mas como instituições de enquadramento ou agentes activos nos mercados locais e regionais. nem essencialmente como legisladores. e redefinem conjunturalmente essa legitimidade. impostos e coimas. também por ser o tema que me interessa mais. Não exclusiva. creio que seria interessante. e provêem (ou sonegam) bens públicos. a questão das actividades de intervenção económica directa e de regulação económica das instituições municipais. sob formas e com pesos variáveis.274 OS MUNICÍPIOS NO PORTIUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Finalmente. Estando estas dimensões inscritas. que dentro dos seus territórios definem quais são os mercados. arrematam rendas. . enquanto jurisdições de primeira instância. sancionam direitos de propriedade. mas também interrogar reflexivamente os modos de fazer história que têm vindo a conduzir à sua perda. que através das concessões de licenças e da exigência de fianças intervêm nas actividades económicas. públicos e privados. e contratos. as trocas e os actores legítimos. não só recuperá-las. Agentes que gerem recursos económicos próprios. em equilíbrios de poder variáveis com outros agentes. que intervêm nos mercados fazendo uso das suas prerrogativas. para manipular as ofertas de bens.

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