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OS MUNICÍPIOS

DOS

NO

PORTUGAL MODERNO

FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS

Colecção: BIBLIOTECA – ESTUDOS & COLÓQUIOS (Direcção: CIDEHUS.UE)
1. Diplomacia & Guerra: Política Externa e Política de Defesa em Portugal. Do final da Monarquia ao Marcelismo – Actas do I Ciclo de Conferências FERNANDO MARTINS (ed.) 2. Elites e Redes Clientelares na Idade Média: Problemas Metodológicos FILIPE THEMUDO BARATA (ed.) 3. Indústria e Conflito no Meio Rural: Os Mineiros Alentejanos (1858-1938) PAULO GUIMARÃES 4. Causas de Morte no Século XX: A transição da mortalidade e estruturas de causa de morte em Portugal Continental MARIA DA GRAÇA DAVID DE MORAIS 5. Concepções de História e de Ensino de História – Um Estudo no Alentejo OLGA MAGALHÃES 6. Elites e Poder. A Crise do Sistema Liberal em Portugal e Espanha (1918-1931) = = Elites y Poder. La Crisis del Sistema Liberal en Portugal y España (1918-1931) MANUEL BAIÔA (ed.) 7. D. Pedro de Meneses e a construção da Casa de Vila Real (1415-1437) NUNO SILVA CAMPOS 8. História e Relações Internacionais. Temas e debates LUÍS NUNO RODRIGUES e FERNANDO MARTINS (ED.) 9. Igreja, Caridade e Assistência na Península Ibérica (Sécs. XVI-XVIII) LAURINDA ABREU (ed.) 10. Os Municípios no Portugal Moderno: dos forais manuelinos à reformas liberais MAFALDA SOARES DA CUNHA e TERESA FONSECA (ed.)

Colecção: FONTES & INVENTÁRIOS (Direcção: CIDEHUS.UE) I. Série GAZETAS (Direcção: CHC-UNL e CIDEHUS.UE)
1. Gazetas Manuscritas da Biblioteca Pública de Évora. Vol. I (1729-1731) JOÃO LUÍS LISBOA; TIAGO C. P. DOS REIS MIRANDA; FERNANDA OLIVAL 2. Gazetas Manuscritas da Biblioteca Pública de Évora. Vol. II (1732-1734) JOÃO LUÍS LISBOA; TIAGO C. P. DOS REIS MIRANDA; FERNANDA OLIVAL

II. Série GERAL (Direcção: CIDEHUS.UE)
1. António Henriques da Silveira e as «Memórias analíticas da vila de Estremoz» TERESA FONSECA

Mafalda Soares da Cunha Teresa Fonseca (Ed.)

OS MUNICÍPIOS
DOS

NO

PORTUGAL MODERNO

FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS

Edições Colibri
CIDEHUS / UE – Centro Interdisciplinar de História, Culturas e Sociedades da Universidade de Évora

BIBLIOTECA NACIONAL – CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO Os municípios no Portugal Moderno : dos forais manuelinos às reformas liberais. - ed. Mafalda Soares da Cunha, Teresa Fonseca. - (Biblioteca - estudos & colóquios ; 10) ISBN 972-772-526-0 I - Cunha, Mafalda Soares da, 1960II - Fonseca, Teresa, 1950CDU 352 94(469)"15/17"(042.3)

TÍTULO ED. EDITOR EDIÇÃO PAGINAÇÃO CAPA DEP. LEGAL

Os Municípios no Portugal Moderno: Dos forais manuelinos às reformas liberais Mafalda Soares da Cunha e Teresa Fonseca Fernando Mão de Ferro Edições Colibri e CIDEHUS-UE Albertino Calamote
TVM Designers 220 656/05

Lisboa

Maio 2005

Índice
Introdução .................................................................................... Francisco Ribeiro da Silva (FL-UP) Historiografia dos municípios portugueses (séculos XVI e XVII) .......... José Viriato Capela (Univ. Minho) Administração local e municipal portuguesa do século XVIII às reformas liberais (Alguns tópicos da sua historiografia e nova História) .... Nuno Gonçalo Monteiro (ICS-UL) Sociologia das elites locais (séculos XVII-XVIII). Uma breve reflexão historiográfica ................................................................................ Teresa Fonseca (CIDEHUS.UE) O funcionalismo camarário no Antigo Regime. Sociologia e práticas administrativas .............................................................................. Mafalda Soares da Cunha (CIDEHUS.UE) Relações de poder, patrocínio e conflitualidade. Senhorios e municípios (século XVI-1640) ................................................................... Fernanda Olival (CIDEHUS.UE) As Ordens Militares e o poder local: problemas e perspectivas de estudo ............................................................................................ Laurinda Abreu (CIDEHUS.UE) Câmaras e Misericórdias. Relações políticas e institucionais ............... Rute Pardal (CIDEHUS.UE) As relações entre as Câmaras e as Misericórdias: exemplos de comunicação política e institucional ........................................................ Margarida Sobral Neto (FL-UC) Senhorios e concelhos na época moderna: relações entre dois poderes concorrentes ................................................................................... Pedro Cardim (FCSH-UNL) Entre o centro e as periferias. A assembleia de Cortes e a dinâmica política da época moderna ..............................................................
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....................................................................................... 243 263 ............................6 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS José Manuel Subtil (Inst............. XVII-XVIII) .......... Rui Santos (FCSH-UNL) Balanço final: Questões para uma sociologia histórica das instituições municipais ...... Politécnico Viana do Castelo/UAL) As relações entre o centro e a periferia no discurso do Desembargo do Paço (Sécs......

abarcando deste modo um auditório mais vasto e diversificado.Introdução O colóquio Os municípios no Portugal Moderno. . Permitiu efectuar o ponto da situação da historiografia relativa ao tema. através de abordagens respeitantes às suas diversas vertentes. constituiu uma iniciativa conjunta da Câmara Municipal de Montemor-o-Novo e do Centro Interdisciplinar de História. E para o CIDEHUS. Dos Forais Manuelinos às Reformas Liberais ocorrido na cidade de Montemor-o-Novo a 6 e 7 de Novembro de 2003. Sancho I e os 500 anos da atribuição do foral de D. Culturas e Sociedades (CIDEHUS) da Universidade de Évora. Manuel I. A sua realização revestiu-se de particular significado para Montemor-o-Novo. nomeadamente as do Sul do país. a colaboração com a autarquia montemorense representou uma possibilidade de realização de um evento de particular interesse científico fora do âmbito académico. que nesse ano comemorou em simultâneo os 800 anos da concessão do foral de D. O evento afirmou-se ainda como uma excelente oportunidade de reflexão sobre o municipalismo português. E o confronto de perspectivas de análise e dos diferentes casos estudados. contribuindo assim para aprofundar o conhecimento das especificidades regionais. possibilitou a caracterização da sociologia e das práticas político-administrativas em diferentes contextos espaciais.

no segundo. considerarei os trabalhos sobre forais manuelinos. Posta em causa a inventariação total por ser praticamente impossível. . 9-37. pp. Os Municípios no Portugal Moderno: dos forais manuelinos às reformas liberais Lisboa. I – Fontes Publicadas Num primeiro desenvolvimento pareceu-me oportuno fazer uma digressão pelo panorama das fontes impressas.ª Teresa Fonseca – o de fazer o ponto da situação da bibliografia portuguesa sobre concelhos e administração municipal referente aos séculos XVI e XVII – é muito mais difícil do que o que parece. Para ser executado cabalmente. a matéria que me foi dada para estudo pode ser tratada e encarada sob diversas perspectivas e ângulos de observação. Entendi dividir o tratamento dos trabalhos conhecidos em três grandes pacotes: no primeiro. Para tal não dispus de tempo e. provavelmente vão ficar fora das minhas considerações estudos e trabalhos dos quais não tive notícia. no terceiro tentarei um ponto da situação dos estudos sobre concelhos e administração municipal. para além da pesquisa em catálogos de bibliotecas. por isso.Historiografia dos Municípios Portugueses (séculos XVI e XVII) FRANCISCO RIBEIRO DA SILVA (Universidade do Porto – Faculdade de Letras) Introdução O desafio que me foi proposto pela Prof. em listas bibliográficas contidas nas obras da especialidade e na web. deveria ter-me levado às Faculdades e Institutos de investigação para fazer o levantamento das teses de mestrado e outros trabalhos que têm sido escritos. 2005. ensaiarei uma resenha das fontes publicadas. Edições Colibri – CIDEHUS-UE. foram defendidos em provas públicas e permanecem inéditos.

. Não será temerário da minha parte tentar um inventário? É com toda a certeza. Francisco Correa.10 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS É sempre importante para quem se inicia nos segredos de Clio saber que. a correspondência ou os forais. uma vila ou um concelho. em edição facsimilada do texto impresso por Valentim Fernandes em 1504. 1854-56.. . Leis Extravagantes collegidas e relatadas pelo licenciado .. Uma coisa são as Actas de uma determinada Câmara. vilas e lugares destes reinos. antigos e novos. Uma coisa são as leis ou normas gerais como as Ordenações do Reino. São sobretudo as normas.. outra as correições ou sentenças relativas a um certo Concelho. outra as provisões e cartas régias que não abrangem senão uma cidade. farei referência às fontes que alcançam todo o Reino. É uma dívida de gratidão para com esses beneméritos que nunca é demais realçar.. os alvarás válidos para todo o espaço nacional. Collecção Chronologica da Legislação Portugueza. Coimbra. – Leys e provisões que el-rei Dom Sebastião nosso Senhor fez depois que começou a governar. Para além das Ordenações Manuelinas e Filipinas. 1570. Antes de mais. compiladas por. Mas as dificuldades para uma inventariação útil e completa são muitas. lembraremos as colecções de legislação. Quem sabe se de imediato as sugestões dos presentes não a irão completar? Numa primeira análise de fundo geográfico. aparecida em Lisboa em 1955 por iniciativa do professor Marcelo Caetano sob os auspícios da Fundação da Casa de Bragança. da C. é necessário distinguir os tipos de fontes e a sua diversa natureza. Lisboa. de que destacámos: Para o século XVI – Duarte Nunes de Leão. – França. Mesmo assim arriscarei na esperança de que a minha lista seja o começo de uma recolha que irá engrossar com o contributo de outros até se tornar exaustiva. outra ainda os capítulos particulares e gerais levados a Cortes.. Collecção Chronologica de leis extravagantes. códigos e leis. F. Lisboa. Lisboa. é possível recorrer a bons materiais que outros investigadores foram pondo à disposição dos vindouros em letra de imprensa. per mandado do muito alto e muito poderoso Rei Dom Sebastião Nosso Senhor. os regimentos régios. Imprensa da Universidade. 1569 Para o século XVII – José Justino de Andrade e Silva.. Foram-me úteis e por isso aqui deixo notícia do: – Regimento dos oficiais das cidades. 1819. embora mais dia menos dia se torne indispensável aprender e calcorrear assiduamente os caminhos dos Arquivos.

– Documentos do Arquivo Histórico da Câmara Municipal de Lisboa. interessam-nos os vol. de Raul Machado. há que referir as fontes dirigidas às localidades (que. Coimbra. trad. Lisboa. Porto. VI. com um suplemento. Zamora. Descrição de Lisboa. Lisboa. 1878 .s 1 a 4.s III a V.. Fundação Rei Afonso Henriques. 1815. Porto. ou Indice Alphabetico das Leis extravagantes do Reino de Portugal.. ed. 1914-1915 Livro 1. Porto. 1947-1948. de Virgílio Correia.º das Chapas. Sobre o Porto – Corpus Codicum Latinorum et Portugalensium.º das Chapas.HISTORIOGRAFIA DOS MUNICÍPIOS PORTUGUESES (SÉCULOS XVI e XVII) 11 – Manoel Fernandes Thomaz. 2 tomos. 1818. Lisboa de Quinhentos. Câmara Municipal. 2 vols. Poderíamos incluir aqui os muitos Regimentos que foram publicados em colectâneas ou isoladamente.. publicadas depois das Ordenações. Porto. Repertorio Geral. Para além das fontes impressas de abrangência geral. As terras que dispõem de fontes históricas impressas (para o nosso período) são imensas: Sobre Lisboa – Eduardo Freire de Oliveira. Lisboa. Lisboa. Mappa chronologico das leis e mais disposições de direito portuguez. Damião de. – Livro do lançamento e serviço (1565). s/d. Lisboa. – Manuel Borges Carneiro. – Livro dos Regimentos dos officiaes mecanicos da mui nobre e sempre leal cidade de Lixboa (1572). Dizem respeito à época aqui considerada os vol. publicadas desde 1603 ate 1817. 1962 – Góis. Elementos para a História do Município de Lisboa. Coimbra. 1953-1961 Privilégios dos cidadãos da cidade do Porto. Imprensa da Universidade. Filipe II de Espanha Rei de Portugal (Colecção de documentos filipinos guardados em Arquivos Portugueses). 1882-1889. cujos títulos são respectivamente os seguintes: Livro da Contenda entre a Cidade e o Conde de Penaguiam. às vezes inesperadamente ultrapassam a dimensão local).. Livraria Avelar Machado. 1937.1938-1952 Livro 2. – E já agora (perdoe-se a publicidade) de Francisco Ribeiro da Silva. Livros de Reis. 1926.

Viseu. Câmara Municipal. permanecem muito próximos dos originais. Documentos Históricos da Cidade de Évora. Lisboa. – Alexandre de Lucena e Vale. (Capítulos de Cortes) Sobre Coimbra – José Branquinho de Carvalho. Câmara Municipal. O livro dos Acordos de 1534. «Acordos e Vreações da Câmara de Braga no Episcopado de D. Tratado da cidade de Portalegre. 1955. Viseu. Diogo Pereira. 1956 – Alexandre de Lucena e Vale. 1559/82» in Bracara Augusta. da Rocha. Subsídios para a sua História. vol. António Augusto Ferreira da. (Na verdade. XVI.G.s XX-XL Braga. Coimbra. Um século de administração municipal. Livro 2. Guimarães. XXIII. provisões e alvarás régios registados na Câmara de Coimbra 1275-1754). 1970-1990. 1967. 1955. 1941. esta obra em rigor não é uma publicação de fontes. 1953. Porto. 1605-1692. Administração Seiscentista do Município Vimaranense. Porto. 1984. embora elaborados com mérito pelo seu Autor. Sobre Évora – Gabriel Pereira.12 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS – Guimarães.º da Correia (Cartas. Aveiro. Imprensa Nacional-Casa da Moeda. A. Subsídios para a sua História. O Porto na Restauração. 1948 Sobre Aveiro – Madail. 1943. decidimos metê-la aqui. O Porto seiscentista. Notícia e índice do livro de registos da Câmara de Aveiro 1581-1792 in «Arquivo do Distrito de Aveiro». . Viseu. Sobre Viseu (Do mesmo modo e por maioria de razão entendemos colocar neste elenco os trabalhos que seguem) – Alexandre de Lucena e Vale. Fernando. – Cruz. Sobre Portalegre – Sotto Maior. Índice do livro dos acordos do séc. vol. de Leonel Cardoso Martins. int. Viseu. Sobre Guimarães – Alberto Vieira Braga. 1998 Sobre Braga – Frei António do Rosário. mas sendo constituída por resumos de actas e de outros documentos municipais que. Frei Bartolomeu dos Mártires. Lisboa. sem prejuízo de abaixo poder ser retomada). Imprensa Nacional Casa da Moeda.

HISTORIOGRAFIA DOS MUNICÍPIOS PORTUGUESES (SÉCULOS XVI e XVII) 13 – Neves. Câmara Municipal. N. pela sua antiguidade. Sobre Esposende – Manuel Albino Penteado Neiva. Doutor João de. Mas desses nunca será possível uma memória exaustiva. convém não perder de vista certos textos de narrativa histórica que. ed. Francisco Manuel. Loulé. Vereações da Câmara Municipal do Funchal – segunda metade do século XVI. 1988. é bom não esquecer que muitos historiadores e estudiosos conservam o bom hábito de publicar documentos em anexo aos seus trabalhos. – Barros. Sobre Loulé. Funchal. Filipe II. 1998 – José Pereira da Costa. Livro dos Acordos da Câmara de Aveiro de 1580. 2000. ao Reyno de Portugal. vol. CEHA. 1919. João Alberto.s XV-XVIII. Porto. o Anacrisis historial de Manuel Pereira de Novais ou as descrições de viagens como o livro de João Baptista Lavanha. Esposende. Posturas municipais de Esposende – séculos XVII a XIX. Francisco Ferreira. Lívio da Costa. Aveiro. – Duarte. A descrição de Alexandre Massaii (1621). Ou os escritos de Manuel Severim de Faria. 1984 Sobre o Algarve em geral – Guedes. Lisboa. Biblioteca Pública Municipal. Afrontamento. Por outro lado. Geografia d’antre Douro e Minho e Trás-os-Montes.n. Subsídio para o estudo da vida municipal e nacional portuguesa. 1987. acabaram por se converter em fontes. 1972-1974. Haverá por certo outros volumes contendo fontes. 2002 – Luís Francisco Cardoso de Sousa Mello publicou um Tombo do Registo Geral da Câmara Municipal do Funchal na «Arquivo Histórico da Madeira». S. Aspectos do Reino do Algarve nos séculos XVI e XVII. CEHA. Actas das Vereações de Loulé. por exemplo. Estão neste caso. Rodrigo da Cunha. Viagem da Catholica Real Magestade del-Rey D. etc. revista. s. Funchal. Boletim do Arquivo Histórico Militar. o Catálogo e História dos Bispos do Porto de D. Sobre as Ilhas – Funchal – José Pereira da Costa. Porto. Luís Miguel e Machado. Sobre Bragança e Trás-os-Montes – Alves. Para além destas. Vereações da Câmara Municipal do Funchal – primeira metade do século XVI. . Abade de Baçal. Memórias Arqueológico-históricas do Distrito de Bragança. 1971.

Mas mesmo que apenas os concelhos em sentido estrito tivessem sido contemplados. Com efeito. embora trabalhassem a terra individualmente ou em família. através dos Procuradores dos Concelhos. Manuel nem na letra nem no espírito tocam nas estruturas tradicionais da administração concelhia nem mexem nas competências governativas dos oficiais municipais. Vejamos: a questão da reforma dos forais punha-se no objectivo e no propósito de resolver bem uma relação triangular que se mostrava progressivamente mais difícil entre os lavradores e foreiros de um lado. Manuel não aproveitou a reforma dos forais para reforçar os poderes concelhios. agrupavam-se em comunidades pequenas ou grandes inseridas e integradas em concelhos (ou elas próprias eram concelhos) cujos oficiais eram os porta-vozes das queixas e os Paços do Concelho a câmara de ressonância das mesmas. a relação entre os forais manuelinos (é a esses que nos reportamos) e os concelhos é marcada mais por ambiguidades do que por cumplicidades aprofundadas. II – Forais É sabido que os concelhos se ufanam muito dos seus forais e quase se pode dizer que está na moda a sua publicação. chegaram as reclamações e protestos dos . o historiador terá que ter bem apurado o seu sentido crítico para se dar conta de que uns autores merecem mais crédito do que outros. mas apenas a apoiar logisticamente as inquirições preparatórias e a servirem de guardiães e fiéis depositários do documento final. que englobavam ou podiam englobar mais que um concelho: exemplos terra da Feira ou de Ovar. Longe disso. ao contrário do que se possa pensar. Foi às Cortes quatrocentistas e quinhentistas que. Dito de outra forma: D. A questão é esta: fará algum sentido introduzir o tema dos forais numa comunicação sobre a historiografia do municipalismo português? Julgamos que sim.14 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Como em tudo. os concelhos não são chamados para arbitrarem o que quer que seja nas matérias a introduzir nos forais manuelinos. os forais manuelinos pressupõem-nas. apesar de não ignorar que muitos deles não foram dados a concelhos mas a territórios mais amplos a que se chamava Terras. os donatários e senhores das terras por outro e o Rei-árbitro no cume do processo. Os forais de D. É que. Onde é que entravam os concelhos? No seguinte: é que os lavradores e foreiros. Mais do que confirmar ou reafirmar expressamente capacidades de intervenção das autoridades concelhias. precisamos estar de sobreaviso.

guardando-se no sítio próprio que era a Torre do Tombo e como era impensável fornecer um exemplar a cada foreiro. outro fica na posse do poder central. competindo aos Juízes e Vereadores conservá-lo em bom estado.º 8. E quando chegava o momento da decisão. Resta saber se oficiais rudes e analfabetos. publicado no Boletim Cultural da Junta Distrital de Évora. pode dizer-se que nos últimos tempos o estudos dos forais tem merecido a assinalada atenção dos historiadores que podemos caracterizar e fasear. Embora muito desfasado no tempo. porque o mesmo foral previa mecanismos de punição do senhorio que abusasse ou levasse mais direitos do que os consagrados no diploma. Outra razão para tal é que os forais podem fornecer elementos subsidiários para o estudo das relações de poder dentro de um determinado espaço. por exemplo. teriam coragem e força para punir senhorios todos poderosos como. vintaneiros ou até quadrilheiros. Os Forais de Évora. faz as suas inquirições encontrando-se com a população em quadro municipal porque não havia outro com força representativa e capacidade de mobilização das pessoas. Posto isto. Daí que os estudos sobre os forais se possam inserir numa visão genérica da historiografia municipal. sob pena de repreensão ou mesmo de punição por parte do Corregedor na sua correição anual. ainda que um pouco artificialmente. era o Rei que surgia através de peritos de grande competência e prestígio institucional por ele próprio nomeados. Situo nesse enquadramento o ensaio de Marcelo Caetano. 1967. E quando Fernão de Pina vai pelo Reino recolher elementos para proceder à correcta reforma dos forais. como seriam estes em grande percentagem. Manuel. A Igreja quando estava presente fazia mais o papel de senhorio do que o de porta-voz dos foreiros. enquadro nesta lógica de interpretação global o tão breve quanto perspicaz ponto de vista . E depois de elaborado e escrito o foral. do seguinte modo: A – Um primeiro tempo de análise da reforma dos forais no conjunto da governação de D. os Condes da Feira! Mas essa é outra questão. Terminava aqui a relação do Concelho com o Foral? Não. o terceiro confiava-se à guarda do Concelho. Évora. para além de conservarem informações preciosas sobre toponímia. embora seja a pensar nessa circunstância que acima caracterizei de ambígua a relação entre os forais e os concelhos. antroponímia. direitos e costumes tradicionais.HISTORIOGRAFIA DOS MUNICÍPIOS PORTUGUESES (SÉCULOS XVI e XVII) 15 lavradores explorados. mantém-se o triângulo na sua distribuição ou encaminhamento: um exemplar é entregue ao senhorio. E quem é que aplicava essas penas? São exactamente oficiais locais de eleição ou confirmação concelhia: juízes. n.

estudo e transcrição de. 1940. – Forais e foros da Guarda. Forais manuelinos do reino de Portugal e do Algarve conforme o exemplar do Arquivo Nacional da Torre do Tombo. Forais manuelinos da cidade e termo do Porto existentes no Arquivo Municipal. Pinto Loureiro. introd. Forais de Coimbra. 1993. Colibri. de Margarida Garcez Ventura. de análise interna e de publicação textual facsimilada. Câmara Municipal. – Foral (O) da Ericeira no arquivo-museu. 1999. Lisboa. se não cronológica ao menos logicamente. Jorge.. Os forais manuelinos – 1497-1520. 5 vols. um tempo que é simultaneamente de enquadramento histórico. Manuel. . Câmara Municipal de Arraiolos. apesar do esforço desenvolvido para que tal não aconteça. e revisão científica de Maria Helena Cruz Coelho. Maria José Mexia Bigotte. B – A um tempo de análise sucedeu o tempo de publicação dos textos dos forais. Memoria para servir de índice dos foraes das terras do Reino de Portugal e seus domínios. 1940 e António Augusto Ferreira da Cruz. Biblioteca Municipal. direcção introd. edição do autor. estudo histórico de Manuela Santos Silva. e de – Francisco Nunes Franklin. Lisboa. III da História de Portugal dirigida por José Mattoso. Lisboa. surgiu o trabalho gigantesco de Luís Fernando de Carvalho Dias.. Câmara Municipal. Porto. Imprensa régia.. Enquadro nesse contexto os trabalhos de J. 1825..l. Eis a bibliografia que pude coligir. glossário de Maria do Rosário Morujão. – Chorão. jurídica e económica sobre a reforma dos forais no reinado do senhor D. direcção.ª ed. s. A primeira fase remonta ao clima de exaltação patriótica que se viveu nos inícios da década de 40 do século XX. Dissertação histórica. Academia das Ciências. O Foral Manuelino de Arraiolos. pp. coord. 2. Guarda. IANTT. normalmente com o apoio e o interesse das Câmaras Municipais. 1961-1965. Creio ser esse o tempo em que nos encontrámos o qual remonta aos fins da década de oitenta do século passado. entre 1961 e 1965. Lisboa. 1812. 171-174) Essa tradição remonta ao século XIX tendo expressão nos textos de – João Pedro Ribeiro. Mais tarde. Coimbra. C – Sucedeu-se. de Maria Filomena Andrade. Provavelmente haverá omissões..16 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS assinado por Margarida Sobral Neto no vol. ainda que não sob o mesmo impulso. Silves. 1990.. – Fonseca. – Forais de Silves. 1993. 2000. (III. Câmara Municipal.

1989. 2001.HISTORIOGRAFIA DOS MUNICÍPIOS PORTUGUESES (SÉCULOS XVI e XVII) 17 – Foral concedido a Abrantes por D. 255-267... Câmara Municipal. Nuno Gonçalo. Câmara Municipal. – Silva.. pp. ed. Câmara Municipal. 1991. pp. Póvoa de Varzim. Porto. Francisco Ribeiro da. transcrição e notas de. – Silva.º 3. Jorge/Branco. Cláudia Valle/Fonseca. VI. 2003. vol. de Eduardo Campos.. 1994. Lisboa.. José Manuel. – Foral de Besteiros. 1990. apresentação de Maria Calado. 2003. 2000.71-90 e vol. Sociedade Martins Sarmento. As cartas de Couto do Mosteiro de Arouca. Lisboa. fac-similada. Lisboa. vol. introd. – Monteiro. Câmara Municipal. Francisco Ribeiro da e Garcia. VI. Margarida Sobral da Silva. 1992. – Foral de Colares. 1995. – Silva. 161-186. transcrição e notas de. 1994. Arquivo da Universidade. Coimbra. pp. . Leiria. – Silva... n. vol. – Neto. fac-similada. História. Os Forais do Burgo e de Arouca. Os forais da Póvoa de Varzim e de Rates. de. Os Forais de Barcelos. Arouca. 1989. ed. Os contrastes regionais segundo o inquérito de 1824. Porto. II série.. – Foral de Guimarães-1517. Francisco Ribeiro da. – Marques. Forais e regime senhorial. Manuel em 10 de Abril de 1518. 1998. transcrição de Maria Teresa Nobre Veloso. II vol. introdução. ed. Coimbra. José. Joel Silva Ferreira. Montemor-o-Novo Quinhentista e o foral manuelino. Melgaço. Câmara Municipal. – Martins. Os forais manuelinos do Porto e do seu termo. – Foral de Coimbra de 1516. Guimarães. introdução. 2001. – Foral manuelino de Lisboa. «Os forais manuelinos da Comarca da Estremadura» in Revista de Ciências Históricas. José. estudo de Nuno Campos. Os Forais de Melgaço. 1991. Manuel. «O foral manuelino de Ansião» in Actas do II Colóquio sobre História de Leiria e da sua região. Arouca. ISCTE. 195-222. Câmara Municipal. IV (1989) pp. – Santos. Sintra. – Marques. Barcelos. V. «O Foral manuelino da Terra de Paiva: uma preciosidade patrimonial» in Poligrafia. de Carlos Santarém Andrade. 1998. 1986 (mimeo). de Inês Morais Viegas. ed. Câmara Municipal. Abrantes. «O Foral de Cambra e a Reforma manuelina dos forais» in Revista da Faculdade de Letras. José. 1991 – Marques. ed.. Câmara Municipal. Manuela Alcina Oliveira e Mata. Montemor-o-Novo. Câmara Municipal. Filomeno.. INAPA.

. Os Forais manuelinos da Terra de Ovar e do Concelho de Pereira Jusã. 8-28. – Silva. publicado em parte pelo Editor de Mirandela.º 6. 2000. Mas são possíveis e desejáveis estudos transversais. forais e senhorialismo. notas sobre antroponímia e toponímia. uma matéria que atravessa muitos forais manuelinos.18 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS – Silva. a propriedade e o uso da terra. . João António. Lisboa. Os forais manuelinos de Alvito e Vila Nova da Baronia. os foros e o seu significado económicosocial. facsimilada do original. não só os do litoral onde era suposto encontrar as informações que procurava mas também os do interior. João Azevedo. em 1999. Francisco Ribeiro da. etc. Francisco Ribeiro da. Apliquei a mesma metodologia ao estudo sobre o peso do sal nos forais manuelinos. as regras de uso e partilha dos meios de produção. ed. n. – Silva. 1989. estudo comparado e leitura. O Foral dado por D. estrutura formal e divisões internas.º 47/48. Câmara Municipal. Eu próprio ensaiei. D – Há ainda um quarto momento que foi inaugurado por Maria Olinda Rodrigues Santana. Edição. Dezembro 1994. 1996 Que temas em concreto é possível colher e apreender nestas publicações? Aspectos históricos e histórico-jurídicos dos forais. da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro que em 1998 defendeu uma tese de doutoramento (de que tive a honra de ser co-orientador). UTAD (policopiado) 1998. Câmara Municipal. n. Câmara Municipal. – Valério. Julho-Dezembro 2001. «O Foral manuelino de Felgueiras: um marco histórico da identidade da Terra e das Gentes» in Felgueiras – Cidade. sobretudo das terras banhadas por rios. Manuel I à Vila da Feira e Terra de Santa Maria a 10 de Fevereiro de 1514. pp. Foi necessário examinar todos. as relações foraleiras entre lavradores e senhorios. de que resultou um artigo a que chamei A pesca e os pescadores na rede dos forais manuelinos e foi publicado na revista «Oceanos». Como o título indica. Alvito. 4 vols. introdução e estudo de…. glossário dos termos utilizados. Francisco Ribeiro da. Ovar. senão com sucesso ao menos com grande autosatisfação. Livro dos foraes novos da comarqua de Trallos Montes. enquadramento histórico e análise estatístico-linguística. Santa Maria da Feira. tratou-se de combinar e cruzar cientificamente o estudo da história e do direito foraleiro com o tratamento linguístico do texto. Felgueiras. ano 2.

Por outro lado. Como se pudesse haver verdadeira e séria História Nacional ou Geral sem o contributo das monografias dos espaços mais . as Actas do Congresso sobre o Município no Mundo Português realizado na Madeira em Outubro de 1998 que reuniu a maior parte dos investigadores que em Portugal (e no Brasil) se dedicam a estes temas. revelam-nos que sendo 39 o número total das comunicações publicadas. E não só nas Faculdades de Letras e não apenas nas Universidades Públicas. utilizando palavras-chave lógicas tais como «concelhos».HISTORIOGRAFIA DOS MUNICÍPIOS PORTUGUESES (SÉCULOS XVI e XVII) 19 III – Estudos sobre os Concelhos e a Administração Municipal Não são muito numerosos os estudos directos e exclusivos sobre os concelhos portugueses nos séculos XVI e XVII. sítio da Biblioteca Nacional. umas quantas sobre os séculos XVI e XVII. As elites de Évora ao tempo da dominação filipina: estratégias de controle do poder local (1580-1640). Provavelmente esta será uma tendência geral da historiografia portuguesa e não apenas da historiografia sobre o municipalismo. sendo bastante mais abundantes os dedicados ao século XVIII e aos finais do Antigo Regime. Sinal do renovado interesse pelos estudos locais e regionais e talvez do desaparecimento do preconceito de que a História Local era um assunto menor. mais próprio para amadores desocupados do que para universitários. De norte a sul têm sido elaboradas. Gostaria antes de mais de começar esse balanço por duas ou três notas que nascem da observação da realidade actual do panorama lusitano: 1 – A sensibilização do Ensino Superior para estas matérias Começarei por constatar uma realidade e me congratular com ela: todos os cursos de História das Faculdades de Letras têm dedicado atenção e inserido os estudos sobre História Local e Regional nas suas ofertas de pós-graduação. discutidas e às vezes publicadas teses. As pesquisas que levamos a cabo na web. alguns de conteúdo muito vago face ao tema que nos foi sugerido. «municipal» ou «elites» indicaram-nos cerca de 30 títulos. nomeadamente ao nível dos mestrados e até dos doutoramentos nos quais o tema do municipalismo é assíduo. «município». apenas 10 se dedicaram em todo ou em parte aos séculos referidos. De qualquer modo. algumas de grande mérito e utilidade. O caso mais recente de arguição foi precisamente na Universidade de Évora. onde tive oportunidade de apreciar o trabalho de Rute Maria Lopes Pardal. directa ou indirectamente. «administração». De uma ou outra tive eu próprio oportunidade de ser arguente ou orientador. é possível apresentar aqui um ponto da situação que pode ser também uma espécie de balanço. orientado por Laurinda Abreu.

em cada um dos 3 volumes que. promoção de vilas a cidades. A História de Portugal dirigida por Hermano José Saraiva no seu vol. com o suporte científico das Universidades e. nos quais incluo as Histórias de Portugal e outros estudos de síntese e por outro as monografias e estudos locais e regionais específicos. (Lisboa. funções administrativas dos mesmos. . do desaparecimento das particularidades locais no período que nos ocupa. Nogueira dedica pouco mais de meia página ao assunto da divisão administrativa do Reino. Quanto à História de Portugal de Joaquim Veríssimo Serrão. Por isso. aqui e ali. lugar que cada um dos concelhos ocupava na hierarquia dos bancos de Cortes. representação dos Concelhos em Cortes. mostravam sinais de decadência. O exemplo dos forais acima lembrado é elucidativo. Um outro dado a reter (ao qual não é a primeira vez que faço menção) é o progressivo interesse das Câmaras pelos estudos municipais. tem o mérito de chamar a atenção para a importância da implantação dos concelhos nas Ilhas Atlânticas e nas «conquistas» ultramarinas. começando pela de A. no conjunto. especialmente no Brasil onde as Câmaras adquiriram enorme importância. 4. de Oliveira Marques (a de 1972 e a «Breve» mais recente) – embora não se demorando muito no que toca à administração municipal neste período. Também por esta via pode ser frutuosa a colaboração das Universidades com as Câmaras Municipais. em contraste com a metrópole onde. A única nota que vale a pena realçar é a afirmação. dialéctica entre a centralização e as pretensões autonómicas dos concelhos. como se pode concluir dos repetidos colóquios e congressos sobre o poder local que têm patrocinado. Alfa. em capítulo assinado por J. algo enigmática. segundo aquele eminente historiador. Nem sempre o que move os autarcas é o puro e desinteressado interesse científico.20 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS pequenos e das micro-instituições ou como se entre uma e outras se pudessem estabelecer diferenças abissais de metodologia e de objecto. não serei eu a criticar quando da convergência dos interesses dos historiadores e estudiosos e dos governantes dessa terra resultam jornadas de divulgação e edições de livros. Nem tem que ser. Assuntos estudados Quanto aos assuntos estudados. força progressiva dos mesteres.1983). Quanto às Histórias de Portugal. incidência da legislação central sobre a vida quotidiana dos municípios. tocam os séculos XVI e XVII.H. são consagradas algumas páginas aos concelhos e ao «país profundo» de que destaco os seguintes aspectos: evolução relativa das áreas regionais. pelo apoio que têm dado a publicações sobre a terra. distinguirei por um lado os estudos de âmbito geral. A.

Nuno Gonçalo Monteiro. procura sintetizar nessas três dezenas de páginas os estudos publicados em Portugal sobre administração municipal. no volume seguinte. na pressuposição já referida de Romero de Magalhães de que «o poder em Portugal é arregional ou anti-regional» e que o papel principal pertenceu à oligarquia dos homens bons (texto de José Adelino Maltez. consagra 10 páginas aos Concelhos. sobre o processo eleitoral e. assinadas por Maria Paula Marçal Lourenço. tal como Oliveira Marques. sobre competências próprias e delegações de poderes. Lisboa. os aspectos que mais substantivos lhes parecem. sem que isso signifique concordância ou discordância da nossa parte: a primeira é a de que cada unidade administrativa era completamente independente em relação às vizinhas. Por sua vez.HISTORIOGRAFIA DOS MUNICÍPIOS PORTUGUESES (SÉCULOS XVI e XVII) 21 A História de Portugal dirigida por José Mattoso. pelo que se indica no título genérico do volume. Em concreto. H. sobre o Antigo Regime. num longo desenvolvimento sobre a Arquitectura dos Poderes que. 2001) coordenado por Avelino de Freitas de Meneses. a segunda é a de que o poder em Portugal é a-regional e anti-regional. dedica algumas páginas às instituições concelhias e ao seu governo. O vol. abrange um período que vai de 1620 a 1807. integradas num longo capítulo sobre os equilíbrios sociais do poder. Romero de Magalhães parte de D. VII da mesma Nova História de Portugal (Lisboa. O autor. Nelas . discorre sobre o binómio poder central/poder local. no volume dedicado ao Alvorecer da Modernidade. 1998). pp. 56-68) ao tema dos concelhos. 406-412). Mesmo resumida. de entre a bibliografia disponível. consagra algumas linhas aos Concelhos ultramarinos. a matéria dos concelhos nesta História é relativamente abundante. coordenado por António Manuel Hespanha. dedica-se um subcapítulo de 30 páginas aos Concelhos e às Comunidades. V coordenado por João Alves Dias. para além de alusões avulsas aos concelhos ao longo do volume. Manuel cuja política interna analisa. oferecendo-se uma série de temas sugestivos que poderão proporcionar inspiração para ulteriores desenvolvimentos: – Instituições e poderes locais – Câmaras e ordenanças – centro e periferia – instrumentos de fiscalização do centro – A hipotética viragem da segunda metade do século XVIII – As repúblicas municipais – governo económico local e finanças locais – poderes municipais e elites locais – entre oligarquia e comunidade A Nova História de Portugal (direcção de Joel Serrão e A. A obrigação de síntese a que os Autores são constrangidos e provavelmente o plano geral do Coordenador leva-os a seleccionarem. Duas ideias fortes de Romero de Magalhães devem ser destacadas. coordenado por Joaquim Romero de Magalhães. consagra 8 páginas (pp. de Oliveira Marques – vol.

Lisboa. na 1. (Dos finais da Idade Média à União Europeia). coordenado por Luís A de Oliveira Ramos. José Vicente Serrão.s XV-XIX – cerca de 175 páginas) e o conferido aos séculos XIX e XX (mais de 400 páginas). séc. na minha opinião. Embora se encontre nesta obra alguma coisa de comum com o capítulo que o Autor escreveu na História de Portugal.ª parte. Ana Cristina Nogueira da Silva. não é fácil estabelecer ao certo a percentagem de páginas que. 1996. Nuno Gonçalo Monteiro. O vol. dos Corregedores das Comarcas e dos Juízes de Fora e a problemática da centralização versus autonomia. Além disso. A progressiva influência do Corregedor em prejuízo das outras duas magistraturas (Juízes de Fora e Provedores). de César de Oliveira. Paulo Silveira e Sousa e Mafalda Soares da Cunha). sugestivo e inovador. Círculo de Leitores. utilizando com habilidade e originalidade boa parte da bibliografia conhecida. Quanto a trabalhos gerais sobre o Municipalismo na época moderna.dir. sublinharemos o interesse da História dos Municípios e do Poder Local. Há algum desequilíbrio entre o espaço concedido ao Antigo Regime (isto é. dedicado aos finais do Antigo Regime no subcapítulo escrito por mim próprio – tratará da administração municipal numa perspectiva predominantemente institucional: – As divisões do território e o seu significado – As leis reformistas dos finais da época moderna e a sua incidência na administração municipal – A importância dos Provedores. Paulo Jorge Fernandes.22 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS a autora. desenvolve dois itens: a «administração central periférica e os poderes delegados» e ainda «o poder absoluto e as cortes». – Estruturas fundamentais da administração municipal e funções dos oficiais camarários e dos magistrados régios em relação aos serviços prestados e ao correcto ordenamento da vida quotidiana – Os oficiais das freguesias e aldeias. . é muito mais profundo. Nem isso é importante e se aludo aqui a tal é apenas porque a minha comunicação trata dos séculos XVI e XVII. nesta obra. Compreende-se que assim seja não só pelo número potencial de leitores interessados como também pela bibliografia disponível: muito mais abundante para os séc. Basta lembrar os títulos dos principais capítulos para evocar os conteúdos: 1 Com a colaboração pontual de Isabel dos Guimarães Sá. VIII da mesma Nova História de Portugal – em vias de publicação. coordenador e principal autor1 dedica aos séculos XVI e XVII. fazendo alarde de boa capacidade de síntese.s XIX e XX do que para o Antigo Regime.

Refiro-me a António Manuel Hespanha e à sua obra As vésperas do Leviathan. na qual desempenha papel de relevo o que ele chama a administração periférica da Coroa. Depois e para além disso. Ponte de Lima. pode dizer-se que existem trabalhos valiosos dedicados a muitas cidades. CEFA. de Maria Helena Coelho e Joaquim Romero de Magalhães (Coimbra. outros teses e obras de maior fôlego. Lousã. Santarém. 2 vols. Dentro das obras de âmbito geral. há uma que me marcou desde muito cedo. 1994). .. não poderemos deixar de lado uma tese de doutoramento que justamente tem constituído uma trabalho sempre citado. 1986). Braga. Coimbra. Em ambos os arquipélagos a apetência por estas matérias está em crescendo. Vila do Conde. A vida económica e social de Coimbra de 1537 a 1640. Lisboa. Coimbra. uns artigos e ensaios de ambição moderada. Guimarães. especialmente àquelas onde existem Estudos Superiores: (continuo a ater-me aos séculos XVI e XVII). Viana do Castelo têm sido objecto de vários estudos. Não me parece que deva enveredar aqui pela análise de pormenor dos textos que se debruçaram sobre terras determinadas. Aveiro. tanto dos Açores como da Madeira. Instituições e Poder Político (Coimbra.. Mas não apenas relativos a essas cidades: também Portimão. Esposende. há todo um acervo de obras de índole local no seu objectivo imediato ainda que possam conter sugestões metodológicas de largo alcance e até de valor universal. Porto. Almedina. uma referência obrigatória para quem estuda o municipalismo em Portugal. o longo capítulo da Arqueologia do Poder e a sua visão integrada do poder político-administrativo em Portugal na época moderna. E de entre o conjunto do trabalho emerge para nós. através de instituições de investigação como o Instituto Histórico da Ilha Terceira ou o Centro de Estudos de História do Atlântico que nos últimos anos promoveu dois Congressos sobre o municipalismo e já prepara o terceiro. e quantas outras. Há também que dar a devida importância ao incremento dos estudos sobre o municipalismo nas Ilhas. Em Portugal continental. Notas de história social. o local e o inexistente regional – O espaço político e social local. Não deverei passar à frente sem uma breve alusão a um texto-síntese muito citado e esgotadíssimo – O Poder concelhio das origens às Cortes Constituintes. portanto. Refiro-me a António de Oliveira. Viseu. No entanto. pela inovação que introduz.. 1972.HISTORIOGRAFIA DOS MUNICÍPIOS PORTUGUESES (SÉCULOS XVI e XVII) 23 – A sociedade local e os seus protagonistas em que louvavelmente desce até às paróquias – O central. Évora. Esta obra constitui.

e esse é o segundo aspecto. • A das finanças: receitas e despesas. recenseamento dos moradores. Sistemas de organização fiscal e pessoal envolvido. A • participação cívica dos cidadãos e da plebe. etc. embora não fosse seu interesse imediato assumido o enquadramento institucional e administrativo ele não podia ser ignorado. O problema da ordem pública. organização da defesa. questões de saúde e da higiene. de bens de consumo. . por conseguinte. o primado da história económica e social era indiscutível e intocável. Parece. actividades económicas. • A dos serviços: obras públicas. ter aberto caminhos com futuro para a história local e regional. Os tempos de lazer e as festas na perspectiva dos que delas usufruem. As ordenanças. dividiria assim as matérias: • A das infra-estruturas: aspectos geográficos. propriedade da terra. António de Oliveira começou a investigar. abastecimento de alimentos. Como o título indica não foram propriamente as matérias de governo local que preocuparam o Autor mas antes os problemas da economia e da sociedade. Festas e cerimónias rituais locais comemorativas de nascimento de príncipes e da morte de membros da família real. demografia. • As actividades mesteirais e o controlo possível exercido pelas administrações municipais. • A da estrutura. As representações públicas do poder. • A das pessoas envolvidas e as estratégias do poder e das relações interfamiliares na perspectiva do acesso e do exercício do poder. mais interessante e útil revisitar os conteúdos dos trabalhos académicos que ultimamente têm sido publicados.24 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Rasgou caminhos e incentivou trabalhos de outros. profissões. O património municipal. Têm tido lugar aqui os estudos sobre movimentos sociais e tumultos. Por outro lado. diversificação e funcionamento das instituições e seus suportes materiais como os edifícios dos Paços do Concelho e Arquivo. quantas vezes atribuídos pelo poder central à inércia das Câmaras. de água. Basta ler o seu primeiro longo capítulo sobre circunscrições administrativas e jurisdição municipal para se perceber o alcance destas matérias no conjunto do seu excelente e pioneiro trabalho. Mas há dois aspectos que me parece de justiça enfatizar neste apanhado: o primeiro é o facto de. Começando pelas grandes áreas temáticas estudadas. No tempo em que o Prof. ao ter escolhido uma cidade e o seu aro como objecto da sua dissertação de doutoramento.

ª série.HISTORIOGRAFIA DOS MUNICÍPIOS PORTUGUESES (SÉCULOS XVI e XVII) 25 • A das relações com o poder central e as chancelarias régias. Nuno Gonçalo Monteiro. das freguesias e das suas relações com a cabeça do Concelho. XXXII.º 141. (n. estratégias de poder. É claro que mais uma vez se impõe referir o nome do Prof. Impressionou-me fortemente o ensaio publicado na «Análise Social». têm-se retomado em Portugal há uns anos a esta parte os estudos sobre as Misericórdias. Outro provável caminho do futuro creio que poderá ser o do estudo comparado dos concelhos de Portugal e dos países colonizados por Portugal. questões de segurança. vol. nomeadamente o Brasil não só na época colonial como no período pós-independência. As práticas religiosas privadas e públicas. Câmara e Misericórdias cruzam-se e complementam-se. Não deixa de ser relevante que os nomes de topo das elites municipais se repitam nas listas dos nomes dos principais dirigentes das Misericórdias. • A da conflitualidade no interior do concelho e o choque com outras entidades eclesiásticas ou civis. • A religiosidade e a influência dos Mosteiros no aro concelhio. tais como alimentação. 1997) – Elites locais e mobilidade social em Portugal nos finais do Antigo Regime – não só por constituir uma excelente síntese de tudo (ou quase tudo) quanto se escreveu ultimamente entre nós sobre o assunto mas também por oferecer uma quase completa bibliografia dos títulos publicados sobre o nosso tema – municipalismo na época moderna. 4. analisando as Irmandades não apenas nos seus aspectos organizacionais internos e na lógica da assistência mas procurando situá-las e inseri-las nas redes e estratégias de poder local. Ligado a este. ainda que o serviço público fosse a razão de ser de ambos. As confrarias e as práticas de sociabilidade. História comparada dos Concelhos. As procissões. Entram aqui os estudos sobre o papel e atribuições dos agentes régios. Outro tema que se tem revelado extremamente fecundo é o da formação das elites e das oligarquias locais. Este novo enfoque interpretado por jovens historiadoras e historiadores parece-me muito promissor e justifica que se revisitem e provavelmente se reescrevam numerosas monografias sobre as Misericórdias portuguesas. tais como o Corregedor da Comarca. • Os diversos aspectos da vida quotidiana. Outra pista a desenvolver será a do estudo da organização paroquial. o poder municipal exercido no âmbito concelhio e o poder feito de honra e de prestígio no seio das confrarias eram de natureza diferente. o Provedor ou o Juiz de Fora. • A geografia do poder e a importância e sacralização de certos espaços públicos. Há ou não . mobilidade social. higiene. Na verdade. sua múltipla caracterização. em especial a do Corpo de Deus.

perdoar-me-ão a imodéstia de lembrar alguns pequenos temas que tratei em artigos e ensaios que me pareceram interessantes e que podem ser desenvolvidos a nível municipal: – em primeiro lugar. que eram ora pontos de vista e reclamações que se destinavam ora a ser discutidos pelo Terceiro Estado. Mas que é isso de tudo e de total? A mim parece-me algo simultaneamente desejável e inatingível. e sobretudo nos séculos XVI e XVII. – o tema da venalidade e da hereditariedade dos ofícios públicos parece-me sugestivo na medida em que sou levado a concluir que essa prática. como se fosse um jurista. as Câmaras redigiam Capítulos gerais e particulares. não podemos esquecer que a partir de 1697 não há mais Cortes em Portugal. ora a ser apresentados ao Rei na expectativa de uma resposta favorável. houve ou não reivindicações neste domínio? Os concelhos foram espaço de coesão interna ou antes de conflitualidades e clivagens? Para além destes áreas. o que estudar mais dentro da história do municipalismo? Eu diria «tudo».26 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS um espaço de autonomia para as freguesias. desempenhou papel importante como factor de mobilidade social ascendente. Contudo. por cada convocatória. Um exemplo: . Os livros das chancelarias régias fornecem muitos exemplos de contratação pelas Câmaras de Mestres de Ler e de Gramática que não têm sido aproveitados sistematicamente. Frei Bartolomeu dos Mártires. recorrendo antes de mais às normas. O meu posto de observação tem sido o Porto e daí talvez a provável sobreavaliação das capacidades de literacia dos investidos no poder municipal que. aliás. me pareceu ainda mais favorável em Braga no tempo de D. Para além de tudo isso. os temas da alfabetização e a sua relação com o exercício de cargos municipais. além de funcionar sobretudo a nível local e concelhio. Sobre que incidiam esses capítulos e qual o seu encaminhamento na perspectiva do diálogo institucional entre a Corte e os concelhos parece-me um problema interessante e que poderá revelar que as indicações de governo não eram de sentido único – do centro para a periferia – mas provavelmente também da periferia para o centro. Como é sabido. às leis que as estruturaram e lhes fixaram as regras de funcionamento. Devo confessar que comecei por estudar as instituições municipais. se tal fosse possível! A história total é o objectivo teórico final do historiador. – outro tema que gostei de ter tratado foi o das relações entre o poder central e o poder local na perspectiva da participação dos concelhos nas Cortes.

La Historia Social de la Administración in Historia Social de la Administración Española. Mas um historiador depressa se dá conta que a realidade vivida é algo muito mais complicado que a realidade sonhada ou programada a qual às vezes tem pouco a ver com as normas. da História Política. Se nós conseguirmos ligar as pessoas concretas que serviram as instituições às pessoas concretas a quem se dirigia a sua acção. surge a surpresa: alguns afinal eram netos de oficiais mecânicos e. Quem eram afinal esses senhores Procuradores? Quando esperávamos que todos fossem fidalgos provavelmente de tradições bem alicerçadas e antigas. Pedro. então talvez a história das instituições possa ser história propriamente dita. A mesma preocupação esteve presente na minha Lição das provas de Agregação quanto aos Procuradores do Porto às Cortes do século XVII.º das Ordenações Filipinas (sobre os vereadores) foi importante como norma e como fonte para a fixação do perfil e do modelo institucional desses oficiais municipais tão típicos dos municípios lusitanos. Foi esse objectivo que me moveu em grande parte na preparação do meu doutoramento e em vários trabalhos posteriores e mesmo em teses de mestrado que tive o gosto de orientar. 66 do Livro 1. culturais. das atitudes. da História das Mentalidades. Como? Indagando as relações entre a instituição e os grupos sociais. veio em meu auxílio um historiador catalão. e outras dos indivíduos que povoaram e deram vida às instituições do poder local e regional e exerceram efectivamente esse mesmo poder. Estudios sobre los siglos XVII y XVIII. A História Social do Poder tenderá então a ser uma espécie de biografia colectiva. . A História da Administração bem entendida tem que resultar da confluência da História do Direito. mais do que fazer história das instituições. Ou seja. Muito cedo interiorizei a frase de Jaime Vicens Vives – «a História das Instituições não é História propriamente dita»! Mas as instituições são feitas por homens e para pessoas concretas. talvez fosse melhor tentar a história social da administração.HISTORIOGRAFIA DOS MUNICÍPIOS PORTUGUESES (SÉCULOS XVI e XVII) 27 a leitura do tit. religiosas. por essa razão viram adiado ( por 2 MOLAS RIBALTA. Ou seja. Neste processo. da História Económica e Social. Barcelona. tentando perceber a «estrutura efectiva do poder» inserida na comunidade até chegar ao reconhecimento da importância do exercício do poder como elemento determinante da estrutura interna dos estados e dos grupos. sociais. apurando-se as circunstâncias económicas. chegaremos ao conhecimento das circunstâncias profundas da sedução e da conquista do poder e do seu exercício. 1980. Pedro Molas Ribalta2 que me seduziu com a sua teoria da História Social da Administração. dos comportamentos.

A Europa que se está a construir poderá esbater ainda mais as ditas soberanias nacionais. é num mundo globalizado que o interesse real pelo que é que local e regional se vem acentuando. pode adquirir e adquire valor global mas porque a vida real das pessoas. Não só porque de repente o que é vivido à escala local. Conclusão Há que concluir.28 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS algum tempo) o seu requerimento. e para que não se percam as identidades e o gosto pela diversidade. como que esqueletos sem carne. decorre normalmente em cenário local. As circunstâncias do tempo presente pautadas pela ideia de globalização aparentemente privilegiam o universal e secundarizam o regional e o local. tenha utilizado 43 páginas com os «nomes das pessoas que animaram as Instituições». Os estudos sobre os concelhos e o municipalismo foram suficientemente atractivos para ocuparem historiadores de excelência no passado de que basta lembrar o exemplo de Alexandre Herculano. e não valerão muito se não os situarmos na sua realidade existencial e institucional e na sua rede de relações. . Tal metodologia implicou que na Tese de Doutoramento tal como foi publicada. Mas das pessoas concretas na sua inserção social e comunitária. Não só nem sequer principalmente das instituições. paradoxalmente. em virtude e por força das novas tecnologias. do modo como as famílias e os grupos se organizaram e que tipos de redes de relacionamento e que vias de desenvolvimento e de progresso conseguiram estabelecer. de cada pessoa. parece de incentivar os estudos locais e regionais. É óbvio que os nomes sem mais são meras indicações. Mas o que não pode nem deseja é apagar as regiões e as multímodas diversidades regionais Por isso. Não só os de fundo histórico. a sua habilitação para serem admitidos ao Hábito da Ordem de Cristo. Mas.

Conspecto socioeconomico de uma vila no Renascimento. Vítor Fernandes da Silva. A administração municipal do Porto 1508-1511. Câmara Municipal. Academia Portuguesa da História. sociabilidade e poderes numa paróquia rural. Biblioteca Pública Municipal. Artur de Magalhães. «Misericórdias e poder local» in O Poder local em tempo de globalização.. Actas das 1. FLUC. de Mestrado). – Basto. Montemor-o-Novo. Coimbra. 1976-1979. Coimbra. policopiado). Viseu. 2001 (Faculdade de Letras do Porto. 1990. 2. XII a XIX). A Santa Casa da Misericórdia de Setúbal entre 1500 e 1755. Dar aos pobres e emprestar a Deus: as misericórdias de Vila Viçosa e Ponte de Lima (sécs. Porto. António Alberto Banha de.. 2 vols. Lisboa. – Andrade. .ª edição. Manuel de Oliveira. 2 vols. Santa Casa da Misericórdia. Ponte de Lima. 1988. Coimbra. 2. – Abreu. Santo Tirso. XVI-XVII) – Abreu. – Abreu. Setúbal. – Barreira. 1999. 1990. António Alberto Banha de.. Montemor-o-Novo no século XVI.ª edição. – Arqueologia do Estado. 2 vols. Estudos Portuenses. 1997-1999. – Basto. 1988. A Santa Casa da Misericórdia de Aveiro. 1995 ( dissert. – Actas das Jornadas sobre o Município na Península Ibérica (sécs. Aspectos da sociabilidade e do poder. Maria Marta Lobo de. FLUC. Memórias da alma e do corpo – A Misericórdia de Setúbal na Modernidade. Laurinda. Porto. História da Santa Casa da Misericórdia do Porto. Laurinda. – Araújo. Santa Casa da Misericórdia. Lisboa. Pobreza e Solidariedade. Academia da História. XVI-XVIII). séculos XIII-XVIII. Laurinda. Sazes de Lorvão de 1660 a 1760: espaço. – Araújo. Jorge Filipe Pereira de.HISTORIOGRAFIA DOS MUNICÍPIOS PORTUGUESES (SÉCULOS XVI e XVII) 29 Anexo Subsídios para uma bibliografia sobre a história dos Concelhos e do Municipalismo em Portugal (sécs. – Andrade. 2000. Porto.. Santa Casa da Misericórdia. Palimage Editores. Grupo dos amigos de Montemor-o-Novo.). vila realenga: ensaio de história da administração local. 1989 (polic.as Jornadas sobre formas de organização e exercício do poder na Europa do Sul. 1979. – Alves. Lisboa. 2 vols. Artur de Magalhães.

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Pós-Pombalismo. de História/Instituto de Ciências Sociais) 1.ª metade do século XVIII em diante. porque não estava em causa a sua legitimação e continuidade histórica. um dos ramos da Historiografia Portuguesa que mais se desenvolveu nos tempos mais recentes.Administração local e municipal portuguesa do século XVIII às reformas liberais (Alguns tópicos da sua Historiografia e nova História) JOSÉ VIRIATO CAPELA (Universidade do Minho – Dept. sem dúvida. Administração Pública e Economia Portuguesa. de reforma ou mesmo alternativa. 2005. na prática. para que aliás veio dar contributos essenciais pelo novo prisma de abordagem da questão. É em geral um discurso muito crítico ao papel e lugar que o Município tem no bloqueamento aos desenvolvimentos e reformas necessárias da Sociedade. e ao qual se apresenta aliás no plano das realizações como instrumento. Concentrou-se sobretudo na História Municipal da 2. A Historiografia da administração local. crise do Estado de Antigo Regime. O município como objecto por excelência dos estudos de História da Administração local A História Municipal e através dela a História da Administração Municipal é. ainda que a partir de um discurso mais político do que histórico. Pombalismo. A abordagem da questão municipal está já largamente presente nos textos dos reformistas e ilustrados do século XVIII e seus finais. Breve perspectiva histórica 1.1. 39-58. Alguns tem mesmo sobre ele posições radicais ao ponto de afastar o Município do rol das instituições que propõem para a nova ordenação da nossa administração pública e territorial. Edições Colibri – CIDEHUS-UE. Desenvolveu-se em forte articulação com a problemática da construção e reforço do Estado Moderno ou da sua crise e da Sociedade de Antigo Regime. Esta posição inviabilizaria. Os Municípios no Portugal Moderno: dos forais manuelinos às reformas liberais Lisboa. fraco desenvolvimento da investigação histórica sobre o município português. pp. .

ultrapassando de vez o «enclausuramento» romântico medieval e fixando mais desenvolvidamente a sua acção e adaptação dos Tempos Modernos. manter-se-á nas peugadas doutrinárias legadas pelos ideários de Oitocentos. que a História do Município fará novos avanços. fazendo também seu o programa da descentralização e municipalização da administração e território. consubstanciado por H. quer no plano prático quer até no historiográfico. e em grande medida como reacção aos excessos da Centralização promovida pela dinâmica das novas instituições liberais – a Divisão dos Poderes e o Código de 1842 – é a solução do municipalismo que se apresenta como alternativa global que emergirá em grande força no mito historiográfico do município medieval. o ideário corporativo anti-liberal e antidemocrático. Neste último ponto sem grande sucesso. Nogueira no seu Município Novo teria por então uma das suas primeiras grandes aplicações – interrompida com a crise financeira de 1890 – e que a República intentará de novo retomar. O ideário republicano. Intenta-se então também a elaboração de monografias sobre os concelhos e os municípios e obras de conjunto sobre a temática. Deste modo. Rodrigues Sampaio quando o municipio se inserir mais realisticamente no jogo e na acção político-social dos equilíbrios e harmonias necessárias entre a centralização e a descentralização. Lopes de Mendonça. haveria de trazer um novo fôlego e novos horizontes às investigações sobre o Município pela intensa reflexão histórica sobre as origens e natureza da instituição municipal – designadamente a sua anterioridade . os estudos do Município português em tempos da Monarquia Absoluta. Herculano. A Reforma descentralizadora de Rodrigues Sampaio (1875-1890) promoverá sem dúvida um dos mais profundos desenvolvimentos das coordenadas da vida municipal portuguesa e também da História do Municipalismo. A República (1910-1926). que depois se continuarão. Com A. economistas. do Centralismo e Absolutismo Monárquico. Sampaio. F.40 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS É verdadeiramente o século XIX – em particular da sua 1ª metade – que verá florescer a História do Município e emergir mesmo o ideário Municipalista. se são esparsos os estudos históricos sobre o municipalismo dos Tempos Modernos em Herculano – que o Absolutismo segundo ele matara – com H. Nas origens do Estado Novo. repondo o Código descentralizador de R. Félix Nogueira e seus continuadores emergirão finalmente com grande desenvolvimento. Mas será com Félix Nogueira. socialista. H. Com significativo espaço na obra de políticos. não tem porém lugar autónomo nas Histórias de Portugal de Oitocentos. ensaístas e sobretudo de administrativistas.

revelar-se-ia com muito mais pormenor a vida de outras instituições locais muito articuladas aos Municípios e que aí deixaram muitas marcas e registos nos fundos arquivisticos.ª vez. Mas muitos deles alargar-se-iam também ao estudo das corporações dos ofícios nos Tempos Modernos e em relação com eles também dos concelhos e até ao fim do Antigo Regime do trabalho mesteiral e oficinal.ADMINISTRAÇÃO LOCAL E MUNICIPAL PORTUGUESA DO SÉCULO XVIII ÀS REFORMAS LIBERAIS 41 ou filiação no Estado Português – em correlação com a fundamentação das raízes e natureza corporativa da Sociedade e do Estado. Ela está certamente em relação com a emergência da figura do poder local no nosso . com particular incidência no campo doutrinário mais do que no campo historiográfico. A Historiografia municipal para os Tempos Modernos sofrerá no pós 25 de Abril de 1974 um extraordinário desenvolvimento. o desenvolvimento dos serviços municipalizados. com um alargamento das temáticas que as novas questões a resolver exigiam. Lisboa. Na prática esse é também um período de grande discussão sobre a administração local autárquica no tocante a matérias que se referem a: problemáticas da centralização/descentralização. o sistema e os problemas da administração local em si e em correlação com a descentralização e a intervenção e coordenação dos serviços técnicos e administrativos do Estado. Tais programas tiveram eco nas discussões à volta do Código Administrativo de 1936 do Estado Novo. (Problemas de Administração Local – Centro de Estudos Político-Sociais. tendo vingado a solução centralizadora do Regime contra as alternativas mais descentralizadoras de municipalistas e autarcas. Pela 1. 1957). Esta ideologia de base corporativa não deixaria ainda de se fazer sentir nos estudos de História municipal que se desenvolveram entre nós. Deste resultará em particular o enorme trabalho de estudo e publicação das fontes e fundos da produção administrativa camarária. envolvendo-se no estudo histórico das corporações de ofícios medievais e também da “corporação” municipal. quando se localizam os fundos mais completos e desenvolvidos da vida municipal. pelos anos 30 e 40 do século XX em correlação com os programas de desenvolvimento regional que pretende suportar e fazer assentar no município (e outras instituições históricas) programa desenvolvimentista a que então se prendem as elites locais portuguesas municipais e distritais para tirar a Província do seu letargo e abatimento e por eles regenerar o país. Tal estará na origem de um novo reforço da análise da História e evolução histórica do Município. Este é um período de grandes evocações de História Municipal. de um modo sistemático. a História do Município Moderno é estudada a partir das suas próprias fontes. o que faz desenvolver particularmente os estudos posteriores ao século XV. E pela descoberta e exploração destes fundos.

a que lhe contrapõe o modelo corporativo. das Elites e também à História da Mobilidade Social e dos Sistemas Eleitorais. Desta etapa histórica sai particularmente beneficiado o estudo histórico do município português na Época Moderna. os novos horizontes da Historiografia económica europeia do Pós-Guerra e da História Económica e Social dos Annales. Para a renovação da historiografia municipal concorreram poderosamente novos domínios de investigação historiográfica que lhe foram aplicados: a História Económica. A matriz e a base de História económica e social com que se renovou a historiografia municipal mais recente. das finanças locais.42 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS ordenamento político-administrativo revolucionário – que rompe com o conceito vindo do Estado Novo da administração local autárquica – e também com o seu particular desenvolvimento assente na mobilização social e política de que foi alvo. da separação dos sectores. essa entronca já na referida renovação do papel do município como autarquia local na administração pública e territorial portuguesa das décadas de 50 e 60. os mecanismos sociais no ordenamento social local e sua articulação com a Sociedade de Corte e nos elementos e agentes de articulação política pelo estudo do papel e acção dos magistrados régios para o governo da periferia. Tal desenvolvimento continua as linhas de rumo tradicionais da historiografia municipal portuguesa. mas também. o Metropolitano e logo também o Ultramarino. certamente também pelo seu marcado cunho institucional. mas também do papel das posturas e regimentos locais no desenvolvimento e enquadramento económico mais geral. Mais decisivos ainda foram os desenvolvimentos da História Institucional. com desenvolvimentos particularmente notórios na História económica da administração municipal. a que genericamente se vem apelidando de estadualista que privilegia o estudo do município nas suas relações e mútuas adaptações ao Estado. no funcionamento das almotaçarias. próprio à organização da Sociedade de Antigo Regime. e agora. com mais força e vigor. sai particularmente beneficiada a perspectiva estadualista. mas também nos seus territórios e até «regiões». que iniciando-se pelo estudo da História Social da Administração Municipal – com contributos decisivos para a configuração social dos diferentes orgãos municipais – receberia contributos fundamentais do novo campo da História Social. que . em correlação com ela. mercados e formação de preços. com importantes estudos monográficos dirigidos aos grandes municípios portugueses nos seus quadros institucionais. que estuda os mecanismos do reforço dos elementos da articulação económica e financeira dos municípios à Coroa e Fazenda Pública. na História financeira e da contabilidade municipal. Nestes estudos. permitida e sustentada pelos 3 novos pilares constitutivos do seu desenvolvimento: a lei da autonomia.

Mas também no plano dos ideários. neles incluindo também os outros campos do exercício dos poderes sociais mais informais ou sem base territorial. U. designadamente para o estudo daquelas perspectivas que tão descuradas tem sido pela Historiografia Política e Institucional Municipal. Para além dos Municípios. 1. 1971) mas sem grandes consequências futuras. Menos consequências teve a nosso ver. 1970) aconselha a fazer adentro do quadro analítico conhecido que é o da construção do Estado Moderno e seus limites e constrangimentos. e contribui para ajudar a definir um outro e novo modelo municipal. F. no plano institucional e das realizações. o estudo dos outros domínios da administração do território. o das correntes anti- . que é unilateral e insuficiente. a saber. para a História municipal deste período. vista e vivida pelo lado dos administrados. Se em geral forneceu novos enquadramentos e fixou outras coordenadas de abordagem e de percepção da chamada «estadualização» ou «politização» da Sociedade. os poderes e as instituições para a administração régia. História e perspectiva esta que já R. Mas. Perspectiva e abordagem sem as quais nunca formaremos uma visão completa da História Municipal e muito menos da emergência das suas Reformas. não se pode perder de vista. naturalmente pela força e dimensão que a instituição municipal mas também o ideário municipal ganhou na Sociedade e Cultura Portuguesa. a perspectiva da Historiografia e do paradigma Corporativo.ADMINISTRAÇÃO LOCAL E MUNICIPAL PORTUGUESA DO SÉCULO XVIII ÀS REFORMAS LIBERAIS 43 prestam atenção para além da acção dos juízes de fora. ao longo dos tempos. de Joel Serrão. sobretudo sociais. designadamente a territorial. não contribui tão decisivamente como parece dever ser o seu papel. Mousnier nos estudos integrados em La Plume. a vincular e sobretudo a paroquial e a eclesiástica. do Absolutismo e do Despotismo. les Faucille et le Marteau (Paris. para cuja abordagem se tem recorrido sobretudo e quasi em exclusivo à perspectiva da História do Estado e da Administração. dos usos e costumes comunitários. provedores e as novas «instituições políticas» do Estado Moderno. profissionais ou religiosas. a História da Administração. dos baldios. a mais antiga (do Estado Novo) e a mais recente. também a dos corregedores. a saber. P. E que Jorge Borges de Macedo aconselhou e seguiu no artigo “Absolutismo” do Dicionário de História de Portugal (dir. a eleitoral e da nova configuração dos poderes. para a abordagem social da História e vida do Município. apesar disso. os campos. a senhorial. A História e historiografia da paróquia O estudo histórico da administração territorial portuguesa tem sido configurado e reduzido à História Municipal.2. designadamente o das comunidades confraternais.

Ou a crer definitivamente que a solução municipal é originária e matricial à nossa constituição político-social ou uma dádiva divina e portanto perenes e inquestionáveis e por eles a subalternizar as doutrinas e os ideários político-administrativos que não priviligiam ou não entram em linha de conta com a instituição e solução municipal.44 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS -municipalistas ou o dos críticos de soluções político-administrativas assentes na exclusiva solução municipal. por outro lado. reduziram ou subalternizaram mais fortemente o papel e a acção das outras instituições. induziram e configuraram mesmo tal opinião. E naturalmente também por uma atenção mais cuidada à força e continuidade da doutrina e argumentação das soluções que não as municipais e municipalistas. como se comprova pelo papel desempenhado pelas outras instituições que no território do município exercem a sua actividade. alheia ou mesmo estranha e desconhecida. a propor soluções alternativas ao município e a desenvolver ou propor outras soluções político-institucionais. Para o que concorrerá também. Com efeito a particular concentração e desenvolvimento da Historiografia dirigida ao estudo do Município face às outras instituições locais tem feito passar a ideia de que o Município e o seu território de jurisdição são as instituições exclusivas ou por excelência da administração local portuguesa neste século XVIII e finais do Antigo Regime. o estatuto e a força da argumentação do ideário e propaganda municipalista dos seus grandes e importantes doutrinadores e ideólogos que não deixaram de reduzir a força e o plano de actuação de outras correntes e doutrinas. é que nos permitirá avaliar a importância e predominância relativa das instituições que disputam o exercício dos campos do poder local. contestada. delimitando bem os espaços de actuação e concorrenciando-o inclusive. Tal reflexão é possível e ainda mais necessária no período de forte emergência do poder e ordem municipal. ou crítica dos abusos e excessos da concentração municipalista da doutrinação e programa descentralizador ou regionalizador. Porém a realidade é mais variada e complexa. sob a ordem e a . e assim o foram sempre na História local portuguesa e o devem continuar a ser para o futuro. das suas legitimações incluindo a historiográfica e dos seus assentimentos. Como se comprova também pelos testemunhos recolhidos junto das populações paroquiais designadamente nas Memórias Paroquiais do século XVIII (1758) onde a presença e domínio da instituição municipal aparece aí descrita de um modo ténue e esparsa. E nesse sentido os estudos demasiado configurados nas fontes e administração municipal e no estudo de casos onde a dimensão institucional. Só uma visão e acercamento mais amplo destas realidades dos poderes. que em geral. o papel político e administrativo da acção municipal ganharam particular vitalidade e envolvimento e apagaram. designadamente com a acentuação no reforço da paróquia ou freguesia.

É este o caso das críticas da Ilustração a este Municipalismo Histórico. Tal realizou-se.ADMINISTRAÇÃO LOCAL E MUNICIPAL PORTUGUESA DO SÉCULO XVIII ÀS REFORMAS LIBERAIS 45 batuta do alargamento do Poder Real Absolutista e do Despotismo Esclarecido no século XVIII. Com efeito subsiste ainda. máquinas e estruturas do poder ao serviço das velhas aristocracias e fidalguias. vinda dos sectores contestatários a esta estadualização municipal. e utilizando em particular os maiores municípios portugueses. no fim de contas da Sociedade e Estado com que as gentes das Luzes pretendem romper por finais do século XVIII. Sem este conhecimento não é possível seguir a emergência de outras soluções presentes no nosso pré-liberalismo e primeira vigência do regime liberal e suas soluções para a governação do território e seu enquadramento políti- . com profundas consequências para a instituição municipal que nos aparece no final desenvolvimento deste processo histórico – de profunda articulação e modelação com a ordem régia e os objectivos régios para o governo do território – com substancial limitação dos seus poderes “autónomos” e fortemente configurada ao exercício das tarefas que a Monarquia lhe impõe e distribui para o governo do território. Que prefiguram nos casos mais desenvolvidos. é este ideário das Luzes. a mais completa tutela e configuração político-administrativa que o Liberalismo lhe dará no quadro do novo Centralismo burocrático e da nova Divisão dos Poderes. e em grande medida “desautorará” politicamente. reforça a crítica político-social e também doutrinária. mas também a esta “miniaturização” e irrelevância de municípios rurais. desenvolvimento orgânico e funcional. posição no território permanecerão no todo ou em parte ainda arredados destes mecanismos de Centralização e desenvolvimento institucional uniformizador induzido pelos progressos da Monarquia e do Estado. a outra realidade municipal à margem destes desenvolvimentos: municípios que pela sua reduzida dimensão. mas também as bases de soluções locais paroquiais e regionais que são tão pouco conhecidas. vem nesta etapa conquistando e alargando os seus poderes no território. segrega até. Que é uma crítica violentíssima ao seu pequeno papel para o desenvolvimento dos povos e do território. antes pelo contrário. umas vezes “reformista” outras vezes “abolicionista” que sem dúvida lançara as bases e os fundamentos da grande amputação e reforma concelhia de 1832-36. sobretudo quando ela é feita em proveito dos estratos que suportam o Estado fidalgo e aristocrático que se contesta ou são incapazes de suportar qualquer projecto de desenvolvimento. em grande parte fortemente crítico do poder e organização municipal. Ora tal desenvolvimento não apaga a outra realidade institucional que ela mantém. Ora. circunscrevendo e limitando os outros poderes e jurisdições. naturalmente. E não apaga também. em certa escala para largos espaços do território nacional. nalguns casos autênticas ilhas no mar de um profundo localismo e isolamento político e social.

Com a crítica do município e seu fraco envolvimento e integração das comunidades locais emerge a vontade de valorização e afirmação política e administrativa da paróquia ou freguesia. Na paróquia viu A. a Antropologia. ao modo de Alberto Sampaio. pois que em seu entender na paróquia se unem «vínculos quasi tão estreitos como os da família» e «sob o aspecto social excede em importância as instituições municipais». no pós 25 de Abril de 1974 a ser a parente pobre da investigação historiográfica sobre o poder e administra- . E é deste contexto do movimento das Luzes que se reforça a ideia da paróquia civil ou freguesia que só muito mais tarde vingará. Reforçar e revigorar a vida social com base na freguesia é o caminho a seguir para regenerar a política e a sociedade portuguesa. Também para esta historiografia. E contudo e certamente por via disso. A História paroquial continuaria. que fizessem o contraponto às monografias concelhias que por então também promovia M. desenvolver-se-á também com a historiografia eclesiástica o estudo da paróquia. a Geografia Humana. está presente a valorização da paróquia religiosa na conformação e origens da sociedade portuguesa. a História paroquial ganhará também cidadania no panorama dos estudos locais portugueses. Sampaio as bases e a matriz da nossa constituição social que arranca e se articula às villae romanas. Só com Alberto Sampaio. isto é considerá-la na sua matriz histórica originária. também um concelho. Caetano. no século XIX. Em paralelo da historiografia civil. a Sociologia. valorizar esta instância local do enquadramento dos povos. Depois. Depois no contexto da construção do ideário municipalista houve também quem pretendesse associar a freguesia ao concelho. E para o padre Miguel de Oliveira. este é um quadro muito activo no enquadramento e organização comunitário local. bem mais atentas ao estudo científico e positivo das comunidades de limites paroquiais estiveram por outro lado as demais Ciências Humanas.º ideário municipalista do século XIX (Herculano). morta pelo Centralismo liberal de que os concelhos – sobretudo os das vilas e cidades – foram também agentes e suportes. O Padre Miguel de Oliveira bateu-se pela produção de monografias paroquiais. como a historiografia mais recente tem vindo a sublinhar. em consonância com a importância política e social da paróquia. a paróquia terá ainda um papel mais forte no enquadramento da vida das populações que os concelhos.46 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS co-social e também a emergência do 1. Mas não se nota qualquer movimento de legitimação historiográfica desta instituição que permitisse fazer vingar a freguesia ao lado do concelho ou município como instituição autárquica para a administração e governo civil do território. A ideia é pois. administrativista e historiador estado-novista do Município medieval. desde as suas origens no século XIX.

apesar de escassa. Sampaio e a sociologia histórica (entre outros) e a paróquia eclesiástica. mais desenvolvidos organicamente e onde sedeiam os principais organismos e magistrados da Coroa para a administração e governo do território. de juízes ordinários. na senda dos estudos anteriores. certamente contribuiria para conferir ao município uma realidade bastante dife- . A abordagem e o estudo dos casos dos pequenos municípios rurais. na continuidade das abordagens de A. esta em estudos mais atentos às origens e papel da ordem religiosa e eclesiástica. na tradição dos estudos sobre a paróquia civil. Em busca de novas abordagens da História da Administração Local: o Município no Território 2. A investigação sobre a freguesia – paróquia do Antigo Regime. 2. Adaptações municipais A força dos vectores da centralização e mais ainda do paradigma da estadualização aplicado ao estudo da História Municipal Moderna tem privilegiado e acentuado sobretudo o estudo dos mecanismos da sua integração na ordem pública. integrantes de vastas áreas à margem ou só marginalmente integradas no “território” do domínio régio ou em zonas de forte domínio ou concorrência do domínio senhorial. seja ele marcado pela construção da rede político-administrativa (Judicial. É uma análise e uma perspectiva que sai reforçada. também. da comarca. ou pelos suportes político-económicos da construção do Estado Nacional Mercantilista. hierarquização político-administrativa do território e propostas de novas divisões administrativas.1. urbanos ou de vilas de maior dimensão. pelo facto de se ter estudado particularmente a evolução política e institucional dos maiores municípios. concentrado os estudos nas manchas do território mais percorridos e articulados pelo processo centralizador. isto é. E que para além de estudos individuais destes casos. agora ainda mais subalternizado dados os investimentos políticos e financeiros do 25 de Abril na administração municipal. Militar.ADMINISTRAÇÃO LOCAL E MUNICIPAL PORTUGUESA DO SÉCULO XVIII ÀS REFORMAS LIBERAIS 47 ção local. Centralização. da Província. da provedoria. continuaria a fazer-se. tem também por via deles. de áreas menos importantes ou contribuintes para a construção do Estado Moderno. Não pôde como o município beneficiar da larga tradição de investigação e doutrinação sobre a História Municipal e o Municipalismo e também – e por via disso – a freguesia continuaria a desempenhar um papel subalterno na nossa administração. pela rede social de articulação à Sociedade de Corte. por via da uniformização institucional com a aplicação do modelo e da ordem legal régia e da acção corregedora e integradora dos magistrados régios à periferia. da Fazenda).

o quadro por excelência da ordenação política do território. a Sociedade onde se insere. de facto. com efeito.48 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS rente. Por isso é necessário estudar o município no seu território. sofre as vicissitudes que o próprio território vai sofrendo nas suas dinâmicas de aproximação ou afastamento político aos marcos territoriais e políticos mais activos e dinâmicos da construção do Estado. resultado de um Absolutismo e Centralismo como factor exógeno às instituições e territórios neles envolvidos. mas seguir as dinâmicas próprias induzidas e até construídas pelo Território e pela Sociedade que naturalmente são em última instância os agentes e suportes destas realizações e nova construção política e ordenamento territorial. uma apreciação mais ajustada dos níveis e patamares de modelação e integração do Município ao Estado e Ordem Pública Nacional é necessário seguir-lhe. neles se exprimindo de forma diferenciada as dinâmicas desta modelação mais geral. para além da conformação institucional – por regra tão só orgânico-oficial – permitirá seguir os termos da sua configuração com o Território. situá-lo nos “círculos” diferenciados da sua situação e centrifugação política e também no dos diferentes níveis do desenvolvimento social e institucional. o conceito de que o Município Moderno é a-regional e mesmo anti-regional. a do quadro mais vasto. O município fortemente arreigado e enraizado no seu território. O percurso deste outro caminho. «regional» ou provincial. que tem de passar por um maior esforço de caracterização do município. com desfasamentos significativos relativamente ao novo modelo e paradigma do “município régio”. teve como consequência esquecer ou secundarizar as dinâmicas estruturais de carácter geográfico-político que sobre ele se exercem e que o continuam a modelar profundamente. O governo monárquico do século XVIII. os passos da sua modelação regional – comarcã e provincial. progressivamente. A comarca volver-se-á. Muito mais do que a partir dos concelhos é a partir do quadro comarcão que o Estado e o governo comarcão quer olhar e governar o território. Se se pretende. E não só a do quadro e termo municipal – que tem sido tentada – mas também e muitas vezes sobretudo. em primeiro lugar. Tal conceito. a quem desde 1790 se pretende conferir maior desenvolvimento e racionalidade administrativa para nela reorganizar o quadro da divisão e administração concelhia. decisivamente com Pombal e os governantes de D. decorrente do paradigma estadualista e do município dominador do seu território. Tal obriga necessariamente romper com um outro lugar comum que se fixou mais recentemente na historiografia municipal. Maria desde 1790-92 . O estudo do Município no território permitirá fugir ao espartilho da explicação monista da modelação institucional realizada tão só do topo para a base.

o principal suporte da nova organização do território que promoverá. em especial os eclesiásticos. como é sabido. incluindo na sua base espacial. a Reforma da Fazenda. nele acabaram de produzir efeitos fundamentais. para proceder ao reforço do poder em mais vastos territórios “regionais” e articulá-los por seu intermédio mais fortemente ao Estado. No período pombalino este processo seguirá sobretudo na senda de reformas políticas. racionalização e uniformização institucional. nela envolveriam fortemente o Município. e em particular nesta etapa decisiva no reforço do Centralismo e Absolutismo e logo do Reformismo pré-liberal. a uniformização e a unificação legal e administrativa do território da sua comarca. E a constituição de largos Privilégios em grandes municípios de centros urbanos que lhe concederam forte relevância e tutela regional sobre os outros territórios e municípios.. volver-se-á neste contexto. as vozes dissonantes dos concelhos e dos seus diferentes membros nas Cortes. Tal passa naturalmente por reforço sobretudo do papel dos municípios maiores onde a administração periférica do “Estado” está já mais desenvolvida. Sobre as políticas é fundamental salientar algumas reformas pombalinas que embora não dirigidas directamente ao Município. uma forte articulação e hierarquia do território. Os problemas e petições concelhias serão conduzidos ao Rei e seus Tribunais superiores pela voz do corregedor.. com a criação da Companhia de Vinhas do Alto Douro neste caso de alcance Provincial que lhe concedeu os suportes do largo domínio regional às 3 Províncias do Norte de Portugal. de reforço e alargamento do poder e hierarquia de concelhos estrategicamente posicionados no território.. que promovendo a forte hierarquização política nacional das instituições e por ela a sua mais forte integração institucional e territorial. É o caso dos concedidos à cidade do Porto. e organização político-estadual. das Alfândegas. não tendo tocado nas bases e divisão territorial. O corregedor do século XVIII promoverá num constante deambular pela comarca. O concelho cabeça da comarca virá por isso a ser o pivot e ponto de partida e referência do novo referencial “autárquico” e regional. O município e desde logo o município cabeça de comarca. das Superintendências fiscais (das Sisas e Décimas) a produzir movimentos do mesmo sentido de centralização (regional). na continuidade aliás da criação do . suporte de muitas delas.ADMINISTRAÇÃO LOCAL E MUNICIPAL PORTUGUESA DO SÉCULO XVIII ÀS REFORMAS LIBERAIS 49 – adentro do mesmo espírito anterior – reforçam o papel dos corregedores e outros magistrados régios e com eles o quadro de unificação e racionalidade comarcã.. Há muito que ele substituíra os braços dos concelhos. Entre essas reformas é de referir as da Justiça – com a afirmação do Direito e Lei Régia sobre os demais direitos a extinguir os donatários nas ilhas – a promover a mais forte integração dos concelhos de juízes ordinários nos de juízes de fora e de um modo geral a afirmar a supremacia e a tutela dos concelhos régios sobre os concelhos e coutos senhoriais.

desencadeados com as leis de 1790/92. das elites ilustradas locais que se querem impor nas governanças locais às velhas elites nobiliárquicas e fidalgas e colocar o município ao serviço da Pública administração e do Bem Comum e Felicidade dos Povos. Elas terão sua origem em particular na Sociedade ilustrada dos economistas em luta pela livre formação dos preços. político e económico ao desenvolvimento da Sociedade portuguesa e de uma adequada administração régia para o território.50 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Tribunal da Relação ao tempo dos Filipes e que agora se manifestará particularmente activo a conduzir a si todos os processos de apelação e agravo de todos os Tribunais e em particular dos eclesiásticos (vg da Relação Eclesiástica de Braga). alargamento dos mercados. a sua canalização e navegabilidade que para estas obras faz contribuir os concelhos e terras limítrofes. como instância político-administrativa mais actuante e presente em todo o território (com a extinção das Ouvidorias). Da acção e directrizes dos juízes demarcantes de 1790 resultou essencialmente a proposta de um novo desenho das comarcas e dos concelhos. Mas como não avocar aqui também o papel da Companhia das Lezírias para o Ribatejo (entre outras) e até a entrega do monopólio do Ensino Público à Universidade de Coimbra com a expulsão dos Jesuítas que faz conduzir para a cidade do Mondego os professores e estudantes e faz a Universidade e a cidade beneficiária de contribuições públicas gerais assentes nas Superintendências das Sisas do Reino com que pagam professores. seus concelhos. em particular no domínio público. que limite as jurisdições e poderes do direito senhorial e eclesiástico. E até outros grandes projectos de desenvolvimento regional promovidos pelo Estado. Esse programa é activamente impulsionado pelos reformistas e ilustrados do século XVIII. Pretende-se redimensionar os concelhos para os adequar ao nível das exigências e tarefas agora colocadas pelo Estado e reforçar a comarca. munícipes e oficiais. cadeiras. tirando-o dos interesses privados e particulares das velhas governanças. em particular pela geração de 1790 que produz a mais acérrima crítica ao papel e acção do município e o consideram em geral factor de bloqueio social. em particular as obras nas barras dos maiores rios. dos letrados e magistrados régios em luta pela mais larga afirmação do Direito régio e pátrio. mas de que os principais e grandes beneficiários são os portos ou os cofres das vilas ou cidades da respectiva embocadura. Avanços para um programa de nova “divisão” administrativa do território só se realizará porém nos finais do século XVIII. a ponte e outras obras do rio e da cidade. Essas críticas sustentam em grande medida o programa de reformas a que as leis de 1790/92 querem dar seguimento. ainda que os projectos e programas fossem definidos numa escala “regional” neste caso o das regiões hidrográficas. . liberdade da terra que permita o mais lato desenvolvimento económico.

sem plano e estrutura intermédia que sempre foi e pretendeu ser preenchida pelo município. que é preciso abordar neste desenvolvimento longo. fortemente centralizadoras e esvasiadoras da instituição municipal. económicas e até instituições e incluindo a organização do espaço. é preciso também atentar nas condicionantes territoriais de assentamento dos municípios que os aproximam e modelam em conjunto nas suas bases sociais.2. permite entrever e destacar essas dinâmicas e aproximações . onde se possam realizar mais intensa e extensivamente o programa do desenvolvimento económico e social e colocar as instituições ao serviço da Felicidade e Prosperidade Pública. que do plano da paróquia salta para o da Província. Hoje a produção de elevado número de estudos de História municipal para amplos espaços regionais. entre outros).ADMINISTRAÇÃO LOCAL E MUNICIPAL PORTUGUESA DO SÉCULO XVIII ÀS REFORMAS LIBERAIS 51 Relativamente a estes procurou-se o seu redimensionamento territorial. que sofrendo é certo a modelação político-institucional da construção do Estado. retirando desde logo poderes judiciais aos municípios de juízes iletrados (isto desde Pombal) diminuindo ou apagando em definitivo o poder das câmaras nestas matérias. Mas outras propostas de ilustrados pretendem também tocar no poder “absoluto” dos concelhos. ainda bastante “marginal”. Deste horizonte da crítica e das propostas de reformas ilustradas do século XVIII (desde Pombal e de novo activamente desde 1790/92) se configurarão o sentido e a matriz das reformas do século XIX e do Liberalismo. as Intendências (da agricultura. como a do Ministro Rodrigo de Sousa Coutinho do círculo da Ilustração governamental que faz tábua rasa do município enquanto orgão de divisão administrativa e o apaga da sua proposta da divisão administrativa territorial do Estado. articuladas com os projectos e programas reformistas do Estado e com ele em luta por novos concelhos inserido numa mais vasta região. 2. são em última análise o resultado da sua adaptação e envolvimento nas dinâmicas e coordenadas próprias do seu território. é certo. Há até propostas da nova divisão administrativa do território. iniciando mesmo a “desautoração” do poder municipal e uma primeira separação e/ou hierarquização dos poderes que prefigurariam em muitos casos uma primeira Divisão dos Poderes do Liberalismo e do Constitucionalismo. O novo concelho. inscrito numa comarca reforçada é um programa régio. que prefiguram os futuros serviços públicos gerais. Mas conta e nele se envolveram as novas forças sociais locais. propondo a constituição ao lado ou por sobre os concelhos. da polícia. A força da coesão territorial e a modelação regional do município Mas para além das dinâmicas políticas e territoriais induzidas pela construção do Estado Moderno.

52 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS territoriais. de lado. Que se exprime na definição de um sistema e regime municipal muito aproximado. a induzir também comportamentos típicos de senhorios foreiros e donatariais. Configuração singular virão. E se não permitem configurar um município regional – pela forte e precoce construção em Portugal do Estado Central e Mercantilista que promoveu uma acentuada uniformização política e institucional do Município Português – conferem-lhe pelo menos uma forte modelação regional que os anima e articula. e também um conjunto de municípios de vastos termos rurais que vieram a constituir importantes rendas sobre os foros dos baldios (como aconteceu um tanto por todo o lado. pescarias e direitos sobre usos de água. induzem os mercados na formação das rendas dos municípios que obrigam necessariamente desde logo à grande distinção nas estruturas político-administrativas e na base social das elites políticas entre municípios urbanos e municípios rurais sem núcleos ou pequenos núcleos urbanos. Para além disso. da governação central e das elites governantes. Deixaremos. Mas a acentuação do “tonus regional” afirma-se também nas diversificadas funções que os municípios são chamados a exercer em função da sua posição no território e corpo político da Nação. produzindo por vezes até nesse quadro. importantes rendas sobre barcos de passagem. também em assumir os municípios de áreas fronteiras a rios de grande valor económico. e até o transmontano. a principal separação ou distinção que neste domínio. permite aproximar municípios como os do Alentejo. naturalmente. piscatório e transitário que vieram a constituir para as câmaras (como para outros senhorios). moagens e pisões. a análise comparativa da estrutura e natureza das receitas municipais. praças e fortale- . Idêntica natureza. Particular configuração e aproximação na sua base económica e natureza de rendas veio também a constituir o município das regiões de fronteira (terrestre e sobretudo marítima e fluvial) a realizar importantes receitas sobre as sisas mercantis (ou sobejos das sisas régias) e também rendas alfandegárias. numa relativa militarização dos cargos políticos das vereações dos municípios de fronteira onde por força da estadia de regimentos. um certo “esboço” de divisão municipal de certas tarefas. Tal é desde logo patente. onde o peso das receitas provenientes de herdades e bens próprios agrários é muito importante e por isso lhe induzem comportamentos muito próximos dos dos senhorios fundiários. Tal é patente desde logo na constituição das receitas próprias com base nas quais é possível fazer distinções ou aproximações de base territorial. da apetência social e das elites ao acesso e governo das câmaras e da sua integração na orgânica estadual por interesses mútuos. dimensão e origem das rendas municipais está naturalmente na origem e na base do relativo desenvolvimento e aproximação das estruturas institucionais municipais. da Beira. mas em particular no Minho).

as burguesias mercantis e os letrados locais. por virtude da afirmação do Direito Pátrio. em função. urbano. E posteriormente o reforço e vontade do revigoramento das elites aristocráticas e fidalgas nos municípios ao longo do 3.ADMINISTRAÇÃO LOCAL E MUNICIPAL PORTUGUESA DO SÉCULO XVIII ÀS REFORMAS LIBERAIS 53 zas e papel militar e defensivo das terras. nobreza e aristocracias locais ditas de campanário. magistratura e Sociedade de Corte quando o município está poderosamente integrado na Coroa. quando o afastamento é acentuado. exercendo um recrutamento que pode extravasar o concelho. do desenvolvimento político e social das terras.º quartel do século XVIII ser-lhe-á totalmente desfavorável. mas também demográfico. como se verifica de um modo geral nos municípios de mais forte envolvimento político e conjuntural nas revoluções políticas e sociais do Estado na passagem do Absolutismo ao Despotismo e deste à Revolução e Liberalismo. ou mesmo. meirinhos. a aristocracia militar local e regional estende o seu papel às câmaras e que se revigorou nos tempos de conflitos militares e guerras internacionais. de um modo geral homens de Direito e letrados. é necessário seguir em relação com a evolução da conjuntura política e social mais geral e a do município e sua estrutura sócio-profissional em particular. cuja geografia da representação em câmaras e vicissitudes da sua aproximação ou afastamento das vereações. naturalmente. Ou na diferenciada presença ou concorrência aos cargos políticos do governo camarário de outros ou novos grupos que a eles pretendem ascender. Se de um modo geral o Pombalismo poderia ser favorável à presença dos mesteres em câmara em correlação aliás com as coordenadas do alargamento da representação social e popular da Ilustração – como se verificou em Espanha com a criação e entrada da magistratura popular do síndico personero para as câmaras – a sua envolvência no Motim do Porto (1757) quebrou tais expectativas. do vintismo. expressas no diferenciado recrutamento social das elites políticas tradicionais: nobreza. Relativamente aos grandes municípios urbanos (mas não só) é ainda possível proceder a algumas aproximações. territorial. que dos seus locais próprios do governo camarário (procurador. que tem a ver com o da presença e representação dos mesteres na câmara. mas agora já sem especial continuidade geográfica. Ou aos militares e sua mais forte entrada e participação nos governos municipais em tempos de guerra. escrivães. Como seria também bem ilustrativo seguir a sua ligação às câmaras nas crises políticas e sociais do tempo das invasões francesas. almotaçarias) pretendem ascender às vereações. da Lei da Boa Razão (1769) e no consequente afastamento do direito costumeiro e das práticas orais sem proces- . que poder-lhe-ão ser favoráveis e permitir passagens e acessos breves às vereações ou outros orgãos de poder político municipal. E também nas diferentes modelações que toma a presença das elites locais na câmara.

. os honoráveis locais. em dois grandes conjuntos. num 1. As situações podem ser as mais dispersas: nalguns casos onde é forte o poder real (sobretudo pela Fazenda) ou o poder donatarial (sobretudo o militar) estes assumem poderes que retiram aos concelhos.º nível.54 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS so escrito.) As aproximações de organização institucional fazem-se entre municípios de idêntica dignidade e hierarquia. expressões dessa acentuada diferenciação regional. Os seus orgãos mal se distinguem dos das paróquias/freguesias. separados desde logo. Ainda mais forte adaptação às realidades político-sociais do território é o que se pode observar com o município insular e colonial-ultramarino. os municípios de juíz de fora. a afastar da administração camarária e da sua Justiça. que é o testemunho da sua enorme “plasticidade”. o que exprime de facto a sua irrelevância política. a saber. . juízes iletrados. As aproximações são cada vez maiores entre os municípios de juíz de fora. tesoureiros e às vezes mesmo vereadores. saúde. que se fez de modo diverso pelos diferentes manchas do território. o inverso também se verifica. alfândegas. Nestes municípios mais pequenos e inorgânicos não se verifica sequer qualquer intervenção do poder real. ainda que à medida que se progride para os grandes municípios urbanos. que adopta ainda perfis e figurinos diferenciados em relação com os níveis mais ou menos acentuados de integração política e social no Reino.. naturalmente em relação muito directa com diferentes serviços públicos aí instalados e seu desenvolvimento e complexidade (justiça maior. o de pautas e o de pelouros. onde os concelhos assumem totalmente os poderes régios e públicos. procuradores dos concelhos. Muitas vezes os eleitos – vereadores e os juízes servem todas as tarefas. Nos pequenos e minúsculos municípios as singularidades ainda são muitas. É possível seguir ainda nas diferentes configurações orgânicas-institucionais que assumem os municípios modernos. por um lado. cabeças de comarca – com Porto e Lisboa à parte – as diferenças se acentuem. organização militar. em regra como se verifica nos municípios metropolitanos distribuídos por outras instâncias territoriais e magistrados. por outro. ensino. onde é frequente não existirem em alguns concelhos alguns ofícios ou corpos como a almotaçaria. O município adapta-se aí às possibilidades e necessidades públicas e comunitárias da terra. servidos muitas vezes por escrivães vindos de outros concelhos. os de juíz ordinário que são construídos em dois modelos eleitorais também distintos.

A paróquia Os estudos da História Municipal. Como permite também fixar os termos da protecção e particular privilégio que o Município promove relativamente ao território urbano – sede de concelho – suas elites políticas e sociais urbanas. do território e termos rurais. Daí decorre de um modo geral a dificuldade dos municípios levar e afirmar o seu poder e jurisdição nas aldeias. mas também a “coimeira” é aí profundamente gravosa para os termos do concelho e suas populações rurais e faz-se em proveito das vilas e sua população política. da crítica aos poderes municipais. a . o poder e a organização municipal. não tem com efeito estudado a História da Administração Municipal do lado dos administrados. É um estudo que deve saber explorar de novos ângulos as fontes documentais da instituição municipal. Às dificuldades decorrentes de natureza da estrutura do poder municipal – de carácter político-senhorial e fiscal – acresce o forte enquadramento e tutela da ordem religiosa sobre as paróquias. estabelece uma absoluta separação entre o espaço urbano e o seu território rural do termo concelhio. do lançamento e cobrança dos impostos régios e municipais. A vila é o território das elites sociais e políticas e dos privilegiados desta ordem social e espacial municipal. em especial nos municípios de assentamento urbano. do lançamento dos serviços públicos e municipais forçados. que circunscreve ainda mais as relações entre aquelas ordens políticas administrativas. Pela sua natureza. o termo e as aldeias é o território dos devassos. na expropriação dos baldios e no sistema e rateação dos impostos em especial sobre as populações rurais e seguir as resistências e oposições dos grupos e territórios mais afectados. da resistência. dos ricos e poderosos locais. em especial naqueles domínios e esferas de actuação que mais podem afrontar as populações: no domínio do exercício e aplicação da justiça. de modo a confrontá-la com os seus críticos e sectores da população particularmente vexada com esta administração. dos colonos. da condução e colocação da instituição municipal ao serviço do Estado.ADMINISTRAÇÃO LOCAL E MUNICIPAL PORTUGUESA DO SÉCULO XVIII ÀS REFORMAS LIBERAIS 55 3. enfim. das condenações fiscais. A política municipal. Em busca de novas abordagens da História Municipal da Administração Local: a administração vista pelos «administrados». sobretudo a fiscal. A perspectiva dos administrados permite desde logo fixar mais claramente a conformação senhorial que adopta a generalidade dos municípios portugueses de Antigo Regime em meio urbano e sobretudo em meio rural e se exprime em particular. de modo a permitir seguir os campos de oposição. Por isso esta estrutura municipal. É pois de um modo geral “violenta” a relação do poder municipal com esta população devassa dos termos concelhios. dos camaristas. urbana e senhorial. estabelece um conflito estrutural básico com as populações rústicas do termo.

das fintas. Como se pode seguir pelo rol das coimas e volume e montante das coimas. Sem grande sucesso. Com Pombal para além das reformas dos concelhos para os configurar no ordenamento régio houve um esforço para valorizar socialmente o exercício dos cargos municipais nas paróquias. esta organização concelhia e esta organização paroquial. É por isso necessário seguir melhor os modelos e as estruturas de aproximação das câmaras aos concelhos. Com efeito apesar dos esforços. Nas terras do Sul. A Coroa no seu afã de aproximação e controlo de todas as esferas e espaços da Sociedade intentou as reformas necessárias para colocar os concelhos ao serviço de uma ordem pública. poucos avanços se produziram na aproximação das paróquias e comunidades inscritas no aro concelhio aos con- .56 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS civil dos concelhos e a religiosa nas paróquias. Mas também pela resistência a vir-se empossar às câmaras. Por outro lado é preciso atentar na organização autónoma das paróquias que no Norte. se arroga o direito de representar as comunidades fazendo frente ou condicionando fortemente o poder municipal ou seus representantes na paróquia. como se pode seguir pelas Memórias Paroquiais de 1758. criam dificuldades intransponíveis à aproximação da Coroa e Municípios régios e da administração pública às populações. Contratos de moradores dos termos com os municípios – para fugir à violência dos impostos. Eles são também a expressão do carácter opressivo desta organização. o clima de resistência de aldeias às ordens camarárias e municipal é enorme. onde a organização paroquial é menor e menos forte. dos aforamentos e partilha indiscriminada dos baldios – são muito frequentes por todo o território. em particular aos termos rurais das paróquias ou freguesias para avaliar melhor as formas de articulação entre ambos os territórios e suas instituições político-administrativas. sem qualquer significado para os povos. surgem os “concelhinhos” e governos de freguesias com uma estrutura muito aproximada à dos concelhos – a que tão só faltam às vezes os vereadores – e se avençam e contratam com os seus municípios para fugir aos excessos e violências dos maiores municípios. pouco envolvente. em grande parte por sobre a estrutura municipal. por um lado. Pouco sucesso teriam também os Zeladores de Polícia instalados pós 1790 que o Estado pretendeu estabelecer para impor a ordem pública às terras. o poder municipal é aí descrito muito periférico. das prestações de serviços. Esta realidade. pouco influente. Ora a paróquia é. um poder muito forte sobre a comunidade. e por outro a criar um poder civil na paróquia que se integrasse no ordenamento político geral. directamente ou indirectamente pela sua mais forte articulação e dependência dos concelhos. É até muito desclassificado pelo papel dos seus juízes e rendeiros. ou a fazer submeter os poderes próprios da paróquia ao ordenamento geral do Reino. pelo menos.

expresso designadamente na construção e embelezamento das suas igrejas e da animação da vida paroquial à volta da missa conventual. ao pretender instalar-se no seio da comunidade paroquial. porque efectivamente não há continuidade de interesses entre esta ordem municipal tradicionalmente construída ao serviço das governanças.ADMINISTRAÇÃO LOCAL E MUNICIPAL PORTUGUESA DO SÉCULO XVIII ÀS REFORMAS LIBERAIS 57 celhos e às câmaras. Com efeito a comunidade paroquial vinha de uma longa evolução de reforço dos seus suportes demográficos. Mas tal foi sempre a excepção. indiferença. aí onde o próprio poder municipal. O assalto à fortaleza de paróquia é realmente uma das tarefas a que a Monarquia e a Administração civil se envolverá activamente ao longo da etapa histórica. No Pombalismo fizeram-se avanços neste domínio. com a instalação dos sacrários e sobretudo da constituição em regra. económicos. a comunidade paroquial atinge o pleno do seu reforço. contra a dos moradores devassos das paróquias do termo rural concelhio. do Subsino e do Rosário. da paróquia e dos paroquianos e na fixação de uma tutela e vigilância muito activa das autoridades diocesanas sobre a comunidade paroquial e de fiéis. Para além da confraria do Subsino ou do Nome de Deus. Em regra as paróquias e seus oficiais mantém relativamente às câmaras uma atitude de hostilidade. O Regalismo é sem dúvida o enquadramento privilegiado para tal submissão da ordem religiosa à civil na prossecução dos objectivos da Monarquia Cristianíssima. afirmação e autonomia. mais próximo mal entrara. da vila. Mas a articulação social e política das comunidades à régia administração e poder municipal é uma tarefa localmente encomendada às câmaras. que governam toda a paróquia no civil e eclesiástico. sejam eles do subsino ou de vintena. com Pombal intentará ir o mais longe possível neste afã de controlar e integrar todo o território. das elites e do . como se fizeram no neo-pombalismo (pós 1790-92) sob o signo do regalismo e do alargamento do direito régio. de 3 importantes confrarias que congregarão os esforços e os sentimentos religiosos da comunidade a saber. O concelho está fortemente dividido entre a comunidade dos eleitos e dos privilegiados. sociais e sobretudo administrativos. relativamente à qual os outros poderes e jurisdições tem uma acção totalmente periférica. e religiosos. alicerçados na construção de equipamentos religiosos e sobretudo de uma muito viva e activa organização sócio-religiosa à volta da constituição de importantes confrarias ou irmandades para o governo material e espiritual da igreja. altura em que os juízes das paróquias. a das Almas. se articulam mais poderosamente com o poder camarário e de algum modo se dignificam as suas tarefas. O poder real. A paróquia é assim um quadro de extraordinária vitalidade. em especial desde meados do século XVIII. Por meados do século XVIII. O termo do concelho dificilmente constitui com os moradores de sede e vila uma comunidade de vizinhos. Aqui porém as dificuldades foram maiores.

a crítica política à instituição. a distribuição da renda municipal. Momentos críticos houve. utentes e destinatários desta instituição. juízos fiscais. os regulamentos e posturas e outros ordenamentos e deliberações permitem claramente seguir os destinatários e os beneficiários desta administração. em especial daqueles ilustrados que seguem de perto a actuação do governo e instituição municipal. dos juízes gerais. Aumentam. com efeito. A leitura atenta dos registos camarários permite entrevê-los. propinas e emolumentos e demais gastos festivos e propagandísticos. Múltiplos são os testemunhos por onde se podem seguir estas “violências” e “vexações” da administração municipal. governo e ordem municipal que a constituição social dos orgãos de governo – câmaras. particularmente vexadas com o processo de aforamento dos baldios – particularmente activo pós 1790 – do agravamento fiscal sobre a população não privilegiada dos termos. o estudo quantitativo e diferenciado dos actos e decisões das vereações. em particular. almotaçarias.58 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS marco urbano que se constrói e reforça com base no domínio sobre as populações rurais dos termos. porque politicamente retrógrada e incapaz de regeneração. ao longo do século XVIII as razões de queixa das populações paroquiais contra as câmaras. praças e equipamentos. os radicalismos e as violências com que vem sendo avaliado e criticado o nosso município desde o tempo da Ilustração. seguir a sua evolução temporal e distribuição geográfica. da violência do recurso aos serviços a prestar nas obras e arranjos das vilas. dos excessos dos rendeiros e coimeiros municipais. Que ganha particular expressão na etapa pombalina (propugnando sobretudo pelo seu enquadramento na ordem e Direito Público) e depois na fase posterior a 1789 em especial a 1790/92 (propugnando também agora pela sua colocação ao serviço do desenvolvimento e felicidade dos povos) assumindo a partir daqui por vezes um cunho particularmente crítico sobre o lugar e papel histórico e moderno do governo e instituição municipal ao ponto de alguns propugnarem pela sua abolição. . rendeiros – apresenta em toda a sua nudez nos verdadeiros beneficiários. em particular a mais radical e revolucionária. os regimes das terças. as tabelas de preços. E há também uma importante literatura que é particularmente rica de informações sobre esta matéria e onde é possível seguir. almotaçarias. em que se revoltariam mesmo em conjunto contra a prepotência dos senhores das câmaras e das vilas. suas ruas. nesta etapa. vintenas permite quantificá-las. Os aforamentos e os aforantes. espaço da nobreza mas também de muitas violências – exprime e mede de certo modo também. E em particular a literatura Memorialística vinda do seio da Ilustração. com salários. das coimas e condenações de câmaras. calçadas. Em grande medida o radicalismo da reforma dos concelhos em 1836 – que extingue cerca de metade dos concelhos portugueses – e lhes reduz os poderes e competências – designadamente retirando-lhe o judicial.

Ponta Delgada. remeto para Nuno Gonçalo Monteiro. mimeo. Lisboa. Nuno Pouzinho. parece necessário propor e discutir novas questões e as metodologias adequadas para se lhes dar resposta. 2005. mimeo. 2001. pp. Mes.. 2002 e José Damião Rodrigues. Edições Colibri – CIDEHUS-UE. A Elite Municipal de Castelo Branco entre 1792 e 1878. entre os quais destacaria: Nelson Veríssimo. assim. Absolutismo e municipalismo. 1998. Casa. 37-81. 1 Para uma bibliografia mais detalhada. Porto. . retomado de uma comunicação oral. António Ventura dos Santos Pinto. as misericórdias) vêm recebendo a atenção dos estudiosos2. mimeo. Lisboa. «Elites locais e mobilidade social em Portugal no Antigo Regime». São Miguel no século XVIII. Entre o Antigo Regime e o Liberalismo.. in Elites e Poder. síntese recente de Isabel dos Guimarães Sá. O objecto deste breve texto.. Relações de poder na sociedade madeirense do século XVII. Outros trabalhos sobre o tema têm surgido que aí não se encontram referenciados. Dis. o estudo das elites municipais tem constituído um dos principais temas de investigação da historiografia portuguesa e objecto de diversas sínteses1. Lisboa. 2003. Dout. 2 vols. Évora 1750-1820. 2003. o de debater algumas vias complementares para o estudo das elites locais. Lisboa.. 2001. Manuel a Pombal. elites e poder. Dis. Lisboa. Vila do Conde (1785-1800) : as gentes e o Governo Municipal. Os Municípios no Portugal Moderno: dos forais manuelinos às reformas liberais Lisboa. Mais recentemente. Dis.Sociologia das elites locais (séculos XVII-XVIII) Uma breve reflexão historiográfica NUNO GONÇALO MONTEIRO (Universidade de Lisboa / Instituto de Ciências Sociais) Ao longo das duas últimas décadas. será. Teresa Fonseca. A imensa informação recolhida permite que se façam novos pontos da situação e que se renovem as reflexões sobre o tema. 2000. na linha de alguns textos já antes publicados. outras instituições locais (em especial. Mas não deixa de revelar alguns impasses. As Misericórdias Portuguesas de D. pp. 2 Cf. tentando apresentar.. 59-72. Ou seja. Mest. para que a acumulação de nova informação alargue o horizonte das pesquisas e se não limite a fornecer mais um estudo de caso que ratifica tudo aquilo que se conhece.

1995. 1999.. Maria Helena Coelho e Joaquim Romero Magalhães. 2 vol. Francisco Ribeiro da Silva.). «Os tempos modernos». 1994. Ramos (dir. Acresce que as ilações que deles se podem tirar não são unívocas. Idem. é bem provável que as formas de exercício dos poderes nas províncias no século XVI e no início do seguinte não fossem as mesmas. História do Porto. A ideia central é alargar o campo de inquirição das leituras institucionais (como sejam as que pontificavam nas câmaras e misericórdias) para outros terrenos. por um lado. Com efeito. Lisboa. cit. O Porto e o seu termo (1580-1640). em particular os de Mafalda Soares da Cunha. «A sociedade portuguesa. 1994 e Idem. Porto. Ora. de Oliveira Nunes. a verdade é que a continuidade das elites locais ao longo da época moderna carece ainda de confirmação empírica. 6 Cf. 5 Cf. Ponta Delgada. Porto. idem. José Damião Rodrigues. Ferreira (coord. E. tendência que se aprofunda na centúria subsequente. apesar da tendência apontada há muito por Romero Magalhães para a crescente elitização da vida política local7. A. Romero Magalhães. Sérgio Cunha Soares. por outro lado. 1997. 7 Cf. 1. Porto. «As estruturas sociais de enquadramento da economia portuguesa de Antigo Regime: os concelhos». 4 Cf. são escassos os estudos na longa duração sobre elites locais.C. Coimbra. Coimbra4 e. História Social da Administração do Porto (1700-1750). 1988. sugerem que até às primeiras décadas de seis3 Cruzando informação de: Pedro Brito. 1988. O Algarve económico 1600-1773. sob alguns aspectos o Algarve5 e Ponta Delgada6). Coimbra. contra uma imagem demasiado decalcada do século XVII tardio e do século XVIII (a da municipalização do espaço político local). e J. 1995. 1986. Poder municipal e oligarquias urbanas: Ponta Delgada no século XVII. diversos trabalhos recentes. Um aspecto que parece fundamental ponderar são as modificações da arquitectura dos poderes locais resultantes da erosão do poder senhorial no decurso do século XVII.E. in Notas económicas. . entre outros. in L. Dis. 1986. Lisboa. «Reflexões sobre a estrutura municipal portuguesa e a sociedade colonial portuguesa». Joaquim Romero Magalhães. O município de Coimbra da Restauração ao Pombalismo. Joaquim Romero Magalhães.. O poder concelhio: das origens às cortes constituintes. n. Mimeo. Reflexões sobre a história e a cultura portuguesas.). n. 1986. séculos XVII e XVIII».º 4. São Miguel no século XVIII….60 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS novos tópicos de análise. e Ana S. dout.. in M. O. Porto. Os escassos estudos sobre elites locais na longa duração A primeira questão que se quer levantar parte de uma constatação: apesar de existirem algumas excepções parciais (o Porto3. Revista de História Económica e Social.º16. Patriciado urbano quinhentista: famílias dominantes do Porto (1500-1580). Poder e poderosos na Idade Moderna.

in César Oliveira (dir. Representações (1580-1668). 49-54 e 153-161. uma viragem importante. Nuno Gonçalo F. nova ed. A esse respeito um bom referente comparativo é nos fornecido pelos trabalhos sobre as elites locais dos territórios da coroa de Castela. O Crepúsculo dos Grandes. Mafalda Soares da Cunha. Lisboa. Fernando Bouza Álvarez. 2000. 1640-1820». Monteiro. A casa e o património da aristocracia em Portugal (1755-1832). 12 Ideia desenvolvida em Nuno G. Independentemente da legislação restritiva do século XVII sobre a elegibilidade para os ofícios locais.d. História dos Municípios e do poder local. sobretudo pp. 1990.SOCIOLOGIA DAS ELITES LOCAIS (SÉCULOS XVII-XVIII) 61 centos os poderes senhoriais eram geograficamente muito amplos8 e efectivamente exercidos. in Portugal no tempo dos filipes.. Cultura. «Poderes e circulação das elites em Portugal. Monteiro.. pp. exemplarmente estudado por Enrique Soria Mesa. Práticas senhoriais e redes clientelares. que o cenário era distinto do que encontramos no século XVIII. Lisboa. «Os poderes locais no Antigo Regime». Dória.A. Nuno G. Poder e oposição política em Portugal no período filipino (1580-1640).. com evidentes implicações nos destinos individuais e familiares. Lisboa. pp. 425-427. Política. António de Oliveira. pp. in Conde de Ericeira. 207-256. . Monteiro. Porto. constitui uma excelente ilustração. 1996. «Os poderes locais no Antigo Regime». 2000.. e A. 9 Cf. História dos Municípios…. Monteiro. nota D. O caso andaluz de Córdova. É certo que a venda de ofícios locais e de mercês supe- 8 Cf.).. A Casa de Bragança (1560-1640). pp. que havia muitos fidalgos principais residentes nas províncias9 e que. «A nobreza portuguesa e a corte de Madrid». A migração por alturas de 1640 de muitas famílias principais para a corte. Se admitirmos que essa evolução representou uma efectiva mutação institucional12. História de Portugal Restaurado. as redes clientelares destes tinham uma efectiva vitalidade e influência10. A Restauração de 1640 constituiu. 11 Cf. Ou seja. 488-489. finalmente.234-235. s. a efectividade do exercício das respectivas prerrogativas por parte dos senhores parecem ter recuado sem apelo11. Lisboa. 49-54. Nuno G. 10 Cf. in Elites e poder.105-138. os poucos estudos disponíveis não são concludentes sobre a continuidade ou descontinuidade multissecular das famílias.). pp. então coloca-se a questão de avaliar até que ponto antes e depois as lógicas de estruturação dos equilíbrios e dos poderes locais eram diversas. neste como em outros terrenos. Por outro lado. eventualmente. este elemento pode ter pesado também na composição dos grupos que nelas pontificavam. Lisboa. a gradual distensão dos laços clientelares que estas podiam estabelecer com as províncias pode ter dado lugar à emergência de novos protagonistas. quando quase toda a primeira nobreza do reino residia na corte e quando o número de terras sujeitas a jurisdição senhorial e. pp. in César Oliveira (dir. 1998.

o que em parte explica a abundância de estudos centrados nessa etapa tardia17. la ciudad más aristocratizada de España en la Edad Moderna»14. O que designou por «el cambio inmóvil». apesar disso. «habrá transformaciones. traduziu-se no facto de «en la Monarquia Española. se transformaron muchas cosas..66 e seg.. as quais procuravam limitar de várias maneiras o acesso dos adventícios aos respectivos ofícios. 17 Na verdade. El cambio inmóvil. «seguramente.101-103 16 Cf. mas sempre com uma «ficção de provas» e de genealogias que lhes asseguravam uma antiguidade e fidalguia. Madrid. É certo que as fontes portuguesas (designadamente. 18 Cf. não apenas conhecemos.. muitas histórias de ascensão bem sucedidas18. E.. é só depois de 1755 que os arrolamentos se tornam frequentes no Desembargo do Paço. 1996. empiezaron a abandonar el municipio (.. Em todo o caso a comparação é legítima e possível. No entanto. muitas com sangue converso. o caso de Madrid não parece ser radicalmente diferente daquele que se acaba de apresentar16.. ibidem.) ya en le siglo XVI (. pero se mantendrá la ficción de que nada puede cambiar (. A la sombra de la corona.) para eso están los genealogistas»13. «Elites locais e mobilidade social…». p. O exemplo sumariamente descrito parece muito sugestivo. segunda metade de setecentos e início de oitocentos) indicam que a governança era controlada por um núcleo muito reduzido de famílias. Transformaciones y permanências en una elite de poder (Córdoba. y en la Córdoba de los siglos XVI al XVIII.) las grandes Casas nobiliarias cordobesas (. nueva sangre en las élites.13 14 Idem.. 1606-1808). p. p. Mauro Hernández. en particular. em seu lugar foram ascendendo outras. em larga medida inventadas. ibidem. Córdoba.. . Em Córdova. «las élites tradicionales. mas necessárias para lhes conferir o estatuto de membro de pleno direito do restrito grupo dirigente local. de forma general. los antiguós linajes. ss XVI-XVIII). alcanzaron el poder grupos oficialmente excluidos de los honores y las dignidades». pp. Nuno Gonçalo Monteiro. apesar das diferenças.) las Casas medianas (.15 15 Idem.. quase sempre antecedidas por uma etapa de acumulação de capital económico no terreno mercantil ou outro. 13 Enrique Soria Mesa.) a finales del XVII»15.62 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS riores (senhorios e até títulos) introduzem uma componente que não tem paralelo no caso português. os arrolamentos da nobreza das terras) só se tornam profusas para finais do Antigo Regime. Também é verdade que muitos dos trabalhos já efectuados abrangendo centros urbanos de alguma relevância nesse período (grosso modo. Poder y oligarquia urbana (Madrid. cambio sustancialmente la composición social de la élite gobernante. para onde eram remetidos os das terras da coroa.. 2000.

. n. até ao século XVII. associada à ruralização e decadência económica seiscentista. pp. e. Nos séculos XVIII e inícios do XIX «(a)ssiste-se à inversão da base sociológica do grupo dos vereadores nas principais câmaras do Algarve (…) o poder radica agora numa nobreza de função. em cada contexto. «Para o estudo…». «quando inicia a sua ruralização e decadência». contrariando a imagem da afirmação gradual de uma nobreza camarária sem raízes fidalgas numa província onde a nobreza de sangue teria sido sempre muito minoritária. com um máximo percentual de 64% no século XVI». representando a nobreza de sangue nos mesmos concelhos principais antes recenseados apenas 19% do total dos vereadores . no fim de contas. ao usar os róis de vereadores por causa das «omissões» desse tipo de fontes (cf. a única forma de comparar um grande número de municípios de distintas regiões. de sublinhar duas questões: desde logo. para a qual Romero Magalhães chamou há muito a atenção. p. «o Algarve foi um espaço característico da nobreza de sangue». corroboradas pelas investigações muito mais aprofundadas do próprio autor. dita reino. e idem. Sem pretender refutar a crítica. que ascendeu graças à riqueza acumulada no trato mercantil». O seu autor. Tabardo.º 2. nota (3)). 20 O autor afirma. certamente com fundamento. a cronologia e os ciclos na longa duração de maior estabilidade e de maior renovação das elites municipais. 53. me foi dado consultar uma investigação sobre o Algarve que mostra bem as virtualidades dos estudos na longa duração19. o facto de o uso desse tipo de fontes constituir. no entanto. 19 Cf. que as minhas conclusões acerca da escassa presença da fidalguia de sangue nas vereações algarvias no início do século XIX foram. depois. Fidalgos Nobres e demais privilegiados no poder concelhio». Gostaria de acrescentar que. Fidalgos de cota de armas do Algarve. o autor mostra-nos que esse processo foi a sequência da regressão das antigas famílias da fidalguia local dominantes nos séculos XV e XVII. Aí se constata que «é de verdadeira nobreza a maioria das famílias que detêm o poder nos concelhos urbanos do Algarve até ao século XVII. cruzando relações de vereações camarárias20 com o estudo do acesso de naturais do Algarve a cartas de brasões de armas e outras distinções da monarquia.51-110. modificou significativamente as perspectivas até agora prevalecentes sobre a evolução da elites locais na referida província.SOCIOLOGIA DAS ELITES LOCAIS (SÉCULOS XVII-XVIII) 63 como parece indispensável estabelecer. que no texto «Elites locais e mobilidade social…» fui induzido em engano no que ao Algarve se refere. já depois de elaborada a versão inicial deste texto. 2003.: Miguel Maria Telles Moniz Corte-Real. portanto. 2003. Em síntese. «Para o estudo das elites do Algarve no antigo Regime. no estado actual da investigação. gostaria. Camarate.

237 e seg. 15-51. frequentemente contraditória. distinguir entre simples nobres. são mesmo dois momentos distintos nas trajectórias das famílias ao longo de várias gerações. Poderíamos. a partir de finais do século XVII. ao invés da polarização entre nobres e não nobres (ou nobres e mecânicos). está longe de nos resolver inteiramente o problema. não consta que se comprassem comendas. pelo menos depois de meados de seiscentos. nem tão pouco os títulos nobiliárquicos. Honra.64 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS 2. . as quais só se alcançavam pelo real serviço. Só que o serviço ao rei tinha inexoráveis condicionalismos. Lisboa. ao contrário do modelo castelhano. «Notas sobre nobreza. De resto. 2001. Neste ponto. mas. Mas. aquilo com que nos defrontamos em Portugal é com uma miríade de distinções e hierarquias e com a extrema dificuldade em definir uma hierarquia nobiliárquica abrangendo todo o espaço geográfico e social da monarquia. A ascensão na hierarquia nobiliárquica podia fazer-se. não só outras distinções nobiliárquicas inferiores. pela riqueza – nesta se podendo incluir as alianças matrimoniais. fidalgos e primeira nobreza de corte21. de resto sempre em número de cerca de meia centena até 1790. A monarquia vizinha vendia. 21 Cf. 1987. consagrada pelo tempo. quase só pelo serviço ao rei. tal como os senhorios que antes se transaccionaram. foi sempre possível comprar hábitos a quem já tinha recebido a respectiva mercê da coroa. 22 Cf. a riqueza. mas ainda ofícios locais nobilitantes. as diferenças com Castela são muito relevantes. in Ler História. daí para cima e de forma progressivamente mais apertada. Nada de semelhante se verificava em Portugal. Como eloquentemente demonstrou Fernanda Olival22. A história das famílias constitui um terreno ainda em larga medida por explorar Tal como já tive muitas vezes oportunidade de destacar. n. mercê e venalidade: as Ordens Militares e o Estado Moderno. pp. muito sumariamente. que só tem relevância a certos níveis. pp. mas as coisas são quase sempre mais complexas. não consta que se vendessem senão em casos excepcionais depois de 1640. fidalguia e titulares nos finais do Antigo Regime». podia chegar a abrir o topo da pirâmide nobiliárquica. Fernanda Olival. para os efeitos agora considerados. Em geral. como uma forma de acumulação de capital económico – e pelo modo de vida.º 10. senhorios e até títulos. Desta forma. até certo patamar. a legislação. Em resumo. Nuno Gonçalo Monteiro. não se podiam comprar as distinções superiores da monarquia.

de Murcia. Não tanto porque se criassem instituições novas (matrículas da casa real. 1986. poderosos y oligarquías. pelo menos a prazo (depois do fim da Guerra. Familia. chamada de atenção para o problema em António Manuel Hespanha. No puzzle das instituições locais e centrais disponíveis. in Francisco Chácon Jiménez e Juan Hernandez Franco (eds. são os estudos de reconstituição de famílias ao longo de períodos razoavelmente dilatados no tempo. tanto em termo de produção de serviços à coroa ou de acumulação de capital económico. . 2 vols. a qualidade de nascimento. senhorios. no trabalho modelar de Pedro Brito26. Uma das formas de apreender essas apropriações e. pp. F. se foi tornando cada vez mais difícil. Monteiro. títulos. 17-37. Há algumas aproximações a este tipo de abordagem – por exemplo. Univ. porque em larga medida apropriadas pelas da corte24. morgadios. 26 Op. in Optima Pars. Mafalda Soares da Cunha e Nuno Gonçalo Monteiro. no governo das conquistas foi uma das portas possíveis. Elites Ibero-Americanas do Antigo Regime. As vésperas do Leviathan. 2001. 25 Cf. 24 O serviço no exército e. comendas. e esta é uma ideia forte que importa de reafirmar. cit. porque tendencialmente monopolizado pela «primeira nobreza de corte». 27 Op. Nuno G. 1668). cit. Para além de só estes permitirem medir a difusão ou não do padrão da primogenitura (o que se pode designar de «modelo reprodutivo vincular». habilitam-nos a medir até que ponto determinadas elites se enquistavam nas instituições locais ou se alargavam a espaços mais amplos. no livro de Mafalda Soares da Cunha27. uma imensa ruptura no equilíbrio entre grupos nobiliárquicos. embora com limitações inexoráveis. XVII. sobretudo. pois também aí pesava. etc. Murcia. as lógicas de reprodução social. a ascensão das elites locais em Portugal desde finais de seiscentos encontrava-se limitada pelas dificuldades que encontravam em aceder aos ofícios e às mercês do centro23. quanto pelas novas apropriações sociais e institucionais que se fizeram das instituições existentes. no de José Damião 23 Cf. cf.. mais globalmente. Lisboa (no prelo). «Governadores e capitães-mores do império Atlântico português nos séculos XVII e XVIII». Deste ponto de vista. Em termos muito sumários.SOCIOLOGIA DAS ELITES LOCAIS (SÉCULOS XVII-XVIII) 65 De facto. mais recentemente.). e ao invés de Castela. Lisboa. tudo vinha de trás). a Restauração representou. Instituições e Poder Político. parece que estas últimas só dificilmente estiveram ao alcance das famílias provinciais. e muito. e. que constituía em si mesmo um signo de capital social25). pode afirmar-se que o acesso aos ofícios e aos serviços que permitiam receber as tais mercês superiores da monarquia.. como no plano das alianças matrimoniais. «Trajectórias sociais e formas familiares: o modelo de sucessão vincular». Portugal – séc.

Os historiadores académicos pouco têm explorado as potencialidades dos fantásticos fundos de produção genealógica da época estudada. esboçou-se uma geografia dos níveis de riqueza e de nobreza das elites locais. o ponto de partida. bem como outros ulteriores. aos quais se poderiam acrescentar os das ilhas e até das conquistas. uma geografia diferencial das elites provinciais.Miguel…. sem sombra de dúvidas. Uma boa base de reconstituição de famílias permite muitos tipos de tratamento. das famílias e das respectivas estratégias de reprodução social30. O quadro que desenha fica assim muito mais completo e matizado. Em trabalho anterior. o estudo das elites locais a partir das famílias e das casas tem inequívocas potencialidades. Uma das quais é. Qual a base para a escolha? Qual o critério a eleger para reconstituir as famílias? A opção não é fácil e supõe sempre uma definição de critérios de hierarquização nobiliárquica. existe um fantástico fundo de produção de genealogias que facilita muito o trabalho. A maior dificuldade é. Ir-se-ão resumir esses dados para depois discutir uma outra dimensão da questão. Menos substantivas parecem as reservas sobre a informação conjuntural que se perde ou sobre as virtudes das análises de redes. com efeito. evidentemente. pelo menos para quem se ocupe de grupos fidalgos (mas não só)29. cit. Apesar das limitações apontadas. nas não ainda uma utilização sistemática desta metodologia clássica. matéria à qual se regressará. 3. o de emancipar este território de pesquisa de um excessivo enquistamento nas instituições municipais. acerca dos quais já antes se destacaram as dificuldades que levantam. a famílias principais e as «elites camarárias» nunca constituíram uma categoria social uniforme. 30 Op.66 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Rodrigues28 –. O livro recente de José Damião Rodrigues constitui. Existia. mas depois procede também à sua análise detalhada do ponto de vista das casas. um bom exemplo: estuda as famílias principais enquanto «oligarquias municipais». . O exercício de comparação de arrolamentos camarários em finais do Antigo Regime permite concluir que genericamente as elites locais eram 28 29 S. Não se ignoram muitas objecções que se podem colocar a esta escolha. Geografia da nobreza e fidalguia e construção de casas nobres Nas mais de oito centenas de municípios do reino. a esse propósito. Cit. as quais estavam longe de constituir o único centro de interesse para as principais famílias locais. Ora.

). em apenas cerca de meia dúzia de terras do Alentejo. 2003. na Beira Alta. menos presente no Sul do que no Centro e no Norte) com a maior riqueza e alguma mobilidade social (muito dinheiro do Brasil foi parar às casas do vale do Lima. eram mais ricas e mais fidalgas no Minho. acabando as duas dimensões por tender a coincidir. Leiria. cit. pp. Globalmente. por exemplo). No centro. De acordo com a informação recolhida. verifica-se que. Algumas notas». como seria de esperar. «A patrimonialização do espaço social rural e o património edificado. com 99 casas. mas agora concentradas em centros urbanos. Torres Vedras) tinham claramente menos importância. 217-230. Oeiras. em muitas povoações alentejanas não havia um único fidalgo reconhecido. Cf. Coimbra. in José Portela e João Castro Caldas (ed. Num exercício efectuado a partir de uma amostra escassa (apenas 223 casas) sobre a distribuição geográfica desse património edificado no território português do continente32. que está longe de ser muito completa. as povoações sede de comarca do litoral (Aveiro. embora nunca demasiado rápida e abrangendo quase sempre apenas certas famílias ou casas31. Portugal Chão.SOCIOLOGIA DAS ELITES LOCAIS (SÉCULOS XVII-XVIII) 67 mais ricas nas mesmas terras onde eram também mais fidalgas. 33 Distribuição de casas por distritos actuais Braga Porto Viana Viseu Guarda Coimbra 40 31 28 28 18 14 Évora Aveiro Bragança Leiria Castelo Beja 13 12 10 6 5 4 Faro Vila Real Lisboa Setúbal Portalegre Santarém 4 4 3 3 2 1 . Também. de resto. o peso esmagador da antiga província do Entre-Douro-e-Minho. Nuno Gonçalo Monteiro. encontrando-se aí dispersas por muitas povoações e até termos concelhios. os resultados apurados33 destacam. Mas 31 32 Cf. principiando por retomar a divisão distrital actual (18 distritos do continente). «Elites locais e mobilidade social…». ao mesmo tempo que sugere as dificuldade que estas tinham em aceder ao centro. Nuno Gonçalo Monteiro. nesta matéria. O estudo das casas armoriadas no território do continente português edificadas ou restauradas dos séculos XVII e XVIII fornece um indicador da vitalidade e da densidade das fidalguias provinciais. quase 44% do total. as câmaras mais ricas e mais fidalgas não traduziam linearmente a presença de uma fidalguia muito antiga mas sim a confluência de uma herança de fidalguia anterior (dos seus símbolos e modos de vida. do que as do interior (Lamego e Viseu). no Douro próximo da região demarcada do vinho do Porto.

apesar de tudo. partindo dos elementos recolhidos. Para além da referida distinção entre nobres e fidalgos (explicita. .68 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS depois vem claramente a Beira Interior. Por razões várias. 5 vols. Miranda Vila Viço. quando existiam 48 comarcas. torna-se possível esclarecer algumas dimensões suplementares: verificamos que. as comarcas da Beira interior aparecem à frente do Centro Litoral.. diversamente. Se. em larga medida. Acresce que. portanto. No entanto. no sentido antes referido de «modelo reprodutivo vincular». como se acaba de constatar. Luís Pimenta de Castro Damásio et al. 35 Cf. quer os estudos monográficos35 que se prendem com o tema que estudaremos de seguida. uma hierarquia nas nobrezas provinciais. a história casas-edifícios confunde-se com a das famílias e das «casas e morgados». 123 ficavam em comarcas «do interior»34. Uma vez mais. num total de 226 casas. é possível. 4. muito à frente do Centro Litoral e do Sul. 1989-2004. A hierarquia da nobreza das províncias Existia. bem espelhada no espaço. de resto. em regimentos 34 As 16 comarcas de Antigo Regime com maior número de casas Viana Guimarães Viseu Coimbra 27 23 17 16 Porto Barcelos Braga Évora 15 13 13 10 Lamego Guarda Trancoso Feira 10 8 7 6 Penafiel Castelo B. retomarmos a geografia em comarcas existente em 1825. Subsídios para o estudo da nobreza arcoense. Armando Malheiro da Silva. detectar uma apreciável correlação positiva entre as zonas e as localidades nas quais detectámos elites locais mais ricas e com signos nobiliárquicos mais destacados e aquelas nas quais se detectam também maior número de casas armoriadas. trata-se de uma via de investigação alternativa à análise centrada na instituição municipal. apesar da subavaliação do Sul e de todas as limitações das fontes. por exemplo. só parcialmente exploradas no caso português. Embora a coincidência não seja perfeita. 6 5 5 5 NOTA: Os territórios encravados da comarca de Barcelos foram incluídos naquelas com as quais tinham contiguidade territorial.. As duas coisas parecem coincidir. será muito difícil identificar alguma vez todas as casas armoriadas ou inequivocamente fidalgas que existiram no continente português durante o Antigo Regime. Arcos de Valdevez. têm inequívocas potencialidades. cujas virtualidades importa explorar. Casas armoriadas do concelho de Arcos de Valdevez. Uma vez mais. quer as tentativas de aproximação de conjunto. de acordo com as fontes consultadas. que aqui não cabe detalhar. de resto.

Bahia and Luanda. No arrolamento dos elegíveis para vereador da câmara do Funchal em 1787 João Carvalhal Esmeraldo aparece em primeiro lugar. talvez mais de duas dezenas de casas com um rendimento equivalente ao das menos afortunadas casas na primeira nobreza da corte. Charles Boxer. embora muitas explicitamente o tivessem pretendido. cit. ao contrário do pretendido noivo. maço n.. Portuguese Society in the Tropics. ele era e tinham sido «seus Avós Paternos. Fidalgos muito distintos».º 1661). Por outro lado. Macao. tentar esboçar outros limiares. Desembargo do Paço. foram raríssimos os fidalgos de província que casaram os seus filhos ou filhas sucessoras com a prole dos Grandes do reino desde finais do século XVII a inícios do XIX. The Municipal Councils of Goa. 1965. além da casa que herdara de seu pai. apesar das dificuldades apontadas. e o 36 Cf. é «fidalgo cavaleiro» (da casa real). fez ao matrimónio da sua quinta filha com outro fidalgo arrolado na mesma lista e acabado de fazer sargento-mor. Entre outros argumentos. como antes se disse. é possível. e sendo. o que não desconheciam. Madison. no divórcio que se foi cavando cada vez mais entre as elites da corte e as das províncias. a pertença a um mesmo rol de elegíveis para a governança de um município não servia para criar uma identidade social comum. Em primeiro lugar. Fidalgo da Casa Real e o primeiro arrolado para a Câmara do Funchal. tendo como referência sobretudo o século XVIII. de Belmonte. pelo lado materno. tem 53 anos e é reputado «rico». 37 Cf. Desde logo.SOCIOLOGIA DAS ELITES LOCAIS (SÉCULOS XVII-XVIII) 69 como os da câmara de Goa36). avultariam mais de cem mil cruzados por ano. e Maternos. «pelo motivo de desigualdade em qualidades»38. mas em quadragésimo segundo lugar e apenas com «bens suficientes». de cujas listas já constavam os seus antepassados pelo menos século e meio antes37. e da Cova. .) unidas no suplicante. Francisco Roque de Albuquerque também surge na mesma lista. descendendo pelo lado paterno do (único) Conde de Vila Pouca de Aguiar. D. pelo que «a antiga Nobreza destas duas casas (. que.. Existiam na província seguramente mais de uma. «aparentado com as casas de Unhão. assim como muitas outras da Primeira Nobreza». 38 Francisco Roque de Freitas de Albuquerque da dita ilha pretendia contrair matrimónio com uma filha do personagem antes citado. dos Mellos. era imediato sucessor da grande casa que fora do avô materno e que administrava uma tia. No entanto. o pai da desejada noiva alegava que. ou em seu filho. Op. Poder-se-iam retomar muitas histórias. Nelson Veríssimo. tendo então 36 anos (IAN/TT. Corte.. Uma exemplar é a da impugnação que em 1786 João do Carvalhal Esmeraldo da Ilha da Madeira. importa recordar duas questões sobre as quais muito se tem insistido. Joana Teresa do Carvalhal Esmeraldo Atouguia e Câmara.

Mafalda Soares da Cunha e Nuno Gonçalo Monteiro.70 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS intitulavam a pretender nobres e distintas alianças. Um indicador indirecto. o saldo da história não fugiu à expectativa: a filha acabou por casar como pretendia. mas essa declarada pretensão seria dificultada pela aliança em causa. . Mas também nas habilitações da Ordem de Malta se tendia a fazer equivaler a fidalguia imemorial às matriculas da casa real. até pela consabida falta de controlo no acesso e uso das cartas de Brasão de Armas. cit. Fosse pela qualidade dos imputados ascendentes. num sentido ainda mais restritivo. «Governadores e capitães-mores do império Atlântico português nos séculos XVII e XVIII». Curiosamente. As lutas pelo acesso às vereações e aos arrolamentos de nobres recentes contra presuntivos fidalgos. pode encontrar-se no recrutamento dos cavaleiros da Ordem de Malta. fosse pelo rendimento respectivo. Litigiosidade inter-familiar e noções de nobreza em Portugal (1750-1832). o que algumas vezes conseguiram (designadamente no exército e nas conquistas no século XVIII)41. pois o único filho sobrevivente.º Conde do Carvalhal feito em 1835. principalmente para o seu filho mais Velho. «Elites locais e mobilidade social…». como disse. mas significativo. e titulares famílias deste Reino. estabelecer uma hierarquia das nobrezas abaixo dos Grandes e da primeira nobreza de corte. no entanto. pois apenas se reportando aos que tivessem o foro de «moço fidalgo e daí para cima». que se pode circunscrever uma categoria ainda mais restrita que podemos definir como a da principal fidalguia das províncias. na regulação do acesso ao Colégio dos Nobres ou na lei dos casamentos de 1775 (há muito poucos moços fidalgos fora da corte)40. não nos deve fazer esquecer que no século XVIII cada vez mais as instituições centrais tenderam a fazer equivaler a fidalguia às matriculas da casa real. a fronteira entre a nobreza antiga de pelourinho e a fidalguia de linhagem não é fácil de definir. Nuno Gonçalo Monteiro. Curiosamente. 41 Cf. mais antigos e que usavam armas nas fachadas das suas casas. Isso é claro. não duvidariam dar uma filha». a quem algumas das mais distintas. estas casas tinham uma geografia das suas alianças matrimoniais que se estendia a todo o reino e aspiravam a servir a monarquia em lugares de algum destaque. 40 Cf. É difícil. que veio a ser o 1. morreu solteiro39. a única ordem efectivamente 39 Retomado da investigação em curso: Trinta Casamentos contrariados e outras histórias. ICS. por isso excepções) existiriam nas províncias do reino algumas centenas de fidalgos da casa real que delimitavam um segmento superior das nobrezas locais. Embora a variação dos critérios locais não se possa perder de vista (e a regra tenha. É importante destacar. e o pai não conseguiu o que queria. cit.

Dis. como. Mest. existia um pressuposto fundamental bem conhecido. uma relação de todas as casas da primeira nobreza das províncias.. Lisboa. aceder à corte. no plano geográfico: dos 92 referidos maltezes. mas à fidalguia das províncias. Os cavaleiros da Ordem de S. Mimeo. . Ao todo. E. portanto. sugerir vias possíveis de renovação de um território muito explorado nos últimos anos. para o período compreendido entre 1691 e 1826. os Pereiras Coutinho de Penedono ou os Silva da Fonseca de Alcobaça. os Pais do Amaral de Mangualde. Destes. servir a monarquia e. os Pintos de Lamego (que deram um Grão-Mestre e depois o Secretário de Estado e Visconde de Balsemão). ao mesmo tempo. não pertenciam à nobreza da corte. pp. A Ordem de Malta não fornece. Procurou-se. no sentido de que algumas casas nela criaram raízes e foram fornecendo recorrentemente maltezes (chegou a haver 5 irmãos maltezes!). Trancoso e Viseu) e 18 do Minho.SOCIOLOGIA DAS ELITES LOCAIS (SÉCULOS XVII-XVIII) 71 fidalga. 2003. militar e religiosa (destinava-se a secundogénitos) existente em Portugal. que foi estudada recentemente por Inês Versos42. Na época estudada. uma dimensão axial da questão e uma 42 Cf. 43 provinham da Beira. Mas dá uma excelente amostra do conjunto. Em síntese. por fim. que constitui. das mesmas zonas onde detectámos mais casas armoriadas! Entre os maltezes vemos filhos segundos de muitas das mais destacadas casas da primeira fidalguia provincial. É claro que não se trata de uma imagem de conjunto da primeira fidalguia das províncias porque a Ordem de Malta era uma questão de casas e famílias. 52%). quase só do que hoje chamamos Beira interior (sobretudo comarcas de Lamego. Os 92 indivíduos reduzem-se assim a 70 casas ou famílias ou até a menos (56) se considerarmos os laços de parentesco em primeiro ou segundo grau. dentro deste segmento mais restrito da fidalguia principais das províncias. 324 e seg. 92 (ou seja. em particular. Guarda. Ou seja. nem mesmo as poucas centenas de fidalgos da casa real existentes nas províncias chegavam a definir uma categoria social uniforme. De resto.João de Malta em Portugal de finais do Antigo Regime ao Liberalismo. Maria Inês Versos. vamos encontrar precisamente muitos daqueles que mais buscavam fugir aos ofícios locais. dispomos de informações para 174 cavaleiros. estas casas e famílias casavam muitas vezes fora das províncias de origem. 5. Desde logo. Nota final Nas páginas anteriores percorreram-se alguns temas da historiografia recente sobre as elites locais em Portugal no Antigo Regime.

o acesso à elite local podia ser a forma decisiva de serem reconhecidos como membros da elite social. identificadas pelo seu grau de nobreza. Alguns dos exemplos apontados nessa direcção parecem corroborar as suas indiscutíveis virtualidades. o que em larga medida se propôs nas páginas anteriores foi que se desloque o centro da análise dos grupos dominantes locais das «elites políticas» para as «elites sociais». Esse modelo do que numa terminologia weberiana chamaríamos uma administração de honoratiores. nos quais os seus antepassados pontificavam há muitas gerações. na qual não tinham nascido. das «pessoas da melhor nobreza.72 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS fonte quase perpétua de ambivalência: a cultura política prevalecente e a generalidade das intervenções legislativas da monarquia pretendiam que o governo local. que as «elites políticas» locais fossem recrutadas nas «elites sociais» locais (para retomar uma outra terminologia). repousasse nas mãos dos mais nobre das terras. 1709). Em síntese. procurava. assim. Para os grupos em processo de acumulação de capital económico. as famílias mais nobres e antigas podiam não estar interessadas no acesso aos ofícios locais. a todos os níveis. de 18 de Out. No entanto. Inversamente. não coincidiam necessariamente. nas próprias disposições normativas da época. portanto. partindo do postulado de que estas seriam as mais desinteressadas e também aquelas cuja autoridade seria mais facilmente acatada. cristandade e desinteresse» (Alv. Os dois planos confundiam-se. .

No entanto. Os Municípios no Portugal Moderno: dos forais manuelinos às reformas liberais Lisboa. José Viriato CAPELA. Em qualquer dos casos. A designação. consoante a categoria políticoadministrativa. como a repartição e cobrança de impostos. 73-86. a extensão e os habitantes dos municípios. a função de guias e caminheiros. I.). mais ou menos longos e irregulares. Sociologia e práticas administrativas TERESA FONSECA (CIDEHUS) O funcionalismo camarário constituiu um dos pilares da administração local do Antigo Regime. pp. a partir da época liberal. entre a segunda metade do século XVII e o primeiro vinténio do século XVIII. 1996. auxiliando os seus agentes nas mais variadas tarefas da governação e assegurando o quotidiano camarário nos intervalos. as funções. polic. em serviços públicos. 43-48. mantinha-se consideravelmente inferior ao actual.O funcionalismo camarário no Antigo Regime. mais evidente no interior do país e fora dos grandes centros urbanos. 373. vol. Nas vilas de Caminha e de Montemor-o-Novo era este precisamente o seu 1Este 2 3 reduzido aparelho administrativo era. Entre-Douro e Minho. o modo de provimento e até a origem social. os vencimentos. Finanças. 1987. o transporte de presos. aos munícipes. de um elevado número de funções. mas também a debilidade burocrática da época1. Planeta. Lisboa. Para a história da administração pública na Lisboa seiscentista. administração e bloqueamentos estruturais no Portugal Moderno (tese dout. João Pedro FERRO. Braga. de longe a maior e mais populosa cidade do Reino. divergiam consoante os concelhos. 2005. possuía. p. a colaboração com materiais e mão de obra nas obras municipais e muitas outras. dotada de um sistema administrativo excepcional no conjunto dos municípios portugueses. p. gradualmente organizadas. 1750-1830. reflectindo as especificidades administrativas concelhias da época. Edições Colibri – CIDEHUS-UE. no entanto. a média nacional do pessoal camarário nos municípios com juiz de fora não passava de sete elementos3. O seu número era também variável. . compensado pela imposição. das reuniões de vereação. um montante de funcionários excepcionalmente elevado: cerca de 6802. reflectindo a escassez de quadros técnicos. Lisboa.

037. 271. sendo as principais funções exercidas por oficiais dos concelhos vizinhos13. as instituições e o poder. Relações de poder no Antigo Regime. 9.. 1997. Montemor-o-Novo. (Câmara Municipal de Arraiolos). Teresa FONSECA. em virtude da maior extensão destas circunscrições administrativas e das distâncias entre as diferentes localidades. 11. V. Borba três6 e Vila Nova de Cerveira apenas dois7. Entre-Douro e Minho .A. se integrou neste cômputo outros magistrados régios sediados na cidade.M. Sobre a questão da comarca de Estremoz. C.. aproximadamente o mesmo no Porto10 e 14 em Évora11. p. 24 (1775-1814). Estão no primeiro caso os funcionários da almotaçaria. Excluímos o juiz de fora. António Henriques da Silveira e as «Memórias analíticas da vila de Estremoz».E. p. (Câmara Municipal de Borba).M.E. 4 Para Caminha veja-se J. “Memorias annaliticas da Villa de Estremoz”.M. 253 e 254. 2000. Receita e Despesa (1813-1838). 3. Estremoz. V. p. que no entanto provia ainda um elevado número de funcionários. Receita e Despesa (1800-1812). 9 José Viriato CAPELA. Entre-Douro e Minho. 13 J.. 528-532. I.M. vol. veja-se António Henriques da Silveira. 339. CAPELA. poder e governo municipal. no entanto. 11 Teresa FONSECA. cujo ordenado provinha ou das receitas próprias dos serviços ou de entidades exteriores à câmara. 25.A. do terreiro do pão.. Nas localidades com categoria de sede de comarca. E para Arraiolos. p. 10 Francisco Ribeiro da SILVA.H. Na região de Entre-Douro e Minho. 8. p. (Arquivo Histórico Municipal de Arraiolos)..74 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS número4. Câmara Municipal. Évora. Lisboa. A administração municipal em Montemor-o-Novo (1777-1820). Entre-Douro e Minho . Câmara Municipal.E.D. Cx. Vila Nova de Cerveira. O município de Chaves entre o absolutismo e o liberalismo (1790-1834). Nos municípios presididos por juizes ordinários o seu número. . in Teresa FONSECA. f. Universidade do Minho. 46. 77. 2003. o segundo mais importante município da comarca de Évora e também sede da sua própria comarca até finais do século XVI. 372. ed. A. Porto. CAPELA. Colibri. CAPELA. O Porto e o seu termo (1580-1640). pp. 2002. vol. Incluímos apenas os funcionários com ordenado pago pela edilidade. p. constituíam uma média de doze para um conjunto de treze câmaras. E para Montemor. E Lv. (Arquivo Distrital de Évora) / C. Mas a sul do Tejo o montante crescia.). I. p. 48 e 52. 37 em Vila Real9.B.. vol. 1995. Elites. . Lisboa.. 12 Arquivo Histórico Municipal de Estremoz (A. e no segundo. Os homens. Câmara de Estremoz (C. Braga. 8 J. a. 155-156.. embora inferior. f. 86-87. Receita e Despesa (1809-1817). 5 Para Chaves veja-se Rogério Capelo Pereira BORRALHEIRO. Mas Chaves e Arraiolos possuiam quatro5. Desconhecemos. 373. vol. 1988. V.. 27. Braga.. I.). Colibri. 1750-1820. p. / E / 001 / Lv. 6 A. p.H. 7 José Viriato CAPELA. . 595-689. p. possuía 812. 210. incluído nesta contagem do autor.038.. os aferidores dos pesos e medidas e o escrivão do real da água. os que dependiam do juízo do geral ou do juízo dos órfãos. Absolutismo e municipalismo. Entre-Douro e Minho. era também variável. o montante subia consideravelmente: 31 em Braga8. II.

(Câmara de Cabrela). e 11 v. diss de doutoramento (polic. Na impossibilidade de abordarmos exaustivamente esta complexa e diversificada rede de funcionários. No topo da hierarquia situava-se o escrivão da câmara. Perfil de um poder concelhio. Évoramonte pertence actualmente ao concelho de Estremoz e o Vimieiro ao concelho de Arraiolos. O antigo concelho de Lavre encontra-se presentemente integrado no de Montemor-o-Novo. 1990. (1779-81). Receita e Despesa (1782-1800). partilhava a Mesa do Senado da Câmara com o presidente. Câmara Municipal. incluindo as presididas por juizes ordinários.H. Administração. L. A importância do ofício patenteava-se no lugar de destaque ocupado em funções e cerimónias públicas e nos avultados ordenados e chorudas propinas auferidos nos grandes e médios concelhos. vol.M. 20 Maria Virgínia Aníbal COELHO.M. em regra superiores aos do juiz de fora e muitas vezes também ao da totalidade dos restantes funcionários17. / Évoramonte. que por isso mesmo se encontravam presentes na maioria das municípalidades. 6. 2v.N. 036. 1995. assim. 1995. (1782-87).. 387-388. em situação equiparada à dos membros da governança19. p. Universidade do Minho.. E para O Vimieiro.C.M. sentava-se em cadeiras da vereação. 15 Para Almada veja-se Aires dos Passos VIEIRA. 12 e 13.A. p.O FUNCIONALISMO CAMARÁRIO NO ANTIGO REGIME 75 factores que inviabilizavam o aproveitamento de recursos humanos verificado a norte. (Câmara de Lavre).N. José. No Porto. C.U. E para Cacela. Eram.N. Vila Real de Santo António.S. Cacela no século XVII (Dez anos de governo autárquico).V. 483. Id. E1 D1 Receita e Despesa (1797-1806). O Minho e os seus municípios.M. Embora formalmente excluído do governo municipal. / E / 001 / Lv 023 Receita e Despesa (1811-1825). Em Évora. 038 (1791-1803).M. / U.. 10v.. . José a 17 de Março de 14 Para Évoramonte veja-se A. E para Cabrela veja-se A.H.. sociedade. Receita e Despesa (1810-1819).. 25. 103-108. Almada. f. cinco em Évoramonte e no Vimieiro14. 1993.M. / C..H. Lv. (Câmara Municipal do Vimieiro).L. A. O Porto e o seu termo. Para a história da administração. Estudos económico-administrativos sobre o município português nos horizontes da reforma liberal. 145. p.. Em Lisboa. F. p. T.M. Na vila de Santarém. da SILVA.H. Almada no tempo dos Filipes. 42-43. quatro em Almada e em Cabrela15 e três em Lavre e em Cacela16. p. 18 João Pedro FERRO. Lisboa. desempenhava nele um papel imprescindível. 035. Braga. B / 001 / Vereações Lv. O antigo concelho de Cabrela faz hoje parte do de Montemor-o-Novo. 19 F.). I... p. desfilava a seguir ao procurador do concelho e ao alferes da câmara20.. no cortejo da cerimónia da quebra dos escudos efectuada pela morte de D. p. 41-42. seleccionámos os mais significativos do ponto de vista político-administrativo..E. Câmara Municipal. Hugo CAVACO. 16 A. Santarém durante o reinado de D. f. economia e cultura (1580-1640). (Arquivo Histórico Municipal de Montemor-o-Novo) / C. FONSECA. / C. F1 D4. Absolutismo e municipalismo. e Lv. os vereadores e os procuradores da cidade e dos mesteres18. 17 José Viriato CAPELA. R.

493-494. p. os seus detentores eram homens de confiança do rei. Livro 9º de Registos (1769-1828). pertenceram todos a uma única família da pequena nobreza da cidade. 21 Arquivo Distrital de Évora (A. Gouveia28. Este prestigiado cargo era geralmente atribuído a pessoas nobres. sendo um cavaleiro fidalgo e outro moço de câmara. José Damião RODRIGUES. nomeadamente um escudeiro fidalgo da Casa Real. O Porto e o seu termo. eram elementos da nobreza local. Maço 634. entre 1770 e 1800. ainda nos finais do Antigo Regime. 30 O de Seda (comarca de Avis). f. T. Veja-se Sérgio da Cunha SOARES. 1986. 4. P. o único proprietário do cargo foi um fidalgo. Seda 30. Emília Salvado BORGES. vol. . no século XVII. p. 23 No Porto no período filipino. ter já por diversas vezes “servido na governança” da mesma vila. Veja-se Francisco Ribeiro da SILVA.C. de doutoramento (polic.. 49. dois criados do Rei. o lugar esteve nas mãos de “notáveis locais”.. Coimbra27. Poder e poderosos na Idade Moderna 2 vols. o segundo e o terceiro proprietários do ofício. dos P. Cuba29. mas o próprio procurador do concelho21. entre a Restauração e o Pombalismo.. Cf. era da nobreza da vila e os seus parentes estavam “sempre na vereação”. Ponta Delgada no século XVII. 28 Em Gouveia.79. T.P. I. (Repartição das Justiças e Despachos da Mesa). Faculdade de Letras.P. 58. 32 Os de Évora. 1995. 26-26v. J. p.. O município de Coimbra da Restauração ao pombalismo. 2000. Publicações Gaudela. em Almada24. Gouveia. Terena31 e Évora32. Doc. Eduardo MOTA. elevada à categoria de município em 1782. 22 Maria Helena da Cruz COELHO e Joaquim Romero de MAGALHÃES.M. p.. sentenças e alvarás (1795). 87. Instituto Cultural. à aristocracia local. Cf. Cf...D. pela morte do Senhor rei D. Ponta Delgada. 104-106.. 26 Em Ponta Delgada. (Torre do Tombo) D. Maço 1525. 1990. C.-A. Veja-se A.D.). 19 e 323. embora de recursos modestos22.. Cf.) / Arquivo da Câmara de Évora (A.76 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS 1777../D. 25 Os de Chaves pertenciam. . foi exercido por cidadãos de precária condição económica. Poder municipal e oligarquias urbanas. Cf. O município de Chaves . 499. Lisboa. Provisões. T. antecedendo não só o tesoureiro.. Almada no tempo dos Filipes . Coimbra. foi sempre atribuído a indivíduos incluídos na categoria de cidadãos. 29 Na vila de Cuba. eleitos diversas vezes almotacés. p. seis dos quais chegaram a servir de vereadores e de procuradores.. p. “Forma por que se fés o quebramento dos Escudos nesta Cidade de Evora a 17 de Março de 1777. O poder concelhio. I. o filho de um procurador da cidade e um vereador no período posterior à Restauração. vol.. Cf. entre 1750 e 1820. Homens. em 1812. provisão de 16-4-1795. FONSECA. A. 1994. 228. p. nos finais de setecentos.T.). Das origens às cortes constituintes. no mesmo período. Centro de Estudos e Formação Autárquica. caminhou imediatamente a seguir aos vereadores e juiz. diss.E. como pudemos constatar no Porto23. (Desembargo do Paço). Ponta Delgada26. fazenda e poder no Alentejo de setecentos. p. José Iº”.. BORRALHEIRO. p.E. Coimbra. Administração municipal em Gouveia em finais de setecentos. Absolutismo e municipalismo. 24 Em Almada. livº 143. R. VIEIRA. Chaves25. pai e filho. Colibri.T. sendo até incluídos nos róis de elegíveis. 27 Em Coimbra. 31 O escrivão da câmara de Terena afirmava.

Relações de poder. Vereações (1753-1770). S.H. em livro próprio. as receitas e as despesas do concelho. 35 E. 38 Em Coimbra.. por Luís VIDIGAL. Registava todos os mandatos. 25... Mas na maioria das localidades. 49. da C. / C. F1 B2... Cf. na centúria seguinte e em Elvas. 40 Entre 1777 e 1816. Alberto de Sousa Amorim Rosa. FONSECA. em 1759.E. Anotava o movimento do gado e passava certidão dos requerimentos formulados aos membros da edilidade. o ofício conheceu apenas três proprietários. Colibri. p. O município de Coimbra.. p. p. MOTA. Estremoz41 e Évora (a partir de finais de quinhentos)42 era de nomeação vitalícia. No município de Lavre o provimento competiu ao marquês de Gouveia. 34 T. Abrantes37. pertenceram a três gerações da mesma família. nos municípios directamente dependentes da coroa. L. acordos. 123. p. pelo Desembargo do Paço.M. 41 A. nas terras de domínio senhorial33. Cf. / C. vol. As funções do escrivão da câmara vinham estabelecidas nas Ordenações. nobreza e povo.... ou pelo donatário. cit. até à extinção da donataria. Absolutismo e municipalismo. o lugar foi ocupado sucessivamente por pai e filho. juntamente com os membros da edilidade34. Redigia as actas das eleições trienais dos agentes do governo local. Abrantes – a vila e o seu termo no tempo dos Filipes (1580-1640). que na prática se tornava. incluindo Gouveia35. Administração municipal. Coimbra38. 1993. Poder e sociedade em Vila Nova de Portimão (1755-1834)...T.M. FONSECA. 77. VI. Cf. Tomar39. 36 Maria Virgínia Aníbal COELHO.. existiu igualmente. FONSECA. 37 Os cinco proprietários do ofício dos sessenta anos de dominação filipina. p.. SOARES. O poder con- celhio.. mediante proposta camarária. vinha incluído anualmente na pauta régia. I. 228-229. Câmara Municipal. p. entre a primeira metade do século XVII e a segunda metade do século XVIII. id. Anais do município de Tomar. p. Lisboa. Câmara. uma “poderosa dinastia” de escrivães. 39 Em Tomar. Receita e Despesa (1778-1787) e (1809-1817). respectivamente Teotónio Manuel de Melo e João Joaquim de Melo.. Campo Maior e Loulé até ao fim do Antigo Regime. Terena.. Assentava. Santarém36. todos pertencentes à mesma família da pequena nobreza local. p.. nos séculos XVII e XVIII. 147-149.O FUNCIONALISMO CAMARÁRIO NO ANTIGO REGIME 77 A forma de provimento do ofício era variável. 1771-1800. Podia efectuar-se trienalmente.N. 174. Montemor-o-Novo40..H. Absolutismo e municipalismo. Registava os processos 33 Maria Helena da Cruz COELHO e Joaquim Romero de MAGALHÃES.M. alvarás. Veja-se T. Joaquim Candeias da SILVA. Perfil de um poder. 58.. Portimão. Vereações (1815-1820).. termos de obrigação ou de fiança e outros similares. 535. p. A. . durante grande parte do século XVI.. hereditária.E... em Viseu. os detentores do cargo pertenceram a seis gerações da mesma família. p. 2000. geralmente. 42 Entre 1733 e 1820. Em Évora. 228.

Passavam aos munícipes as cartas. as suas tarefas ultrapassavam largamente as estabelecidas na lei geral. Procediam a inquéritos para fins diversos. principalmente de natureza económica e militar. tanto de vintena como dos ofícios mecânicos. CAPELA. forais. tanto da cobrança das rendas régias e camarárias. provisão de 7-9-1793.. Elaboravam os manifestos do gado.. Actualizavam o tombo dos bens concelhios. p. Tal privilégio foi atribuído aos escrivães de Évora45. de Aldeia Galega (actual Montijo)47. tombos. Competia-lhe ainda a posse de uma das chaves da arca do concelho. carne e outros produtos. Registavam os actos de arrematação.F. tinham a possibilidade de requerer ao Desembargo do Paço a nomeação de um escrevente ou ajudante. vinho e outros produtos ao concelho. passando as respectivas guias e certidões. Porém. sentenças e alvarás (1793).. e 500-501. J. (Ordenações Filipinas). onde se guardavam as escrituras. preços e salários. bem como a correspondência endereçada à municipalidade.D. do Porto46. compra ou venda de bens do município.. O Minho e os seus municípios .T. E secretariavam as vistorias e outras visitas de inspecção promovidas pelos camaristas44. de Valença 43 O. T. Maço 1523. Elaboravam as escrituras notariais de arrendamento. FONSECA. trigo. R. 487-488. p.. L. como posturas. T. p..M. ordenando a sua afixação em locais próprios. Participavam nas correições camarárias. 229-230.... Para cumprir eficazmente tão amplas obrigações. 71. tanto por particulares como pelas mais diversas instituições. como do fornecimento de carne. redigindo as respectivas actas. competia-lhes ainda a elaboração das actas das reuniões camarárias e de outros actos públicos em que participassem os membros da governança.P. pão. Redigiam proclamações.. / D. 230. 45 T. avisos. vol. como entradas régias ou de prelados.. V.. azeite. Provisões. licenças e termos de juramento. . FONSECA. 140. Passavam a escrito todo o tipo de determinações municipais. Absolutismo e municipalismo..78 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS de injúrias verbais despachados em câmara. privilégios e outra documentação importante43. necessários ao exercício de certas actividades profissionais. 47 T. convocatórias. 1. na prática. da SILVA. notificações e editais. 46 F. Com efeito. O Porto e o seu termo. que os auxiliassem nas tarefas não abrangidas por segredo de justiça ou outra matéria sigilosa. p. Copiavam ordens. Redigiam os termos da tomada de posse dos oficiais e funcionários camarários e dos juizes e escrivães. alvarás e provisões emanados das instâncias superiores do poder. devia ler aos oficiais da edilidade e almotacés os respectivos regimentos. 44 T. Absolutismo e municipalismo. e cerimónias festivas ou de quebra dos escudos. Na primeira vereação de cada mês. regimentos e tabelas de taxas.. I. Organizavam os processos de aforamento dos baldios.

atribuídas não por qualquer razão prática.P.D. FONSECA. (1794).. além de escrivão do subsídio militar da décima da cidade e do termo escriturava também os reais da água da carne e do peixe53. onde os cargos eram mais trabalhosos e havia mais gente capaz de os exercer. 231.M. mas até nefastas ao eficaz exercício das funções. Nos pequenos concelhos. Eram. estes oficiais camarários na capital alentejana. as acumulações eram não apenas dispensáveis. Maço 1527. No século XVIII. / D. exercia funções idênticas relativamente às sisas e aos direitos reais. dois foram procuradores da cidade e o terceiro era tabelião do judicial49. Os escrivães exerciam frequentemente outros cargos públicos. / C. dispensando até a justificação prévia exigi48 Id. o escrivão da câmara era-o também do judicial e notas.. Maço 1523. sentenças e alvarás (1797). provisões de 8-8-1793 e 17-8-1793. mas antes em virtude do prestígio do cargo de escrivão. Maço 1523. Provisões. o escrivão da câmara de Pereira. Absolutismo e municipalismo. Em Lamego. O de Alcácer do Sal era igualmente escrivão do celeiro comum52. p. Provisões.. as razões mais invocadas nos pedidos de acumulação eram a falta de pessoas capazes. . assim. Id.. 230. 50 A. Absolutismo e municipalismo. sentenças e alvarás (1793). 49 T.N. p. comarca de Santarém. vereações de 10-10-1753. contador e inquiridor dos órfãos. provisão de 29-5-1797. Provisões. Vereações (1753-1770). F1 B2. Dos três nomeados para assessorar. 52 Id. O seu congénere de Aldeia Galega. E no mesmo mês e ano. 13 – 13v. A categoria sócio-profissional destes escriturários confirma-nos o prestígio do cargo de escrivão. o pouco trabalho dos ofícios e o seu baixo rendimento económico. 4v.L. Mas as acumulações ocorriam também nos municípios de superior dimensão e categoria. f..O FUNCIONALISMO CAMARÁRIO NO ANTIGO REGIME 79 do Minho48 e provavelmente de todos os concelhos onde se justificou a sua existência... FONSECA. juntando ainda a estes três cargos o de contador e distribuidor na mesma vila.. Provisões.. comarca de Coimbra. foi investido no ofício de tabelião do judicial e notas51. o escrivão da câmara. Maço 1525.H.. provisão de 29-7-1794. do juizo do geral e das armas50. E o de Évora.. 51 T. T.... provisões de 5-7-1794 e de 7-9-1793. já então também escrivão da almotaçaria e distribuidor..M.T. o que levava frequentemente à nomeação dos escriturários acima referidos. nestes concelhos importantes. Em 1793. 53 T. sentenças e alvarás (1793). entre 1750 e 1820. dos órfãos e das sisas de Vila Nova da Erra. f. o escrivão da câmara de Lavre servia simultaneamente os ofícios de tabelião de notas e os de escrivão da almotaçaria. e de 12-11-1754. obteve provisão régia para juntar aos três ofícios o de recebedor dos direitos reais da mesma vila. Porém.M.

“quem tudo governa”. Em 1804.H. quando chegavam de novo a uma terra. delegava nestes oficiais prerrogativas excepcionais. Absolutismo e municipalismo. A assistência.. 55 T. por não cumprir uma ordem sua e lhe responder com arrogância57. 56 A. Receita e Despesa (1809-1817). redigiu uma nota no livro da receita e despesa camarária desse ano. Por isso..T. proporcionava-lhes um perfeito conhecimento dos assuntos municipais.) e dispotismo” sobrepunha-se a “todas as Leys e Ordenações”. José e a revolução vintista. a familiarizarem-se com a realidade local. já ultrapassado. às vereações e outros actos administrativos. influenciando antecipadamente as deliberações do corpo camarário. Os Açores. compreensível.. / C. o escrivão da câmara do Redondo. A sua “autoridade (. vol. foi preso pelo jovem e recém chegado juiz de fora. Doc. enquanto lia as petições dos munícipes. no entanto. o advogado José António Xavier da Silva Sintrão. baseado num alvará seiscentista considerado. na câmara. f. Nas reuniões do senado.. A. p. 156. considerava que o então detentor daquele cargo. eram naturalmente auscultados pelas 54 T.. . registado pouco antes no mesmo livro58. acrescentava a sua opinião. E em 1816. pelos magistrados da comarca. de MENESES. em muitos casos durante décadas../D. 57 T. numa evidente manifestação da sobreposição do critério do privilégio sobre o da racionalidade administrativa. o plenário camarário56. FONSECA. Maço 574.E. quando... Em 1793. ajudando provavelmente os próprios juizes de fora. 58 A. era.80 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS da aos pequenos concelhos... Vejamos apenas alguns exemplos da influência dos escrivães na vida municipal. FONSECA. 231.. 159-160. A maioria das edilidades açorianas da mesma época. se devia limitar a redigir o que lhe era ordenado pela vereação54. no entender do procurador. permitindo-lhes assim assegurar o normal funcionamento administrativo sem ter de reunir. contrária a um provimento do provedor.. I. durante longos períodos de tempo. Elementos de estabilidade. o lugar foi ocupado apenas por três proprietários pertencentes à mesma família55. eram os escrivães quem estabelecia a ligação entre as sucessivas vereações. p. tornando-os os principais depositários da memória camarária.E. o congénere de Estremoz. 232. p. se considerarmos que nas sete décadas decorridas entre a entronização de D.P. 88.-A.. mais habituado a mandar que a obedecer. na altura procurador do concelho de Évora. Tal ascendente é.M.. Absolutismo e municipalismo.F. Francisco José Guedes de Melo.

“por ser o procurador muito ocupado em andar por fora” . vol. O processo de nomeação do tesoureiro variava consoante as terras. a gestão dos assuntos correntes. a maior parte dos municípios designava já uma pessoa para o desempenho específico do cargo.H. Competia-lhe receber as rendas do concelho e pagar as despesas ordenadas pelos vereadores.F. Universidade Portucalense.H. O Porto e o seu termo. confundindo-se. Usufruindo de uma situação privilegiada. 65 Designadamente na Praia. Administração municipal. 61 F. Avelino de Freitas de MENESES. 146-148. Velas.-A. Horta.. Mas na centúria seguinte. Doc. I. 66 F. História social da administração do Porto (1700-1750). a eles devemos uma boa parte do que hoje conhecemos da administração municipal do Antigo Regime. 63 Em Lavre. asseguraram.M. não a podendo dispender em coisa alguma. / C. S. Receita e Despesa (1810-1819). da SILVA... como sucedeu em 1769. I.E. em regra. Universidade dos Açores. L./D.N.O FUNCIONALISMO CAMARÁRIO NO ANTIGO REGIME 81 autoridades locais. F1 B2. 62 A. 504. mesmo se para tal recebesse ordens dos ministros da comarca ou dos membros da edilidade “sob pena de a pagarem de suas casas”59. No entanto. Também arrecadava a terça régia. vol. pela administração dos dinheiros públicos. vol. Maço 831. 1993.. exercidas pelo procurador do concelho. cometendo até excessos e arbitrariedades. 503. Madalena. R..T. No Porto66.. MOTA. 46. f. 1. com discrição e alguma eficácia. p. embora o tradicional sistema tivesse subsistido em diversas localidades.. p. Autores. Calhete. em última instância.P. 67 F. evitando situações eventualmente caóticas ou de ruptura. p. com as do próprio governo camarário.. E. . I.. Évoramonte62. Até ao século XVI.. O tesoureiro tinha a seu cargo a actividade financeira do município. O Porto e o seu termo. A.. O Porto e o seu termo. 40. 70. Vereações (1753-1770).M. p.M. Porto. particularmente em situações de especial complexidade. apenas se nomeava um tesoureiro em situações excepcionais. 1999. da SILVA. p. R.. T. vereação de 31-12-1769. ou pelo menos responsáveis pela escrituração camarária. / Évoramonte.. Topo.L. 211. Albufeira e nas localidades alenteja59 60 O. p. R. ultrapassavam frequentemente as suas competências legais. Lagos. nestes casos. Ana Sílvia Albuquerque de Oliveira NUNES. as suas funções eram. Lajes e Santa Cruz. Sebastião. como Gouveia60. da SILVA. – A. Alverca. Os Açores nas encruzilhadas de setecentos (1740-1770) – I – Poderes e instituições. em Viseu67. 503. 225. responsáveis. Ponta Delgada.. em épocas de crise administrativa local e nos períodos conturbados da vida política nacional. 64 T. Guimarães61. Lavre63. Albufeira64 e ainda nos Açores65..

. geralmente associado à usura. o corregedor acrescentava-lhes ao nome o presumível valor do património ou do rendimento. verifica-se geralmente uma certa cumplicidade entre estes dois oficiais.) o vereador mais velho. no século XVII. o provimento efectuou-se tanto trienalmente como vitaliciamente. burgueses enriquecidos pelo comércio.. passando a partir de então a ser de nomeação régia. – A.82 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS nas de Portalegre. proporcionava aos seus detentores a preferência na arrematação das rendas camarárias.T... Manuel. p.. Em Évora. quando referia as características adequadas ao tesoureiro eborense: “um oficial dos que andam nos Mesteres. O referido procurador Xavier Sintrão. Absolutismo e municipalismo. na cobrança dos impostos régios. FONSECA. e Escrivão da Camara e Thezoureiro . no fornecimento de carne e outros bens essenciais. Quando arrolados nas pautas. vinha anualmente incluído na pauta68.. exigia deste oficial abastança suficiente para compensar. mediante prévia apresentação da câmara.P. FONSECA. p. rico. 72 T.. não obstante a responsabilidade que envolvia.”72. O perfil mais comum dos detentores deste cargo durante a Época Moderna havia já sido enunciado em 1501 por D. os provedores 68 T.. Como a escrituração da contabilidade camarária constituía matéria da competência do escrivão. os défices camarários. o mesmo sistema vigorou até 1501. FONSECA.. 70 T. Além de conferir prestígio e possibilitar a almejada ascensão social da burguesia endinheirada. 231... da sua fazenda. Absolutismo e municipalismo. Absolutismo e municipalismo. / D. cujos lucros compensariam largamente o prejuízo inerente a uma função aparentemente ingrata71. que fica só entre (. Maço 831. à exploração fundiária e à produção artesanal ou manufactureira. 69 T. A precária situação financeira da maioria das câmaras. 235. Com efeito. Odemira. Doc. p. FONSECA. Absolutismo e municipalismo. tanto mais elevados quanto mais importante era o município..-A. agravada nas últimas décadas do Antigo Regime pela sobrecarga de tarefas e encargos fiscais impostos pelo poder central. sendo este último regime adoptado definitivamente a partir da centúria seguinte69. De facto eram. nos grandes e médios concelhos. extensiva aos próprios vereadores.. denunciava o facto de as contas do município eborense constituírem “segredo. e 394-399. O cargo de tesoureiro... 236-238. Estremoz e Montemor-o-Novo. e para o tal cargo e ofício mais apto”70. 233.. 71 T. Viana. p. era cobiçado nas de maior dimensão. ou simplesmente as expressões “he abonado” ou “bastante abonado”. 32 e 40. pouco apetecido nas pequenas localidades. no arrendamento de herdades e mais bens concelhios ou em outros negócios...

. do dinheiro dos impostos régios ou das verbas da comparticipação nos ordenados dos funcionários da administração central. 619-622. a retenção. às sessões camarárias.. O Porto e o seu termo. A. Assistia. nos locais públicos habituais. p. contando-se.E. Receita e Despesa (1809-1817).H. R. O Porto e o seu termo. 271-272. tesoureiros e eleitos locais pelas irregularidades cometidas na gestão financeira dos municípios. Afixava editais. conferia-lhe algum prestígio. da SILVA. dos paços do concelho para outros locais onde tivessem lugar cerimónias a que assistisse a vereação. notificações e embargos. vol.M. O porteiro da câmara exercia funções similares às consignadas nas Ordenações para o guarda-mor da Casa da Suplicação ou da Relação73. salvaguardando naturalmente a diferença institucional dos cargos. p. Preparava a aposentadoria dos ministros da comarca e da provedoria. R. anunciando e encaminhando os munícipes que compareciam a prestar juramento perante a vereação ou para apresentar qualquer questão74. II. Superintendia na arrumação da sala das reuniões e no transporte de cadeiras.. Absolutismo e municipalismo. um obstáculo relativamente eficaz aos esforços dos magistrados régios. FONSECA.. do exterior da sala. Tal atributo.. De origem sócio-económica modesta. a relutância dos dois funcionários em aceitar interferências nos seus tradicionais métodos de trabalho. a imprecisão do registo das receitas e sobretudo das despesas. Efectuava. constituiu. do mesmo modo. Armava as igrejas para as cerimónias religiosas da iniciativa da câmara. Como sucedia na generalidade dos ofícios públicos.. as decisões camarárias cujo conteúdo se entendia necessário divulgar aos munícipes.. em muitos concelhos. convocatórias. p. os diversos concursos e arrematações.E. / C. Anunciava.. conjugada e reforçada com o empenhamento dos dirigentes locais na defesa dos seus privilégios. quando se deslocavam às localidades em serviço de correição. a ocultação de ingressos paralelos.O FUNCIONALISMO CAMARÁRIO NO ANTIGO REGIME 83 corresponsabilizavam frequentemente escrivães. por ocasião de festas e comemorações. Enviava recados a casa dos oficiais camarários. Deste modo. Procedia ao inventário do património municipal. vol. pelo menos. da SILVA. T. este oficial subalterno tinha. Colocava luminárias nas janelas e varandas dos edifícios municipais. no sentido do cabal cumprimento das determinações do poder central em matéria de finanças locais. II. Apregoava. associado à importância e visibilidade das suas funções.. em nome da câmara. o pagamento de propinas sem a correspondente provisão régia. total ou parcial. entre as mais vulgares: a utilização de métodos contabilísticos ultrapassados.. 619-620. de saber ler e escrever.. o cargo era vulgarmente transmitido de 73 74 F. Efectuava diversas compras por ordem dos camaristas. F.

/ C. muitos municípios possuíam um ou vários oficiais menores cuja acção incluía as áreas da justiça e do policiamento. assinando o respectivo auto. mais de vinte porteiros. quase sempre analfabetas. Lisboa tinha. fica excluído deste trabalho. p. Relações de poder. 623. no século XVI. 79 O. Sendo de provimento camarário. em simultâneo. Receita e Despesa (1778-1787) e (1809-1817). não podendo por isso considerar-se um funcionário municipal... Entre 1750 e 1820.E. R. como se infere pelo mais baixo montante dos seus ordenados. . 77 A. Em muitas localidades. cuja profissão as obrigava a prestar juramento. frequentemente designado por alcaide pequeno81 ou simplesmente por alcaide. 81 Sobretudo nas terras onde havia um alcaide-mor.. vol. O Porto e o seu termo.... p. como funcionário judicial. e colaboravam em todo o tipo de serviços correntes de apoio à administração municipal. 82. 75 76 F. Os mais frequentes eram o carcereiro e o alcaide da vara. II. era ajudado por cinco “porteiros do geral”. sujeitando-se a pesadas penas se deixasse fugir os presos. das peixeiras e das parteiras. não devendo. Não podia soltá-los sem um mandato judicial. T.. já nos finais da Idade Média. embora nesta cidade o carcereiro dependesse orgânicamente do corregedor da comarca. o porteiro da câmara possuía como coadjuvantes outros funcionários hierarquicamente inferiores. reduzidos na centúria seguinte a um “contínuo” e a um “porteiro do juízo do geral”76. FONSECA. porém. exercia funções de policiamento e fiscalização semelhantes às do meirinho82. ao longo de várias gerações.. estes dois subalternos colaboraram com o porteiro principal em numerosas actividades: assinavam o termo de juramento das mulheres. E os congéneres das câmaras de Estremoz e Montemor-o-Novo eram auxiliados respectivamente pelo contínuo77 e pelo porteiro do geral78.H. embora sujeito a confirmação régia. p. T. 1. este cargo era também vitalício e hereditário80. Competia-lhe zelar pela ordem pública. era atribuído a membros do grupo clientelar das famílias protegidas pelas oligarquias locais.84 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS pais para filhos. devendo no entanto libertá-los imediatamente se tal lhe fosse ordenado79. 78 T. Vereações (1815-1820). L. 77. como era o caso das medideiras do terreiro do pão. 80 Como por exemplo em Montemor-o-Novo e em Évora.F. id. FONSECA. contava com sete75. em meados do século XVII.. Dada a abrangência do poder camarário. ser confundidos com os funcionários judiciais. da SILVA. Cf.. segundo as Ordenações. na arrematação das rendas régias e camarárias. O primeiro era.. 82 O meirinho.. o da câmara de Évora. 271-272.M. o responsável pela cadeia. participavam. O segundo. Absolutismo e municipalismo.E. das padeiras. Nas municipalidades de maior relevo. o Porto.

.M..V. como os açougues da carne e do peixe. Podia prender infractores em flagrante delito e até. . T. através da carta de lei de 23 de Novembro de 1770. F1B2. p. E montava guarda aos locais mais vulneráveis ao desencadear de conflitos. na ausência do juiz. e Lv.H. especialmente os almotacés. L. (1779-81). f. O Porto e o seu termo . F. .M.M.N. / C.O FUNCIONALISMO CAMARÁRIO NO ANTIGO REGIME 85 tanto de dia como de noite. servir a elite dirigente local. minimizar os obstáculos que a natureza de tais ofícios constituía para o processo de modernização administrativa. mas ainda o acesso a outras ocupações públicas remuneradas ou a preferência em lucrativos negócios que envolviam a municipalidade..N. 036.M. / C.. (1782-87). 038 (1791-1803). E para Estremoz. A. A semelhança de funções do alcaide e do carcereiro explica o facto de em Lavre e em Estremoz os dois ofícios se concentrarem na mesma pessoa86. Relações de poder. FONSECA. e em Cabrela acompanhava a vereação nas visitas de correição85. a respectiva transmissão familiar e o prestígio social decorrente do seu exercício. R. Id. favorecendo ainda o enraizamento de práticas anacrónicas incapazes de dar resposta às novas necessidades e exigências crescentes do reformismo estatal. frequentemente vítimas da contestação e até das ameaças dos comerciantes. A patrimonialização dos ofícios da burocracia camarária conferia aos seus detentores um poder e autonomia difíceis de combater.1.L. T. do aboletamento dos exércitos e da manutenção do relógio. f. Receita e Despesa (1809-1817).H. 86 Para Lavre veja-se A. Lv. da SILVA..A. para o efeito.M. com ajudantes nomeados pela câmara... No exercício da sua actividade. 84 A. Este diploma decretava a abolição da hereditariedade dos cargos públicos.. E1 D1 Receita e Despesa (1797-1806). não apenas o lugar.M... 75. Vereações (1753-1770). prioritariamente.E. a quem deviam. contando. B / 001 / Vereações Lv. estes funcionários procuravam. p. F.H.. pra- 83 O. / C. A coroa procurou. tocava o sino de recolher e cuidava das aposentadorias dos ministros da comarca e da provedoria. Protegia as autoridades municipais. 035. / E / 001 / Lv 023 Receita e Despesa (1811-1825). Nos municípios com um diminuto número de funcionários. efectuar outro tipo de prisões.M. exercia ainda outras actividades: no Vimieiro. Conduzia os cativos perante o juiz nos dias de julgamento e assegurava a manutenção da ordem no decorrer das audiências.C. / C. 80.H.E. vulgarmente conhecidos por quadrilheiros. a partir do pombalismo. funcionando como uma espécie de ajudante do porteiro84. 669-672. vereação de 6-7-1757. 57 e 76. 46. 85 A. Levava ainda presos para localidades vizinhas e quando necessário transportava o dinheiro dos impostos régios cobrados no respectivo concelho para a sede da comarca83.

Tal aliança determinou em boa parte o cariz predominantemente tradicionalista. corregedores e provedores ameaçavam directamente os oficiais incumpridores ou no mínimo hostis às intromissões do reformismo estatal na sua actividade. os conluios com os grandes negociantes e outros poderosos. Afonso V e considerada pelos legisladores esclarecidos uma introdução abusiva na lei e costumes nacionais e como tal atentatória da soberania régia. . no registo das coimas. efectuadas com progressiva regularidade e a partir de 1790 num número sempre crescente de concelhos. responsabilizavam as autoridades camarárias pela sua condescendência para com os abusos e omissões destes funcionários. rotineiro. da idoneidade e adequada preparação do candidato. Os ministros territoriais tentaram. bastando para a sua concretização a formulação de um requerimento ao Desembargo do Paço. convertendo os municípios em um dos mais influentes focos de resistência à implementação da política de absolutismo esclarecido. na inventariação do património concelhio ou no lançamento contabilístico. moroso e iníquo da gestão concelhia do Antigo Regime. nomeadamente na redacção das actas.86 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS ticada desde o reinado de D. os atrasos na cobrança dos foros municipais e na transferência da terça régia e de outras verbas pertencentes à Fazenda Real. No entanto. Nas correições. Não obstante. pelos órgãos competentes. a acção do poder central e dos seus delegados na periferia arrostou sempre com a cumplicidade entre os agentes do poder camarário e esta sua fiel clientela. por sua vez (embora com variável empenhamento) secundar os esforços do poder central. as demoras na execução de determinações emanadas das instâncias superiores. no respeitante ao modo de exercício dos mesmos ofícios. a velha prática subsistiria. entre os quais se destacavam: a falta de rigor e transparência na escrituração camarária. e as exacções e arbitrariedades exercidas sobre os munícipes mais vulneráveis. e ao mesmo tempo. acompanhado da atestação.

sobretudo. António de Oliveira e António Manuel Hespanha. As razões são bastante óbvias e prendem-se com a maior escassez da documentação. através dos apelidos e de breves apontamentos relativos ao estatuto social em que pontuam os títu1 Cf. é importante sublinhar que os séculos XVI e XVII têm sido subalternizados em relação. patrocínio e conflitualidade Senhorios e municípios (século XVI-1640) MAFALDA SOARES DA CUNHA (Universidade de Évora – Dept. de desigual interesse1. Francisco Ribeiro da Silva. “Poderes locais nas áreas senhoriais (séculos XVI-1640)”. de História /CIDEHUS) Temas e lacunas historiográficas Sendo o objectivo do encontro a reflexão alargada sobre os municípios na época moderna e o tema deste texto as relações entre os donatários e os poderes locais. a fim de complementar as falhas das séries disponíveis. um breve ponto da situação historiográfica relativamente ao estado da situação dos estudos sobre os municípios senhoriais e sobre o grupo nobiliárquico primo-moderno. bem como a atenção de alguns estudantes de doutoramento e mestrado e de estudiosos locais.Relações de poder. ao século XVIII. Pesem embora estes trabalhos. Os Municípios no Portugal Moderno: dos forais manuelinos às reformas liberais Lisboa. de há duas ou três décadas a esta parte. . 87-108. em meu entender. uma investigação mais esforçada. que se revestem. no entanto. a tarefa impossível. pp. A sua identificação tem sido feita de forma sumária. Edições Colibri – CIDEHUS-UE. impõe-se. uma das principais lacunas da história do poder local em geral prende-se com a caracterização sociológica dos diferentes actores. É de todos conhecido que o tema do poder municipal não é novo. contributos marcantes de historiadores como Joaquim Romero Magalhães. Mafalda Soares da Cunha. empenhada em cruzar informação de proveniência institucional variada. Não tornam. de resto. podendo mesmo afirmar-se que para a primeira fase da época moderna acolheu. Assim. Requerem. 2005. antes de mais. 2005 (no prelo). Coimbra.

Chega mesmo a referir-se a existência de uma reacção senhorial ou até refeudalização para o século XVII. ainda mais. em muitos casos. fundando essas afirmações na descricionariedade dos abusos dos donatários e dos seus aparelhos administrativos sobre as populações. Lisboa. de resto. então. bem como das estratégias desenvolvidas para a ascensão. circunscrita aos membros das vereações. E são também estas lacunas que condicionam 2 António Vasconcelos de Saldanha. Diz-se habitualmente que os povos preferiam a tutela régia à tutela senhorial. por isso. seja com a Coroa ou os seus agentes periféricos. Estas falhas decorrem. faltando os enquadramentos gerais que permitiriam avaliar a representatividade dos fenómenos estudados. Não será. da falta de estudos sobre senhorios concretos e. De fora ficam cronologias mais finas desses processos e até a confirmação dessas interpretações que são. elaborada a partir da documentação dos registos paroquiais e notariais. destacar a quase ausência de trabalhos que evidenciem as especificidades das relações entre os poderes locais e os poderes senhoriais face às terras realengas. repetidas sem suficientes evidências empíricas. consolidação ou renovação. na generalidade dos casos. de estranhar que os estudos sobre senhorios ultramarinos sejam também tão escassos. compadrio e até amizade. seja com os donatários das terras. . Este tipo de abordagem permitiria também um esclarecimento mais cabal das fissuras e clivagens nos grupos de poder locais. complementar esses indicadores superficiais com incursões micro-analíticas através da reconstituição das trajectórias vitais e das redes de parentela e dependência do conjunto do oficialato local. em boa medida. O apoio empírico é. CNCDP. desenvolvimento e extinção de um fenómeno atlântico. Proveitoso seria. excluindo a ampla panóplia do restante funcionalismo municipal. Antecedentes. Escuda-se a mais das vezes em um ou outro caso. Não possibilitam. frágil. não obstante o estudo global elaborado há já alguns anos por António Vasconcelos Saldanha2. por isso. As capitanias do Brasil. laços de parentesco. E. de monografias que abordem a questão das práticas políticas dos donatários. mais do que aproximações muito vagas relativamente aos níveis de reprodução endogâmica dos grupos familiares dominantes ou à tendência para a monopolização do poder por parte das elites locais. influíram nesses processos. mobilidade geográfica e ainda das relações interpessoais desenvolvidas ao longo da vida. Neste contexto concreto cumpre.88 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS los dos foros da Casa Real ou os graus académicos que auferiram. o que permite uma análise apoiada da evolução dos patrimónios. E. Nela recolhem-se dados importantes relativamente à sua inserção familiar. neste âmbito seria ainda fundamental compreender de que modo as relações verticais. no entanto. opções de investimento familiar e económico. 2000.

Em trabalho já referido. A amplitude das jurisdições senhoriais Comecemos por este último ponto. Ou ainda os resultados de abordagens de síntese sobre a evolução do peso das jurisdições senhoriais no conjunto do território português6. p. Granada. Bartolomé Yun Casalilla.. Las Classes Privilegiadas en la España del Antiguo Régimen. como pelas ideias sobre a centralidade da Monarquia na organização social dos diferentes poderes. 2. de 1963). «Os poderes locais no Antigo Regime». Istmo. A Nobreza Medieval Portuguesa nos Séculos XI e XII. Guimarães Editores. e que esse número crescia ligeiramente para 57.6% em 16407. portanto.6% do total das câmaras do país estavam sob a jurisdição senhorial (leiga e eclesiástica). La Sociedad Española en el Siglo XVII. os senhorios das ordens militares que só incompletamente estavam sob dependência da Coroa. Um débil aumento. 1992 (facsímile da ed. Círculo de Leitores. 54. 52. 4 Nuno Gonçalo Freitas Monteiro. 1985 e Idem. 49-55. como referentes os já existentes estudos de síntese para a Alta Idade Média3. Lisboa. Todavia. Imprensa Nacional. ibidem. Ricos-Homens.. se incluirmos neste cômputo. 7 Idem. Infanções e Cavaleiros. Ediciones Akal. Universidade de Granada. atitudes e papel político do grupo nobiliárquico em Portugal reduzem-se a uns quantos chavões. as afirmações que se fazem sobre a evolução. Monteiro (coord.ª ed. pp.). Corona y Economías Aristocráticas en Castilla (Siglos XVI-XVIII). 6 Nuno G. . La Gestión del Poder. 1981. PATROCÍNIO E CONFLITUALIDADE 89 decisamente a possibilidade de elaboração de trabalhos gerais sobre o próprio grupo nobiliárquico. in César de Oliveira (dir. Idem. A Casa e o Património da Aristocracia em Portugal (1750-1832). Lisboa. 2 vols. não só muito fortemente marcados pelos impactos da gesta expansionista. 1996. sabe-se que conferiam preeminência 3 José Mattoso. Madrid. assim. Lisboa. 17-175. Na verdade. 5 Antonio Dominguez Ortiz. Lisboa. especialmente pp. Madrid. o valor crescerá para cerca de 70%. Nuno G. As reflexões de natureza geral que se têm proferido tomam. Editorial Estampa.RELAÇÕES DE PODER. com particular destaque para o caso da Monarquia Hispânica5. O Crepúsculo dos Grandes. 1973. 2002. Monteiro demonstrou que em 1527-1532.). No entanto. A Família e o Poder. No que a este último tópico diz respeito. só estes valores (mais de metade dos concelhos) seriam suficientes para conferir primordial importância ao tema que aqui trago e até reflectir sobre a importância que as funções jurisdicionais exerciam no sistema de classificações dentro do grupo nobiliárquico. História dos Municípios e do Poder Local. A Nobreza Medieval Portuguesa. 1998. para a fase final do Antigo Regime4 e as considerações gerais sobre outras realidades europeias.

Livraria Almedina. entretanto. Ora estes vectores são relevantes do ponto de vista da avaliação da importância de cada um dos senhorios e são decisivos para compreender a importância que o controlo político sobre as terras e as gentes detinha para cada uma das casas. vol. É que as jurisdições senhoriais não eram todas idênticas. fls. às mercês.026. vol. por inerência. todavia. Lisboa. o cume da pirâmide só incluía donatários. b) 1577 . Hespanha. pelo que temos apenas uma ideia muito imprecisa sobre a configuração geográfica de cada um dos senhorios e a sua importância relativa. 319. a partir do tipo de direitos e privilégios transferidos pela Coroa. nestas épocas. 1998. Joel Serrão e A. Additionals. quer em termos económicos. Nova História de Portugal. Additionals.BL. Imprensa Nacional. relativamente à composição desses rendimentos. 1867 (reimp. o mesmo é dizer. in Portugal do Renascimento à Crise Dinástica. quer demográficos. dir. História de Portugal nos Séculos XVII e XVIII. Se as doações genéricas criavam um ambiente comum.90 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS simbólica e direitos de representação política pela pertença. 273-276. pp. a contiguidade ou dispersão geográfica do senhorio pode ser significativa relativamente à eficácia da administração senhorial. 247v-249. História das Instituições. c) 1587 .BL. p. fls. 1982. d) 1615 . porém. Épocas Medieval e Moderna. ao braço da nobreza em cortes. No que toca às jurisdições pode. todavia. de 1967). a distribuição das jurisdições pelos seus membros. Editorial Presença. De igual modo.026. Não nos elucidam. 48. 48. as competências formais dos senhores sobre as terras e populações podiam ser extraordinariamente ampliadas pelas doações expressas. Um senhorio disperso tinha custos económicos superiores e propiciava gestões absentistas o que normalmente favorecia níveis de controlo senhoriais menos eficientes. Não se conhece. começar a aprofundar-se um pouco mais o nível de análise.Luís Augusto Rebello da Silva. Já o veremos com maior pormenor. V. militares e capacidade fiscal sobre o território cujos contornos estão expressos nas Ordenações e foram já analisados por Hespanha8 e pelo próprio Nuno Monteiro. tenças e assentamentos doados pela Monarquia ou às diversas formas de exploração dos bens patrimoniais. . 497. H. III. De Oliveira Marques. Deve. Coimbra. Lisboa. Mas significavam também um conjunto de funções políticas. “A Estrutura Social e o seu Devir”. 499. dizer-se que a posse de jurisdições era determinante na definição das hierarquias dentro do grupo nobiliárquico e que. João José Alves Dias. 9 Alguns exemplos: a) 1520 in João Cordeiro Pereira. O princípio a que 8 António M. Existem listas coevas – muitas delas datadas do período da Monarquia Dual – que apontam valores globais dos rendimentos das casas9. Já retomaremos a questão. à percentagem que cabia à extracção fiscal decorrente dos direitos senhoriais sobre bens da Coroa. 503-504. coord.

he razão que se faça differença. o que pode. PATROCÍNIO E CONFLITUALIDADE 91 estas obedeciam está globalmente exposto no preâmbulo do tit. fazer-se através da análise das cartas de doação contidas nas chancelarias régias. não imputável especificamente a um ou outro soberano ou a um ou outro duque. 10 António M. todavia. as casas da Rainha. Não creio. A preocupação régia era. que lhes tinham”. que esgotem o universo dos principais beneficiados e este era um outro tópico que carecia melhor averiguação. História das instituições…. Hespanha. XLV das Ordenações Filipinas. já que as Ordenações Filipinas acautelavam bastante este ponto. aos infantes e a alguns senhores de terras a Coroa “não reservara para si parte alguma da dita jurisdição”. Ou seja. de aferir a validade dos direitos extraordinários em uso. em grande medida. explicitando que as doações expressas perdiam validade quando não eram confirmadas e renovadas pelos sucessivos reis e que essas cláusulas perdiam validade quando a terra era doada de novo. pois. p. de resto. Esta questão é importante porque explica a própria manutenção destes privilégios excepcionais. Relativamente a este ponto concreto haveria que apurar alguns dados que permitissem uma base de sustentação mais informada para algumas imagens historiográficas que se estabeleceram e para as quais seria importante estabelecer uma cronologia mais fina do peso do senhorialismo. costumaram os Reys pôr mais exuberantes clausulas. as de Bragança e de Aveiro e as freiras de Arouca10. Eram. desde logo. 296-7 . para se mostrar a maior affeição e amor. com evidentes implicações nos níveis de autonomia dos concelhos. Chega depois a afirmar-se que nos casos das doações às rainhas. pode afirmar-se de forma esquemática que tinha a ver com a combinação das qualidades de sangue e o capital de serviços prestados. O quadro anexo demonstra que a casa de Bragança usufruía de um conjunto muito amplo de privilégios. limites ao seu usufruto. o resultado de uma acumulação secular. níveis bastante diferenciados de poder dos senhores sobre as terras. O tipo de privilégios jurisdicionais a que me refiro pode ser melhor explicitado a partir do caso brigantino. Ora esta disparidade de funções jurisdicionais criava. assi nas doações e privilegios. Dizia-se “Como entre as pessoas de grande stado e dignidade e as outras. Refere Hespanha que aqueles que tinham jurisdições exuberantes eram o arcebispo de Braga. Pode mesmo dizer-se que correspondia praticamente ao caso de transferência total de jurisdição a que as Ordenações aludem. impondo. concedidos ás tais pessoas. sempre que possível.RELAÇÕES DE PODER. e de maiores prerrogativas. excepto “que fique reservada ao Rey a mais alta superioridade e Real Senhorio”.

) defendemos a todos os Senhores de terras que não ponham nellas Juizes de fora e deixem os concelhos usar de suas eleições (. de 01/10/1544) Ordenações Filipinas11 «(. Montalegre (c. e leuar os direitos della» (alvará de 02/10/1617) «Os offiçiaes das mesmas terras se chamem por elle na forma da lej noua» (alvará de 02/10/1617) Que seus ouuidores passem cartas de seguro (alvará de 02/10/1617) «Possa prouer os offiçios de escriuães dos orfãos. Unhão. Calheta. 06/03/1567). Vale de Reis. 285) Tabeliães – por norma são providos por carta régia e depois de examinados pelo Desembargo Paçoa)12 «(. Livro II.. História das instituições…. Lavradio e Barreiro (c. que passarem» a) «E não se chamarão Senhores das terras. de 09/04/1551). Arraiolos. Benavente.) não levarão . Samora Correia. salvo. João.. Hespanha.. marquês de Castelo Rodrigo e duques de Aveiro. 294 12 .) [não] dará Cartas de Scudeiro a outras algumas pessoas.. de 12/02/1530) Cobrar e despender as terças dos concelhos em todas as suas terras (c. escriuaes das camara e Porteiros dellas e assj os que ouuerem de seruir ante os juizes de fora como ordinarios con declaração que os nam podera prouer sendo os ditos offiçios da apresentação e prouimento das camaras» (alvará de 02/10/1617) «Que possa em suas terras jsentar dos encargos dos conçelhos as pessoas que lhe parecer e isto per mandado e nam por priuillegio» (alvará de 02/10/1617) «Que faça escudeiros as pessoas que lhe parecer sendo Vassalos seus das suas terras posto que autoalmente não estejão no seruiço de sua casa» (alvará de 02/10/1617) Juizes de fora em: Bragança. p. Meirinho (.. Castanheira. História das instituições…. p. Povos.) que não dêem Cartas nem Alvarás de privilegios à pessoas algumas.. Chancellaria alguma das cartas e sentenças.r. XVII era detido pelos condes de S... Alhos Vedros.. nem os Juizes e Tabelliães se chamarão por elles» a) Prerrogativa régia (Hespanha.r. aqueles. de confirmação de 28/09/1627) Poder para por meirinho: Portel (c.) que não ponham em suas terras. Miranda. de 03/01/1567). Vila Viçosa (c. de 19/06/1608). Torres Novas e Vila Hermosa.. e verdadeiramente tiverem por scudeiros. per que os hajam por privilegiados e escussos dos encarregos e servidões dos Concelhos (. Azambuja.r. Chaves e Barcelos (carta régia (c. Linhares. Hespanha. que criarem. Monsaraz (c.r. de 21/05/1579) Dízimas novas do pescado de: Vila Franca.r.r..)»a) «(. Monforte (c.. Alcochete.) de 15/05/1549).r.r. citado no quadro como a) António M. Vila do Conde (c. nem em algua dellas.)»a) «(. Borba e Alter do Chão (c. Castelo Melhor.)»a) Dízima novas do pescado não costumam ser doadas4 Não podiam ser doadas13 11 Ordenações Filipinas. de 24/06/1549).r.. taballiães. de 30/03/1566). Tit. trazendoos a cavallo em sua casa» a) «(. 302 refere que este privilégio no séc. 13 António M...92 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Alguns privilégios jurisdicionais extraordinários da Casa de Bragança Duques de Bragança «Possa ter chancellaria de sua Casa e de suas terras. Portel (c. XLV.. Faro.r..r..

ª ed. 59v. 388. mas só após bem sucedidas demandas com a Coroa15. Álvaro. pp. PATROCÍNIO E CONFLITUALIDADE 93 Exponho uma hipótese. em 1580. «Nobreza na Época Moderna». O pleito que ainda corria em 1621. Las Cortes de Tomar y la Genesis del Portugal Católico. mandava-se que se revissem os papeis16. 1987. D. IV. Iniciativas Editoriais.RELAÇÕES DE PODER.º duque de Aveiro. dir. Esta tese foi acolhida por Fernando Bouza Álvarez. Lisboa. Em 1 de Setembro de 1590 dizia-se que se viram as doações e privilégios que tinha e usava o 3. 44-XIV-4. Portugal en la Monarquia Hispanica (1580-1640). revelador do signifi14 Jorge Borges de Macedo. Jorge e este dos concedidos ao 1. De qualquer modo e dada a importância do caso. João. Filipe II. in Dicionário de História de Portugal. Álvaro podia gozar do privilégio que se questionava e que era o de deverem ir as apelações dos seus almoxarifados ao oficial da sua Casa que fosse juiz da sua fazenda e depois disso voltar à casa do Porto ou ir à Casa da Suplicação. Todavia não se estudaram as posteriores práticas dos Habsburgo relativamente a esta matéria. tendendo a restringir os privilégios em uso pelos donatários. I. fl. 183 e 258-259. havendo outros dados que sugerem que a Coroa levou a cabo uma política de fiscalização estreita. O caso concreto refere-se à Casa de Aveiro que desde a década de 1580 viu uma série de alegados privilégios anteriores serem postos em dúvida pelos tribunais régios. sempre que as provas apresentadas eram duvidosas e até a promulgar legislação geral mais restritiva. 15 Podem citar-se a este propósito a carta régia de 18 de Novembro de 1615 e o alvará de Lisboa.º duque. vol. . apoiada num caso. 2 de Outubro de 1617 (que abaixo se extracta) e que põem fim às demandas entre a Casa de Bragança e o Procurador da Coroa. O que concorda com o já aludido aumento da área de jurisdicionalismo senhorial no Reino e também com outra imagem fixada pela historiografia que é a da proliferação de mercês régias como meio de persuasão do grupo nobiliárquico. parecia que não havia dúvida que o duque D. Sabe-se que a Casa de Bragança manteve o essencial dos seus direitos. bem como a consulta de 1589 são outros exemplos do afã de controlo que a monarquia dos Habsburgo desenvolveu. D. 16 Biblioteca da Ajuda (BA). Desta feita. e que por eles se demonstrava poder o duque usar dos privilégios e doações concedidas ao 2. vol. que permitiriam avaliar a consistência de tais ideias e os ritmos evolutivos. Universidad Complutense. Madrid. 481-522. mas se iniciara muito antes. publicados em Collecção Chronologica da Legislação Portuguesa ….º duque. p. pp. Dessa forma. D. 2. 1975. Quanto à hipótese são conhecidas as assunções de que o período da Monarquia Dual teria compensado a nobreza portuguesa do afastamento da corte com o reforço do seu poder a nível local14. Joel Serrão.

E entre essas provas estava o traslado da carta régia de 2 de Outubro de 1617 em que se concediam amplos poderes ao duque de Bragança que se extracta “avendo respeito a mo pedir por sua carta o duque de Bragança meu muito amado e prezado primo e a seus serviços e muitos merecimentos de sua casa. Mas essa alegação foi indeferida. Grenoble. o duque de Aveiro mantinha há algum tempo um contencioso com a Coroa sobre a extensão dos direitos nas suas terras. como constava dos traslados e alvarás que anexava ao processo. O duque entendia que ele não se devia incluir nessa determinação “por razão da dita posse em que estaua”. taballiães. BA. Com efeito. 44-XIV-4. 19 A afirmação era verdadeira como se comprova pelo conteúdo da carta régia de doação da jurisdição de Alenquer de Madrid. ao marquês de Alenquer19. 1136. 30 de Novembro de 1616 transcrita em Claude Gaillard. Na primeira situação18 estava em causa o facto de embora estando em posse do direito de prover as serventias de todos os ofícios de suas terras por si e pelos duques seus antecessores (ao abrigo das suas doações como constava da sentença).94 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS cado político da dada de ofícios e que creio que tem uma incidência que transcende a casa ducal de Aveiro17. Le Portugal sous Philippe III d’Espagne. L’action de Diego de Silva y Mendoza. dado as Ordenações haverem sido impressas 70 anos antes. fls. não haver lugar a alegar “posse imemorial” como o arcebispo fizera. 18 British Library (BL). . e por lhe fazer merçe ej por bem que elle possa ter chancellaria de sua Casa e de suas terras. escriuaes das camara e Porteiros dellas e assj os que ouuerem de seruir ante os juizes de fora como ordinarios con declaração que os nam podera prouer sendo os ditos offiçios da apresentação e prouimento das camaras. ao marquês de Castelo Rodrigo e ao conde de Lumiares (filho deste) poder para prover serventes dos ofícios de justiça das suas terras. 113-115. Não conseguindo este apresentar documentos comprovativos desses direitos. em finais da década de 1580. 1982. Egerton. e que proueja nas mesmas suas terras os offi17 Um outro exemplo de fiscalização da extensão das jurisdições surpreende-se na consulta do Desembargo do Paço sobre a correição feita na vila de Alhandra para verificar o direito da jurisdição e dada de ofícios do arcebispo de Lisboa. Université de Langues et Lettres de Grenoble. depois dessa proibição. o rei tinha concedido ao duque de Bragança. adiantava o Aveiro. rei decidiu contra ele. e que possa em suas terras jsentar dos encargos dos conçelhos as pessoas que lhe parecer e isto per mandado e nam por priuillegio. Ora. e leuar os direitos della e que os offiçiaes das mesmas terras se chamem por elle na forma da lej noua e que seus ouuidores passem cartas de seguro nos casos em que os corregedores das comarcas as podem passar na forma da ordenação e que possa prouer os offiçios de escriuães dos orfãos. o monarca ter mandado proibir que os donatários as provessem. baseando-se na ausência de títulos e no facto de. pp. 395-396.

privilégio idêntico ao dos citados senhores. o rei mandou que se vissem as cláusulas das doações do duque para certificar se ele detinha poderes para prover por renúncia. O duque objectou. pp. como se fosse por morte. A outro desembargador. bem como o traslado da sentença da Relação de 15 de Fevereiro de 1603 em como se tinha achado por bem provida a serventia que o duque de Aveiro fizera de um ofício por estar em posse por si e por seus antepassados. mas tal não ocorria no caso em apreço. mandou-se. “alegando muitas coisas e razões. e que neste costume e posse estavam os Duques seus antecessores”. ou que renunciando o proprietário nas mãos do rei. BL. 258-259. Visto na Mesa do Desembargo. 20 Alvará de Lisboa. para análise pelo Procurador da Coroa que foi de parecer que não podia. por isso. 8-8v. Como já se referiu José Justino de Andrade e Silva transcreve-o na íntegra em Collecção…. 2 de Outubro de 1617. estradas publicas e outras desta callidade // e que proueja as seruentias dos offiçios de justiça das suas terras assj e da maneira que seus antepassados o fizeram e que faça escudeiros as pessoas que lhe parecer sendo Vassalos seus das suas terras posto que autoalmente não estejão no seruiço de sua casa. PATROCÍNIO E CONFLITUALIDADE 95 çios de Procuradores do numero em pessoas aptas e sufficientes não excedendo nisto o numero que delles costuma aver Os quaes serão primeiro abellitados per mjm ou pello meu desembargo do paço. A descrição do episódio é longa. Requeria. 1136. excepto quando os ofícios vagassem por morte. . Dizia respeito a um caso concreto e fora suscitado pelo pedido de confirmação régia do cargo de tabelião do público e judicial da cidade de Coimbra outorgado pelo duque de Aveiro. Egerton. três desembargadores sustentaram que não. e que das duas partes dos Rendimentos dos conçelhos das suas terras possa mandar despender o que lhe parecer nas obras do bem publico dellas com declaração que as obras serão somente pontes. Antes de proceder à emissão da provisão. Nesta última hipótese. este lhe aceitasse tal renúncia e houvesse então o rei o tal ofício por vago. calçadas. Ora o caso oferecia dúvidas. fontes. porque pelas doações parecia que não o podia fazer. por onde diz que pode prover por renunciação. O segundo caso dizia respeito ao provimento de ofícios por renúncia do anterior titular. fls. o duque poderia apresentar o dito ofício. por isso. pareceu que o duque donatário podia apresentar os ofícios de tabeliães que estivessem vagos tanto por morte. porém. mas importante pelo teor contraditório das alegações dos juristas do Desembargo do Paço chamados a depor.RELAÇÕES DE PODER. após a renúncia que um outro oficial fizera nas mãos do duque. e assj ey por bem que conforme a isto cesse a demanda que o Procurador de minha Coroa tem movido ao Duque o que tudo assj me praz sem embargo de quaesquer leis e ordenações que em contrario aya e mando as justiças offiçiaes e pessoas a que o isto pertençer cumprão…”20.

44-XIV-4 (n. precedendo para ela licença de Sua Magestade”. fl. Pese embora esta longa alegação o caso foi indeferido pelo monarca que aceitou o parecer maioritário do Desembargo do Paço21. também. fls. pois já o donatário não faz mais que apresentar no ofício que Sua Magestade há por bem que vague com efeito por renuncia do proprietário. embora seja. não é de crer que os desembargadores do paço antigos dessem aos reis passados seu parecer sem muita consideração. As Ordenações fixaram este direito real e tinha valia mesmo nas donatarias ultramarinas. . pp. 19.96 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS como por renúncia. 23 António Vasconcelos de Saldanha. 189-191. Por carta régia de Novembro de 1603. trabalhosa. cód. nem parecia que o contrário disto foi julgado na Relação porque se fez muita diligência sem se achar feito em que houvesse sentença em contra disto. claro está. 41-42v apud Boletim da Filmoteca Ultramarina. E no que referia aos benefícios. Parece assim que a análise na longa duração é indispensável. onde o constante esforço de ocupação e desenvolvimento das terras o justificaria com maior pertinência23. porque em direito se igualava o poder de apresentar benefícios ao que se tinha no apresentar ofícios. ordenava-se que fossem extintos os ofícios que o duque de Aveiro criara de novo em suas terras e dera de serventia a várias pessoas22. porque em negócios de tanta importância. Como disse antes.º28). Archivo General de Simancas (AGS). Outra questão onde a disciplina régia se fazia sentir com acuidade era a da criação de novos ofícios. quem tinha poder para apresentar ou colar os vagos o fazia quer fossem vagos por morte ou por renúncia. exigiria a análise dos privilégios e clausulado das novas doações e das confirmações régias feitas aos senhores de terras. Tal avaliação poderia sugerir uma tentativa de limitar o tipo de territorialização do poder nobiliárquico. E acrescentava: “e que os inconvenientes que se apontam que intervêm na apresentação do dito ofício vago por renúncia se são todos se mostrar licença de Sua Magestade para se fazer tal renúncia. porque isso parecia conceder-se na doação antiga que se oferecia interpretada e declarada pelo costume que se usou sempre nas ditas apresentações como constava das certidões que se ofereceram e. como aquela a que 21 22 BA. antes se afirma por oficiais do juízo dos feitos da coroa que num feito que trouxe Francisco de Sampaio com o Procurador da Coroa se julgou que podia o donatário apresentar o ofício vago quer fosse por morte quer por renúncia. nem parece em contra isto dizer-se as ditas certidões seriam acaso passadas. Secretarias Provinciales. 1487. As capitanias do Brasil….

mais senhores de terras. mas dispersa área territorial. Muitos dos privilégios recebidos diziam justamente respeito à gestão dos espaços senhoriais. de esmolas. de benefícios eclesiásticos. 24 David García Hernán. É verdade que a Casa ducal de Bragança detinha privilégios que lhe asseguravam a nomeação directa não apenas dos ofícios locais como também de ofícios de justiça e fazenda destinados a intermediar os assuntos das terras com o centro do senhorio. com lógicas bastante similares. Utilizavam a mesma matriz formal. mas com base territorial mais diminuta e menos poderes sobre as mesmas. No caso dos duques de Bragança sabemo-los sediados em Vila Viçosa. De tudo um pouco. Granada.RELAÇÕES DE PODER. num modelo semelhante ao da administração régia. Os diferentes tipos de mercês dispensados pela casa foram estratégicos nesse processo. tal como. também há que destacar que a estratégia de integração de membros de parentelas de elites locais na corte ducal em foros de moradores foi a este título absolutamente decisiva. tanto no que respeita à nomeação de pessoas. A sua gestão era. e ao qual já fizemos uma breve referência. mediada por agentes administrativos próprios. PATROCÍNIO E CONFLITUALIDADE 97 aludi relativamente à casa de Aveiro. confrarias e conventos. de resto. refere-se à importância da governação presencial para promover o maior controlo político sobre as terras. Igualmente relevante neste ponto seria apurar a tendência para a maior ou menor dispersão na titularidade de senhorios. na concessão de tenças. Administração senhorial. . num organigrama que não se distinguia particularmente do da Coroa. quanto à aplicação da justiça e à capacidade tributária. nos apoios financeiros ao estudo. Que não governavam presencialmente. a deslocações. 1999. na dada de ofícios locais. Exercitava-se a liberalidade para harmonizar relações interpessoais através de jogos de compensações. de dotes. a partir de onde controlavam uma extensa. Ou seja. La Casa de Arcos. Se esse fenómeno lhe assegurava os recursos humanos necessários para o exercício do poder. Paternalismo e conflitualidade O segundo ponto. por isso. de trocas e de negociação dos diferentes interesses em presença. É o que se verificava na confirmação das câmaras. Esses elementos agilizaram a comunicação entre o paço e as terras e ajudaram a amortizar tensões com a sede do senhorio. a compra de bens. Universidad de Granada / Ayuntamiento de San Fernando / Ayuntamiento de Marchena. Aristocracia y señorío en la España de Filipe II. no patrocínio às misericórdias. E é quase certo que exemplos similares se podem estender a outras casas senhoriais. ocorria nos demais reinos peninsulares24.

mas talvez ainda mais interessante. E que se assemelha à figura dos juízes de fora. Manuel demonstra que os ofícios das terras do marquês de Vila Real que eram da dada régia foram providos em criados do 25 José Mendes da Cunha Saraiva.. Com esta outra estratégia procurava-se garantir uma gestão dos recursos locais favorável ao donatário porque isenta das solidariedades de raiz local.»25. e contraditória com o exemplo acima exposto. Podem ser adiantados exemplos para o século XVI para as casas de D. p. Jorge.16. 26 Maria Cristina Gomes Pimenta. aquietar más vontades. comportamentos indisciplinados ou contrários aos interesses da casa.. As Ordens de Avis e de Santiago na Baixa Idade Média. Um exemplo expressivo é o do meio utilizado pelo duque D. 2002. sem cuidar da sua naturalidade ou local de residência26. Jorge. Numa abordagem um pouco distinta. Mas outra situação possível. sep. por isso mesmo. . o duque pedia a intervenção do seu procurador do concelho. Jorge. verificamos como no século XVI podia ser a própria Coroa a reforçar a influência política das casas nos respectivos senhorios. pois a análise da chancelaria de D. GEsOS / Câmara Municipal de Palmela. Luís. Lisboa. diga-se.98 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Será. Gonçalo Soeiro de Azevedo. um pouco na linha do trabalho sobre o governo de D. dos marqueses de Vila Real ou mesmo do infante D. O governo de D. natural esperar que os agentes senhoriais e o funcionalismo local de nomeação dos donatários tivessem maior capacidade negocial para. sem atender à naturalidade das pessoas em causa. por ocasião dos levantamentos anti-fiscais. junto das populações. João II (futuro D. Neste último caso privilegiavam-se factores propiciadores do exercício da autoridade. depois duques de Aveiro. Palmela. em que Cristina Pimenta revela como os ofícios locais das terras das ordens de Santiago e de Avis eram muito frequentemente atribuídos a criadagem da sua casa senhorial ou a cavaleiros das ordens. 1942. Em carta enviada para Sousel em Setembro de 1637. para mobilizar os seus parentes a fim de apaziguar os tumultos «cada dia me disem que ha nessa Vila motins ou esperanças de os aver e que o pouo trata de soltar presos e queimar cartorios liuros e papeis da Camara naõ sendo cousa de que elles possaõ alcanssar bem nenhum particular nem o pouo utilidade algua e por me paresser que so vos com vossos parentes podereis ser o meo para isso se aquietar vos quis escreuer esta. Publicações do Arquivo Histórico do Ministério das Finanças. Cartas do Duque de Bragança a Gonçalo Soeiro de Azevedo (1632-1640). João IV) para sossegar os motins no Alentejo. era a de a dada de ofícios ser utilizada pelos senhores para recompensar serviços prestados à casa senhorial. correndo embora o risco de produzir relações mais tensas nas terras.

Práticas senhoriais e redes clientelares. ms. não obstante terem cartas de inimizade uns com os outros29. A Casa e Ducado de Aveiro. a correspondência que as terras mantinham com os donatários é indiciadora de fluxos regulares de informação. fosse para pedir instruções. 29 Arquivo da Casa de Bragança (ACB). o 1. um século mais tarde (1622). Muitos outros existiriam seguramente e revelam de forma muito clara o elevado nível de controlo político dos senhores sobre os assuntos locais e também a importância da intermediação senhorial na obtenção de privilégios ou na solução de questões com a Coroa. Braga. Sua origem. Talvez por isso. 2000.RELAÇÕES DE PODER. 1136. Frei Bartolomeu dos Mártires:1580-1582. fl. Braga. Para a Casa de Bragança conhecem-se numerosas situações28 que denotam o elevado nível de conhecimento que os duques tinham das suas terras. Lisboa. 43. Mafalda Soares da Cunha. evolução e extinção. mas sobre a qual não tinha jurisdição] son criados y paniguados suios. Aveiro. Mas a existência de canais de comunicação eficazes ocorria igualmente em outros senhorios. Um bom exemplo disso. dos duques de Aveiro para a de Aveiro30. y todos quedan para seruiço de la duqueza”27. Câmara Municipal. acatar ordens. 1973. 17. pp. Câmara Municipal. . Vejam-se 27 28 BL. Egerton. 30 Francisco Ferreira Neves. As cartas do infante D. fl.º duque de Caminha não hesitava em afirmar que “todos los caballeros y personas principales de la ciudad de Leyria [era o seu local de residência. 243-245. 1560-1640. Frei Bartolomeu dos Mártires. confirmar negócios. 1566 (VIII)-1567. neste caso associado às sociabilidades locais. 1972. por ocasião de uma das suas partidas para o governo de Ceuta. PATROCÍNIO E CONFLITUALIDADE 99 marquesado numerosas vezes. Estampa. fossem impedidas de servir juntas nos ofícios e cargos dos concelhos quando fossem eleitos. 31 Acordos e vreações da Câmara de Braga no Senhorio de D. está de resto evidenciado na necessidade de obter em 1627 a confirmação régia do privilégio para que. A Casa de Bragança. 31v. a proximidade do arcebispo de Braga relativamente aos assuntos desse município31 são exemplos possíveis. Em todo o caso. quando constasse ao duque que as pessoas de Vila Viçosa conversavam e se comunicavam como amigos. 1979 e Acordos e vereações da Câmara de Braga nos dois últimos anos do Senhorio de D. Duarte para a câmara de Vila do Conde. Seria então importante conhecer qual destes comportamentos era dominante nas relações entre as casas e os respectivos senhorios e avaliar depois se haveria modelos senhoriais mais e menos paternalista a fim de medir o impacto dessas diferentes atitudes na conflitualidade com as terras e os vassalos. ms.

Ou ainda. sentenciando depois em conformidade. e usando as palavras do próprio duque de Aveiro na carta que em 1572 dirigiu ao juiz. O que é interessante constatar é o quase sistemático recurso aos tribunais para resolução dos diferendos inconciliáveis por vias informais. Manuscrits. A prová-lo estão as numerosas sentenças e despachos régios com fundamentação clara que deram razão aos senhores. A Casa e Ducado de Aveiro…. A Casa de Bragança… 36 Mafalda Soares da Cunha.º 9. “quanto ao que me dizeis (…). Estas práticas paternalistas. «Pater Familias. p. Clientelismo y Patronazgo en el Antiguo Régimen» in Reyna Pastor (comp. F. que muitos autores espanhóis também constataram existir nos reinos vizinhos33. . pp. de Producción y Parentesco en la Edad Media y Moderna. Veja-se um caso claramente difícil que opunha 32 33 Francisco Ferreira Neves. mas deve assinalar-se que tinham menos eficácia quando o mal-estar era provocado pelo rigor na cobrança dos direitos senhoriais. reiterando as constatações feitas por Nuno G. destinado a avaliar a pertinência e validade jurídica dos argumentos em confronto. Señor y Patrón: Oeconómica.). David García Hernán. 1990. ou para fazer mercê a este ou aquele senhor. Introduzia-se assim um mediador. vereadores e procurador do concelho da sua vila de Aveiro. Madrid. teoricamente imparcial. «El Señor Avisado: Programas Paternalistas y Control Social en la Castilla del Siglo XVII». 155-204. 215-299 (primeiro editado em 1985 e 1986). n. afastado de vez que estava o uso medieval da coação física36. pp. “Poderes locais nas áreas senhoriais…” (no prelo). frades e forais: Revolução Liberal e regime senhorial na comarca de Alcobaça (1820-1824)» in Elites e Poder Entre o Antigo Regime e o Liberalismo. eu falarei logo niso a elRey meu senhor (…). Idem. Relaciones de Poder. pp. mas porque todas estas cousas Requerem algum vagar quis fazer esta [carta] por que saibais que me he dado vosa carta E que trabalharei por fazer o que me pedis”32. amorteciam muitas vezes os descontentamentos. Imprensa de Ciências Sociais. Monteiro há alguns anos34 e no já citado trabalho meu sobre a casa de Bragança35. CSIC. 411-458. Diga-se a este propósito. «Lavradores. 30. Aristocracia y señorío en la España de Filipe II…. todavia. que os maiores focos de conflitualidade entre os donatários e as populações se reportavam às relações económicas. Ignacio Atienza Hernández. Julgo. 34 Nuno G. 2003. 35 Mafalda Soares da Cunha. importante sublinhar que o que se verificava em muitos destes casos era a reacção dos povos contra direitos efectivos dos donatários e não abusos na sua cobrança por parte destes. Lisboa.100 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS as numerosas cartas de privilégio a terras de senhores contidas nas chancelarias onde se faz expressa menção que a mercê foi concedida pela intercessão. Monteiro.

RELAÇÕES DE PODER. dando azo a oposições e conflitos. de abusos que se pudessem imputar aos donatários ou mesmo ao rei. até porque o duque mudara de ideias. pois “não he justo impedir sse ao Duque a arrecadação dos dereitos de jugadas que lhe são deuidos e que assim os deue Pedir e arrecadar ordinariamente e se a Cidade tiuer algua duuida. portanto. tanto mais que ambas as partes o requeriam “e se auerem com isso de escusar as grandes oppresões e molestias que o Pouo de aquella cidade padecia nas execuções que se fazião pellos rendeiros das ditas jugadas com grande desordem e violensia. a questão colocada nestes termos pode. Os pareceres dos desembargadores do Paço dividiram-se: a) dois achavam que o rei devia confirmar “por ser em euidente proueito dos Bens da Coroa. O demorado diferendo sobre a matéria fora resolvido entre as partes por um contrato perpétuo. PATROCÍNIO E CONFLITUALIDADE 101 o duque de Aveiro à cidade de Coimbra sobre a arrecadação das jugadas. 37 BA. avaliações mais precisas do impacto dos diversos tipos de direitos senhoriais no desenvolvimento agrário e na paz social. Em 20 de Julho de 1591. então. e Posto que fora valido. quarto ou até oitavo da produção que eram cobrados nalgumas áreas). b) outros dois alegavam desfavoravelmente. ou seja. e com mais clamor do Pouo. . Talvez também porque havia regiões onde os direitos que estavam estipulados eram de facto pesados. O que talvez este tipo de comportamento indicie é atitudes de maior rigor na gestão dos direitos senhoriais que pesavam. a análise mais aprofundada destes tópicos. em grande quietação da dita cidade e Pouo della”. fls. ou mesmo muito pesados para os povos (penso no terço. trabalhos com quadros geográficos alargados à escala do reino e que permitam. que admito carecerem de estudos globais. ou embargo a não pagar podera otrosj requerer sua justiça como lhe pareser e quanto a confirmação que a cidade Pede do concerto e contrato que fez com o governador do Duque de aveiro por o Duque aggora não consente antes antes o contradiz pareçe se lhe não deue confirmar espeçialmente pello dito contrato ser nullo sendo feito sem liceça e authoridade de Sua Magestade. O que nesse caso configurava um sistema opressivo. talvez reorientar. mas que não estava confirmado pelo rei. enquanto não há confirmação de sua Magestade se pode o Duque apartar delle”37. Tal ocorreria. sendo atée aggora a que pior se arrecadaua. e se lhe dá muito mais do que nunca rendeo e parese que o Duque deue ser pago conforme ao dito contrato”. porém. e que com isso auer effeito fica ao donatario aquella renda de melhor condição que todas as de seu estado. sobretudo em épocas de maiores dificuldades económicas. Não se tratavam. 187v-188. 44-XIV-4. mais aos povos. colocava-se a questão de o confirmar ou não. Ora.

Já o disse em anterior trabalho e creio dever reiterá-lo. 263-276. A capacidade financeira para assegurar a sua continuidade era desigual. XV. em particular. Egerton. procurando residir o maior tempo possível em Pinhel. entre os senhores e os procuradores da Coroa. por os julgadores que faziam a residência ao corregedor e provedor de Tomar obrigarem os moradores de Abrantes a deslocar-se a Tomar para testemunharem. quer pela capacidade de dissuasão de testemunhas menos favoráveis. Um primeiro está associado ao preço da justiça. 40 Cf. o que não ocorria. quer pelas 38 Alguns exemplos avulsos num tema que mereceria atenção e uma tipologia de análise. no entanto. sobretudo se os processos se prolongavam com embargos e recursos sucessivos. O rei deu então despacho favorável (1590/11/27). mas que o corregedor devia atender ao caso. Paris. (1689/09/23). António de Oliveira. fls. por exemplo. António Pereira Marramaque.. fl. BL. João no período filipino» in Estudos e Ensaios em homenagem a Vitorino Magalhães Godinho. nos solicitadores e advogados das casas senhoriais sediados junto dos tribunais centrais. pois enquanto muitos conflitos inter-senhoriais decorrem de partilhas. 39 Dois exemplos a partir de consultas do Desembargo do Paço (BA. beneficiando claramente os donatários. 1136. vol. tenho topado mais com registos de conflitos inter-senhoriais38. inter-municípios e inter-instituições locais ou até entre municípios e a administração periférica da Coroa39 do que com queixas de municípios e de vassalos das casas senhoriais contra os seus donatários. embora de natureza distinta. Subsídios para o estudo da sua vida e da sua obra. Livraria Sá da Costa Editora. 26v-27. outros prendem-se com rivalidades locais. podem colaborar na ocultação dos conflitos. «A violência do poder dos cavaleiros de S. ficando eles muito mais tempo em Trancoso. fls. desta vez da câmara de Abrantes. pelo que sugere que os sindicantes sediassem quinze dias em Abrantes. Lisboa. não obstante a existência de algumas excepções significativas40. pelo que desembargadores opinaram que um terço do tempo das residências fosse passado em Abrantes. Pleito entre o duque de Pastrana e o marquês de Alenquer sobre Chamusca e Ulme. Sabe-se que a litigância tinha custos económicos elevados. 2) Queixa.102 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS É. Arquivo do Centro Cultural Português. . As possibilidades de influência também jogavam a favor dos senhores. senhor de Basto. Penso. sobretudo aqueles que disponham já de uma estrutura judicial própria. o rei decide que a provisão era antiga e já desadequada. Sebastião em que se dizia que os corregedores da comarca lá deviam residir seis meses e outros seis meses em Trancoso. 103. 1980. embora se não devam descartar dois outros factores que. outros com disputas de preeminências: António Dias Miguel. Os elementos explicativos dessa escassez reivindicativa podem assentar na eficácia desta gestão paternalista. 44-XIV-4): 1) Após queixa da câmara de Pinhel justificada por uma provisão de dada por D. verdade que não se encontram registos de queixas contra senhorios muito numerosos. O argumento colheu. sep. 50-90 que correu pelo menos entre a década de 1590 e a de 1620. Na realidade. 1988. pp.

19. dilatorias. algures entre 1596 e 1605. Arraiolos e Evoramonte onde deveria decorrer o inquérito e onde «elle daua os officiais e os aprezentaua e lhe fazia delles merce e erão todos seus vaçalos e escriuaes e Almoxarifes juizes e mais pessoas da dita vila e todos lhe obedecião e fazião tudo o que elle lhes mandaua e era seruido»42. invocando ainda o amor de vassalos que tinham para com Sua Magestade43. iniciado em 1596 com sentença favorável à Casa em 1605 no processo contra um tal Bento Fernandes Bota e sua mulher. contribuindo nisso os pobres trabalhadores que deixavam de comer. 338. 44-XIV-4. fl. 42Processo . Esta situação torna difícil a avaliação dos níveis e tipo de litigância exis- 41 BA. advertência. “advertir disto os desembargadores do Paço pera que não aião nunca as partes uista das informações que se fiserem sobre suas pertenções”41. visto o autor da queixa (duque de Bragança) ser senhor das vilas de Vila Viçosa. reguengueiros de Evoramonte. O que gerava casos de suspeições e os necessários pedidos de substituição dos juizes ou desembargadores. declinatorias. Quanto ao outro queixava-se o povo de Alenquer do Marquês. 1135. PATROCÍNIO E CONFLITUALIDADE 103 pressões junto do corpo de juristas dos tribunais. ACB. ou melhor. Há casos conhecidos que o revelam com amarga clareza. é também particularmente impressivo. Um associado à casa de Aveiro. y embargos” para atrasar a justiça. o rei acrescentava um alerta relativo à irregularidade que se havia cometido no Desembargo do Paço ao dar vista dos papeis do Procurador da Coroa ao duque de Aveiro e mandava. Egerton. peremptorias. O negócio já fora interrompido três vezes e queria o marquês interromper mais uma. utilizar todos os estratagemas jurídicos possíveis e imaginários “excepciones. por isso. O segundo argumento. 37v. fls. havia cinco anos e sete meses que o povo perseverantemente requeria justiça. Citamos três.RELAÇÕES DE PODER. Ora. ms. Pediam. particular atenção por esse dinheiro ser ganho com o suor do rosto e sangue de mãos. O argumento expresso por um desconfiado litigante contra os duques de Bragança. Na carta régia de 8 de Outubro de 1589 que deu despacho ao caso. através do seu advogado. fl. por isso. outro à casa de Bragança e outro à de Alenquer: No já citado processo analisado no Desembargo do Paço por causa dos direitos do duque de Aveiro a prover um ofício por renúncia. no que já gastara muitos mil ducados. Dizia que tinha fundadas suspeições. acusando-o de. 19. está associado à escassez da documentação de natureza judicial disponível para estas épocas. com as demoras e custos inerentes. o duque objectara das alegações apresentadas pelo Procurador da Coroa. 43 BL.

É uma chamada de atenção que reforça o que atrás se disse e um pouco no sentido do que Nuno G.104 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS tente. pertinente chamar a atenção para esta questão. tomando-as como um fenómeno atlântico. ou melhor nas capitanias-donatarias. 1991. sobreviveram alguns códices do Desembargo do Paço (sobretudo relativos ao Período da Monarquia Dual e aos quais. Territorialização do poder senhorial e sociologia das elites políticas locais O terceiro e último ponto prende-se com o perfil social dos titulares dos ofícios locais. . como se disse. 43-44 lista-nos uma série de confrontos e reivindicações lideradas por populares de muito variado cariz e com variados oponentes. pelo menos até meados do século XVII. Viu-se que os níveis de conhecimento das terras (recursos económicos e pessoas) que os donatários mais antigos e com maior amplitude de privilégios jurisdicionais detinham. apesar de tudo. se apoiava em redes sociais locais e que lhes permitia transformá-las facilmente em redes de criaturas suas. pese embora a extensa transferência de jurisdições por parte da Coroa. seja contra senhores. Monteiro e Teresa Fonseca referiram nos textos que integram este livro e que. mas deve dizer-se que. Clientelas pode dizer-se. O que aqui importa trazer é que. de resto. a meu ver. mas uma conflitualidade muito mais plural e multifacetada44. se articula também com o tema da territorialização do poder senhorial. Poder e Oposição Política em Portugal no Período Filipino (1580-1640). porém. Sem pretensão de acrescentar quaisquer novos dados a este tema. parece-me. já fiz algumas referências). Camaristas e não só. O que significa que a análise de processos é possível. nos senhorios ultramarinos. até porque os temas do Império têm sido demasiadas vezes tratados de forma desligada dos do reino de Portugal continental. Difel. raramente os seus senhores aí residiram. confirmam as ideias de um poder nobiliárquico muito territorializado que. caracterizan- 44 António de Oliveira. e que o Arquivo Geral de Simancas contém abundante e riquíssima informação relativa às decisões da Monarquia e dos seus conselhos. seja contra os oficiais da Coroa. Esta territorialização do poder senhorial verificada no continente e até nos arquipélagos da Madeira e Açores não ocorreu. pp. práticas políticas e a evolução histórica das capitanias. em que avultam as queixas fiscais. e o que deles sobressai não é a litigância entre senhores e terras ou vassalos. no entanto. complementados com o enquadramento privilegiado que a Coroa lhes proporcionara. Lisboa. explica-se demorada e detalhadamente os fundamentos jurídicos. No já referido estudo de Saldanha.

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do-se a administração senhorial por um quase total absentismo. O exercício dos poderes judicial e fiscal, bem como a gestão corrente dos territórios, eram subdelegados em agentes senhoriais, nomeados pelos capitães-donatários – os capitães loco-tenentes. Os poderes de nomeação do oficialato local e de confirmação das câmaras constituíram-se, por isso, em instrumentos que reforçavam os poderes destes loco-tenentes, embora estivessem sempre sujeitos a sindicância por parte das justiças do Reino. Na verdade, para além das razões económicas, a posse dos títulos dos senhorios pouco mais interesse despertava junto dos capitães-donatários. As suas relações com os vassalos eram quase sempre mediadas pelos capitães loco-tenentes, sem que estes últimos dispusessem, todavia, da autoridade social que caracterizava os donatários. Eram na maior parte dos casos gente com origens sociais modestas, que se havia distinguido na guerra com os índios ou com os invasores franceses e holandeses e tinham acumulado património fundiário. Transformados em senhores de engenho, formavam as elites locais e foi à sua sombra que se constituíram importantes redes clientelares (de parentela, compadrio, vizinhança, etc.), que às vezes transcendiam até os limites das próprias capitanias. Há relatos de comportamentos bastante arbitrários de bandos de parentelas suas, ofensivos do direito e das instituições reinícolas, e que deram muitas vezes azo a reivindicações, confrontos e revoltas, sendo conhecidos numerosíssimos episódios de protestos armados das populações contra os loco-tenentes que conduziram até a bem sucedidas deposições do posto. Percebe-se então que estes senhorios ultramarinos só importavam aos donatários em função dos rendimentos que deles se podiam retirar. E, na realidade, a própria estrutura de delegação de poderes e de exploração do território tornou muitas dessas donatarias em negócios verdadeiramente ruinosos. É que os rendimentos mais significativos não provinham da cobrança de direitos jurisdicionais, mas sim da exploração fundiária, mineração e comércio de escravos e o absentismo senhorial dificultava a exploração eficaz dessas oportunidades. Daí o abandono a que os seus titulares votavam essas capitanias e até o interesse em se desfazerem delas. Existiam excepções, todavia, que respeitavam, sobretudo, a capitanias nos arquipélagos do Atlântico Norte e algumas do Brasil. Nesses poucos casos (em que se complementavam normalmente as jurisdições com as actividades mais rentáveis atrás referidas) os altos proventos serviram de meio para promoção e ascensão no Reino, apesar de, em boa verdade, tal só se verificar com as fortunas brasileiras (e não foram mais que dois ou três casos) na segunda metade do século XVII. Tal quadro não era exactamente análogo, porém, ao da posse das capitanias hereditárias nas praças do Norte de África. Embora com rigor estas não configurem senhorios jurisdicionais, o certo é que a natureza dos poderes regimentais dos capitães-mores, associada às doações desses cargos

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em propriedade ou em vidas, permitia práticas políticas muito semelhantes. E estas, do ponto de vista formal, podiam até ser abusivas, mas não deixam de traduzir a extensão dos poderes efectivamente exercidos e a importância que os capitães hereditários lhes conferiam. Demonstro-o com uma situação muito expressiva. D. Fernando de Mascarenhas, conde da Torre, nomeado para ocupar o cargo de capitão-mor de Ceuta em 1624, explicava ao rei por carta de 23 de Abril de 1625 que os fundamentos dos conflitos ocorridos durante a sua administração da praça eram o de ter tentado cercear as irregularidades cometidas pelo duque de Caminha ao que este reagira mal, levantando-lhe, logo no primeiro ano de funções, vários pleitos judiciais. Dizia “foi acudir eu pela jurisdição real de Vossa Magestade que ele tinha usurpado e fazer eu conhecer a Vossa Magestade por senhor dessa força fazendo guardar as provisões reais de Vossa Magestade e não as do duque”. Dava como exemplos o caso de um capitão de Infantaria que tinha provisão ducal e régia para servir, mas que usava sempre a do duque, pelo que D. Fernando fizera rasgar essa, pondo-o a servir pela provisão régia, e outros similares relativos aos tabeliães do público, judicial, órfãos e notas. Acrescentava que Diogo Nabo, adail, quisera servir pela provisão do rei e não do duque e “o duque lhe o encontrou de modo que correu a demanda na relação de Lisboa aonde se deve sentença por Vossa Magestade e com isto ser tão claro, o tem o duque hoje embaraçado de maneira que a pessoa que hoje serve esses ofícios é por data do duque e não tam somente os serve por provisão sua, mas tem alvará de lembrança para os poder vender. E destes alvarás tem o duque passado muitos não podendo porque isso só toca a Vossa Magestade em resolução”. Mais dizia “que o duque se havia de maneira que dos moradores desta praça foi tido até agora por rei e senhor dela, e porque eu lhe tenho feito entender que em Espanha não há mais rei que Vossa Magestade me tem o duque capitulado com opróbrios alheios de meu procedimento”. Concluía, por isso “pretendo com isto que Vossa Magestade me tire desta força antes dos três anos e lhe conceda a ele vir a ela, quiça não com tenções de servir a Vossa Magestade senão de tornar a pregar e fazer crer a estes cavaleiros e soldados esta falsa seita em que viviam”. Referia depois serem estas práticas habituais nos capitães hereditários de Ceuta e que os reis passados já tinham tido que se confrontar com elas: “lembrando mais a Vossa Magestade que por outras semelhantes a estas, sendo o marquês de Vila Real pai do dito duque que hoje chegado a esta força com sua mulher e família de mui poucos dias o mandou elrei D. Sebastião que Deus haja ir daqui para Portugal e o veio tirar Dom Lionis Pereira e não mais tornou a esta praça” 45.
45

BN, Ms. 206, fl. 264. Esta carta está transcrita em Isabel M. R. Mendes Drumond

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É claro que, diversamente das capitanias-donatarias, nas praças do Norte de África a raiz dos seus poderes era militar e, talvez por isso mesmo, tais funções geravam muito prestígio social e político no Reino. A reputação que a posse desses cargos hereditários conferia equiparava-se quase à posse de senhorios jurisdicionais no continente. Permitia, para mais, acumulação de fortunas através dos direitos sobre as razias, resgates e até pirataria, bem como a estruturação de redes clientelares relevantes. De gente que aí servia momentaneamente hábitos ou comendas das ordens militares, mas também de grupos familiares enraizados localmente e que de há muito ocupavam os ofícios principais das praças. Com efeito, o esforço para tutelar e controlar a acção desses oficiais era evidente e está quase de certeza associado ao governo das praças durante os períodos de ausência do capitão hereditário no Reino e, portanto, da gestão de outros capitães-governadores como é o caso com o conde da Torre. Se estas situações são claras em Ceuta com os Meneses, julgo serem seguramente extensível a outros casos. Queria, por isso, chamar a atenção para a necessidade de investigar o tópico da territorialização do poder senhorial mais detalhadamente, não apenas para avaliar a importância (ou não) dos donatários, dos loco-tenentes e dos capitães e governadores na composição e mobilidade social dos grupos de poder locais, como para apurar o impacto ao nível do controlo político sobre as terras. Referi anteriormente que esta questão também pode estar dependente da própria configuração física dos senhorios, uma vez que a descontinuidade territorial podia fomentar uma administração menos presencial e, portanto, mais autónoma dos controlo directo dos senhores. O pedido que em finais da década de 1580 o conde de Sabugal formulou ao Desembargo do Paço espelhava-o e não constituía de forma alguma uma excepção. Solicitava o dito conde que fosse ouvidor de suas terras o corregedor que ficasse mais perto de seus lugares, uma vez que eles estavam muito distantes uns dos outros, em diferentes comarcas, e um só ouvidor não poderia administrar justiça em todas elas. E argumentava: “E se em cada lugar houver de fazer um ouvidor não pode achar tantos letrados em que seguramente desencarregue sua consciência”, chamando a atenção que tal pedido era em proveito evidente das partes46. Parece de facto óbvio
Braga e Paulo Drumond Braga, Ceuta Portuguesa (1415-1656), Ceuta, Instituto de Estudios Ceutíes, 1998, pp. 220-221. Diga-se, de resto, que o apêndice documental contém documentação muito interessante que lamentavelmente os autores pouco exploram no corpo da obra. 46 BA, 44-XIV-3 (n.º299), fl. 256.

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que a sindicância ao ser efectuada por um corregedor da Coroa poderia estar menos enfeudada aos interesses directos do donatário, reduzindo assim a pressão que estes podiam exercer sobre os denunciantes e as testemunhas. Igualmente relevante seria apurar o destino social dessas clientelas com a redução da territorialização do poder que vai progressivamente ocorrendo. Como se desfaziam as conexões, que efeitos sociais e políticos a nível local produziam ou se haveria algum mecanismo informal que mantivesse certo tipo de relacionamento entre essas periferias senhoriais e os donatários já transformados em cortesãos. Outra área a carecer de maior investimento de estudos são os casos em que os donatários detinham poderes jurisdicionais menos exuberantes. A hipótese que apoio é a da possibilidade de maior conflitualidade com maior autonomia. Resta confirmar.

Conclusão
Em síntese, julgo importante sublinhar que sob a aparente capa de uniformidade institucional, os municípios ocultavam uma imensa diversidade de realidades políticas e sociais. Algumas delas têm de há uns anos a esta parte vindo a ser sublinhadas pelos estudiosos. É o caso da dimensão física, do peso demográfico, da importância económica. Não se tem, todavia, atendido suficientemente aos impactos que a diversidade de tutelas quase forçosamente gerava, sobretudo do ponto de vista da história social dos poderes. Ora este tipo de abordagens permite, como espero ter demonstrado, oferecer visões bem mais complexas, dinâmicas e matizadas das realidades sociais e das práticas políticas municipais.

As Ordens Militares e o poder local: problemas e perspectivas de estudo
FERNANDA OLIVAL
(Universidade de Évora – Dept. de História /CIDEHUS)

1.
Quando, em 1551, os Mestrados das Ordens de Avis, Cristo e Santiago foram perpetuamente unidos à Coroa, a nível local ainda era relativamente fácil identificar as jurisdições destas Ordens. Se o quadro destas não está traçado, deve-se apenas à falta de investimento em estudos com esse objectivo. Restam, todavia, nos arquivos portugueses materiais que o permitem fazer de forma aproximada, nomeadamente para as Ordens de Avis e Santiago. A doação medieval das terras é um ponto de partida importante, bem como as mercês de jurisdições feitas posteriormente. O numeramento de 1527-32, as visitações, as chancelarias das Ordens, os tombos de comendas e as Memórias Paroquiais de 1758 oferecem também contributos essenciais para os séculos XVI, XVII e XVIII, que devem ser explorados de forma crítica e comparada. Desde logo um dado fundamental a ter presente é que uma comenda nem sempre implicava a jurisdição da terra. Só em poucos casos seria assim. Há até descrições de várias épocas que apontam para tantas comendas e determinadas vilas sob a tutela de uma Ordem. Assim, acontecia, por exemplo, nas Notícias de Portugal de Manuel Severim de Faria. A Ordem de Avis é referida nos seguintes moldes: “(...) ajudando a lançar fora os Árabes desde Coruche, até Alandroal, e Juromenha; em gratificação do qual [serviço] lhe deram os Reis 18 vilas, que são Cabeção, Mora, Juromenha, Alandroal, Noudar, Veiros, o Cano, Fronteira, Figueira, Cabeça de Vide, Avis, Galveias, Alter Pedroso, Seda, Albufeira, a vila de Coruche, o Concelho de Serpa1, Alcanede, e 48 Comendas, que rendem passante
1 Não

parece correcta esta referência a Serpa. Cf. sobre a jurisdição da Vila, J. M. Graça
Os Municípios no Portugal Moderno: dos forais manuelinos às reformas liberais Lisboa, Edições Colibri – CIDEHUS-UE, 2005, pp. 109-126.

Relativamente a Santiago. 1993 (1. incluindo Malta. A Ordem de Malta teria em Portugal 21 vilas “e lugares” e 24 comendas4. BA. como era o caso da comenda espatária de Mouguelas. de Isabel Cristina Fernandes.000 réis. Disc. que além de bens rústicos. mas nenhuma detinha a tutela do concelho. 2. Uma comenda era antes de mais um rendimento com tal título que permitia ao encartado na mesma designar-se comendador. Lisboa. 407-456 e Luiz de Figueiredo Falcão. com introd. de todas. pp. outras ao rendimento de transporte naval (Barca de Tróia. Nalgumas localidades. 6 Cf.cf.. em Setúbal. 3. coord. 1884). Claro que algumas destas povoações constituíam uma ou mais comendas das mencionadas. pp. Op..ª ed. “Os fornos da Ordem de Santiago e seus comendadores. indicavam-se 47 vilas e lugares e 150 comendas3. pp. de bens urbanos e de uma parcelas de certos dízimos. tinha um padrão de juro de 22. Imprensa Nacional. 29-62. .110 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS de 23 contos”2. in Ordens Militares: guerra. 1655). 2003 (1. Mç.ª ed. Vol. Disc. § 17. Colibri / Escola Sec. Havia comendas compostas por apenas dízimos. Lisboa. que era da Ordem. 250-263. Lisboa. Colibri . I. como era o caso de várias na Ordem de Cristo.Câmara Municipal de Palmela. fl. 1999. em Alcácer do Sal) e outras equivalentes à renda dos tabeliães. 1859. Faltava. 3 Seria este um número muito irreal. elevado a cidade em 1513.º de ordem 344-345. 49-IV-31. Lourenço Vaz. 179-183. Livro em que se contém toda a Fazenda e Real Patrimonio dos Reinos de Portugal. Conselho da Fazenda Vedoria e Repartição do Reino e Assentamento . 3 (decreto régio de 20 de Setembro de 1762). como Elvas. e o Batel de Santa Ana. 2 Ed. 5 Cf. ANTT. a Ordem de Cristo teria recebido 21 vilas e lugares e 454 comendas. Não faltavam também exemplos de comendas que aglutinavam recursos diversificados. a Vila de Benavente. Outros casos igualmente atípicos eram as comendas que se traduziam apenas por uma tença em dinheiro. por conseguinte. § 17. Câmara Municipal. Affreixo. n.ª ed. havia comendas de mais do que uma Ordem Militar. não incluindo nestas as da Mesa Mestral . India e Ilhas Adjacentes e outras particularidades. ANTT. Neste caso. Memória historico-económica do Concelho de Serpa. fac-similada. actualização e notas de Francisco A. todavia. Dutra.Decretos. Na Ordem de Santiago havia até comendas que equivaliam ao rendimento de fornos (quase todos de pão e um de olarias)5. A Ordem de Santiago em 1611 teria cerca de 85 comendas. religião. poder e cultura: actas do III Encontro sobre Ordens Militares. Serpa. 4 Manuel Severm de Faria. 1550-1777”.2. As situações eram. Francis A. Tombos de comendas. assente no almoxarifado da Távola Real da Vila de Setúbal6. outras apenas por bens rústicos de diferente natureza ou por rústicos e urbanos. Severim de Faria. cit. nomeadamente das três comendas estabelecidas na Casa da Índia.

pois não se situavam num só município ou zona. quer nas de Avis da mesma época referia-se quase sempre a jurisdição do lugar. Não só porque em geral os bens estavam dispersos por diferentes freguesias de um mesmo concelho.AS ORDENS MILITARES E O PODER LOCAL: PROBLEMAS E PERSPECTIVAS DE ESTUDO 111 muito variadas. João III. descreveram-se 14 vilas da Ordem de Avis e 30 de Santiago. 3. Afonso (na qualidade de Bispo de Évora) e o Cabido eborense. Em 1532. Quer nestas. Do ponto de vista territorial. quanto. No caso da Ordem de Cristo. quer no outro. o segundo em 1517-1519. Manuel. havia também comendas fortemente descontínuas. fl. além de terras da Ordem de Cristo e de Malta no Alentejo. Quanto ao senhorio jurisdicional. O primeiro processo iniciou-se em 1514. indicando de quem era a jurisdição e as rendas. . É possível observar que os rendimentos das Vilas dos dois Mestrados nas mãos de D. as chamadas comendas “velhas”. a Ordem. Retome-se de novo a comenda de Santa Maria de Mouguelas: reunia bens no termo de Setúbal (Mouguelas). o comendador de cada uma e por vezes o Cardeal D.º 203. na Ordem tomarense tal situação abarcava apenas algumas comendas que vinham da época dos Templários. segundo se escrevia em 15657. pertencia sempre à Ordem. Estas duas últimas figuras marcavam maior presença nas comendas de Avis. o número de comendas aumentou muito no reinado de D. Com base no numeramento demográfico mandado fazer por D. em Óbidos e um ramo “aprestemado na comenda dalhos Vedros que vale quorenta mill reis”. Assim. Jorge de Lencastre eram em geral partilhados entre a Coroa. Ordem de Santiago – Convento de Palmela. as distâncias eram consideráveis. quando foram criadas as “comendas novas” e quando foram instituídas as ditas “comendas da Casa de Bragança”. quando pertencia à Ordem. 2. as comendas não abrangiam as jurisdições das terras implicadas. quer num caso. L. A milícia espatária dispõe de um excelente conjunto de visitações para a primeira metade do século XVI. Em relação à Vila de Cabeço de Vide. No entanto. Assim se mantinha na segunda metade do século XVIII. por vezes. em 1538. é possível ter uma ideia tendencialmente clara das jurisdições das Ordens de Avis e Santiago a Sul do Tejo (com excepção do Algarve). além do juro. escrevia-se: “a Jurdição do cyvell e cryme da dita vylla he da ordem e a eleyção dos Juyzes e ofycyaes se faz pelo ouvydor do mestrado e os Juyzes ordenayros são comfyrmados pelo mestre noSo senhor a quall eleyção se faz de tres em 7 ANTT.

Estes poderes são-lhe reconhecidos por uma provisão de 1627. p. p. E os juizes ordenairos sam comfirmados per nós ou pello Comendador que nosso poder tem e pera ello ho povo dar em cada huum anno seis juizes eleitos e nós escolhemos delles dous ou o dito Comendador que confirmámos ou o dito Comendador comfirma e tal he o custume da dita Villa e Mestrado”. 3 tabeliães do judicial e notas. ANTT. Câmara Municipal. pp. Destes. fixava-se a regra: “A jurdiçam do ciuel e crime da dita Villa e seus termos he da Ordem. Maria Cristina Gomes Pimenta. 11 No caso da comenda de Alhos Vedros. 1991.43. juiz dos órfãos. Mç 24. de acordo com uma composição feita com o Mosteiro de Santos)9. sabe-se que cabia ao comendador. Nem sempre.Papéis Diversos. L. Só por concessão do Mestre.º Aniversário do Foral de Alhos Vedros. 176. fl. entre outros exemplos citáveis. As Ordens de Avis e de Santiago na Baixa Idade Média: o governo de D. e a eleiçam dos juízes e ofeciaes se faz pell nosso Ouujdor ou quem nos pera jso ordenámos. partidor e avaliador dos órfãos) à Ordem pertencia também ao poder do comendador10. Mesa da Consciência – Ordem de Santiago/Convento de Palmela. 2002. Eram eleitos seis. fl. Palmela. na visitação de 1523. O prior-mor podia também apresentar os restantes oficiais da Câmara que eram providos por carta da Ordem. GESOS – Câmara Municipal de Palmela. a partir de 154713. com base nestes poderes. 45v-46v. Comissão organizadora das Comemorações do 480. Fernando Pires. o Prior-mor ainda conseguia apresentar a própria alcaidaria-mor de Cabrela.º Encontro sobre Ordens Militares. seria o comendador a fazer a escolha seguinte11. contador. 65v. 76v (visitação de 1516). distribuidor e inquiridor. Ana de Sousa Leal. um lugar que numa consulta da Mesa da Consciência desse ano se considerava que “deve tocar a VMgde. como as das mais villas dos mestrados das ordens melitares”. A apresentação dos oficiais (escrivão da câmara. fl. in As Ordens Militares em Portugal: actas do 1. a confirmação dos juízes ordinários. ANTT.157.º de ordem 205. 8 ANTT. ANTT. Seguia-se a enumeração dos oficiais postos pela Ordem e a indicação das rendas da mesma (geralmente dízimos) e o elencar das propriedades. porém. Alhos Vedros nas visitações da Ordem de Santiago. ou com o prior-mor do convento palmelense em relação à Câmara de Cabrela. L. Alhos Vedros. Em 1565. “Memórias sobre a Ordem de Santiago no tombo velho da Vila de Sesimbra: a jurisdição de Coina (1330-1363). Mesa da Consciência . 13 Cf. escrivão dos órfãos. Mesa da Consciência – Ordem de Santiago/Convento de Palmela. escrivão da almotaçaria.º 14.33-36. dos quais quem detinha a comenda ratificava 3. relativamente à comenda de Sesimbra.º de ordem 163. Ordem de Avis. Esta modalidade do povo apresentar seis juízes seria corrente noutras comendas de Santiago da primeira metade de Quinhentos. Palmela. 10 Cf.º 18.Ordens Militares . 12 Cf. Jorge. como aconteceu com o Duque de Aveiro12. ibidem. fl. . 1994. Em 1641. o Duque de Aveiro. 38v-39v. Bernardo Sá-Nogueira. n.. um servia na Vila de Sesimbra e os outros dois em Azeitão (um deles em Coina.112 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS tres años e asy he o custume em todo mestrado”8. 9 Cf. n. doc.

15 Cristina Gomes Pimenta. Seria um dado adquirido? O que se destacava como significativo era a possibilidade de controlo mais global. o Conselho de Portugal discutia uma petição do Conde de Ficalho. com a letra e rubrica de Pedro Álvares Pereira foi a seguinte e com a qual esteve de acordo o rei: “Pareçeo que se lhe de a jurisdição de ficalho de juro conforme a ley mental com a dada dos officios de escrivães da camara almotacaria E orfãos E tabaliães das notas E possa dar per suas cartas com todas as mais preminençias com que estão dadas jurisdicoes a outras pessoas tirando o privilegio de não entrar corregedor por correição na dita villa por estar junto da raya de castella E ter tam pouca povoação que se não for visitada se pode recear que se acolhão a ella mal feitores de ambos Rejnos” (AGS. E isto de Juro conforme a Ley mental. Secretarias Provinciales.. recém criada pelo monarca. foram cuidadosamente preparados. A resolução a esta consulta. E pedia nos seguintes termos: “a dada dos offiçios que nella ha de haver. Seria através dele que se fazia a defesa da jurisdição da Ordem15. . Assim se designava se a comenda estava sujeita ao Ouvidor do Mestrado ou aos corregedores da Coroa. Era este poder que havia que acautelar em 1619-20. cit. aliás. 163. L. Tenha-se presente o seguinte: em 1600. também acontecia em Santiago14. A possibilidade do comendador apresentar outros oficiais da comenda (tabeliães. Relativamente ao período posterior a 1551.º 26). impressos em 1631. Em sentido inverso. Pelo frequência com a qual se insistia neste ponto. p. indicando se a jurisdição estava incluída “no Mestrado” ou “fora dele” (ver mapa). Como.AS ORDENS MILITARES E O PODER LOCAL: PROBLEMAS E PERSPECTIVAS DE ESTUDO 113 No caso da Ordem de Avis. resultantes dos definitórios de 1619-1620. no entanto. A mesma atenção mereciam os diferentes tipos de benefícios eclesiásticos que tutelava. nos inícios do século XVII. E CastelRodrigo. E da maneira que tem estas jurisdições. etc. assi Como tem a propriedade da dita villa antes de ella o ser”. Os estatutos desta milícia. E dadas em suas terras os Marquezes de Villareal. nada era dito . Quanto à jurisdição específica de cada uma das terras. E outros titulos do Reino. E se houverem de Criar de novo na forma. o mesmo será dizer na Ordem. Jorge († 1550). Op. escrivães da câmara e dos órfãos. através do Ouvidor. mesmo no tempo de D. 14 Cf. equivaliam às mais rendíveis dos três Mestrados. o normal parecia ser o Mestre dar a comenda a alguém.º 1460. seria um tópico ao qual a Ordem dava muito relevo no início de Seiscentos. Era das Ordens ligadas à Coroa a que tinha menos comendas. n. ou. mas o senhorio jurisdicional permanecer nas suas mãos.o que não deixava de ser um silêncio inquietante. Uma a uma inventariaram as comendas. eventualmente a outra entidade. as melhores fontes que restam nos arquivos são documentos que foram produzidos pela Ordem de Avis ou que a ela pertenceram.) também seria escassas vezes atribuída. Em razão do seu título nobiliárquico solicitava a jurisdição da vila. a preocupação com os corregedores seria grande por parte da Coroa.

um Ouvidor deste mestrado e assim foi ao longo do tempo. Quanto ao mais. portanto. fez-se um balanço “da jurisdição secular que a Ordem tem em determinados locais”18. como era o caso de todas as comendas do bispado de Coimbra e da Guarda. Yorge Royz. L. jurava na Chancelaria da Ordem. Só havia. A anexação das Ordens à Coroa facilitou a aproximação de jurisdições e de pessoas em actividades que deviam ser diferenciadas. Nesta altura. em 1373. apenas enquanto servisse de corregedor de Santarém . Regra da Cavallaria e Ordem Militar de S. mas que a pouco e pouco deixaram de o ser. sem que pudessem tais poderes ser revogados posteriormente. Nesta salientava-se que. Lisboa. Bento de Avis.cf. A maioria destas equivaliam às mais distantes da sede da Ordem. fl. mas deixava de se poder apelar desta instância para o rei. 114-118v.º 37. Fernando ampliara o senhorio jurisdicional da Ordem de Cristo em todas as vilas e lugares que lhe pretenciam. salvo se houvesse prévia denúncia ou querela contra o Mestre e o seu ouvidor. uma situação que se manteve ao longo do tempo17. que residia habitualmente em Avis. cerca de 51% das comendas não estavam sob a tutela do Ouvidor do Mestrado. a Ordem tomarense passava a usufruir do seguinte: – os tabeliães poderiam ser dados e confirmados por cartas do Mestre e da Ordem. cap. Moura. Numa junta de reforma da Ordem de Cristo que encerrou em 1589. 16 Cf. antes de exercer. Pernes. – os corregedores não podiam actuar nas terras do Mestrado. Vila Viçosa. dos juízes ordinários apelava-se para o Mestre e para o seu ouvidor. O ouvidor de Avis. 1631. 206v (ano de 1753). Alpedriz e Rio Maior entrava em 1631 o corregedor de Santarém como Ouvidor da Ordem16. exercia o cargo durante três anos e em nada se diferenciava de outros magistrados da carreira de Letras da Coroa. 18 BN. D. Chancelaria da Ordem de Avis. Sousel. XII. ANTT. de uma situada na arquidiocese de Braga e da comenda algarvia de Albufeira. Nas outras terras. no caso de Alcanede. A partir daí. 17 Em cartas passadas pela Chancelaria da Ordem de Avis chegava-se mesmo a dizer que determinado magistrado serviria de ouvidor nesta zona. Serpa. Estremoz. como era usual nos processos crimes. tít. – nos feitos cíveis. Borba. Seria colocado do mesmo modo. Beja e Mourão) e no bispado de Elvas (Olivença e Santa Maria da Alcáçova de Elvas). Cód. fl. entrava o corregedor com poderes de ouvidor. mas também as havia no Arcebispado de Évora (Freiria de Évora.I.114 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Os mesmos estatutos esclareciam que. . 13216.

em 1589. nas Cortes de Almeirim de 1544. 1671(1. 20 . de ouvidores do Mestrado. como governador da Ordem de Cristo. exercido apenas enquanto o magistrado servisse de Corregedor da Comarca de Tomar. na sequência do Capítulo Geral de 1619. Nada se sabe sobre as eleições concelhias nas terras da Ordem de Cristo depois de 1551. Lisboa. pela escassa documentação camarária de Tomar disponível. com cabeça em Castelo Branco. os magistrados já só obtinham uma única carta de corregedores. Em períodos posteriores. passada pelo monarca na qualidade de Governador da Ordem e feita por um escrivão da Mesa da Consciência20. João III. e as outras que não couberem (. 108v. 291 (1658). outra como ouvidor. emitida em nome de Sua Majestade como rei. criando-se uma nova.ª ed. Op.º 302.. protestava-se contra a perda destes poderes e contra a confusa e indistinta jurisdição da Coroa e das Ordens. Alberto de Sousa Amorim Rosa. Na Chancelaria da Ordem não foi emitido qualquer 19 Alberto de Sousa Amorim Rosa. Anais do Município de Tomar. 358 (1679). Dizia-se que o corregedor de Tomar e o de Castelo Branco serviam também. Vol. com maiores ou menores dificuldades. e simultaneamente. Ioam da Costa. 21 Cf. tinham sido mantidas até 1532. & com cargo da cõciencia de sua Magestade. fl. casos de duas cartas para a mesma pessoa21. X. Salientava-se que eram doações remuneratórias e como tal não podiam ser retiradas ao património da Ordem – Definicoens e Estatutos dos cavalleiros. que estas jurisdições. onde se afirmava textualmente que a Ordem fora “esbulhada de suas jurisdições cõtra direito. circunscrevia as apelações que o Ouvidor podia receber às “que couberem em sua Alçada sòmente. todavia.) irão a quem directamente pertencerem”19. em 1589. e freires da Ordem de Nosso Senhor Iesu Christo com a Historia da Origem e principio della. 1971. conhecem-se. Nessa altura. Vol. cit. 3.AS ORDENS MILITARES E O PODER LOCAL: PROBLEMAS E PERSPECTIVAS DE ESTUDO 115 Apontava-se. porém. pp. Por isso. Nota-se. a ouvidoria de Tomar foi dividida em duas. em comparação com o Corregedor. 364 (1682). cuja intenção não he que se tomem á Ordem suas terras legitimamente adquiridas por serviços”. pp. O cargo de Ouvidor do Mestrado era. ANTT.III. Como se afirmava na citada junta. 1628). Pte.. IV. Cf. L. Tal queixume passou para os Definitório impressos. porém. Mais tarde. limitaram-se os poderes do respectivo ouvidor do Mestrado. Mesa da Consciência.. Tomar. que o Ouvidor teria um papel meramente secundário. sobre estes procedimentos. 256-257 (com um erro de data). Câmara Municipal de Tomar. tít.VII. na sequência de um pedido feito pela Vila de Tomar. D. Deviam tirar duas cartas separadas no Desembargo do Paço: uma de corregedor.

[D. ao delegar poderes no comendador. D. Campo Arqueológico. nos seguintes moldes “e assim se conservou em sua posse a dita Ordem com todos os seos actos e provimento de justiça athé que encorporadas as ordens na Coroa lentamente se foram descahindo os exercicios da dita posse. Sobre esta atribuição impõem-se dois comentários. L. mas ainda alguns officios. e outros mais sam providos pella secretaria do Mestrado da dita Ordem. com a separação do que hera Coroa. como ninguem cuidava de os inteirar. de Joaquim Ferreira Boiça e M. Por aquele diploma era-lhe feita mercê vitalícia da confirmação dos ofícios das vilas da Ega e Dornes. fl.L. por deixados. 257v. com a consequente perda de competências dos tribunais régios. Por outro lado. os rios: as memórias paroquiais de Mértola do ano de 1758. de 1623. Apontava que a jurisdição de Mértola era da ordem de Santiago.. que o antecederam na dignidade. Aliás. em 1758. a ingerência do Desembargo do Paço seria clara já no século XVII. através do Desembargo do Paço.116 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS diploma a confirmar oficiais camarários eleitos ou não eleitos. como he o Juiz dos Orphaons. então enviado aos párocos. passado em nome do comendador-mor da Ordem. A única excepção até agora identificada reporta-se a um alvará. as serras. puchando sempre os Ministros de El Rey para excluirem de tudo a Ordem (. mas em parte está da Coroa”23. receava-se o efeito dos processos poderem eventualmente cair no alçada do foro privativo dos membros das Ordens Militares. O reparo feito é muito claro a este propósito. Tal documento. . na Ordem de Santiago. terras.lit. Sobre este processo são muito esclarecedoras as palavras do Prior da Igreja Matriz de Mértola quando respondia. talvez por volta de 1620. ed. Mértola. Afonso de Lencastre. Seria um dos problemas nos concelhos dependentes destes institutos. É provável que não incluísse os elementos da câmara propriamente dita.).1995]. quando foi redigida a primeira versão dos definitórios impressos como estatutos da Ordem 22 ANTT.º 22. não é de afastar a hipótese de muitas jurisdições terem sido assimiladas pela Coroa. muitos estam confundidos. à segunda pergunta do interrogatório.ª de Fátima Rombouts de Barros. A julgar pelas aparências. pp. Por um lado. como a tiveram o seu progenitor e o seu avó. o Juiz dos Direitos Riaes.Tiago. em bom rigor não se sabe verdadeiramente quais eram os ofícios referidos.. encerrava com uma valiosa ressalva: “cõ declaracao que não UZará Nunca de Conservatorias Nem Cemsuras E Sendo lhe necessario algum Requerimento o fara nos tribunais Seculares”22. 23 As Chancelaria da Ordem de Cristo. Em forma que. E nestes termos he esta villa da Ordem de S.59-60. porém.

& o Ouvidor confirme. Def. & datas. como Governador perpétuo da Ordem. Mesa da Consciência. & dentro das comarcas dos Corregedores. & aggravos das terras do Mestrado. 25 O facto de se tratar da comenda-mor terá de longa data correspondido a uma situação especial. vão à Mesa das Ordens. embora D. dos dittos officios como as eleyções dos Officiaes das Cameras.AS ORDENS MILITARES E O PODER LOCAL: PROBLEMAS E PERSPECTIVAS DE ESTUDO 117 de Santiago. & disto se naõ guardar se tem seguido perda à Ordem.º 69. Lisboa. fl. . & ordenamos que se peça a vossa Majestade mande que assi os provimentos. estatutos. & provião os Ouvidores. Miguel Manescal. Sem expresa doação de Vmag. Pedro usasse de tais poderes nestas comendas.º 302. Enqueredores. definição e reformação da Ordem e Cavalaria de Santiago de Espada. que estão fòra do Mestrado.de Cujas doacoens Se expedem pello Desembargo do Paço”26. 1694. não possão elles entrar sem provisão do Mestre. Francisco. L. consultas. “vagas” por morte do Infante D. Pretendia o contador do mestrado25 confirmar as eleições das já apontadas comendas da Ega e de Dornes. 26 ANTT. & confirmavaõ por elles. L. No definitório em causa. No parecer deste indicava-se que “o Comfiar as doaçõens das Camaras hé Regalia da Coroa. 9 de Novembro 1624 e fl. & jurisdicção nas terras do Mestrado. vale a pena ponderar uma consulta do Desembargo do Paço sobre o assunto. tivesse permitido que o seu irmão D. que ao menos pusesse em substituição destes um juiz de fora letrado com o mesmo estatuto. 319v. & todos os mais Officiaes de Justiça tocantes à sua jurisdicção. que costumaõ vir ao Desembargo do Paço. & apure as outras como faz. em 1742. & conheça das novas acções. que nenhuma peSsoa nem ordem pode Competir. por do contrario se seguir alienação da jurisdicção da Ordem”24. pelo que diffinimos. De acordo com a mesma opinião. 300. Juizes de fòra. & se goarda por costume immemorial. e de Dornes tocão ao Comendador môr. conforme a provisão que para isso hà. chegou-se a propor que se a Ordem não nomeasse os juízes ordinários das terras do Mestrado. Tabeliões dos Officiaes. Desembargo do Paço. & que nas terras da Ordem. Num livro de notas de Lázaro Leitão Aranha registou-se: “O provimento dos Officiães da Vila da Ega. Contadores. 86” – ANTT. tal facto não era era con- 24 Regra. Afonso VI. LXXVI. fl. No que respeita às eleições camarárias das terras do Mestrado da Ordem de Cristo. porque os faça seus Ouvidores. Para solucionar o caso foi consultado o desembargador que servia de Procurador da Coroa. datada de 1744. e em sua falta ao contador do Mestrado. Nestes fez-se registar o seguinte: “Os Mestres tiverão sempre o poder. & confusão na jurisdicção. & assim os pilouros das eleyções dos Officiaes das Cameras se apuravaõ.

como se comprova pelo registo das cartas na respectiva Chancelaria. ANTT. A situação na Ordem de Avis parece ser um pouco diferente. fl. em ANTT. fl. Desde logo. poder. vereadores e procurador tratavam de ratificar na Mesa da Consciência tal facto.º 39. 23v. 305-305v. 236v. a Ordem confirmava as câmaras de diversas terras. Do mesmo poder dispôs o comendador seguinte: o Infante D. Mesa da Consciência.º 17. seria o facto de disporem de um “verdadeiro ouvidor” que dispensava tal atitude? É uma pergunta para a qual não temos resposta. Estes seriam os “verdadeiros ouvidores do Mestrado”. do monarca. Mesmo municípios afastados do centro nevrálgico da Ordem. Aberto o pelouro.º 1. fl. confirmação de 1552. distinguia-se claramente entre o poder de fazer as eleições. mesmo para o cargo de vereador32. inclusive. os que saíam para os lugares de juiz. L. 29 Cf. 472.º 302. 108v. como os de Seixo do Ervedal e da comenda do Casal. em 1552-1553. fl. pela proeminência do Infante D.300v. Segundo historiava o procurador da Coroa. na Ordem de Santiago27. Até 1620 é fácil atestar a confirmação para a Câmara de Alpedriz. 30 Cf. Ibidem. Francisco. Logo após a anexação. mas apenas por isso. Nestas casos. 19v. que se admitia pudesse ser delegado. L. . 148v. 255. Ibidem. mas. L. L. mas não a confirmação dos eleitos: era competência. fl. quando morreu. na Estremadura29.118 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS siderado grande argumento. marcavam presença neste registo. ambas situadas nas Beiras28. como se chegou a classificar no discurso da época. Ibidem. E este era considerado o ponto crucial. noutros locais. O mesmo parecia acontecer com os Setúbal e Messejana. as referidas são as únicas que aparecem a fazer confirmações das câmaras na Chancelaria da Ordem de Avis. Chancelaria da Ordem de Avis.º 11. passim. fl. 32 Cf. Nesta mesma consulta. A partir de 1681 há pedidos regulares dos eleitos anualmente para este município30. 32-32v. Nos anos de 1760 ainda se fazia o mesmo e é de crer que se continuou a fazer31. Ibidem. eleitos em Alcanede e Alpedriz que pediam nas décadas de 50 e 60 do século XVIII para serem dispensados de servir. Será que. A Câmara de Alcanede e lugar de Pernes tinham idêntico comportamento. o Desembargo do Paço apropriou-se da regalia. o ouvidor de Avis não acumulava funções. 28 Cf. Havia. Pedro não fora feita oposição a este poder. L. 31 Cf. 244v. 20. Nos séculos XVII e XVIII. o diploma com a anuência do 27 Cf.

O reforço da ligação ao Mestrado seria um hipotético ponto de fuga. 34 Cf. 305. Até que ponto a proximidade da fronteira e o facto de ter sido comenda do Duque de Aveiro também não terão contribuído para essa manutenção? Não se sabe. fl. Pondo de lado estes casos. com os seguintes reparos: “cuja nova eleição virá a confirmar ao meu Tribunal da Mesa da Consciencia e Ordens. No século XVII. O que parecia estar em jogo em Alpedriz. 255. L. fl. L. fl. L. no século XVII.º 12. 33 Ibidem. . e a quem mais tocar lhe cumprão e guardem esta Provisam Sendo paSsada pela Chancelaria da mesma Ordem”33. L. no tombo da comenda. Como se perdeu a documentação do citado Juízo.º 373.º 17. 35 Excepto em 1681. na figura de Mestre. 202v. assim. Alegava-se assim com a origem das terras para justificar a situação jurisdicional. com os privilégios daí decorrentes. Pelo que mando aos officiaes da Camera do dito Lugar. A última das quais teria ocorrido em 20 de Março de 1680. não é possível esclarecer o problema. Também em Noudar. Tombos de Comendas. fl. uma observação que todas as cartas de confirmação de Alpedriz e Alcanede referiam a partir dos anos 80 do século XVII35. também. escrevia-se: “Achou o dito Juis do tombo que a Jurdicam da Justiça do crime E civel E governo da terra he do comemdador que he agora o comde de linhares E a teve tambem o duque daveiro Seu amtecesor porque esta comemda E terras dellas foram da igreiJa E da ordem de cystel E amtiguamente Sohya Ser E amtes delRey dom denis quãdo Eram de castella E vieram a Este Reino de portugal por virtude de hua demarquaçam”36. 427. é bem possível que muitas das comendas que implicavam a tutela das vilas tivessem pautas confirmadas pelo Desembargo do Paço. eram problemas com os corregedores e outras autoridades de Leiria. 36 ANTT. feito em 1607. Alegava-se. 157.º 8. até quando se prolongou no tempo esta particularidade. indicava que se devia mandar fazer nova eleição. Mesa da Consciência.AS ORDENS MILITARES E O PODER LOCAL: PROBLEMAS E PERSPECTIVAS DE ESTUDO 119 monarca. e Sem iSso não terá effeito. privilégios que isentavam a Vila da jurisdição régia34. fl. ANTT. a confirmação dos eleitos para as câmaras pelo Governador perpétuo da Ordem seria um assunto por diversas vezes discutido e julgado favoravelmente no Juízo da Conservatória das Ordens Militares. Ibidem.

No que respeita aos restantes ofícios das terras da ordem de Cristo e Avis. fl. nos seguintes termos: “E também pareçe que não ha que diffirir a dada.º Conde de Linhares († 1608). 38 Ibidem. Mde. Nessa altura estaria ele em necessidades.) que por ser de Jurdição foi sempre de tanta consideração neste Reino que sou informado que a Rainha que Deus tem largou á das suas terras a ElRej pera cõ isso se moverem pessoas particulares a fazer o mesmo”38. fl.. Passado um mês nova carta régia insistia na negativa.. Corpo Cronológico. é importante atender à pretensões do 3. E se lhe passou padrão delles pello que não tendo os Comdes seu avoo. E tendo dissistido della cõ a dita satisfação que ora logra o Comde. 84. . 39 Ibidem. numa carta régia de Junho de 1588 dizia-se que era “cousa muy grande (. Sobre o que se terá passado na Ordem sedeada em Tomar. E por sua morte os ouve o dito Comde. pois a palavra “Mestrado” raramente era 37 ANTT. E pay a dita dada senão como Chançareis da dita ordem. Não sabemos se o exemplo teria sido efectivamente imitado. Primeiro. 4v. pois gastara muito na Jornada de Alcácer-Quibir.ª.120 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS 4. 112. Vedor da Fazenda e partidário de Filipe II. 4. entre 1588 e 1591. E por sua morte para seu filho mais velho os quaes elle açeitou. Parte 1. porém.5. a dúvida se estes documentos se reportavam aos postos das comendas da Mesa Mestral e não aos das restantes comendas. sabe-se um pouco mais. Resta. entre outras mercês. não pareçe que ha aução para a pretender. e as justificações dadas são esclarecedoras. pois se conçedeo a seu pay cõ declaração que a averia Em sua vida somente”39. E de que sabe dom christovão [de Moura]”37. E provisão dos offiçios do Mestrado de Christo porque alem de ser isto cousa muy grande E que não he justo tirarsse da Coroa estando Ja nella. A Coroa ao longo dos anos apontados reagiu-se sempre mal a este tipo de aspiração. “a dada E provimento dos offiçios dos lugares do mestrado de Christo que foi de seu pay aVoos E visavoo que os governadores que forão destes Reinos lhe derão Em Setuvel ~a Certidão do Comde de Matosinhos que deu como diZ que consta de hu Em Elvas a V. não pareçe que o Comde tem a isso aução porque sendo esta dada do Comde seu pay como ChançareL do dito mestrado dessistio delle cõ declaração que lhe ficasse em hua vida a dada dos ditos officios E se lhe derão em satisfação disso cõ çem mil réis de tença en sua vida.. doc. sem que o Conde alcançasse o seu intento inicial. Estas negociações ainda duraram mais três anos. Mç. teria solicitado à Coroa. fl.

111-112. num caso ou noutro. que podia nomear almoxarife nas suas comendas enquanto as administrasse41. Em termos globais. as cartas de ofícios continuavam a ser emitidas pela Chancelaria da Ordem. Recebera também uma mercê idêntica para as “suas terras” que constituíam bens da Coroa. apenas significado económico. apesar da carta figurar na Chancelaria e ser redigida pelo escrivão da Ordem. Em 1690. cerca de 1731. Mesa da Consciência. poder. O cargo invocado tinha. Não se sabe desde quando. ultrapassou-se largamente a questão da apresentação dos oficiais. todavia. L. 320. As cartas de provimento emitiam-se. ANTT. em 1664. apesar de ser terra de uma Ordem Militar. Assim se fez. Deste modo. pelo escrivão da Câmara e Secretaria de Avis na Mesa da Consciência e assinava-as o Chanceler da Ordem. com o facto de Dinis de Melo e Castro (162440 Cf. quem decidira o provimento fora o Desembargo do Paço. as atribuições mais exorbitantes que se conhecem são as da comenda das Galveias (Ordem de Avis). 41 Cf. fl. em nome do rei como administrador do Mestrado. Cabia a este examinar o provido apenas na suficiência de ler. Embora o provimento dos oficiais das terras das Ordens pertencesse à Mesa da Consciência. Sua Majestade mandara que o passasse a fazer o Desembargo do Paço. que também consultava sobre a atribuição do ofício. e com ela as Ordens Militares. onde pagava os direitos. não prejudicando esta instituição40. escrever e capacidades. tinha perdido terreno. E provavelmente na manutenção de alguns formalismos teriam contado muito os ajustes quanto aos emolumentos e imposições afins. como actualmente se tende a fazer. esclareceu-se a tramitação processual. No caso da Ordem de Avis. fl. porque fora provido um cristão-novo no lugar de juiz dos órfãos da Vila de Albufeira e o monarca terá pedido contas do sucedido. por exemplo. como se comprova pela situação invocada Em qualquer das três Ordens Militares.AS ORDENS MILITARES E O PODER LOCAL: PROBLEMAS E PERSPECTIVAS DE ESTUDO 121 usada como sinónimo de “Ordem Militar”. . A Mesa da Consciência. Assim ocorria na data invocada. Justificou-se a atribuição do senhorio das Galveias. mas os procedimentos só revelam o quanto as aparênciam por vezes iludem.º 302. todavia. Averiguar a qualidade do sangue era uma das responsabilidades do Desembargo do Paço. ter-se-ia concedido a apresentação ou a data dos ofícios a uma ou outra personagem. e a de Fronteira na década seguinte. Nestes casos. Ibidem. O diploma passava depois pela Chancelaria da Ordem. com a Marquesa de Arronches.

a qual se Entende. terra espatária.n. 122.segundo um manuscrito da Biblioteca da Ajuda. em Alcácer do Sal. a doação foi sucessivamente reno42 Sobre este General. esclarecia-se que a jurisdição delegada era a ordinária. fl. fl. 47 Cf.). Na carta citada. 46 Cf. nem a ameaça do uso da força fora suficiente para demover a população. excepto os das sisas e os de provimento da Câmara.Ed. pp.º 245. fl. para que não fosse prejudicada47. Livraria Civilização.122 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS -1709)42.º 168. 1995 (1. 45 ANTT. Já antes disso. então General da Cavalaria do Exército do Alentejo. que ficara sendo Em utilidade da Ordem. ser capaz de a defender e fortificar no contexto da guerra que se vivia. ver Julio de Mello de Castro. em 1670.º 15. pagara Dez Cruzados Cada anno por Reconhecimento. Chancelaria da Ordem de Avis.374v-375. com as prerrogativas que habitualmente podiam dispor os donatários da Coroa. L. Rezervando o Dominio direito â mesma ordem.128-129). até hoje attribuido infundadamente ao benedictino Fr. que em 1691 se tornaria no I Conde das Galveias. Tombos de Comendas. esclarecia-se perfeitamente que se incluía a data de todos os ofícios. 44 Cf. Dinis de Melo e Castro ficava logo autorizado a impetrar diploma papal a corroborar a mercê. Ver também ANTT. Historia panegyrica da vida de Dinis de Mello de Castro. Afonso VI ..º 302. se tentara dar a D. que equivalia a uma quinta sua. a Cuja meza mestral. L. s. Eduardo Brazão (apresentação e ed. 62. Porto. Lisboa. Em 1736. sôbre o seu reinado. Apesar dos protestos iniciais da população que não queria passar para a tutela de um particular48. 48 Segundo as Monstruosidades do tempo e da fortuna . L. n. António Mascarenhas o título de Conde de Palma. Cabia também ao agraciado apresentar os ofícios. do Conselho de Estado e Guerra dos Serenissimos Reys D..179-180.ª ed. L. No caso da doação de Fronteira ao Marquês do mesmo título. Mas sômente huma merce Em Vida.142v. 345. para que tenha sômente o Dominio Util.diario de factos mais interessantes que succederam no Reino de 1662 a 1680. fac-similada da de 1744. ANTT. pois alienavam-se bens de teor eclesiástico44. ed. Pedro II e D. Com declaração Expressa que por isto senão Entenda fazerselho prazo Em que tenha Lugar Renovação. cujas cartas seriam passadas pela Mesa da Consciência. 1940. fl. Manuscritos da Livraria. E datas de officios tudo Em sua vida. pp.Alexandre da Paixão (Lisboa. 1888. O facto na época suscitou eco e mal estar. ainda o facto do II Conde das Galveias nomear as justiças da Vila causava problemas ao Ouvidor que as pretendia explusar dos lugares45. primeyro Conde das Galveas. D. Ficava com “sua Jurisdição. A Mesa conseguiu demover Filipe III de Portugal deste intento46. Typ. pelos anos de 1620. para melhor Conservação da dita Sua Villa”43. João V. 43 ANTT. 1721).º 16. da viuva Sousa Neves . . fl. Chancelaria da Ordem de Avis. Mesa da Consciência.

Fazer passar muitos poderes para as mãos dos comendadores era uma prática que suscitava receio ao centro político. Quanto mais não fosse. porém. a emissão dos diplomas procurava assinalar a marca das Ordens Militares. fl. sobretudo nos século XVII e XVIII. a anexação das Ordens à Monarquia facilitou que se confundissem as jurisdições locais das Ordens com as Coroa. O rei era o Mestre. com poderes delegados. 301. o comendador. ainda se temia a raiz eclesiástica destes institutos e o seu foro privativo. pois o poder local – designadamente no caso das Ordens Militares – não se circunscre- 49 Cf.AS ORDENS MILITARES E O PODER LOCAL: PROBLEMAS E PERSPECTIVAS DE ESTUDO 123 vada na mesma família. antes da tutela perpétua da Coroa sobre os três Mestrados. pois nem todas seriam iguais. No começo de Seiscentos. “verdadeiros” ou não. não houve verdadeira incorporação. Não será também descabido comparar os poderes exercidos nestes municípios e nos senhoriais (no sentido dos administrados por donatários laicos ou religiosos). todavia. .º 28. se bem que em muitos casos quem tomara a decisão fora o Desembargo do Paço e não nenhuma instâncias dos três Mestrados. que analisar as possíveis especificidades envolverá equacionar outras áreas. Em que medida constituiriam excepções? A Ordem de Santiago era aquela que dispunha de maior número de terras com jurisdição. em 1727-1730. Valerá a pena saber se o sucedido em Mértola teve paralelo em todas as vilas espatárias. L. fl. A Ordem de Avis. Desde logo. alguns municípios das Ordens Militares caracterizar-se-iam por apresentarem um duplo e hierárquico senhorio jurisdicional: o Mestre e abaixo dele. ainda confirmava alguns ofícios nomeados pelo donatário49. Em síntese. Seriam os municípios das Ordens diferentes? Note-se. os ouvidores eram encarados na época como ministros essenciais na defesa da património de jurisdições locais das Ordens Militares. Por parte dos seus membros. 92. importa aprofundar o problema da actuação concreta dos ouvidores. muito por esclarecer neste âmbito. L. No entanto. Os casos de Alpedriz e Alcanede merecem ser retomados. quando os comendadores e os senhores eram absentistas nas suas terras.º 27. Resta. mas não obstante tal facto. Ou terá ocorrido apenas onde não havia “verdadeiro ouvidor”? Será fundamental analisar a documentação local das terras das Ordens e a efectiva composição das várias câmaras. tendo em vista apurar o significado real do exercício de poderes deste teor a nível local. Chancelaria da Ordem de Avis. nomeadamente a religiosa e o direito de visitar igrejas e comendas. ANTT.

convém pensar que a presença de uma comenda numa dada localidade. mesmo sem abarcar a jurisdição da vila. No século XVIII. problemas que só a documentação local pode ajudar a aclarar. Estampa. 50 Sobre estas questões. 246-247. Na realidade podia não ser um elemento inócuo. . podia matizar a vivência local. apenas nos bons anos agrícolas. Enfim. Algumas comendas espatárias do Algarve. O Algarve Económico: 1600-1773. pp. 1988.124 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS via apenas ao direito de confirmar as câmaras e os restantes oficiais concelhios. estavam autorizados a vender fora das terras de origem dois terços da receita50. apesar do absentismo típico dos comendadores a partir do século XVI. Em anos de escassez frumentária. formadas essencialmente por dízimos. vide Joaquim Romero Magalhães. constituíam bons exemplos. Por fim. eram palco de conflitos porque a população e as câmaras impediam a saída dos cereais. obrigando os comendadores a vendê-los na zona. Lisboa.

AS ORDENS MILITARES E O PODER LOCAL: PROBLEMAS E PERSPECTIVAS DE ESTUDO 125 Anexos Vilas onde a Ordem de Avis teria seguramente a jurisdição. em meados do século XVI Vila Alandroal Albufeira Alcanede Alpedriz Alter Pedroso Avis Benavente Cabeço de Vide Cano Casal Coruche Figueira Fronteira Galveias Juromenha Mora Noudar Seda Seixo do Ervedal Vieiros Observações Mesa Mestral em 1532 Mesa Mestral Mesa Mestral Mesa Mestral em 1532 Elevada a Vila em 1538 .

Yorge Royz. Lisboa. XII. 1619-1631 FONTE: Regra da Cavallaria e Ordem Militar de S. . cap. Bento de Avis. 1631. tít.126 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Comendas da Ordem de Avis C.I.

2004. . contudo. as de âmbito local. Edições Colibri e CIDHEUS-UE. No contexto português. este pressuposto que esteve na origem do Colóquio Ibérico. Lisboa. Muito especificamente. aliás. as atenções centram-se. pp. Bispos. que os poderes se apressaram a gerir mais de acordo com os seus próprios interesses do que com as necessidades dos pobres. como bem se sabe – sobretudo devido ao quase desconhecimento das reais dimensões do papel que a Igreja desempenhou neste sector1 –. É aliás por esta razão que a análise das políticas assistenciais e de saúde pública requer o estudo prévio das estruturas do poder e das relações sociais estabelecidas entre as diferentes organizações que o detinham. realizado na Universidade de Évora em Junho de 2003. já que se sabe que foi no seio das comunidades que se encontrou a maioria das respostas aos sucessivos problemas criados pela transformação da economia e da sociedade que o Ocidente viveu ao longo do período moderno. a que esteve a cargo da sociedade civil. Laurinda Abreu (ed. de História /CIDEHUS) Apesar de a recente historiografia sobre caridade e assistência se mostrar empenhada na reabilitação das formas de apoio e inter-ajuda ditas informais. desde cedo. São precisamente estas duas instituições que constituem o objecto principal deste texto. Relações políticas e institucionais* LAURINDA ABREU (Universidade de Évora – Dept. 2005. que não é nossa intenção ava* Investigação realizada no âmbito do projecto POCTI/1999/HAR/33560: O papel das Misericórdias na sociedade portuguesa de Antigo Regime: o caso da Misericórdia de Évora. Nomeadamente. é ainda a assistência institucionalizada aquela que melhor se conhece e sobre a qual se possui informações mais consistentes. Edições Colibri – CIDEHUS-UE. XVI-XVIII).). 1 Foi.Câmaras e Misericórdias. as atitudes e os discursos relativos à pobreza e à miséria terem transformado estas questões num fenómeno político. 127-138. nas Misericórdias e nas Câmaras. de que resultou o livro Igreja. Os Municípios no Portugal Moderno: dos forais manuelinos às reformas liberais Lisboa. caridade e assistência na Península Ibérica (sécs. Esclareça-se. Cabidos e Assistência na Península Ibérica (Séculos XVI-XVIII). Uma particularidade a que não será alheio o facto de.

e. A Piedade e a Forca . consequentemente. estrutura política ou sector económico. e nalguns casos controlou. que. de facto. condicionou. 1995 e a de Robert Jütte. experimentaram novas formas de assistência e novas políticas sanitárias.. tornando mais violenta a legislação que. Basicamente o que nos interessa é identificar as principais competências das duas entidades no que respeita à saúde e ao bem-estar das populações – num tempo em que estes serviços eram organizados localmente mas não municipalizados –. todavia.História da Miséria e da Caridade na Europa. Poverty and Deviance in Early Modern Europe. questionar as consequências sociais de tais decisões. dos incontroláveis fluxos migratórios. dentro das limitações existentes. de forma mais ou menos organizada. Especificamente para a realidade inglesa. o carácter meramente introdutório de todas as considerações realizadas. Um trabalho que desenvolveremos a partir da identificação das linhas que orientaram a reforma da assistência iniciada em Portugal nos finais do século XV e dos objectivos políticos da actuação régia. da mendicidade. Slack. em termos muito directos. De entre as transformações registadas merecem destaque. diversificaram a oferta em termos de institutos assistenciais apostando na sua especialização. as implicações decorrentes de um modo de actuação cujas directrizes emanavam da Coroa que. Lisboa. como é do conhecimento geral. . e reforçaram o controlo da mendicidade. um longo período de profundas mudanças que não deixaram incólume nenhum grupo social. A. assumidas aqui como mero ponto de partida para uma investigação de maior envergadura. 1988. Refira-se.128 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS liar os fundamentos jurídicos das relações desenvolvidas entre as Santas Casas e os municípios. de saúde pública que as cidades enfrentaram – estas a cargo das autoridades locais. nem mesmo caracterizar os mecanismos político-institucionais que sustentaram a interdependência entre ambos e fortaleceram a sua capacidade de intervenção nas respectivas comunidades. Poverty and Policy in Tudor and Stuart England. para. as tendências políticas – claramente centralizadoras – e a procura de soluções para os problemas sociais decorrentes das novas situações de pobreza. acabou por a interditar2. 1996. 2nd ed. sobretudo. Cambridge. pela oposição que as caracteriza. Foram as cidades. destaquem-se a de Bronislaw Geremek. finalmente. vejam-se os trabalhos de P. avaliando. nalguns casos. a forma como o sistema evoluiu. 2 Das imensas obras que abordam esta questão. Expansão urbana e reorganização da caridade: as linhas de intervenção da Coroa portuguesa A partir da segunda metade do século XV o Ocidente viveu. London.

que pela primeira vez viam reconhecido na lei (Ordenações Manuelinas) o seu direito à protecção3. pp. Não nos princípios ideológicos ou nos objectivos programáticos mas sim na forma como foi conduzido. procurando dotar o país de uma rede de confrarias especialmente vocacionadas para o apoio aos presos e aos pobres. e. que eram agora chamadas a associar-se a um projecto novo. distinção que os visados respeitavam muito particularmente quando as suas atitudes tinham repercussões económicas. que tinha a particularidade de ser centralizada e orientada a partir da Coroa. História. com a fundação das Misericórdias – que o rei incentivou também em 1499. ainda. 420-421. 2002. ainda que os responsáveis pelas Misericórdias e pelas Câmaras pudessem ser os mesmos – frequentemente em sistema de rotatividade entre as duas instituições –. . tratou-se de uma reorganização das estruturas assistenciais e das suas competências de âmbito social alargado. Ponta Delgada.CÂMARAS E MISERICÓRDIAS: RELAÇÕES POLÍTICAS E INSTITUCIONAIS 129 Sendo esta uma forma de actuação comum à maioria dos Estados Europeus. 2ª série. ainda que marcada pelos particularismos locais. Arquipélago. que esteve na origem de vários Hospitais Gerais – uma reforma que foi precedida de inquéritos (1499 e 1501) que avaliaram o estado do património dos hospitais e demais institutos pios e aferiram do cumprimento da vontade dos seus instituidores –. Um elemento que seria matricial no processo a que agora se dava início era a não articulação entre as diferentes instituições detentoras de responsabilidades assistenciais e de saúde pública. mas também com atribuições ao nível da repressão da mendicidade (diploma de 8 de Julho de 1503) –. confrarias que nasciam com uma renovada dinâmica de intervenção social. Com esse objectivo a monarquia convocou «os melhores das terras». Assim aconteceu com a reforma geral dos hospitais ordenada por D. “A especificidade do sistema de assistência pública português: linhas estruturantes”. Como temos vindo a defender já há algum tempo. Laurinda Abreu. uma vez que aqui as políticas “modernas” de assistência aos pobres emanaram da Coroa e tiveram uma dimensão nacional. VI. Manuel I no início do seu reinado. ao mesmo tempo que pretendia mobilizar os poderes locais para a sua execução. O mesmo é dizer. as elites já representados nas Câmaras Municipais. o das Misericórdias. Das linhas mestras da intervenção manuelina nos mecanismos de caridade e assistência apenas se alteraria a que conduziu a reorganização hos- 3 Cf. as suas incumbências institucionais eram diferentes conforme o lugar que ocupavam. o processo teve em Portugal características próprias que o individualizaram dos restantes modelos. com a assistência às crianças desprotegidas.

5 Cf. 1990. Tendência que depois seria continuada pelo monarca espanhol que reforçou em Portugal as condições de intervenção da Coroa nos diversos ramos da assistência institucionalizada enquanto lançava em Castela o processo de centralização hospitalar7. (ed. n. 6 Conforme chamámos pela primeira vez a atenção no nosso trabalho. Andrew Cunningham and Jon Arrizabalaga. 64 e ss.º 8. (Agradecemos ao Dr. competência que a Coroa já tinha recuperado no reinado de D. Manuel mais marcaram o rumo da assistência portuguesa no século XVI – o Cardeal D. Jorge Fonseca a indicação deste documento). Cf. dos hospitais para a sua administração6. Manuel começou por separar das Misericórdias. Cambridge. Cambridge University Press. pp. Ler História. Recorde-se. por exemplo. Setúbal. pp. 110-111. 30-31. Se este for estrita4 Conforme se pode concluir da leitura do alvará de 6 de Janeiro de 1518 pelo qual o rei retirou à confraria do Espírito Santo de Montemor-o-Novo o hospital que ela administrava entregando-o à Misericórdia com justificação de que a Santa Casa era a instituição melhor vocacionada para a administração do referido hospital .) Health Care and Poor Relief in Counter-Reformation Europe. Henrique que o direito nacional incorporou o privilégio das Misericórdias como confrarias de tutela régia5. Poverty and welfare in Habsburgo Spain. João III. Um movimento que se reveste de uma importância crucial dado o facto de ocorrer num momento em que. 1990. 1999. Os dois governantes que depois de D. London and New York. E também Jon Arrizabalaga. pp. pp. “Misericórdias: patrimonialização e controle régio (séculos XVI e XVII)”. “ Poor relief in Counter-Reformation Castille: An overview”. 151-176. . Laurinda Abreu.130 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS pitalar – que D. in Ole Peter Grell. que foi durante a regência de D. Lisboa.º 44. Linda Martz. na Europa católica. A Santa Casa da Misericórdia de Setúbal de 1500 a 1755: aspectos de sociabilidade e poder. Santa Casa da Misericórdia de Setúbal. 5-24. numa orientação que de resto o próprio inflectiu acabando por reconhecer estas confrarias com vocação específica para a gestão dos hospitais4 – e a relativa ao combate à mendicidade e vagabundagem. quando se intensificou a promulgação de diplomas que as submetem a rigorosa regulamentação. a Igreja lutava pela recuperação do controle dos hospitais. a que se seguiu a transferência. pp. Almansor – Revista de Cultura. 1983. 2003. Henrique e Filipe II – não só não se afastariam das orientações iniciais como reforçaram as intervenções centralizadoras verificadas no início do século. Consequências da intervenção da Coroa nos mecanismos assistenciais Em termos de resultados sociais a avaliação da eficácia da actuação da monarquia portuguesa nas matérias referidas apresenta indicadores diferenciados consoante o ângulo de análise adoptado. sistemática e continuada. n. 7 Cf.

Isto porque. 1999. ao centralizar nas Misericórdias a assistência a vastos sectores da sociedade e ao fazer depender da Coroa a legislação relativa à mendicidade. A Piedade e a Forca . nomeadamente em relação à reforma dos hospitais e demais instituições caritativas. 9 Citado por Bronislaw Geremek.História da Miséria e da Caridade na Europa. ao que cremos. a mesma provisão que reconhecia a tutela régia sobre as Misericórdias (2 de Março de 1568) reforçava a posição da Igreja na sociedade portuguesa8. pp. como bons cristãos. mas também. tomar para si as palavras do monarca francês. que escorava economicamente as instituições assistenciais. o mesmo é dizer. se é verdade que o rei confiou aos leigos a responsabilidade por uma parte considerável da assistência institucionalizada à pobreza.CÂMARAS E MISERICÓRDIAS: RELAÇÕES POLÍTICAS E INSTITUCIONAIS 131 mente político. e bastante mais negativa. pelo menos em Portugal. devem exercer para bem do próximo”9. Palimage Editores. as polémicas que o tema da assistência estava a suscitar no resto da Europa. tratou-se de um jogo de equilíbrio de forças que foi capaz de evitar. as opções da Coroa podem ser consideradas como uma solução de compromisso. pp. 10 Assunto que iniciámos em Memórias da Alma e do Corpo – a Misericórdia de Setúbal na Modernidade. E. da Santa Sé que permitiria aos hospitais a utilização dos bens deixados para a celebração das missas pelas almas do Purgatório para o financiamento das suas actividades assistenciais10. Paralelamente. por exemplo. também é certo que a manteve sob os princípios religiosos tradicionais. que em 1586. nesse sentido. os reis portugueses poderiam. respondia assim ao pedido que os estados gerais lhe haviam dirigido solicitando apoio económico para o combate ao problema da pobreza: “sua majestade não pode dar dinheiro algum para o sustento dos ditos pobres pois essa é uma questão que depende da caridade e da piedade que os bons cidadãos. o surgimento de conflitos liderados por leigos contra a aplicação das determinações do concílio de Trento. e realizado numa perspectiva de longa duração. Dependente da caridade e piedade dos cidadãos sim. . Na nossa perspectiva. parte I. Relevam de uma ordem diferente. Viseu. 1987. XVI. as consequências destas políticas ao nível das comunidades locais. tit. 153-171 e desenvolvemos em “A difícil gestão do Purgatório: os Breves de Redução de missas perpétuas do Arquivo da Nunciatura de Lisboa (séculos XVII-XIX)”. 177-178. (a publicar na revista Penélope). a monar- 8 Cf. a acção centralizadora da Coroa conseguiu não só o apoio de alguns prelados como impediu. Duarte Nunes do Lião. lei 2. Em Portugal. Lisboa. Isto porque. mesmo conciliatória. Os benefícios daqui recolhidos pela Coroa são evidentes. Fundação Calouste Gulbenkian. entre a sociedade civil e a Igreja. com plena propriedade e menores custos políticos. Leis Extravagantes e Reportório das Ordenações. ligada à caridade.

para além da duvidosa eficácia da maioria das medidas tomadas11. o seu papel em termos sanitários. pelas razões aduzidas. Granada. Aqui sim. no auge das crises. logo que a situação acalmava tais projectos eram abandonados13. a actividade e intervenção dos centros urbanos faziam-se sentir. um sangrador – que quase sempre acumulava as funções de cirurgião –. 11 Para o caso de Évora. a existência de tais profissionais não permite afirmar que as municipalidades administravam uma estrutura de assistência social minimamente consistente. e de forma particularmente activa. cerceando-lhes quaisquer hipóteses de intervenção na escolha dos meios mais adequados à especificidade de cada espaço (como aconteceu em França. Rellaçam sumaria da vida do Illustrissimo senhor Dom Theotonio de Bragança. A frágil situação financeira de muitos concelhos assim o determinava. no entanto. 1614. tão importantes em termos sociais e de saúde pública como os anteriores. ao não financiar o sistema criado. Contudo. As provas de que as câmaras procuraram não se envolver demasiado na organização da assistência pública são múltiplas e bastante elucidativas. O mesmo aconteceu com os hospitais para convalescentes. Sobre . 12 Importantes informações sobre o assunto podem colher-se em Nicolau Agostinho. por exemplo). uma parteira e uma sanguessugadeira. Embora as edilidades reconhecessem a sua utilidade e necessidade e. a correlação directa que se estabelecia entre a pobreza e a dimensão das epidemias. “A cidade em tempos de peste: medidas de protecção e combate às epidemias. 13 A questão da hospitalização esteve longe de ser pacífica no tempo em estudo. e ao impedir a tributação específica para custear esse tipo de despesas – a não ser se os impostos se destinassem aos enjeitados – . Évora. elaborassem planos para a sua construção. Diferente era. perante situações de epidemia ou de ameaça de epidemia. Porém. quase sempre de peste. em Évora. o poder local tendia a esquecer. na maioria das cidades portuguesas a criação de hospitais temporários para os pestilentos foi fruto da iniciativa privada e da intervenção da Igreja12 e raramente dos municípios. a propósito. o caso da criação dos expostos que muitas câmaras transferiram para as Misericórdias assim que lhes surgiu a primeira oportunidade. temas recorrentes nas actas das sessões camarárias. os monarcas facilitaram a desresponsabilização dos municípios em relação a esta questão.132 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS quia condicionou a actividade das autoridades municipais. Só para dar um exemplo. É certo que a maioria mantinha à custa das rendas dos concelhos um médico. O receio do contágio e da propagação das doenças tornava importante a limpeza dos espaços públicos e a manutenção da salubridade das águas. veja-se o nosso texto. Veja-se. entre 1579 e 1637”. Comunicação apresentada no VII Congreso ADEH. Francisco Simões. Abril de 2004. Além do mais.

como aconteceu em Évora –. o que aqui quer dizer. Lisboa. as suas reivindicações não tinham peso nas decisões camarárias. Les Hommes et la peste en France et dans les pays européens et méditerranéens. Do meu ponto de vista essa articulação não existiu por duas razões principais. porque. no caso da criação dos enjeitados. em termos de assistência pública. estas instituições não tinham representação política. vide Jean-Noel Biraben. Todavia. mas à conjugação de esforços tendo em vista um fim que era do interesse da comunidade e dos seus líderes. Em primeiro lugar. eram caritativos os pressupostos em que assentavam as estruturas das principais instituições assistenciais e eram religiosos os princípios registados nos estatutos que as governavam. Ou seja. este assunto. Em segundo lugar. 14 São muitos os exemplos de alvarás régios encontrados nas Chancelarias Régias onde se ordena às Câmaras que concedessem determinadas esmolas às Misericórdias. 15 Como aconteceu em Lisboa e é abundantemente documentado por Eduardo Freire de Oliveira. uma questão bastante pertinente se impõe: porque é que não houve em Portugal. 1975. a assistência foi mantida demasiadamente ligada à «doutrina religiosa da caridade» que assumia a pobreza como uma questão ideológica. Mouton. tomos II e III. uma actuação concertada como ocorreu noutros espaços europeus? Não nos referimos. 16 Os casos que melhor conhecemos são os de Setúbal e Lisboa mas muitos outros poderiam ser apresentados. frequentemente governadas pelos mesmos homens. à realização de acordos prévios entre o poder político e o religioso – ainda que eles pudessem existir. naturalmente. Lisboa. muito especificamente quando os seus hospitais soçobravam ao peso dos surtos epidémicos15 ou. 173. depois de muito pressionados pelo poder central – que várias vezes obrigou as Câmaras a concederem esmolas às Misericórdias14 – e pelas próprias confrarias. 2002. Mormente. p. Vejam-se alguns casos que arrolámos em “As Misericórdias portuguesas de Filipe I a D. Como bem se sabe. Typographia Universal. 1887 e 1888. procurando que as municipalidades respeitassem os acordos financeiros estabelecidos tendo em vista a partilha das despesas16. por opção da monarquia. muito mais frequente. Elementos para a história do município de Lisboa. e centrando-nos exclusivamente no caso das Misericórdias. dos vereadores e dos mesários das confrarias. regra geral. . 63.CÂMARAS E MISERICÓRDIAS: RELAÇÕES POLÍTICAS E INSTITUCIONAIS 133 Chegados a este ponto. João V”. das Câmaras e das Misericórdias. Portugaliae Monumenta Misericordiarum. quase sempre. p. Universidade Católica/União das Misericórdias Portuguesas. Não significa isto que os senados não respondessem aos pedidos de ajuda financeira que as Santas Casas lhes dirigiam ou que ignorassem completamente os problemas em análise. quando os atendiam. faziam-no a título de esmola e. porque sendo confrarias. e como já mencionámos.

o cerne da questão. Na verdade. A partir da obra de Eduardo Freire de Oliveira. como as que se viveram em Lisboa na passagem do século XVI para o século XVII. O resultado destas duas circunstâncias (natureza caritativa da assistência e ausência de representação política por parte das Misericórdias) parece-nos previsível: as Câmaras não se consideravam economicamente responsáveis nem pela assistência hospitalar nem pelas demais valências assistenciais asseguradas pelas Misericórdias ou pela Igreja. ultrapassando o permitido e o eticamente correcto. 47-77. é que se assiste a acções harmonizadas entre a Coroa. E nesta imbricada relação institucional entre as Câmaras e as Misericórdias nem sequer se pode falar na existência de contradições. de resto. Sempre que possível. para voltar a utilizar a expressão atribuída a Henrique III. João V”. Todavia. em prejuízo do bem público19. quase sempre reduzidas. Houve-os sim. se tentar controlar a miséria urbana e as elevadíssimas taxas de mortalidade hospitalar. E alguns deles verdadeiramente extraordinários.134 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS A bem da verdade. Do “Alvará em que se determinou que os provedores e officiaes da Mesa da Misericordia e hospitaes não podessem arrematar para . a Câmara e a Misericórdia para. finda a crise. esperava-se que actuassem como “bons cristãos. pp. cit. 19 Um diploma praticamente esquecido dos historiadores mas que contêm importante informação para o problema em análise. como claramente se infere do diploma filipino de 6 de Dezembro de 1603 – que junta vereadores e responsáveis pelas Misericórdias na mesma acusação de usurpadores dos bens das referidas instituições. e estas não privilegiavam a assistência. com responsabilidades específicas. libertando as suas receitas. através da imposição de tributos às populações. E. e graves. os notáveis locais agiam como políticos. Sem 17 18 Cf. Isto porque. As disposições eram provisórias e excepcionais e não alteravam o sistema instituído nem a forma como estava organizado17. como os que recolhemos da documentação que neste momento estamos a tratar para Lisboa18. O financiamento da assistência pública é. pelo menos no meu entender. regressava a normalidade. desse ónus. para bem do próximo”. colhendo os benefícios que a lei lhes concedia por exercerem tão importantes funções. entre as autoridades municipais e as Santas Casas por questões económicas e de gestão patrimonial. não parece terem existido em Portugal conflitos jurisdicionais a propósito da assistência como houve em outros pontos da Europa. só em situações que poderiam ser consideradas de calamidade pública. quando estavam nas Câmaras. não raras vezes. Elementos para a história do município de Lisboa. Enquanto mesários. São inúmeros os exemplos que o documentam. “As Misericórdias portuguesas de Filipe I a D.

ainda que mais em pormenor o da Santa Casa da Misericórdia de Setúbal. e que tomão sobre si as rendas das correntes. Para concluir. repartindo-as entre si e seus parentes. Tomo I. Por outro lado. na minha opinião.CÂMARAS E MISERICÓRDIAS: RELAÇÕES POLÍTICAS E INSTITUCIONAIS 135 esquecer o manancial de informações sobre as irregularidades de gestão patrimonial cometidas pelos irmãos que nos são transmitidas pelas actas e contabilidade de muitas Santas Casas20. Todavia. Coimbra. as propriedades do concelho. porque não reclamaram poderes neste campo a não ser em tempos de crise ou em questões de índole sanitária. atente-se. por sua vez. a realidade portuguesa foi efectivamente mais negativa que a de outros países onde se desenvolveram formas de organização e de financiamento da assistência que a tornaram mais profissional e menos permeável às contingências das doações particulares. . Collecção Chronologica de Leis Extravagantes posteriores á nova compilação do reino das Ordenações do Reino. conforme demonstrámos em trabalhos anteriores. como para as dos concelhos (…)». na Real Imprensa da Universidade. e estas. E que outrosi os provedores e officiaes das confrarias da Misericordia. si cousa alguma”. 20 Conhecemos vários exemplos desta situação. em termos de resultados sociais. 1819. villas e lugares deste reino repartem entre si e as pessoas que costumão andar na governança. em simultâneo. publicadas em 1603. e os sobejos dellas gastão sem ordem alguma. dos lugares aonde a ha. dando-as uns aos outros com título de arrendamento. assi para as despesas da Misericordia e hospitaes. faltam-nos estudos comparativos que nos permitam avaliar se. devendo as responsabilidades serem acometidas. dificultava a gestão racional das capacidades assistenciais das Misericórdias e de outras instituições similares. ao defender o direito da liberdade da esmola e da mendicidade. 17-18. em nada contribuiu para a excelência desse mesmo sistema. no seu preâmbulo: «Eu ElRei faço saber aos que este alvará virem que sou informado que os vereadores e officiaes das camaras de muitas cidades. a ideologia que estava subjacente ao sistema criado. pelo menos. A ausência de regulamentos que definissem prioridades assistenciais e. As formas institucionais de apoio que existiram nas duas áreas pautaram-se pela desorganização e ineficácia. os alvos a atingir e os métodos a usar. o que he causa de faltar sempre dinheiro para as cousas necessárias. os centros urbanos portugueses não tiveram ao longo do Antigo Regime uma política estruturada de assistência aos pobres ou mesmo de saúde pública. Dezenas de documentos das Chancelarias Régias atestam situações semelhantes registadas um pouco por todo o país. pagando pouco ou nada ao concelho. à Coroa e às elites locais. sobretudo. de que resulta mui grande prejuizo ás rendas dos concelhos e obrigações das ditas confrarias da Misericordia. pp. trazem usurpadas as mais propriedades da Misericordia. A primeira porque cerceou a capacidade de intervenção das autarquias. que são de minha protecção.

que tenhão pera isso hospitaes»24. O seu principal mentor foi o Arcebispo D. Teotónio de Bragança (1578-1602). com consequente partilha de responsabilidades entre a Igreja e a comunidade. . peregrinos e convalescentes. porque o intento desta hospedaria he remediar as necessidades dos saos. 2002/2003. XVI-XVIII). Por exemplo. Faculdade de Letras. pelo menos durante três ou quatro décadas. Manços”. 22 Continuamos à procura da documentação deste instituto que complemente as dispersas informações que sobre ele possuímos. detectamos que. em publicação no volume de homenagem ao Professor José Marques. caridade e assistência na Península Ibérica (sécs. da existência de relações institucionais minimamente organizadas. às prostitutas – Recolhimento da Madalena22 e aos pobres e mendigos – Hospício e Irmandade da Piedade (1587)23. 24 Arquivo do Cabido de Évora. Igreja. contudo. vol. pelo contrário. por exemplo. beneficiou. se dedicasse mais especificamente ao tratamento dos doentes e perdesse durante algum tempo a 21 Sobre as vicissitudes inerentes a este Recolhimento leia-se Marco Liberato. pp. que a deixou registada de uma forma clara nos Estatutos da Piedade: ao Hospício cabia o acolhimento temporário dos pobres. que o Hospital do Espírito Santo. entre o arcebispado e a Misericórdia. mas. Laurinda Abreu. “Trento. Transcrição apresentada no nosso texto “O hospício e irmandade da Piedade. quando nos centramos em Évora. Manços21 –. A existência do Hospício da Piedade permitiu. pelo menos. e não curar as infirmidades dos doentes. e hospedaria dos pobres de Nossa Senhora da Piedade da cidade de euora. Cec. autor de várias reformas no domínio da assistência que dotaram a cidade de estruturas com algum grau de especialização ao nível da assistência às raparigas de elevado estatuto social – Recolhimento de S. 275-289.136 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Aparentemente parece-nos que sim. se não contou com a participação do município. demarcar esferas de influência ou afirmação de poderes. pp. “Reclusão e controle dos pobres: o lado desconhecido da assistência em Portugal”. Nunca doentes «de qualquer infermidade das que em o dito hospital costumão curar. A necessidade de separar competências foi. in Instituicoes e regimentos que pertencem ao padroado do arcebispado de Évora mandados collegir pelos senhores Deão e Cabido sede vacante em Junho de mil e seiscentos e trinta e quatro annos. Coimbra. Mas as generalizações são potencialmente perigosas e comportam riscos demasiado elevados. potenciar resultados. na verdade. a mulher e controlo social: o colégio de S. 23 Cf. Tomo XXXVI. em Évora – uma experiência de reclusão e controle de pobres em Portugal”. I. Universidade do Porto. Teotónio de Bragança. O seu objectivo não era. “Revista Portuguesa de História”. melhor dizendo. 5-VIII – Livro dos estatutos desta casa. uma preocupação recorrente nos escritos de D. a cidade cumpriu um projecto assistencial que. administrado pela Misericórdia.527-540.

um cirurgião e um sangrador. Colégio dos Órfãos e Colégio de S. pp. podemos afirmar que a intervenção de D. 291-298. Os inúmeros registos de “doentes da Piedade” que se encontram no hospital e as referências a “convalescentes da Misericórdia” existentes na documentação da Piedade mostram bem até que ponto foram cumpridos os propósitos dos mentores deste projecto. problemas de maior importância para as urbes. . o nosso texto. as órfãs dotadas para casamento. 26 Conforme os dados que já coligimos para os recolhimentos da Piedade. in Évora. and its relationship with the city”. centrada nas questões de saúde pública. Manços. pedagógica e moralizadora. Menorca. XVI-XVIII). conforme se conclui da análise dos registos de entradas no referido hospital nos anos que se seguiram à criação do hospício25. os presos ou os doentes das quadrelas28. desde 1649. São Manços e Madalena e. mais material. Ainda que analisada à escala local. caridade e assistência na Península Ibérica (sécs. 28 Basicamente tratava-se de um sistema de apoio domiciliário em que a cidade era dividida em “quadrelas”. ou seja. era assegurada pela Igreja e ministrada nos Recolhimentos da Piedade27. 25 Cf. finalmente. da responsabilidade da Câmara Municipal. assente em três realidades de certa forma distintas ainda que complementares.CÂMARAS E MISERICÓRDIAS: RELAÇÕES POLÍTICAS E INSTITUCIONAIS 137 valência de albergue para pobres. uma terceira. E. no Colégio dos Órfãos. de assistência social institucionalizada. Uma segunda. Lázaro. circunscrita a um pequeno grupo de naturais de Évora26. comunicação apresentada ao I Encuentro de Demografía Historica de la Europa Meridional. Igreja. Maio de 2003. O seu propósito era procurar garantir a sobrevivência dos seus pobres: os milhares de migrantes sazonais que anualmente acorriam ao Hospital do Espírito Santo. A primeira de cariz educacional. mas que estava quase exclusivamente sob o controle da Coroa. cobria um vasto leque da população e estava a cargo da Misericórdia. Teotónio contribuiu para a fixação de um sistema. ainda que com algum anacronismo. A estas vertentes da assistência acrescia ainda a questão da mendicidade e da vagabundagem. as mulheres sozinhas que eram subvencionadas regularmente. em tempos de peste29. cada uma delas entregue a uma equipa constituída por um médico. “The Hospital do Espírito Santo. particularmente interventora em tempos de desordem do quotidiano. “O recolhimento de Nossa Senhora da Piedade de Évora: uma instituição de assistência pós-Tridentina”. as crianças que eram depositadas no Hospital de S. fundado pelo cónego Manuel de Faria Severim. 27 Algumas informações sobre esta instituição já exclusivamente com funções de recolhimento para raparigas pobres podem encontrar-se em Sílvia Mestre e Marco Loja. chamemos-lhe.

Portugaliae Monumenta Misericordiarum. nomeadamente. permitiu-nos dar fundamento documental à tese que temos vindo a defender segundo a qual as medidas de carácter centralizador tomadas pela monarquia portuguesa durante o século XVI foram determinantes para a forma como o sistema evoluiu ao longo dos dois séculos seguintes. 225-237. como bem demonstram as sucessivas interferências régias no quotidiano de muitas Misericórdias. 29 Como escrevemos. pp. em Évora. muitas vezes sem consultar os vereadores. 49-51. como aconteceu frequentemente desde o início do século XVIII31. cit. O que se repetia quando. anulava as deliberações camarárias. também não é menos correcto que as linhas mestras que enquadraram a sua actuação tinham sido definidas pelo governo central. o não incentivo à partilha de responsabilidades assistenciais entre os dois principais órgãos do poder local não pode deixar de ser visto como uma afirmação de poder por parte da monarquia. não só por razões financeiras. o que conduziu. 31 Veja-se uma síntese da evolução da legislação relativa a esta questão em “As Misericórdias portuguesas de Filipe I a D. 30 Para o caso especifico de Évora consultem-se os trabalhos de Rute Pardal. Igreja. XVI-XVIII). entre 1579 e 1637”. E se é verdade que poucas cidades terão beneficiado de uma intervenção tão dinâmica e abrangente como aquela que D.138 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Este trabalho de reconstituição das estruturas assistenciais da Évora moderna. à imposição dos próprios provedores. “O relacionamento do Arcebispado com a Misericórdia de Évora entre 1552 e 1643”. ainda em curso. mas sem capacidade para procederem a mudanças estruturais. Já representadas nas Câmaras. João V”. é indiscutível. e justificámos. Teotónio protagonizou em Évora nas décadas finais de Quinhentos. em “A cidade em tempos de peste: medidas de protecção e combate às epidemias. Neste sentido. nalguns casos. durante os surtos de peste. também para as questões da assistência o rei estava dependente do bom desempenho das elites locais30. Ou seja. pp. Com relativa autonomia. elas seriam igualmente chamadas a gerir os destinos das Misericórdias. É certo que a capacidade de a Coroa impor as suas políticas a todo o país era bastante limitada e. caridade e assistência na Península Ibérica (sécs. .

2. Rute Pardal. pois. Nesta linha de pensamento. as Misericórdias são. e da base de recrutamento social dos seus órgãos directivos. 34. naturalmente. 1 Cf. Universidade de Évora. nomeadamente a nível administrativo/jurídico. Évora. e por isso relativa. 139-148. referimo-nos. que abrange nesses dois domínios toda a população residente1.As relações entre as Câmaras e as Misericórdias: exemplos de comunicação política e institucional RUTE PARDAL (CIDEHUS) 1. Se são bem conhecidas as relações institucionais entre as Câmaras e as Misericórdias. Comecemos. por exemplo. um universo muito mais restrito que o das edilidades. pelas Câmaras. Cf. Livro I. Isto apesar das diferenças óbvias entre ambas. pp. quando nos referimos às similitudes entre Câmaras e Misericórdias. também sabemos que as duas instituições partilhavam características semelhantes. quer por parte do próprio rei. Edições Colibri – CIDEHUS-UE. dos processos eleitorais. Em termos administrativos. As elites de Évora ao tempo da dominação filipina: estratégias de controle do poder local (1580/1640). . 2005. à autonomia que ambas gozaram – embora esta fosse tutelada pelo rei. em termos jurídicos e jurisdicionais. ao nível administrativo/jurídico e financeiro. 2003. p. A importância desta competência revelou-se na irrevogabilidade das suas decisões quer por parte do representante local do rei – o Corregedor2 –. Ordenações Afonsinas. Título Os Municípios no Portugal Moderno: dos forais manuelinos às reformas liberais Lisboa. financeiro. 2 Assim se infere da leitura das Ordenações. o que mais se destacava era a capacidade legislativa que possuíam. (dissertação de mestrado policopiada). consubstanciada na liberdade de promulgação das posturas ou acórdãos de cariz organizativo da realidade local.

Daí a preocupação dos concelhos em lançar posturas e vigiar o seu efectivo cumprimento. Livro I. Braga. a acção concentrava-se. estradas e pontes. cabia à vereação providenciar de modo a fornecer a população dos bens alimentares e manufactureiros. 5 Apesar de alguns destes aspectos já estarem conformados nos forais. Ainda no domínio agrícola. sobre o despejo de detritos nas ruas devido às consequências que tais actos poderiam ter em termos de propagação das doenças. vol. Belchior da Maia foi . Edições Colibri. a acção das Câmaras alargava-se à tributação e ao tabelamento dos produtos cerealíferos e. E. chafarizes e fontes6. em matérias agrícolas. (José Mattoso dir. vide José Viriato Capela. Lisboa. das carnes e do peixe. as especificidades das situações e o subsequente desajuste dos mesmos exigia um constante preceituar regulamentador. reservando-se normalmente para as posturas a fixação do custo das obras dos mesteres4. História de Portugal. Círculo de Leitores. a alçada do concelho estendia-se àquilo que definiríamos como «sector das obras públicas»: ou seja. nomeadamente o importante sector do abastecimento3. a fragilidade ou mesmo inexistência de um sistema de saneamento público não só dificultava o trabalho legislativo. Competia-lhe também zelar pela higiene e saúde pública. XXVII. preocupações maiores para comunidades demograficamente carentes e financeiramente debilitadas. assim como de todas as manufacturas produzidas pelos artífices5. § 9. por um lado. como também a obrigação do cumprimento das posturas por parte dos oficiais concelhios7. 179. Absolutismo e Municipalismo em Évora: 1750-1820. documentos para a História do Porto. pp. entre outros. especialmente temidas em tempos de peste. em sectores vitais para a comunidade. a tarefa não era fácil uma vez que se. a regulamentação do quotidiano. Em termos práticos seriam os Almotacés que tomariam contacto diário com os vendedores de todos esses produtos.140 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS O âmbito desta autonomia dos concelhos foi. O Minho e os seus municípios. 1995. ainda. Lisboa. XLVI. e acabavam por taxar praticamente todos os géneros alimentares. §16. Ou seja. Teresa Fonseca. temos a evidência dessa mesma dificuldade em vigiar cabalmente a limpeza da cidade. Livro I. prioritariamente. 2002. Joaquim Romero Magalhães. Francisco Ribeiro da Silva. 7 No caso de Évora. a falta de hábitos de higiene era generalizada. Arquivo Histórico. 629-630. sanitárias e de policiamento. Ordenações Manuelinas. 3 O assunto já foi referido por vários autores: Entre eles. as instituições e poder. A nível urbano. Câmara Municipal do Porto. Ordenações Filipinas. «Os concelhos». 1993. § 28. sem ir mais longe. regra geral. Universidade do Minho. os arranjos das calçadas e arruamentos.). por outro. Porto. Por outro lado. p. Título LXVI. 1988. Título XLVI. Os homens.III. Na sessão de vereação de 5 de Janeiro de 1618. O Porto e o seu termo (1580 – 1640). 6 Cf. 4 Cf. Todavia. De facto.

º das actas da Câmara. Em 1618 retornou à Santa Casa. em primeiro lugar. Paulatinamente. Livro 9. e aí ficaria até 1586. Ordenações Manuelinas. (Cf. (Cf. fls. juntamente com a administração do Hospital de São Lázaro10. § 10).RELAÇÕES ENTRE AS CÂMARAS E AS MISERICÓRDIAS 141 Sobre outro domínio. que pedia «que lhe desse renda» para que pudesse criar os enjeitados comodamente. à missiva da Misericórdia. Santa Casa da Misericórdia de Setúbal. European Association for the History of Medicine and Health – 5th Conference. o cuidado dos expostos foi entregue à sua Misericórdia em 1568. os parentes. 11 O rei respondeu. 21-22). ASCME.º 47. Esta consubstanciava-se na faculdade dos próprios admoestado por se constar que as ruas da cidade estavam muito sujas. ainda da saúde pública. Na verdade. pouco depois da sua criação. seriam responsabilizados. por exemplo. 2001. ASCME). Em Évora. Por outro lado. E. 55-66. o que incluía a assistência médica. Livro dos Privilégios do Hospital. (Cf. 77. Health and Child Care and Culture in History. na sua ausência. September 13th-16th. e quase sempre associada ao movimento de anexação dos hospitais às Santas Casas da Misericórdia. os concelhos tiveram competências importantes. que ficaria com esse serviço até que a legislação liberal lho tirou. Livro dos Privilégios do Hospital. que abrangia as respectivas amas. Setúbal. ainda. pp. foi nas Ordenações Manuelinas – a primeira vez que em Portugal se legislou sobre esta matéria –. ou. nomeadamente no que respeita à criação dos enjeitados. 679). n. Todavia. e os concelhos. fl. ADE. Título CXVII. desta forma. Geneva Medical School. fl. 10 Apesar das tentativas de embargo por parte do reitor do mosteiro de São João. alguns concelhos acordaram em comparticipar nas despesas com as crianças. em alternativa lhe retirasse o encargo da criação. que os concelhos foram chamados a intervir a favor das crianças desprotegidas8. 8 Nestas Ordenações estabeleceu-se uma espécie de hierarquização de responsabilidades relativamente à criação dos enjeitados. 1990. Fundação Calouste Gulbenkian. . Laurinda Abreu. 54-55).º 47. antigo Provedor do dito Hospital. JNICT. a Câmara também teria demonstrado anteriormente que estava interessada em assumir novamente a administração do Hospital de São Lázaro e a criação dos enjeitados. Livro I. ou se quisermos da assistência. Arquivo da Santa Casa da Misericórdia de Évora (doravante ADE. ano em que regressou novamente para a alçada da Câmara11. Mas a autonomia administrativa dos concelhos seguia lado a lado com a autonomia financeira. Lisboa. Idem. por ordem de prioridade. 1995. nem sempre o dito acordo foi cumprido. A Santa Casa da Misericórdia de Setúbal de 1500 a 1755: aspectos de sociabilidade e poder. os hospitais ou albergarias. Isabel Guimarães dos Sá. Arquivo da Câmara Municipal de Évora (doravante ADE. Arquivo Distrital de Évora. ADE. 9 Apesar da responsabilidade dos enjeitados ter passado para as Misericórdias. (Cf. Esta seria. A circulação de crianças na Europa do sul: o caso dos expostos do Porto no século XVIII. «The Évora foundlings between the 16th and 19th centuries: the Portuguese public welfare system in analysis». p. ACME). obrigação dos pais e. n. a criação dos expostos seria transferida para a alçada destas últimas9. Cf.

Livro I.º48. s. 36). as Misericórdias também usufruíram de uma apreciável autonomia. Ordenações Manuelinas. ora cerceando-lhas. em última análise.) ”. como por exemplo. (Cf. nomeadamente no que se refere à eleição. o privilégio fundamental era o de poder aceitar e excluir irmãos sem dar satisfação a quaisquer tipos de justiças e oficiais13. António Manuel Hespanha. Por isso. em grande medida resultante da imediata protecção régia. Para uma visão mais aprofundada sobre esta questão veja-se Rute Pardal. os Juízes Ordinários12. Lisboa. o que. Como referimos. (Cf. ainda que não abrangessem um universo social tão vasto quanto o das Câmaras. ou de autonomia jurisdicional. quando a actuação régia se pautou pela ambiguidade. o conteúdo da sua influência restringia-se apenas aos feitos cíveis que envolvessem bens móveis e imóveis. ou seja. com base nas Ordenações Filipinas que António Espanha corrobora as semelhanças nas atribuições dos Juízes de Fora e Juízes Ordinários. Todavia este autor. no essencial. Título LXV). no plano jurisdicional interno. a autonomia administrativa das Misericórdias também decorria da faculdade de serem as próprias. Por outro lado. não dependendo de nenhuma outra instituição para fazer aprovar o seu orçamento. Como é do conhecimento geral. Ordenações Filipinas.. ASCME. 14 Todavia. o judicial. a justiça. Apesar disso. esta prerrogativa. As elites de Évora. a cobrar as receitas.. por exemplo. As vésperas do Leviathan. as suas competências eram semelhantes às dos Juízes de Fora. 13 Tal como o demonstra.. e ainda no domínio das rendas. Para além disso. fl. pp. Título LXV). 2 vols. estes últimos eram eleitos localmente e eram inspeccionados pelos Corregedores. limitava a actuação dos Provedores das comarcas14. (Cf. Portugal – século XVII. que lhes conferia variados privilégios em diversos domínios. não foi nem permanente nem definitiva.. ora outorgando competências fiscalizadoras aos Provedores das comarcas. Mas no seio dos concelhos existiam ainda outros domínios relativamente autónomos.n.142 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS municípios arrecadarem as suas receitas para fazerem face às despesas. cit. Título XLIV. Livro de privilégios da Santa Casa da Misericórdia de Évora. Os Juízes de Fora eram nomeados pelo rei. Livro I. Instituições e poder político. menciona que subsistem algumas diferenças. o alvará régio de 24 de Janeiro de 1582. n. os colocava sob a tutela régia. Ordenações Filipinas. depois de aprovados pelo Desembargo do Paço. . Pelo contrário.. Assim sendo. É de facto. 1986). a Coroa só muito tardiamente conseguiu estender uma rede de Juízes de Fora a grande parte do país. à semelhança das Câmaras. facto que.. onde de se refere que. Livro I. tinham jurisdição privativa em relação aos Corregedores e maior alçada que os Juízes da terra. “ o mesmo poderão fazer e farão no que tocar a receber irmãos ou os despedir quando lhes parecer sem serem obrigados a dar conta nem rezão aos que assi despedirem nem a nenhumas minhas justiças nem oficiais (.. em muitos dos municípios era executada por indivíduos eleitos localmente. 67-68. (Cf. em favor da Misericórdia de Lisboa. em pri12 Enquadrando-se a matéria da sua acção na matéria da autonomia judicial de que os concelhos dispunham. ADE.

15 Com efeito este foi um privilégio que as Misericórdias foram solicitando ao rei. Viseu. Em segundo lugar. Mas. Palimage Editores. tanto os municípios como as Santas Casas tinham liberdade de escolha dos seus magistrados e oficiais. 1998. não podemos deixar de parte o empenho que. 18 Tal como aconteceu em Setúbal e Évora. Centro de Estudos e Formação Autárquica. aos finais da Idade Média16. apesar do plano de actuação das Câmaras e Misericórdias ser diferente. João I. tal como os seguintes. 1986. Neste ponto. 321). ou seja. (cf. ou incumprimento dos processos eleitorais18. as Misericórdias podiam dispor. O poder concelhio das origens às cortes constituintes. jurídicos e financeiros. eles passaram também pelos processos eleitorais. Laurinda Abreu. Memórias da alma e do corpo: a Misericórdia de Setúbal na modernidade. Coimbra. através do alvará de 12 de Junho de 1391. em Portugal. . 598 e passim. Livros Horizonte/Misericórdia de Lisboa.RELAÇÕES ENTRE AS CÂMARAS E AS MISERICÓRDIAS 143 meiro lugar. Lisboa. o processo de escolha dos seus dirigentes mais importantes ser feita de forma colegial. nas Misericórdias ele foi contemplado logo de início no compromisso de 151617 da Misericórdia de Lisboa – que serviria. 1999. desde D. essencialmente quando havia suspeitas de distúrbios. Maria Helena da Cruz Coelho. 17 Cf. Este rei estabeleceu. por isso se procedeu à restrição do número dos considerados capacitados a intervir no processo. com base na sua obtenção por parte da Misericórdia de Lisboa. (Cf. da mesma maneira que os almoxarifados e recebedores do rei arrecadavam a fazenda real. A Santa Casa da Misericórdia de Lisboa: subsídios para a sua História. se o processo de afunilamento da escolha dos oficiais camarários remontou. p. Ainda no campo eleitoral. e apesar de não ser um movimento simultâneo em todas as Misericórdias15. 1902. Quinhentos anos de História. Uma liberdade condicionada nas Câmaras pelo facto de essas escolhas terem de ser sancionadas pelo rei ou pelo donatário. de modelo paras restantes Santas Casas. p. Joaquim Veríssimo Serrão. os monarcas puseram na clarificação do processo eleitoral das magistraturas municipais. 129). que a eleição dos oficiais concelhios se fizesse pela maneira dos pelouros. elas tinham a possibilidade de arrecadar as suas dívidas via executiva. anexo IX. em Maio de 1558. As Misericórdias também não estariam isentas da tutela e da intervenção régia. Lisboa. de forma indirecta e não de modo a permitir a participação alargada dos irmãos ou dos munícipes. 16 Por isso. Neste documento dá-se a entender nitidamente que a eleição dos oficiais locais não era de modo nenhum pacífica. p. Victor Ribeiro. Não obstante. Joaquim Romero Magalhães. não tinham a obrigação de verem aprovadas as pautas das eleições que anualmente faziam. de um Juiz privativo como executor das suas rendas e esmolas. ou seja. (Cf. o mais importante a reter parece-nos ser o facto de. A Misericórdia de Lisboa. Tipographia da Academia Real das Sciencias. Não obstante. e. os pontos de contacto entre estas duas instituições não se ficaram pelos aspectos administrativos.

Quando o rico se faz pobre: Misericórdias.». A Santa Casa da Misericórdia cit …. «Senhores da terra.º). pp. senhores da vila: elites e poderes locais em Mértola no século XVIII». isto é: governo de poucos e predomínio de um pequeno grupo de pessoas e famílias. pp. 22 Ibidem. mas também entre outros ofícios régios e da ordem de Santiago22. «Elites Locais e mobilidade social em Portugal nos finais do Antigo Regime». ao utilizarmos o termo oligarquias estamos conscientes dos recentes debates que tem suscitado o seu uso.339-345. p. Os primeiros estudos sobre esta problemática surgem já na década de sessenta do século XX. 81. é importante referir que. 341). pp. Esta é uma situação recorrente. 19 Sem pretender-mos entrar em conceptualizações. válida para todo o Antigo Regime e para todos os espaços até agora estudados – com oscilações locais. regra geral. ou seja. «Os concelhos e as comunidades. como é óbvio. que. Análise Social. que são do domínio comum. pretendemos fazê-lo no sentido estrito da palavra. A identificação destas características. vol. Maria Helena da Cruz Coelho. entre outros. . 143-150. Laurinda Abreu. vol. Vejam-se ainda os exemplos apontados em Isabel dos Guimarães Sá. ou oligarquização. mas seria apenas em finais dos anos 80 que ele seria quantificado no estudo sobre a misericórdia de Setúbal21. Rui Santos. 1997. Círculo de Leitores. Lisboa. 20 Sobre a essência da perpetuação nos cargos por parte das elites locais.144 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS 3. «Elites e mobilidade social … cit. controlavam o poder nas Câmaras e nas Misericórdias. pp. XXXII. Este estudo teve continuidade nos últimos anos.. pp. um factor que nos pode remeter para a formação de oligarquias locais19. veja-se Joaquim Romero Magalhães. Nuno Gonçalo Monteiro. Idem.25-50). com o objectivo explícito de se autoperpetuarem na governação de ambas as instituições20. O poder concelhio … cit. quando aqui nos referimos a oligarquias. XXVIII (121). É certo que a denominação “oligarquias municipais” tende a conferir uma identidade social a uma categoria institucional «a dos vereadores camarários» cuja existência como grupo social carece de demonstração”. grupos formados por um número restrito de indivíduos. Nele ficava bem vincada a rotatividade entre os cargos concelhios e da Santa Casa. vol. p. O mesmo é dizer.IV. Sobre estas questões veja-se. História de Portugal. 143-150. 345-369. Contudo. tendo surgido vários trabalhos que demonstram que a maior parte dos irmãos das Misericórdias pp.50-51. Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses. a circulação de indivíduos entre as duas instituições. 324-325. pp. parece-nos importante porque cremos que foram elas que facilitaram aquele que sabemos ter sido um comportamento habitual ao longo do Antigo Regime. As elites de Évora … cit. Lisboa. 21 Cf. (Cf. Análise Social. pp. E ainda. Rute Pardal. 333-338. 1993. caridade e poder no império português – 1500/1800. Nuno Gonçalo Monteiro. 1997. 1993 (2.

p.. As elites de Évora … cit. Mário José da Costa Silva. no entanto importante abordar o sistema eleitoral enquanto factor que contribuiu para manutenção do poder local e para a elitização. a rotatividade entre estas duas instituições constituía. 130. Lisboa. Poder e conflito. Porto Universidade Portucalense. tão característicos da sociedade de Antigo Regime30. Estampa. Modelos e práticas de comportamento linhagístico. A Casa de Bragança … cit. 370-382. A Santa Casa da Misericórdia de Montemor-o-Velho. 26 Apesar do caso de Vila Viçosa ser específico. Lisboa. 23 Cf. os 71. e de Ponte de Lima. Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho. pp. Ana Sílvia Albuquerque de Oliveira Nunes. 236-244.1% em Ponta Delgada24 e os 71% em Évora25. poder e conflito (1546-1803). reiteram o facto de a maior parte dos irmãos das respectivas Santas Casas estarem quase sempre em maioria na ocupação dos cargos na “República”. onde a endogamia. onde cerca de metade dos mesários eram também oficiais camarários28. A Casa de Bragança – 1560/1640: práticas senhoriais e redes clientelares. devido à influência da Casa de Bragança no panorama político local. Como já referimos. (dissertação de mestrado policopiada)..l. Coimbra. p. 2000. 30 Este processo de elitização percorreu não somente as Câmaras e as Misericórdias. Lisboa. 138. pp.. 177. 1994. 24 José Damião Rodrigues. em última análise. 1995. Mafalda Soares da Cunha.RELAÇÕES ENTRE AS CÂMARAS E AS MISERICÓRDIAS 145 ocuparam cargos nas Câmaras. s. História social da administração do Porto (1700/1750). Santa Casa da Misericórdia de Vila Viçosa. 57-199. 1999. A Santa Casa da Misericórdia de Guimarães (1650-1800). (Cf. 25 Rute Pardal. um dos elementos que permitiam a autoperpetuação daqueles que controlavam estes órgãos do poder local. (séculos XIV-XV). pp. o sistema de reprodução vincular e as redes clientelares exerciam um papel determinante. (dissertação de mestrado policopiada) 1996. Estampa. 28 Cf. Assuntos que. Instituto Cultural de Ponta Delgada. Já os trabalhos sobre as Misericórdias de Vila Viçosa26 e Guimarães27. 27 Américo Fernando da Silva Costa. pp. Imprensa Nacional/Casa da Moeda. as estratégias de controlo alargavam-se a variados campos. Na verdade. Maria Marta Lobo de Araújo. Ponta Delgada. Dar aos pobres e emprestar a Deus: as Misericórdias de Vila Viçosa e de Ponte de Lima.111-128. vejam-se os dados indicados em Mafalda Soares da Cunha. O morgadio em Portugal. O mesmo se verificou no caso do Porto. p. pp. Braga. 1997. em percentagens que chegam a atingir os 75% em Montemor-o-Velho23. 77-85. O crepúsculo dos grandes (1750-1832).. Maria de Lurdes Rosa. 4. não podemos desenvolver aqui29. apesar de não fornecerem dados percentuais sobre esta estreita ligação. espa- ço de sociabilidade. Parece-nos. Poder Municipal e oligarquias urbanas: Ponta Delgada no século XVII. 29 Sobre este assunto veja-se Nuno Gonçalo Monteiro. pela sua complexidade. 1998. 2000. mas . Ainda para Vila Viçosa. Faculdade de Letras.

J. também as Misericórdias seleccionavam os seus membros. de idade conveniente. «As Misericórdias portuguesas de . Em segundo lugar porque a evolução destes textos normativos nos indica que houve uma a progressiva elitização dos seus cargos administrativos. Braga.. p. que estavam proibidos de participar nos órgãos administrativos e nos actos religiosos públicos das Misericórdias. Ao mesmo tempo. 31 Cf. Imprensa de J. doravante restrita a cristãos-velhos37. pp. e que os demais mesários. A Santa Casa da Misericórdia de Lisboa … cit. mas que gozavam dos restantes privilégios materiais e espirituais. de entre os homens bons do concelho. Veja-se sobre esta temática Laurinda Abreu. Ordenações Afonsinas. Anos mais tarde o rei restringia ainda mais o universo de elegíveis. 33 Cf. Livro I. Livro I. veja-se José Viriato Capela. ou seja. em primeiro lugar e antes de apurar o colégio eleitoral. Se o compromisso de 151636 não era ainda muito claro em termos de definição da qualidade dos seus membros – requerendo apenas que o Provedor fosse nobre. élections et pouvoir à Guimarães entre absolutisme et libéralisme (1753-1834). (Cf. Título LXVII). Construction d’un gouvernement municipal: élites. Ordenações Manuelinas. ou houvessem sido seus pais e avós... Livro I. p. que reiteravam que a eleição se devia fazer pelo método dos pelouros de forma colegial. José Justino de Andrade e Silva. mais a confirmação da legislação Manuelina. 6 fossem oficiais e 6 de outra condição –. porque se constituíam como irmandades cujo número de irmãos estava delimitado nos compromissos. 1854.146 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Nas Câmaras a regulamentação da eleição dos seus oficiais encontrava-se definida desde as Ordenações Afonsinas31. Sobre este assunto. Com efeito.. o compromisso de 1577 já apertava a malha de recrutamento social. «Estudo prévio». existiam algumas excepções no que se refere à admissão de cristãos-novos. 314. como por exemplo. Exigia o dito alvará que os elegíveis no futuro fossem “ (. as corporações de ofícios. 315. neste particular. A. determitambém outras instituições da sociedade do Antigo Regime. 35 Ibidem. 2000. pp. sem raça alguma (. ou o Ouvidor. 37 Todavia. Um processo que se foi complexificando até chegar às Ordenações Filipinas32. 34 Ibidem. Silva. a tirar informações junto de duas ou três pessoas “das mais antigas e honradas”35.. do que propriamente uma inovação sobre o tema. Título LXVII.) pessoas naturaes da terra. 24-25. 32 Ainda que estas constituam.) ”34. estabelecia regras mais rigorosas no apuramento das magistraturas municipais. pp. obrigado. e da governança della. sendo o Corregedor. o alvará e regimento de 12 de Novembro de 161133. 314-316. Título XLV. À semelhança dos municípios. Colecção chronologica da legislação portuguesa – 1603-1612. Universidade do Minho. 598-599. 36 Joaquim Veríssimo Serrão. Lisboa. Em primeiro lugar. Ordenações Filipinas.

188. Todavia. p. proprietários de ofícios da ordem de Santiago. vol. p. ou ainda homens que se tinham nobilitado pelas armas40. 39 Cf.. 428. Como Francisco Ribeiro da Silva afirma. pp.. onde tivemos oportunidade de verificar que os ocupantes dos cargos da vereação e das mesas da Misericórdia Filipe I a D. com autoridade e virtude. não eram raros os casos de mesteirais que eram tidos como gente nobre na cidade do Porto. Manuel de Oliveira Barreira. 41 Cf. Já no compromisso de 1618 ao Escrivão e ao Tesoureiro exigir-se-lhes-ia que fossem nobres38. Dar aos pobres e emprestar a Deus … cit. ao Escrivão e ao Tesoureiro exigia que fossem honrados. União das Misericórdias Portuguesas. a partir do século XVIII. Mas sobre Vila Viçosa pairava a Casa de Bragança. 42 Cf. o sal.RELAÇÕES ENTRE AS CÂMARAS E AS MISERICÓRDIAS 147 nava que o Provedor fosse fidalgo. aqueles que controlavam o poder nas Câmaras e as Misericórdias pertenciam ao estamento social da nobreza. 38 Fernando Calapêz Corrêa. Lisboa. 40 Cf. estivessem em ocupações como as de mesteirais e comerciantes39. serviriam. a composição social desta nobreza variava de lugar para lugar. p. se terá passado em Ponta Delgada no século XVII43.. foram determinantes para a configuração das suas elites locais44. no que ao exército concerne. p. nas duas instituições.53. Lagos. 43 Cf. Coimbra.. Em Setúbal. Santa Casa da Misericórdia de Lagos. Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (dissertação de mestrado policopiada). para controlar a Câmara e a Misericórdia. p. As mesmas armas que. p. pp. sendo que. por exemplo. João V». e todas as actividades mercantis. já eram essencialmente donos de marinhas. . Laurinda Abreu. Francisco Ribeiro da Silva. 1998. os eleitos eram fidalgos oriundos das mais antigas linhagens ao serviço da casa de Bragança42. Portugaliae Monumenta Misericordiarum: fazer a História das Misericórdias. 377. O Porto e o seu termo … cit. 150. 88. ainda que. segundo a tessitura social e económica do meio. A Santa Casa da Misericórdia de Aveiro: pobreza e solidariedade (1600-1750). não muito remotas ao século XVII. I. José Damião Rodrigues. Mafalda Soares da Cunha. Poder municipal e oligarquias … cit.. 86. as suas origens. em Vila Viçosa41. A Casa de Bragança … cit. 2002. Elementos para a História da Misericórdia de Lagos. 1995. Uma situação semelhante. Com efeito. 116-118. 44 Cf. Aqui. A Santa Casa da Misericórdia … cit. Isto sem esquecer que em Setúbal e Aveiro o mar. O que já não acontecia em Évora. a pertença social daqueles que conduziam os destinos municipais situava-se na esfera da aristocracia de projecção local. Maria Marta Lobo de Araújo. Desta maneira verificamos que. 78.

protagonizando doravante a característica mais destacada deste relacionamento. As elites de Évora … cit. a vontade do poder central em uniformizar sistemas institucionais e políticos. 133. que apresentámos atrás. as Santas Casas constituíram um desses campos. . Todavia..148 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS – entre 1580 e 1640 – provinham de antigas famílias de proprietários fundiários. Um facto que atraiu o interesse das elites locais por estas instituições – apesar de tudo emergentes –. Sugerem ainda. foi a partir da segunda metade do século XVI que as relações entre as duas instituições se intensificaram. fixando-se na região após a crise de 1383/138545. estas comunicações entre as Câmaras e as Misericórdias surgem como uma característica marcante na sociedade do Antigo Regime. Em suma. Rute Pardal. económico e político que o poder central conferiu às confrarias. essencialmente devido ao crescendo simbólico. isto é. Pelas semelhanças com as estruturas camarárias. a circulação entre os cargos da vereação e os cargos administrativos nas Misericórdias. 45 Cf. p.

Das Origens às Constituintes. Nuno Gonçalo. 2005. de entidades nobres e eclesiásticas ao longo das épocas medieval e moderna. Edições Colibri – CIDEHUS-UE. compras ou trocas.) – História dos Municípios e do poder local. Coimbra – Fac. 1992. consignados em doações régias e forais. Letras / Centro de História da Sociedade e da Cultura) Na época moderna. XVII. os denominados direitos reais. constituída por casas nobres e eclesiásticas2. Lisboa. Editorial Caminho. instrução – constituindo-se também como intermediária entre o poder central e as populações1. Dicionário de História de Portugal. provenientes de doações concedidas pelos monarcas. . Instituições e poder político. H. Joaquim Romero Magalhães – O poder concelhio. Quanto aos direitos de natureza tributária tinham origem em doações régias. Estes bens e direitos constituíram a base material de sustentação. para além dos estudos monográficos. saúde. 1986. Sobre os senhorios portugueses ver as sínteses elaboradas por: A. enquanto fontes de renda e de poder. Coimbra. CEFA. Os bens podiam ser de natureza patrimonial. Lisboa. justiça. “O espaço político e social local”. Monteiro. 380-438. pp. de Oliveira Marques – “Regime senhorial”. Estatuto nobiliárquico Os Municípios no Portugal Moderno: dos forais manuelinos às reformas liberais Lisboa. Almedina. Os senhorios eram constituídos por um conjunto de bens e direitos. 1996. Armando Castro – A Estrutura Dominial Portuguesa dos séculos XVI a XIX (1834). adquiridos através de doações de particulares. Os direitos podiam ainda ser de natureza jurisdicional. Portugal -séc. 1971. as seguin- 2 tes obras de síntese: Maria Helena da Cruz Coelho. Círculo de Leitores. ou de natureza régia.Senhorios e concelhos na época moderna: relações entre dois poderes concorrentes MARGARIDA SOBRAL NETO (Univ. dotados de uma estrutura administrativa e judicial. exercidos num determinado território. pp. o território português estava coberto por uma rede de concelhos. 1 Sobre as competências das câmaras vide. pp. ou em contratos realizados entre as entidades senhoriais e as pessoas que assumiam o compromisso de exploração agrícola das terras ou a posse de casas ou de outros bens. Sobrepondo-se e imbricando-se nesta rede concelhia encontramos uma rede de senhorios. volume III. 121-135. Coimbra. cível ou crime. 1994. António Hespanha – As vésperas do Leviathan. Nuno Gonçalo Monteiro – “Poder senhorial. Lisboa. que exercia o governo das terras em múltiplas áreas – economia. 149-165. in César de Oliveira (dir.

dir. 1996. coord. Lisboa.) – “História dos Municípios e do poder local”. 3 Maria Helena da Cruz Coelho – “Concelhos”.150 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Senhorios e concelhos foram. in César de Oliveira ( dir. 380-438. 1993.. Círculo de Leitores. 333-357. ICS. pp. Portugal-séc. como em outros casos. in César de Oliveira ( dir. confirmarem ou apurarem os elencos dos governos concelhios – os juízes. vol. 143-153. in História de Portugal. ouvidoe aristocracia”. Em algumas terras senhoriais essas funções eram asseguradas pelos donatários. 1996.) – “História dos Municípios e do poder local”.. Instituições e poder político. pp. vol. os dois mais importantes corpos do “sistema tradicional de poder” a nível local. pp. H. Maria Rosa Ferreira – “Senhorios”. bem como com os instrumentos ao dispor dos donatários e que lhes permitiam ser mais ou menos eficazes no exercício do poder senhorial. Os monarcas dotaram.cit. in Nova História de Portugal. que exerciam funções similares às dos corregedores. Mafalda Soares da Cunha – Práticas do poder senhorial à escala local e regional (fins do século XV a 1640). de Armando Luís de Carvalho Homem e Maria Helena da Cruz Coelho). 5 António Hespanha – As vésperas do Leviathan. no entanto. mas com particular incidência na Idade Média. os vereadores e os procuradores – bem como de apresentarem ou nomearem diversos oficiais que exerciam funções no seio dos concelhos – tabeliães. in Nova História de Portugal. Marreiros. ao longo do tempo.5 De acordo com o estabelecido nas Ordenações. XVII. ouvidores.cit. 554 – 584. pp. Lisboa. de Oliveira Marques. etc. 2003. Entre o Antigo Regime e o liberalismo. Lisboa. ao exercício do poder concelhio decorrentes das presenças senhoriais nos territórios concelhios. . ou os bloqueios. Círculo de Leitores. 4 Em 1640. os conteúdos dos seus poderes. pp. Neste. Joel Serrão e A. IV. de acordo com os titulares dos senhorios. juízes dos órfãos. 584-602. Lisboa. concorrentes. 16% dos juizes de fora eram nomeados pela Casa de Bragança. competia aos corregedores. algumas casas senhoriais de instrumentos de natureza jurisdicional susceptíveis de lhes assegurarem o controlo político e social das comunidades locais que tutelavam3. os oficiais periféricos da coroa tornavam-se agentes de donatários (Nuno Gonçalo Monteiro – As Câmaras no equilíbrio dos poderes: funções sociais e dinâmicas locais. na época moderna. Propomo-nos nesta comunicação reflectir sobre os condicionamentos. aos juízes de fora ou aos ordinários a condução e supervisão dos processos eleitorais. Op. O domínio senhorial sobre a vida concelhia terá assumido formas muito diversificadas. Esses instrumentos consistiam no privilégio de nomearem juízes de fora4. e em regimentos publicados posteriormente. Idem. almoxarifes.. pp. Op. 150-151). de apresentarem. Do condado portucalense à crise do século XIV. III (Portugal em definição de fronteiras. alcaides. Elites e poder. Op. escrivães. no exercício do poder e na apropriação de recursos dos espaços em que dominavam. cit.

“Análise Social”. 8 Rui Santos – Senhores da terra. nos concelhos cujas pautas eram apuradas pela chancelaria desta casa. Op. 345-369. Braga.SENHORIOS E CONCELHOS NA ÉPOCA MODERNA 151 res ou por juízes.º). 1997. no entanto que. apresentava como principal objectivo impedir “subornos e desordens” ocorridos nos processos eleitorais. segundo Rogério Borralheiro. circunstância que podia interferir na selecção das pessoas que eram integradas em pauta. tornando muito mais difícil a penetração de novos membros no seio das oligarquias fiéis às casas senhoriais.. do autor. conferia uma “forte autonomia ao Duque face ao Rei”. 1993 (2. cit. nas terras da Casa de Bragança o processo eleitoral não seguia o modelo das terras régias e senhoriais. XXVIII (121). De notar. 7 Rogério Capelo Pereira Borralheiro – O Município de Chaves Entre o Absolutismo e o Liberalismo (1790-1834). Senhores da vila: elites e poderes locais em Mértola no século XVIII. Na prática este regimento aplicou às terras senhoriais. 6 Maria Helena da Cruz Coelho. método que. e saber igualmente se esses instrumentos geraram “sujeições e obediências”. 141-144. as eleições não eram feitas por pelouros. pp. nomeadamente o facto de se colocarem no governo das terras pessoas que não tinham as “qualidades para servirem”6. Com efeito. O que importa saber é. bem como em documentos que enunciam os poderes senhoriais. no entanto. Joaquim Romero Magalhães – O poder concelhio. bem como atribuía um papel mais interveniente da vereação cessante na escolha da nova vereação7. . do seu poder de apresentar. fazia com que o sistema de escolha das vereações fosse auto-reprodutivo8. nomeados pela entidade senhorial. Como bem observou Rui Santos. O regimento para a eleição dos vereadores de 1611. ed. a legislação que regulava os processos eleitorais. favoráveis à prossecução dos seus interesses. ou às integradas nos termos dos concelhos. Sociedade e Economia. Das Origens às Constituintes. A forma como se processavam as eleições nas terras da Casa de Bragança reforçava essa característica do sistema. pp. de fora ou ordinários. o processo eleitoral em vigor nas terras da Coroa. regimento aplicável às terras cujas pautas não iam apurar ao Desembargo do Paço. mas por favas. como é que os senhores utilizaram os instrumentos de que dispunham. Administração. Estes instrumentos estão há muito identificados pela historiografia construída com base em fontes legislativas e doutrinárias. confirmar ou apurar os oficiais das governanças. A intervenção senhorial na escolha dos elencos camarários decorria. bem como a forma como esses processos decorriam. igualmente. inserindo-se assim num processo de uniformização de práticas judiciais e administrativas locais.

Alguns acompanharam muito de perto as práticas de governo. quatro carneiros e 12 galinhas. Por sua vez. concelho integrado na ouvidoria de Montemor-o-Velho. Na sua dependência. o procurador e outros oficiais concelhios. pessoas indicadas pelo donatário que não constavam das pautas. Por sua vez. 11 Neste couto o juiz era escolhido com base em dois nomes eleitos pela população. considerada abusiva. Em 1718. 1979. . dependente da Casa de Aveiro. detentoras de propriedades vinculadas em morgadio. a partir de meados do século XVIII verificou-se um processo de elitização dos elencos camarários. pp. As pessoas “principais da terra”. Lousã no século XVIII. 2 vols. exerceram o cargo de vereadores. o escrivão do couto Brito Aranha era “ o mais grosso detentor de terras arrendadas” ( Aurélio de Oliveira – A Abadia de Tibães. na primeira metade do século XVIII. policopiada. Coimbra: Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Com efeito. Afirmavam “que as eleições deveriam ser feitas só pelos povos e o mosteiro abusando mandava a ellas presidir dois religiosos e nellas faziam votar as pessoas que os ditos religiosos lhe parecia sahindo eleitos todos os seus afilhados”11.º 11-12. n. exploração e produção agrícola no Vale do Cávado durante o Antigo Regime. Com efeito. por vezes.152 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Outro caso em que se evidencia um forte controlo senhorial dos governos concelhios é o do município da Lousã. A intervenção do poder senhorial nas eleições foi. suscitando a contestação das comunidades. porém. os moradores do couto de Tibães denunciaram as intromissões do donatário nas eleições. o confronto entre as listas das pessoas nomeadas em pauta. “ARUNCE”. 2003. devendo o juiz fazer oferta ao mosteiro de 4 leitões... e enviadas à casa de Aveiro. p. na Lousã. Porto. a passagem do domínio da Casa de Aveiro para o da Coroa levou a uma reconfiguração social das vereações. dissertação de doutoramento policopiada). à intervenção na escolha das elites concelhias. com as confirmadas por esta Casa levaram o mesmo autor a concluir que o Duque não se limitava a confirmar as listas decorrentes dos processos eleitorais locais. 1630/80-1813. Sérgio Soares num estudo referente a este município concluiu que o governo concelhio era exercido pelo oficialato local provido pelo Duque de Aveiro que se comportava como uma clientela na estreita dependência da casa senhorial9. neste município. 9 Sérgio Soares – O ducado de Aveiro e a vila da Lousã no século XVIII (1732-1759). 160-165). substituíram o oficialato local na governança da terra (Maria do Rosário Castiço de Campos – Redes de Sociabilidade e Poder. A cerimónia de investidura realizava-se na Abadia. Propriedade. ficavam os vereadores. A acção dos donatários não se confinava. o que evidencia a intervenção directa da casa senhorial na selecção dos elencos camarários10. 58 10 De notar ainda que.

Por sua vez. João de Bragança.] de modo que quem julgava era o frade e os officiais viam-se metidos a testemunhas” (Op.cit.. p. 13 Jorge Fonseca – Montemor-o-Novo no século XV. vol. pp. a partir dos finais do século XVII. ao longo da época moderna. 17 Jorge Fonseca – Montemor-o-Novo no século XV. Aguardam-se os estudos monográficos que permitam esclarecer a forma como interactuaram estes dois poderes. diversas articulações entre poder senhorial e concelhio. de Aurélio de Oliveira acerca dos coutos beneditinos de Tibães na época moderna14 e o estudo de Teresa da Fonseca relativo à administração senhorial no concelho de Vimieiro na segunda metade do século XVIII15. II série. facto que motivou um pedido do concelho ao monarca no sentido de o manter “em sua antyga liberdade” quando se conseguiu libertar da tutela senhorial17.. cit. Câmara Municipal de Arraiolos. Porto. exerceram um controlo apertado sobre as governanças concelhias do couto. 67. Separata da “Revista da Faculdade de Letras”. Op. 14 Aurélio de Oliveira – A Abadia de Tibães. os abades de Tibães. Para além da fruição de prerrogativas concedidas pelo monarca.cit. 168). VI. As investigações já realizadas revelam-nos. 1998. substituindo-se às justiças locais na decisão de matérias de interesse para o senhorio – caso da gestão dos espaços incultos18. Propriedade.. 1998.. tabeliães e dando posse às vereações e outros oficiais. entretanto.SENHORIOS E CONCELHOS NA ÉPOCA MODERNA 153 O conhecimento histórico sobre as relações entre donatários e câmaras é ainda escasso. exploração e produção agrícola no Vale do Cávado durante o Antigo Regime. Neste couto. testemunham um “efectivo domínio das instituições concelhias por parte de donatários”16. 64. Por sua vez. 15 FONSECA. p. No século XV. em capítulo realizado em 1770. 1989.cit. Os estudos de Jorge Fonseca sobre Montemor-o-Novo no século XV13. este senhor ultrapassou os limites do seu poder. Teresa – Administração senhorial e relações de poder no concelho do Vimieiro (1750-1801). 18 Em 1718 os moradores do couto afirmavam que “a Abbadia se intrometia nas correições que a camara fazia 2 vezes por anno mandando juntamente um religiozo[. p. Câmara Municipal de Montemor-o-Novo. nos diversos municípios com tutela senhorial12. 1630/80-1813. o 12 Para a época medieval vide Maria Helena da Cruz Coelho – Entre poderes – Análise de alguns casos na centúria de quatrocentos. nomeando ouvidores. 166). D. 103-135. os frades determinaram que não se deixasse “abrir monte sem licença de quem presidir no Mosteiro e de nenhuma sorte se conceder licença a Camara do Couto para os abrir” (Op. Montemor-o-Novo. juízes ordinários. desempenhou todos os direitos inerentes à jurisdição cível e crime. . Arraiolos. Um dos donatários.. a jurisdição em Montemor-o-Novo foi exercida por entidades senhoriais. p. Op. 16 Idem.

260 . 65.. 1989. vol. Outro tipo de relação entre donatário e concelhos é o evidenciado no estudo de Francisco Ribeiro da Silva sobre a “Estrutura administrativa do condado da Feira”. este autor considera ter existido “compatibilidade entre o domínio senhorial e o municipalismo” e “que a dinâmica municipal pôde processar-se na dependência directa de um senhor de vassalos sem que as instituições concelhias fossem bloqueadas”20. Neste condado. impondo a observância da lei. IV. devido à proximidade física dos donatários das terras que dominavam. nos casos atrás enunciados. uma intervenção autoritária nas práticas de governo concelhio. cit. p. p. 21 Idem. tendo sido os vereadores ameaçados com penas pecuniárias e de prisão se não executassem as ordens do ouvidor. Com efeito. a atitude “vigilante e autoritária” do conde D. a distância terá condicionado o exercício do poder senhorial. defendendo a jurisdição do Donatário e os direitos dos vassalos”21. atitude que motivou. Assumindo posição idêntica aos abades de Tibães. pp. Segundo a mesma autora. favorável às boas práticas da governação concelhia e à prossecução do bem comum. os donatários do Vimieiro apropriaram-se das funções administrativas da câmara esvaziando-a das competências exercidas por outros municípios. O controlo apertado da actuação das vereações e a “usurpação” das suas competências foi possível.154 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS donatário deixava para a câmara apenas as matérias relativas à regulamentação do comércio local. por vezes. Revista de Ciências Históricas. como acontecia com o poder régio. Com efeito. neste caso. o exercício do poder senhorial foi desempenhado pelo ouvidor que acompanhou “muito de perto a acção governativa” da câmara. Francisco Ribeiro da Silva – “Estrutura administrativa do condado da Feira no século XVII”. “denunciando ilegalidades. A intervenção senhorial na governação concelhia foi. Teresa Fonseca defende ainda que as práticas esclarecidas de exercício do poder dos senhores de Vimieiro se caracterizaram pelo respeito pelo poder régio e pelo empenhamento no cumprimento das leis. 19 20 Op. algumas vezes requerida pelos próprios vereadores vimieirenses em matérias que lhes suscitavam dúvidas ou naquelas em que era difícil obter consensos. A perda de autonomia municipal terá sido. no entanto. 255-271. Os ouvidores deste senhorio revelaram um particular empenhamento na defesa dos interesses das populações. Sancho de Faro e Sousa conferiu “alguma regularidade e disciplina à administração municipal”19.

de um bom desempenho na cobrança de rendas. Mafalda Sousa Soares afirma que “a maioria ascendia a ouvidores depois de exercer o cargo de juiz de fora em vários concelhos do senhorio. p. caso dos ouvidores. Para além do papel mais ou menos interveniente dos donatários e dos oficiais por eles providos. 1991. O Governo e a administração económica e financeira. o comportamento dos donatários podia. Percursos bem sucedidos podiam mesmo conduzir ao cargo de desembargador da Casa”24. Dom Gaspar. no entanto. De notar ainda que mesmo a 22 O Município de Braga de 1750 a 1834. seria novamente recompensado com a quantia de 12 mil réis pelos arrendamentos feitos na Comarca de . o poder senhorial com o poder régio na submissão do poder concelhio. Ora um percurso bem sucedido de ouvidor podia decorrer.59. Referindo-se aos juízes de fora providos pelo duque de Bragança. ouvidor das comarcas de Barcelos e Bragança. 9 e 15. na casa de Bragança. função que recorrentemente assumiram25. defendendo as suas jurisdições contra as investidas das justiças régias”. 2000. João V. governou “o senhorio temporal da cidade e seus coutos com poder soberano e postura de príncipe. José de Mascarenhas. na escolha dos elencos camarários. Em 1589. José Viriato Capela demonstra que. p. assim. 20 mil réis “pelos arrendamentos que fez a favor do Duque”. Braga.SENHORIOS E CONCELHOS NA ÉPOCA MODERNA 155 Como decorre do atrás exposto.. Lisboa. podia condicionar a prossecução das suas próprias carreiras. recebeu. 24 Mafalda Soares da Cunha – A Casa de Bragança (1500-1640). convinha apurar se as práticas dos governos concelhios que passavam pelo crivo da selecção das casas senhoriais se pautaram ou não pela defesa dos interesses dessas casas. Nesta matéria. Estampa. 291. D. em 1587. o Arcebispo de Braga. convergindo. 25 Tomé de Mesquita. variar em função da conjuntura e dos seus interesses pessoais. comportando-se os ouvidores-provedores nomeados pelo donatário como magistrados régios22. já exerceu o seu poder em articulação com a “política nacional”. em estudo relativo à Lousã. Sérgio Soares. bem como a obtenção de outros recursos senhoriais. o seu sucessor. no reinado de D. pp. concluiu que o grupo de oficiais que estava dependente da distribuição dos “recursos senhoriais” da casa de Aveiro se constituía como um núcleo de “obediências e fidelidades senhoriais”23. Por sua vez. Compreende-se que assim fosse se tivermos em conta que o bom desempenho das clientelas senhoriais no exercício do governo concelhio. as atitudes do donatário do Vimieiro e dos ouvidores do condado da feira actuaram no sentido da aplicação das leis e ordens régias. Práticas senhoriais e redes clientelares. 23 Cit. bem como no cumprimento de outras funções.

Lisboa. n. pelo facto de este não ter tido um bom desempenho na execução das dívidas da Universidade. enquanto vereadores. Manuel Inácio Pestana – Barcelos nos Arquivos da Casa de Bragança. cit. 27 Nuno Gonçalo Monteiro – O espaço político e social local. sublinhe-se. concluiu que as casas senhoriais não tinham capacidade de controlo sobre os governos das terras27.. os deputados da Junta da Fazenda protestaram contra a nomeação do juiz de fora de Viseu para o exercício do mesmo cargo em Lamego. em 11 de Novembro de 1786. 26 José Damião Rodrigues – Poder municipal e oligarquias urbanas. Teodósio I. 1(2) 1983. . decorrer do relacionamento pessoal entre as vereações e os donatários. Separata de “Barcellos-Revista”. ainda. p. A Universidade de Coimbra possuía o privilégio de poder recorrer aos juízes de fora e corregedores para executar os seus devedores. eram também os seus. pp. 1994. Ponta Delgada no séc. um beneficio para se constituir como um pesado encargo a que muitos tentavam fugir. situação que se revelaria propícia à desobediência às entidades senhoriais das quais estavam dependentes. De acordo com este entendimento.Lavradores. Instituto Cultural de Ponta Delgada. A atitude das vereações concelhias. Nestes. p. pp. em muitos casos. e enquanto pagadores de direitos senhoriais – em detrimento das instituições que os tutelavam. Bragança (cf. nos finais do Antigo Regime. recursos que seriam significativos nas vilas e cidades. Nuno Gonçalo Monteiro . de menor monta nos pequenos concelhos. muitas câmaras assumiram no movimento de contestação anti-senhorial a defesa dos interesses das comunidades que governavam – interesses que.1985. Nuno Monteiro invocando o comportamento dos oficiais concelhios nas terras do mosteiro de Alcobaça. em “Ler História”. Devido a esta circunstância. seria naturalmente condicionada pelos recursos que estas tinham para distribuir. Frades e Forais: Revolução Liberal e Regime Senhorial na Comarca de Alcobaça (1820-1824).º 4. considerava que devia ser ouvida quando se avaliava o desempenho desses oficiais no momento do apuramento das residências. Ponta Delgada. De facto.156 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS carreira dos oficiais régios podia ser afectada pela forma como desempenhavam determinados serviços às casas senhoriais. 159. José Damião Rodrigues demonstra que “o compadrio e o clientelismo” são factores a ter em conta na compreensão das relações entre poder senhorial e poder municipal em Ponta Delgada no século XVII26. XVII. relativamente à defesa dos interesses das casas senhoriais de que estavam dependentes. 31-87. 274-318. As “obediências e fidelidades senhoriais” podiam. o exercício do governo concelhio ao longo do século XVIII deixou de ser. 46. Mercês do Duque D.

aquando da realização dos tombos os oficiais concelhios eram chamados a reconhecer o domínio das casas senhoriais. Faculdade de Letras.João do Monte: propriedade e relações sociais (1786-1820). a posição dos senhorios era. por exemplo a perda das terras que agricultavam ou o pagamento de indemnizações às casas senhoriais ou custas de processos29. assim. e consequentes proclamações de obediência. Região de Coimbra. mais forte do que a dos concelhos. salvaguardar-se das represálias motivadas pela desobediência às casas senhoriais. portanto difícil. pp.SENHORIOS E CONCELHOS NA ÉPOCA MODERNA 157 Uma análise detalhada das atitudes das governanças. Faculdade de Letras. João do Monte ao pagamento das custas de um processo judicial. O mesmo tribunal condenaria. mais prudentes no apoio explícito às populações28. 2003. De notar ainda que são muito frequentes. no momento da realização de um tombo. dos pequenos concelhos. sobretudo aqueles que seguiam as vias judiciais. pp. tese de mestrado policopiada. 1997. Com efeito. em 9 de Julho de 1814. a introduzir alguns matizes no comportamento dos diversos membros das vereações. assim como de outros poderosos locais. confrontar uma vereação concelhia “rebelde” com um documento em que vereações anteriores tinham reconhecido 28 Margarida Sobral Neto – Terra e Conflito. tentando. Palimage Editores. 29 Por terem recusado reconhecer o mosteiro de Celas (Coimbra) como donatário de Eiras. porque se podia apoiar em múltiplos argumentos jurídicos. Coimbra. bem como a identificar algumas variações na atitude que manifestaram durante os processos de contestação. por norma. leva-nos. alguns moradores foram condenados. Não era. bem como os direitos que lhe eram devidos. Viseu. em 7 de Janeiro de 1749. pelo menos dos pequenos concelhos. pelo tribunal da Relação do Porto. Já os juízes ordinários se manifestaram. 179-320. se revelaram mais rebeldes assumindo protagonismo em alguns movimentos. tese de mestrado policopiada. ao longo dos conflitos. alguns consagrados em forais. por parte dos membros da vereação. quando se apercebiam que não conseguiam atingir os seus objectivos. . por norma. as desistências da contestação. entretanto. como era. A comunidade de Eiras nos finais do século XVIII. 21-30). Os estudos que tenho elaborado sobre esta matéria levam-me a concluir que os procuradores dos concelhos. pp. 177-183. Estruturas. Em momentos de contestação. os moradores de S. ao pagamento de uma indemnização ao convento (Ana Isabel Sacramento Sampaio Ribeiro. 2003. redes e dinâmicas sociais. Um deles era o que registava os “reconhecimentos” feitos pelos oficiais concelhios no momento da elaboração dos tombos. originado pela recusa de pagamento de direitos senhoriais e contestação de domínio directo do mosteiro de Santa Cruz de Coimbra (Licínio Gomes Neves – A comunidade rural de S. pessoas que por norma tinham uma condição social inferior à dos vereadores. 1700-1834. Coimbra.

“Revista Portuguesa de História”. A partir do momento em que Ansião. 89-95. quando um concelho em luta contra uma casa senhorial. doada a Dom Luís de Meneses. confrontou-se ao longo do século XVIII com idêntico problema. Região de Coimbra. um dos lugares do termo de Coimbra. 59-94. Poder e poderosos. 33 Francisco Ribeiro da Silva – O Porto e o seu termo (1580-1640). 28. as instituições e o poder. Faculdade de Letras. assumindo a vereação um evidente protagonismo30. Coimbra. na maioria dos concelhos do termo apenas exercia jurisdição crime. em alguns lugares do termo. entre casas senhoriais e câmaras. Op. De facto. O mosteiro de Grijó. Braga. intensificou-se. 32 Margarida Sobral Neto – Terra e Conflito. Senhorio e propriedade: 1520-1720 (formação. por vezes reconhecida pelas câmaras. Coimbra. vol. a contestação ao mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. 1993. situação que provocava frequentes conflitos de jurisdição32. nos estudos que realizaram sobre o município de Coimbra. 1997. 31 António de Oliveira – A vida económica e social de Coimbra.cit. 1995. e consequentes conflitos. Conflitos de jurisdição ocorreram igualmente entre a câmara do Porto e os donatários que senhoreavam no termo da cidade33. A vereação de Montemor-o-Velho. vol. A posse alicerçada na tradição imemorial. vol. 1985. Faculdade de Letras. . Porto. António de Oliveira e Sérgio Soares. contava com o apoio de outro senhor. a jurisdição cível e/ou crime. 30 Margarida Sobral Neto – Regime senhorial em Ansião. que eram objecto da sua contestação. Problemas que se materializaram na tentativa de apropriação da jurisdição crime por parte dos donatários que apenas detinham a cível. 1700-1834. estrutura e exploração do seu domínio). pp. I. exercendo os senhorios. pp. evidenciaram os múltiplos problemas com que a vereação coimbrã se deparou nos lugares do termo em que exercia apenas a jurisdição crime. entretanto. senhorio territorial deste lugar. foi particularmente evidentes nos termos das vilas e das cidades em que a sede concelhia estava na dependência régia. Atitudes mais radicais das vereações ocorreram. argumento que lhes ditou muitas sentenças favoráveis. tese de doutoramento policopiada. foi um poderoso argumento invocado pelas casas senhoriais em momentos de conflito com as comunidades locais. Os homens .I. Coimbra.158 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS a obrigação de satisfazer ao senhor tributos. Sérgio Cunha Soares – O Município de Coimbra da Restauração ao Pombalismo. concelho em cujo termo senhoreavam também vários senhores leigos e eclesiásticos. ou na dificuldade em cobrar impostos municipais nas áreas em que detinha apenas jurisdição cível31. A concorrência. O foral manuelino e seus problemas nos séculos XVII e XVIII. 1971. Um dos conflitos ocorreu com o mosteiro de Grijó (Inês Amorim. foi desmembrado deste concelho para assumir o estatuto de vila. I. e outras “opressões”.

“subtraindo-o” às câmaras. 352-353. As pastagens de animais pertencentes a comunidades religiosas suscitaram também frequentes conflitos37. in “História de Portugal”. pp. Poder e Poderosos na Idade Moderna. juiz privativo de várias casas senhoriais. facto que se repercutia muito negativamente no exercício do poder concelhio. 62. Os senhorios não jurisdicionais possuíam outros instrumentos. cit. era a capacidade de intervenção na escolha de oficiais das orde- 34 35 36 37 Em 1724 estava preso. Op. Entre eles destaca-se a prerrogativa de possuir juiz privativo35. traduzia-se numa perda efectiva de controlo e de capacidade de dominação sobre o governo dos termos concelhios. peixe e água. mas serem investidos pelos donatários. por norma. vol. Sérgio Cunha Soares – O município de Coimbra da Restauração ao pombalismo.cit. cit. anulando assim funções de controlo do exercício do poder senhorial assumidas por aquele36. 341-351... cit. em desfavor das populações. Op. várias são as queixas contra o conservador da Universidade.. . o procurador do concelho de Algaça.) Nuno Gonçalo Monteiro – O poder senhorial. 121-124. em 1750. p. Nos finais do século XVIII. na região de Coimbra. na cadeia de Coimbra. Mas os concelhos não foram condicionados apenas pelas entidades que detinha direitos jurisdicionais nos seus territórios. Op. Sobre o relacionamento entre a câmara de Évora e outras instituições da cidade cf. por elas confirmadas.. 1700-1834. Absolutismo e municipalismo. Por sua vez. Margarida Sobral Neto – Terra e Conflito. Op. De notar que as vereações das sedes concelhias dispunham de instrumentos de coacção das justiças dos concelhos do termo. estatuto nobiliárquico e aristocracia.. Évora 1750-1820. Região de Coimbra. pp.SENHORIOS E CONCELHOS NA ÉPOCA MODERNA 159 O facto de os juízes de primeira instância das localidades do termo concelhio não serem confirmados pelas vereação da sede concelhia. ou pelos seus representantes. foram presos o procurador do concelho de Algaça e os juizes do concelho de Canedo e Hombres (Cf. I. que poderiam ser accionados contra quem contestasse o seu poder. que podiam ir até à prisão de juízes ordinários em casos de clara desobediência34. Entre eles destacam-se as regalias em matéria de abastecimento de carne. As instituições senhoriais sediadas sobretudo nas cidades usufruíam de outros privilégios que colidiam com o exercício das competências das câmaras. por ser “cabeça de motim em os juizos das sete varas de Poiares se levantarem contra a jurisdisam do Senado da Camara”. Acrescente-se ainda que o conservador da Universidade chegou a contradizer posições assumidas pelo ouvidor da mesma instituição. que julgava. e que podia condicionar o jogo de forças a nível local. Teresa Fonseca. Outro poderoso instrumento que detinham algumas casas senhoriais. pp. conferidos pelos monarcas.

31-32. cit. pensamos que a situação de conflito não seria a desejada por instituições que viviam num sistema marcado pela coexistência de múltiplos corpos e poderes. as receitas que alimentavam as casas senhoriais. Como já afirmámos.) – História dos Municípios e do poder local. Um exemplo paradigmático é revelado por Nuno Monteiro: o caso de um capitão-mor. em defesa dos interesses do donatário. entretanto. se o conflito marcou muitas vezes o relacionamento entre poderes concelhios e senhoriais. separata de “O Faial e a periferia açoriana nos séculos XV a XX”. Nuno Monteiro invocando o papel de liderança dos capitães de ordenanças no movimento de contestação anti-senhorial afirmou que o facto de o cargo ser vitalício conferia aos capitães uma margem de liberdade relativamente às entidades que os tinham nomeado. Ora. os capitães de ordenança efectuaram a cobrança de rendas assegurando. 1995. in César de Oliveira (dir. 152-163. pp. levaria. bem como outros privilégios de que os monarcas dotaram as casas senhoriais.160 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS nanças. 352. Montemor-o-Novo. Maria Helena da Cruz Coelho. . o excesso de zelo. em tempos de instabilidade. Um dos principais alvos de contestação das populações foram os cobradores de rendas das casas senhoriais. os celeiros e os lagares esbulhando os camponeses de uma parte substancial do produto do seu trabalho. cf. Horta. pp. Teresa Fonseca – Relações de Poder no Antigo Regime. que se distinguiu pela sua capacidade de vencer a resistência da população e da câmara de Cantanhede ao pagamento dos pesados direitos senhoriais. deste modo. os poderes jurisdicionais. Op. Argumento pertinente. Câmara Municipal de Montemor-o-Novo. Joaquim Romero Magalhães – O poder concelhio.. Nestes casos. ou a avidez. Das Origens às Constituintes. 1998. Com efeito. revelaram-se como instrumentos favoráveis à apropriação de recursos nas áreas con38 Sobre os poderes e a organização das ordenanças. p. 39 Nuno Gonçalo Monteiro – “Os Poderes Locais no Antigo Regime”. de alguns agentes senhoriais rompiam equilíbrios que os donatários queriam preservar. Na verdade. José Damião – Orgânica militar e estruturação social: companhias e oficiais de ordenança em São Jorge (séculos XVI-XVIII). as mãos do poder senhorial que invadiam os campos. Rodrigues. O excesso do zelo com que pautou a sua acção. A administração municipal em Montemor-o-Novo (1777-1816. assumiram-se como zelosos defensores dos interesses dos senhorios (que eram também os seus) contra os das comunidades. rendeiro do Marquês de Marialva. o próprio Marquês de Marialva a afastá-lo do exercício da actividade de rendeiro39. Mas no movimento de contestação anti-senhorial os capitães de ordenanças assumiram atitudes diversas. cargos muito requeridos a nível local pelo prestígio que conferiam e também pela capacidade de domínio sobre as populações38.

Esta gestão pressupunha a existência de uma máquina administrativa que para funcionar necessitava de financiamento. Constituíam fontes de receitas das câmaras tributos.º 7. na Idade Média. “Penélope”. coimas decorrentes de transgressões. Luís Nuno Rodrigues – Um século de Finanças Municipais: Caldas da Rainha (1720-1820).SENHORIOS E CONCELHOS NA ÉPOCA MODERNA 161 celhias. de participação em trabalhos exigidos pelas câmaras. Os historiadores que se têm dedicado ao estudo das finanças concelhias são unânimes em concluir que as dificuldades financeiras das câmaras foram um fenómeno estrutural no Antigo regime. em múltiplas áreas. pontes ou fontes. Op. reparação de edifícios camarários ou de cadeias. Teresa Fonseca – Relações de Poder no Antigo Regime. destacava-se a de custear a reparação ou construção de caminhos. A sociedade de Antigo Regime estruturava-se no privilégio. Este financiamento provinha de recursos gerados pela riqueza que se produzia no seio das comunidades. e de pagamento de coimas e de tributos. constituindo-se como um factor de bloqueio ao desenvolvimento das políticas concelhias. nomeadamente no que concerne à realização de infra-estruturas: construção de estradas. Os privilégios senhoriais. em manifesto prejuízo do governança concelhia. Universidade do Minho. cit. caso das sisas. mas um deles. n. e talvez o de maior peso. . para além do seu peso político e simbólico. nomeadamente as praticadas contra a legislação municipal40.. Foi em matéria de captação de proventos económicos que a concorrência senhorial foi particularmente evidente. A administração municipal em Montemor-o-Novo (1777-1816. Por 40 José Viriato Capela – O Minho e os seus municípios. Alguns destes traduziam-se num conjunto de isenções relativas às obrigações concelhias: isenção do exercício de cargos concelhios. Braga. diminuindo a matéria colectável dos concelhos. estradas. Uma das estratégias utilizadas pelos senhores. Esta concorrência podia assumir diversas formas que passarei a explicitar. Entre as dificuldades económicas das câmaras. o que se reflectia negativamente nas finanças concelhias. pontes. para atrair gentes aos seus territórios foi a concessão de privilégios aos seus “caseiros”. foi a concorrência feita por estes na apropriação de recursos. Estudos económico-administrativos sobre o município português nos horizontes da reforma liberal. assumiam-se como instrumentos favoráveis à apropriação de recursos económicos das comunidades. 1995. 1992. 106-151. condição de diferenciação social transversal aos diversos grupos sociais. pp. rendimentos provenientes da gestão dos bens dos concelhos. nas áreas de domínio de senhorios. municipais ou sobejos de tributos régios. Podem ser invocadas diversas explicações para os problemas financeiros das câmaras. Como é sabido. cabia às câmaras a gestão corrente da vida das comunidades.

e câmaras43. pp. por vezes.186).. no Séc. 42 Margarida Sobral Neto . A apropriação dos recursos das áreas incultas constituiu um dos principais motivos de confronto entre senhorios. Um conflito em que por norma saíam vencedores os senhores. 2000 (dissertação de doutoramento policopiada). Em 1618. exploração e produção agrícola (1570-1834). sobretudo eclesiásticos. Julho-Dezembro.1984. Nos conflitos entre senhores e câmaras motivados pela posse de áreas incultas – alguns deram origem a longos processos judiciais – estavam em causas motivações de natureza política. Salvador Mota –O senhorio cisterciense de Sta Maria de Bouro: património. 1978. mas também no país. à partida. as pessoas que possuíam o domínio útil de terras das casas senhoriais. “Revista de História Económica e Social”. Ana Isabel Ribeiro – Um conflito entre poderes na Gândara da Bunhosa no início do século XVII. XVIII. volume III da 2. tentavam obrigar os habitantes da comunidade que viviam do seu trabalho. vol. ou jurisdicional.162 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS este motivo. Região de Coimbra. jornaleiros ou lavradores. traduzia-se num forte constrangimento da acção camarária. pp.Uma Provisão sobre Foros e Baldios: problemas referentes a terras de logradouro comum na região de Coimbra. Lisboa. 2. e de natureza económica.ª série (VII). susceptíveis também de gerar receitas para os municípios. 43 José Viriato Capela – Tensões Sociais na Região de Entre-Douro e Minho. “Revista Portuguesa de História”. reflectia-se no quotidiano das comunidades. p.. como era por exemplo a região centro41. abarcando agora um leque mais amplo. 1858. 14. Com efeito. Ora os senhorios reivindicavam por norma o domínio directo sobre toda a área cultivada e inculta situada nas suas áreas de domínio. a prestar serviços gratuitos. principalmente nas zonas onde se concentravam muitas casas senhoriais. “O Distrito de Braga”.cit. o procurador da Câmara de Coimbra invocava a existência de muitos privilegiados na cidade para se eximir ao pagamento de uma finta para as obras do Reino (Aires de Campo – Questões forenses. 1700-1834. 91-101.. obrigando. as câmaras a realizar contratos de aforamento de terras incultas para preservar áreas de utilização comunitária. o que podia confinar a área do património concelhio a escassas terras42. pp. t. Op. Este privilégio. 183-223. Outro dos privilégios dos foreiros das casas senhoriais era a isenção de coimas. Ora do universo dos potenciais prestadores de trabalho gratuito excluíam-se. Muitas destas eram aplicadas às pessoas que transgrediam os regulamentos concelhios de utilização de áreas incultas. Porto. . Imprensa da Universidade. propriedade. nomeadamente as áreas de pastagem. as áreas incultas cobriam percentagens sig- 41 A existência de privilegiados. que era ciosamente guardado por aqueles que o usufruíam. Margarida Sobral Neto – Terra e Conflito. 587-631. Coimbra.. XXXII. bem como pelas casas senhoriais que lho haviam concedido.

Em articulação com as políticas de abastecimento. alienando os espaços incultos sem consultar as vereações. Com efeito. e também das câmaras. situando-se parte delas nas zonas fronteiriças entre concelhos. após a consulta das vereações. no entanto. aliás. seriam os grandes negociantes de pro- . as câmaras para além de intervirem na agricultura. intervinham. Muitos forais manuelinos que reconheciam o domínio senhorial sobre as terras incultas. sector no qual o abastecimento se assumia como principal preocupação. As casas senhoriais comportavam-se. também. contrariando. Estas eram assim detentoras de produtos agrícolas para consumo nas próprias casas. que se pautavam pela auto-suficiência. base da alimentação das populações. provocaram um desequilíbrio susceptível de afectar a produção e produtividade agrícola bem como a criação de gado. como afirmou Aurélio de Oliveira. uma parte significativa da produção agrícola destinava-se ao pagamento de diversos direitos às casas senhoriais. Por sua vez. nesta área as políticas concelhias podiam ser afectadas pelos interesses dos senhores. Em muitos casos. A cobrança era intermediada através de contratadores de rendas que. Este facto repercutia-se negativamente no exercício de uma das principais competências dos concelhos: o governo económico. Ora a impossibilidade de controlar os usos dessas áreas acarretava uma perda efectiva de poder sobre o território concelhio. Mas os prejuízos mais visíveis eram de facto os de natureza económica: a impossibilidade de utilizar as terras incultas como fonte de receita significava uma enorme perda para as receitas municipais.SENHORIOS E CONCELHOS NA ÉPOCA MODERNA 163 nificativas dos territórios concelhios. num tempo em que a renovação da fertilidade da terra passava pela utilização de adubos vegetais e animais a subtracção de terras que eram o suporte para a criação desses fertilizantes afectava os níveis de produção e de produtividade com repercussões directas no abastecimento em cereais. Este pagamento não era feito. como senhoras absolutas do que consideravam os seus domínios. o grosso a ser comercializado. o que estava disposto na lei. determinavam que a sua alienação fosse feita “em camera”. no sentido de evitar a saída de produtos necessários ao consumo do concelho. por norma. o domínio das casas senhoriais sobre os incultos era abusivo. isto é. destinando-se. enquanto entidades a quem competia salvaguardar o bem comum. Ora. também. a diminuição das áreas de pastagem provocava uma diminuição da criação de gado o que interferia igualmente no abastecimento. Tendo em conta a complementaridade existente entre áreas cultivadas e incultas as alienações destas. directamente aos senhorios. por parte dos senhorios. Com efeito. no entanto. no comércio de géneros alimentares.

Ora. Alguns estudos sobre rendas agrícolas. privilégios ciosamente preservados pelos senhores. pp. Com a mesma política colidiam os monopólios senhoriais de fabrico de azeite. A comunidade de Eiras nos finais do século XVIII. Ora. 45 Conhecem-se casos de câmaras que mandaram colocar cadeados em celeiros dos senhores para impedir o desvio de cereais em tempos de carestia. de acordo com o estabelecido nas Ordenações um terço da produção teria que ficar sempre no concelho em que era produzido. atestam bem esta realidade. 47 Nuno Gonçalo Monteiro – O poder senhorial. in “História de Portugal”. Julho-Dezembro de 1980. Nuno Monteiro observou que a “questão senhorial”. bem como o movimento de contestação anti-senhorial. pertencente ao município. vinho ou pão. p. redes e dinâmicas sociais. de que o marquês se tinha apoderado”( Jorge Fonseca – Montemor-o-Novo no século XV. com as necessárias consequências negativas para alguns estratos da população. comprometeu a vida económica das comunidades e consequentemente as políticas concelhias. “Revista de História Económica e Social”. p. Com efeito. Mas teriam os contratadores de rendas respeitado sempre esse princípio? Esta é uma pergunta que eu venho a colocar aos documentos há já algum tempo. apesar dos protestos das populações e das câmaras46. ao longo do século XVIII. não se verificando retorno em investimento. o facto de uma parte significativa da riqueza produzida numa comunidade ser canalizada para as casas senhoriais. o sistema de cobrança de rendas utilizado pela maioria das casas senhoriais poderia contrariar a política de autarcia económica prosseguida pelos municípios. “se confundia com a cobrança de direitos e não com as jurisdições”47.164 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS dutos agrícolas. Op.º 6. Alguns aspectos e problemas. por causa do exclusivo senhorial do fabrico do azeite (Ana Isabel Sacramento Sampaio Ribeiro. estatuto nobiliárquico e aristocracia. pelo menos na zona de Entre Douro e Minho44. 1-56. nomeadamente os decorrentes da subida de preços.cit). João II “que lhe permitisse tomar posse de certa quantidade de cereal. . Em 1483. 46 A população de Eiras e o mosteiro de Celas confrontaram-se. Estruturas. 357. provocada pela diminuição da oferta. o concelho de Montemor-o-Novo solicitou a D. mas para a qual não tenho encontrado muitas respostas45. o principal problema residia no excessivo peso da tributação senhorial que asfixiava a vida económica local. tal como ela se exprimiu de uma forma particular nos finais do século XVIII. n. E observou ainda que “tanto para os donatários leigos como para os eclesiásticos o 44 Aurélio de Oliveira – A renda agrícola em Portugal durante o Antigo Regime (Séculos XVII-XVIII). 67). Mas o problema não residia apenas no eventual desvio de produtos necessários ao abastecimento local.

Luís Nuno Espinha da Silveira – Estado liberal e centralização. de facto. e sobretudo recursos. no momento em que a autonomia dos concelhos. Uma perspectiva histórica”. 2000. tendentes a libertarem-se das presenças senhoriais nos territórios concelhios. à aplicação integral da legislação que. 65-84. políticas que foram coadjuvadas pelos oficiais periféricos da Coroa. 1999. No quotidiano da vida das comunidades o poder senhorial mais sentido pelas populações era. 1997.SENHORIOS E CONCELHOS NA ÉPOCA MODERNA 165 número de concelhos em que recebiam direitos com jurisdição era idêntico ao daqueles em que cobravam direitos sem jurisdição”48. Paulo Jorge da Silva Fernandes – Elites e finanças municipais em Montemor-o-Novo. in “Origens do Estado Moderno (Revista Século XVIII)”. Câmara Municipal de Montemor. entretanto. nomeadamente provedores e corregedores49. Do Antigo Regime à Regeneração (1816-1851). 356-357. Margarida Sobral Neto – Poder central e poderes locais na época pombalina. se gerou entre senhorios e municípios. o exercício dos poderes senhoriais constitui-se como um factor limitador da autonomia das câmaras e fortemente condicionante do exercício das políticas concelhias.o-Novo. poder. A libertação dos municípios da tutela senhorial ocorrerá apenas na sequência da revolução liberal. Lisboa. XVIII aboliu os direitos jurisdicionais concedidos aos donatários. ao longo da época moderna. Com efeito. poder local. promovidas pelas vereações. na última década do séc. agora reduzidos em número. Reexame de um tema. o desempenhado pelos cobradores de rendas ou pelos executores das casas senhoriais. A força do poder senhorial resistirá. Sociedade Portuguesa de Estudos do Século XVIII. 48 49 Idem. . que se intensificou na época pombalina decorrente das políticas. será cerceada pelo poder central50. pp. pp. Esta situação explica a conflitualidade que. Cosmos. Consideramos que o atrás exposto pode sustentar a tese de que o exercício do poder concelhio foi fortemente condicionado pelo poder senhorial com quem teve de partilhar jurisdições. in “Poder central. poder regional. 50 Sobre as transformações ocorridas na vida municipal no período liberal vide. Lisboa.

de José Manuel de Bernardo Ares8 ou de Juan E. de I. de Oriol Oleart i Piquet13 ou de Joan Lluis Palos Peñarroya14. Carretero Zamora4. por fim. de Xavier Gil Pujol10. . Assim. entre os muitos estudos que poderiam ser citados. Em Inglaterra. por exemplo. 167-242. Os órgãos representativos de Aragão e da Catalunha também mereceram alguma atenção. Grande parte dos estudos que foram realizados incidiu nas instituições representativas dos reinos ibéricos que integraram a Monarquia Hispânica. Gelabert9. são hoje uma referência obrigatória os trabalhos de Pablo Fernández Albaladejo1. de Juan Luis Castellano6. Os Municípios no Portugal Moderno: dos forais manuelinos às reformas liberais Lisboa. destacando-se. Thompson3. para a Galiza cumpre ter em conta as investigações de Manuel Artaza Montero17 e de María del Cármen Saavedra Vázquez18.Entre o centro e as periferias. M. A assembleia de Cortes e a dinâmica política da época moderna* PEDRO CARDIM (Universidade Nova de Lisboa – Dept. mas também as investigações de Ernest Belenguer Cebrià11. de História) Após duas décadas de significativos desenvolvimentos historiográficos. Edições Colibri – CIDEHUS-UE. de Luis González Antón5. de J. de José Ignacio Fortea Pérez2. Convém frisar que o interesse pelas assembleias representativas não é exclusivo dos historiadores que trabalham sobre a Península Ibérica19. hoje dispomos de um conhecimento bastante razoável acerca as assembleias representativas da época moderna. e para o País Basco os trabalhos de Jon Arrieta Alberdi16. assistiu-se também ao surgimento de uma série Notas no final do trabalho. A. 2005. Trata-se de investigações que muito contribuíram para esclarecer o papel político desempenhado pelas assembleias de Cortes. Acerca das instituições representativas de Navarra. veja-se os estudos de Fernando de Arvizu y Galarraga15. A. de Charles Jago7. de Angel Casals12. pp. e no que toca às Cortes de Castela-Leão. os trabalhos de Luis González Antón.

de Eduardo Freire de Oliveira31. dos estudos de Henrique da Gama Barros30. Importa aprofundar. de Pedro Cardim45 ou de Ângela Barreto Xavier46. em particular enquanto espaço de articulação entre os poderes locais e a Coroa. nos contributos de Joaquim Romero Magalhães38. a Flandres26 ou o Sacro Império27. Todavia. dos debates desenvolvidos. Pensamos. de Francisco Ribeiro da Silva43. A historiografia portuguesa participou. e. de Armindo de Sousa35. a compreensão do papel desempenhado pelas Cortes no conjunto da administração central da Coroa. de Fernando Bouza Álvarez39. Tirando partido das questões levantadas em trabalhos pioneiros – como os de João Pedro Ribeiro28 ou do Visconde de Santarém29. não há dúvida de que muito subsiste por estudar. Todavia. de Amélia Aguiar Andrade e de Rita Costa Gomes37 –. assinadas por historiadores como Blair Worden21. de Fernanda Olival44. Mark Kishlansky22 e. de António de Oliveira40. urge levar a cabo o estudo comparativo. antes de mais. etc. como a França24. e ao contrário do que sucede para as Cortes da Idade Média – período para o qual dispomos dos trabalhos de José Mattoso34. de que resultou uma volumosa bibliografia.168 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS de obras dedicadas ao Parlamento dos séculos XVI e XVII20. na linha daquele que foi efectuado por Fernando Bouza para a assembleia de 158147. ainda não existem estudos abrangentes sobre o conjunto das reuniões dos séculos XVI e XVII. No que toca às reuniões celebradas no período Seiscentista. está por fazer a análise. das reuniões de Cortes. ainda que indirectamente. de Luís Reis Torgal41. nomeadamente. do contexto em que cada uma delas se realizou. sobretudo. os Estados Italianos25. de António Manuel Hespanha42. . e a despeito do trabalho que foi realizado. demasiado vasta para ser aqui apresentada. As instituições representativas de outras partes da Europa moderna. de Paulo Merêa32 ou de Marcelo Caetano33 –. As Cortes do século XVI. tendo em vista captar a percepção que os povos peninsulares tinham das assembleias representativas realizadas nos reinos vizinhos. à escala ibérica. posteriormente. Seja como for. também. continuam à espera de um estudo aprofundado. algumas das mais importantes investigações sobre a história política e administrativa do Portugal Moderno contribuíram para uma compreensão aprofundada do lugar das Cortes no sistema político. caso a caso. Por outro lado. neste renovado interesse pelas Cortes da época moderna. de Maria Helena da Cruz Coelho36. também foram objecto de aturado estudo. a recente historiografia manifestou algum interesse pelo estudo das assembleias representativas do Portugal da época moderna. Conrad Russell23. dos seus participantes. das decisões tomadas.

também. As Cortes no ambiente político do Antigo Regime A fim de compreender o papel político das Cortes no quadro das relações entre o centro e as periferias. Fundamental será. também. Como se pode verificar nesta breve enumeração. Urge efectuar. por seu turno. Falta. igualmente. José I. os processos de selecção e o estatuto dos procuradores. a realização de investigações sobre a história da fiscalidade. uma iniciativa sistematizada de publicação da documentação produzida pelas Cortes do século XVII50. abordagens na linha da história das ideias políticas. a fim de se perceber. está por cumprir toda uma vasta agenda de investigação sobre as Cortes do Portugal da época moderna. trata-se de um corpus que continua à espera de uma análise de conjunto. É igualmente imprescindível dedicar alguma atenção à articulação entre as Cortes e o mundo local. assim como o impacto das suas decisões no mundo político das periferias48.. o mesmo se podendo dizer de questões como a hierarquia entre as cidades e vilas com voto em Cortes. Trata-se de um universo político onde o principal quadro de referência não era a divisão administrativa implementada pela Coroa. temática largamente negligenciada pelos historiadores portugueses e de cujo estudo depende a compreensão cabal do significado político das Cortes da época moderna49. de molde a reconstituir o sentido das intervenções dos participantes. os processos de decisão. Questão importante é. mas sim o laço de pertença que resultava do próprio . o funcionamento das sessões..ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. 169 Cada uma das actas das sessões. igualmente. é indispensável ter em conta que se trata de uma assembleia que operava num quadro comunitário eminentemente corporativo. Por último. tendo em vista compreender a relação entre as sucessivas configurações do discurso político e o maior ou menor protagonismo das Cortes. ou do papel de Lisboa como «cabeça» do reino. A participação do «estado da nobreza» e do «estado eclesiástico» nas sucessivas reuniões de Cortes é outro tema que ainda não foi objecto de um estudo sistemático. e cumpre estudar. por exemplo. igualmente. e num contexto social onde coexistiam distintos sentimentos de pertença à comunidade política. as várias alusões à «assembleia dos três estados» nos reinados de D. urge avaliar o verdadeiro significado do debate sobre as Cortes na segunda metade de Setecentos. João V e de D. A ASSEMBLEIA DE CORTES.. seria merecedora de um “estudo de caso” altamente contextualizado. a da influência das autoridades senhoriais no comportamento dos procuradores oriundos de vilas situadas nos seus senhorios. Quanto ao vasto conjunto de petições existente nos arquivos portugueses. etc.

e com combinações de natureza bastante diversa. a comunidade territorial de ordem superior que englobava. todos os domínios que estavam sob a alçada do soberano. Apesar dos inevitáveis contrastes regionais. estruturante. no seu seio. entre el Rey y sus vassallos…»52. segundo uma escrupulosa ordem hierárquica. e o reino como uma comunidade de cidades. e fê-lo. um conjunto político plural. Nesse quadro. Convém não esquecer que a sociedade da época moderna assentava em corpos de todo o tipo. era este o cenário que caracterizava toda a Península Ibérica53. A urbe. assim. também elas estavam presentes. como se sabe um atributo essencial. embora a sua entrada em cena seja posterior à das divisões que acabámos de referir.170 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS tecido social em que cada pessoa estava integrada. num primeiro momento. adaptando-se à realidade social e jurisdicional que a precedia. territórios esses que apresentavam perfis e estatutos bastante diversos. toda uma série de comunidades locais. encontrava-se bem expressa na titulatura régia. assim. Tal heterogeneidade. perante um ambiente de pluralidade de pertenças e de identidades políticas. escalonadas segundo uma ordem fortemente hierárquica. e a cidade ou vila onde se residia constituía o núcleo central da sociabilidade. era tida como uma comunidade de famílias. Em termos administrativos. pequenas «repúblicas» virtualmente auto-governadas. Cada um dos «reinos» que povoava a paisagem da época moderna era. Todos esses territórios estavam sob a égide de um rei. resultante da progressiva incorporação e agregação de territórios. assim como os variados corpos em que estava estruturada a sociedade. cada um deles titular de uma diversa gama de poderes. A malha administrativa da Coroa desenvolveu-se mais lentamente. em especial o de administração da justiça. onde sempre se enumerava. Nas palavras do jurista João Salgado de Araújo. y los vassallos miembros. assi la deue auer en el mixtico de la Republica. por conseguinte. as . as principais instituições actuantes sobre o terreno eram os senhorios – eclesiásticos e seculares – e os municípios. a comunidade local era o elemento que precedia as demais unidades políticas. Estamos. entre cabeça y miembros. por sua vez. do conceito de autoridade no Antigo Regime51. «el Rey. Os princípios fundamentais que regiam a coexistência no espaço do «reino» eram a partilha recíproca – entre o rei e o reino – de direitos e de deveres. como a cabeça de um conjunto de territórios. Tanto uns como os outros formavam comunidades tendencialmente completas. el cabeça. y como en el cuerpo phisico ay correspondência de amor. o qual lhes concedia uma margem de autonomia mais ou menos ampla. ordem essa que atribuía a cada uma das instituições locais um lugar preciso na escala de dignidade política. O rei surgia. No que respeita às divisões administrativas da Coroa. O quadro de referência da Coroa era o «reino». de resto. y el Reyno hazen un cuerpo mixtico.

a qual por essa altura se assumiu como a cabeça de um império pluricontinental. adicionando-os aos pré-existentes laços de natureza orgânica e de cariz particularista. Verificou-se que os sentimentos de ligação à comunidade local já não eram completamente compatíveis com a realidade cada vez mais extensa de entidades como a Coroa Portuguesa. falando-se em «bem comum do reino» e em direitos. podia-se também fazer parte de uma monarquia ou. sobretudo quando comparadas com os deveres para com a família. também ela senhora de vastos domínios.. Por fim. por último. porque predominava um sentimento de pertença eminentemente orgânico e particularista. depois. importa ter em conta que as obrigações inerentes à pertença ao «reino» estavam longe de possuir a força que caracteriza os actuais deveres de cidadania. No decurso das «reuniões dos três estados» eram invocados sentimentos de pertença a um corpo político a que se dava o nome de «reino». mas sim complementares. todos estes quadros de pertença estavam englobados naquele que era o elemento identitário por excelência: a inserção na Respublica Christiana. depois a uma aldeia. a uma vila ou a um bairro. de seguida. ou para com a entidade corporativa de que se fazia parte. mas também em obrigações inerentes à condição de parte integrante da comunidade reinícola54. reuniram-se as condições para a reconfiguração dos laços de associação política. Contudo. igualmente. Todavia. tanto na Europa como fora dela55. as obrigações associadas à condição de parte integrante do «reino» eram pouco consensuais e pouco mobilizadoras. bem se esforçaram por aprofundar o significado da pertença a unidades políticas mais vastas. a uma família.. O mesmo se poderia dizer da Coroa de Castela. Pertencia-se. João III e D. de uma solidariedade geral. para com a comunidade onde se residia. primeiro. a um reino.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. D.. No ambiente político do Antigo Regime a assembleia das Cortes era o momento em que estas várias partes que compunham a comunidade se reuniam com o rei. 171 quais não eram necessariamente contraditórias. a partir daí pertencia-se a uma cidade-província. até. de um império. No cenário político do Antigo Regime. Sebastião I em Portugal. avultava. e em que o «reino» se tornava momentaneamente visível enquanto enquadramento de pertença comum a todos os diversificados membros que o integravam. Carlos I e Filipe II nos domínios dos Habsburgo. era-se habitante de uma cidade. com a expansão das monarquias. A par destas pertenças. As várias casas reais procuraram forjar outro tipo de vinculações e de sentimentos de pertença. Faltava uma base para o surgimento de obrigações comuns. Quanto aos reis. que não favorecia o desenvolvimento espontâneo de deveres para com organizações políticas mais vastas e de natureza artificial. A ASSEMBLEIA DE CORTES. a inserção em corpos como o estado social ou o grupo sócio-profissional. Fizeram-no . no século XVI.

e os seus membros também fomentaram projectos de constituição de unidades políticas de carácter mais vasto. D. Todavia. Nos derradeiros anos de Quatrocentos. no início. A orgânica das Cortes Qual foi o papel desempenhado pelas assembleias de Cortes nesse período em que os líderes políticos do ocidente Europeu apelaram aos seus vassalos. mas também o «bem comum do reino»? Convém lembrar que as Cortes começam por ser uma forma alargada de conselho régio. nessa ocasião um segmento da sociedade portuguesa não escondeu o seu temor perante as consequências que poderiam advir da entrada do reino lusitano para uma unidade política tão vasta57. para que tivessem em conta não só o seu «bem particular». congregando. Curiosamente. Aliás. Em Castela. Em Portugal. Miguel da Paz são reveladoras da hipótese de entrada de Portugal para uma união com Castela e Aragão.172 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS desenvolvendo uma pujante acção mecenática. incrementando o seu dispositivo administrativo. as movimentações em torno do príncipe D. Fizeram-no. numerosos foram os castelhanos que manifestaram reservas face aos propósitos imperiais de Carlos I e de Filipe II56. os nobres foram o único dos «três estados» a comparecer na . Manuel levou muito a sério a hipótese de liderar um projecto de união com Castela e Aragão sob a égide da Coroa portuguesa. onde as obrigações inerentes à pertença a esses espaços políticos surgiam cada vez mais associadas às causas comuns da Cristandade. e durante muito tempo essa assembleia foi dominada pela nobreza. também. Assim. apenas as figuras mais proeminentes do reino. Em Portugal. cumpre referir que. na primeira fase do seu percurso histórico as Cortes funcionaram sobretudo como o espaço de articulação entre a Coroa e a elite nobiliárquica. o projecto de conversão da Coroa lusitana na cabeça de um grande império também não se revelou consensual e. Cumpre não esquecer que a família real de Portugal – a Casa de Avis – acalentou planos dinásticos. Como se sabe. como é sabido. a fim de conferir mais homogeneidade à acção da Coroa. os sentimentos particularistas de que atrás falámos revelaram-se muito resistentes. e vários territórios resistiram a esta dinâmica. muitos questionaram as grandiloquentes visões régias de conversão do Reino lusitano na cabeça de um potentado pluricontinental. secular e eclesiástica. de forma cada vez mais insistente. a primeira assembleia que contou com a presença de procuradores das cidades parece ter sido a que se realizou em 1254. os representantes das cidades começaram a ser chamados às Cortes a partir de meados do século XIII. em certos momentos. Seja como for.

Não devemos esquecer que. Nesses pedidos gerais a visão particularista surgia. e os «capítulos gerais». mas sim para repor a ordem depois de rompida a natural disposição das coisas. Porém. . a assembleia instava os vassalos a apresentar problemas. sem dúvida. nesse período. apenas. Paralelamente. designadamente os emergentes conselhos palatinos e alguns sectores da cada vez mais desenvolvida administração da Coroa. Nas Cortes deparamos. pelos membros dos grupos privilegiados. mas sobretudo como uma espécie de instância judicial. 173 reunião. A ASSEMBLEIA DE CORTES. de resto. a assembleia representativa foi-se tornando mais importante para as corporações urbanas. e que só mais tarde esta assembleia abriu as suas portas ao chamado «terceiro estado». intervir. tendo como principal finalidade a manutenção dos equilíbrios pré-existentes.. e ao contrário do que sucedia com o clero e com a nobreza. Esses pedidos eram formulados em dois principais tipos de documentos: os «capítulos particulares». Enquanto órgão dotado de uma matriz judicial. mas também jurídica.. faziam eco dos problemas «particulares» de cada comunidade local. sobretudo enquanto espaço de comunicação política com o rei. as Cortes foram-se tornando menos relevantes para o grupo nobiliárquico. portanto.. com uma prática de governo (e uma correlativa teoria) que tendia a conceber o poder antes de mais como instrumento para a conservação da ordem. actuando o rei a pedido dos vassalos. também as Cortes actuavam segundo uma matriz jurisdicionalista. produzidos pelos «três estados» na fase inicial de cada assembleia. por isso mesmo. a missão primordial do poder político consistia em reconhecer a ordem e garantir um equilíbrio inscrito na natureza das coisas. no processo governativo. as Cortes actuavam segundo uma técnica que estava pensada não tanto para evitar que a desordem se registasse. Assim.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. uma vez reunidas as Cortes. e que incluíam questões de alcance mais geral. os quais. desenvolveu outros canais para estabelecer a sua interacção com a Coroa. E à semelhança do que se passava com todos os órgãos administrativos da época. assim. desde reivindicações corporativas até advertências acerca de temas da actualidade do reino. todos os presentes assumiam a posição de autoridades imparciais chamadas a verificar a admissibilidade jurídica de pretensões e de contra-pretensões. como o seu próprio nome indica. como um tribunal. Por outras palavras. em vez de exercer uma jurisdição eminentemente voluntária. mais esbatida. natural. Assim. o qual. fundamentalmente. podendo. com o desenvolvimento dos vários órgãos da administração da Coroa e com a afirmação da corte régia como palco principal da política58. os representantes do reino pensavam-se a si mesmos não só como conselheiros. uma modalidade alargada de conselho régio. Nessa fase as Cortes eram. que as Cortes começaram por ser compostas. É fundamental não esquecer.

por excelência. em princípio. desde a segunda metade do século XIV os únicos nobres e clérigos que participavam na reunião eram aqueles que desempenhavam algum cargo na corte régia ou que. Todavia. por exemplo. no espaço da Monarquia Hispânica. Seja como for. o costume mandava que o rei deveria permanecer na localidade onde decorriam as Cortes até ao final dos trabalhos. A prerrogativa de convocar os «três estados» era vista como uma marca de soberania. já nessa altura. pois.174 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS De acordo com o costume. a fim de renovar o compromisso entre a Coroa e o reino. entre o rei e os seus vassalos. foram deixando de comparecer nas reuniões de Cortes. Assim. pelo contrário. enquanto que em Portugal este princípio foi sempre respeitado. e era precisamente essa proximidade física face ao monarca que fazia com que a assembleia fosse tão valorizada pela sensibilidade coetânea. deparamos com alguns territórios cujas assembleias representativas foram frequentemente convocadas pelos representantes locais do monarca: nas possessões hispânicas de Itália60. e o mesmo se terá passado em juntas de cidades da América Espanhola61. enquanto que. De qualquer modo. É certo que o encontro físico entre o monarca e os «estados» do reino só tinha lugar na sessão de abertura solene e nas cerimónias de juramento que eventualmente tivessem lugar. reino onde o clero e a aristocracia. durante os séculos XVI e XVII. e como notou I. aos poucos. só o rei em pessoa podia chamar e presidir às Cortes. A. sobretudo em Castela. A. por . o que fazia com que. os vice-reis presidiam a Cortes napolitanas e sicilianas. a partir de meados do século XIV o perfil dos órgãos representativos sofreu uma importante mudança. estava em curso um processo de gradual afastamento dos magnates da nobreza em relação às Cortes. Trata-se de uma indefinição que remonta ao período medieval. as Cortes eram encaradas como o encontro. assim como resolver problemas governativos que estivessem pendentes. Thompson63. não fosse delegável59. Como sugerimos atrás. Esta indefinição marcará todo o percurso histórico da assembleia62. para outros. A finalidade era «tornar presente» o reino ao rei. a consulta das Cortes era como que um acto de «graça». No fundo. Todavia. importa referir que a situação constitucional das Cortes não era completamente clara. Vários chegavam mesmo a alegar que o parecer do conselho régio podia substituir o diálogo com as Cortes. para alguns o rei tinha a obrigação de chamar a assembleia representativa antes de tomar qualquer decisão governativa de maior importância. Os únicos que continuaram a marcar presença foram os representantes das cidades. dependente do arbítrio régio. fruto da situação atrás mencionada: a aristocracia encontrara outros canais de influência e de articulação com a Coroa.

. na reunião celebrada em Leiria. podemos afirmar que as Cortes de Portugal mantêm o seu perfil de assembleia com «três braços». etc. enquanto que o clero marcou presença em 24 reuniões. os representantes dos núcleos urbanos costumavam ser os mais entusiastas na afluência às Cortes. Os trabalhos de Armindo de Sousa sugerem que. Por isso. controlo administrativo). a nobreza compareceu em apenas 23 das 44 reuniões realizadas entre 1385 e 1490. 175 acaso. no período tardo-medieval. em Portugal. ou seja. embora o distanciamento da nobreza e do clero seja menos pronunciado. uma instituição dotada de uma só câmara. Trata-se de uma solução que tinha em vista agilizar os processos de decisão. No tocante a Portugal. entre as cidades registaram-se conflitos de precedência relacionados com o lugar em que participavam na «assembleia dos três estados». No que respeita ao afastamento dos grupos privilegiados. aquela que reunia os representantes das cidades.. A ASSEMBLEIA DE CORTES. ao mesmo tempo que interveio na política local. facto que aponta no mesmo sentido da valorização da importância da assembleia. em 1480 as Cortes de Castela eram já. e em 1477 surgiram as chamadas «comissões de definidores». Além disso. a gestão das clientelas locais. as Cortes evoluíram no mesmo sentido dos demais reinos ibéricos. De acordo com A. um valor muito superior ao que se registou no século posterior. grupos restritos de procuradores constituídos por iniciativa dos oficiais régios e que ficariam incumbidos de assegurar o andamento dos trabalhos. Um outro indicador a ter em conta é o elevado ritmo das suas convocatórias: na centúria de Quatrocentos realizaram-se mais de quatro dezenas de reuniões67. no quadro da resposta às petições. Assim.. ou seja. sobretudo em áreas como a fiscalidade (cobrança. sendo sistematicamente chamadas para intervir em certas áreas fulcrais do governo do reino como o juramento do rei ou a fiscalidade régia66. embora se registe um certo desinteresse dos grupos nobiliárquicos. . pode dizer-se que. Sousa. Acresce que as Cortes portuguesas continuaram a decidir sobre matérias de “alta política”. a assembleia representativa desenvolveu uma considerável actividade de produção normativa. foi em 1254 que os procuradores das cidades e vilas participaram pela primeira vez nas Cortes. Quanto ao «estado do povo». oficiosamente. as Cortes portuguesas de finais da Idade Média terão contado com a participação regular de representantes de cerca de oito dezenas de cidades e vilas65. se encontravam nas proximidades do local onde se realizava a reunião.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. altura em que as convocatórias se tornaram muito menos numerosas. também em terras lusitanas. Para além disso. A partir da assembleia de 1331 os diversos «estados» passaram a reunir separadamente64. o recrutamento militar.

Tanto os nobres como os clérigos. Thompson. a assembleia tornou-se no principal pólo de oposição aos novos impostos que a Coroa desejava introduzir. em 1538 Carlos V tomou uma decisão marcante: exortou a nobreza e o clero a comparecer nas Cortes. e terá sido esse o motivo que levou o imperador a ordenar a sua dissolução. I. a representação possuía. ao longo da sua história. Como assinalámos. esses dignitários par- . as Cortes activaram. e também as cidades. formas razoavelmente diversas de representação política70. A dissolução das Cortes. como dissemos. estava a cair em desuso naquele reino. marcou o fim da convocatória dos nobres e do «estado eclesiástico» para a assembleia castelhana. A. mas também como uma opção da aristocracia e do clero. A. os quais. O imperador desejava que esses grupos sociais tomassem parte. as Cortes de Castela converteram-se numa assembleia de procuradores de cidades e vilas. no período medieval. vinham-se desinteressando das Cortes desde meados do século XV. A. As formas de representação política nas Cortes Enquanto órgão representativo. em vez de apoiar os projectos de Carlos V. razão pela qual a sua função consultiva diminuiu consideravelmente. Aliás. em 1539. encontraram canais alternativos para exercer a sua influência política e para defender os seus interesses económicos. facto que deve ser visto não só como uma forma de a Coroa evitar uma oposição mais concertada entre os «três braços». a nobreza. A. cumpre assinalar que essa foi uma das raras ocasiões em que os «três braços» actuaram de forma concertada contra a fiscalidade régia. e ao fazê-lo estava de algum modo a reeditar um modelo de reunião que. por Carlos V. Até ao último chamamento das Cortes de Castela durante o século XVII (registado em 1664). Uma coisa é certa: a não comparência da nobreza retirou alguma força às Cortes de Castela. o mesmo se podendo dizer da sua capacidade de intervenção em questões da alta política69. sobretudo. e como notou I. E com o abandono da aristocracia. à data. Todavia. Como dissemos.176 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS No que concerne a Castela. de facto. Thompson71 e José Ignacio Fortea Pérez72 assinalaram que. a resposta da aristocracia castelhana ao apelo do Imperador foi muito expressiva: 80% dos titulares e do alto clero responderam à chamada. na assembleia. um carácter senhorial. participavam na reunião enquanto entidades que administravam territórios habitados por uma população mais ou menos significativa. a 1 de Fevereiro de 153968. mas também o clero. essa assembleia jamais contaria com o «braço da nobreza» formalmente reunido. Em 1538. Assim. para a nobreza as Cortes tinham-se tornado pouco relevantes.

também. para além disso. razão pela qual. No caso da assembleia de Castela-Leão. chegou a integrar mais de uma centena de urbes. mas sim como um direito que lhes assistia. não podiam falar pelo conjunto do «estado da nobreza». 177 ticipavam nas Cortes não só como membros do «estado eclesiástico» ou do «estado da nobreza». fazia com que os seus processos decisórios fossem algo diversos daqueles que vigoravam no «terceiro estado».. os membros do «estado da nobreza» não eram eleitos nem recebiam qualquer procuração. apesar da resistência de alguns procuradores.. A ASSEMBLEIA DE CORTES. representavam a nobreza enquanto corpo. entre outras coisas. no «terceiro estado». No entanto. e he cousa que não padeseo numqua de comtrouersia». pequenos lugarejos. comparecendo um total de dezoito cidades. A nobreza e o clero. que o entendimento atomista de representação prevaleceu até ao final do Antigo Regime: em questões de política global do reino.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. vimos atrás que. ou seja. após 1539. como figuras que detinham uma margem de autoridade administrativa sobre parcelas significativas do território e sobre conjuntos populacionais nada desprezíveis73. até. a propósito deste tema. Além disso. António M. se recusavam a acatar a decisão maioritária77. respondendo a alguns procuradores que. esse princípio parece implantar-se: «o que se assenta e vence pela maior parte se assina e segue pela menor. com regularidade. não era claro se os nobres. as quais assumiram a tarefa de representação do conjunto da Coroa de Castela. escreve D. No que respeita ao «terceiro estado». a questão jamais reuniu consenso. tanto cidades de grandes dimensões como vilas e. e ao longo de toda a existência das Cortes discutiu-se até que ponto os juramentos ou os votos nas assembleias obrigavam aqueles que não estavam presentes75. João IV em Fevereiro de 1646. Seja como for. tendo perdido uma votação sobre questões fiscais. as instituições urbanas passaram a ser o único «braço» chamado às Cortes de Castela. Enquanto que no «estado da nobreza» e do clero o princípio da maioria suscitou algumas reservas. . só a partir de finais do século XIII é que as comunidades urbanas começaram a ser chamadas. se o voto da maioria dos membros do «estado da nobreza» obrigava aqueles que tinham decidido noutro sentido76. o que.. em princípio. mas também como senhores de terras. quando compareciam nas Cortes. O caminho percorrido até se chegar a essa situação tinha sido longo. e em seu nome concordava ou não com o que lhe era pedido74. em questões como pedidos ou «serviços». parece que as Cortes se assumiam como uma assembleia que representava o conjunto do reino. Como dissemos. costumavam vincar que participavam nas Cortes não tanto por obrigação para com o rei. Hespanha notou. às Cortes. permaneceu a ideia de que cada participante se representava a si mesmo. Discutiu-se. De facto.

Córdova.178 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS com o passar do tempo o número de municípios representados nas Cortes de Castela foi claramente diminuindo: das 101 cidades presentes em 1315 passou-se para 17 em 1435. tendo sido esse o factor que ditou a fraca participação. nas juntas específicas completamente independentes das Cortes de Castela). José Ignacio Fortea Pérez79 notou que mais de metade dessas cidades se concentravam no interior de Castela: nove em torno da bacia do rio Douro (Burgos. assim como os territórios das Ordens Militares. como o Alentejo. entre os quais avultavam as províncias bascas (que contavam com a sua própria estrutura representativa. Por outro lado. o factor que motivava a participação das cidades nas Cortes era a forte tradição de governo participativo que existia em toda . León. Castela-a-Velha e Castela-la-Mancha eram. À semelhança do que sucede nas demais Cortes ibéricas. Sória). Quanto ao reino da Galiza. coube a dezoito cidades falar em nome do conjunto da Coroa de Castela. Fortea Pérez. Valhadolide. Ávila. quatro em terras de La Mancha (Madrid. tal como os nobres. dependia de Zamora. I. encararam a assembleia como uma instituição pouco relevante para a protecção dos seus direitos78. Refira-se que. A região mais densamente povoada do reino – Entre-Doutro e Minho – estava sub-representada. Toledo. a força do regime senhorial a norte do Mondego explica esta disparidade. Para Luís Miguel Duarte. dos concelhos das regiões situadas a norte do rio Mondego81. Para além destas regiões. e uma no reino de Múrcia (Múrcia). A distribuição geográfica das urbes com voto em Cortes é também reveladora de que a representação política activada nessas reuniões não reflectia um critério de proporcionalidade geográfica ou demográfica. Desse modo. contavam com um grande número de assentos em Cortes. a opção por não comparecer foi tomada pelas próprias localidades. nas Cortes. então conhecia por «La Montaña». Sevilha e Granada). De um modo geral. vastos territórios ficavam privados de representação nas Cortes. pois. quatro no reino andaluz (Jaén. Salamanca. o norte peninsular carecia também de representação na assembleia castelhana. há também a registar a presença de um número considerável de procuradores enviados por cidades e vilas situadas na proximidade da fronteira. em Portugal a procedência geográfica dos procuradores também não obedece a nenhum critério de proporcionalidade aritmética. as quais. Desse modo. e como assinala o mesmo J. enquanto que Salamanca falava por toda a Extremadura80. Segóvia. Cuenca e Guadalajara). de um modo geral. enquanto que regiões muito menos povoadas. as áreas melhor representadas nas Cortes de Castela-Leão. situação compensada pelo facto de o município de Burgos representar oficiosamente a zona Cantábrica. Leão. Zamora. a cidade de León desempenhava idêntico papel para o Principado de Astúrias. Toro.

pois. e a situação de auto-governo em que viveram. Acresce que as concepções políticas predominantes no mundo ibérico apontavam muito mais para um exercício do poder partilhado. no fundo. uma série de autores lembrava insistentemente que o povo – e não o rei – era o depositário do poder originário de Deus85. Desde tempos ancestrais os municípios vinham desenvolvendo formas colegiais de decisão. também desempenhou o seu papel na persistência dessa tradição participativa. Era. com toda a sua exaltação do governo republicano. desprovido de competências decisórias de maior alcance. como por exemplo no movimento das Comunidades de Castela83. é possível escutar ecos deste ideário em alguns momentos da história ibérica do século XVI. É muito significativo que os escritos de teoria política em circulação a partir desse período retratem as Cortes como um mero fórum de debate. por seu turno. e em muitos momentos as Cortes assumiram-se como um dos principais momentos de defesa desses privilégios ante as investidas da Coroa. E ao mesmo tempo que se desenvolvia esta tradição de governo participado. é interessante verificar que o facto de a cultura política ibérica ser intrinsecamente regalista não foi necessariamente incompatível com o reconhecimento de que as Cortes tinham um determinado lugar na relação entre o rei e os seus vassalos. No entanto. Formavam-se. lembrava que a pessoa régia não estava sozinha na decisão sobre questões governativas. 179 a Península Ibérica.. Segundo Xavier Gil Pujol.. dos valores cívicos e do individualismo. Para além disso.. Quanto aos monarcas. facto que também terá contribuído para consolidar a presença das cidades nas Cortes. persistindo uma forte tradição discursiva que insistia na importância incontornável do consensus populi. desse modo. . A influência de Itália e do chamado «humanismo cívico». De facto. verdadeiras «comunidades de privilégios» (T.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. empenhados no processo de consolidação das bases do seu poderio. após a derrota dos comuneros a linha doutrinal de sentido regalista ganhou novo alento. e o ideário «republicano» teve menos espaço para se desenvolver84. Herzog82). ainda mais contribuiu para enraizar tais processos de decisão. do que para modalidades decisórias mais individualistas. Todavia. manifestaram uma menor disposição para convocar um órgão que. as autoridades municipais reforçavam a sua identidade e constituíam-se como pequenas repúblicas locais. o exercício da autoridade régia era visto como parte de um sistema de poderes e de contra-poderes que se equilibravam. no quadro deste imaginário político que a Coroa concedia a certas cidades a «honra» de tomar parte nas assembleias. A ASSEMBLEIA DE CORTES. durante séculos. doutrina acolhida nas obras dos principais teólogos e juristas daqueles anos86. garantindo à população que estava sob a sua égide toda uma série de liberdades e imunidades.

e ao contrário do que seria de supor. assim como a sua ancestral autonomia decisória87. altura em que se acentuou a faceta das Cortes como verdadeiros bastiões dos foros reinícolas e como pólos de obstrução à política régia. facto que favoreceu o discurso que via nas Cortes a única sede com legitimidade para aprovar novos tributos. a partir de meados de Quinhentos. viram na assembleia representativa um bom palco para zelarem pelos seus direitos e pelas suas liberdades face ao crescente voluntarismo régio. Na realidade. de medidas impopulares – como os novos impostos – poderia contribuir para tornar mais aceitáveis esses sacrifícios. os diversos reis aperceberam-se de que as Cortes poderiam desempenhar um papel importante enquanto espaço de inculcação de sentimentos de pertença ao «reino». desta feita como uma espécie de símbolo dos foros de cada uma das partes desse conjunto político compósito. também. recorreram a alguns elementos do ideário republicano para potenciarem a defesa dos foros reinícolas e para amplificarem os seus protestos sempre que consideravam que tais foros estavam a ser postos em causa pelo centro político. a afirmação do projecto político da Coroa não teve como consequência imediata o desaparecimento das Cortes. Nas diversas partes dos domínios dos Habsburgo os apelos régios para que se aumentasse o contributo fiscal tiveram o condão de fomentar o desenvolvimento de um discurso que vincava a natureza auto-governada das várias partes da Monarquia. sicilianas e. e uma parte significativa dessa comunicação acabou por ter como palco a assembleia representativa. política essa que cada vez mais exigia o contributo de todos para o esforço conjunto da Monarquia. Quanto aos vários grupos sociais. de que a aprovação.180 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Assim. . O facto de reinos como Aragão. perante a afirmação da Coroa de Castela no conjunto da Monarquia. Nápoles ou Sicília integrarem os domínios dos Habsburgo também contribuiu para vincar o papel político das Cortes. essa comunidade política alargada que comportava uma nova gama de obrigações e de sacrifícios. Na verdade. mais tarde. O aumento das solicitações dos Habsburgo incidiu sobretudo no terreno fiscal. Pode então dizer-se que a pertença à Monarquia Hispânica também contribuiu para que as Cortes assumissem um maior protagonismo. napolitanas. em Cortes. Foi assim que. as elites aragonesas. Esta tendência manteve-se no século XVII. Aperceberam-se. bem pelo contrário: o maior voluntarismo da Coroa traduziu-se na intensificação da comunicação política entre o rei e o reino. as assembleias representativas voltaram a desempenhar um papel mais interventivo na política. portuguesas.

no contexto castelhano. até porque a escolha do procurador era um processo que costumava extremar posições entre «parcialidades» locais ou «bandos» rivais. Acerca do reino de Castela. ser avalizada pelo juiz de fora. ou seja. Além disso. os municípios começaram por contar com apenas um representante. Importa referir que as eleições nem sempre eram pacíficas. Formas de selecção e poderes O número de procuradores enviado por cada cidade variou ao longo da existência histórica das Cortes. No início.. o eleito deveria ser escolhido entre a «gente da governança» e de forma pública. Em Castela. com o conhecimento de todos os residentes. até ao final de Seiscentos as Cortes lusas contaram com a participação de representantes de cerca de uma centena de cidades e vilas. e conter a afirmação de que o procurador fora investido de «poderes bastantes» para decidir sobre a matéria que motivara a convocatória das Cortes. para além de um certo património. Quanto ao reino português. o mesmo sucedendo em Portugal. Fortea Pérez afirma que a interferência régia nos processos de selecção dos representantes terá sido relativamente frequente até ao final século XV. a documentação de que dispomos sugere que os oficiais régios procuravam garantir que os representantes das principais cidades seriam coniventes com os projectos régios. No que respeita aos processos de escolha dos procuradores. passando depois para dois procuradores por cidade.. e a Coroa limitava-se a fazer recomendações gerais. 181 Os procuradores. o escolhido deveria possuir o perfil moral adequado ao desempenho de um ofício.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. observando o que estava disposto nas Ordenações e abrangendo apenas os residentes na localidade que iria enviar os procuradores. O mesmo estudioso sustenta que as disputas em torno da selecção dos representantes aumentaram no século XVII. devendo incluir o nome daqueles que haviam participado na escolha do representante. o primeiro dado a assinalar é o facto de não existir uma normativa geral que definisse o modo de proceder na sua selecção. A ASSEMBLEIA DE CORTES. impondo algumas regras também elas bastante vagas: as eleições deveriam ser realizadas da forma costumeira. o que pode estar ligado a um crescente interesse das oligarquias castelhanas em estarem presentes nas . Cada cidade tinha os seus costumes electivos. a procuração tinha de obedecer a certos requisitos formais. existia uma norma que impedia que um mesmo regidor exercesse a função representativa em duas Cortes seguidas89. é a partir do século XV que se regista a tendência para a generalização da regra de dois representantes por urbe88. De facto. reino onde a assembleia representativa continuou a ter uma afluência bastante numerosa de procuradores. apesar de sabermos muito pouco acerca da interferência da Coroa portuguesa na escolha dos procuradores. tendo retrocedido a partir dessa data..

Filipe I. enquanto que as demais cidades e vilas com assento em Cortes tinham representantes de muito menor qualidade de nascimento. uma vez nas Cortes. a matéria nem sempre se revelou pacífica. ficando-se. mas também porque acabou por não garantir à Coroa a docilidade da assembleia representativa. Quanto ao limite decisório dos procuradores. Nas Cortes portuguesas. depois da entrada de Portugal para a Monarquia Hispânica. Desejoso de partir para Castela quanto antes. e tendo em vista superar a representação atomista de que atrás falámos. apenas. Contudo. Todavia. e as autoridades urbanas mostraram-se sempre relutantes em conceder aos seus representantes o «voto decisório». a questão do controlo que as cidades exerciam sobre os seus procuradores suscitou bastantes discussões. designadamente através da venda da procuração90. no mesmo sentido. de um modo geral. Coimbra e Évora – também costumavam contar com uma representação bastante selecta em termos de estatuto social. encarando-os como figuras que. as cidades «dos primeiros bancos» – com destaque para Lisboa. desse modo. designadamente através de uma restrição explícita dos poderes dos procuradores. Esta disparidade repercutia-se no desenrolar das sessões. mas também como fonte de rendimento. «poderes bastantes para jurar o príncipe».182 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Cortes. o direito a participar na assembleia representativa podia ser rentabilizado. tal proposta levantou problemas não só no terreno das relações com as cidades. Em Castela. pois as principais cidades eram frequentemente olhadas com desconfiança por parte das demais. que os procuradores votassem não propriamente por cidades. em parte para defender os direitos da cidade que os enviara. pelo «voto consultivo». Em finais de Quinhentos. Por outro lado. passavam a estar mais ao serviço da Coroa do que da cidade que os enviara. Porto. reduzir a reunião a esse assunto . os Habsburgo tentaram limitar o âmbito de intervenção das Cortes. Tentou-se impor. e a título de exemplo. mas sim individualmente. o que significa que uma parte do chamado «terceiro estado» era muito pouco “popular”. especificou que os procuradores deveriam trazer. Assim. convém recordar que. o monarca procurava. na carta de convocatória para as Cortes de 1583. a Coroa tentou transferir do voto decisivo para as Cortes. medida que se inscrevia num esforço mais vasto de reestruturação da administração fiscal. Com efeito. Talvez resida aí uma parte da explicação para o facto de algumas cidades manifestarem pouca confiança nos seus representantes. é preciso ter em conta que a governança das principais cidades era frequentemente composta por aristocratas e por membros da nobreza de corte. D. proposta que também enfrentou forte resistência91. trata-se de uma questão que jamais foi debatia com o calor que caracterizou a polémica castelhana92.

de discutir uma matéria da mais alta transcendência política: a entrada de Portugal para uma união dinástica com Castela e Aragão. para além dos procuradores do concelho. Das negociações que tiveram como palco essa reunião resultaram os «Artigos de Lisboa de 1499».. deparamos com longos intervalos entre as convocatórias de Cortes. outro momento importante foi a assembleia que se celebrou na cidade de Lisboa. que é muito significativo que o aragonês Fadrique Furió Ceriol.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. autor de um dos mais importantes tratados sobre o governo e os conselheiros (El Concejo i consejeros del Príncipe…. sobre matérias especificamente relacionadas com o quotidiano das corporações mecânicas. os quais também podiam apresentar petições ao rei. caber cada vez mais ao Conselho de Aragão o principal papel representativo e de defesa dos foros reinícolas94. ou «Capítulos de el rey Dom . No que concerne às Cortes de Portugal. Por último. naquela altura. por exemplo. e o mesmo estudioso nota. corria o ano de 1499. Tal silêncio é provavelmente o resultado do número diminuto de reuniões então realizadas. mas também do facto de. fenómeno que se deveu. 1599) praticamente não se refira às Cortes. habitualmente. e nelas é possível encontrar. antes mais. Em quase todas as petições mesteirais advinha-se um ambiente tenso entre as corporações artesanais e a chamada «gente da governança». uma referência aos chamados «Procuradores dos Mesteres». com grande frequência. aos «três estados». Em Aragão e na Catalunha. Tais petições versavam. pelo facto de as principais decisões locais serem tomadas pela Câmara sem que eles tenham sido consultados93. As reuniões das Cortes de Portugal no século XVI Apesar do ritmo de convocatórias ter baixado. A ASSEMBLEIA DE CORTES. Antuérpia. e no tempo de Filipe II registaram-se 11 reuniões. Nessa ocasião foi dada a oportunidade. os chamados «procuradores dos mesteres». pelo contrário.. Segundo Xavier Gil Pujol. Algumas cidades com maior tradição mesteiral tinham o direito de enviar às reuniões de Cortes. para além da decisiva reunião de 148295. 183 e evitar debates sobre outras matérias. A decisão foi mal acolhida. durante o século XVI as Cortes continuaram a reunir com uma certa assiduidade: em Castela. celebraram-se 15 assembleias. ao facto de o monarca estar cada vez mais tempo ausente desses reinos. tendo em vista converter as Cortes numa assembleia muito mais ágil e rápida. no reinado de Carlos I. a expressão do protesto dos mesteres. e vários foram os núcleos urbanos que manifestaram o seu descontentamento por essa «novidade». esses hiatos contribuíram para o enfraquecimento do potencial político das assembleias representativas. com toda a pertinência..

os séculos XVI e XVII legaram-nos vasta documentação que atesta a preocupação dos coetâneos em definir.Cortes de Lisboa 1580 . a um gradual incremento do número de petições – «gerais» e «particulares» – enviadas pelas autoridades urbanas.Cortes de Torres Novas 1535 . uma quebra em relação ao ritmo anteriormente registado. uma série de garantias acertadas com os «estados» antes do juramento do príncipe D.Cortes de Almeirim 1581 . Um último indicador da importância desta reunião tem a ver com o facto de ela se realizar. o que aponta para a já referida maior intensidade da comunicação política entre centro e periferias. a dimensão da cida- . Na verdade. o que representou. Reuniões das Cortes de Portugal no século XVI 1502 . com minúcia. o qual já era herdeiro jurado das Coroas de Aragão e Castela96. do papel que cabia aos «três estados» na decisão sobre matérias que tinham a ver com a sucessão na Coroa e com o «bem comum do reino». No século XVI as Cortes de Portugal reuniram 9 vezes. assistiu-se.184 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Manuel». Tal evento representou o reconhecimento. pelos «três estados». Tal opção era motivada por vários factores: antes de mais. com maior frequência. Miguel.Cortes de Lisboa Um dos dados que ressalta da trajectória das Cortes de Portugal. Outro indicador da importância das Cortes é toda a atenção concedida ao seu cerimonial.Cortes de Évora 1544 . ter voltado a estar muito associado à assembleia representativa97. em Lisboa.Cortes de Lisboa 1579 . no século XVI.Cortes de Lisboa 1525 . Além disso. é o facto de o juramento do príncipe herdeiro. a partir desta altura qualquer alteração ao cerimonial tendeu a ser encarada como um agravo e como uma ofensa aos direitos de cada um dos participantes no evento. já que no período de Quatrocentos tinham-se realizado mais de quatro dezenas de reuniões.Cortes de Tomar 1583 . também.Cortes de Almeirim 1562 . em termos quantitativos. o cerimonial mais correcto para as diversas solenidades ocorridas no decurso das Cortes98. da parte dos círculos régios. Na mesma linha.

só podendo ser revogadas em nova reunião da assembleia. em 1502 D. consultivas e decisórias que antes cabiam às Cortes. antes de lançar novos impostos. gesto inédito até essa data. As petições entregues nesta assembleia. e também para custear a vinda da rainha D. O mesmo cronista recorda-nos que só treze anos mais tarde se deu resposta aos muitos pedidos apresentados nessa assembleia. corria o ano de 1535. João III não voltaria a convocar os representantes dos «três estados». Assim. Castilho assevera que D. D. Finalmente. o dispositivo governativo da Coroa foi adquirindo uma maior institucionalização. . devido aos gastos crescentes da sua casa. 185 de. Manuel I não voltaria a chamar a assembleia representativa. Manuel I reuniu as Cortes.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. para o Verão de 1525. acabando por desempenhar muitas das funções representativas. que a habilitava a receber o grande número de pessoas que participava na reunião. pelo reino. como «cabeça do reino» – o seu procurador falava em nome dos «três estados» na abertura solene das Cortes. tendo uma vez mais em vista solicitar apoio financeiro ao reino. João III relata que o rei decidiu chamar os «três estados».. João III. nos seus Anais de D. inclusive depois da realização das outras Cortes que o mesmo rei convocou para Évora. e que voltaria a ser repetido em algumas reuniões subsequentes102. Até ao final do seu reinado D. uma vez mais motivadas pelas necessidades financeiras da Coroa. em Lisboa (nos Paços do Castelo). à Coroa. A ASSEMBLEIA DE CORTES. as Cortes de Torres Novas (1525) reuniram fundamentalmente para tratar de um serviço fiscal a conceder. É também por esta altura que se começa a difundir a ideia de que as leis resultantes de debates realizados nas Cortes tinham uma força especial. e não o contrário. em 1544. João como herdeiro da Coroa de Portugal.. As Cortes voltariam a ser chamadas anos mais tarde. aproveitando a ocasião para negociar mais um serviço fiscal99.. a opção por realizar as Cortes em Lisboa era a forma de o rei demonstrar aos «três estados» que era o reino que ia ter com a Coroa. Paralelamente. foram impressas. Depois desta reunião. teve sempre o cuidado de fazer «pesar» os tributos pelas Cortes100. Quanto ao monarca que se seguiu – D. Depois. João III –. especificamente para o juramento do príncipe D. e o costume mandava que os procuradores lisboetas presidissem às sessões do «terceiro estado». o cronista António de Castilho lembra que por três vezes convocou os «três estados». mas não menos importante. assim como as leis delas resultantes. Catarina de Áustria101. De facto. o facto de Lisboa se assumir cada vez mais. esse papel foi sendo desempenhado pelo cada vez mais desenvolvido sistema judicial. E no que respeita ao controle da actuação governativa do monarca e à protecção dos direitos dos vassalos face a decisões da Coroa. Frei Luís de Sousa.

de algum modo a representar o conjunto dos poderes urbanos do reino. Depois de longos debates acerca do modo de transmissão do poder. a 11 de Junho de 1557. declararam que só concederiam um novo serviço fiscal depois de o rei ter respondido às suas petições. incluindo recomendações sobre temas como o governo geral do reino. as Cortes voltavam a ter uma intervenção na mais alta política: a entrega da regência do reino ao Cardeal D. para além de terem estabelecido uma série de condições que deveriam ser observadas pelo novo governante do reino105. e que tal reunião se celebraria no dia seguinte. discutiram mais um serviço de 100 mil cruzados à Coroa. a cerimónia que formalizava a constituição da regência. a rainha D. Ao tomarem essa decisão. D. Todavia. a reunião na câmara foi mais agitada do que se previa. Henrique. assumiu as rédeas do governo a 20 de Janeiro de 1568. Sebastião I. Quanto a D. Catarina enquanto D. Nesta assembleia foi produzido um significativo conjunto de «capítulos gerais». etc. Além disso. Sebastião não atingisse a maioridade. e alguns dos que nela participaram manifestaram a sua oposição a D. Instados a dar a sua opinião. Ao cabo de uma longa discussão. que tinham de reunir o Senado para saber qual seria a vontade do povo. e nessa mesma tarde celebrou-se. algo de . a reforma dos principais tribunais. foram também entregues numerosos «capítulos particulares». A rainha D. os casamentos da família régia. Catarina voltou a reunir as Cortes em 1562104. e nessa ocasião o secretário de estado Pedro de Alcáçova Carneiro terá afirmado que o rei. empenhados em obter a resposta régia a esses pedidos. Nessa reunião estavam também presentes os vereadores da câmara de Lisboa. porém. antes de falecer. alegando a sua naturalidade castelhana. o modo de organizar a administração central e a casa real. Catarina. também eles votaram a favor da entrega do governo a D. acrescentando. Catarina manobrou para que as Cortes não reunissem para a aclamação do jovem D. Não tivesse este reinado conhecido o desfecho trágico que todos conhecemos. Para além disso.186 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Aquando da morte de D. durante as quais anunciou a sua disposição de renunciar ao governo. Evitava-se. João III. a pretensão da rainha acabou por ser aceite. devido à sua crescente marginalização da alta política. no Paço da Ribeira. tinha manifestado a intenção de que o governo fosse confiado a D. os representantes do «terceiro estado» procuravam evitar algo que até aí vinha acontecendo de uma forma mais ou menos sistemática – o atraso da Coroa na resposta aos pedidos entregues nas Cortes106. e talvez as Cortes de Portugal acabassem então por cair no esquecimento. Catarina. Catarina terá chamado ao Paço Real alguns dignitários da nobreza e da Igreja103. e os procuradores. Sebastião. Todavia. De acordo com a documentação da época. e até ao final do seu reinado jamais convocou as Cortes. a convocatória das Cortes num período sempre delicado: a menoridade do rei. assim.

em certos momentos da história do reino. vários foram os oficiais de Filipe II que estiveram ocupados com a preparação das várias alegações e pareceres jurídicos para sustentar a candidatura do Habsburgo ao trono português. No essencial. Sancho II fora declarado rex inutilis e substituído pelo seu irmão D. no seu conjunto a crise sucessória de 1578-80 contribuiu para potenciar do papel das Cortes de Portugal. Afonso III109.. em contextos de crise sucessória. Conta Fernando Bouza Álvarez107 que. Como dissemos.. D.. em Outubro de 1578. mestre de Avis. entre os finais de 1578 e boa parte de 1579. e reunidos entre Abril e Junho de 1579 – nunca se decidiram. Cristóvão de Moura encontrou um documento importante no arquivo da Câmara de Lisboa: os «Artigos de Lisboa de 1499» ou «Capítulos del rey Dom Manuel». aos «três estados» reunidos em Almeirim foi novamente dada a oportunidade de se pronunciarem sobre uma matéria crucial: a sucessão no trono. aquando do juramento do príncipe D. Miguel. Assim. Prior do Crato – socorreram-se. cada um à sua maneira. as Cortes de 1385. em Setembro de 1578 Filipe II escreveu a Cristóvão de Moura pedindo-lhe que procurasse na Torre do Tombo papéis que provassem «como y cuándo». João. Para além da mobilização de um complexo argumentário jurídico. foram recordados alguns precedentes da história portuguesa: o caso de D. a despeito destas revelações. assinalando que a coexistência de vários regimes sucessórios dificultou a avaliação dos fundamentos jurídicos invocados pelos vários candidatos ao trono português. os diversos candidatos em presença – com destaque para Filipe de Habsburgo.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. Henrique I para Lisboa. primeiro rei de Portugal. de uma forma taxativa. Catarina de Bragança e D. tanto mais que os teólogos de Salamanca e de Alcalá que tinham sido consultados sobre a . Mafalda Soares da Cunha reconstituiu. no sentido de levar por diante a eleição. António. lembrando episódios do passado português em que os «três estados». Nesse contexto. da tese da eleição do rei pelas Cortes. O mesmo Fernando Bouza assinala que. Trata-se de uma série de garantias que tinham sido estabelecidas nas Cortes de Lisboa de 1499. podia «el pueblo eligir Rey»108. A ASSEMBLEIA DE CORTES. e como assinala Mafalda Soares da Cunha. o episódio em que o rei D. a sua faculdade decisória em matérias sucessórias. em 1579. tal documento reforçava a tese de que as Cortes de Portugal tinham exercitado. Segundo Bouza Álvarez. a disputa suscitada pela crise dinástica. tinham intervindo. os «três estados» – convocados por D. Porém. fora aclamado rei. 187 diverso aconteceu: a crise sucessória provocada pela morte prematura do monarca contribuiu para relançar o papel político das Cortes. em Portugal. com grande clareza. Afonso Henriques. nas quais D.

fazendo-se aclamar – numa cerimónia atípica. depois de vários dias de agonia. Apesar de se tratar de uma reunião que congregava apenas uma parte dos representantes do terceiro estado e que contava com uma reduzida representação do clero e da nobreza. exercido fora do controle da Coroa. entretanto. fundamentalmente. nesta fase. em finais de 1579 o rei convocou os «três estados» para uma reunião em Almeirim. A abertura solene das Cortes realizou-se a 11 de Janeiro de 1580. a questão sucessória. Na sequência destes eventos. escolhendo um dos candidatos e colocando de parte os demais113. o que não impediu que as Cortes continuassem reunidas até 15 de Março. um gesto que visava transferir para os «três estados» a responsabilidade de uma decisão tão melindrosa.188 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS matéria haviam declarado que as Cortes não tinham o poder para eleger reis110. falecia a 31 de Janeiro. os acontecimentos precipitaram-se. cidade onde se situava a sede da prestigiada Ordem de Cristo. Filipe de Habsburgo desejava evitar. António. Aqueles que estiveram presentes no evento de Santarém manifestaram a sua vontade. e terá sido nessa altura que D. Henrique. a que alguns deram a denominação de «Cortes» – a 19 de Junho de 1580112. Ao optar por realizar o seu primeiro encontro com os «três estados» portu- . contando com a comparência do monarca. por estar na posse de informações de que os demais pretendentes contavam com muitos apoiantes no seio do «braço do povo». a 30 de Abril de 1580 os cinco Governadores voltaram a convocar o «reino» para Santarém. Já bastante debilitado e muito pressionado pelos vários pretendentes ao trono português. e uma parte dos presentes manifestou-se a favor da capacidade electiva das Cortes – solução que. prior do Crato e um dos pretendentes ao trono português. esse evento atemorizou bastante Filipe II e os seus apoiantes. outros juristas alegaram que só havia lugar para a intervenção das Cortes em última instância. Filipe de Habsburgo fez a sua entrada em Portugal. António. E num contexto em que era cada vez mais evidente que Filipe de Habsburgo pretendia dar início à intervenção militar sobre Portugal. Este acontecimento preocupou Filipe II e terá precipitado a acção militar que culminaria na derrota das forças apoiantes de D. D. e pouco tempo depois convocou as Cortes para a localidade de Tomar. Enquanto decorriam estas indagações. decidiu precipitar os acontecimentos. de não existirem candidatos e de a «república» se encontrar em necessidade extrema111. no caso de o trono estar vago. deixando o reino entregue a cinco Governadores. ou seja. Pela mesma altura. mantendo uma acalorada discussão sobre o futuro da Coroa. Em meados de Junho estava já em Santarém um número considerável de procuradores. Nas sessões que se seguiram os «estados» debateram. pois foi um exemplo concreto de voluntarismo do «reino».

A carta que enviou aos «três estados». as suas instituições.. É isso. Como é evidente. pois era para todos evidente que os portugueses – ou pelo menos parte deles – tinham pegado em armas contra Filipe II e.. bem como tirar partido da força simbólica do Convento de Cristo. em terras lusas as Cortes só eram legítimas desde que fossem convocadas pelo rei. No entanto.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. Filipe de Habsburgo procurava transmitir um sinal de continuidade face à dinastia cessante. por Filipe II. o seu espaço jurisdicional. a saber: o reconhecimento. ao invés de seguir por esse caminho. na sequência disso. Contudo. como o suo.116 Quanto à manutenção da assembleia representativa portuguesa. especificava o motivo da convocatória: «Pera me jurarem por verdadeiro Rey e senhor destes Reynos e senhorios delles. uma vez que. os seus costumes. o artigo 2. pela nego- . e assy ao Principe Dom Diogo. e me fazerem preito e menagem de vassalagem. um articulado onde ficou estabelecido o status de Portugal como reino agregado à Monarquia Hispânica. A convocatória dos «três estados» surpreendeu alguns observadores coetâneos. convocando as Cortes. do estatuto reinícola de Portugal e dos seus correlativos foros..»114. em termos que permitiram aos lusos preservar a sua dignidade reinícola. o que está consagrado no «Estatuto de Tomar» de 1581.. a sua língua. meu sobre todo muito amado e muito prezado filho primogenito. o «rei prudente» optou pela via do compromisso. A ASSEMBLEIA DE CORTES. 189 gueses nesta localidade. mas sim como mais um reino a agregar àqueles que já faziam parte dos seus domínios115. Através desse gesto Filipe II procurou atingir dois objectivos: pretendeu mostrar que actuava já como rei de Portugal.º do «Estatuto» era muito claro: «Que quando ubieren de hazer Cortes tocantes a estos Reynos sean dentro de Portogal y que en otras qualesquier que ouieren fuera dellas no se pueda proponer. pela solução pactuada. de resto. Para além disso. datada de Janeiro de 1581. haviam sido derrotados. local de onde emanava uma intensa memória do passado português.. fidelidade e obediencia em forma de direito. Tal significava que o monarca Habsburgo tivera a oportunidade de aplicar a Portugal o direito de conquista e de fazer tábua rasa dos privilégios reinícolas da Coroa portuguesa. ao optar por chamar os «três estados». Filipe de Habsburgo optou por negociar. A resistência antoniana dera a Filipe II a oportunidade de aplicar o direito de conquista a Portugal. como assinalámos no início. etc. semelhante opção envolveu uma cedência. como a meu verdadeiro e legitimo suçessor. Filipe de Habsburgo dava a indicação aos seus novos vassalos portugueses de que não pretendia tratar Portugal como uma simples conquista. tratar ni determinar cosa alguna que toque a los dichos Reynos»117. de fazer tábua rasa dos foros portugueses e de implementar um novo modelo de governo. as suas leis.

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ciação e pela cedência de contrapartidas aos seus novos vassalos portugueses. Todavia, é importante frisar que Filipe II, ao mesmo tempo que apostou numa solução de continuidade, quis deixar bem claro que o «Estatuto de Tomar» era algo que decorria da «graça real», e não de uma obrigação régia de respeitar os foros portugueses. Como assinalou Fernando Bouza, Filipe II procurou apresentar o “seu” Portugal como a continuação do «modo y manera» que D. Manuel havia idealizado para o seu filho D. Miguel, embora frisando que tal correspondia a uma decisão sua, e não ao eminente direito ou vontade dos portugueses118. No que respeita ao lugar constitucional das Cortes, como vimos a crise sucessória acabou por ser algo ambivalente. Por um lado, ao convocar as Cortes para sancionar a sua entrada em Portugal, Filipe II de alguma maneira concedeu a essa assembleia um protagonismo que ela tinha perdido durante o governo de D. Sebastião I. Esse relançamento das Cortes, associado às atribulações dos anos de 1579 e 1580, poderia até ter dado o mote para um movimento que visasse reequacionar o papel constitucional da assembleia, por exemplo consagrando a sua capacidade para vigiar, de forma permanente, a actuação do rei no que concerne ao respeito pelo estatuto reinícola de Portugal. Todavia, não foi isso o que aconteceu. Na verdade, ao mesmo tempo que concedeu esse protagonismo aos «três estados», Filipe de Habsburgo frisou que a intervenção das Cortes em matérias tão transcendentes como a sucessão no trono ou o estatuto de Portugal no seio da Monarquia Hispânica era limitada e circunscrita àquela ocasião excepcional. Aliás, convém não esquecer que as Cortes de Tomar foram, essencialmente, um evento cerimonial, uma vez que o fundamental da negociação se realizou previamente. Além disso, pouco depois de efectuado o juramento, Filipe II manifestou pouco empenho em que as reuniões de trabalho prosseguissem, revelando mais preocupação por seguir para Lisboa, onde, já na qualidade de soberano jurado pelos «três estados» portugueses, iria ser recebido com grande solenidade119. Além disso, importa ter presente que o monarca, até ao final do seu reinado, só por uma ocasião voltou a convocar as Cortes de Portugal, e fê-lo numa altura em que se preparava para deixar as terras lusas. Trata-se da reunião de 1583, especificamente pensada para que os portugueses jurassem o príncipe D. Filipe como novo herdeiro, e que teve como principal particularidade o facto de os procuradores terem sido chamados única e exclusivamente para jurar o príncipe. O rei tencionava partir, quanto antes, para Castela, razão pela qual desejava umas Cortes rápidas. Por isso, e como recordaria, anos mais tarde, o conde de Salinas, as cartas de convocatória para a cerimónia de 1583 incluíam a seguinte indicação:

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«Embiaréis vuestros procuradores con poder bastante para que juren al Príncipe Don Phelipe, mi hijo mayor, por Rey y Señor destos Reinos después de mis dias»120 – ou seja, a carta de convocatória circunscrevia o âmbito das matérias a debater na assembleia, um gesto pouco comum na tradição das Cortes de Portugal121. Depois desta reunião, Filipe II partiu para Castela e não voltou a visitar Portugal até ao final do seu reinado. Como consequência, até 1598 as Cortes portuguesas não voltaram a reunir. Ainda assim, cada vez que o monarca católico tomou a iniciativa de introduzir um novo imposto ou de repor uma taxa que tinha sido levantada – caso dos portos secos, abolidos em 1581 mas repostos em 1592 –, os descontentes fizeram-se ouvir, apresentando as Cortes como a instância competente para decidir sobre essa matéria122. Convém notar que estas e outras queixas similares continuaram a ser escutadas nas décadas subsequentes. Mais do que a expressão de um confronto “nacional”, eram, antes de mais, a reacção de uma sensibilidade política eminentemente jurisdicionalista, a qual não escondia a sua repugnância por modalidades decisórias mais voluntaristas e que não passavam pelos canais costumeiros.

As Cortes nos finais do século XVI e na primeira metade do século XVII
A partir de finais do século XVI os monarcas hispânicos cada vez menos se ausentaram de Castela. Em parte por causa disso, o número de reuniões das Cortes castelhanas aumentou, realizando-se aproximadamente de três em três anos: Filipe III convocou as Cortes por 6 vezes; quanto a Filipe IV, reuniu a assembleia representativa por 8 ocasiões. Importa frisar que quase todas as reuniões então efectuadas incidiram sobre a problemática fiscal. Viviam-se tempos em que as dificuldades financeiras da Coroa eram cada vez maiores, facto que levou o rei a optar por abandonar a fiscalidade directa-pessoal, adoptando, como substituição, a fiscalidade indirecta, através de impostos sobre o consumo. Assim, em Castela os servicios estagnaram, ao mesmo tempo que se dava um crescimento significativo das alcavalas e dos millones123. Tal opção fez com que as Cortes de Castela se tornassem num dos principais espaços de negociação da política fiscal. Como sugerimos atrás, a partir de meados do século XVI a Coroa tirou partido das reuniões de Cortes para incutir, nos representantes dos «três estados», novos sentimentos de pertença. Aproveitando a circunstância de estarem presentes representantes de todas as partes do corpo político, os oficiais régios lembraram que o facto de pertencerem à entidade política «reino» comportava obrigações e até mesmo sacrifícios – como por exem-

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plo o pagamento de impostos, o recrutamento militar, o apoio logístico às forças militares, etc. – que deveriam ser aceites sem qualquer questionamento. A estes apelos os representantes deram uma resposta plural. No que toca ao desempenho dos procuradores no decurso das reuniões, J. I. Fortea Pérez sublinha que, no quadro das Cortes de Castela, é evidente um forte contraste entre, por um lado, a perspectiva mais geral, à escala do reino, patenteada pelos oficiais régios e, por outro, a visão localista dos procuradores. Aliás, o facto de os custos inerentes à participação nas Cortes terem sido sempre suportados pelas finanças locais contribuía, certamente, para manter este apego dos procuradores às suas questões «particulares». Segundo J. I. Fortea Pérez124, esta distinção jamais foi superada, tendendo até a acentuar-se a partir do momento em que a Coroa procurou elevar o estatuto das Cortes de Castela e convertê-las num órgão superior (e autónomo) face às cidades. Tal sucedeu no final do século XVI, e nessa ocasião as cidades esforçaram-se por impedir que essa proposta régia fosse posta em prática. Terá sido precisamente neste contexto que se tornou mais visível a ambiguidade no modo como eram entendidas as relações entre o rei e o reino, e o papel que cabia às Cortes desempenhar. Para alguns o reino era contemplado como uma comunidade integrada, superior e distinta da soma das suas partes. Nesse âmbito, as Cortes eram vistas como o órgão de representação institucional, e a prioridade seria concentrar processos de tomada de decisão e homogeneizar procedimentos, através de uma assembleia única. Para outros, pelo contrário, o reino era visto como um agregado de comunidades autónomas, sendo as Cortes tidas como uma mera junta de cidades. Neste quadro as atribuições das cidades saíam claramente fortalecidas, uma vez que previa o controle, pelos poderes urbanos, das principais funções administrativas. De acordo com Fortea Pérez125, a Coroa castelhana, a fim de evitar o poderio das cidades e a sua estratégia de bloqueio da política fiscal, procurou potenciar as Cortes e colocá-las numa posição intermédia entre o rei e as cidades, mas em qualquer caso acima destas últimas. O objectivo era autonomizar as Cortes e libertá-las da obrigação de conferirem com as cidades cada uma das decisões que era necessário tomar. Paralelamente, os ministros régios actuaram no sentido de captar o favor dos procuradores e de dificultar a comunicação destes com as cidades de onde eram oriundos. No fundo, aquilo que interessava à Coroa era que os procuradores (e as Cortes) falassem em nome do conjunto do reino, e não como meros representantes dos seus lugares de procedência. Segundo A. M. Hespanha, foi esse o momento em que se começou a adquirir a ideia de que o reino era algo de diferente do conjunto das partes, caminhando-se para a representação do conjunto do corpo político por apenas alguns126.

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O debate em torno desta questão conheceu o seu auge nos últimos anos do século XVI e na primeira metade de Seiscentos, altura em que a Coroa – e alguns procuradores – tentaram instaurar uma maior distância entre as Cortes e as cidades. Porém, e como seria de prever, as urbes moveram uma tenaz resistência a estas medidas. De qualquer modo, o resultado esperado não se concretizou, pois apesar de mais potenciadas e independentes face às cidades, as Cortes de Filipe III e de Filipe IV revelaram-se morosas e difíceis de gerir por parte dos ministros da Coroa. Além disso, a transferência do «voto decisivo» das cidades para as Cortes, em 1632, não livrou a Coroa de negociações muito árduas com os procuradores127. Acresce que algumas urbes castelhanas encetaram processos de negociação em paralelo às Cortes. Na verdade, várias cidades preferiram negociar directamente com a Coroa em vez de o fazerem na assembleia representativa, pois, por essa via, alcançavam acordos bilaterais, evitando desse modo os pactos estabelecidos entre a Coroa e a maioria das cidades. Outro fenómeno que importa destacar é o facto de, em pleno período de Seiscentos, os aristocratas voltarem a manifestar um certo interesse pelas Cortes. Os nobres, em especial os de ascensão mais recente, verificaram que a assembleia podia ser usada como uma forma de captar oportunidades de serviço ao rei, assim como para consolidar a sua influência na corte régia. Dignitários poderosos como o duque de Lerma, o condeduque de Olivares ou D. Luis de Haro, por exemplo, tiveram lugares nas Cortes enquanto representantes de cidades. Contudo, este regresso dos aristocratas voltou a gerar tensões, pois determinadas cidades eram hostis a membros da nobreza que desempenhavam a função de procuradores128. Algo de semelhante se passava nas Cortes portuguesas, onde, como dissemos, foi sempre notória uma clivagem entre, por um lado, as cidades do primeiro banco, representadas em geral por membros da nobreza de corte que detinham um fácil acesso ao rei ou aos seus principais ministros, e, por outro, as restantes cidades. Com o acentuar da centralidade de Castela no quadro da Monarquia Hispânica, a corte régia permaneceu nesse reino por períodos cada vez mais longos, e os castelhanos assumiram, nessa fase, o papel de liderança dos territórios dos Habsburgo espanhóis129. Foi de Castela que partiram algumas das principais iniciativas de reforma, as quais visaram, fundamentalmente, inverter a tendência recessiva das décadas anteriores. O monarca hispânico efectuou muito menos visitas aos seus reinos, o que, consequentemente, levou à realização de um menor número de reuniões das Cortes de Aragão, de Portugal e da Catalunha, para já não falar das assembleias representativas dos reinos italianos que estavam na órbita dos Habsburgo.

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Como não podia deixar de ser, a dinâmica reformista que se viveu sob Filipe III e Filipe IV influenciou as relações entre o centro da Monarquia Hispânica e os demais reinos que integravam os domínios dos Habsburgo. Vários interesses estabelecidos foram afectados pelo voluntarismo político dos ministros régios, e os sinais de descontentamento não tardaram em surgir. No conjunto dos seus trabalhos, John H. Elliott demonstrou que, no quadro da cultura política do Antigo Regime, quando as pessoas se sentiam ameaçadas a típica atitude de defesa era o refúgio atrás de barreiras protectoras como os seus costumes, as suas leis, as suas instituições e as suas tradições. É precisamente nesse contexto que, em Aragão, em Portugal, na Catalunha e também nos territórios italianos da Monarquia, se procede a uma revalorização das Cortes enquanto símbolo dos foros reinícolas. Com efeito, no contexto da ofensiva fiscal da primeira metade de Seiscentos, as Cortes dos vice-reinados simbolizaram o estatuto reinícola e a defesa dos direitos dos vassalos contra os cada vez mais insistentes pedidos do rei para que aumentassem a sua contribuição fiscal. Por outras palavras, a maior agressividade da política fiscal da monarquia concorreu para que as Cortes – tanto as de Castela como as dos demais territórios da Monarquia – voltassem a estar no centro do debate político. Os portugueses também sentiram a nova dinâmica integradora das primeiras décadas de Seiscentos, e à semelhança do que se passou em outras partes da Península, os lusos também se voltaram para a assembleia de Cortes, encarando-a como o principal símbolo do estatuto reinícola de Portugal130. Aos apelos chegados da corte régia para que fossem mais solidários com a Monarquia, respondiam os lusos com o argumento de que Filipe III, enquanto rei, ainda não havia jurado os foros portugueses, e que as iniciativas fiscais que se anunciavam teriam necessariamente de passar pela aprovação das Cortes de Portugal, alegando que tal correspondia ao costume seguido no reino desde os tempos mais ancestrais. Quanto a Filipe III, rei mais voluntarista do que é costume pensar, deu a entender que só viajaria até Portugal para reunir as Cortes desde que os portugueses chegassem a acordo quanto ao montante da sua contribuição fiscal para a Monarquia131. A invocação das Cortes como argumento de resistência dos lusos contra as solicitações fiscais da Coroa dos Habsburgo tornou-se de tal modo insistente que, em Janeiro de 1613, D. Diego de Silva y Mendoza, conde de Salinas e figura proeminente no Conselho de Portugal132, apresentou ao rei um «memorial» sobre «las prerrogativas de la Corona y de las Cortes de Portugal». Trata-se de um parecer que se inscreve nos debates sobre a ida de Filipe III a Portugal para reunir as Cortes, e nele se discute não só

Contudo. uma vez que o juramento de 1583 continuava perfeitamente válido. e que. «todas las otras juntas que los pueblos hicieren. o que – segundo o conde de Salinas – transcendia em . Salinas critica o Senado de Lisboa. Devido à sua importância para o tema que estamos a analisar. Salinas sustenta que. não carecia de se deslocar a Portugal para ser jurado pelas Cortes deste reino. por causa desse precedente histórico. a pretexto da vinda de Filipe III. Filipe. Salinas recorda a convocatória de 1583. Para Salinas. na previsão de uma estadia mais ou menos próxima do rei em terras portuguesas. No seu interessantíssimo «memorial» Salinas critica também o desejo de protagonismo manifestado pela Câmara de Lisboa. Diego de Silva y Mendoza produziu o seu parecer sobre as Cortes de Portugal. ni las pueden hazer. em Portugal. ou seja..ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS.. em especial o facto de esta instituição ter insinuado que poderia jurar o príncipe Filipe (futuro Filipe IV) em sua ausência. y con poderes bastantes suyos»133. alguns portugueses manifestaram o seu descontentamento pelo facto de Portugal não contar com um conselho próprio junto do rei. futuro Filipe III. Salinas começa por afirmar que só se pode falar em «Reino». que puede convocar generalmente. o monarca e os seus ministros hesitaram quanto à oportunidade da jornada. durante esse período de indefinição. o rei não deveria ter qualquer dúvida de que havia sido jurado enquanto príncipe. sem que. ni que por ningún camino tengan el nombre de Reino. o Conselho de Portugal – o órgão que. no início do seu reinado. quando Filipe II ordenara que se desse aos procuradores única e exclusivamente o poder para jurar o príncipe D. Perante essa situação. quando as Cortes são legitimamente convocadas. y mandando que no se trate de otros». particulariçando los cassos para que comboca. No seu parecer. mas sobretudo até que ponto era o monarca obrigado a fazer essa jornada. lacuna que. A viagem esteve mesmo para ter lugar no início da segunda década do século XVII. tivessem voltado a activar o Conselho de Portugal. ao ponto de. ni conuiene que las hagan. por esta instituição se ter apresentado como uma entidade que falava em nome do «Reino».. sin preceder convocación y voluntad expresa de S. a prolongar-se. quando é o rei quem convoca a assembleia. M. representava os portugueses e a sua condição reinícola – ter sido temporariamente suspenso e substituído por uma junta restrita. também. equivalia a uma despromoção do reino no quadro da Monarquia Hispânica. A ASSEMBLEIA DE CORTES. este documento é merecedor de uma análise detalhada. Foi neste ambiente que D. na corte. porque é a pessoa régia quem confere poder a «todas las personas que tienen voto en ellas. 195 a conveniência da viagem. Para provar esta última afirmação. por isso mesmo. cuya soberanía en la Corona de Portugal es tan grande.. no se llaman Reino de Portugal.

de motu proprio. declara que Filipe II. corria o ano de 1581. mas sim por «graça real». sin convocación del Rey para eligir a Don Antonio. em vez disso. Com base nestes dados. Salinas afirma que Portugal não era uma dessas «coronas en que el Reyno se puede congregar por propia autoridad y sin mandato real. revogável em qualquer momento que o monarca assim o decidisse136. con ocasión del juramento. sobre matérias tão transcendentais como a sucessão na Coroa. António e a assembleia que se reuniu. logo. Prosseguindo na sua digressão pelos acontecimentos de 1581. sus priuilegios. A esse respeito. qué pena se pudo proporcionar a este delito. Todavia. efectua uma análise muito sugestiva das implicações do juramento efectuado em Cortes. Salinas recorda que o privilégio de a população poder juntar-se com o nome de «Reino». por ser através dele que o rei via a sua situação legitimada.196 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS muito a jurisdição da dita câmara134. preueniendo de paso otros semejantes. no que concerne a Portugal Salinas era da opinião de que a questão se colocava de uma maneira completamente diferente: «en Portugal. i congregado. más justa i más bien considerada que la que prohibe que semejantes juntas no pueden tener nombre de Reino. aya quien le congregue. Salinas relembra o caso de D. fora um gesto resultante da vontade régia e. defendendo. sem convocatória régia. não estava previsto no juramento que Filipe II efectuara em Tomar. fê-lo não propriamente porque sobre ele pesava a obrigação de respeitar os foros portugueses. assumir o título de «Reino em Cortes» e tomar decisões. voluntariamente e sem o prévio consentimento do monarca. sem que tivesse sido chamada por um rei legítimo – «Porque si el delito fué juntarse el Reino. son solos los que la restitución y gracia declara». acrescentando que a reunião de Cortes sem que a convocatória procedesse da vontade régia poderia ser equiparada a um gesto de rebelião. desde aquel punto. Ou seja. pues para el heredero es cirimonia el juramento..». y quando se les restituyen. sustancia. donde se prosupone que el heredero es Rey. a principal preocupação de D.. afirma Salinas que «los Reinos que toman armas contra sus Reys pierden. Diego de Silva. uma postura mais afirmativa do rei. nalguns reinos a «utilidade» do juramento era recíproca. sendo também mediante essa cerimónia que o reino conseguia que os seus privilégios fossem jurados pelo monarca. De acordo com D. sin que preceda juramento. que. No fundo. Diego da Silva era negar a Lisboa a legitimidade de. no quadro da crise sucessória. y para el Reino. em 1580. De seguida. Salinas manifesta a sua veemente oposição à ida do monarca hispânico a Portugal naquele momento tão delicado. Em face desta questão. i que sólo le tenga el que fuere ligitimamente congregado por su Rey en Cortes?»135. ao reunir as Cortes e ao contemporizar com os portugueses. viene a ser el juramento en mayor utilidad del Reyno que del Rey. le haga .

Como seria de prever. cada vez que surgiam planos de introdução de novos tributos. floresceu um discurso de desvalorização da assembleia dos «três estados».. que haze el Reyno de Portugal. numa reunião praticamente reduzida à cerimónia do juramento do príncipe herdeiro e a uma rápida negociação sobre matérias fiscais. também. razão pela qual os monarcas não estavam tão limitados como em França pela vontade dos seus vassalos. pelo contrário. Na década de 1630. Para Salinas. Jean-Frédéric Schaub chamou recentemente a atenção para a importância do Memorial de la preferencia. acrescentando que. Talvez para evitar essas críticas. a qual viu nesse gesto um sinal do mau governo dos Habsburgo em Portugal. esse contexto de crescente voluntarismo régio reforçou um processo que já se vinha fazendo sentir: a identificação entre as Cortes de Portugal e a condição reinícola de Portugal. y su Consejo. os pretendentes dependiam dos vassalos. No reinado que se seguiu. al de . incluindo Castela) lembravam que em Portugal existia o costume imemorial de os novos impostos não serem introduzidos sem o consentimento dos povos reunidos em Cortes.. nesse reino. Tais apelos não parecem ter comovido o conde duque de Olivares e os seus ministros. para um dignitário chegar a rei não bastava ser herdeiro.. Filipe IV e Olivares lançaram várias iniciativas fiscais sem consultarem as Cortes de Portugal. o caso de França e o facto de os seus reis serem ungidos e jurados. Ibérica140. convocando. Filipe III acabou mesmo por viajar até Portugal. Salinas sustenta que bastava a condição de herdeiro para se ser rei. tornando-se também necessário ser jurado e ungido. A despeito destas observações. como é bem sabido. a resposta a muitas das petições que foram entregues nas Cortes139. Foi a única vez que. do que estava a suceder em outros pontos da P. arbítrios e memoriais difundidos a partir de finais da década de 1620. bem pelo contrário. nos anos que se seguiram. a falta de resposta às petições de 1619 será relembrada pela publicística apoiante do duque de Bragança. as Cortes. A ASSEMBLEIA DE CORTES. as instituições lusas (à semelhança do que se passava noutras partes da Península. mas apenas em 1619. Anos mais tarde. a propósito. em expedientes representativos mais ágeis – na linha. As Cortes não só não foram convocadas como. no seu reinado. aliás. nestas duas últimas condições. em vez disso. o monarca apressou-se a abandonar Portugal. o monarca se juntou com os «três estados» portugueses. Em Portugal. apoiando-se. plasmado em propostas. 197 parte para que pueda pedir al Rey que le jure sus preuilegios»137. impedindo. durante a qual os ministros régios tiveram de escutar uma série de queixas acerca da violação de algumas das condições do «Estatuto de Tomar»138. nessa ocasião. o que inviabilizou o debate sobre outras questões governativas.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. Recorda.

proporcionava o aval histórico ao protagonismo político que muitos desejavam atribuir à «assembleia dos três estados». ao contrário do que se passava em Aragão. Salgado de Araújo defende a legitimidade dessas juntas. Entre os muitos argumentos esgrimidos nesta obra há um que se relaciona directamente com a «assembleia dos três estados»: para provar a preeminência de Portugal. Juan Delgado. Para o autor do Memorial. de forma célere. 1627). .. estes escritos tiveram algum impacto em Portugal. como um aperfeiçoamento pontual da administração da Coroa. factor que conferia mais dignidade a Portugal no quadro da sua “competição” com os demais reinos que integravam a Monarquia Hispânica141.. Como não podia deixar de ser. y de las dos Sicilias (Lisboa. o mesmo Salgado de Araújo volta a defender as juntas. a maior liberdade de manobra do monarca constituía um factor de preeminência para o reino. na obra Ley Regia de Portugal. Contrariando de uma forma flagrante o estabelecido pelo «Estatuto de Tomar». 1627). (Madrd. entre outras coisas.. os «três estados» tinham o direito a pronunciar-se sobre matérias governativas. um documento – apócrifo – que. o que foi interpretado como um indício seguro de que estava em curso um processo de despromoção do estatuto reinícola de Portugal. encarando-as como um tribunal ad hoc.198 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Aragon. Para além do citado tratado de Barbosa de Luna. da autoria de João Salgado de Araújo. as «actas» da assembleia de Lamego alegadamente provavam que. sem necessidade das Cortes.. Pouco tempo depois. Durante o valimento de Olivares sucederam-se os escritos – boa parte deles assinados por portugueses – onde se expressava uma opinião desfavorável sobre as Cortes lusitanas e acerca do seu papel no sistema político. Barbosa de Luna afirma que em terras lusas o rei era «mais absoluto». para alguns. um outro bom exemplo do que acabámos de afirmar é um breve manuscrito de meados da década de 1620. em Madrid. assim como a oportuna revelação das «actas» das Cortes de Lamego. juntas ad hoc para despachar. os negócios de Portugal. Atribuídas ao período fundacional do reino. Geraldo de Vinha. um impresso da autoria de Pedro Barbosa de Luna e que surge no contexto da disputa de precedência entre a Coroa de Aragão e a Coroa de Portugal. pois fazia corpo imediatamente com a Coroa.. onde se discute até que ponto era legítimo organizar. desde as origens de Portugal como unidade política independente. sustentando também que a Coroa lusa era mais «absoluta» do que a aragonesa. para além de ter funcionado como elemento galvanizador para todos aqueles que foram atingidos pelas iniciativas de Olivares142. o rei de Portugal podia revogar leis de Cortes sem reunir os «três estados». Não tardou a correr o rumor de que se planeava a supressão das Cortes. Este exemplo demonstra que. Assim se compreende os apelos à reunião de Cortes escutados durante a década de 1630.

Importa não esquecer que a «assembleia dos três estados». já que muitos viram na decisão de Olivares de consultar os notáveis do reino fora de Portugal a confirmação de que o valido estava mesmo apostado na revogação do «Estatuto de Tomar» e na despromoção de Portugal. implementou uma fiscalidade particularmente extensiva. com essa lógica de actuação.. A ASSEMBLEIA DE CORTES. Todavia. e na sequência das perturbações ocorridas no ano antecedente. o conde duque de Olivares decidiu convocar.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. Em meados de 1638. A pressão fiscal do período de Olivares amplificou o ressentimento contra a sua pessoa e a sua clientela. e muitos daqueles que lutaram contra o seu estilo de governo – por se afastar do tradicional e muito mais consensual paradigma jurisdicionalista – usaram as Cortes como o símbolo da maneira consuetudinária de governar em Portugal. pouco tempo depois Olivares decidiu levar a cabo uma medida ainda mais drástica: a dissolução do Conselho de Portugal. os principais responsáveis pela agitação social que se registou ao longo de toda a década de 1630. afectando grupos – e respectivos privilégios – que até esse momento tinham sido poupados. a junta realizada em Madrid acabou por não surtir o efeito desejado. Recorde-se que o conde-duque. se auto-representava como um tribunal. Além disso.. órgão que se assumira como um dos principais obstáculos à sua política fiscal em terras lusas. A reunião visava encontrar uma solução para a substituição da duquesa de Mântua. Como se não bastasse. como forma de resistência ao regime decisório eminentemente executivo instaurado pelo valido de Filipe IV. uma espécie de reunião restrita das Cortes de Portugal. Para além de constituir um instrumento de defesa da condição reinícola do reino português. embora tivesse também a finalidade de encontrar uma forma de atenuar o descontentamento vivido em Portugal. Terão sido estes. em matérias de governo o valido concentrou a faculdade decisória no seu círculo de confiança. podia funcionar. para além de se ter recusado a reunir Cortes. O valido de Filipe IV pretendia substituir esse conselho por um organismo con- . como uma instância cuja actuação se inspirava no modelo judicial de gestão administrativa. Convém não esquecer que se vivia uma conjuntura em que era cada vez mais forte a presença de Olivares e da sua clientela. delegando a aplicação das decisões num conjunto de oficiais régios de carácter comissarial e revestido de uma considerável margem de poder. rompia. com a consequente subalternização dos nobres e dos letrados até aí preponderantes. é importante ter em conta que o apelo à convocatória dos «três estados» podia servir vários propósitos. para além do seu carácter ancestral. também. e que atingiu o seu ponto culminante no ano de 1637143.. para Madrid. em muitos aspectos. 199 Todavia. Quanto à linha de actuação do valido de Filipe IV. precisamente.

Convém assinalar que esta não foi a única proposta de criação institucional onde os limites jurisdicionais entre Portugal e a restante Monarquia Hispânica surgiam algo esbatidos. sobretudo. nenhuma dessas propostas foi avante147. estudados. os escritos do português Diogo Manuel de Orta. uma espécie de États Généraux de França. Dessa forma.-F. nos anos de 1638 e 1639 Olivares recebeu numerosas propostas – muitos delas da autoria de portugueses – que apontavam no sentido da reconfiguração do estatuto de Portugal no quadro da Monarquia Hispânica. Schaub destaca as sugestões que foram avançadas por Agostinho Manuel de Vasconcelos. por Fernando Bouza148. que a proposta de convocatória de uma assembleia geral dos reinos da Península Ibérica não apareceu apenas em arbítrios que tinham a ver com matérias portuguesas. esta decisão foi tudo menos pacífica. de motu proprio. Como facilmente se imagina. J. a este respeito. esperava-se conseguir fomentar um mais intenso sentimento de pertença entre as várias partes que compunham a Monarquia. no contexto das grandes dificuldades financeiras de 1599. Schaub bem reconheceu. No «Discurso juridico-politico sobre el derecho que el Rey nuestro señor tiene en el reino de Portugal y union de su gobierno a la . Entre os vários escritos que então circularam. Como J. ou então a convocação de uma vasta junta de personalidades portuguesas a realizar na corte régia146. Convém lembrar. Pretendia Olivares que as Cortes deixassem de ser símbolos do particularismo reinícola. uma Junta General ou um Consejo Supremo. as decisões tomadas pelas Cortes. Sobre as Cortes de Portugal. sem dúvida.-F. o que estava basicamente em jogo era afirmar que o monarca tinha o poder de alterar.200 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS junto luso-castelhano e estreitamente controlado pela Coroa. Xavier Gil Pujol recorda que. e que se convertessem em órgãos fomentadores de sentimentos de pertença ao conjunto da Ibéria. Vasconcelos vai mais longe. escreve Agostinho Manuel algumas palavras que vão claramente no sentido da desvalorização dessa assembleia: «es de advertir que la precision que los principes comunmente platican en las promesas que hacen en Cortes nunca es tan exacta ni tan indispensable que sobreviniendo en la ejecuccion inconvenientes no queden con libertad de emendar-las interpretar-las i aun derogar-las porque parece que siempre llevan la tacita condicion de que las cumplira no obstando al bien publico del imperio»145. chegando mesmo a propor a celebração de uma reunião de Cortes comum às duas Coroas – Castela e Portugal – em Madrid. outro caso a reter são. também se propôs a criação de uma grande assembleia de toda a Espanha. Todavia. Como assinalou Jean-Frédéric Schaub144. Contudo. Voltando aos papéis sobre Portugal em circulação na corte régia no final da década de 1630.

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Real Corona de Castilla»149, o argumento principal de Orta é que o contrato feito nas Cortes de Tomar, em 1581, não tinha qualquer validade, dado que o rei já era senhor do reino antes das Cortes. A acreditar em Orta, Portugal era um reino herdado, e a natureza separada do reino português desaparecia com a herança castelhana, o que levava o autor do «Discurso juridico-politico» a afirmar que as leis castelhanas podiam ser impostas em Portugal. Numa digressão pelo passado recente da Monarquia, Diogo Manuel de Orta aproveita para criticar Filipe II pelas concessões que havia feito e por ter sido demasiado contemporizador para com os lusos, os quais, convinha não esquecer, tinham resistido militarmente contra a entrada na Monarquia Hispânica. Além disso, lembra que os levantamentos de 1637 tinham de ser interpretados como uma revolta, devendo ser retiradas todas as consequências desse facto, ou seja, tais acontecimentos significavam a quebra unilateral do pacto entre os dois reinos, ficando Filipe IV livre de qualquer obrigação de respeitar os foros portugueses150. Como notou J.-F. Schaub, o que estava subjacente a este texto era a redução de Portugal à jurisdição da Coroa de Castela, ou seja, o desaparecimento da Coroa portuguesa enquanto entidade juridicamente separada da restante Monarquia Hispânica151. É importante não perder de vista que as iniciativas de Lerma e de Olivares têm lugar numa época em que, em termos da cultura política dominante, ainda não era socialmente aceitável a ideia de uma gestão governativa puramente executiva, tal como não era nada pacífica a actuação governativa que não estivesse confinada aos moldes da iurisdictio152. Assim, em Portugal, tal como noutras partes da Monarquia (incluindo Castela), boa parte dos apelos para que as Cortes fossem convocadas, no quadro da resistência a Lerma ou a Olivares, foram o resultado da repugnância pelas práticas governativas extra-judiciais e de sentido eminentemente executivo, e não propriamente o simples e espontâneo produto de factores nacionais. Muitos letrados demonstraram-se agravados com este estilo de governo, pois sentiam que os novos ministros favorecidos pelo valimento estavam a atropelar tanto a sua hierarquia profissional quanto o seu cursus honorum. Um número não negligenciável de disputas foi pois motivado por magistrados ciosos do seu ofício, os quais, dando corpo ao seu sentido de estrito cumprimento da jurisdição, reagiam contra intromissões jurisdicionais, independentemente da nacionalidade daquele que levava a cabo essa acção. Quanto à aristocracia, nestes anos também ela clamou a favor das Cortes, não só por ter sido relegada para segundo plano pela clientela do valido, mas também porque, do seu ponto de vista, a privança introduzia um grave desequilíbrio na «justiça distributiva»153. Um dado parece certo:

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o acumular desses episódios de tensão fez com que, aos poucos, a ideia do pacto rei-comunidade deixasse de ser um assunto abstracto e só discutido por teólogos ou por juristas, para se tornar num tema de debate quotidiano, perdendo muita da sua conotação metafísica e adquirindo uma feição histórica cada vez mais nítida154. Foi assim que, aos poucos, ficou criado o ambiente propício para o deflagrar de uma ruptura política de grande alcance.

As Cortes em Portugal sob a dinastia de Bragança
Poucos dias depois da revolta de 1 de Dezembro de 1640, os apoiantes de D. João, duque de Bragança, decidiram convocar os «três estados». À semelhança do que acontecera noutras ocasiões, a assembleia representativa foi nessa conjuntura encarada como uma instância que poderia dar alguma legitimidade ao movimento português de secessão da Monarquia Hispânica. Assim, em Janeiro de 1641 as Cortes reuniram em Lisboa, juntando uma pequena parte do «estado da nobreza» e do clero, bem como um número significativo de procuradores em representação das cidades e das vilas do reino. A assembleia decorreu sem grandes sobressaltos, acabando por sancionar a escolha que já havia sido feita a 8 de Dezembro – o duque de Bragança foi aclamado rei D. João IV pelos «três estados», e o seu filho D. Teodósio foi jurado príncipe herdeiro. Numa altura em que o apoio à causa brigantina era incerta, recorria-se assim ao juramento como mais uma forma de vinculação, numa época em que o comprometimento moral, devido às suas implicações religiosas, tinha muito mais força obrigante do que os pactos, os contratos ou a lei positiva. A assembleia de 1641 foi um acontecimento ímpar na história portuguesa, pois representou o momentâneo potenciar da capacidade política das Cortes. De facto, nesses breves momentos reconheceu-se às Cortes uma série de atribuições: antes de mais, a capacidade para avaliar a governação do rei D. Filipe III. Por outras palavras, as Cortes comportaram-se como um tribunal, como uma instância judicial titular de uma jurisdição excepcionalmente ampla, tão ampla que habilitava os «três estados» a julgar o comportamento do rei. E como se tal não bastasse, a reunião de 1641 reconhecia ao «reino», reunido em Cortes mais duas outras excepcionais faculdades: a capacidade para se eximir voluntariamente da obediência a um soberano a quem tinha sido efectuado um juramento de fidelidade; e, além disso, reconhecia-se também aos «três estados» a capacidade para escolher, voluntariamente, um novo soberano. Como se pode facilmente imaginar, aqueles que se decidiram pela reunião de Cortes, em 1641, moveram-se num terreno altamente melindro-

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so. Antes de mais, porque era do conhecimento de todos que a quebra do juramento tinha seríssimas implicações morais e religiosas. Não devemos esquecer que muitos reprovaram a revolta de 1640 porque representava uma ruptura com um compromisso moral assumido nas Cortes de 1619, altura em que Filipe IV – à data príncipe herdeiro – havia sido jurado pelos portugueses. Como se pode ler numa instrução entregue ao embaixador de Filipe IV em Roma, logo após 1640, «[na rebelião portuguesa] se considera en primer lugar la transgression del juramento de obediencia y fidelidad, solemne y publicamente hecho a Dios por el mismo Duque de Bragança, y todos los tres Estados a favor del Rey Don Felipe, que le acetó en Cortes Generales de todo el Reyno ligitimamente convocadas...»155. Para além da quebra do juramento, o melindre da situação tinha também a ver com a situação interna da realeza. Com efeito, na sequência desse evento a Coroa brigantina ficava numa posição particularmente débil, porquanto admitir que os «povos» podiam romper com o soberano a quem tinham jurado fidelidade e escolher um outro líder representava, sem dúvida, um precedente muito perigoso, pois fragilizava bastante a posição dos futuros titulares da Coroa. A justificação doutrinal da revolta de 1 de Dezembro encarregou-se de frisar todas as implicações constitucionais do sucedido. Francisco Velasco de Gouveia, autor de uma das principais obras legitimadoras da revolta de 1640 – Ivsta acclamação do serenissimo Rey de Portvgal Dom Ioão o IV… (Lisboa, Lourenço de Anveres, 1644) – foi muito claro ao enunciar aquilo que estava em jogo: «Que Ainda que os Povos transferissem o poder nos Reys, lhes ficou habitualmente, & o podem reassumir, quando lhes for necessario para sua conservação»156. De seguida, Velasco de Gouveia analisa o caso português, alegando que a revolta de 1640 era justificada e legitimada pela inequívoca tirania de Filipe IV. Quanto à capacidade electiva das Cortes, Velasco de Gouveia defende-a apoiado em duas linhas argumentativas: por um lado, na ideia de soberania popular e no conceito de pactum subjectionis; por outro, numa argumentação histórico-jurídica fundada nas já citadas «actas» das Cortes de Lamego, bem como no precedente histórico das Cortes de Coimbra, realizadas em 1385. No que toca ao imaginário da soberania popular, António Barbas Homem157 assinalou recentemente que o conceito de pactum subjectionis está presente no Assento das Cortes de 1641, uma vez que os redactores deste texto – que constitui o documento que fixa e publicita as decisões tomadas na assembleia – aceitam a ideia de mediação popular na transmissão do poder político de Deus para os príncipes. Cumpre lembrar que desde, pelo menos, o século XVI, o conceito de pactum subjectionis era

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mobilizado pelos juristas defensores do direito de defesa que assistia à comunidade face a uma governação mal exercida, classificada como «tirania». No quadro dessa leitura, a titularidade do poder pertencia ao povo, cabendo ao príncipe apenas o exercício desse poder. Uma vez aceite esse princípio, o povo, reunido em Cortes, ficava habilitado a exercer várias faculdades: avaliar a qualidade da governação; eximir-se da obediência devida ao seu Rei sem quebra do juramento, nos casos em que fosse dado como adquirido que o rei era tirano; e, em situações extremas, escolher – em sede de assembleia representativa – um novo soberano. Para além do imaginário da soberania popular, o Assento das Cortes de 1641 recorre, também, à argumentação histórico-jurídica, lembrando os princípios estabelecidos quer nas já referidas Cortes de Lamego158, quer nas Cortes de Coimbra de 1385, ocasião em que D. João, Mestre de Avis, fora aclamado rei de Portugal. O precedente histórico de 1385 foi sistematicamente invocado para justificar as opções de 1640, tendo-se também usado as apócrifas «actas» das Cortes de Lamego para consolidar essa pretensão. Este imaginário está presente na referida obra de Velasco de Gouveia, nela se apresentando a cerimónia inaugural do reinado como um pacto de atribuição do poder, como um pacto que tinha como objectivo não propriamente estabelecer a forma do governo, mas sim efectuar a transferência do poder do povo para o príncipe. E tal como sucede em qualquer transferência de poder, trata-se de um processo que envolve condições reciprocamente assumidas159. Além do livro de Velasco de Gouveia, a imagem das Cortes como «tribunal de reis» e como uma assembleia com capacidade electiva pode ser encontrada em boa parte da literatura favorável a D. João IV publicada nas décadas de 1640 e 1650, sobretudo porque a propaganda apostou nesse argumentário como forma de tornar legítima, tanto para o interior quanto para o exterior do reino, a ruptura de 1640. Procurava-se desse modo demonstrar que a separação da Monarquia Hispânica e a adesão a D. João IV eram sentimentos partilhados pela generalidade dos portugueses. Foi também por essa altura que se investiu na ideia de que a reunião de Cortes correspondia à forma como os reis portugueses, desde tempos imemoriais, costumavam tomar decisões governativas. Paralelamente, procedeu-se à demonização do governo de Filipe IV, recorrendo-se, de um modo bastante sistemático, ao tema da marginalização de que as Cortes haviam sido alvo. Fulgêncio Leitão, por exemplo, em Reduccion, Restituycion del Reyno de Portugal a la Serenissima Casa de Bragança en la Real Persona de D. Iuan IV… (Turim, Iuannetin Pennoto, 1648), relembra a década de 1630 e as várias fases da política fiscal de Filipe IV, denunciando os «acordos particulares» que a Coroa estabelecera com os povos no

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campo tributário, sem que o reino junto em Cortes tivesse podido dizer uma palavra sobre esse assunto. Nos escritos de Fulgêncio Leitão, as Cortes são elevadas ao estatuto de único órgão autorizado para decidir sobre questões fiscais. Logo, a opção de não chamar as Cortes para decidir sobre fiscalidade era apresentada como um sinal inequívoco da tirania de Filipe IV e do seu valido160. É interessante verificar que o olhar de alguns estrangeiros sobre as Cortes de Portugal, durante a década de 1640, também sublinha o poder que esta assembleia momentaneamente adquiriu. Lívio Giotta, em Raggioni del Ré di Portogallo D. Giovanni IV… (Lisboa, Paulo Craesbeeck, 1642), traça o seguinte retrato da assembleia representativa portuguesa: «Li tre Stati cioè gli Ecclesiastici la Nobiltà, e Popoli delli Regni di Portogallo ragunati nelle Corti doue rappresentano in vn corpo tutti li sudetti Regni, e tutta l’auttorità, e potere, ch’essi tengono, hanno risoluto per buon principio delle medesime Corti douersi con publica Scrittura da tutti sottoscritta decidere, estabilire, como il Ius d’essere Rè, e Signore loro spettaua, & spetta al potentissimo Rè Don Giouanni, il quarto di questo nome....». Acrescenta Giotta: «I supponendo per cosa chiara in Iure ch’al Regno, & alli tre Stati d’esso compete il giudicare, e dichiarare la legitima successione del medemo Regno, ogni volta che nasce qualche difficoltà, e dubbio trà i pretendenti per diffetto di descendenza dell’vltimo Rè possessore...»161. Quanto ao número de petições enviadas às Cortes realizadas após 1640, ele cresceu muitíssimo, e o monarca instruiu os seus oficiais para que respondessem, de forma diligente, a esses pedidos, tendo em vista demonstrar que, no que toca à comunicação com os seus vassalos, a dinastia de Bragança era fundamentalmente diferente dos Habsburgo, revelando uma constante disponibilidade para escutar as suas queixas e para os ajudar a resolver os seus problemas. O grande manancial de petições então apreciado proporcionou aos oficiais régios uma visão bastante detalhada da situação do reino, das suas localidades e dos seus habitantes162. Todavia, é curioso verificar que os oficiais régios tiveram dificuldade em interpretar essa informação, já que nalguns casos era nítido que os pedidos reflectiam a opinião generalizada da população que os enviara, enquanto que noutros casos era evidente que constituíam uma óbvia manobra para mobilizar os recursos régios a favor dos interesses de uma determinada parcialidade local163. Como sugerimos, D. João IV e os seus sequazes nutriam sentimentos ambivalentes face a toda esta ênfase na capacidade política das Cortes. Por um lado, partiu deles a opção de instrumentalizar a «assembleia dos três estados» e fomentar o uso propagandístico das Cortes enquanto instância legitimadora da mudança dinástica; por outro, ao potenciarem as facul-

regente) D. contribuição fiscal Juramento do infante D. Pedro como regente e governador do reino. À excepção de movimentos muito pontuais de contestação a certos aspectos da governação dos anos de 1640 e 1650. contribuição fiscal Dote para o casamento da princesa D. Afonso VI D. acabou por não surgir qualquer movimento concertado que tivesse como finalidade atribuir. mais poder à assembleia representativa. João IV D. As assembleias de Cortes que se seguiram à histórica reunião de 1641 confirmam esta tendência. ou pelo menos de uma tentativa de reequacionamento do lugar constitucional ocupado pelas Cortes. nem sequer as cidades mais poderosas enveredaram pelo caminho da afirmação da capacidade política das Cortes. declaração ou derrogação da lei sucessória. João IV D. revelando-se. Teodósio. João IV D. Afonso. as Reuniões das Cortes de Portugal no século XVII Ano 1619 1641 1642 1645-46 1653-54 1667-68 1673-74 Reinado D. João. sabiam perfeitamente que corriam o risco de contribuir para o surgimento de um movimento de cariz “republicano”. contribuição fiscal Juramento da princesa D. Pedro. como por exemplo uma pujante tradição histórica de ideias e de práticas republicanas165. Filipe Juramento e levantamento do duque de Bragança como rei de Portugal.206 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS dades políticas da assembleia. Isabel Luísa Josefa. Isabel com o primogénito do duque de Sabóia Juramento do príncipe D. muito mais preocupadas em preservar os seus privilégios e em travar as iniciativas da Coroa que violavam o seu espaço jurisdicional. Todavia. Pedro. a verdade é que. Pedro II Motivo Juramento do príncipe D. Ao contrário do que se poderia prever. de uma forma sustentada. nessa fase. Não devemos esquecer que o regime monárquico estava profundamente enraizado na cultura política. A situação tornava-se tanto mais delicada quanto era para todos claro que a Coroa. Afonso VI (D. regente) D. Filipe II D. contribuição fiscal 1679-80 1697-98 . e na história lusa faltavam ingredientes que pudessem galvanizar um processo de afirmação pactista. a despeito de todo o ambiente que foi criado a favor das Cortes. Afonso VI (D. tinha uma margem muito reduzida para resistir a qualquer desafio interno164. João IV D. juramento do príncipe D. em vez disso. contribuição fiscal para a guerra Contribuição fiscal Contribuição fiscal Juramento do príncipe D.

D. algumas décadas mais tarde.. Francisco Manuel de Melo. no entanto. no seu Tácito Portuguez. com grande frequencia ouvir em publico a seus vassalos. João. pedindo o remedio delles e como nos novos reynados os subditos tem mais confiança. foi um dos muitos que notou esta renovada disposição do rei em escutar o parecer dos povos sobre questões governativas: «Continuavão os Reys da Europa. Nessa missiva. 2. o regime de relações entre o rei e o reino. é inegável que as Cortes continuaram a representar um momento importante de introspecção colectiva.. O aparente contentamento sentido por D. Tal não significa.. uma entidade politica que trans- . em nenhuma dessas reuniões se vislumbrou qualquer esforço consistente para tirar partido do élan de 1641 tendo em vista reconfigurar. porém. sempre que convocara as Cortes. acabando por ficar sobretudo associadas à política fiscal.. João IV e os seus seguidores convocaram as Cortes com uma regularidade inusitada. Pelo contrário. Acrescenta que «a resão a meu ver he manifesta: porque […] juntos os povos em Cortes parece que em certo modo fica algum tanto coarctada aquella soberania que os Príncipes tem no seu governo Monárquico…»167. e os de Portugal. e elleytos Procuradores se não celebrarão. de 1645-46 e de 1653-54. não bastavão os dias inteyros…»166. Tal não significa. a negociação sobre novas imposições fiscais acabou por monopolizar grande parte das assembleias de 1642-43. Assim. Significativamente. João IV em dialogar com os «três estados» é rotundamente desmentido. de reflexão e de discussão sobre as medidas governativas. para vincar a diferença face à dinastia dos Habsburgo. após 1640 reforçou-se a noção de que a decisão régia em conjunto com as Cortes correspondia à forma costumeira de tomar decisões governativas em Portugal. o marquês confidencia que D. João da Silva. que a El rey acodião.º marquês de Gouveia. drasticamente. por D. que por papel lhe aprezentavão a informação de seus negocios.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. para cuja comprehensão. numa carta enviada ao secretário de estado Francisco Correia de Lacerda. que a assembleia tenha perdido a sua relevância política.. A consulta frequente dos «três estados» foi nestes anos retratada como a modalidade decisória que mais estava de acordo com os princípios constitucionais que regiam o reino. que o rei reunia as Cortes sempre de bom grado. Tanto mais que. quanto mais despacho. fizera-o «com grande repugnancia tanto assim que estando convocadas humas para Tomar. era sem número o número das petiçoens. A ASSEMBLEIA DE CORTES. também. como um alfobre de decisões onde se vislumbra a emergência de um novo sentimento de pertença ao «reino». 207 Cortes foram-se dedicando a um leque de questões cada vez mais restrito. tendo funcionado. [trata-se das cortes que deveriam ter reunido em 1649]». A despeito destas dúvidas. e os Príncipes mayor paciencia..

De qualquer modo. por vezes os oficiais régios viram nas Cortes uma boa oportunidade para fomentar a unanimidade face aos planos – sobretudo fiscais – da Coroa. de que só uma parte do reino pagava os impostos. até à exaustão. É certo que. e alguns procuradores queixaram-se. Como acabámos de ver. Na sequência disso. Como sugerimos. Quanto aos demais grupos sociais.208 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS cendia os limites das comunidades locais ou corporativas e que impunha sacrifícios nem sempre fáceis de aceitar. por exemplo. e as várias entidades políticas em presença por diversas vezes tentaram utilizar. o alargado conjunto de pessoas que participava na assembleia. os pregadores que celebrassem missas na cidade onde a assembleia decorria profeririam sermões cujo conteúdo estaria orientado para convencer o auditório a ser conivente com os pedidos da Coroa. a contestação aos planos fiscais da Coroa tornou-se especialmente forte. a fim de que a Coroa abdicasse dos seus propósitos fiscais. a Coroa procurou garantir que. deveres esses que o rei e os seus oficiais se esforçaram por colocar acima das obrigações intrínsecas à pertença familiar. de um modo extremamente exaltado. os oficiais régios costumavam associar a essas obrigações para com o «reino» todo um discurso com ressonâncias religiosas. sobretudo. das necessidades em que se encontrava o reino. gerou-se uma situação de pré- . Outra valência política das Cortes decorria do simples facto de essa assembleia reunir um número considerável de dignitários – cerca de três centenas – e poder ser facilmente instrumentalizada. em muitos casos. mas procurando associar o imaginário religioso aos sacrifícios que procuravam impor aos «três estados». procurando desse modo assegurar a colaboração das elites locais na implementação das decisões tomadas pela assembleia. fizeram-no não só através da repetição. Um grupo de representantes das câmaras tentou mobilizar as Cortes para exercer pressão sobre o monarca. também eles se aperceberam do potencial da reunião dos «três estados» como forma de pressão política. tendo em vista alcançar determinados objectivos. local ou corporativa. Para isso. durante o período em que as Cortes estavam reunidas. da uniformidade jurisdicional. Em 1642. A fim de tornar esses apelos mais consensuais. como forma de pressão. Assim. fazendo identificar as intenções da Coroa com os desígnios de Deus168. da agilização dos procedimentos administrativos e. tais apelos não tiveram qualquer acolhimento. dos deveres inerentes à condição de membro dessa comunidade política “vasta” que era o «reino». As manobras de influência junto das Cortes foram uma constante. não deixa de ser significativo que as sessões de Cortes tenham sido o palco desse tipo de afirmações. nos debates das Cortes foram escutadas numerosas intervenções em defesa da igualdade fiscal.

Como vimos. durante toda a segunda metade de Seiscentos. de um modo geral estas manobras a favor ou contra as Cortes costumavam surgir em conjunturas de aprovação de novos impostos.. Quando antevia dificuldades na negociação com as Cortes. podia suceder que as facções cortesãs usassem as Cortes como forma de pressão contra os seus inimigos – as manobras de descrédito movidas contra o secretário de estado Francisco de Lucena. em princípio o «terceiro estado» era aquele que mais veementemente insistia na reunião com o rei para decidir sobre novas imposições fiscais. Noutros momentos. etc. encarando-as – sobretudo à Câmara de Lisboa – como uma instância de mediação com o resto do . as quais costumavam alegar. são um excelente exemplo do que acabámos de dizer169. Da parte do reino. em determinadas conjunturas mostrou-se interessada em reunir a assembleia. os apelos mais sonoros para que a assembleia fosse convocada partiram. Noutros casos. das autoridades urbanas. ou seja. em defesa da sua reivindicação. curiosamente invocando motivos aos quais os povos não eram indiferentes: lentidão dos processos decisórios. a lentidão do processo decisório. É muito sintomático que os apelos para a convocatória de Cortes a fim de aprovar novos tributos raramente tenham sido lançados por membros do clero e da nobreza. custos inerentes à reunião. 209 -motim que muito atemorizou a Coroa. razão pela qual os procuradores mais radicais não tardaram em ser presos. risco de motim. alegando motivos como o dispêndio inerente a cada nova reunião. na expectativa de que dela resultariam decisões que seriam socialmente muito mais consensuais. pois acreditava que essa seria a melhor forma de instaurar uma situação de relativa igualdade fiscal..ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. foi a da alegada obrigatoriedade do rei em consultar as Cortes sempre que tinha de tomar qualquer decisão na área fiscal170. esta matéria foi um pretexto para infindáveis debates entre a Coroa e os diversos grupos sociais. em finais de 1642. é curioso verificar que. em certos momentos. etc. demonstrou uma aberta relutância em chamar os «três estados». Todavia. Mais do que um assunto encerrado. pelo contrário. que alguns dos princípios constitucionais do reino seriam violados pelo monarca caso não consultasse os representantes do reino. Por esse motivo. Como sugerimos. em geral. obrigar o clero e a nobreza a contribuir. A ASSEMBLEIA DE CORTES. receio de que os povos vissem na convocatória das Cortes um sinal de que a obrigatoriedade de pagar tributos tinha cessado. Uma questão que permaneceu em aberto. a própria Coroa prescindia de dialogar com os «três estados» e optava por realizar consultas restritas às principais cidades.. os representantes do «terceiro estado» foram os primeiros a opor-se à convocatória da assembleia. A Coroa também participava nesta exploração conjuntural do capital simbólico (e político) das Cortes.

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reino. A esse respeito, cumpre reconhecer que a dinastia de Bragança acabaria por ter uma actuação bastante semelhante à dos monarcas Habsburgo, tão duramente criticados pela propaganda pós-1640 precisamente por terem levado a cabo iniciativas fiscais sem a consulta prévia da assembleia representativa171. Após 1640 várias exacções fiscais foram introduzidas sem que as Cortes tivessem sido consultadas, registando-se, também, alguns casos em que os tributos foram automaticamente aprovados por mais três anos, invocando-se o facto de continuar presente o motivo que tinha justificado a sua imposição172. Na linha do que já vinha sucedendo desde meados de Quinhentos, o Senado de Lisboa continuou a assumir-se como interlocutor privilegiado do rei, chegando mesmo a arvorar-se em representante das restantes cidades do reino. Convém notar, no entanto, que esse papel de que se arrogou Lisboa nem sempre foi bem aceite pelas demais cidades e vilas com assento em Cortes, tanto mais que, muitas vezes, os procuradores lisboetas se revelaram mais próximos do interesse da Coroa do que dos interesses das comunidades que compunham o reino. Após a morte de D. João IV – em 1656 –, a situação pouco se alterou. A 22 de Novembro de 1657, o conde de Comminges (embaixador francês em Lisboa) relatava, numa das muitas cartas que enviou para a corte francesa, que a regente D. Luísa estava a esforçar-se para reunir o dinheiro pedido por Mazarin para aceitar uma aliança com Portugal. Acrescentava que «o povo não tinha relutância em contribuir, mas os fidalgos faziam tudo para fugir ao pagamento, e [a rainha] não se atrevia a pedir nada ao clero». A acreditar em Comminges, o «povo» desejava a convocação de Cortes e a rainha estava de acordo, mas «o clero a desfavorecia e os fidalgos e os ministros se esforçavam para impedi-la, porque os primeiros teriam de pagar e os segundos de responder pela sua administração»173. Nos anos de 1650 e 1660 assistiu-se ao aumento exponencial da pressão fiscal, recrudescendo, também, a discussão acerca da margem de manobra da Coroa em matérias tributárias. Como assinalámos, a atitude mais frequente era o apelo para que as Cortes fossem consultadas sempre que se planeasse a introdução de uma nova exacção. Todavia, em certos casos eram os próprios «estados» a lembrar ao rei que o motivo do imposto continuava presente, não havendo por isso necessidade de convocar os «três estados». No entanto, convém ter presente que a renovação trienal de impostos sem a consulta das Cortes nem sempre foi uma solução pacífica, e momentos houve em que gerou autênticas tempestades políticas. A par desta profusão de debates sobre a competência das Cortes na área da fiscalidade, a «assembleia dos três estados» continuou a intervir, pontualmente, em matérias sucessórias, marcando presença em alguns dos

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momentos mais transcendentais para a Coroa, como por exemplo o levantamento de cada novo rei ou o juramento dos príncipes herdeiros. Os círculos régios condescenderam com esta pontual actuação da assembleia dos «três estados» nesse terreno tão importante, embora procurassem frisar que essa intervenção era circunscrita e localizada. Assim que o debate tocava em temas mais sensíveis, logo intervinham os oficiais régios, tudo fazendo para moderar as intervenções e para desmobilizar a discussão. Os próprios participantes nas Cortes parecem ter consciência de que havia certos temas que, pela sua delicadeza, não convinha discutir abertamente na assembleia portuguesa. Francisco Ferreira Rebelo, jurista e diplomata na agitada Londres da década de 1650, testemunhou as sucessivas reuniões do Parlamento inglês e as resoluções aí tomadas, e, nas cartas que enviou para Lisboa, observa que a assembleia representativa inglesa discutia matérias de grande transcendência político-constitucional, acrescentando que seria difícil ver as Cortes de Portugal debaterem, tão abertamente, temas tão sensíveis. Refere, a título de exemplo, a ampla discussão em torno do título que Oliver Cromwell deveria assumir174. É, em parte, verdade, que os debates nas Cortes portuguesas não costumavam ir tão longe. Seja como for, alguns anos depois de Ferreira Rebelo ter feito este comentário sobre o radicalismo das discussões que tinham lugar no Parlamento inglês, as Cortes de Portugal voltaram a tocar nesse transcendental tema que era a capacidade governativa do monarca. Tal sucedeu nas Cortes de 1667-68, reunidas em plena crise governativa motivada pelo descrédito em que a governação de D. Afonso VI tinha caído. Convocada numa altura em que estava já em curso o afastamento do rei e a sua substituição pelo seu irmão D. Pedro, a assembleia de 1667-68 constitui, sem dúvida, um momento ímpar, pois essa foi a ocasião em que as Cortes mais se envolveram na discussão sobre as questões do trono175. Tal como sucedera em 1641, em 1667 as Cortes foram convocadas tendo em vista sancionar uma situação que já estava praticamente consumada: o afastamento do rei D. Afonso VI. Os representantes dos «três estados» discutiram longa e acaloradamente a questão, apresentando diversas propostas para a resolução da crise. A par dos muitos debates que então tiveram lugar, circularam também vários pareceres de teólogos e de juristas acerca da aflitiva situação em que se encontrava a Coroa, o que ainda mais contribuiu para alargar o âmbito do debate. Exceptuando os contextos de ruptura dinástica, nunca antes se havia discutido, com tanta publicidade, matérias tão cruciais, e vários foram os oficiais régios que se aperceberam do melindre da situação. Depois de muitas hesitações, as Cortes acabaram por ser determinantes para sancionar a solução encontrada: D. Afonso VI

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manteria o título de rei, mas seria dado como incapaz para o governo, sendo por isso mesmo substituído nessas funções pelo seu irmão, o qual, por sua vez, foi jurado pelos «três estados» como «regente e governador do reino». O aval das Cortes serviu, de novo, para tornar socialmente mais aceitável essa situação profundamente anómala e que roçava a imoralidade. Uma vez mais era dada a oportunidade aos «três estados» para se pronunciarem sobre matérias da mais alta política. Contudo, e à semelhança do que sucedeu após 1640, da reunião de 1667-68 também não resultou qualquer iniciativa de relançamento do papel das Cortes no sistema político português. Na assembleia que se seguiu – celebrada em 1673-74 – alguns procuradores ainda tentaram pronunciar-se sobre a situação política que se vivia no reino, embora sem grande êxito, uma vez que os oficiais régios rapidamente circunscreveram o debate. A assembleia realizou-se em Lisboa, num momento em que corriam rumores de que o embaixador espanhol congeminava uma conspiração, facto que contribuiu para exaltar os ânimos176. A reunião terminou abruptamente, por ordem de D. Pedro, numa altura em que os debates ameaçavam provocar um tumulto, sobretudo porque a juntar aos rumores de que estava em curso uma conjura, vários foram os procuradores que fizeram declarações inflamadas sobre a situação em que se encontrava o governo do reino, reclamando o regresso de D. Afonso VI. Tendo em conta estes acontecimentos, compreende-se facilmente porque é que, nos anos que se seguiram, a Coroa favoreceu a identificação entre a assembleia de Cortes e a problemática fiscal. Ao concentrarem a atenção dos «três estados» na questão dos tributos, os oficiais régios evitavam que os debates tocassem em matérias consideradas demasiado sensíveis para serem discutidas na “praça pública”. Para além disso, a Coroa tinha plena consciência de que o aval das Cortes poderia ser decisivo para tornar socialmente mais consensuais as propostas fiscais, assim como para garantir que os influentes locais colaborariam com a Coroa no seu esforço para arrecadar o produto fiscal. Ainda assim, e apesar de ficarem cada vez mais centrados na questão fiscal – algo que ia ao encontro dos desejos da Coroa após 1640 –, os debates ocorridos nas Cortes nem por isso deixaram de contar com intervenções mais acaloradas, nas quais os vassalos não hesitaram em lembrar aos governantes do reino as suas obrigações, chegando mesmo a acusá-los de mau governo. Seja como for, no último quartel de Seiscentos assistiu-se a um gradual esvaziamento da capacidade das Cortes para intervir em matérias de alta política, com a excepção da fiscalidade, área que praticamente monopolizou as discussões. Tal não significa, no entanto, que a «assembleia dos três

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estados» se tivesse tornado na única instância competente nessas matérias. De facto, a par das Cortes, a Coroa foi explorando outras formas mais céleres de negociação fiscal. Assim, para além de ter confiado cada vez mais à Câmara de Lisboa o papel de principal interlocutor, favoreceu órgãos mais ágeis e politicamente mais controláveis pela Coroa – como a Junta dos Três Estados –, opção que acabou por ditar o esvaziamento de algumas das competências da «assembleia dos três estados». No que respeita à política tributária, convém ter presente que a grande questão se jogava no controle sobre a administração fiscal. Inicialmente, os municípios lograram manter nas suas mãos a gestão do fisco. Todavia, tal gerou numerosas situações de desvio de dinheiro e de cobrança fiscal muito abaixo das expectativas, o que levou à criação de uma série de órgãos vocacionados para o controlo da própria administração tributária da Coroa, de que um dos melhores exemplos é a referida Junta dos Três Estados, a qual desenvolveu uma tenaz luta com as câmaras das principais cidades do reino tendo em vista dominar os mecanismos de gestão dos impostos cobrados nessas urbes. Essa junta começou por ser composta por representantes dos «três estados», mas com o tempo foi deixando de contar com deputados directamente nomeados pelo «estado dos povos», o que suscitou algum descontentamento. O confronto entre as cidades do reino e a Junta dos Três Estados – órgão fundamental e que continua à espera de um estudo aprofundado – representa, afinal, o esforço da Coroa em penetrar nessas «comunidades de privilégios» que eram os núcleos urbanos.

Os territórios ultramarinos e a sua representação no centro político
Como é bem sabido, a tradição jurídica vigente na época moderna previa que a soberania sobre um reino poderia ser adquirida através das seguintes vias: por herança; por acordo de todos os representantes do reino, que livremente manifestavam a vontade, em sede de assembleia representativa, de se sujeitarem a um senhor, transferindo-se de um soberano para o outro; por casamento; por outorga do Papa; e, finalmente, por conquista. Cada uma destas formas de incorporação territorial previa determinadas consequências ao nível da dignidade e dos direitos políticos gozados pelas instituições que administravam as terras que eram objecto da incorporação. Vários destes mecanismos agregativos foram postos em prática pelas casas reais ibéricas, tanto na Europa, no quadro do processo de alargamento dos seus domínios, como fora dela, no âmbito do desenvolvimento dos seus impérios ultramarinos. Como começámos por sugerir, cada uma das unidades políticas mais “vastas” – como um reino, uma monarquia ou um império – era vista

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como uma comunidade de comunidades, como um conjunto de corpos políticos agregados por laços de natureza diversa e escalonados segundo uma ordem fortemente hierárquica, ordem essa que conferia a cada uma das partes direitos políticos desiguais. Tal desigualdade era bem visível no interior da Península Ibérica, onde, como verificámos, prevalecia uma rigorosa hierarquia entre os vários reinos e, dentro destes, entre as diversas cidades. É essa hierarquia que explica o facto de apenas uma pequena parte das urbes ter assento nas Cortes. No que toca aos territórios extra-europeus das Coroas ibéricas, esse escalonamento hierárquico também marcou presença, não só ao nível das relações entre as várias cidades ultramarinas, mas também dos laços que estas mantinham com as suas congéneres peninsulares. Assim, na fase inicial da colonização das possessões ultramarinas, a dignidade das instituições situadas nessas terras era muito inferior à das comunidades peninsulares, realidade que, desde logo, tinha uma consequência bem visível na «assembleia dos três estados»: as cidades ultramarinas começaram por estar ausentes da reunião que congregava as principais urbes do reino. Importa não esquecer que os domínios extra-europeus das Coroas Ibéricas foram inicialmente tratados como «conquistas», termo que, de resto, surge frequentemente na documentação coetânea. Como assinalámos, o estatuto de «conquista» evocava o modo como esses territórios tinham ingressado nos domínios dos monarcas ibéricos, envolvendo sérias consequências quanto aos direitos políticos gozados pelas suas instituições e pelos seus habitantes: eram territórios escalonados numa posição inferior face aos domínios europeus das Coroas ibéricas, estando as suas populações desprovidas de alguns dos mais substantivos direitos políticos, como por exemplo a «honra» de tomar parte na assembleia de Cortes. Tal não significa, porém, que as instituições representativas estivessem ausentes dos domínios ultramarinos das Cortes ibéricas. No caso das possessões extra-europeias da Coroa de Castela, por exemplo, o seu ordenamento jurídico admitiu a realização de reuniões entre cidades da América para a resolução dos conflitos surgidos entre elas, estabelecendo-se uma hierarquia que, de alguma maneira, evoca aquela que existia nos reinos de Castela entre as urbes com assento em Cortes e as restantes povoações. Como assinalou Carlos Dias Rementeria a propósito da administração da América Espanhola177, já em Junho de 1530 se contemplava a possibilidade de se celebrarem congressos de cidades da Nova Espanha, de entre as quais a cidade do México teria o primeiro voto. Anos mais tarde, em Abril de 1540, estipulava-se a realização de reuniões similares no ViceReinado do Peru, considerando-se a cidade de Cuzco como a principal entre as que integravam essa circunscrição administrativa. Importa frisar,

O vice-rei do Peru. a própria Coroa tomou a iniciativa de as chamar. Como já foi referido. Assim aconteceu sob o valimento de Olivares: numa carta régia de Maio de 1635. sino en la calidad dellos. foi um dos governantes incumbidos de pôr em prática essas medidas. a qual denota uma assembleia de menor dignidade do que a reunião dos «três estados». À medida que as instituições urbanas do continente americano se consolidaram. Estamentos ni Parlamentos. no quadro da «Unión de las Armas» a Coroa dirigiu insistentes apelos no sentido do aprofundamento da integração entre as distintas partes da Monarquia. Previa-se também que esses representantes aproveitassem a vinda à Europa para tratar de outros assuntos178. tendo em vista envolver os territórios ultramarinos no esforço de defesa da Monarquia Hispânica179. sorteados entre as províncias integrantes desse Vice-Reinado. assinala algo de muito interessante sobre a capacidade política das cidades americanas: «Si bien reconozco que en las Indias no hay Junta de Cortes. pois remete para a questão a que atrás aludimos: a diferença de hierarquia entre as cidades europeias e as urbes americanas. em vez desse termo. A ASSEMBLEIA DE CORTES. acorressem às reuniões das Cortes de Castela e Leão onde fossem jurados príncipes. [sublinhado nosso] Que aunque hay caballeros de calidad. Brazos..ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. suelen ser los que tienen menos mano en ayudar a estos arbitrios. no sólo en el poder que los vasallos tienen en estos casos. pois nela o vice-rei constata a ausência de uma assembleia que servisse de fórum de negociação para estabelecer alguma concertação às iniciativas da Coroa em terras americanas. en quien caben todo este género de mercedes. Y se suele hallar más ayuda . M. todavía creo que lo que importa a su real servicio es.. 215 contudo. deliberadamente. numa das suas missivas que enviou ao Real Consejo de las Indias. a palavra «congresso». que a estas reuniões jamais foi dada a denominação de «Cortes». dirigida ao Vice-rei da Nova Espanha. Esta declaração do conde de Chinchón reveste-se de um grande interesse. as suas pretensões políticas alargaram-se consideravelmente. os coetâneos utilizavam. conde de Chinchón. Por vezes. e. no sólo que se imponan los tributos. sino que se reciban y paguen por sus vassallos con obediencia y gusto. e algumas urbes chegaram mesmo a reivindicar o direito a tomar parte na assembleia representativa que reunia as cidades de Castela-Leão.. tendo em vista reforçar o laço de ligação entre a metrópole e suas possessões ultramarinas. A resposta que o Consejo de las Indias deu ao Vice-Rei do Peru não é menos sugestiva. O Consejo de las Indias afirma que «las Indias son muy diferentes de los otros reinos. es libre y absoluta. y que así la potestad real de S. coloca-se a possibilidade de que quatro procuradores. Y a esto será mucho provecho la esperanza en unos y certidumbre en otros de ser remunerados»180.

têm contribuído para esclarecer o modo como se processava a comunicação política entre a corte e os territórios ultramarinos. mas também política. Todavia. como meio de as comprometer com o esforço conjunto do reino. Assim. junto da Coroa. o principal desafio consistiu em encontrar expedientes representativos que fossem capazes de espelhar os territórios cada vez mais vastos e as populações cada vez mais variadas que estavam sob o comando dos monarcas lusos182. os poderes municipais do ultramar foram relativamente céleres a adquirir uma identidade política mais vincada. portavozes das aspirações e das reivindicações dessas terras. Na verdade. aludindo a lendas fundadoras e enaltecendo os serviços militares desempenhados pelas gentes que aí viviam. são muitas as petições assinadas por um conjunto de municípios. No caso português. Eram escritos com um fundo reivindicativo muito marcado. Para o Brasil de finais do século XVI e do século XVII. Algo de semelhante se passava no reino de Portugal e nas suas possessões ultramarinas. por exemplo. com o contínuo processo de expansão territorial. da sua população e das suas instituições. Os trabalhos de Charles Boxer184 e de Evaldo Cabral de Mello185. y con aquellos acuerdos. direitos e liberdades-imunidades. Dificilmente encontraríamos uma declaração mais taxativa da “menor qualidade” social. pois reclamavam prerrogativas. muitas vezes. fácilmente se introduce la materia en los cabildos eclesiásticos y seglares. cuales les parece. com a realeza comunicavam os titulares dos cargos governativos e administrativos das regiões ultramarinas. também a Coroa portuguesa tinha consciência de que era necessário criar formas de participação das elites ultramarinas. também as câmaras municipais desempenharam esse papel. assumindo-se como interlocutores com a Coroa. . tanto do reino como dos territórios extra-europeus sob a jurisdição dos monarcas portugueses183. dos territórios americanos. e tal como sucedia no império espanhol. os quais eram. concorrendo para fortalecer a identidade política local e para reafirmar a auto-suficiência das câmaras187. cuando conviene y se halla dispuesta»181. Além disso. entre outros. y comunicándolo con los corregidores y los prelados. Y no hay votos en Cortes ni junta de ayuntamiento. falando em nome dos habitantes que estavam sob a sua alçada e «representando» – tornando presente ao rei – os problemas que afectavam essas populações186.216 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS en el consulado de los mercaderes y en otros hombres de trato. tendo sido necessário encontrar formas de tornar presentes. este problema tornou-se especialmente premente. Tais textos vinham muitas vezes acompanhados de longos escritos onde se descrevia a história local. os interesses dos vários corpos sociais. No período de Quinhentos e de Seiscentos. sino que hacen los virreys juntas de ministros y llaman algunos vecinos.

muitos deles ainda em fase embrionária. No que respeita à presença de representantes de cidades americanas nas Cortes portuguesas.. ao contrário do que era predominante no caso das câmaras do reino191. uma maior capacidade de comunicação com a Coroa. os trabalhos de Fernanda Bicalho e de Fátima Gouvêa sugerem que este fenómeno tem de ser associado ao aparecimento do título de «Príncipe do Brasil». Seja como for. Durante o período de Quinhentos os municípios da parte Oriental do Império – de que o melhor exemplo é Goa – desfrutaram de um estatuto claramente destacado. dessa forma. A importante temática do estatuto de cada cidade – peninsular e ultramarina – carece ainda de um estudo aprofundado. honras e liberdades que tinham sido conferidos aos cidadãos do Porto em 1490. ao saberem que estava para breve a vinda de Filipe III a Portugal.. ou seja. sobretudo quando comparados com a menor projecção dos poderes locais da América Portuguesa. por exemplo. . A preocupação por manter a ligação entre a Coroa portuguesa e os territórios ultramarinos. com o rei. E nas assembleias realizadas após 1640 há representantes de câmaras municipais da cidade de Goa. 217 Além disso. bem como da América Portuguesa. como assumiram um grande protagonismo na sessões de trabalho das Cortes. em privado. Após 1654 algo de semelhante terá ocorrido com algumas câmaras de Pernambuco e das capitanias limítrofes. importa ter em conta que algumas câmaras americanas. manifestaram a vontade de participar nas Cortes convocadas para 1619188. Já no século XVII. A ASSEMBLEIA DE CORTES. outras cidades brasileiras vão ver o seu estatuto dignificado: em 1642 os cidadãos do Rio de Janeiro recebem os mesmos privilégios. membro da comissão incumbida de acompanhar a reunião até ao seu termo189. numa época em que estes eram cobiçados por outras potências europeias. acompanhando o selecto grupo das cidades do primeiro banco que reunia. chegando mesmo a ser nomeado «definidor». para resolver os assuntos pendentes.. e onde o único caso mais saliente era o da câmara da Bahia. pois denuncia alguma mobilidade e algum voluntarismo. adquirindo. também explica esta camada das câmaras extra-europeias para as Cortes. Na assembleia de 1653. deparamos com Jerónimo Serrão de Paiva a actuar como «procurador do Brazil». o mesmo se podendo dizer da equiparação dos privilégios de alguns municípios ultramarinos àqueles que eram gozados pelos habitantes das principais cidades do reino (com a excepção de Lisboa.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. podendo indiciar uma mudança de estatuto desta possessão ultramarina190. tudo indica que a “dignidade” das diversas partes do Império era algo de dinâmico e oscilante. Convém notar que estes procuradores não só participaram na abertura solene. «cabeça do reino»). devido ao papel por elas desempenhado na luta contra os neerlandeses. Trata-se de um tema importante.

prescindindo. sobre a política dinástica ou sobre as relações internacionais da Coroa. Thompson. era muito mais pessoal. após 1640 Portugal passou a contar com um rei permanentemente residente no seu território. afectando. e de um modo geral aceitaram que essas questões. pela sua complexidade. O fenómeno que acabámos de descrever é comum aos vários reinos da Península Ibérica. a comparência de uma parte considerável da aristocracia e do alto clero nas Cortes portuguesas. como vimos. Além disso. A. Quanto ao clero. na Catalunha. Para os aristocratas de finais do século XVII a política jogava-se. as reuniões dos «três estados» foram deixando de opinar sobre questões do governo geral do reino. ou a recusa em aceitar a nomeação para um determinado cargo195. favorecia a convocatória assídua das Cortes. acabaram por ser os conselhos régios e as próprias instituições judiciais193. e como bem notou I. sobretudo. porquanto os diversos sectores do «estado eclesiástico» desenvolveram os seus próprios canais de influência e de comunicação com os círculos régios.218 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS O fim da convocatória das Cortes No final de Seiscentos. tornava-se cada vez mais evidente que tanto a Coroa como os vários grupos sociais estavam a desinvestir nas Cortes. quando comparada com outros contextos europeus – como Inglaterra –. enquanto corpo social. na corte e nos conselhos palatinos192. facto que. A. como vimos. traduzindo-se em reivindicações de carácter pontual. ao . como por exemplo a exigência de que o rei fosse libertado da influência de um valido que se revelara mau ministro194. no seu conjunto. ao contrário do que se passou em Aragão. com a Coroa. na negociação fiscal. as Cortes também estavam longe de ser o seu principal espaço de articulação com a Coroa. as principais instâncias de protecção da nobreza e de garantia dos seus direitos. da «assembleia dos três estados». concentrando-se. em Valência ou nos demais reinos peninsulares – com a óbvia excepção de Castela –. É certo que o caso português se reveste de alguma especificidade. cada vez mais. cada vez menos faziam parte do seu elenco de tarefas. A aristocracia cada vez menos viu na assembleia representativa o seu principal fórum de diálogo. Importa notar que os procuradores não se opuseram a esse processo. a oposição aristocrática no mundo ibérico tinha um cunho menos constitucional. pois. Como assinala o mesmo Thompson. nessa época. todas as suas assembleias representativas. O afastamento entre a aristocracia e as Cortes contribuiu para desviar dessa assembleia o debate sobre uma série de matérias da alta política. Com o tempo. Assim se compreende porque é que os nobres castelhanos raramente escolheram as Cortes como principal espaço de confronto com a política da Coroa.

contribuiu para que os municípios deixassem de acreditar na eficácia dessa assembleia para resolver os seus problemas199. uma maior capacidade de pressão sobre a Coroa.. órgãos de natureza diversa. em geral desprovidos de um carácter parlamentar e com uma composição menos numerosa. em todas as leis produzidas pelas Cortes era enunciado. Também isso contribuiu para que. I. tanto com figuras do «estado eclesiástico» como com elementos da nobreza. facto que os tornava mais ágeis em termos de gestão dos assuntos governativos. J. a presença do «estado eclesiástico» e do «estado da nobreza» proporcionava às Cortes não só publicidade. funcionava como factor de “resistência cultural” a iniciativas governativas mais voluntaristas e puramente executivas da Coroa. uma vez que também ela participava – e dependia – desse imaginário jurisdicionalista197. por um sistema jurisdicional bastante independente. conferiu a este órgão alguma força e prestígio. ou seja. sobretudo. de forma clara. em Portugal. as Cortes lograram exercer uma assinalável influência sobre a legislação do reino. por um mecanismo de procedimento administrativo materializado nos diversos tribunais. Quanto à vigilância sobre o governo. através das petições. por exemplo. tal como em Castela. que cabia ao monarca o mais eminente poder legislativo. indirectamente. Seja como for. ao lado destas assembleias foram surgindo. nessa função.. A ASSEMBLEIA DE CORTES. perante os conselhos e tribunais . mas também autoridade moral196 e. a partir de finais de Seiscentos. e apesar disso. nas suas fileiras. ao longo dos séculos XVI e XVII várias normas resultantes de Cortes acabaram por ser alteradas sem que os «três estados» tivessem podido pronunciar-se198. desde o século XVI. Cumpre notar que as Cortes não foram as únicas instituições representativas a actuar nos diversos reinos ibéricos. De qualquer modo. o que. o que. cuja função era velar pelo cumprimento dos acordos de Cortes e gerir. Além diso. Acresce que a cultura política do tempo continuava a ter no seu centro o primado da justiça. por si só.. consequentemente. Fortea Pérez reconhece que. 219 longo de toda a segunda metade de Seiscentos.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. Com efeito. Como assinalámos. também em Portugal as Cortes foram perdendo protagonismo. Em Castela. deixando de exercer uma função consultiva e sendo paulatinamente substituídas. pelo Conselho de Estado e pelos demais conselhos palatinos. o controle constitucional foi cada vez mais desempenhado pelos conselhos palatinos e. Acresce que os oficiais régios tenderam a ser cada vez mais relapsos na resposta às petições entregues nas Cortes. órgãos que contavam. Carlos V estabeleceu – em 1525 – uma Diputación del Reino. as assembleias de Cortes tenham sido postas à margem do principal processo político200. No que respeita à alegada competência legislativa das Cortes.

eviden- . acima de tudo. Como sugerimos no início deste ensaio. a pluralidade dos canais representativos coetâneos espelhava um ambiente profundamente heterogéneo em termos jurisdicionais. o direito de representação não podia assentar num único expediente representativo. Tais partes eram muito diferentes entre si. os ministros régios conseguiram penetrar nesse órgão. sobretudo quando o seu Senado se apresentava como «cabeça do reino» e falava em nome das demais cidades. e que em 1639 se converteria num tribunal supremo sobre matérias fiscais. A esta lógica se opõe. onde o princípio da igualdade pesava pouco. quando negociavam directamente com o rei. essas diferenças. também concorriam com as Cortes. um órgão inicialmente composto apenas por comissários nomeados pelas cidades. entre outras atribuições. e em 1658 a Comisión acabaria por ser integralmente absorvida pelo Consejo de Hacienda da Coroa de Castela. por uma justiça típica de uma sociedade aristocrática e hierárquica. a partir da entrada em cena da Comisión de Millones. As cidades. Como assinalou Giovanni Levi. das juntas restritas do tempo de Filipe III e de Olivares. e também em Castela. porém. Portugal também assistiu à paulatina criação de órgãos que desempenhavam funções representativas e que eram titulares de atribuições potencialmente esvaziadores das competências das Cortes. Por surgir num corpo social extremamente diversificado. igual para todas as partes do corpo social. da já referida Junta dos Três Estados (1643). e. J. I. Na realidade. Fortea Pérez nota que. É esse o caso de alguns dos conselhos palatinos. Cabia à Diputación. e onde o direito de representação tinha mais em conta a qualidade do que a proporcionalidade aritmética entre as partes que compunham o todo203. passou a existir uma duplicidade de órgãos representativos com competências na área fiscal202. o mesmo se podendo dizer do município de Lisboa. Já no início do século XVII. representar o reino nos períodos em que as Cortes não estavam reunidas. Com o tempo. É importante frisar que a pluralidade de formas representativas a que temos vindo a fazer alusão estava intimamente relacionada com a heterogeneidade do espaço sócio-político dos séculos XVI e XVII. lidamos com um espaço social não-homogéneo e não-uniforme. os problemas cuja resolução as cidades lhe confiavam201. onde cada um tinha direitos diferenciados e onde tudo o que era semelhante em status se devia unir e ser tratado com os seus semelhantes.220 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS régios. foi criada a Comisión de Millones (1611). e profundamente hierarquizado no que toca ao estatuto de cada uma das partes que integrava o corpo político. também. e a pluralidade de órgãos representativos de que falámos reflectia. a justiça distributiva das sociedades do Antigo Regime era governada por uma «igualdade geométrica».

a verdade é que nenhuma das assembleias representativas ibéricas funcionou como um órgão que congregasse... para que as Cortes jamais se tivessem tornado no principal palco de defesa dos direitos de cada um dos grupos sociais face às investidas da Coroa. Elliott. A ASSEMBLEIA DE CORTES. mesmo nesta fase de perda de protagonismo. os tribunais e. de forma muito clara. sem dúvida. Não obstante a concorrência que sofreram. 221 temente. Quanto a Portugal. um ano muito difícil para a monarquia206. os procuradores acabaram por não levar até ao limite a sua acção. Tal contribuiu. a igualdade da proporção aritmética da sociedade democrática. momento em que foi concedido. aquando do afastamento do rei D. quando da ruptura com a Monarquia Hispânica. e ao contrário do que sucedeu com os Parlements de França. No caso de Castela. de forma homogénea. não foram completamente inoperantes205. o controle do novo imposto dos millones tornou-as capazes de desenvolver uma oposição de cariz mais constitucional. a abertura das Cortes de 1646 também foi acompanhada por disputas com a Coroa.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. Afonso VI e da afirmação do seu irmão D. determinados interesses de corpo207. que não aceita diferenças de status e que se baseia na justiça comutativa204. Após a queda de Olivares. foram as instâncias que. por causa da concessão de plenos poderes aos procuradores. conjunturalmente. outros foram os motivos que concorreram para a marginalização das Cortes: a reunião dos «três estados» foi frequentemente substituída por conselhos (função consultiva e . No entanto. Em plena crise. duas excelentes oportunidades para o fazer: em 1640. e como assinalámos. de uma forma geral. Pedro. embora o confronto geral entre a Coroa e os poderes urbanos estivesse iminente em 1647. exerceram o principal papel de vigilância e de controle constitucional sobre a acção da Coroa. vimos atrás que jamais manifestaram muito empenho em usar a reunião dos «três estados» como instrumento para reconfigurar o regime de relacionamento que mantinham com o monarca português. Seja como for. em última análise. No que toca aos procuradores. no entanto. demonstrou. Os conselhos palatinos. que as assembleias. não há dúvida de que o facto de o clero e a nobreza continuarem a comparecer nas Cortes proporcionou força moral a esta assembleia. estes dois grupos nunca encararam a assembleia como o seu principal palco de interacção com a Coroa.. John H. um excepcional protagonismo político às Cortes. o conjunto do sistema administrativo-judicial. as Cortes não ficaram totalmente desprovidas de poder. e em 1667-68. Para além do que acabou de ser mencionado. A luta pela preservação dos privilégios corporativos teve lugar em outros órgãos e em outros sectores da vida política. embora tivessem tido. pelo menos.

A nobreza e o clero continuaram a responder à convocatória. para alguns. de não reunir as Cortes que o falecido Filipe IV havia deixado convocadas. ao «donativo». a Coroa recorreu. reunião que praticamente se limitou a debater questões fiscais. como vimos. a 25 de Julho de 1667. um expediente fiscal que não carecia de aprovação das Cortes209. os oficiais régios tornaram-se mais relapsos na resposta às petições. Seja como for. mas a maioria dos seus membros acabava por participar. mas sim. adiar sine die a sua convocatória. e em vez disso. da sua parte. Depois dessa data o monarca não voltou a convocar as Cortes. já que. Por outro lado. Perante tudo isto. dispensava a convocatória da assembleia representativa. facto que. cada vez mais encararam a participação nas Cortes como um dispêndio pouco compensador. A par disso. os reis e os seus ministros.222 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS executiva). para o clero a assembleia também foi perdendo peso no seu relacionamento com a Coroa. o «estado eclesiástico» desenvolveu os seus próprios canais de influência. aos poucos. Em Portugal as últimas Cortes do Antigo Regime celebraram-se em 1697-98. Da parte das cidades não se registou nenhuma reacção hostil a esta decisão. por juntas (administração fiscal) e pela comunicação directa entre a Coroa a as cidades (negociação directa)208. abandonando a reunião assim que podia. convém lembrar que a decisão de 1667 tem também a ver com a circunstância de Carlos II ser um rei menor e de se recear que a assembleia se pudesse converter num foco de oposição ou de desestabilização210. ficaram sempre muito aquém do prometido. sempre que introduziu novas exacções recorreu ao argumento de que o que estava em jogo não eram novas contribuições mas sim. caso das taxas alfandegárias. Talvez por causa disso. nos eventos cerimoniais que contavam com a participação do soberano. preferindo investir em outros canais de comunicação política e em outras formas de fiscalidade mais fáceis de introduzir sem a aprovação das Cortes. embora jamais tenha declarado que não voltaria a convocar os três estados. com cada vez mais frequência. por seu turno. apenas. a renovação das contribuições já existentes. Nessa data decidiu-se não propriamente suprimir as Cortes. a Coroa. para não suscitar reacções adversas. Quanto às contribuições fiscais estabelecidas em Cortes. até porque. compreende-se melhor a decisão tomada pela regente de Castela Mariana de Áustria. As cidades e as vilas. e em vez disso. mostraram-se cada vez mais relutantes em chamar as Cortes. o que fez com que a Coroa olhasse para a assembleia como um órgão cada vez menos eficaz na criação de consenso em torno da fiscalidade. Por último. a prática negocial com a Coroa à margem das Cortes estava já amplamente implantada. o certo é que os anos foram passando sem que as Cortes tives- .

Todavia.. era para todos claro que. uma atitude governativa mais abertamente voluntarista e executiva. projecto esse que suscitou uma polémica pública sobre o «absolutismo» régio. sustentava que em Portugal nenhum órgão limitava o poder do rei. Nesse contexto. na viragem para o período Setecentista. não foi só nesse momento que as Cortes voltaram a estar no centro do debate político-jurídico de finais de Setecentos e de início do século XIX. No entanto.. ao passo que António Ribeiro dos Santos pugnava por um entendimento mais tradicional de monarquia. A «assembleia dos três estados» voltou a estar no centro do debate político no final de Setecentos. 223 sem sido chamadas. No contexto das revoluções liberais. por seu turno. nem como uma situação que punha em risco o equilíbrio de forças entre o rei e os estados sociais. à medida que se avançou no período de Setecentos. pelos círculos régios. agora sim. referindo-se às leis fundamentais e ao seu «carácter sagrado». Como acabámos de dizer. autor do Projecto de alteração do dito Livro II. Depois de um longo debate. as Cortes passam a ser apresentadas como uma assembleia que reunia por mera opção do rei. vários foram aqueles que continuaram a evocar as Cortes e a apresentá-las como um órgão que controlava a acção do monarca. foi-se instalando um ambiente político mais regalista. no qual a convocatória dos «três estados» começou a ser encarada. Na verdade. embora se tenha falado dessa assembleia a propósito de algumas das novas exacções que a Coroa foi impondo. foi . a doutrina de um poder régio moderado e alegadamente fiel à tradição portuguesa acabaria por vingar. recusando-se a esse órgão qualquer veleidade de controle constitucional ou de limitação dos desígnios da Coroa. encarando-as como repositório de elementos limitadores do poder régio.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. no século XVIII as Cortes de Portugal jamais foram convocadas. e não obstante todo o avanço das doutrinas regalistas. cujo poder era partilhado com os demais corpos sociais. facto que. os tribunais e o conjunto do sistema jurídico-administrativo eram garantias suficientemente fortes para resistir a iniciativas mais voluntaristas da Coroa. Pascoal de Melo Freire. A ASSEMBLEIA DE CORTES. Bartolomé Clavero recordou que. a ausência de «assembleias dos três estados» não foi encarada como um atentado aos direitos dos vários corpos do reino. como uma cedência cada vez menos aceitável da parte de monarcas que se distinguiam por assumir. as Cortes do Antigo Regime voltaram a polarizar o debate político-constitucional. Seja como for. também não provocou qualquer escândalo. Como tal. nem sequer para a inauguração de cada novo reinado. no momento em que se projectou alterar o Livro II das Ordenações Filipinas. Ribeiro dos Santos defendeu as Cortes. sintomaticamente.. Pascoal de Melo Freire. na Espanha dos primeiros anos de Oitocentos. facto que travou a aprovação da reforma211. postulava um conceito «absoluto» de realeza.

Junta de Castilla y León. «Las Cortes de Castilla y su Diputación en el reinado de Carlos II. os membros da dita comissão ficaram também impressionados com a ausência de um articulado escrito e de natureza constitucional que estabelecesse. Santander. 1997. El Mundo Urbano en la Corona de Castilla (s. Veja-se. 117–138. 17 (1997) pp. NOTAS 1 Pablo Fernández Albaladejo.). «The Cortes of Castile and Philip II’s Fiscal Policy». . pp. 15 (III cuatrimestre. Monarquía y Cortes en la corona de Castilla. a fraca representatividade das Cortes e a sua falta de liberdade na escolha dos representantes. Revista de las Cortes Generales. I. Nas Cortes da época moderna prevalecia «una forma de vana representación y una sombra de libertad». 317-337. Universidad de Murcia. La España del Conde Duque de Olivares. Fragmentos de Monarquía. pp. Madrid. Era toda uma nova leitura da política – e dos princípios constitucionais – que estava a ganhar forma. VV. Múrcia. Las alternativas fiscales de una opción política (1590-1601)». A. Revista de las Cortes Generales. Além disso. pp. Universidad de Valladolid. Ao analisarem as assembleias dos séculos antecedentes.224 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS constituída uma Comissão que tinha como objectivo restabelecer a assembleia representativa212. as sessões das Cortes. pp. Studia historica. Valhadolide. Cremades Griñán (orgs. 2001. desde tempos ancestrais. 421-445. Pardos «Castilla.). essa comissão procurou reconstituir o modo como se processavam. pp. Cortes de Castilla y León. 1 (1984) pp. Reunida a partir de 1809. o lugar das Cortes no sistema político do Antigo Regime. I. territorio sin Cortes (siglos XV-XVII)». Elliott & A. 1992. Fortea López & Carmen M. 1989. 2 José Ignacio Fortea Pérez. também. Cortes y “cuestión constitucional” en Castilla durante la edad moderna». os membros da dita comissão destacaram alguns dos aspectos que mais negativamente os impressionaram: antes de mais. Estates and Representation. «Monarquia. Las ciudades y la política fiscal de Felipe II. 113-208. Calderón de la Barca y la España del Barroco. em boa medida. a debilidade das Cortes do Antigo Regime devia-se. Universidad de Cantabria. XVI-XVIII). 477-499. 53-82. Fernández Albaladejo e J. de P. Trabajos de Historia Política. «La resistencia en las Cortes» in John H. Salamanca. Centro de Estudios Políticos y Constitucionales-SEENM. 63-90. Política y Hacienda en el Antiguo Régimen.. «Cortes y poder real: una perspectiva comparada» in AA. de uma forma sólida e clara. «Entre dos servicios. Actas de la Segunda Etapa del Congreso Científico sobre la Historia de las Cortes de Castilla y León. 1992. Para os membros da dita comissão. «Reino y Cortes: el servicio de milliones y la reestructuración del espacio fiscal en la corona de Castilla (1601-1621)» in J. Alianza. Historia Moderna. à inexistência desse texto escrito. «Orto y ocaso de las Cortes de Castilla» in José Alcalá-Zamora & Ernest Belenguer (orgs. La crisis de la hacienda real a fines del siglo XVI.). García Sanz (orgs. afirmavam. acrescentando que os procuradores das cidades «nunca representaban la Nación»213. vol. 11 (1991) pp. 1988) pp. 779-803. 11-34. Las Cortes de Castilla y León en la Edad Moderna. Madrid. Salamanca. 1990. Parliaments. las Cortes y el problema de la representación política en la Castilla Moderna» in Imágenes de la Diversidad. 1990. «Las Ciudades. Valhadolide.

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O Tempo de Vasco da Gama. Universidad. Cortes e Cultura Política no Portugal do século XVII. .. cit. Thompson. cit.A. Xunta de Galicia. os estudos de Nuno Gonçalo Monteiro.). I. actas do Colóquio: Évora. «As Cortes de Torres Novas. 51 Consulte-se.A. G. 1987. Colibri. La proyección europea de la Monarquía hispánica. consulte-se. 276-300. pp. «A romano-canonical maxim: “Quod omnes tangit”». Fortea Pérez. Traditio. Madrid.). 1996. El Mundo Urbano en la Corona de Castilla (s. 45 Pedro Cardim. El rei aonde póde. 2003. 47 Fernando Bouza Álvarez. 1997.). Primera Parte… (Madrid. pp.. Romero Magalhães. Battista de Luca)». Maria Helena da Cruz Coelho & J. Santiago de Compostela. pp. o foral manuelino e o devir quinhentista.. pp.). Revista de Ciências Históricas. pp. 1986. González Lopo (orgs. Lisboa. Difel. pp. «As Cortes de 1481-1482» in D. I. 34 segs. 1627) f. 2 (1987) pp.. 56 M. Ramada Curto (org. El Imperio de Carlos V. I. Valhadolide. López & Domingo L. 53 No caso de Portugal. & não aonde quer. I. Actas del VI Coloquio de Metodología Histórica Aplicada. Fraude y Desobediencia Fiscal en la Corona de Castilla. 49-104. Imágenes de la Diversidad.” nello stato della Chiesa del seicento (secondo il pensiero di G. Lisboa. J. 48 Sobre este tema cfr. Balance de la Historiografía Modernista. 1969. designando simplesmente o espaço dependente das principais cidades – cfr. O Poder Concelhio…. desde há alguns anos. Juan Delgado. «La respuesta castellana ante la política internacional de Felipe II» in AA. Iurisdictio. Ley Regia de Portugal. veja-se. 1998. Madrid. de Rita Costa Gomes. «Patriotismo y política exterior en la España de Carlos V y Felipe II» in Felipe Ruiz Martín (org. Pietro Costa. também. 17-175.).A. 1973-2001. 1621-1700. Rodríguez-Salgado. Itinerários e Problemáticas». Thompson. 49 (1970) pp. Santander. 489-514. Acerca deste tema cumpre consultar. 1998. Círculo de Leitores. Milão. 44 Fernanda Olival. 2000. pelo Centro de Estudos Históricos da Universidade Nova de Lisboa. Semantica del potere politico nella pubblicistica medievale (1100-1433). consulte-se. «Doctrinas y prácticas fiscales» in Roberto J. 111v. Cosmos. as Cortes de Évora e as reformas administrativas dos inícios do século XVI». Fundación Carlos de Amberes. Giuffrè. Lisboa. 1998. Ermini.230 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS III a Portugal. 52 João Salgado de Araújo. um dos principais elementos a destacar é a inexistência de corpos intermédios entre as cidades e o reino. de Beatriz Cárceles de Gea. 55 Cfr. 4 (1946) pp. em especial «Os Poderes Locais no Antigo Regime» in César Oliveira (org. 2000. 196-251.. 223-260. 1996. 258 segs. Novembro de 2001 (no prelo). História dos Municípios e do Poder Local (Dos finais da Idade Média à União Europeia). tratase de um vocábulo que não tinha uma correspondência administrativa muito clara. 54 Gaines Post. «Patronato Real e Integración Política en las Ciudades Castellanas Bajo los Austrias» in J. Lisboa. também. Razões da política no Portugal seiscentista. XVI-XVIII). Junta de Castilla y León. in genere. Portugal en la Monarquía Hispánica. o magnífico trabalho realizado por J. Apesar de o termo «província» surgir na documentação. Editorial Complutense. Fortea Pérez (org. «Il principio “quod omnes tangit etc. Bernardo García (dir.A.). também. 49 Cfr. Rivista Storica della Accademia. Procesos de Agregación y Conflictos. tanto nos domínios europeus da Coroa lusitana quanto no ultramar. 46 Ângela Barreto Xavier. Para o contexto português. 475-496. 50 Na linha do trabalho de edição de fontes históricas que está a ser efectuado.

.. As Cortes Medievais Portuguesas. Tweekamerstelsel vroeger en nu.A.. 113. Speculum. XXXVIII. «Roman Law and early representation». «Rappresentanza politica» in AA. A ASSEMBLEIA DE CORTES. Haia. pp. também.A. 18 (1943). «Aristocracy and Representative Government…. 1990. pp.. ou na sua menoridade. vide. As Cortes Medievais Portuguesas.P. Sicília e Sardenha). Ministério das Finanças. onde deparamos com vice-reis a convocar e a presidir a assembleias..). 111 segs. Bicameralisme. 2000. Lisboa.. 68 I. na falta do rei. Carlos José Hernando Sanchez. 61 Fred Bronner. Nocilla & L.. Giuffré Editore. p. «Aristocracy and Representative Government…. W. VII. Anuario de Estudios Americanos. 2003. mas de uma forma indirecta. «La Unión de las Armas en el Perú. 60 A ausência do rei levantava problemas tanto para as Cortes de Aragão quanto para as da Catalunha. pp. «Celebration and Persuasion: reflections on the cultural evolution of medieval consultation». Armindo de Sousa. 121-134. Congreso Internacional de Historia .. Thompson & Pauline Croft. pp.. Thompson & Pauline Croft. 1988. pp. 279 segs. As Cortes Medievais Portuguesas. e também D. Bisson. Paolo Cappellini.. H. Lisboa. 63 I.. 1529-1664» in W. 1964. Blom. 75. Thompson & Pauline Croft. 2002. cit. 435-463. 70 Gaines Post. 464-465. pp. estudo que contém muitos dados sobre a percepção da política internacional nutrida pelos procuradores às Cortes de Castela. 1990. As Cortes Medievais Portuguesas. p. 24 (1967) pp. 69 Tal não significa. «El parlamento del reino de Nápoles bajo Carlos V: formas de representación. Enciclopedia del Diritto. as quais se realizaram com uma notável frequência. 329-387. 142 segs. 58 Rita Costa Gomes. Enciclopedia del Diritto. 62 Thomas N. 1990. Rappresentanze e Territori.A. 1990. quer por meio do seu ascendente sobre o governo de algumas cidades – I. pp. cit. continuaram a fazê-lo. Pedidos e empréstimos em Portugal durante a idade Média.. o regente podia convocar as Cortes – cfr. Legislative Studies Quarterly.. Ciaurro. porquanto o costume e a lei estabeleciam que só o monarca em pessoa podia chamar e presidir às Cortes. 1133-1176. cit. cit.).. Handelingen van de Internationale Conferentie ter gelegenheid van bet 175-jarig bestaan van de Eerste Kamer der Staten-Generaal in de Nederlanden. vol.. 231 VV. «De un fin de siglo a otro. 2 (1982) pp. Aspectos político-legales». facciones y poder virreinal» in Laura Casella org.. 1995. porém. 1988. pp. SECCFC. 1453-1463. La monarquía de Felipe II a debate. que os nobres tenham deixado de interferir nos trabalhos da assembleia. cit.. pp. A Corte dos Reis Portugueses no final da Idade Média. «Aristocracy and Representative Government in Unicameral and Bicameral Institutions: the Role of the Peers in the Castilian Cortes and the English Parliament. p.. Madrid..A.. . Unión de Coronas Ibéricas entre Don Manuel y Felipe II» in AA. Milão. 65 Armindo de Sousa. Milão. 1995. Tal princípio foi respeitado excepto em Navarra e na Península Itálica (Nápoles. quer através dos canais cortesãos de influência política. XXXVIII. Journal of maedieval studies. 1992. 181-204. Blockmans. Valhadolide. «Rappresentanza (Diritto intermedio)» in AA..VV. Xavier Gil Pujol... vol. Cfr..ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. 57 Fernando Bouza Álvarez.El Tratado de Tordesillas y su Época.A. 1992. VV. Difel.. Forum.. Giuffrè Editore. Sdu Uitgeverij Koninginnegracht. cit. 543-609. pp.VV.A. 64 Armindo de Sousa. 66 Vide Iria Gonçalves. de Schepper (orgs. 67 Armindo de Sousa. Parlamento Friuliano e Istituzioni Rappresentative Territoriali nell’Europa Moderna. 59 Em Portugal. «Republican Politics in Early Modern Spain…. cit. 75. 75 segs.. 1992. Udine.

83 Xavier Gil Pujol.. Defining Nations. cit. 74. em especial porque em Castela a Coroa usou a venda de lugares nas Cortes como fonte de rendimento. Santander. 781 segs. 84 J. 82 Tamar Herzog.caso de Écija. 183-218. 134v. «Orto y ocaso de las Cortes de Castilla»…. No século XVIII. Seja como for. conflicto y marginalización en la Edad Moderna. I. cit. Manuscrits. Rappresentanze e Territori. enquanto que o outro foi comprado por Palência. 1992.brown. Forum. Furor et rabies. 81-101. 81 Armindo de Sousa. I. «Aristocracy and Representative Government…. p. 251 segs. cit. Fazer e desfazer a história.A. 1992. Nessa ocasião. 74 António M.A.artigo disponível na Internet no seguinte sítio: http://www. pp. . «Le forme di rappresentanza nel sistema politico del Portogallo dell’Antico Regime» in Laura Casella org. «Ciudadanía. Volume 1. um dos votos foi adquirido colectivamente pelas cidades da Extremadura.. 75. «The Portuguese Mediaeval Parliament: Are We Asking the Right Questions?». Palência conseguiu realizar uma antiga pretensão: separar-se da cidade de Toro. cit. 424.pdf (Março de 2003). Udine. cit. E-Journal of Portuguese History. cit..º 2 (Fevereiro de 1989) pp. 79 J. Fortea Pérez. Fortea Pérez. pp.A. «Los abusos del poder: el común y el gobierno de las ciudades de Castilla trás la rebelión de las Comunidades» in J. Pedro Cardim. «Orto y ocaso de las Cortes de Castilla»…. 781 segs. Thompson & Pauline Croft. Hespanha. «Orto y ocaso de las Cortes de Castilla»…. 73 Cfr. I. Universidad de Cantabria.. Luís Miguel Duarte.. 19 (2001) pp. em 1625 a Galiza conseguiu um voto em Cortes a troco de um serviço de 100 mil ducados.. Fortea Pérez. Fortea. 2 (Winter 2003) p. Assim.. a troco de 80 mil ducados. «Aristocracy and Representative Government…. Violencia. Em 1639 a Coroa decidiu vender outros dois votos às cidades que quisessem comprá-los. New Haven y Londres. Immigrants and Citizens in Early Modern Spain and Spanish America. patria y humanismo cívico en el Aragón foral: Juan Costa». Mantecón (orgs.232 71 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS I. J.. Málaga. cit. segundo J. Lisboa. Thompson & Pauline Croft. n. Fortea Pérez.A. 215-236. 72 José Ignacio Fortea Pérez.). p. 1997. pp. «Aristocracy and Representative Government…. 2003. 7 . p. cit. 78 I. 1992. Assim. I.. Dessa forma. Este dispositivo conheceu algumas modificações. 77 Biblioteca Nacional. Yale University Press.. las Cortes…. cód. Porque nenhuma urbe se mostrou interessada. pp. cit. pp.. «O Governo dos Áustria e a “Modernização” da constituição política portuguesa». As Cortes Medievais Portuguesas. n. Thompson & Pauline Croft. 1998. I. 2003.. Parlamento Friuliano e Istituzioni Rappresentative Territoriali nell’Europa Moderna. 2002. 780 segs.A. Fortea Pérez. 76 I. Jerez de la Frontera ou Oviedo . I. Penélope. «As Cortes de 1481-1482…. 1990.edu/Departments/Portuguese_Brazilian_Studies/ejph/html/issue2 /pdf/duarte. 74.mas nenhuma alcançou os seus objectivos. p. pp. a oferta voltou a ser feita em 1650. 75 Rita Costa Gomes. p.). 3722 f. outras cidades negociaram o seu direito de voto . Juan Gelabert & T. 52 segs.A. 80 Cfr. na sua versão final as Cortes de Castela contavam com 21 cidades com direito de voto – J. as Cortes de Castela deixaram de ser convocadas antes que Palência pudesse exercer o seu direito de voto. «Las Ciudades. 199.

acerca deste tema consulte-se. SECCFC.. o exemplo de Cambrai.º 8 (199) pp. 782 segs. 90 J. las Cortes y el problema de la representación política….ENTRE 85 A O CENTRO E AS PERIFERIAS.º 4 (1989) pp. na condição de que os seus privilégios fossem respeitados. Iglesia Ferreirós (dir.. pp. Bethencourt Massieu. Instituto de Historia de España. cit. 93 Marcello Caetano. I. aceitava. Fazer e desfazer a história. 1989. eleição original. desde o período tardo-medieval debateu-se a questão do voto imperativo dos procuradores – As Cortes Medievais Portuguesas.. a fidelidade de um outro monarca. Homenaje al Profesor Jesús Lalinde Abadía. etc. «La interferencia del Rey en la designación y poderes de los procuradores en las Cortes castellano-leonesas (siglos XVI-XVII)» in A. o arcebispo local.. Carretero Zamora. cit.T. abdicando de um rei e escolhendo abraçar. consulte-se P. Xavier Gil Pujol.º 9/10 (1993) pp. Sarrión Gualda. para o contexto portugués. Madrid. n. É esse o caso de episódios em que certas comunidades fizeram demonstrações de voluntarismo. cumpre notar que não existia apenas uma visão do “constitucionalismo catalão”. Cfr. De facto. por sua livre vontade. consulte-se. cit. e como recorda Armindo de Sousa. Facultad de Filosofia y Letras. 2002. 439 segs. Este interessantíssimo episódio foi estudado por José Javier Ruiz Ibáñez em Felipe II y Cambrai: el consenso del pueblo. n. 279 segs.. Todavia. 1997. de J. no caso de Cambrai.. Cardim. 2002. As . Penélope. O mesmo Filipe II que negava às cidades ibéricas estas formas de voluntarismo. M. 91 J. A ASSEMBLEIA DE CORTES. 267 segs. Fortea Pérez. Fortea Pérez. «Las Ciudades. En torno a unos documentos de la ciudad y el Rey» in AA. coexistentes umas com as outras. 1999. para o espaço galego vide. e escolheram colocar-se sob a soberania e protecção de Filipe II. de María López Díaz. «Orto y ocaso de las Cortes de Castilla»…. a este respeito.d. 784 segs. As autoridades urbanas de Cambrai rejeitaram o seu anterior soberano.).como Andreu Bosch . pp. 87 Na Catalunha estas alusões tinham uma especial ressonância política.VV. 86 Xavier Gil Pujol. «Da Antiga Organização dos Mesteres» in Franz-Paul Langhans. «Orto y ocaso de las Cortes de Castilla»…. La soberanía entre la práctica y la teoría política (1595-1677). pp. 173-194. 63-71. de J. também. 92 O que não significa que o assunto não tenha vindo a lume.. n. Obradoiro de Historia Moderna.). Fortea Pérez. 233 par destas reflexões de carácter “abstracto”. pp. «Formas de elección de los procuradores de Cortes en Murcia (1444-1450). Universidad de Barcelona. de J. Centralismo y Autonomismo en los siglos XVI-XVII.. cit. I. cit. «Régimen electoral de Madrid a las procuraciones en Cortes: Las ordenanzas electorales de los siglos XVI y XVII». I.. João IV». Gil Pujol cita. Barcelona. I. cit. e. Fortea Pérez. Estudios en Homenaje a Don Claudio Sánchez Albornoz en sus 90 años. também.F.tinham uma leitura eminentemente popular. «Cortes e Procuradores do reinado de D. 99-120.. Buenos Aires. «Republican Politics in Early Modern Spain…. E. cit. «Republican Politics in Early Modern Spain…. 782 segs. pp. Alguns .. 88 J.. pp. a manifestação da sua vontade política. cidade localizada entre os Países Baixos espanhóis e a França. pp. 1990. «Orto y ocaso de las Cortes de Castilla»…. mas sim várias leituras do tema. alguns acontecimentos concorreram para perturbar a situação. Homenaje al Prof. encarando as Cortes catalãs e a Generalitat como as instâncias representativas por excelência. 227 segs. Desde há muito que o principado se auto-representava como uma comunidade política de base contratual (origens carolíngias. A crise sucessória de Portugal também suscitou o mesmo tipo de reflexões. Cerdá y Ruiz-Funes.. s... 89 J. «Organización e Integración Política de la Ciudades Gallegas en Tiempos de Felipe II»..

Imprensa Nacional. 104 Acerca das Cortes de 1562 consulte-se. II. I. 97 Como notou Armindo de Sousa... Lisboa. 1730. pp. João III. 54-57v. porém. Elementos para uma história estrutural. 1992.. e levantamento do principe D. M.. f.. Fundação da Casa de Bragança. 1995. 1938. Sebastião por Rei de Portugal. . cit.) No Alvorocer da Modernidade 1480-1620). Manuel. E Muito Esclarecido principe D.. as Cortes foram chamadas para exercer uma função até aí pouco frequente: o juramento do herdeiro ao trono. 106 Maria do Rosário Themudo Barata Azevedo Cruz. Vol. Luís Miguel Duarte. Lisboa. 1993.. capítulo 2. 102 Capitolos de Cortes E Leys que sobre alguuns delles fezeram… (Lisboa. com prefácio e notas do prof.. «Parliamentary Life in the Crown of Aragon…. Arquivos do Centro Cultural Português. 98 Cfr. 96 Fernando Bouza Álvarez.. Acerca das Cortes do tempo de D. Anais de D. I-LXXXIII. D. Lisboa. 107 Fernando Bouza Álvarez. Rita Costa Gomes. cit. I. As Regências na Menoridade de D. 1730). «De un fin de siglo a otro…. 190-191. «O Estado Manuelino: a onça e o elefante» in O tempo de Vasco da Gama. Chronista mòr deste Reyno. 50 segs. 95 Cfr.. As Regências na Menoridade de D. pp. Mss. 1998. Sebastião. Vila Viçosa. pp. composta por D. 1454. Primeiras Jornadas de História Moderna. 355 segs. Memorias para a Historia de Portugal. 1943. «Lembrança do que sucedeu na morte de D. cit. todo o processo decorreu sem que as Cortes fossem consultadas – As Cortes Medievais Portuguesas. Lisboa.M.. Duarte lembra que. 73-78. cit. 271 segs. vol.. 1992.N. 94 Xavier Gil Pujol. 18 segs. cit. 2002. Lisboa. 1990. Lisboa. cit. 245-264. Chronica do Muito Alto. vol. «De un fin de siglo a otro…. p. Difel. de D. 162 segs. de D. Sebastião. 1998. filho de D. Chronica do Muito Alto. 1992. seu neto…»... (Lisboa.. pp.. pp. durante a Idade Média a intervenção das Cortes em matérias sucessórias não era vinculativa. cit. P. consulte-se. Subsídios para a sua História. João III” de António de Castilho». e pp.. Maria. pp.. Romero Magalhães (coord. pp.). E Muito Esclarecido principe D. pp. 1539).. Officina Ferreyriana. cit. Joseph Antonio da Sylva. «As Cortes» in J.. 1. Centro de História da Universidade de Lisboa.. (Lisboa. «As Cortes de Lisboa de 1502» in AA. e Diogo Barbosa Machado.. Livraria Sá da Costa.. pp. 317-347. 1995. 101 Frei Luís de Sousa.. Sebastião Decimosexto Rey de Portugal. 1986. 1995. nesta ocasião.. 340 segs.. vol. Manoel de Menezes. 103 Cfr. 105 Maria do Rosário Themudo Barata Azevedo Cruz.. João III. e Maria do Rosário Themudo Barata Azevedo Cruz. Germão Galharde. Sebastião. pp. 1736-).. cit. «As Cortes de 1481-1482…. de Joaquim Romero Magalhães. 108 Fernando Bouza Álvarez. 289 segs. pp. pp. Manuel de Menezes. «A “Crónica de D. L... Rodrigues Lapa. 1453-1463. III de José Mattoso (dir.. e da rainha D. 256 segs. Sebastião. M. As Regências na Menoridade de D. 99 Saúl António Gomes. noutras conjunturas. João 3. Cortes e Cultura Política. pp. dir. 199 segs. Círculo de Leitores. História de Portugal. pp...234 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Corporações dos Ofícios Mecânicos. cit. Cardim. Sebastião. 340 segs. «De un fin de siglo a otro….VV. p. que comprehendem o Governo del rey D. 1998.-C.. Manuel de Menezes. 377. Ramada Curto. II (1970) pp. e Conquistas em sua menoridade. A única excepção foi a reunião de 1390-91. Nalguns casos os três estados foram chamados para decidir ou sancionar a mudança de reinado. 100 Joaquim Veríssimo Serrão.

«Dictamen del Conde de Salinas en que se examinan las prerrogativas de la Corona y de las Cortes de Portugal».. 76. Lisboa. António. 1987.Cartas a duas infantas meninas. 1992. 1953. 110 Mafalda Soares da Cunha. p. 1458 segs. Felipe II. p. Dom Quixote. 121 O príncipe D. 118 Fernando Bouza Álvarez. I. Academia Portuguesa da História. policopiados). cit. O Interregno dos Governadores e o Breve Reinado de D. CML. Filipe manifestava já a intenção de viajar para Lisboa . pp. no Paço da Ribeira. pp.). Universidad Complutense. Faculdade de Letras. 1970. Thompson & Pauline Croft. 552-559. 8. António Prior do Crato.. Romero Magalhães (coord. Universidade de Lisboa. . como fez nas Cortes de Thomar de os desobrigar dos direitos dos Portos Secos. Lisboa. 1956. No Alvorocer da Modernidade….A. Lisboa.. cit. cód. 124 J. 1999.. Dom Quixote. 113 José Maria de Queirós Velozo. Yale. Coimbra. Portugal en la Monarquía Hispánica (1580-1640). Fernando Bouza Álvarez. tese de dout. Lisboa. 119 O juramento teve lugar a 16 de Abril. Lisboa. 1946. pp. cit. Anuario de Historia del Derecho Español. Madrid. de Letras. p. D. cit.. Rex Inutilis in Medieval Law and Literature. 122 Consulte-se. dirigida às suas filhas. 1953. 1999 (2 vols.. Fac. cit. pp. 183. o «Parecer sobre se podia El rey fazer mercê aos Povos. Em carta de 1 de Maio. 4 de Janeiro de 1581. Lisboa. 1997.. las Cortes de Tomar y la génesis del Portugal Católico. Fortea Pérez. Universidade de Lisboa. Lisboa. «A questão jurídica na crise dinástica» in J. 120 Erasmo Buceta.Cartas a duas infantas meninas. IAC. 1987. cit.. Poder e poderes na crise sucessória portuguesa (1578-1581). 111 Mafalda Soares da Cunha.. José Maria de Queirós Velozo. Estado. 112 Cfr.. 1995.. Henrique. 235 Edward Peters. 557 segs. pp. 1933. de Carlos Margaça Veiga. 14. A ASSEMBLEIA DE CORTES. «A questão jurídica na crise dinástica» in J. 123 I.. 427-428. Empresa Nacional de Publicidade.). Lisboa. nem he couza para se duvidar» (sem data. 61 segs. Elvas. idem.. Eduardo Freire de Oliveira (org. pp. 558 segs.). Legajo 415. Ver também. 1993. Dom Quixote. 56 segs. O Interregno dos Governadores. No Alvorocer da Modernidade…. 117 Archivo General de Simancas. 1999. Portugal nas cartas de D. pp. New Haven.ENTRE 109 O CENTRO E AS PERIFERIAS. Portugal en la Monarquía Hispánica. cit. e se resolue que sim podia. o monarca hispânico partia para Castela . pp. Biblioteca da Ajuda. «De un fin de siglo a otro…. Mafalda Soares da Cunha. O reinado do Cardeal D. Carlos Margaça Veiga. The Shadow King. p. las Cortes y el problema de la representación política…. duas semanas mais tarde. 213 segs. por exemplo. Poder e Poderes na crise sucessória portuguesa (1578-1581). «A questão jurídica na crise dinástica» in J. 236 segs. 115 Cfr. 114 «Carta régia à cidade de Lisboa».. 1993. Elementos para a História do Município de Lisboa. Joaquim Veríssimo Serrão. Filipe I às suas filhas e os tempos de um Príncipe Moderno» in Cartas a duas infantas meninas. No Alvorocer da Modernidade…. cit.. 1595). «Introdução. «Aristocracy and Representative Government…. pp.A. Fernando Bouza Álvarez. 174v. XII. 1993... Romero Magalhães (coord. 1903. «Las Ciudades. ca. Romero Magalhães (coord.. Lisboa. em Lisboa.). O reinado de D. 1999. Filipe foi jurado a 30 de Janeiro de 1583. 116 O melhor estudo sobre esta temática é o de Fernando Bouza Álvarez.. 1999. 22 segs. 51-VI-46 f. p.

El Consejo de Portugal. Comportamentos. D. 1995. p. L’action de Diego de Silva y Mendoza. 1997. S. 289-320. 223-260. pp. «Dictamen del Conde de Salinas…. As relações artísticas entre Portugal e Espanha na época das Descobertas. Editorial de la Universidad Complutense. Fernando Bouza Álvarez. 1580-1640. 1982. Filipe II.236 125 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS J.).. Francisco Ribeiro da Silva. 1998. pp. 1622). sus fundamentos sociales y sus caracteres nacionales. Revista de Ciências Históricas. 78.A. S. 1987. «O Governo dos Áustria…. Pizarro Gómez. cit. a gravura da sala de Cortes inserida na famosa obra de João Baptista Lavanha. Apesar de as Cortes de 1619 terem ficado aquém do que os portugueses esperavam. 1989. cit. cit. 407-431. 321 segs. Revista de Estudos Ibéricos. 223-260. pp. «Ritos e cerimónias da monarquia em Portugal (séculos XVI a XVIII)» in AA. 1988. cit.A... «Orto y ocaso de las Cortes de Castilla»…. 55 segs. cit. 4. Ribeiro da Silva. al Reyno de Portugal (1619)».). Thomas Iunti. 35.Thompson. 139 Claude Gaillard. 140 segs. La crisis de la hacienda real…. 1987. 130 Ernest Belenguer Cebrià... pp. 133 Erasmo Buceta. 129 I. Le Portugal sous Philippe III d’Espagne….J. 346 segs.º 0 (2003) pp... pp. ao reyno de Portugal e rellação do solene recebimento que nelle se lhe fez… (Madrid. 53 segs. 826 segs. maxime. 1994. 6. n. pp. 201-265. pp. Santiago de Luxán Meléndez. pp.. «La jornada de Felipe III a Portugal (1619)» Chronica Nova. 1991. F. 1987.VV. 127 J. 1989. Ramada Curto... Viagem da Catholica Real Magestade del Rey D. 131 Claude Gaillard. 136 Cfr. cit. Université des Langues et Lettres de Grenoble. cfr. António Manuel Hespanha. 126 António Manuel Hespanha. Universidade Nova de Lisboa. Jacobo Sanz Hermida. Acerca desta reunião de Cortes consulte-se F. Portugal en la Monarquía Hispánica (1580-1640).. p. Lisboa. cit. Kagan & G. «La Monarquía Hispánica desde la perspectiva de Cataluña…. . D..A.. pp. «Aristocracy and Representative Government…. cit. cit. Filipe II e os seus vassalos de Portugal – cfr. cit. 137 Erasmo Buceta. 1992. pp. 1933. «Dictamen del Conde de Salinas…. «La Jornada de Felipe III a Portugal en 1619 y la arquitectura efémera» in Pedro Dias (coord.. 135 Erasmo Buceta. pp. p.. Pedro Gan Giménez.. a propaganda régia encarregou-se de apresentar o evento como um momento de intensa comunhão entre D. cit. pp. Portugal en la Monarquía Hispánica. «O Governo dos Áustria…. 1987. «A viagem de Filipe III. La Revolución de 1640 en Portugal. Itinerários e Problemáticas». 132 Acerca do Conselho de Portugal consulte-se. 1933. 19 (1991) pp. Don Felipe III deste nombre. I. cit. A Memória da Nação. Le Portugal sous Philippe III d’Espagne.. I. pp. 138 Fernando Bouza Álvarez. 2 (1987) pp. Thompson & Pauline Croft... 123-146. 63-90. A Cultura Política em Portugal (1578-1642). Spain. 1933. Spain and the monarchy: the political community from ‘patria natural’ to ‘patria nacional’» in R. «A viagem de Filipe III a Portugal. 311 segs. Cambridge University Press... Europe and the Atlantic world. 128 I. Sá da Costa. Cambridge. Lisboa. Livraria Minerva. Parker (orgs. «Entre dos servicios. 792-795. Grenoble. 5-6. Península.. Fortea Pérez. Ramada Curto. «Castile. «Un viaje conflictivo: relaciones de sucesos para la Jornada del Rey N. Madrid. pp. Elliott. 134 Acerca do protagonismo da Câmara de Lisboa no período filipino.. 1982. «Dictamen del Conde de Salinas…. 107 segs. Coimbra.. cit. ritos e negócios. N. dissertação de doutoramento. Fortea Pérez. Essays in honour of John H.A. p.

Le conflit de juridictions comme exercice de la politique. 1991.. 149 Biblioteca Nacional.. 152 Luca Mannori y Bernardo Sordi. 7130 – Memorial de Don Agustín Manuel de Vasconcelos sobre las advertencias a la juridizion y a la hazienda del reyno de Portugal. Istituzioni e diritto. 9-10 (1993) pp. Consejos. cit.73 (1998) pp. 135 segs. cit. Consideraciones de método y documentos para su interpretación» in Huarte de San Juan. 150 Cfr. México. 1580-1640». «Fueros. 2002. 151 J... «Habsburg Fiscal Policies in Portugal. Mss. pp. Para uma boa comparação com a Coroa de Aragão. Juan José de Áustria y el reino paccionado de Aragón (1669-1678)». n. «Dinámicas políticas en el Portugal de Felipe III (1598-1621)».. Nobres e luta política no Portugal de Olivares» in Portugal no Tempo dos Filipes. Pedralbes. Casa de Velázquez. pp. Escritos seleccionados. Le Portugal au temps du comte-duc d’Olivares (1621-1640). 423 segs. pp.«Parliamentary Life in the Crown of Aragon…. 390 segs. Schaub.). «Una sociedad no revolucionaria: Castilla en la década de 1640» in España en Europa. 52 (1976). 13 (1990) págs.. pp. Fazer e desfazer a história. 144 Jean-Frédéric Schaub.. 17 de Outubro de 1638. um episódio estudado por José Javier Ruiz Ibáñez em Felipe II y Cambrai.. Movimentos Sociais. 145 Archivo Historico Nacional.. 147 Xavier Gil Pujol nota que em Inglaterra. in Fioravanti. 236 segs. 161-188. A ASSEMBLEIA DE CORTES. Cortes y clientelas: el mito de Sobrarbe. Penélope. 148 Fernando Bouza Álvarez. 2002. Fernando Bouza Álvarez. «Los Fueros de Sobrarbe como discurso político. pp. António de Oliveira.. 141 Jean-Frédéric Schaub.. Política. Elliott... «1640 perante o Estatuto de Tomar. 161 segs. 237 140 António Manuel Hespanha. 23 83) (1994) pp. Madrid. 61 segs. 154 Algo de semelhante ter-se-á passado em Cambrai. Cuadernos de investigación histórica. 1989. 201 segs. «El conde-duque de Olivares y los tribunales de la Corte: oposición política y conflicto constitucional». pp. cit.. Bari. pp. cit. Representações (1580-1668). também. I. Laterza. Journal of European Economic History. Universitat de València. n. «Giustizia e amministrazione».. pp. Revista de la Facultad de Ciencias Humanas y Sociales de la Universidad Pública de Navarra.º 12 (1992) pp. Portugal en la Monarquía Hispánica. 7-35. Beatriz Cárceles de Gea. Romero Magalhães. Poder e Oposição Política. consulte-se.. 1 (1994) pp. 2000. pp.. 2001. 17-27. 2001. Ideologia Política e Teoria do Estado…. 868 segs.. 50-73. 545-562. pp. Memória e juízo do Portugal dos Filipes». onde os «Fueros de Sobrarbe» exerceram um efeito galvanizador semelhante ao das «actas» das Cortes de Lamego. «O Governo dos Áustria….-F. 130 segs. 153 John H. cit. Relaciones. 1987. Biblos. Lo Stato Moderno in Europa. Serie: Derecho. revista do Colegio de Michoacan.. 2002. Madrid.. 207 segs. 142 Luís Reis Torgal. 231-233.. cit. 953. cit. «1637: motins da fome». Cultura. «A nobreza portuguesa e a corte de Madrid entre 1630 e 1640. o Protectorado também implementou um parlamento britânico com uma só câmara (1654) .ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. cit. Lisboa. 2002. de Antonio Álvarez-Ossorio. Madrid. em Outubro de 1595. Maurizio (org.. cit. de Jesús Morales Arrizabalaga. Portugal en la Monarquía Hispánica.. 169-211.. 1999. Fernando Bouza Álvarez. . Peter Thomas Rooney. 865 segs... 146 Fernando Bouza Álvarez. Cosmos. Valência. 1987.. pp. anos mais tarde. Estudios de historia comparada. f.. vol. Veja-se. 143 Cfr. pp. Le Portugal au temps du comte-duc d’Olivares…. leg. 239-291. quando os seus habitantes habitantes optaram por aclamar Filipe II como o seu novo soberano. idem.. J.

156 Francisco Velasco de Gouveia. de Luís Reis Torgal.. vol. Power and Social Meaning (1400-1750). Palimage – European Science Foundation. 1642). cfr. 160 Fulgêncio Leitão. 162 Cfr. Ideologia Política. p. coord. Lei Fundamental e Lei Constitucional. f. Giovanni IV. «As forças sociais perante a guerra: as Cortes de 1645-46 e de 1653-54». con le quali si proua. «Principios de gobierno urbano en la Castilla del siglo XVI» in Enrique Martínez Ruiz & Magdalena de Pazzis Pi (coords. Biblioteca Nacional. e 244 segs.). 238. pp. As cortes de Lamego são «a verdadeyra instituição do Reyno» escreve João Pinto Ribeiro em Uzurpação. cit. J. Estas «actas» foram oportunamente impressas em 1641: Cortes Primeiras que el Rey Dom Afonso Henriquez celebrou em Lamego aos Tres Estados depois de ser confirmado pelo Sumo Pontifice por Rey deste Reyno. Iuannetin Pennoto. «Ceremonial. Acerca deste livro. Con vna breue relatione del successo nell’elettione del nuouo Rè. Tradotto dalla Lingva Portvghese nell’Italiana per Informatione de Signori Italiani da Liuio Giotta (Lisboa.). Lisboa. pp. ordenado. José Mattoso.. P. ISCSPU. «O processo político (1621-1822)» in História de Portugal. I. e divulgado em nome do mesmo reyno. political allegiance and religious constraints in 17th century Portugal» in José Pedro Paiva (org. 164 Cfr. 161 Lívio Giotta. cfr. Hespanha. Col Stabilimento Fatto nella Corti dalli tre Stadi di quel Regno et Alcvne Allegationi Giuridicopolitiche. Restauração de Portugal. p. y otros Principes. Lisboa. Lisboa. XXXVI (161) (2002) pp. Cardim. dir. (Turim. Discurso Moral. 261-308. António Alvarez.. o IV. Mss. O Poder Político no Renascimento Português. 242 segs. 19.. 1642). de A. Cardim. vol. 2002. 1648). 1-3. Rey de dicho Reyno.. Lourenço de Anvers. cap. VIII. Direito Constitucional. Raggioni del Ré di Portogallo D. Iuan IV. 2372. Faculdade de Direito. A convocató- . 158 159 Acerca da presença do conceito de pactum subiectionis na paisagem política ibérica.. 1998. y en la Sagrada Teología.. Lourenço de Anvers. Cardim. 165 Segundo Xavier Gil Pujol («Parliamentary Life in the Crown of Aragon…. pp. Restituycion del Reyno de Portugal a la Serenissima Casa de Bragança en la Real Persona de D. quando Olivares resolveu convocar as Corts tendo em vista fazer aprovar um novo pedido fiscal. 1968. 1985. Paulo Craesbeeck.238 155 «Deste OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS papel se há de formar la platica del Embaxador de Roma al Pontifice para que no admita la Embaxada del Obispo de Lamego y proceda en causas contra Portugal». pp. e tal memória terá sido determinante em Junho de 1640. Madrid. Universidade de Lisboa. Lexicoteca. cit. consulte-se. con las razones. 184 segs. pp. Coimbra. 2002. 1981. na Catalunha existia uma forte memória de governação republicana.. Relatório apresentado no Curso de Mestrado. cit.. Actas Editorial. pp.) Religious Cerimonials and Images. Retenção. Fernando Dores Costa. 231 segs. Reduccion. Las Jurisdicciones.. Martim de Albuquerque. (Lisboa. 1147-1181. P. Fortea Pérez. 163 P. 1644).. M. 4. Madrid. A Formação do conceito de Constituição. em justificação de sua acção… (Lisboa. Tratado analytico diuidido em tres partes. f. 351-368. 1641). che il suo Ambasciatore mandato in Roma deue esser accettato del Pontefice.. Ivsta acclamação do serenissimo Rey de Portvgal Dom Ioão 157 António Barbas Homem.. O Antigo Regime (1620-1807). y causa de la Confederación. I. pp. 32 segs. vol. 386 segs. Análise Social. pp. 1996. 2002. 67 segs... 38 segs. que celebró con el Rey christianissimo.. Contributos para uma história do Direito Público. y Político: Por Iuan Baptista Moreli Doctor in Vtroque. Cortes e Cultura Política. (Lisboa.

Todavia. 1673. «Cessante Causa and the taxes of the last Capetians. I. 408 segs. pp. pois os representantes recusaram-se a comparecer. 35 174 Correspondência diplomática de Francisco Ferreira Rebelo. y Poderoso Principe Carlos Gustavo.. & não aonde quer.. Imprensa da Universidade. Elliott.º marquês de Gouveia. 2. Cardim. 1642).. 141 segs. notas de Afrânio Peixoto. Arquivos do Centro Cultural Português. pois nas décadas que se seguiram a assembleia representativa perdeu boa parte da projecção política de que momentaneamente gozara. 169 Cfr. Biblioteca da Ajuda.. p.R. quarta.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. Johannes Jansson. edição de Manuel Lopes de Almeida. cód. Cambridge. (Estocolmo. Rey de Suecia. Esta reunião – que não foi convocada pelo rei – desenvolveu uma actividade muito intensa. (Estocolmo. Rio de Janeiro. alegando que não poderiam votar com liberdade encontrando-se um exército régio em território catalão. Entre los Habsburgo y los Braganza» in J. Acerca da articulação entre a pregação e a política. 122 segs. in genere a obra de João Francisco Marques. 1926. Cortes.. p. Em vez da Coroa. foi a Diputació a entidade que conseguiu congregar os representantes do Principado. P. cfr. 222v. Coimbra.N. 22. e Morte. Colibri. Acerca deste tema é imprescindível a consulta do estudo clássico de John H. A Study in the Decline of Spain (1598-1640). Abril. 172 E. 173 Citado por Edgar Prestage. Ioão IV para paz. Diplomata e Político. Centenário da Restauração. Lisboa. in genere Ângela Barreto Xavier.). & conseruação de seus Reynos. 105. «La Corona y las Autoridades Urbanas en el Portugal del Antíguo Régimen. 167 Carta de D. 29-50. Bravo Losano (org. 1655). The political applications of a Philosophical Maxim».. 1982. pp... Dittos e Feytos de El-Rei Dom João IV. 132. Ciudades y Villas. 170 O livro de António da Silva e Sousa. com introdução. Disputa sse si deven imponer se de consentimiento de los tres Estados del Reyno (Cortes)». vol. Contiene la tercia. Coimbra. Razões da política no Portugal seiscentista. . não chegando a nenhuma conclusão taxativa. 171 Cfr. 15 (1972) pp. Espacios de Poder. Vida. em especial pp. 1989 (2 vols. XXXII (1993) pp. The Revolt of the Catalans. seguido de Tomo Segvndo del Iuizio o Vaticinio Politico Al Noble Reyno de Svecia. & Senhorios… (Lisboa. Arquivo da Universidade. 133 segs. 1655) inclui um capítulo sobre impostos intitulado «Apunta se las condiciones que deven currir para imponer nuebos pechos. 166 Francisco Manuel de Melo. embaixador em Madrid. João da Silva.A. 1998. 1642-1644».. (devo esta sugestiva referência a Rafael Valladares Ramirez). 49-X-6. 239 ria foi expedida. Londres 1655-1657. 175 Cfr. 2002. Tacito Portuguez. Lisboa. Frei Domingos do Rosário.. f. 562-587. y la tertercia de la obra. Limencop. 1640-1668. Brown. «Correspondance diplomatique de François Lanier résident de France à Lisbonne. Cambridge University Press. mas a reunião não chegou a celebrar-se. Lisboa. Madrid. 1963. 168 Um bom exemplo: Avizo Exortatório aos Fidelíssimos Três estados do felicíssimo Reyno de Portugal. para o secretário de Estado Francisco Correia de Lacerda. informação. Rodolfo Garcia e Pedro Calmon. para as Corts catalãs a conjuntura de 1640 representou um breve momento de protagonismo. Ivizio o Vaticinio Politico Al Noble Reyno de Svecia: Debaxo de la conducta del Muy Alto. em especial A Parenética Portuguesa e a Restauração. A ASSEMBLEIA DE CORTES. Lourenço de Anveres. 1940. no qual o autor analisa as várias opiniões sobre o tema. El rei aonde póde.. revisão de Lígia Cruz. Johannes Jansson.I. segundo apógrafo inédito da Biblioteca Nacional. y quinta parte de la segunda. Stvdia Gratiana.). Ordenado por Ioão Rabello Vellozo que muito dezeja o seruiço de Deos & o de sua Augusta Magestade el rey D. 719 segs.C.

portanto. 184. «O Estado do Brasil na União Ibérica…. Rio de Janeiro. «La Constitución de la sociedad política» in Ismael Sánchez Bella. pp. Hespanha. 187 Guida Marques. 1640-1720. A dinâmica Imperial Portuguesa (séculos XVI-XVIII). O Antigo Regime nos Trópicos. pp. org. Valhadolide. de F. La Rebellión de Portugal. 1998. pp. Lisboa. 179 Fred Bronner. 184 Charles Boxer.. Bahia and Luanda. Hucitec. cit. 181 Fred Bronner. 2002. cit. 1967. de João Fragoso. a 14-3-1628 – cfr. Guerra. 2001. Revista de História e Ciências Sociais. «O Estado do Brasil na União Ibérica. cit.. São Paulo. pp. Fred Bronner. 165-188. denotando. A Cidade e o Império. n.. Marques. cit. Macao. Do Índico ao Atlântico (1570-1697). M. «La Unión de las Armas en el Perú…. Guerra e Açúcar no Nordeste. Alberto de la Hera & Carlos Dias Rementeria. Civilização Brasileira. Portuguese Society in the Tropics. Revisão de alguns enviesamentos correntes» in AA. 1135 segs. «Poder Político e administração do complexo atlântico por- 191 Acerca do tema consulte-se. 177 Carlos Dias Rementeria. 1992. fs. 1967. de Maria Fernanda Bicalho. «A constituição do Império português. Topbooks. O Antigo Regime nos Trópicos: A Dinâmica Imperial Portuguesa (séculos XVI-XVIII).. Portugaliae Historica. «A concessão do Foro de Cidade em Portugal dos séculos XII a XIX». «La Constitución de la sociedad política…. 285 segs. Rio de Janeiro. de Rodrigo Bentes Monteiro... tuguês (1645-1808)» in AA. 2001. 2003. pp. 1510-1800. 51-VI-19.. «La Unión de las Armas en el Perú…. 13-80. 185 E. Historia del Derecho Indiano. A Monarquia Portuguesa e a colonização da América. O Rei no Espelho. estas atitudes coexistiam com tomadas de posição eminentemente particularistas e completamente desprovidas de qualquer sentido de solidariedade para com os problemas que afectavam o resto do «reino e conquistas». Seminario Extraordi- 192 .). Madison. Consulte-se P. de Joaquim Veríssimo Serrão. Cardim. 182 A. 1138. O Rio de Janeiro no século XVIII. Penélope. «Política cortesana y administración en Portugal durante la segunda mitad del siglo XVII» in José Javier Ruiz Ibáñez (org. 2002. 27 (2002) pp. Maria Fernanda Bicalho. 186 As cidades e vilas do reino também costumavam preparar petições conjuntas. 1630-1654. The Municipal Councils of Goa. cód. Chauduri. 180 Carta escrita em Lima. pp. p. vol. I (1973) pp. p. «La Unión de las Armas en el Perú. de João Fragoso. Bethencourt & K. A Cidade e o Império. e. 1967. 30 segs.240 176 Rafael OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Valladares. Olinda Restaurada. 167-190. Rio de Janeiro. 188 Guida 189 «Procuradores que estão por definidores com voto e declaração dos que estão com alternativa em as Cortes que se comessarão em 22 de Outubro de 1653». Dinâmicas políticas no Brasil no tempo de Filipe II de Portugal». Rio de Janeiro. 190 Maria de Fátima Gouvêa. 1139. veja-se. Junta de Castilla y León... org. cit. cit. VV. Todavia. Biblioteca da Ajuda. 345-347. Cabral de Mello. Lisboa. 1980. 1992. uma certa capacidade para articular posições à escala regional. conflicto y poderes en la Monarquía Hispánica (1640-1680).. 178 Carlos Dias Rementeria. 261 segs.. Em algumas das sessões de Cortes é possível detectar sinais de concertação entre procuradores oriundos de uma mesma região. Mapfre. VV. 183 Consulte-se in genere a Historia da Expansão Portuguesa. pp. 7-36. também.. 1998. org.. Madrid. 1998...

cit.. pp. de António Barbas Homem. Thompson em «La respuesta castellana ante la política internacional de Felipe II» in AA. 193 Cfr. e no início não retirou força às Cortes. SECCFC. Fortea Pérez. «Orto y ocaso de las Cortes de Castilla»…. Fortea Pérez. p. uma colaboração activa no terreno fiscal – J. recusando-se a dar resposta às petições até que as Cortes aprovassem os servicios que o monarca reclamava.A. 1982. 199 A questão da resposta aos «capítulos» merece também alguma atenção. como mostrou I.A. o que dava novo alento à capacidade das Cortes para influenciar o corpus normativo da Coroa. Além disso. por vezes. Entre Clío y Casandra. 78-79. de Jesús Vallejo. Thompson & Pauline Croft. «Orto y ocaso de las Cortes de Castilla»…. Madrid. 91 segs. Universidade de Múrcia.. 1992. 198 Acerca desta problemática é imprescindível a consulta de A.. pp. Thompson & Pauline Croft. 241 nario Floridablanca.. VV. 121-134. pp.. .). Kingship and Favoritism in the Spain of Philip III. 195 Cfr. pois a Coroa continuava a carecer da assembleia enquanto cenário natural de negociação entre o rei e o reino. cit. 221-234. Historia de la Propiedad.A. consulte-se. Cambridge. 790 segs. cit. Legislação. A ASSEMBLEIA DE CORTES. do qual se esperava. 1598-1621. Thompson. terem continuado abertos vários outros canais de comunicação entre a Coroa e as cidades.. A Coroa castelhana. Servicio de Estudios del Colegio de Registradores. de resto. «Ceremonial de la Majestad y Protesta Aristocrática. consulte-se. J. usou essa matéria como forma de pressão. 788. Patrimonio Cultural. cit. J. «Aristocracy and Representative Government…. 25 (Abril-Junho de 1999) pp. 202 J. I. «The rule of law in early modern Castile». La monarquía de Felipe II a debate.A.A. «La Diputación de las Cortes de Castilla (1525-1601)». «Derecho como cultura. o que obrigava a Coroa a antecipar-se à negociação fiscal na resposta aos pedidos. 789 segs. 196 I.A. e. XXXII (1962). 2000. Anuario de Historia del Derecho Español. European History Quarterly. 1992. Essa coexistência de várias vias de diálogo foi uma constante.. 2000. M. Equidad y orden desde la óptica del Ius Commune» in Salustiano de Dios et al. Fundación Carlos de Amberes. Antonio Álvarez-Ossorio. 201 Francisco Tomás y Valiente. 53-60. 230 segs. tais respostas tinham força de lei e eram incorporadas nas sucessivas edições da Nueva recopilación. 194 Acerca das críticas ao valimento. Música y ritual de corte en la Europa moderna. de I. p. Fortea Pérez chama a atenção para o facto de. História das Instituições. I. cfr. 7-125. pp..A. 14 (1984) pp. estabeleceu-se que o rei deveria incluir na escritura de los millones as respostas às petições... pp. Cadernos de Ciência de Legislação. 345-410. Hespanha. cit. «Orto y ocaso de las Cortes de Castilla»….. pp. 374. Cambridge University Press. 197 Para uma excelente exposição sobre a eficácia conformadora do Direito no contexto do Antigo Regime. a par das Cortes. Fortea Pérez..ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. 2001. «Introdução Histórica à Teoria da Lei – Época Medieval»... Antonio Feros. cit. Madrid. pp. Departamento de História (no prelo). O excelente artigo de I.A. Com a implementação do novo regime dos millones. La Capilla real de los Austrias. pp. Carreras & Bernardo García García (orgs. 200 Não raras vezes eram as próprias Cortes a não revelar grande empenho em debater questões de alta política. I. 347-469. também. pp. La Capilla Real en la corte de Carlos II» in J. 2002. Madrid. «Aristocracy and Representative Government….

O Pensamento Político em Portugal no século XVIII. Roma. consultes-se.. Universidade Católica Editora.. «Una sociedad no revolucionaria: Castilla en la década de 1640» in España en Europa. 207 John H.. 212 Bartolomé Clavero. 209 Para J. O modelo do servicio – entendido como auxílio temporário. 2002. pp. tenham manifestado o interesse em recorrer a modalidades alternativas de financiamento – J. 210 J. 109 segs. 2002. cit. pp. cit. cit. cit. «Orto y ocaso de las Cortes de Castilla»…. de Olivier Christin. Fortea Pérez. Dinastía y Memoria de Nación en la España del siglo XVIII. 801-802. como lembra Xavier Gil Pujol.. Giovanni Levi. Estudios de historia comparada. de David Alonso García. pp. Escritos seleccionados.. Castilla convulsa. 208 Este fenómeno registou-se em toda a Península Ibérica. Cortes de Castilla y León.. Elliott. 2002. I. 153. Madrid. Una o dos ideas». 206 John H. I. pp. Gelabert. Universitat de València. para fins específicos e baseado em determinadas condições – estava a debilitar-se. Biblink editori. Da Justiça Administrativa em Portugal. Marcial Pons.. 213 Bartolomé Clavero. «À quoi sert de voter aux XVIe-XVIIIe siècles?»... «Reciprocita mediterranea» in Renata Ago (org. 205 John H. 1994. 237 segs. 37-72. Fortea Pérez. Elliott. «Orto y ocaso de las Cortes de Castilla»…. p. Fortea Pérez.). 117-152.. «Una sociedad no revolucionaria…. 1990. 1990. Daí que tanto a Coroa como o reino. Studia Historica. Sua origem e evolução.242 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS 203 Acerca deste tema consulte-se. p. The Value of the Norm. António Ribeiro dos Santos. a decisão de 1667 inscreve-se no quadro mais geral da reformulação do sistema fiscal castelhano. 1983.. Acerca deste tema consulte-se. pp. 21-30. «La configuración de lo ordinario en el sistema fiscal de la Monarquia (1505-1536). Imprensa Nacional. 207 segs. Valência. Actes de la recherche en sciences sociales. 149-195. cit. Los Borbones. Lisboa. Lisboa. VV. José Esteves Pereira. pp. pp. 187-188. Elliott. Historia Moderna. cit. 801-802. de Juan E. I. pp. «Cortes Tradicionales e Invención de la Historia de España» in AA.. Valhadolide. «Una sociedad no revolucionaria.. «Cortes Tradicionales e Invención de la Historia de España…. também. 1188-1988. 204 . 2002. 2001. 21 (1999) pp. 140 (décembre 2001) pp.. Las Cortes de Castilla y León. 207 segs. «La Corona de Aragón a finales del siglo XVII: a vueltas com el Neoforalismo» in Pablo Fernández Albaladejo (org. 2002.). 211 Maria da Glória Ferreira Pinto Dias Garcia. 208. pp.

então. os dispositivos disciplinares. XVII-XVIII) JOSÉ SUBTIL (Universidade Autónoma de Lisboa / Instituto Politécnico de Viana do Castelo) “E sendo tudo visto. provedores ou de outros ministros como o do Procurador da Coroa. pp. As excepções vão para pretensões fora do ordinário ou quando os ministros deixam os pareceres em aberto com o acostumado “Faça-se justiça” (fiat justitia). valorizando o poder local ou as intenções centralizadoras. porém. Todavia. as propostas historiográficas para a caracterização do modelo de relação entre o centro e a periferia tenderão sempre a reconhecer fundamentos para apoiar a perspectiva centralizadora ou autonomista do poder. ainda. as tradições que envolvem as práticas sociais. são as questões quando se invocam outros poderes para além dos régios e muniOs Municípios no Portugal Moderno: dos forais manuelinos às reformas liberais Lisboa. Edições Colibri – CIDEHUS-UE. dos organismos envolvidos nas relações de poder. portanto. . as desobediências e. implicam alguma indeterminação na configuração global do sistema de poderes e estruturas de probabilidades consoante os espaços onde se tecem as obediências. Os objectivos. 2005. quando decidia no quadro do seu regimento. Parece à Meza o mesmo que ao Ministro Informante” A fórmula de despacho em portada foi a que. Ou. E outras. responde nos despachos “Como parece”. que o conhecimento mais recente da realidade administrativa e política do Antigo Regime é complexa demais para se deixar classificar de forma tão simplista. os recursos disponíveis e as motivações dos vários actores sociais. o plano doutrinário.As relações entre o centro e a periferia no discurso do Desembargo do Paço (sécs. por sua vez. O rei. na maioria dos casos. 243-261. o tribunal do Desembargo do Paço seguiu para submeter à apreciação superior as consultas relativas aos assuntos das câmaras depois de ter obtido as informações e os pareceres dos corregedores. Acontece. estratégicos ou efémeros.

Lisboa. Entre o Antigo Regime e o Liberalismo. E as respostas que se procuram ou que se querem encontrar são imaginadas de acordo com a perspectiva em que nos coloquemos. revela que as comarcas e as provedorias não constituíam espaços sociais de relações de poder mas. sendo ignoradas as freguesias embora. isto é. unidades que serviam para circunscrever as funções de execução política e administrativa dos corregedores e/ou provedores na sua relação com a Corte e os concelhos. 1 Sobre o poder local ver referências aos mais recentes trabalhos em Nuno Monteiro. em simultâneo. a periferia tem sido identificada com os concelhos. como memórias dos actos praticados. O significado dos arquivos Através da forma de organização dos arquivos administrativos e do seu conteúdo técnico podemos reconhecer. A hierarquia do lugar que ocupam os concelhos em relação às freguesias não resulta imediatamente das relações estabelecidas pelos concelhos com a Coroa. provavelmente. como foi sugerido para as paróquias por José Viriato Capela neste mesmo colóquio. isto é. qualquer movimento reformista. Imprensa das Ciências Sociais. Do lado de quem manda ou pretende mandar. Elites e poder. apenas. ou do lado de quem obedece ou pretende obedecer. como os poderes senhoriais.244 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS cipais. 2003. alguns corregedores as comecem a invocar como novos pólos de territorialidade política. como unidades que podiam sustentar. o verdadeiro papel da Coroa e dos municípios na conformidade da vida política e social. ao nível periférico. Será uma mudança com resultados. Não há dúvida que a persistência continuada e exclusiva de arquivos municipais e centrais. por exemplo. em primeira instância. Naturalmente que uma geografia política que equacione. No discurso historiográfico. atentemos nalguns detalhes que dizem respeito ao Desembargo do Paço. como os circuitos para a tomada das decisões. surpreendentes para avaliar. da Igreja e das comunidades com juízes ordinários1. tanto o papel desempenhado pela burocracia na maneira de exercer o poder. a relação entre a Coroa/concelhos e concelhos/freguesias recentra a geometria dos campos de domínio do poder e torce os lugares políticos e sociais. Entre as diversas componentes destas lógicas. . os problemas relacionados com o exercício do poder obedecem a interesses e mecanismos próprios de dominação bastante diferentes conforme o lugar que nos dispomos ocupar. para o final do Antigo Regime. tribunal que assegurava a comunicação política entre a Coroa e os poderes periféricos.

um outro. Em qualquer caso. não deixa de ser surpreendente como. com excepção de alguma correspondência. accionado o mecanismo dos traslados cujos custos. com os processos relativos a consultas. Mas vejamos outros pormenores. para além do mais. Esta secretaria era constituída por quatro repartições (Corte. como funcionários volantes que exerciam. o processamento burocrático se fazia de forma razoável para a época. Quando as circunstâncias o justificassem era. De acordo com a estrutura e a organização do arquivo do Desembargo do Paço. então. Estremadura e Ilhas. eram suportados pelos interessados. podemos distinguir dois tipos de expediente. a cargo da Secretaria das Justiças e do Despacho da Mesa. não se encontram no Desembargo do Paço. e Alentejo e Algarve) cada uma 2 Parágrafo 8. O corregedor e/ou provedor. ou ao bem commum”2. Beira. por exemplo. eram do interesse destes. e Justiças dellas.RELAÇÕES ENTRE O CENTRO E A PERIFERIA NO DISCURSO DO DESEMBARGADOR DO PAÇO 245 Uma das evidências desta particularidade reside. assim. como mesmo para outras indagações. tanto para as de carácter mais técnico. agilizava as suas acções e permitia.º do Regimento Novo do Desembargo do Paço (27 de Julho de 1582). nem as pautas das eleições nos arquivos concelhios o que nos mostra que as possibilidades de controlo estavam reservadas aos oficiais comarcais através dos quais o monarca podia chegar ao maior número possível de informações. revertiam em receitas de emolumentos para os magistrados e para a Coroa e. Minho e Trás-os-Montes. públicas ou mais ou menos secretas. ou seja. . na maioria dos casos. da responsabilidade da Secretaria das Comarcas onde se deviam tratar os que tocarem “às Cameras dos Lugares das suas Comarcas. Um. em primeiro lugar. que a produção documental servia. tendo em vista formar a decisão régia. de uma forma geral. também. As actas das vereações. Isto significa. apesar destas características e das limitações da comunicação. Neste sentido. o conteúdo dos arquivos municipais e dos arquivos centrais não repetem. que se destinava aos assuntos referentes aos concelhos. a informação. relacionado com o despacho régio. aliás. ou dos Corregedores. um poder de indagação da verdade não precisavam de uma secretaria de reserva que duplicasse a informação disponível nos arquivos referidos o que. portanto. sobretudo. Juízes. igualmente. no facto das provas documentais do exercício do poder estarem nos arquivos municipais ou nos arquivos dos tribunais e conselhos da administração central. no que tocar a seus officios. pedidos que. uma grande economia de recursos humanos e financeiros uma vez que a duplicação da informação era demorada e implicava trabalhos acrescidos. os interesses da instituição produtora da documentação.

eleições municipais. estão por conhecer como. O acesso aos processos podia fazer-se por nome próprio do requerente. O Desembargo do Paço (1750-1833). que as unidades administrativas do Reino 3 Ver pormenores da estrutura do arquivo em José Subtil. posteriormente. portanto. normalmente. Universidade Autónoma de Lisboa. dos procuradores das partes que se encarregavam de organizar o dossier com os documentos necessários aos processos sendo. O que se pode dizer.246 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS remetendo para a respectiva comarca cujos processos se organizavam em maços. da boa organização do tribunal está expressa na forma como o arquivo funcionava apesar de tratar dos mais variados assuntos. desde os mais simples requerimentos dos particulares até aos mais complexos. Tudo parece indicar que os procuradores formavam uma verdadeira corporação profissional que exercia pressão sobre o andamento dos processos e a sua resolução final. asseguravam a relação dos particulares com o monarca. sobre a estrutura e funcionamento arquivístico do tribunal é. administração dos bens da Igreja. também. Os assuntos dos particulares não entravam. A confirmação. em primeiro lugar. Formam uma interminável fonte de informação sobre o poder local. . higiene pública. que não existiam arquivos comarcais ou de provedoria o que nos remete para uma noção de periferia política e administrativa consubstanciada. porém. em grande medida. Trabalhavam. distribuídos pelas repartições das comarcas. Lisboa. No que diz respeito ao governo das câmaras. recebendo gratificações em troca. doações e heranças. 1996 (cap. por assuntos ou por toponímia3. os processos mais importantes tinham a ver com os actos eleitorais (pautas) e com a fiscalização sobre as comissões de serviço dos magistrados régios (autos de residência). Alguns oficiais e escrivães do Desembargo do Paço foram acusados de cumplicidade com alguns destes procuradores para influenciarem ou acelerarem processos. As funções e o papel político desempenhado por estes procuradores que. Ou melhor dizendo. uma prática que veio a ser abandonada por se mostrar inconsequente. etc. nos municípios. obras. porém. por esta secretaria mas sim pela Casa do Expediente através. sobretudo. o fomento económico. II). para um advogado com quem repartiam os honorários. relacionados com a administração da justiça e da magistratura. cultivo das terras. dando conta aos seus clientes dos passos que foram e estavam a ser dados. a forma como se constituíam as redes entre os procuradores e advogados espalhados pelo Reino e os que tinham escrivaninhas na Corte. exclusivamente. A certa altura foi adoptado no tribunal a numeração do registo de entrada dos processos. dos concelhos e dos donatários leigos. conflitos jurisdicionais.

Em segundo lugar. os concelhos4. os corregedores e provedores constituíam magistraturas muito especiais uma vez que as suas funções se destinavam a cumprir ordens dos tribunais superiores. A acção da Coroa em relação à periferia apoia-se.RELAÇÕES ENTRE O CENTRO E A PERIFERIA NO DISCURSO DO DESEMBARGADOR DO PAÇO 247 eram constituídas. emitirem pareceres para submeter à Mesa do Desembargo do Paço. por cair nas competências dos corregedores e provedores para. os oficiais de ligação entre o centro e a periferia. depois de procederem às indagações e inquirições necessárias. os assuntos particulares estavam dependentes das iniciativas tomadas pelos procuradores e advogados. isto é. por um grupo cujo poder de intervenção dificultava a relação directa com o monarca. História dos Municípios e do Poder Local (direcção de César de Oliveira). Lisboa. continua a ser fundamental . desde logo. em quaisquer dos casos. A arte da explanação dos assuntos e a materialização da realidade objectiva em documentos. estes delegados do poder régio foram sempre magistrados togados e nunca de capa e espada5. exigindo regras e rigores discursivos indispensáveis à apreciação régia. dentro das suas áreas jurisdicionais. sobretudo do Desembargo do Paço. 79-119. constituíam o signo de entendimento do poder régio que não reconhecia outros sentidos fora destas estruturas de modelização. o Reino estava dividido em comarcas e provedorias que incluíam. o local e o inexistente regional”. o processamento destes casos acabava. apenas. pelos tribunais centrais da Corte e pelos senados das câmaras. uma poderosa imagem do poder da Coroa porque obrigavam a descartar procedimentos que não estavam ao alcance de qualquer um. pp. 1996. “O central. 4 5 Sobre a organização do poder à periferia ver Nuno Monteiro. todavia. mais tarde. ou seja. Enquanto os primeiros dispunham do mecanismo político e administrativo assegurado pelos serviços destes magistrados. A lógica das relações e da decisão política Os corregedores e provedores eram. Ao contrário de Espanha. ou a exercerem o poder em sua representação. Tanto para os processos documentalmente bem preparados como para os que precisavam de ser complementados com mais informação. Nesta medida. a organização processual e o corpus documental constituíam. a cargo destes profissionais. Muito raramente tomavam iniciativas próprias. em profissionais especializados que conferem pelas suas práticas um carácter institucional aos procedimentos administrativos. Para o efeito. E. assim. deve registar-se que há uma clara distinção no tratamento burocrático de assuntos públicos e privados. Círculo de Leitores. Apesar das Histórias de Espanha recentemente editadas. como já se disse e se sabe.

10. Fundacion Universitária Española. entre outras tarefas ocasionais7. Desdevises du Dezert. confrarias. informações solicitadas pelo Desembargo do . locais e formas de inquirição de testemunhos. escrivão. 9 Sobretudo com os trabalhos de José Viriato Capela em especial para este tema. 62. logo suprimidos por Carlos IV6. 10 Estes estudos só serão possíveis através do cruzamento de fontes. Apesar do que hoje já se conhece sobre o corregimento9. informar sobre as actividades dos juizes de fora e juizes ordinários que não cumpriam as leis e conhecer as apelações das sentenças dos juizes ordinários. op. tinham de realizar um exame de acesso à carreira e fazer um tirocínio para obterem o encarte na correição o que só viria a acontecer no país vizinho durante o reinado de Carlos III. ainda não é possível termos uma imagem clara sobre as efectivas funções e acções no terreno dos corregedores. tít. órfãos. 8 Idem. conhecer da imunidade da Igreja. etc. 6 Sobre a carreira dos magistrados ver José Subtil. visitar os cárceres. La España del Antiguo Regímen. frequência das visitações por localidades e períodos.248 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Depois de diplomados. Madrid. momentos de trabalho com as vereações. albergarias e hospitais bem como o cumprimento das vontades dos testamentos e obras pias. fazer a eleição dos vereadores e almotacés. destinadas a informar o ministro do que seria justo a bem do povo. Braga.. actos das vereações. tempos das aposentadorias. tomar posse dos bens da Coroa quando vagassem. dar conta dos crimes e mendigos. procurador do concelho. nobreza e povo chamados a pregão e toque de sino. O provedor tinha a seu cargo o controlo e fiscalização dos cofres da comarca e provedoria. Tomavam conta das despesas e receitas dos concelhos e inspeccionavam as remessas para o Conselho da Fazenda8. eram objecto de um auto assinado por todos os presentes. particularmente. das capelas. O corregedor estava encarregue de tirar devassas. Na câmara existia. para uma visão de conjunto deste período a obra de G. autos de residência. cit. capítulo IV. receber queixas contra as autoridades locais. I. também. vereadores. As audiências gerais das câmaras. 1997. 7 Ver Ordenações Filipinas. corregedor. liv. Política de Corregedores. zelar pelo ordenamento da floresta. examinar obras. 1989. um cartório onde se lançavam os provimentos dos corregedores. liv. fiscalizar os oficiais das sisas e fazer o seu lançamento na ausência dos juizes de fora. 58. I. Universidade do Minho. seria muito interessante termos estudos que nos permitissem reconstituir a actividade de um corregedor ao longo do seu mandato. proceder à cobrança da décima. A este propósito. utilização de meios de transporte. tít.

que na maioria das contas que dão aos tribunais superiores. a sua gestão.RELAÇÕES ENTRE O CENTRO E A PERIFERIA NO DISCURSO DO DESEMBARGADOR DO PAÇO 249 Desconhece-se. económica e política. a agenda dos corregedores. particular atenção as modalidades regionais utilizadas para os concelhos requererem sobras das terças e sisas destinadas a concertos e reparações de obras devido às despesas que implicavam ou. Pode ser uma boa razão para se admitir que a relação com a centralidade polí- Paço e respostas às mesmas (ou de outros organismos centrais). aos procuradores dos concelhos quando se deslocavam à Corte. situadas no principal concelho. estado das estradas. a este respeito. a cartografia e cronologia das correições bem como o significado que as sedes das comarcas. indicia que existiam formas alternativas cujas razões e mecanismos ignoramos mas que podemos presumir tenham sido usados com recurso. dentro do possível. se outras variáveis (tempo. muito provavelmente. . Compulsando algumas destas situações. escrivães e meirinhos de apoio. Saber quais as câmaras que raramente acolhiam o corregedor e as formas usadas para receber os munícipes na sede do concelho ou obter informações sobre a vida social. os corregedores assinalam a data e a localidade em que se encontram e os autos indicam os funcionários ao serviço. verifica-se que a grande maioria se reporta a grandes ou médios concelhos abaixo do Mondego. De notar. aleatoriamente. Merecem.) influenciavam. E tão pouco estamos em condições de podermos comparar o desempenho destes cargos para concelhos de diferente dimensão e estatuto o que nos permitiria. por exemplo. desempenhavam na vida profissional do corregedor. desta forma. etc. à resolução de problemas suscitados pelos tribunais superiores forçando. problemas das casas para aposentadoria. por exemplo. embora raros. O mesmo se dirá das apreciações que fizeram sobre as apelações dos juizes ordinários. Mas se o Desembargo do Paço comunicava com as câmaras através dos corregedores e provedores. avaliar em que medida o corregimento se limitava. inventário das presenças destes magistrados nas diversas corporações locais. os casos em que estas se dirigiam directamente ao tribunal. em grande parte. em contrapartida. as reacções municipais aos pedidos régios para as agravar como. Neste caso. ou não. através do Secretário de Estado dos Negócios do Reino. etc. também. as solicitações do centro. pautas eleitorais. sindicâncias. ou indirectamente. as câmaras não esperariam pela reunião com o corregedor. assim. A fórmula a adoptar para estes estudos consistiria em delimitar no tempo os seus mandatos e correr a informação disponível nos tribunais superiores e nas câmaras de forma a estabelecer-se uma cronologia das suas actividades. o lançamento de segundas terças. Ou se o planeamento anual da correição obedecia a algum calendário standard ao qual se acopulavam.

introduzindo tipos de relacionamento forçados por factores que não faziam parte das lógicas políticas do regime. compostas pela herdade de Tagarrães e o baldio de Lopo da Mouta. o princípio de que todas as partes se deviam pronunciar para aferir dos privilégios. ser posta de lado na medida em que. Nobreza e Povo. e Cabelo”. indirectamente por intermédio da Secretaria de Estado dos Negócios do Reino ou directamente pelos procuradores dos concelhos) e a consequente instrução processual mantiveram-se inalteráveis até ao final do Antigo Regime e a extinção do Desembargo do Paço (1833). assim. instruir o processo com as opiniões das partes envolvidas. desembargador do tribunal do Desembargo do Paço e Conselheiro de Sua Majestade. exclusivamente com a opinião do magistrado. que o Desembargo do Paço não modificou o seu modo de proceder relativamente às decisões sobre o poder local. Um exemplo limite e. o tribunal dá instruções para o corregedor ouvir sobre a matéria todos os interessados não decidindo. Estas três formas de relacionamento entre o tribunal e o poder local (apenas através do corregedor. fomentada pela proximidade territorial a Lisboa ou por facilidades de comunicação. Uma vez que a câmara . Mas a hipótese de que tal expediente pudesse corresponder a uma forma expedita de relacionamento com o tribunal deve. que pretendia aforar ou comprar umas terras em Arronches. igualmente rara. nunca se enraizariam nos procedimentos habituais do tribunal. instruções para as mesmas câmaras ou que as remeta por intermédio dos corregedores e/ou provedores. por isso. Temos. isto é. ou seja. sempre que tal se verificava. Outra situação. também. Diogo Inácio Pina Manique. porém. o Desembargo do Paço envia os requerimentos para o corregedor ouvir a Câmara. de imediato.250 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS tica é. com o argumento de possuir uma lavoura interessante tanto em “sementeira como em criação de Gados de Lãa. Contudo. Por outro lado. com a excepção para outras modalidades de comunicação que emergiriam após o consulado pombalino mas com outros contornos políticos como adiante se verá. Também nestes casos. regalias e direitos adquiridos de tal sorte que os despachos não contradissessem a ordem estabelecida ou a viessem perturbar. elegeu sempre o modelo jurisdicionalista como norteador das suas tomadas de decisão. refere-se aos pareceres que os corregedores decidem remeter para o tribunal sobre matérias de governo camarário sem que a iniciativa tenha pertencido aos senados. o ganho de tempo podia ser grande uma vez que eram suprimidos os tempos de correio entre o corregedor e o tribunal. Não se verificam situações em que o tribunal despache. por conseguinte. emblemático desta conformidade diz respeito ao pedido (24 de Novembro de 1788) formulado pelo poderoso e influente Intendente Geral da Polícia. nos casos que conhecemos.

. portanto. significa que do cálculo dos peticionários não constava este tipo de procedimentos nem os mesmos se configuravam. o desembargador pretendia “aumentar a sua Lavoura. e as criaçoens dos seus Gados” que. A decisão final acabou por não ser tomada. pode dizer-se que este género de expediente era tudo menos económico. Este tipo de comunicação entre a Coroa e a periferia. os do território onde se encontrava ou se presumisse que iria estar. ao alimentar com este modelo um conjunto numeroso de oficiais e profissionais encarregues da redacção dos textos e traslados. se tivermos em conta que durante a correição podia recolher os mesmos. por parte dos peticionários. o que afirmava não ter acontecido com os anteriores rendeiros. também “interessa ao Estado”. própria de um certo poder indisponível à 11 IAN/TT. desde logo. ao repetir os actos e a homogeneizar as decisões. o uso. previsíveis. no âmbito do corregimento. aliás o podia fazer. fundamentava o acto jurisdicional. sobretudo. ao repetir-se. maço 340. Digamos que o modelo. inculcava em todos estes actores fórmulas universais e disciplinas processuais que contribuíam para a aceitação de uma linguagem especial. No mínimo. desconhecendo-se as razões que a impediram.RELAÇÕES ENTRE O CENTRO E A PERIFERIA NO DISCURSO DO DESEMBARGADOR DO PAÇO 251 tinha vindo a arrendar essas herdades. pelo menos. instrumental do tribunal e que a Corte. de certo modo. ao contrário do que pudesse parecer. retirasse as informações que da praxe eram exigidas e remetesse para o tribunal o processo já instruído para ser ultimado. A gestão do tempo. Ministério do Reino. O requerimento deu entrada directamente no tribunal mas a Mesa deliberou que não podia tomar qualquer decisão sem ser ouvida a Câmara. ganhava com o expediente uma certa centralidade que não podia assumir se aligeirasse os procedimentos. dos circuitos e a escolha dos actores. de determinação de resultados e garante da não arbitrariedade política. de procuradores das partes para levar os requerimentos à Corte parece significar que o papel do corregedor é. No que respeita aos particulares. Neste sentido. embora se saiba que ficou retida na Secretaria de Estado dos Negócios do Reino. tanto pelo tempo que acabava por demorar como pelos custos que implicava. Nobreza e Povo para se conhecer a verdadeira justiça e não poder vir a ser sujeita aos embargos de obrepção e subrepção de outros interessados ou lesados11. cotava o tribunal como um lugar de escolhas. o facto do expediente não ser canalizado pelo corregedor que. no seu entender. Na lógica dos nossos procedimentos seria óbvio que nos casos em que o corregedor pudesse recepcionar as petições. mesmo que fossem.

por um lado. ficando reservado aos oficiais régios. essencialmente. Desta forma. pela via passiva. Em contrapartida. de facto. assim e sobretudo. pela habilidade retórica para a construção de verdades. tantas repetições de procedimentos. ficaria sempre sujeito ao embargo das suas decisões o que de todo era de evitar pelas consequências que acarretava. . também. se investisse demasiado em actos de duvidosa consequência prática. a suspensão da mesma. o poder que exigia a formatação dos discursos adequados era. para nós que hoje somos movidos pela economia das acções. Limitar o poder do rei e limitar o poder das câmaras. por sua vez. pelo facto do tribunal não ter por hábito remeter ordens sobre o governo das câmaras ou tomar iniciativas políticas.252 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS extravagância. pelo ganho da celeridade e da eficácia. ou seja. arbitrariedade ou estratégias de surpresa. nada fazia supor para o governo das câmaras que o tribunal tivesse uma estratégia de ocasião ou objectivos obscuros na apreciação que fazia dos processos. A estratégia de dominação do centro sobre a periferia residiu. o seu estatuto político e social. Deste modo existe uma enorme desproporção entre o aparato discursivo dos actos administrativos e a dimensão da acção política. desde logo. os despojados destas competências. reage sempre a acontecimentos ou factos e não cria. nem factos. Digamos que o tribunal age. a razão de ser de todos estes oficiais que não tinham interesse algum em o destruir dado que no conhecimento que possuíam destas tecnologias residia. se fizessem tantas coisas da mesma forma. A consolidação deste estilo de governo. tal era o fundamento e a promessa do modelo jurisdicionalista que o Desembargo do Paço garantia como instituição central do sistema. De facto. é atestada. nem acontecimentos. de uma forma global. a jusante ou a montante. Mesmo que o viesse a fazer. tanto legitimavam as suas autoridades como reconheciam que ao usá-las podiam aceder ao sistema de legitimação política. achamos incompreensível e estranho que. deliberadamente ou não. assegurar o prosseguimento desses princípios. neste período. na regularidade discursiva e na constituição de corpus documentais. por outro. que permitiam o autogoverno dos senados. e nos poderes jurisdicionais delegados ou normativos. a eficácia dos actos administrativos e de governo dependiam desta disciplina dos textos e da sua organização e nunca da excelência dos argumentos ou da exuberância literária como acontecerá a partir do pombalismo. fundada na previsibilidade dos textos e procedimentos. ao recorreram aos que as tinham. Por isso. Nestas circunstâncias.

. afirma Ana Buescu a “Escrita manual. evidentemente. a dominância do manuscrito sobre o impresso (transcrição p. promovendo uma tecnologia de dominação que privatizava o conhecimento o que não acontecia com o documento impresso que. 32). a banalização das mesmas. Este facto mostra que a imprensa não terá assumido um papel inovador nos actos administrativos do tribunal e. 13 Ana Isabel Buescu. os grupos profissionais que tinham o domínio da escrita favoreciam. 1969. justamente. com L’ archéologie du savoir. nomeadamente quanto à dominância de certos padrões e tipologias documentais. 806-822. também. a revolução tecnológica constituída pela criação dos caracteres metálicos permite a fixação das normas linguísticas e ao aparecimento de gramáticas e tratados ortográficos.) Com o aparecimento da imprensa. por vezes criadora. repetidamen- 12 Sou aqui. sobretudo. o manuscrito implicava um ditado feito pelos magistrados ou escrivães. Desta forma inculca-se a ideia de que as competências linguísticas. pp. Paris. facilitava os actos administrativos. Firenze. verificamos que uma das constantes que impregna a actividade burocrática diz respeito à permanência da cultura manuscrita que cobria todos os momentos processuais e de expediente. É certo. referências a conceitos e fórmulas. sobretudo. influenciado por Michel Foucault. por isso. particularmente. pelo contrário. E como. . ela integra um carácter sacrificial e um significado transcendente (. 2000. na formulação dos enunciados e na utilização da retórica14. procede a uma análise sobre a cultura impressa e manuscrita durante a época moderna onde acentua. “Les magistratures populaires dans l’organisation judiciaire d’Ancien Regime au Portugal”. Gallimard. o prestígio simbólico do manuscrito terá resultado da singularidade do documento enquanto objecto único para. 1982. Cosmos. Ensaios de História Cultural (séculos XV-XVIII). consagrar o monopólio das produções discursivas por uma elite e evitar. Por outro lado.RELAÇÕES ENTRE O CENTRO E A PERIFERIA NO DISCURSO DO DESEMBARGADOR DO PAÇO 253 O discurso manuscrito12 Se compulsarmos o discurso produzido pelo tribunal onde se materializavam os seus actos. ao vulgarizá-lo. Só para o final do século XVIII começaram a surgir documentos impressos que correspondem a um novo entendimento da produção documental. 14 Sobre o mundo jurídico não letrado ver António Manuel Hespanha. também. a elitização dos letrados na medida em que se tornavam elementos decisivos na manutenção das condições de produção discursiva. que sendo a época dominada por uma cultura oral e exigindo o acto administrativo uma cultura escrita. em Memória e Poder. individualizada.. Diritto e Potere nella Storia Europeia. Lisboa. e implica o definitivo desaparecimento do carácter “sagrado” da escrita”13.

a legislação vai continuando a dar conta de algumas virtudes. garantindo uma certa permanência física dos trabalhos que começavam cedo e terminavam cedo. Por tudo isto. obrigados a fazer os despachos. igualmente. Por isso. fundamentalmente. serem obrigados a fazerem-se acompanhar da mulher e dos filhos. pareceres e deliberações (tenções). desde as sete horas de Verão e oito de Inverno até ao final da manhã. Na altura dos votos. não podiam acumular com outras funções dentro do tribunal. estarem proibidos de frequentar casas de jogos. as insígnias e as composturas deviam contribuir. uma ordem final que regulava o certo e o errado. no trabalho dos tribunais ou em quaisquer actos públicos deviam usar “togas talares descobertas. não tomarem afilhados de género algum. a probidade. para o “respeito que todos devem”. Na presença do rei. Ao longo do século XVII. Como. só poderem fazer visitas uns aos outros. O acto que realizava e definia estas classificações era. como a prudência. Um saber recheado de qualidades indisponíveis à maioria. Quando começavam a trabalhar. Ao mesmo tempo. o domínio que o governo dos togados detinha para produzir taxonomias na apreciação de processos já examinados estabelecia. também. gorra ou carapuça”. . também. por isso. os desembargadores do Paço obedeciam a um ritual apertado e cerimonioso no exercício das suas funções quando estavam reunidos para despacho. não podendo trazer capa sobre a beca15. Estavam. uma competência com carácter “sagrado” a que até o próprio monarca ficava submetido. As providências sobre os trajes. Não podiam. tanto nas deslocações dentro do Reino como fora dele. gerador de suspeitas de um saber quase misterioso exercido na inacessibilidade dos gabinetes ou em procedimentos ocultos. as portas dos gabinetes eram fechadas e mesmo os escrivães só podiam entrar desde que chamados pelo toque das campainhas. nem ter casa 15 Algumas destas disposições estão já consagradas no Alvará de 30 de Junho de 1652. depois da publicação das Ordenações Filipinas. por exemplo. ou declarações. ser interrompidos nem vistos enquanto trabalhavam. Para evitar intimidades estavam proibidos de prover ofícios ou serventias nos tribunais em criados ou parentes até ao quarto grau. portanto. eram obrigados a cobrir as cabeças em sinal de recolhimento e meditação. o rigor e a imparcialidade vertidas em textos cuja ordem do discurso era insuspeita pela ilustração das evidências conclusivas. pelas suas próprias mãos como que transmitindo ao documento a originalidade irrefutável e inquestionável das suas autoridades e conhecimentos. também. deveres e direitos dos desembargadores.254 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS te inscritos nos discursos eram. não poderem morar fora da cidade.

a este respeito. Coimbra. . através dos documentos. nem mesmo através de artifícios indirectos como podiam ser visitações às câmaras. ou. Estavam isentos das responsabilidades recorrentes de sentenças injustas e não podiam dar consulta sobre mercês a parentes até ao quarto grau16. exclusivamente. Typographia Rollandiana. E todo este trabalho realizado no Desembargo do Paço era. abusos. Lisboa. Esboço de hum Diccionario Jurídico. Theoretico. Repertório Gera. de certas passagens das Ordenações e dos Regimentos lidas pelo seu escrivão. Em circunstância alguma podiam ser presos. muitos sem instrução para saberem ler e escrever. 16 Encontra-se referência a esta legislação em Joaquim Caetano Pereira e Sousa. 1843. fazia depender a confiança política nestes magistrados num qualquer fiscal das suas actividades. regra geral. um trabalho sobre textos. o ritual das audiências das câmaras decorria em ambientes semelhantes e. suspensos ou despedidos sem expressa autorização régia. exclusivamente. Embora em menor escala. Clero ou Povo para serem ouvidos ou confrontados com opiniões favoráveis ou desfavoráveis. ou seja. em altura alguma. Quando encontramos. em voz alta. 1825. os corregedores queixavam-se da falta de cerimonial dos senados e da rusticidade dos vereadores. Em conclusão. o tribunal tomava a iniciativa de solicitar novas informações referindo os reparos que foram feitos. os magistrados régios obrigavam os vereadores e os procuradores a escutar a leitura.RELAÇÕES ENTRE O CENTRO E A PERIFERIA NO DISCURSO DO DESEMBARGADOR DO PAÇO 255 na cidade e a família fora. e Practico. O Conselho não dispunha destes dispositivos nem. Com alguma frequência. Por isso mesmo. E nestes casos. o que é sempre referido são a falta de informação. Imprensa da Universidade. que a relação entre o Desembargo do Paço e a periferia foi uma relação fundada em realidades discursivas mediatizadas pelos corpus documentais produzidos pelos corregedores. sequer o imaginou como necessário e indispensável para velar pelo bom desempenho dos corregedores e. etc. com raridade. por vezes. ou Índice Alphabetico das Leis Extravagantes. a acção do Desembargo do Paço nunca se revestiu com carácter de indagação sobre a realidade política local com recurso a procedimentos de observação directa por parte dos desembargadores. ainda. muito raramente. formação de comissões volantes para inspeccionarem as comarcas ou até a chamada ao tribunal de vereadores ou representantes da Nobreza. podemos dizer. críticas ao Desembargo do Paço por parte das câmaras. testemunhos falsos ou preponderância de pareceres. em Manoel Fernandes Thomaz. continuando a observar os acontecimentos. uma forma de trabalho que se destinava a formar uma opinião meditada acerca das coisas sobre as quais os textos não se deviam equivocar.

naturais e indisponíveis à interpretação arbitrária da razão humana. 199 . sendo que o último. também. História de Portugal. global da situação que se vivia na maior parte dos concelhos e que retirava. IV. e que o mesmo he irmão do actual vereador Leonardo Ferreira”. juntar “sete. doc. 5). . repartição do Alentejo e Algarve. cada vez com maior detalhe e expressão regional. 121-156. efectivamente. pp. o governo das câmaras estava confinado a uma corte provinciana e local cujas lógicas emparedavam os limites da autoridade régia e controlavam os efeitos de qualquer estratégia que pretendesse invadir a soberania que detinham sobre os seus territórios. Ao contrário do complexo conhecimento das coisas “divinas” e “humanas” que pedia um governo com prudência e justiça para assegurar uma ordem capaz de cumprir o desígnio transcendental. Os vereadores normalmente acabam em juízes. maço 800. vol. e. E é verdade. passava a admitir a autonomia dos homens para se governarem. “tinha servido de Vereador. miseráveis povoaçoens. que tem o titulo de Villa”. os novos fundamentos ideológicos e políticos da segunda metade do século XVIII acabariam por interromper a influência absoluta dos teólogos e juristas da tradição do período do ius commune e atribuir o papel principal de governo aos políticos que se esforçavam por produzir modelos racionais de compreensão do social.256 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS A nova centralidade pombalina Vila Flor que “he huma das mais piquenas. de se legitimar em princípios que transcendiam a vontade dos homens. apesar de outros dois candidatos terem tido mais votos17. por esta via. com muito sacrifício. Este relato do corregedor de Portalegre expressa a imagem. Círculo de Leitores. na altura em que se procede à devassa da correição consegue-se. Desembargo do Paço. o modelo de representação social fundado no indivíduo. 18 Ver síntese sobre os contornos dos modelos de representação em Ângela Barreto Xavier e António Manuel Hespanha. “A representação da sociedaded e do Poder”. que o quadro doutrinário não vocacionava os corregedores para procedimentos que tivessem em vista desestruturar estas realidades18. dotado de vontade e de razão. Como tem vindo a ser conhecido. Esta libertação da natureza e do social em relação ao divino produziu a possibilidade de o pensamento social se poder constituir como pensa- 17 Relato do corregedor de Portalegre (IAN/TT. Lisboa. apezar de haver pouco que deixou de guardar cabras. campo de manobra política para a acção dos corregedores. João Ferreira. até oito testemunhas”. tendencialmente. A formulação dos novos enunciados discursivos deixava. Todavia. com regras e leis de governação.

efectivamente. A razão passava agora a ser invocada para criar. acabaria por ser. evidentemente. também. iremos assistir a abertura de conflitos entre o tribunal e outros organismos criados na matriz política como sejam. Contudo. aceleração na tomada de informações. precisavam. pelo menos. construção de estradas. os poderes locais tendem a autonomizar-se enquanto que. à oportunidade das suas missões e ao bom desempenho dos cargos. Curioso que. embora claramente sedutora para os políticos. medido por resultados práticos. oficial encarregue de uma determinada área de governação com jurisdição plena mas disponível à vontade do príncipe. doravante. a Intendência Geral da Polícia. concomitantemente. os oficiais régios podiam aumentar as possibilidades da sua presença física directa impondo. no inverso. também. na segunda metade do século XVIII. a este respeito. encanamento dos rios e melhoramento dos portos. criarem um dinamismo na governação e racionalização dos espaços e territórios. ou seja. também. permitir o movimento de pessoas e bens. E esta foi. por exemplo. Um dos tópicos mais emblemáticos desta mudança de perspectiva é o continuado apelo às reformas dos meios de comunicação. aliás. a mudança preconizada. o domínio da observação sobre o do relato. construir e não conformar. manifesta porquanto numa situação em que a mobilidade política e social é de baixa intensidade. ver mais e ler menos. o modelo dominante continuou a ser o da legitimação pela tradição pelo que. Do ponto de vista dos poderes centrais. que os novos agentes do poder central. de mais autoridade sobre as câmaras e os magistrados locais para poderem dar sentido político efectivo às suas presenças. Como. alterando os condicionalismos da imobilidade onde se fundavam as particularidades locais para. Do ponto de vista social. o Erário Régio e as novas secretarias de estado que elegeram para os seus programas políticos a usurpação funcional dos poderes corporativos. criar doutrina sobre a ordem social mais adequada. ao deslocaram-se. em contrapartida. a reforma das vias de comunicação permitiria maior rapidez na comunicação. apresentação de inquéritos e relatórios capazes de mapearem e cartografarem os problemas da governação. conservar.RELAÇÕES ENTRE O CENTRO E A PERIFERIA NO DISCURSO DO DESEMBARGADOR DO PAÇO 257 mento político autónomo e. a lógica da figura do intendente. Estes pressupostos significam. A razão de tudo isto é. imaginada por alguns magistrados tradicionais que recorreram para o Desembargo do Paço dispostos a distinguir pela positiva as vantagens . o melhoramento dos meios de comunicação tinha em vista. mais e mais rapidamente. nesta medida. também. o modelo de grande mobilidade aumenta o domínio do território por parte dos agentes do poder central que tenderão a diminuir a autonomia dos poderes locais.

era necessário separar a sua jurisdição de uma intendência que reformasse as estradas.. E assimilava o efeito da mobilidade do comércio ao da virtude de um poder regional superior ao dos próprios corregedores. mostrava a necesidade de se adoptarem. com a ineficácia do corregimento. Ministério do Reino.º 340). E afirmava. inclusive. não só da sua provedoria mas das que se encontravam contíguas. Chega mesmo a apresentar um plano para a construção e conservação das estradas a cargo de uma superintendência que procedesse. . Evidentemente que a proposta do provedor colocava um problema sério ao Desembargo do Paço que tinha a ver com a criação de um superintendente particular com poderes para intervir na esfera tradicional das competências das câmaras e dos corregedores. a importância dos pequenos poderes na relação com a autoridade do intendente. confundindo-se esta no concurso de todo o Corpo”. e senão. por exemplo. que se permitiu. do provedor de Torres Vedras. M. onde não chegasse a dita imposição era igualmente do expediente desta Meza”. Manuel Inácio da Mota e Silva19.258 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS desta nova administração.. Na sua proposta reconhecia.) Que todo o 19 6 de Novembro de 1787 (IAN/TT. para além de ser marcada pelo entusiasmo nos novos ventos de mudança uma vez que não se eximia a dizer que a “Ovra do efeito que tinham produzido as Superintências particulares em cada objecto. no seu entender. porém. e sobre que a Camera podia fazer Postura guardada a forma da Ordenação do Reyno: Que isto pelo que respeitava a imposição sobre os carros. ao tombo das que existiam. Não deixando. atendendo ao “Grande Espírito com que V. É o caso. talvez porque cada hum de per si não adquiria a gloria de ser util ao público. se as Estradas se achavam praticáveis (. acusando os poderes camários “Vista a tristíssima experiência de que os officiaes das Cameras já mais olhavam para obra alguma pública. como sejam o dos juízes de vintena. que olhassemos para o Reyno cheyo de Cameras e de Corregidores e que vissemos. quem felicitava os Povos. o provedor encontrou como justificação para as suas ideias o facto destas “Providências parecia serem todas do Expediente desta Meza porque todas erão da Economia dos Povos. e que quanto ao Suprimento dos sobejos das Sizas. promovia o Bem dos seus Vassalos” defender que era “Princípio certo que o Comércio interior do Reino era. e quem augmentva o Real Erário” pelo que. maço n. ainda. de ser um magistrado do Desembargo do Paço. que tais proposições “Concorriam igualmente ao bem do Estado na exportação e importação” o que não se verificava na comarca de Torres Vedras que “Estava ao abandono da sua Policia”. comparando-a. igualmente. curiosamente.

dias conturbados durante a implantação do liberalismo. A estratégia de consumação dos poderes tradicionais passaria. Com o apoio de outros organismos. o provedor defendia uma política de centralização administrativa a nível regional e o arbítrio do superintendente para administrar com total liberdade. 2002. como se depreendeu. o pólo de coordenação da nova centralidade para com as câmaras deslocou-se para a Secretaria de Estado dos Negócios do Reino que. A partir de então. em que estavao as Estradas do Reyno. a disponibilidade para que o espaço administrativo. em crescendo. isto é. vol. Mas a Secretaria de Estado dos Negócios do Reino. neste novo figurino e expediente político. como que desautorizando o tribunal. não fez seguir a consulta para despacho régio. só remedios extraordinarios lhe convilhão” (o sublinhado é nosso). Lexicultura. mas que por hua só cabeça e que ella estabelleceria os braços. mas que no estado apoletico. sobretudo. devia ser tratado com muita Política prudencial. entre os mais importantes. “Governo e Administração”.RELAÇÕES ENTRE O CENTRO E A PERIFERIA NO DISCURSO DO DESEMBARGADOR DO PAÇO 259 Objecto grande e público. após a extinção do tribunal. particularmente. que julgasse a propósito Que elle não avançava a que se tirasse às Cameras a economia que a ley lhe dava. pp. a nível central como. Uma só cabeça. sem dúvida. claro está. a assenhorear-se da tramitação burocrática do próprio tribunal com o monarca. estava criada uma outra administração que coabitaria com a do modelo tradicional em evidente ponto de ruptura. também. a de que o tribunal estava claramente contra a corrente do centralismo pombalino que advogava que a relação entre território e jurisdição. História de Portugal. Escusado será dizer que o Procurador da Coroa foi contra esta fantasia do provedor ao dizer que as Ordenações já regulavam estes assuntos na competência das câmaras e dos corregedores acabando. . A conclusão a retirar deste processo é. VII. 199-234. Lisboa. foi dando ordens aos corregedores e provedores sem informar o Desembargo do Paço passando. pela técnica de esvaziamento funcional 20 Ver síntese deste modelo em José Subtil. a aliança do tribunal e das câmaras contra estes novos funcionários mostrou a lenta agonia do modelo de liberalidade nas relações entre o centro e a periferia que teria. E. o Erário Régio (22 de Dezembro de 1761) e a Intendência Geral da Polícia (25 de Julho de 1760). não coincida com as comunidades e com os limites dos poderes instalados teria que ser marcada pela implantação no terreno dos intendentes e superintendes com obediência directa às secretarias de estado e não ao Desembargo do Paço20. entretanto criados. em que se necessitava do Socorro dos Povos. por o Desembargo do Paço concordar com o parecer e não atender às súplicas do seu provedor.

praticamente. desempenhou. . para o efeito. um papel determinante na organização e composição destas unidades. Lisboa. 2001. a perda da influência do Desembargo do Paço na comunicação política com as câmaras. As respostas do tribunal à actuação destes magistrados obedeceu. o tribunal e os seus os corregedores e/provedores tenderam a moderar. a nível local. durante o período neo-pombalino liderado por José de Seabra da Silva (1784-1799). 21 Para uma síntese da reforma do governo pombalino ver José Subtil . amiudadamente. “A Reforma do Governo e da Administração (1750-1777)”. a que assegurou a comunicação política entre a Corte e o Reino.260 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS do Desembargo do Paço e pelo afrontamento político. Conclusão Durante o Antigo Regime. Destas reformas resultaria. por um lado. podemos dizer que. o poder das câmaras mas. O discurso do Desembargo do Paço expressa e assinala. de um modo geral. pp. As câmaras perceberam tanto o rodeio destas inovações como a intromissão da secretaria de estado nas suas jurisdições privativas21. a esta última. em informações escritas preparadas pelos mesmos. ainda mais. com a regulação das jurisdições dos donatários. como freguesias e paróquias.101-112 22 Sobre o disposto nestas reformas e as suas consequências na alteração do mapa político do Reino. regra geral. consultadas. Estampa. ainda mais longe. essencialmente. criação do Superintendente Geral das Estradas (1791) e incorporação do Correio-Mor na Coroa (1797). câmaras de Pombal e Oeiras. a abolição das ouvidorias. Nobreza e Povo deviam ser manifestas quanto às decisões tomadas para não se pôr em causa a justiça e o bem público. exclusivamente. demarcação das comarcas (1790)22. ver Ana Cristina da Silva. 1998. Separando a acção destes magistrados no terreno da que estabeleciam com o Desembargo do Paço e referindo-nos. por esta via. também a proteger e a valorizar as suas opiniões quando eram. Actas do colóquio O Século XVIII e o Marquês de Pombal. por outro lado. aos senados das câmaras através das magistraturas dos corregedores e provedores e foi. As unidades orgânicas mais pequenas. que as audições da Câmara. apenas. a relação do Desembargo do Paço com a periferia resumiu-se. O Modelo Espacial do estado Moderno. as alterações das relações entre a Corte e a periferia foram. aos seus pareceres e fundou-se. os corregedores e os provedores. Já no final do Antigo Regime. mediatizavam a relação com o tribunal por intermédio do poder camarário que.

foi a da criação de condições para uma maior mobilidade dos agentes de poder régio. uma das quais. Mas estas actividades não enchem a documentação que chega ao tribunal. não resultassem prejuízos graves para a ordem estabelecida. Estavam em causa outros problemas. porém. pela Secretaria de Estado dos Negócios do Reino. em assegurar tipologias. a partir de meados do século XVIII. Ou seja. novamente. liberdade para governarem e mais território para intervirem. o rumo tradicionalista pelo que. pela geração liberal. não perderem. o papel desempenhado pelos mesmos magistrados no domínio comarcal onde tinham de agir para resolver abusos da administração municipal como sugerem muito dos capítulos das correições já estudados. pelo menos. ao tribunal interessava-lhe. regularidades discursivas e habitus burocráticos que promovessem o direito como tecnologia de decisão. veio colocar problemas à autoridade do Desembargo do Paço. outras estratégias e outras tecnologias de dominação que passaram por várias inovações. sobretudo.RELAÇÕES ENTRE O CENTRO E A PERIFERIA NO DISCURSO DO DESEMBARGADOR DO PAÇO 261 Outro terá sido. a manutenção dos privilégios e regalias consolidadas ou que. a importância que revestiu para o tribunal a nomeação e o controlo das suas carreiras de forma a garantir que os seus serviços promovessem a paz e evitassem a discórdia. os poderes locais foram confrontados com duas centralidades (uma passiva. A questão do efectivo controlo da periferia pelo centro viria a ser assumida. O tribunal sentiu a mudança e a perda de autoridade mas não mudou. A produção e reprodução dos mecanismos de dominação do centro à periferia consistiu. Intendência Geral da Polícia e. outra activa) que concorrerem em conflitualidade pelo monopólio do poder. especialmente. por isso. como fundamental. no essencial. . bem referenciada e assumida. Afinal todos esperavam ganhar com este expediente ou. até à sua extinção (1833). embora com outros contornos. das suas alterações. sobretudo. Entre esses problemas é de salientar a alteração das regras de intervenção política que passaram a considerar. o constrangimento do poder local. O surgimento de novos oficiais com competências para exercerem funções em áreas regionais que cobriam territórios de diversos concelhos e comarcas bem como o controlo da centralidade na comunicação com as comarcas e concelhos pelo Erário Régio. Compreende-se.

em Reguengos de Monsaraz. sobre poderes centrais e poderes periféricos numa perspectiva histórica. Os Municípios no Portugal Moderno: dos forais manuelinos às reformas liberais Lisboa. que muito facilitaram o êxito desta iniciativa. Há muito mais estudos. Edições Colibri – CIDEHUS-UE. procurando reflectir as comunicações e as discussões. Se nos reportarmos ao encontro que teve lugar há uma dúzia de anos. . Em vez disso. bem como a eficaz organização e o excelente acolhimento facultado aos participantes. de diversidade de assuntos. também mais reflexão sobre o que ficou por fazer ao longo deste percurso.Balanço final: Questões para uma sociologia histórica das instituições municipais1 RUI SANTOS (Univ. mas também. procurarei extrair e discutir os pon1 Este texto desenvolve. sobre novos problemas e novas hipóteses de resposta. gostaria de começar por agradecer ao CIDEHUS. Não sendo especialista na matéria. Sociologia Histórica) Antes de mais. 2005. em termos de orientações analíticas. 263-274. pp. no essencial. dificilmente este balanço poderia ser uma síntese competente da rica diversidade de informações e de pistas de trabalho deixadas pelas comunicações e pelos debates que tiveram lugar. Foi elaborado sem conhecimento dos textos finais dos restantes autores. Por isso mesmo. sobre a necessidade de corrigir enviesamentos dos resultados obtidos. Agradeço à organização do encontro o ter-me prontamente facultado as gravações das sessões. tal como decorreram oralmente. a comunicação de encerramento apresentada no encontro. há muito mais pensamento e análise. o que é ainda mais importante. pesem embora incursões pontuais lançadas a partir de investigações centradas em outros domínios. mas também de maturação dos temas. à Câmara Municipal e à Biblioteca Municipal de Montemor-o-Novo o convite para participar neste encontro. podemos hoje verificar um enorme contraste que denota uma grande progressão e um amadurecimento desta área temática. Sociologia / Instit. pelo que não incorpora eventuais modificações entretanto introduzidas nas versões escritas. também do ponto de vista académico. Nova de Lisboa – FCSH – Dept.

e mesmo na fase final do antigo regime. da falta de estudos sobre os municípios de fronteira e de áreas interiores. mas ao mesmo tempo do carácter pouco estruturado dessa acumulação que coloca problemas de representatividade. Em segundo lugar. embora práticos. e têm-se generalizado para os séculos XVI e XVII imagens centradas no século XVIII. São escassos os estudos longos. o que me pareceu terem sido os grandes consensos emergentes das comunicações e das discussões. especialmente no Continente. apesar de o considerar imprescindível numa agenda de investigação sobre as instituições municipais e as suas práticas no contexto do antigo regime. Abordarei consecutivamente três aspectos: primeiro. terceiro. sobre os pequenos municípios rurais. fá-lo-ei a partir de uma perspectiva. de comparabilidade e portanto de síntese e generalização. sem ilusões de exaustividade nem de imparcialidade do ponto de vista adoptado. o que me pareceu ter ficado por tratar. que padece de uma excessiva concentração nos grandes municípios. Espero assim dar um contributo para a clarificação e o debate das muitas e interessantes questões levantadas no encontro. ancorada na sociologia histórica e como tal privilegiando a análise comparativa das configurações e das instituições sociais. mas também a necessidade de os projectar na longa duração. . Foi sobejamente notada por vários intervenientes a carência de investigação sobre casos anteriores ao século XVIII. a minha.264 OS MUNICÍPIOS NO PORTIUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS tos que me parecem especialmente interessantes para a definição actual de problemáticas de investigação sobre o tema. 1. o que me pareceu terem sido os pontos principais de ruptura e debate manifestos. como a influência da contiguidade das áreas estudadas às implantações universitárias detectada por Francisco Ribeiro da Silva. Seria necessário alargar os horizontes cronológicos para aferir melhor as continuidades e descontinuidades. e até da interferência de factores cientificamente espúrios. bem como dos processos de reprodução e de mudança social. Em primeiro lugar. os consensos mais interessantes revelados por este encontro relacionam-se com o diagnóstico de uma acumulação de estudos de caso – veja-se o rico inventário apresentado por Francisco Ribeiro da Silva – que denota grandes ganhos de conhecimento. o alargamento também da representatividade cronológica. Inevitavelmente. e pensar mais em termos de contrastes e de mudanças. segundo. destacou-se a necessidade de um alargamento da representatividade territorial. Consensos Da perspectiva em que me coloco. as omissões. com vista a generalizações empírica e conceptualmente relevantes.

. seleccionados e arquivados com que construímos as fontes. o da hierarquia burocrática e militar dos concelhos: concretamente. por outro lado. As posturas camarárias repetindo ad nauseam durante décadas a proibição desta ou daquela prática (como a de criar porcos pelas ruas da cidade. Terceiro alargamento de representatividade. os de licenças e os de fianças.BALANÇO FINAL: QUESTÕES PARA UMA SOCIOLOGIA HISTÓRICA. onde conflitos. Um quarto alargamento de representatividade identificado foi a correcção do que poderíamos chamar o enviesamento sociológico salientado por José Viriato Capela. que não fariam menos parte da vivência dos subordinados. Em primeiro lugar. devido à transferência dessa documentação dos arquivos municipais para os tribunais durante as reformas liberais do sistema judicial. ao menos em filigrana. o estudo da importância do funcionariado concelhio e do oficialato das ordenanças nas configurações efectivas de exercício do poder. existem corpos documentais nos próprios arquivos municipais onde alguma visibilidade pode ser recuperada. e nas oportunidades de acesso a status sociais conferidos por essas hierarquias enquanto vias de mobilidade ascendente para elites subalternas. dos fluxos da periferia para o centro e da influência . 265 não apenas de semelhanças – pese embora a estabilidade dos discursos jurídicos que moldavam as relações de poder no decurso do antigo regime. por vezes com surpreendente pormenor. conterá provavelmente informação preciosa para este interrogatório. avanços e recuos nas decisões camarárias em confronto com os administrados ficaram frequentemente registados. mas talvez parcialmente superável pelo estudo sistemático dos seus rastos nos processos depositados nos tribunais de segunda instância. as próprias actas de vereação. como apontou Nuno Monteiro. o quase vazio do nosso conhecimento sobre as funções judiciais de primeira instância das câmaras. da resistência e do conflito – a que acrescentaria a anuência e a conformidade. Desde logo. Mas é inegavelmente do maior interesse historiográfico e. para além das fontes peticionárias e dos recursos para segunda instância. Será necessária uma melhor caracterização. é uma perspectiva que mais facilmente suscita interrogações do que respostas. em termos de exercício e de relação entre os poderes.. nomeadamente a carência de estudos sobre as instituições do ponto de vista dos administrados. o alargamento da representatividade institucional. que José Subtil sublinhou. alegações e contra-alegações. se as perguntas de investigação forem bem colocadas. por exemplo) não revelam bem a capacidade de resistência das populações nas suas práticas quotidianas? Mas também. como os livros de coimas. como lembrou Teresa Fonseca. Dadas as assimetrias sociais dos actos discursivos escritos ou transcritos. Finalmente. outra documentação largamente inexplorada. infracções e sanções.

de instituições e de acção política de escala regional. o da existência. as relações de colaboração. tendo sido salientado por Mafalda Soares da Cunha o panorama muito rarefeito. em parte por problemas de fontes. Tal oposição fundamenta-se nas tensões de poder pela decisão . tanto ao nível de instituições (freguesias. e o da coexistência e do conflito entre poderes municipais e senhoriais. José Subtil questionou a oposição corrente entre as instituições centrais (nomeadamente. como ressalta da comunicação de Fernanda Olival –. provedores e mesários das misericórdias). misericórdias como na comunicação de Laurinda Abreu e Rute Pardal) como de actores (juízes de vintena. senhoriais e supra-locais. ou não.266 OS MUNICÍPIOS NO PORTIUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS dos municípios na política da Coroa. as intendências e as secretarias de Estado. todos remetendo para as configurações e a variabilidade das relações inter-institucionais e para os modos de as abordar teoricamente: o das relações entre instâncias de diferentes escalas institucionais. este último sugeriu como hipótese de trabalho a função dessa representação no tecer de uma consciência supra-local nos actores políticos locais. partilha. o Desembargo do Paço) e os agentes da Coroa. Debates Em articulação com o último ponto de consenso inventariado na secção anterior. párocos. a necessidade de serem mais consideradas unidades de análise infra-municipais e não-municipais. eventualmente parte de uma estratégia da Coroa para a consolidação da entidade política Reino. como pólos de uma relação de concorrência. Foi ainda bastante sublinhada. por um lado. Em geral. concorrência ou conflito entre os poderes concelhios e outros poderes locais. Uma segunda ordem de problemas tem a ver com as articulações entre a história das instituições e dos poderes locais e a história social. Importante também se torna caracterizar e operar com a distinção institucional entre municípios de jurisdição régia e de jurisdição senhorial – incluindo a ambiguidade de que a este respeito parecem revestir-se os municípios das ordens militares sob a alçada da Coroa. 2. sobre a esfera dos poderes municipais. corregedores – e de outros poderes supra-municipais. dos estudos sobre municípios senhoriais nos séculos XVI e XVII. em várias intervenções. reciprocamente. através da representação em cortes. e para resumir. e os poderes locais. como o Desembargo do Paço. foi constatada a necessidade de analisar mais sistematicamente a articulação. podemos começar por reflectir em três problemas levantados para discussão nas intervenções. por outro. Várias intervenções questionaram a acção dos agentes da Coroa – provedores. como notaram Francisco Ribeiro da Silva e Pedro Cardim.

e invoca mudanças da relação centro-periferia em finais do antigo regime por efeito de um reforço das instituições e dos actores políticos centrais. De acordo com esta perspectiva. na arquitectura tradicional de poderes do Antigo Regime as várias instâncias eram organicamente complementares. relativa que seja. como um dos vectores de uma crise do municipalismo. Não se trataria.BALANÇO FINAL: QUESTÕES PARA UMA SOCIOLOGIA HISTÓRICA.. que anularia a acção voluntária sob um modelo decisório tradicional completamente formatado pelo discurso jurídico. Na sua comunicação.. dos actores (emissores. sobrepondo-se como diferentes camadas com lógicas de funcionamento próprias. 267 jurídica legítima entre poderes centrais e poderes periféricos. nomeadamente. receptores. encobrindo e legitimando processos de decisão que decorrem de margens de liberdade dos actores. etc. primeira instância e instâncias de recurso. e pela crescente intromissão em torno desses novos objectos de agentes da Coroa externos à ordem tradicional e que escapavam à sua lógica discursiva (secretarias de Estado. dos seus capitais sociais e culturais. assim. de uma tensão entre o centro e a periferia. apenas interviria quando a ordem local era perturbada. em todo o caso intérpretes)? À parte esta dúvida teórico-metodológica. não sem levantar reservas o apelo à passagem de uma análise centrada nos actores para uma outra centrada nos discursos. de novos discursos (o administrativo. como conceptualizar um dispositivo institucional assente na execução e na apreciação de “actos linguísticos” procedendo à total elisão da autonomia. fiscalizadores e fiscalizados. decerto variáveis em função das suas posições. parece-me um problema especialmente estimulante para uma sociologia política do antigo regime – suspeito que o seu interesse poderá transcender muito a fase final daquele –. O problema fica em aberto. o Desembargo do Paço. estáveis e reciprocamente previsíveis. tanto locais como centrais. De facto. deslocando-o de uma lógica dos actores e das “vontades” – subjacente à noção de concorrência – para uma lógica dos discursos. o autor propôs repor o problema a partir de um ângulo diferente. no quadro do discurso jurídico tradicional assente nas categorias de justiça e de graça. não teria uma estratégia de intervenção sobre os poderes locais. instigando ao estudo das intervenções e (des)articulações destes poderes. desde finais do século XVII. e minando a estrutura e os equilíbrios de poder do antigo regime. mas entre discursos e agentes tradicionais e “modernos” no próprio centro. A mudança das relações centro-periferia em fins do antigo regime teria antes que ser entendida pela emergência.. o económico e o financeiro) que escapavam à lógica do discurso jurídico tradicional inventando novos objectos. o de perspectivar as relações entre poderes centrais e periféricos à luz das tensões institucionais . Os discursos normativos podem ser apropriados como recursos da acção. pondo em causa as instituições tradicionais. intendências).

Esse questionamento permitiria talvez equacionar melhor a questão. de facto. porque nesta discussão coexistem.268 OS MUNICÍPIOS NO PORTIUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS no centro. levantada no debate por Margarida Sobral Neto. Este questionamento apresenta as indiscutíveis virtudes de pôr na primeira linha do debate sobre o municípios os processos de mudança social e institucional de finais do antigo regime. particularmente no século XVIII. da contextualização dos discursos iluministas anti-municipais que fundamentam a ideia de uma crise do municipalismo no final do século XVIII. as funções. a sua aparente contradição com o apoio dos oficiais da Coroa à acção anti-senhorial dos municípios na época pombalina. No entanto. não só do ponto de vista institucional como também do social (pensemos nas eventuais relações entre mobilidade social e mobilidade geográfica. as hierarquias inter-municipais na agenda da investigação sobre a história local poderá certamente trazer perspectivas de articulação em espaços mais amplos. e de empreendimentos de desenvolvimento regional envolvendo os recursos de múltiplos concelhos. Resumindo. se não regionais. da hierarquização e da racionalização político-institucionais. e de obrigar a transcender o quadro fortemente localizado e por assim dizer auto-contido de grande parte da historiografia municipal. apenas para dar alguns exemplos) e do económico (hierarquias de mercados. ao menos “regionalizantes”. económicas e sociais tendiam por sua vez a criar fortes homogeneidades. cujos poderes e privilégios lhes confeririam verdadeiras tutelas sobre territórios cujas configurações físicas. na detenção trans-municipal de propriedades ou de direitos. de forma não problematizada. merecem mais reflexão algumas ambiguidades em torno da operacionalização do conceito de região. Por um lado. Salientou as dinâmicas políticas que favoreceram fortes homogeneidades regionais. duas definições teoricamente distintas: a região como recorte definido pela homogeneidade ou pela polarização (que implica heterogeneidade e dominação). funções e recursos nos grandes municípios que assim teriam acentuado o seu peso relativo e constituído pólos. Parte dos argumentos aduzidos por José Viriato Capela referem-se. Colocar mais decididamente as relações. a homo- . numa lógica de acção política. variável capacidade de gestão dos fluxos económicos inter-concelhios). nas redes familiares supra-municipais das gentes da governança. referida pela mesma autora. estas tendências teriam levado a uma crise dos pequenos municípios – que seria a expressão fundamental da chamada crise do municipalismo – e a uma concentração de poderes. José Viriato Capela contestou a tese do carácter a-regional ou mesmo anti-regional do município moderno. e elucidar. nomeadamente por efeito da legislação pombalina e mariana no sentido da concentração. No plano das configurações espaciais.

mais do que de um carácter regional daqueles? No que respeita à relação entre os poderes municipais e os poderes senhoriais. Por outro lado. A exacção das rendas . e sendo o problema do carácter regional ou a-regional dos municípios de natureza essencialmente política. Hierarquias que induziriam polarizações de dominação política do território. e faziam-no em proveito próprio. Outra parte refere-se. seja a diferenciação entre concelhos com juiz de fora e com juiz ordinário. diversamente. a que poderíamos acrescentar Lisboa com a Corte e os seus privilégios de abastecimento). ou entre os municípios beneficiários e os envolventes contribuintes. característica geopolítica que intersecta muitas outras de diferentes índoles). tipo ideal de algum modo subsidiário da ideia de domínio oligárquico dos municípios). da manutenção do bem comum e do bom governo dos povos. tinham efectivo interesse e capacidade de colocar bloqueios e constrangimentos à autonomia das câmaras. com a existência de identidades. e que seriam bem complementadas pela polarização mais estritamente económica do peso dos mercados das grandes cidades nas suas áreas de influência. seja a dotação de grandes municípios com sedes de instituições com importantes poderes supra-municipais (como no caso do Porto com a Real Companhia. Margarida Sobral Neto contrapôs aos tipos ideais que poderíamos denominar de domínio senhorial limitado (os poderes senhoriais tinham escassa capacidade. de resto nem sempre correlacionadas (como é o caso dos municípios de fronteira. não correrá o risco de confundir. no sentido da redução do arbítrio. pela apropriação do território e dos recursos económicos. com acréscimo do peso relativo dos grandes municípios mas sem mudança da sua escala de acção institucional. corpos e mecanismos de poder ou de representação intermédios entre o município e o reino. em concorrência pelo exercício do poder. ou de Coimbra com a Universidade. 269 geneidades territoriais criadoras de semelhanças sócio-institucionais. ora as continuidades de características territoriais relativamente homogéneas.. a hierarquias de poderes entre municípios. que realmente definiriam a escala regional no plano político? Se a crise dos municípios na segunda metade do século XVIII é sobretudo perceptível nos pequenos municípios. o da concorrência e conflito institucional. ou pouco interesse em interferir com a esfera de autonomia dos concelhos) e de controle funcional (os poderes senhoriais exerciam um controle político “moderador” sobre a actuação das câmaras. sem dimensão nem recursos para desempenhar as funções que lhes foram atribuídas pelas reformas políticas. não deveria falar-se de um aumento da hierarquização..BALANÇO FINAL: QUESTÕES PARA UMA SOCIOLOGIA HISTÓRICA. mas não beneficiários de obras promovidas pela Coroa. Os poderes senhoriais. ora as consequências de âmbito supra-municipal da implantação e da actuação dos grandes municípios.

ambos por Nuno Monteiro: a discussão. por isso. a ver com a relação da história dos municípios e das instituições locais com os problemas e conceitos da história social. Dois temas foram levantados a este respeito. mais do que teoricamente contraditórios. teoricamente pouco profícuo. em torno da caracterização dos grupos detentores do poderes locais como elites ou como oligarquias. e a proposta de transformação da análise predominantemente institucional dos municípios pela sua subsunção numa problemática da história social das elites locais. Na realidade. Passando por cima das questões de terminologia (na realidade. empobreciam os concelhos. tendo proliferado em fins do antigo regime entre um variado tipo de instituições. carece ela própria de investigação e de explicação comparativa. dos melhores).270 OS MUNICÍPIOS NO PORTIUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS senhoriais e as isenções de coimas ou de taxas camarárias. esta posição enferma ela mesma de uma fragilidade teórica. nem que as hierarquias adscritivas codificadas em normas são fixas e se aplicam exaustivamente nas situações e nos processos sociais – ambas premissas sociologicamente insustentáveis –. Como decorreu da discussão. impedindo a capacidade de governação camarária e o desempenho das funções municipais na provisão de bens públicos. já que um tal carácter tautológico remete tão-só para a dimensão normativa da cultura política. que é em parte semântica e em parte substantiva. que não eram especificamente senhoriais. quer a interferência de privilégios jurisdicionais como os de juízo privativo. como tem feito em escritos passados. as intervenções no debate deram a entender que os três tipos ideais. como disse. Se não presumirmos que a relação entre normas e práticas sociais é transparente e imediata. particularmente em torno da história social das elites e. A segunda grande temática em debate tem. dada a definição caberia mais falar de uma aristocracia. da estratificação. quer a diversidade e o peso relativo dos direitos senhoriais exercidos pelas casas (por contraste com direitos de propriedade). Encerrarei esta secção do texto com uma recapitulação crítica dessas propostas. Nuno Monteiro sustentou. ao passo que os privilégios jurisdicionais subvertiam a jurisdição camarária de primeira instância. mais genericamente. que a conceptualização em torno do conceito de oligarquia resulta tautológico e. reflectem situações-tipo não generalizáveis e cuja variabilidade. da reprodução e da mobilidade sociais. devido ao carácter “natural” da governação oligárquica no quadro da cultura política do antigo regime: a governação era por definição uma responsabilidade dos maiores numa hierarquia de honra e nobreza. nomeadamente. haverá aqui a distinguir. tanto territorial como conjuntural ou mesmo situacional. então há que verificar “no terreno” não só a hipotética dominância do modo de governo oligárquico decorrente da pauta nor- . deixando de lado a sua tradução nas práticas sociais e políticas.

então tem cabimento teórico a análise de processos de oligarquização. releva da teoria da estratificação social. por seu turno. no espaço e no tempo. Mas se admitirmos que. é no entanto um conceito fundamentalmente descritivo. A questão que verdadeiramente interessa colocar é a de qual o valor analítico e hermenêutico de oligarquia e elite como conceitos de análise histórica e sociológica. 271 mativa. casas. como as variações. tal como aconteceu ao de aristocracia). toma como unidades de análise entidades políticas e remete para um modo de governo e de exercício do poder. pela imposição de parâmetros de diferenciação mais exclusivos e/ou redução das probabilidades de mobilidade para o seu interior). bem como as lutas em seu torno: em suma. no sentido de fechamento social da estrutura de oportunidades de acesso aos cargos de poder político (estreitamento social do grupo dos maiores legitimamente elegíveis. mais ou menos correlacionadas entre si. cuja validade empírica no contexto do antigo regime é evidentemente muito discutível. As unidades de análise são aqui os grupos sociais e os indivíduos. famílias. mais do que a designação de um grupo ou de um conjunto de grupos sociais (pese embora a vulgarização do seu uso neste último sentido. pode haver variações nas fronteiras sociais de acesso aos lugares de poder (na definição dos maiores). Podendo ser usado com conotações normativas. da distribuição social das oportunidades de acesso ao poder.. que retomarei abaixo). porventura mais livre de conotações ideológicas e de juízos de valor implícitos do que o de oligarquia (ou tão-só portador de ideologias e de valores .. dentro dos cânones de uma governação de tipo oligárquico. se diferenciam e reproduzem (ou não) o seu status. remetendo para a definição de grupos que ocupam o topo de múltiplas dimensões de diferenciação e de hierarquização de status. embora relacionados. verificar e explicar histórica e sociologicamente as apropriações e interpretações da pauta normativa pelas instituições. etc. O conceito de oligarquia releva da teoria política. não sendo por isso teoricamente alternativos. e podem variar segundo as escalas de observação. podendo por isso assumir conotações ideológicas por oposição a ideais de governação municipal democrática. O conceito de elite. pelos actores e pelos grupos (o que de resto me parece convergir com a sua segunda proposta. É na análise histórica de processos deste tipo que radica a associação dos conceitos de oligarquia e de oligarquização das instituições municipais às teses sobre a cristalização e o bloqueio da estrutura social do antigo regime. e para a análise dos processos e mecanismos sociais pelos quais esses grupos se constituem. creio que os dois conceitos recobrem campos de aplicação distintos. cabendo talvez delimitar as circunstâncias em que será teoricamente preferível designá-los como processos de aristocratização.BALANÇO FINAL: QUESTÕES PARA UMA SOCIOLOGIA HISTÓRICA. Deste ponto de vista. que os compõem. Denota a restrição do status de governante aos maiores.

agregação de casos isolados. elegendo as casas ou famílias como unidades de análise. distribuindo posições de destaque relativamente a diferentes grupos de referência. Mas o interesse inegável desta problematização não deve fazer esquecer o questionamento específico das realidades políticas e administrativas enquanto tais. por isso.272 OS MUNICÍPIOS NO PORTIUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS hoje mais consensuais?). Se na realidade há rendimentos marginais decrescentes. O remédio . substitui-se a de uma estrutura de oportunidades estratificada. que lugar representavam as instituições locais – entre outros meios de mobilidade ou de defesa da posição social – nas metas e nas trajectórias sociais das elites locais.e. tal dever-se-á mais ao paradoxo já sugerido de uma “acumulação não cumulativa” (i. necessário reinventar a problemática. nem unidade analítica do ponto de vista processual. onde. o conceito de elite tem sobre o de oligarquia. nesta escala de observação. Mas isto não é contraditório com a noção de processo de oligarquização. do que resulta uma deriva interessante e enriquecedora a partir de um interrogatório ancorado na história social. não o substitui. Dada a diversidade das dimensões de classificação social e dos grupos de referência relativamente aos quais os actores se posicionam. numa duração multi-geracional. Nuno Monteiro propôs também uma descentração daquilo a que apelidou de “fetichismo” das instituições locais. relativamente a fenómenos de estruturação social mais amplos. quando este é usado para designar o grupo detentor do poder e não a forma de governo. por actores provenientes de diferentes categorias sociais não lhes retira. na sua dimensão política e administrativa formal. nem validade comparativa numa análise das dinâmicas sociais e políticas. Pergunta. sem critérios de comparabilidade ou organizados em torno de categorias teoricamente pouco profícuas) e ao efeito contínuo e não corrigido das tendências de enviesamento identificadas acima. por exemplo. Passando ao segundo tema. mas como disse acima. em favor da abordagem unilateral da sua função como instrumentos de mobilidade social (ou de defesa contra ela). cargos que uma categoria social enjeita são definidores de uma posição de elite e de oportunidades de mobilidade social para outras categorias sociais (cf. O facto de esses processos poderem ser protagonizados. nem ainda potencialidade explicativa.. segundo o qual cada novo estudo sujeito a este “fetichismo” pouco acaba por acrescentar ao que já se sabia. À imagem homogénea de uma oligarquia. a vantagem de obrigar a pluralizar. exemplos nas comunicações de Mafalda Soares da Cunha e de Teresa Fonseca). à escala local. Seria. como meio de ultrapassar uma espécie de efeito ricardiano dos rendimentos marginais decrescentes. através do alargamento da perspectiva para uma história das elites locais. apenas um ângulo analítico distinto e mais amplo.

um termo. não no sentido administrativo. . a questão das actividades de produção e apropriação de território e de paisagem. a um nome. paisagem no sentido clássico da geografia humana. a questão das instituições municipais como produtoras. Omissões Num encontro muito marcado pela relação e pelas tensões entre as perspectivas institucional-política. ou ficaram de todo omissos. Não tendo sido objecto de reflexão no encontro. bem como os referentes espaciais e cronológicos que permitam transcender o âmbito local dos somatórios de conclusões e eventualmente reinterpretar o que já foi feito para trás. a um conjunto de símbolos edificados. decerto o da mobilidade e da reprodução das elites –. entretecido com instituições e com rotinas sociais. investido de significado. etc. Refiro-me aqui a território. Em primeiro lugar. Em segundo lugar. por outro.BALANÇO FINAL: QUESTÕES PARA UMA SOCIOLOGIA HISTÓRICA. ou. quer directamente enquanto produtoras – de património edificado. Actividades em que as instituições municipais detinham um papel fundamental. as dimensões e os indicadores. e das hierarquias e mobilidades sociais. edificado e funcionalmente diferenciado. os problemas – entre os quais. funções de provisão de bens públicos que Margarida Sobral Neto brevemente mencionou na sua comunicação – quer enquanto reguladoras e fiscalizadoras. Trata-se de temas que se diria serem estruturantes e que. os conceitos. de vias de circulação.. uma vila ou cidade. Pouco ou nada sabemos sobre o eventual exercício desse poder simbólico pelas instituições municipais e sobre a sua eficiência. e não como objectos específicos de estudo ou sequer de problematização. de investigação comparativa assentes em modelos analíticos explícitos que definam as lacunas. reprodutoras ou cristalizadoras de identidades sociais simbolicamente representadas por atributos de pertença: a um espaço geográfico. a um povo do concelho. Não deveria ser esse o desafio a lançar por um evento que comecei por caracterizar como de amadurecimento da área temática? 3. mas sim no de espaço socialmente marcado e apropriado. por um lado. quando referidos. ou agendas. Limitar-me-ei a inventariar brevemente essas omissões. não procurarei aqui dar-lhes um desenvolvimento que resultaria marginal aos resultados substantivos que se verificaram.. território no sentido sociológico. 273 estará mais na negociação científica de uma agenda. o foram de forma lateral e incidental. decerto em coexistência ou em concorrência com outras pertenças ou reivindicações identitárias. foram flagrantes três ausências.. o que permitirá encerrar este balanço final numa nota de desafio.

e provêem (ou sonegam) bens públicos. que dentro dos seus territórios definem quais são os mercados. sob formas e com pesos variáveis. para manipular as ofertas de bens. nas matrizes problemáticas que foram seminais deste campo de estudos. enquanto jurisdições de primeira instância. Não exclusiva. que intervêm nos mercados fazendo uso das suas prerrogativas. sancionam direitos de propriedade. impostos e coimas. e redefinem conjunturalmente essa legitimidade. Estando estas dimensões inscritas. os preços e a circulação. . a questão das actividades de intervenção económica directa e de regulação económica das instituições municipais. creio que seria interessante. mas também interrogar reflexivamente os modos de fazer história que têm vindo a conduzir à sua perda. Agentes que gerem recursos económicos próprios. nem essencialmente como legisladores. não só recuperá-las. mas como instituições de enquadramento ou agentes activos nos mercados locais e regionais. que através das concessões de licenças e da exigência de fianças intervêm nas actividades económicas.274 OS MUNICÍPIOS NO PORTIUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Finalmente. e contratos. as trocas e os actores legítimos. em equilíbrios de poder variáveis com outros agentes. O estudo das práticas económicas concretas na esfera local – a exemplo do trabalho empírico pormenorizado apresentado por Laurinda Abreu e Rute Pardal sobre uma outra instituição – é uma dimensão crucial da sociologia económica do antigo regime. mormente se pensarmos que foi em grande parte em torno dela que se definiu o discurso iluminista sobre as “vexações” aos povos e os entraves ao progresso alegadamente protagonizados pelos governos municipais. públicos e privados. arrematam rendas. também por ser o tema que me interessa mais. que.

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