OS MUNICÍPIOS

DOS

NO

PORTUGAL MODERNO

FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS

Colecção: BIBLIOTECA – ESTUDOS & COLÓQUIOS (Direcção: CIDEHUS.UE)
1. Diplomacia & Guerra: Política Externa e Política de Defesa em Portugal. Do final da Monarquia ao Marcelismo – Actas do I Ciclo de Conferências FERNANDO MARTINS (ed.) 2. Elites e Redes Clientelares na Idade Média: Problemas Metodológicos FILIPE THEMUDO BARATA (ed.) 3. Indústria e Conflito no Meio Rural: Os Mineiros Alentejanos (1858-1938) PAULO GUIMARÃES 4. Causas de Morte no Século XX: A transição da mortalidade e estruturas de causa de morte em Portugal Continental MARIA DA GRAÇA DAVID DE MORAIS 5. Concepções de História e de Ensino de História – Um Estudo no Alentejo OLGA MAGALHÃES 6. Elites e Poder. A Crise do Sistema Liberal em Portugal e Espanha (1918-1931) = = Elites y Poder. La Crisis del Sistema Liberal en Portugal y España (1918-1931) MANUEL BAIÔA (ed.) 7. D. Pedro de Meneses e a construção da Casa de Vila Real (1415-1437) NUNO SILVA CAMPOS 8. História e Relações Internacionais. Temas e debates LUÍS NUNO RODRIGUES e FERNANDO MARTINS (ED.) 9. Igreja, Caridade e Assistência na Península Ibérica (Sécs. XVI-XVIII) LAURINDA ABREU (ed.) 10. Os Municípios no Portugal Moderno: dos forais manuelinos à reformas liberais MAFALDA SOARES DA CUNHA e TERESA FONSECA (ed.)

Colecção: FONTES & INVENTÁRIOS (Direcção: CIDEHUS.UE) I. Série GAZETAS (Direcção: CHC-UNL e CIDEHUS.UE)
1. Gazetas Manuscritas da Biblioteca Pública de Évora. Vol. I (1729-1731) JOÃO LUÍS LISBOA; TIAGO C. P. DOS REIS MIRANDA; FERNANDA OLIVAL 2. Gazetas Manuscritas da Biblioteca Pública de Évora. Vol. II (1732-1734) JOÃO LUÍS LISBOA; TIAGO C. P. DOS REIS MIRANDA; FERNANDA OLIVAL

II. Série GERAL (Direcção: CIDEHUS.UE)
1. António Henriques da Silveira e as «Memórias analíticas da vila de Estremoz» TERESA FONSECA

Mafalda Soares da Cunha Teresa Fonseca (Ed.)

OS MUNICÍPIOS
DOS

NO

PORTUGAL MODERNO

FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS

Edições Colibri
CIDEHUS / UE – Centro Interdisciplinar de História, Culturas e Sociedades da Universidade de Évora

BIBLIOTECA NACIONAL – CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO Os municípios no Portugal Moderno : dos forais manuelinos às reformas liberais. - ed. Mafalda Soares da Cunha, Teresa Fonseca. - (Biblioteca - estudos & colóquios ; 10) ISBN 972-772-526-0 I - Cunha, Mafalda Soares da, 1960II - Fonseca, Teresa, 1950CDU 352 94(469)"15/17"(042.3)

TÍTULO ED. EDITOR EDIÇÃO PAGINAÇÃO CAPA DEP. LEGAL

Os Municípios no Portugal Moderno: Dos forais manuelinos às reformas liberais Mafalda Soares da Cunha e Teresa Fonseca Fernando Mão de Ferro Edições Colibri e CIDEHUS-UE Albertino Calamote
TVM Designers 220 656/05

Lisboa

Maio 2005

Índice
Introdução .................................................................................... Francisco Ribeiro da Silva (FL-UP) Historiografia dos municípios portugueses (séculos XVI e XVII) .......... José Viriato Capela (Univ. Minho) Administração local e municipal portuguesa do século XVIII às reformas liberais (Alguns tópicos da sua historiografia e nova História) .... Nuno Gonçalo Monteiro (ICS-UL) Sociologia das elites locais (séculos XVII-XVIII). Uma breve reflexão historiográfica ................................................................................ Teresa Fonseca (CIDEHUS.UE) O funcionalismo camarário no Antigo Regime. Sociologia e práticas administrativas .............................................................................. Mafalda Soares da Cunha (CIDEHUS.UE) Relações de poder, patrocínio e conflitualidade. Senhorios e municípios (século XVI-1640) ................................................................... Fernanda Olival (CIDEHUS.UE) As Ordens Militares e o poder local: problemas e perspectivas de estudo ............................................................................................ Laurinda Abreu (CIDEHUS.UE) Câmaras e Misericórdias. Relações políticas e institucionais ............... Rute Pardal (CIDEHUS.UE) As relações entre as Câmaras e as Misericórdias: exemplos de comunicação política e institucional ........................................................ Margarida Sobral Neto (FL-UC) Senhorios e concelhos na época moderna: relações entre dois poderes concorrentes ................................................................................... Pedro Cardim (FCSH-UNL) Entre o centro e as periferias. A assembleia de Cortes e a dinâmica política da época moderna ..............................................................
7 9

39

59

73

87

109 127

139

149

167

................... Rui Santos (FCSH-UNL) Balanço final: Questões para uma sociologia histórica das instituições municipais . 243 263 ............................ XVII-XVIII) .......6 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS José Manuel Subtil (Inst................................................................. Politécnico Viana do Castelo/UAL) As relações entre o centro e a periferia no discurso do Desembargo do Paço (Sécs..............................

possibilitou a caracterização da sociologia e das práticas político-administrativas em diferentes contextos espaciais. Sancho I e os 500 anos da atribuição do foral de D. constituiu uma iniciativa conjunta da Câmara Municipal de Montemor-o-Novo e do Centro Interdisciplinar de História. Culturas e Sociedades (CIDEHUS) da Universidade de Évora. E o confronto de perspectivas de análise e dos diferentes casos estudados. O evento afirmou-se ainda como uma excelente oportunidade de reflexão sobre o municipalismo português. que nesse ano comemorou em simultâneo os 800 anos da concessão do foral de D. Manuel I. Permitiu efectuar o ponto da situação da historiografia relativa ao tema. A sua realização revestiu-se de particular significado para Montemor-o-Novo. contribuindo assim para aprofundar o conhecimento das especificidades regionais. abarcando deste modo um auditório mais vasto e diversificado. a colaboração com a autarquia montemorense representou uma possibilidade de realização de um evento de particular interesse científico fora do âmbito académico.Introdução O colóquio Os municípios no Portugal Moderno. nomeadamente as do Sul do país. através de abordagens respeitantes às suas diversas vertentes. E para o CIDEHUS. Dos Forais Manuelinos às Reformas Liberais ocorrido na cidade de Montemor-o-Novo a 6 e 7 de Novembro de 2003. .

I – Fontes Publicadas Num primeiro desenvolvimento pareceu-me oportuno fazer uma digressão pelo panorama das fontes impressas. a matéria que me foi dada para estudo pode ser tratada e encarada sob diversas perspectivas e ângulos de observação. no terceiro tentarei um ponto da situação dos estudos sobre concelhos e administração municipal. Para tal não dispus de tempo e. 9-37. por isso. para além da pesquisa em catálogos de bibliotecas.ª Teresa Fonseca – o de fazer o ponto da situação da bibliografia portuguesa sobre concelhos e administração municipal referente aos séculos XVI e XVII – é muito mais difícil do que o que parece. . provavelmente vão ficar fora das minhas considerações estudos e trabalhos dos quais não tive notícia. deveria ter-me levado às Faculdades e Institutos de investigação para fazer o levantamento das teses de mestrado e outros trabalhos que têm sido escritos. Posta em causa a inventariação total por ser praticamente impossível. 2005. pp. Edições Colibri – CIDEHUS-UE. no segundo. Entendi dividir o tratamento dos trabalhos conhecidos em três grandes pacotes: no primeiro. considerarei os trabalhos sobre forais manuelinos. ensaiarei uma resenha das fontes publicadas.Historiografia dos Municípios Portugueses (séculos XVI e XVII) FRANCISCO RIBEIRO DA SILVA (Universidade do Porto – Faculdade de Letras) Introdução O desafio que me foi proposto pela Prof. Os Municípios no Portugal Moderno: dos forais manuelinos às reformas liberais Lisboa. em listas bibliográficas contidas nas obras da especialidade e na web. Para ser executado cabalmente. foram defendidos em provas públicas e permanecem inéditos.

antigos e novos. Coimbra. os regimentos régios. a correspondência ou os forais. Leis Extravagantes collegidas e relatadas pelo licenciado .... Lisboa. os alvarás válidos para todo o espaço nacional. lembraremos as colecções de legislação. Não será temerário da minha parte tentar um inventário? É com toda a certeza. farei referência às fontes que alcançam todo o Reino.. Uma coisa são as leis ou normas gerais como as Ordenações do Reino.. códigos e leis. São sobretudo as normas. outra ainda os capítulos particulares e gerais levados a Cortes. – França. Foram-me úteis e por isso aqui deixo notícia do: – Regimento dos oficiais das cidades. É uma dívida de gratidão para com esses beneméritos que nunca é demais realçar. Collecção Chronologica de leis extravagantes. 1819. Uma coisa são as Actas de uma determinada Câmara. Quem sabe se de imediato as sugestões dos presentes não a irão completar? Numa primeira análise de fundo geográfico. 1569 Para o século XVII – José Justino de Andrade e Silva. de que destacámos: Para o século XVI – Duarte Nunes de Leão. . é possível recorrer a bons materiais que outros investigadores foram pondo à disposição dos vindouros em letra de imprensa. Lisboa. Lisboa. em edição facsimilada do texto impresso por Valentim Fernandes em 1504. 1570. aparecida em Lisboa em 1955 por iniciativa do professor Marcelo Caetano sob os auspícios da Fundação da Casa de Bragança. Mesmo assim arriscarei na esperança de que a minha lista seja o começo de uma recolha que irá engrossar com o contributo de outros até se tornar exaustiva. da C. Para além das Ordenações Manuelinas e Filipinas. outra as provisões e cartas régias que não abrangem senão uma cidade. Francisco Correa. outra as correições ou sentenças relativas a um certo Concelho. compiladas por. per mandado do muito alto e muito poderoso Rei Dom Sebastião Nosso Senhor. Collecção Chronologica da Legislação Portugueza. – Leys e provisões que el-rei Dom Sebastião nosso Senhor fez depois que começou a governar. 1854-56. uma vila ou um concelho.. é necessário distinguir os tipos de fontes e a sua diversa natureza. vilas e lugares destes reinos.. Imprensa da Universidade. Antes de mais. F. Mas as dificuldades para uma inventariação útil e completa são muitas.10 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS É sempre importante para quem se inicia nos segredos de Clio saber que. embora mais dia menos dia se torne indispensável aprender e calcorrear assiduamente os caminhos dos Arquivos.

Zamora. Coimbra. VI. ou Indice Alphabetico das Leis extravagantes do Reino de Portugal. 1926. Fundação Rei Afonso Henriques. Porto. – E já agora (perdoe-se a publicidade) de Francisco Ribeiro da Silva... publicadas desde 1603 ate 1817. Lisboa de Quinhentos. Descrição de Lisboa. Coimbra. Livros de Reis.º das Chapas. Lisboa. Dizem respeito à época aqui considerada os vol. Porto. 2 tomos. de Virgílio Correia.s III a V. Livraria Avelar Machado. 1914-1915 Livro 1. Lisboa. As terras que dispõem de fontes históricas impressas (para o nosso período) são imensas: Sobre Lisboa – Eduardo Freire de Oliveira. Elementos para a História do Município de Lisboa. Repertorio Geral. 1962 – Góis. Lisboa. Filipe II de Espanha Rei de Portugal (Colecção de documentos filipinos guardados em Arquivos Portugueses).1938-1952 Livro 2. ed. – Documentos do Arquivo Histórico da Câmara Municipal de Lisboa. Para além das fontes impressas de abrangência geral. de Raul Machado. – Livro do lançamento e serviço (1565). Lisboa. Lisboa. Porto. Damião de. interessam-nos os vol. 1937.. trad. 1878 . 2 vols. 1882-1889. Mappa chronologico das leis e mais disposições de direito portuguez. 1818. às vezes inesperadamente ultrapassam a dimensão local). cujos títulos são respectivamente os seguintes: Livro da Contenda entre a Cidade e o Conde de Penaguiam. há que referir as fontes dirigidas às localidades (que.s 1 a 4. Poderíamos incluir aqui os muitos Regimentos que foram publicados em colectâneas ou isoladamente.. publicadas depois das Ordenações. 1947-1948. com um suplemento. Imprensa da Universidade. Câmara Municipal. Porto. – Manuel Borges Carneiro. – Livro dos Regimentos dos officiaes mecanicos da mui nobre e sempre leal cidade de Lixboa (1572). Sobre o Porto – Corpus Codicum Latinorum et Portugalensium.HISTORIOGRAFIA DOS MUNICÍPIOS PORTUGUESES (SÉCULOS XVI e XVII) 11 – Manoel Fernandes Thomaz. 1953-1961 Privilégios dos cidadãos da cidade do Porto.º das Chapas. 1815. s/d.

XVI. Tratado da cidade de Portalegre. Câmara Municipal. Sobre Viseu (Do mesmo modo e por maioria de razão entendemos colocar neste elenco os trabalhos que seguem) – Alexandre de Lucena e Vale. Imprensa Nacional Casa da Moeda. (Capítulos de Cortes) Sobre Coimbra – José Branquinho de Carvalho. Coimbra. 1559/82» in Bracara Augusta. de Leonel Cardoso Martins. vol. mas sendo constituída por resumos de actas e de outros documentos municipais que. Viseu. Porto. Sobre Évora – Gabriel Pereira.G. Sobre Portalegre – Sotto Maior. António Augusto Ferreira da. Imprensa Nacional-Casa da Moeda. Aveiro. 1953. 1967.12 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS – Guimarães. XXIII. sem prejuízo de abaixo poder ser retomada). O livro dos Acordos de 1534. permanecem muito próximos dos originais. Diogo Pereira. . 1955. Administração Seiscentista do Município Vimaranense. decidimos metê-la aqui. Documentos Históricos da Cidade de Évora. O Porto na Restauração. Câmara Municipal. A. da Rocha. Um século de administração municipal. Frei Bartolomeu dos Mártires. 1948 Sobre Aveiro – Madail. esta obra em rigor não é uma publicação de fontes. 1955. Fernando. Lisboa. vol. O Porto seiscentista. Guimarães. Viseu. provisões e alvarás régios registados na Câmara de Coimbra 1275-1754). Porto. 1941. Índice do livro dos acordos do séc. Notícia e índice do livro de registos da Câmara de Aveiro 1581-1792 in «Arquivo do Distrito de Aveiro».º da Correia (Cartas. Viseu. (Na verdade. Viseu. Subsídios para a sua História. «Acordos e Vreações da Câmara de Braga no Episcopado de D. 1998 Sobre Braga – Frei António do Rosário. embora elaborados com mérito pelo seu Autor. – Alexandre de Lucena e Vale. Lisboa. – Cruz.s XX-XL Braga. 1956 – Alexandre de Lucena e Vale. Subsídios para a sua História. 1605-1692. 1943. Livro 2. 1984. Sobre Guimarães – Alberto Vieira Braga. 1970-1990. int.

Sobre Bragança e Trás-os-Montes – Alves. vol. Actas das Vereações de Loulé. João Alberto.n. Por outro lado. Lívio da Costa. ao Reyno de Portugal. . Geografia d’antre Douro e Minho e Trás-os-Montes. Mas desses nunca será possível uma memória exaustiva. Porto. Boletim do Arquivo Histórico Militar. 1971.HISTORIOGRAFIA DOS MUNICÍPIOS PORTUGUESES (SÉCULOS XVI e XVII) 13 – Neves. Aveiro. Rodrigo da Cunha. 1988. Francisco Ferreira. Funchal. Para além destas. Memórias Arqueológico-históricas do Distrito de Bragança. Esposende. Porto. Afrontamento. CEHA. ed. Sobre as Ilhas – Funchal – José Pereira da Costa. 1919. Sobre Loulé. Biblioteca Pública Municipal. revista. Loulé. Câmara Municipal. Doutor João de. 2000. pela sua antiguidade. Sobre Esposende – Manuel Albino Penteado Neiva. 1987. Aspectos do Reino do Algarve nos séculos XVI e XVII. Livro dos Acordos da Câmara de Aveiro de 1580. S. Funchal. Filipe II. o Anacrisis historial de Manuel Pereira de Novais ou as descrições de viagens como o livro de João Baptista Lavanha. CEHA. é bom não esquecer que muitos historiadores e estudiosos conservam o bom hábito de publicar documentos em anexo aos seus trabalhos. 1998 – José Pereira da Costa. 2002 – Luís Francisco Cardoso de Sousa Mello publicou um Tombo do Registo Geral da Câmara Municipal do Funchal na «Arquivo Histórico da Madeira». Lisboa. acabaram por se converter em fontes.s XV-XVIII. – Duarte. A descrição de Alexandre Massaii (1621). 1984 Sobre o Algarve em geral – Guedes. Subsídio para o estudo da vida municipal e nacional portuguesa. etc. s. Estão neste caso. Haverá por certo outros volumes contendo fontes. Posturas municipais de Esposende – séculos XVII a XIX. Vereações da Câmara Municipal do Funchal – primeira metade do século XVI. Abade de Baçal. Francisco Manuel. – Barros. por exemplo. o Catálogo e História dos Bispos do Porto de D. 1972-1974. Ou os escritos de Manuel Severim de Faria. Vereações da Câmara Municipal do Funchal – segunda metade do século XVI. N. convém não perder de vista certos textos de narrativa histórica que. Luís Miguel e Machado. Viagem da Catholica Real Magestade del-Rey D.

II – Forais É sabido que os concelhos se ufanam muito dos seus forais e quase se pode dizer que está na moda a sua publicação. Manuel nem na letra nem no espírito tocam nas estruturas tradicionais da administração concelhia nem mexem nas competências governativas dos oficiais municipais. Dito de outra forma: D. que englobavam ou podiam englobar mais que um concelho: exemplos terra da Feira ou de Ovar. a relação entre os forais manuelinos (é a esses que nos reportamos) e os concelhos é marcada mais por ambiguidades do que por cumplicidades aprofundadas. ao contrário do que se possa pensar. chegaram as reclamações e protestos dos . Mais do que confirmar ou reafirmar expressamente capacidades de intervenção das autoridades concelhias. os forais manuelinos pressupõem-nas. Onde é que entravam os concelhos? No seguinte: é que os lavradores e foreiros. Manuel não aproveitou a reforma dos forais para reforçar os poderes concelhios. através dos Procuradores dos Concelhos. o historiador terá que ter bem apurado o seu sentido crítico para se dar conta de que uns autores merecem mais crédito do que outros. Foi às Cortes quatrocentistas e quinhentistas que. Mas mesmo que apenas os concelhos em sentido estrito tivessem sido contemplados. os donatários e senhores das terras por outro e o Rei-árbitro no cume do processo. É que. embora trabalhassem a terra individualmente ou em família. Os forais de D. os concelhos não são chamados para arbitrarem o que quer que seja nas matérias a introduzir nos forais manuelinos. agrupavam-se em comunidades pequenas ou grandes inseridas e integradas em concelhos (ou elas próprias eram concelhos) cujos oficiais eram os porta-vozes das queixas e os Paços do Concelho a câmara de ressonância das mesmas.14 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Como em tudo. Vejamos: a questão da reforma dos forais punha-se no objectivo e no propósito de resolver bem uma relação triangular que se mostrava progressivamente mais difícil entre os lavradores e foreiros de um lado. apesar de não ignorar que muitos deles não foram dados a concelhos mas a territórios mais amplos a que se chamava Terras. Com efeito. mas apenas a apoiar logisticamente as inquirições preparatórias e a servirem de guardiães e fiéis depositários do documento final. Longe disso. A questão é esta: fará algum sentido introduzir o tema dos forais numa comunicação sobre a historiografia do municipalismo português? Julgamos que sim. precisamos estar de sobreaviso.

os Condes da Feira! Mas essa é outra questão. E depois de elaborado e escrito o foral. ainda que um pouco artificialmente. vintaneiros ou até quadrilheiros. para além de conservarem informações preciosas sobre toponímia.HISTORIOGRAFIA DOS MUNICÍPIOS PORTUGUESES (SÉCULOS XVI e XVII) 15 lavradores explorados. direitos e costumes tradicionais. teriam coragem e força para punir senhorios todos poderosos como. outro fica na posse do poder central. enquadro nesta lógica de interpretação global o tão breve quanto perspicaz ponto de vista . pode dizer-se que nos últimos tempos o estudos dos forais tem merecido a assinalada atenção dos historiadores que podemos caracterizar e fasear. do seguinte modo: A – Um primeiro tempo de análise da reforma dos forais no conjunto da governação de D. Terminava aqui a relação do Concelho com o Foral? Não. faz as suas inquirições encontrando-se com a população em quadro municipal porque não havia outro com força representativa e capacidade de mobilização das pessoas. mantém-se o triângulo na sua distribuição ou encaminhamento: um exemplar é entregue ao senhorio. antroponímia. n. Resta saber se oficiais rudes e analfabetos. Os Forais de Évora. 1967. por exemplo. E quando chegava o momento da decisão.º 8. E quando Fernão de Pina vai pelo Reino recolher elementos para proceder à correcta reforma dos forais. Embora muito desfasado no tempo. embora seja a pensar nessa circunstância que acima caracterizei de ambígua a relação entre os forais e os concelhos. Outra razão para tal é que os forais podem fornecer elementos subsidiários para o estudo das relações de poder dentro de um determinado espaço. como seriam estes em grande percentagem. publicado no Boletim Cultural da Junta Distrital de Évora. Posto isto. o terceiro confiava-se à guarda do Concelho. Situo nesse enquadramento o ensaio de Marcelo Caetano. competindo aos Juízes e Vereadores conservá-lo em bom estado. guardando-se no sítio próprio que era a Torre do Tombo e como era impensável fornecer um exemplar a cada foreiro. sob pena de repreensão ou mesmo de punição por parte do Corregedor na sua correição anual. era o Rei que surgia através de peritos de grande competência e prestígio institucional por ele próprio nomeados. porque o mesmo foral previa mecanismos de punição do senhorio que abusasse ou levasse mais direitos do que os consagrados no diploma. A Igreja quando estava presente fazia mais o papel de senhorio do que o de porta-voz dos foreiros. Daí que os estudos sobre os forais se possam inserir numa visão genérica da historiografia municipal. E quem é que aplicava essas penas? São exactamente oficiais locais de eleição ou confirmação concelhia: juízes. Évora. Manuel.

Os forais manuelinos – 1497-1520. 1812. Imprensa régia. 1999.. estudo histórico de Manuela Santos Silva. III da História de Portugal dirigida por José Mattoso.. (III. Manuel. Mais tarde. ainda que não sob o mesmo impulso. edição do autor. 1961-1965. de Maria Filomena Andrade. 1990. se não cronológica ao menos logicamente... normalmente com o apoio e o interesse das Câmaras Municipais. Câmara Municipal. glossário de Maria do Rosário Morujão. A primeira fase remonta ao clima de exaltação patriótica que se viveu nos inícios da década de 40 do século XX. Eis a bibliografia que pude coligir. e de – Francisco Nunes Franklin. Coimbra. Silves. Lisboa. direcção introd. apesar do esforço desenvolvido para que tal não aconteça. 1825. um tempo que é simultaneamente de enquadramento histórico. Câmara Municipal. Maria José Mexia Bigotte. 1940. coord. Dissertação histórica. de análise interna e de publicação textual facsimilada. introd. Academia das Ciências. Forais manuelinos do reino de Portugal e do Algarve conforme o exemplar do Arquivo Nacional da Torre do Tombo. 1940 e António Augusto Ferreira da Cruz.. – Chorão. Lisboa. e revisão científica de Maria Helena Cruz Coelho. – Foral (O) da Ericeira no arquivo-museu. Lisboa. Biblioteca Municipal. Câmara Municipal de Arraiolos. – Forais de Silves. Colibri.ª ed. de Margarida Garcez Ventura. Porto. Memoria para servir de índice dos foraes das terras do Reino de Portugal e seus domínios. 1993. Pinto Loureiro. surgiu o trabalho gigantesco de Luís Fernando de Carvalho Dias. estudo e transcrição de. Provavelmente haverá omissões. C – Sucedeu-se. Enquadro nesse contexto os trabalhos de J. 1993. Guarda. pp. Jorge. Forais de Coimbra. 2. 5 vols. 171-174) Essa tradição remonta ao século XIX tendo expressão nos textos de – João Pedro Ribeiro. s.16 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS assinado por Margarida Sobral Neto no vol. . O Foral Manuelino de Arraiolos. IANTT. Lisboa.. jurídica e económica sobre a reforma dos forais no reinado do senhor D. direcção. – Forais e foros da Guarda. B – A um tempo de análise sucedeu o tempo de publicação dos textos dos forais. Creio ser esse o tempo em que nos encontrámos o qual remonta aos fins da década de oitenta do século passado. entre 1961 e 1965. 2000. – Fonseca. Forais manuelinos da cidade e termo do Porto existentes no Arquivo Municipal.l. Câmara Municipal.

Câmara Municipal. VI. de Eduardo Campos. «O Foral manuelino da Terra de Paiva: uma preciosidade patrimonial» in Poligrafia. Câmara Municipal... fac-similada. – Foral de Besteiros. Margarida Sobral da Silva. – Santos. Arquivo da Universidade. «Os forais manuelinos da Comarca da Estremadura» in Revista de Ciências Históricas. vol. de Carlos Santarém Andrade. Porto. 195-222.. – Marques. Os forais manuelinos do Porto e do seu termo. vol. fac-similada. – Foral manuelino de Lisboa. Joel Silva Ferreira. Francisco Ribeiro da. 1998. Sintra. V. introdução. Câmara Municipal. História.71-90 e vol. pp. introd.. – Foral de Coimbra de 1516. 2003. – Silva.. transcrição e notas de. 1995. introdução. Filomeno. Câmara Municipal. 1992. Coimbra. estudo de Nuno Campos. II vol. 1991 – Marques. – Silva. Francisco Ribeiro da. 1991.HISTORIOGRAFIA DOS MUNICÍPIOS PORTUGUESES (SÉCULOS XVI e XVII) 17 – Foral concedido a Abrantes por D. pp. ed. ed.. Câmara Municipal. Barcelos. José Manuel. 2003. pp. Porto. Os Forais de Barcelos. José. de Inês Morais Viegas. Póvoa de Varzim. ed. Os forais da Póvoa de Varzim e de Rates. «O foral manuelino de Ansião» in Actas do II Colóquio sobre História de Leiria e da sua região. Forais e regime senhorial. José. – Neto. transcrição de Maria Teresa Nobre Veloso. 1994. Melgaço. n. Guimarães. Os Forais do Burgo e de Arouca. 1994.. 1990. Nuno Gonçalo. – Monteiro. Câmara Municipal. vol. – Marques. – Foral de Guimarães-1517. Arouca. José. Abrantes. . – Foral de Colares. 1989. Lisboa. Leiria. Câmara Municipal. 1989. transcrição e notas de. 255-267. 2001. – Silva. Montemor-o-Novo Quinhentista e o foral manuelino. 1998. 2000. Coimbra. 1991. Cláudia Valle/Fonseca. ed. Os Forais de Melgaço. Jorge/Branco. ISCTE. – Silva. Lisboa. As cartas de Couto do Mosteiro de Arouca. IV (1989) pp. Câmara Municipal. «O Foral de Cambra e a Reforma manuelina dos forais» in Revista da Faculdade de Letras. 2001. Arouca. ed. Manuela Alcina Oliveira e Mata. Francisco Ribeiro da e Garcia. Sociedade Martins Sarmento. Lisboa. INAPA. II série.. Manuel em 10 de Abril de 1518. 161-186. apresentação de Maria Calado. 1986 (mimeo)... de. Os contrastes regionais segundo o inquérito de 1824. Câmara Municipal. – Martins. Manuel. VI. Montemor-o-Novo.º 3.

UTAD (policopiado) 1998. as relações foraleiras entre lavradores e senhorios. 1996 Que temas em concreto é possível colher e apreender nestas publicações? Aspectos históricos e histórico-jurídicos dos forais. ed. uma matéria que atravessa muitos forais manuelinos. Ovar. . sobretudo das terras banhadas por rios. da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro que em 1998 defendeu uma tese de doutoramento (de que tive a honra de ser co-orientador).18 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS – Silva. Câmara Municipal. João Azevedo. Julho-Dezembro 2001. O Foral dado por D. Mas são possíveis e desejáveis estudos transversais. n. Eu próprio ensaiei. estudo comparado e leitura. Alvito. Dezembro 1994. Como o título indica. 1989.º 47/48. introdução e estudo de…. Lisboa. enquadramento histórico e análise estatístico-linguística. pp. etc. Câmara Municipal. glossário dos termos utilizados. Foi necessário examinar todos. em 1999. João António. as regras de uso e partilha dos meios de produção.º 6. Felgueiras. publicado em parte pelo Editor de Mirandela. a propriedade e o uso da terra. os foros e o seu significado económicosocial. Os forais manuelinos de Alvito e Vila Nova da Baronia. 2000. não só os do litoral onde era suposto encontrar as informações que procurava mas também os do interior. senão com sucesso ao menos com grande autosatisfação. Apliquei a mesma metodologia ao estudo sobre o peso do sal nos forais manuelinos. Francisco Ribeiro da. tratou-se de combinar e cruzar cientificamente o estudo da história e do direito foraleiro com o tratamento linguístico do texto. notas sobre antroponímia e toponímia. – Silva. Os Forais manuelinos da Terra de Ovar e do Concelho de Pereira Jusã.. estrutura formal e divisões internas. n. «O Foral manuelino de Felgueiras: um marco histórico da identidade da Terra e das Gentes» in Felgueiras – Cidade. ano 2. Livro dos foraes novos da comarqua de Trallos Montes. 8-28. – Valério. Santa Maria da Feira. D – Há ainda um quarto momento que foi inaugurado por Maria Olinda Rodrigues Santana. Francisco Ribeiro da. Francisco Ribeiro da. – Silva. forais e senhorialismo. Câmara Municipal. Manuel I à Vila da Feira e Terra de Santa Maria a 10 de Fevereiro de 1514. Edição. 4 vols. de que resultou um artigo a que chamei A pesca e os pescadores na rede dos forais manuelinos e foi publicado na revista «Oceanos». facsimilada do original.

Provavelmente esta será uma tendência geral da historiografia portuguesa e não apenas da historiografia sobre o municipalismo. apenas 10 se dedicaram em todo ou em parte aos séculos referidos. E não só nas Faculdades de Letras e não apenas nas Universidades Públicas.HISTORIOGRAFIA DOS MUNICÍPIOS PORTUGUESES (SÉCULOS XVI e XVII) 19 III – Estudos sobre os Concelhos e a Administração Municipal Não são muito numerosos os estudos directos e exclusivos sobre os concelhos portugueses nos séculos XVI e XVII. onde tive oportunidade de apreciar o trabalho de Rute Maria Lopes Pardal. umas quantas sobre os séculos XVI e XVII. directa ou indirectamente. utilizando palavras-chave lógicas tais como «concelhos». algumas de grande mérito e utilidade. «administração». «municipal» ou «elites» indicaram-nos cerca de 30 títulos. Sinal do renovado interesse pelos estudos locais e regionais e talvez do desaparecimento do preconceito de que a História Local era um assunto menor. «município». De norte a sul têm sido elaboradas. As pesquisas que levamos a cabo na web. nomeadamente ao nível dos mestrados e até dos doutoramentos nos quais o tema do municipalismo é assíduo. alguns de conteúdo muito vago face ao tema que nos foi sugerido. Por outro lado. Como se pudesse haver verdadeira e séria História Nacional ou Geral sem o contributo das monografias dos espaços mais . O caso mais recente de arguição foi precisamente na Universidade de Évora. é possível apresentar aqui um ponto da situação que pode ser também uma espécie de balanço. De qualquer modo. revelam-nos que sendo 39 o número total das comunicações publicadas. De uma ou outra tive eu próprio oportunidade de ser arguente ou orientador. sendo bastante mais abundantes os dedicados ao século XVIII e aos finais do Antigo Regime. Gostaria antes de mais de começar esse balanço por duas ou três notas que nascem da observação da realidade actual do panorama lusitano: 1 – A sensibilização do Ensino Superior para estas matérias Começarei por constatar uma realidade e me congratular com ela: todos os cursos de História das Faculdades de Letras têm dedicado atenção e inserido os estudos sobre História Local e Regional nas suas ofertas de pós-graduação. mais próprio para amadores desocupados do que para universitários. As elites de Évora ao tempo da dominação filipina: estratégias de controle do poder local (1580-1640). discutidas e às vezes publicadas teses. orientado por Laurinda Abreu. as Actas do Congresso sobre o Município no Mundo Português realizado na Madeira em Outubro de 1998 que reuniu a maior parte dos investigadores que em Portugal (e no Brasil) se dedicam a estes temas. sítio da Biblioteca Nacional.

começando pela de A. Nem sempre o que move os autarcas é o puro e desinteressado interesse científico. . não serei eu a criticar quando da convergência dos interesses dos historiadores e estudiosos e dos governantes dessa terra resultam jornadas de divulgação e edições de livros. aqui e ali. A História de Portugal dirigida por Hermano José Saraiva no seu vol. com o suporte científico das Universidades e. segundo aquele eminente historiador. em capítulo assinado por J. tocam os séculos XVI e XVII. especialmente no Brasil onde as Câmaras adquiriram enorme importância. tem o mérito de chamar a atenção para a importância da implantação dos concelhos nas Ilhas Atlânticas e nas «conquistas» ultramarinas. (Lisboa. em cada um dos 3 volumes que. promoção de vilas a cidades. Nem tem que ser. A única nota que vale a pena realçar é a afirmação.H. A. do desaparecimento das particularidades locais no período que nos ocupa. funções administrativas dos mesmos. Um outro dado a reter (ao qual não é a primeira vez que faço menção) é o progressivo interesse das Câmaras pelos estudos municipais.1983). força progressiva dos mesteres. Quanto à História de Portugal de Joaquim Veríssimo Serrão. 4. O exemplo dos forais acima lembrado é elucidativo. Alfa. Também por esta via pode ser frutuosa a colaboração das Universidades com as Câmaras Municipais. em contraste com a metrópole onde. Nogueira dedica pouco mais de meia página ao assunto da divisão administrativa do Reino. Por isso. distinguirei por um lado os estudos de âmbito geral. incidência da legislação central sobre a vida quotidiana dos municípios. nos quais incluo as Histórias de Portugal e outros estudos de síntese e por outro as monografias e estudos locais e regionais específicos. são consagradas algumas páginas aos concelhos e ao «país profundo» de que destaco os seguintes aspectos: evolução relativa das áreas regionais. Quanto às Histórias de Portugal. de Oliveira Marques (a de 1972 e a «Breve» mais recente) – embora não se demorando muito no que toca à administração municipal neste período. mostravam sinais de decadência. pelo apoio que têm dado a publicações sobre a terra.20 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS pequenos e das micro-instituições ou como se entre uma e outras se pudessem estabelecer diferenças abissais de metodologia e de objecto. como se pode concluir dos repetidos colóquios e congressos sobre o poder local que têm patrocinado. no conjunto. algo enigmática. representação dos Concelhos em Cortes. Assuntos estudados Quanto aos assuntos estudados. lugar que cada um dos concelhos ocupava na hierarquia dos bancos de Cortes. dialéctica entre a centralização e as pretensões autonómicas dos concelhos.

coordenado por Joaquim Romero de Magalhães. sobre competências próprias e delegações de poderes. para além de alusões avulsas aos concelhos ao longo do volume. de entre a bibliografia disponível. procura sintetizar nessas três dezenas de páginas os estudos publicados em Portugal sobre administração municipal. Mesmo resumida. sobre o Antigo Regime. Duas ideias fortes de Romero de Magalhães devem ser destacadas. a segunda é a de que o poder em Portugal é a-regional e anti-regional. O autor. consagra algumas linhas aos Concelhos ultramarinos. sobre o processo eleitoral e. assinadas por Maria Paula Marçal Lourenço. Nuno Gonçalo Monteiro. de Oliveira Marques – vol.HISTORIOGRAFIA DOS MUNICÍPIOS PORTUGUESES (SÉCULOS XVI e XVII) 21 A História de Portugal dirigida por José Mattoso. pp. consagra 10 páginas aos Concelhos. a matéria dos concelhos nesta História é relativamente abundante. Romero de Magalhães parte de D. na pressuposição já referida de Romero de Magalhães de que «o poder em Portugal é arregional ou anti-regional» e que o papel principal pertenceu à oligarquia dos homens bons (texto de José Adelino Maltez. Nelas . Por sua vez. coordenado por António Manuel Hespanha. VII da mesma Nova História de Portugal (Lisboa. integradas num longo capítulo sobre os equilíbrios sociais do poder. oferecendo-se uma série de temas sugestivos que poderão proporcionar inspiração para ulteriores desenvolvimentos: – Instituições e poderes locais – Câmaras e ordenanças – centro e periferia – instrumentos de fiscalização do centro – A hipotética viragem da segunda metade do século XVIII – As repúblicas municipais – governo económico local e finanças locais – poderes municipais e elites locais – entre oligarquia e comunidade A Nova História de Portugal (direcção de Joel Serrão e A. H. V coordenado por João Alves Dias. tal como Oliveira Marques. Lisboa. 56-68) ao tema dos concelhos. 2001) coordenado por Avelino de Freitas de Meneses. discorre sobre o binómio poder central/poder local. O vol. 1998). dedica algumas páginas às instituições concelhias e ao seu governo. pelo que se indica no título genérico do volume. dedica-se um subcapítulo de 30 páginas aos Concelhos e às Comunidades. Em concreto. abrange um período que vai de 1620 a 1807. Manuel cuja política interna analisa. 406-412). os aspectos que mais substantivos lhes parecem. no volume seguinte. consagra 8 páginas (pp. no volume dedicado ao Alvorecer da Modernidade. num longo desenvolvimento sobre a Arquitectura dos Poderes que. A obrigação de síntese a que os Autores são constrangidos e provavelmente o plano geral do Coordenador leva-os a seleccionarem. sem que isso signifique concordância ou discordância da nossa parte: a primeira é a de que cada unidade administrativa era completamente independente em relação às vizinhas.

Compreende-se que assim seja não só pelo número potencial de leitores interessados como também pela bibliografia disponível: muito mais abundante para os séc. séc. utilizando com habilidade e originalidade boa parte da bibliografia conhecida.22 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS a autora. . dos Corregedores das Comarcas e dos Juízes de Fora e a problemática da centralização versus autonomia. Basta lembrar os títulos dos principais capítulos para evocar os conteúdos: 1 Com a colaboração pontual de Isabel dos Guimarães Sá. Além disso. não é fácil estabelecer ao certo a percentagem de páginas que. Ana Cristina Nogueira da Silva. dedicado aos finais do Antigo Regime no subcapítulo escrito por mim próprio – tratará da administração municipal numa perspectiva predominantemente institucional: – As divisões do território e o seu significado – As leis reformistas dos finais da época moderna e a sua incidência na administração municipal – A importância dos Provedores. Paulo Silveira e Sousa e Mafalda Soares da Cunha).s XIX e XX do que para o Antigo Regime. sublinharemos o interesse da História dos Municípios e do Poder Local. Círculo de Leitores. de César de Oliveira.dir. Quanto a trabalhos gerais sobre o Municipalismo na época moderna. VIII da mesma Nova História de Portugal – em vias de publicação. coordenado por Luís A de Oliveira Ramos. Embora se encontre nesta obra alguma coisa de comum com o capítulo que o Autor escreveu na História de Portugal.s XV-XIX – cerca de 175 páginas) e o conferido aos séculos XIX e XX (mais de 400 páginas). O vol.ª parte. é muito mais profundo. A progressiva influência do Corregedor em prejuízo das outras duas magistraturas (Juízes de Fora e Provedores). Há algum desequilíbrio entre o espaço concedido ao Antigo Regime (isto é. Nuno Gonçalo Monteiro. sugestivo e inovador. desenvolve dois itens: a «administração central periférica e os poderes delegados» e ainda «o poder absoluto e as cortes». fazendo alarde de boa capacidade de síntese. (Dos finais da Idade Média à União Europeia). José Vicente Serrão. coordenador e principal autor1 dedica aos séculos XVI e XVII. 1996. – Estruturas fundamentais da administração municipal e funções dos oficiais camarários e dos magistrados régios em relação aos serviços prestados e ao correcto ordenamento da vida quotidiana – Os oficiais das freguesias e aldeias. na 1. nesta obra. na minha opinião. Paulo Jorge Fernandes. Lisboa. Nem isso é importante e se aludo aqui a tal é apenas porque a minha comunicação trata dos séculos XVI e XVII.

Braga. No entanto. E de entre o conjunto do trabalho emerge para nós. há uma que me marcou desde muito cedo. Aveiro. pela inovação que introduz. Mas não apenas relativos a essas cidades: também Portimão. Lisboa. 1972. Não deverei passar à frente sem uma breve alusão a um texto-síntese muito citado e esgotadíssimo – O Poder concelhio das origens às Cortes Constituintes. Lousã. especialmente àquelas onde existem Estudos Superiores: (continuo a ater-me aos séculos XVI e XVII). A vida económica e social de Coimbra de 1537 a 1640. pode dizer-se que existem trabalhos valiosos dedicados a muitas cidades. Refiro-me a António Manuel Hespanha e à sua obra As vésperas do Leviathan. Vila do Conde. Santarém. . através de instituições de investigação como o Instituto Histórico da Ilha Terceira ou o Centro de Estudos de História do Atlântico que nos últimos anos promoveu dois Congressos sobre o municipalismo e já prepara o terceiro. na qual desempenha papel de relevo o que ele chama a administração periférica da Coroa. outros teses e obras de maior fôlego. Almedina. há todo um acervo de obras de índole local no seu objectivo imediato ainda que possam conter sugestões metodológicas de largo alcance e até de valor universal. Dentro das obras de âmbito geral. Viseu. Coimbra. Instituições e Poder Político (Coimbra. portanto. e quantas outras. CEFA. Viana do Castelo têm sido objecto de vários estudos. Depois e para além disso.. uns artigos e ensaios de ambição moderada.. 1994). Não me parece que deva enveredar aqui pela análise de pormenor dos textos que se debruçaram sobre terras determinadas. o local e o inexistente regional – O espaço político e social local. 2 vols. Coimbra. tanto dos Açores como da Madeira. 1986). Refiro-me a António de Oliveira. Esposende. não poderemos deixar de lado uma tese de doutoramento que justamente tem constituído uma trabalho sempre citado. Há também que dar a devida importância ao incremento dos estudos sobre o municipalismo nas Ilhas. Esta obra constitui. de Maria Helena Coelho e Joaquim Romero de Magalhães (Coimbra. Em Portugal continental.. o longo capítulo da Arqueologia do Poder e a sua visão integrada do poder político-administrativo em Portugal na época moderna. Ponte de Lima. Porto. uma referência obrigatória para quem estuda o municipalismo em Portugal. Em ambos os arquipélagos a apetência por estas matérias está em crescendo. Notas de história social. Évora.HISTORIOGRAFIA DOS MUNICÍPIOS PORTUGUESES (SÉCULOS XVI e XVII) 23 – A sociedade local e os seus protagonistas em que louvavelmente desce até às paróquias – O central. Guimarães.

abastecimento de alimentos. Por outro lado. • A dos serviços: obras públicas. O problema da ordem pública. O património municipal. • A das finanças: receitas e despesas. Basta ler o seu primeiro longo capítulo sobre circunscrições administrativas e jurisdição municipal para se perceber o alcance destas matérias no conjunto do seu excelente e pioneiro trabalho. António de Oliveira começou a investigar. Parece. demografia. propriedade da terra. A • participação cívica dos cidadãos e da plebe. organização da defesa. etc. o primado da história económica e social era indiscutível e intocável. diversificação e funcionamento das instituições e seus suportes materiais como os edifícios dos Paços do Concelho e Arquivo. No tempo em que o Prof. ao ter escolhido uma cidade e o seu aro como objecto da sua dissertação de doutoramento. Começando pelas grandes áreas temáticas estudadas. ter aberto caminhos com futuro para a história local e regional. de bens de consumo. Mas há dois aspectos que me parece de justiça enfatizar neste apanhado: o primeiro é o facto de. As ordenanças.24 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Rasgou caminhos e incentivou trabalhos de outros. embora não fosse seu interesse imediato assumido o enquadramento institucional e administrativo ele não podia ser ignorado. • As actividades mesteirais e o controlo possível exercido pelas administrações municipais. dividiria assim as matérias: • A das infra-estruturas: aspectos geográficos. As representações públicas do poder. questões de saúde e da higiene. quantas vezes atribuídos pelo poder central à inércia das Câmaras. Os tempos de lazer e as festas na perspectiva dos que delas usufruem. e esse é o segundo aspecto. Têm tido lugar aqui os estudos sobre movimentos sociais e tumultos. Festas e cerimónias rituais locais comemorativas de nascimento de príncipes e da morte de membros da família real. actividades económicas. por conseguinte. • A da estrutura. Como o título indica não foram propriamente as matérias de governo local que preocuparam o Autor mas antes os problemas da economia e da sociedade. mais interessante e útil revisitar os conteúdos dos trabalhos académicos que ultimamente têm sido publicados. • A das pessoas envolvidas e as estratégias do poder e das relações interfamiliares na perspectiva do acesso e do exercício do poder. Sistemas de organização fiscal e pessoal envolvido. de água. recenseamento dos moradores. . profissões.

Há ou não . o poder municipal exercido no âmbito concelhio e o poder feito de honra e de prestígio no seio das confrarias eram de natureza diferente. higiene. Ligado a este. • A religiosidade e a influência dos Mosteiros no aro concelhio. Impressionou-me fortemente o ensaio publicado na «Análise Social». questões de segurança. (n. 4.ª série. estratégias de poder. em especial a do Corpo de Deus. História comparada dos Concelhos. • A da conflitualidade no interior do concelho e o choque com outras entidades eclesiásticas ou civis. Outra pista a desenvolver será a do estudo da organização paroquial. Outro tema que se tem revelado extremamente fecundo é o da formação das elites e das oligarquias locais. As confrarias e as práticas de sociabilidade. Não deixa de ser relevante que os nomes de topo das elites municipais se repitam nas listas dos nomes dos principais dirigentes das Misericórdias. mobilidade social. sua múltipla caracterização. o Provedor ou o Juiz de Fora. Câmara e Misericórdias cruzam-se e complementam-se. 1997) – Elites locais e mobilidade social em Portugal nos finais do Antigo Regime – não só por constituir uma excelente síntese de tudo (ou quase tudo) quanto se escreveu ultimamente entre nós sobre o assunto mas também por oferecer uma quase completa bibliografia dos títulos publicados sobre o nosso tema – municipalismo na época moderna. Este novo enfoque interpretado por jovens historiadoras e historiadores parece-me muito promissor e justifica que se revisitem e provavelmente se reescrevam numerosas monografias sobre as Misericórdias portuguesas. É claro que mais uma vez se impõe referir o nome do Prof. tais como alimentação. Nuno Gonçalo Monteiro. Entram aqui os estudos sobre o papel e atribuições dos agentes régios. nomeadamente o Brasil não só na época colonial como no período pós-independência. Outro provável caminho do futuro creio que poderá ser o do estudo comparado dos concelhos de Portugal e dos países colonizados por Portugal.º 141. vol. • Os diversos aspectos da vida quotidiana. As procissões. tais como o Corregedor da Comarca. têm-se retomado em Portugal há uns anos a esta parte os estudos sobre as Misericórdias. • A geografia do poder e a importância e sacralização de certos espaços públicos. Na verdade.HISTORIOGRAFIA DOS MUNICÍPIOS PORTUGUESES (SÉCULOS XVI e XVII) 25 • A das relações com o poder central e as chancelarias régias. As práticas religiosas privadas e públicas. analisando as Irmandades não apenas nos seus aspectos organizacionais internos e na lógica da assistência mas procurando situá-las e inseri-las nas redes e estratégias de poder local. ainda que o serviço público fosse a razão de ser de ambos. das freguesias e das suas relações com a cabeça do Concelho. XXXII.

que eram ora pontos de vista e reclamações que se destinavam ora a ser discutidos pelo Terceiro Estado. Como é sabido. se tal fosse possível! A história total é o objectivo teórico final do historiador. desempenhou papel importante como factor de mobilidade social ascendente. como se fosse um jurista. Devo confessar que comecei por estudar as instituições municipais. Um exemplo: . e sobretudo nos séculos XVI e XVII. não podemos esquecer que a partir de 1697 não há mais Cortes em Portugal. ora a ser apresentados ao Rei na expectativa de uma resposta favorável.26 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS um espaço de autonomia para as freguesias. Para além de tudo isso. houve ou não reivindicações neste domínio? Os concelhos foram espaço de coesão interna ou antes de conflitualidades e clivagens? Para além destes áreas. – o tema da venalidade e da hereditariedade dos ofícios públicos parece-me sugestivo na medida em que sou levado a concluir que essa prática. Os livros das chancelarias régias fornecem muitos exemplos de contratação pelas Câmaras de Mestres de Ler e de Gramática que não têm sido aproveitados sistematicamente. Mas que é isso de tudo e de total? A mim parece-me algo simultaneamente desejável e inatingível. Sobre que incidiam esses capítulos e qual o seu encaminhamento na perspectiva do diálogo institucional entre a Corte e os concelhos parece-me um problema interessante e que poderá revelar que as indicações de governo não eram de sentido único – do centro para a periferia – mas provavelmente também da periferia para o centro. as Câmaras redigiam Capítulos gerais e particulares. o que estudar mais dentro da história do municipalismo? Eu diria «tudo». às leis que as estruturaram e lhes fixaram as regras de funcionamento. além de funcionar sobretudo a nível local e concelhio. Contudo. me pareceu ainda mais favorável em Braga no tempo de D. por cada convocatória. recorrendo antes de mais às normas. perdoar-me-ão a imodéstia de lembrar alguns pequenos temas que tratei em artigos e ensaios que me pareceram interessantes e que podem ser desenvolvidos a nível municipal: – em primeiro lugar. aliás. Frei Bartolomeu dos Mártires. os temas da alfabetização e a sua relação com o exercício de cargos municipais. O meu posto de observação tem sido o Porto e daí talvez a provável sobreavaliação das capacidades de literacia dos investidos no poder municipal que. – outro tema que gostei de ter tratado foi o das relações entre o poder central e o poder local na perspectiva da participação dos concelhos nas Cortes.

La Historia Social de la Administración in Historia Social de la Administración Española. mais do que fazer história das instituições. Pedro. Estudios sobre los siglos XVII y XVIII. Barcelona. Ou seja. Muito cedo interiorizei a frase de Jaime Vicens Vives – «a História das Instituições não é História propriamente dita»! Mas as instituições são feitas por homens e para pessoas concretas. Neste processo. religiosas.º das Ordenações Filipinas (sobre os vereadores) foi importante como norma e como fonte para a fixação do perfil e do modelo institucional desses oficiais municipais tão típicos dos municípios lusitanos. dos comportamentos. da História das Mentalidades. Mas um historiador depressa se dá conta que a realidade vivida é algo muito mais complicado que a realidade sonhada ou programada a qual às vezes tem pouco a ver com as normas. veio em meu auxílio um historiador catalão. Como? Indagando as relações entre a instituição e os grupos sociais. por essa razão viram adiado ( por 2 MOLAS RIBALTA. Foi esse objectivo que me moveu em grande parte na preparação do meu doutoramento e em vários trabalhos posteriores e mesmo em teses de mestrado que tive o gosto de orientar. da História Económica e Social. Se nós conseguirmos ligar as pessoas concretas que serviram as instituições às pessoas concretas a quem se dirigia a sua acção. Pedro Molas Ribalta2 que me seduziu com a sua teoria da História Social da Administração. das atitudes. . da História Política. 66 do Livro 1. talvez fosse melhor tentar a história social da administração. A mesma preocupação esteve presente na minha Lição das provas de Agregação quanto aos Procuradores do Porto às Cortes do século XVII. Quem eram afinal esses senhores Procuradores? Quando esperávamos que todos fossem fidalgos provavelmente de tradições bem alicerçadas e antigas. chegaremos ao conhecimento das circunstâncias profundas da sedução e da conquista do poder e do seu exercício. sociais. A História Social do Poder tenderá então a ser uma espécie de biografia colectiva. tentando perceber a «estrutura efectiva do poder» inserida na comunidade até chegar ao reconhecimento da importância do exercício do poder como elemento determinante da estrutura interna dos estados e dos grupos. e outras dos indivíduos que povoaram e deram vida às instituições do poder local e regional e exerceram efectivamente esse mesmo poder. então talvez a história das instituições possa ser história propriamente dita. A História da Administração bem entendida tem que resultar da confluência da História do Direito. culturais. Ou seja. surge a surpresa: alguns afinal eram netos de oficiais mecânicos e. apurando-se as circunstâncias económicas.HISTORIOGRAFIA DOS MUNICÍPIOS PORTUGUESES (SÉCULOS XVI e XVII) 27 a leitura do tit. 1980.

é num mundo globalizado que o interesse real pelo que é que local e regional se vem acentuando. Conclusão Há que concluir. e não valerão muito se não os situarmos na sua realidade existencial e institucional e na sua rede de relações. parece de incentivar os estudos locais e regionais. As circunstâncias do tempo presente pautadas pela ideia de globalização aparentemente privilegiam o universal e secundarizam o regional e o local. a sua habilitação para serem admitidos ao Hábito da Ordem de Cristo. paradoxalmente. Não só os de fundo histórico. Os estudos sobre os concelhos e o municipalismo foram suficientemente atractivos para ocuparem historiadores de excelência no passado de que basta lembrar o exemplo de Alexandre Herculano. e para que não se percam as identidades e o gosto pela diversidade. tenha utilizado 43 páginas com os «nomes das pessoas que animaram as Instituições». Não só nem sequer principalmente das instituições.28 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS algum tempo) o seu requerimento. decorre normalmente em cenário local. . É óbvio que os nomes sem mais são meras indicações. como que esqueletos sem carne. em virtude e por força das novas tecnologias. Tal metodologia implicou que na Tese de Doutoramento tal como foi publicada. Não só porque de repente o que é vivido à escala local. A Europa que se está a construir poderá esbater ainda mais as ditas soberanias nacionais. Mas das pessoas concretas na sua inserção social e comunitária. de cada pessoa. pode adquirir e adquire valor global mas porque a vida real das pessoas. do modo como as famílias e os grupos se organizaram e que tipos de redes de relacionamento e que vias de desenvolvimento e de progresso conseguiram estabelecer. Mas o que não pode nem deseja é apagar as regiões e as multímodas diversidades regionais Por isso. Mas.

2000. – Barreira. 2001 (Faculdade de Letras do Porto.. 2 vols. Montemor-o-Novo. Santa Casa da Misericórdia. António Alberto Banha de. Jorge Filipe Pereira de. A Santa Casa da Misericórdia de Setúbal entre 1500 e 1755. 1976-1979. de Mestrado). – Basto. 1999. 1988. Laurinda. Lisboa. Porto. Montemor-o-Novo no século XVI. Artur de Magalhães. 1979. – Basto. Setúbal. FLUC. Santa Casa da Misericórdia. Lisboa. Palimage Editores. Biblioteca Pública Municipal. – Abreu. – Alves. Estudos Portuenses. Santa Casa da Misericórdia. Lisboa. 2. Academia Portuguesa da História. – Andrade. – Arqueologia do Estado. Laurinda. séculos XIII-XVIII. Dar aos pobres e emprestar a Deus: as misericórdias de Vila Viçosa e Ponte de Lima (sécs.as Jornadas sobre formas de organização e exercício do poder na Europa do Sul. Conspecto socioeconomico de uma vila no Renascimento. Laurinda. A Santa Casa da Misericórdia de Aveiro. História da Santa Casa da Misericórdia do Porto. – Andrade. 1990. XVI-XVIII). Porto. Academia da História. Porto. vila realenga: ensaio de história da administração local. Actas das 1.). Maria Marta Lobo de. – Araújo.. – Araújo. Viseu.. Grupo dos amigos de Montemor-o-Novo.HISTORIOGRAFIA DOS MUNICÍPIOS PORTUGUESES (SÉCULOS XVI e XVII) 29 Anexo Subsídios para uma bibliografia sobre a história dos Concelhos e do Municipalismo em Portugal (sécs. Artur de Magalhães. «Misericórdias e poder local» in O Poder local em tempo de globalização. 2 vols. A administração municipal do Porto 1508-1511.ª edição. – Actas das Jornadas sobre o Município na Península Ibérica (sécs. 1997-1999. Santo Tirso. 2 vols. Aspectos da sociabilidade e do poder.. policopiado). 1989 (polic. XVI-XVII) – Abreu. António Alberto Banha de. Ponte de Lima. 2. 1990. Sazes de Lorvão de 1660 a 1760: espaço. XII a XIX). sociabilidade e poderes numa paróquia rural. Pobreza e Solidariedade. Coimbra. . Vítor Fernandes da Silva. 2 vols. Coimbra. 1995 ( dissert. Manuel de Oliveira. – Abreu. Câmara Municipal. 1988. Memórias da alma e do corpo – A Misericórdia de Setúbal na Modernidade. FLUC. Coimbra.ª edição.

VII. CEFA. XVII: ensaio de demografia histórica. Guimarães. da Silva. – Capela. – Brito. Arquivo Histórico Municipal. – Câmara. 1943. Porto. Esposende. Coimbra. 1990. António. 1993. 7-48. III. Óbidos. António Pedro. 1978. Várzea da Rainha: subsídios para o estudo de um latifúndio no concelho de Óbidos (sécs. Patriciado urbano quinhentista: as famílias dominantes do Porto (1500-1580). 2000. Biblioteca Municipal. O Couto de Rendufe e o concelho de Entre Homem e Cávado (1640-1750)». n. Braga. Liv. – Cruz. – Cardim. Subsídios para a sua História. 1992. 1997.1967. XVI-XIX). – Crespo. 1982. O Poder concelhio das origens às Cortes Constituintes. Fazer e Desfazer a História. – Cruz. Administração Seiscentista do Município Vimaranense. Notas de história social. Arquitectura e Urbanismo. António Augusto Ferreira da. nº 9/10. Lisboa. Albertino. 1981 – Braga. – Costa. pp. – Castro. Mafalda Soares da. Santarém Quinhentista. n. Lisboa. A Casa de Bragança (1560-1640). Editorial Estampa. Portugal. Pedro. 1953. Maria Ângela. «As finanças quinhentistas do município coimbrão» in Arquivo Coimbrão.30 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS – Beirante. Séculos XVI e XVII. Alberto Vieira. Porto. A freguesia de Requião do concelho de Vila Nova de Famalicão em meados do séc. Maria Helena e Magalhães. O Porto seiscentista. 1984.º 6. Joaquim Romero de. O Município Português na História na Cultura e no desenvolvimento Regional.1972. Teresa Maria Bettencourt da. Armando de. edição do Autor.M. Bombarral. vol. vol. Braga. José Viriato. Editorial caminho. Óbidos.). in O Distrito de Braga. – Capela. Algumas observações sobre a vida económica e social da cidade do Porto nas vésperas de Alcácer-Quibir. Porto. Coimbra. M. «Esposende na era de Seiscentos.1943. . 63-71. Câmara Municipal. «Cortes e Procuradores do reinado de D. A da Rocha de. – Brito. – Coelho. – Carneiro. 1998. José Viriato e outros (Coord. Virgílio de Oliveira. João IV» in Penélope. Câmara Municipal. – Cunha. 1986. Porto. «Tensões Sociais na região de Entre Douro e Minho I. Dez anos de administração municipal» in Boletim Cultural de Esposende. pp.Práticas Senhoriais e redes clientelares. Lisboa. Universidade do Minho. s. A estrutura dominial portuguesa dos séculos XVI a XIX (1834). Lisboa.

As posturas. «Algumas despesas do Município portuense nos inícios do século XVI:1509-1510» in Actas das Jornadas sobre o município na Península Ibérica (sécs. – Ferro. João José Alves. Instituições e Poder Político. Franz-Paul de Almeida. Ana Maria. pp. «Descrições e representações de Lisboa 1600-1650» in O Imaginário da Cidade. – Garcia. – Lalanda. Maria Margarida de Sá Nogueira. 1989 ( Sep. – Dias. Lisboa. Câmara Municipal. 1983. Instituto Histórico da Ilha Terceira. . Câmara Municipal. Pinto.l. Coimbra. XII-XIX). António Manuel. A vila e o termo. de mestrado). Fátima Freitas./ s. Diogo Ramada. Santo Tirso. – Langhans. 1947. A Vereação da Cidade do Porto (1512-1514). Porto. Lisboa. 1997 (dissert. J. Funchal. Fundação Calouste Gulbenkian. Cristina Isabel de Oliveira Gomes. A administração do concelho de Vila Franca do campo nos anos de 1683-1686: subsídios para o seu estudo. 5ª série. Administração coimbrã no século XVI. As vésperas do Leviathan. s. 1989. A Casa dos Vinte e Quatro de Lisboa.. João Pedro. 2002. 1948. – Ferreira. – Loureiro. Subsídios para o estudo das relações de Lisboa e Porto durante oito séculos. XII a XIX). Lisboa. n. Elementos para a sua história. Lisboa. – Hespanha. A comunicação entre o poder central e o poder local: a difusão de uma lei no século XVI. Franz-Paul de Almeida. – Ferreira. – Gomes. – Langhans. Biblioteca Municipal. 1942. 1988. Para a história da administração pública na Lisboa seiscentista. Imprensa Nacional. Formas do exercício do poder municipal (fins do século XVII a 1750). s. Machico. n. de Actas das Jornadas sobre o Município da Península Ibérica (séc. – Duas cidades ao serviço de Portugal. 1994.º 8. XII a XIX). Angra do Heroísmo./ s. nº 6. 1989 ( Sep. Direcção Regional dos Assuntos Culturais. Planeta Editora. – Hespanha. João Carlos. «Centro e Periferia nas estruturas administrativas do Antigo Regime» in Ler História. FLUP.HISTORIOGRAFIA DOS MUNICÍPIOS PORTUGUESES (SÉCULOS XVI e XVII) 31 – Curto. Ana Maria Pereira. – Ferreira. Porto. d. António Manuel. Estudos de Direito Municipal. Lisboa. de Actas das Jornadas sobre o Município na Península Ibérica (séc. Algumas despesas do município portuense no início do século XVI. Lisboa. 1986.l. 1986. 1996. Coimbra. 1937. 189-205. Almedina. «A percepção do espaço numa corografia seiscentista do reino do Algarve» in Revista da Faculdade de Letras.

4. 1997. Entre o antigo regime e o Liberalismo. Nuno Gonçalo. 1986. – Município (O) no Mundo Português. XXXII. Manuel António Fernandes. – Monteiro. Imprensa de Ciências Sociais. Presença. Léon.º 141. Maria Alexandre. vol. Edições Colibri. 1986. 17-30. Maria Paula Marçal. Lisboa. 1987. – Lousada. O Município e os forais de Viana do Castelo. Manuel a D. Vitor Luís Gaspar e Vieira. – Moreira. n. Lisboa. Álvaro. João III. – Matos. 2003. – Moreno. – Menezes. Instituto Histórico da Ilha Terceira. 1993. Lisboa. A Casa e o Estado do Infantado 1654-1706. pp. Funchal. Joaquim Romero de.). Os Açores e o domínio filipino (1580-1590). Os municípios portugueses nos séculos XIII a XVI.32 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS – Lourenço. Porto. Alguns elementos para o seu estudo» in Actas do 1. CEHA. 1988. Nuno Gonçalo. Avelino de Freitas de. «Algumas notas sobre o poder municipal no Império português durante o século XVI» in Revista Crítica de Ciências Sociais. nº 25-26. – Magalhães. 696 e 703 publica uma resenha bibliográfica abundante sobre o tema). «Elites locais e mobilidade social em Portugal nos finais do Antigo Regime» in Análise Social. Joaquim Romero de. Edições Afrontamento. Viana do Castelo. Actas das sessões. CEHA. Vol. Estado da questão» in Município (O) no Mundo Português. «As divisões administrativas de Portugal do Antigo Regime às Reformas Liberais» in V Colóquio Ibérico de Geografia. II. «Reflexões sobre a estrutura municipal portuguesa e a sociedade colonial brasileira» in Revista de História Económica e Social. Rodrigues. e Rasgas. – Menezes. Câmara Municipal. 1990. n. Nuno Gonçalo. – Monteiro. Economia e Sociedade.º 16. Lisboa. Funchal. – Município (O) de Lisboa e a dinâmica urbana (séculos XVI-XX). Primeiras Jornadas de História Local e Regional (Faculdade de Letras de Lisboa). (coord. Alberto. 1995. pp. Lisboa. 1985. Humberto Baquero. – Magalhães. Seminário Internacional. 1997. Angra do Heroismo. . 1998. Lisboa. Lisboa. Avelino de Freitas de. 79-89. Câmara Municipal. Funchal. (Entre as pp. Seminário Internacional. 1998. O Central e o Local (A Vereação do Porto de D. Elites e Poder. 1989. Administração.ª série. «Poderes municipais e elites locais (séculos XVII-XVIII). Maria de Fátima. «O Município do Funchal (1550-1650). 2003. – Monteiro.º Colóquio Internacional de História da Madeira. – Machado. Raúl.

As Ordens Militares e o Estado Moderno. J. 2001/2002. pp. – Olival. «Regime senhorial em Ansião. O foral manuelino e seus problemas nos séculos XVII e XVIII» in Revista Portuguesa de História. 1990. Exploração e Produção agrícola no vale do Cávado durante o Antigo regime. – Oliveira. (ampla resenha bibliográfica – pp. 1984. O exemplo bracarense» in Revista de História.. Angra do Heroísmo. 1972. – Pereira. Estar. – Pardal. Aurélio de. Viseu. «A vida económica e social de Gouveia na época moderna» in Revista Portuguesa de História. 1973. – Pereira. 1988. 1979 (policopiado). Porto. Ponta Delgada. Francisco Ferreira.. Coimbra. (Dos finais da Idade Média à União Europeia). César de. Mercê e Venalidade (1641-1789). Instituto de Alta Cultura. Jorge nos séculos XV-XVII. Aurélio de. A vida económica e social de Coimbra de 1537 a 1640.HISTORIOGRAFIA DOS MUNICÍPIOS PORTUGUESES (SÉCULOS XVI e XVII) 33 – Neto. Barcelos. O espaço urbano do Porto. João Nunes de. 1971. Pereira de. A produção agrícola de Viseu entre 1550 e 1700. «Municipalismo e integração económica. Rute Maria Lopes. A Abadia de Tibães 1630-1680–1813. – Oliveira.. – Oliveira. – Neto. 1993. Braga e Guimarães na primeira metade de seiscentos» in Bracara Augusta. António de. 247-271. 2 vols. Évora. – Oliveira. 2002 (tese de mestrado . 1983. 1996. Maria Margarida Sobral. 429-444. 1999. 1988. VIII. António dos Santos. Círculo de Leitores. Maria Margarida Sobral. – Oliveira. pp. – Oliveira. Aveiro. Instituto Histórico da Ilha Terceira. policopiada). Porto. Livro dos Acordos da Câmara de Aveiro de 1580. – Neto. As elites de Évora ao tempo da dominação filipina: estratégias de controle do poder local (1580-1640. 519-531.M. Condições naturais e desenvolvimento. Câmara Municipal. Contribuição para o seu estudo. «Aristocracias Locais e poder central. Lisboa. 2 vols. Maria Margarida Sobral. Propriedade. António Santos. – Oliveira. A Ilha de S. Fernanda.direcção de. Coimbra. A administração municipal na Vila das Velas na segunda metade do século XVI. tomo XXXV. Braga. – Neves. Coimbra. Lisboa. Aurélio de. Coimbra. . Honra. Câmara Municipal. Subsídio para o estudo da vida municipal e nacional portuguesa. vol. 2001. tomo XXVIII. História dos Municípios e do Poder Local. «Barcelos e a Casa de Bragança no século XVII» in Actas do Congresso Barcelos Terra Condal.

º 2. n. – Ramos. Arouca. Faro. – Rodrigues. Lisboa. – Silva. Alberto de Sousa Amorim. Maria Helena Barbosa. Francisco Ribeiro da. 1992. José António Pinheiro e. – Silva. O Foral manuelino da Terra de Paiva – uma preciosidade patrimonial in «Poligrafia». A assistência aos expostos no Porto. Francisco Ribeiro da. Vítor Luís Gaspar.1989. Faro no século XVII: a «urbe» e a «civitas».. nº 3. Armando Carneiro da.34 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS – Pestana. 1987 (Dissertação de Mestrado). Angra do Heroísmo. Organização dos poderes e estrutura social. s. 1994 – Silva. Câmara Municipal. . – Rosa. 2001. Francisco Ribeiro da. (Faculdade de Letras do Porto. – Silva. – Rosa. Porto. Universidade Nova. Miguel Jasmins. Porto. Tomar. FLUP. – Pinto. – Silva. 1997. A administração do Concelho de Ponta Delgada na década de 1639-1649. Manuel Inácio. – Santos. Coimbra. Porto. Coimbra. – Sá. A Madeira 1460-1521. A cidade do Porto e a Restauração in «Revista da Faculdade de Letras– História». II série. Porto. 1986. – Rodrigues. A intervenção do Povo no governo municipal do Porto durante o Antigo Regime in «O Tripeiro». 1970. A estrutura administrativa do Condado da Feira no século XVII in «Revista de Ciências Históricas».º 4. s/n. 7. Sisa de 1599. Carla Susana Barbas dos. – Silva.ª série. FLUP. Francisco Ribeiro da. 1995. A Vereação Municipal do Porto em 1545. A Alfabetização no Antigo Regime (1580-1650). – Rodrigues. «Pautas municipais de Lamas de Orelhão de 1657 a 1680» in Raízes e Memórias. Ponta Delgada. vol. A administração municipal e as Vereações do Porto de 1500 a 1504. Secretaria Regional de Educação e Cultura.»anais do Município de Faro). III. Porto. Sisa de 1567. Porto. 1969 e 1971. 2 vol. Armando Carneiro da. Ponta Delgada no século XVII. 1994. n. Câmara Municipal. Ponta Delgada. 1984. FCSH. Poder municipal e oligarquias urbanas.n.. Instituto Histórico da Ilha Terceira. 1980 (Sep. História». Aspectos institucionais (1519-1838). Francisco Ribeiro da. 1983. Isabel dos Guimarães.º 5. XI. José Damião. Anais do Município de Tomar. 1973.s. 101-163. João Marinho dos. – Silva. policopiado. 1994. ano XI/ n. Porto. O caso do Porto e da sua região– tese complementar de doutoramento in «Revista da Faculdade de Letras. 1989. vol. Os Açores nos séculos XV e XVI. pp. II série.

Francisco Ribeiro da. Francisco Ribeiro da. Porto. 2001. Porto. 1989. 1981.1999. – Silva. História». CHUP. Autonomia Municipal e centralização do Poder no período da união ibérica in «Revista da Faculdade de Letras.ª série. Francisco Ribeiro da. – Silva. Vila Nova de Gaia. pp. Francisco Ribeiro da. O Concelho de Gaia na primeira metade do século XVII: instituições e níveis de alfabetização dos funcionários in «Gaya». – Silva. Porto. Universidade do Minho. Porto. 2. 1983. – Silva. 23 pp. Actas. . 29-42. Francisco Ribeiro da. 181-192 (IV. As Elites portuenses no século XVII. XI. Talence.HISTORIOGRAFIA DOS MUNICÍPIOS PORTUGUESES (SÉCULOS XVI e XVII) 35 – Silva. O Foral manuelino da Feira e Terra de Santa Maria in «Revista de História».es Journées d’Études Nord du Portugal – Aquitaine (CENPA). 1994. 2002. Níveis de Alfabetização dos Oficiais Administrativos e Judiciais do Concelho de Refojos de Riba d´Ave e da Maia na primeira metade do século XVII in Actas do Colóquio de História Local e Regional. IV. pp. O Foral de Cambra e a Reforma manuelina dos forais in «Revista da Faculdade de Letras. 1987. II. Les «cidadãos» de Porto au XVII. vol. – Silva. Porto. vol. Francisco Ribeiro da. vol. – Silva. VI. Universidade Moderna. 57-70. Porto. Braga. Paris. CNRS. 1984. Bordeaux. Francisco Ribeiro da. 2. – Silva. Maison des Pays Ibériques. 2001. Francisco Ribeiro da.ª série. ème siècle: caractérisation sociale et voies d` accès in Hidalgos y Hidalguía dans l’Espagne des XVIe -XVIIIe siècles. Mecanismos do poder e articulações institucionais entre Centro e Periferia no Portugal dos fins do Antigo Regime in Articulation des Territoires dans la Péninsule Ibérique (textes éunis et presentés par François Guichard. 1991. (n. Santo Tirso. Historiografia Municipal Portuguesa in O Município Português na História na Cultura e no Desenvolvimento Regional. Santa Casa da Misericórdia. Belo Horizonte. A Misericórdia do Porto na Centúria de Quinhentos in A Santa Casa da Misericórdia do Porto e o Voluntariado em Saúde. vol. – Silva. II série. vol. As Cortes seiscentistas e o seu significado nas relações entre os Concelhos e o Poder central in Anais – I Colóquio de Estudos Históricos Brasil e Portugal. 1989. – Silva. – Silva. A participação do Porto nas Cortes de Lisboa de 1619 in «Boletim Cultural da Câmara Municipal do Porto». pp. I. Francisco Ribeiro da. Francisco Ribeiro da. 19-21 de Novembro de 1998). – Silva. Francisco Ribeiro da. História».º 1 da Colecção Registos da História). Francisco Ribeiro da.

de »Boletim Cultural da Câmara Municipal de Vila do Conde). Vila do Conde no contexto das reformas administrativas de D. Edições Cosmos. Vila do Conde no século XVI: reflexões sobre alguns índices de desenvolvimento urbano. O Porto e o seu Termo (1580-1640). Braga. Venalidade e hereditariedade dos ofícios públicos em Portugal no século XVII. ano 2. Funchal. Porto. 2000. de Luís A. Seminário Internacional. 3. X. Câmara Municipal. Dezembro 1994. in A igreja nova que hora mamdamos fazer…» 500 anos da Igreja Matriz de Vila do Conde. Vila do Conde. Manuel I. 63-77. Centro de Estudos de História do Atlântico. Francisco Ribeiro da. IV. Alguns aspectos. II série. 40. Francisco Ribeiro da. O Foral manuelino da Terra e Concelho de Gouveia: um exemplo insólito de contratação colectiva entre enfiteutas e senhorio in Amarante – Congresso Histórico 98». II/2.. 2001. – Silva.. Os Homens. Porto. 1988. pp. Porto. Francisco Ribeiro da. . Poder central. vol. n. in « Revista de História». 1988. 2002. 2001 (Faculdade de Letras do Porto – policopiado). Francisco Ribeiro da. – Silva. O Foral manuelino de Felgueiras: um marco histórico da identidade da Terra e das Gentes in «Felgueiras-Cidade». Arquivo Histórico. Porto. Edite Rute dos Santos Bentos. Congresso Internacional. Frei Bartolomeu dos Mártires. 1997. de Oliveira Ramos. – Silva. pp.ª ediç. Paços de Ferreira. 2 vols. Maria Amélia Polónia da. – Silva. – Silva. Francisco Ribeiro da.º 6. – Silva.59. 1998. Actas. O Porto e as Cortes do século XVII ou os Concelhos e o Poder Central em tempos de Absolutismo in «Revista da Faculdade de Letras. 1986. 1990. – Silveira. Amarante.36 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS – Silva. – Soares. Francisco Ribeiro da. O Concelho portuense em 1551. as Instituições e o Poder. in O Município no Mundo Português. 1993. – Silva. Senhorio e municipalismo em Braga ao tempo de D. História». Uma perspectiva histórica. Lisboa. Francisco Ribeiro da. 1994 (Sep. vol. Tempos Modernos. 125-138. Amarante. Os Concelhos e as Cortes seiscentistas portuguesas: representação e intervenção dos Concelhos (O caso do Porto). VIII. in IX Centenário da dedicação da Sé de Braga. poder regional. dir. Vila do Conde. Francisco Ribeiro da. vol. in História do Porto. Felgueiras.). – Silva. Porto Editora. Francisco Ribeiro da. vol. 2 vols. Francisco Ribeiro da. Porto. poder local.. (Coord. Luís Espinha da. in Paços de Ferreira – Estudos Monográficos. “Paços de Ferreira na época moderna”. – Silva. Actas. – Silva. pp.

Um século de vida municipal (1594-1700)». 1991. in O Município no Mundo Português. – Vieira. Um século de administração municipal. Coimbra. 1988 (Sep. Câmara Municipal. pp. Alexandre de Lucena e. – Vale. XLVIII-XLXIX. – Veríssimo. Nelson. Direcção Regional dos Assuntos Culturais. CEHA. – Soares. 1955. – Soares. in Boletim do Instituto Histórico da Ilha Terceira. pp. Braga. 2000. O Barreiro e a expansão portuguesa: imagens do concelho dos séculos XV a XVII. Viseu. História e Crítica. Viseu. tomo XXVI. Nelson. in O Município Português na História na Cultura e no desenvolvimento Regional. Alberto. Açores. 291-299. de Arqueologia do Estado).1993-1994. 1990. Funchal. Sérgio da Cunha. Universidade do Minho. 1003. Lisboa. de. «As Posturas Municipais da Madeira e Açores dos séculos XV a XVII». Braga. 1998. – Vieira. Canárias) séculos XV a XVII. 117-138. Seminário Internacional. – Soares. Funchal. 1998. Angra do Heroismo. – Vieira. vol. 265-280. Funchal.HISTORIOGRAFIA DOS MUNICÍPIOS PORTUGUESES (SÉCULOS XVI e XVII) 37 – Soares. 1992. «Poder municipal e vida quotidiana: Machico no século XVII». XL. Alberto e Rodrigues. in Actas do III Colóquio Internacional de História da Madeira. vol. pp. «Ponta do Sol. Coord. José Guerra Soares. Sérgio da Cunha. in Bracara Augusta. «A freguesia de Sant’Iago da Sé na visitação capitular de 1562». 1605-1692. «Os Vereadores da Universidade na Câmara de Coimbra (1640-1777)» in Revista Portuguesa de História. Fraquelim Neiva. . Relações de poder na sociedade madeirense do século XVII. Alberto. Barreiro. CEHA. A dinâmica municipal no Atlântico Insular (Madeira. «A Câmara de Coimbra e a Universidade nos séculos XVII e XVIII». Víctor. – Veríssimo.

. fraco desenvolvimento da investigação histórica sobre o município português. Desenvolveu-se em forte articulação com a problemática da construção e reforço do Estado Moderno ou da sua crise e da Sociedade de Antigo Regime. um dos ramos da Historiografia Portuguesa que mais se desenvolveu nos tempos mais recentes. Concentrou-se sobretudo na História Municipal da 2. porque não estava em causa a sua legitimação e continuidade histórica. de História/Instituto de Ciências Sociais) 1. de reforma ou mesmo alternativa. para que aliás veio dar contributos essenciais pelo novo prisma de abordagem da questão. ainda que a partir de um discurso mais político do que histórico. e ao qual se apresenta aliás no plano das realizações como instrumento.Administração local e municipal portuguesa do século XVIII às reformas liberais (Alguns tópicos da sua Historiografia e nova História) JOSÉ VIRIATO CAPELA (Universidade do Minho – Dept. Pombalismo. É em geral um discurso muito crítico ao papel e lugar que o Município tem no bloqueamento aos desenvolvimentos e reformas necessárias da Sociedade. pp. crise do Estado de Antigo Regime. na prática. O município como objecto por excelência dos estudos de História da Administração local A História Municipal e através dela a História da Administração Municipal é.1. Edições Colibri – CIDEHUS-UE. Breve perspectiva histórica 1. A abordagem da questão municipal está já largamente presente nos textos dos reformistas e ilustrados do século XVIII e seus finais. A Historiografia da administração local. sem dúvida. Administração Pública e Economia Portuguesa. Pós-Pombalismo.ª metade do século XVIII em diante. 2005. Esta posição inviabilizaria. Os Municípios no Portugal Moderno: dos forais manuelinos às reformas liberais Lisboa. Alguns tem mesmo sobre ele posições radicais ao ponto de afastar o Município do rol das instituições que propõem para a nova ordenação da nossa administração pública e territorial. 39-58.

Félix Nogueira e seus continuadores emergirão finalmente com grande desenvolvimento. Nogueira no seu Município Novo teria por então uma das suas primeiras grandes aplicações – interrompida com a crise financeira de 1890 – e que a República intentará de novo retomar. o ideário corporativo anti-liberal e antidemocrático. não tem porém lugar autónomo nas Histórias de Portugal de Oitocentos. repondo o Código descentralizador de R. quer no plano prático quer até no historiográfico. economistas. Mas será com Félix Nogueira. se são esparsos os estudos históricos sobre o municipalismo dos Tempos Modernos em Herculano – que o Absolutismo segundo ele matara – com H. Herculano. ensaístas e sobretudo de administrativistas. socialista. e em grande medida como reacção aos excessos da Centralização promovida pela dinâmica das novas instituições liberais – a Divisão dos Poderes e o Código de 1842 – é a solução do municipalismo que se apresenta como alternativa global que emergirá em grande força no mito historiográfico do município medieval. os estudos do Município português em tempos da Monarquia Absoluta. A República (1910-1926). Sampaio. consubstanciado por H. Rodrigues Sampaio quando o municipio se inserir mais realisticamente no jogo e na acção político-social dos equilíbrios e harmonias necessárias entre a centralização e a descentralização. A Reforma descentralizadora de Rodrigues Sampaio (1875-1890) promoverá sem dúvida um dos mais profundos desenvolvimentos das coordenadas da vida municipal portuguesa e também da História do Municipalismo. haveria de trazer um novo fôlego e novos horizontes às investigações sobre o Município pela intensa reflexão histórica sobre as origens e natureza da instituição municipal – designadamente a sua anterioridade . Deste modo. Lopes de Mendonça. Intenta-se então também a elaboração de monografias sobre os concelhos e os municípios e obras de conjunto sobre a temática. Com significativo espaço na obra de políticos. que depois se continuarão. ultrapassando de vez o «enclausuramento» romântico medieval e fixando mais desenvolvidamente a sua acção e adaptação dos Tempos Modernos.40 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS É verdadeiramente o século XIX – em particular da sua 1ª metade – que verá florescer a História do Município e emergir mesmo o ideário Municipalista. Com A. que a História do Município fará novos avanços. O ideário republicano. F. fazendo também seu o programa da descentralização e municipalização da administração e território. Neste último ponto sem grande sucesso. H. do Centralismo e Absolutismo Monárquico. Nas origens do Estado Novo. manter-se-á nas peugadas doutrinárias legadas pelos ideários de Oitocentos.

1957). revelar-se-ia com muito mais pormenor a vida de outras instituições locais muito articuladas aos Municípios e que aí deixaram muitas marcas e registos nos fundos arquivisticos. Deste resultará em particular o enorme trabalho de estudo e publicação das fontes e fundos da produção administrativa camarária.ADMINISTRAÇÃO LOCAL E MUNICIPAL PORTUGUESA DO SÉCULO XVIII ÀS REFORMAS LIBERAIS 41 ou filiação no Estado Português – em correlação com a fundamentação das raízes e natureza corporativa da Sociedade e do Estado. de um modo sistemático. pelos anos 30 e 40 do século XX em correlação com os programas de desenvolvimento regional que pretende suportar e fazer assentar no município (e outras instituições históricas) programa desenvolvimentista a que então se prendem as elites locais portuguesas municipais e distritais para tirar a Província do seu letargo e abatimento e por eles regenerar o país. o sistema e os problemas da administração local em si e em correlação com a descentralização e a intervenção e coordenação dos serviços técnicos e administrativos do Estado. Tal estará na origem de um novo reforço da análise da História e evolução histórica do Município. com um alargamento das temáticas que as novas questões a resolver exigiam. Ela está certamente em relação com a emergência da figura do poder local no nosso . Tais programas tiveram eco nas discussões à volta do Código Administrativo de 1936 do Estado Novo. (Problemas de Administração Local – Centro de Estudos Político-Sociais. E pela descoberta e exploração destes fundos. quando se localizam os fundos mais completos e desenvolvidos da vida municipal. envolvendo-se no estudo histórico das corporações de ofícios medievais e também da “corporação” municipal. Na prática esse é também um período de grande discussão sobre a administração local autárquica no tocante a matérias que se referem a: problemáticas da centralização/descentralização. a História do Município Moderno é estudada a partir das suas próprias fontes.ª vez. com particular incidência no campo doutrinário mais do que no campo historiográfico. A Historiografia municipal para os Tempos Modernos sofrerá no pós 25 de Abril de 1974 um extraordinário desenvolvimento. o que faz desenvolver particularmente os estudos posteriores ao século XV. Este é um período de grandes evocações de História Municipal. Esta ideologia de base corporativa não deixaria ainda de se fazer sentir nos estudos de História municipal que se desenvolveram entre nós. Lisboa. Mas muitos deles alargar-se-iam também ao estudo das corporações dos ofícios nos Tempos Modernos e em relação com eles também dos concelhos e até ao fim do Antigo Regime do trabalho mesteiral e oficinal. o desenvolvimento dos serviços municipalizados. Pela 1. tendo vingado a solução centralizadora do Regime contra as alternativas mais descentralizadoras de municipalistas e autarcas.

em correlação com ela. Nestes estudos. mercados e formação de preços. Tal desenvolvimento continua as linhas de rumo tradicionais da historiografia municipal portuguesa. A matriz e a base de História económica e social com que se renovou a historiografia municipal mais recente. permitida e sustentada pelos 3 novos pilares constitutivos do seu desenvolvimento: a lei da autonomia. com mais força e vigor. certamente também pelo seu marcado cunho institucional. a que genericamente se vem apelidando de estadualista que privilegia o estudo do município nas suas relações e mútuas adaptações ao Estado. Para a renovação da historiografia municipal concorreram poderosamente novos domínios de investigação historiográfica que lhe foram aplicados: a História Económica. os mecanismos sociais no ordenamento social local e sua articulação com a Sociedade de Corte e nos elementos e agentes de articulação política pelo estudo do papel e acção dos magistrados régios para o governo da periferia. os novos horizontes da Historiografia económica europeia do Pós-Guerra e da História Económica e Social dos Annales. sai particularmente beneficiada a perspectiva estadualista. que . da separação dos sectores. e agora. o Metropolitano e logo também o Ultramarino. que iniciando-se pelo estudo da História Social da Administração Municipal – com contributos decisivos para a configuração social dos diferentes orgãos municipais – receberia contributos fundamentais do novo campo da História Social. que estuda os mecanismos do reforço dos elementos da articulação económica e financeira dos municípios à Coroa e Fazenda Pública. com desenvolvimentos particularmente notórios na História económica da administração municipal. mas também nos seus territórios e até «regiões». Mais decisivos ainda foram os desenvolvimentos da História Institucional. das finanças locais. com importantes estudos monográficos dirigidos aos grandes municípios portugueses nos seus quadros institucionais. próprio à organização da Sociedade de Antigo Regime. mas também do papel das posturas e regimentos locais no desenvolvimento e enquadramento económico mais geral. essa entronca já na referida renovação do papel do município como autarquia local na administração pública e territorial portuguesa das décadas de 50 e 60. no funcionamento das almotaçarias. das Elites e também à História da Mobilidade Social e dos Sistemas Eleitorais. na História financeira e da contabilidade municipal. Desta etapa histórica sai particularmente beneficiado o estudo histórico do município português na Época Moderna. a que lhe contrapõe o modelo corporativo.42 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS ordenamento político-administrativo revolucionário – que rompe com o conceito vindo do Estado Novo da administração local autárquica – e também com o seu particular desenvolvimento assente na mobilização social e política de que foi alvo. mas também.

a perspectiva da Historiografia e do paradigma Corporativo. 1. 1971) mas sem grandes consequências futuras. os poderes e as instituições para a administração régia. profissionais ou religiosas.2. Menos consequências teve a nosso ver. naturalmente pela força e dimensão que a instituição municipal mas também o ideário municipal ganhou na Sociedade e Cultura Portuguesa. Perspectiva e abordagem sem as quais nunca formaremos uma visão completa da História Municipal e muito menos da emergência das suas Reformas. P. les Faucille et le Marteau (Paris. designadamente a territorial. A História e historiografia da paróquia O estudo histórico da administração territorial portuguesa tem sido configurado e reduzido à História Municipal. designadamente o das comunidades confraternais. Mas também no plano dos ideários. a História da Administração. Mas. e contribui para ajudar a definir um outro e novo modelo municipal. E que Jorge Borges de Macedo aconselhou e seguiu no artigo “Absolutismo” do Dicionário de História de Portugal (dir. dos baldios. no plano institucional e das realizações. a vincular e sobretudo a paroquial e a eclesiástica. o das correntes anti- . do Absolutismo e do Despotismo. também a dos corregedores. os campos. História e perspectiva esta que já R. vista e vivida pelo lado dos administrados. para cuja abordagem se tem recorrido sobretudo e quasi em exclusivo à perspectiva da História do Estado e da Administração. dos usos e costumes comunitários. Para além dos Municípios. o estudo dos outros domínios da administração do território. 1970) aconselha a fazer adentro do quadro analítico conhecido que é o da construção do Estado Moderno e seus limites e constrangimentos. ao longo dos tempos. a saber. provedores e as novas «instituições políticas» do Estado Moderno. apesar disso. a mais antiga (do Estado Novo) e a mais recente. de Joel Serrão. a senhorial. para a História municipal deste período. designadamente para o estudo daquelas perspectivas que tão descuradas tem sido pela Historiografia Política e Institucional Municipal. a eleitoral e da nova configuração dos poderes. não contribui tão decisivamente como parece dever ser o seu papel. neles incluindo também os outros campos do exercício dos poderes sociais mais informais ou sem base territorial. sobretudo sociais. Se em geral forneceu novos enquadramentos e fixou outras coordenadas de abordagem e de percepção da chamada «estadualização» ou «politização» da Sociedade. não se pode perder de vista. a saber. que é unilateral e insuficiente.ADMINISTRAÇÃO LOCAL E MUNICIPAL PORTUGUESA DO SÉCULO XVIII ÀS REFORMAS LIBERAIS 43 prestam atenção para além da acção dos juízes de fora. U. para a abordagem social da História e vida do Município. Mousnier nos estudos integrados em La Plume. F.

E nesse sentido os estudos demasiado configurados nas fontes e administração municipal e no estudo de casos onde a dimensão institucional. reduziram ou subalternizaram mais fortemente o papel e a acção das outras instituições. alheia ou mesmo estranha e desconhecida. o papel político e administrativo da acção municipal ganharam particular vitalidade e envolvimento e apagaram.44 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS -municipalistas ou o dos críticos de soluções político-administrativas assentes na exclusiva solução municipal. delimitando bem os espaços de actuação e concorrenciando-o inclusive. como se comprova pelo papel desempenhado pelas outras instituições que no território do município exercem a sua actividade. que em geral. e assim o foram sempre na História local portuguesa e o devem continuar a ser para o futuro. por outro lado. é que nos permitirá avaliar a importância e predominância relativa das instituições que disputam o exercício dos campos do poder local. o estatuto e a força da argumentação do ideário e propaganda municipalista dos seus grandes e importantes doutrinadores e ideólogos que não deixaram de reduzir a força e o plano de actuação de outras correntes e doutrinas. designadamente com a acentuação no reforço da paróquia ou freguesia. E naturalmente também por uma atenção mais cuidada à força e continuidade da doutrina e argumentação das soluções que não as municipais e municipalistas. Para o que concorrerá também. sob a ordem e a . a propor soluções alternativas ao município e a desenvolver ou propor outras soluções político-institucionais. Como se comprova também pelos testemunhos recolhidos junto das populações paroquiais designadamente nas Memórias Paroquiais do século XVIII (1758) onde a presença e domínio da instituição municipal aparece aí descrita de um modo ténue e esparsa. das suas legitimações incluindo a historiográfica e dos seus assentimentos. Com efeito a particular concentração e desenvolvimento da Historiografia dirigida ao estudo do Município face às outras instituições locais tem feito passar a ideia de que o Município e o seu território de jurisdição são as instituições exclusivas ou por excelência da administração local portuguesa neste século XVIII e finais do Antigo Regime. induziram e configuraram mesmo tal opinião. Porém a realidade é mais variada e complexa. contestada. Tal reflexão é possível e ainda mais necessária no período de forte emergência do poder e ordem municipal. Ou a crer definitivamente que a solução municipal é originária e matricial à nossa constituição político-social ou uma dádiva divina e portanto perenes e inquestionáveis e por eles a subalternizar as doutrinas e os ideários político-administrativos que não priviligiam ou não entram em linha de conta com a instituição e solução municipal. Só uma visão e acercamento mais amplo destas realidades dos poderes. ou crítica dos abusos e excessos da concentração municipalista da doutrinação e programa descentralizador ou regionalizador.

e utilizando em particular os maiores municípios portugueses. vem nesta etapa conquistando e alargando os seus poderes no território. em grande parte fortemente crítico do poder e organização municipal. nalguns casos autênticas ilhas no mar de um profundo localismo e isolamento político e social. e em grande medida “desautorará” politicamente. a outra realidade municipal à margem destes desenvolvimentos: municípios que pela sua reduzida dimensão. sobretudo quando ela é feita em proveito dos estratos que suportam o Estado fidalgo e aristocrático que se contesta ou são incapazes de suportar qualquer projecto de desenvolvimento. mas também as bases de soluções locais paroquiais e regionais que são tão pouco conhecidas. a mais completa tutela e configuração político-administrativa que o Liberalismo lhe dará no quadro do novo Centralismo burocrático e da nova Divisão dos Poderes. Que é uma crítica violentíssima ao seu pequeno papel para o desenvolvimento dos povos e do território. Com efeito subsiste ainda. Tal realizou-se. naturalmente. Ora tal desenvolvimento não apaga a outra realidade institucional que ela mantém. umas vezes “reformista” outras vezes “abolicionista” que sem dúvida lançara as bases e os fundamentos da grande amputação e reforma concelhia de 1832-36. é este ideário das Luzes. vinda dos sectores contestatários a esta estadualização municipal. máquinas e estruturas do poder ao serviço das velhas aristocracias e fidalguias. desenvolvimento orgânico e funcional. em certa escala para largos espaços do território nacional. E não apaga também. no fim de contas da Sociedade e Estado com que as gentes das Luzes pretendem romper por finais do século XVIII. mas também a esta “miniaturização” e irrelevância de municípios rurais. antes pelo contrário. Sem este conhecimento não é possível seguir a emergência de outras soluções presentes no nosso pré-liberalismo e primeira vigência do regime liberal e suas soluções para a governação do território e seu enquadramento políti- . posição no território permanecerão no todo ou em parte ainda arredados destes mecanismos de Centralização e desenvolvimento institucional uniformizador induzido pelos progressos da Monarquia e do Estado. É este o caso das críticas da Ilustração a este Municipalismo Histórico. circunscrevendo e limitando os outros poderes e jurisdições. Que prefiguram nos casos mais desenvolvidos. com profundas consequências para a instituição municipal que nos aparece no final desenvolvimento deste processo histórico – de profunda articulação e modelação com a ordem régia e os objectivos régios para o governo do território – com substancial limitação dos seus poderes “autónomos” e fortemente configurada ao exercício das tarefas que a Monarquia lhe impõe e distribui para o governo do território. segrega até.ADMINISTRAÇÃO LOCAL E MUNICIPAL PORTUGUESA DO SÉCULO XVIII ÀS REFORMAS LIBERAIS 45 batuta do alargamento do Poder Real Absolutista e do Despotismo Esclarecido no século XVIII. Ora. reforça a crítica político-social e também doutrinária.

Mas não se nota qualquer movimento de legitimação historiográfica desta instituição que permitisse fazer vingar a freguesia ao lado do concelho ou município como instituição autárquica para a administração e governo civil do território. está presente a valorização da paróquia religiosa na conformação e origens da sociedade portuguesa. E para o padre Miguel de Oliveira. E contudo e certamente por via disso. no século XIX. Caetano. como a historiografia mais recente tem vindo a sublinhar. no pós 25 de Abril de 1974 a ser a parente pobre da investigação historiográfica sobre o poder e administra- . a Sociologia. Só com Alberto Sampaio. em consonância com a importância política e social da paróquia. a paróquia terá ainda um papel mais forte no enquadramento da vida das populações que os concelhos. A ideia é pois. este é um quadro muito activo no enquadramento e organização comunitário local. Também para esta historiografia. Em paralelo da historiografia civil. isto é considerá-la na sua matriz histórica originária. a Antropologia.º ideário municipalista do século XIX (Herculano). E é deste contexto do movimento das Luzes que se reforça a ideia da paróquia civil ou freguesia que só muito mais tarde vingará. O Padre Miguel de Oliveira bateu-se pela produção de monografias paroquiais. morta pelo Centralismo liberal de que os concelhos – sobretudo os das vilas e cidades – foram também agentes e suportes. também um concelho. Na paróquia viu A. desenvolver-se-á também com a historiografia eclesiástica o estudo da paróquia. pois que em seu entender na paróquia se unem «vínculos quasi tão estreitos como os da família» e «sob o aspecto social excede em importância as instituições municipais». A História paroquial continuaria. desde as suas origens no século XIX. Sampaio as bases e a matriz da nossa constituição social que arranca e se articula às villae romanas. a Geografia Humana. ao modo de Alberto Sampaio. que fizessem o contraponto às monografias concelhias que por então também promovia M. bem mais atentas ao estudo científico e positivo das comunidades de limites paroquiais estiveram por outro lado as demais Ciências Humanas. valorizar esta instância local do enquadramento dos povos. administrativista e historiador estado-novista do Município medieval. Depois no contexto da construção do ideário municipalista houve também quem pretendesse associar a freguesia ao concelho. Depois. a História paroquial ganhará também cidadania no panorama dos estudos locais portugueses. Com a crítica do município e seu fraco envolvimento e integração das comunidades locais emerge a vontade de valorização e afirmação política e administrativa da paróquia ou freguesia.46 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS co-social e também a emergência do 1. Reforçar e revigorar a vida social com base na freguesia é o caminho a seguir para regenerar a política e a sociedade portuguesa.

de juízes ordinários. 2. na senda dos estudos anteriores. Centralização. Não pôde como o município beneficiar da larga tradição de investigação e doutrinação sobre a História Municipal e o Municipalismo e também – e por via disso – a freguesia continuaria a desempenhar um papel subalterno na nossa administração. também. seja ele marcado pela construção da rede político-administrativa (Judicial.1. concentrado os estudos nas manchas do território mais percorridos e articulados pelo processo centralizador. Militar. isto é. esta em estudos mais atentos às origens e papel da ordem religiosa e eclesiástica. É uma análise e uma perspectiva que sai reforçada. na continuidade das abordagens de A. Em busca de novas abordagens da História da Administração Local: o Município no Território 2. urbanos ou de vilas de maior dimensão. da Província. ou pelos suportes político-económicos da construção do Estado Nacional Mercantilista. integrantes de vastas áreas à margem ou só marginalmente integradas no “território” do domínio régio ou em zonas de forte domínio ou concorrência do domínio senhorial. por via da uniformização institucional com a aplicação do modelo e da ordem legal régia e da acção corregedora e integradora dos magistrados régios à periferia. mais desenvolvidos organicamente e onde sedeiam os principais organismos e magistrados da Coroa para a administração e governo do território. certamente contribuiria para conferir ao município uma realidade bastante dife- .ADMINISTRAÇÃO LOCAL E MUNICIPAL PORTUGUESA DO SÉCULO XVIII ÀS REFORMAS LIBERAIS 47 ção local. na tradição dos estudos sobre a paróquia civil. A investigação sobre a freguesia – paróquia do Antigo Regime. pela rede social de articulação à Sociedade de Corte. da Fazenda). A abordagem e o estudo dos casos dos pequenos municípios rurais. Sampaio e a sociologia histórica (entre outros) e a paróquia eclesiástica. agora ainda mais subalternizado dados os investimentos políticos e financeiros do 25 de Abril na administração municipal. apesar de escassa. da comarca. continuaria a fazer-se. E que para além de estudos individuais destes casos. da provedoria. pelo facto de se ter estudado particularmente a evolução política e institucional dos maiores municípios. Adaptações municipais A força dos vectores da centralização e mais ainda do paradigma da estadualização aplicado ao estudo da História Municipal Moderna tem privilegiado e acentuado sobretudo o estudo dos mecanismos da sua integração na ordem pública. hierarquização político-administrativa do território e propostas de novas divisões administrativas. de áreas menos importantes ou contribuintes para a construção do Estado Moderno. tem também por via deles.

progressivamente. Por isso é necessário estudar o município no seu território. com desfasamentos significativos relativamente ao novo modelo e paradigma do “município régio”. a do quadro mais vasto. decisivamente com Pombal e os governantes de D. E não só a do quadro e termo municipal – que tem sido tentada – mas também e muitas vezes sobretudo. Tal obriga necessariamente romper com um outro lugar comum que se fixou mais recentemente na historiografia municipal. de facto. Se se pretende. O governo monárquico do século XVIII. Muito mais do que a partir dos concelhos é a partir do quadro comarcão que o Estado e o governo comarcão quer olhar e governar o território. teve como consequência esquecer ou secundarizar as dinâmicas estruturais de carácter geográfico-político que sobre ele se exercem e que o continuam a modelar profundamente. para além da conformação institucional – por regra tão só orgânico-oficial – permitirá seguir os termos da sua configuração com o Território. mas seguir as dinâmicas próprias induzidas e até construídas pelo Território e pela Sociedade que naturalmente são em última instância os agentes e suportes destas realizações e nova construção política e ordenamento territorial. uma apreciação mais ajustada dos níveis e patamares de modelação e integração do Município ao Estado e Ordem Pública Nacional é necessário seguir-lhe. Maria desde 1790-92 . a Sociedade onde se insere. o quadro por excelência da ordenação política do território. decorrente do paradigma estadualista e do município dominador do seu território. a quem desde 1790 se pretende conferir maior desenvolvimento e racionalidade administrativa para nela reorganizar o quadro da divisão e administração concelhia. o conceito de que o Município Moderno é a-regional e mesmo anti-regional. situá-lo nos “círculos” diferenciados da sua situação e centrifugação política e também no dos diferentes níveis do desenvolvimento social e institucional. O percurso deste outro caminho. O município fortemente arreigado e enraizado no seu território. O estudo do Município no território permitirá fugir ao espartilho da explicação monista da modelação institucional realizada tão só do topo para a base. com efeito.48 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS rente. os passos da sua modelação regional – comarcã e provincial. Tal conceito. resultado de um Absolutismo e Centralismo como factor exógeno às instituições e territórios neles envolvidos. A comarca volver-se-á. «regional» ou provincial. que tem de passar por um maior esforço de caracterização do município. sofre as vicissitudes que o próprio território vai sofrendo nas suas dinâmicas de aproximação ou afastamento político aos marcos territoriais e políticos mais activos e dinâmicos da construção do Estado. neles se exprimindo de forma diferenciada as dinâmicas desta modelação mais geral. em primeiro lugar.

. as vozes dissonantes dos concelhos e dos seus diferentes membros nas Cortes. Os problemas e petições concelhias serão conduzidos ao Rei e seus Tribunais superiores pela voz do corregedor. Entre essas reformas é de referir as da Justiça – com a afirmação do Direito e Lei Régia sobre os demais direitos a extinguir os donatários nas ilhas – a promover a mais forte integração dos concelhos de juízes ordinários nos de juízes de fora e de um modo geral a afirmar a supremacia e a tutela dos concelhos régios sobre os concelhos e coutos senhoriais. É o caso dos concedidos à cidade do Porto. para proceder ao reforço do poder em mais vastos territórios “regionais” e articulá-los por seu intermédio mais fortemente ao Estado. nela envolveriam fortemente o Município. que promovendo a forte hierarquização política nacional das instituições e por ela a sua mais forte integração institucional e territorial.. No período pombalino este processo seguirá sobretudo na senda de reformas políticas. de reforço e alargamento do poder e hierarquia de concelhos estrategicamente posicionados no território. incluindo na sua base espacial. Sobre as políticas é fundamental salientar algumas reformas pombalinas que embora não dirigidas directamente ao Município. suporte de muitas delas. a Reforma da Fazenda. das Alfândegas. O município e desde logo o município cabeça de comarca. não tendo tocado nas bases e divisão territorial. E a constituição de largos Privilégios em grandes municípios de centros urbanos que lhe concederam forte relevância e tutela regional sobre os outros territórios e municípios. a uniformização e a unificação legal e administrativa do território da sua comarca. Tal passa naturalmente por reforço sobretudo do papel dos municípios maiores onde a administração periférica do “Estado” está já mais desenvolvida. uma forte articulação e hierarquia do território. O concelho cabeça da comarca virá por isso a ser o pivot e ponto de partida e referência do novo referencial “autárquico” e regional. na continuidade aliás da criação do . e em particular nesta etapa decisiva no reforço do Centralismo e Absolutismo e logo do Reformismo pré-liberal. com a criação da Companhia de Vinhas do Alto Douro neste caso de alcance Provincial que lhe concedeu os suportes do largo domínio regional às 3 Províncias do Norte de Portugal. das Superintendências fiscais (das Sisas e Décimas) a produzir movimentos do mesmo sentido de centralização (regional).ADMINISTRAÇÃO LOCAL E MUNICIPAL PORTUGUESA DO SÉCULO XVIII ÀS REFORMAS LIBERAIS 49 – adentro do mesmo espírito anterior – reforçam o papel dos corregedores e outros magistrados régios e com eles o quadro de unificação e racionalidade comarcã.. nele acabaram de produzir efeitos fundamentais. como é sabido. o principal suporte da nova organização do território que promoverá. O corregedor do século XVIII promoverá num constante deambular pela comarca. volver-se-á neste contexto. Há muito que ele substituíra os braços dos concelhos.. em especial os eclesiásticos. racionalização e uniformização institucional. e organização político-estadual.

em particular as obras nas barras dos maiores rios. a ponte e outras obras do rio e da cidade. liberdade da terra que permita o mais lato desenvolvimento económico. das elites ilustradas locais que se querem impor nas governanças locais às velhas elites nobiliárquicas e fidalgas e colocar o município ao serviço da Pública administração e do Bem Comum e Felicidade dos Povos. munícipes e oficiais. mas de que os principais e grandes beneficiários são os portos ou os cofres das vilas ou cidades da respectiva embocadura. em particular no domínio público. em particular pela geração de 1790 que produz a mais acérrima crítica ao papel e acção do município e o consideram em geral factor de bloqueio social. ainda que os projectos e programas fossem definidos numa escala “regional” neste caso o das regiões hidrográficas. Mas como não avocar aqui também o papel da Companhia das Lezírias para o Ribatejo (entre outras) e até a entrega do monopólio do Ensino Público à Universidade de Coimbra com a expulsão dos Jesuítas que faz conduzir para a cidade do Mondego os professores e estudantes e faz a Universidade e a cidade beneficiária de contribuições públicas gerais assentes nas Superintendências das Sisas do Reino com que pagam professores. Avanços para um programa de nova “divisão” administrativa do território só se realizará porém nos finais do século XVIII. seus concelhos. a sua canalização e navegabilidade que para estas obras faz contribuir os concelhos e terras limítrofes. político e económico ao desenvolvimento da Sociedade portuguesa e de uma adequada administração régia para o território. . Pretende-se redimensionar os concelhos para os adequar ao nível das exigências e tarefas agora colocadas pelo Estado e reforçar a comarca. que limite as jurisdições e poderes do direito senhorial e eclesiástico. Da acção e directrizes dos juízes demarcantes de 1790 resultou essencialmente a proposta de um novo desenho das comarcas e dos concelhos. dos letrados e magistrados régios em luta pela mais larga afirmação do Direito régio e pátrio. desencadeados com as leis de 1790/92. Esse programa é activamente impulsionado pelos reformistas e ilustrados do século XVIII. cadeiras. como instância político-administrativa mais actuante e presente em todo o território (com a extinção das Ouvidorias). Essas críticas sustentam em grande medida o programa de reformas a que as leis de 1790/92 querem dar seguimento. tirando-o dos interesses privados e particulares das velhas governanças.50 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Tribunal da Relação ao tempo dos Filipes e que agora se manifestará particularmente activo a conduzir a si todos os processos de apelação e agravo de todos os Tribunais e em particular dos eclesiásticos (vg da Relação Eclesiástica de Braga). E até outros grandes projectos de desenvolvimento regional promovidos pelo Estado. alargamento dos mercados. Elas terão sua origem em particular na Sociedade ilustrada dos economistas em luta pela livre formação dos preços.

propondo a constituição ao lado ou por sobre os concelhos. são em última análise o resultado da sua adaptação e envolvimento nas dinâmicas e coordenadas próprias do seu território. as Intendências (da agricultura. sem plano e estrutura intermédia que sempre foi e pretendeu ser preenchida pelo município. O novo concelho. fortemente centralizadoras e esvasiadoras da instituição municipal. que é preciso abordar neste desenvolvimento longo. articuladas com os projectos e programas reformistas do Estado e com ele em luta por novos concelhos inserido numa mais vasta região. Deste horizonte da crítica e das propostas de reformas ilustradas do século XVIII (desde Pombal e de novo activamente desde 1790/92) se configurarão o sentido e a matriz das reformas do século XIX e do Liberalismo. Mas conta e nele se envolveram as novas forças sociais locais. da polícia. onde se possam realizar mais intensa e extensivamente o programa do desenvolvimento económico e social e colocar as instituições ao serviço da Felicidade e Prosperidade Pública. iniciando mesmo a “desautoração” do poder municipal e uma primeira separação e/ou hierarquização dos poderes que prefigurariam em muitos casos uma primeira Divisão dos Poderes do Liberalismo e do Constitucionalismo. é preciso também atentar nas condicionantes territoriais de assentamento dos municípios que os aproximam e modelam em conjunto nas suas bases sociais. que do plano da paróquia salta para o da Província. como a do Ministro Rodrigo de Sousa Coutinho do círculo da Ilustração governamental que faz tábua rasa do município enquanto orgão de divisão administrativa e o apaga da sua proposta da divisão administrativa territorial do Estado. entre outros). Hoje a produção de elevado número de estudos de História municipal para amplos espaços regionais. 2. inscrito numa comarca reforçada é um programa régio. que prefiguram os futuros serviços públicos gerais.ADMINISTRAÇÃO LOCAL E MUNICIPAL PORTUGUESA DO SÉCULO XVIII ÀS REFORMAS LIBERAIS 51 Relativamente a estes procurou-se o seu redimensionamento territorial. retirando desde logo poderes judiciais aos municípios de juízes iletrados (isto desde Pombal) diminuindo ou apagando em definitivo o poder das câmaras nestas matérias.2. Mas outras propostas de ilustrados pretendem também tocar no poder “absoluto” dos concelhos. ainda bastante “marginal”. económicas e até instituições e incluindo a organização do espaço. permite entrever e destacar essas dinâmicas e aproximações . é certo. que sofrendo é certo a modelação político-institucional da construção do Estado. Há até propostas da nova divisão administrativa do território. A força da coesão territorial e a modelação regional do município Mas para além das dinâmicas políticas e territoriais induzidas pela construção do Estado Moderno.

produzindo por vezes até nesse quadro. um certo “esboço” de divisão municipal de certas tarefas. e também um conjunto de municípios de vastos termos rurais que vieram a constituir importantes rendas sobre os foros dos baldios (como aconteceu um tanto por todo o lado. E se não permitem configurar um município regional – pela forte e precoce construção em Portugal do Estado Central e Mercantilista que promoveu uma acentuada uniformização política e institucional do Município Português – conferem-lhe pelo menos uma forte modelação regional que os anima e articula. mas em particular no Minho). a induzir também comportamentos típicos de senhorios foreiros e donatariais. onde o peso das receitas provenientes de herdades e bens próprios agrários é muito importante e por isso lhe induzem comportamentos muito próximos dos dos senhorios fundiários. praças e fortale- . numa relativa militarização dos cargos políticos das vereações dos municípios de fronteira onde por força da estadia de regimentos. dimensão e origem das rendas municipais está naturalmente na origem e na base do relativo desenvolvimento e aproximação das estruturas institucionais municipais. Para além disso. Configuração singular virão. importantes rendas sobre barcos de passagem. moagens e pisões. da governação central e das elites governantes. Idêntica natureza. de lado. e até o transmontano. a principal separação ou distinção que neste domínio. pescarias e direitos sobre usos de água. Tal é patente desde logo na constituição das receitas próprias com base nas quais é possível fazer distinções ou aproximações de base territorial. Particular configuração e aproximação na sua base económica e natureza de rendas veio também a constituir o município das regiões de fronteira (terrestre e sobretudo marítima e fluvial) a realizar importantes receitas sobre as sisas mercantis (ou sobejos das sisas régias) e também rendas alfandegárias.52 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS territoriais. da Beira. também em assumir os municípios de áreas fronteiras a rios de grande valor económico. Tal é desde logo patente. piscatório e transitário que vieram a constituir para as câmaras (como para outros senhorios). Que se exprime na definição de um sistema e regime municipal muito aproximado. naturalmente. Mas a acentuação do “tonus regional” afirma-se também nas diversificadas funções que os municípios são chamados a exercer em função da sua posição no território e corpo político da Nação. a análise comparativa da estrutura e natureza das receitas municipais. permite aproximar municípios como os do Alentejo. da apetência social e das elites ao acesso e governo das câmaras e da sua integração na orgânica estadual por interesses mútuos. induzem os mercados na formação das rendas dos municípios que obrigam necessariamente desde logo à grande distinção nas estruturas político-administrativas e na base social das elites políticas entre municípios urbanos e municípios rurais sem núcleos ou pequenos núcleos urbanos. Deixaremos.

Relativamente aos grandes municípios urbanos (mas não só) é ainda possível proceder a algumas aproximações. nobreza e aristocracias locais ditas de campanário. expressas no diferenciado recrutamento social das elites políticas tradicionais: nobreza.º quartel do século XVIII ser-lhe-á totalmente desfavorável. que dos seus locais próprios do governo camarário (procurador. que poder-lhe-ão ser favoráveis e permitir passagens e acessos breves às vereações ou outros orgãos de poder político municipal. como se verifica de um modo geral nos municípios de mais forte envolvimento político e conjuntural nas revoluções políticas e sociais do Estado na passagem do Absolutismo ao Despotismo e deste à Revolução e Liberalismo. magistratura e Sociedade de Corte quando o município está poderosamente integrado na Coroa. as burguesias mercantis e os letrados locais. naturalmente. territorial. Ou aos militares e sua mais forte entrada e participação nos governos municipais em tempos de guerra. mas agora já sem especial continuidade geográfica. E também nas diferentes modelações que toma a presença das elites locais na câmara. almotaçarias) pretendem ascender às vereações. exercendo um recrutamento que pode extravasar o concelho.ADMINISTRAÇÃO LOCAL E MUNICIPAL PORTUGUESA DO SÉCULO XVIII ÀS REFORMAS LIBERAIS 53 zas e papel militar e defensivo das terras. Se de um modo geral o Pombalismo poderia ser favorável à presença dos mesteres em câmara em correlação aliás com as coordenadas do alargamento da representação social e popular da Ilustração – como se verificou em Espanha com a criação e entrada da magistratura popular do síndico personero para as câmaras – a sua envolvência no Motim do Porto (1757) quebrou tais expectativas. de um modo geral homens de Direito e letrados. do vintismo. que tem a ver com o da presença e representação dos mesteres na câmara. é necessário seguir em relação com a evolução da conjuntura política e social mais geral e a do município e sua estrutura sócio-profissional em particular. mas também demográfico. E posteriormente o reforço e vontade do revigoramento das elites aristocráticas e fidalgas nos municípios ao longo do 3. a aristocracia militar local e regional estende o seu papel às câmaras e que se revigorou nos tempos de conflitos militares e guerras internacionais. urbano. ou mesmo. Ou na diferenciada presença ou concorrência aos cargos políticos do governo camarário de outros ou novos grupos que a eles pretendem ascender. escrivães. quando o afastamento é acentuado. da Lei da Boa Razão (1769) e no consequente afastamento do direito costumeiro e das práticas orais sem proces- . Como seria também bem ilustrativo seguir a sua ligação às câmaras nas crises políticas e sociais do tempo das invasões francesas. por virtude da afirmação do Direito Pátrio. do desenvolvimento político e social das terras. cuja geografia da representação em câmaras e vicissitudes da sua aproximação ou afastamento das vereações. em função. meirinhos.

que é o testemunho da sua enorme “plasticidade”. procuradores dos concelhos. ensino. os honoráveis locais.. o inverso também se verifica. Nos pequenos e minúsculos municípios as singularidades ainda são muitas. os de juíz ordinário que são construídos em dois modelos eleitorais também distintos. onde é frequente não existirem em alguns concelhos alguns ofícios ou corpos como a almotaçaria. organização militar. em regra como se verifica nos municípios metropolitanos distribuídos por outras instâncias territoriais e magistrados. É possível seguir ainda nas diferentes configurações orgânicas-institucionais que assumem os municípios modernos. juízes iletrados. alfândegas. Os seus orgãos mal se distinguem dos das paróquias/freguesias. que se fez de modo diverso pelos diferentes manchas do território.º nível. os municípios de juíz de fora. As aproximações são cada vez maiores entre os municípios de juíz de fora. por outro. o de pautas e o de pelouros. Ainda mais forte adaptação às realidades político-sociais do território é o que se pode observar com o município insular e colonial-ultramarino. . que adopta ainda perfis e figurinos diferenciados em relação com os níveis mais ou menos acentuados de integração política e social no Reino. o que exprime de facto a sua irrelevância política. Muitas vezes os eleitos – vereadores e os juízes servem todas as tarefas. em dois grandes conjuntos. naturalmente em relação muito directa com diferentes serviços públicos aí instalados e seu desenvolvimento e complexidade (justiça maior. servidos muitas vezes por escrivães vindos de outros concelhos.54 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS so escrito. a saber. tesoureiros e às vezes mesmo vereadores. ainda que à medida que se progride para os grandes municípios urbanos.. por um lado. num 1. Nestes municípios mais pequenos e inorgânicos não se verifica sequer qualquer intervenção do poder real. As situações podem ser as mais dispersas: nalguns casos onde é forte o poder real (sobretudo pela Fazenda) ou o poder donatarial (sobretudo o militar) estes assumem poderes que retiram aos concelhos. onde os concelhos assumem totalmente os poderes régios e públicos. cabeças de comarca – com Porto e Lisboa à parte – as diferenças se acentuem. expressões dessa acentuada diferenciação regional. a afastar da administração camarária e da sua Justiça. separados desde logo. O município adapta-se aí às possibilidades e necessidades públicas e comunitárias da terra.) As aproximações de organização institucional fazem-se entre municípios de idêntica dignidade e hierarquia. saúde.

Em busca de novas abordagens da História Municipal da Administração Local: a administração vista pelos «administrados». sobretudo a fiscal. do lançamento e cobrança dos impostos régios e municipais. Como permite também fixar os termos da protecção e particular privilégio que o Município promove relativamente ao território urbano – sede de concelho – suas elites políticas e sociais urbanas. das condenações fiscais. a . de modo a confrontá-la com os seus críticos e sectores da população particularmente vexada com esta administração. enfim. A vila é o território das elites sociais e políticas e dos privilegiados desta ordem social e espacial municipal. dos camaristas. Por isso esta estrutura municipal. o poder e a organização municipal. na expropriação dos baldios e no sistema e rateação dos impostos em especial sobre as populações rurais e seguir as resistências e oposições dos grupos e territórios mais afectados. em especial nos municípios de assentamento urbano. Daí decorre de um modo geral a dificuldade dos municípios levar e afirmar o seu poder e jurisdição nas aldeias. A paróquia Os estudos da História Municipal. urbana e senhorial. da resistência. estabelece um conflito estrutural básico com as populações rústicas do termo. de modo a permitir seguir os campos de oposição. do lançamento dos serviços públicos e municipais forçados. dos ricos e poderosos locais. em especial naqueles domínios e esferas de actuação que mais podem afrontar as populações: no domínio do exercício e aplicação da justiça. Às dificuldades decorrentes de natureza da estrutura do poder municipal – de carácter político-senhorial e fiscal – acresce o forte enquadramento e tutela da ordem religiosa sobre as paróquias. não tem com efeito estudado a História da Administração Municipal do lado dos administrados. A política municipal. dos colonos. do território e termos rurais. estabelece uma absoluta separação entre o espaço urbano e o seu território rural do termo concelhio. É pois de um modo geral “violenta” a relação do poder municipal com esta população devassa dos termos concelhios. o termo e as aldeias é o território dos devassos. da crítica aos poderes municipais. que circunscreve ainda mais as relações entre aquelas ordens políticas administrativas. Pela sua natureza. da condução e colocação da instituição municipal ao serviço do Estado.ADMINISTRAÇÃO LOCAL E MUNICIPAL PORTUGUESA DO SÉCULO XVIII ÀS REFORMAS LIBERAIS 55 3. mas também a “coimeira” é aí profundamente gravosa para os termos do concelho e suas populações rurais e faz-se em proveito das vilas e sua população política. É um estudo que deve saber explorar de novos ângulos as fontes documentais da instituição municipal. A perspectiva dos administrados permite desde logo fixar mais claramente a conformação senhorial que adopta a generalidade dos municípios portugueses de Antigo Regime em meio urbano e sobretudo em meio rural e se exprime em particular.

Esta realidade. esta organização concelhia e esta organização paroquial.56 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS civil dos concelhos e a religiosa nas paróquias. o poder municipal é aí descrito muito periférico. em grande parte por sobre a estrutura municipal. dos aforamentos e partilha indiscriminada dos baldios – são muito frequentes por todo o território. pouco envolvente. directamente ou indirectamente pela sua mais forte articulação e dependência dos concelhos. um poder muito forte sobre a comunidade. A Coroa no seu afã de aproximação e controlo de todas as esferas e espaços da Sociedade intentou as reformas necessárias para colocar os concelhos ao serviço de uma ordem pública. Ora a paróquia é. Pouco sucesso teriam também os Zeladores de Polícia instalados pós 1790 que o Estado pretendeu estabelecer para impor a ordem pública às terras. onde a organização paroquial é menor e menos forte. surgem os “concelhinhos” e governos de freguesias com uma estrutura muito aproximada à dos concelhos – a que tão só faltam às vezes os vereadores – e se avençam e contratam com os seus municípios para fugir aos excessos e violências dos maiores municípios. Mas também pela resistência a vir-se empossar às câmaras. em particular aos termos rurais das paróquias ou freguesias para avaliar melhor as formas de articulação entre ambos os territórios e suas instituições político-administrativas. por um lado. como se pode seguir pelas Memórias Paroquiais de 1758. Eles são também a expressão do carácter opressivo desta organização. Com Pombal para além das reformas dos concelhos para os configurar no ordenamento régio houve um esforço para valorizar socialmente o exercício dos cargos municipais nas paróquias. sem qualquer significado para os povos. se arroga o direito de representar as comunidades fazendo frente ou condicionando fortemente o poder municipal ou seus representantes na paróquia. Nas terras do Sul. Sem grande sucesso. Por outro lado é preciso atentar na organização autónoma das paróquias que no Norte. Contratos de moradores dos termos com os municípios – para fugir à violência dos impostos. É por isso necessário seguir melhor os modelos e as estruturas de aproximação das câmaras aos concelhos. É até muito desclassificado pelo papel dos seus juízes e rendeiros. Com efeito apesar dos esforços. criam dificuldades intransponíveis à aproximação da Coroa e Municípios régios e da administração pública às populações. das prestações de serviços. pelo menos. poucos avanços se produziram na aproximação das paróquias e comunidades inscritas no aro concelhio aos con- . pouco influente. Como se pode seguir pelo rol das coimas e volume e montante das coimas. o clima de resistência de aldeias às ordens camarárias e municipal é enorme. ou a fazer submeter os poderes próprios da paróquia ao ordenamento geral do Reino. das fintas. e por outro a criar um poder civil na paróquia que se integrasse no ordenamento político geral.

que governam toda a paróquia no civil e eclesiástico. com a instalação dos sacrários e sobretudo da constituição em regra. indiferença. O assalto à fortaleza de paróquia é realmente uma das tarefas a que a Monarquia e a Administração civil se envolverá activamente ao longo da etapa histórica. O poder real. expresso designadamente na construção e embelezamento das suas igrejas e da animação da vida paroquial à volta da missa conventual. O Regalismo é sem dúvida o enquadramento privilegiado para tal submissão da ordem religiosa à civil na prossecução dos objectivos da Monarquia Cristianíssima. altura em que os juízes das paróquias. Mas tal foi sempre a excepção. a das Almas. da paróquia e dos paroquianos e na fixação de uma tutela e vigilância muito activa das autoridades diocesanas sobre a comunidade paroquial e de fiéis. porque efectivamente não há continuidade de interesses entre esta ordem municipal tradicionalmente construída ao serviço das governanças. relativamente à qual os outros poderes e jurisdições tem uma acção totalmente periférica. A paróquia é assim um quadro de extraordinária vitalidade. se articulam mais poderosamente com o poder camarário e de algum modo se dignificam as suas tarefas. O concelho está fortemente dividido entre a comunidade dos eleitos e dos privilegiados. O termo do concelho dificilmente constitui com os moradores de sede e vila uma comunidade de vizinhos. alicerçados na construção de equipamentos religiosos e sobretudo de uma muito viva e activa organização sócio-religiosa à volta da constituição de importantes confrarias ou irmandades para o governo material e espiritual da igreja. Mas a articulação social e política das comunidades à régia administração e poder municipal é uma tarefa localmente encomendada às câmaras. Por meados do século XVIII. em especial desde meados do século XVIII. das elites e do . Para além da confraria do Subsino ou do Nome de Deus. Em regra as paróquias e seus oficiais mantém relativamente às câmaras uma atitude de hostilidade. económicos. Com efeito a comunidade paroquial vinha de uma longa evolução de reforço dos seus suportes demográficos. da vila. a comunidade paroquial atinge o pleno do seu reforço.ADMINISTRAÇÃO LOCAL E MUNICIPAL PORTUGUESA DO SÉCULO XVIII ÀS REFORMAS LIBERAIS 57 celhos e às câmaras. sociais e sobretudo administrativos. contra a dos moradores devassos das paróquias do termo rural concelhio. Aqui porém as dificuldades foram maiores. No Pombalismo fizeram-se avanços neste domínio. sejam eles do subsino ou de vintena. e religiosos. ao pretender instalar-se no seio da comunidade paroquial. com Pombal intentará ir o mais longe possível neste afã de controlar e integrar todo o território. como se fizeram no neo-pombalismo (pós 1790-92) sob o signo do regalismo e do alargamento do direito régio. do Subsino e do Rosário. afirmação e autonomia. mais próximo mal entrara. aí onde o próprio poder municipal. de 3 importantes confrarias que congregarão os esforços e os sentimentos religiosos da comunidade a saber.

ao longo do século XVIII as razões de queixa das populações paroquiais contra as câmaras. os regimes das terças. dos excessos dos rendeiros e coimeiros municipais. os regulamentos e posturas e outros ordenamentos e deliberações permitem claramente seguir os destinatários e os beneficiários desta administração. suas ruas. a distribuição da renda municipal. nesta etapa. a crítica política à instituição. E em particular a literatura Memorialística vinda do seio da Ilustração. Os aforamentos e os aforantes. Que ganha particular expressão na etapa pombalina (propugnando sobretudo pelo seu enquadramento na ordem e Direito Público) e depois na fase posterior a 1789 em especial a 1790/92 (propugnando também agora pela sua colocação ao serviço do desenvolvimento e felicidade dos povos) assumindo a partir daqui por vezes um cunho particularmente crítico sobre o lugar e papel histórico e moderno do governo e instituição municipal ao ponto de alguns propugnarem pela sua abolição. calçadas. em particular a mais radical e revolucionária. propinas e emolumentos e demais gastos festivos e propagandísticos. as tabelas de preços. rendeiros – apresenta em toda a sua nudez nos verdadeiros beneficiários. Múltiplos são os testemunhos por onde se podem seguir estas “violências” e “vexações” da administração municipal. seguir a sua evolução temporal e distribuição geográfica. almotaçarias. praças e equipamentos. os radicalismos e as violências com que vem sendo avaliado e criticado o nosso município desde o tempo da Ilustração. em particular. particularmente vexadas com o processo de aforamento dos baldios – particularmente activo pós 1790 – do agravamento fiscal sobre a população não privilegiada dos termos. das coimas e condenações de câmaras. em especial daqueles ilustrados que seguem de perto a actuação do governo e instituição municipal. Em grande medida o radicalismo da reforma dos concelhos em 1836 – que extingue cerca de metade dos concelhos portugueses – e lhes reduz os poderes e competências – designadamente retirando-lhe o judicial. com salários. espaço da nobreza mas também de muitas violências – exprime e mede de certo modo também. Aumentam. com efeito. utentes e destinatários desta instituição. E há também uma importante literatura que é particularmente rica de informações sobre esta matéria e onde é possível seguir. em que se revoltariam mesmo em conjunto contra a prepotência dos senhores das câmaras e das vilas. governo e ordem municipal que a constituição social dos orgãos de governo – câmaras. dos juízes gerais.58 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS marco urbano que se constrói e reforça com base no domínio sobre as populações rurais dos termos. vintenas permite quantificá-las. juízos fiscais. da violência do recurso aos serviços a prestar nas obras e arranjos das vilas. almotaçarias. o estudo quantitativo e diferenciado dos actos e decisões das vereações. Momentos críticos houve. A leitura atenta dos registos camarários permite entrevê-los. porque politicamente retrógrada e incapaz de regeneração. .

outras instituições locais (em especial. Entre o Antigo Regime e o Liberalismo. 2003. tentando apresentar.. Lisboa. 2005. mimeo. o estudo das elites municipais tem constituído um dos principais temas de investigação da historiografia portuguesa e objecto de diversas sínteses1. Nuno Pouzinho. Ou seja. Os Municípios no Portugal Moderno: dos forais manuelinos às reformas liberais Lisboa. 2 Cf.. 37-81. pp. Teresa Fonseca. A imensa informação recolhida permite que se façam novos pontos da situação e que se renovem as reflexões sobre o tema. Ponta Delgada. remeto para Nuno Gonçalo Monteiro. São Miguel no século XVIII. as misericórdias) vêm recebendo a atenção dos estudiosos2. Relações de poder na sociedade madeirense do século XVII. Dis. Dout. Mes. 2 vols. Outros trabalhos sobre o tema têm surgido que aí não se encontram referenciados. mimeo. Lisboa. in Elites e Poder.. Absolutismo e municipalismo. Edições Colibri – CIDEHUS-UE. Vila do Conde (1785-1800) : as gentes e o Governo Municipal. . Manuel a Pombal. 2002 e José Damião Rodrigues. mimeo. O objecto deste breve texto. Mais recentemente. 2000. 59-72. Dis. pp. A Elite Municipal de Castelo Branco entre 1792 e 1878.Sociologia das elites locais (séculos XVII-XVIII) Uma breve reflexão historiográfica NUNO GONÇALO MONTEIRO (Universidade de Lisboa / Instituto de Ciências Sociais) Ao longo das duas últimas décadas. entre os quais destacaria: Nelson Veríssimo.. As Misericórdias Portuguesas de D. parece necessário propor e discutir novas questões e as metodologias adequadas para se lhes dar resposta. António Ventura dos Santos Pinto. Mest.. para que a acumulação de nova informação alargue o horizonte das pesquisas e se não limite a fornecer mais um estudo de caso que ratifica tudo aquilo que se conhece. 1998. na linha de alguns textos já antes publicados. Lisboa. Porto. «Elites locais e mobilidade social em Portugal no Antigo Regime». elites e poder. Mas não deixa de revelar alguns impasses. 2001. Évora 1750-1820. Lisboa. 2001. o de debater algumas vias complementares para o estudo das elites locais. assim. Lisboa. retomado de uma comunicação oral. síntese recente de Isabel dos Guimarães Sá. 2003. 1 Para uma bibliografia mais detalhada. Dis. será. Casa.

sob alguns aspectos o Algarve5 e Ponta Delgada6). a verdade é que a continuidade das elites locais ao longo da época moderna carece ainda de confirmação empírica. Mimeo. Um aspecto que parece fundamental ponderar são as modificações da arquitectura dos poderes locais resultantes da erosão do poder senhorial no decurso do século XVII. Romero Magalhães. Acresce que as ilações que deles se podem tirar não são unívocas.C. O Porto e o seu termo (1580-1640).60 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS novos tópicos de análise. O. é bem provável que as formas de exercício dos poderes nas províncias no século XVI e no início do seguinte não fossem as mesmas. 1999. séculos XVII e XVIII». Porto. «As estruturas sociais de enquadramento da economia portuguesa de Antigo Regime: os concelhos». 1986. 6 Cf. 1. cit. Francisco Ribeiro da Silva. 1986. O município de Coimbra da Restauração ao Pombalismo. História do Porto. 1988. Dis. in Notas económicas. «Os tempos modernos». idem. Poder municipal e oligarquias urbanas: Ponta Delgada no século XVII. Porto. 2 vol. n. São Miguel no século XVIII…. Coimbra4 e.E. e J. contra uma imagem demasiado decalcada do século XVII tardio e do século XVIII (a da municipalização do espaço político local). Os escassos estudos sobre elites locais na longa duração A primeira questão que se quer levantar parte de uma constatação: apesar de existirem algumas excepções parciais (o Porto3. são escassos os estudos na longa duração sobre elites locais. Sérgio Cunha Soares. Revista de História Económica e Social. O poder concelhio: das origens às cortes constituintes. Patriciado urbano quinhentista: famílias dominantes do Porto (1500-1580).º16. A ideia central é alargar o campo de inquirição das leituras institucionais (como sejam as que pontificavam nas câmaras e misericórdias) para outros terrenos. 1995. 1994 e Idem. Coimbra. apesar da tendência apontada há muito por Romero Magalhães para a crescente elitização da vida política local7. Joaquim Romero Magalhães. O Algarve económico 1600-1773.. diversos trabalhos recentes. Idem. sugerem que até às primeiras décadas de seis3 Cruzando informação de: Pedro Brito. 1995. Ora. História Social da Administração do Porto (1700-1750). em particular os de Mafalda Soares da Cunha. Joaquim Romero Magalhães. n. «A sociedade portuguesa..). E. Reflexões sobre a história e a cultura portuguesas.º 4. e Ana S. Porto. Lisboa. «Reflexões sobre a estrutura municipal portuguesa e a sociedade colonial portuguesa». Ramos (dir. Ferreira (coord. in M.). José Damião Rodrigues. 1997. por outro lado. 1994.. 1988. 4 Cf. Com efeito. tendência que se aprofunda na centúria subsequente. Poder e poderosos na Idade Moderna. por um lado. Maria Helena Coelho e Joaquim Romero Magalhães. A. Porto. . 5 Cf. 7 Cf. de Oliveira Nunes. dout. Coimbra. 1986. Lisboa. in L. entre outros. Ponta Delgada.

«Poderes e circulação das elites em Portugal. Política. neste como em outros terrenos. 1998.). in Elites e poder.. «A nobreza portuguesa e a corte de Madrid». História dos Municípios e do poder local.234-235. eventualmente. nova ed. O caso andaluz de Córdova. este elemento pode ter pesado também na composição dos grupos que nelas pontificavam. Fernando Bouza Álvarez. Nuno G. A esse respeito um bom referente comparativo é nos fornecido pelos trabalhos sobre as elites locais dos territórios da coroa de Castela. Independentemente da legislação restritiva do século XVII sobre a elegibilidade para os ofícios locais. Lisboa. Ou seja. Monteiro. com evidentes implicações nos destinos individuais e familiares. e A. António de Oliveira. pp. Lisboa.A. constitui uma excelente ilustração. Monteiro. Lisboa. Monteiro. 11 Cf.. Representações (1580-1668). A casa e o património da aristocracia em Portugal (1755-1832). Porto. 9 Cf. pp. as redes clientelares destes tinham uma efectiva vitalidade e influência10.d. 1640-1820». 425-427. 10 Cf. uma viragem importante. História de Portugal Restaurado. 2000. Por outro lado. sobretudo pp. A Casa de Bragança (1560-1640). exemplarmente estudado por Enrique Soria Mesa.. pp. os poucos estudos disponíveis não são concludentes sobre a continuidade ou descontinuidade multissecular das famílias. O Crepúsculo dos Grandes. A migração por alturas de 1640 de muitas famílias principais para a corte. 49-54 e 153-161. in César Oliveira (dir. pp. que havia muitos fidalgos principais residentes nas províncias9 e que. in Conde de Ericeira. 207-256. «Os poderes locais no Antigo Regime». Poder e oposição política em Portugal no período filipino (1580-1640). Se admitirmos que essa evolução representou uma efectiva mutação institucional12. Monteiro.SOCIOLOGIA DAS ELITES LOCAIS (SÉCULOS XVII-XVIII) 61 centos os poderes senhoriais eram geograficamente muito amplos8 e efectivamente exercidos. nota D. então coloca-se a questão de avaliar até que ponto antes e depois as lógicas de estruturação dos equilíbrios e dos poderes locais eram diversas. pp. «Os poderes locais no Antigo Regime». Lisboa. que o cenário era distinto do que encontramos no século XVIII. s. a efectividade do exercício das respectivas prerrogativas por parte dos senhores parecem ter recuado sem apelo11. Cultura. Mafalda Soares da Cunha. História dos Municípios…. quando quase toda a primeira nobreza do reino residia na corte e quando o número de terras sujeitas a jurisdição senhorial e. 12 Ideia desenvolvida em Nuno G. finalmente.). É certo que a venda de ofícios locais e de mercês supe- 8 Cf. 2000. Nuno G.. 488-489. Práticas senhoriais e redes clientelares. in César Oliveira (dir. A Restauração de 1640 constituiu. Dória. a gradual distensão dos laços clientelares que estas podiam estabelecer com as províncias pode ter dado lugar à emergência de novos protagonistas.. . pp. 1990. Nuno Gonçalo F. 49-54. 1996. in Portugal no tempo dos filipes.105-138. Lisboa.

. alcanzaron el poder grupos oficialmente excluidos de los honores y las dignidades».. . cambio sustancialmente la composición social de la élite gobernante. «habrá transformaciones. los antiguós linajes. é só depois de 1755 que os arrolamentos se tornam frequentes no Desembargo do Paço. 18 Cf. de forma general.) ya en le siglo XVI (. p. mas necessárias para lhes conferir o estatuto de membro de pleno direito do restrito grupo dirigente local. não apenas conhecemos. Em Córdova. 1996.) a finales del XVII»15. mas sempre com uma «ficção de provas» e de genealogias que lhes asseguravam uma antiguidade e fidalguia.. Transformaciones y permanências en una elite de poder (Córdoba. ss XVI-XVIII). Madrid. 17 Na verdade. p.101-103 16 Cf. É certo que as fontes portuguesas (designadamente.) para eso están los genealogistas»13...66 e seg. 13 Enrique Soria Mesa. segunda metade de setecentos e início de oitocentos) indicam que a governança era controlada por um núcleo muito reduzido de famílias. empiezaron a abandonar el municipio (. nueva sangre en las élites.. apesar das diferenças. ibidem. o que em parte explica a abundância de estudos centrados nessa etapa tardia17. O exemplo sumariamente descrito parece muito sugestivo. se transformaron muchas cosas. o caso de Madrid não parece ser radicalmente diferente daquele que se acaba de apresentar16. No entanto. muitas histórias de ascensão bem sucedidas18. quase sempre antecedidas por uma etapa de acumulação de capital económico no terreno mercantil ou outro. Córdoba.) las grandes Casas nobiliarias cordobesas (. Também é verdade que muitos dos trabalhos já efectuados abrangendo centros urbanos de alguma relevância nesse período (grosso modo. «las élites tradicionales. 2000. «seguramente.15 15 Idem. em seu lugar foram ascendendo outras. os arrolamentos da nobreza das terras) só se tornam profusas para finais do Antigo Regime. A la sombra de la corona. la ciudad más aristocratizada de España en la Edad Moderna»14. pp.. E. muitas com sangue converso. y en la Córdoba de los siglos XVI al XVIII. para onde eram remetidos os das terras da coroa. «Elites locais e mobilidade social…»... Mauro Hernández.) las Casas medianas (. Nuno Gonçalo Monteiro. Poder y oligarquia urbana (Madrid. 1606-1808). Em todo o caso a comparação é legítima e possível. en particular. traduziu-se no facto de «en la Monarquia Española..13 14 Idem. em larga medida inventadas. O que designou por «el cambio inmóvil». El cambio inmóvil. ibidem. p.62 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS riores (senhorios e até títulos) introduzem uma componente que não tem paralelo no caso português. pero se mantendrá la ficción de que nada puede cambiar (. apesar disso. as quais procuravam limitar de várias maneiras o acesso dos adventícios aos respectivos ofícios.

Fidalgos Nobres e demais privilegiados no poder concelhio». Fidalgos de cota de armas do Algarve. o autor mostra-nos que esse processo foi a sequência da regressão das antigas famílias da fidalguia local dominantes nos séculos XV e XVII. Tabardo. já depois de elaborada a versão inicial deste texto. 2003. e. no fim de contas. a cronologia e os ciclos na longa duração de maior estabilidade e de maior renovação das elites municipais. corroboradas pelas investigações muito mais aprofundadas do próprio autor. «quando inicia a sua ruralização e decadência». a única forma de comparar um grande número de municípios de distintas regiões. o facto de o uso desse tipo de fontes constituir. gostaria. no estado actual da investigação. até ao século XVII. no entanto. dita reino. Aí se constata que «é de verdadeira nobreza a maioria das famílias que detêm o poder nos concelhos urbanos do Algarve até ao século XVII. em cada contexto. me foi dado consultar uma investigação sobre o Algarve que mostra bem as virtualidades dos estudos na longa duração19. pp. contrariando a imagem da afirmação gradual de uma nobreza camarária sem raízes fidalgas numa província onde a nobreza de sangue teria sido sempre muito minoritária. modificou significativamente as perspectivas até agora prevalecentes sobre a evolução da elites locais na referida província.º 2. que ascendeu graças à riqueza acumulada no trato mercantil». «Para o estudo das elites do Algarve no antigo Regime. «Para o estudo…». 53. e idem. Gostaria de acrescentar que. 20 O autor afirma. de sublinhar duas questões: desde logo. para a qual Romero Magalhães chamou há muito a atenção.51-110. . cruzando relações de vereações camarárias20 com o estudo do acesso de naturais do Algarve a cartas de brasões de armas e outras distinções da monarquia. O seu autor. ao usar os róis de vereadores por causa das «omissões» desse tipo de fontes (cf. representando a nobreza de sangue nos mesmos concelhos principais antes recenseados apenas 19% do total dos vereadores . associada à ruralização e decadência económica seiscentista. 2003. que no texto «Elites locais e mobilidade social…» fui induzido em engano no que ao Algarve se refere. com um máximo percentual de 64% no século XVI». Camarate. certamente com fundamento.SOCIOLOGIA DAS ELITES LOCAIS (SÉCULOS XVII-XVIII) 63 como parece indispensável estabelecer. que as minhas conclusões acerca da escassa presença da fidalguia de sangue nas vereações algarvias no início do século XIX foram. «o Algarve foi um espaço característico da nobreza de sangue». Em síntese. Nos séculos XVIII e inícios do XIX «(a)ssiste-se à inversão da base sociológica do grupo dos vereadores nas principais câmaras do Algarve (…) o poder radica agora numa nobreza de função. Sem pretender refutar a crítica. portanto. n.: Miguel Maria Telles Moniz Corte-Real. depois. p. 19 Cf. nota (3)).

a legislação. senhorios e até títulos. as diferenças com Castela são muito relevantes. Nuno Gonçalo Monteiro. são mesmo dois momentos distintos nas trajectórias das famílias ao longo de várias gerações. Só que o serviço ao rei tinha inexoráveis condicionalismos. pp. mas as coisas são quase sempre mais complexas. 2001. A monarquia vizinha vendia. pp. como uma forma de acumulação de capital económico – e pelo modo de vida. n. Lisboa. Como eloquentemente demonstrou Fernanda Olival22. fidalgos e primeira nobreza de corte21. a riqueza. muito sumariamente. tal como os senhorios que antes se transaccionaram. Honra. as quais só se alcançavam pelo real serviço. não consta que se comprassem comendas. Nada de semelhante se verificava em Portugal. Fernanda Olival. 1987. mas. a partir de finais do século XVII. A ascensão na hierarquia nobiliárquica podia fazer-se. Em geral. 15-51. não só outras distinções nobiliárquicas inferiores. não consta que se vendessem senão em casos excepcionais depois de 1640. . De resto. fidalguia e titulares nos finais do Antigo Regime». podia chegar a abrir o topo da pirâmide nobiliárquica. nem tão pouco os títulos nobiliárquicos. não se podiam comprar as distinções superiores da monarquia. mas ainda ofícios locais nobilitantes. distinguir entre simples nobres. está longe de nos resolver inteiramente o problema. «Notas sobre nobreza. para os efeitos agora considerados. quase só pelo serviço ao rei. Desta forma. consagrada pelo tempo. até certo patamar. 22 Cf. in Ler História.64 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS 2. mercê e venalidade: as Ordens Militares e o Estado Moderno. daí para cima e de forma progressivamente mais apertada. Neste ponto. aquilo com que nos defrontamos em Portugal é com uma miríade de distinções e hierarquias e com a extrema dificuldade em definir uma hierarquia nobiliárquica abrangendo todo o espaço geográfico e social da monarquia. de resto sempre em número de cerca de meia centena até 1790. foi sempre possível comprar hábitos a quem já tinha recebido a respectiva mercê da coroa. 21 Cf. ao contrário do modelo castelhano. pela riqueza – nesta se podendo incluir as alianças matrimoniais. que só tem relevância a certos níveis. Mas. 237 e seg. Poderíamos.º 10. Em resumo. pelo menos depois de meados de seiscentos. A história das famílias constitui um terreno ainda em larga medida por explorar Tal como já tive muitas vezes oportunidade de destacar. frequentemente contraditória. ao invés da polarização entre nobres e não nobres (ou nobres e mecânicos).

a qualidade de nascimento. porque tendencialmente monopolizado pela «primeira nobreza de corte». habilitam-nos a medir até que ponto determinadas elites se enquistavam nas instituições locais ou se alargavam a espaços mais amplos. Lisboa. as lógicas de reprodução social. F. 27 Op. e esta é uma ideia forte que importa de reafirmar. tudo vinha de trás).SOCIOLOGIA DAS ELITES LOCAIS (SÉCULOS XVII-XVIII) 65 De facto. e muito. 1986. são os estudos de reconstituição de famílias ao longo de períodos razoavelmente dilatados no tempo. tanto em termo de produção de serviços à coroa ou de acumulação de capital económico. in Francisco Chácon Jiménez e Juan Hernandez Franco (eds. sobretudo. Lisboa (no prelo). e. 26 Op. se foi tornando cada vez mais difícil. 25 Cf. no trabalho modelar de Pedro Brito26. Nuno G. Para além de só estes permitirem medir a difusão ou não do padrão da primogenitura (o que se pode designar de «modelo reprodutivo vincular». que constituía em si mesmo um signo de capital social25). embora com limitações inexoráveis.. Instituições e Poder Político. . chamada de atenção para o problema em António Manuel Hespanha. títulos. As vésperas do Leviathan. pois também aí pesava. pp. pelo menos a prazo (depois do fim da Guerra. Mafalda Soares da Cunha e Nuno Gonçalo Monteiro. no de José Damião 23 Cf. mais recentemente. parece que estas últimas só dificilmente estiveram ao alcance das famílias provinciais. 2001. de Murcia.. 24 O serviço no exército e. pode afirmar-se que o acesso aos ofícios e aos serviços que permitiam receber as tais mercês superiores da monarquia. Portugal – séc. mais globalmente. comendas. Em termos muito sumários. cit. no governo das conquistas foi uma das portas possíveis. porque em larga medida apropriadas pelas da corte24. Univ. in Optima Pars. Uma das formas de apreender essas apropriações e. XVII.). Monteiro. cf. Deste ponto de vista. Há algumas aproximações a este tipo de abordagem – por exemplo. como no plano das alianças matrimoniais. a ascensão das elites locais em Portugal desde finais de seiscentos encontrava-se limitada pelas dificuldades que encontravam em aceder aos ofícios e às mercês do centro23. senhorios. e ao invés de Castela. quanto pelas novas apropriações sociais e institucionais que se fizeram das instituições existentes. a Restauração representou. «Governadores e capitães-mores do império Atlântico português nos séculos XVII e XVIII». 1668). cit. no livro de Mafalda Soares da Cunha27. uma imensa ruptura no equilíbrio entre grupos nobiliárquicos. «Trajectórias sociais e formas familiares: o modelo de sucessão vincular». 17-37. Não tanto porque se criassem instituições novas (matrículas da casa real. morgadios. Murcia. poderosos y oligarquías. etc. No puzzle das instituições locais e centrais disponíveis. Elites Ibero-Americanas do Antigo Regime. 2 vols. Familia.

o ponto de partida. as quais estavam longe de constituir o único centro de interesse para as principais famílias locais. nas não ainda uma utilização sistemática desta metodologia clássica. a famílias principais e as «elites camarárias» nunca constituíram uma categoria social uniforme. Apesar das limitações apontadas. uma geografia diferencial das elites provinciais. Ora. a esse propósito. Não se ignoram muitas objecções que se podem colocar a esta escolha.Miguel…. mas depois procede também à sua análise detalhada do ponto de vista das casas. O quadro que desenha fica assim muito mais completo e matizado. sem sombra de dúvidas. aos quais se poderiam acrescentar os das ilhas e até das conquistas. Qual a base para a escolha? Qual o critério a eleger para reconstituir as famílias? A opção não é fácil e supõe sempre uma definição de critérios de hierarquização nobiliárquica. com efeito. Os historiadores académicos pouco têm explorado as potencialidades dos fantásticos fundos de produção genealógica da época estudada. existe um fantástico fundo de produção de genealogias que facilita muito o trabalho. bem como outros ulteriores. evidentemente. Em trabalho anterior. o estudo das elites locais a partir das famílias e das casas tem inequívocas potencialidades. um bom exemplo: estuda as famílias principais enquanto «oligarquias municipais». A maior dificuldade é. matéria à qual se regressará. Geografia da nobreza e fidalguia e construção de casas nobres Nas mais de oito centenas de municípios do reino. Cit. acerca dos quais já antes se destacaram as dificuldades que levantam.66 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Rodrigues28 –. esboçou-se uma geografia dos níveis de riqueza e de nobreza das elites locais. Ir-se-ão resumir esses dados para depois discutir uma outra dimensão da questão. 3. . O exercício de comparação de arrolamentos camarários em finais do Antigo Regime permite concluir que genericamente as elites locais eram 28 29 S. das famílias e das respectivas estratégias de reprodução social30. Menos substantivas parecem as reservas sobre a informação conjuntural que se perde ou sobre as virtudes das análises de redes. Uma das quais é. pelo menos para quem se ocupe de grupos fidalgos (mas não só)29. cit. 30 Op. Existia. o de emancipar este território de pesquisa de um excessivo enquistamento nas instituições municipais. Uma boa base de reconstituição de famílias permite muitos tipos de tratamento. O livro recente de José Damião Rodrigues constitui.

Globalmente. mas agora concentradas em centros urbanos. Leiria. O estudo das casas armoriadas no território do continente português edificadas ou restauradas dos séculos XVII e XVIII fornece um indicador da vitalidade e da densidade das fidalguias provinciais. na Beira Alta. «A patrimonialização do espaço social rural e o património edificado.SOCIOLOGIA DAS ELITES LOCAIS (SÉCULOS XVII-XVIII) 67 mais ricas nas mesmas terras onde eram também mais fidalgas. as câmaras mais ricas e mais fidalgas não traduziam linearmente a presença de uma fidalguia muito antiga mas sim a confluência de uma herança de fidalguia anterior (dos seus símbolos e modos de vida. no Douro próximo da região demarcada do vinho do Porto. por exemplo). Coimbra. que está longe de ser muito completa. Mas 31 32 Cf. De acordo com a informação recolhida. verifica-se que. em muitas povoações alentejanas não havia um único fidalgo reconhecido. Num exercício efectuado a partir de uma amostra escassa (apenas 223 casas) sobre a distribuição geográfica desse património edificado no território português do continente32.). 2003. eram mais ricas e mais fidalgas no Minho. 217-230. Algumas notas». principiando por retomar a divisão distrital actual (18 distritos do continente). como seria de esperar. menos presente no Sul do que no Centro e no Norte) com a maior riqueza e alguma mobilidade social (muito dinheiro do Brasil foi parar às casas do vale do Lima. nesta matéria. 33 Distribuição de casas por distritos actuais Braga Porto Viana Viseu Guarda Coimbra 40 31 28 28 18 14 Évora Aveiro Bragança Leiria Castelo Beja 13 12 10 6 5 4 Faro Vila Real Lisboa Setúbal Portalegre Santarém 4 4 3 3 2 1 . as povoações sede de comarca do litoral (Aveiro. em apenas cerca de meia dúzia de terras do Alentejo. Cf. Oeiras. Portugal Chão. do que as do interior (Lamego e Viseu). pp. encontrando-se aí dispersas por muitas povoações e até termos concelhios. Também. de resto. No centro. os resultados apurados33 destacam. ao mesmo tempo que sugere as dificuldade que estas tinham em aceder ao centro. «Elites locais e mobilidade social…». Nuno Gonçalo Monteiro. Torres Vedras) tinham claramente menos importância. o peso esmagador da antiga província do Entre-Douro-e-Minho. cit. in José Portela e João Castro Caldas (ed. Nuno Gonçalo Monteiro. embora nunca demasiado rápida e abrangendo quase sempre apenas certas famílias ou casas31. com 99 casas. quase 44% do total. acabando as duas dimensões por tender a coincidir.

Casas armoriadas do concelho de Arcos de Valdevez. Miranda Vila Viço. de resto. as comarcas da Beira interior aparecem à frente do Centro Litoral.68 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS depois vem claramente a Beira Interior. em larga medida. 123 ficavam em comarcas «do interior»34. Arcos de Valdevez. retomarmos a geografia em comarcas existente em 1825. Uma vez mais. 5 vols. a história casas-edifícios confunde-se com a das famílias e das «casas e morgados». . quer as tentativas de aproximação de conjunto. que aqui não cabe detalhar. detectar uma apreciável correlação positiva entre as zonas e as localidades nas quais detectámos elites locais mais ricas e com signos nobiliárquicos mais destacados e aquelas nas quais se detectam também maior número de casas armoriadas. uma hierarquia nas nobrezas provinciais. Uma vez mais. de acordo com as fontes consultadas. No entanto. Se. diversamente. Por razões várias. portanto. trata-se de uma via de investigação alternativa à análise centrada na instituição municipal. muito à frente do Centro Litoral e do Sul. por exemplo. Embora a coincidência não seja perfeita. torna-se possível esclarecer algumas dimensões suplementares: verificamos que. apesar da subavaliação do Sul e de todas as limitações das fontes. de resto. partindo dos elementos recolhidos. 35 Cf. apesar de tudo. como se acaba de constatar. Luís Pimenta de Castro Damásio et al. no sentido antes referido de «modelo reprodutivo vincular». 4. Armando Malheiro da Silva. será muito difícil identificar alguma vez todas as casas armoriadas ou inequivocamente fidalgas que existiram no continente português durante o Antigo Regime. cujas virtualidades importa explorar. em regimentos 34 As 16 comarcas de Antigo Regime com maior número de casas Viana Guimarães Viseu Coimbra 27 23 17 16 Porto Barcelos Braga Évora 15 13 13 10 Lamego Guarda Trancoso Feira 10 8 7 6 Penafiel Castelo B. 1989-2004. Para além da referida distinção entre nobres e fidalgos (explicita. Subsídios para o estudo da nobreza arcoense. num total de 226 casas. A hierarquia da nobreza das províncias Existia. 6 5 5 5 NOTA: Os territórios encravados da comarca de Barcelos foram incluídos naquelas com as quais tinham contiguidade territorial. quando existiam 48 comarcas. é possível. As duas coisas parecem coincidir. bem espelhada no espaço. têm inequívocas potencialidades.. quer os estudos monográficos35 que se prendem com o tema que estudaremos de seguida. Acresce que. só parcialmente exploradas no caso português..

descendendo pelo lado paterno do (único) Conde de Vila Pouca de Aguiar. no divórcio que se foi cavando cada vez mais entre as elites da corte e as das províncias. ao contrário do pretendido noivo. Nelson Veríssimo. apesar das dificuldades apontadas.SOCIOLOGIA DAS ELITES LOCAIS (SÉCULOS XVII-XVIII) 69 como os da câmara de Goa36). como antes se disse. era imediato sucessor da grande casa que fora do avô materno e que administrava uma tia. Bahia and Luanda. tendo como referência sobretudo o século XVIII. pelo que «a antiga Nobreza destas duas casas (. Charles Boxer. No entanto. embora muitas explicitamente o tivessem pretendido. de cujas listas já constavam os seus antepassados pelo menos século e meio antes37. e Maternos. dos Mellos. 38 Francisco Roque de Freitas de Albuquerque da dita ilha pretendia contrair matrimónio com uma filha do personagem antes citado. ele era e tinham sido «seus Avós Paternos. D. cit. o que não desconheciam. avultariam mais de cem mil cruzados por ano.. foram raríssimos os fidalgos de província que casaram os seus filhos ou filhas sucessoras com a prole dos Grandes do reino desde finais do século XVII a inícios do XIX. The Municipal Councils of Goa. 37 Cf. Existiam na província seguramente mais de uma. maço n. talvez mais de duas dezenas de casas com um rendimento equivalente ao das menos afortunadas casas na primeira nobreza da corte. Desde logo. Portuguese Society in the Tropics. . «pelo motivo de desigualdade em qualidades»38. fez ao matrimónio da sua quinta filha com outro fidalgo arrolado na mesma lista e acabado de fazer sargento-mor. Entre outros argumentos. Macao. que. tendo então 36 anos (IAN/TT. é possível. e o 36 Cf. Por outro lado. de Belmonte.º 1661). assim como muitas outras da Primeira Nobreza». tentar esboçar outros limiares. pelo lado materno. 1965. Madison. «aparentado com as casas de Unhão.) unidas no suplicante. Op. Poder-se-iam retomar muitas histórias. Fidalgos muito distintos». é «fidalgo cavaleiro» (da casa real). Corte.. Francisco Roque de Albuquerque também surge na mesma lista. Uma exemplar é a da impugnação que em 1786 João do Carvalhal Esmeraldo da Ilha da Madeira. Em primeiro lugar. Fidalgo da Casa Real e o primeiro arrolado para a Câmara do Funchal. mas em quadragésimo segundo lugar e apenas com «bens suficientes». tem 53 anos e é reputado «rico». além da casa que herdara de seu pai. ou em seu filho. No arrolamento dos elegíveis para vereador da câmara do Funchal em 1787 João Carvalhal Esmeraldo aparece em primeiro lugar. e sendo. e da Cova. Desembargo do Paço. importa recordar duas questões sobre as quais muito se tem insistido.. Joana Teresa do Carvalhal Esmeraldo Atouguia e Câmara. a pertença a um mesmo rol de elegíveis para a governança de um município não servia para criar uma identidade social comum. o pai da desejada noiva alegava que.

Curiosamente. pois o único filho sobrevivente. até pela consabida falta de controlo no acesso e uso das cartas de Brasão de Armas. fosse pelo rendimento respectivo. 40 Cf. 41 Cf. na regulação do acesso ao Colégio dos Nobres ou na lei dos casamentos de 1775 (há muito poucos moços fidalgos fora da corte)40. cit. Mafalda Soares da Cunha e Nuno Gonçalo Monteiro.70 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS intitulavam a pretender nobres e distintas alianças. principalmente para o seu filho mais Velho.º Conde do Carvalhal feito em 1835. no entanto. e titulares famílias deste Reino. «Elites locais e mobilidade social…». . como disse. estabelecer uma hierarquia das nobrezas abaixo dos Grandes e da primeira nobreza de corte. É difícil. a fronteira entre a nobreza antiga de pelourinho e a fidalguia de linhagem não é fácil de definir. pode encontrar-se no recrutamento dos cavaleiros da Ordem de Malta. É importante destacar. cit. morreu solteiro39. mas significativo. «Governadores e capitães-mores do império Atlântico português nos séculos XVII e XVIII». por isso excepções) existiriam nas províncias do reino algumas centenas de fidalgos da casa real que delimitavam um segmento superior das nobrezas locais. As lutas pelo acesso às vereações e aos arrolamentos de nobres recentes contra presuntivos fidalgos. que se pode circunscrever uma categoria ainda mais restrita que podemos definir como a da principal fidalguia das províncias. não nos deve fazer esquecer que no século XVIII cada vez mais as instituições centrais tenderam a fazer equivaler a fidalguia às matriculas da casa real. ICS. não duvidariam dar uma filha». o saldo da história não fugiu à expectativa: a filha acabou por casar como pretendia. o que algumas vezes conseguiram (designadamente no exército e nas conquistas no século XVIII)41. estas casas tinham uma geografia das suas alianças matrimoniais que se estendia a todo o reino e aspiravam a servir a monarquia em lugares de algum destaque. Embora a variação dos critérios locais não se possa perder de vista (e a regra tenha. Mas também nas habilitações da Ordem de Malta se tendia a fazer equivaler a fidalguia imemorial às matriculas da casa real. que veio a ser o 1. pois apenas se reportando aos que tivessem o foro de «moço fidalgo e daí para cima». Fosse pela qualidade dos imputados ascendentes. Isso é claro. e o pai não conseguiu o que queria. a única ordem efectivamente 39 Retomado da investigação em curso: Trinta Casamentos contrariados e outras histórias. Curiosamente. mas essa declarada pretensão seria dificultada pela aliança em causa. mais antigos e que usavam armas nas fachadas das suas casas. a quem algumas das mais distintas. num sentido ainda mais restritivo. Nuno Gonçalo Monteiro. Um indicador indirecto. Litigiosidade inter-familiar e noções de nobreza em Portugal (1750-1832).

ao mesmo tempo. os Pais do Amaral de Mangualde. 2003. Em síntese.João de Malta em Portugal de finais do Antigo Regime ao Liberalismo. Os cavaleiros da Ordem de S. 324 e seg. Trancoso e Viseu) e 18 do Minho. Maria Inês Versos. os Pereiras Coutinho de Penedono ou os Silva da Fonseca de Alcobaça. Lisboa. Ou seja. É claro que não se trata de uma imagem de conjunto da primeira fidalguia das províncias porque a Ordem de Malta era uma questão de casas e famílias. mas à fidalguia das províncias.. para o período compreendido entre 1691 e 1826. dentro deste segmento mais restrito da fidalguia principais das províncias. 5. uma dimensão axial da questão e uma 42 Cf. vamos encontrar precisamente muitos daqueles que mais buscavam fugir aos ofícios locais. servir a monarquia e. Nota final Nas páginas anteriores percorreram-se alguns temas da historiografia recente sobre as elites locais em Portugal no Antigo Regime. em particular. Desde logo. Guarda. Mest. das mesmas zonas onde detectámos mais casas armoriadas! Entre os maltezes vemos filhos segundos de muitas das mais destacadas casas da primeira fidalguia provincial. De resto. Ao todo. 52%). sugerir vias possíveis de renovação de um território muito explorado nos últimos anos. pp. 43 provinham da Beira. dispomos de informações para 174 cavaleiros. os Pintos de Lamego (que deram um Grão-Mestre e depois o Secretário de Estado e Visconde de Balsemão). no sentido de que algumas casas nela criaram raízes e foram fornecendo recorrentemente maltezes (chegou a haver 5 irmãos maltezes!). que foi estudada recentemente por Inês Versos42. nem mesmo as poucas centenas de fidalgos da casa real existentes nas províncias chegavam a definir uma categoria social uniforme. não pertenciam à nobreza da corte. estas casas e famílias casavam muitas vezes fora das províncias de origem. 92 (ou seja. aceder à corte. Os 92 indivíduos reduzem-se assim a 70 casas ou famílias ou até a menos (56) se considerarmos os laços de parentesco em primeiro ou segundo grau. quase só do que hoje chamamos Beira interior (sobretudo comarcas de Lamego. Dis. Mimeo. uma relação de todas as casas da primeira nobreza das províncias. existia um pressuposto fundamental bem conhecido. Na época estudada.SOCIOLOGIA DAS ELITES LOCAIS (SÉCULOS XVII-XVIII) 71 fidalga. . no plano geográfico: dos 92 referidos maltezes. por fim. militar e religiosa (destinava-se a secundogénitos) existente em Portugal. A Ordem de Malta não fornece. Mas dá uma excelente amostra do conjunto. como. Destes. portanto. E. que constitui. Procurou-se.

portanto. não coincidiam necessariamente. cristandade e desinteresse» (Alv. identificadas pelo seu grau de nobreza. repousasse nas mãos dos mais nobre das terras. Em síntese. Alguns dos exemplos apontados nessa direcção parecem corroborar as suas indiscutíveis virtualidades. a todos os níveis. procurava. . Os dois planos confundiam-se. assim. nos quais os seus antepassados pontificavam há muitas gerações. na qual não tinham nascido. que as «elites políticas» locais fossem recrutadas nas «elites sociais» locais (para retomar uma outra terminologia). das «pessoas da melhor nobreza. de 18 de Out.72 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS fonte quase perpétua de ambivalência: a cultura política prevalecente e a generalidade das intervenções legislativas da monarquia pretendiam que o governo local. o acesso à elite local podia ser a forma decisiva de serem reconhecidos como membros da elite social. 1709). Para os grupos em processo de acumulação de capital económico. No entanto. nas próprias disposições normativas da época. as famílias mais nobres e antigas podiam não estar interessadas no acesso aos ofícios locais. Esse modelo do que numa terminologia weberiana chamaríamos uma administração de honoratiores. o que em larga medida se propôs nas páginas anteriores foi que se desloque o centro da análise dos grupos dominantes locais das «elites políticas» para as «elites sociais». Inversamente. partindo do postulado de que estas seriam as mais desinteressadas e também aquelas cuja autoridade seria mais facilmente acatada.

vol. mas também a debilidade burocrática da época1. consoante a categoria políticoadministrativa.O funcionalismo camarário no Antigo Regime. mais ou menos longos e irregulares. Sociologia e práticas administrativas TERESA FONSECA (CIDEHUS) O funcionalismo camarário constituiu um dos pilares da administração local do Antigo Regime. as funções. a média nacional do pessoal camarário nos municípios com juiz de fora não passava de sete elementos3. reflectindo a escassez de quadros técnicos. Para a história da administração pública na Lisboa seiscentista. a partir da época liberal. dotada de um sistema administrativo excepcional no conjunto dos municípios portugueses. Braga. mantinha-se consideravelmente inferior ao actual. a função de guias e caminheiros. 2005. compensado pela imposição. Nas vilas de Caminha e de Montemor-o-Novo era este precisamente o seu 1Este 2 3 reduzido aparelho administrativo era. divergiam consoante os concelhos. gradualmente organizadas. de longe a maior e mais populosa cidade do Reino. das reuniões de vereação. pp. o transporte de presos. João Pedro FERRO. o modo de provimento e até a origem social. . 73-86. como a repartição e cobrança de impostos. um montante de funcionários excepcionalmente elevado: cerca de 6802. O seu número era também variável. de um elevado número de funções. administração e bloqueamentos estruturais no Portugal Moderno (tese dout. polic. 1987. aos munícipes. Finanças. A designação. os vencimentos. auxiliando os seus agentes nas mais variadas tarefas da governação e assegurando o quotidiano camarário nos intervalos. reflectindo as especificidades administrativas concelhias da época. no entanto. p. entre a segunda metade do século XVII e o primeiro vinténio do século XVIII.). No entanto. 1750-1830. Em qualquer dos casos. em serviços públicos. Planeta. José Viriato CAPELA. Entre-Douro e Minho. Edições Colibri – CIDEHUS-UE. I. Os Municípios no Portugal Moderno: dos forais manuelinos às reformas liberais Lisboa. 373. Lisboa. mais evidente no interior do país e fora dos grandes centros urbanos. a extensão e os habitantes dos municípios. Lisboa. 1996. possuía. 43-48. p. a colaboração com materiais e mão de obra nas obras municipais e muitas outras.

9. Câmara de Estremoz (C. Excluímos o juiz de fora. Cx. CAPELA. O município de Chaves entre o absolutismo e o liberalismo (1790-1834). O Porto e o seu termo (1580-1640). p. C. e no segundo. 9 José Viriato CAPELA. Lisboa. vol. . Na região de Entre-Douro e Minho. 271.B.. 6 A.A. 11 Teresa FONSECA. o montante subia consideravelmente: 31 em Braga8. 155-156.. 24 (1775-1814). I. aproximadamente o mesmo no Porto10 e 14 em Évora11. o segundo mais importante município da comarca de Évora e também sede da sua própria comarca até finais do século XVI. p... 2000. 1997. os aferidores dos pesos e medidas e o escrivão do real da água. se integrou neste cômputo outros magistrados régios sediados na cidade. I. Entre-Douro e Minho . Estão no primeiro caso os funcionários da almotaçaria.E. Desconhecemos. 25. Entre-Douro e Minho . Braga. Universidade do Minho. CAPELA. E para Arraiolos. Nas localidades com categoria de sede de comarca.. 11. possuía 812. (Arquivo Histórico Municipal de Arraiolos). 528-532.037. Évora. 13 J. embora inferior. 27. V. A. 5 Para Chaves veja-se Rogério Capelo Pereira BORRALHEIRO. vol. 2002. as instituições e o poder. Nos municípios presididos por juizes ordinários o seu número. Os homens. 4 Para Caminha veja-se J. E para Montemor.. (Câmara Municipal de Arraiolos). 595-689. (Câmara Municipal de Borba). Borba três6 e Vila Nova de Cerveira apenas dois7. 1995. 339.E. Relações de poder no Antigo Regime. Braga. f. Elites.. Entre-Douro e Minho.A.M.. 2003. p. .. Porto. II. p.74 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS número4. Incluímos apenas os funcionários com ordenado pago pela edilidade. 210. 86-87. os que dependiam do juízo do geral ou do juízo dos órfãos. p.M. António Henriques da Silveira e as «Memórias analíticas da vila de Estremoz». Absolutismo e municipalismo.. 7 José Viriato CAPELA. A administração municipal em Montemor-o-Novo (1777-1820). p. V.D. que no entanto provia ainda um elevado número de funcionários. . CAPELA. 373.).M. Receita e Despesa (1809-1817).H. Colibri. Câmara Municipal. vol. cujo ordenado provinha ou das receitas próprias dos serviços ou de entidades exteriores à câmara. Colibri. V.038. constituíam uma média de doze para um conjunto de treze câmaras. Teresa FONSECA. 1988.. Câmara Municipal. sendo as principais funções exercidas por oficiais dos concelhos vizinhos13. in Teresa FONSECA. veja-se António Henriques da Silveira. 3. 372. 8. Lisboa.M. / E / 001 / Lv. 253 e 254. p. 77. f. Montemor-o-Novo. Entre-Douro e Minho. poder e governo municipal. 46. Estremoz. a. p. Vila Nova de Cerveira. 1750-1820. 12 Arquivo Histórico Municipal de Estremoz (A.H. p. 37 em Vila Real9. Receita e Despesa (1813-1838). ed. p. Receita e Despesa (1800-1812). em virtude da maior extensão destas circunscrições administrativas e das distâncias entre as diferentes localidades. era também variável. pp. do terreiro do pão.E. “Memorias annaliticas da Villa de Estremoz”. no entanto. 48 e 52. (Arquivo Distrital de Évora) / C. Mas Chaves e Arraiolos possuiam quatro5. 8 J. incluído nesta contagem do autor. E Lv. 10 Francisco Ribeiro da SILVA.). I. vol. Mas a sul do Tejo o montante crescia. Sobre a questão da comarca de Estremoz.

483. / C. 12 e 13. José. 17 José Viriato CAPELA. Na vila de Santarém. / U. 19 F. e Lv.L. 036.. Câmara Municipal. E para Cacela. 1995. 1993.V. desempenhava nele um papel imprescindível. Braga. Vila Real de Santo António. Hugo CAVACO. (Câmara de Cabrela). quatro em Almada e em Cabrela15 e três em Lavre e em Cacela16. vol. p. / Évoramonte. I. 20 Maria Virgínia Aníbal COELHO.M. E1 D1 Receita e Despesa (1797-1806). 035. incluindo as presididas por juizes ordinários. p. Perfil de um poder concelhio. 41-42.. f. E para O Vimieiro. sentava-se em cadeiras da vereação.. Na impossibilidade de abordarmos exaustivamente esta complexa e diversificada rede de funcionários. Em Évora. Para a história da administração. Lisboa. 10v. .N. E para Cabrela veja-se A. seleccionámos os mais significativos do ponto de vista político-administrativo.M. p.. em situação equiparada à dos membros da governança19. O Porto e o seu termo. FONSECA. 1995. que por isso mesmo se encontravam presentes na maioria das municípalidades.A. / C. 145. da SILVA. 387-388. Almada no tempo dos Filipes. cinco em Évoramonte e no Vimieiro14. (Arquivo Histórico Municipal de Montemor-o-Novo) / C. 15 Para Almada veja-se Aires dos Passos VIEIRA. p... 2v. R. Universidade do Minho.E. No topo da hierarquia situava-se o escrivão da câmara. em regra superiores aos do juiz de fora e muitas vezes também ao da totalidade dos restantes funcionários17. F.M.. O antigo concelho de Lavre encontra-se presentemente integrado no de Montemor-o-Novo. / E / 001 / Lv 023 Receita e Despesa (1811-1825). Câmara Municipal. Estudos económico-administrativos sobre o município português nos horizontes da reforma liberal. 103-108. Lv.U. José a 17 de Março de 14 Para Évoramonte veja-se A. C. p. 1990. O antigo concelho de Cabrela faz hoje parte do de Montemor-o-Novo. Receita e Despesa (1782-1800).H. O Minho e os seus municípios.). 42-43. 18 João Pedro FERRO. (Câmara Municipal do Vimieiro). Almada. Eram. p.S.M. no cortejo da cerimónia da quebra dos escudos efectuada pela morte de D. Embora formalmente excluído do governo municipal.M. desfilava a seguir ao procurador do concelho e ao alferes da câmara20.O FUNCIONALISMO CAMARÁRIO NO ANTIGO REGIME 75 factores que inviabilizavam o aproveitamento de recursos humanos verificado a norte.M... Cacela no século XVII (Dez anos de governo autárquico). Administração.H. f. No Porto.N. 25. Absolutismo e municipalismo.. (1782-87). 038 (1791-1803). partilhava a Mesa do Senado da Câmara com o presidente. assim. A.H. F1 D4.. (1779-81). e 11 v. Santarém durante o reinado de D. Id. L. economia e cultura (1580-1640).N. p. os vereadores e os procuradores da cidade e dos mesteres18.M. Receita e Despesa (1810-1819). B / 001 / Vereações Lv. 6.H.. Em Lisboa. sociedade. diss de doutoramento (polic.C. A importância do ofício patenteava-se no lugar de destaque ocupado em funções e cerimónias públicas e nos avultados ordenados e chorudas propinas auferidos nos grandes e médios concelhos. T. 16 A. (Câmara de Lavre). Évoramonte pertence actualmente ao concelho de Estremoz e o Vimieiro ao concelho de Arraiolos.

pertenceram todos a uma única família da pequena nobreza da cidade. (Torre do Tombo) D. 104-106. o lugar esteve nas mãos de “notáveis locais”. p. diss. 26-26v.. VIEIRA. Coimbra27.E. 32 Os de Évora. Almada no tempo dos Filipes . “Forma por que se fés o quebramento dos Escudos nesta Cidade de Evora a 17 de Março de 1777.. p./D. 24 Em Almada.. I. provisão de 16-4-1795. 30 O de Seda (comarca de Avis). Gouveia.). ter já por diversas vezes “servido na governança” da mesma vila. . Coimbra. . 19 e 323. como pudemos constatar no Porto23.-A. o segundo e o terceiro proprietários do ofício. Cf.76 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS 1777. fazenda e poder no Alentejo de setecentos. Cf. em 1812. J. p.. 1986. José Iº”. dos P. 29 Na vila de Cuba. Eduardo MOTA. José Damião RODRIGUES. 22 Maria Helena da Cruz COELHO e Joaquim Romero de MAGALHÃES. pai e filho. Veja-se Sérgio da Cunha SOARES.. 1995. Livro 9º de Registos (1769-1828). livº 143. Seda 30. Este prestigiado cargo era geralmente atribuído a pessoas nobres.79. sendo um cavaleiro fidalgo e outro moço de câmara. p. 4.). A.. o único proprietário do cargo foi um fidalgo. 228. p. Cuba29. Instituto Cultural. o filho de um procurador da cidade e um vereador no período posterior à Restauração. vol. Veja-se A. 28 Em Gouveia. Lisboa.. 499.C. sendo até incluídos nos róis de elegíveis. Maço 1525. 2000. à aristocracia local.. Gouveia28. Ponta Delgada no século XVII. os seus detentores eram homens de confiança do rei. O poder concelhio. mas o próprio procurador do concelho21. Doc. Cf. Chaves25. O município de Coimbra da Restauração ao pombalismo. elevada à categoria de município em 1782. (Desembargo do Paço). em Almada24. 58. entre a Restauração e o Pombalismo. Maço 634.. 26 Em Ponta Delgada. FONSECA.. T. Das origens às cortes constituintes. sentenças e alvarás (1795). seis dos quais chegaram a servir de vereadores e de procuradores. 493-494. caminhou imediatamente a seguir aos vereadores e juiz. nomeadamente um escudeiro fidalgo da Casa Real.M. Emília Salvado BORGES. ainda nos finais do Antigo Regime. 1990. Provisões. Administração municipal em Gouveia em finais de setecentos.. Veja-se Francisco Ribeiro da SILVA. Poder municipal e oligarquias urbanas.P. nos finais de setecentos. entre 1770 e 1800. Terena31 e Évora32. Cf. Colibri. Faculdade de Letras. Poder e poderosos na Idade Moderna 2 vols.E. f. Homens. era da nobreza da vila e os seus parentes estavam “sempre na vereação”.. 25 Os de Chaves pertenciam. I. 21 Arquivo Distrital de Évora (A. p. pela morte do Senhor rei D. T. Ponta Delgada26. O Porto e o seu termo. Cf. Coimbra. Cf. C. dois criados do Rei. no mesmo período. T.T. embora de recursos modestos22. BORRALHEIRO.) / Arquivo da Câmara de Évora (A. P. 49. 31 O escrivão da câmara de Terena afirmava. Absolutismo e municipalismo.. 1994.T. Ponta Delgada.D. 87. foi exercido por cidadãos de precária condição económica. eleitos diversas vezes almotacés. p. 23 No Porto no período filipino. O município de Chaves ..D. no século XVII. R. p. antecedendo não só o tesoureiro. foi sempre atribuído a indivíduos incluídos na categoria de cidadãos. Centro de Estudos e Formação Autárquica. eram elementos da nobreza local. Publicações Gaudela. p.P. 27 Em Coimbra. entre 1750 e 1820. (Repartição das Justiças e Despachos da Mesa). de doutoramento (polic. vol.

41 A.. em livro próprio. Alberto de Sousa Amorim Rosa. O poder con- celhio. S.. Perfil de um poder.. Podia efectuar-se trienalmente. até à extinção da donataria. hereditária. Anais do município de Tomar. Relações de poder. A.H. 39 Em Tomar.. SOARES. 123. Coimbra38. Montemor-o-Novo40. 174. 25. Campo Maior e Loulé até ao fim do Antigo Regime..O FUNCIONALISMO CAMARÁRIO NO ANTIGO REGIME 77 A forma de provimento do ofício era variável. o ofício conheceu apenas três proprietários. alvarás. 49. 38 Em Coimbra.. pelo Desembargo do Paço. 228. durante grande parte do século XVI. p. 1771-1800.M. geralmente. uma “poderosa dinastia” de escrivães. p.. 147-149. Joaquim Candeias da SILVA. Terena. id. Abrantes37. entre a primeira metade do século XVII e a segunda metade do século XVIII. Cf. I. O município de Coimbra. Mas na maioria das localidades. L. termos de obrigação ou de fiança e outros similares. VI. Poder e sociedade em Vila Nova de Portimão (1755-1834). respectivamente Teotónio Manuel de Melo e João Joaquim de Melo. Abrantes – a vila e o seu termo no tempo dos Filipes (1580-1640). nos séculos XVII e XVIII. em 1759. Em Évora. juntamente com os membros da edilidade34. incluindo Gouveia35. existiu igualmente. p. As funções do escrivão da câmara vinham estabelecidas nas Ordenações.T. o lugar foi ocupado sucessivamente por pai e filho. p. Assentava.M.. nobreza e povo. FONSECA. p. Cf. cit. No município de Lavre o provimento competiu ao marquês de Gouveia. Colibri. Câmara Municipal. p. 228-229.. ou pelo donatário. Registava os processos 33 Maria Helena da Cruz COELHO e Joaquim Romero de MAGALHÃES. Veja-se T. pertenceram a três gerações da mesma família. MOTA. / C. 37 Os cinco proprietários do ofício dos sessenta anos de dominação filipina.. 35 E. acordos.. nos municípios directamente dependentes da coroa. p. 1993.. 535. / C. Estremoz41 e Évora (a partir de finais de quinhentos)42 era de nomeação vitalícia. em Viseu. Absolutismo e municipalismo. Redigia as actas das eleições trienais dos agentes do governo local. Administração municipal. Receita e Despesa (1778-1787) e (1809-1817). vol. 42 Entre 1733 e 1820. p. Absolutismo e municipalismo. as receitas e as despesas do concelho. Vereações (1753-1770). 40 Entre 1777 e 1816. por Luís VIDIGAL. FONSECA. todos pertencentes à mesma família da pequena nobreza local.. Portimão.E.. Cf. . que na prática se tornava. nas terras de domínio senhorial33.. Registava todos os mandatos. mediante proposta camarária.. 77.. 34 T. 36 Maria Virgínia Aníbal COELHO.N.M. p. 2000. na centúria seguinte e em Elvas. Lisboa.. vinha incluído anualmente na pauta régia. Santarém36. Tomar39.. os detentores do cargo pertenceram a seis gerações da mesma família.. F1 B2. FONSECA... p. da C. 58.H. Anotava o movimento do gado e passava certidão dos requerimentos formulados aos membros da edilidade. Câmara..E. Vereações (1815-1820).

F. e 500-501. Porém. 1. Participavam nas correições camarárias. p. Absolutismo e municipalismo.P... tinham a possibilidade de requerer ao Desembargo do Paço a nomeação de um escrevente ou ajudante. 47 T. Com efeito. Na primeira vereação de cada mês. Absolutismo e municipalismo. T. Maço 1523. devia ler aos oficiais da edilidade e almotacés os respectivos regimentos. da SILVA. carne e outros produtos. provisão de 7-9-1793. onde se guardavam as escrituras. tombos. privilégios e outra documentação importante43. pão. FONSECA. necessários ao exercício de certas actividades profissionais. sentenças e alvarás (1793).. Elaboravam as escrituras notariais de arrendamento. redigindo as respectivas actas. tanto de vintena como dos ofícios mecânicos. como entradas régias ou de prelados. 71. R. 487-488. tanto por particulares como pelas mais diversas instituições. p. Redigiam proclamações. p. O Minho e os seus municípios . de Aldeia Galega (actual Montijo)47. notificações e editais. vinho e outros produtos ao concelho. na prática. p.. como do fornecimento de carne. competia-lhes ainda a elaboração das actas das reuniões camarárias e de outros actos públicos em que participassem os membros da governança. L. passando as respectivas guias e certidões.. 46 F. / D. de Valença 43 O.. que os auxiliassem nas tarefas não abrangidas por segredo de justiça ou outra matéria sigilosa. Organizavam os processos de aforamento dos baldios. azeite. (Ordenações Filipinas).... 45 T. T. como posturas. Passavam aos munícipes as cartas. e cerimónias festivas ou de quebra dos escudos. regimentos e tabelas de taxas. Registavam os actos de arrematação. Provisões. bem como a correspondência endereçada à municipalidade.M. CAPELA. Procediam a inquéritos para fins diversos. J. Para cumprir eficazmente tão amplas obrigações. 140. E secretariavam as vistorias e outras visitas de inspecção promovidas pelos camaristas44. FONSECA. 229-230. avisos. do Porto46.. forais. . I.. alvarás e provisões emanados das instâncias superiores do poder. principalmente de natureza económica e militar. Copiavam ordens. V.D.. trigo.78 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS de injúrias verbais despachados em câmara. Tal privilégio foi atribuído aos escrivães de Évora45.. 230. compra ou venda de bens do município. Actualizavam o tombo dos bens concelhios. vol. ordenando a sua afixação em locais próprios. preços e salários. as suas tarefas ultrapassavam largamente as estabelecidas na lei geral. O Porto e o seu termo.T. Passavam a escrito todo o tipo de determinações municipais. Redigiam os termos da tomada de posse dos oficiais e funcionários camarários e dos juizes e escrivães. tanto da cobrança das rendas régias e camarárias. convocatórias. Elaboravam os manifestos do gado.. licenças e termos de juramento. Competia-lhe ainda a posse de uma das chaves da arca do concelho. 44 T.

o escrivão da câmara.L. / C.. Provisões.. Porém. p. já então também escrivão da almotaçaria e distribuidor. Em 1793.. mas antes em virtude do prestígio do cargo de escrivão.T. F1 B2.O FUNCIONALISMO CAMARÁRIO NO ANTIGO REGIME 79 do Minho48 e provavelmente de todos os concelhos onde se justificou a sua existência. provisão de 29-5-1797. entre 1750 e 1820. atribuídas não por qualquer razão prática. sentenças e alvarás (1797). A categoria sócio-profissional destes escriturários confirma-nos o prestígio do cargo de escrivão.. 51 T. T. p. o escrivão da câmara era-o também do judicial e notas. Maço 1525. 52 Id. 231. Maço 1523.N. f. Nos pequenos concelhos. provisão de 29-7-1794. comarca de Coimbra.. obteve provisão régia para juntar aos três ofícios o de recebedor dos direitos reais da mesma vila. f. além de escrivão do subsídio militar da décima da cidade e do termo escriturava também os reais da água da carne e do peixe53.. mas até nefastas ao eficaz exercício das funções. 53 T. O seu congénere de Aldeia Galega... Os escrivães exerciam frequentemente outros cargos públicos. vereações de 10-10-1753.. 49 T. / D. O de Alcácer do Sal era igualmente escrivão do celeiro comum52. FONSECA. No século XVIII. sentenças e alvarás (1793). e de 12-11-1754.. as razões mais invocadas nos pedidos de acumulação eram a falta de pessoas capazes. Maço 1523. . dispensando até a justificação prévia exigi48 Id. Absolutismo e municipalismo.. estes oficiais camarários na capital alentejana. Absolutismo e municipalismo. 50 A. Vereações (1753-1770). comarca de Santarém. (1794). Mas as acumulações ocorriam também nos municípios de superior dimensão e categoria. Provisões. contador e inquiridor dos órfãos. Dos três nomeados para assessorar. onde os cargos eram mais trabalhosos e havia mais gente capaz de os exercer. Em Lamego. foi investido no ofício de tabelião do judicial e notas51. FONSECA.M.D. Provisões. E no mesmo mês e ano. do juizo do geral e das armas50. o escrivão da câmara de Lavre servia simultaneamente os ofícios de tabelião de notas e os de escrivão da almotaçaria. Eram. o pouco trabalho dos ofícios e o seu baixo rendimento económico. nestes concelhos importantes..P. o escrivão da câmara de Pereira. juntando ainda a estes três cargos o de contador e distribuidor na mesma vila. o que levava frequentemente à nomeação dos escriturários acima referidos. 4v.. exercia funções idênticas relativamente às sisas e aos direitos reais. Id.H. dos órfãos e das sisas de Vila Nova da Erra. 13 – 13v. sentenças e alvarás (1793).M.. dois foram procuradores da cidade e o terceiro era tabelião do judicial49. assim. as acumulações eram não apenas dispensáveis. Maço 1527. provisões de 8-8-1793 e 17-8-1793. E o de Évora. provisões de 5-7-1794 e de 7-9-1793. 230.M.. Provisões.

80 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS da aos pequenos concelhos. FONSECA. acrescentava a sua opinião. durante longos períodos de tempo. Receita e Despesa (1809-1817). A assistência. p. de MENESES. E em 1816. 231.. Francisco José Guedes de Melo. permitindo-lhes assim assegurar o normal funcionamento administrativo sem ter de reunir. eram naturalmente auscultados pelas 54 T. na altura procurador do concelho de Évora. A sua “autoridade (. o plenário camarário56. A maioria das edilidades açorianas da mesma época. 55 T. em muitos casos durante décadas. na câmara. 88. registado pouco antes no mesmo livro58. baseado num alvará seiscentista considerado. Absolutismo e municipalismo. 232. proporcionava-lhes um perfeito conhecimento dos assuntos municipais. se considerarmos que nas sete décadas decorridas entre a entronização de D. / C. Nas reuniões do senado.. pelos magistrados da comarca. Doc. redigiu uma nota no livro da receita e despesa camarária desse ano. por não cumprir uma ordem sua e lhe responder com arrogância57.E.M. 156. foi preso pelo jovem e recém chegado juiz de fora. já ultrapassado. contrária a um provimento do provedor. influenciando antecipadamente as deliberações do corpo camarário. 56 A. mais habituado a mandar que a obedecer. quando. vol. José e a revolução vintista. eram os escrivães quem estabelecia a ligação entre as sucessivas vereações. 159-160. f. era. Elementos de estabilidade. Em 1804.H. .. compreensível.-A. no entender do procurador. numa evidente manifestação da sobreposição do critério do privilégio sobre o da racionalidade administrativa. se devia limitar a redigir o que lhe era ordenado pela vereação54.F. considerava que o então detentor daquele cargo. Absolutismo e municipalismo. Em 1793.. “quem tudo governa”. o escrivão da câmara do Redondo. o lugar foi ocupado apenas por três proprietários pertencentes à mesma família55.. quando chegavam de novo a uma terra. p... Tal ascendente é. Por isso. tornando-os os principais depositários da memória camarária. I. o congénere de Estremoz. Vejamos apenas alguns exemplos da influência dos escrivães na vida municipal../D. Os Açores. a familiarizarem-se com a realidade local. p. no entanto. ajudando provavelmente os próprios juizes de fora.) e dispotismo” sobrepunha-se a “todas as Leys e Ordenações”.. o advogado José António Xavier da Silva Sintrão. às vereações e outros actos administrativos.. 57 T..T... Maço 574.P.E. enquanto lia as petições dos munícipes.. A. FONSECA. 58 A. delegava nestes oficiais prerrogativas excepcionais.

66 F. 46. 62 A. vol.. Guimarães61. cometendo até excessos e arbitrariedades. ultrapassavam frequentemente as suas competências legais. confundindo-se. p. p. I. exercidas pelo procurador do concelho. Calhete... Lagos. Receita e Despesa (1810-1819). O tesoureiro tinha a seu cargo a actividade financeira do município.N. pela administração dos dinheiros públicos. 1993. R. Mas na centúria seguinte. 225. ou pelo menos responsáveis pela escrituração camarária. da SILVA. em última instância. Autores. L. “por ser o procurador muito ocupado em andar por fora” . vereação de 31-12-1769.. T.H. as suas funções eram.-A. Albufeira e nas localidades alenteja59 60 O. 63 Em Lavre. 67 F. em épocas de crise administrativa local e nos períodos conturbados da vida política nacional. Madalena.H. O Porto e o seu termo. Évoramonte62.. p. Os Açores nas encruzilhadas de setecentos (1740-1770) – I – Poderes e instituições. Sebastião. vol. Lavre63. Porto. 65 Designadamente na Praia. em Viseu67. apenas se nomeava um tesoureiro em situações excepcionais. E. O processo de nomeação do tesoureiro variava consoante as terras. vol. / Évoramonte. 40. História social da administração do Porto (1700-1750). Doc. MOTA.O FUNCIONALISMO CAMARÁRIO NO ANTIGO REGIME 81 autoridades locais. Avelino de Freitas de MENESES. Administração municipal. particularmente em situações de especial complexidade. Ana Sílvia Albuquerque de Oliveira NUNES.M. 64 T.. No entanto. responsáveis. como Gouveia60.T. S. 70. mesmo se para tal recebesse ordens dos ministros da comarca ou dos membros da edilidade “sob pena de a pagarem de suas casas”59. da SILVA. Universidade dos Açores. com as do próprio governo camarário. Também arrecadava a terça régia.. R. a eles devemos uma boa parte do que hoje conhecemos da administração municipal do Antigo Regime. . Horta. No Porto66.E. F1 B2. a maior parte dos municípios designava já uma pessoa para o desempenho específico do cargo.P. 1. como sucedeu em 1769.. 61 F. 146-148.M.. A. 503.L. I. O Porto e o seu termo. – A. Vereações (1753-1770). Velas... asseguraram.F. a gestão dos assuntos correntes. Alverca. p. da SILVA. em regra. evitando situações eventualmente caóticas ou de ruptura.. p. p. 504. Topo. / C. f. Maço 831. Ponta Delgada.M... não a podendo dispender em coisa alguma. com discrição e alguma eficácia. Universidade Portucalense. Albufeira64 e ainda nos Açores65. Até ao século XVI. Usufruindo de uma situação privilegiada. Lajes e Santa Cruz. 211. nestes casos./D. embora o tradicional sistema tivesse subsistido em diversas localidades.. 1999. O Porto e o seu termo. I. R. 503. Competia-lhe receber as rendas do concelho e pagar as despesas ordenadas pelos vereadores.

os défices camarários. Em Évora. p. quando referia as características adequadas ao tesoureiro eborense: “um oficial dos que andam nos Mesteres.. 236-238.”72.. mediante prévia apresentação da câmara. 72 T. Absolutismo e municipalismo. O referido procurador Xavier Sintrão. Maço 831.. nos grandes e médios concelhos.. extensiva aos próprios vereadores. na cobrança dos impostos régios.. Absolutismo e municipalismo. denunciava o facto de as contas do município eborense constituírem “segredo. – A. FONSECA. pouco apetecido nas pequenas localidades. Como a escrituração da contabilidade camarária constituía matéria da competência do escrivão. no século XVII. . não obstante a responsabilidade que envolvia..) o vereador mais velho. 32 e 40. 235. no fornecimento de carne e outros bens essenciais. no arrendamento de herdades e mais bens concelhios ou em outros negócios. que fica só entre (. sendo este último regime adoptado definitivamente a partir da centúria seguinte69. FONSECA. 70 T. De facto eram.. O perfil mais comum dos detentores deste cargo durante a Época Moderna havia já sido enunciado em 1501 por D. o corregedor acrescentava-lhes ao nome o presumível valor do património ou do rendimento. Absolutismo e municipalismo. Odemira.. geralmente associado à usura. 71 T. burgueses enriquecidos pelo comércio. vinha anualmente incluído na pauta68.P.. o mesmo sistema vigorou até 1501. / D... agravada nas últimas décadas do Antigo Regime pela sobrecarga de tarefas e encargos fiscais impostos pelo poder central. Absolutismo e municipalismo.. e 394-399. ou simplesmente as expressões “he abonado” ou “bastante abonado”. passando a partir de então a ser de nomeação régia. era cobiçado nas de maior dimensão. 69 T. 231. Estremoz e Montemor-o-Novo. Com efeito. da sua fazenda. o provimento efectuou-se tanto trienalmente como vitaliciamente.. Além de conferir prestígio e possibilitar a almejada ascensão social da burguesia endinheirada. à exploração fundiária e à produção artesanal ou manufactureira. cujos lucros compensariam largamente o prejuízo inerente a uma função aparentemente ingrata71. FONSECA.. A precária situação financeira da maioria das câmaras... Quando arrolados nas pautas. tanto mais elevados quanto mais importante era o município. FONSECA. e para o tal cargo e ofício mais apto”70. Manuel. e Escrivão da Camara e Thezoureiro . verifica-se geralmente uma certa cumplicidade entre estes dois oficiais. Doc. p.82 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS nas de Portalegre. O cargo de tesoureiro. exigia deste oficial abastança suficiente para compensar. rico.-A. proporcionava aos seus detentores a preferência na arrematação das rendas camarárias. 233. p. p. Viana.T. os provedores 68 T..

619-622. 271-272. De origem sócio-económica modesta. da SILVA. a imprecisão do registo das receitas e sobretudo das despesas. II. O porteiro da câmara exercia funções similares às consignadas nas Ordenações para o guarda-mor da Casa da Suplicação ou da Relação73. a ocultação de ingressos paralelos.. constituiu. Preparava a aposentadoria dos ministros da comarca e da provedoria. Superintendia na arrumação da sala das reuniões e no transporte de cadeiras. / C. pelo menos. tesoureiros e eleitos locais pelas irregularidades cometidas na gestão financeira dos municípios. A. em muitos concelhos. contando-se. Armava as igrejas para as cerimónias religiosas da iniciativa da câmara. a retenção. nos locais públicos habituais. entre as mais vulgares: a utilização de métodos contabilísticos ultrapassados. anunciando e encaminhando os munícipes que compareciam a prestar juramento perante a vereação ou para apresentar qualquer questão74.M. Assistia. II. 619-620. total ou parcial. F. em nome da câmara. Efectuava. do mesmo modo. por ocasião de festas e comemorações. salvaguardando naturalmente a diferença institucional dos cargos.H. O Porto e o seu termo. um obstáculo relativamente eficaz aos esforços dos magistrados régios. Tal atributo. no sentido do cabal cumprimento das determinações do poder central em matéria de finanças locais. do dinheiro dos impostos régios ou das verbas da comparticipação nos ordenados dos funcionários da administração central. vol.. Receita e Despesa (1809-1817).. R. Colocava luminárias nas janelas e varandas dos edifícios municipais. conferia-lhe algum prestígio. notificações e embargos. Deste modo. p..E. a relutância dos dois funcionários em aceitar interferências nos seus tradicionais métodos de trabalho. convocatórias. Apregoava. o cargo era vulgarmente transmitido de 73 74 F. Absolutismo e municipalismo. T.O FUNCIONALISMO CAMARÁRIO NO ANTIGO REGIME 83 corresponsabilizavam frequentemente escrivães. de saber ler e escrever. quando se deslocavam às localidades em serviço de correição.. do exterior da sala. dos paços do concelho para outros locais onde tivessem lugar cerimónias a que assistisse a vereação. este oficial subalterno tinha. O Porto e o seu termo. conjugada e reforçada com o empenhamento dos dirigentes locais na defesa dos seus privilégios. o pagamento de propinas sem a correspondente provisão régia.. às sessões camarárias. Efectuava diversas compras por ordem dos camaristas... FONSECA... . as decisões camarárias cujo conteúdo se entendia necessário divulgar aos munícipes. os diversos concursos e arrematações. Anunciava. R. Afixava editais. p. vol. associado à importância e visibilidade das suas funções. Procedia ao inventário do património municipal. p. Enviava recados a casa dos oficiais camarários. Como sucedia na generalidade dos ofícios públicos. da SILVA.E.

no século XVI.H. embora sujeito a confirmação régia. Receita e Despesa (1778-1787) e (1809-1817). p. como era o caso das medideiras do terreiro do pão. Cf.. já nos finais da Idade Média. da SILVA. 77. exercia funções de policiamento e fiscalização semelhantes às do meirinho82. FONSECA. O primeiro era. 77 A. T. participavam.E. como funcionário judicial. Nas municipalidades de maior relevo. 82. o Porto. e colaboravam em todo o tipo de serviços correntes de apoio à administração municipal. o responsável pela cadeia.. mais de vinte porteiros. o porteiro da câmara possuía como coadjuvantes outros funcionários hierarquicamente inferiores.84 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS pais para filhos.. em meados do século XVII. / C. contava com sete75. FONSECA. era atribuído a membros do grupo clientelar das famílias protegidas pelas oligarquias locais. Entre 1750 e 1820. . 75 76 F. Lisboa tinha. das padeiras. R. estes dois subalternos colaboraram com o porteiro principal em numerosas actividades: assinavam o termo de juramento das mulheres. 80 Como por exemplo em Montemor-o-Novo e em Évora. devendo no entanto libertá-los imediatamente se tal lhe fosse ordenado79. Relações de poder. 271-272. 81 Sobretudo nas terras onde havia um alcaide-mor. p. o da câmara de Évora. id. este cargo era também vitalício e hereditário80..M. frequentemente designado por alcaide pequeno81 ou simplesmente por alcaide. 78 T. O segundo. ao longo de várias gerações. não devendo. assinando o respectivo auto.. não podendo por isso considerar-se um funcionário municipal. era ajudado por cinco “porteiros do geral”. fica excluído deste trabalho.. E os congéneres das câmaras de Estremoz e Montemor-o-Novo eram auxiliados respectivamente pelo contínuo77 e pelo porteiro do geral78. cuja profissão as obrigava a prestar juramento.. quase sempre analfabetas.F. 623.. ser confundidos com os funcionários judiciais. II. Vereações (1815-1820). p. porém. 1. O Porto e o seu termo. muitos municípios possuíam um ou vários oficiais menores cuja acção incluía as áreas da justiça e do policiamento. reduzidos na centúria seguinte a um “contínuo” e a um “porteiro do juízo do geral”76. sujeitando-se a pesadas penas se deixasse fugir os presos. na arrematação das rendas régias e camarárias. 79 O. Competia-lhe zelar pela ordem pública.. 82 O meirinho. Em muitas localidades... Dada a abrangência do poder camarário. T. em simultâneo. segundo as Ordenações. Não podia soltá-los sem um mandato judicial. como se infere pelo mais baixo montante dos seus ordenados. vol. Sendo de provimento camarário.E. das peixeiras e das parteiras. embora nesta cidade o carcereiro dependesse orgânicamente do corregedor da comarca. Os mais frequentes eram o carcereiro e o alcaide da vara. Absolutismo e municipalismo.. L.

. T. 57 e 76.M. O Porto e o seu termo .M.M. E1 D1 Receita e Despesa (1797-1806). F1B2. A coroa procurou. a quem deviam. p. (1782-87). / C.. L. Vereações (1753-1770). No exercício da sua actividade. a partir do pombalismo. como os açougues da carne e do peixe. / C. A semelhança de funções do alcaide e do carcereiro explica o facto de em Lavre e em Estremoz os dois ofícios se concentrarem na mesma pessoa86. especialmente os almotacés. 46. 85 A. para o efeito.. na ausência do juiz. favorecendo ainda o enraizamento de práticas anacrónicas incapazes de dar resposta às novas necessidades e exigências crescentes do reformismo estatal. Protegia as autoridades municipais. 036. Relações de poder. Lv. 84 A. funcionando como uma espécie de ajudante do porteiro84...E. e em Cabrela acompanhava a vereação nas visitas de correição85.M. não apenas o lugar. / E / 001 / Lv 023 Receita e Despesa (1811-1825). E montava guarda aos locais mais vulneráveis ao desencadear de conflitos.A.V. com ajudantes nomeados pela câmara. 86 Para Lavre veja-se A.M. do aboletamento dos exércitos e da manutenção do relógio.L.H. E para Estremoz.H.M.. T.1. exercia ainda outras actividades: no Vimieiro.. mas ainda o acesso a outras ocupações públicas remuneradas ou a preferência em lucrativos negócios que envolviam a municipalidade..H. 75. frequentemente vítimas da contestação e até das ameaças dos comerciantes. . da SILVA. 80.N. minimizar os obstáculos que a natureza de tais ofícios constituía para o processo de modernização administrativa. Conduzia os cativos perante o juiz nos dias de julgamento e assegurava a manutenção da ordem no decorrer das audiências. R. e Lv.M. vereação de 6-7-1757. F. Levava ainda presos para localidades vizinhas e quando necessário transportava o dinheiro dos impostos régios cobrados no respectivo concelho para a sede da comarca83. f... prioritariamente. Nos municípios com um diminuto número de funcionários. f.. p. a respectiva transmissão familiar e o prestígio social decorrente do seu exercício. Receita e Despesa (1809-1817). através da carta de lei de 23 de Novembro de 1770.. A patrimonialização dos ofícios da burocracia camarária conferia aos seus detentores um poder e autonomia difíceis de combater. vulgarmente conhecidos por quadrilheiros.E. tocava o sino de recolher e cuidava das aposentadorias dos ministros da comarca e da provedoria. A. estes funcionários procuravam. pra- 83 O. (1779-81). contando. / C. servir a elite dirigente local. FONSECA.H. B / 001 / Vereações Lv. Id. efectuar outro tipo de prisões. 038 (1791-1803). / C.C.N.O FUNCIONALISMO CAMARÁRIO NO ANTIGO REGIME 85 tanto de dia como de noite. 669-672. Podia prender infractores em flagrante delito e até. 035. F. Este diploma decretava a abolição da hereditariedade dos cargos públicos.

a velha prática subsistiria. na inventariação do património concelhio ou no lançamento contabilístico. Os ministros territoriais tentaram. bastando para a sua concretização a formulação de um requerimento ao Desembargo do Paço. os conluios com os grandes negociantes e outros poderosos. rotineiro. convertendo os municípios em um dos mais influentes focos de resistência à implementação da política de absolutismo esclarecido. Tal aliança determinou em boa parte o cariz predominantemente tradicionalista. e as exacções e arbitrariedades exercidas sobre os munícipes mais vulneráveis. pelos órgãos competentes. no registo das coimas. Afonso V e considerada pelos legisladores esclarecidos uma introdução abusiva na lei e costumes nacionais e como tal atentatória da soberania régia. Não obstante. corregedores e provedores ameaçavam directamente os oficiais incumpridores ou no mínimo hostis às intromissões do reformismo estatal na sua actividade. entre os quais se destacavam: a falta de rigor e transparência na escrituração camarária. nomeadamente na redacção das actas. No entanto. . moroso e iníquo da gestão concelhia do Antigo Regime. acompanhado da atestação.86 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS ticada desde o reinado de D. Nas correições. a acção do poder central e dos seus delegados na periferia arrostou sempre com a cumplicidade entre os agentes do poder camarário e esta sua fiel clientela. por sua vez (embora com variável empenhamento) secundar os esforços do poder central. e ao mesmo tempo. responsabilizavam as autoridades camarárias pela sua condescendência para com os abusos e omissões destes funcionários. os atrasos na cobrança dos foros municipais e na transferência da terça régia e de outras verbas pertencentes à Fazenda Real. efectuadas com progressiva regularidade e a partir de 1790 num número sempre crescente de concelhos. da idoneidade e adequada preparação do candidato. as demoras na execução de determinações emanadas das instâncias superiores. no respeitante ao modo de exercício dos mesmos ofícios.

Francisco Ribeiro da Silva. uma das principais lacunas da história do poder local em geral prende-se com a caracterização sociológica dos diferentes actores.Relações de poder. antes de mais. que se revestem. bem como a atenção de alguns estudantes de doutoramento e mestrado e de estudiosos locais. pp. Edições Colibri – CIDEHUS-UE. António de Oliveira e António Manuel Hespanha. É de todos conhecido que o tema do poder municipal não é novo. 2005 (no prelo). ao século XVIII. 87-108. a fim de complementar as falhas das séries disponíveis. de há duas ou três décadas a esta parte. podendo mesmo afirmar-se que para a primeira fase da época moderna acolheu. a tarefa impossível. através dos apelidos e de breves apontamentos relativos ao estatuto social em que pontuam os títu1 Cf. patrocínio e conflitualidade Senhorios e municípios (século XVI-1640) MAFALDA SOARES DA CUNHA (Universidade de Évora – Dept. Pesem embora estes trabalhos. Requerem. contributos marcantes de historiadores como Joaquim Romero Magalhães. é importante sublinhar que os séculos XVI e XVII têm sido subalternizados em relação. um breve ponto da situação historiográfica relativamente ao estado da situação dos estudos sobre os municípios senhoriais e sobre o grupo nobiliárquico primo-moderno. no entanto. uma investigação mais esforçada. Assim. de História /CIDEHUS) Temas e lacunas historiográficas Sendo o objectivo do encontro a reflexão alargada sobre os municípios na época moderna e o tema deste texto as relações entre os donatários e os poderes locais. Os Municípios no Portugal Moderno: dos forais manuelinos às reformas liberais Lisboa. Mafalda Soares da Cunha. “Poderes locais nas áreas senhoriais (séculos XVI-1640)”. Não tornam. empenhada em cruzar informação de proveniência institucional variada. sobretudo. . de desigual interesse1. de resto. Coimbra. em meu entender. impõe-se. A sua identificação tem sido feita de forma sumária. As razões são bastante óbvias e prendem-se com a maior escassez da documentação. 2005.

Não será. Chega mesmo a referir-se a existência de uma reacção senhorial ou até refeudalização para o século XVII. Lisboa. laços de parentesco. excluindo a ampla panóplia do restante funcionalismo municipal. na generalidade dos casos. o que permite uma análise apoiada da evolução dos patrimónios. Nela recolhem-se dados importantes relativamente à sua inserção familiar. Diz-se habitualmente que os povos preferiam a tutela régia à tutela senhorial. Antecedentes. então. E são também estas lacunas que condicionam 2 António Vasconcelos de Saldanha. destacar a quase ausência de trabalhos que evidenciem as especificidades das relações entre os poderes locais e os poderes senhoriais face às terras realengas. influíram nesses processos. complementar esses indicadores superficiais com incursões micro-analíticas através da reconstituição das trajectórias vitais e das redes de parentela e dependência do conjunto do oficialato local. seja com os donatários das terras. Escuda-se a mais das vezes em um ou outro caso. circunscrita aos membros das vereações. Proveitoso seria. fundando essas afirmações na descricionariedade dos abusos dos donatários e dos seus aparelhos administrativos sobre as populações. não obstante o estudo global elaborado há já alguns anos por António Vasconcelos Saldanha2. 2000. ainda mais. de monografias que abordem a questão das práticas políticas dos donatários. E. seja com a Coroa ou os seus agentes periféricos. Neste contexto concreto cumpre. As capitanias do Brasil. compadrio e até amizade. desenvolvimento e extinção de um fenómeno atlântico. mobilidade geográfica e ainda das relações interpessoais desenvolvidas ao longo da vida. mais do que aproximações muito vagas relativamente aos níveis de reprodução endogâmica dos grupos familiares dominantes ou à tendência para a monopolização do poder por parte das elites locais. em muitos casos. da falta de estudos sobre senhorios concretos e. repetidas sem suficientes evidências empíricas. no entanto. neste âmbito seria ainda fundamental compreender de que modo as relações verticais.88 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS los dos foros da Casa Real ou os graus académicos que auferiram. E. opções de investimento familiar e económico. de resto. em boa medida. bem como das estratégias desenvolvidas para a ascensão. de estranhar que os estudos sobre senhorios ultramarinos sejam também tão escassos. elaborada a partir da documentação dos registos paroquiais e notariais. consolidação ou renovação. Não possibilitam. . De fora ficam cronologias mais finas desses processos e até a confirmação dessas interpretações que são. faltando os enquadramentos gerais que permitiriam avaliar a representatividade dos fenómenos estudados. Estas falhas decorrem. Este tipo de abordagem permitiria também um esclarecimento mais cabal das fissuras e clivagens nos grupos de poder locais. por isso. O apoio empírico é. CNCDP. frágil. por isso.

2002.6% em 16407. Em trabalho já referido. Madrid. Infanções e Cavaleiros. Idem. Imprensa Nacional. 2. Ricos-Homens. o valor crescerá para cerca de 70%. para a fase final do Antigo Regime4 e as considerações gerais sobre outras realidades europeias. A Nobreza Medieval Portuguesa. 5 Antonio Dominguez Ortiz. assim. 1981. p. A Casa e o Património da Aristocracia em Portugal (1750-1832). ibidem. 49-55. como pelas ideias sobre a centralidade da Monarquia na organização social dos diferentes poderes. 17-175. 4 Nuno Gonçalo Freitas Monteiro. 1992 (facsímile da ed. Nuno G. Monteiro (coord. sabe-se que conferiam preeminência 3 José Mattoso. com particular destaque para o caso da Monarquia Hispânica5. Istmo. Editorial Estampa. as afirmações que se fazem sobre a evolução. Ou ainda os resultados de abordagens de síntese sobre a evolução do peso das jurisdições senhoriais no conjunto do território português6. in César de Oliveira (dir. Las Classes Privilegiadas en la España del Antiguo Régimen. No entanto. Lisboa. Bartolomé Yun Casalilla. «Os poderes locais no Antigo Regime». de 1963). Granada. 1973. 2 vols. Universidade de Granada. PATROCÍNIO E CONFLITUALIDADE 89 decisamente a possibilidade de elaboração de trabalhos gerais sobre o próprio grupo nobiliárquico. portanto. 1998. se incluirmos neste cômputo. Círculo de Leitores. só estes valores (mais de metade dos concelhos) seriam suficientes para conferir primordial importância ao tema que aqui trago e até reflectir sobre a importância que as funções jurisdicionais exerciam no sistema de classificações dentro do grupo nobiliárquico.). não só muito fortemente marcados pelos impactos da gesta expansionista. 6 Nuno G. Na verdade. Lisboa. Guimarães Editores. La Sociedad Española en el Siglo XVII. pp. La Gestión del Poder. 52. como referentes os já existentes estudos de síntese para a Alta Idade Média3.). História dos Municípios e do Poder Local. A amplitude das jurisdições senhoriais Comecemos por este último ponto. O Crepúsculo dos Grandes. Lisboa. Monteiro demonstrou que em 1527-1532. A Nobreza Medieval Portuguesa nos Séculos XI e XII. os senhorios das ordens militares que só incompletamente estavam sob dependência da Coroa.ª ed. Todavia. Madrid. 7 Idem. atitudes e papel político do grupo nobiliárquico em Portugal reduzem-se a uns quantos chavões.RELAÇÕES DE PODER.. e que esse número crescia ligeiramente para 57. especialmente pp. As reflexões de natureza geral que se têm proferido tomam.. 1985 e Idem. Lisboa. 1996. 54. Um débil aumento. Ediciones Akal. A Família e o Poder. Corona y Economías Aristocráticas en Castilla (Siglos XVI-XVIII).6% do total das câmaras do país estavam sob a jurisdição senhorial (leiga e eclesiástica). No que a este último tópico diz respeito. .

No que toca às jurisdições pode. a distribuição das jurisdições pelos seus membros. “A Estrutura Social e o seu Devir”. dizer-se que a posse de jurisdições era determinante na definição das hierarquias dentro do grupo nobiliárquico e que. O princípio a que 8 António M. 319. De Oliveira Marques. de 1967). 1867 (reimp. entretanto. É que as jurisdições senhoriais não eram todas idênticas. dir. as competências formais dos senhores sobre as terras e populações podiam ser extraordinariamente ampliadas pelas doações expressas. Lisboa. 1998. Nova História de Portugal. Hespanha. Deve. História de Portugal nos Séculos XVII e XVIII. 9 Alguns exemplos: a) 1520 in João Cordeiro Pereira. Já o veremos com maior pormenor. in Portugal do Renascimento à Crise Dinástica. Lisboa. começar a aprofundar-se um pouco mais o nível de análise. Já retomaremos a questão. . d) 1615 . Joel Serrão e A. 48. 247v-249. coord.Luís Augusto Rebello da Silva. relativamente à composição desses rendimentos. por inerência. Épocas Medieval e Moderna. 1982. fls.90 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS simbólica e direitos de representação política pela pertença. às mercês.026. vol.026. Existem listas coevas – muitas delas datadas do período da Monarquia Dual – que apontam valores globais dos rendimentos das casas9. tenças e assentamentos doados pela Monarquia ou às diversas formas de exploração dos bens patrimoniais. a partir do tipo de direitos e privilégios transferidos pela Coroa. todavia. ao braço da nobreza em cortes. quer demográficos. o mesmo é dizer. Livraria Almedina. Ora estes vectores são relevantes do ponto de vista da avaliação da importância de cada um dos senhorios e são decisivos para compreender a importância que o controlo político sobre as terras e as gentes detinha para cada uma das casas. V. História das Instituições. p. Additionals. Não nos elucidam. Mas significavam também um conjunto de funções políticas. todavia.BL. Um senhorio disperso tinha custos económicos superiores e propiciava gestões absentistas o que normalmente favorecia níveis de controlo senhoriais menos eficientes. militares e capacidade fiscal sobre o território cujos contornos estão expressos nas Ordenações e foram já analisados por Hespanha8 e pelo próprio Nuno Monteiro. De igual modo. nestas épocas. o cume da pirâmide só incluía donatários. Não se conhece. 48. João José Alves Dias.BL. 503-504. quer em termos económicos. Additionals. pelo que temos apenas uma ideia muito imprecisa sobre a configuração geográfica de cada um dos senhorios e a sua importância relativa. fls. 499. Coimbra. a contiguidade ou dispersão geográfica do senhorio pode ser significativa relativamente à eficácia da administração senhorial. Imprensa Nacional. H. b) 1577 . 497. Se as doações genéricas criavam um ambiente comum. Editorial Presença. 273-276. vol. pp. III. porém. à percentagem que cabia à extracção fiscal decorrente dos direitos senhoriais sobre bens da Coroa. c) 1587 .

níveis bastante diferenciados de poder dos senhores sobre as terras. impondo. PATROCÍNIO E CONFLITUALIDADE 91 estas obedeciam está globalmente exposto no preâmbulo do tit. Pode mesmo dizer-se que correspondia praticamente ao caso de transferência total de jurisdição a que as Ordenações aludem. Chega depois a afirmar-se que nos casos das doações às rainhas. e de maiores prerrogativas. pode afirmar-se de forma esquemática que tinha a ver com a combinação das qualidades de sangue e o capital de serviços prestados. o resultado de uma acumulação secular. he razão que se faça differença. explicitando que as doações expressas perdiam validade quando não eram confirmadas e renovadas pelos sucessivos reis e que essas cláusulas perdiam validade quando a terra era doada de novo. Ora esta disparidade de funções jurisdicionais criava. 10 António M. que esgotem o universo dos principais beneficiados e este era um outro tópico que carecia melhor averiguação. que lhes tinham”. sempre que possível. Refere Hespanha que aqueles que tinham jurisdições exuberantes eram o arcebispo de Braga. Eram. em grande medida. Ou seja.RELAÇÕES DE PODER. Dizia-se “Como entre as pessoas de grande stado e dignidade e as outras. História das instituições…. de resto. costumaram os Reys pôr mais exuberantes clausulas. as casas da Rainha. A preocupação régia era. Não creio. XLV das Ordenações Filipinas. 296-7 . com evidentes implicações nos níveis de autonomia dos concelhos. as de Bragança e de Aveiro e as freiras de Arouca10. excepto “que fique reservada ao Rey a mais alta superioridade e Real Senhorio”. Esta questão é importante porque explica a própria manutenção destes privilégios excepcionais. Relativamente a este ponto concreto haveria que apurar alguns dados que permitissem uma base de sustentação mais informada para algumas imagens historiográficas que se estabeleceram e para as quais seria importante estabelecer uma cronologia mais fina do peso do senhorialismo. fazer-se através da análise das cartas de doação contidas nas chancelarias régias. assi nas doações e privilegios. pois. aos infantes e a alguns senhores de terras a Coroa “não reservara para si parte alguma da dita jurisdição”. de aferir a validade dos direitos extraordinários em uso. todavia. p. para se mostrar a maior affeição e amor. Hespanha. limites ao seu usufruto. O quadro anexo demonstra que a casa de Bragança usufruía de um conjunto muito amplo de privilégios. desde logo. concedidos ás tais pessoas. O tipo de privilégios jurisdicionais a que me refiro pode ser melhor explicitado a partir do caso brigantino. já que as Ordenações Filipinas acautelavam bastante este ponto. o que pode. não imputável especificamente a um ou outro soberano ou a um ou outro duque.

p.r. Arraiolos. de 19/06/1608). per que os hajam por privilegiados e escussos dos encarregos e servidões dos Concelhos (. Chancellaria alguma das cartas e sentenças.) de 15/05/1549).r. XLV. 294 12 .)»a) «(. Hespanha.) não levarão . Montalegre (c. Castelo Melhor. 13 António M. História das instituições….r.) que não ponham em suas terras. Samora Correia.r... nem em algua dellas.) que não dêem Cartas nem Alvarás de privilegios à pessoas algumas. salvo.r. aqueles.. XVII era detido pelos condes de S. nem os Juizes e Tabelliães se chamarão por elles» a) Prerrogativa régia (Hespanha..)»a) «(. Povos. de 03/01/1567).. Miranda.. Vale de Reis.r. Azambuja. Faro. Monforte (c. Unhão. e leuar os direitos della» (alvará de 02/10/1617) «Os offiçiaes das mesmas terras se chamem por elle na forma da lej noua» (alvará de 02/10/1617) Que seus ouuidores passem cartas de seguro (alvará de 02/10/1617) «Possa prouer os offiçios de escriuães dos orfãos.. Calheta.r.. Linhares..) [não] dará Cartas de Scudeiro a outras algumas pessoas. e verdadeiramente tiverem por scudeiros. Torres Novas e Vila Hermosa. 06/03/1567). que passarem» a) «E não se chamarão Senhores das terras.r. p. marquês de Castelo Rodrigo e duques de Aveiro. Vila Viçosa (c.r.. de 09/04/1551). Portel (c. Hespanha. Meirinho (. escriuaes das camara e Porteiros dellas e assj os que ouuerem de seruir ante os juizes de fora como ordinarios con declaração que os nam podera prouer sendo os ditos offiçios da apresentação e prouimento das camaras» (alvará de 02/10/1617) «Que possa em suas terras jsentar dos encargos dos conçelhos as pessoas que lhe parecer e isto per mandado e nam por priuillegio» (alvará de 02/10/1617) «Que faça escudeiros as pessoas que lhe parecer sendo Vassalos seus das suas terras posto que autoalmente não estejão no seruiço de sua casa» (alvará de 02/10/1617) Juizes de fora em: Bragança. de 01/10/1544) Ordenações Filipinas11 «(.. que criarem. João. Lavradio e Barreiro (c... Chaves e Barcelos (carta régia (c.92 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Alguns privilégios jurisdicionais extraordinários da Casa de Bragança Duques de Bragança «Possa ter chancellaria de sua Casa e de suas terras.)»a) Dízima novas do pescado não costumam ser doadas4 Não podiam ser doadas13 11 Ordenações Filipinas. Vila do Conde (c. trazendoos a cavallo em sua casa» a) «(.r. taballiães. Castanheira. Tit.. Benavente. 302 refere que este privilégio no séc. de 21/05/1579) Dízimas novas do pescado de: Vila Franca. de 12/02/1530) Cobrar e despender as terças dos concelhos em todas as suas terras (c. de 24/06/1549)..) defendemos a todos os Senhores de terras que não ponham nellas Juizes de fora e deixem os concelhos usar de suas eleições (.. Alhos Vedros. Alcochete. citado no quadro como a) António M.r.. Borba e Alter do Chão (c. Monsaraz (c. Livro II. 285) Tabeliães – por norma são providos por carta régia e depois de examinados pelo Desembargo Paçoa)12 «(. de 30/03/1566). História das instituições…. de confirmação de 28/09/1627) Poder para por meirinho: Portel (c..

Álvaro. «Nobreza na Época Moderna». Todavia não se estudaram as posteriores práticas dos Habsburgo relativamente a esta matéria. revelador do signifi14 Jorge Borges de Macedo. vol. 16 Biblioteca da Ajuda (BA). 388. Esta tese foi acolhida por Fernando Bouza Álvarez. Lisboa. tendendo a restringir os privilégios em uso pelos donatários.ª ed. pp. I. Joel Serrão. Em 1 de Setembro de 1590 dizia-se que se viram as doações e privilégios que tinha e usava o 3. 1975. parecia que não havia dúvida que o duque D. in Dicionário de História de Portugal. Iniciativas Editoriais. PATROCÍNIO E CONFLITUALIDADE 93 Exponho uma hipótese. IV. Las Cortes de Tomar y la Genesis del Portugal Católico. 59v. 2 de Outubro de 1617 (que abaixo se extracta) e que põem fim às demandas entre a Casa de Bragança e o Procurador da Coroa. Universidad Complutense. D. publicados em Collecção Chronologica da Legislação Portuguesa …. . que permitiriam avaliar a consistência de tais ideias e os ritmos evolutivos. D. 15 Podem citar-se a este propósito a carta régia de 18 de Novembro de 1615 e o alvará de Lisboa. em 1580. sempre que as provas apresentadas eram duvidosas e até a promulgar legislação geral mais restritiva. dir. O pleito que ainda corria em 1621. 1987. Álvaro podia gozar do privilégio que se questionava e que era o de deverem ir as apelações dos seus almoxarifados ao oficial da sua Casa que fosse juiz da sua fazenda e depois disso voltar à casa do Porto ou ir à Casa da Suplicação. 2. pp. mas se iniciara muito antes. Jorge e este dos concedidos ao 1. De qualquer modo e dada a importância do caso.º duque de Aveiro. mandava-se que se revissem os papeis16. bem como a consulta de 1589 são outros exemplos do afã de controlo que a monarquia dos Habsburgo desenvolveu. 183 e 258-259. e que por eles se demonstrava poder o duque usar dos privilégios e doações concedidas ao 2. vol.º duque. Filipe II. 44-XIV-4.º duque. fl.RELAÇÕES DE PODER. João. Madrid. apoiada num caso. Dessa forma. mas só após bem sucedidas demandas com a Coroa15. Desta feita. O caso concreto refere-se à Casa de Aveiro que desde a década de 1580 viu uma série de alegados privilégios anteriores serem postos em dúvida pelos tribunais régios. Sabe-se que a Casa de Bragança manteve o essencial dos seus direitos. O que concorda com o já aludido aumento da área de jurisdicionalismo senhorial no Reino e também com outra imagem fixada pela historiografia que é a da proliferação de mercês régias como meio de persuasão do grupo nobiliárquico. Quanto à hipótese são conhecidas as assunções de que o período da Monarquia Dual teria compensado a nobreza portuguesa do afastamento da corte com o reforço do seu poder a nível local14. 481-522. p. havendo outros dados que sugerem que a Coroa levou a cabo uma política de fiscalização estreita. Portugal en la Monarquia Hispanica (1580-1640). D.

30 de Novembro de 1616 transcrita em Claude Gaillard. depois dessa proibição. Egerton. 1136. L’action de Diego de Silva y Mendoza. Grenoble. 113-115. Université de Langues et Lettres de Grenoble. 18 British Library (BL). 19 A afirmação era verdadeira como se comprova pelo conteúdo da carta régia de doação da jurisdição de Alenquer de Madrid. taballiães. pp. e que proueja nas mesmas suas terras os offi17 Um outro exemplo de fiscalização da extensão das jurisdições surpreende-se na consulta do Desembargo do Paço sobre a correição feita na vila de Alhandra para verificar o direito da jurisdição e dada de ofícios do arcebispo de Lisboa. o monarca ter mandado proibir que os donatários as provessem. o duque de Aveiro mantinha há algum tempo um contencioso com a Coroa sobre a extensão dos direitos nas suas terras. Mas essa alegação foi indeferida. fls. O duque entendia que ele não se devia incluir nessa determinação “por razão da dita posse em que estaua”. 1982. e leuar os direitos della e que os offiçiaes das mesmas terras se chamem por elle na forma da lej noua e que seus ouuidores passem cartas de seguro nos casos em que os corregedores das comarcas as podem passar na forma da ordenação e que possa prouer os offiçios de escriuães dos orfãos. ao marquês de Alenquer19. . e por lhe fazer merçe ej por bem que elle possa ter chancellaria de sua Casa e de suas terras. dado as Ordenações haverem sido impressas 70 anos antes. como constava dos traslados e alvarás que anexava ao processo. 44-XIV-4. em finais da década de 1580. Le Portugal sous Philippe III d’Espagne. e que possa em suas terras jsentar dos encargos dos conçelhos as pessoas que lhe parecer e isto per mandado e nam por priuillegio. ao marquês de Castelo Rodrigo e ao conde de Lumiares (filho deste) poder para prover serventes dos ofícios de justiça das suas terras. escriuaes das camara e Porteiros dellas e assj os que ouuerem de seruir ante os juizes de fora como ordinarios con declaração que os nam podera prouer sendo os ditos offiçios da apresentação e prouimento das camaras. BA. 395-396. Com efeito. não haver lugar a alegar “posse imemorial” como o arcebispo fizera. Ora. Não conseguindo este apresentar documentos comprovativos desses direitos. rei decidiu contra ele. baseando-se na ausência de títulos e no facto de. o rei tinha concedido ao duque de Bragança. Na primeira situação18 estava em causa o facto de embora estando em posse do direito de prover as serventias de todos os ofícios de suas terras por si e pelos duques seus antecessores (ao abrigo das suas doações como constava da sentença). adiantava o Aveiro.94 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS cado político da dada de ofícios e que creio que tem uma incidência que transcende a casa ducal de Aveiro17. E entre essas provas estava o traslado da carta régia de 2 de Outubro de 1617 em que se concediam amplos poderes ao duque de Bragança que se extracta “avendo respeito a mo pedir por sua carta o duque de Bragança meu muito amado e prezado primo e a seus serviços e muitos merecimentos de sua casa.

Visto na Mesa do Desembargo. 1136. 8-8v. 2 de Outubro de 1617. PATROCÍNIO E CONFLITUALIDADE 95 çios de Procuradores do numero em pessoas aptas e sufficientes não excedendo nisto o numero que delles costuma aver Os quaes serão primeiro abellitados per mjm ou pello meu desembargo do paço. Ora o caso oferecia dúvidas. por isso. porém. este lhe aceitasse tal renúncia e houvesse então o rei o tal ofício por vago. BL. e que das duas partes dos Rendimentos dos conçelhos das suas terras possa mandar despender o que lhe parecer nas obras do bem publico dellas com declaração que as obras serão somente pontes. e que neste costume e posse estavam os Duques seus antecessores”. estradas publicas e outras desta callidade // e que proueja as seruentias dos offiçios de justiça das suas terras assj e da maneira que seus antepassados o fizeram e que faça escudeiros as pessoas que lhe parecer sendo Vassalos seus das suas terras posto que autoalmente não estejão no seruiço de sua casa. o duque poderia apresentar o dito ofício.RELAÇÕES DE PODER. A descrição do episódio é longa. calçadas. fls. Antes de proceder à emissão da provisão. bem como o traslado da sentença da Relação de 15 de Fevereiro de 1603 em como se tinha achado por bem provida a serventia que o duque de Aveiro fizera de um ofício por estar em posse por si e por seus antepassados. O segundo caso dizia respeito ao provimento de ofícios por renúncia do anterior titular. três desembargadores sustentaram que não. A outro desembargador. por onde diz que pode prover por renunciação. Egerton. Dizia respeito a um caso concreto e fora suscitado pelo pedido de confirmação régia do cargo de tabelião do público e judicial da cidade de Coimbra outorgado pelo duque de Aveiro. mas tal não ocorria no caso em apreço. . e assj ey por bem que conforme a isto cesse a demanda que o Procurador de minha Coroa tem movido ao Duque o que tudo assj me praz sem embargo de quaesquer leis e ordenações que em contrario aya e mando as justiças offiçiaes e pessoas a que o isto pertençer cumprão…”20. Requeria. privilégio idêntico ao dos citados senhores. pp. ou que renunciando o proprietário nas mãos do rei. mas importante pelo teor contraditório das alegações dos juristas do Desembargo do Paço chamados a depor. após a renúncia que um outro oficial fizera nas mãos do duque. 20 Alvará de Lisboa. 258-259. para análise pelo Procurador da Coroa que foi de parecer que não podia. excepto quando os ofícios vagassem por morte. o rei mandou que se vissem as cláusulas das doações do duque para certificar se ele detinha poderes para prover por renúncia. fontes. como se fosse por morte. “alegando muitas coisas e razões. Nesta última hipótese. Como já se referiu José Justino de Andrade e Silva transcreve-o na íntegra em Collecção…. O duque objectou. porque pelas doações parecia que não o podia fazer. mandou-se. por isso. pareceu que o duque donatário podia apresentar os ofícios de tabeliães que estivessem vagos tanto por morte.

1487. Pese embora esta longa alegação o caso foi indeferido pelo monarca que aceitou o parecer maioritário do Desembargo do Paço21. E no que referia aos benefícios. 189-191. cód. pois já o donatário não faz mais que apresentar no ofício que Sua Magestade há por bem que vague com efeito por renuncia do proprietário. nem parecia que o contrário disto foi julgado na Relação porque se fez muita diligência sem se achar feito em que houvesse sentença em contra disto. pp. precedendo para ela licença de Sua Magestade”. quem tinha poder para apresentar ou colar os vagos o fazia quer fossem vagos por morte ou por renúncia. Secretarias Provinciales. Parece assim que a análise na longa duração é indispensável. porque em direito se igualava o poder de apresentar benefícios ao que se tinha no apresentar ofícios.96 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS como por renúncia. fl. claro está. As capitanias do Brasil…. As Ordenações fixaram este direito real e tinha valia mesmo nas donatarias ultramarinas. onde o constante esforço de ocupação e desenvolvimento das terras o justificaria com maior pertinência23. porque isso parecia conceder-se na doação antiga que se oferecia interpretada e declarada pelo costume que se usou sempre nas ditas apresentações como constava das certidões que se ofereceram e. nem parece em contra isto dizer-se as ditas certidões seriam acaso passadas. Como disse antes. 19. 23 António Vasconcelos de Saldanha. E acrescentava: “e que os inconvenientes que se apontam que intervêm na apresentação do dito ofício vago por renúncia se são todos se mostrar licença de Sua Magestade para se fazer tal renúncia. porque em negócios de tanta importância. 41-42v apud Boletim da Filmoteca Ultramarina. Tal avaliação poderia sugerir uma tentativa de limitar o tipo de territorialização do poder nobiliárquico.º28). . não é de crer que os desembargadores do paço antigos dessem aos reis passados seu parecer sem muita consideração. como aquela a que 21 22 BA. antes se afirma por oficiais do juízo dos feitos da coroa que num feito que trouxe Francisco de Sampaio com o Procurador da Coroa se julgou que podia o donatário apresentar o ofício vago quer fosse por morte quer por renúncia. fls. trabalhosa. Archivo General de Simancas (AGS). 44-XIV-4 (n. Por carta régia de Novembro de 1603. também. exigiria a análise dos privilégios e clausulado das novas doações e das confirmações régias feitas aos senhores de terras. ordenava-se que fossem extintos os ofícios que o duque de Aveiro criara de novo em suas terras e dera de serventia a várias pessoas22. Outra questão onde a disciplina régia se fazia sentir com acuidade era a da criação de novos ofícios. embora seja.

Aristocracia y señorío en la España de Filipe II. tal como. Granada. E é quase certo que exemplos similares se podem estender a outras casas senhoriais. É verdade que a Casa ducal de Bragança detinha privilégios que lhe asseguravam a nomeação directa não apenas dos ofícios locais como também de ofícios de justiça e fazenda destinados a intermediar os assuntos das terras com o centro do senhorio. de benefícios eclesiásticos.RELAÇÕES DE PODER. a deslocações. num organigrama que não se distinguia particularmente do da Coroa. Utilizavam a mesma matriz formal. de dotes. de resto. Ou seja. também há que destacar que a estratégia de integração de membros de parentelas de elites locais na corte ducal em foros de moradores foi a este título absolutamente decisiva. na concessão de tenças. . a partir de onde controlavam uma extensa. ocorria nos demais reinos peninsulares24. Administração senhorial. mediada por agentes administrativos próprios. Que não governavam presencialmente. Exercitava-se a liberalidade para harmonizar relações interpessoais através de jogos de compensações. quanto à aplicação da justiça e à capacidade tributária. 24 David García Hernán. mas dispersa área territorial. na dada de ofícios locais. No caso dos duques de Bragança sabemo-los sediados em Vila Viçosa. com lógicas bastante similares. Os diferentes tipos de mercês dispensados pela casa foram estratégicos nesse processo. de trocas e de negociação dos diferentes interesses em presença. mais senhores de terras. no patrocínio às misericórdias. nos apoios financeiros ao estudo. por isso. tanto no que respeita à nomeação de pessoas. Igualmente relevante neste ponto seria apurar a tendência para a maior ou menor dispersão na titularidade de senhorios. num modelo semelhante ao da administração régia. e ao qual já fizemos uma breve referência. confrarias e conventos. Muitos dos privilégios recebidos diziam justamente respeito à gestão dos espaços senhoriais. Universidad de Granada / Ayuntamiento de San Fernando / Ayuntamiento de Marchena. de esmolas. A sua gestão era. Se esse fenómeno lhe assegurava os recursos humanos necessários para o exercício do poder. Esses elementos agilizaram a comunicação entre o paço e as terras e ajudaram a amortizar tensões com a sede do senhorio. a compra de bens. PATROCÍNIO E CONFLITUALIDADE 97 aludi relativamente à casa de Aveiro. Paternalismo e conflitualidade O segundo ponto. La Casa de Arcos. De tudo um pouco. refere-se à importância da governação presencial para promover o maior controlo político sobre as terras. mas com base territorial mais diminuta e menos poderes sobre as mesmas. É o que se verificava na confirmação das câmaras. 1999.

pois a análise da chancelaria de D. Gonçalo Soeiro de Azevedo. 1942. O governo de D. p. GEsOS / Câmara Municipal de Palmela. Um exemplo expressivo é o do meio utilizado pelo duque D. . 26 Maria Cristina Gomes Pimenta. em que Cristina Pimenta revela como os ofícios locais das terras das ordens de Santiago e de Avis eram muito frequentemente atribuídos a criadagem da sua casa senhorial ou a cavaleiros das ordens. sem cuidar da sua naturalidade ou local de residência26. As Ordens de Avis e de Santiago na Baixa Idade Média. Publicações do Arquivo Histórico do Ministério das Finanças. Em carta enviada para Sousel em Setembro de 1637.98 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Será. comportamentos indisciplinados ou contrários aos interesses da casa. João II (futuro D. diga-se. Mas outra situação possível.. sem atender à naturalidade das pessoas em causa.16. Podem ser adiantados exemplos para o século XVI para as casas de D. e contraditória com o exemplo acima exposto. Lisboa.»25. dos marqueses de Vila Real ou mesmo do infante D. depois duques de Aveiro. por isso mesmo. um pouco na linha do trabalho sobre o governo de D. Manuel demonstra que os ofícios das terras do marquês de Vila Real que eram da dada régia foram providos em criados do 25 José Mendes da Cunha Saraiva. Numa abordagem um pouco distinta. Jorge. aquietar más vontades. Luís. mas talvez ainda mais interessante.. o duque pedia a intervenção do seu procurador do concelho. João IV) para sossegar os motins no Alentejo. sep. Palmela. Cartas do Duque de Bragança a Gonçalo Soeiro de Azevedo (1632-1640). natural esperar que os agentes senhoriais e o funcionalismo local de nomeação dos donatários tivessem maior capacidade negocial para. E que se assemelha à figura dos juízes de fora. verificamos como no século XVI podia ser a própria Coroa a reforçar a influência política das casas nos respectivos senhorios. Jorge. junto das populações. por ocasião dos levantamentos anti-fiscais. era a de a dada de ofícios ser utilizada pelos senhores para recompensar serviços prestados à casa senhorial. Com esta outra estratégia procurava-se garantir uma gestão dos recursos locais favorável ao donatário porque isenta das solidariedades de raiz local. Jorge. Neste último caso privilegiavam-se factores propiciadores do exercício da autoridade. correndo embora o risco de produzir relações mais tensas nas terras. para mobilizar os seus parentes a fim de apaziguar os tumultos «cada dia me disem que ha nessa Vila motins ou esperanças de os aver e que o pouo trata de soltar presos e queimar cartorios liuros e papeis da Camara naõ sendo cousa de que elles possaõ alcanssar bem nenhum particular nem o pouo utilidade algua e por me paresser que so vos com vossos parentes podereis ser o meo para isso se aquietar vos quis escreuer esta. 2002.

1560-1640. 1972. evolução e extinção. a proximidade do arcebispo de Braga relativamente aos assuntos desse município31 são exemplos possíveis. 43. fossem impedidas de servir juntas nos ofícios e cargos dos concelhos quando fossem eleitos. 2000. Aveiro. Para a Casa de Bragança conhecem-se numerosas situações28 que denotam o elevado nível de conhecimento que os duques tinham das suas terras. não obstante terem cartas de inimizade uns com os outros29. Braga. 1979 e Acordos e vereações da Câmara de Braga nos dois últimos anos do Senhorio de D. A Casa e Ducado de Aveiro. quando constasse ao duque que as pessoas de Vila Viçosa conversavam e se comunicavam como amigos. 29 Arquivo da Casa de Bragança (ACB). por ocasião de uma das suas partidas para o governo de Ceuta. Frei Bartolomeu dos Mártires. Em todo o caso. Câmara Municipal. dos duques de Aveiro para a de Aveiro30. 243-245. Lisboa. Um bom exemplo disso. Duarte para a câmara de Vila do Conde. Frei Bartolomeu dos Mártires:1580-1582. 1136. Vejam-se 27 28 BL. Mas a existência de canais de comunicação eficazes ocorria igualmente em outros senhorios. y todos quedan para seruiço de la duqueza”27. fosse para pedir instruções. 17. PATROCÍNIO E CONFLITUALIDADE 99 marquesado numerosas vezes. acatar ordens. um século mais tarde (1622). pp. neste caso associado às sociabilidades locais.º duque de Caminha não hesitava em afirmar que “todos los caballeros y personas principales de la ciudad de Leyria [era o seu local de residência. Talvez por isso. 30 Francisco Ferreira Neves. As cartas do infante D. Muitos outros existiriam seguramente e revelam de forma muito clara o elevado nível de controlo político dos senhores sobre os assuntos locais e também a importância da intermediação senhorial na obtenção de privilégios ou na solução de questões com a Coroa. Egerton. 1973. . mas sobre a qual não tinha jurisdição] son criados y paniguados suios. ms. fl. a correspondência que as terras mantinham com os donatários é indiciadora de fluxos regulares de informação. está de resto evidenciado na necessidade de obter em 1627 a confirmação régia do privilégio para que. 1566 (VIII)-1567.RELAÇÕES DE PODER. Sua origem. Práticas senhoriais e redes clientelares. A Casa de Bragança. 31 Acordos e vreações da Câmara de Braga no Senhorio de D. confirmar negócios. Seria então importante conhecer qual destes comportamentos era dominante nas relações entre as casas e os respectivos senhorios e avaliar depois se haveria modelos senhoriais mais e menos paternalista a fim de medir o impacto dessas diferentes atitudes na conflitualidade com as terras e os vassalos. ms. Mafalda Soares da Cunha. fl. Estampa. o 1. Braga. Câmara Municipal. 31v.

“quanto ao que me dizeis (…). Julgo.). . «El Señor Avisado: Programas Paternalistas y Control Social en la Castilla del Siglo XVII». destinado a avaliar a pertinência e validade jurídica dos argumentos em confronto. Monteiro. Estas práticas paternalistas.º 9. ou para fazer mercê a este ou aquele senhor. Manuscrits. Introduzia-se assim um mediador. 35 Mafalda Soares da Cunha. eu falarei logo niso a elRey meu senhor (…). todavia. que os maiores focos de conflitualidade entre os donatários e as populações se reportavam às relações económicas. 2003. Monteiro há alguns anos34 e no já citado trabalho meu sobre a casa de Bragança35. Señor y Patrón: Oeconómica. Idem. mas deve assinalar-se que tinham menos eficácia quando o mal-estar era provocado pelo rigor na cobrança dos direitos senhoriais. e usando as palavras do próprio duque de Aveiro na carta que em 1572 dirigiu ao juiz. «Pater Familias. Diga-se a este propósito. Clientelismo y Patronazgo en el Antiguo Régimen» in Reyna Pastor (comp. Imprensa de Ciências Sociais. Lisboa. pp. 34 Nuno G. 30. frades e forais: Revolução Liberal e regime senhorial na comarca de Alcobaça (1820-1824)» in Elites e Poder Entre o Antigo Regime e o Liberalismo. que muitos autores espanhóis também constataram existir nos reinos vizinhos33. A prová-lo estão as numerosas sentenças e despachos régios com fundamentação clara que deram razão aos senhores. Ignacio Atienza Hernández. pp. Relaciones de Poder. amorteciam muitas vezes os descontentamentos. de Producción y Parentesco en la Edad Media y Moderna. p. CSIC. n. afastado de vez que estava o uso medieval da coação física36. reiterando as constatações feitas por Nuno G. importante sublinhar que o que se verificava em muitos destes casos era a reacção dos povos contra direitos efectivos dos donatários e não abusos na sua cobrança por parte destes. mas porque todas estas cousas Requerem algum vagar quis fazer esta [carta] por que saibais que me he dado vosa carta E que trabalharei por fazer o que me pedis”32. 155-204. 1990. A Casa de Bragança… 36 Mafalda Soares da Cunha. pp. Veja-se um caso claramente difícil que opunha 32 33 Francisco Ferreira Neves. sentenciando depois em conformidade. 215-299 (primeiro editado em 1985 e 1986). O que é interessante constatar é o quase sistemático recurso aos tribunais para resolução dos diferendos inconciliáveis por vias informais. Madrid. “Poderes locais nas áreas senhoriais…” (no prelo). Ou ainda. «Lavradores. teoricamente imparcial. Aristocracia y señorío en la España de Filipe II…. 411-458. David García Hernán. vereadores e procurador do concelho da sua vila de Aveiro. A Casa e Ducado de Aveiro…. F.100 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS as numerosas cartas de privilégio a terras de senhores contidas nas chancelarias onde se faz expressa menção que a mercê foi concedida pela intercessão.

a questão colocada nestes termos pode. pois “não he justo impedir sse ao Duque a arrecadação dos dereitos de jugadas que lhe são deuidos e que assim os deue Pedir e arrecadar ordinariamente e se a Cidade tiuer algua duuida. ou mesmo muito pesados para os povos (penso no terço. e com mais clamor do Pouo. de abusos que se pudessem imputar aos donatários ou mesmo ao rei. mais aos povos. O que talvez este tipo de comportamento indicie é atitudes de maior rigor na gestão dos direitos senhoriais que pesavam. porém. Em 20 de Julho de 1591. enquanto não há confirmação de sua Magestade se pode o Duque apartar delle”37. ou seja. até porque o duque mudara de ideias. em grande quietação da dita cidade e Pouo della”. sobretudo em épocas de maiores dificuldades económicas. Os pareceres dos desembargadores do Paço dividiram-se: a) dois achavam que o rei devia confirmar “por ser em euidente proueito dos Bens da Coroa. avaliações mais precisas do impacto dos diversos tipos de direitos senhoriais no desenvolvimento agrário e na paz social. Tal ocorreria. quarto ou até oitavo da produção que eram cobrados nalgumas áreas). O que nesse caso configurava um sistema opressivo. ou embargo a não pagar podera otrosj requerer sua justiça como lhe pareser e quanto a confirmação que a cidade Pede do concerto e contrato que fez com o governador do Duque de aveiro por o Duque aggora não consente antes antes o contradiz pareçe se lhe não deue confirmar espeçialmente pello dito contrato ser nullo sendo feito sem liceça e authoridade de Sua Magestade. Não se tratavam. Talvez também porque havia regiões onde os direitos que estavam estipulados eram de facto pesados. então. 37 BA. O demorado diferendo sobre a matéria fora resolvido entre as partes por um contrato perpétuo. fls. sendo atée aggora a que pior se arrecadaua. mas que não estava confirmado pelo rei.RELAÇÕES DE PODER. talvez reorientar. b) outros dois alegavam desfavoravelmente. 44-XIV-4. trabalhos com quadros geográficos alargados à escala do reino e que permitam. PATROCÍNIO E CONFLITUALIDADE 101 o duque de Aveiro à cidade de Coimbra sobre a arrecadação das jugadas. que admito carecerem de estudos globais. tanto mais que ambas as partes o requeriam “e se auerem com isso de escusar as grandes oppresões e molestias que o Pouo de aquella cidade padecia nas execuções que se fazião pellos rendeiros das ditas jugadas com grande desordem e violensia. e que com isso auer effeito fica ao donatario aquella renda de melhor condição que todas as de seu estado. a análise mais aprofundada destes tópicos. . e se lhe dá muito mais do que nunca rendeo e parese que o Duque deue ser pago conforme ao dito contrato”. e Posto que fora valido. portanto. colocava-se a questão de o confirmar ou não. Ora. 187v-188. dando azo a oposições e conflitos.

o que não ocorria. BL. o rei decide que a provisão era antiga e já desadequada. Egerton. Já o disse em anterior trabalho e creio dever reiterá-lo. quer pelas 38 Alguns exemplos avulsos num tema que mereceria atenção e uma tipologia de análise. António Pereira Marramaque. Os elementos explicativos dessa escassez reivindicativa podem assentar na eficácia desta gestão paternalista. 263-276. Subsídios para o estudo da sua vida e da sua obra. procurando residir o maior tempo possível em Pinhel. fl.. Arquivo do Centro Cultural Português. Livraria Sá da Costa Editora. desta vez da câmara de Abrantes. inter-municípios e inter-instituições locais ou até entre municípios e a administração periférica da Coroa39 do que com queixas de municípios e de vassalos das casas senhoriais contra os seus donatários. no entanto. O argumento colheu. Pleito entre o duque de Pastrana e o marquês de Alenquer sobre Chamusca e Ulme. As possibilidades de influência também jogavam a favor dos senhores. embora se não devam descartar dois outros factores que. outros com disputas de preeminências: António Dias Miguel. sobretudo aqueles que disponham já de uma estrutura judicial própria. Paris. outros prendem-se com rivalidades locais. não obstante a existência de algumas excepções significativas40. senhor de Basto. sobretudo se os processos se prolongavam com embargos e recursos sucessivos. 40 Cf. pelo que desembargadores opinaram que um terço do tempo das residências fosse passado em Abrantes. XV. ficando eles muito mais tempo em Trancoso. 1136. Sebastião em que se dizia que os corregedores da comarca lá deviam residir seis meses e outros seis meses em Trancoso. Um primeiro está associado ao preço da justiça. quer pela capacidade de dissuasão de testemunhas menos favoráveis. 39 Dois exemplos a partir de consultas do Desembargo do Paço (BA. (1689/09/23). mas que o corregedor devia atender ao caso. 103. entre os senhores e os procuradores da Coroa. embora de natureza distinta. podem colaborar na ocultação dos conflitos. 1988. pelo que sugere que os sindicantes sediassem quinze dias em Abrantes. sep. 2) Queixa. «A violência do poder dos cavaleiros de S. tenho topado mais com registos de conflitos inter-senhoriais38. fls. Na realidade. 44-XIV-4): 1) Após queixa da câmara de Pinhel justificada por uma provisão de dada por D. . Penso. pp. por exemplo. beneficiando claramente os donatários. António de Oliveira. 50-90 que correu pelo menos entre a década de 1590 e a de 1620. por os julgadores que faziam a residência ao corregedor e provedor de Tomar obrigarem os moradores de Abrantes a deslocar-se a Tomar para testemunharem. pois enquanto muitos conflitos inter-senhoriais decorrem de partilhas. A capacidade financeira para assegurar a sua continuidade era desigual.102 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS É. nos solicitadores e advogados das casas senhoriais sediados junto dos tribunais centrais. vol. fls. O rei deu então despacho favorável (1590/11/27). verdade que não se encontram registos de queixas contra senhorios muito numerosos. Sabe-se que a litigância tinha custos económicos elevados. 26v-27. em particular. João no período filipino» in Estudos e Ensaios em homenagem a Vitorino Magalhães Godinho. Lisboa. 1980.

peremptorias. algures entre 1596 e 1605. declinatorias. “advertir disto os desembargadores do Paço pera que não aião nunca as partes uista das informações que se fiserem sobre suas pertenções”41. Dizia que tinha fundadas suspeições. advertência. havia cinco anos e sete meses que o povo perseverantemente requeria justiça. PATROCÍNIO E CONFLITUALIDADE 103 pressões junto do corpo de juristas dos tribunais. 43 BL. por isso. Há casos conhecidos que o revelam com amarga clareza. Pediam. no que já gastara muitos mil ducados. contribuindo nisso os pobres trabalhadores que deixavam de comer. y embargos” para atrasar a justiça. o rei acrescentava um alerta relativo à irregularidade que se havia cometido no Desembargo do Paço ao dar vista dos papeis do Procurador da Coroa ao duque de Aveiro e mandava. Quanto ao outro queixava-se o povo de Alenquer do Marquês. O negócio já fora interrompido três vezes e queria o marquês interromper mais uma. 19.RELAÇÕES DE PODER. o duque objectara das alegações apresentadas pelo Procurador da Coroa. 1135. está associado à escassez da documentação de natureza judicial disponível para estas épocas. com as demoras e custos inerentes. 19. reguengueiros de Evoramonte. fl. Ora. visto o autor da queixa (duque de Bragança) ser senhor das vilas de Vila Viçosa. invocando ainda o amor de vassalos que tinham para com Sua Magestade43. ACB. ou melhor. O argumento expresso por um desconfiado litigante contra os duques de Bragança. utilizar todos os estratagemas jurídicos possíveis e imaginários “excepciones. é também particularmente impressivo. O que gerava casos de suspeições e os necessários pedidos de substituição dos juizes ou desembargadores. 37v. Um associado à casa de Aveiro. particular atenção por esse dinheiro ser ganho com o suor do rosto e sangue de mãos. Arraiolos e Evoramonte onde deveria decorrer o inquérito e onde «elle daua os officiais e os aprezentaua e lhe fazia delles merce e erão todos seus vaçalos e escriuaes e Almoxarifes juizes e mais pessoas da dita vila e todos lhe obedecião e fazião tudo o que elle lhes mandaua e era seruido»42. dilatorias. Citamos três. ms. Esta situação torna difícil a avaliação dos níveis e tipo de litigância exis- 41 BA. 44-XIV-4. 338. acusando-o de. iniciado em 1596 com sentença favorável à Casa em 1605 no processo contra um tal Bento Fernandes Bota e sua mulher. através do seu advogado. 42Processo . fl. por isso. fls. Egerton. outro à casa de Bragança e outro à de Alenquer: No já citado processo analisado no Desembargo do Paço por causa dos direitos do duque de Aveiro a prover um ofício por renúncia. O segundo argumento. Na carta régia de 8 de Outubro de 1589 que deu despacho ao caso.

ou melhor nas capitanias-donatarias. mas uma conflitualidade muito mais plural e multifacetada44. já fiz algumas referências). confirmam as ideias de um poder nobiliárquico muito territorializado que. sobreviveram alguns códices do Desembargo do Paço (sobretudo relativos ao Período da Monarquia Dual e aos quais. práticas políticas e a evolução histórica das capitanias. seja contra os oficiais da Coroa. nos senhorios ultramarinos. 43-44 lista-nos uma série de confrontos e reivindicações lideradas por populares de muito variado cariz e com variados oponentes. pertinente chamar a atenção para esta questão. apesar de tudo. Sem pretensão de acrescentar quaisquer novos dados a este tema. Lisboa. mas deve dizer-se que. seja contra senhores. e o que deles sobressai não é a litigância entre senhores e terras ou vassalos. Monteiro e Teresa Fonseca referiram nos textos que integram este livro e que. se apoiava em redes sociais locais e que lhes permitia transformá-las facilmente em redes de criaturas suas. no entanto. explica-se demorada e detalhadamente os fundamentos jurídicos. tomando-as como um fenómeno atlântico. pese embora a extensa transferência de jurisdições por parte da Coroa. No já referido estudo de Saldanha. Difel. em que avultam as queixas fiscais. O que significa que a análise de processos é possível. Poder e Oposição Política em Portugal no Período Filipino (1580-1640). de resto. Territorialização do poder senhorial e sociologia das elites políticas locais O terceiro e último ponto prende-se com o perfil social dos titulares dos ofícios locais. até porque os temas do Império têm sido demasiadas vezes tratados de forma desligada dos do reino de Portugal continental. É uma chamada de atenção que reforça o que atrás se disse e um pouco no sentido do que Nuno G. Camaristas e não só. e que o Arquivo Geral de Simancas contém abundante e riquíssima informação relativa às decisões da Monarquia e dos seus conselhos. pp. caracterizan- 44 António de Oliveira. se articula também com o tema da territorialização do poder senhorial. . porém. parece-me. complementados com o enquadramento privilegiado que a Coroa lhes proporcionara. a meu ver. Clientelas pode dizer-se. como se disse. Viu-se que os níveis de conhecimento das terras (recursos económicos e pessoas) que os donatários mais antigos e com maior amplitude de privilégios jurisdicionais detinham. 1991. pelo menos até meados do século XVII. Esta territorialização do poder senhorial verificada no continente e até nos arquipélagos da Madeira e Açores não ocorreu.104 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS tente. raramente os seus senhores aí residiram. O que aqui importa trazer é que.

RELAÇÕES

DE PODER, PATROCÍNIO E CONFLITUALIDADE

105

do-se a administração senhorial por um quase total absentismo. O exercício dos poderes judicial e fiscal, bem como a gestão corrente dos territórios, eram subdelegados em agentes senhoriais, nomeados pelos capitães-donatários – os capitães loco-tenentes. Os poderes de nomeação do oficialato local e de confirmação das câmaras constituíram-se, por isso, em instrumentos que reforçavam os poderes destes loco-tenentes, embora estivessem sempre sujeitos a sindicância por parte das justiças do Reino. Na verdade, para além das razões económicas, a posse dos títulos dos senhorios pouco mais interesse despertava junto dos capitães-donatários. As suas relações com os vassalos eram quase sempre mediadas pelos capitães loco-tenentes, sem que estes últimos dispusessem, todavia, da autoridade social que caracterizava os donatários. Eram na maior parte dos casos gente com origens sociais modestas, que se havia distinguido na guerra com os índios ou com os invasores franceses e holandeses e tinham acumulado património fundiário. Transformados em senhores de engenho, formavam as elites locais e foi à sua sombra que se constituíram importantes redes clientelares (de parentela, compadrio, vizinhança, etc.), que às vezes transcendiam até os limites das próprias capitanias. Há relatos de comportamentos bastante arbitrários de bandos de parentelas suas, ofensivos do direito e das instituições reinícolas, e que deram muitas vezes azo a reivindicações, confrontos e revoltas, sendo conhecidos numerosíssimos episódios de protestos armados das populações contra os loco-tenentes que conduziram até a bem sucedidas deposições do posto. Percebe-se então que estes senhorios ultramarinos só importavam aos donatários em função dos rendimentos que deles se podiam retirar. E, na realidade, a própria estrutura de delegação de poderes e de exploração do território tornou muitas dessas donatarias em negócios verdadeiramente ruinosos. É que os rendimentos mais significativos não provinham da cobrança de direitos jurisdicionais, mas sim da exploração fundiária, mineração e comércio de escravos e o absentismo senhorial dificultava a exploração eficaz dessas oportunidades. Daí o abandono a que os seus titulares votavam essas capitanias e até o interesse em se desfazerem delas. Existiam excepções, todavia, que respeitavam, sobretudo, a capitanias nos arquipélagos do Atlântico Norte e algumas do Brasil. Nesses poucos casos (em que se complementavam normalmente as jurisdições com as actividades mais rentáveis atrás referidas) os altos proventos serviram de meio para promoção e ascensão no Reino, apesar de, em boa verdade, tal só se verificar com as fortunas brasileiras (e não foram mais que dois ou três casos) na segunda metade do século XVII. Tal quadro não era exactamente análogo, porém, ao da posse das capitanias hereditárias nas praças do Norte de África. Embora com rigor estas não configurem senhorios jurisdicionais, o certo é que a natureza dos poderes regimentais dos capitães-mores, associada às doações desses cargos

106

OS MUNICÍPIOS

NO

PORTUGAL MODERNO :

DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS

em propriedade ou em vidas, permitia práticas políticas muito semelhantes. E estas, do ponto de vista formal, podiam até ser abusivas, mas não deixam de traduzir a extensão dos poderes efectivamente exercidos e a importância que os capitães hereditários lhes conferiam. Demonstro-o com uma situação muito expressiva. D. Fernando de Mascarenhas, conde da Torre, nomeado para ocupar o cargo de capitão-mor de Ceuta em 1624, explicava ao rei por carta de 23 de Abril de 1625 que os fundamentos dos conflitos ocorridos durante a sua administração da praça eram o de ter tentado cercear as irregularidades cometidas pelo duque de Caminha ao que este reagira mal, levantando-lhe, logo no primeiro ano de funções, vários pleitos judiciais. Dizia “foi acudir eu pela jurisdição real de Vossa Magestade que ele tinha usurpado e fazer eu conhecer a Vossa Magestade por senhor dessa força fazendo guardar as provisões reais de Vossa Magestade e não as do duque”. Dava como exemplos o caso de um capitão de Infantaria que tinha provisão ducal e régia para servir, mas que usava sempre a do duque, pelo que D. Fernando fizera rasgar essa, pondo-o a servir pela provisão régia, e outros similares relativos aos tabeliães do público, judicial, órfãos e notas. Acrescentava que Diogo Nabo, adail, quisera servir pela provisão do rei e não do duque e “o duque lhe o encontrou de modo que correu a demanda na relação de Lisboa aonde se deve sentença por Vossa Magestade e com isto ser tão claro, o tem o duque hoje embaraçado de maneira que a pessoa que hoje serve esses ofícios é por data do duque e não tam somente os serve por provisão sua, mas tem alvará de lembrança para os poder vender. E destes alvarás tem o duque passado muitos não podendo porque isso só toca a Vossa Magestade em resolução”. Mais dizia “que o duque se havia de maneira que dos moradores desta praça foi tido até agora por rei e senhor dela, e porque eu lhe tenho feito entender que em Espanha não há mais rei que Vossa Magestade me tem o duque capitulado com opróbrios alheios de meu procedimento”. Concluía, por isso “pretendo com isto que Vossa Magestade me tire desta força antes dos três anos e lhe conceda a ele vir a ela, quiça não com tenções de servir a Vossa Magestade senão de tornar a pregar e fazer crer a estes cavaleiros e soldados esta falsa seita em que viviam”. Referia depois serem estas práticas habituais nos capitães hereditários de Ceuta e que os reis passados já tinham tido que se confrontar com elas: “lembrando mais a Vossa Magestade que por outras semelhantes a estas, sendo o marquês de Vila Real pai do dito duque que hoje chegado a esta força com sua mulher e família de mui poucos dias o mandou elrei D. Sebastião que Deus haja ir daqui para Portugal e o veio tirar Dom Lionis Pereira e não mais tornou a esta praça” 45.
45

BN, Ms. 206, fl. 264. Esta carta está transcrita em Isabel M. R. Mendes Drumond

RELAÇÕES

DE PODER, PATROCÍNIO E CONFLITUALIDADE

107

É claro que, diversamente das capitanias-donatarias, nas praças do Norte de África a raiz dos seus poderes era militar e, talvez por isso mesmo, tais funções geravam muito prestígio social e político no Reino. A reputação que a posse desses cargos hereditários conferia equiparava-se quase à posse de senhorios jurisdicionais no continente. Permitia, para mais, acumulação de fortunas através dos direitos sobre as razias, resgates e até pirataria, bem como a estruturação de redes clientelares relevantes. De gente que aí servia momentaneamente hábitos ou comendas das ordens militares, mas também de grupos familiares enraizados localmente e que de há muito ocupavam os ofícios principais das praças. Com efeito, o esforço para tutelar e controlar a acção desses oficiais era evidente e está quase de certeza associado ao governo das praças durante os períodos de ausência do capitão hereditário no Reino e, portanto, da gestão de outros capitães-governadores como é o caso com o conde da Torre. Se estas situações são claras em Ceuta com os Meneses, julgo serem seguramente extensível a outros casos. Queria, por isso, chamar a atenção para a necessidade de investigar o tópico da territorialização do poder senhorial mais detalhadamente, não apenas para avaliar a importância (ou não) dos donatários, dos loco-tenentes e dos capitães e governadores na composição e mobilidade social dos grupos de poder locais, como para apurar o impacto ao nível do controlo político sobre as terras. Referi anteriormente que esta questão também pode estar dependente da própria configuração física dos senhorios, uma vez que a descontinuidade territorial podia fomentar uma administração menos presencial e, portanto, mais autónoma dos controlo directo dos senhores. O pedido que em finais da década de 1580 o conde de Sabugal formulou ao Desembargo do Paço espelhava-o e não constituía de forma alguma uma excepção. Solicitava o dito conde que fosse ouvidor de suas terras o corregedor que ficasse mais perto de seus lugares, uma vez que eles estavam muito distantes uns dos outros, em diferentes comarcas, e um só ouvidor não poderia administrar justiça em todas elas. E argumentava: “E se em cada lugar houver de fazer um ouvidor não pode achar tantos letrados em que seguramente desencarregue sua consciência”, chamando a atenção que tal pedido era em proveito evidente das partes46. Parece de facto óbvio
Braga e Paulo Drumond Braga, Ceuta Portuguesa (1415-1656), Ceuta, Instituto de Estudios Ceutíes, 1998, pp. 220-221. Diga-se, de resto, que o apêndice documental contém documentação muito interessante que lamentavelmente os autores pouco exploram no corpo da obra. 46 BA, 44-XIV-3 (n.º299), fl. 256.

108

OS MUNICÍPIOS

NO

PORTUGAL MODERNO :

DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS

que a sindicância ao ser efectuada por um corregedor da Coroa poderia estar menos enfeudada aos interesses directos do donatário, reduzindo assim a pressão que estes podiam exercer sobre os denunciantes e as testemunhas. Igualmente relevante seria apurar o destino social dessas clientelas com a redução da territorialização do poder que vai progressivamente ocorrendo. Como se desfaziam as conexões, que efeitos sociais e políticos a nível local produziam ou se haveria algum mecanismo informal que mantivesse certo tipo de relacionamento entre essas periferias senhoriais e os donatários já transformados em cortesãos. Outra área a carecer de maior investimento de estudos são os casos em que os donatários detinham poderes jurisdicionais menos exuberantes. A hipótese que apoio é a da possibilidade de maior conflitualidade com maior autonomia. Resta confirmar.

Conclusão
Em síntese, julgo importante sublinhar que sob a aparente capa de uniformidade institucional, os municípios ocultavam uma imensa diversidade de realidades políticas e sociais. Algumas delas têm de há uns anos a esta parte vindo a ser sublinhadas pelos estudiosos. É o caso da dimensão física, do peso demográfico, da importância económica. Não se tem, todavia, atendido suficientemente aos impactos que a diversidade de tutelas quase forçosamente gerava, sobretudo do ponto de vista da história social dos poderes. Ora este tipo de abordagens permite, como espero ter demonstrado, oferecer visões bem mais complexas, dinâmicas e matizadas das realidades sociais e das práticas políticas municipais.

As Ordens Militares e o poder local: problemas e perspectivas de estudo
FERNANDA OLIVAL
(Universidade de Évora – Dept. de História /CIDEHUS)

1.
Quando, em 1551, os Mestrados das Ordens de Avis, Cristo e Santiago foram perpetuamente unidos à Coroa, a nível local ainda era relativamente fácil identificar as jurisdições destas Ordens. Se o quadro destas não está traçado, deve-se apenas à falta de investimento em estudos com esse objectivo. Restam, todavia, nos arquivos portugueses materiais que o permitem fazer de forma aproximada, nomeadamente para as Ordens de Avis e Santiago. A doação medieval das terras é um ponto de partida importante, bem como as mercês de jurisdições feitas posteriormente. O numeramento de 1527-32, as visitações, as chancelarias das Ordens, os tombos de comendas e as Memórias Paroquiais de 1758 oferecem também contributos essenciais para os séculos XVI, XVII e XVIII, que devem ser explorados de forma crítica e comparada. Desde logo um dado fundamental a ter presente é que uma comenda nem sempre implicava a jurisdição da terra. Só em poucos casos seria assim. Há até descrições de várias épocas que apontam para tantas comendas e determinadas vilas sob a tutela de uma Ordem. Assim, acontecia, por exemplo, nas Notícias de Portugal de Manuel Severim de Faria. A Ordem de Avis é referida nos seguintes moldes: “(...) ajudando a lançar fora os Árabes desde Coruche, até Alandroal, e Juromenha; em gratificação do qual [serviço] lhe deram os Reis 18 vilas, que são Cabeção, Mora, Juromenha, Alandroal, Noudar, Veiros, o Cano, Fronteira, Figueira, Cabeça de Vide, Avis, Galveias, Alter Pedroso, Seda, Albufeira, a vila de Coruche, o Concelho de Serpa1, Alcanede, e 48 Comendas, que rendem passante
1 Não

parece correcta esta referência a Serpa. Cf. sobre a jurisdição da Vila, J. M. Graça
Os Municípios no Portugal Moderno: dos forais manuelinos às reformas liberais Lisboa, Edições Colibri – CIDEHUS-UE, 2005, pp. 109-126.

. poder e cultura: actas do III Encontro sobre Ordens Militares.Decretos. in Ordens Militares: guerra. Neste caso. 1859. 49-IV-31. como era o caso da comenda espatária de Mouguelas. A Ordem de Santiago em 1611 teria cerca de 85 comendas. pp. a Vila de Benavente. Nalgumas localidades. todavia. 4 Manuel Severm de Faria. tinha um padrão de juro de 22. Francis A. a Ordem de Cristo teria recebido 21 vilas e lugares e 454 comendas. mas nenhuma detinha a tutela do concelho. ANTT. 407-456 e Luiz de Figueiredo Falcão. BA. de todas. Serpa. cit. Havia comendas compostas por apenas dízimos. 2 Ed. actualização e notas de Francisco A.º de ordem 344-345. Colibri . 3. 250-263.Câmara Municipal de Palmela. fl. havia comendas de mais do que uma Ordem Militar. 1999. 2003 (1. 1655). 179-183. Conselho da Fazenda Vedoria e Repartição do Reino e Assentamento . Outros casos igualmente atípicos eram as comendas que se traduziam apenas por uma tença em dinheiro. 1884). nomeadamente das três comendas estabelecidas na Casa da Índia. religião. outras apenas por bens rústicos de diferente natureza ou por rústicos e urbanos. de Isabel Cristina Fernandes.000 réis. outras ao rendimento de transporte naval (Barca de Tróia. coord. Lisboa. 1993 (1. . Tombos de comendas. indicavam-se 47 vilas e lugares e 150 comendas3. em Setúbal. incluindo Malta. Lourenço Vaz. Câmara Municipal. Claro que algumas destas povoações constituíam uma ou mais comendas das mencionadas. como era o caso de várias na Ordem de Cristo. 2. como Elvas. assente no almoxarifado da Távola Real da Vila de Setúbal6. Severim de Faria. I.110 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS de 23 contos”2. § 17. Dutra. Colibri / Escola Sec.2. Disc. Não faltavam também exemplos de comendas que aglutinavam recursos diversificados. Relativamente a Santiago. “Os fornos da Ordem de Santiago e seus comendadores. As situações eram. Imprensa Nacional.ª ed. 6 Cf. A Ordem de Malta teria em Portugal 21 vilas “e lugares” e 24 comendas4. Faltava. 5 Cf. Lisboa. 29-62.cf. Vol. India e Ilhas Adjacentes e outras particularidades. em Alcácer do Sal) e outras equivalentes à renda dos tabeliães. pp. Uma comenda era antes de mais um rendimento com tal título que permitia ao encartado na mesma designar-se comendador. de bens urbanos e de uma parcelas de certos dízimos. ANTT. Affreixo. 1550-1777”. Disc. Na Ordem de Santiago havia até comendas que equivaliam ao rendimento de fornos (quase todos de pão e um de olarias)5. pp. por conseguinte. que era da Ordem. Memória historico-económica do Concelho de Serpa. fac-similada. 3 (decreto régio de 20 de Setembro de 1762). que além de bens rústicos.ª ed. elevado a cidade em 1513.ª ed. Op. Livro em que se contém toda a Fazenda e Real Patrimonio dos Reinos de Portugal. Mç. não incluindo nestas as da Mesa Mestral . § 17. e o Batel de Santa Ana. 3 Seria este um número muito irreal. n. Lisboa. com introd..

No entanto. indicando de quem era a jurisdição e as rendas. escrevia-se: “a Jurdição do cyvell e cryme da dita vylla he da ordem e a eleyção dos Juyzes e ofycyaes se faz pelo ouvydor do mestrado e os Juyzes ordenayros são comfyrmados pelo mestre noSo senhor a quall eleyção se faz de tres em 7 ANTT. em Óbidos e um ramo “aprestemado na comenda dalhos Vedros que vale quorenta mill reis”. Estas duas últimas figuras marcavam maior presença nas comendas de Avis. segundo se escrevia em 15657. quando foram criadas as “comendas novas” e quando foram instituídas as ditas “comendas da Casa de Bragança”. quanto. o segundo em 1517-1519. L. Assim. por vezes. descreveram-se 14 vilas da Ordem de Avis e 30 de Santiago. Em relação à Vila de Cabeço de Vide. A milícia espatária dispõe de um excelente conjunto de visitações para a primeira metade do século XVI. o número de comendas aumentou muito no reinado de D. No caso da Ordem de Cristo. as chamadas comendas “velhas”. pois não se situavam num só município ou zona. as distâncias eram consideráveis. além de terras da Ordem de Cristo e de Malta no Alentejo. Manuel. 2.AS ORDENS MILITARES E O PODER LOCAL: PROBLEMAS E PERSPECTIVAS DE ESTUDO 111 muito variadas. Com base no numeramento demográfico mandado fazer por D. O primeiro processo iniciou-se em 1514. além do juro.º 203. a Ordem. quer nas de Avis da mesma época referia-se quase sempre a jurisdição do lugar. quer num caso. 3. Jorge de Lencastre eram em geral partilhados entre a Coroa. na Ordem tomarense tal situação abarcava apenas algumas comendas que vinham da época dos Templários. Do ponto de vista territorial. Ordem de Santiago – Convento de Palmela. pertencia sempre à Ordem. Quanto ao senhorio jurisdicional. as comendas não abrangiam as jurisdições das terras implicadas. É possível observar que os rendimentos das Vilas dos dois Mestrados nas mãos de D. Afonso (na qualidade de Bispo de Évora) e o Cabido eborense. Em 1532. o comendador de cada uma e por vezes o Cardeal D. quer no outro. fl. . é possível ter uma ideia tendencialmente clara das jurisdições das Ordens de Avis e Santiago a Sul do Tejo (com excepção do Algarve). Quer nestas. Assim se mantinha na segunda metade do século XVIII. em 1538. havia também comendas fortemente descontínuas. quando pertencia à Ordem. Retome-se de novo a comenda de Santa Maria de Mouguelas: reunia bens no termo de Setúbal (Mouguelas). João III. Não só porque em geral os bens estavam dispersos por diferentes freguesias de um mesmo concelho.

fl. 176. doc. 10 Cf. 13 Cf. n. Seguia-se a enumeração dos oficiais postos pela Ordem e a indicação das rendas da mesma (geralmente dízimos) e o elencar das propriedades. ibidem.º de ordem 205. Esta modalidade do povo apresentar seis juízes seria corrente noutras comendas de Santiago da primeira metade de Quinhentos. GESOS – Câmara Municipal de Palmela.Ordens Militares . As Ordens de Avis e de Santiago na Baixa Idade Média: o governo de D. Fernando Pires. Ordem de Avis. na visitação de 1523. um servia na Vila de Sesimbra e os outros dois em Azeitão (um deles em Coina. ANTT. 76v (visitação de 1516). porém. 9 Cf. o Prior-mor ainda conseguia apresentar a própria alcaidaria-mor de Cabrela. 45v-46v.º 18. Palmela. E os juizes ordenairos sam comfirmados per nós ou pello Comendador que nosso poder tem e pera ello ho povo dar em cada huum anno seis juizes eleitos e nós escolhemos delles dous ou o dito Comendador que confirmámos ou o dito Comendador comfirma e tal he o custume da dita Villa e Mestrado”. entre outros exemplos citáveis. juiz dos órfãos. Mesa da Consciência – Ordem de Santiago/Convento de Palmela.º 14. Ana de Sousa Leal. Nem sempre.º Aniversário do Foral de Alhos Vedros. .33-36. Câmara Municipal. O prior-mor podia também apresentar os restantes oficiais da Câmara que eram providos por carta da Ordem. “Memórias sobre a Ordem de Santiago no tombo velho da Vila de Sesimbra: a jurisdição de Coina (1330-1363). Jorge. 2002. escrivão dos órfãos. Eram eleitos seis. seria o comendador a fazer a escolha seguinte11. a confirmação dos juízes ordinários.157.. com base nestes poderes. Mesa da Consciência – Ordem de Santiago/Convento de Palmela. in As Ordens Militares em Portugal: actas do 1. Estes poderes são-lhe reconhecidos por uma provisão de 1627. fl. Palmela. 11 No caso da comenda de Alhos Vedros. como aconteceu com o Duque de Aveiro12. a partir de 154713. e a eleiçam dos juízes e ofeciaes se faz pell nosso Ouujdor ou quem nos pera jso ordenámos. um lugar que numa consulta da Mesa da Consciência desse ano se considerava que “deve tocar a VMgde. fl. como as das mais villas dos mestrados das ordens melitares”. dos quais quem detinha a comenda ratificava 3.43. Destes. Mç 24. 1991. p. n. sabe-se que cabia ao comendador.º de ordem 163. fixava-se a regra: “A jurdiçam do ciuel e crime da dita Villa e seus termos he da Ordem.º Encontro sobre Ordens Militares. 38v-39v. ANTT. 65v. Só por concessão do Mestre. Em 1641. A apresentação dos oficiais (escrivão da câmara. pp. escrivão da almotaçaria. Comissão organizadora das Comemorações do 480. ANTT. contador. de acordo com uma composição feita com o Mosteiro de Santos)9.112 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS tres años e asy he o custume em todo mestrado”8. ou com o prior-mor do convento palmelense em relação à Câmara de Cabrela. Em 1565. distribuidor e inquiridor. Maria Cristina Gomes Pimenta. 3 tabeliães do judicial e notas. Mesa da Consciência . relativamente à comenda de Sesimbra. L. partidor e avaliador dos órfãos) à Ordem pertencia também ao poder do comendador10. p. Alhos Vedros. 8 ANTT. 1994. Bernardo Sá-Nogueira. fl. o Duque de Aveiro. 12 Cf. Alhos Vedros nas visitações da Ordem de Santiago.Papéis Diversos. L.

Assim se designava se a comenda estava sujeita ao Ouvidor do Mestrado ou aos corregedores da Coroa. através do Ouvidor. seria um tópico ao qual a Ordem dava muito relevo no início de Seiscentos. nos inícios do século XVII. A possibilidade do comendador apresentar outros oficiais da comenda (tabeliães. Pelo frequência com a qual se insistia neste ponto. Seria através dele que se fazia a defesa da jurisdição da Ordem15. E dadas em suas terras os Marquezes de Villareal. eventualmente a outra entidade. mesmo no tempo de D. no entanto. L. E CastelRodrigo. indicando se a jurisdição estava incluída “no Mestrado” ou “fora dele” (ver mapa). Jorge († 1550). escrivães da câmara e dos órfãos. Como. 15 Cristina Gomes Pimenta.) também seria escassas vezes atribuída. . foram cuidadosamente preparados. Relativamente ao período posterior a 1551. n. etc. resultantes dos definitórios de 1619-1620. E pedia nos seguintes termos: “a dada dos offiçios que nella ha de haver. A mesma atenção mereciam os diferentes tipos de benefícios eclesiásticos que tutelava. Uma a uma inventariaram as comendas. Era das Ordens ligadas à Coroa a que tinha menos comendas. Em sentido inverso. A resolução a esta consulta. com a letra e rubrica de Pedro Álvares Pereira foi a seguinte e com a qual esteve de acordo o rei: “Pareçeo que se lhe de a jurisdição de ficalho de juro conforme a ley mental com a dada dos officios de escrivães da camara almotacaria E orfãos E tabaliães das notas E possa dar per suas cartas com todas as mais preminençias com que estão dadas jurisdicoes a outras pessoas tirando o privilegio de não entrar corregedor por correição na dita villa por estar junto da raya de castella E ter tam pouca povoação que se não for visitada se pode recear que se acolhão a ella mal feitores de ambos Rejnos” (AGS. Seria um dado adquirido? O que se destacava como significativo era a possibilidade de controlo mais global. também acontecia em Santiago14. assi Como tem a propriedade da dita villa antes de ella o ser”. Quanto à jurisdição específica de cada uma das terras.º 1460. 14 Cf. E se houverem de Criar de novo na forma. cit. Era este poder que havia que acautelar em 1619-20. impressos em 1631. o mesmo será dizer na Ordem. Op. aliás. E da maneira que tem estas jurisdições. o Conselho de Portugal discutia uma petição do Conde de Ficalho. p. equivaliam às mais rendíveis dos três Mestrados. Tenha-se presente o seguinte: em 1600. E outros titulos do Reino.º 26).AS ORDENS MILITARES E O PODER LOCAL: PROBLEMAS E PERSPECTIVAS DE ESTUDO 113 No caso da Ordem de Avis. E isto de Juro conforme a Ley mental. mas o senhorio jurisdicional permanecer nas suas mãos.. o normal parecia ser o Mestre dar a comenda a alguém. Os estatutos desta milícia. Em razão do seu título nobiliárquico solicitava a jurisdição da vila. recém criada pelo monarca. a preocupação com os corregedores seria grande por parte da Coroa. as melhores fontes que restam nos arquivos são documentos que foram produzidos pela Ordem de Avis ou que a ela pertenceram. Secretarias Provinciales. ou. 163.o que não deixava de ser um silêncio inquietante. nada era dito .

a Ordem tomarense passava a usufruir do seguinte: – os tabeliães poderiam ser dados e confirmados por cartas do Mestre e da Ordem. Nesta altura. jurava na Chancelaria da Ordem. Seria colocado do mesmo modo. Chancelaria da Ordem de Avis.cf. – os corregedores não podiam actuar nas terras do Mestrado. 17 Em cartas passadas pela Chancelaria da Ordem de Avis chegava-se mesmo a dizer que determinado magistrado serviria de ouvidor nesta zona. Cód. em 1373.114 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Os mesmos estatutos esclareciam que. salvo se houvesse prévia denúncia ou querela contra o Mestre e o seu ouvidor. Só havia. fl. – nos feitos cíveis. O ouvidor de Avis. fl. uma situação que se manteve ao longo do tempo17. Nas outras terras. Sousel. 114-118v.I. no caso de Alcanede. 1631. A partir daí. Borba. Alpedriz e Rio Maior entrava em 1631 o corregedor de Santarém como Ouvidor da Ordem16. como era usual nos processos crimes. XII. Pernes. exercia o cargo durante três anos e em nada se diferenciava de outros magistrados da carreira de Letras da Coroa. Serpa. Beja e Mourão) e no bispado de Elvas (Olivença e Santa Maria da Alcáçova de Elvas). tít. portanto. Fernando ampliara o senhorio jurisdicional da Ordem de Cristo em todas as vilas e lugares que lhe pretenciam. Lisboa. .º 37. que residia habitualmente em Avis. um Ouvidor deste mestrado e assim foi ao longo do tempo. A anexação das Ordens à Coroa facilitou a aproximação de jurisdições e de pessoas em actividades que deviam ser diferenciadas. Yorge Royz. como era o caso de todas as comendas do bispado de Coimbra e da Guarda. Regra da Cavallaria e Ordem Militar de S. Vila Viçosa. 18 BN. Quanto ao mais. 16 Cf. 206v (ano de 1753). dos juízes ordinários apelava-se para o Mestre e para o seu ouvidor. Numa junta de reforma da Ordem de Cristo que encerrou em 1589. cap. ANTT. L. sem que pudessem tais poderes ser revogados posteriormente. Estremoz. Moura. mas que a pouco e pouco deixaram de o ser. Bento de Avis. mas deixava de se poder apelar desta instância para o rei. fez-se um balanço “da jurisdição secular que a Ordem tem em determinados locais”18. mas também as havia no Arcebispado de Évora (Freiria de Évora. apenas enquanto servisse de corregedor de Santarém . cerca de 51% das comendas não estavam sob a tutela do Ouvidor do Mestrado. A maioria destas equivaliam às mais distantes da sede da Ordem. D. de uma situada na arquidiocese de Braga e da comenda algarvia de Albufeira. antes de exercer. Nesta salientava-se que. entrava o corregedor com poderes de ouvidor. 13216.

20 .VII. os magistrados já só obtinham uma única carta de corregedores. 1671(1. criando-se uma nova. pela escassa documentação camarária de Tomar disponível. porém. 256-257 (com um erro de data). pp. 1971. a ouvidoria de Tomar foi dividida em duas.ª ed. O cargo de Ouvidor do Mestrado era. conhecem-se. Em períodos posteriores. como governador da Ordem de Cristo. D. emitida em nome de Sua Majestade como rei.. Tal queixume passou para os Definitório impressos. de ouvidores do Mestrado.º 302. cuja intenção não he que se tomem á Ordem suas terras legitimamente adquiridas por serviços”.III. em 1589.) irão a quem directamente pertencerem”19. com maiores ou menores dificuldades. Nessa altura. Anais do Município de Tomar. exercido apenas enquanto o magistrado servisse de Corregedor da Comarca de Tomar. protestava-se contra a perda destes poderes e contra a confusa e indistinta jurisdição da Coroa e das Ordens. em 1589. e simultaneamente. Por isso. onde se afirmava textualmente que a Ordem fora “esbulhada de suas jurisdições cõtra direito. Dizia-se que o corregedor de Tomar e o de Castelo Branco serviam também. 358 (1679). Vol. Ioam da Costa. cit. Pte. todavia.. Câmara Municipal de Tomar. na sequência do Capítulo Geral de 1619. tít. 364 (1682). Salientava-se que eram doações remuneratórias e como tal não podiam ser retiradas ao património da Ordem – Definicoens e Estatutos dos cavalleiros. L. Como se afirmava na citada junta. João III. Tomar. outra como ouvidor. tinham sido mantidas até 1532. Op. com cabeça em Castelo Branco. limitaram-se os poderes do respectivo ouvidor do Mestrado. que estas jurisdições. 1628). Mesa da Consciência. 291 (1658). Cf.. porém. Deviam tirar duas cartas separadas no Desembargo do Paço: uma de corregedor. pp. 108v.AS ORDENS MILITARES E O PODER LOCAL: PROBLEMAS E PERSPECTIVAS DE ESTUDO 115 Apontava-se. X. circunscrevia as apelações que o Ouvidor podia receber às “que couberem em sua Alçada sòmente. na sequência de um pedido feito pela Vila de Tomar. fl. Nota-se. sobre estes procedimentos. & com cargo da cõciencia de sua Magestade. IV. e as outras que não couberem (. Nada se sabe sobre as eleições concelhias nas terras da Ordem de Cristo depois de 1551. 3. 21 Cf. que o Ouvidor teria um papel meramente secundário. passada pelo monarca na qualidade de Governador da Ordem e feita por um escrivão da Mesa da Consciência20. Vol. e freires da Ordem de Nosso Senhor Iesu Christo com a Historia da Origem e principio della. casos de duas cartas para a mesma pessoa21. Mais tarde. Na Chancelaria da Ordem não foi emitido qualquer 19 Alberto de Sousa Amorim Rosa. Alberto de Sousa Amorim Rosa. em comparação com o Corregedor. nas Cortes de Almeirim de 1544. ANTT. Lisboa.

com a consequente perda de competências dos tribunais régios. Sobre esta atribuição impõem-se dois comentários. ao delegar poderes no comendador. os rios: as memórias paroquiais de Mértola do ano de 1758. pp. na Ordem de Santiago. as serras. porém. puchando sempre os Ministros de El Rey para excluirem de tudo a Ordem (. Apontava que a jurisdição de Mértola era da ordem de Santiago. 23 As Chancelaria da Ordem de Cristo. [D. O reparo feito é muito claro a este propósito.116 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS diploma a confirmar oficiais camarários eleitos ou não eleitos. ed. L. como a tiveram o seu progenitor e o seu avó. mas em parte está da Coroa”23. que o antecederam na dignidade. terras. por deixados.59-60. Por aquele diploma era-lhe feita mercê vitalícia da confirmação dos ofícios das vilas da Ega e Dornes. então enviado aos párocos. em bom rigor não se sabe verdadeiramente quais eram os ofícios referidos. D. E nestes termos he esta villa da Ordem de S.. como ninguem cuidava de os inteirar. a ingerência do Desembargo do Paço seria clara já no século XVII. fl. talvez por volta de 1620. não é de afastar a hipótese de muitas jurisdições terem sido assimiladas pela Coroa. Aliás. receava-se o efeito dos processos poderem eventualmente cair no alçada do foro privativo dos membros das Ordens Militares.L.. o Juiz dos Direitos Riaes.Tiago. passado em nome do comendador-mor da Ordem.1995].ª de Fátima Rombouts de Barros. Em forma que.º 22. 257v. Por outro lado. É provável que não incluísse os elementos da câmara propriamente dita. de Joaquim Ferreira Boiça e M. como he o Juiz dos Orphaons. Por um lado. e outros mais sam providos pella secretaria do Mestrado da dita Ordem. Mértola. Seria um dos problemas nos concelhos dependentes destes institutos. A única excepção até agora identificada reporta-se a um alvará.). encerrava com uma valiosa ressalva: “cõ declaracao que não UZará Nunca de Conservatorias Nem Cemsuras E Sendo lhe necessario algum Requerimento o fara nos tribunais Seculares”22. Tal documento. de 1623.lit. Campo Arqueológico. com a separação do que hera Coroa. à segunda pergunta do interrogatório. muitos estam confundidos. Sobre este processo são muito esclarecedoras as palavras do Prior da Igreja Matriz de Mértola quando respondia. Afonso de Lencastre. nos seguintes moldes “e assim se conservou em sua posse a dita Ordem com todos os seos actos e provimento de justiça athé que encorporadas as ordens na Coroa lentamente se foram descahindo os exercicios da dita posse. através do Desembargo do Paço. em 1758. quando foi redigida a primeira versão dos definitórios impressos como estatutos da Ordem 22 ANTT. mas ainda alguns officios. . A julgar pelas aparências.

embora D. & provião os Ouvidores. Contadores. & aggravos das terras do Mestrado.de Cujas doacoens Se expedem pello Desembargo do Paço”26.º 69. 9 de Novembro 1624 e fl. Tabeliões dos Officiaes. & que nas terras da Ordem. tal facto não era era con- 24 Regra. fl. estatutos. . vale a pena ponderar uma consulta do Desembargo do Paço sobre o assunto. 300. L. 25 O facto de se tratar da comenda-mor terá de longa data correspondido a uma situação especial. consultas. vão à Mesa das Ordens. Enqueredores. conforme a provisão que para isso hà. que costumaõ vir ao Desembargo do Paço. Desembargo do Paço. definição e reformação da Ordem e Cavalaria de Santiago de Espada. Para solucionar o caso foi consultado o desembargador que servia de Procurador da Coroa. Mesa da Consciência. & datas. 319v. No parecer deste indicava-se que “o Comfiar as doaçõens das Camaras hé Regalia da Coroa. Juizes de fòra. datada de 1744. Nestes fez-se registar o seguinte: “Os Mestres tiverão sempre o poder. & assim os pilouros das eleyções dos Officiaes das Cameras se apuravaõ. Afonso VI. que nenhuma peSsoa nem ordem pode Competir. “vagas” por morte do Infante D. De acordo com a mesma opinião. & se goarda por costume immemorial. & apure as outras como faz. Def. em 1742. Sem expresa doação de Vmag. dos dittos officios como as eleyções dos Officiaes das Cameras. & jurisdicção nas terras do Mestrado. porque os faça seus Ouvidores. L. & confusão na jurisdicção. & confirmavaõ por elles. e em sua falta ao contador do Mestrado. não possão elles entrar sem provisão do Mestre. & conheça das novas acções. como Governador perpétuo da Ordem. Lisboa. & disto se naõ guardar se tem seguido perda à Ordem. Pedro usasse de tais poderes nestas comendas. tivesse permitido que o seu irmão D.º 302. pelo que diffinimos. & dentro das comarcas dos Corregedores. que ao menos pusesse em substituição destes um juiz de fora letrado com o mesmo estatuto. Miguel Manescal. & o Ouvidor confirme. Pretendia o contador do mestrado25 confirmar as eleições das já apontadas comendas da Ega e de Dornes. que estão fòra do Mestrado. Francisco. 86” – ANTT. e de Dornes tocão ao Comendador môr. Num livro de notas de Lázaro Leitão Aranha registou-se: “O provimento dos Officiães da Vila da Ega. LXXVI. chegou-se a propor que se a Ordem não nomeasse os juízes ordinários das terras do Mestrado. No que respeita às eleições camarárias das terras do Mestrado da Ordem de Cristo. 1694. por do contrario se seguir alienação da jurisdicção da Ordem”24. & todos os mais Officiaes de Justiça tocantes à sua jurisdicção. 26 ANTT. fl.AS ORDENS MILITARES E O PODER LOCAL: PROBLEMAS E PERSPECTIVAS DE ESTUDO 117 de Santiago. & ordenamos que se peça a vossa Majestade mande que assi os provimentos. No definitório em causa.

vereadores e procurador tratavam de ratificar na Mesa da Consciência tal facto. O mesmo parecia acontecer com os Setúbal e Messejana. como os de Seixo do Ervedal e da comenda do Casal. poder. 19v. Ibidem. 32-32v. fl. fl. A Câmara de Alcanede e lugar de Pernes tinham idêntico comportamento. na Ordem de Santiago27. Do mesmo poder dispôs o comendador seguinte: o Infante D. as referidas são as únicas que aparecem a fazer confirmações das câmaras na Chancelaria da Ordem de Avis.º 1. Pedro não fora feita oposição a este poder. ambas situadas nas Beiras28. Segundo historiava o procurador da Coroa. distinguia-se claramente entre o poder de fazer as eleições. Ibidem. inclusive. fl. E este era considerado o ponto crucial. Chancelaria da Ordem de Avis. fl. 108v. Ibidem. . Estes seriam os “verdadeiros ouvidores do Mestrado”. 255. o ouvidor de Avis não acumulava funções. L. 32 Cf. 30 Cf. como se comprova pelo registo das cartas na respectiva Chancelaria. noutros locais. do monarca. A situação na Ordem de Avis parece ser um pouco diferente. 29 Cf. Aberto o pelouro. Francisco. na Estremadura29. marcavam presença neste registo. 23v. 28 Cf. 31 Cf. 305-305v. ANTT. a Ordem confirmava as câmaras de diversas terras. mas. fl. Havia. eleitos em Alcanede e Alpedriz que pediam nas décadas de 50 e 60 do século XVIII para serem dispensados de servir. 472. quando morreu. em 1552-1553. Ibidem. mas não a confirmação dos eleitos: era competência. Até 1620 é fácil atestar a confirmação para a Câmara de Alpedriz. Mesa da Consciência. os que saíam para os lugares de juiz. Logo após a anexação. Nesta mesma consulta. 236v. mesmo para o cargo de vereador32. Será que. Mesmo municípios afastados do centro nevrálgico da Ordem.º 11. L. L.118 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS siderado grande argumento. passim. que se admitia pudesse ser delegado. 148v. seria o facto de disporem de um “verdadeiro ouvidor” que dispensava tal atitude? É uma pergunta para a qual não temos resposta. Desde logo. Nestas casos.º 39. pela proeminência do Infante D.º 17. Nos séculos XVII e XVIII.º 302. A partir de 1681 há pedidos regulares dos eleitos anualmente para este município30.300v. o diploma com a anuência do 27 Cf. confirmação de 1552. como se chegou a classificar no discurso da época. L. 244v. L. em ANTT. fl. 20. mas apenas por isso. Nos anos de 1760 ainda se fazia o mesmo e é de crer que se continuou a fazer31. o Desembargo do Paço apropriou-se da regalia.

até quando se prolongou no tempo esta particularidade. O reforço da ligação ao Mestrado seria um hipotético ponto de fuga. feito em 1607. e Sem iSso não terá effeito. ANTT. 427.AS ORDENS MILITARES E O PODER LOCAL: PROBLEMAS E PERSPECTIVAS DE ESTUDO 119 monarca. 35 Excepto em 1681.º 373. com os privilégios daí decorrentes. Ibidem. no século XVII. Pelo que mando aos officiaes da Camera do dito Lugar. . também. indicava que se devia mandar fazer nova eleição. fl. a confirmação dos eleitos para as câmaras pelo Governador perpétuo da Ordem seria um assunto por diversas vezes discutido e julgado favoravelmente no Juízo da Conservatória das Ordens Militares. No século XVII. Como se perdeu a documentação do citado Juízo. fl.º 12. Tombos de Comendas. Alegava-se assim com a origem das terras para justificar a situação jurisdicional. Alegava-se. L. 255. fl. não é possível esclarecer o problema. L. Pondo de lado estes casos. 34 Cf.º 17. 305. 157. L. é bem possível que muitas das comendas que implicavam a tutela das vilas tivessem pautas confirmadas pelo Desembargo do Paço. assim. no tombo da comenda. e a quem mais tocar lhe cumprão e guardem esta Provisam Sendo paSsada pela Chancelaria da mesma Ordem”33. 202v. escrevia-se: “Achou o dito Juis do tombo que a Jurdicam da Justiça do crime E civel E governo da terra he do comemdador que he agora o comde de linhares E a teve tambem o duque daveiro Seu amtecesor porque esta comemda E terras dellas foram da igreiJa E da ordem de cystel E amtiguamente Sohya Ser E amtes delRey dom denis quãdo Eram de castella E vieram a Este Reino de portugal por virtude de hua demarquaçam”36. O que parecia estar em jogo em Alpedriz. 33 Ibidem. fl. na figura de Mestre. Mesa da Consciência.º 8. 36 ANTT. privilégios que isentavam a Vila da jurisdição régia34. Até que ponto a proximidade da fronteira e o facto de ter sido comenda do Duque de Aveiro também não terão contribuído para essa manutenção? Não se sabe. A última das quais teria ocorrido em 20 de Março de 1680. com os seguintes reparos: “cuja nova eleição virá a confirmar ao meu Tribunal da Mesa da Consciencia e Ordens. L. fl. Também em Noudar. uma observação que todas as cartas de confirmação de Alpedriz e Alcanede referiam a partir dos anos 80 do século XVII35. eram problemas com os corregedores e outras autoridades de Leiria.

doc. E de que sabe dom christovão [de Moura]”37. entre 1588 e 1591. .120 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS 4. Primeiro.. teria solicitado à Coroa. No que respeita aos restantes ofícios das terras da ordem de Cristo e Avis. 4v.) que por ser de Jurdição foi sempre de tanta consideração neste Reino que sou informado que a Rainha que Deus tem largou á das suas terras a ElRej pera cõ isso se moverem pessoas particulares a fazer o mesmo”38. A Coroa ao longo dos anos apontados reagiu-se sempre mal a este tipo de aspiração. E tendo dissistido della cõ a dita satisfação que ora logra o Comde. E pay a dita dada senão como Chançareis da dita ordem. 112. 38 Ibidem. E se lhe passou padrão delles pello que não tendo os Comdes seu avoo. fl. Passado um mês nova carta régia insistia na negativa.º Conde de Linhares († 1608).ª. Sobre o que se terá passado na Ordem sedeada em Tomar. 4. e as justificações dadas são esclarecedoras. pois gastara muito na Jornada de Alcácer-Quibir. numa carta régia de Junho de 1588 dizia-se que era “cousa muy grande (.. sem que o Conde alcançasse o seu intento inicial. pois a palavra “Mestrado” raramente era 37 ANTT. nos seguintes termos: “E também pareçe que não ha que diffirir a dada. 84. Mde. E por sua morte para seu filho mais velho os quaes elle açeitou. a dúvida se estes documentos se reportavam aos postos das comendas da Mesa Mestral e não aos das restantes comendas. Estas negociações ainda duraram mais três anos. porém. Mç. é importante atender à pretensões do 3. fl. pois se conçedeo a seu pay cõ declaração que a averia Em sua vida somente”39. “a dada E provimento dos offiçios dos lugares do mestrado de Christo que foi de seu pay aVoos E visavoo que os governadores que forão destes Reinos lhe derão Em Setuvel ~a Certidão do Comde de Matosinhos que deu como diZ que consta de hu Em Elvas a V. Corpo Cronológico. Parte 1. fl. não pareçe que o Comde tem a isso aução porque sendo esta dada do Comde seu pay como ChançareL do dito mestrado dessistio delle cõ declaração que lhe ficasse em hua vida a dada dos ditos officios E se lhe derão em satisfação disso cõ çem mil réis de tença en sua vida. não pareçe que ha aução para a pretender. Nessa altura estaria ele em necessidades. E provisão dos offiçios do Mestrado de Christo porque alem de ser isto cousa muy grande E que não he justo tirarsse da Coroa estando Ja nella. Não sabemos se o exemplo teria sido efectivamente imitado. E por sua morte os ouve o dito Comde..5. sabe-se um pouco mais. Vedor da Fazenda e partidário de Filipe II. entre outras mercês. Resta. 39 Ibidem.

Em 1690. Em termos globais.º 302. que também consultava sobre a atribuição do ofício. Embora o provimento dos oficiais das terras das Ordens pertencesse à Mesa da Consciência. Sua Majestade mandara que o passasse a fazer o Desembargo do Paço. com a Marquesa de Arronches. L. 41 Cf. escrever e capacidades. como se comprova pela situação invocada Em qualquer das três Ordens Militares. e com ela as Ordens Militares. as atribuições mais exorbitantes que se conhecem são as da comenda das Galveias (Ordem de Avis). Assim ocorria na data invocada. As cartas de provimento emitiam-se. fl. que podia nomear almoxarife nas suas comendas enquanto as administrasse41. apesar de ser terra de uma Ordem Militar. pelo escrivão da Câmara e Secretaria de Avis na Mesa da Consciência e assinava-as o Chanceler da Ordem. Deste modo. ter-se-ia concedido a apresentação ou a data dos ofícios a uma ou outra personagem. fl. onde pagava os direitos. por exemplo. num caso ou noutro. ANTT. O cargo invocado tinha. quem decidira o provimento fora o Desembargo do Paço. A Mesa da Consciência. porque fora provido um cristão-novo no lugar de juiz dos órfãos da Vila de Albufeira e o monarca terá pedido contas do sucedido. todavia. e a de Fronteira na década seguinte. . apenas significado económico. Assim se fez. as cartas de ofícios continuavam a ser emitidas pela Chancelaria da Ordem. poder. Recebera também uma mercê idêntica para as “suas terras” que constituíam bens da Coroa. Averiguar a qualidade do sangue era uma das responsabilidades do Desembargo do Paço. todavia. com o facto de Dinis de Melo e Castro (162440 Cf. tinha perdido terreno.AS ORDENS MILITARES E O PODER LOCAL: PROBLEMAS E PERSPECTIVAS DE ESTUDO 121 usada como sinónimo de “Ordem Militar”. E provavelmente na manutenção de alguns formalismos teriam contado muito os ajustes quanto aos emolumentos e imposições afins. Mesa da Consciência. não prejudicando esta instituição40. esclareceu-se a tramitação processual.111-112. mas os procedimentos só revelam o quanto as aparênciam por vezes iludem. em 1664. ultrapassou-se largamente a questão da apresentação dos oficiais. cerca de 1731. Nestes casos. em nome do rei como administrador do Mestrado. No caso da Ordem de Avis. Não se sabe desde quando. como actualmente se tende a fazer. Cabia a este examinar o provido apenas na suficiência de ler. O diploma passava depois pela Chancelaria da Ordem. apesar da carta figurar na Chancelaria e ser redigida pelo escrivão da Ordem. Ibidem. 320. Justificou-se a atribuição do senhorio das Galveias.

º 245. ver Julio de Mello de Castro. Eduardo Brazão (apresentação e ed. E datas de officios tudo Em sua vida. Livraria Civilização. Mesa da Consciência. s. se tentara dar a D. então General da Cavalaria do Exército do Alentejo. João V. Tombos de Comendas. fl. Apesar dos protestos iniciais da população que não queria passar para a tutela de um particular48.n. Chancelaria da Ordem de Avis. Em 1736. Pedro II e D.Alexandre da Paixão (Lisboa.º 15. nem a ameaça do uso da força fora suficiente para demover a população. que em 1691 se tornaria no I Conde das Galveias. Porto. pp. fl. 122. 1995 (1. 44 Cf. Na carta citada. O facto na época suscitou eco e mal estar. Ver também ANTT. 43 ANTT. Lisboa. Typ. excepto os das sisas e os de provimento da Câmara. D. L.. Manuscritos da Livraria. Com declaração Expressa que por isto senão Entenda fazerselho prazo Em que tenha Lugar Renovação. Chancelaria da Ordem de Avis.374v-375. Já antes disso. sôbre o seu reinado. a doação foi sucessivamente reno42 Sobre este General.179-180. a qual se Entende. Rezervando o Dominio direito â mesma ordem.142v. que equivalia a uma quinta sua.º 168. esclarecia-se perfeitamente que se incluía a data de todos os ofícios. Cabia também ao agraciado apresentar os ofícios. Ficava com “sua Jurisdição. primeyro Conde das Galveas. . cujas cartas seriam passadas pela Mesa da Consciência. L.122 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS -1709)42.º 16.ª ed.). 345. pp. que ficara sendo Em utilidade da Ordem. terra espatária. n. 46 Cf. pelos anos de 1620. ANTT. 47 Cf. António Mascarenhas o título de Conde de Palma.diario de factos mais interessantes que succederam no Reino de 1662 a 1680. fac-similada da de 1744. em Alcácer do Sal. L.Ed. ser capaz de a defender e fortificar no contexto da guerra que se vivia. fl. para melhor Conservação da dita Sua Villa”43. fl. ainda o facto do II Conde das Galveias nomear as justiças da Vila causava problemas ao Ouvidor que as pretendia explusar dos lugares45. da viuva Sousa Neves . 48 Segundo as Monstruosidades do tempo e da fortuna . do Conselho de Estado e Guerra dos Serenissimos Reys D. para que não fosse prejudicada47. pois alienavam-se bens de teor eclesiástico44. esclarecia-se que a jurisdição delegada era a ordinária. Dinis de Melo e Castro ficava logo autorizado a impetrar diploma papal a corroborar a mercê.128-129).. ed.segundo um manuscrito da Biblioteca da Ajuda. até hoje attribuido infundadamente ao benedictino Fr. 1721). Mas sômente huma merce Em Vida. A Mesa conseguiu demover Filipe III de Portugal deste intento46. Afonso VI . No caso da doação de Fronteira ao Marquês do mesmo título. 1940. em 1670. 45 ANTT. 1888. com as prerrogativas que habitualmente podiam dispor os donatários da Coroa.º 302. a Cuja meza mestral. 62. pagara Dez Cruzados Cada anno por Reconhecimento. fl. Historia panegyrica da vida de Dinis de Mello de Castro. para que tenha sômente o Dominio Util. L.

a anexação das Ordens à Monarquia facilitou que se confundissem as jurisdições locais das Ordens com as Coroa. em 1727-1730.º 27. fl. que analisar as possíveis especificidades envolverá equacionar outras áreas. fl. “verdadeiros” ou não. Resta. alguns municípios das Ordens Militares caracterizar-se-iam por apresentarem um duplo e hierárquico senhorio jurisdicional: o Mestre e abaixo dele. Fazer passar muitos poderes para as mãos dos comendadores era uma prática que suscitava receio ao centro político. tendo em vista apurar o significado real do exercício de poderes deste teor a nível local.º 28. L. ainda se temia a raiz eclesiástica destes institutos e o seu foro privativo. Os casos de Alpedriz e Alcanede merecem ser retomados. Chancelaria da Ordem de Avis. mas não obstante tal facto. pois nem todas seriam iguais. Seriam os municípios das Ordens diferentes? Note-se. sobretudo nos século XVII e XVIII. antes da tutela perpétua da Coroa sobre os três Mestrados. Desde logo. Em síntese. se bem que em muitos casos quem tomara a decisão fora o Desembargo do Paço e não nenhuma instâncias dos três Mestrados. L. o comendador. O rei era o Mestre. a emissão dos diplomas procurava assinalar a marca das Ordens Militares. Em que medida constituiriam excepções? A Ordem de Santiago era aquela que dispunha de maior número de terras com jurisdição. todavia. 301. ANTT.AS ORDENS MILITARES E O PODER LOCAL: PROBLEMAS E PERSPECTIVAS DE ESTUDO 123 vada na mesma família. importa aprofundar o problema da actuação concreta dos ouvidores. Valerá a pena saber se o sucedido em Mértola teve paralelo em todas as vilas espatárias. pois o poder local – designadamente no caso das Ordens Militares – não se circunscre- 49 Cf. Por parte dos seus membros. No começo de Seiscentos. No entanto. quando os comendadores e os senhores eram absentistas nas suas terras. 92. muito por esclarecer neste âmbito. os ouvidores eram encarados na época como ministros essenciais na defesa da património de jurisdições locais das Ordens Militares. com poderes delegados. Ou terá ocorrido apenas onde não havia “verdadeiro ouvidor”? Será fundamental analisar a documentação local das terras das Ordens e a efectiva composição das várias câmaras. não houve verdadeira incorporação. nomeadamente a religiosa e o direito de visitar igrejas e comendas. Não será também descabido comparar os poderes exercidos nestes municípios e nos senhoriais (no sentido dos administrados por donatários laicos ou religiosos). A Ordem de Avis. . Quanto mais não fosse. porém. ainda confirmava alguns ofícios nomeados pelo donatário49.

obrigando os comendadores a vendê-los na zona. estavam autorizados a vender fora das terras de origem dois terços da receita50. 246-247. . Por fim. apesar do absentismo típico dos comendadores a partir do século XVI. vide Joaquim Romero Magalhães. Estampa. pp. mesmo sem abarcar a jurisdição da vila. Enfim. 50 Sobre estas questões. Em anos de escassez frumentária. Na realidade podia não ser um elemento inócuo.124 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS via apenas ao direito de confirmar as câmaras e os restantes oficiais concelhios. convém pensar que a presença de uma comenda numa dada localidade. O Algarve Económico: 1600-1773. Algumas comendas espatárias do Algarve. formadas essencialmente por dízimos. Lisboa. No século XVIII. podia matizar a vivência local. constituíam bons exemplos. 1988. eram palco de conflitos porque a população e as câmaras impediam a saída dos cereais. apenas nos bons anos agrícolas. problemas que só a documentação local pode ajudar a aclarar.

AS ORDENS MILITARES E O PODER LOCAL: PROBLEMAS E PERSPECTIVAS DE ESTUDO 125 Anexos Vilas onde a Ordem de Avis teria seguramente a jurisdição. em meados do século XVI Vila Alandroal Albufeira Alcanede Alpedriz Alter Pedroso Avis Benavente Cabeço de Vide Cano Casal Coruche Figueira Fronteira Galveias Juromenha Mora Noudar Seda Seixo do Ervedal Vieiros Observações Mesa Mestral em 1532 Mesa Mestral Mesa Mestral Mesa Mestral em 1532 Elevada a Vila em 1538 .

1619-1631 FONTE: Regra da Cavallaria e Ordem Militar de S. XII. 1631.I. cap. Lisboa. tít. . Yorge Royz.126 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Comendas da Ordem de Avis C. Bento de Avis.

que não é nossa intenção ava* Investigação realizada no âmbito do projecto POCTI/1999/HAR/33560: O papel das Misericórdias na sociedade portuguesa de Antigo Regime: o caso da Misericórdia de Évora. as atenções centram-se. 2005. a que esteve a cargo da sociedade civil. de que resultou o livro Igreja. Edições Colibri e CIDHEUS-UE. as atitudes e os discursos relativos à pobreza e à miséria terem transformado estas questões num fenómeno político. Lisboa. desde cedo. Os Municípios no Portugal Moderno: dos forais manuelinos às reformas liberais Lisboa. Esclareça-se. é ainda a assistência institucionalizada aquela que melhor se conhece e sobre a qual se possui informações mais consistentes. realizado na Universidade de Évora em Junho de 2003. São precisamente estas duas instituições que constituem o objecto principal deste texto. Uma particularidade a que não será alheio o facto de. contudo. como bem se sabe – sobretudo devido ao quase desconhecimento das reais dimensões do papel que a Igreja desempenhou neste sector1 –. . Relações políticas e institucionais* LAURINDA ABREU (Universidade de Évora – Dept.Câmaras e Misericórdias. aliás. de História /CIDEHUS) Apesar de a recente historiografia sobre caridade e assistência se mostrar empenhada na reabilitação das formas de apoio e inter-ajuda ditas informais. Cabidos e Assistência na Península Ibérica (Séculos XVI-XVIII). Laurinda Abreu (ed. este pressuposto que esteve na origem do Colóquio Ibérico. XVI-XVIII). Nomeadamente. pp. 127-138. No contexto português. já que se sabe que foi no seio das comunidades que se encontrou a maioria das respostas aos sucessivos problemas criados pela transformação da economia e da sociedade que o Ocidente viveu ao longo do período moderno. as de âmbito local. caridade e assistência na Península Ibérica (sécs. Edições Colibri – CIDEHUS-UE. nas Misericórdias e nas Câmaras. É aliás por esta razão que a análise das políticas assistenciais e de saúde pública requer o estudo prévio das estruturas do poder e das relações sociais estabelecidas entre as diferentes organizações que o detinham. Muito especificamente. 1 Foi. Bispos. 2004. que os poderes se apressaram a gerir mais de acordo com os seus próprios interesses do que com as necessidades dos pobres.).

De entre as transformações registadas merecem destaque. 1988. A. finalmente. 2nd ed. Lisboa. em termos muito directos. nalguns casos. vejam-se os trabalhos de P. Basicamente o que nos interessa é identificar as principais competências das duas entidades no que respeita à saúde e ao bem-estar das populações – num tempo em que estes serviços eram organizados localmente mas não municipalizados –. 1995 e a de Robert Jütte. diversificaram a oferta em termos de institutos assistenciais apostando na sua especialização. . a forma como o sistema evoluiu. o carácter meramente introdutório de todas as considerações realizadas. Um trabalho que desenvolveremos a partir da identificação das linhas que orientaram a reforma da assistência iniciada em Portugal nos finais do século XV e dos objectivos políticos da actuação régia. dentro das limitações existentes. para. consequentemente. acabou por a interditar2. como é do conhecimento geral.História da Miséria e da Caridade na Europa. tornando mais violenta a legislação que. um longo período de profundas mudanças que não deixaram incólume nenhum grupo social. sobretudo. as implicações decorrentes de um modo de actuação cujas directrizes emanavam da Coroa que. questionar as consequências sociais de tais decisões. dos incontroláveis fluxos migratórios. Cambridge. avaliando. de facto. Expansão urbana e reorganização da caridade: as linhas de intervenção da Coroa portuguesa A partir da segunda metade do século XV o Ocidente viveu. da mendicidade. A Piedade e a Forca . Refira-se. e nalguns casos controlou. nem mesmo caracterizar os mecanismos político-institucionais que sustentaram a interdependência entre ambos e fortaleceram a sua capacidade de intervenção nas respectivas comunidades. de forma mais ou menos organizada. de saúde pública que as cidades enfrentaram – estas a cargo das autoridades locais. Poverty and Policy in Tudor and Stuart England. assumidas aqui como mero ponto de partida para uma investigação de maior envergadura. condicionou. Poverty and Deviance in Early Modern Europe. Slack. pela oposição que as caracteriza. estrutura política ou sector económico. todavia. 1996.128 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS liar os fundamentos jurídicos das relações desenvolvidas entre as Santas Casas e os municípios. e reforçaram o controlo da mendicidade. 2 Das imensas obras que abordam esta questão. Foram as cidades.. London. Especificamente para a realidade inglesa. experimentaram novas formas de assistência e novas políticas sanitárias. que. as tendências políticas – claramente centralizadoras – e a procura de soluções para os problemas sociais decorrentes das novas situações de pobreza. destaquem-se a de Bronislaw Geremek. e.

Das linhas mestras da intervenção manuelina nos mecanismos de caridade e assistência apenas se alteraria a que conduziu a reorganização hos- 3 Cf. Assim aconteceu com a reforma geral dos hospitais ordenada por D. uma vez que aqui as políticas “modernas” de assistência aos pobres emanaram da Coroa e tiveram uma dimensão nacional. VI. que tinha a particularidade de ser centralizada e orientada a partir da Coroa. com a assistência às crianças desprotegidas. Um elemento que seria matricial no processo a que agora se dava início era a não articulação entre as diferentes instituições detentoras de responsabilidades assistenciais e de saúde pública. 420-421. 2002. pp.CÂMARAS E MISERICÓRDIAS: RELAÇÕES POLÍTICAS E INSTITUCIONAIS 129 Sendo esta uma forma de actuação comum à maioria dos Estados Europeus. que esteve na origem de vários Hospitais Gerais – uma reforma que foi precedida de inquéritos (1499 e 1501) que avaliaram o estado do património dos hospitais e demais institutos pios e aferiram do cumprimento da vontade dos seus instituidores –. tratou-se de uma reorganização das estruturas assistenciais e das suas competências de âmbito social alargado. Laurinda Abreu. 2ª série. mas também com atribuições ao nível da repressão da mendicidade (diploma de 8 de Julho de 1503) –. ainda que marcada pelos particularismos locais. o das Misericórdias. Não nos princípios ideológicos ou nos objectivos programáticos mas sim na forma como foi conduzido. e. Ponta Delgada. com a fundação das Misericórdias – que o rei incentivou também em 1499. Com esse objectivo a monarquia convocou «os melhores das terras». o processo teve em Portugal características próprias que o individualizaram dos restantes modelos. ainda. confrarias que nasciam com uma renovada dinâmica de intervenção social. . História. que eram agora chamadas a associar-se a um projecto novo. Manuel I no início do seu reinado. as suas incumbências institucionais eram diferentes conforme o lugar que ocupavam. distinção que os visados respeitavam muito particularmente quando as suas atitudes tinham repercussões económicas. Arquipélago. Como temos vindo a defender já há algum tempo. ainda que os responsáveis pelas Misericórdias e pelas Câmaras pudessem ser os mesmos – frequentemente em sistema de rotatividade entre as duas instituições –. procurando dotar o país de uma rede de confrarias especialmente vocacionadas para o apoio aos presos e aos pobres. ao mesmo tempo que pretendia mobilizar os poderes locais para a sua execução. “A especificidade do sistema de assistência pública português: linhas estruturantes”. O mesmo é dizer. as elites já representados nas Câmaras Municipais. que pela primeira vez viam reconhecido na lei (Ordenações Manuelinas) o seu direito à protecção3.

2003. (Agradecemos ao Dr.º 8. competência que a Coroa já tinha recuperado no reinado de D. quando se intensificou a promulgação de diplomas que as submetem a rigorosa regulamentação. n. Cf. 30-31. 110-111. 64 e ss. Ler História. a Igreja lutava pela recuperação do controle dos hospitais. Santa Casa da Misericórdia de Setúbal. 5 Cf. numa orientação que de resto o próprio inflectiu acabando por reconhecer estas confrarias com vocação específica para a gestão dos hospitais4 – e a relativa ao combate à mendicidade e vagabundagem. pp. in Ole Peter Grell. Cambridge. “ Poor relief in Counter-Reformation Castille: An overview”. 6 Conforme chamámos pela primeira vez a atenção no nosso trabalho. Se este for estrita4 Conforme se pode concluir da leitura do alvará de 6 de Janeiro de 1518 pelo qual o rei retirou à confraria do Espírito Santo de Montemor-o-Novo o hospital que ela administrava entregando-o à Misericórdia com justificação de que a Santa Casa era a instituição melhor vocacionada para a administração do referido hospital . por exemplo. na Europa católica. Consequências da intervenção da Coroa nos mecanismos assistenciais Em termos de resultados sociais a avaliação da eficácia da actuação da monarquia portuguesa nas matérias referidas apresenta indicadores diferenciados consoante o ângulo de análise adoptado. Poverty and welfare in Habsburgo Spain. 1999. . Manuel começou por separar das Misericórdias. que foi durante a regência de D. a que se seguiu a transferência. 1983. dos hospitais para a sua administração6. sistemática e continuada. 1990. Henrique que o direito nacional incorporou o privilégio das Misericórdias como confrarias de tutela régia5.130 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS pitalar – que D. Linda Martz. pp.) Health Care and Poor Relief in Counter-Reformation Europe. Um movimento que se reveste de uma importância crucial dado o facto de ocorrer num momento em que. Andrew Cunningham and Jon Arrizabalaga. pp. London and New York. n. Recorde-se. Os dois governantes que depois de D. Henrique e Filipe II – não só não se afastariam das orientações iniciais como reforçaram as intervenções centralizadoras verificadas no início do século. pp. Cambridge University Press.º 44. Tendência que depois seria continuada pelo monarca espanhol que reforçou em Portugal as condições de intervenção da Coroa nos diversos ramos da assistência institucionalizada enquanto lançava em Castela o processo de centralização hospitalar7. E também Jon Arrizabalaga. 7 Cf. 1990. 151-176. pp. Lisboa. Jorge Fonseca a indicação deste documento). “Misericórdias: patrimonialização e controle régio (séculos XVI e XVII)”. Laurinda Abreu. Almansor – Revista de Cultura. João III. Manuel mais marcaram o rumo da assistência portuguesa no século XVI – o Cardeal D. 5-24. (ed. Setúbal. A Santa Casa da Misericórdia de Setúbal de 1500 a 1755: aspectos de sociabilidade e poder.

a acção centralizadora da Coroa conseguiu não só o apoio de alguns prelados como impediu. mesmo conciliatória. se é verdade que o rei confiou aos leigos a responsabilidade por uma parte considerável da assistência institucionalizada à pobreza. e realizado numa perspectiva de longa duração. que escorava economicamente as instituições assistenciais. e bastante mais negativa. as consequências destas políticas ao nível das comunidades locais. Viseu. Os benefícios daqui recolhidos pela Coroa são evidentes. parte I. Isto porque. os reis portugueses poderiam. ao centralizar nas Misericórdias a assistência a vastos sectores da sociedade e ao fazer depender da Coroa a legislação relativa à mendicidade. tratou-se de um jogo de equilíbrio de forças que foi capaz de evitar. Duarte Nunes do Lião. as polémicas que o tema da assistência estava a suscitar no resto da Europa. 177-178. 9 Citado por Bronislaw Geremek. 153-171 e desenvolvemos em “A difícil gestão do Purgatório: os Breves de Redução de missas perpétuas do Arquivo da Nunciatura de Lisboa (séculos XVII-XIX)”. a monar- 8 Cf. Em Portugal. (a publicar na revista Penélope). nesse sentido. pelo menos em Portugal. Dependente da caridade e piedade dos cidadãos sim. que em 1586. com plena propriedade e menores custos políticos. Isto porque. Lisboa. Fundação Calouste Gulbenkian. XVI.História da Miséria e da Caridade na Europa. tomar para si as palavras do monarca francês. pp. as opções da Coroa podem ser consideradas como uma solução de compromisso. Na nossa perspectiva. como bons cristãos. 1987. Paralelamente. respondia assim ao pedido que os estados gerais lhe haviam dirigido solicitando apoio económico para o combate ao problema da pobreza: “sua majestade não pode dar dinheiro algum para o sustento dos ditos pobres pois essa é uma questão que depende da caridade e da piedade que os bons cidadãos. nomeadamente em relação à reforma dos hospitais e demais instituições caritativas. lei 2. 1999. A Piedade e a Forca . também é certo que a manteve sob os princípios religiosos tradicionais. o mesmo é dizer. . por exemplo. da Santa Sé que permitiria aos hospitais a utilização dos bens deixados para a celebração das missas pelas almas do Purgatório para o financiamento das suas actividades assistenciais10. o surgimento de conflitos liderados por leigos contra a aplicação das determinações do concílio de Trento. ligada à caridade. tit. 10 Assunto que iniciámos em Memórias da Alma e do Corpo – a Misericórdia de Setúbal na Modernidade. Palimage Editores. mas também. a mesma provisão que reconhecia a tutela régia sobre as Misericórdias (2 de Março de 1568) reforçava a posição da Igreja na sociedade portuguesa8. E. entre a sociedade civil e a Igreja. ao que cremos. pp. Leis Extravagantes e Reportório das Ordenações. devem exercer para bem do próximo”9. Relevam de uma ordem diferente.CÂMARAS E MISERICÓRDIAS: RELAÇÕES POLÍTICAS E INSTITUCIONAIS 131 mente político.

Contudo. Só para dar um exemplo. temas recorrentes nas actas das sessões camarárias. 1614. É certo que a maioria mantinha à custa das rendas dos concelhos um médico. veja-se o nosso texto. 13 A questão da hospitalização esteve longe de ser pacífica no tempo em estudo. no auge das crises. Aqui sim. 11 Para o caso de Évora. os monarcas facilitaram a desresponsabilização dos municípios em relação a esta questão. Granada. Rellaçam sumaria da vida do Illustrissimo senhor Dom Theotonio de Bragança. a existência de tais profissionais não permite afirmar que as municipalidades administravam uma estrutura de assistência social minimamente consistente. As provas de que as câmaras procuraram não se envolver demasiado na organização da assistência pública são múltiplas e bastante elucidativas. Além do mais. por exemplo). cerceando-lhes quaisquer hipóteses de intervenção na escolha dos meios mais adequados à especificidade de cada espaço (como aconteceu em França. Francisco Simões. o poder local tendia a esquecer. Porém. quase sempre de peste. perante situações de epidemia ou de ameaça de epidemia. uma parteira e uma sanguessugadeira. tão importantes em termos sociais e de saúde pública como os anteriores. ao não financiar o sistema criado. o caso da criação dos expostos que muitas câmaras transferiram para as Misericórdias assim que lhes surgiu a primeira oportunidade. entre 1579 e 1637”. e ao impedir a tributação específica para custear esse tipo de despesas – a não ser se os impostos se destinassem aos enjeitados – . a propósito. em Évora. no entanto. e de forma particularmente activa. Sobre . a correlação directa que se estabelecia entre a pobreza e a dimensão das epidemias. A frágil situação financeira de muitos concelhos assim o determinava. O receio do contágio e da propagação das doenças tornava importante a limpeza dos espaços públicos e a manutenção da salubridade das águas. na maioria das cidades portuguesas a criação de hospitais temporários para os pestilentos foi fruto da iniciativa privada e da intervenção da Igreja12 e raramente dos municípios. o seu papel em termos sanitários. elaborassem planos para a sua construção. logo que a situação acalmava tais projectos eram abandonados13. Évora. 12 Importantes informações sobre o assunto podem colher-se em Nicolau Agostinho. Diferente era.132 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS quia condicionou a actividade das autoridades municipais. Veja-se. para além da duvidosa eficácia da maioria das medidas tomadas11. “A cidade em tempos de peste: medidas de protecção e combate às epidemias. um sangrador – que quase sempre acumulava as funções de cirurgião –. Comunicação apresentada no VII Congreso ADEH. a actividade e intervenção dos centros urbanos faziam-se sentir. Embora as edilidades reconhecessem a sua utilidade e necessidade e. Abril de 2004. O mesmo aconteceu com os hospitais para convalescentes. pelas razões aduzidas.

estas instituições não tinham representação política. Todavia. Mouton. porque. as suas reivindicações não tinham peso nas decisões camarárias. Em primeiro lugar. naturalmente. Universidade Católica/União das Misericórdias Portuguesas. 14 São muitos os exemplos de alvarás régios encontrados nas Chancelarias Régias onde se ordena às Câmaras que concedessem determinadas esmolas às Misericórdias. este assunto. regra geral. em termos de assistência pública. vide Jean-Noel Biraben. p. uma questão bastante pertinente se impõe: porque é que não houve em Portugal. procurando que as municipalidades respeitassem os acordos financeiros estabelecidos tendo em vista a partilha das despesas16. frequentemente governadas pelos mesmos homens. . Les Hommes et la peste en France et dans les pays européens et méditerranéens. Como bem se sabe.CÂMARAS E MISERICÓRDIAS: RELAÇÕES POLÍTICAS E INSTITUCIONAIS 133 Chegados a este ponto. Do meu ponto de vista essa articulação não existiu por duas razões principais. faziam-no a título de esmola e. uma actuação concertada como ocorreu noutros espaços europeus? Não nos referimos. no caso da criação dos enjeitados. quando os atendiam. 1975. à realização de acordos prévios entre o poder político e o religioso – ainda que eles pudessem existir. Vejam-se alguns casos que arrolámos em “As Misericórdias portuguesas de Filipe I a D. depois de muito pressionados pelo poder central – que várias vezes obrigou as Câmaras a concederem esmolas às Misericórdias14 – e pelas próprias confrarias. das Câmaras e das Misericórdias. Lisboa. Mormente. 1887 e 1888. quase sempre. Portugaliae Monumenta Misericordiarum. a assistência foi mantida demasiadamente ligada à «doutrina religiosa da caridade» que assumia a pobreza como uma questão ideológica. muito mais frequente. p. 63. tomos II e III. mas à conjugação de esforços tendo em vista um fim que era do interesse da comunidade e dos seus líderes. e como já mencionámos. porque sendo confrarias. 16 Os casos que melhor conhecemos são os de Setúbal e Lisboa mas muitos outros poderiam ser apresentados. 15 Como aconteceu em Lisboa e é abundantemente documentado por Eduardo Freire de Oliveira. Lisboa. João V”. muito especificamente quando os seus hospitais soçobravam ao peso dos surtos epidémicos15 ou. por opção da monarquia. Elementos para a história do município de Lisboa. Ou seja. Não significa isto que os senados não respondessem aos pedidos de ajuda financeira que as Santas Casas lhes dirigiam ou que ignorassem completamente os problemas em análise. eram caritativos os pressupostos em que assentavam as estruturas das principais instituições assistenciais e eram religiosos os princípios registados nos estatutos que as governavam. o que aqui quer dizer. Em segundo lugar. como aconteceu em Évora –. e centrando-nos exclusivamente no caso das Misericórdias. dos vereadores e dos mesários das confrarias. 173. Typographia Universal. 2002.

João V”. é que se assiste a acções harmonizadas entre a Coroa. Houve-os sim. libertando as suas receitas. E alguns deles verdadeiramente extraordinários. o cerne da questão. Todavia.134 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS A bem da verdade. Sem 17 18 Cf. desse ónus. O resultado destas duas circunstâncias (natureza caritativa da assistência e ausência de representação política por parte das Misericórdias) parece-nos previsível: as Câmaras não se consideravam economicamente responsáveis nem pela assistência hospitalar nem pelas demais valências assistenciais asseguradas pelas Misericórdias ou pela Igreja. Enquanto mesários. ultrapassando o permitido e o eticamente correcto. não raras vezes. Isto porque. esperava-se que actuassem como “bons cristãos. se tentar controlar a miséria urbana e as elevadíssimas taxas de mortalidade hospitalar. a Câmara e a Misericórdia para. os notáveis locais agiam como políticos. 47-77. Na verdade. O financiamento da assistência pública é. Do “Alvará em que se determinou que os provedores e officiaes da Mesa da Misericordia e hospitaes não podessem arrematar para . “As Misericórdias portuguesas de Filipe I a D. não parece terem existido em Portugal conflitos jurisdicionais a propósito da assistência como houve em outros pontos da Europa. Elementos para a história do município de Lisboa. colhendo os benefícios que a lei lhes concedia por exercerem tão importantes funções. E. através da imposição de tributos às populações. e graves. para voltar a utilizar a expressão atribuída a Henrique III. como claramente se infere do diploma filipino de 6 de Dezembro de 1603 – que junta vereadores e responsáveis pelas Misericórdias na mesma acusação de usurpadores dos bens das referidas instituições. e estas não privilegiavam a assistência. quando estavam nas Câmaras. Sempre que possível. São inúmeros os exemplos que o documentam. com responsabilidades específicas. pelo menos no meu entender. E nesta imbricada relação institucional entre as Câmaras e as Misericórdias nem sequer se pode falar na existência de contradições. só em situações que poderiam ser consideradas de calamidade pública. pp. cit. como as que se viveram em Lisboa na passagem do século XVI para o século XVII. A partir da obra de Eduardo Freire de Oliveira. em prejuízo do bem público19. para bem do próximo”. finda a crise. 19 Um diploma praticamente esquecido dos historiadores mas que contêm importante informação para o problema em análise. regressava a normalidade. quase sempre reduzidas. entre as autoridades municipais e as Santas Casas por questões económicas e de gestão patrimonial. As disposições eram provisórias e excepcionais e não alteravam o sistema instituído nem a forma como estava organizado17. de resto. como os que recolhemos da documentação que neste momento estamos a tratar para Lisboa18.

Tomo I. em nada contribuiu para a excelência desse mesmo sistema. A ausência de regulamentos que definissem prioridades assistenciais e. villas e lugares deste reino repartem entre si e as pessoas que costumão andar na governança. à Coroa e às elites locais. trazem usurpadas as mais propriedades da Misericordia. ao defender o direito da liberdade da esmola e da mendicidade. Coimbra. conforme demonstrámos em trabalhos anteriores. pelo menos. as propriedades do concelho. sobretudo. em simultâneo. 20 Conhecemos vários exemplos desta situação. Collecção Chronologica de Leis Extravagantes posteriores á nova compilação do reino das Ordenações do Reino. repartindo-as entre si e seus parentes. no seu preâmbulo: «Eu ElRei faço saber aos que este alvará virem que sou informado que os vereadores e officiaes das camaras de muitas cidades. que são de minha protecção. A primeira porque cerceou a capacidade de intervenção das autarquias. assi para as despesas da Misericordia e hospitaes. atente-se.CÂMARAS E MISERICÓRDIAS: RELAÇÕES POLÍTICAS E INSTITUCIONAIS 135 esquecer o manancial de informações sobre as irregularidades de gestão patrimonial cometidas pelos irmãos que nos são transmitidas pelas actas e contabilidade de muitas Santas Casas20. e os sobejos dellas gastão sem ordem alguma. a ideologia que estava subjacente ao sistema criado. os centros urbanos portugueses não tiveram ao longo do Antigo Regime uma política estruturada de assistência aos pobres ou mesmo de saúde pública. devendo as responsabilidades serem acometidas. 17-18. pagando pouco ou nada ao concelho. dos lugares aonde a ha. 1819. por sua vez. dificultava a gestão racional das capacidades assistenciais das Misericórdias e de outras instituições similares. As formas institucionais de apoio que existiram nas duas áreas pautaram-se pela desorganização e ineficácia. faltam-nos estudos comparativos que nos permitam avaliar se. Dezenas de documentos das Chancelarias Régias atestam situações semelhantes registadas um pouco por todo o país. pp. Para concluir. ainda que mais em pormenor o da Santa Casa da Misericórdia de Setúbal. porque não reclamaram poderes neste campo a não ser em tempos de crise ou em questões de índole sanitária. como para as dos concelhos (…)». de que resulta mui grande prejuizo ás rendas dos concelhos e obrigações das ditas confrarias da Misericordia. si cousa alguma”. dando-as uns aos outros com título de arrendamento. e que tomão sobre si as rendas das correntes. na Real Imprensa da Universidade. o que he causa de faltar sempre dinheiro para as cousas necessárias. na minha opinião. publicadas em 1603. os alvos a atingir e os métodos a usar. E que outrosi os provedores e officiaes das confrarias da Misericordia. a realidade portuguesa foi efectivamente mais negativa que a de outros países onde se desenvolveram formas de organização e de financiamento da assistência que a tornaram mais profissional e menos permeável às contingências das doações particulares. Por outro lado. em termos de resultados sociais. . e estas. Todavia.

que a deixou registada de uma forma clara nos Estatutos da Piedade: ao Hospício cabia o acolhimento temporário dos pobres. por exemplo. se não contou com a participação do município. a mulher e controlo social: o colégio de S. Teotónio de Bragança. XVI-XVIII). Coimbra. na verdade. em publicação no volume de homenagem ao Professor José Marques. 2002/2003. Teotónio de Bragança (1578-1602). a cidade cumpriu um projecto assistencial que. O seu principal mentor foi o Arcebispo D. que o Hospital do Espírito Santo. Igreja. pp. caridade e assistência na Península Ibérica (sécs. pp. “Trento. administrado pela Misericórdia. vol. A necessidade de separar competências foi. 22 Continuamos à procura da documentação deste instituto que complemente as dispersas informações que sobre ele possuímos. uma preocupação recorrente nos escritos de D.136 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Aparentemente parece-nos que sim. 23 Cf. A existência do Hospício da Piedade permitiu. porque o intento desta hospedaria he remediar as necessidades dos saos. quando nos centramos em Évora. peregrinos e convalescentes. entre o arcebispado e a Misericórdia. detectamos que. da existência de relações institucionais minimamente organizadas. 5-VIII – Livro dos estatutos desta casa. “Revista Portuguesa de História”. Cec. Manços”. que tenhão pera isso hospitaes»24. beneficiou. 275-289. demarcar esferas de influência ou afirmação de poderes. Por exemplo. Tomo XXXVI. Transcrição apresentada no nosso texto “O hospício e irmandade da Piedade. melhor dizendo. . O seu objectivo não era. Universidade do Porto. Nunca doentes «de qualquer infermidade das que em o dito hospital costumão curar. pelo contrário. Faculdade de Letras. e hospedaria dos pobres de Nossa Senhora da Piedade da cidade de euora. “Reclusão e controle dos pobres: o lado desconhecido da assistência em Portugal”. e não curar as infirmidades dos doentes.527-540. autor de várias reformas no domínio da assistência que dotaram a cidade de estruturas com algum grau de especialização ao nível da assistência às raparigas de elevado estatuto social – Recolhimento de S. Manços21 –. pelo menos durante três ou quatro décadas. mas. I. se dedicasse mais especificamente ao tratamento dos doentes e perdesse durante algum tempo a 21 Sobre as vicissitudes inerentes a este Recolhimento leia-se Marco Liberato. em Évora – uma experiência de reclusão e controle de pobres em Portugal”. com consequente partilha de responsabilidades entre a Igreja e a comunidade. potenciar resultados. Mas as generalizações são potencialmente perigosas e comportam riscos demasiado elevados. in Instituicoes e regimentos que pertencem ao padroado do arcebispado de Évora mandados collegir pelos senhores Deão e Cabido sede vacante em Junho de mil e seiscentos e trinta e quatro annos. 24 Arquivo do Cabido de Évora. contudo. pelo menos. às prostitutas – Recolhimento da Madalena22 e aos pobres e mendigos – Hospício e Irmandade da Piedade (1587)23. Laurinda Abreu.

chamemos-lhe. pp. O seu propósito era procurar garantir a sobrevivência dos seus pobres: os milhares de migrantes sazonais que anualmente acorriam ao Hospital do Espírito Santo. caridade e assistência na Península Ibérica (sécs. particularmente interventora em tempos de desordem do quotidiano. fundado pelo cónego Manuel de Faria Severim. São Manços e Madalena e. podemos afirmar que a intervenção de D. em tempos de peste29. 25 Cf. Uma segunda. in Évora. mais material. no Colégio dos Órfãos. um cirurgião e um sangrador. assente em três realidades de certa forma distintas ainda que complementares. era assegurada pela Igreja e ministrada nos Recolhimentos da Piedade27. ou seja. A estas vertentes da assistência acrescia ainda a questão da mendicidade e da vagabundagem. conforme se conclui da análise dos registos de entradas no referido hospital nos anos que se seguiram à criação do hospício25. problemas de maior importância para as urbes. Ainda que analisada à escala local. cobria um vasto leque da população e estava a cargo da Misericórdia. circunscrita a um pequeno grupo de naturais de Évora26. Colégio dos Órfãos e Colégio de S. cada uma delas entregue a uma equipa constituída por um médico. Manços. ainda que com algum anacronismo. Menorca. . Lázaro. da responsabilidade da Câmara Municipal. 27 Algumas informações sobre esta instituição já exclusivamente com funções de recolhimento para raparigas pobres podem encontrar-se em Sílvia Mestre e Marco Loja. Igreja. “The Hospital do Espírito Santo. “O recolhimento de Nossa Senhora da Piedade de Évora: uma instituição de assistência pós-Tridentina”. de assistência social institucionalizada. pedagógica e moralizadora. XVI-XVIII). Os inúmeros registos de “doentes da Piedade” que se encontram no hospital e as referências a “convalescentes da Misericórdia” existentes na documentação da Piedade mostram bem até que ponto foram cumpridos os propósitos dos mentores deste projecto. A primeira de cariz educacional. o nosso texto. mas que estava quase exclusivamente sob o controle da Coroa. desde 1649. as órfãs dotadas para casamento. 28 Basicamente tratava-se de um sistema de apoio domiciliário em que a cidade era dividida em “quadrelas”. finalmente. Maio de 2003. as crianças que eram depositadas no Hospital de S. and its relationship with the city”. 26 Conforme os dados que já coligimos para os recolhimentos da Piedade. centrada nas questões de saúde pública. os presos ou os doentes das quadrelas28.CÂMARAS E MISERICÓRDIAS: RELAÇÕES POLÍTICAS E INSTITUCIONAIS 137 valência de albergue para pobres. uma terceira. as mulheres sozinhas que eram subvencionadas regularmente. E. 291-298. comunicação apresentada ao I Encuentro de Demografía Historica de la Europa Meridional. Teotónio contribuiu para a fixação de um sistema.

em Évora. XVI-XVIII). Com relativa autonomia. durante os surtos de peste. entre 1579 e 1637”. Igreja. ainda em curso. Ou seja. elas seriam igualmente chamadas a gerir os destinos das Misericórdias. nomeadamente. Neste sentido. E se é verdade que poucas cidades terão beneficiado de uma intervenção tão dinâmica e abrangente como aquela que D. “O relacionamento do Arcebispado com a Misericórdia de Évora entre 1552 e 1643”. também para as questões da assistência o rei estava dependente do bom desempenho das elites locais30. 31 Veja-se uma síntese da evolução da legislação relativa a esta questão em “As Misericórdias portuguesas de Filipe I a D. e justificámos. João V”. cit. Já representadas nas Câmaras. caridade e assistência na Península Ibérica (sécs. 30 Para o caso especifico de Évora consultem-se os trabalhos de Rute Pardal. O que se repetia quando. Teotónio protagonizou em Évora nas décadas finais de Quinhentos. também não é menos correcto que as linhas mestras que enquadraram a sua actuação tinham sido definidas pelo governo central.138 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Este trabalho de reconstituição das estruturas assistenciais da Évora moderna. 225-237. permitiu-nos dar fundamento documental à tese que temos vindo a defender segundo a qual as medidas de carácter centralizador tomadas pela monarquia portuguesa durante o século XVI foram determinantes para a forma como o sistema evoluiu ao longo dos dois séculos seguintes. pp. Portugaliae Monumenta Misericordiarum. . à imposição dos próprios provedores. como bem demonstram as sucessivas interferências régias no quotidiano de muitas Misericórdias. 49-51. o que conduziu. nalguns casos. 29 Como escrevemos. muitas vezes sem consultar os vereadores. como aconteceu frequentemente desde o início do século XVIII31. não só por razões financeiras. anulava as deliberações camarárias. pp. É certo que a capacidade de a Coroa impor as suas políticas a todo o país era bastante limitada e. o não incentivo à partilha de responsabilidades assistenciais entre os dois principais órgãos do poder local não pode deixar de ser visto como uma afirmação de poder por parte da monarquia. em “A cidade em tempos de peste: medidas de protecção e combate às epidemias. mas sem capacidade para procederem a mudanças estruturais. é indiscutível.

à autonomia que ambas gozaram – embora esta fosse tutelada pelo rei. ao nível administrativo/jurídico e financeiro. consubstanciada na liberdade de promulgação das posturas ou acórdãos de cariz organizativo da realidade local. Livro I. 2003. referimo-nos. Nesta linha de pensamento. dos processos eleitorais. Universidade de Évora. 139-148. nomeadamente a nível administrativo/jurídico. Ordenações Afonsinas. e por isso relativa. por exemplo. Cf. um universo muito mais restrito que o das edilidades. Edições Colibri – CIDEHUS-UE. 34. naturalmente. 2005. Título Os Municípios no Portugal Moderno: dos forais manuelinos às reformas liberais Lisboa.As relações entre as Câmaras e as Misericórdias: exemplos de comunicação política e institucional RUTE PARDAL (CIDEHUS) 1. Comecemos. 1 Cf. A importância desta competência revelou-se na irrevogabilidade das suas decisões quer por parte do representante local do rei – o Corregedor2 –. financeiro. quando nos referimos às similitudes entre Câmaras e Misericórdias. pp. 2 Assim se infere da leitura das Ordenações. pois. As elites de Évora ao tempo da dominação filipina: estratégias de controle do poder local (1580/1640). Se são bem conhecidas as relações institucionais entre as Câmaras e as Misericórdias. . (dissertação de mestrado policopiada). Rute Pardal. Em termos administrativos. p. Évora. em termos jurídicos e jurisdicionais. pelas Câmaras. quer por parte do próprio rei. 2. que abrange nesses dois domínios toda a população residente1. o que mais se destacava era a capacidade legislativa que possuíam. também sabemos que as duas instituições partilhavam características semelhantes. Isto apesar das diferenças óbvias entre ambas. as Misericórdias são. e da base de recrutamento social dos seus órgãos directivos.

entre outros. documentos para a História do Porto. p. Todavia. Lisboa. Ou seja. Belchior da Maia foi . Competia-lhe também zelar pela higiene e saúde pública. 7 No caso de Évora. Câmara Municipal do Porto. O Porto e o seu termo (1580 – 1640). vide José Viriato Capela. assim como de todas as manufacturas produzidas pelos artífices5. 1995. 4 Cf. História de Portugal. 1993. Absolutismo e Municipalismo em Évora: 1750-1820. Teresa Fonseca. regra geral. reservando-se normalmente para as posturas a fixação do custo das obras dos mesteres4. a tarefa não era fácil uma vez que se. § 28. sanitárias e de policiamento. vol. Joaquim Romero Magalhães. Francisco Ribeiro da Silva. (José Mattoso dir. os arranjos das calçadas e arruamentos. Daí a preocupação dos concelhos em lançar posturas e vigiar o seu efectivo cumprimento. a fragilidade ou mesmo inexistência de um sistema de saneamento público não só dificultava o trabalho legislativo. Círculo de Leitores. Título XLVI. sem ir mais longe.III. Porto. «Os concelhos». a acção concentrava-se. Livro I. a alçada do concelho estendia-se àquilo que definiríamos como «sector das obras públicas»: ou seja. Ainda no domínio agrícola. 629-630. Universidade do Minho. O Minho e os seus municípios. Título LXVI. Lisboa. 5 Apesar de alguns destes aspectos já estarem conformados nos forais.140 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS O âmbito desta autonomia dos concelhos foi. as especificidades das situações e o subsequente desajuste dos mesmos exigia um constante preceituar regulamentador. por outro. a falta de hábitos de higiene era generalizada. e acabavam por taxar praticamente todos os géneros alimentares. Livro I. em matérias agrícolas. 2002. 6 Cf. §16. a acção das Câmaras alargava-se à tributação e ao tabelamento dos produtos cerealíferos e. a regulamentação do quotidiano. preocupações maiores para comunidades demograficamente carentes e financeiramente debilitadas. Arquivo Histórico. chafarizes e fontes6. temos a evidência dessa mesma dificuldade em vigiar cabalmente a limpeza da cidade.). em sectores vitais para a comunidade. Edições Colibri. prioritariamente. 3 O assunto já foi referido por vários autores: Entre eles. De facto. XXVII. Ordenações Manuelinas. das carnes e do peixe. § 9. sobre o despejo de detritos nas ruas devido às consequências que tais actos poderiam ter em termos de propagação das doenças. nomeadamente o importante sector do abastecimento3. A nível urbano. especialmente temidas em tempos de peste. 179. ainda. estradas e pontes. Os homens. Braga. Em termos práticos seriam os Almotacés que tomariam contacto diário com os vendedores de todos esses produtos. Ordenações Filipinas. cabia à vereação providenciar de modo a fornecer a população dos bens alimentares e manufactureiros. Na sessão de vereação de 5 de Janeiro de 1618. pp. Por outro lado. 1988. como também a obrigação do cumprimento das posturas por parte dos oficiais concelhios7. XLVI. E. as instituições e poder. por um lado.

Esta seria. juntamente com a administração do Hospital de São Lázaro10. Título CXVII. (Cf. os hospitais ou albergarias. Arquivo Distrital de Évora. ou. Livro dos Privilégios do Hospital. 54-55). 1990. Por outro lado. 679). 77. em alternativa lhe retirasse o encargo da criação. à missiva da Misericórdia. Paulatinamente.º 47. ASCME). Mas a autonomia administrativa dos concelhos seguia lado a lado com a autonomia financeira. alguns concelhos acordaram em comparticipar nas despesas com as crianças. que abrangia as respectivas amas. na sua ausência. September 13th-16th. ADE. Isabel Guimarães dos Sá. foi nas Ordenações Manuelinas – a primeira vez que em Portugal se legislou sobre esta matéria –. Lisboa. n. Em 1618 retornou à Santa Casa. Esta consubstanciava-se na faculdade dos próprios admoestado por se constar que as ruas da cidade estavam muito sujas. fl. 8 Nestas Ordenações estabeleceu-se uma espécie de hierarquização de responsabilidades relativamente à criação dos enjeitados. e quase sempre associada ao movimento de anexação dos hospitais às Santas Casas da Misericórdia. (Cf. ainda. pp. 11 O rei respondeu. «The Évora foundlings between the 16th and 19th centuries: the Portuguese public welfare system in analysis».RELAÇÕES ENTRE AS CÂMARAS E AS MISERICÓRDIAS 141 Sobre outro domínio. 1995. 2001. que ficaria com esse serviço até que a legislação liberal lho tirou. Todavia. antigo Provedor do dito Hospital. os concelhos tiveram competências importantes. Livro 9. n. nomeadamente no que respeita à criação dos enjeitados. Arquivo da Santa Casa da Misericórdia de Évora (doravante ADE. Arquivo da Câmara Municipal de Évora (doravante ADE. ACME). European Association for the History of Medicine and Health – 5th Conference. seriam responsabilizados. JNICT. que pedia «que lhe desse renda» para que pudesse criar os enjeitados comodamente. E. Na verdade. por ordem de prioridade. fls. ou se quisermos da assistência. Ordenações Manuelinas.º das actas da Câmara. nem sempre o dito acordo foi cumprido. em primeiro lugar. a criação dos expostos seria transferida para a alçada destas últimas9. Santa Casa da Misericórdia de Setúbal. obrigação dos pais e. e os concelhos. desta forma. Livro I. 10 Apesar das tentativas de embargo por parte do reitor do mosteiro de São João. (Cf. Cf. Setúbal. por exemplo. Geneva Medical School. e aí ficaria até 1586. A Santa Casa da Misericórdia de Setúbal de 1500 a 1755: aspectos de sociabilidade e poder. Laurinda Abreu. Health and Child Care and Culture in History. ADE. 9 Apesar da responsabilidade dos enjeitados ter passado para as Misericórdias. Em Évora. Fundação Calouste Gulbenkian. pouco depois da sua criação. ASCME. Idem. (Cf. o que incluía a assistência médica. 55-66. o cuidado dos expostos foi entregue à sua Misericórdia em 1568. Livro dos Privilégios do Hospital.º 47. § 10). ano em que regressou novamente para a alçada da Câmara11. p. que os concelhos foram chamados a intervir a favor das crianças desprotegidas8. ainda da saúde pública. 21-22). os parentes. A circulação de crianças na Europa do sul: o caso dos expostos do Porto no século XVIII. . a Câmara também teria demonstrado anteriormente que estava interessada em assumir novamente a administração do Hospital de São Lázaro e a criação dos enjeitados. fl.

(Cf. . ainda que não abrangessem um universo social tão vasto quanto o das Câmaras... Apesar disso. 36). Ordenações Filipinas. Instituições e poder político. É de facto. a Coroa só muito tardiamente conseguiu estender uma rede de Juízes de Fora a grande parte do país. em muitos dos municípios era executada por indivíduos eleitos localmente. ora cerceando-lhas. Livro I. os Juízes Ordinários12. Os Juízes de Fora eram nomeados pelo rei.. “ o mesmo poderão fazer e farão no que tocar a receber irmãos ou os despedir quando lhes parecer sem serem obrigados a dar conta nem rezão aos que assi despedirem nem a nenhumas minhas justiças nem oficiais (. a autonomia administrativa das Misericórdias também decorria da faculdade de serem as próprias. onde de se refere que. as Misericórdias também usufruíram de uma apreciável autonomia. Para uma visão mais aprofundada sobre esta questão veja-se Rute Pardal. a cobrar as receitas.. ou de autonomia jurisdicional.. António Manuel Hespanha. limitava a actuação dos Provedores das comarcas14. (Cf.n. Título LXV). estes últimos eram eleitos localmente e eram inspeccionados pelos Corregedores. n. esta prerrogativa. ou seja. ora outorgando competências fiscalizadoras aos Provedores das comarcas. Como referimos. em grande medida resultante da imediata protecção régia. Livro I. Como é do conhecimento geral. Portugal – século XVII. nomeadamente no que se refere à eleição. não dependendo de nenhuma outra instituição para fazer aprovar o seu orçamento. s. as suas competências eram semelhantes às dos Juízes de Fora. em pri12 Enquadrando-se a matéria da sua acção na matéria da autonomia judicial de que os concelhos dispunham. os colocava sob a tutela régia. como por exemplo. 2 vols. 14 Todavia. à semelhança das Câmaras.. Livro de privilégios da Santa Casa da Misericórdia de Évora. fl. Mas no seio dos concelhos existiam ainda outros domínios relativamente autónomos. o alvará régio de 24 de Janeiro de 1582. Livro I. cit. Todavia este autor. no essencial. Título LXV). o conteúdo da sua influência restringia-se apenas aos feitos cíveis que envolvessem bens móveis e imóveis. 1986). As vésperas do Leviathan. em favor da Misericórdia de Lisboa. Pelo contrário. tinham jurisdição privativa em relação aos Corregedores e maior alçada que os Juízes da terra. pp. não foi nem permanente nem definitiva. ADE. 67-68. (Cf. Lisboa. ASCME.º48.142 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS municípios arrecadarem as suas receitas para fazerem face às despesas. quando a actuação régia se pautou pela ambiguidade. no plano jurisdicional interno. (Cf. o privilégio fundamental era o de poder aceitar e excluir irmãos sem dar satisfação a quaisquer tipos de justiças e oficiais13. Para além disso. o que. e ainda no domínio das rendas. As elites de Évora. com base nas Ordenações Filipinas que António Espanha corrobora as semelhanças nas atribuições dos Juízes de Fora e Juízes Ordinários. que lhes conferia variados privilégios em diversos domínios. 13 Tal como o demonstra.) ”.. facto que. menciona que subsistem algumas diferenças. depois de aprovados pelo Desembargo do Paço. em última análise. Assim sendo. a justiça. Ordenações Filipinas. Título XLIV. Ordenações Manuelinas. Por isso. o judicial. por exemplo. Por outro lado.

Joaquim Veríssimo Serrão. Coimbra. Livros Horizonte/Misericórdia de Lisboa. (Cf. ou seja. Neste documento dá-se a entender nitidamente que a eleição dos oficiais locais não era de modo nenhum pacífica. 16 Por isso. em Portugal. elas tinham a possibilidade de arrecadar as suas dívidas via executiva. Não obstante. 17 Cf. anexo IX. 598 e passim. com base na sua obtenção por parte da Misericórdia de Lisboa. A Santa Casa da Misericórdia de Lisboa: subsídios para a sua História. 1902. de um Juiz privativo como executor das suas rendas e esmolas. eles passaram também pelos processos eleitorais. 1998. através do alvará de 12 de Junho de 1391. p. A Misericórdia de Lisboa. (cf. em Maio de 1558. p. Mas. apesar do plano de actuação das Câmaras e Misericórdias ser diferente. Lisboa. 1999. de forma indirecta e não de modo a permitir a participação alargada dos irmãos ou dos munícipes. Quinhentos anos de História. não podemos deixar de parte o empenho que. Victor Ribeiro. o processo de escolha dos seus dirigentes mais importantes ser feita de forma colegial. jurídicos e financeiros. da mesma maneira que os almoxarifados e recebedores do rei arrecadavam a fazenda real. desde D. se o processo de afunilamento da escolha dos oficiais camarários remontou. Ainda no campo eleitoral. 1986. 321). Joaquim Romero Magalhães. tanto os municípios como as Santas Casas tinham liberdade de escolha dos seus magistrados e oficiais. 129). Tipographia da Academia Real das Sciencias. p. e apesar de não ser um movimento simultâneo em todas as Misericórdias15. tal como os seguintes. os monarcas puseram na clarificação do processo eleitoral das magistraturas municipais.RELAÇÕES ENTRE AS CÂMARAS E AS MISERICÓRDIAS 143 meiro lugar. Lisboa. as Misericórdias podiam dispor. Memórias da alma e do corpo: a Misericórdia de Setúbal na modernidade. Em segundo lugar. essencialmente quando havia suspeitas de distúrbios. O poder concelhio das origens às cortes constituintes. Palimage Editores. não tinham a obrigação de verem aprovadas as pautas das eleições que anualmente faziam. Este rei estabeleceu. que a eleição dos oficiais concelhios se fizesse pela maneira dos pelouros. . Neste ponto. Não obstante. Viseu. Uma liberdade condicionada nas Câmaras pelo facto de essas escolhas terem de ser sancionadas pelo rei ou pelo donatário. Maria Helena da Cruz Coelho. e. ou incumprimento dos processos eleitorais18. por isso se procedeu à restrição do número dos considerados capacitados a intervir no processo. os pontos de contacto entre estas duas instituições não se ficaram pelos aspectos administrativos. (Cf. de modelo paras restantes Santas Casas. 15 Com efeito este foi um privilégio que as Misericórdias foram solicitando ao rei. ou seja. Laurinda Abreu. João I. o mais importante a reter parece-nos ser o facto de. 18 Tal como aconteceu em Setúbal e Évora. aos finais da Idade Média16. Centro de Estudos e Formação Autárquica. nas Misericórdias ele foi contemplado logo de início no compromisso de 151617 da Misericórdia de Lisboa – que serviria. As Misericórdias também não estariam isentas da tutela e da intervenção régia.

«Os concelhos e as comunidades. senhores da vila: elites e poderes locais em Mértola no século XVIII». parece-nos importante porque cremos que foram elas que facilitaram aquele que sabemos ter sido um comportamento habitual ao longo do Antigo Regime. pp. A identificação destas características. 333-338.50-51. «Senhores da terra. XXVIII (121). pp. pp. p. ou oligarquização. Idem. Vejam-se ainda os exemplos apontados em Isabel dos Guimarães Sá. ao utilizarmos o termo oligarquias estamos conscientes dos recentes debates que tem suscitado o seu uso. Círculo de Leitores. pp. válida para todo o Antigo Regime e para todos os espaços até agora estudados – com oscilações locais. 1993. caridade e poder no império português – 1500/1800. Rui Santos. 1997. veja-se Joaquim Romero Magalhães. 19 Sem pretender-mos entrar em conceptualizações. pp. Este estudo teve continuidade nos últimos anos. O mesmo é dizer. pretendemos fazê-lo no sentido estrito da palavra.25-50).». com o objectivo explícito de se autoperpetuarem na governação de ambas as instituições20. pp. a circulação de indivíduos entre as duas instituições. 1997.. regra geral.339-345. 22 Ibidem. Rute Pardal. Os primeiros estudos sobre esta problemática surgem já na década de sessenta do século XX. 81. XXXII. Quando o rico se faz pobre: Misericórdias. mas seria apenas em finais dos anos 80 que ele seria quantificado no estudo sobre a misericórdia de Setúbal21. . Esta é uma situação recorrente. As elites de Évora … cit. que são do domínio comum.144 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS 3. pp.º). entre outros. «Elites Locais e mobilidade social em Portugal nos finais do Antigo Regime». A Santa Casa da Misericórdia cit …. 21 Cf. Análise Social. vol. um factor que nos pode remeter para a formação de oligarquias locais19. 20 Sobre a essência da perpetuação nos cargos por parte das elites locais. Maria Helena da Cruz Coelho. História de Portugal. Nuno Gonçalo Monteiro. 324-325. É certo que a denominação “oligarquias municipais” tende a conferir uma identidade social a uma categoria institucional «a dos vereadores camarários» cuja existência como grupo social carece de demonstração”. grupos formados por um número restrito de indivíduos. «Elites e mobilidade social … cit.IV. E ainda. Lisboa. Lisboa. Nuno Gonçalo Monteiro. Análise Social. é importante referir que. 143-150. ou seja. que. 341). tendo surgido vários trabalhos que demonstram que a maior parte dos irmãos das Misericórdias pp. mas também entre outros ofícios régios e da ordem de Santiago22. controlavam o poder nas Câmaras e nas Misericórdias. 1993 (2. 143-150. vol. p. (Cf. como é óbvio. Contudo. isto é: governo de poucos e predomínio de um pequeno grupo de pessoas e famílias. Sobre estas questões veja-se. O poder concelhio … cit. Nele ficava bem vincada a rotatividade entre os cargos concelhios e da Santa Casa. Laurinda Abreu. Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses. 345-369. vol. quando aqui nos referimos a oligarquias.

a rotatividade entre estas duas instituições constituía. pp.111-128. 130. As elites de Évora … cit. Faculdade de Letras. Estampa. não podemos desenvolver aqui29. pp. Modelos e práticas de comportamento linhagístico. Parece-nos. Poder Municipal e oligarquias urbanas: Ponta Delgada no século XVII. 77-85. Coimbra. p.. O mesmo se verificou no caso do Porto. 30 Este processo de elitização percorreu não somente as Câmaras e as Misericórdias. Maria Marta Lobo de Araújo. 177.l.. O crepúsculo dos grandes (1750-1832). Maria de Lurdes Rosa. 28 Cf. Ainda para Vila Viçosa. 1994. 27 Américo Fernando da Silva Costa. 2000. Na verdade. 138. 26 Apesar do caso de Vila Viçosa ser específico. A Casa de Bragança … cit. Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho. s. reiteram o facto de a maior parte dos irmãos das respectivas Santas Casas estarem quase sempre em maioria na ocupação dos cargos na “República”. Lisboa. onde a endogamia. 2000. 25 Rute Pardal. p. Mário José da Costa Silva.. Braga. vejam-se os dados indicados em Mafalda Soares da Cunha. A Santa Casa da Misericórdia de Guimarães (1650-1800). Imprensa Nacional/Casa da Moeda. 1997. 57-199. 24 José Damião Rodrigues. (dissertação de mestrado policopiada). tão característicos da sociedade de Antigo Regime30. História social da administração do Porto (1700/1750). Já os trabalhos sobre as Misericórdias de Vila Viçosa26 e Guimarães27. (séculos XIV-XV). 4. O morgadio em Portugal. poder e conflito (1546-1803). (Cf. (dissertação de mestrado policopiada) 1996. Assuntos que. A Santa Casa da Misericórdia de Montemor-o-Velho.RELAÇÕES ENTRE AS CÂMARAS E AS MISERICÓRDIAS 145 ocuparam cargos nas Câmaras. Poder e conflito. devido à influência da Casa de Bragança no panorama político local. Ana Sílvia Albuquerque de Oliveira Nunes. onde cerca de metade dos mesários eram também oficiais camarários28.1% em Ponta Delgada24 e os 71% em Évora25. 1999. em percentagens que chegam a atingir os 75% em Montemor-o-Velho23. pp. Instituto Cultural de Ponta Delgada. Estampa. 29 Sobre este assunto veja-se Nuno Gonçalo Monteiro. Como já referimos. 1998. pp. Ponta Delgada. no entanto importante abordar o sistema eleitoral enquanto factor que contribuiu para manutenção do poder local e para a elitização. 236-244. o sistema de reprodução vincular e as redes clientelares exerciam um papel determinante. A Casa de Bragança – 1560/1640: práticas senhoriais e redes clientelares. Lisboa. as estratégias de controlo alargavam-se a variados campos. pela sua complexidade. mas . um dos elementos que permitiam a autoperpetuação daqueles que controlavam estes órgãos do poder local. em última análise. apesar de não fornecerem dados percentuais sobre esta estreita ligação. p. e de Ponte de Lima. Mafalda Soares da Cunha. espa- ço de sociabilidade. Dar aos pobres e emprestar a Deus: as Misericórdias de Vila Viçosa e de Ponte de Lima. Santa Casa da Misericórdia de Vila Viçosa.. os 71. pp. Lisboa. 23 Cf. Porto Universidade Portucalense. 1995. 370-382.

obrigado. também as Misericórdias seleccionavam os seus membros. 32 Ainda que estas constituam. J. que reiteravam que a eleição se devia fazer pelo método dos pelouros de forma colegial. Em segundo lugar porque a evolução destes textos normativos nos indica que houve uma a progressiva elitização dos seus cargos administrativos. Construction d’un gouvernement municipal: élites. veja-se José Viriato Capela. e que os demais mesários.) pessoas naturaes da terra. mas que gozavam dos restantes privilégios materiais e espirituais. Veja-se sobre esta temática Laurinda Abreu. mais a confirmação da legislação Manuelina. Ao mesmo tempo. Título LXVII. Anos mais tarde o rei restringia ainda mais o universo de elegíveis. 314. Sobre este assunto. Ordenações Afonsinas. 36 Joaquim Veríssimo Serrão. 24-25. doravante restrita a cristãos-velhos37. Colecção chronologica da legislação portuguesa – 1603-1612. Um processo que se foi complexificando até chegar às Ordenações Filipinas32. pp. Título XLV. do que propriamente uma inovação sobre o tema. Exigia o dito alvará que os elegíveis no futuro fossem “ (. (Cf.) ”34. ou seja. 37 Todavia. Em primeiro lugar. Livro I. 1854. 315. Lisboa. de entre os homens bons do concelho. ou o Ouvidor. 35 Ibidem. existiam algumas excepções no que se refere à admissão de cristãos-novos. o alvará e regimento de 12 de Novembro de 161133. A Santa Casa da Misericórdia de Lisboa … cit. Livro I. p. pp.146 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Nas Câmaras a regulamentação da eleição dos seus oficiais encontrava-se definida desde as Ordenações Afonsinas31. «Estudo prévio». Braga. 6 fossem oficiais e 6 de outra condição –. 31 Cf. Universidade do Minho. Título LXVII).. neste particular. p. Ordenações Filipinas. 34 Ibidem. 598-599. determitambém outras instituições da sociedade do Antigo Regime. sem raça alguma (. «As Misericórdias portuguesas de . Se o compromisso de 151636 não era ainda muito claro em termos de definição da qualidade dos seus membros – requerendo apenas que o Provedor fosse nobre. Silva. como por exemplo.. a tirar informações junto de duas ou três pessoas “das mais antigas e honradas”35... Com efeito. em primeiro lugar e antes de apurar o colégio eleitoral. 314-316.. A. estabelecia regras mais rigorosas no apuramento das magistraturas municipais. as corporações de ofícios. À semelhança dos municípios. e da governança della. Livro I. de idade conveniente. pp. 2000. Imprensa de J. ou houvessem sido seus pais e avós. que estavam proibidos de participar nos órgãos administrativos e nos actos religiosos públicos das Misericórdias. o compromisso de 1577 já apertava a malha de recrutamento social. José Justino de Andrade e Silva. porque se constituíam como irmandades cujo número de irmãos estava delimitado nos compromissos. 33 Cf. Ordenações Manuelinas. sendo o Corregedor. élections et pouvoir à Guimarães entre absolutisme et libéralisme (1753-1834).

38 Fernando Calapêz Corrêa. p. 40 Cf. e todas as actividades mercantis. O que já não acontecia em Évora.53. Santa Casa da Misericórdia de Lagos. p. a pertença social daqueles que conduziam os destinos municipais situava-se na esfera da aristocracia de projecção local. vol. proprietários de ofícios da ordem de Santiago. Com efeito. no que ao exército concerne. 41 Cf. ainda que. 150. ao Escrivão e ao Tesoureiro exigia que fossem honrados. Mafalda Soares da Cunha. José Damião Rodrigues. A Casa de Bragança … cit. nas duas instituições. Em Setúbal. ou ainda homens que se tinham nobilitado pelas armas40.. 116-118. Como Francisco Ribeiro da Silva afirma. Francisco Ribeiro da Silva. serviriam. p. Poder municipal e oligarquias … cit. Isto sem esquecer que em Setúbal e Aveiro o mar. Lisboa. segundo a tessitura social e económica do meio. p. 2002. A Santa Casa da Misericórdia de Aveiro: pobreza e solidariedade (1600-1750). Todavia. A Santa Casa da Misericórdia … cit. por exemplo. Aqui. As mesmas armas que.. 88. 43 Cf. União das Misericórdias Portuguesas. pp. p. se terá passado em Ponta Delgada no século XVII43. Maria Marta Lobo de Araújo. . 78. Coimbra. Lagos. estivessem em ocupações como as de mesteirais e comerciantes39. 1995. O Porto e o seu termo … cit. p. Desta maneira verificamos que. 1998. 86. foram determinantes para a configuração das suas elites locais44. Elementos para a História da Misericórdia de Lagos. a composição social desta nobreza variava de lugar para lugar. 377.. Uma situação semelhante. sendo que. Dar aos pobres e emprestar a Deus … cit. em Vila Viçosa41. para controlar a Câmara e a Misericórdia. I. 188. Laurinda Abreu. Portugaliae Monumenta Misericordiarum: fazer a História das Misericórdias. aqueles que controlavam o poder nas Câmaras e as Misericórdias pertenciam ao estamento social da nobreza. Já no compromisso de 1618 ao Escrivão e ao Tesoureiro exigir-se-lhes-ia que fossem nobres38. os eleitos eram fidalgos oriundos das mais antigas linhagens ao serviço da casa de Bragança42.RELAÇÕES ENTRE AS CÂMARAS E AS MISERICÓRDIAS 147 nava que o Provedor fosse fidalgo. 42 Cf. 428. 44 Cf. João V». o sal. a partir do século XVIII. já eram essencialmente donos de marinhas. 39 Cf. não muito remotas ao século XVII. as suas origens. Mas sobre Vila Viçosa pairava a Casa de Bragança. pp. Manuel de Oliveira Barreira.. onde tivemos oportunidade de verificar que os ocupantes dos cargos da vereação e das mesas da Misericórdia Filipe I a D. não eram raros os casos de mesteirais que eram tidos como gente nobre na cidade do Porto. Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (dissertação de mestrado policopiada).. com autoridade e virtude.

Um facto que atraiu o interesse das elites locais por estas instituições – apesar de tudo emergentes –. estas comunicações entre as Câmaras e as Misericórdias surgem como uma característica marcante na sociedade do Antigo Regime. a vontade do poder central em uniformizar sistemas institucionais e políticos. essencialmente devido ao crescendo simbólico. As elites de Évora … cit. Em suma. Sugerem ainda. protagonizando doravante a característica mais destacada deste relacionamento. as Santas Casas constituíram um desses campos. económico e político que o poder central conferiu às confrarias. Rute Pardal. a circulação entre os cargos da vereação e os cargos administrativos nas Misericórdias. p.148 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS – entre 1580 e 1640 – provinham de antigas famílias de proprietários fundiários. isto é. 133. . Pelas semelhanças com as estruturas camarárias. que apresentámos atrás. fixando-se na região após a crise de 1383/138545.. Todavia. foi a partir da segunda metade do século XVI que as relações entre as duas instituições se intensificaram. 45 Cf.

Círculo de Leitores. 1994. Joaquim Romero Magalhães – O poder concelhio. Coimbra. constituída por casas nobres e eclesiásticas2. António Hespanha – As vésperas do Leviathan. Monteiro. que exercia o governo das terras em múltiplas áreas – economia. Estatuto nobiliárquico Os Municípios no Portugal Moderno: dos forais manuelinos às reformas liberais Lisboa. de Oliveira Marques – “Regime senhorial”. o território português estava coberto por uma rede de concelhos. 380-438. instrução – constituindo-se também como intermediária entre o poder central e as populações1. as seguin- 2 tes obras de síntese: Maria Helena da Cruz Coelho. Nuno Gonçalo. Lisboa. cível ou crime. ou de natureza régia. Letras / Centro de História da Sociedade e da Cultura) Na época moderna. Sobrepondo-se e imbricando-se nesta rede concelhia encontramos uma rede de senhorios. “O espaço político e social local”. os denominados direitos reais. Estes bens e direitos constituíram a base material de sustentação. 1992. Lisboa. provenientes de doações concedidas pelos monarcas. XVII. para além dos estudos monográficos. justiça.) – História dos Municípios e do poder local. volume III. Nuno Gonçalo Monteiro – “Poder senhorial.Senhorios e concelhos na época moderna: relações entre dois poderes concorrentes MARGARIDA SOBRAL NETO (Univ. 121-135. Quanto aos direitos de natureza tributária tinham origem em doações régias. 149-165. Coimbra – Fac. Das Origens às Constituintes. pp. . saúde. in César de Oliveira (dir. enquanto fontes de renda e de poder. Os bens podiam ser de natureza patrimonial. pp. Armando Castro – A Estrutura Dominial Portuguesa dos séculos XVI a XIX (1834). adquiridos através de doações de particulares. Sobre os senhorios portugueses ver as sínteses elaboradas por: A. 1 Sobre as competências das câmaras vide. 1971. Os senhorios eram constituídos por um conjunto de bens e direitos. 1986. 1996. Dicionário de História de Portugal. de entidades nobres e eclesiásticas ao longo das épocas medieval e moderna. H. Portugal -séc. 2005. Instituições e poder político. exercidos num determinado território. dotados de uma estrutura administrativa e judicial. ou em contratos realizados entre as entidades senhoriais e as pessoas que assumiam o compromisso de exploração agrícola das terras ou a posse de casas ou de outros bens. Almedina. Lisboa. Editorial Caminho. CEFA. Coimbra. Os direitos podiam ainda ser de natureza jurisdicional. pp. compras ou trocas. Edições Colibri – CIDEHUS-UE. consignados em doações régias e forais.

como em outros casos. dir. H. Lisboa. pp.cit. Portugal-séc. alcaides. que exerciam funções similares às dos corregedores. Elites e poder. 554 – 584. 1996. Lisboa. no entanto. 1996. 16% dos juizes de fora eram nomeados pela Casa de Bragança. pp. pp. pp. III (Portugal em definição de fronteiras. de apresentarem. Neste. 380-438. 4 Em 1640. Maria Rosa Ferreira – “Senhorios”. 3 Maria Helena da Cruz Coelho – “Concelhos”. Op. Círculo de Leitores.. na época moderna. Em algumas terras senhoriais essas funções eram asseguradas pelos donatários. vol. vol. . Lisboa. os oficiais periféricos da coroa tornavam-se agentes de donatários (Nuno Gonçalo Monteiro – As Câmaras no equilíbrio dos poderes: funções sociais e dinâmicas locais. aos juízes de fora ou aos ordinários a condução e supervisão dos processos eleitorais. in César de Oliveira ( dir. bem como com os instrumentos ao dispor dos donatários e que lhes permitiam ser mais ou menos eficazes no exercício do poder senhorial. ICS. ou os bloqueios. cit. in Nova História de Portugal. algumas casas senhoriais de instrumentos de natureza jurisdicional susceptíveis de lhes assegurarem o controlo político e social das comunidades locais que tutelavam3. os vereadores e os procuradores – bem como de apresentarem ou nomearem diversos oficiais que exerciam funções no seio dos concelhos – tabeliães.150 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Senhorios e concelhos foram. Propomo-nos nesta comunicação reflectir sobre os condicionamentos. confirmarem ou apurarem os elencos dos governos concelhios – os juízes. coord. de acordo com os titulares dos senhorios. ao longo do tempo. Os monarcas dotaram. Marreiros. IV. XVII.5 De acordo com o estabelecido nas Ordenações. Mafalda Soares da Cunha – Práticas do poder senhorial à escala local e regional (fins do século XV a 1640). almoxarifes. in História de Portugal. ouvidoe aristocracia”. 1993. in Nova História de Portugal. Esses instrumentos consistiam no privilégio de nomearem juízes de fora4. concorrentes. no exercício do poder e na apropriação de recursos dos espaços em que dominavam. O domínio senhorial sobre a vida concelhia terá assumido formas muito diversificadas. in César de Oliveira ( dir. pp. 150-151). Op. 143-153. de Armando Luís de Carvalho Homem e Maria Helena da Cruz Coelho). competia aos corregedores. 5 António Hespanha – As vésperas do Leviathan. de Oliveira Marques. os conteúdos dos seus poderes. Entre o Antigo Regime e o liberalismo. ao exercício do poder concelhio decorrentes das presenças senhoriais nos territórios concelhios. Círculo de Leitores. Lisboa.. mas com particular incidência na Idade Média. e em regimentos publicados posteriormente. Op. Idem. os dois mais importantes corpos do “sistema tradicional de poder” a nível local. Joel Serrão e A. 2003. etc. pp. juízes dos órfãos.cit.) – “História dos Municípios e do poder local”. Instituições e poder político. escrivães. 584-602. ouvidores. Do condado portucalense à crise do século XIV. 333-357.) – “História dos Municípios e do poder local”..

como é que os senhores utilizaram os instrumentos de que dispunham. XXVIII (121). Senhores da vila: elites e poderes locais em Mértola no século XVIII. fazia com que o sistema de escolha das vereações fosse auto-reprodutivo8. 6 Maria Helena da Cruz Coelho. segundo Rogério Borralheiro. de fora ou ordinários. ed. a legislação que regulava os processos eleitorais. 141-144. A forma como se processavam as eleições nas terras da Casa de Bragança reforçava essa característica do sistema. A intervenção senhorial na escolha dos elencos camarários decorria. Administração. O que importa saber é. circunstância que podia interferir na selecção das pessoas que eram integradas em pauta. método que. bem como em documentos que enunciam os poderes senhoriais. 345-369. nomeadamente o facto de se colocarem no governo das terras pessoas que não tinham as “qualidades para servirem”6. Joaquim Romero Magalhães – O poder concelhio. nomeados pela entidade senhorial. . Com efeito. 1997. mas por favas. o processo eleitoral em vigor nas terras da Coroa. O regimento para a eleição dos vereadores de 1611. Braga. Como bem observou Rui Santos. as eleições não eram feitas por pelouros.SENHORIOS E CONCELHOS NA ÉPOCA MODERNA 151 res ou por juízes. 1993 (2. “Análise Social”. inserindo-se assim num processo de uniformização de práticas judiciais e administrativas locais. 7 Rogério Capelo Pereira Borralheiro – O Município de Chaves Entre o Absolutismo e o Liberalismo (1790-1834). tornando muito mais difícil a penetração de novos membros no seio das oligarquias fiéis às casas senhoriais. nos concelhos cujas pautas eram apuradas pela chancelaria desta casa. no entanto que. Das Origens às Constituintes. Estes instrumentos estão há muito identificados pela historiografia construída com base em fontes legislativas e doutrinárias. favoráveis à prossecução dos seus interesses.º). regimento aplicável às terras cujas pautas não iam apurar ao Desembargo do Paço. 8 Rui Santos – Senhores da terra. apresentava como principal objectivo impedir “subornos e desordens” ocorridos nos processos eleitorais. do autor. bem como a forma como esses processos decorriam. nas terras da Casa de Bragança o processo eleitoral não seguia o modelo das terras régias e senhoriais.. cit. ou às integradas nos termos dos concelhos. pp. no entanto. Na prática este regimento aplicou às terras senhoriais. e saber igualmente se esses instrumentos geraram “sujeições e obediências”. pp. igualmente. confirmar ou apurar os oficiais das governanças. Sociedade e Economia. bem como atribuía um papel mais interveniente da vereação cessante na escolha da nova vereação7. conferia uma “forte autonomia ao Duque face ao Rei”. do seu poder de apresentar. Op. De notar.

quatro carneiros e 12 galinhas. na primeira metade do século XVIII. A cerimónia de investidura realizava-se na Abadia. o procurador e outros oficiais concelhios. 1630/80-1813. “ARUNCE”. o que evidencia a intervenção directa da casa senhorial na selecção dos elencos camarários10. Lousã no século XVIII. pessoas indicadas pelo donatário que não constavam das pautas. Porto. exploração e produção agrícola no Vale do Cávado durante o Antigo Regime. 1979. os moradores do couto de Tibães denunciaram as intromissões do donatário nas eleições. detentoras de propriedades vinculadas em morgadio. Propriedade. suscitando a contestação das comunidades. com as confirmadas por esta Casa levaram o mesmo autor a concluir que o Duque não se limitava a confirmar as listas decorrentes dos processos eleitorais locais. exerceram o cargo de vereadores. na Lousã. devendo o juiz fazer oferta ao mosteiro de 4 leitões. o confronto entre as listas das pessoas nomeadas em pauta.. Coimbra: Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. 11 Neste couto o juiz era escolhido com base em dois nomes eleitos pela população. neste município. n. 2 vols. e enviadas à casa de Aveiro. à intervenção na escolha das elites concelhias. o escrivão do couto Brito Aranha era “ o mais grosso detentor de terras arrendadas” ( Aurélio de Oliveira – A Abadia de Tibães. Por sua vez. a partir de meados do século XVIII verificou-se um processo de elitização dos elencos camarários. ficavam os vereadores. considerada abusiva. policopiada. 2003. A intervenção do poder senhorial nas eleições foi. Por sua vez. concelho integrado na ouvidoria de Montemor-o-Velho. 9 Sérgio Soares – O ducado de Aveiro e a vila da Lousã no século XVIII (1732-1759). A acção dos donatários não se confinava. 160-165).152 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Outro caso em que se evidencia um forte controlo senhorial dos governos concelhios é o do município da Lousã.. pp. As pessoas “principais da terra”. porém.º 11-12. dissertação de doutoramento policopiada). dependente da Casa de Aveiro. Sérgio Soares num estudo referente a este município concluiu que o governo concelhio era exercido pelo oficialato local provido pelo Duque de Aveiro que se comportava como uma clientela na estreita dependência da casa senhorial9. Afirmavam “que as eleições deveriam ser feitas só pelos povos e o mosteiro abusando mandava a ellas presidir dois religiosos e nellas faziam votar as pessoas que os ditos religiosos lhe parecia sahindo eleitos todos os seus afilhados”11. p. substituíram o oficialato local na governança da terra (Maria do Rosário Castiço de Campos – Redes de Sociabilidade e Poder. 58 10 De notar ainda que. a passagem do domínio da Casa de Aveiro para o da Coroa levou a uma reconfiguração social das vereações. Alguns acompanharam muito de perto as práticas de governo. por vezes. . Em 1718. Com efeito. Na sua dependência. Com efeito.

cit. Arraiolos. Aguardam-se os estudos monográficos que permitam esclarecer a forma como interactuaram estes dois poderes. os frades determinaram que não se deixasse “abrir monte sem licença de quem presidir no Mosteiro e de nenhuma sorte se conceder licença a Camara do Couto para os abrir” (Op. Propriedade. Separata da “Revista da Faculdade de Letras”. de Aurélio de Oliveira acerca dos coutos beneditinos de Tibães na época moderna14 e o estudo de Teresa da Fonseca relativo à administração senhorial no concelho de Vimieiro na segunda metade do século XVIII15. pp. ao longo da época moderna.. Os estudos de Jorge Fonseca sobre Montemor-o-Novo no século XV13. Op.. João de Bragança. a partir dos finais do século XVII. II série.] de modo que quem julgava era o frade e os officiais viam-se metidos a testemunhas” (Op. entretanto.SENHORIOS E CONCELHOS NA ÉPOCA MODERNA 153 O conhecimento histórico sobre as relações entre donatários e câmaras é ainda escasso. em capítulo realizado em 1770. Um dos donatários. tabeliães e dando posse às vereações e outros oficiais. D. a jurisdição em Montemor-o-Novo foi exercida por entidades senhoriais. nomeando ouvidores. exploração e produção agrícola no Vale do Cávado durante o Antigo Regime.. Porto.cit. Neste couto. substituindo-se às justiças locais na decisão de matérias de interesse para o senhorio – caso da gestão dos espaços incultos18. 166). os abades de Tibães. Câmara Municipal de Arraiolos. este senhor ultrapassou os limites do seu poder. Montemor-o-Novo. 168). Por sua vez. 15 FONSECA. 13 Jorge Fonseca – Montemor-o-Novo no século XV. diversas articulações entre poder senhorial e concelhio. 16 Idem. p. nos diversos municípios com tutela senhorial12. VI. 1998. vol. 18 Em 1718 os moradores do couto afirmavam que “a Abbadia se intrometia nas correições que a camara fazia 2 vezes por anno mandando juntamente um religiozo[. 103-135. Por sua vez.. . desempenhou todos os direitos inerentes à jurisdição cível e crime. cit. p. o 12 Para a época medieval vide Maria Helena da Cruz Coelho – Entre poderes – Análise de alguns casos na centúria de quatrocentos. Teresa – Administração senhorial e relações de poder no concelho do Vimieiro (1750-1801). p. Câmara Municipal de Montemor-o-Novo.. 1630/80-1813. p. No século XV. 17 Jorge Fonseca – Montemor-o-Novo no século XV. Para além da fruição de prerrogativas concedidas pelo monarca. testemunham um “efectivo domínio das instituições concelhias por parte de donatários”16. 1989. Op. As investigações já realizadas revelam-nos. 14 Aurélio de Oliveira – A Abadia de Tibães. juízes ordinários. 67. 1998. exerceram um controlo apertado sobre as governanças concelhias do couto. facto que motivou um pedido do concelho ao monarca no sentido de o manter “em sua antyga liberdade” quando se conseguiu libertar da tutela senhorial17.cit. 64.

impondo a observância da lei. favorável às boas práticas da governação concelhia e à prossecução do bem comum. por vezes. algumas vezes requerida pelos próprios vereadores vimieirenses em matérias que lhes suscitavam dúvidas ou naquelas em que era difícil obter consensos. Revista de Ciências Históricas. Segundo a mesma autora. como acontecia com o poder régio.. os donatários do Vimieiro apropriaram-se das funções administrativas da câmara esvaziando-a das competências exercidas por outros municípios. Sancho de Faro e Sousa conferiu “alguma regularidade e disciplina à administração municipal”19. nos casos atrás enunciados. Os ouvidores deste senhorio revelaram um particular empenhamento na defesa dos interesses das populações. 255-271. devido à proximidade física dos donatários das terras que dominavam. a distância terá condicionado o exercício do poder senhorial. atitude que motivou. 65. A intervenção senhorial na governação concelhia foi. cit. a atitude “vigilante e autoritária” do conde D. p. tendo sido os vereadores ameaçados com penas pecuniárias e de prisão se não executassem as ordens do ouvidor. Francisco Ribeiro da Silva – “Estrutura administrativa do condado da Feira no século XVII”. Assumindo posição idêntica aos abades de Tibães. p. defendendo a jurisdição do Donatário e os direitos dos vassalos”21. vol. pp. Teresa Fonseca defende ainda que as práticas esclarecidas de exercício do poder dos senhores de Vimieiro se caracterizaram pelo respeito pelo poder régio e pelo empenhamento no cumprimento das leis.154 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS donatário deixava para a câmara apenas as matérias relativas à regulamentação do comércio local. Com efeito. Outro tipo de relação entre donatário e concelhos é o evidenciado no estudo de Francisco Ribeiro da Silva sobre a “Estrutura administrativa do condado da Feira”. O controlo apertado da actuação das vereações e a “usurpação” das suas competências foi possível. Com efeito. 19 20 Op. IV. o exercício do poder senhorial foi desempenhado pelo ouvidor que acompanhou “muito de perto a acção governativa” da câmara. “denunciando ilegalidades. 1989. neste caso. este autor considera ter existido “compatibilidade entre o domínio senhorial e o municipalismo” e “que a dinâmica municipal pôde processar-se na dependência directa de um senhor de vassalos sem que as instituições concelhias fossem bloqueadas”20. no entanto. 21 Idem. Neste condado. uma intervenção autoritária nas práticas de governo concelhio. A perda de autonomia municipal terá sido. 260 .

20 mil réis “pelos arrendamentos que fez a favor do Duque”. Práticas senhoriais e redes clientelares. De notar ainda que mesmo a 22 O Município de Braga de 1750 a 1834. podia condicionar a prossecução das suas próprias carreiras. 291.SENHORIOS E CONCELHOS NA ÉPOCA MODERNA 155 Como decorre do atrás exposto. pp. bem como a obtenção de outros recursos senhoriais. seria novamente recompensado com a quantia de 12 mil réis pelos arrendamentos feitos na Comarca de . bem como no cumprimento de outras funções. João V. Percursos bem sucedidos podiam mesmo conduzir ao cargo de desembargador da Casa”24. função que recorrentemente assumiram25. convergindo. na casa de Bragança. as atitudes do donatário do Vimieiro e dos ouvidores do condado da feira actuaram no sentido da aplicação das leis e ordens régias. comportando-se os ouvidores-provedores nomeados pelo donatário como magistrados régios22. o Arcebispo de Braga. Ora um percurso bem sucedido de ouvidor podia decorrer. Dom Gaspar. Por sua vez. D. Lisboa. José Viriato Capela demonstra que. 23 Cit. em 1587. 2000. Braga. Estampa. p. 1991. defendendo as suas jurisdições contra as investidas das justiças régias”. no entanto. 9 e 15. José de Mascarenhas. em estudo relativo à Lousã. 25 Tomé de Mesquita. recebeu. variar em função da conjuntura e dos seus interesses pessoais. de um bom desempenho na cobrança de rendas. na escolha dos elencos camarários. Mafalda Sousa Soares afirma que “a maioria ascendia a ouvidores depois de exercer o cargo de juiz de fora em vários concelhos do senhorio. p. Nesta matéria. Sérgio Soares.59. o comportamento dos donatários podia. assim. concluiu que o grupo de oficiais que estava dependente da distribuição dos “recursos senhoriais” da casa de Aveiro se constituía como um núcleo de “obediências e fidelidades senhoriais”23. Para além do papel mais ou menos interveniente dos donatários e dos oficiais por eles providos. Compreende-se que assim fosse se tivermos em conta que o bom desempenho das clientelas senhoriais no exercício do governo concelhio.. já exerceu o seu poder em articulação com a “política nacional”. Em 1589. ouvidor das comarcas de Barcelos e Bragança. no reinado de D. o poder senhorial com o poder régio na submissão do poder concelhio. Referindo-se aos juízes de fora providos pelo duque de Bragança. 24 Mafalda Soares da Cunha – A Casa de Bragança (1500-1640). governou “o senhorio temporal da cidade e seus coutos com poder soberano e postura de príncipe. convinha apurar se as práticas dos governos concelhios que passavam pelo crivo da selecção das casas senhoriais se pautaram ou não pela defesa dos interesses dessas casas. O Governo e a administração económica e financeira. caso dos ouvidores. o seu sucessor.

em 11 de Novembro de 1786. De facto. 1(2) 1983. Bragança (cf. Devido a esta circunstância. 31-87. Mercês do Duque D. recursos que seriam significativos nas vilas e cidades.156 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS carreira dos oficiais régios podia ser afectada pela forma como desempenhavam determinados serviços às casas senhoriais. decorrer do relacionamento pessoal entre as vereações e os donatários. Nuno Gonçalo Monteiro . em muitos casos. Ponta Delgada no séc. nos finais do Antigo Regime.1985. Teodósio I. A atitude das vereações concelhias. pp. Nuno Monteiro invocando o comportamento dos oficiais concelhios nas terras do mosteiro de Alcobaça. o exercício do governo concelhio ao longo do século XVIII deixou de ser.º 4. As “obediências e fidelidades senhoriais” podiam. concluiu que as casas senhoriais não tinham capacidade de controlo sobre os governos das terras27. pelo facto de este não ter tido um bom desempenho na execução das dívidas da Universidade. eram também os seus. seria naturalmente condicionada pelos recursos que estas tinham para distribuir. 274-318. De acordo com este entendimento. 27 Nuno Gonçalo Monteiro – O espaço político e social local. Manuel Inácio Pestana – Barcelos nos Arquivos da Casa de Bragança. p. enquanto vereadores.Lavradores. Frades e Forais: Revolução Liberal e Regime Senhorial na Comarca de Alcobaça (1820-1824). relativamente à defesa dos interesses das casas senhoriais de que estavam dependentes. cit. . situação que se revelaria propícia à desobediência às entidades senhoriais das quais estavam dependentes. 1994. XVII.. Lisboa. Nestes. p. 26 José Damião Rodrigues – Poder municipal e oligarquias urbanas. 46. n. Instituto Cultural de Ponta Delgada. muitas câmaras assumiram no movimento de contestação anti-senhorial a defesa dos interesses das comunidades que governavam – interesses que. ainda. pp. Separata de “Barcellos-Revista”. os deputados da Junta da Fazenda protestaram contra a nomeação do juiz de fora de Viseu para o exercício do mesmo cargo em Lamego. de menor monta nos pequenos concelhos. considerava que devia ser ouvida quando se avaliava o desempenho desses oficiais no momento do apuramento das residências. um beneficio para se constituir como um pesado encargo a que muitos tentavam fugir. e enquanto pagadores de direitos senhoriais – em detrimento das instituições que os tutelavam. em “Ler História”. sublinhe-se. 159. José Damião Rodrigues demonstra que “o compadrio e o clientelismo” são factores a ter em conta na compreensão das relações entre poder senhorial e poder municipal em Ponta Delgada no século XVII26. A Universidade de Coimbra possuía o privilégio de poder recorrer aos juízes de fora e corregedores para executar os seus devedores. Ponta Delgada.

tentando. Palimage Editores. se revelaram mais rebeldes assumindo protagonismo em alguns movimentos. 21-30). ao longo dos conflitos. 177-183. redes e dinâmicas sociais. Já os juízes ordinários se manifestaram. 1997. assim como de outros poderosos locais. Coimbra. pelo tribunal da Relação do Porto. O mesmo tribunal condenaria. as desistências da contestação. Viseu. em 9 de Julho de 1814. Não era. 179-320. Com efeito. no momento da realização de um tombo. De notar ainda que são muito frequentes. sobretudo aqueles que seguiam as vias judiciais. leva-nos.SENHORIOS E CONCELHOS NA ÉPOCA MODERNA 157 Uma análise detalhada das atitudes das governanças. pp. por parte dos membros da vereação. alguns moradores foram condenados. pessoas que por norma tinham uma condição social inferior à dos vereadores. pelo menos dos pequenos concelhos. porque se podia apoiar em múltiplos argumentos jurídicos. em 7 de Janeiro de 1749. alguns consagrados em forais. Em momentos de contestação. portanto difícil. mais forte do que a dos concelhos. assim.João do Monte: propriedade e relações sociais (1786-1820). Coimbra. os moradores de S. Região de Coimbra. como era. entretanto. pp. 29 Por terem recusado reconhecer o mosteiro de Celas (Coimbra) como donatário de Eiras. pp. e consequentes proclamações de obediência. 1700-1834. Faculdade de Letras. confrontar uma vereação concelhia “rebelde” com um documento em que vereações anteriores tinham reconhecido 28 Margarida Sobral Neto – Terra e Conflito. 2003. aquando da realização dos tombos os oficiais concelhios eram chamados a reconhecer o domínio das casas senhoriais. A comunidade de Eiras nos finais do século XVIII. bem como a identificar algumas variações na atitude que manifestaram durante os processos de contestação. bem como os direitos que lhe eram devidos. João do Monte ao pagamento das custas de um processo judicial. ao pagamento de uma indemnização ao convento (Ana Isabel Sacramento Sampaio Ribeiro. mais prudentes no apoio explícito às populações28. Os estudos que tenho elaborado sobre esta matéria levam-me a concluir que os procuradores dos concelhos. a posição dos senhorios era. Faculdade de Letras. a introduzir alguns matizes no comportamento dos diversos membros das vereações. Um deles era o que registava os “reconhecimentos” feitos pelos oficiais concelhios no momento da elaboração dos tombos. quando se apercebiam que não conseguiam atingir os seus objectivos. Estruturas. salvaguardar-se das represálias motivadas pela desobediência às casas senhoriais. tese de mestrado policopiada. por norma. por norma. originado pela recusa de pagamento de direitos senhoriais e contestação de domínio directo do mosteiro de Santa Cruz de Coimbra (Licínio Gomes Neves – A comunidade rural de S. dos pequenos concelhos. . 2003. tese de mestrado policopiada. por exemplo a perda das terras que agricultavam ou o pagamento de indemnizações às casas senhoriais ou custas de processos29.

confrontou-se ao longo do século XVIII com idêntico problema. foi desmembrado deste concelho para assumir o estatuto de vila. 31 António de Oliveira – A vida económica e social de Coimbra. . A partir do momento em que Ansião. Braga. Senhorio e propriedade: 1520-1720 (formação. A concorrência. 1700-1834. 28. pp. A posse alicerçada na tradição imemorial. Os homens . tese de doutoramento policopiada.I. Poder e poderosos. concelho em cujo termo senhoreavam também vários senhores leigos e eclesiásticos. pp. O mosteiro de Grijó.158 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS a obrigação de satisfazer ao senhor tributos. evidenciaram os múltiplos problemas com que a vereação coimbrã se deparou nos lugares do termo em que exercia apenas a jurisdição crime. Sérgio Cunha Soares – O Município de Coimbra da Restauração ao Pombalismo. O foral manuelino e seus problemas nos séculos XVII e XVIII. a jurisdição cível e/ou crime. em alguns lugares do termo. António de Oliveira e Sérgio Soares. situação que provocava frequentes conflitos de jurisdição32. assumindo a vereação um evidente protagonismo30. Conflitos de jurisdição ocorreram igualmente entre a câmara do Porto e os donatários que senhoreavam no termo da cidade33. doada a Dom Luís de Meneses. 59-94. 89-95. senhorio territorial deste lugar. nos estudos que realizaram sobre o município de Coimbra. Coimbra. 1985. entretanto. vol. Um dos conflitos ocorreu com o mosteiro de Grijó (Inês Amorim. 1993. Problemas que se materializaram na tentativa de apropriação da jurisdição crime por parte dos donatários que apenas detinham a cível. Op. e consequentes conflitos. Faculdade de Letras. I. Coimbra. Porto. entre casas senhoriais e câmaras. ou na dificuldade em cobrar impostos municipais nas áreas em que detinha apenas jurisdição cível31. as instituições e o poder. exercendo os senhorios. e outras “opressões”. De facto. “Revista Portuguesa de História”. foi particularmente evidentes nos termos das vilas e das cidades em que a sede concelhia estava na dependência régia. Coimbra. por vezes reconhecida pelas câmaras. I. que eram objecto da sua contestação. 30 Margarida Sobral Neto – Regime senhorial em Ansião. um dos lugares do termo de Coimbra. 1995. 1971. a contestação ao mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. 1997. 33 Francisco Ribeiro da Silva – O Porto e o seu termo (1580-1640). na maioria dos concelhos do termo apenas exercia jurisdição crime. vol. argumento que lhes ditou muitas sentenças favoráveis. estrutura e exploração do seu domínio). Faculdade de Letras. intensificou-se. Região de Coimbra. foi um poderoso argumento invocado pelas casas senhoriais em momentos de conflito com as comunidades locais. A vereação de Montemor-o-Velho. 32 Margarida Sobral Neto – Terra e Conflito. Atitudes mais radicais das vereações ocorreram. quando um concelho em luta contra uma casa senhorial.cit. vol. contava com o apoio de outro senhor.

que poderiam ser accionados contra quem contestasse o seu poder. Op.SENHORIOS E CONCELHOS NA ÉPOCA MODERNA 159 O facto de os juízes de primeira instância das localidades do termo concelhio não serem confirmados pelas vereação da sede concelhia. Acrescente-se ainda que o conservador da Universidade chegou a contradizer posições assumidas pelo ouvidor da mesma instituição. in “História de Portugal”. Margarida Sobral Neto – Terra e Conflito. por norma. em desfavor das populações. Évora 1750-1820. De notar que as vereações das sedes concelhias dispunham de instrumentos de coacção das justiças dos concelhos do termo. ou pelos seus representantes. juiz privativo de várias casas senhoriais. estatuto nobiliárquico e aristocracia. 62. por elas confirmadas. pp.) Nuno Gonçalo Monteiro – O poder senhorial. 341-351. Sobre o relacionamento entre a câmara de Évora e outras instituições da cidade cf.. Poder e Poderosos na Idade Moderna. mas serem investidos pelos donatários. era a capacidade de intervenção na escolha de oficiais das orde- 34 35 36 37 Em 1724 estava preso. na região de Coimbra. que podiam ir até à prisão de juízes ordinários em casos de clara desobediência34. traduzia-se numa perda efectiva de controlo e de capacidade de dominação sobre o governo dos termos concelhios. p.. conferidos pelos monarcas. o procurador do concelho de Algaça. . As pastagens de animais pertencentes a comunidades religiosas suscitaram também frequentes conflitos37. 121-124.. na cadeia de Coimbra. Os senhorios não jurisdicionais possuíam outros instrumentos. anulando assim funções de controlo do exercício do poder senhorial assumidas por aquele36. por ser “cabeça de motim em os juizos das sete varas de Poiares se levantarem contra a jurisdisam do Senado da Camara”. Mas os concelhos não foram condicionados apenas pelas entidades que detinha direitos jurisdicionais nos seus territórios. que julgava. Op. 1700-1834. Outro poderoso instrumento que detinham algumas casas senhoriais. Absolutismo e municipalismo. Op. e que podia condicionar o jogo de forças a nível local. cit. Região de Coimbra. foram presos o procurador do concelho de Algaça e os juizes do concelho de Canedo e Hombres (Cf. em 1750. peixe e água. pp. Sérgio Cunha Soares – O município de Coimbra da Restauração ao pombalismo. Nos finais do século XVIII. cit. Por sua vez. I.cit. Op. 352-353. facto que se repercutia muito negativamente no exercício do poder concelhio.. cit. “subtraindo-o” às câmaras. As instituições senhoriais sediadas sobretudo nas cidades usufruíam de outros privilégios que colidiam com o exercício das competências das câmaras. Entre eles destaca-se a prerrogativa de possuir juiz privativo35. pp. Entre eles destacam-se as regalias em matéria de abastecimento de carne. Teresa Fonseca. várias são as queixas contra o conservador da Universidade.. vol.

Nestes casos. o excesso de zelo. Joaquim Romero Magalhães – O poder concelhio. rendeiro do Marquês de Marialva. se o conflito marcou muitas vezes o relacionamento entre poderes concelhios e senhoriais. Um exemplo paradigmático é revelado por Nuno Monteiro: o caso de um capitão-mor. Horta. A administração municipal em Montemor-o-Novo (1777-1816. in César de Oliveira (dir. bem como outros privilégios de que os monarcas dotaram as casas senhoriais. Um dos principais alvos de contestação das populações foram os cobradores de rendas das casas senhoriais. Teresa Fonseca – Relações de Poder no Antigo Regime. Na verdade. Mas no movimento de contestação anti-senhorial os capitães de ordenanças assumiram atitudes diversas. Rodrigues. os poderes jurisdicionais. p. O excesso do zelo com que pautou a sua acção. . deste modo. Maria Helena da Cruz Coelho. Montemor-o-Novo. entretanto. Op. Com efeito. os capitães de ordenança efectuaram a cobrança de rendas assegurando. Como já afirmámos.. Ora. ou a avidez.) – História dos Municípios e do poder local. que se distinguiu pela sua capacidade de vencer a resistência da população e da câmara de Cantanhede ao pagamento dos pesados direitos senhoriais. Câmara Municipal de Montemor-o-Novo. Nuno Monteiro invocando o papel de liderança dos capitães de ordenanças no movimento de contestação anti-senhorial afirmou que o facto de o cargo ser vitalício conferia aos capitães uma margem de liberdade relativamente às entidades que os tinham nomeado. assumiram-se como zelosos defensores dos interesses dos senhorios (que eram também os seus) contra os das comunidades. 152-163. 1995. Argumento pertinente. o próprio Marquês de Marialva a afastá-lo do exercício da actividade de rendeiro39. José Damião – Orgânica militar e estruturação social: companhias e oficiais de ordenança em São Jorge (séculos XVI-XVIII). 352. em tempos de instabilidade. levaria. as receitas que alimentavam as casas senhoriais. de alguns agentes senhoriais rompiam equilíbrios que os donatários queriam preservar.160 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS nanças. pp. os celeiros e os lagares esbulhando os camponeses de uma parte substancial do produto do seu trabalho. 31-32. revelaram-se como instrumentos favoráveis à apropriação de recursos nas áreas con38 Sobre os poderes e a organização das ordenanças. 1998. Das Origens às Constituintes. cit. cf. as mãos do poder senhorial que invadiam os campos. cargos muito requeridos a nível local pelo prestígio que conferiam e também pela capacidade de domínio sobre as populações38. separata de “O Faial e a periferia açoriana nos séculos XV a XX”. pp. pensamos que a situação de conflito não seria a desejada por instituições que viviam num sistema marcado pela coexistência de múltiplos corpos e poderes. em defesa dos interesses do donatário. 39 Nuno Gonçalo Monteiro – “Os Poderes Locais no Antigo Regime”.

e talvez o de maior peso. A administração municipal em Montemor-o-Novo (1777-1816. 106-151. Constituíam fontes de receitas das câmaras tributos. Os privilégios senhoriais. Este financiamento provinha de recursos gerados pela riqueza que se produzia no seio das comunidades. Alguns destes traduziam-se num conjunto de isenções relativas às obrigações concelhias: isenção do exercício de cargos concelhios. cabia às câmaras a gestão corrente da vida das comunidades. e de pagamento de coimas e de tributos. diminuindo a matéria colectável dos concelhos. nomeadamente no que concerne à realização de infra-estruturas: construção de estradas. condição de diferenciação social transversal aos diversos grupos sociais. pp. destacava-se a de custear a reparação ou construção de caminhos. n. Op. Os historiadores que se têm dedicado ao estudo das finanças concelhias são unânimes em concluir que as dificuldades financeiras das câmaras foram um fenómeno estrutural no Antigo regime. caso das sisas. coimas decorrentes de transgressões. na Idade Média. em manifesto prejuízo do governança concelhia. pontes ou fontes. nomeadamente as praticadas contra a legislação municipal40. Podem ser invocadas diversas explicações para os problemas financeiros das câmaras. Entre as dificuldades económicas das câmaras. Como é sabido. mas um deles. em múltiplas áreas. assumiam-se como instrumentos favoráveis à apropriação de recursos económicos das comunidades. Braga. Esta gestão pressupunha a existência de uma máquina administrativa que para funcionar necessitava de financiamento. para atrair gentes aos seus territórios foi a concessão de privilégios aos seus “caseiros”. estradas.º 7. Esta concorrência podia assumir diversas formas que passarei a explicitar.SENHORIOS E CONCELHOS NA ÉPOCA MODERNA 161 celhias. cit. Teresa Fonseca – Relações de Poder no Antigo Regime. o que se reflectia negativamente nas finanças concelhias. Estudos económico-administrativos sobre o município português nos horizontes da reforma liberal. 1995. Luís Nuno Rodrigues – Um século de Finanças Municipais: Caldas da Rainha (1720-1820). municipais ou sobejos de tributos régios. Foi em matéria de captação de proventos económicos que a concorrência senhorial foi particularmente evidente. de participação em trabalhos exigidos pelas câmaras. . foi a concorrência feita por estes na apropriação de recursos. constituindo-se como um factor de bloqueio ao desenvolvimento das políticas concelhias. pontes. 1992. Uma das estratégias utilizadas pelos senhores. Por 40 José Viriato Capela – O Minho e os seus municípios. para além do seu peso político e simbólico. “Penélope”. nas áreas de domínio de senhorios. rendimentos provenientes da gestão dos bens dos concelhos. A sociedade de Antigo Regime estruturava-se no privilégio. Universidade do Minho.. reparação de edifícios camarários ou de cadeias.

susceptíveis também de gerar receitas para os municípios. as câmaras a realizar contratos de aforamento de terras incultas para preservar áreas de utilização comunitária. pp. 1700-1834. o procurador da Câmara de Coimbra invocava a existência de muitos privilegiados na cidade para se eximir ao pagamento de uma finta para as obras do Reino (Aires de Campo – Questões forenses. pp. nomeadamente as áreas de pastagem. reflectia-se no quotidiano das comunidades. vol. e câmaras43. 2. bem como pelas casas senhoriais que lho haviam concedido. Nos conflitos entre senhores e câmaras motivados pela posse de áreas incultas – alguns deram origem a longos processos judiciais – estavam em causas motivações de natureza política. obrigando. Região de Coimbra. 183-223. 1858. as pessoas que possuíam o domínio útil de terras das casas senhoriais. Ana Isabel Ribeiro – Um conflito entre poderes na Gândara da Bunhosa no início do século XVII. 1978. tentavam obrigar os habitantes da comunidade que viviam do seu trabalho.cit. principalmente nas zonas onde se concentravam muitas casas senhoriais. . traduzia-se num forte constrangimento da acção camarária. jornaleiros ou lavradores. 587-631. ou jurisdicional. Salvador Mota –O senhorio cisterciense de Sta Maria de Bouro: património. Margarida Sobral Neto – Terra e Conflito. a prestar serviços gratuitos. Op.. Julho-Dezembro. Este privilégio. t. no Séc. Ora do universo dos potenciais prestadores de trabalho gratuito excluíam-se. pp. Lisboa. 43 José Viriato Capela – Tensões Sociais na Região de Entre-Douro e Minho. exploração e produção agrícola (1570-1834). XVIII.Uma Provisão sobre Foros e Baldios: problemas referentes a terras de logradouro comum na região de Coimbra. Porto. mas também no país.ª série (VII). 91-101. Imprensa da Universidade. Muitas destas eram aplicadas às pessoas que transgrediam os regulamentos concelhios de utilização de áreas incultas. as áreas incultas cobriam percentagens sig- 41 A existência de privilegiados.1984. que era ciosamente guardado por aqueles que o usufruíam. à partida. Em 1618. e de natureza económica.162 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS este motivo. Um conflito em que por norma saíam vencedores os senhores. sobretudo eclesiásticos.186). Coimbra. 42 Margarida Sobral Neto .. “Revista Portuguesa de História”.. o que podia confinar a área do património concelhio a escassas terras42. A apropriação dos recursos das áreas incultas constituiu um dos principais motivos de confronto entre senhorios. 2000 (dissertação de doutoramento policopiada). XXXII. Com efeito. como era por exemplo a região centro41. 14. propriedade. p. Ora os senhorios reivindicavam por norma o domínio directo sobre toda a área cultivada e inculta situada nas suas áreas de domínio. volume III da 2. “O Distrito de Braga”. “Revista de História Económica e Social”.. abarcando agora um leque mais amplo. Outro dos privilégios dos foreiros das casas senhoriais era a isenção de coimas. por vezes.

Em muitos casos. após a consulta das vereações. contrariando. como afirmou Aurélio de Oliveira. aliás. Mas os prejuízos mais visíveis eram de facto os de natureza económica: a impossibilidade de utilizar as terras incultas como fonte de receita significava uma enorme perda para as receitas municipais. também. destinando-se. que se pautavam pela auto-suficiência. Ora a impossibilidade de controlar os usos dessas áreas acarretava uma perda efectiva de poder sobre o território concelhio. o domínio das casas senhoriais sobre os incultos era abusivo. provocaram um desequilíbrio susceptível de afectar a produção e produtividade agrícola bem como a criação de gado. Com efeito. Em articulação com as políticas de abastecimento. no entanto. e também das câmaras. no sentido de evitar a saída de produtos necessários ao consumo do concelho. Muitos forais manuelinos que reconheciam o domínio senhorial sobre as terras incultas. alienando os espaços incultos sem consultar as vereações. o que estava disposto na lei. situando-se parte delas nas zonas fronteiriças entre concelhos. por norma.SENHORIOS E CONCELHOS NA ÉPOCA MODERNA 163 nificativas dos territórios concelhios. por parte dos senhorios. as câmaras para além de intervirem na agricultura. como senhoras absolutas do que consideravam os seus domínios. também. As casas senhoriais comportavam-se. Por sua vez. o grosso a ser comercializado. no entanto. sector no qual o abastecimento se assumia como principal preocupação. num tempo em que a renovação da fertilidade da terra passava pela utilização de adubos vegetais e animais a subtracção de terras que eram o suporte para a criação desses fertilizantes afectava os níveis de produção e de produtividade com repercussões directas no abastecimento em cereais. directamente aos senhorios. enquanto entidades a quem competia salvaguardar o bem comum. a diminuição das áreas de pastagem provocava uma diminuição da criação de gado o que interferia igualmente no abastecimento. A cobrança era intermediada através de contratadores de rendas que. seriam os grandes negociantes de pro- . Ora. Tendo em conta a complementaridade existente entre áreas cultivadas e incultas as alienações destas. determinavam que a sua alienação fosse feita “em camera”. nesta área as políticas concelhias podiam ser afectadas pelos interesses dos senhores. base da alimentação das populações. Estas eram assim detentoras de produtos agrícolas para consumo nas próprias casas. Este pagamento não era feito. uma parte significativa da produção agrícola destinava-se ao pagamento de diversos direitos às casas senhoriais. Este facto repercutia-se negativamente no exercício de uma das principais competências dos concelhos: o governo económico. no comércio de géneros alimentares. isto é. Com efeito. intervinham.

Alguns estudos sobre rendas agrícolas. “Revista de História Económica e Social”. bem como o movimento de contestação anti-senhorial. redes e dinâmicas sociais. A comunidade de Eiras nos finais do século XVIII. ao longo do século XVIII. 67). de que o marquês se tinha apoderado”( Jorge Fonseca – Montemor-o-Novo no século XV. Ora. pertencente ao município. . Op. não se verificando retorno em investimento. E observou ainda que “tanto para os donatários leigos como para os eclesiásticos o 44 Aurélio de Oliveira – A renda agrícola em Portugal durante o Antigo Regime (Séculos XVII-XVIII). in “História de Portugal”. João II “que lhe permitisse tomar posse de certa quantidade de cereal.164 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS dutos agrícolas. mas para a qual não tenho encontrado muitas respostas45. “se confundia com a cobrança de direitos e não com as jurisdições”47. 47 Nuno Gonçalo Monteiro – O poder senhorial. atestam bem esta realidade. o sistema de cobrança de rendas utilizado pela maioria das casas senhoriais poderia contrariar a política de autarcia económica prosseguida pelos municípios. p. Ora. pelo menos na zona de Entre Douro e Minho44. Alguns aspectos e problemas. 357. p. 1-56. Julho-Dezembro de 1980. Com efeito. nomeadamente os decorrentes da subida de preços.º 6. Com a mesma política colidiam os monopólios senhoriais de fabrico de azeite. de acordo com o estabelecido nas Ordenações um terço da produção teria que ficar sempre no concelho em que era produzido. Em 1483. vinho ou pão. o principal problema residia no excessivo peso da tributação senhorial que asfixiava a vida económica local. comprometeu a vida económica das comunidades e consequentemente as políticas concelhias. Estruturas. por causa do exclusivo senhorial do fabrico do azeite (Ana Isabel Sacramento Sampaio Ribeiro. Nuno Monteiro observou que a “questão senhorial”. n. 46 A população de Eiras e o mosteiro de Celas confrontaram-se. Mas teriam os contratadores de rendas respeitado sempre esse princípio? Esta é uma pergunta que eu venho a colocar aos documentos há já algum tempo. o facto de uma parte significativa da riqueza produzida numa comunidade ser canalizada para as casas senhoriais. 45 Conhecem-se casos de câmaras que mandaram colocar cadeados em celeiros dos senhores para impedir o desvio de cereais em tempos de carestia. estatuto nobiliárquico e aristocracia.cit). apesar dos protestos das populações e das câmaras46. pp. tal como ela se exprimiu de uma forma particular nos finais do século XVIII. com as necessárias consequências negativas para alguns estratos da população. o concelho de Montemor-o-Novo solicitou a D. Mas o problema não residia apenas no eventual desvio de produtos necessários ao abastecimento local. privilégios ciosamente preservados pelos senhores. provocada pela diminuição da oferta.

Sociedade Portuguesa de Estudos do Século XVIII. na última década do séc. de facto. Esta situação explica a conflitualidade que. Uma perspectiva histórica”. 1997. Margarida Sobral Neto – Poder central e poderes locais na época pombalina. A libertação dos municípios da tutela senhorial ocorrerá apenas na sequência da revolução liberal. Câmara Municipal de Montemor. in “Poder central. 1999. Lisboa. e sobretudo recursos. o desempenhado pelos cobradores de rendas ou pelos executores das casas senhoriais. Consideramos que o atrás exposto pode sustentar a tese de que o exercício do poder concelhio foi fortemente condicionado pelo poder senhorial com quem teve de partilhar jurisdições. agora reduzidos em número. A força do poder senhorial resistirá. Luís Nuno Espinha da Silveira – Estado liberal e centralização. . Paulo Jorge da Silva Fernandes – Elites e finanças municipais em Montemor-o-Novo. que se intensificou na época pombalina decorrente das políticas. à aplicação integral da legislação que. Cosmos. Com efeito. entretanto. ao longo da época moderna. o exercício dos poderes senhoriais constitui-se como um factor limitador da autonomia das câmaras e fortemente condicionante do exercício das políticas concelhias. promovidas pelas vereações. 50 Sobre as transformações ocorridas na vida municipal no período liberal vide. poder local. 2000. políticas que foram coadjuvadas pelos oficiais periféricos da Coroa.o-Novo. poder. 48 49 Idem. No quotidiano da vida das comunidades o poder senhorial mais sentido pelas populações era. se gerou entre senhorios e municípios. no momento em que a autonomia dos concelhos. XVIII aboliu os direitos jurisdicionais concedidos aos donatários.SENHORIOS E CONCELHOS NA ÉPOCA MODERNA 165 número de concelhos em que recebiam direitos com jurisdição era idêntico ao daqueles em que cobravam direitos sem jurisdição”48. Reexame de um tema. Do Antigo Regime à Regeneração (1816-1851). poder regional. nomeadamente provedores e corregedores49. pp. pp. in “Origens do Estado Moderno (Revista Século XVIII)”. 356-357. tendentes a libertarem-se das presenças senhoriais nos territórios concelhios. Lisboa. 65-84. será cerceada pelo poder central50.

Thompson3. assistiu-se também ao surgimento de uma série Notas no final do trabalho. para a Galiza cumpre ter em conta as investigações de Manuel Artaza Montero17 e de María del Cármen Saavedra Vázquez18. de José Manuel de Bernardo Ares8 ou de Juan E. Acerca das instituições representativas de Navarra. Em Inglaterra. Os Municípios no Portugal Moderno: dos forais manuelinos às reformas liberais Lisboa. Assim. de I. . de J. A. por fim. Trata-se de investigações que muito contribuíram para esclarecer o papel político desempenhado pelas assembleias de Cortes. por exemplo. de Charles Jago7. hoje dispomos de um conhecimento bastante razoável acerca as assembleias representativas da época moderna. 167-242. Edições Colibri – CIDEHUS-UE. de Juan Luis Castellano6. Carretero Zamora4. Os órgãos representativos de Aragão e da Catalunha também mereceram alguma atenção. os trabalhos de Luis González Antón. 2005. Grande parte dos estudos que foram realizados incidiu nas instituições representativas dos reinos ibéricos que integraram a Monarquia Hispânica. M.Entre o centro e as periferias. e para o País Basco os trabalhos de Jon Arrieta Alberdi16. A assembleia de Cortes e a dinâmica política da época moderna* PEDRO CARDIM (Universidade Nova de Lisboa – Dept. de Oriol Oleart i Piquet13 ou de Joan Lluis Palos Peñarroya14. Convém frisar que o interesse pelas assembleias representativas não é exclusivo dos historiadores que trabalham sobre a Península Ibérica19. destacando-se. Gelabert9. entre os muitos estudos que poderiam ser citados. são hoje uma referência obrigatória os trabalhos de Pablo Fernández Albaladejo1. de José Ignacio Fortea Pérez2. pp. e no que toca às Cortes de Castela-Leão. de Angel Casals12. de Luis González Antón5. A. veja-se os estudos de Fernando de Arvizu y Galarraga15. de História) Após duas décadas de significativos desenvolvimentos historiográficos. de Xavier Gil Pujol10. mas também as investigações de Ernest Belenguer Cebrià11.

nomeadamente. dos estudos de Henrique da Gama Barros30. urge levar a cabo o estudo comparativo. e ao contrário do que sucede para as Cortes da Idade Média – período para o qual dispomos dos trabalhos de José Mattoso34. ainda que indirectamente. e a despeito do trabalho que foi realizado. Mark Kishlansky22 e. do contexto em que cada uma delas se realizou. também foram objecto de aturado estudo. dos seus participantes. Por outro lado. a recente historiografia manifestou algum interesse pelo estudo das assembleias representativas do Portugal da época moderna. de Eduardo Freire de Oliveira31. Conrad Russell23. a compreensão do papel desempenhado pelas Cortes no conjunto da administração central da Coroa. Todavia. na linha daquele que foi efectuado por Fernando Bouza para a assembleia de 158147. a Flandres26 ou o Sacro Império27. tendo em vista captar a percepção que os povos peninsulares tinham das assembleias representativas realizadas nos reinos vizinhos. antes de mais. está por fazer a análise. das reuniões de Cortes. de Armindo de Sousa35. etc. de Fernanda Olival44. dos debates desenvolvidos. de Maria Helena da Cruz Coelho36. Seja como for. à escala ibérica. As instituições representativas de outras partes da Europa moderna. No que toca às reuniões celebradas no período Seiscentista. como a França24. em particular enquanto espaço de articulação entre os poderes locais e a Coroa. A historiografia portuguesa participou. de Pedro Cardim45 ou de Ângela Barreto Xavier46. de António de Oliveira40. Tirando partido das questões levantadas em trabalhos pioneiros – como os de João Pedro Ribeiro28 ou do Visconde de Santarém29. Pensamos. caso a caso. As Cortes do século XVI. demasiado vasta para ser aqui apresentada. Importa aprofundar. Todavia. ainda não existem estudos abrangentes sobre o conjunto das reuniões dos séculos XVI e XVII. de Fernando Bouza Álvarez39. neste renovado interesse pelas Cortes da época moderna. de Francisco Ribeiro da Silva43. de Amélia Aguiar Andrade e de Rita Costa Gomes37 –. e. continuam à espera de um estudo aprofundado. os Estados Italianos25. posteriormente. sobretudo. nos contributos de Joaquim Romero Magalhães38. . assinadas por historiadores como Blair Worden21. de Paulo Merêa32 ou de Marcelo Caetano33 –.168 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS de obras dedicadas ao Parlamento dos séculos XVI e XVII20. não há dúvida de que muito subsiste por estudar. das decisões tomadas. de Luís Reis Torgal41. de António Manuel Hespanha42. também. algumas das mais importantes investigações sobre a história política e administrativa do Portugal Moderno contribuíram para uma compreensão aprofundada do lugar das Cortes no sistema político. de que resultou uma volumosa bibliografia.

Urge efectuar. Trata-se de um universo político onde o principal quadro de referência não era a divisão administrativa implementada pela Coroa. por seu turno.. a da influência das autoridades senhoriais no comportamento dos procuradores oriundos de vilas situadas nos seus senhorios. assim como o impacto das suas decisões no mundo político das periferias48.. É igualmente imprescindível dedicar alguma atenção à articulação entre as Cortes e o mundo local. os processos de decisão. João V e de D. Fundamental será. tendo em vista compreender a relação entre as sucessivas configurações do discurso político e o maior ou menor protagonismo das Cortes. 169 Cada uma das actas das sessões.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. As Cortes no ambiente político do Antigo Regime A fim de compreender o papel político das Cortes no quadro das relações entre o centro e as periferias. a fim de se perceber. abordagens na linha da história das ideias políticas. é indispensável ter em conta que se trata de uma assembleia que operava num quadro comunitário eminentemente corporativo. Questão importante é. está por cumprir toda uma vasta agenda de investigação sobre as Cortes do Portugal da época moderna. as várias alusões à «assembleia dos três estados» nos reinados de D. Quanto ao vasto conjunto de petições existente nos arquivos portugueses. ou do papel de Lisboa como «cabeça» do reino. também. e cumpre estudar. mas sim o laço de pertença que resultava do próprio . Falta. de molde a reconstituir o sentido das intervenções dos participantes. temática largamente negligenciada pelos historiadores portugueses e de cujo estudo depende a compreensão cabal do significado político das Cortes da época moderna49. seria merecedora de um “estudo de caso” altamente contextualizado. e num contexto social onde coexistiam distintos sentimentos de pertença à comunidade política. uma iniciativa sistematizada de publicação da documentação produzida pelas Cortes do século XVII50. igualmente. igualmente. trata-se de um corpus que continua à espera de uma análise de conjunto. Por último. também. os processos de selecção e o estatuto dos procuradores. igualmente. urge avaliar o verdadeiro significado do debate sobre as Cortes na segunda metade de Setecentos. por exemplo. etc. o mesmo se podendo dizer de questões como a hierarquia entre as cidades e vilas com voto em Cortes. A ASSEMBLEIA DE CORTES. a realização de investigações sobre a história da fiscalidade. José I. A participação do «estado da nobreza» e do «estado eclesiástico» nas sucessivas reuniões de Cortes é outro tema que ainda não foi objecto de um estudo sistemático.. o funcionamento das sessões. Como se pode verificar nesta breve enumeração.

em especial o de administração da justiça. no seu seio. era este o cenário que caracterizava toda a Península Ibérica53. adaptando-se à realidade social e jurisdicional que a precedia. y como en el cuerpo phisico ay correspondência de amor. Nesse quadro. Cada um dos «reinos» que povoava a paisagem da época moderna era. também elas estavam presentes. como a cabeça de um conjunto de territórios. assim. Convém não esquecer que a sociedade da época moderna assentava em corpos de todo o tipo. e a cidade ou vila onde se residia constituía o núcleo central da sociabilidade. y el Reyno hazen un cuerpo mixtico. A malha administrativa da Coroa desenvolveu-se mais lentamente. assi la deue auer en el mixtico de la Republica. ordem essa que atribuía a cada uma das instituições locais um lugar preciso na escala de dignidade política. entre el Rey y sus vassallos…»52. do conceito de autoridade no Antigo Regime51. a comunidade local era o elemento que precedia as demais unidades políticas. O rei surgia. e com combinações de natureza bastante diversa. «el Rey. Tanto uns como os outros formavam comunidades tendencialmente completas. e o reino como uma comunidade de cidades. el cabeça. O quadro de referência da Coroa era o «reino». Em termos administrativos. toda uma série de comunidades locais. um conjunto político plural. a comunidade territorial de ordem superior que englobava. pequenas «repúblicas» virtualmente auto-governadas. onde sempre se enumerava. No que respeita às divisões administrativas da Coroa. Estamos. as principais instituições actuantes sobre o terreno eram os senhorios – eclesiásticos e seculares – e os municípios. e fê-lo. o qual lhes concedia uma margem de autonomia mais ou menos ampla. cada um deles titular de uma diversa gama de poderes.170 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS tecido social em que cada pessoa estava integrada. resultante da progressiva incorporação e agregação de territórios. todos os domínios que estavam sob a alçada do soberano. assim. por sua vez. perante um ambiente de pluralidade de pertenças e de identidades políticas. Nas palavras do jurista João Salgado de Araújo. A urbe. segundo uma escrupulosa ordem hierárquica. de resto. como se sabe um atributo essencial. era tida como uma comunidade de famílias. embora a sua entrada em cena seja posterior à das divisões que acabámos de referir. Tal heterogeneidade. Todos esses territórios estavam sob a égide de um rei. Os princípios fundamentais que regiam a coexistência no espaço do «reino» eram a partilha recíproca – entre o rei e o reino – de direitos e de deveres. territórios esses que apresentavam perfis e estatutos bastante diversos. entre cabeça y miembros. por conseguinte. assim como os variados corpos em que estava estruturada a sociedade. as . estruturante. Apesar dos inevitáveis contrastes regionais. y los vassallos miembros. encontrava-se bem expressa na titulatura régia. escalonadas segundo uma ordem fortemente hierárquica. num primeiro momento.

por último.. podia-se também fazer parte de uma monarquia ou. A par destas pertenças. falando-se em «bem comum do reino» e em direitos. sobretudo quando comparadas com os deveres para com a família. Carlos I e Filipe II nos domínios dos Habsburgo. 171 quais não eram necessariamente contraditórias. e em que o «reino» se tornava momentaneamente visível enquanto enquadramento de pertença comum a todos os diversificados membros que o integravam. as obrigações associadas à condição de parte integrante do «reino» eram pouco consensuais e pouco mobilizadoras. A ASSEMBLEIA DE CORTES.. No ambiente político do Antigo Regime a assembleia das Cortes era o momento em que estas várias partes que compunham a comunidade se reuniam com o rei. a uma vila ou a um bairro. primeiro. Verificou-se que os sentimentos de ligação à comunidade local já não eram completamente compatíveis com a realidade cada vez mais extensa de entidades como a Coroa Portuguesa. O mesmo se poderia dizer da Coroa de Castela. com a expansão das monarquias. Contudo. depois. tanto na Europa como fora dela55. no século XVI. ou para com a entidade corporativa de que se fazia parte. D. Sebastião I em Portugal. Todavia. a partir daí pertencia-se a uma cidade-província. Por fim. todos estes quadros de pertença estavam englobados naquele que era o elemento identitário por excelência: a inserção na Respublica Christiana. adicionando-os aos pré-existentes laços de natureza orgânica e de cariz particularista. igualmente. de uma solidariedade geral. Quanto aos reis. reuniram-se as condições para a reconfiguração dos laços de associação política. também ela senhora de vastos domínios. depois a uma aldeia. Fizeram-no . a inserção em corpos como o estado social ou o grupo sócio-profissional. porque predominava um sentimento de pertença eminentemente orgânico e particularista. de seguida. bem se esforçaram por aprofundar o significado da pertença a unidades políticas mais vastas. mas sim complementares. para com a comunidade onde se residia. a uma família.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. importa ter em conta que as obrigações inerentes à pertença ao «reino» estavam longe de possuir a força que caracteriza os actuais deveres de cidadania. As várias casas reais procuraram forjar outro tipo de vinculações e de sentimentos de pertença. era-se habitante de uma cidade. avultava. que não favorecia o desenvolvimento espontâneo de deveres para com organizações políticas mais vastas e de natureza artificial. a qual por essa altura se assumiu como a cabeça de um império pluricontinental. No cenário político do Antigo Regime. a um reino. No decurso das «reuniões dos três estados» eram invocados sentimentos de pertença a um corpo político a que se dava o nome de «reino». João III e D. de um império. Pertencia-se. até. Faltava uma base para o surgimento de obrigações comuns. mas também em obrigações inerentes à condição de parte integrante da comunidade reinícola54..

para que tivessem em conta não só o seu «bem particular». congregando. e vários territórios resistiram a esta dinâmica. mas também o «bem comum do reino»? Convém lembrar que as Cortes começam por ser uma forma alargada de conselho régio. de forma cada vez mais insistente. muitos questionaram as grandiloquentes visões régias de conversão do Reino lusitano na cabeça de um potentado pluricontinental. A orgânica das Cortes Qual foi o papel desempenhado pelas assembleias de Cortes nesse período em que os líderes políticos do ocidente Europeu apelaram aos seus vassalos. Assim. apenas as figuras mais proeminentes do reino. os sentimentos particularistas de que atrás falámos revelaram-se muito resistentes. Nos derradeiros anos de Quatrocentos. Miguel da Paz são reveladoras da hipótese de entrada de Portugal para uma união com Castela e Aragão. Seja como for. as movimentações em torno do príncipe D. Em Portugal. numerosos foram os castelhanos que manifestaram reservas face aos propósitos imperiais de Carlos I e de Filipe II56. como é sabido. Curiosamente. onde as obrigações inerentes à pertença a esses espaços políticos surgiam cada vez mais associadas às causas comuns da Cristandade. Em Castela. os nobres foram o único dos «três estados» a comparecer na .172 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS desenvolvendo uma pujante acção mecenática. na primeira fase do seu percurso histórico as Cortes funcionaram sobretudo como o espaço de articulação entre a Coroa e a elite nobiliárquica. no início. e durante muito tempo essa assembleia foi dominada pela nobreza. Como se sabe. Manuel levou muito a sério a hipótese de liderar um projecto de união com Castela e Aragão sob a égide da Coroa portuguesa. e os seus membros também fomentaram projectos de constituição de unidades políticas de carácter mais vasto. Todavia. nessa ocasião um segmento da sociedade portuguesa não escondeu o seu temor perante as consequências que poderiam advir da entrada do reino lusitano para uma unidade política tão vasta57. os representantes das cidades começaram a ser chamados às Cortes a partir de meados do século XIII. incrementando o seu dispositivo administrativo. a fim de conferir mais homogeneidade à acção da Coroa. secular e eclesiástica. Fizeram-no. D. Em Portugal. cumpre referir que. também. o projecto de conversão da Coroa lusitana na cabeça de um grande império também não se revelou consensual e. Aliás. em certos momentos. Cumpre não esquecer que a família real de Portugal – a Casa de Avis – acalentou planos dinásticos. a primeira assembleia que contou com a presença de procuradores das cidades parece ter sido a que se realizou em 1254.

E à semelhança do que se passava com todos os órgãos administrativos da época. mais esbatida. como o seu próprio nome indica. Porém. sobretudo enquanto espaço de comunicação política com o rei. É fundamental não esquecer. a missão primordial do poder político consistia em reconhecer a ordem e garantir um equilíbrio inscrito na natureza das coisas. assim. desde reivindicações corporativas até advertências acerca de temas da actualidade do reino. que as Cortes começaram por ser compostas. Por outras palavras. desenvolveu outros canais para estabelecer a sua interacção com a Coroa. sem dúvida. com o desenvolvimento dos vários órgãos da administração da Coroa e com a afirmação da corte régia como palco principal da política58. uma modalidade alargada de conselho régio. a assembleia instava os vassalos a apresentar problemas. como um tribunal. e ao contrário do que sucedia com o clero e com a nobreza. em vez de exercer uma jurisdição eminentemente voluntária. Nessa fase as Cortes eram. . por isso mesmo. Esses pedidos eram formulados em dois principais tipos de documentos: os «capítulos particulares». a assembleia representativa foi-se tornando mais importante para as corporações urbanas. e os «capítulos gerais». A ASSEMBLEIA DE CORTES. portanto. pelos membros dos grupos privilegiados. Nas Cortes deparamos. natural. as Cortes foram-se tornando menos relevantes para o grupo nobiliárquico. intervir.. uma vez reunidas as Cortes. Não devemos esquecer que. mas sobretudo como uma espécie de instância judicial. os quais. as Cortes actuavam segundo uma técnica que estava pensada não tanto para evitar que a desordem se registasse. também as Cortes actuavam segundo uma matriz jurisdicionalista. designadamente os emergentes conselhos palatinos e alguns sectores da cada vez mais desenvolvida administração da Coroa. fundamentalmente. de resto. Assim. tendo como principal finalidade a manutenção dos equilíbrios pré-existentes. mas sim para repor a ordem depois de rompida a natural disposição das coisas. nesse período. todos os presentes assumiam a posição de autoridades imparciais chamadas a verificar a admissibilidade jurídica de pretensões e de contra-pretensões. faziam eco dos problemas «particulares» de cada comunidade local. e que só mais tarde esta assembleia abriu as suas portas ao chamado «terceiro estado». 173 reunião.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. actuando o rei a pedido dos vassalos. Paralelamente. Nesses pedidos gerais a visão particularista surgia. Enquanto órgão dotado de uma matriz judicial. produzidos pelos «três estados» na fase inicial de cada assembleia. com uma prática de governo (e uma correlativa teoria) que tendia a conceber o poder antes de mais como instrumento para a conservação da ordem. podendo. o qual.. apenas. no processo governativo. e que incluíam questões de alcance mais geral. os representantes do reino pensavam-se a si mesmos não só como conselheiros. Assim. mas também jurídica..

entre o rei e os seus vassalos. A prerrogativa de convocar os «três estados» era vista como uma marca de soberania. as Cortes eram encaradas como o encontro. no espaço da Monarquia Hispânica. pelo contrário. Trata-se de uma indefinição que remonta ao período medieval. Seja como for. só o rei em pessoa podia chamar e presidir às Cortes. o que fazia com que. A. durante os séculos XVI e XVII. deparamos com alguns territórios cujas assembleias representativas foram frequentemente convocadas pelos representantes locais do monarca: nas possessões hispânicas de Itália60. foram deixando de comparecer nas reuniões de Cortes. Vários chegavam mesmo a alegar que o parecer do conselho régio podia substituir o diálogo com as Cortes. e como notou I. Assim. De qualquer modo.174 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS De acordo com o costume. a consulta das Cortes era como que um acto de «graça». e era precisamente essa proximidade física face ao monarca que fazia com que a assembleia fosse tão valorizada pela sensibilidade coetânea. fruto da situação atrás mencionada: a aristocracia encontrara outros canais de influência e de articulação com a Coroa. Como sugerimos atrás. A. para alguns o rei tinha a obrigação de chamar a assembleia representativa antes de tomar qualquer decisão governativa de maior importância. em princípio. assim como resolver problemas governativos que estivessem pendentes. Todavia. Esta indefinição marcará todo o percurso histórico da assembleia62. a fim de renovar o compromisso entre a Coroa e o reino. o costume mandava que o rei deveria permanecer na localidade onde decorriam as Cortes até ao final dos trabalhos. já nessa altura. enquanto que. dependente do arbítrio régio. pois. estava em curso um processo de gradual afastamento dos magnates da nobreza em relação às Cortes. desde a segunda metade do século XIV os únicos nobres e clérigos que participavam na reunião eram aqueles que desempenhavam algum cargo na corte régia ou que. a partir de meados do século XIV o perfil dos órgãos representativos sofreu uma importante mudança. para outros. por . por exemplo. Os únicos que continuaram a marcar presença foram os representantes das cidades. não fosse delegável59. Thompson63. É certo que o encontro físico entre o monarca e os «estados» do reino só tinha lugar na sessão de abertura solene e nas cerimónias de juramento que eventualmente tivessem lugar. importa referir que a situação constitucional das Cortes não era completamente clara. sobretudo em Castela. Todavia. aos poucos. reino onde o clero e a aristocracia. enquanto que em Portugal este princípio foi sempre respeitado. por excelência. No fundo. os vice-reis presidiam a Cortes napolitanas e sicilianas. e o mesmo se terá passado em juntas de cidades da América Espanhola61. A finalidade era «tornar presente» o reino ao rei.

Por isso. Acresce que as Cortes portuguesas continuaram a decidir sobre matérias de “alta política”.. a assembleia representativa desenvolveu uma considerável actividade de produção normativa. o recrutamento militar. altura em que as convocatórias se tornaram muito menos numerosas. sendo sistematicamente chamadas para intervir em certas áreas fulcrais do governo do reino como o juramento do rei ou a fiscalidade régia66. 175 acaso. também em terras lusitanas. entre as cidades registaram-se conflitos de precedência relacionados com o lugar em que participavam na «assembleia dos três estados». facto que aponta no mesmo sentido da valorização da importância da assembleia. em Portugal. . Os trabalhos de Armindo de Sousa sugerem que. Trata-se de uma solução que tinha em vista agilizar os processos de decisão. na reunião celebrada em Leiria. as Cortes portuguesas de finais da Idade Média terão contado com a participação regular de representantes de cerca de oito dezenas de cidades e vilas65. De acordo com A. controlo administrativo). A partir da assembleia de 1331 os diversos «estados» passaram a reunir separadamente64. se encontravam nas proximidades do local onde se realizava a reunião. em 1480 as Cortes de Castela eram já. embora o distanciamento da nobreza e do clero seja menos pronunciado. podemos afirmar que as Cortes de Portugal mantêm o seu perfil de assembleia com «três braços». os representantes dos núcleos urbanos costumavam ser os mais entusiastas na afluência às Cortes. uma instituição dotada de uma só câmara. a gestão das clientelas locais. embora se registe um certo desinteresse dos grupos nobiliárquicos. oficiosamente.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. aquela que reunia os representantes das cidades. ao mesmo tempo que interveio na política local. Quanto ao «estado do povo». no período tardo-medieval. enquanto que o clero marcou presença em 24 reuniões. Um outro indicador a ter em conta é o elevado ritmo das suas convocatórias: na centúria de Quatrocentos realizaram-se mais de quatro dezenas de reuniões67. grupos restritos de procuradores constituídos por iniciativa dos oficiais régios e que ficariam incumbidos de assegurar o andamento dos trabalhos. etc. sobretudo em áreas como a fiscalidade (cobrança.. A ASSEMBLEIA DE CORTES. No tocante a Portugal. a nobreza compareceu em apenas 23 das 44 reuniões realizadas entre 1385 e 1490. um valor muito superior ao que se registou no século posterior. ou seja. Sousa. Assim. ou seja. Para além disso.. pode dizer-se que. e em 1477 surgiram as chamadas «comissões de definidores». as Cortes evoluíram no mesmo sentido dos demais reinos ibéricos. no quadro da resposta às petições. Além disso. foi em 1254 que os procuradores das cidades e vilas participaram pela primeira vez nas Cortes. No que respeita ao afastamento dos grupos privilegiados.

Como dissemos. A. A. O imperador desejava que esses grupos sociais tomassem parte. a resposta da aristocracia castelhana ao apelo do Imperador foi muito expressiva: 80% dos titulares e do alto clero responderam à chamada. a representação possuía. e terá sido esse o motivo que levou o imperador a ordenar a sua dissolução. A. um carácter senhorial. Todavia. como dissemos. em 1538 Carlos V tomou uma decisão marcante: exortou a nobreza e o clero a comparecer nas Cortes. no período medieval. na assembleia. em vez de apoiar os projectos de Carlos V. as Cortes de Castela converteram-se numa assembleia de procuradores de cidades e vilas. I. Thompson. participavam na reunião enquanto entidades que administravam territórios habitados por uma população mais ou menos significativa. Uma coisa é certa: a não comparência da nobreza retirou alguma força às Cortes de Castela. formas razoavelmente diversas de representação política70. esses dignitários par- . a assembleia tornou-se no principal pólo de oposição aos novos impostos que a Coroa desejava introduzir. o mesmo se podendo dizer da sua capacidade de intervenção em questões da alta política69. e também as cidades. os quais. para a nobreza as Cortes tinham-se tornado pouco relevantes. As formas de representação política nas Cortes Enquanto órgão representativo. as Cortes activaram. à data. A dissolução das Cortes. ao longo da sua história. vinham-se desinteressando das Cortes desde meados do século XV. a 1 de Fevereiro de 153968. razão pela qual a sua função consultiva diminuiu consideravelmente. E com o abandono da aristocracia. por Carlos V. Tanto os nobres como os clérigos. de facto. Thompson71 e José Ignacio Fortea Pérez72 assinalaram que. marcou o fim da convocatória dos nobres e do «estado eclesiástico» para a assembleia castelhana. Como assinalámos. A. a nobreza. mas também o clero. encontraram canais alternativos para exercer a sua influência política e para defender os seus interesses económicos. essa assembleia jamais contaria com o «braço da nobreza» formalmente reunido. e ao fazê-lo estava de algum modo a reeditar um modelo de reunião que. em 1539. estava a cair em desuso naquele reino. Em 1538. e como notou I. Até ao último chamamento das Cortes de Castela durante o século XVII (registado em 1664).176 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS No que concerne a Castela. mas também como uma opção da aristocracia e do clero. sobretudo. Assim. cumpre assinalar que essa foi uma das raras ocasiões em que os «três braços» actuaram de forma concertada contra a fiscalidade régia. facto que deve ser visto não só como uma forma de a Coroa evitar uma oposição mais concertada entre os «três braços». Aliás.

. mas sim como um direito que lhes assistia. as quais assumiram a tarefa de representação do conjunto da Coroa de Castela. 177 ticipavam nas Cortes não só como membros do «estado eclesiástico» ou do «estado da nobreza». pequenos lugarejos. Discutiu-se.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. tendo perdido uma votação sobre questões fiscais. comparecendo um total de dezoito cidades. razão pela qual. escreve D. entre outras coisas. e he cousa que não padeseo numqua de comtrouersia». mas também como senhores de terras. António M. às Cortes. vimos atrás que. após 1539. não era claro se os nobres. Como dissemos. O caminho percorrido até se chegar a essa situação tinha sido longo. no «terceiro estado». João IV em Fevereiro de 1646. parece que as Cortes se assumiam como uma assembleia que representava o conjunto do reino. fazia com que os seus processos decisórios fossem algo diversos daqueles que vigoravam no «terceiro estado». as instituições urbanas passaram a ser o único «braço» chamado às Cortes de Castela. o que. a propósito deste tema. A nobreza e o clero. para além disso. até. como figuras que detinham uma margem de autoridade administrativa sobre parcelas significativas do território e sobre conjuntos populacionais nada desprezíveis73. A ASSEMBLEIA DE CORTES. a questão jamais reuniu consenso. chegou a integrar mais de uma centena de urbes. com regularidade. se recusavam a acatar a decisão maioritária77. e em seu nome concordava ou não com o que lhe era pedido74. Enquanto que no «estado da nobreza» e do clero o princípio da maioria suscitou algumas reservas. No que respeita ao «terceiro estado».. que o entendimento atomista de representação prevaleceu até ao final do Antigo Regime: em questões de política global do reino. só a partir de finais do século XIII é que as comunidades urbanas começaram a ser chamadas. em princípio.. os membros do «estado da nobreza» não eram eleitos nem recebiam qualquer procuração. No entanto. costumavam vincar que participavam nas Cortes não tanto por obrigação para com o rei. Hespanha notou. ou seja. permaneceu a ideia de que cada participante se representava a si mesmo. . No caso da assembleia de Castela-Leão. e ao longo de toda a existência das Cortes discutiu-se até que ponto os juramentos ou os votos nas assembleias obrigavam aqueles que não estavam presentes75. apesar da resistência de alguns procuradores. Seja como for. esse princípio parece implantar-se: «o que se assenta e vence pela maior parte se assina e segue pela menor. tanto cidades de grandes dimensões como vilas e. se o voto da maioria dos membros do «estado da nobreza» obrigava aqueles que tinham decidido noutro sentido76. respondendo a alguns procuradores que. não podiam falar pelo conjunto do «estado da nobreza». em questões como pedidos ou «serviços». também. Além disso. representavam a nobreza enquanto corpo. quando compareciam nas Cortes. De facto.

Segóvia. pois. Refira-se que. Castela-a-Velha e Castela-la-Mancha eram. Ávila. contavam com um grande número de assentos em Cortes. e como assinala o mesmo J. Desse modo. Córdova. as áreas melhor representadas nas Cortes de Castela-Leão. entre os quais avultavam as províncias bascas (que contavam com a sua própria estrutura representativa. Para Luís Miguel Duarte. A distribuição geográfica das urbes com voto em Cortes é também reveladora de que a representação política activada nessas reuniões não reflectia um critério de proporcionalidade geográfica ou demográfica. as quais. A região mais densamente povoada do reino – Entre-Doutro e Minho – estava sub-representada. Fortea Pérez. situação compensada pelo facto de o município de Burgos representar oficiosamente a zona Cantábrica. de um modo geral. o norte peninsular carecia também de representação na assembleia castelhana. dos concelhos das regiões situadas a norte do rio Mondego81. tendo sido esse o factor que ditou a fraca participação. em Portugal a procedência geográfica dos procuradores também não obedece a nenhum critério de proporcionalidade aritmética. León. De um modo geral. José Ignacio Fortea Pérez79 notou que mais de metade dessas cidades se concentravam no interior de Castela: nove em torno da bacia do rio Douro (Burgos.178 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS com o passar do tempo o número de municípios representados nas Cortes de Castela foi claramente diminuindo: das 101 cidades presentes em 1315 passou-se para 17 em 1435. tal como os nobres. dependia de Zamora. Por outro lado. enquanto que regiões muito menos povoadas. Sória). Desse modo. Zamora. a força do regime senhorial a norte do Mondego explica esta disparidade. há também a registar a presença de um número considerável de procuradores enviados por cidades e vilas situadas na proximidade da fronteira. enquanto que Salamanca falava por toda a Extremadura80. Leão. Sevilha e Granada). quatro no reino andaluz (Jaén. então conhecia por «La Montaña». vastos territórios ficavam privados de representação nas Cortes. a opção por não comparecer foi tomada pelas próprias localidades. encararam a assembleia como uma instituição pouco relevante para a protecção dos seus direitos78. Salamanca. a cidade de León desempenhava idêntico papel para o Principado de Astúrias. como o Alentejo. Cuenca e Guadalajara). nas juntas específicas completamente independentes das Cortes de Castela). Toledo. o factor que motivava a participação das cidades nas Cortes era a forte tradição de governo participativo que existia em toda . Para além destas regiões. Toro. e uma no reino de Múrcia (Múrcia). Valhadolide. coube a dezoito cidades falar em nome do conjunto da Coroa de Castela. À semelhança do que sucede nas demais Cortes ibéricas. I. quatro em terras de La Mancha (Madrid. Quanto ao reino da Galiza. nas Cortes. assim como os territórios das Ordens Militares.

uma série de autores lembrava insistentemente que o povo – e não o rei – era o depositário do poder originário de Deus85. após a derrota dos comuneros a linha doutrinal de sentido regalista ganhou novo alento. Herzog82). De facto. E ao mesmo tempo que se desenvolvia esta tradição de governo participado. Todavia. e a situação de auto-governo em que viveram. manifestaram uma menor disposição para convocar um órgão que. A ASSEMBLEIA DE CORTES. como por exemplo no movimento das Comunidades de Castela83.. Acresce que as concepções políticas predominantes no mundo ibérico apontavam muito mais para um exercício do poder partilhado. ainda mais contribuiu para enraizar tais processos de decisão. no quadro deste imaginário político que a Coroa concedia a certas cidades a «honra» de tomar parte nas assembleias. . as autoridades municipais reforçavam a sua identidade e constituíam-se como pequenas repúblicas locais. desse modo. durante séculos. e o ideário «republicano» teve menos espaço para se desenvolver84. lembrava que a pessoa régia não estava sozinha na decisão sobre questões governativas. dos valores cívicos e do individualismo. A influência de Itália e do chamado «humanismo cívico». facto que também terá contribuído para consolidar a presença das cidades nas Cortes. Desde tempos ancestrais os municípios vinham desenvolvendo formas colegiais de decisão. 179 a Península Ibérica. Para além disso. é interessante verificar que o facto de a cultura política ibérica ser intrinsecamente regalista não foi necessariamente incompatível com o reconhecimento de que as Cortes tinham um determinado lugar na relação entre o rei e os seus vassalos. É muito significativo que os escritos de teoria política em circulação a partir desse período retratem as Cortes como um mero fórum de debate. Segundo Xavier Gil Pujol. doutrina acolhida nas obras dos principais teólogos e juristas daqueles anos86. o exercício da autoridade régia era visto como parte de um sistema de poderes e de contra-poderes que se equilibravam.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. garantindo à população que estava sob a sua égide toda uma série de liberdades e imunidades. Formavam-se. Quanto aos monarcas. e em muitos momentos as Cortes assumiram-se como um dos principais momentos de defesa desses privilégios ante as investidas da Coroa. desprovido de competências decisórias de maior alcance. Era. No entanto. por seu turno. no fundo. é possível escutar ecos deste ideário em alguns momentos da história ibérica do século XVI.. com toda a sua exaltação do governo republicano. também desempenhou o seu papel na persistência dessa tradição participativa. do que para modalidades decisórias mais individualistas. persistindo uma forte tradição discursiva que insistia na importância incontornável do consensus populi.. empenhados no processo de consolidação das bases do seu poderio. verdadeiras «comunidades de privilégios» (T. pois.

O facto de reinos como Aragão. viram na assembleia representativa um bom palco para zelarem pelos seus direitos e pelas suas liberdades face ao crescente voluntarismo régio. e ao contrário do que seria de supor. Na realidade. Quanto aos vários grupos sociais. essa comunidade política alargada que comportava uma nova gama de obrigações e de sacrifícios. os diversos reis aperceberam-se de que as Cortes poderiam desempenhar um papel importante enquanto espaço de inculcação de sentimentos de pertença ao «reino». de que a aprovação. facto que favoreceu o discurso que via nas Cortes a única sede com legitimidade para aprovar novos tributos. perante a afirmação da Coroa de Castela no conjunto da Monarquia. sicilianas e. a partir de meados de Quinhentos. as elites aragonesas. recorreram a alguns elementos do ideário republicano para potenciarem a defesa dos foros reinícolas e para amplificarem os seus protestos sempre que consideravam que tais foros estavam a ser postos em causa pelo centro político. O aumento das solicitações dos Habsburgo incidiu sobretudo no terreno fiscal. as assembleias representativas voltaram a desempenhar um papel mais interventivo na política. mais tarde. assim como a sua ancestral autonomia decisória87. em Cortes.180 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Assim. . Aperceberam-se. a afirmação do projecto político da Coroa não teve como consequência imediata o desaparecimento das Cortes. napolitanas. Nas diversas partes dos domínios dos Habsburgo os apelos régios para que se aumentasse o contributo fiscal tiveram o condão de fomentar o desenvolvimento de um discurso que vincava a natureza auto-governada das várias partes da Monarquia. política essa que cada vez mais exigia o contributo de todos para o esforço conjunto da Monarquia. portuguesas. Na verdade. e uma parte significativa dessa comunicação acabou por ter como palco a assembleia representativa. desta feita como uma espécie de símbolo dos foros de cada uma das partes desse conjunto político compósito. Esta tendência manteve-se no século XVII. Pode então dizer-se que a pertença à Monarquia Hispânica também contribuiu para que as Cortes assumissem um maior protagonismo. Nápoles ou Sicília integrarem os domínios dos Habsburgo também contribuiu para vincar o papel político das Cortes. bem pelo contrário: o maior voluntarismo da Coroa traduziu-se na intensificação da comunicação política entre o rei e o reino. Foi assim que. de medidas impopulares – como os novos impostos – poderia contribuir para tornar mais aceitáveis esses sacrifícios. também. altura em que se acentuou a faceta das Cortes como verdadeiros bastiões dos foros reinícolas e como pólos de obstrução à política régia.

A ASSEMBLEIA DE CORTES. é a partir do século XV que se regista a tendência para a generalização da regra de dois representantes por urbe88. passando depois para dois procuradores por cidade. Acerca do reino de Castela. devendo incluir o nome daqueles que haviam participado na escolha do representante. até ao final de Seiscentos as Cortes lusas contaram com a participação de representantes de cerca de uma centena de cidades e vilas. Cada cidade tinha os seus costumes electivos. De facto. com o conhecimento de todos os residentes. Em Castela. ser avalizada pelo juiz de fora. No início. o escolhido deveria possuir o perfil moral adequado ao desempenho de um ofício. o eleito deveria ser escolhido entre a «gente da governança» e de forma pública. reino onde a assembleia representativa continuou a ter uma afluência bastante numerosa de procuradores. no contexto castelhano. observando o que estava disposto nas Ordenações e abrangendo apenas os residentes na localidade que iria enviar os procuradores. existia uma norma que impedia que um mesmo regidor exercesse a função representativa em duas Cortes seguidas89. até porque a escolha do procurador era um processo que costumava extremar posições entre «parcialidades» locais ou «bandos» rivais. impondo algumas regras também elas bastante vagas: as eleições deveriam ser realizadas da forma costumeira. a procuração tinha de obedecer a certos requisitos formais.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS.. os municípios começaram por contar com apenas um representante.. para além de um certo património. a documentação de que dispomos sugere que os oficiais régios procuravam garantir que os representantes das principais cidades seriam coniventes com os projectos régios. No que respeita aos processos de escolha dos procuradores. Formas de selecção e poderes O número de procuradores enviado por cada cidade variou ao longo da existência histórica das Cortes. Fortea Pérez afirma que a interferência régia nos processos de selecção dos representantes terá sido relativamente frequente até ao final século XV. Importa referir que as eleições nem sempre eram pacíficas. o primeiro dado a assinalar é o facto de não existir uma normativa geral que definisse o modo de proceder na sua selecção. 181 Os procuradores. Quanto ao reino português. tendo retrocedido a partir dessa data. apesar de sabermos muito pouco acerca da interferência da Coroa portuguesa na escolha dos procuradores. ou seja.. o mesmo sucedendo em Portugal. e a Coroa limitava-se a fazer recomendações gerais. O mesmo estudioso sustenta que as disputas em torno da selecção dos representantes aumentaram no século XVII. Além disso. o que pode estar ligado a um crescente interesse das oligarquias castelhanas em estarem presentes nas . e conter a afirmação de que o procurador fora investido de «poderes bastantes» para decidir sobre a matéria que motivara a convocatória das Cortes.

Em finais de Quinhentos. o monarca procurava. D. Talvez resida aí uma parte da explicação para o facto de algumas cidades manifestarem pouca confiança nos seus representantes. uma vez nas Cortes. em parte para defender os direitos da cidade que os enviara. desse modo. pois as principais cidades eram frequentemente olhadas com desconfiança por parte das demais. apenas. é preciso ter em conta que a governança das principais cidades era frequentemente composta por aristocratas e por membros da nobreza de corte. Assim. a Coroa tentou transferir do voto decisivo para as Cortes. Tentou-se impor. encarando-os como figuras que. pelo «voto consultivo». mas sim individualmente. Com efeito. Contudo. Quanto ao limite decisório dos procuradores. Desejoso de partir para Castela quanto antes. mas também porque acabou por não garantir à Coroa a docilidade da assembleia representativa. as cidades «dos primeiros bancos» – com destaque para Lisboa. Coimbra e Évora – também costumavam contar com uma representação bastante selecta em termos de estatuto social. ficando-se. e as autoridades urbanas mostraram-se sempre relutantes em conceder aos seus representantes o «voto decisório». depois da entrada de Portugal para a Monarquia Hispânica. designadamente através da venda da procuração90. enquanto que as demais cidades e vilas com assento em Cortes tinham representantes de muito menor qualidade de nascimento. «poderes bastantes para jurar o príncipe». e tendo em vista superar a representação atomista de que atrás falámos. convém recordar que. Porto. trata-se de uma questão que jamais foi debatia com o calor que caracterizou a polémica castelhana92. o que significa que uma parte do chamado «terceiro estado» era muito pouco “popular”. que os procuradores votassem não propriamente por cidades. de um modo geral. a questão do controlo que as cidades exerciam sobre os seus procuradores suscitou bastantes discussões. proposta que também enfrentou forte resistência91. o direito a participar na assembleia representativa podia ser rentabilizado. designadamente através de uma restrição explícita dos poderes dos procuradores. mas também como fonte de rendimento. passavam a estar mais ao serviço da Coroa do que da cidade que os enviara. a matéria nem sempre se revelou pacífica. Esta disparidade repercutia-se no desenrolar das sessões. Nas Cortes portuguesas. Todavia. na carta de convocatória para as Cortes de 1583.182 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Cortes. no mesmo sentido. Por outro lado. reduzir a reunião a esse assunto . os Habsburgo tentaram limitar o âmbito de intervenção das Cortes. especificou que os procuradores deveriam trazer. Filipe I. e a título de exemplo. Em Castela. tal proposta levantou problemas não só no terreno das relações com as cidades. medida que se inscrevia num esforço mais vasto de reestruturação da administração fiscal.

celebraram-se 15 assembleias. No que concerne às Cortes de Portugal. antes mais. Por último. outro momento importante foi a assembleia que se celebrou na cidade de Lisboa. corria o ano de 1499. Das negociações que tiveram como palco essa reunião resultaram os «Artigos de Lisboa de 1499». e vários foram os núcleos urbanos que manifestaram o seu descontentamento por essa «novidade». aos «três estados». esses hiatos contribuíram para o enfraquecimento do potencial político das assembleias representativas. pelo facto de as principais decisões locais serem tomadas pela Câmara sem que eles tenham sido consultados93.. Segundo Xavier Gil Pujol.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. Algumas cidades com maior tradição mesteiral tinham o direito de enviar às reuniões de Cortes. os chamados «procuradores dos mesteres». e no tempo de Filipe II registaram-se 11 reuniões. habitualmente. Em quase todas as petições mesteirais advinha-se um ambiente tenso entre as corporações artesanais e a chamada «gente da governança». que é muito significativo que o aragonês Fadrique Furió Ceriol. a expressão do protesto dos mesteres. 183 e evitar debates sobre outras matérias. e o mesmo estudioso nota. fenómeno que se deveu. ao facto de o monarca estar cada vez mais tempo ausente desses reinos. com toda a pertinência. Em Aragão e na Catalunha. Tal silêncio é provavelmente o resultado do número diminuto de reuniões então realizadas. de discutir uma matéria da mais alta transcendência política: a entrada de Portugal para uma união dinástica com Castela e Aragão. para além dos procuradores do concelho. caber cada vez mais ao Conselho de Aragão o principal papel representativo e de defesa dos foros reinícolas94. com grande frequência. deparamos com longos intervalos entre as convocatórias de Cortes. A decisão foi mal acolhida.. durante o século XVI as Cortes continuaram a reunir com uma certa assiduidade: em Castela. autor de um dos mais importantes tratados sobre o governo e os conselheiros (El Concejo i consejeros del Príncipe…. Antuérpia. tendo em vista converter as Cortes numa assembleia muito mais ágil e rápida. por exemplo. pelo contrário. ou «Capítulos de el rey Dom . no reinado de Carlos I. 1599) praticamente não se refira às Cortes. As reuniões das Cortes de Portugal no século XVI Apesar do ritmo de convocatórias ter baixado. os quais também podiam apresentar petições ao rei. Nessa ocasião foi dada a oportunidade. uma referência aos chamados «Procuradores dos Mesteres». para além da decisiva reunião de 148295.. Tais petições versavam. mas também do facto de. naquela altura. A ASSEMBLEIA DE CORTES. e nelas é possível encontrar. sobre matérias especificamente relacionadas com o quotidiano das corporações mecânicas.

os séculos XVI e XVII legaram-nos vasta documentação que atesta a preocupação dos coetâneos em definir. Miguel. Tal evento representou o reconhecimento. em termos quantitativos. assistiu-se.Cortes de Almeirim 1581 . ter voltado a estar muito associado à assembleia representativa97. pelos «três estados». a dimensão da cida- . Na verdade. o cerimonial mais correcto para as diversas solenidades ocorridas no decurso das Cortes98. a partir desta altura qualquer alteração ao cerimonial tendeu a ser encarada como um agravo e como uma ofensa aos direitos de cada um dos participantes no evento. também. Outro indicador da importância das Cortes é toda a atenção concedida ao seu cerimonial.184 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Manuel».Cortes de Tomar 1583 .Cortes de Lisboa 1525 . Na mesma linha.Cortes de Lisboa Um dos dados que ressalta da trajectória das Cortes de Portugal. no século XVI. Além disso. com maior frequência. uma quebra em relação ao ritmo anteriormente registado. com minúcia. Reuniões das Cortes de Portugal no século XVI 1502 .Cortes de Almeirim 1562 . o qual já era herdeiro jurado das Coroas de Aragão e Castela96.Cortes de Lisboa 1580 . o que aponta para a já referida maior intensidade da comunicação política entre centro e periferias. já que no período de Quatrocentos tinham-se realizado mais de quatro dezenas de reuniões. uma série de garantias acertadas com os «estados» antes do juramento do príncipe D. é o facto de o juramento do príncipe herdeiro. Tal opção era motivada por vários factores: antes de mais.Cortes de Lisboa 1579 . No século XVI as Cortes de Portugal reuniram 9 vezes. o que representou. em Lisboa. da parte dos círculos régios.Cortes de Torres Novas 1535 .Cortes de Évora 1544 . Um último indicador da importância desta reunião tem a ver com o facto de ela se realizar. a um gradual incremento do número de petições – «gerais» e «particulares» – enviadas pelas autoridades urbanas. do papel que cabia aos «três estados» na decisão sobre matérias que tinham a ver com a sucessão na Coroa e com o «bem comum do reino».

a opção por realizar as Cortes em Lisboa era a forma de o rei demonstrar aos «três estados» que era o reino que ia ter com a Coroa. 185 de. acabando por desempenhar muitas das funções representativas. Manuel I não voltaria a chamar a assembleia representativa. João III não voltaria a convocar os representantes dos «três estados». D. Assim. João III relata que o rei decidiu chamar os «três estados». Paralelamente. As petições entregues nesta assembleia. como «cabeça do reino» – o seu procurador falava em nome dos «três estados» na abertura solene das Cortes. em Lisboa (nos Paços do Castelo). foram impressas. esse papel foi sendo desempenhado pelo cada vez mais desenvolvido sistema judicial. Quanto ao monarca que se seguiu – D.. mas não menos importante. e também para custear a vinda da rainha D. Manuel I reuniu as Cortes. à Coroa.. para o Verão de 1525. teve sempre o cuidado de fazer «pesar» os tributos pelas Cortes100. nos seus Anais de D. pelo reino. aproveitando a ocasião para negociar mais um serviço fiscal99. inclusive depois da realização das outras Cortes que o mesmo rei convocou para Évora. devido aos gastos crescentes da sua casa. . O mesmo cronista recorda-nos que só treze anos mais tarde se deu resposta aos muitos pedidos apresentados nessa assembleia. Frei Luís de Sousa. o facto de Lisboa se assumir cada vez mais. gesto inédito até essa data.. Depois desta reunião. só podendo ser revogadas em nova reunião da assembleia. João III –. e o costume mandava que os procuradores lisboetas presidissem às sessões do «terceiro estado». Finalmente. em 1502 D.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. que a habilitava a receber o grande número de pessoas que participava na reunião. especificamente para o juramento do príncipe D. antes de lançar novos impostos. o cronista António de Castilho lembra que por três vezes convocou os «três estados». em 1544. A ASSEMBLEIA DE CORTES. É também por esta altura que se começa a difundir a ideia de que as leis resultantes de debates realizados nas Cortes tinham uma força especial. De facto. consultivas e decisórias que antes cabiam às Cortes. assim como as leis delas resultantes. E no que respeita ao controle da actuação governativa do monarca e à protecção dos direitos dos vassalos face a decisões da Coroa. tendo uma vez mais em vista solicitar apoio financeiro ao reino. Depois. e não o contrário. João III. corria o ano de 1535. Catarina de Áustria101. o dispositivo governativo da Coroa foi adquirindo uma maior institucionalização. uma vez mais motivadas pelas necessidades financeiras da Coroa. As Cortes voltariam a ser chamadas anos mais tarde. Até ao final do seu reinado D. João como herdeiro da Coroa de Portugal. e que voltaria a ser repetido em algumas reuniões subsequentes102. as Cortes de Torres Novas (1525) reuniram fundamentalmente para tratar de um serviço fiscal a conceder. Castilho assevera que D.

a pretensão da rainha acabou por ser aceite. a rainha D. alegando a sua naturalidade castelhana. assumiu as rédeas do governo a 20 de Janeiro de 1568. incluindo recomendações sobre temas como o governo geral do reino. a reforma dos principais tribunais. Ao cabo de uma longa discussão. Sebastião não atingisse a maioridade. que tinham de reunir o Senado para saber qual seria a vontade do povo. Catarina enquanto D. a 11 de Junho de 1557. também eles votaram a favor da entrega do governo a D. os casamentos da família régia. e os procuradores. Sebastião. Para além disso. Todavia. e que tal reunião se celebraria no dia seguinte. Catarina. assim. A rainha D. discutiram mais um serviço de 100 mil cruzados à Coroa. e nessa ocasião o secretário de estado Pedro de Alcáçova Carneiro terá afirmado que o rei. Quanto a D. empenhados em obter a resposta régia a esses pedidos. algo de . Além disso. a convocatória das Cortes num período sempre delicado: a menoridade do rei. e alguns dos que nela participaram manifestaram a sua oposição a D. e talvez as Cortes de Portugal acabassem então por cair no esquecimento. a reunião na câmara foi mais agitada do que se previa. Sebastião I. Catarina. foram também entregues numerosos «capítulos particulares». Catarina manobrou para que as Cortes não reunissem para a aclamação do jovem D. para além de terem estabelecido uma série de condições que deveriam ser observadas pelo novo governante do reino105. antes de falecer. Não tivesse este reinado conhecido o desfecho trágico que todos conhecemos. João III. De acordo com a documentação da época. devido à sua crescente marginalização da alta política. porém. Catarina terá chamado ao Paço Real alguns dignitários da nobreza e da Igreja103. Ao tomarem essa decisão. Depois de longos debates acerca do modo de transmissão do poder. Nessa reunião estavam também presentes os vereadores da câmara de Lisboa. no Paço da Ribeira. os representantes do «terceiro estado» procuravam evitar algo que até aí vinha acontecendo de uma forma mais ou menos sistemática – o atraso da Coroa na resposta aos pedidos entregues nas Cortes106. etc. Catarina voltou a reunir as Cortes em 1562104. Evitava-se. Todavia. a cerimónia que formalizava a constituição da regência. D. as Cortes voltavam a ter uma intervenção na mais alta política: a entrega da regência do reino ao Cardeal D. e nessa mesma tarde celebrou-se. Instados a dar a sua opinião. o modo de organizar a administração central e a casa real. declararam que só concederiam um novo serviço fiscal depois de o rei ter respondido às suas petições. de algum modo a representar o conjunto dos poderes urbanos do reino. durante as quais anunciou a sua disposição de renunciar ao governo. Henrique. tinha manifestado a intenção de que o governo fosse confiado a D. Nesta assembleia foi produzido um significativo conjunto de «capítulos gerais». acrescentando.186 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Aquando da morte de D. e até ao final do seu reinado jamais convocou as Cortes.

Assim. cada um à sua maneira. Nesse contexto. Sancho II fora declarado rex inutilis e substituído pelo seu irmão D. em certos momentos da história do reino. O mesmo Fernando Bouza assinala que. nas quais D. no sentido de levar por diante a eleição. Prior do Crato – socorreram-se. e reunidos entre Abril e Junho de 1579 – nunca se decidiram. Como dissemos. foram recordados alguns precedentes da história portuguesa: o caso de D. Trata-se de uma série de garantias que tinham sido estabelecidas nas Cortes de Lisboa de 1499. Mafalda Soares da Cunha reconstituiu. A ASSEMBLEIA DE CORTES. entre os finais de 1578 e boa parte de 1579. Conta Fernando Bouza Álvarez107 que.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. com grande clareza. Para além da mobilização de um complexo argumentário jurídico. aquando do juramento do príncipe D. Cristóvão de Moura encontrou um documento importante no arquivo da Câmara de Lisboa: os «Artigos de Lisboa de 1499» ou «Capítulos del rey Dom Manuel». Afonso Henriques. fora aclamado rei. em Portugal. lembrando episódios do passado português em que os «três estados». Segundo Bouza Álvarez. D. tinham intervindo. mestre de Avis. em Setembro de 1578 Filipe II escreveu a Cristóvão de Moura pedindo-lhe que procurasse na Torre do Tombo papéis que provassem «como y cuándo». António. e como assinala Mafalda Soares da Cunha. o episódio em que o rei D. Afonso III109. em 1579. 187 diverso aconteceu: a crise sucessória provocada pela morte prematura do monarca contribuiu para relançar o papel político das Cortes. aos «três estados» reunidos em Almeirim foi novamente dada a oportunidade de se pronunciarem sobre uma matéria crucial: a sucessão no trono. a despeito destas revelações. no seu conjunto a crise sucessória de 1578-80 contribuiu para potenciar do papel das Cortes de Portugal.. a sua faculdade decisória em matérias sucessórias. João. a disputa suscitada pela crise dinástica. Catarina de Bragança e D. tanto mais que os teólogos de Salamanca e de Alcalá que tinham sido consultados sobre a . os «três estados» – convocados por D. em contextos de crise sucessória. em Outubro de 1578. tal documento reforçava a tese de que as Cortes de Portugal tinham exercitado. No essencial. primeiro rei de Portugal. Henrique I para Lisboa.. de uma forma taxativa. podia «el pueblo eligir Rey»108. os diversos candidatos em presença – com destaque para Filipe de Habsburgo. as Cortes de 1385. vários foram os oficiais de Filipe II que estiveram ocupados com a preparação das várias alegações e pareceres jurídicos para sustentar a candidatura do Habsburgo ao trono português.. Miguel. Porém. da tese da eleição do rei pelas Cortes. assinalando que a coexistência de vários regimes sucessórios dificultou a avaliação dos fundamentos jurídicos invocados pelos vários candidatos ao trono português.

Na sequência destes eventos. os acontecimentos precipitaram-se. outros juristas alegaram que só havia lugar para a intervenção das Cortes em última instância. a questão sucessória. falecia a 31 de Janeiro. pois foi um exemplo concreto de voluntarismo do «reino». Pela mesma altura. entretanto. António.188 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS matéria haviam declarado que as Cortes não tinham o poder para eleger reis110. Já bastante debilitado e muito pressionado pelos vários pretendentes ao trono português. Henrique. D. Filipe de Habsburgo fez a sua entrada em Portugal. fazendo-se aclamar – numa cerimónia atípica. um gesto que visava transferir para os «três estados» a responsabilidade de uma decisão tão melindrosa. António. e uma parte dos presentes manifestou-se a favor da capacidade electiva das Cortes – solução que. por estar na posse de informações de que os demais pretendentes contavam com muitos apoiantes no seio do «braço do povo». exercido fora do controle da Coroa. e pouco tempo depois convocou as Cortes para a localidade de Tomar. a que alguns deram a denominação de «Cortes» – a 19 de Junho de 1580112. cidade onde se situava a sede da prestigiada Ordem de Cristo. decidiu precipitar os acontecimentos. mantendo uma acalorada discussão sobre o futuro da Coroa. fundamentalmente. contando com a comparência do monarca. Apesar de se tratar de uma reunião que congregava apenas uma parte dos representantes do terceiro estado e que contava com uma reduzida representação do clero e da nobreza. o que não impediu que as Cortes continuassem reunidas até 15 de Março. Enquanto decorriam estas indagações. de não existirem candidatos e de a «república» se encontrar em necessidade extrema111. deixando o reino entregue a cinco Governadores. escolhendo um dos candidatos e colocando de parte os demais113. em finais de 1579 o rei convocou os «três estados» para uma reunião em Almeirim. prior do Crato e um dos pretendentes ao trono português. nesta fase. a 30 de Abril de 1580 os cinco Governadores voltaram a convocar o «reino» para Santarém. Em meados de Junho estava já em Santarém um número considerável de procuradores. Este acontecimento preocupou Filipe II e terá precipitado a acção militar que culminaria na derrota das forças apoiantes de D. Ao optar por realizar o seu primeiro encontro com os «três estados» portu- . ou seja. Aqueles que estiveram presentes no evento de Santarém manifestaram a sua vontade. depois de vários dias de agonia. e terá sido nessa altura que D. E num contexto em que era cada vez mais evidente que Filipe de Habsburgo pretendia dar início à intervenção militar sobre Portugal. Nas sessões que se seguiram os «estados» debateram. esse evento atemorizou bastante Filipe II e os seus apoiantes. Filipe de Habsburgo desejava evitar. no caso de o trono estar vago. A abertura solene das Cortes realizou-se a 11 de Janeiro de 1580.

as suas instituições. Como é evidente. como assinalámos no início. É isso. por Filipe II. ao invés de seguir por esse caminho. o artigo 2. as suas leis. etc. uma vez que. A convocatória dos «três estados» surpreendeu alguns observadores coetâneos. mas sim como mais um reino a agregar àqueles que já faziam parte dos seus domínios115. Filipe de Habsburgo procurava transmitir um sinal de continuidade face à dinastia cessante. datada de Janeiro de 1581..»114. o seu espaço jurisdicional. Filipe de Habsburgo dava a indicação aos seus novos vassalos portugueses de que não pretendia tratar Portugal como uma simples conquista. pela nego- . Para além disso.116 Quanto à manutenção da assembleia representativa portuguesa. haviam sido derrotados. e me fazerem preito e menagem de vassalagem. 189 gueses nesta localidade. como a meu verdadeiro e legitimo suçessor. em termos que permitiram aos lusos preservar a sua dignidade reinícola. um articulado onde ficou estabelecido o status de Portugal como reino agregado à Monarquia Hispânica.. pois era para todos evidente que os portugueses – ou pelo menos parte deles – tinham pegado em armas contra Filipe II e. na sequência disso. convocando as Cortes. de fazer tábua rasa dos foros portugueses e de implementar um novo modelo de governo. especificava o motivo da convocatória: «Pera me jurarem por verdadeiro Rey e senhor destes Reynos e senhorios delles. em terras lusas as Cortes só eram legítimas desde que fossem convocadas pelo rei. os seus costumes. a sua língua. Contudo.. o que está consagrado no «Estatuto de Tomar» de 1581. o «rei prudente» optou pela via do compromisso. semelhante opção envolveu uma cedência. como o suo.. local de onde emanava uma intensa memória do passado português. A ASSEMBLEIA DE CORTES. tratar ni determinar cosa alguna que toque a los dichos Reynos»117.º do «Estatuto» era muito claro: «Que quando ubieren de hazer Cortes tocantes a estos Reynos sean dentro de Portogal y que en otras qualesquier que ouieren fuera dellas no se pueda proponer. A resistência antoniana dera a Filipe II a oportunidade de aplicar o direito de conquista a Portugal. do estatuto reinícola de Portugal e dos seus correlativos foros. de resto. e assy ao Principe Dom Diogo. ao optar por chamar os «três estados».. Através desse gesto Filipe II procurou atingir dois objectivos: pretendeu mostrar que actuava já como rei de Portugal. Filipe de Habsburgo optou por negociar. No entanto. a saber: o reconhecimento. Tal significava que o monarca Habsburgo tivera a oportunidade de aplicar a Portugal o direito de conquista e de fazer tábua rasa dos privilégios reinícolas da Coroa portuguesa.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. fidelidade e obediencia em forma de direito. A carta que enviou aos «três estados». bem como tirar partido da força simbólica do Convento de Cristo. pela solução pactuada. meu sobre todo muito amado e muito prezado filho primogenito.

190

OS MUNICÍPIOS

NO

PORTUGAL MODERNO :

DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS

ciação e pela cedência de contrapartidas aos seus novos vassalos portugueses. Todavia, é importante frisar que Filipe II, ao mesmo tempo que apostou numa solução de continuidade, quis deixar bem claro que o «Estatuto de Tomar» era algo que decorria da «graça real», e não de uma obrigação régia de respeitar os foros portugueses. Como assinalou Fernando Bouza, Filipe II procurou apresentar o “seu” Portugal como a continuação do «modo y manera» que D. Manuel havia idealizado para o seu filho D. Miguel, embora frisando que tal correspondia a uma decisão sua, e não ao eminente direito ou vontade dos portugueses118. No que respeita ao lugar constitucional das Cortes, como vimos a crise sucessória acabou por ser algo ambivalente. Por um lado, ao convocar as Cortes para sancionar a sua entrada em Portugal, Filipe II de alguma maneira concedeu a essa assembleia um protagonismo que ela tinha perdido durante o governo de D. Sebastião I. Esse relançamento das Cortes, associado às atribulações dos anos de 1579 e 1580, poderia até ter dado o mote para um movimento que visasse reequacionar o papel constitucional da assembleia, por exemplo consagrando a sua capacidade para vigiar, de forma permanente, a actuação do rei no que concerne ao respeito pelo estatuto reinícola de Portugal. Todavia, não foi isso o que aconteceu. Na verdade, ao mesmo tempo que concedeu esse protagonismo aos «três estados», Filipe de Habsburgo frisou que a intervenção das Cortes em matérias tão transcendentes como a sucessão no trono ou o estatuto de Portugal no seio da Monarquia Hispânica era limitada e circunscrita àquela ocasião excepcional. Aliás, convém não esquecer que as Cortes de Tomar foram, essencialmente, um evento cerimonial, uma vez que o fundamental da negociação se realizou previamente. Além disso, pouco depois de efectuado o juramento, Filipe II manifestou pouco empenho em que as reuniões de trabalho prosseguissem, revelando mais preocupação por seguir para Lisboa, onde, já na qualidade de soberano jurado pelos «três estados» portugueses, iria ser recebido com grande solenidade119. Além disso, importa ter presente que o monarca, até ao final do seu reinado, só por uma ocasião voltou a convocar as Cortes de Portugal, e fê-lo numa altura em que se preparava para deixar as terras lusas. Trata-se da reunião de 1583, especificamente pensada para que os portugueses jurassem o príncipe D. Filipe como novo herdeiro, e que teve como principal particularidade o facto de os procuradores terem sido chamados única e exclusivamente para jurar o príncipe. O rei tencionava partir, quanto antes, para Castela, razão pela qual desejava umas Cortes rápidas. Por isso, e como recordaria, anos mais tarde, o conde de Salinas, as cartas de convocatória para a cerimónia de 1583 incluíam a seguinte indicação:

ENTRE

O CENTRO E AS PERIFERIAS.

A

ASSEMBLEIA DE

CORTES....

191

«Embiaréis vuestros procuradores con poder bastante para que juren al Príncipe Don Phelipe, mi hijo mayor, por Rey y Señor destos Reinos después de mis dias»120 – ou seja, a carta de convocatória circunscrevia o âmbito das matérias a debater na assembleia, um gesto pouco comum na tradição das Cortes de Portugal121. Depois desta reunião, Filipe II partiu para Castela e não voltou a visitar Portugal até ao final do seu reinado. Como consequência, até 1598 as Cortes portuguesas não voltaram a reunir. Ainda assim, cada vez que o monarca católico tomou a iniciativa de introduzir um novo imposto ou de repor uma taxa que tinha sido levantada – caso dos portos secos, abolidos em 1581 mas repostos em 1592 –, os descontentes fizeram-se ouvir, apresentando as Cortes como a instância competente para decidir sobre essa matéria122. Convém notar que estas e outras queixas similares continuaram a ser escutadas nas décadas subsequentes. Mais do que a expressão de um confronto “nacional”, eram, antes de mais, a reacção de uma sensibilidade política eminentemente jurisdicionalista, a qual não escondia a sua repugnância por modalidades decisórias mais voluntaristas e que não passavam pelos canais costumeiros.

As Cortes nos finais do século XVI e na primeira metade do século XVII
A partir de finais do século XVI os monarcas hispânicos cada vez menos se ausentaram de Castela. Em parte por causa disso, o número de reuniões das Cortes castelhanas aumentou, realizando-se aproximadamente de três em três anos: Filipe III convocou as Cortes por 6 vezes; quanto a Filipe IV, reuniu a assembleia representativa por 8 ocasiões. Importa frisar que quase todas as reuniões então efectuadas incidiram sobre a problemática fiscal. Viviam-se tempos em que as dificuldades financeiras da Coroa eram cada vez maiores, facto que levou o rei a optar por abandonar a fiscalidade directa-pessoal, adoptando, como substituição, a fiscalidade indirecta, através de impostos sobre o consumo. Assim, em Castela os servicios estagnaram, ao mesmo tempo que se dava um crescimento significativo das alcavalas e dos millones123. Tal opção fez com que as Cortes de Castela se tornassem num dos principais espaços de negociação da política fiscal. Como sugerimos atrás, a partir de meados do século XVI a Coroa tirou partido das reuniões de Cortes para incutir, nos representantes dos «três estados», novos sentimentos de pertença. Aproveitando a circunstância de estarem presentes representantes de todas as partes do corpo político, os oficiais régios lembraram que o facto de pertencerem à entidade política «reino» comportava obrigações e até mesmo sacrifícios – como por exem-

192

OS MUNICÍPIOS

NO

PORTUGAL MODERNO :

DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS

plo o pagamento de impostos, o recrutamento militar, o apoio logístico às forças militares, etc. – que deveriam ser aceites sem qualquer questionamento. A estes apelos os representantes deram uma resposta plural. No que toca ao desempenho dos procuradores no decurso das reuniões, J. I. Fortea Pérez sublinha que, no quadro das Cortes de Castela, é evidente um forte contraste entre, por um lado, a perspectiva mais geral, à escala do reino, patenteada pelos oficiais régios e, por outro, a visão localista dos procuradores. Aliás, o facto de os custos inerentes à participação nas Cortes terem sido sempre suportados pelas finanças locais contribuía, certamente, para manter este apego dos procuradores às suas questões «particulares». Segundo J. I. Fortea Pérez124, esta distinção jamais foi superada, tendendo até a acentuar-se a partir do momento em que a Coroa procurou elevar o estatuto das Cortes de Castela e convertê-las num órgão superior (e autónomo) face às cidades. Tal sucedeu no final do século XVI, e nessa ocasião as cidades esforçaram-se por impedir que essa proposta régia fosse posta em prática. Terá sido precisamente neste contexto que se tornou mais visível a ambiguidade no modo como eram entendidas as relações entre o rei e o reino, e o papel que cabia às Cortes desempenhar. Para alguns o reino era contemplado como uma comunidade integrada, superior e distinta da soma das suas partes. Nesse âmbito, as Cortes eram vistas como o órgão de representação institucional, e a prioridade seria concentrar processos de tomada de decisão e homogeneizar procedimentos, através de uma assembleia única. Para outros, pelo contrário, o reino era visto como um agregado de comunidades autónomas, sendo as Cortes tidas como uma mera junta de cidades. Neste quadro as atribuições das cidades saíam claramente fortalecidas, uma vez que previa o controle, pelos poderes urbanos, das principais funções administrativas. De acordo com Fortea Pérez125, a Coroa castelhana, a fim de evitar o poderio das cidades e a sua estratégia de bloqueio da política fiscal, procurou potenciar as Cortes e colocá-las numa posição intermédia entre o rei e as cidades, mas em qualquer caso acima destas últimas. O objectivo era autonomizar as Cortes e libertá-las da obrigação de conferirem com as cidades cada uma das decisões que era necessário tomar. Paralelamente, os ministros régios actuaram no sentido de captar o favor dos procuradores e de dificultar a comunicação destes com as cidades de onde eram oriundos. No fundo, aquilo que interessava à Coroa era que os procuradores (e as Cortes) falassem em nome do conjunto do reino, e não como meros representantes dos seus lugares de procedência. Segundo A. M. Hespanha, foi esse o momento em que se começou a adquirir a ideia de que o reino era algo de diferente do conjunto das partes, caminhando-se para a representação do conjunto do corpo político por apenas alguns126.

ENTRE

O CENTRO E AS PERIFERIAS.

A

ASSEMBLEIA DE

CORTES....

193

O debate em torno desta questão conheceu o seu auge nos últimos anos do século XVI e na primeira metade de Seiscentos, altura em que a Coroa – e alguns procuradores – tentaram instaurar uma maior distância entre as Cortes e as cidades. Porém, e como seria de prever, as urbes moveram uma tenaz resistência a estas medidas. De qualquer modo, o resultado esperado não se concretizou, pois apesar de mais potenciadas e independentes face às cidades, as Cortes de Filipe III e de Filipe IV revelaram-se morosas e difíceis de gerir por parte dos ministros da Coroa. Além disso, a transferência do «voto decisivo» das cidades para as Cortes, em 1632, não livrou a Coroa de negociações muito árduas com os procuradores127. Acresce que algumas urbes castelhanas encetaram processos de negociação em paralelo às Cortes. Na verdade, várias cidades preferiram negociar directamente com a Coroa em vez de o fazerem na assembleia representativa, pois, por essa via, alcançavam acordos bilaterais, evitando desse modo os pactos estabelecidos entre a Coroa e a maioria das cidades. Outro fenómeno que importa destacar é o facto de, em pleno período de Seiscentos, os aristocratas voltarem a manifestar um certo interesse pelas Cortes. Os nobres, em especial os de ascensão mais recente, verificaram que a assembleia podia ser usada como uma forma de captar oportunidades de serviço ao rei, assim como para consolidar a sua influência na corte régia. Dignitários poderosos como o duque de Lerma, o condeduque de Olivares ou D. Luis de Haro, por exemplo, tiveram lugares nas Cortes enquanto representantes de cidades. Contudo, este regresso dos aristocratas voltou a gerar tensões, pois determinadas cidades eram hostis a membros da nobreza que desempenhavam a função de procuradores128. Algo de semelhante se passava nas Cortes portuguesas, onde, como dissemos, foi sempre notória uma clivagem entre, por um lado, as cidades do primeiro banco, representadas em geral por membros da nobreza de corte que detinham um fácil acesso ao rei ou aos seus principais ministros, e, por outro, as restantes cidades. Com o acentuar da centralidade de Castela no quadro da Monarquia Hispânica, a corte régia permaneceu nesse reino por períodos cada vez mais longos, e os castelhanos assumiram, nessa fase, o papel de liderança dos territórios dos Habsburgo espanhóis129. Foi de Castela que partiram algumas das principais iniciativas de reforma, as quais visaram, fundamentalmente, inverter a tendência recessiva das décadas anteriores. O monarca hispânico efectuou muito menos visitas aos seus reinos, o que, consequentemente, levou à realização de um menor número de reuniões das Cortes de Aragão, de Portugal e da Catalunha, para já não falar das assembleias representativas dos reinos italianos que estavam na órbita dos Habsburgo.

194

OS MUNICÍPIOS

NO

PORTUGAL MODERNO :

DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS

Como não podia deixar de ser, a dinâmica reformista que se viveu sob Filipe III e Filipe IV influenciou as relações entre o centro da Monarquia Hispânica e os demais reinos que integravam os domínios dos Habsburgo. Vários interesses estabelecidos foram afectados pelo voluntarismo político dos ministros régios, e os sinais de descontentamento não tardaram em surgir. No conjunto dos seus trabalhos, John H. Elliott demonstrou que, no quadro da cultura política do Antigo Regime, quando as pessoas se sentiam ameaçadas a típica atitude de defesa era o refúgio atrás de barreiras protectoras como os seus costumes, as suas leis, as suas instituições e as suas tradições. É precisamente nesse contexto que, em Aragão, em Portugal, na Catalunha e também nos territórios italianos da Monarquia, se procede a uma revalorização das Cortes enquanto símbolo dos foros reinícolas. Com efeito, no contexto da ofensiva fiscal da primeira metade de Seiscentos, as Cortes dos vice-reinados simbolizaram o estatuto reinícola e a defesa dos direitos dos vassalos contra os cada vez mais insistentes pedidos do rei para que aumentassem a sua contribuição fiscal. Por outras palavras, a maior agressividade da política fiscal da monarquia concorreu para que as Cortes – tanto as de Castela como as dos demais territórios da Monarquia – voltassem a estar no centro do debate político. Os portugueses também sentiram a nova dinâmica integradora das primeiras décadas de Seiscentos, e à semelhança do que se passou em outras partes da Península, os lusos também se voltaram para a assembleia de Cortes, encarando-a como o principal símbolo do estatuto reinícola de Portugal130. Aos apelos chegados da corte régia para que fossem mais solidários com a Monarquia, respondiam os lusos com o argumento de que Filipe III, enquanto rei, ainda não havia jurado os foros portugueses, e que as iniciativas fiscais que se anunciavam teriam necessariamente de passar pela aprovação das Cortes de Portugal, alegando que tal correspondia ao costume seguido no reino desde os tempos mais ancestrais. Quanto a Filipe III, rei mais voluntarista do que é costume pensar, deu a entender que só viajaria até Portugal para reunir as Cortes desde que os portugueses chegassem a acordo quanto ao montante da sua contribuição fiscal para a Monarquia131. A invocação das Cortes como argumento de resistência dos lusos contra as solicitações fiscais da Coroa dos Habsburgo tornou-se de tal modo insistente que, em Janeiro de 1613, D. Diego de Silva y Mendoza, conde de Salinas e figura proeminente no Conselho de Portugal132, apresentou ao rei um «memorial» sobre «las prerrogativas de la Corona y de las Cortes de Portugal». Trata-se de um parecer que se inscreve nos debates sobre a ida de Filipe III a Portugal para reunir as Cortes, e nele se discute não só

e que. na corte. Perante essa situação. Salinas começa por afirmar que só se pode falar em «Reino». «todas las otras juntas que los pueblos hicieren. quando Filipe II ordenara que se desse aos procuradores única e exclusivamente o poder para jurar o príncipe D. em especial o facto de esta instituição ter insinuado que poderia jurar o príncipe Filipe (futuro Filipe IV) em sua ausência. em Portugal. no se llaman Reino de Portugal. particulariçando los cassos para que comboca. lacuna que. tivessem voltado a activar o Conselho de Portugal. que puede convocar generalmente. quando as Cortes são legitimamente convocadas. o rei não deveria ter qualquer dúvida de que havia sido jurado enquanto príncipe. Salinas sustenta que.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS.. por isso mesmo.. não carecia de se deslocar a Portugal para ser jurado pelas Cortes deste reino. Filipe. 195 a conveniência da viagem. a pretexto da vinda de Filipe III. futuro Filipe III. alguns portugueses manifestaram o seu descontentamento pelo facto de Portugal não contar com um conselho próprio junto do rei. também. Salinas critica o Senado de Lisboa. por esta instituição se ter apresentado como uma entidade que falava em nome do «Reino». ao ponto de. o monarca e os seus ministros hesitaram quanto à oportunidade da jornada. equivalia a uma despromoção do reino no quadro da Monarquia Hispânica. este documento é merecedor de uma análise detalhada. uma vez que o juramento de 1583 continuava perfeitamente válido. quando é o rei quem convoca a assembleia. durante esse período de indefinição. A ASSEMBLEIA DE CORTES. Foi neste ambiente que D. o que – segundo o conde de Salinas – transcendia em . cuya soberanía en la Corona de Portugal es tan grande. Diego de Silva y Mendoza produziu o seu parecer sobre as Cortes de Portugal. sin preceder convocación y voluntad expresa de S. Para Salinas. o Conselho de Portugal – o órgão que. Salinas recorda a convocatória de 1583. por causa desse precedente histórico. Contudo. y mandando que no se trate de otros». representava os portugueses e a sua condição reinícola – ter sido temporariamente suspenso e substituído por uma junta restrita. Devido à sua importância para o tema que estamos a analisar. a prolongar-se. ni las pueden hazer.. No seu interessantíssimo «memorial» Salinas critica também o desejo de protagonismo manifestado pela Câmara de Lisboa. ni que por ningún camino tengan el nombre de Reino. no início do seu reinado. ni conuiene que las hagan. Para provar esta última afirmação. y con poderes bastantes suyos»133. ou seja. M. No seu parecer. na previsão de uma estadia mais ou menos próxima do rei em terras portuguesas. porque é a pessoa régia quem confere poder a «todas las personas que tienen voto en ellas.. mas sobretudo até que ponto era o monarca obrigado a fazer essa jornada. A viagem esteve mesmo para ter lugar no início da segunda década do século XVII. sem que.

Salinas afirma que Portugal não era uma dessas «coronas en que el Reyno se puede congregar por propia autoridad y sin mandato real. Diego da Silva era negar a Lisboa a legitimidade de. Ou seja. no que concerne a Portugal Salinas era da opinião de que a questão se colocava de uma maneira completamente diferente: «en Portugal. no quadro da crise sucessória. De acordo com D. não estava previsto no juramento que Filipe II efectuara em Tomar. que. em vez disso. No fundo. Diego de Silva. sin que preceda juramento. sendo também mediante essa cerimónia que o reino conseguia que os seus privilégios fossem jurados pelo monarca. sus priuilegios. Em face desta questão. mas sim por «graça real». efectua uma análise muito sugestiva das implicações do juramento efectuado em Cortes. son solos los que la restitución y gracia declara». fora um gesto resultante da vontade régia e. y quando se les restituyen. sem que tivesse sido chamada por um rei legítimo – «Porque si el delito fué juntarse el Reino. nalguns reinos a «utilidade» do juramento era recíproca. voluntariamente e sem o prévio consentimento do monarca. Salinas manifesta a sua veemente oposição à ida do monarca hispânico a Portugal naquele momento tão delicado. declara que Filipe II. logo. sem convocatória régia. uma postura mais afirmativa do rei. y para el Reino. qué pena se pudo proporcionar a este delito.». viene a ser el juramento en mayor utilidad del Reyno que del Rey. sustancia. de motu proprio. Todavia. defendendo. fê-lo não propriamente porque sobre ele pesava a obrigação de respeitar os foros portugueses. preueniendo de paso otros semejantes.. con ocasión del juramento. por ser através dele que o rei via a sua situação legitimada. sobre matérias tão transcendentais como a sucessão na Coroa. i congregado. corria o ano de 1581. Com base nestes dados. A esse respeito. aya quien le congregue. em 1580. De seguida. revogável em qualquer momento que o monarca assim o decidisse136. Salinas recorda que o privilégio de a população poder juntar-se com o nome de «Reino». sin convocación del Rey para eligir a Don Antonio. Prosseguindo na sua digressão pelos acontecimentos de 1581. donde se prosupone que el heredero es Rey. desde aquel punto. ao reunir as Cortes e ao contemporizar com os portugueses. a principal preocupação de D. pues para el heredero es cirimonia el juramento.196 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS muito a jurisdição da dita câmara134. Salinas relembra o caso de D. António e a assembleia que se reuniu. le haga . más justa i más bien considerada que la que prohibe que semejantes juntas no pueden tener nombre de Reino. assumir o título de «Reino em Cortes» e tomar decisões. afirma Salinas que «los Reinos que toman armas contra sus Reys pierden. i que sólo le tenga el que fuere ligitimamente congregado por su Rey en Cortes?»135.. acrescentando que a reunião de Cortes sem que a convocatória procedesse da vontade régia poderia ser equiparada a um gesto de rebelião.

apoiando-se. A ASSEMBLEIA DE CORTES. que haze el Reyno de Portugal. Ibérica140. 197 parte para que pueda pedir al Rey que le jure sus preuilegios»137. convocando. o monarca apressou-se a abandonar Portugal. a resposta a muitas das petições que foram entregues nas Cortes139. incluindo Castela) lembravam que em Portugal existia o costume imemorial de os novos impostos não serem introduzidos sem o consentimento dos povos reunidos em Cortes. Salinas sustenta que bastava a condição de herdeiro para se ser rei. No reinado que se seguiu. A despeito destas observações. durante a qual os ministros régios tiveram de escutar uma série de queixas acerca da violação de algumas das condições do «Estatuto de Tomar»138.. Anos mais tarde. a propósito. no seu reinado. Tais apelos não parecem ter comovido o conde duque de Olivares e os seus ministros. acrescentando que. as instituições lusas (à semelhança do que se passava noutras partes da Península. Foi a única vez que. cada vez que surgiam planos de introdução de novos tributos. também. nesse reino. em vez disso. al de . arbítrios e memoriais difundidos a partir de finais da década de 1620. aliás. As Cortes não só não foram convocadas como. numa reunião praticamente reduzida à cerimónia do juramento do príncipe herdeiro e a uma rápida negociação sobre matérias fiscais. o que inviabilizou o debate sobre outras questões governativas. o monarca se juntou com os «três estados» portugueses. razão pela qual os monarcas não estavam tão limitados como em França pela vontade dos seus vassalos. Na década de 1630. como é bem sabido. a falta de resposta às petições de 1619 será relembrada pela publicística apoiante do duque de Bragança. Para Salinas.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. do que estava a suceder em outros pontos da P. nos anos que se seguiram. Recorda. pelo contrário. Em Portugal. esse contexto de crescente voluntarismo régio reforçou um processo que já se vinha fazendo sentir: a identificação entre as Cortes de Portugal e a condição reinícola de Portugal. tornando-se também necessário ser jurado e ungido. Como seria de prever. Jean-Frédéric Schaub chamou recentemente a atenção para a importância do Memorial de la preferencia. bem pelo contrário.. nestas duas últimas condições. impedindo. as Cortes.. mas apenas em 1619. os pretendentes dependiam dos vassalos. Filipe III acabou mesmo por viajar até Portugal. o caso de França e o facto de os seus reis serem ungidos e jurados. plasmado em propostas. a qual viu nesse gesto um sinal do mau governo dos Habsburgo em Portugal. para um dignitário chegar a rei não bastava ser herdeiro. Filipe IV e Olivares lançaram várias iniciativas fiscais sem consultarem as Cortes de Portugal. em expedientes representativos mais ágeis – na linha. floresceu um discurso de desvalorização da assembleia dos «três estados». y su Consejo. nessa ocasião. Talvez para evitar essas críticas.

Contrariando de uma forma flagrante o estabelecido pelo «Estatuto de Tomar». onde se discute até que ponto era legítimo organizar. Para além do citado tratado de Barbosa de Luna. como um aperfeiçoamento pontual da administração da Coroa. estes escritos tiveram algum impacto em Portugal. o que foi interpretado como um indício seguro de que estava em curso um processo de despromoção do estatuto reinícola de Portugal. para além de ter funcionado como elemento galvanizador para todos aqueles que foram atingidos pelas iniciativas de Olivares142. Para o autor do Memorial. desde as origens de Portugal como unidade política independente. Atribuídas ao período fundacional do reino. juntas ad hoc para despachar. o mesmo Salgado de Araújo volta a defender as juntas. ao contrário do que se passava em Aragão. 1627). Entre os muitos argumentos esgrimidos nesta obra há um que se relaciona directamente com a «assembleia dos três estados»: para provar a preeminência de Portugal. Como não podia deixar de ser.198 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Aragon. Assim se compreende os apelos à reunião de Cortes escutados durante a década de 1630. encarando-as como um tribunal ad hoc. Salgado de Araújo defende a legitimidade dessas juntas. pois fazia corpo imediatamente com a Coroa. Pouco tempo depois. . o rei de Portugal podia revogar leis de Cortes sem reunir os «três estados». na obra Ley Regia de Portugal. Geraldo de Vinha. a maior liberdade de manobra do monarca constituía um factor de preeminência para o reino. Durante o valimento de Olivares sucederam-se os escritos – boa parte deles assinados por portugueses – onde se expressava uma opinião desfavorável sobre as Cortes lusitanas e acerca do seu papel no sistema político. em Madrid. sustentando também que a Coroa lusa era mais «absoluta» do que a aragonesa. de forma célere. um outro bom exemplo do que acabámos de afirmar é um breve manuscrito de meados da década de 1620.. factor que conferia mais dignidade a Portugal no quadro da sua “competição” com os demais reinos que integravam a Monarquia Hispânica141. assim como a oportuna revelação das «actas» das Cortes de Lamego.. 1627). para alguns.. sem necessidade das Cortes. um documento – apócrifo – que. os «três estados» tinham o direito a pronunciar-se sobre matérias governativas. Não tardou a correr o rumor de que se planeava a supressão das Cortes. os negócios de Portugal. proporcionava o aval histórico ao protagonismo político que muitos desejavam atribuir à «assembleia dos três estados». Este exemplo demonstra que. as «actas» da assembleia de Lamego alegadamente provavam que. (Madrd. da autoria de João Salgado de Araújo.. um impresso da autoria de Pedro Barbosa de Luna e que surge no contexto da disputa de precedência entre a Coroa de Aragão e a Coroa de Portugal. Barbosa de Luna afirma que em terras lusas o rei era «mais absoluto». entre outras coisas.. Juan Delgado. y de las dos Sicilias (Lisboa.

A ASSEMBLEIA DE CORTES. delegando a aplicação das decisões num conjunto de oficiais régios de carácter comissarial e revestido de uma considerável margem de poder. podia funcionar. com essa lógica de actuação. para Madrid. se auto-representava como um tribunal. em muitos aspectos. Importa não esquecer que a «assembleia dos três estados». uma espécie de reunião restrita das Cortes de Portugal. O valido de Filipe IV pretendia substituir esse conselho por um organismo con- . com a consequente subalternização dos nobres e dos letrados até aí preponderantes. 199 Todavia. Todavia. Como se não bastasse. também. a junta realizada em Madrid acabou por não surtir o efeito desejado. como forma de resistência ao regime decisório eminentemente executivo instaurado pelo valido de Filipe IV. Além disso. os principais responsáveis pela agitação social que se registou ao longo de toda a década de 1630. Terão sido estes. como uma instância cuja actuação se inspirava no modelo judicial de gestão administrativa.. é importante ter em conta que o apelo à convocatória dos «três estados» podia servir vários propósitos. Convém não esquecer que se vivia uma conjuntura em que era cada vez mais forte a presença de Olivares e da sua clientela. pouco tempo depois Olivares decidiu levar a cabo uma medida ainda mais drástica: a dissolução do Conselho de Portugal. Quanto à linha de actuação do valido de Filipe IV. A pressão fiscal do período de Olivares amplificou o ressentimento contra a sua pessoa e a sua clientela. A reunião visava encontrar uma solução para a substituição da duquesa de Mântua. Para além de constituir um instrumento de defesa da condição reinícola do reino português.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS... Recorde-se que o conde-duque. para além de se ter recusado a reunir Cortes. embora tivesse também a finalidade de encontrar uma forma de atenuar o descontentamento vivido em Portugal. e na sequência das perturbações ocorridas no ano antecedente. precisamente. Em meados de 1638. em matérias de governo o valido concentrou a faculdade decisória no seu círculo de confiança. já que muitos viram na decisão de Olivares de consultar os notáveis do reino fora de Portugal a confirmação de que o valido estava mesmo apostado na revogação do «Estatuto de Tomar» e na despromoção de Portugal. e que atingiu o seu ponto culminante no ano de 1637143. rompia. afectando grupos – e respectivos privilégios – que até esse momento tinham sido poupados. o conde duque de Olivares decidiu convocar. para além do seu carácter ancestral. órgão que se assumira como um dos principais obstáculos à sua política fiscal em terras lusas. implementou uma fiscalidade particularmente extensiva. e muitos daqueles que lutaram contra o seu estilo de governo – por se afastar do tradicional e muito mais consensual paradigma jurisdicionalista – usaram as Cortes como o símbolo da maneira consuetudinária de governar em Portugal.

Como assinalou Jean-Frédéric Schaub144. Convém assinalar que esta não foi a única proposta de criação institucional onde os limites jurisdicionais entre Portugal e a restante Monarquia Hispânica surgiam algo esbatidos. que a proposta de convocatória de uma assembleia geral dos reinos da Península Ibérica não apareceu apenas em arbítrios que tinham a ver com matérias portuguesas. Convém lembrar. o que estava basicamente em jogo era afirmar que o monarca tinha o poder de alterar. Xavier Gil Pujol recorda que. Pretendia Olivares que as Cortes deixassem de ser símbolos do particularismo reinícola.200 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS junto luso-castelhano e estreitamente controlado pela Coroa. ou então a convocação de uma vasta junta de personalidades portuguesas a realizar na corte régia146. Contudo. nos anos de 1638 e 1639 Olivares recebeu numerosas propostas – muitos delas da autoria de portugueses – que apontavam no sentido da reconfiguração do estatuto de Portugal no quadro da Monarquia Hispânica. chegando mesmo a propor a celebração de uma reunião de Cortes comum às duas Coroas – Castela e Portugal – em Madrid. no contexto das grandes dificuldades financeiras de 1599. Schaub bem reconheceu. esperava-se conseguir fomentar um mais intenso sentimento de pertença entre as várias partes que compunham a Monarquia. outro caso a reter são. estudados. Dessa forma. Vasconcelos vai mais longe. J. as decisões tomadas pelas Cortes.-F. os escritos do português Diogo Manuel de Orta. sobretudo. Schaub destaca as sugestões que foram avançadas por Agostinho Manuel de Vasconcelos. Voltando aos papéis sobre Portugal em circulação na corte régia no final da década de 1630. Sobre as Cortes de Portugal. sem dúvida. Todavia.-F. de motu proprio. Entre os vários escritos que então circularam. Como J. esta decisão foi tudo menos pacífica. por Fernando Bouza148. também se propôs a criação de uma grande assembleia de toda a Espanha. a este respeito. nenhuma dessas propostas foi avante147. uma Junta General ou um Consejo Supremo. No «Discurso juridico-politico sobre el derecho que el Rey nuestro señor tiene en el reino de Portugal y union de su gobierno a la . e que se convertessem em órgãos fomentadores de sentimentos de pertença ao conjunto da Ibéria. escreve Agostinho Manuel algumas palavras que vão claramente no sentido da desvalorização dessa assembleia: «es de advertir que la precision que los principes comunmente platican en las promesas que hacen en Cortes nunca es tan exacta ni tan indispensable que sobreviniendo en la ejecuccion inconvenientes no queden con libertad de emendar-las interpretar-las i aun derogar-las porque parece que siempre llevan la tacita condicion de que las cumplira no obstando al bien publico del imperio»145. uma espécie de États Généraux de França. Como facilmente se imagina.

ENTRE

O CENTRO E AS PERIFERIAS.

A

ASSEMBLEIA DE

CORTES....

201

Real Corona de Castilla»149, o argumento principal de Orta é que o contrato feito nas Cortes de Tomar, em 1581, não tinha qualquer validade, dado que o rei já era senhor do reino antes das Cortes. A acreditar em Orta, Portugal era um reino herdado, e a natureza separada do reino português desaparecia com a herança castelhana, o que levava o autor do «Discurso juridico-politico» a afirmar que as leis castelhanas podiam ser impostas em Portugal. Numa digressão pelo passado recente da Monarquia, Diogo Manuel de Orta aproveita para criticar Filipe II pelas concessões que havia feito e por ter sido demasiado contemporizador para com os lusos, os quais, convinha não esquecer, tinham resistido militarmente contra a entrada na Monarquia Hispânica. Além disso, lembra que os levantamentos de 1637 tinham de ser interpretados como uma revolta, devendo ser retiradas todas as consequências desse facto, ou seja, tais acontecimentos significavam a quebra unilateral do pacto entre os dois reinos, ficando Filipe IV livre de qualquer obrigação de respeitar os foros portugueses150. Como notou J.-F. Schaub, o que estava subjacente a este texto era a redução de Portugal à jurisdição da Coroa de Castela, ou seja, o desaparecimento da Coroa portuguesa enquanto entidade juridicamente separada da restante Monarquia Hispânica151. É importante não perder de vista que as iniciativas de Lerma e de Olivares têm lugar numa época em que, em termos da cultura política dominante, ainda não era socialmente aceitável a ideia de uma gestão governativa puramente executiva, tal como não era nada pacífica a actuação governativa que não estivesse confinada aos moldes da iurisdictio152. Assim, em Portugal, tal como noutras partes da Monarquia (incluindo Castela), boa parte dos apelos para que as Cortes fossem convocadas, no quadro da resistência a Lerma ou a Olivares, foram o resultado da repugnância pelas práticas governativas extra-judiciais e de sentido eminentemente executivo, e não propriamente o simples e espontâneo produto de factores nacionais. Muitos letrados demonstraram-se agravados com este estilo de governo, pois sentiam que os novos ministros favorecidos pelo valimento estavam a atropelar tanto a sua hierarquia profissional quanto o seu cursus honorum. Um número não negligenciável de disputas foi pois motivado por magistrados ciosos do seu ofício, os quais, dando corpo ao seu sentido de estrito cumprimento da jurisdição, reagiam contra intromissões jurisdicionais, independentemente da nacionalidade daquele que levava a cabo essa acção. Quanto à aristocracia, nestes anos também ela clamou a favor das Cortes, não só por ter sido relegada para segundo plano pela clientela do valido, mas também porque, do seu ponto de vista, a privança introduzia um grave desequilíbrio na «justiça distributiva»153. Um dado parece certo:

202

OS MUNICÍPIOS

NO

PORTUGAL MODERNO :

DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS

o acumular desses episódios de tensão fez com que, aos poucos, a ideia do pacto rei-comunidade deixasse de ser um assunto abstracto e só discutido por teólogos ou por juristas, para se tornar num tema de debate quotidiano, perdendo muita da sua conotação metafísica e adquirindo uma feição histórica cada vez mais nítida154. Foi assim que, aos poucos, ficou criado o ambiente propício para o deflagrar de uma ruptura política de grande alcance.

As Cortes em Portugal sob a dinastia de Bragança
Poucos dias depois da revolta de 1 de Dezembro de 1640, os apoiantes de D. João, duque de Bragança, decidiram convocar os «três estados». À semelhança do que acontecera noutras ocasiões, a assembleia representativa foi nessa conjuntura encarada como uma instância que poderia dar alguma legitimidade ao movimento português de secessão da Monarquia Hispânica. Assim, em Janeiro de 1641 as Cortes reuniram em Lisboa, juntando uma pequena parte do «estado da nobreza» e do clero, bem como um número significativo de procuradores em representação das cidades e das vilas do reino. A assembleia decorreu sem grandes sobressaltos, acabando por sancionar a escolha que já havia sido feita a 8 de Dezembro – o duque de Bragança foi aclamado rei D. João IV pelos «três estados», e o seu filho D. Teodósio foi jurado príncipe herdeiro. Numa altura em que o apoio à causa brigantina era incerta, recorria-se assim ao juramento como mais uma forma de vinculação, numa época em que o comprometimento moral, devido às suas implicações religiosas, tinha muito mais força obrigante do que os pactos, os contratos ou a lei positiva. A assembleia de 1641 foi um acontecimento ímpar na história portuguesa, pois representou o momentâneo potenciar da capacidade política das Cortes. De facto, nesses breves momentos reconheceu-se às Cortes uma série de atribuições: antes de mais, a capacidade para avaliar a governação do rei D. Filipe III. Por outras palavras, as Cortes comportaram-se como um tribunal, como uma instância judicial titular de uma jurisdição excepcionalmente ampla, tão ampla que habilitava os «três estados» a julgar o comportamento do rei. E como se tal não bastasse, a reunião de 1641 reconhecia ao «reino», reunido em Cortes mais duas outras excepcionais faculdades: a capacidade para se eximir voluntariamente da obediência a um soberano a quem tinha sido efectuado um juramento de fidelidade; e, além disso, reconhecia-se também aos «três estados» a capacidade para escolher, voluntariamente, um novo soberano. Como se pode facilmente imaginar, aqueles que se decidiram pela reunião de Cortes, em 1641, moveram-se num terreno altamente melindro-

ENTRE

O CENTRO E AS PERIFERIAS.

A

ASSEMBLEIA DE

CORTES....

203

so. Antes de mais, porque era do conhecimento de todos que a quebra do juramento tinha seríssimas implicações morais e religiosas. Não devemos esquecer que muitos reprovaram a revolta de 1640 porque representava uma ruptura com um compromisso moral assumido nas Cortes de 1619, altura em que Filipe IV – à data príncipe herdeiro – havia sido jurado pelos portugueses. Como se pode ler numa instrução entregue ao embaixador de Filipe IV em Roma, logo após 1640, «[na rebelião portuguesa] se considera en primer lugar la transgression del juramento de obediencia y fidelidad, solemne y publicamente hecho a Dios por el mismo Duque de Bragança, y todos los tres Estados a favor del Rey Don Felipe, que le acetó en Cortes Generales de todo el Reyno ligitimamente convocadas...»155. Para além da quebra do juramento, o melindre da situação tinha também a ver com a situação interna da realeza. Com efeito, na sequência desse evento a Coroa brigantina ficava numa posição particularmente débil, porquanto admitir que os «povos» podiam romper com o soberano a quem tinham jurado fidelidade e escolher um outro líder representava, sem dúvida, um precedente muito perigoso, pois fragilizava bastante a posição dos futuros titulares da Coroa. A justificação doutrinal da revolta de 1 de Dezembro encarregou-se de frisar todas as implicações constitucionais do sucedido. Francisco Velasco de Gouveia, autor de uma das principais obras legitimadoras da revolta de 1640 – Ivsta acclamação do serenissimo Rey de Portvgal Dom Ioão o IV… (Lisboa, Lourenço de Anveres, 1644) – foi muito claro ao enunciar aquilo que estava em jogo: «Que Ainda que os Povos transferissem o poder nos Reys, lhes ficou habitualmente, & o podem reassumir, quando lhes for necessario para sua conservação»156. De seguida, Velasco de Gouveia analisa o caso português, alegando que a revolta de 1640 era justificada e legitimada pela inequívoca tirania de Filipe IV. Quanto à capacidade electiva das Cortes, Velasco de Gouveia defende-a apoiado em duas linhas argumentativas: por um lado, na ideia de soberania popular e no conceito de pactum subjectionis; por outro, numa argumentação histórico-jurídica fundada nas já citadas «actas» das Cortes de Lamego, bem como no precedente histórico das Cortes de Coimbra, realizadas em 1385. No que toca ao imaginário da soberania popular, António Barbas Homem157 assinalou recentemente que o conceito de pactum subjectionis está presente no Assento das Cortes de 1641, uma vez que os redactores deste texto – que constitui o documento que fixa e publicita as decisões tomadas na assembleia – aceitam a ideia de mediação popular na transmissão do poder político de Deus para os príncipes. Cumpre lembrar que desde, pelo menos, o século XVI, o conceito de pactum subjectionis era

204

OS MUNICÍPIOS

NO

PORTUGAL MODERNO :

DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS

mobilizado pelos juristas defensores do direito de defesa que assistia à comunidade face a uma governação mal exercida, classificada como «tirania». No quadro dessa leitura, a titularidade do poder pertencia ao povo, cabendo ao príncipe apenas o exercício desse poder. Uma vez aceite esse princípio, o povo, reunido em Cortes, ficava habilitado a exercer várias faculdades: avaliar a qualidade da governação; eximir-se da obediência devida ao seu Rei sem quebra do juramento, nos casos em que fosse dado como adquirido que o rei era tirano; e, em situações extremas, escolher – em sede de assembleia representativa – um novo soberano. Para além do imaginário da soberania popular, o Assento das Cortes de 1641 recorre, também, à argumentação histórico-jurídica, lembrando os princípios estabelecidos quer nas já referidas Cortes de Lamego158, quer nas Cortes de Coimbra de 1385, ocasião em que D. João, Mestre de Avis, fora aclamado rei de Portugal. O precedente histórico de 1385 foi sistematicamente invocado para justificar as opções de 1640, tendo-se também usado as apócrifas «actas» das Cortes de Lamego para consolidar essa pretensão. Este imaginário está presente na referida obra de Velasco de Gouveia, nela se apresentando a cerimónia inaugural do reinado como um pacto de atribuição do poder, como um pacto que tinha como objectivo não propriamente estabelecer a forma do governo, mas sim efectuar a transferência do poder do povo para o príncipe. E tal como sucede em qualquer transferência de poder, trata-se de um processo que envolve condições reciprocamente assumidas159. Além do livro de Velasco de Gouveia, a imagem das Cortes como «tribunal de reis» e como uma assembleia com capacidade electiva pode ser encontrada em boa parte da literatura favorável a D. João IV publicada nas décadas de 1640 e 1650, sobretudo porque a propaganda apostou nesse argumentário como forma de tornar legítima, tanto para o interior quanto para o exterior do reino, a ruptura de 1640. Procurava-se desse modo demonstrar que a separação da Monarquia Hispânica e a adesão a D. João IV eram sentimentos partilhados pela generalidade dos portugueses. Foi também por essa altura que se investiu na ideia de que a reunião de Cortes correspondia à forma como os reis portugueses, desde tempos imemoriais, costumavam tomar decisões governativas. Paralelamente, procedeu-se à demonização do governo de Filipe IV, recorrendo-se, de um modo bastante sistemático, ao tema da marginalização de que as Cortes haviam sido alvo. Fulgêncio Leitão, por exemplo, em Reduccion, Restituycion del Reyno de Portugal a la Serenissima Casa de Bragança en la Real Persona de D. Iuan IV… (Turim, Iuannetin Pennoto, 1648), relembra a década de 1630 e as várias fases da política fiscal de Filipe IV, denunciando os «acordos particulares» que a Coroa estabelecera com os povos no

ENTRE

O CENTRO E AS PERIFERIAS.

A

ASSEMBLEIA DE

CORTES....

205

campo tributário, sem que o reino junto em Cortes tivesse podido dizer uma palavra sobre esse assunto. Nos escritos de Fulgêncio Leitão, as Cortes são elevadas ao estatuto de único órgão autorizado para decidir sobre questões fiscais. Logo, a opção de não chamar as Cortes para decidir sobre fiscalidade era apresentada como um sinal inequívoco da tirania de Filipe IV e do seu valido160. É interessante verificar que o olhar de alguns estrangeiros sobre as Cortes de Portugal, durante a década de 1640, também sublinha o poder que esta assembleia momentaneamente adquiriu. Lívio Giotta, em Raggioni del Ré di Portogallo D. Giovanni IV… (Lisboa, Paulo Craesbeeck, 1642), traça o seguinte retrato da assembleia representativa portuguesa: «Li tre Stati cioè gli Ecclesiastici la Nobiltà, e Popoli delli Regni di Portogallo ragunati nelle Corti doue rappresentano in vn corpo tutti li sudetti Regni, e tutta l’auttorità, e potere, ch’essi tengono, hanno risoluto per buon principio delle medesime Corti douersi con publica Scrittura da tutti sottoscritta decidere, estabilire, como il Ius d’essere Rè, e Signore loro spettaua, & spetta al potentissimo Rè Don Giouanni, il quarto di questo nome....». Acrescenta Giotta: «I supponendo per cosa chiara in Iure ch’al Regno, & alli tre Stati d’esso compete il giudicare, e dichiarare la legitima successione del medemo Regno, ogni volta che nasce qualche difficoltà, e dubbio trà i pretendenti per diffetto di descendenza dell’vltimo Rè possessore...»161. Quanto ao número de petições enviadas às Cortes realizadas após 1640, ele cresceu muitíssimo, e o monarca instruiu os seus oficiais para que respondessem, de forma diligente, a esses pedidos, tendo em vista demonstrar que, no que toca à comunicação com os seus vassalos, a dinastia de Bragança era fundamentalmente diferente dos Habsburgo, revelando uma constante disponibilidade para escutar as suas queixas e para os ajudar a resolver os seus problemas. O grande manancial de petições então apreciado proporcionou aos oficiais régios uma visão bastante detalhada da situação do reino, das suas localidades e dos seus habitantes162. Todavia, é curioso verificar que os oficiais régios tiveram dificuldade em interpretar essa informação, já que nalguns casos era nítido que os pedidos reflectiam a opinião generalizada da população que os enviara, enquanto que noutros casos era evidente que constituíam uma óbvia manobra para mobilizar os recursos régios a favor dos interesses de uma determinada parcialidade local163. Como sugerimos, D. João IV e os seus sequazes nutriam sentimentos ambivalentes face a toda esta ênfase na capacidade política das Cortes. Por um lado, partiu deles a opção de instrumentalizar a «assembleia dos três estados» e fomentar o uso propagandístico das Cortes enquanto instância legitimadora da mudança dinástica; por outro, ao potenciarem as facul-

contribuição fiscal 1679-80 1697-98 . Afonso VI (D. sabiam perfeitamente que corriam o risco de contribuir para o surgimento de um movimento de cariz “republicano”. A situação tornava-se tanto mais delicada quanto era para todos claro que a Coroa. João. regente) D. Afonso VI D. ou pelo menos de uma tentativa de reequacionamento do lugar constitucional ocupado pelas Cortes. a despeito de todo o ambiente que foi criado a favor das Cortes. contribuição fiscal para a guerra Contribuição fiscal Contribuição fiscal Juramento do príncipe D. nessa fase. regente) D. Afonso VI (D. as Reuniões das Cortes de Portugal no século XVII Ano 1619 1641 1642 1645-46 1653-54 1667-68 1673-74 Reinado D. Filipe II D. como por exemplo uma pujante tradição histórica de ideias e de práticas republicanas165. Filipe Juramento e levantamento do duque de Bragança como rei de Portugal. acabou por não surgir qualquer movimento concertado que tivesse como finalidade atribuir. tinha uma margem muito reduzida para resistir a qualquer desafio interno164. revelando-se. Ao contrário do que se poderia prever. À excepção de movimentos muito pontuais de contestação a certos aspectos da governação dos anos de 1640 e 1650. de uma forma sustentada. Todavia. Pedro. Não devemos esquecer que o regime monárquico estava profundamente enraizado na cultura política. e na história lusa faltavam ingredientes que pudessem galvanizar um processo de afirmação pactista. As assembleias de Cortes que se seguiram à histórica reunião de 1641 confirmam esta tendência. João IV D. juramento do príncipe D. nem sequer as cidades mais poderosas enveredaram pelo caminho da afirmação da capacidade política das Cortes. João IV D. Afonso. contribuição fiscal Juramento do infante D. Pedro II Motivo Juramento do príncipe D. João IV D. declaração ou derrogação da lei sucessória. mais poder à assembleia representativa. muito mais preocupadas em preservar os seus privilégios e em travar as iniciativas da Coroa que violavam o seu espaço jurisdicional.206 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS dades políticas da assembleia. em vez disso. a verdade é que. Isabel com o primogénito do duque de Sabóia Juramento do príncipe D. contribuição fiscal Dote para o casamento da princesa D. contribuição fiscal Juramento da princesa D. Pedro. João IV D. Isabel Luísa Josefa. Pedro como regente e governador do reino. Teodósio.

A ASSEMBLEIA DE CORTES. Tanto mais que. de reflexão e de discussão sobre as medidas governativas. por D. e os de Portugal. no entanto. que o rei reunia as Cortes sempre de bom grado.º marquês de Gouveia.. numa carta enviada ao secretário de estado Francisco Correia de Lacerda. 2. A consulta frequente dos «três estados» foi nestes anos retratada como a modalidade decisória que mais estava de acordo com os princípios constitucionais que regiam o reino. algumas décadas mais tarde. 207 Cortes foram-se dedicando a um leque de questões cada vez mais restrito. também. quanto mais despacho. e os Príncipes mayor paciencia. no seu Tácito Portuguez. é inegável que as Cortes continuaram a representar um momento importante de introspecção colectiva.. [trata-se das cortes que deveriam ter reunido em 1649]». como um alfobre de decisões onde se vislumbra a emergência de um novo sentimento de pertença ao «reino». após 1640 reforçou-se a noção de que a decisão régia em conjunto com as Cortes correspondia à forma costumeira de tomar decisões governativas em Portugal. João da Silva. que a El rey acodião. foi um dos muitos que notou esta renovada disposição do rei em escutar o parecer dos povos sobre questões governativas: «Continuavão os Reys da Europa. João. João IV em dialogar com os «três estados» é rotundamente desmentido. uma entidade politica que trans- . drasticamente. a negociação sobre novas imposições fiscais acabou por monopolizar grande parte das assembleias de 1642-43. Assim. Acrescenta que «a resão a meu ver he manifesta: porque […] juntos os povos em Cortes parece que em certo modo fica algum tanto coarctada aquella soberania que os Príncipes tem no seu governo Monárquico…»167. que por papel lhe aprezentavão a informação de seus negocios... não bastavão os dias inteyros…»166. Tal não significa.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. em nenhuma dessas reuniões se vislumbrou qualquer esforço consistente para tirar partido do élan de 1641 tendo em vista reconfigurar. pedindo o remedio delles e como nos novos reynados os subditos tem mais confiança. tendo funcionado. sempre que convocara as Cortes. Pelo contrário. Tal não significa. A despeito destas dúvidas. fizera-o «com grande repugnancia tanto assim que estando convocadas humas para Tomar. para vincar a diferença face à dinastia dos Habsburgo. para cuja comprehensão. D. era sem número o número das petiçoens. Francisco Manuel de Melo.. com grande frequencia ouvir em publico a seus vassalos. João IV e os seus seguidores convocaram as Cortes com uma regularidade inusitada. de 1645-46 e de 1653-54. e elleytos Procuradores se não celebrarão.. acabando por ficar sobretudo associadas à política fiscal. porém. O aparente contentamento sentido por D. o regime de relações entre o rei e o reino. o marquês confidencia que D. que a assembleia tenha perdido a sua relevância política. Nessa missiva. Significativamente.

208 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS cendia os limites das comunidades locais ou corporativas e que impunha sacrifícios nem sempre fáceis de aceitar. tendo em vista alcançar determinados objectivos. das necessidades em que se encontrava o reino. durante o período em que as Cortes estavam reunidas. mas procurando associar o imaginário religioso aos sacrifícios que procuravam impor aos «três estados». por exemplo. Na sequência disso. de um modo extremamente exaltado. Quanto aos demais grupos sociais. fizeram-no não só através da repetição. Como sugerimos. fazendo identificar as intenções da Coroa com os desígnios de Deus168. De qualquer modo. nos debates das Cortes foram escutadas numerosas intervenções em defesa da igualdade fiscal. sobretudo. gerou-se uma situação de pré- . de que só uma parte do reino pagava os impostos. e as várias entidades políticas em presença por diversas vezes tentaram utilizar. a Coroa procurou garantir que. A fim de tornar esses apelos mais consensuais. Para isso. a contestação aos planos fiscais da Coroa tornou-se especialmente forte. As manobras de influência junto das Cortes foram uma constante. Outra valência política das Cortes decorria do simples facto de essa assembleia reunir um número considerável de dignitários – cerca de três centenas – e poder ser facilmente instrumentalizada. como forma de pressão. tais apelos não tiveram qualquer acolhimento. da uniformidade jurisdicional. procurando desse modo assegurar a colaboração das elites locais na implementação das decisões tomadas pela assembleia. em muitos casos. dos deveres inerentes à condição de membro dessa comunidade política “vasta” que era o «reino». o alargado conjunto de pessoas que participava na assembleia. Um grupo de representantes das câmaras tentou mobilizar as Cortes para exercer pressão sobre o monarca. Como acabámos de ver. É certo que. e alguns procuradores queixaram-se. Em 1642. os oficiais régios costumavam associar a essas obrigações para com o «reino» todo um discurso com ressonâncias religiosas. da agilização dos procedimentos administrativos e. não deixa de ser significativo que as sessões de Cortes tenham sido o palco desse tipo de afirmações. os pregadores que celebrassem missas na cidade onde a assembleia decorria profeririam sermões cujo conteúdo estaria orientado para convencer o auditório a ser conivente com os pedidos da Coroa. Assim. local ou corporativa. por vezes os oficiais régios viram nas Cortes uma boa oportunidade para fomentar a unanimidade face aos planos – sobretudo fiscais – da Coroa. até à exaustão. também eles se aperceberam do potencial da reunião dos «três estados» como forma de pressão política. a fim de que a Coroa abdicasse dos seus propósitos fiscais. deveres esses que o rei e os seus oficiais se esforçaram por colocar acima das obrigações intrínsecas à pertença familiar.

na expectativa de que dela resultariam decisões que seriam socialmente muito mais consensuais. alegando motivos como o dispêndio inerente a cada nova reunião. em finais de 1642. curiosamente invocando motivos aos quais os povos não eram indiferentes: lentidão dos processos decisórios. É muito sintomático que os apelos para a convocatória de Cortes a fim de aprovar novos tributos raramente tenham sido lançados por membros do clero e da nobreza. ou seja. etc. em defesa da sua reivindicação. pelo contrário. Como sugerimos. durante toda a segunda metade de Seiscentos.. os representantes do «terceiro estado» foram os primeiros a opor-se à convocatória da assembleia. etc.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. Da parte do reino. risco de motim. A Coroa também participava nesta exploração conjuntural do capital simbólico (e político) das Cortes. que alguns dos princípios constitucionais do reino seriam violados pelo monarca caso não consultasse os representantes do reino. receio de que os povos vissem na convocatória das Cortes um sinal de que a obrigatoriedade de pagar tributos tinha cessado. obrigar o clero e a nobreza a contribuir. encarando-as – sobretudo à Câmara de Lisboa – como uma instância de mediação com o resto do . Quando antevia dificuldades na negociação com as Cortes. razão pela qual os procuradores mais radicais não tardaram em ser presos. em certos momentos. pois acreditava que essa seria a melhor forma de instaurar uma situação de relativa igualdade fiscal. a própria Coroa prescindia de dialogar com os «três estados» e optava por realizar consultas restritas às principais cidades. os apelos mais sonoros para que a assembleia fosse convocada partiram. demonstrou uma aberta relutância em chamar os «três estados». as quais costumavam alegar. é curioso verificar que. Todavia. são um excelente exemplo do que acabámos de dizer169. a lentidão do processo decisório. esta matéria foi um pretexto para infindáveis debates entre a Coroa e os diversos grupos sociais. Uma questão que permaneceu em aberto.. em princípio o «terceiro estado» era aquele que mais veementemente insistia na reunião com o rei para decidir sobre novas imposições fiscais. das autoridades urbanas. custos inerentes à reunião. Por esse motivo. Noutros casos. Noutros momentos. 209 -motim que muito atemorizou a Coroa. em geral. Mais do que um assunto encerrado. Como vimos. podia suceder que as facções cortesãs usassem as Cortes como forma de pressão contra os seus inimigos – as manobras de descrédito movidas contra o secretário de estado Francisco de Lucena. foi a da alegada obrigatoriedade do rei em consultar as Cortes sempre que tinha de tomar qualquer decisão na área fiscal170.. em determinadas conjunturas mostrou-se interessada em reunir a assembleia. A ASSEMBLEIA DE CORTES. de um modo geral estas manobras a favor ou contra as Cortes costumavam surgir em conjunturas de aprovação de novos impostos.

210

OS MUNICÍPIOS

NO

PORTUGAL MODERNO :

DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS

reino. A esse respeito, cumpre reconhecer que a dinastia de Bragança acabaria por ter uma actuação bastante semelhante à dos monarcas Habsburgo, tão duramente criticados pela propaganda pós-1640 precisamente por terem levado a cabo iniciativas fiscais sem a consulta prévia da assembleia representativa171. Após 1640 várias exacções fiscais foram introduzidas sem que as Cortes tivessem sido consultadas, registando-se, também, alguns casos em que os tributos foram automaticamente aprovados por mais três anos, invocando-se o facto de continuar presente o motivo que tinha justificado a sua imposição172. Na linha do que já vinha sucedendo desde meados de Quinhentos, o Senado de Lisboa continuou a assumir-se como interlocutor privilegiado do rei, chegando mesmo a arvorar-se em representante das restantes cidades do reino. Convém notar, no entanto, que esse papel de que se arrogou Lisboa nem sempre foi bem aceite pelas demais cidades e vilas com assento em Cortes, tanto mais que, muitas vezes, os procuradores lisboetas se revelaram mais próximos do interesse da Coroa do que dos interesses das comunidades que compunham o reino. Após a morte de D. João IV – em 1656 –, a situação pouco se alterou. A 22 de Novembro de 1657, o conde de Comminges (embaixador francês em Lisboa) relatava, numa das muitas cartas que enviou para a corte francesa, que a regente D. Luísa estava a esforçar-se para reunir o dinheiro pedido por Mazarin para aceitar uma aliança com Portugal. Acrescentava que «o povo não tinha relutância em contribuir, mas os fidalgos faziam tudo para fugir ao pagamento, e [a rainha] não se atrevia a pedir nada ao clero». A acreditar em Comminges, o «povo» desejava a convocação de Cortes e a rainha estava de acordo, mas «o clero a desfavorecia e os fidalgos e os ministros se esforçavam para impedi-la, porque os primeiros teriam de pagar e os segundos de responder pela sua administração»173. Nos anos de 1650 e 1660 assistiu-se ao aumento exponencial da pressão fiscal, recrudescendo, também, a discussão acerca da margem de manobra da Coroa em matérias tributárias. Como assinalámos, a atitude mais frequente era o apelo para que as Cortes fossem consultadas sempre que se planeasse a introdução de uma nova exacção. Todavia, em certos casos eram os próprios «estados» a lembrar ao rei que o motivo do imposto continuava presente, não havendo por isso necessidade de convocar os «três estados». No entanto, convém ter presente que a renovação trienal de impostos sem a consulta das Cortes nem sempre foi uma solução pacífica, e momentos houve em que gerou autênticas tempestades políticas. A par desta profusão de debates sobre a competência das Cortes na área da fiscalidade, a «assembleia dos três estados» continuou a intervir, pontualmente, em matérias sucessórias, marcando presença em alguns dos

ENTRE

O CENTRO E AS PERIFERIAS.

A

ASSEMBLEIA DE

CORTES....

211

momentos mais transcendentais para a Coroa, como por exemplo o levantamento de cada novo rei ou o juramento dos príncipes herdeiros. Os círculos régios condescenderam com esta pontual actuação da assembleia dos «três estados» nesse terreno tão importante, embora procurassem frisar que essa intervenção era circunscrita e localizada. Assim que o debate tocava em temas mais sensíveis, logo intervinham os oficiais régios, tudo fazendo para moderar as intervenções e para desmobilizar a discussão. Os próprios participantes nas Cortes parecem ter consciência de que havia certos temas que, pela sua delicadeza, não convinha discutir abertamente na assembleia portuguesa. Francisco Ferreira Rebelo, jurista e diplomata na agitada Londres da década de 1650, testemunhou as sucessivas reuniões do Parlamento inglês e as resoluções aí tomadas, e, nas cartas que enviou para Lisboa, observa que a assembleia representativa inglesa discutia matérias de grande transcendência político-constitucional, acrescentando que seria difícil ver as Cortes de Portugal debaterem, tão abertamente, temas tão sensíveis. Refere, a título de exemplo, a ampla discussão em torno do título que Oliver Cromwell deveria assumir174. É, em parte, verdade, que os debates nas Cortes portuguesas não costumavam ir tão longe. Seja como for, alguns anos depois de Ferreira Rebelo ter feito este comentário sobre o radicalismo das discussões que tinham lugar no Parlamento inglês, as Cortes de Portugal voltaram a tocar nesse transcendental tema que era a capacidade governativa do monarca. Tal sucedeu nas Cortes de 1667-68, reunidas em plena crise governativa motivada pelo descrédito em que a governação de D. Afonso VI tinha caído. Convocada numa altura em que estava já em curso o afastamento do rei e a sua substituição pelo seu irmão D. Pedro, a assembleia de 1667-68 constitui, sem dúvida, um momento ímpar, pois essa foi a ocasião em que as Cortes mais se envolveram na discussão sobre as questões do trono175. Tal como sucedera em 1641, em 1667 as Cortes foram convocadas tendo em vista sancionar uma situação que já estava praticamente consumada: o afastamento do rei D. Afonso VI. Os representantes dos «três estados» discutiram longa e acaloradamente a questão, apresentando diversas propostas para a resolução da crise. A par dos muitos debates que então tiveram lugar, circularam também vários pareceres de teólogos e de juristas acerca da aflitiva situação em que se encontrava a Coroa, o que ainda mais contribuiu para alargar o âmbito do debate. Exceptuando os contextos de ruptura dinástica, nunca antes se havia discutido, com tanta publicidade, matérias tão cruciais, e vários foram os oficiais régios que se aperceberam do melindre da situação. Depois de muitas hesitações, as Cortes acabaram por ser determinantes para sancionar a solução encontrada: D. Afonso VI

212

OS MUNICÍPIOS

NO

PORTUGAL MODERNO :

DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS

manteria o título de rei, mas seria dado como incapaz para o governo, sendo por isso mesmo substituído nessas funções pelo seu irmão, o qual, por sua vez, foi jurado pelos «três estados» como «regente e governador do reino». O aval das Cortes serviu, de novo, para tornar socialmente mais aceitável essa situação profundamente anómala e que roçava a imoralidade. Uma vez mais era dada a oportunidade aos «três estados» para se pronunciarem sobre matérias da mais alta política. Contudo, e à semelhança do que sucedeu após 1640, da reunião de 1667-68 também não resultou qualquer iniciativa de relançamento do papel das Cortes no sistema político português. Na assembleia que se seguiu – celebrada em 1673-74 – alguns procuradores ainda tentaram pronunciar-se sobre a situação política que se vivia no reino, embora sem grande êxito, uma vez que os oficiais régios rapidamente circunscreveram o debate. A assembleia realizou-se em Lisboa, num momento em que corriam rumores de que o embaixador espanhol congeminava uma conspiração, facto que contribuiu para exaltar os ânimos176. A reunião terminou abruptamente, por ordem de D. Pedro, numa altura em que os debates ameaçavam provocar um tumulto, sobretudo porque a juntar aos rumores de que estava em curso uma conjura, vários foram os procuradores que fizeram declarações inflamadas sobre a situação em que se encontrava o governo do reino, reclamando o regresso de D. Afonso VI. Tendo em conta estes acontecimentos, compreende-se facilmente porque é que, nos anos que se seguiram, a Coroa favoreceu a identificação entre a assembleia de Cortes e a problemática fiscal. Ao concentrarem a atenção dos «três estados» na questão dos tributos, os oficiais régios evitavam que os debates tocassem em matérias consideradas demasiado sensíveis para serem discutidas na “praça pública”. Para além disso, a Coroa tinha plena consciência de que o aval das Cortes poderia ser decisivo para tornar socialmente mais consensuais as propostas fiscais, assim como para garantir que os influentes locais colaborariam com a Coroa no seu esforço para arrecadar o produto fiscal. Ainda assim, e apesar de ficarem cada vez mais centrados na questão fiscal – algo que ia ao encontro dos desejos da Coroa após 1640 –, os debates ocorridos nas Cortes nem por isso deixaram de contar com intervenções mais acaloradas, nas quais os vassalos não hesitaram em lembrar aos governantes do reino as suas obrigações, chegando mesmo a acusá-los de mau governo. Seja como for, no último quartel de Seiscentos assistiu-se a um gradual esvaziamento da capacidade das Cortes para intervir em matérias de alta política, com a excepção da fiscalidade, área que praticamente monopolizou as discussões. Tal não significa, no entanto, que a «assembleia dos três

ENTRE

O CENTRO E AS PERIFERIAS.

A

ASSEMBLEIA DE

CORTES....

213

estados» se tivesse tornado na única instância competente nessas matérias. De facto, a par das Cortes, a Coroa foi explorando outras formas mais céleres de negociação fiscal. Assim, para além de ter confiado cada vez mais à Câmara de Lisboa o papel de principal interlocutor, favoreceu órgãos mais ágeis e politicamente mais controláveis pela Coroa – como a Junta dos Três Estados –, opção que acabou por ditar o esvaziamento de algumas das competências da «assembleia dos três estados». No que respeita à política tributária, convém ter presente que a grande questão se jogava no controle sobre a administração fiscal. Inicialmente, os municípios lograram manter nas suas mãos a gestão do fisco. Todavia, tal gerou numerosas situações de desvio de dinheiro e de cobrança fiscal muito abaixo das expectativas, o que levou à criação de uma série de órgãos vocacionados para o controlo da própria administração tributária da Coroa, de que um dos melhores exemplos é a referida Junta dos Três Estados, a qual desenvolveu uma tenaz luta com as câmaras das principais cidades do reino tendo em vista dominar os mecanismos de gestão dos impostos cobrados nessas urbes. Essa junta começou por ser composta por representantes dos «três estados», mas com o tempo foi deixando de contar com deputados directamente nomeados pelo «estado dos povos», o que suscitou algum descontentamento. O confronto entre as cidades do reino e a Junta dos Três Estados – órgão fundamental e que continua à espera de um estudo aprofundado – representa, afinal, o esforço da Coroa em penetrar nessas «comunidades de privilégios» que eram os núcleos urbanos.

Os territórios ultramarinos e a sua representação no centro político
Como é bem sabido, a tradição jurídica vigente na época moderna previa que a soberania sobre um reino poderia ser adquirida através das seguintes vias: por herança; por acordo de todos os representantes do reino, que livremente manifestavam a vontade, em sede de assembleia representativa, de se sujeitarem a um senhor, transferindo-se de um soberano para o outro; por casamento; por outorga do Papa; e, finalmente, por conquista. Cada uma destas formas de incorporação territorial previa determinadas consequências ao nível da dignidade e dos direitos políticos gozados pelas instituições que administravam as terras que eram objecto da incorporação. Vários destes mecanismos agregativos foram postos em prática pelas casas reais ibéricas, tanto na Europa, no quadro do processo de alargamento dos seus domínios, como fora dela, no âmbito do desenvolvimento dos seus impérios ultramarinos. Como começámos por sugerir, cada uma das unidades políticas mais “vastas” – como um reino, uma monarquia ou um império – era vista

214

OS MUNICÍPIOS

NO

PORTUGAL MODERNO :

DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS

como uma comunidade de comunidades, como um conjunto de corpos políticos agregados por laços de natureza diversa e escalonados segundo uma ordem fortemente hierárquica, ordem essa que conferia a cada uma das partes direitos políticos desiguais. Tal desigualdade era bem visível no interior da Península Ibérica, onde, como verificámos, prevalecia uma rigorosa hierarquia entre os vários reinos e, dentro destes, entre as diversas cidades. É essa hierarquia que explica o facto de apenas uma pequena parte das urbes ter assento nas Cortes. No que toca aos territórios extra-europeus das Coroas ibéricas, esse escalonamento hierárquico também marcou presença, não só ao nível das relações entre as várias cidades ultramarinas, mas também dos laços que estas mantinham com as suas congéneres peninsulares. Assim, na fase inicial da colonização das possessões ultramarinas, a dignidade das instituições situadas nessas terras era muito inferior à das comunidades peninsulares, realidade que, desde logo, tinha uma consequência bem visível na «assembleia dos três estados»: as cidades ultramarinas começaram por estar ausentes da reunião que congregava as principais urbes do reino. Importa não esquecer que os domínios extra-europeus das Coroas Ibéricas foram inicialmente tratados como «conquistas», termo que, de resto, surge frequentemente na documentação coetânea. Como assinalámos, o estatuto de «conquista» evocava o modo como esses territórios tinham ingressado nos domínios dos monarcas ibéricos, envolvendo sérias consequências quanto aos direitos políticos gozados pelas suas instituições e pelos seus habitantes: eram territórios escalonados numa posição inferior face aos domínios europeus das Coroas ibéricas, estando as suas populações desprovidas de alguns dos mais substantivos direitos políticos, como por exemplo a «honra» de tomar parte na assembleia de Cortes. Tal não significa, porém, que as instituições representativas estivessem ausentes dos domínios ultramarinos das Cortes ibéricas. No caso das possessões extra-europeias da Coroa de Castela, por exemplo, o seu ordenamento jurídico admitiu a realização de reuniões entre cidades da América para a resolução dos conflitos surgidos entre elas, estabelecendo-se uma hierarquia que, de alguma maneira, evoca aquela que existia nos reinos de Castela entre as urbes com assento em Cortes e as restantes povoações. Como assinalou Carlos Dias Rementeria a propósito da administração da América Espanhola177, já em Junho de 1530 se contemplava a possibilidade de se celebrarem congressos de cidades da Nova Espanha, de entre as quais a cidade do México teria o primeiro voto. Anos mais tarde, em Abril de 1540, estipulava-se a realização de reuniões similares no ViceReinado do Peru, considerando-se a cidade de Cuzco como a principal entre as que integravam essa circunscrição administrativa. Importa frisar,

os coetâneos utilizavam. e algumas urbes chegaram mesmo a reivindicar o direito a tomar parte na assembleia representativa que reunia as cidades de Castela-Leão. assinala algo de muito interessante sobre a capacidade política das cidades americanas: «Si bien reconozco que en las Indias no hay Junta de Cortes. sino que se reciban y paguen por sus vassallos con obediencia y gusto. y que así la potestad real de S.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. deliberadamente. pois nela o vice-rei constata a ausência de uma assembleia que servisse de fórum de negociação para estabelecer alguma concertação às iniciativas da Coroa em terras americanas. Brazos. tendo em vista envolver os territórios ultramarinos no esforço de defesa da Monarquia Hispânica179.. foi um dos governantes incumbidos de pôr em prática essas medidas. no sólo que se imponan los tributos. Esta declaração do conde de Chinchón reveste-se de um grande interesse. tendo em vista reforçar o laço de ligação entre a metrópole e suas possessões ultramarinas. a própria Coroa tomou a iniciativa de as chamar. coloca-se a possibilidade de que quatro procuradores. pois remete para a questão a que atrás aludimos: a diferença de hierarquia entre as cidades europeias e as urbes americanas. À medida que as instituições urbanas do continente americano se consolidaram. em vez desse termo. Estamentos ni Parlamentos. M. e. dirigida ao Vice-rei da Nova Espanha. en quien caben todo este género de mercedes. O vice-rei do Peru. sorteados entre as províncias integrantes desse Vice-Reinado. O Consejo de las Indias afirma que «las Indias son muy diferentes de los otros reinos. Y se suele hallar más ayuda . A resposta que o Consejo de las Indias deu ao Vice-Rei do Peru não é menos sugestiva.. acorressem às reuniões das Cortes de Castela e Leão onde fossem jurados príncipes. todavía creo que lo que importa a su real servicio es. no sólo en el poder que los vasallos tienen en estos casos. Assim aconteceu sob o valimento de Olivares: numa carta régia de Maio de 1635. a qual denota uma assembleia de menor dignidade do que a reunião dos «três estados».. conde de Chinchón. no quadro da «Unión de las Armas» a Coroa dirigiu insistentes apelos no sentido do aprofundamento da integração entre as distintas partes da Monarquia. Previa-se também que esses representantes aproveitassem a vinda à Europa para tratar de outros assuntos178. Como já foi referido. numa das suas missivas que enviou ao Real Consejo de las Indias. que a estas reuniões jamais foi dada a denominação de «Cortes». [sublinhado nosso] Que aunque hay caballeros de calidad. Por vezes. A ASSEMBLEIA DE CORTES. sino en la calidad dellos. es libre y absoluta. 215 contudo. Y a esto será mucho provecho la esperanza en unos y certidumbre en otros de ser remunerados»180. as suas pretensões políticas alargaram-se consideravelmente. a palavra «congresso». suelen ser los que tienen menos mano en ayudar a estos arbitrios.

direitos e liberdades-imunidades. com a realeza comunicavam os titulares dos cargos governativos e administrativos das regiões ultramarinas. são muitas as petições assinadas por um conjunto de municípios. fácilmente se introduce la materia en los cabildos eclesiásticos y seglares. cuando conviene y se halla dispuesta»181. sino que hacen los virreys juntas de ministros y llaman algunos vecinos. também a Coroa portuguesa tinha consciência de que era necessário criar formas de participação das elites ultramarinas. pois reclamavam prerrogativas. mas também política. assumindo-se como interlocutores com a Coroa. cuales les parece. têm contribuído para esclarecer o modo como se processava a comunicação política entre a corte e os territórios ultramarinos. No período de Quinhentos e de Seiscentos. o principal desafio consistiu em encontrar expedientes representativos que fossem capazes de espelhar os territórios cada vez mais vastos e as populações cada vez mais variadas que estavam sob o comando dos monarcas lusos182. tanto do reino como dos territórios extra-europeus sob a jurisdição dos monarcas portugueses183. e tal como sucedia no império espanhol. Tais textos vinham muitas vezes acompanhados de longos escritos onde se descrevia a história local. . da sua população e das suas instituições. por exemplo. também as câmaras municipais desempenharam esse papel. Na verdade. Todavia. este problema tornou-se especialmente premente. os interesses dos vários corpos sociais. Os trabalhos de Charles Boxer184 e de Evaldo Cabral de Mello185. falando em nome dos habitantes que estavam sob a sua alçada e «representando» – tornando presente ao rei – os problemas que afectavam essas populações186. muitas vezes. os poderes municipais do ultramar foram relativamente céleres a adquirir uma identidade política mais vincada. y con aquellos acuerdos. com o contínuo processo de expansão territorial. Algo de semelhante se passava no reino de Portugal e nas suas possessões ultramarinas. Além disso. concorrendo para fortalecer a identidade política local e para reafirmar a auto-suficiência das câmaras187. os quais eram. tendo sido necessário encontrar formas de tornar presentes. dos territórios americanos. Para o Brasil de finais do século XVI e do século XVII. No caso português. portavozes das aspirações e das reivindicações dessas terras. y comunicándolo con los corregidores y los prelados. aludindo a lendas fundadoras e enaltecendo os serviços militares desempenhados pelas gentes que aí viviam.216 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS en el consulado de los mercaderes y en otros hombres de trato. entre outros. Assim. Eram escritos com um fundo reivindicativo muito marcado. como meio de as comprometer com o esforço conjunto do reino. Dificilmente encontraríamos uma declaração mais taxativa da “menor qualidade” social. Y no hay votos en Cortes ni junta de ayuntamiento. junto da Coroa.

devido ao papel por elas desempenhado na luta contra os neerlandeses. honras e liberdades que tinham sido conferidos aos cidadãos do Porto em 1490. . Trata-se de um tema importante. com o rei. os trabalhos de Fernanda Bicalho e de Fátima Gouvêa sugerem que este fenómeno tem de ser associado ao aparecimento do título de «Príncipe do Brasil». muitos deles ainda em fase embrionária. como assumiram um grande protagonismo na sessões de trabalho das Cortes. Após 1654 algo de semelhante terá ocorrido com algumas câmaras de Pernambuco e das capitanias limítrofes. Na assembleia de 1653. No que respeita à presença de representantes de cidades americanas nas Cortes portuguesas. membro da comissão incumbida de acompanhar a reunião até ao seu termo189. tudo indica que a “dignidade” das diversas partes do Império era algo de dinâmico e oscilante. e onde o único caso mais saliente era o da câmara da Bahia. A preocupação por manter a ligação entre a Coroa portuguesa e os territórios ultramarinos.. sobretudo quando comparados com a menor projecção dos poderes locais da América Portuguesa. dessa forma. em privado. ao saberem que estava para breve a vinda de Filipe III a Portugal. outras cidades brasileiras vão ver o seu estatuto dignificado: em 1642 os cidadãos do Rio de Janeiro recebem os mesmos privilégios. manifestaram a vontade de participar nas Cortes convocadas para 1619188. A ASSEMBLEIA DE CORTES. ao contrário do que era predominante no caso das câmaras do reino191. bem como da América Portuguesa. uma maior capacidade de comunicação com a Coroa. adquirindo. ou seja. pois denuncia alguma mobilidade e algum voluntarismo. Seja como for. deparamos com Jerónimo Serrão de Paiva a actuar como «procurador do Brazil». A importante temática do estatuto de cada cidade – peninsular e ultramarina – carece ainda de um estudo aprofundado. acompanhando o selecto grupo das cidades do primeiro banco que reunia. o mesmo se podendo dizer da equiparação dos privilégios de alguns municípios ultramarinos àqueles que eram gozados pelos habitantes das principais cidades do reino (com a excepção de Lisboa. Já no século XVII. podendo indiciar uma mudança de estatuto desta possessão ultramarina190.. Convém notar que estes procuradores não só participaram na abertura solene.. também explica esta camada das câmaras extra-europeias para as Cortes. chegando mesmo a ser nomeado «definidor». para resolver os assuntos pendentes. numa época em que estes eram cobiçados por outras potências europeias. por exemplo. E nas assembleias realizadas após 1640 há representantes de câmaras municipais da cidade de Goa. importa ter em conta que algumas câmaras americanas.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. «cabeça do reino»). Durante o período de Quinhentos os municípios da parte Oriental do Império – de que o melhor exemplo é Goa – desfrutaram de um estatuto claramente destacado. 217 Além disso.

Assim se compreende porque é que os nobres castelhanos raramente escolheram as Cortes como principal espaço de confronto com a política da Coroa. facto que. as principais instâncias de protecção da nobreza e de garantia dos seus direitos. afectando. as Cortes também estavam longe de ser o seu principal espaço de articulação com a Coroa. no seu conjunto. ao contrário do que se passou em Aragão. É certo que o caso português se reveste de alguma especificidade. ao . tornava-se cada vez mais evidente que tanto a Coroa como os vários grupos sociais estavam a desinvestir nas Cortes. pela sua complexidade. nessa época. todas as suas assembleias representativas. era muito mais pessoal. enquanto corpo social. a comparência de uma parte considerável da aristocracia e do alto clero nas Cortes portuguesas. Com o tempo.218 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS O fim da convocatória das Cortes No final de Seiscentos. após 1640 Portugal passou a contar com um rei permanentemente residente no seu território. A aristocracia cada vez menos viu na assembleia representativa o seu principal fórum de diálogo. como vimos. O afastamento entre a aristocracia e as Cortes contribuiu para desviar dessa assembleia o debate sobre uma série de matérias da alta política. Para os aristocratas de finais do século XVII a política jogava-se. quando comparada com outros contextos europeus – como Inglaterra –. Como assinala o mesmo Thompson. cada vez menos faziam parte do seu elenco de tarefas. na Catalunha. as reuniões dos «três estados» foram deixando de opinar sobre questões do governo geral do reino. na corte e nos conselhos palatinos192. e como bem notou I. Importa notar que os procuradores não se opuseram a esse processo. concentrando-se. porquanto os diversos sectores do «estado eclesiástico» desenvolveram os seus próprios canais de influência e de comunicação com os círculos régios. favorecia a convocatória assídua das Cortes. prescindindo. sobretudo. como por exemplo a exigência de que o rei fosse libertado da influência de um valido que se revelara mau ministro194. acabaram por ser os conselhos régios e as próprias instituições judiciais193. pois. cada vez mais. sobre a política dinástica ou sobre as relações internacionais da Coroa. A. como vimos. A. O fenómeno que acabámos de descrever é comum aos vários reinos da Península Ibérica. Além disso. na negociação fiscal. da «assembleia dos três estados». Quanto ao clero. em Valência ou nos demais reinos peninsulares – com a óbvia excepção de Castela –. e de um modo geral aceitaram que essas questões. ou a recusa em aceitar a nomeação para um determinado cargo195. Thompson. a oposição aristocrática no mundo ibérico tinha um cunho menos constitucional. com a Coroa. traduzindo-se em reivindicações de carácter pontual.

ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. Acresce que a cultura política do tempo continuava a ter no seu centro o primado da justiça. em geral desprovidos de um carácter parlamentar e com uma composição menos numerosa. órgãos que contavam. I. Com efeito. o que. que cabia ao monarca o mais eminente poder legislativo. facto que os tornava mais ágeis em termos de gestão dos assuntos governativos. por si só. Fortea Pérez reconhece que. Carlos V estabeleceu – em 1525 – uma Diputación del Reino. nessa função. Seja como for. uma vez que também ela participava – e dependia – desse imaginário jurisdicionalista197. as assembleias de Cortes tenham sido postas à margem do principal processo político200. indirectamente. as Cortes lograram exercer uma assinalável influência sobre a legislação do reino. funcionava como factor de “resistência cultural” a iniciativas governativas mais voluntaristas e puramente executivas da Coroa. e apesar disso. em todas as leis produzidas pelas Cortes era enunciado. ao longo dos séculos XVI e XVII várias normas resultantes de Cortes acabaram por ser alteradas sem que os «três estados» tivessem podido pronunciar-se198. nas suas fileiras. a partir de finais de Seiscentos. Em Castela. em Portugal.. Quanto à vigilância sobre o governo. deixando de exercer uma função consultiva e sendo paulatinamente substituídas. J. o que. Também isso contribuiu para que. através das petições. conferiu a este órgão alguma força e prestígio. consequentemente. De qualquer modo. Além diso. cuja função era velar pelo cumprimento dos acordos de Cortes e gerir. Como assinalámos. perante os conselhos e tribunais . desde o século XVI. tal como em Castela. de forma clara. ou seja. Acresce que os oficiais régios tenderam a ser cada vez mais relapsos na resposta às petições entregues nas Cortes. No que respeita à alegada competência legislativa das Cortes. por um mecanismo de procedimento administrativo materializado nos diversos tribunais. por um sistema jurisdicional bastante independente. contribuiu para que os municípios deixassem de acreditar na eficácia dessa assembleia para resolver os seus problemas199.. órgãos de natureza diversa. mas também autoridade moral196 e. por exemplo. também em Portugal as Cortes foram perdendo protagonismo.. pelo Conselho de Estado e pelos demais conselhos palatinos. o controle constitucional foi cada vez mais desempenhado pelos conselhos palatinos e. ao lado destas assembleias foram surgindo. tanto com figuras do «estado eclesiástico» como com elementos da nobreza. sobretudo. uma maior capacidade de pressão sobre a Coroa. Cumpre notar que as Cortes não foram as únicas instituições representativas a actuar nos diversos reinos ibéricos. 219 longo de toda a segunda metade de Seiscentos. A ASSEMBLEIA DE CORTES. a presença do «estado eclesiástico» e do «estado da nobreza» proporcionava às Cortes não só publicidade.

da já referida Junta dos Três Estados (1643). eviden- . entre outras atribuições. onde o princípio da igualdade pesava pouco. o direito de representação não podia assentar num único expediente representativo. onde cada um tinha direitos diferenciados e onde tudo o que era semelhante em status se devia unir e ser tratado com os seus semelhantes. acima de tudo. e onde o direito de representação tinha mais em conta a qualidade do que a proporcionalidade aritmética entre as partes que compunham o todo203. também concorriam com as Cortes. É esse o caso de alguns dos conselhos palatinos. Fortea Pérez nota que. sobretudo quando o seu Senado se apresentava como «cabeça do reino» e falava em nome das demais cidades. passou a existir uma duplicidade de órgãos representativos com competências na área fiscal202. os ministros régios conseguiram penetrar nesse órgão. Como assinalou Giovanni Levi. e profundamente hierarquizado no que toca ao estatuto de cada uma das partes que integrava o corpo político. Com o tempo. essas diferenças. e. Por surgir num corpo social extremamente diversificado. e que em 1639 se converteria num tribunal supremo sobre matérias fiscais. Como sugerimos no início deste ensaio. das juntas restritas do tempo de Filipe III e de Olivares. também.220 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS régios. quando negociavam directamente com o rei. lidamos com um espaço social não-homogéneo e não-uniforme. a pluralidade dos canais representativos coetâneos espelhava um ambiente profundamente heterogéneo em termos jurisdicionais. por uma justiça típica de uma sociedade aristocrática e hierárquica. Cabia à Diputación. A esta lógica se opõe. a justiça distributiva das sociedades do Antigo Regime era governada por uma «igualdade geométrica». Portugal também assistiu à paulatina criação de órgãos que desempenhavam funções representativas e que eram titulares de atribuições potencialmente esvaziadores das competências das Cortes. Já no início do século XVII. e a pluralidade de órgãos representativos de que falámos reflectia. J. e também em Castela. Tais partes eram muito diferentes entre si. foi criada a Comisión de Millones (1611). representar o reino nos períodos em que as Cortes não estavam reunidas. porém. Na realidade. um órgão inicialmente composto apenas por comissários nomeados pelas cidades. o mesmo se podendo dizer do município de Lisboa. É importante frisar que a pluralidade de formas representativas a que temos vindo a fazer alusão estava intimamente relacionada com a heterogeneidade do espaço sócio-político dos séculos XVI e XVII. As cidades. igual para todas as partes do corpo social. a partir da entrada em cena da Comisión de Millones. I. os problemas cuja resolução as cidades lhe confiavam201. e em 1658 a Comisión acabaria por ser integralmente absorvida pelo Consejo de Hacienda da Coroa de Castela.

a verdade é que nenhuma das assembleias representativas ibéricas funcionou como um órgão que congregasse. os tribunais e. de forma homogénea. no entanto. Tal contribuiu. vimos atrás que jamais manifestaram muito empenho em usar a reunião dos «três estados» como instrumento para reconfigurar o regime de relacionamento que mantinham com o monarca português. que não aceita diferenças de status e que se baseia na justiça comutativa204. Pedro. Após a queda de Olivares. Em plena crise. Elliott. Para além do que acabou de ser mencionado. um ano muito difícil para a monarquia206. estes dois grupos nunca encararam a assembleia como o seu principal palco de interacção com a Coroa. que as assembleias. A ASSEMBLEIA DE CORTES. exerceram o principal papel de vigilância e de controle constitucional sobre a acção da Coroa. Não obstante a concorrência que sofreram. embora o confronto geral entre a Coroa e os poderes urbanos estivesse iminente em 1647. de uma forma geral. John H. e ao contrário do que sucedeu com os Parlements de França. duas excelentes oportunidades para o fazer: em 1640.. sem dúvida. aquando do afastamento do rei D. os procuradores acabaram por não levar até ao limite a sua acção. No que toca aos procuradores. momento em que foi concedido. No caso de Castela. não foram completamente inoperantes205. o controle do novo imposto dos millones tornou-as capazes de desenvolver uma oposição de cariz mais constitucional. quando da ruptura com a Monarquia Hispânica. Afonso VI e da afirmação do seu irmão D. Seja como for. Os conselhos palatinos. por causa da concessão de plenos poderes aos procuradores. No entanto. mesmo nesta fase de perda de protagonismo. um excepcional protagonismo político às Cortes. e em 1667-68. Quanto a Portugal. outros foram os motivos que concorreram para a marginalização das Cortes: a reunião dos «três estados» foi frequentemente substituída por conselhos (função consultiva e .ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. A luta pela preservação dos privilégios corporativos teve lugar em outros órgãos e em outros sectores da vida política. pelo menos. conjunturalmente. para que as Cortes jamais se tivessem tornado no principal palco de defesa dos direitos de cada um dos grupos sociais face às investidas da Coroa. não há dúvida de que o facto de o clero e a nobreza continuarem a comparecer nas Cortes proporcionou força moral a esta assembleia.. de forma muito clara. demonstrou. a abertura das Cortes de 1646 também foi acompanhada por disputas com a Coroa.. 221 temente. as Cortes não ficaram totalmente desprovidas de poder. a igualdade da proporção aritmética da sociedade democrática. embora tivessem tido. foram as instâncias que. em última análise. e como assinalámos. determinados interesses de corpo207. o conjunto do sistema administrativo-judicial.

aos poucos. o certo é que os anos foram passando sem que as Cortes tives- . compreende-se melhor a decisão tomada pela regente de Castela Mariana de Áustria. Da parte das cidades não se registou nenhuma reacção hostil a esta decisão. nos eventos cerimoniais que contavam com a participação do soberano. caso das taxas alfandegárias. preferindo investir em outros canais de comunicação política e em outras formas de fiscalidade mais fáceis de introduzir sem a aprovação das Cortes. Por último. a Coroa recorreu. A nobreza e o clero continuaram a responder à convocatória. facto que. o «estado eclesiástico» desenvolveu os seus próprios canais de influência. Talvez por causa disso. Nessa data decidiu-se não propriamente suprimir as Cortes. As cidades e as vilas. cada vez mais encararam a participação nas Cortes como um dispêndio pouco compensador. Quanto às contribuições fiscais estabelecidas em Cortes. Perante tudo isto. A par disso. Por outro lado. e em vez disso. e em vez disso. Depois dessa data o monarca não voltou a convocar as Cortes. Em Portugal as últimas Cortes do Antigo Regime celebraram-se em 1697-98. embora jamais tenha declarado que não voltaria a convocar os três estados. da sua parte. abandonando a reunião assim que podia. a prática negocial com a Coroa à margem das Cortes estava já amplamente implantada. por seu turno. já que. com cada vez mais frequência.222 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS executiva). por juntas (administração fiscal) e pela comunicação directa entre a Coroa a as cidades (negociação directa)208. a renovação das contribuições já existentes. Seja como for. para o clero a assembleia também foi perdendo peso no seu relacionamento com a Coroa. os reis e os seus ministros. a Coroa. o que fez com que a Coroa olhasse para a assembleia como um órgão cada vez menos eficaz na criação de consenso em torno da fiscalidade. um expediente fiscal que não carecia de aprovação das Cortes209. como vimos. convém lembrar que a decisão de 1667 tem também a ver com a circunstância de Carlos II ser um rei menor e de se recear que a assembleia se pudesse converter num foco de oposição ou de desestabilização210. de não reunir as Cortes que o falecido Filipe IV havia deixado convocadas. para alguns. sempre que introduziu novas exacções recorreu ao argumento de que o que estava em jogo não eram novas contribuições mas sim. dispensava a convocatória da assembleia representativa. reunião que praticamente se limitou a debater questões fiscais. mostraram-se cada vez mais relutantes em chamar as Cortes. mas a maioria dos seus membros acabava por participar. os oficiais régios tornaram-se mais relapsos na resposta às petições. mas sim. ficaram sempre muito aquém do prometido. apenas. para não suscitar reacções adversas. ao «donativo». até porque. a 25 de Julho de 1667. adiar sine die a sua convocatória.

a doutrina de um poder régio moderado e alegadamente fiel à tradição portuguesa acabaria por vingar. Como acabámos de dizer.. pelos círculos régios. por seu turno. recusando-se a esse órgão qualquer veleidade de controle constitucional ou de limitação dos desígnios da Coroa. cujo poder era partilhado com os demais corpos sociais. à medida que se avançou no período de Setecentos. autor do Projecto de alteração do dito Livro II. No contexto das revoluções liberais. sustentava que em Portugal nenhum órgão limitava o poder do rei. projecto esse que suscitou uma polémica pública sobre o «absolutismo» régio. no qual a convocatória dos «três estados» começou a ser encarada. os tribunais e o conjunto do sistema jurídico-administrativo eram garantias suficientemente fortes para resistir a iniciativas mais voluntaristas da Coroa. no século XVIII as Cortes de Portugal jamais foram convocadas.. as Cortes do Antigo Regime voltaram a polarizar o debate político-constitucional. Ribeiro dos Santos defendeu as Cortes. foi-se instalando um ambiente político mais regalista. as Cortes passam a ser apresentadas como uma assembleia que reunia por mera opção do rei. na Espanha dos primeiros anos de Oitocentos. Todavia. sintomaticamente. facto que. foi . uma atitude governativa mais abertamente voluntarista e executiva. A «assembleia dos três estados» voltou a estar no centro do debate político no final de Setecentos. Nesse contexto. como uma cedência cada vez menos aceitável da parte de monarcas que se distinguiam por assumir. vários foram aqueles que continuaram a evocar as Cortes e a apresentá-las como um órgão que controlava a acção do monarca. A ASSEMBLEIA DE CORTES. facto que travou a aprovação da reforma211. referindo-se às leis fundamentais e ao seu «carácter sagrado». encarando-as como repositório de elementos limitadores do poder régio. embora se tenha falado dessa assembleia a propósito de algumas das novas exacções que a Coroa foi impondo.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. e não obstante todo o avanço das doutrinas regalistas. nem como uma situação que punha em risco o equilíbrio de forças entre o rei e os estados sociais. postulava um conceito «absoluto» de realeza. na viragem para o período Setecentista. Seja como for. Pascoal de Melo Freire. Bartolomé Clavero recordou que. era para todos claro que. nem sequer para a inauguração de cada novo reinado. agora sim. Pascoal de Melo Freire. a ausência de «assembleias dos três estados» não foi encarada como um atentado aos direitos dos vários corpos do reino.. ao passo que António Ribeiro dos Santos pugnava por um entendimento mais tradicional de monarquia. não foi só nesse momento que as Cortes voltaram a estar no centro do debate político-jurídico de finais de Setecentos e de início do século XIX. No entanto. 223 sem sido chamadas. Depois de um longo debate. Na verdade. Como tal. no momento em que se projectou alterar o Livro II das Ordenações Filipinas. também não provocou qualquer escândalo.

à inexistência desse texto escrito. Trabajos de Historia Política. 17 (1997) pp. 63-90. «Entre dos servicios. 421-445. «Orto y ocaso de las Cortes de Castilla» in José Alcalá-Zamora & Ernest Belenguer (orgs. também. os membros da dita comissão ficaram também impressionados com a ausência de um articulado escrito e de natureza constitucional que estabelecesse. 11 (1991) pp. 1992. . de uma forma sólida e clara. La crisis de la hacienda real a fines del siglo XVI. 1989. vol. Centro de Estudios Políticos y Constitucionales-SEENM. Revista de las Cortes Generales. 1997. pp. Junta de Castilla y León. Salamanca. 1988) pp. 1992.). Salamanca. Actas de la Segunda Etapa del Congreso Científico sobre la Historia de las Cortes de Castilla y León. 2001. Alianza. territorio sin Cortes (siglos XV-XVII)». Santander. VV. em boa medida. Las alternativas fiscales de una opción política (1590-1601)». afirmavam. Universidad de Valladolid. pp. Fragmentos de Monarquía. Múrcia. Valhadolide. 779-803. 15 (III cuatrimestre.224 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS constituída uma Comissão que tinha como objectivo restabelecer a assembleia representativa212. El Mundo Urbano en la Corona de Castilla (s. Valhadolide. Universidad de Cantabria. desde tempos ancestrais. 53-82. Cortes de Castilla y León. Pardos «Castilla. «Reino y Cortes: el servicio de milliones y la reestructuración del espacio fiscal en la corona de Castilla (1601-1621)» in J. Revista de las Cortes Generales. Veja-se. Elliott & A. acrescentando que os procuradores das cidades «nunca representaban la Nación»213. NOTAS 1 Pablo Fernández Albaladejo. o lugar das Cortes no sistema político do Antigo Regime.). Historia Moderna. Era toda uma nova leitura da política – e dos princípios constitucionais – que estava a ganhar forma. García Sanz (orgs. Cremades Griñán (orgs. Nas Cortes da época moderna prevalecia «una forma de vana representación y una sombra de libertad». Além disso. pp. «Las Ciudades. Cortes y “cuestión constitucional” en Castilla durante la edad moderna». «Cortes y poder real: una perspectiva comparada» in AA. Fernández Albaladejo e J. essa comissão procurou reconstituir o modo como se processavam. «The Cortes of Castile and Philip II’s Fiscal Policy». pp. a debilidade das Cortes do Antigo Regime devia-se. a fraca representatividade das Cortes e a sua falta de liberdade na escolha dos representantes. La España del Conde Duque de Olivares. Fortea López & Carmen M. 117–138. 1990. Las ciudades y la política fiscal de Felipe II. Studia historica. Monarquía y Cortes en la corona de Castilla. Las Cortes de Castilla y León en la Edad Moderna. Ao analisarem as assembleias dos séculos antecedentes. XVI-XVIII). pp. «La resistencia en las Cortes» in John H.). 2 José Ignacio Fortea Pérez. «Las Cortes de Castilla y su Diputación en el reinado de Carlos II. Madrid. 113-208. 317-337. Reunida a partir de 1809. 1990. 1 (1984) pp. I. Madrid. Para os membros da dita comissão. 11-34. Estates and Representation. las Cortes y el problema de la representación política en la Castilla Moderna» in Imágenes de la Diversidad. Universidad de Murcia. Política y Hacienda en el Antiguo Régimen. Parliaments. as sessões das Cortes. «Monarquia. 477-499. de P. A. I. os membros da dita comissão destacaram alguns dos aspectos que mais negativamente os impressionaram: antes de mais. Calderón de la Barca y la España del Barroco..

Estudios de Edad Media de la Corona de Aragón. Fiscal Crises. 2 vols. 13. vol. «Crown and Cortes in EarlyModern Spain (Review Essay)». Madrid. Anuario de Historia del Derecho Español. Estates & Representation. pp. Cortes. Elliott. 1992.). Studia Historica. 1976. vol. 1460-1789. VV. Las Cortes de Aragón.. Liberty and Representative Government. «Parliament. Parliaments. «La Corona de Aragón: régimen político y Cortes. «Cortes y Ciudades. Estates and Representation. Parker (orgs. 8 José Manuel de Bernardo Ares. 123-137. «La investigación sobre las primeras Cortes medievales: las Cortes aragonesas anteriores a 1350. Imágenes de la Diversidad. Valhadolide. 225 Historia de un largo sueño». Estates and Representation. LVI (1986) pp. 3 I. Selected essays. European History Quarterly.. Parliaments. XVIXVIII). Saragoça. Actas de la Segunda Etapa del Congreso Científico sobre la Historia de las Cortes de Castilla y León. 4 José Manuel Carretero Zamora. Athlone Press. Anuario de Historia del Derecho Español.A. T. 1978. Madrid. Tipologia de los procuradores: extraccion social y representatividad» in AA. A ASSEMBLEIA DE CORTES.). 63-98. Las Cortes de Castilla y su Diputación (1621-1789). Santander. 6 Juan Luis Castellano. Norberg (orgs. «La respuesta castellana ante la política internacional de Felipe II» in AA. VV. Siglo Veintiuno. 307-326. n. 10 (1975). Thompson. 2000. 121-134. 1994. Siglo XXI. 1995. Fiscality and Fiscal crises» in P. Spain. Las Cortes de Castilla a comienzos de la época moderna (1476-1515). 7 Charles Jago.. (2003) pp. I. 523-682. pp. 475-496. 125-159. SECCFC. 1590-1665». War and Society in Habsburg Spain. Actas de las Juntas del Reino de Galicia. 16 (1996) pp.A. XII: 1701-1704. Essays in honour of John H.. 1989. 2 (Dez. Universidad de Cantabria. 1988. Parliaments. Las Cortes de Castilla y León en la Edad Moderna. The American Historical Review. Madrid. Stanford. «Habsburg Absolutism and the Cortes of Castile». Aproximación metodológica.). 633-676.. Historia Moderna.14 (1984) pp. Parliaments. 1601-1621».. 1990. Monarquía. 1975. 21 (2001) pp. Estates and Representation. Las Cortes de Castilla y León. El mundo urbano en la Corona de Castilla (s. 17 (1997) pp. pp. War and Government in Habsburg Spain. «Castile. Ciudades. vol. . Cambridge University Press. «Patronato real e Integración Política en las ciudades Castellanas bajo los Austrias» in J. «Crisis sociales y oposición política: Cortes y Monarquía durante el reinado de Felipe II» in AA. Actas de la Segunda Etapa del Congreso Científico sobre la Historia de las Cortes de Castilla y León. Fortea Pérez (org. pp. 1993) pp. CSIC. Las Uniones Aragonesas y las Cortes del Reino. Madrid. Cortes de Castilla y León. Londres. 37-62. 5 Luis González Antón. XLVII (1977) pp. Entre el mito y la revisión historiográfica». Valhadolide.. La monarquía de Felipe II a debate. Saragoça. 29-45. 59-73. 1989. Entre Pactismo y Absolutismo. «The rule of the law in Early Modern Castile». problemas y posibilidades». Londres. 191-248. subsidies and constitutional change in Castile. Las Cortes de España en el Antiguo Régimen. «Crown and Cortes in Castile. 221-234. 1990. Cortes de Castilla y Léon. Variorum. Estates and Representation. Kagan & G. «Castile: Polity. «Sources of the history of municipal assemblies under the Crown of Castile (XVI-XVIII Centuries)». Centro de Estudios Constitucionales. 2 (1982) pp. 1188-1988. Librería General. «Oposición política y juicio del gobierno en las Cortes de 1592-98». Las Cortes de Castilla y León en la Edad Moderna. 1989. Europe and the Atlantic world. Parliaments. Junta de Castilla y León. VV. Valhadolide. Spain and the monarchy: the political community from ‘patria natural’ to ‘patria nacional’» in R. 1017-1041. pp. «Cortes de Aragón y Cortes de Castilla en el Antiguo Régimen» in AA. 177–192.. 12 (1992) pp. «Las Cortes aragonesas en el reinado de Jaime II». Stanford University Press. 125-143. Hoffman & K. 1997. «The aristocratic assemblies under the Spanish monarchy (1680-1700)».VV. LXXVI (1980) pp. vol. Cambridge.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS.

23-37. Cambridge University Press. 1991. 13 (1993) pp. Actes del Congrés d’Història Institucional. 1991. 9 (1990) pp.. consulte-se.). 139-151.VV. «Parliamentary Life in the Crown of Aragon: Cortes. Real Sociedad Económica de Amigos del País. 2000. Jon Arrieta Alberdi. historia y presente.VV. Barcelona. 10 Xavier 11 Ernest Belenguer Cebrià.. Jornadas sobre Cortes. «Las Cortes de Navarra en la Edad Moderna (aspectos políticos y legislativos)» in AA. Parliaments. «Las Cortes de Aragón en la edad moderna: comparación y reevaluacion». Giménez Chornet. 6 (1989) pp. Idea de España en la Edad Moderna. 2002. Gil Pujol. Idea de España en la Edad Moderna. Cambridge. 11-35. Estates and Representation. and other Corporate Bodies». Afers. Estudis. 19 (2001) pp. VV. 6 (1984) pp. Les Corts a Catalunya.VV. «La representación política en la Valencia foral». Granollers. Cuadernos de la Sección de Derecho. em especial pp. «Las Cortes de Navarra en la Edad Moderna (Estudio desde la perspectiva de la Corona)» in AA. Les Corts a Catalunya. 13 (1993) pp. I – Republicanism and Constitutionalism in Early Modern Europe. VV. 1998. Joan Lluis Palos Peñarroya. Real Sociedad Económica de Amigos del País. de Jose María Portillo. Acerca das Cortes da Catalunha cumpre consultar AA. 39-61. Junta de Castilla y León. «Republican Politics in Early Modern Spain: the Castilian and Catalano-Aragonese Traditions» in Martin Van Gelderen & Quentin Skinner (orgs. VV. vol. Actes del Congrés d’Historia Institucional. 1991. Valência. Madrid. Cuadernos de Sección: Derecho. Juntas de Brazos. veja-se. «El Consejo de Aragón y las Cortes catalanas» in AA. 245-255. «La Ideia de España entre los Vascos de la Edad Moderna» in AA. Acerca das Cortes de Navarra. 7-28. «Ciudadanía.226 9 Juan OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS E. patria y humanismo cívico en el Aragón foral: Juan Costa». Madrid. 1991. Estates and Representation. El Consejo Supremo de la Corona de Aragón (1494-1707). Juntas y Parlamentos del pueblo vasco. e Catalunya a l’imperi dels Austria: la práctica de govern (segles XVI i XVII). «Organització i atribucions de la cort general» in Les Corts de Catalunya. Pagés. Catalunya a l’imperi de Carles V (1516-1543). Revista de Historia Moderna. 13 14 15 16 .. pp. L’Emperador i els catalans. 22 (1991) pp. «The Habsburg Monarchy and the Catalan Corts: The Failure of a Relationship». Departament de Cultura de la Generalitat Catalana. 29-54. 67 segs. Valhadolide. 6 (2002) pp. cfr. Barcelona. também.. 1998. «Les Corts Catalanes de 1510-1520: una etapa d’irregularitats». Actas de la Segunda Etapa del Congreso Científico sobre las Cortes de la historia de las Cortes de Castilla y León. Poder y constitucion en las provincias vascas (1760-1808). «La Monarquía Hispánica desde la perspectiva de Cataluña» in AA. 12 Angel Casals i Martinez. pp. «Crown and Cortes in Early Modern Aragon: Reassessing Revisionisms». Republicanism. 29-53. Marcial Pons. Barcelona. 263-384. V. CEC. 18 (1992) pp. 1994. 1989. A Shared European Heritage. 2001. «Las Cortes de Navarra en la Edad Moderna (aspectos políticos y legislativos)». Eusko Ikaskuntza-Sociedad de Estudios Vascos. Revista de las Cortes Generales.. Institución “Fernando el Católico”. Congrés d’Historia Institucional. pp. Castilla convulsa (1631-1652). pp. Journal of Early Modern History. Parliaments. 593-632. Para as Cortes de Valência. Gelabert. Departament de Cultura de la Generalitat Catalana. 1988. 363-395.. de Fernando de Arvizu y Galarraga. Oriol Oleart i Piquet. 81-101. 79-119. Las Cortes de Castilla y León en la Edad Moderna. 1994. Monarquia y gobierno provincial. 109–122. Lérida. pp. Valência. Saragoça. Manuscrits.

IV: 1640-1641 (1994) pp. pp. Bicameralisme. Corunha. Udine. Bisson.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. Santiago de Compostela. Xunta de Galicia. Estates and Representation. I. Madrid. 1973-2001. vol.. Estates and Representation. «Las Juntas del Reino en la época de Olivares (1621-1643). 1986. Forum. Actas de las Juntas del Reino de Galicia. II. 19 Tenha-se em conta a intensa actividade desenvolvida pela International Commission for the History of Representative and Parliamentary Institutions. Blockmans. «Alle origini del dibattito metodológico sulla storia delle istituzioni parlamentari: il contributo della International Commission for the history of Representative and Parliamentary Institutions (ICHRPI)» in Laura Casella org. 1640». 63-83. desde os finais da década de 1980. 22 Mark Kishlansky. a qual. ca. 1974. La presión sobre el reino». em Pauline Croft & I. II. 125-143. 445-495. Parlamento Friuliano e Istituzioni Rappresentative Territoriali nell’Europa Moderna. Los problemas interiores (1621-1643)». 21 (2001) pp. e Maria Sofia Corciulo. «Las Juntas del Reino en la época de Olivares (1621-1643). 23 Conrad Russell. 1529-1664» in W. Parliaments. De Maria del Cármen Saavedra Vaázquez & Maria López Díaz cumpre consultar o recente «Historia política y de las instituciones del Antíguo Régimen en Galicia» in Roberto J. Tweekamerstelsel vroeger en nu.A. Parliamentary selection. Thompson.). tomo LXVI (1996) pp. «Representación Política y Guerra Naval en la Galicia de los Austrias». Cambridge. A ASSEMBLEIA DE CORTES. A Xunta do Reino de Galicia no final do Antigo Réxime (17751834). Actas de las Juntas del Reino de Galicia. reuniu alguns dos mais inovadores contributos sobre esta matéria – cfr. Real Academia Gallega. 13 (1993) pp. 18 Maria del Cármen Saavedra Vázquez. 6 (1985) pp. «Las Juntas del Reino en la época de Olivares (1621-1643). 1998. «Aristocracy and Representative Government in Unicameral and Bicameral Institutions: the Role of the Peers in the Castilian Cortes and the English Parliament. 1-14. 63-86. vol. guerras y parlamentos en Inglaterra. 21 Blair Worden. 18 (1998) pp.. Parliaments. Blom. Reino y Representación. Handelingen van de Internationale Conferentie ter gelegenheid van bet 175-jarig bestaan van de Eerste Kamer der StatenGeneraal in de Nederlanden.P. «The problem of medieval parliamentarism: a review of work published by the International Commission for the History of Representative and Parliamentary Institutions. «Review Article: English Parliaments Re-considered».A. Cambridge. Balance de la Historiografía Modernista. «Monarquias. H. 75–81. III: 1636-1639 (1997) pp. 41-55. González Lopo (orgs.). Anuario de Historia del Derecho Español. 1580-ca. La escuadra de Galicia».. 20 Uma panorâmica da bibliografia publicada até à década de 1990. Estates and Representation. Parliaments. pp. de Schepper (orgs. e Pauline Croft. bem visível na sua revista Parliaments.). 23-41. Sdu Uitgeverij Koninginnegracht. 1993. Rey. 2003. 15-26. Estates and Representation. W. 227 17 Manuel Artaza Montero. La Junta General del Reino de Galicia. pp. Haia. Rappresentanze e Territori. The Rump Parliament 1648-1653. 231-254. Francia y España. Actas del VI Coloquio de Metodología Histórica Aplicada. 37-46. López & Domingo L. Actas de las Juntas del Reino de Galicia. Cambridge University Press. Consejo Superior de Investigaciones Científicas. Cambridge University Press. 1936-2000». Social and Political Choice in Early Modern Europe. IV: 1642-1647 (1995) pp. «The Nature . «Regional political representation in the Spanish Monarchy during the Ancien Régime: the Junta General of the Kingdom of Galicia». Thomas N. vol. 2003. Revista de las Cortes Generales. 1992.

ENSJF. Journal of Modern History. II. de Peter Blickle (org. Typographia Universal. 28 29 30 31 32 33 . e. também. Bäuerliche und bürgerliche Repräsentation im Rahmen des frühen europäischen Parlamentarismus. vol. Editorial Verbo. VV. «L’histoire des assemblées d’états en france et la recherche prosopographique» in F. Jacob (eds. Henrique da Gama Barros. e Compostas no Anno de 1824. 1981. 1603-1642. que em Portugal se celebrarão pelos Tres Estados do Reino Ordenadas. Landschaften und Landstände in Oberschwaben. Autour des États Généraux de 1614. Unrevolutionary England. O Poder Real e as Cortes (Lições proferidas na Faculdade de Direito de Coimbra no ano lectivo de 1922-1923). pp. 1990. Marcelo Caetano. Visconde de Balsemão. Bracara Augusta.228 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS of a Parliament in Early Modern England» in C. 5 (1941). etc.. pp.). Coimbra Editora. Lisboa. 2003. os trabalhos de Neithard Bulst. Représentation et vouloir politiques. Memória Comemorativa do VII Centenário. Lisboa. Visconde de Santarém. Lisboa.. New Haven. Academia Real das Sciencias de Lisboa. 24 J. Nagle. Revista Portuguesa de História. 1986.Essays in Honor of H. 100 (1988) 1. oferecidas aos emigrados portuguezes pelo seu companheiro d’exilio. The Hambledon Press. 95-100. Memorias para a Historia e Theoria das Cortes Geraes. 1923. Bulst. 2000. Roger Chartier & J. Bibliotheca Academica Verlag. Lisboa. Lisboa. Paris. pp. e.). sobre a assembleia representativa francesa cumpre consultar.). t. 1953. Yale U. Imprensa Regia. Imprensa Nacional. «Subsídios para a História das Cortes Medievais Portuguesas». História do Direito Português. Lisboa. Lousse. 1792. 46-170. Eduardo Freire de Oliveira (org. 14-15 (1963) pp. etc.. Paulo Merêa. Richet. Rappresentanze e Territori. 6 (1973) pp. Russell. 1889. 1982.G. 26 E. Representative government in early modern France. 265-272. Lisboa. 27 Winfried Schulze. Paris. P. 46-63. Importante foi também a inventariação documental realizada por Joaquim Leitão. Cambridge. Tübingen. 171-184 . 1885-1934. também. Direito Público.. História da Administração Pública em Portugal nos Séculos XII a XV. Assembleia Nacional. 1140-1495. Mack & M. Cambridge University Press. «Les Députés aux États généraux de France de 1468 et 1484» in AA. 25 Cfr. «Les cahiers de Dóleances de 1614. vol. Memorias sobre algumas antigas cortes portuguesas extrahidas fielmente de manuscritos autenticos da Biblioteca Real de Paris. «Memorias sobre as Fontes do Codigo Filipino» in Memorias de Literatura Portugueza. em Côrtes do Reino de Portugal. Parlamento Friuliano e Istituzioni Rappresentative Territoriali nell’Europa Moderna. João Pedro Ribeiro. Udine. ver. Londres. também de N. 1827-28. 58 (1986) pp. Inventário da documentação existente servindo de catálogo da exposição documental e bibliográfica. 1484-1494. Politics and culture in early modern Europe . e Indice Chronologico Remissivo de Legislação Portuguesa posterior à publicação do Codigo Filipino. Autrand (org. As Cortes de Leiria de 1254. Roger Chartier & D. Prosopographie et Genése de l’État moderne. Lisboa. in gerene Laura Casella (org.). 1987. Russell Major. 1805. pp. Annales ESC. «As Cortes de 1385». «Majority Decision in the Imperial Diets of the Sixteenth and Seventeenth Centuries». Academia Portuguesa de História. 1-29. 1832. Un échantillon: châtellenies et paroisses du Baillage de Troyes». I – Fontes. «The Estates of Brabant to the end of the fifteenth century: the make-up of the assembly» in P. Mélanges de l’École Française de Rome. sobretudo.). Paris. de Vasco Pinto de Sousa Coutinho. EHESS. 139-160. 1980. Coimbra. Academia Real das Sciencias de Lisboa. Coimbra. 1940. Elementos para a História do Município de Lisboa. pp. Lisboa. Forum. Koenigsberger.

1981-82. 1990. 40 segs.une médiation interactive entre le roi et les corps sociaux du royaume de Portugal aux XIVe et XVe siècles». «O discurso político dos concelhos nas Cortes de 1385». «O Parlamento Medieval Português: perspectivas novas». Porto (1983) pp. As Vésperas do Leviathan. 235-289. II (7) (1990) pp.. «A participação do Porto nas Cortes de Lisboa de 1619». Coimbra. 139-155. A vida económica e social de Coimbra de 1537-1640. Estudos Medievais. Arquivo Histórico. em especial pp. «As Cortes de Leiria-Santarém de 1433». Imprensa da Universidade. Lisboa. 9-103. 1988.Capítulos Especiais». 21 (2001) pp.º 3/4 (1984). «État et Cortes au Portugal sous la Dynastie des Avis: le cas du Régent Don Pedro». acerca das Cortes. 8 (1986) pp. vol. 105-139. A ASSEMBLEIA DE CORTES. Instituto Nacional de Investigação Científica / Centro de História da Universidade do Porto. História das Instituições . 1987. Boletim Cultural da Câmara Municipal do Porto. Revista Portuguesa de História. Estudos Medievais. «A viagem de Filipe . Coimbra. Fazer e Desfazer a História. Parliaments. 39-52. 37-56. vol. 112 segs. Romero Magalhães. Coimbra. 1982. Universidad Complutense. 29-62. 35 Armindo de Sousa. Costa Gomes. Almedina. 1985. 38 Maria Helena da Cruz Coelho & J. Madrid. 9/10 (1993) pp.. Parliaments. Coimbra. Panorama Bibliográfico». las Cortes de Tomar y la génesis del Portugal Católico. 41 Luís Reis Torgal. «As Cortes e o reino. Penélope. «Conflitos entre o Bispo e a Câmara do Porto nos meados do século XV». em especial. Revista Portuguesa de História. «Perspectivas Económicas e Sociais das Cortes de 1385» in Estudos Medievais. Ler História. Porto. «Centro e periferia nas estruturas administrativas do Antigo Regime». Século XVII. O Porto e o seu Termo (1580—1640). Política. 1995.Épocas Medieval e Moderna. Estates and Representation. Instituições e Poder Político. Movimentos sociais e poder em Portugal no século XVII. Cultura. Lisboa. O Poder Concelhio: das origens às Cortes Constituintes. Notas da História Social. 43 Francisco Ribeiro da Silva. II (2) (1985) pp. Revista da Faculdade de Letras – História. I. Porto.. 1 (2001) pp. 40 António de Oliveira. Portugal no tempo dos Filipes.ª Série. 39 Fernando Bouza Álvarez.Capítulos Gerais. Cosmos. «As Cortes e a Guerra». Coímbra. Da União à Restauração».ENTRE 34 O CENTRO E AS PERIFERIAS. I . pp. 1972. Representações (1580-1668). n. Coimbra. ver. Portugal en la Monarquía Hispánica (1580-1640). Almedina. 229 José Mattoso. Imprensa de Coimbra. sobretudo pp. Hespanha. Cuadernos de história moderna. 61-80. 35-60. Difel. II pp. 4 (1989) pp. 9-44. 11 (1991). «As Cortes Medievais Portuguesas. Faculdade de Letras. «Les cortes en temps de guerre . 42 António M. Porto. «A “Restauração” Portuguesa nos Capítulos das Cortes de Lisboa de 1641». Centro de Estudos e Formação Autárquica. 71-224. 367 segs. Fazer e desfazer a história. Portugal. Câmara Municipal do Porto. Poder e oposição política no período filipino (1580-1640). II . Os homens as instituições e o poder. n. 37 Amélia Aguiar Andrade & R. «A Guarda em Cortes nos séculos XIV e XV». Ideologia Política e Teoria do Estado na Restauração. 1986. 35 (2001-2002) pp. Boletim Cultural da Câmara Municipal do Porto. 47-58. 47-58. 1992. «As Cortes de 1481-82: uma abordagem preliminar. Revista de História da Sociedade e da Cultura. Felipe II. Revista da Faculdade de Letras – História. 16 (1996) pp. 2 (1982). 1 (1983) pp. 36 Maria Helena da Cruz Coelho. 2. 2000.. tomo XXV (1990) pp.º 5/6 (1984/1985). Penélope. 123-142. «Relações de Domínio no Portugal Concelhio de Meados de Quatrocentos». As Cortes Medievais Portuguesas (1385-1490). 2002. Estates and Representation.

1987. «Patronato Real e Integración Política en las Ciudades Castellanas Bajo los Austrias» in J. I.). Traditio. «As Cortes de 1481-1482» in D. Difel.). «La respuesta castellana ante la política internacional de Felipe II» in AA. Santander.. 276-300. tratase de um vocábulo que não tinha uma correspondência administrativa muito clara. 50 Na linha do trabalho de edição de fontes históricas que está a ser efectuado. Novembro de 2001 (no prelo). 489-514. o foral manuelino e o devir quinhentista.” nello stato della Chiesa del seicento (secondo il pensiero di G. História dos Municípios e do Poder Local (Dos finais da Idade Média à União Europeia). 4 (1946) pp.). 48 Sobre este tema cfr. cit. 1998. veja-se. El Imperio de Carlos V. Romero Magalhães. Procesos de Agregación y Conflictos. pp. Cosmos. desde há alguns anos. 49 Cfr. 1998. 45 Pedro Cardim. I. Juan Delgado. «Patriotismo y política exterior en la España de Carlos V y Felipe II» in Felipe Ruiz Martín (org. Círculo de Leitores. Lisboa. 34 segs. Xunta de Galicia. I. Thompson. Fortea Pérez (org. «Il principio “quod omnes tangit etc. Actas del VI Coloquio de Metodología Histórica Aplicada. pp. Semantica del potere politico nella pubblicistica medievale (1100-1433). as Cortes de Évora e as reformas administrativas dos inícios do século XVI». tanto nos domínios europeus da Coroa lusitana quanto no ultramar. 46 Ângela Barreto Xavier. 223-260. 111v. Portugal en la Monarquía Hispánica. 258 segs. 55 Cfr. 56 M. O Tempo de Vasco da Gama. J. pp. cit.. . Apesar de o termo «província» surgir na documentação.). designando simplesmente o espaço dependente das principais cidades – cfr. Lisboa.A. Pietro Costa.A.A. pp. El Mundo Urbano en la Corona de Castilla (s. 475-496. «A romano-canonical maxim: “Quod omnes tangit”».). 53 No caso de Portugal. 54 Gaines Post. Balance de la Historiografía Modernista. consulte-se. Ley Regia de Portugal. Fraude y Desobediencia Fiscal en la Corona de Castilla. 1969.). pp. 49-104. 1986. Lisboa. 1998. in genere. consulte-se. XVI-XVIII).A. 1997. Maria Helena da Cruz Coelho & J. 1996. Santiago de Compostela. Lisboa.. de Rita Costa Gomes. 47 Fernando Bouza Álvarez. o magnífico trabalho realizado por J. López & Domingo L. pelo Centro de Estudos Históricos da Universidade Nova de Lisboa. G. Fortea Pérez. em especial «Os Poderes Locais no Antigo Regime» in César Oliveira (org. 2000. de Beatriz Cárceles de Gea. 51 Consulte-se. 49 (1970) pp. La proyección europea de la Monarquía hispánica. Rodríguez-Salgado. 1996. Bernardo García (dir. Imágenes de la Diversidad. Junta de Castilla y León. 17-175. Editorial Complutense. 2000.. actas do Colóquio: Évora. 44 Fernanda Olival. 2003. Fundación Carlos de Amberes. Madrid. 2 (1987) pp. Revista de Ciências Históricas. Razões da política no Portugal seiscentista. I. «Doctrinas y prácticas fiscales» in Roberto J. Madrid. Itinerários e Problemáticas». pp. Rivista Storica della Accademia. O Poder Concelhio…. 1621-1700. também. «As Cortes de Torres Novas. Para o contexto português. El rei aonde póde. Valhadolide. Ermini. Universidad. Cortes e Cultura Política no Portugal do século XVII. 1627) f. também. Giuffrè. Iurisdictio. 1973-2001. & não aonde quer. Thompson. Milão.230 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS III a Portugal.. Primera Parte… (Madrid. González Lopo (orgs. 52 João Salgado de Araújo. Colibri. Ramada Curto (org. 196-251. Acerca deste tema cumpre consultar. Battista de Luca)». os estudos de Nuno Gonçalo Monteiro. também. um dos principais elementos a destacar é a inexistência de corpos intermédios entre as cidades e o reino.

«Republican Politics in Early Modern Spain…. 464-465. estudo que contém muitos dados sobre a percepção da política internacional nutrida pelos procuradores às Cortes de Castela.A. Legislative Studies Quarterly. 69 Tal não significa. cit. «Roman Law and early representation». 61 Fred Bronner. 231 VV. . «De un fin de siglo a otro. Tweekamerstelsel vroeger en nu. 64 Armindo de Sousa. Udine. as quais se realizaram com uma notável frequência. Unión de Coronas Ibéricas entre Don Manuel y Felipe II» in AA. porém. Thompson & Pauline Croft.. Carlos José Hernando Sanchez. onde deparamos com vice-reis a convocar e a presidir a assembleias. pp. pp. também. p. quer através dos canais cortesãos de influência política.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS.. 181-204. 63 I. «Aristocracy and Representative Government in Unicameral and Bicameral Institutions: the Role of the Peers in the Castilian Cortes and the English Parliament. SECCFC. 543-609. Ciaurro.A. Handelingen van de Internationale Conferentie ter gelegenheid van bet 175-jarig bestaan van de Eerste Kamer der Staten-Generaal in de Nederlanden. pp. 1990. cit. «Rappresentanza politica» in AA. vol. Madrid. mas de uma forma indirecta.. Ministério das Finanças.El Tratado de Tordesillas y su Época. Armindo de Sousa. 75. 1988. La monarquía de Felipe II a debate. porquanto o costume e a lei estabeleciam que só o monarca em pessoa podia chamar e presidir às Cortes. pp. As Cortes Medievais Portuguesas. Bisson. Blockmans. H. Giuffré Editore. Milão. 279 segs.. 58 Rita Costa Gomes. «Rappresentanza (Diritto intermedio)» in AA. 67 Armindo de Sousa. Sdu Uitgeverij Koninginnegracht. «Aristocracy and Representative Government….A.. quer por meio do seu ascendente sobre o governo de algumas cidades – I. VII. Rappresentanze e Territori.. pp.. As Cortes Medievais Portuguesas. 24 (1967) pp.). que os nobres tenham deixado de interferir nos trabalhos da assembleia. 113. Valhadolide... 1995..A... pp.. p. Forum. 142 segs. cit. pp. Xavier Gil Pujol. cit.. 70 Gaines Post. 2003. ou na sua menoridade. 62 Thomas N. Parlamento Friuliano e Istituzioni Rappresentative Territoriali nell’Europa Moderna.A. cit. Speculum.. 1992. Enciclopedia del Diritto... 68 I. 18 (1943). Blom. «Aristocracy and Representative Government…. 2 (1982) pp.A. de Schepper (orgs. 111 segs.P. 75. 1529-1664» in W. pp. 59 Em Portugal. XXXVIII. «El parlamento del reino de Nápoles bajo Carlos V: formas de representación. Congreso Internacional de Historia . 1453-1463.. 121-134. 60 A ausência do rei levantava problemas tanto para as Cortes de Aragão quanto para as da Catalunha. 1990... cit. A Corte dos Reis Portugueses no final da Idade Média. facciones y poder virreinal» in Laura Casella org. e também D. A ASSEMBLEIA DE CORTES. o regente podia convocar as Cortes – cfr. Thompson & Pauline Croft.. Sicília e Sardenha). 1995. 1992. pp.. 1988.). Tal princípio foi respeitado excepto em Navarra e na Península Itálica (Nápoles. 2000. Nocilla & L.VV. 65 Armindo de Sousa. Difel. VV. «Celebration and Persuasion: reflections on the cultural evolution of medieval consultation». 1964. Aspectos político-legales». 1990. 1133-1176. Giuffrè Editore. Pedidos e empréstimos em Portugal durante a idade Média.. Paolo Cappellini. 75 segs. As Cortes Medievais Portuguesas. 1992. Cfr. vol. Lisboa. W. 66 Vide Iria Gonçalves. Enciclopedia del Diritto. Journal of maedieval studies. vide. 2002. 57 Fernando Bouza Álvarez. «La Unión de las Armas en el Perú.VV. Thompson & Pauline Croft. p. Anuario de Estudios Americanos. continuaram a fazê-lo. XXXVIII. 329-387. Milão. 1990. As Cortes Medievais Portuguesas.. Lisboa. cit. pp. 435-463. Haia.... na falta do rei. Bicameralisme.

781 segs. 1992. Furor et rabies. 82 Tamar Herzog. Thompson & Pauline Croft. cit. 424.mas nenhuma alcançou os seus objectivos. a oferta voltou a ser feita em 1650.. Pedro Cardim.artigo disponível na Internet no seguinte sítio: http://www. 3722 f. p. J. Jerez de la Frontera ou Oviedo . 1997. cit. Porque nenhuma urbe se mostrou interessada. cit. pp. cit.A. Rappresentanze e Territori. Fortea Pérez.edu/Departments/Portuguese_Brazilian_Studies/ejph/html/issue2 /pdf/duarte. Udine. na sua versão final as Cortes de Castela contavam com 21 cidades com direito de voto – J. Volume 1. 1998. p. Juan Gelabert & T. Universidad de Cantabria. «Las Ciudades. p. em especial porque em Castela a Coroa usou a venda de lugares nas Cortes como fonte de rendimento. 75 Rita Costa Gomes. 1990. Fortea Pérez. 76 I. a troco de 80 mil ducados. Parlamento Friuliano e Istituzioni Rappresentative Territoriali nell’Europa Moderna. 74. cit. patria y humanismo cívico en el Aragón foral: Juan Costa». «Aristocracy and Representative Government…. 77 Biblioteca Nacional. «Los abusos del poder: el común y el gobierno de las ciudades de Castilla trás la rebelión de las Comunidades» in J. Málaga. 780 segs. 74 António M. n.A. 74. I. Fortea.A. «Orto y ocaso de las Cortes de Castilla»…. em 1625 a Galiza conseguiu um voto em Cortes a troco de um serviço de 100 mil ducados. 781 segs. 81 Armindo de Sousa. Fortea Pérez. 79 J. 81-101. 72 José Ignacio Fortea Pérez.. 215-236. cit. «The Portuguese Mediaeval Parliament: Are We Asking the Right Questions?»..232 71 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS I.. As Cortes Medievais Portuguesas. 75. Este dispositivo conheceu algumas modificações. Assim. 52 segs. Lisboa. cit. pp. 2002. . I. Fortea Pérez. Em 1639 a Coroa decidiu vender outros dois votos às cidades que quisessem comprá-los. Thompson & Pauline Croft. Assim. Hespanha. pp. 1992. Fortea Pérez. 80 Cfr. «Aristocracy and Representative Government…. 83 Xavier Gil Pujol. Fazer e desfazer a história. p.).pdf (Março de 2003). as Cortes de Castela deixaram de ser convocadas antes que Palência pudesse exercer o seu direito de voto. cit.º 2 (Fevereiro de 1989) pp. «Ciudadanía. Violencia. 78 I. «Orto y ocaso de las Cortes de Castilla»…. 2 (Winter 2003) p. p..). 183-218. Santander.A. «O Governo dos Áustria e a “Modernização” da constituição política portuguesa». I.. I. Forum. 73 Cfr. E-Journal of Portuguese History. Thompson & Pauline Croft. outras cidades negociaram o seu direito de voto . «Aristocracy and Representative Government….brown..A. «As Cortes de 1481-1482…. cit. um dos votos foi adquirido colectivamente pelas cidades da Extremadura. Mantecón (orgs. Palência conseguiu realizar uma antiga pretensão: separar-se da cidade de Toro.caso de Écija. Dessa forma. No século XVIII. 251 segs. las Cortes…. New Haven y Londres. enquanto que o outro foi comprado por Palência. I. I. segundo J. Manuscrits. 2003. Immigrants and Citizens in Early Modern Spain and Spanish America.. Yale University Press. pp. 199. pp. «Le forme di rappresentanza nel sistema politico del Portogallo dell’Antico Regime» in Laura Casella org.. 134v.. Nessa ocasião. Luís Miguel Duarte. pp.. 2003. Seja como for. Penélope. 84 J. 19 (2001) pp. 7 . Defining Nations.. «Orto y ocaso de las Cortes de Castilla»….A. 1992. conflicto y marginalización en la Edad Moderna. n. cód.

227 segs. 92 O que não significa que o assunto não tenha vindo a lume. Homenaje al Profesor Jesús Lalinde Abadía. 87 Na Catalunha estas alusões tinham uma especial ressonância política. cit. de J. Bethencourt Massieu. 1999. 2002. Cfr.. n. e. «La interferencia del Rey en la designación y poderes de los procuradores en las Cortes castellano-leonesas (siglos XVI-XVII)» in A. Iglesia Ferreirós (dir. n. «Formas de elección de los procuradores de Cortes en Murcia (1444-1450).VV. eleição original. É esse o caso de episódios em que certas comunidades fizeram demonstrações de voluntarismo. Estudios en Homenaje a Don Claudio Sánchez Albornoz en sus 90 años. «Republican Politics in Early Modern Spain…. cit. Sarrión Gualda.º 8 (199) pp. 1997. 93 Marcello Caetano. M. n.. s. A crise sucessória de Portugal também suscitou o mesmo tipo de reflexões.. 88 J. As . 279 segs. Universidad de Barcelona. 86 Xavier Gil Pujol. «Las Ciudades. e escolheram colocar-se sob a soberania e protecção de Filipe II. Alguns . a fidelidade de um outro monarca. alguns acontecimentos concorreram para perturbar a situação.. e como recorda Armindo de Sousa. 782 segs. I. cit. 2002.º 4 (1989) pp.d. 89 J. I. 63-71. o exemplo de Cambrai. Centralismo y Autonomismo en los siglos XVI-XVII. 233 par destas reflexões de carácter “abstracto”. pp. «Organización e Integración Política de la Ciudades Gallegas en Tiempos de Felipe II». SECCFC. cit. de J. 784 segs.ENTRE 85 A O CENTRO E AS PERIFERIAS. pp... acerca deste tema consulte-se.. Fortea Pérez. «Orto y ocaso de las Cortes de Castilla»…. Obradoiro de Historia Moderna.. pp.tinham uma leitura eminentemente popular. 90 J.T. Desde há muito que o principado se auto-representava como uma comunidade política de base contratual (origens carolíngias. A ASSEMBLEIA DE CORTES. a este respeito. pp.. Gil Pujol cita. também. pp.. «Cortes e Procuradores do reinado de D. Buenos Aires. 1990. Fazer e desfazer a história. Homenaje al Prof.. «Da Antiga Organização dos Mesteres» in Franz-Paul Langhans. mas sim várias leituras do tema. Instituto de Historia de España. por sua livre vontade. 267 segs. Todavia.. las Cortes y el problema de la representación política…. La soberanía entre la práctica y la teoría política (1595-1677). Facultad de Filosofia y Letras. «Régimen electoral de Madrid a las procuraciones en Cortes: Las ordenanzas electorales de los siglos XVI y XVII». consulte-se P. Fortea Pérez. I. cumpre notar que não existia apenas uma visão do “constitucionalismo catalão”.. desde o período tardo-medieval debateu-se a questão do voto imperativo dos procuradores – As Cortes Medievais Portuguesas.. Cerdá y Ruiz-Funes. de J. Carretero Zamora. aceitava.F. 1989. 782 segs. o arcebispo local. Penélope. Xavier Gil Pujol. Cardim. etc.). Este interessantíssimo episódio foi estudado por José Javier Ruiz Ibáñez em Felipe II y Cambrai: el consenso del pueblo. 173-194. no caso de Cambrai. De facto. cit. também. As autoridades urbanas de Cambrai rejeitaram o seu anterior soberano. consulte-se. coexistentes umas com as outras.). pp. cit.. Fortea Pérez.. de María López Díaz. E. O mesmo Filipe II que negava às cidades ibéricas estas formas de voluntarismo.como Andreu Bosch . abdicando de um rei e escolhendo abraçar. na condição de que os seus privilégios fossem respeitados. «Orto y ocaso de las Cortes de Castilla»…. Barcelona. encarando as Cortes catalãs e a Generalitat como as instâncias representativas por excelência.º 9/10 (1993) pp. I. 99-120. João IV». pp. «Republican Politics in Early Modern Spain…. «Orto y ocaso de las Cortes de Castilla»…. En torno a unos documentos de la ciudad y el Rey» in AA. cidade localizada entre os Países Baixos espanhóis e a França. 439 segs. Madrid. a manifestação da sua vontade política. para o espaço galego vide. Fortea Pérez. cit. 91 J. para o contexto portugués.

. f. Mss. 1986. 107 Fernando Bouza Álvarez. que comprehendem o Governo del rey D.. pp.. filho de D. de D... 108 Fernando Bouza Álvarez. p. Nalguns casos os três estados foram chamados para decidir ou sancionar a mudança de reinado. Manuel de Menezes. as Cortes foram chamadas para exercer uma função até aí pouco frequente: o juramento do herdeiro ao trono. pp. 162 segs. 1454. 54-57v. de Joaquim Romero Magalhães. cit. «As Cortes» in J. 1998. 1736-). pp. 95 Cfr. P. consulte-se.N. pp. Vila Viçosa. 104 Acerca das Cortes de 1562 consulte-se. 99 Saúl António Gomes. 1.. pp. Elementos para uma história estrutural. João III” de António de Castilho». 101 Frei Luís de Sousa. «A “Crónica de D. 317-347. Sebastião. 245-264. Lisboa. 1995. vol. 1453-1463. «As Cortes de 1481-1482…. composta por D. Fundação da Casa de Bragança. 1943. A única excepção foi a reunião de 1390-91. 18 segs. 105 Maria do Rosário Themudo Barata Azevedo Cruz. I-LXXXIII. Manuel de Menezes. nesta ocasião. 1730. pp. E Muito Esclarecido principe D. Lisboa.).. cit. com prefácio e notas do prof. Ramada Curto.. pp. pp.. E Muito Esclarecido principe D. Chronista mòr deste Reyno. II. 94 Xavier Gil Pujol. 1995. cit. História de Portugal. Centro de História da Universidade de Lisboa. e levantamento do principe D. «Lembrança do que sucedeu na morte de D. Anais de D. M. vol. 96 Fernando Bouza Álvarez. (Lisboa. Círculo de Leitores. 377. «As Cortes de Lisboa de 1502» in AA. e Diogo Barbosa Machado. «De un fin de siglo a otro….. 1998. cit. 1995. Joseph Antonio da Sylva.. Romero Magalhães (coord.) No Alvorocer da Modernidade 1480-1620).. 1992.... 256 segs. Rodrigues Lapa. 50 segs. Imprensa Nacional... 289 segs. 1998. Germão Galharde. 97 Como notou Armindo de Sousa.. Difel. Sebastião. noutras conjunturas. 1938. «De un fin de siglo a otro…. III de José Mattoso (dir. 1992.-C. 2002. 102 Capitolos de Cortes E Leys que sobre alguuns delles fezeram… (Lisboa.. p. Lisboa. dir. I. 100 Joaquim Veríssimo Serrão. e Conquistas em sua menoridade. «De un fin de siglo a otro…. Sebastião Decimosexto Rey de Portugal. vol. L. João III. Rita Costa Gomes. 106 Maria do Rosário Themudo Barata Azevedo Cruz. pp. 190-191. Lisboa. As Regências na Menoridade de D. cit. Cortes e Cultura Política. pp. pp. 199 segs. seu neto…». 103 Cfr. 340 segs. 1993. Acerca das Cortes do tempo de D. Subsídios para a sua História. Sebastião.M. «Parliamentary Life in the Crown of Aragon…. II (1970) pp. Sebastião por Rei de Portugal.. João 3.. todo o processo decorreu sem que as Cortes fossem consultadas – As Cortes Medievais Portuguesas. As Regências na Menoridade de D. Chronica do Muito Alto. durante a Idade Média a intervenção das Cortes em matérias sucessórias não era vinculativa. Chronica do Muito Alto. cit. porém. Manoel de Menezes. 1992. Officina Ferreyriana. e da rainha D. cit.. Duarte lembra que.. 271 segs. Luís Miguel Duarte. Sebastião. pp. cit.VV. D. 355 segs. e pp. 98 Cfr. (Lisboa... capítulo 2.. Lisboa. I.. Vol. As Regências na Menoridade de D. «O Estado Manuelino: a onça e o elefante» in O tempo de Vasco da Gama. cit. 1730). Primeiras Jornadas de História Moderna. Cardim.. 1539). pp.. Livraria Sá da Costa. 1990. Arquivos do Centro Cultural Português. 340 segs. de D. . 73-78. M. Lisboa.234 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Corporações dos Ofícios Mecânicos.. Sebastião. pp.. e Maria do Rosário Themudo Barata Azevedo Cruz. Memorias para a Historia de Portugal.. João III. cit.. Manuel. Maria..

nem he couza para se duvidar» (sem data. ca. 1993. cit.. p.. 4 de Janeiro de 1581. Universidade de Lisboa.). Eduardo Freire de Oliveira (org. 8. 557 segs. XII. 1992. cit. 1999 (2 vols. Lisboa. idem. p. 14. Lisboa. No Alvorocer da Modernidade…. «A questão jurídica na crise dinástica» in J. Fortea Pérez. cit. «De un fin de siglo a otro…. Thompson & Pauline Croft. 1995. pp.. 427-428.. Felipe II. 1999. Romero Magalhães (coord. Filipe foi jurado a 30 de Janeiro de 1583. 1933. Lisboa. Dom Quixote. tese de dout. Fernando Bouza Álvarez. 121 O príncipe D. 124 J.. 235 Edward Peters. 120 Erasmo Buceta. Faculdade de Letras. No Alvorocer da Modernidade…. e se resolue que sim podia. Portugal nas cartas de D.Cartas a duas infantas meninas. 1953. Universidade de Lisboa. 1953. 117 Archivo General de Simancas.. 123 I.A. 110 Mafalda Soares da Cunha. Henrique. 1997. o monarca hispânico partia para Castela . 1987. no Paço da Ribeira. 56 segs. Ver também. p.). em Lisboa. Biblioteca da Ajuda.. I.. 1956. como fez nas Cortes de Thomar de os desobrigar dos direitos dos Portos Secos. 22 segs. No Alvorocer da Modernidade….. Lisboa.. 1999. Legajo 415. 118 Fernando Bouza Álvarez. New Haven. de Letras. de Carlos Margaça Veiga. Anuario de Historia del Derecho Español. IAC. 61 segs. José Maria de Queirós Velozo. 1946. Poder e Poderes na crise sucessória portuguesa (1578-1581). o «Parecer sobre se podia El rey fazer mercê aos Povos.. O reinado de D. Lisboa. Poder e poderes na crise sucessória portuguesa (1578-1581). 76. 1970. «Dictamen del Conde de Salinas en que se examinan las prerrogativas de la Corona y de las Cortes de Portugal». pp. «Aristocracy and Representative Government….). Fernando Bouza Álvarez. Lisboa. 1993. «A questão jurídica na crise dinástica» in J. pp. cit. Fac.. policopiados). 51-VI-46 f. Madrid. 1903. cit. Lisboa.. 1993. 1595). Portugal en la Monarquía Hispánica (1580-1640).. Dom Quixote. Lisboa. 236 segs. 1999. Rex Inutilis in Medieval Law and Literature. O Interregno dos Governadores. cit. ..). pp. 113 José Maria de Queirós Velozo. duas semanas mais tarde. 552-559. las Cortes y el problema de la representación política…. 1999.. Universidad Complutense. 1987. Mafalda Soares da Cunha. 213 segs. las Cortes de Tomar y la génesis del Portugal Católico. D. António Prior do Crato. Portugal en la Monarquía Hispánica. António.. pp. 112 Cfr.. p. 183. cit. pp. A ASSEMBLEIA DE CORTES. 119 O juramento teve lugar a 16 de Abril. The Shadow King. Romero Magalhães (coord. «Las Ciudades. Carlos Margaça Veiga.Cartas a duas infantas meninas..ENTRE 109 O CENTRO E AS PERIFERIAS. Coimbra. Empresa Nacional de Publicidade. cód. 111 Mafalda Soares da Cunha. cit. 174v. «Introdução. Elementos para a História do Município de Lisboa. Filipe I às suas filhas e os tempos de um Príncipe Moderno» in Cartas a duas infantas meninas. «A questão jurídica na crise dinástica» in J. CML. Joaquim Veríssimo Serrão. Academia Portuguesa da História. 558 segs. 114 «Carta régia à cidade de Lisboa». Yale. Lisboa.A. Romero Magalhães (coord. 1458 segs. Em carta de 1 de Maio. 116 O melhor estudo sobre esta temática é o de Fernando Bouza Álvarez. pp. Dom Quixote. pp. p. por exemplo. 115 Cfr. O Interregno dos Governadores e o Breve Reinado de D. Estado. Elvas. O reinado do Cardeal D. Filipe manifestava já a intenção de viajar para Lisboa . pp. 122 Consulte-se. dirigida às suas filhas.

136 Cfr. 826 segs.. 1933.. Spain.. Filipe II. «La jornada de Felipe III a Portugal (1619)» Chronica Nova. Parker (orgs. D. «La Jornada de Felipe III a Portugal en 1619 y la arquitectura efémera» in Pedro Dias (coord. pp. 135 Erasmo Buceta.Thompson. 19 (1991) pp..A. 6. El Consejo de Portugal.. «Castile. n. 55 segs. 140 segs. 223-260. cit... 1988. cit. 126 António Manuel Hespanha. pp. 138 Fernando Bouza Álvarez. N. Fortea Pérez. p. pp. 1987. 128 I. pp. 289-320. «Ritos e cerimónias da monarquia em Portugal (séculos XVI a XVIII)» in AA. 78. La Revolución de 1640 en Portugal. «Un viaje conflictivo: relaciones de sucesos para la Jornada del Rey N.. Madrid. Comportamentos.. «Entre dos servicios. Coimbra. António Manuel Hespanha. Ramada Curto. pp. Editorial de la Universidad Complutense. «La Monarquía Hispánica desde la perspectiva de Cataluña…. «Dictamen del Conde de Salinas…. Filipe II e os seus vassalos de Portugal – cfr. 123-146. «O Governo dos Áustria….. Kagan & G. cit. «Orto y ocaso de las Cortes de Castilla»…. cit. pp. Livraria Minerva. 1982.. 1987. 407-431. Apesar de as Cortes de 1619 terem ficado aquém do que os portugueses esperavam.º 0 (2003) pp. Europe and the Atlantic world. F. I. S.A.. Portugal en la Monarquía Hispánica (1580-1640). ao reyno de Portugal e rellação do solene recebimento que nelle se lhe fez… (Madrid. Fortea Pérez. Península. Universidade Nova de Lisboa. Acerca desta reunião de Cortes consulte-se F.A. Revista de Estudos Ibéricos. 321 segs.. Lisboa. Thomas Iunti. A Cultura Política em Portugal (1578-1642). Lisboa. 2 (1987) pp.. cit.. 201-265. 1933.. 792-795. cit. Université des Langues et Lettres de Grenoble. Francisco Ribeiro da Silva. Viagem da Catholica Real Magestade del Rey D. 107 segs. ritos e negócios. Jacobo Sanz Hermida. pp. 1989. Elliott.). 132 Acerca do Conselho de Portugal consulte-se. p. a gravura da sala de Cortes inserida na famosa obra de João Baptista Lavanha. 139 Claude Gaillard. . Grenoble. Pizarro Gómez. 53 segs. 63-90.VV. Itinerários e Problemáticas». Sá da Costa. 1622).A. pp. cfr. pp. cit. Thompson & Pauline Croft. 130 Ernest Belenguer Cebrià. Cambridge. Le Portugal sous Philippe III d’Espagne…. Ramada Curto. 133 Erasmo Buceta..236 125 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS J.. Revista de Ciências Históricas... Essays in honour of John H. Cambridge University Press. «Dictamen del Conde de Salinas…. al Reyno de Portugal (1619)». 1994. a propaganda régia encarregou-se de apresentar o evento como um momento de intensa comunhão entre D. L’action de Diego de Silva y Mendoza. dissertação de doutoramento. Pedro Gan Giménez. cit. 1933. 1580-1640. cit. «O Governo dos Áustria…. «A viagem de Filipe III. cit. 137 Erasmo Buceta. S. 127 J. I. pp. cit. Santiago de Luxán Meléndez. pp. Spain and the monarchy: the political community from ‘patria natural’ to ‘patria nacional’» in R. 1991. 131 Claude Gaillard. 4. 129 I.. 1998. 1989. pp.. «A viagem de Filipe III a Portugal. maxime. 35. 134 Acerca do protagonismo da Câmara de Lisboa no período filipino. Don Felipe III deste nombre. pp. p. sus fundamentos sociales y sus caracteres nacionales.). cit.. 1987. 223-260. 1982. 1995. 1992. As relações artísticas entre Portugal e Espanha na época das Descobertas. A Memória da Nação. «Dictamen del Conde de Salinas…. pp. cit. D.J. 1987. 346 segs. Fernando Bouza Álvarez. 1997. 311 segs. p. Le Portugal sous Philippe III d’Espagne. La crisis de la hacienda real….. Portugal en la Monarquía Hispánica. 5-6. Ribeiro da Silva. «Aristocracy and Representative Government….

Elliott. 9-10 (1993) pp. 154 Algo de semelhante ter-se-á passado em Cambrai. 61 segs.. Valência. 953. cit.. Cosmos. 152 Luca Mannori y Bernardo Sordi. Fernando Bouza Álvarez. Biblos. Madrid. Movimentos Sociais. «El conde-duque de Olivares y los tribunales de la Corte: oposición política y conflicto constitucional».73 (1998) pp. Consejos. de Jesús Morales Arrizabalaga. Journal of European Economic History. México. 2002. 23 83) (1994) pp. Juan José de Áustria y el reino paccionado de Aragón (1669-1678)». 135 segs. 1987.. 2000. revista do Colegio de Michoacan.. Nobres e luta política no Portugal de Olivares» in Portugal no Tempo dos Filipes. cit.. 239-291. 144 Jean-Frédéric Schaub.º 12 (1992) pp. pp.-F. 207 segs. Le Portugal au temps du comte-duc d’Olivares….. Madrid.... 231-233. idem. 868 segs.«Parliamentary Life in the Crown of Aragon…. «Giustizia e amministrazione». pp. cit. 865 segs. 237 140 António Manuel Hespanha.. Cortes y clientelas: el mito de Sobrarbe. 1580-1640». Relaciones. de Antonio Álvarez-Ossorio.. Revista de la Facultad de Ciencias Humanas y Sociales de la Universidad Pública de Navarra. também. cit.. pp.. I. 2001. Poder e Oposição Política. Cultura. A ASSEMBLEIA DE CORTES. Istituzioni e diritto. 236 segs. Bari. Beatriz Cárceles de Gea. . António de Oliveira. 146 Fernando Bouza Álvarez..ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. 2002. Madrid. 423 segs.. Lo Stato Moderno in Europa. pp. Política... Portugal en la Monarquía Hispánica. Le conflit de juridictions comme exercice de la politique. um episódio estudado por José Javier Ruiz Ibáñez em Felipe II y Cambrai. Fazer e desfazer a história. 151 J.). cit. 52 (1976). 145 Archivo Historico Nacional.. f. Serie: Derecho. «Fueros. Maurizio (org. 545-562.. cit. 161-188. Ideologia Política e Teoria do Estado….. 169-211. Memória e juízo do Portugal dos Filipes». 2002.. 150 Cfr. 13 (1990) págs. Peter Thomas Rooney. pp. 7130 – Memorial de Don Agustín Manuel de Vasconcelos sobre las advertencias a la juridizion y a la hazienda del reyno de Portugal. «Una sociedad no revolucionaria: Castilla en la década de 1640» in España en Europa. Fernando Bouza Álvarez. pp.. cit. «A nobreza portuguesa e a corte de Madrid entre 1630 e 1640. pp. cit. Veja-se. 148 Fernando Bouza Álvarez. 147 Xavier Gil Pujol nota que em Inglaterra. pp. pp. 2002. in Fioravanti. 142 Luís Reis Torgal. 130 segs. em Outubro de 1595. n. 141 Jean-Frédéric Schaub. leg. 1989. J. Schaub. Representações (1580-1668). «1637: motins da fome». 1991. «Habsburg Fiscal Policies in Portugal. «1640 perante o Estatuto de Tomar. quando os seus habitantes habitantes optaram por aclamar Filipe II como o seu novo soberano. 50-73. Lisboa. 17 de Outubro de 1638.. 149 Biblioteca Nacional. «Los Fueros de Sobrarbe como discurso político. 1987. Portugal en la Monarquía Hispánica.. 7-35. Escritos seleccionados. 390 segs. 1999.. Laterza. 161 segs. Cuadernos de investigación histórica. pp. pp. 2001. onde os «Fueros de Sobrarbe» exerceram um efeito galvanizador semelhante ao das «actas» das Cortes de Lamego.. 201 segs. n. Consideraciones de método y documentos para su interpretación» in Huarte de San Juan. pp. Mss. Estudios de historia comparada. Penélope. consulte-se. Universitat de València.. anos mais tarde. Para uma boa comparação com a Coroa de Aragão. 1 (1994) pp. vol. cit. 153 John H. 143 Cfr. Pedralbes. Casa de Velázquez.. «O Governo dos Áustria…. Le Portugal au temps du comte-duc d’Olivares (1621-1640). 17-27. o Protectorado também implementou um parlamento britânico com uma só câmara (1654) . Romero Magalhães. «Dinámicas políticas en el Portugal de Felipe III (1598-1621)»..

I. 67 segs.. XXXVI (161) (2002) pp. 162 Cfr. vol. Discurso Moral.. O Antigo Regime (1620-1807). 4. 184 segs. pp.). 158 159 Acerca da presença do conceito de pactum subiectionis na paisagem política ibérica. f. 2002. 351-368. Reduccion. (Turim. dir.. pp.. Coimbra. 1998. pp. Faculdade de Direito.. 161 Lívio Giotta. Fernando Dores Costa. che il suo Ambasciatore mandato in Roma deue esser accettato del Pontefice. 19. que celebró con el Rey christianissimo. 1968. P. Iuannetin Pennoto. Hespanha. Paulo Craesbeeck. o IV. 1642).. 1642). 242 segs. Madrid.). pp.. em justificação de sua acção… (Lisboa. (Lisboa.. Tratado analytico diuidido em tres partes. 2002.. Madrid. 1648). (Lisboa. Power and Social Meaning (1400-1750). pp. con las razones. Lisboa. 1996. Ideologia Política. vol. Lisboa. Cardim. «As forças sociais perante a guerra: as Cortes de 1645-46 e de 1653-54». cit. Ivsta acclamação do serenissimo Rey de Portvgal Dom Ioão 157 António Barbas Homem. 1644). «O processo político (1621-1822)» in História de Portugal. cit. 156 Francisco Velasco de Gouveia. VIII. J. political allegiance and religious constraints in 17th century Portugal» in José Pedro Paiva (org. 238. 261-308. Iuan IV. As cortes de Lamego são «a verdadeyra instituição do Reyno» escreve João Pinto Ribeiro em Uzurpação. cfr. 2002. 231 segs. pp. p. I. 164 Cfr. Cardim. 163 P. Restauração de Portugal. y en la Sagrada Teología. Rey de dicho Reyno. Lourenço de Anvers. Martim de Albuquerque. consulte-se. coord. f. Relatório apresentado no Curso de Mestrado... ordenado. Con vna breue relatione del successo nell’elettione del nuouo Rè. A convocató- . 38 segs. de Luís Reis Torgal. A Formação do conceito de Constituição. vol. Biblioteca Nacional. cap. na Catalunha existia uma forte memória de governação republicana. 160 Fulgêncio Leitão.. Actas Editorial. pp. cfr.. P. Universidade de Lisboa. Raggioni del Ré di Portogallo D. 165 Segundo Xavier Gil Pujol («Parliamentary Life in the Crown of Aragon…. Cardim. e tal memória terá sido determinante em Junho de 1640. 1641).) Religious Cerimonials and Images. de A. Contributos para uma história do Direito Público. Tradotto dalla Lingva Portvghese nell’Italiana per Informatione de Signori Italiani da Liuio Giotta (Lisboa. quando Olivares resolveu convocar as Corts tendo em vista fazer aprovar um novo pedido fiscal. António Alvarez. 386 segs. con le quali si proua. Mss. Acerca deste livro.238 155 «Deste OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS papel se há de formar la platica del Embaxador de Roma al Pontifice para que no admita la Embaxada del Obispo de Lamego y proceda en causas contra Portugal». e 244 segs. José Mattoso.. Col Stabilimento Fatto nella Corti dalli tre Stadi di quel Regno et Alcvne Allegationi Giuridicopolitiche. Lei Fundamental e Lei Constitucional. O Poder Político no Renascimento Português. 1-3. 1147-1181. Restituycion del Reyno de Portugal a la Serenissima Casa de Bragança en la Real Persona de D. Fortea Pérez. Direito Constitucional. Estas «actas» foram oportunamente impressas em 1641: Cortes Primeiras que el Rey Dom Afonso Henriquez celebrou em Lamego aos Tres Estados depois de ser confirmado pelo Sumo Pontifice por Rey deste Reyno. 2372. «Principios de gobierno urbano en la Castilla del siglo XVI» in Enrique Martínez Ruiz & Magdalena de Pazzis Pi (coords. e divulgado em nome do mesmo reyno. Las Jurisdicciones. Lisboa. M. p.. y otros Principes. Análise Social. «Ceremonial. Palimage – European Science Foundation. ISCSPU. Lexicoteca.. 1985. Giovanni IV. Cortes e Cultura Política. y Político: Por Iuan Baptista Moreli Doctor in Vtroque. cit. Retenção. 32 segs. 1981. Lourenço de Anvers. pp. y causa de la Confederación.

pp. 173 Citado por Edgar Prestage. 169 Cfr. f. Biblioteca da Ajuda. «Correspondance diplomatique de François Lanier résident de France à Lisbonne. para as Corts catalãs a conjuntura de 1640 representou um breve momento de protagonismo. pp. 1963. Ordenado por Ioão Rabello Vellozo que muito dezeja o seruiço de Deos & o de sua Augusta Magestade el rey D. não chegando a nenhuma conclusão taxativa. y la tertercia de la obra. in genere Ângela Barreto Xavier. 1640-1668. XXXII (1993) pp. para o secretário de Estado Francisco Correia de Lacerda. The political applications of a Philosophical Maxim». P. Coimbra. Ioão IV para paz. 2. 132. Acerca deste tema é imprescindível a consulta do estudo clássico de John H. Johannes Jansson. 1655). Lourenço de Anveres.. y Poderoso Principe Carlos Gustavo. 1642-1644». El rei aonde póde. & conseruação de seus Reynos. . Disputa sse si deven imponer se de consentimiento de los tres Estados del Reyno (Cortes)». & Senhorios… (Lisboa. & não aonde quer. em especial pp. Em vez da Coroa. 562-587. 166 Francisco Manuel de Melo. A Study in the Decline of Spain (1598-1640). «Cessante Causa and the taxes of the last Capetians. 105. 1673.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. informação. e Morte. Bravo Losano (org. Lisboa. «La Corona y las Autoridades Urbanas en el Portugal del Antíguo Régimen.. Colibri. Imprensa da Universidade.. y quinta parte de la segunda. Acerca da articulação entre a pregação e a política. 1998.º marquês de Gouveia. Abril. segundo apógrafo inédito da Biblioteca Nacional. 719 segs. Frei Domingos do Rosário.R. Rodolfo Garcia e Pedro Calmon. Elliott. Arquivo da Universidade. The Revolt of the Catalans. Arquivos do Centro Cultural Português.. Cambridge University Press..I. 222v. 175 Cfr. edição de Manuel Lopes de Almeida. I. Rio de Janeiro.). pois nas décadas que se seguiram a assembleia representativa perdeu boa parte da projecção política de que momentaneamente gozara. cfr.. 1642). Esta reunião – que não foi convocada pelo rei – desenvolveu uma actividade muito intensa. foi a Diputació a entidade que conseguiu congregar os representantes do Principado. p. Coimbra. Lisboa. Ivizio o Vaticinio Politico Al Noble Reyno de Svecia: Debaxo de la conducta del Muy Alto. quarta. Rey de Suecia. Diplomata e Político. em especial A Parenética Portuguesa e a Restauração. 15 (1972) pp. revisão de Lígia Cruz. 1926.). 408 segs.. Londres 1655-1657. Ciudades y Villas.. (devo esta sugestiva referência a Rafael Valladares Ramirez). alegando que não poderiam votar com liberdade encontrando-se um exército régio em território catalão. notas de Afrânio Peixoto. 1989 (2 vols. in genere a obra de João Francisco Marques. 35 174 Correspondência diplomática de Francisco Ferreira Rebelo. 171 Cfr. 141 segs. embaixador em Madrid. seguido de Tomo Segvndo del Iuizio o Vaticinio Politico Al Noble Reyno de Svecia. 22. 168 Um bom exemplo: Avizo Exortatório aos Fidelíssimos Três estados do felicíssimo Reyno de Portugal. Tacito Portuguez. A ASSEMBLEIA DE CORTES. 170 O livro de António da Silva e Sousa. 1940. 2002. mas a reunião não chegou a celebrar-se. com introdução. Contiene la tercia. Entre los Habsburgo y los Braganza» in J. João da Silva. Cardim.. 49-X-6. 29-50.C. Brown.N. cód.A. pois os representantes recusaram-se a comparecer. Cortes. vol. (Estocolmo. Stvdia Gratiana. 167 Carta de D. 239 ria foi expedida. Centenário da Restauração. 133 segs. p. Espacios de Poder. 1655) inclui um capítulo sobre impostos intitulado «Apunta se las condiciones que deven currir para imponer nuebos pechos. Todavia. 172 E. 1982. Cambridge. (Estocolmo. no qual o autor analisa as várias opiniões sobre o tema.. Vida. Razões da política no Portugal seiscentista. Lisboa. Madrid. 122 segs. Dittos e Feytos de El-Rei Dom João IV. Limencop. Johannes Jansson..

de Joaquim Veríssimo Serrão. Topbooks.240 176 Rafael OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Valladares. 1998. de F. cód. Cabral de Mello. tuguês (1645-1808)» in AA. O Antigo Regime nos Trópicos. «O Estado do Brasil na União Ibérica….. «La Constitución de la sociedad política» in Ismael Sánchez Bella. cit. São Paulo. A dinâmica Imperial Portuguesa (séculos XVI-XVIII). fs. Dinâmicas políticas no Brasil no tempo de Filipe II de Portugal». 285 segs. 2001.. Rio de Janeiro. Fred Bronner. Hucitec. Chauduri. 30 segs. Hespanha. 1967. 1992. conflicto y poderes en la Monarquía Hispánica (1640-1680). Penélope. portanto. pp. Portugaliae Historica. 1967. cit. 7-36. Madrid... 190 Maria de Fátima Gouvêa. 184 Charles Boxer. de Maria Fernanda Bicalho.. Seminario Extraordi- 192 . org. 27 (2002) pp. 51-VI-19. 185 E. Historia del Derecho Indiano. 1980. 178 Carlos Dias Rementeria. 2002. 1992. cit. 1998. Maria Fernanda Bicalho. uma certa capacidade para articular posições à escala regional. Alberto de la Hera & Carlos Dias Rementeria. estas atitudes coexistiam com tomadas de posição eminentemente particularistas e completamente desprovidas de qualquer sentido de solidariedade para com os problemas que afectavam o resto do «reino e conquistas». de Rodrigo Bentes Monteiro. 167-190. «A concessão do Foro de Cidade em Portugal dos séculos XII a XIX». denotando. cit. cit. 261 segs. 177 Carlos Dias Rementeria. Rio de Janeiro.. pp. 1967. cit. O Rio de Janeiro no século XVIII. pp. «La Unión de las Armas en el Perú…. 1139. Valhadolide. Bahia and Luanda. 13-80. Em algumas das sessões de Cortes é possível detectar sinais de concertação entre procuradores oriundos de uma mesma região. O Rei no Espelho. Lisboa. Cardim. 2001. 1998. A Cidade e o Império.. Madison. Revista de História e Ciências Sociais. Junta de Castilla y León. Guerra. «La Unión de las Armas en el Perú…. «La Constitución de la sociedad política…. Olinda Restaurada. 184. Do Índico ao Atlântico (1570-1697). 2003. 165-188.. 1135 segs. I (1973) pp. The Municipal Councils of Goa.. O Antigo Regime nos Trópicos: A Dinâmica Imperial Portuguesa (séculos XVI-XVIII). n. a 14-3-1628 – cfr. Bethencourt & K. «La Unión de las Armas en el Perú. 179 Fred Bronner. A Monarquia Portuguesa e a colonização da América. também. de João Fragoso. 1510-1800. 2002. «O Estado do Brasil na União Ibérica. M. pp. Todavia.. Rio de Janeiro. org. Portuguese Society in the Tropics. Biblioteca da Ajuda. 1138.. p. 187 Guida Marques. pp. pp. VV. Guerra e Açúcar no Nordeste.. 181 Fred Bronner. 183 Consulte-se in genere a Historia da Expansão Portuguesa. 186 As cidades e vilas do reino também costumavam preparar petições conjuntas. 345-347.. «A constituição do Império português. VV. vol. Civilização Brasileira. pp. veja-se. 182 A.. Revisão de alguns enviesamentos correntes» in AA. de João Fragoso. 188 Guida 189 «Procuradores que estão por definidores com voto e declaração dos que estão com alternativa em as Cortes que se comessarão em 22 de Outubro de 1653». «Poder Político e administração do complexo atlântico por- 191 Acerca do tema consulte-se. A Cidade e o Império. La Rebellión de Portugal.). org. e.. p. «Política cortesana y administración en Portugal durante la segunda mitad del siglo XVII» in José Javier Ruiz Ibáñez (org. Macao. Marques. Mapfre. Consulte-se P. Rio de Janeiro. 1640-1720. 180 Carta escrita em Lima. 1630-1654. Lisboa.

pp. . Cambridge University Press.A. Antonio Feros. terem continuado abertos vários outros canais de comunicação entre a Coroa e as cidades.. La Capilla Real en la corte de Carlos II» in J. 1992. Fundación Carlos de Amberes. 25 (Abril-Junho de 1999) pp. cit. 199 A questão da resposta aos «capítulos» merece também alguma atenção. Madrid. por vezes. 374. 345-410. Além disso. «Introdução Histórica à Teoria da Lei – Época Medieval». «Orto y ocaso de las Cortes de Castilla»….ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. 195 Cfr.A. Patrimonio Cultural. e.. cit. estabeleceu-se que o rei deveria incluir na escritura de los millones as respostas às petições. «The rule of law in early modern Castile». consulte-se. O excelente artigo de I. «Orto y ocaso de las Cortes de Castilla»…. Madrid. La Capilla real de los Austrias. Madrid. Thompson em «La respuesta castellana ante la política internacional de Felipe II» in AA. Hespanha. pp. I. Legislação. 2002. «Derecho como cultura. 193 Cfr. «Ceremonial de la Majestad y Protesta Aristocrática. Thompson & Pauline Croft. Com a implementação do novo regime dos millones. também.. 201 Francisco Tomás y Valiente. do qual se esperava. A Coroa castelhana. 241 nario Floridablanca.A. 1598-1621. M. «Orto y ocaso de las Cortes de Castilla»…. J.. Thompson. Anuario de Historia del Derecho Español. Carreras & Bernardo García García (orgs. usou essa matéria como forma de pressão. Antonio Álvarez-Ossorio. 789 segs. 1992. I. uma colaboração activa no terreno fiscal – J. Historia de la Propiedad. e no início não retirou força às Cortes. História das Instituições. de resto. SECCFC. pp. 91 segs. 347-469. pp. como mostrou I. Música y ritual de corte en la Europa moderna. «Aristocracy and Representative Government…. A ASSEMBLEIA DE CORTES. Servicio de Estudios del Colegio de Registradores. p.. La monarquía de Felipe II a debate. pp. 790 segs. 7-125... pp. I. o que dava novo alento à capacidade das Cortes para influenciar o corpus normativo da Coroa. cit. 788. consulte-se. p. European History Quarterly. 2001. cfr. Essa coexistência de várias vias de diálogo foi uma constante.A. Kingship and Favoritism in the Spain of Philip III. Universidade de Múrcia.A. 2000.A. Fortea Pérez. VV. 230 segs. o que obrigava a Coroa a antecipar-se à negociação fiscal na resposta aos pedidos. Entre Clío y Casandra. XXXII (1962). Fortea Pérez.. cit. cit. 14 (1984) pp. 200 Não raras vezes eram as próprias Cortes a não revelar grande empenho em debater questões de alta política. 198 Acerca desta problemática é imprescindível a consulta de A. recusando-se a dar resposta às petições até que as Cortes aprovassem os servicios que o monarca reclamava. Fortea Pérez chama a atenção para o facto de. 121-134. Cambridge. Thompson & Pauline Croft.. de António Barbas Homem. 202 J.A. 53-60. «Aristocracy and Representative Government…. Fortea Pérez.. Equidad y orden desde la óptica del Ius Commune» in Salustiano de Dios et al.A... de I.. 196 I. cit. tais respostas tinham força de lei e eram incorporadas nas sucessivas edições da Nueva recopilación.. J. de Jesús Vallejo. 194 Acerca das críticas ao valimento. pois a Coroa continuava a carecer da assembleia enquanto cenário natural de negociação entre o rei e o reino. pp. Cadernos de Ciência de Legislação. Departamento de História (no prelo).). 221-234. pp. 78-79. 1982. pp. a par das Cortes. «La Diputación de las Cortes de Castilla (1525-1601)». 2000. 197 Para uma excelente exposição sobre a eficácia conformadora do Direito no contexto do Antigo Regime.

tenham manifestado o interesse em recorrer a modalidades alternativas de financiamento – J. cit. Marcial Pons. Actes de la recherche en sciences sociales. 204 .). Fortea Pérez. 207 segs. Studia Historica. Los Borbones. 1983. Fortea Pérez. 237 segs.. cit. para fins específicos e baseado em determinadas condições – estava a debilitar-se.). Biblink editori. Castilla convulsa. 2001.. 212 Bartolomé Clavero. 210 J. Madrid. «Una sociedad no revolucionaria…. pp. 208. cit. pp. Una o dos ideas». «À quoi sert de voter aux XVIe-XVIIIe siècles?». de Juan E.. 2002. O modelo do servicio – entendido como auxílio temporário. Universidade Católica Editora. 207 John H. Dinastía y Memoria de Nación en la España del siglo XVIII. 1188-1988. Escritos seleccionados. Roma. p. a decisão de 1667 inscreve-se no quadro mais geral da reformulação do sistema fiscal castelhano. Historia Moderna. I. 21-30. cit. «Reciprocita mediterranea» in Renata Ago (org. O Pensamento Político em Portugal no século XVIII. Elliott. I. Acerca deste tema consulte-se. VV. 207 segs. «Cortes Tradicionales e Invención de la Historia de España…. pp. «Una sociedad no revolucionaria: Castilla en la década de 1640» in España en Europa. pp. «Orto y ocaso de las Cortes de Castilla»…. consultes-se.. Daí que tanto a Coroa como o reino. Elliott. Estudios de historia comparada. 211 Maria da Glória Ferreira Pinto Dias Garcia. Valhadolide. 21 (1999) pp. 1990. Lisboa. «Orto y ocaso de las Cortes de Castilla»…. 140 (décembre 2001) pp. Giovanni Levi. 37-72... Elliott. 109 segs. Sua origem e evolução. 801-802. p. pp. de David Alonso García. Imprensa Nacional. pp.. 2002. Lisboa. 187-188. pp. 1994.. de Olivier Christin. 213 Bartolomé Clavero.. 209 Para J. «Una sociedad no revolucionaria. cit. 2002.242 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS 203 Acerca deste tema consulte-se. 801-802. Gelabert.. «La Corona de Aragón a finales del siglo XVII: a vueltas com el Neoforalismo» in Pablo Fernández Albaladejo (org. The Value of the Norm. 117-152.. 2002. «Cortes Tradicionales e Invención de la Historia de España» in AA. Cortes de Castilla y León.. Universitat de València. 1990. Fortea Pérez. pp. António Ribeiro dos Santos. 205 John H.. pp.. como lembra Xavier Gil Pujol. cit. também. 208 Este fenómeno registou-se em toda a Península Ibérica. 2002. 149-195. 153. I. 206 John H. Valência. «La configuración de lo ordinario en el sistema fiscal de la Monarquia (1505-1536). Da Justiça Administrativa em Portugal. José Esteves Pereira. Las Cortes de Castilla y León.

As relações entre o centro e a periferia no discurso do Desembargo do Paço (sécs. valorizando o poder local ou as intenções centralizadoras. são as questões quando se invocam outros poderes para além dos régios e muniOs Municípios no Portugal Moderno: dos forais manuelinos às reformas liberais Lisboa. o plano doutrinário. Os objectivos. quando decidia no quadro do seu regimento. portanto. Edições Colibri – CIDEHUS-UE. As excepções vão para pretensões fora do ordinário ou quando os ministros deixam os pareceres em aberto com o acostumado “Faça-se justiça” (fiat justitia). responde nos despachos “Como parece”. implicam alguma indeterminação na configuração global do sistema de poderes e estruturas de probabilidades consoante os espaços onde se tecem as obediências. E outras. então. Acontece. as tradições que envolvem as práticas sociais. Parece à Meza o mesmo que ao Ministro Informante” A fórmula de despacho em portada foi a que. 2005. que o conhecimento mais recente da realidade administrativa e política do Antigo Regime é complexa demais para se deixar classificar de forma tão simplista. XVII-XVIII) JOSÉ SUBTIL (Universidade Autónoma de Lisboa / Instituto Politécnico de Viana do Castelo) “E sendo tudo visto. 243-261. pp. porém. na maioria dos casos. os recursos disponíveis e as motivações dos vários actores sociais. as propostas historiográficas para a caracterização do modelo de relação entre o centro e a periferia tenderão sempre a reconhecer fundamentos para apoiar a perspectiva centralizadora ou autonomista do poder. por sua vez. . provedores ou de outros ministros como o do Procurador da Coroa. as desobediências e. Todavia. estratégicos ou efémeros. Ou. ainda. dos organismos envolvidos nas relações de poder. os dispositivos disciplinares. o tribunal do Desembargo do Paço seguiu para submeter à apreciação superior as consultas relativas aos assuntos das câmaras depois de ter obtido as informações e os pareceres dos corregedores. O rei.

provavelmente. para o final do Antigo Regime. a relação entre a Coroa/concelhos e concelhos/freguesias recentra a geometria dos campos de domínio do poder e torce os lugares políticos e sociais. em primeira instância. ao nível periférico. unidades que serviam para circunscrever as funções de execução política e administrativa dos corregedores e/ou provedores na sua relação com a Corte e os concelhos. os problemas relacionados com o exercício do poder obedecem a interesses e mecanismos próprios de dominação bastante diferentes conforme o lugar que nos dispomos ocupar. como foi sugerido para as paróquias por José Viriato Capela neste mesmo colóquio. atentemos nalguns detalhes que dizem respeito ao Desembargo do Paço. revela que as comarcas e as provedorias não constituíam espaços sociais de relações de poder mas.244 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS cipais. Não há dúvida que a persistência continuada e exclusiva de arquivos municipais e centrais. por exemplo. alguns corregedores as comecem a invocar como novos pólos de territorialidade política. surpreendentes para avaliar. em simultâneo. como memórias dos actos praticados. Lisboa. Imprensa das Ciências Sociais. apenas. No discurso historiográfico. como unidades que podiam sustentar. A hierarquia do lugar que ocupam os concelhos em relação às freguesias não resulta imediatamente das relações estabelecidas pelos concelhos com a Coroa. como os poderes senhoriais. E as respostas que se procuram ou que se querem encontrar são imaginadas de acordo com a perspectiva em que nos coloquemos. a periferia tem sido identificada com os concelhos. como os circuitos para a tomada das decisões. tribunal que assegurava a comunicação política entre a Coroa e os poderes periféricos. Naturalmente que uma geografia política que equacione. Elites e poder. Será uma mudança com resultados. Do lado de quem manda ou pretende mandar. tanto o papel desempenhado pela burocracia na maneira de exercer o poder. qualquer movimento reformista. ou do lado de quem obedece ou pretende obedecer. da Igreja e das comunidades com juízes ordinários1. O significado dos arquivos Através da forma de organização dos arquivos administrativos e do seu conteúdo técnico podemos reconhecer. sendo ignoradas as freguesias embora. 2003. o verdadeiro papel da Coroa e dos municípios na conformidade da vida política e social. 1 Sobre o poder local ver referências aos mais recentes trabalhos em Nuno Monteiro. isto é. Entre as diversas componentes destas lógicas. . Entre o Antigo Regime e o Liberalismo. isto é.

eram suportados pelos interessados. que a produção documental servia. Beira. não deixa de ser surpreendente como. então. O corregedor e/ou provedor. Quando as circunstâncias o justificassem era. revertiam em receitas de emolumentos para os magistrados e para a Coroa e. De acordo com a estrutura e a organização do arquivo do Desembargo do Paço. . um outro. a cargo da Secretaria das Justiças e do Despacho da Mesa. Esta secretaria era constituída por quatro repartições (Corte. ou dos Corregedores. com excepção de alguma correspondência. tendo em vista formar a decisão régia. ou seja. da responsabilidade da Secretaria das Comarcas onde se deviam tratar os que tocarem “às Cameras dos Lugares das suas Comarcas. portanto. eram do interesse destes. Minho e Trás-os-Montes. aliás. Mas vejamos outros pormenores. como mesmo para outras indagações.º do Regimento Novo do Desembargo do Paço (27 de Julho de 1582). relacionado com o despacho régio. sobretudo. também. o processamento burocrático se fazia de forma razoável para a época. de uma forma geral. pedidos que.RELAÇÕES ENTRE O CENTRO E A PERIFERIA NO DISCURSO DO DESEMBARGADOR DO PAÇO 245 Uma das evidências desta particularidade reside. ou ao bem commum”2. para além do mais. Juízes. tanto para as de carácter mais técnico. em primeiro lugar. nem as pautas das eleições nos arquivos concelhios o que nos mostra que as possibilidades de controlo estavam reservadas aos oficiais comarcais através dos quais o monarca podia chegar ao maior número possível de informações. com os processos relativos a consultas. As actas das vereações. apesar destas características e das limitações da comunicação. os interesses da instituição produtora da documentação. agilizava as suas acções e permitia. um poder de indagação da verdade não precisavam de uma secretaria de reserva que duplicasse a informação disponível nos arquivos referidos o que. não se encontram no Desembargo do Paço. assim. na maioria dos casos. e Justiças dellas. públicas ou mais ou menos secretas. accionado o mecanismo dos traslados cujos custos. por exemplo. Isto significa. uma grande economia de recursos humanos e financeiros uma vez que a duplicação da informação era demorada e implicava trabalhos acrescidos. o conteúdo dos arquivos municipais e dos arquivos centrais não repetem. a informação. Um. igualmente. no que tocar a seus officios. como funcionários volantes que exerciam. que se destinava aos assuntos referentes aos concelhos. e Alentejo e Algarve) cada uma 2 Parágrafo 8. Estremadura e Ilhas. Em qualquer caso. no facto das provas documentais do exercício do poder estarem nos arquivos municipais ou nos arquivos dos tribunais e conselhos da administração central. Neste sentido. podemos distinguir dois tipos de expediente.

1996 (cap. sobretudo. uma prática que veio a ser abandonada por se mostrar inconsequente. asseguravam a relação dos particulares com o monarca. Universidade Autónoma de Lisboa. normalmente. em primeiro lugar. da boa organização do tribunal está expressa na forma como o arquivo funcionava apesar de tratar dos mais variados assuntos. porém. nos municípios. eleições municipais. relacionados com a administração da justiça e da magistratura. desde os mais simples requerimentos dos particulares até aos mais complexos. distribuídos pelas repartições das comarcas. conflitos jurisdicionais. II). No que diz respeito ao governo das câmaras. dando conta aos seus clientes dos passos que foram e estavam a ser dados. os processos mais importantes tinham a ver com os actos eleitorais (pautas) e com a fiscalização sobre as comissões de serviço dos magistrados régios (autos de residência). Ou melhor dizendo. Lisboa. O acesso aos processos podia fazer-se por nome próprio do requerente. o fomento económico. A confirmação. exclusivamente. portanto. por esta secretaria mas sim pela Casa do Expediente através. que não existiam arquivos comarcais ou de provedoria o que nos remete para uma noção de periferia política e administrativa consubstanciada. cultivo das terras. recebendo gratificações em troca. O Desembargo do Paço (1750-1833). para um advogado com quem repartiam os honorários. Alguns oficiais e escrivães do Desembargo do Paço foram acusados de cumplicidade com alguns destes procuradores para influenciarem ou acelerarem processos. a forma como se constituíam as redes entre os procuradores e advogados espalhados pelo Reino e os que tinham escrivaninhas na Corte. em grande medida. Os assuntos dos particulares não entravam. obras. por assuntos ou por toponímia3. também. Trabalhavam. O que se pode dizer. A certa altura foi adoptado no tribunal a numeração do registo de entrada dos processos. porém. As funções e o papel político desempenhado por estes procuradores que. Formam uma interminável fonte de informação sobre o poder local. administração dos bens da Igreja. . dos concelhos e dos donatários leigos. estão por conhecer como. doações e heranças. sobre a estrutura e funcionamento arquivístico do tribunal é. Tudo parece indicar que os procuradores formavam uma verdadeira corporação profissional que exercia pressão sobre o andamento dos processos e a sua resolução final. posteriormente. que as unidades administrativas do Reino 3 Ver pormenores da estrutura do arquivo em José Subtil. etc. dos procuradores das partes que se encarregavam de organizar o dossier com os documentos necessários aos processos sendo. higiene pública.246 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS remetendo para a respectiva comarca cujos processos se organizavam em maços.

isto é. os concelhos4. desde logo. exigindo regras e rigores discursivos indispensáveis à apreciação régia.RELAÇÕES ENTRE O CENTRO E A PERIFERIA NO DISCURSO DO DESEMBARGADOR DO PAÇO 247 eram constituídas. dentro das suas áreas jurisdicionais. estes delegados do poder régio foram sempre magistrados togados e nunca de capa e espada5. uma poderosa imagem do poder da Coroa porque obrigavam a descartar procedimentos que não estavam ao alcance de qualquer um. Muito raramente tomavam iniciativas próprias. em profissionais especializados que conferem pelas suas práticas um carácter institucional aos procedimentos administrativos. emitirem pareceres para submeter à Mesa do Desembargo do Paço. Apesar das Histórias de Espanha recentemente editadas. o processamento destes casos acabava. Para o efeito. pp. Círculo de Leitores. por cair nas competências dos corregedores e provedores para. Tanto para os processos documentalmente bem preparados como para os que precisavam de ser complementados com mais informação. como já se disse e se sabe. Lisboa. os corregedores e provedores constituíam magistraturas muito especiais uma vez que as suas funções se destinavam a cumprir ordens dos tribunais superiores. continua a ser fundamental . ou seja. História dos Municípios e do Poder Local (direcção de César de Oliveira). 1996. mais tarde. A arte da explanação dos assuntos e a materialização da realidade objectiva em documentos. depois de procederem às indagações e inquirições necessárias. a organização processual e o corpus documental constituíam. a cargo destes profissionais. todavia. 4 5 Sobre a organização do poder à periferia ver Nuno Monteiro. os oficiais de ligação entre o centro e a periferia. assim. ou a exercerem o poder em sua representação. Nesta medida. 79-119. sobretudo do Desembargo do Paço. por um grupo cujo poder de intervenção dificultava a relação directa com o monarca. o local e o inexistente regional”. Enquanto os primeiros dispunham do mecanismo político e administrativo assegurado pelos serviços destes magistrados. “O central. Ao contrário de Espanha. A acção da Coroa em relação à periferia apoia-se. A lógica das relações e da decisão política Os corregedores e provedores eram. E. Em segundo lugar. em quaisquer dos casos. pelos tribunais centrais da Corte e pelos senados das câmaras. apenas. os assuntos particulares estavam dependentes das iniciativas tomadas pelos procuradores e advogados. constituíam o signo de entendimento do poder régio que não reconhecia outros sentidos fora destas estruturas de modelização. deve registar-se que há uma clara distinção no tratamento burocrático de assuntos públicos e privados. o Reino estava dividido em comarcas e provedorias que incluíam.

nobreza e povo chamados a pregão e toque de sino. corregedor. tomar posse dos bens da Coroa quando vagassem. informações solicitadas pelo Desembargo do . O corregedor estava encarregue de tirar devassas. Braga. seria muito interessante termos estudos que nos permitissem reconstituir a actividade de um corregedor ao longo do seu mandato. 9 Sobretudo com os trabalhos de José Viriato Capela em especial para este tema. 58. 10 Estes estudos só serão possíveis através do cruzamento de fontes. tít. órfãos. um cartório onde se lançavam os provimentos dos corregedores. das capelas. Universidade do Minho. eram objecto de um auto assinado por todos os presentes. etc. Fundacion Universitária Española. op. I. cit. locais e formas de inquirição de testemunhos. capítulo IV. procurador do concelho. Na câmara existia.248 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Depois de diplomados. fazer a eleição dos vereadores e almotacés. ainda não é possível termos uma imagem clara sobre as efectivas funções e acções no terreno dos corregedores. zelar pelo ordenamento da floresta. Tomavam conta das despesas e receitas dos concelhos e inspeccionavam as remessas para o Conselho da Fazenda8. informar sobre as actividades dos juizes de fora e juizes ordinários que não cumpriam as leis e conhecer as apelações das sentenças dos juizes ordinários. destinadas a informar o ministro do que seria justo a bem do povo. As audiências gerais das câmaras. liv. liv. tít. proceder à cobrança da décima.. utilização de meios de transporte. A este propósito. fiscalizar os oficiais das sisas e fazer o seu lançamento na ausência dos juizes de fora. autos de residência. Apesar do que hoje já se conhece sobre o corregimento9. particularmente.10. tempos das aposentadorias. frequência das visitações por localidades e períodos. para uma visão de conjunto deste período a obra de G. 8 Idem. 7 Ver Ordenações Filipinas. actos das vereações. confrarias. examinar obras. entre outras tarefas ocasionais7. momentos de trabalho com as vereações. tinham de realizar um exame de acesso à carreira e fazer um tirocínio para obterem o encarte na correição o que só viria a acontecer no país vizinho durante o reinado de Carlos III. La España del Antiguo Regímen. Madrid. albergarias e hospitais bem como o cumprimento das vontades dos testamentos e obras pias. 1989. visitar os cárceres. O provedor tinha a seu cargo o controlo e fiscalização dos cofres da comarca e provedoria. logo suprimidos por Carlos IV6. 1997. dar conta dos crimes e mendigos. I. 6 Sobre a carreira dos magistrados ver José Subtil. receber queixas contra as autoridades locais. Política de Corregedores. escrivão. conhecer da imunidade da Igreja. Desdevises du Dezert. 62. também. vereadores.

aleatoriamente. dentro do possível. Saber quais as câmaras que raramente acolhiam o corregedor e as formas usadas para receber os munícipes na sede do concelho ou obter informações sobre a vida social. se outras variáveis (tempo. as solicitações do centro. a este respeito. em contrapartida. O mesmo se dirá das apreciações que fizeram sobre as apelações dos juizes ordinários. avaliar em que medida o corregimento se limitava. etc. desta forma. . o lançamento de segundas terças. ou indirectamente. também. a cartografia e cronologia das correições bem como o significado que as sedes das comarcas. em grande parte. sindicâncias. problemas das casas para aposentadoria. a agenda dos corregedores. De notar. particular atenção as modalidades regionais utilizadas para os concelhos requererem sobras das terças e sisas destinadas a concertos e reparações de obras devido às despesas que implicavam ou. escrivães e meirinhos de apoio. económica e política. muito provavelmente. a sua gestão. Merecem. os casos em que estas se dirigiam directamente ao tribunal. à resolução de problemas suscitados pelos tribunais superiores forçando. que na maioria das contas que dão aos tribunais superiores. por exemplo. verifica-se que a grande maioria se reporta a grandes ou médios concelhos abaixo do Mondego. A fórmula a adoptar para estes estudos consistiria em delimitar no tempo os seus mandatos e correr a informação disponível nos tribunais superiores e nas câmaras de forma a estabelecer-se uma cronologia das suas actividades. Neste caso. através do Secretário de Estado dos Negócios do Reino. desempenhavam na vida profissional do corregedor. E tão pouco estamos em condições de podermos comparar o desempenho destes cargos para concelhos de diferente dimensão e estatuto o que nos permitiria. as reacções municipais aos pedidos régios para as agravar como. Ou se o planeamento anual da correição obedecia a algum calendário standard ao qual se acopulavam. estado das estradas. Pode ser uma boa razão para se admitir que a relação com a centralidade polí- Paço e respostas às mesmas (ou de outros organismos centrais).) influenciavam. assim. os corregedores assinalam a data e a localidade em que se encontram e os autos indicam os funcionários ao serviço. aos procuradores dos concelhos quando se deslocavam à Corte. Compulsando algumas destas situações. inventário das presenças destes magistrados nas diversas corporações locais. situadas no principal concelho.RELAÇÕES ENTRE O CENTRO E A PERIFERIA NO DISCURSO DO DESEMBARGADOR DO PAÇO 249 Desconhece-se. ou não. indicia que existiam formas alternativas cujas razões e mecanismos ignoramos mas que podemos presumir tenham sido usados com recurso. pautas eleitorais. por exemplo. embora raros. as câmaras não esperariam pela reunião com o corregedor. etc. Mas se o Desembargo do Paço comunicava com as câmaras através dos corregedores e provedores.

e Cabelo”. nunca se enraizariam nos procedimentos habituais do tribunal. Outra situação. compostas pela herdade de Tagarrães e o baldio de Lopo da Mouta. Por outro lado. porém. Nobreza e Povo. instruções para as mesmas câmaras ou que as remeta por intermédio dos corregedores e/ou provedores. com o argumento de possuir uma lavoura interessante tanto em “sementeira como em criação de Gados de Lãa. por isso. instruir o processo com as opiniões das partes envolvidas. emblemático desta conformidade diz respeito ao pedido (24 de Novembro de 1788) formulado pelo poderoso e influente Intendente Geral da Polícia. regalias e direitos adquiridos de tal sorte que os despachos não contradissessem a ordem estabelecida ou a viessem perturbar. de imediato. ser posta de lado na medida em que. nos casos que conhecemos. fomentada pela proximidade territorial a Lisboa ou por facilidades de comunicação. Um exemplo limite e. elegeu sempre o modelo jurisdicionalista como norteador das suas tomadas de decisão. o tribunal dá instruções para o corregedor ouvir sobre a matéria todos os interessados não decidindo. Temos. o ganho de tempo podia ser grande uma vez que eram suprimidos os tempos de correio entre o corregedor e o tribunal. sempre que tal se verificava. Também nestes casos. Contudo. com a excepção para outras modalidades de comunicação que emergiriam após o consulado pombalino mas com outros contornos políticos como adiante se verá. assim. o princípio de que todas as partes se deviam pronunciar para aferir dos privilégios. Mas a hipótese de que tal expediente pudesse corresponder a uma forma expedita de relacionamento com o tribunal deve. Não se verificam situações em que o tribunal despache. desembargador do tribunal do Desembargo do Paço e Conselheiro de Sua Majestade. Diogo Inácio Pina Manique. igualmente rara.250 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS tica é. indirectamente por intermédio da Secretaria de Estado dos Negócios do Reino ou directamente pelos procuradores dos concelhos) e a consequente instrução processual mantiveram-se inalteráveis até ao final do Antigo Regime e a extinção do Desembargo do Paço (1833). Uma vez que a câmara . que pretendia aforar ou comprar umas terras em Arronches. isto é. refere-se aos pareceres que os corregedores decidem remeter para o tribunal sobre matérias de governo camarário sem que a iniciativa tenha pertencido aos senados. também. ou seja. o Desembargo do Paço envia os requerimentos para o corregedor ouvir a Câmara. introduzindo tipos de relacionamento forçados por factores que não faziam parte das lógicas políticas do regime. Estas três formas de relacionamento entre o tribunal e o poder local (apenas através do corregedor. que o Desembargo do Paço não modificou o seu modo de proceder relativamente às decisões sobre o poder local. por conseguinte. exclusivamente com a opinião do magistrado.

o desembargador pretendia “aumentar a sua Lavoura. No mínimo. no seu entender. fundamentava o acto jurisdicional. o que afirmava não ter acontecido com os anteriores rendeiros. A gestão do tempo. ao repetir os actos e a homogeneizar as decisões. e as criaçoens dos seus Gados” que.RELAÇÕES ENTRE O CENTRO E A PERIFERIA NO DISCURSO DO DESEMBARGADOR DO PAÇO 251 tinha vindo a arrendar essas herdades. portanto. ganhava com o expediente uma certa centralidade que não podia assumir se aligeirasse os procedimentos. sobretudo. Nobreza e Povo para se conhecer a verdadeira justiça e não poder vir a ser sujeita aos embargos de obrepção e subrepção de outros interessados ou lesados11. ao contrário do que pudesse parecer. própria de um certo poder indisponível à 11 IAN/TT. previsíveis. por parte dos peticionários. significa que do cálculo dos peticionários não constava este tipo de procedimentos nem os mesmos se configuravam. instrumental do tribunal e que a Corte. de procuradores das partes para levar os requerimentos à Corte parece significar que o papel do corregedor é. inculcava em todos estes actores fórmulas universais e disciplinas processuais que contribuíam para a aceitação de uma linguagem especial. o uso. também “interessa ao Estado”. Ministério do Reino. aliás o podia fazer. pelo menos. maço 340. Neste sentido. No que respeita aos particulares. de determinação de resultados e garante da não arbitrariedade política. se tivermos em conta que durante a correição podia recolher os mesmos. Digamos que o modelo. dos circuitos e a escolha dos actores. Este tipo de comunicação entre a Coroa e a periferia. Na lógica dos nossos procedimentos seria óbvio que nos casos em que o corregedor pudesse recepcionar as petições. de certo modo. mesmo que fossem. no âmbito do corregimento. cotava o tribunal como um lugar de escolhas. os do território onde se encontrava ou se presumisse que iria estar. embora se saiba que ficou retida na Secretaria de Estado dos Negócios do Reino. o facto do expediente não ser canalizado pelo corregedor que. ao alimentar com este modelo um conjunto numeroso de oficiais e profissionais encarregues da redacção dos textos e traslados. A decisão final acabou por não ser tomada. O requerimento deu entrada directamente no tribunal mas a Mesa deliberou que não podia tomar qualquer decisão sem ser ouvida a Câmara. desconhecendo-se as razões que a impediram. desde logo. retirasse as informações que da praxe eram exigidas e remetesse para o tribunal o processo já instruído para ser ultimado. ao repetir-se. . pode dizer-se que este género de expediente era tudo menos económico. tanto pelo tempo que acabava por demorar como pelos custos que implicava.

de uma forma global. de facto. Limitar o poder do rei e limitar o poder das câmaras. A consolidação deste estilo de governo. pela habilidade retórica para a construção de verdades. a jusante ou a montante. ou seja. a razão de ser de todos estes oficiais que não tinham interesse algum em o destruir dado que no conhecimento que possuíam destas tecnologias residia. por sua vez. na regularidade discursiva e na constituição de corpus documentais. desde logo. tal era o fundamento e a promessa do modelo jurisdicionalista que o Desembargo do Paço garantia como instituição central do sistema. Digamos que o tribunal age. achamos incompreensível e estranho que. neste período. por outro. pela via passiva. ao recorreram aos que as tinham. De facto. . Desta forma. a eficácia dos actos administrativos e de governo dependiam desta disciplina dos textos e da sua organização e nunca da excelência dos argumentos ou da exuberância literária como acontecerá a partir do pombalismo. assegurar o prosseguimento desses princípios. se fizessem tantas coisas da mesma forma. nem acontecimentos. nem factos. Deste modo existe uma enorme desproporção entre o aparato discursivo dos actos administrativos e a dimensão da acção política. pelo ganho da celeridade e da eficácia. fundada na previsibilidade dos textos e procedimentos. a suspensão da mesma. os despojados destas competências. assim e sobretudo. que permitiam o autogoverno dos senados. tanto legitimavam as suas autoridades como reconheciam que ao usá-las podiam aceder ao sistema de legitimação política. Mesmo que o viesse a fazer. tantas repetições de procedimentos. o seu estatuto político e social. arbitrariedade ou estratégias de surpresa. também. por um lado. Por isso. deliberadamente ou não. ficaria sempre sujeito ao embargo das suas decisões o que de todo era de evitar pelas consequências que acarretava. é atestada. e nos poderes jurisdicionais delegados ou normativos. o poder que exigia a formatação dos discursos adequados era. essencialmente. para nós que hoje somos movidos pela economia das acções.252 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS extravagância. A estratégia de dominação do centro sobre a periferia residiu. Nestas circunstâncias. nada fazia supor para o governo das câmaras que o tribunal tivesse uma estratégia de ocasião ou objectivos obscuros na apreciação que fazia dos processos. reage sempre a acontecimentos ou factos e não cria. ficando reservado aos oficiais régios. pelo facto do tribunal não ter por hábito remeter ordens sobre o governo das câmaras ou tomar iniciativas políticas. se investisse demasiado em actos de duvidosa consequência prática. Em contrapartida.

com L’ archéologie du savoir. “Les magistratures populaires dans l’organisation judiciaire d’Ancien Regime au Portugal”. repetidamen- 12 Sou aqui. Cosmos. Paris. individualizada. Ensaios de História Cultural (séculos XV-XVIII). particularmente. evidentemente. . a banalização das mesmas. o prestígio simbólico do manuscrito terá resultado da singularidade do documento enquanto objecto único para. 32). Desta forma inculca-se a ideia de que as competências linguísticas. a revolução tecnológica constituída pela criação dos caracteres metálicos permite a fixação das normas linguísticas e ao aparecimento de gramáticas e tratados ortográficos. 1982. influenciado por Michel Foucault. a elitização dos letrados na medida em que se tornavam elementos decisivos na manutenção das condições de produção discursiva. nomeadamente quanto à dominância de certos padrões e tipologias documentais. também.RELAÇÕES ENTRE O CENTRO E A PERIFERIA NO DISCURSO DO DESEMBARGADOR DO PAÇO 253 O discurso manuscrito12 Se compulsarmos o discurso produzido pelo tribunal onde se materializavam os seus actos. também. verificamos que uma das constantes que impregna a actividade burocrática diz respeito à permanência da cultura manuscrita que cobria todos os momentos processuais e de expediente. ao vulgarizá-lo. referências a conceitos e fórmulas. por vezes criadora. É certo. promovendo uma tecnologia de dominação que privatizava o conhecimento o que não acontecia com o documento impresso que. 1969. pp. ela integra um carácter sacrificial e um significado transcendente (. Por outro lado. procede a uma análise sobre a cultura impressa e manuscrita durante a época moderna onde acentua. Só para o final do século XVIII começaram a surgir documentos impressos que correspondem a um novo entendimento da produção documental. sobretudo. E como.. por isso. e implica o definitivo desaparecimento do carácter “sagrado” da escrita”13.) Com o aparecimento da imprensa. pelo contrário. os grupos profissionais que tinham o domínio da escrita favoreciam. 13 Ana Isabel Buescu. Diritto e Potere nella Storia Europeia. facilitava os actos administrativos. afirma Ana Buescu a “Escrita manual. na formulação dos enunciados e na utilização da retórica14. o manuscrito implicava um ditado feito pelos magistrados ou escrivães. 806-822. 14 Sobre o mundo jurídico não letrado ver António Manuel Hespanha.. Lisboa. Gallimard. justamente. Firenze. que sendo a época dominada por uma cultura oral e exigindo o acto administrativo uma cultura escrita. sobretudo. Este facto mostra que a imprensa não terá assumido um papel inovador nos actos administrativos do tribunal e. em Memória e Poder. 2000. a dominância do manuscrito sobre o impresso (transcrição p. consagrar o monopólio das produções discursivas por uma elite e evitar.

não podendo trazer capa sobre a beca15. Na altura dos votos. o domínio que o governo dos togados detinha para produzir taxonomias na apreciação de processos já examinados estabelecia. Para evitar intimidades estavam proibidos de prover ofícios ou serventias nos tribunais em criados ou parentes até ao quarto grau. pelas suas próprias mãos como que transmitindo ao documento a originalidade irrefutável e inquestionável das suas autoridades e conhecimentos. também. Por isso. serem obrigados a fazerem-se acompanhar da mulher e dos filhos. pareceres e deliberações (tenções). gorra ou carapuça”. depois da publicação das Ordenações Filipinas. gerador de suspeitas de um saber quase misterioso exercido na inacessibilidade dos gabinetes ou em procedimentos ocultos. por isso. não tomarem afilhados de género algum. também. . obrigados a fazer os despachos. portanto. tanto nas deslocações dentro do Reino como fora dele. garantindo uma certa permanência física dos trabalhos que começavam cedo e terminavam cedo. os desembargadores do Paço obedeciam a um ritual apertado e cerimonioso no exercício das suas funções quando estavam reunidos para despacho. estarem proibidos de frequentar casas de jogos. também. no trabalho dos tribunais ou em quaisquer actos públicos deviam usar “togas talares descobertas. Por tudo isto. a probidade. igualmente. Quando começavam a trabalhar. para o “respeito que todos devem”. ser interrompidos nem vistos enquanto trabalhavam. ou declarações. a legislação vai continuando a dar conta de algumas virtudes. Não podiam. uma ordem final que regulava o certo e o errado. não poderem morar fora da cidade. As providências sobre os trajes. Um saber recheado de qualidades indisponíveis à maioria. nem ter casa 15 Algumas destas disposições estão já consagradas no Alvará de 30 de Junho de 1652. uma competência com carácter “sagrado” a que até o próprio monarca ficava submetido. Como. deveres e direitos dos desembargadores. o rigor e a imparcialidade vertidas em textos cuja ordem do discurso era insuspeita pela ilustração das evidências conclusivas. Ao longo do século XVII. Estavam. desde as sete horas de Verão e oito de Inverno até ao final da manhã. eram obrigados a cobrir as cabeças em sinal de recolhimento e meditação.254 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS te inscritos nos discursos eram. não podiam acumular com outras funções dentro do tribunal. as insígnias e as composturas deviam contribuir. Ao mesmo tempo. por exemplo. só poderem fazer visitas uns aos outros. fundamentalmente. O acto que realizava e definia estas classificações era. Na presença do rei. como a prudência. as portas dos gabinetes eram fechadas e mesmo os escrivães só podiam entrar desde que chamados pelo toque das campainhas.

Coimbra. o tribunal tomava a iniciativa de solicitar novas informações referindo os reparos que foram feitos. críticas ao Desembargo do Paço por parte das câmaras. 16 Encontra-se referência a esta legislação em Joaquim Caetano Pereira e Sousa. exclusivamente. Repertório Gera. 1825. continuando a observar os acontecimentos. que a relação entre o Desembargo do Paço e a periferia foi uma relação fundada em realidades discursivas mediatizadas pelos corpus documentais produzidos pelos corregedores. uma forma de trabalho que se destinava a formar uma opinião meditada acerca das coisas sobre as quais os textos não se deviam equivocar. Clero ou Povo para serem ouvidos ou confrontados com opiniões favoráveis ou desfavoráveis. O Conselho não dispunha destes dispositivos nem. os magistrados régios obrigavam os vereadores e os procuradores a escutar a leitura. 1843. um trabalho sobre textos. em Manoel Fernandes Thomaz. podemos dizer. por vezes. Em circunstância alguma podiam ser presos. Em conclusão. Typographia Rollandiana. ou Índice Alphabetico das Leis Extravagantes. exclusivamente. fazia depender a confiança política nestes magistrados num qualquer fiscal das suas actividades. . sequer o imaginou como necessário e indispensável para velar pelo bom desempenho dos corregedores e. em voz alta. formação de comissões volantes para inspeccionarem as comarcas ou até a chamada ao tribunal de vereadores ou representantes da Nobreza. E nestes casos. Estavam isentos das responsabilidades recorrentes de sentenças injustas e não podiam dar consulta sobre mercês a parentes até ao quarto grau16.RELAÇÕES ENTRE O CENTRO E A PERIFERIA NO DISCURSO DO DESEMBARGADOR DO PAÇO 255 na cidade e a família fora. de certas passagens das Ordenações e dos Regimentos lidas pelo seu escrivão. regra geral. nem mesmo através de artifícios indirectos como podiam ser visitações às câmaras. muitos sem instrução para saberem ler e escrever. Por isso mesmo. Embora em menor escala. Theoretico. ou seja. etc. e Practico. abusos. a acção do Desembargo do Paço nunca se revestiu com carácter de indagação sobre a realidade política local com recurso a procedimentos de observação directa por parte dos desembargadores. o que é sempre referido são a falta de informação. Imprensa da Universidade. Lisboa. o ritual das audiências das câmaras decorria em ambientes semelhantes e. suspensos ou despedidos sem expressa autorização régia. Quando encontramos. Esboço de hum Diccionario Jurídico. testemunhos falsos ou preponderância de pareceres. em altura alguma. a este respeito. através dos documentos. ainda. E todo este trabalho realizado no Desembargo do Paço era. os corregedores queixavam-se da falta de cerimonial dos senados e da rusticidade dos vereadores. muito raramente. com raridade. ou. Com alguma frequência.

repartição do Alentejo e Algarve. até oito testemunhas”. miseráveis povoaçoens. Os vereadores normalmente acabam em juízes. E é verdade. o governo das câmaras estava confinado a uma corte provinciana e local cujas lógicas emparedavam os limites da autoridade régia e controlavam os efeitos de qualquer estratégia que pretendesse invadir a soberania que detinham sobre os seus territórios. os novos fundamentos ideológicos e políticos da segunda metade do século XVIII acabariam por interromper a influência absoluta dos teólogos e juristas da tradição do período do ius commune e atribuir o papel principal de governo aos políticos que se esforçavam por produzir modelos racionais de compreensão do social. e. naturais e indisponíveis à interpretação arbitrária da razão humana. 121-156. juntar “sete. cada vez com maior detalhe e expressão regional. de se legitimar em princípios que transcendiam a vontade dos homens. campo de manobra política para a acção dos corregedores. que o quadro doutrinário não vocacionava os corregedores para procedimentos que tivessem em vista desestruturar estas realidades18. Lisboa. passava a admitir a autonomia dos homens para se governarem. Desembargo do Paço. doc. também. que tem o titulo de Villa”. 199 . IV. História de Portugal. maço 800. pp. sendo que o último. Todavia. João Ferreira. apesar de outros dois candidatos terem tido mais votos17. 18 Ver síntese sobre os contornos dos modelos de representação em Ângela Barreto Xavier e António Manuel Hespanha. Como tem vindo a ser conhecido. e que o mesmo he irmão do actual vereador Leonardo Ferreira”.256 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS A nova centralidade pombalina Vila Flor que “he huma das mais piquenas. Círculo de Leitores. Ao contrário do complexo conhecimento das coisas “divinas” e “humanas” que pedia um governo com prudência e justiça para assegurar uma ordem capaz de cumprir o desígnio transcendental. apezar de haver pouco que deixou de guardar cabras. “tinha servido de Vereador. “A representação da sociedaded e do Poder”. A formulação dos novos enunciados discursivos deixava. o modelo de representação social fundado no indivíduo. Esta libertação da natureza e do social em relação ao divino produziu a possibilidade de o pensamento social se poder constituir como pensa- 17 Relato do corregedor de Portalegre (IAN/TT. . global da situação que se vivia na maior parte dos concelhos e que retirava. por esta via. dotado de vontade e de razão. com regras e leis de governação. efectivamente. na altura em que se procede à devassa da correição consegue-se. 5). com muito sacrifício. vol. tendencialmente. Este relato do corregedor de Portalegre expressa a imagem.

ou seja. aliás. Estes pressupostos significam. a este respeito. a reforma das vias de comunicação permitiria maior rapidez na comunicação. medido por resultados práticos. concomitantemente. também. o modelo de grande mobilidade aumenta o domínio do território por parte dos agentes do poder central que tenderão a diminuir a autonomia dos poderes locais. Do ponto de vista dos poderes centrais. por exemplo. acabaria por ser. Curioso que. ao deslocaram-se. doravante. no inverso. Um dos tópicos mais emblemáticos desta mudança de perspectiva é o continuado apelo às reformas dos meios de comunicação. criar doutrina sobre a ordem social mais adequada. evidentemente. Contudo. apresentação de inquéritos e relatórios capazes de mapearem e cartografarem os problemas da governação. nesta medida. E esta foi. de mais autoridade sobre as câmaras e os magistrados locais para poderem dar sentido político efectivo às suas presenças. também. aceleração na tomada de informações. imaginada por alguns magistrados tradicionais que recorreram para o Desembargo do Paço dispostos a distinguir pela positiva as vantagens . também. que os novos agentes do poder central. A razão passava agora a ser invocada para criar. alterando os condicionalismos da imobilidade onde se fundavam as particularidades locais para. o Erário Régio e as novas secretarias de estado que elegeram para os seus programas políticos a usurpação funcional dos poderes corporativos. A razão de tudo isto é. encanamento dos rios e melhoramento dos portos. a Intendência Geral da Polícia. manifesta porquanto numa situação em que a mobilidade política e social é de baixa intensidade. a mudança preconizada. construção de estradas. mais e mais rapidamente. também. à oportunidade das suas missões e ao bom desempenho dos cargos. na segunda metade do século XVIII. embora claramente sedutora para os políticos. os poderes locais tendem a autonomizar-se enquanto que. oficial encarregue de uma determinada área de governação com jurisdição plena mas disponível à vontade do príncipe. o modelo dominante continuou a ser o da legitimação pela tradição pelo que. permitir o movimento de pessoas e bens. a lógica da figura do intendente. criarem um dinamismo na governação e racionalização dos espaços e territórios. construir e não conformar. em contrapartida. Como. iremos assistir a abertura de conflitos entre o tribunal e outros organismos criados na matriz política como sejam. precisavam.RELAÇÕES ENTRE O CENTRO E A PERIFERIA NO DISCURSO DO DESEMBARGADOR DO PAÇO 257 mento político autónomo e. o melhoramento dos meios de comunicação tinha em vista. conservar. Do ponto de vista social. efectivamente. pelo menos. ver mais e ler menos. o domínio da observação sobre o do relato. os oficiais régios podiam aumentar as possibilidades da sua presença física directa impondo.

) Que todo o 19 6 de Novembro de 1787 (IAN/TT. curiosamente. . e que quanto ao Suprimento dos sobejos das Sizas. E afirmava. Chega mesmo a apresentar um plano para a construção e conservação das estradas a cargo de uma superintendência que procedesse.258 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS desta nova administração. talvez porque cada hum de per si não adquiria a gloria de ser util ao público. porém. como sejam o dos juízes de vintena. maço n. igualmente.º 340). onde não chegasse a dita imposição era igualmente do expediente desta Meza”. ao tombo das que existiam. para além de ser marcada pelo entusiasmo nos novos ventos de mudança uma vez que não se eximia a dizer que a “Ovra do efeito que tinham produzido as Superintências particulares em cada objecto. que olhassemos para o Reyno cheyo de Cameras e de Corregidores e que vissemos. Na sua proposta reconhecia. que se permitiu. promovia o Bem dos seus Vassalos” defender que era “Princípio certo que o Comércio interior do Reino era. que tais proposições “Concorriam igualmente ao bem do Estado na exportação e importação” o que não se verificava na comarca de Torres Vedras que “Estava ao abandono da sua Policia”.. É o caso. era necessário separar a sua jurisdição de uma intendência que reformasse as estradas. e quem augmentva o Real Erário” pelo que. acusando os poderes camários “Vista a tristíssima experiência de que os officiaes das Cameras já mais olhavam para obra alguma pública. no seu entender. Manuel Inácio da Mota e Silva19. M. Não deixando. por exemplo. confundindo-se esta no concurso de todo o Corpo”. ainda. o provedor encontrou como justificação para as suas ideias o facto destas “Providências parecia serem todas do Expediente desta Meza porque todas erão da Economia dos Povos.. com a ineficácia do corregimento. a importância dos pequenos poderes na relação com a autoridade do intendente. e senão. Ministério do Reino. inclusive. de ser um magistrado do Desembargo do Paço. E assimilava o efeito da mobilidade do comércio ao da virtude de um poder regional superior ao dos próprios corregedores. não só da sua provedoria mas das que se encontravam contíguas. Evidentemente que a proposta do provedor colocava um problema sério ao Desembargo do Paço que tinha a ver com a criação de um superintendente particular com poderes para intervir na esfera tradicional das competências das câmaras e dos corregedores. do provedor de Torres Vedras. mostrava a necesidade de se adoptarem. comparando-a. e sobre que a Camera podia fazer Postura guardada a forma da Ordenação do Reyno: Que isto pelo que respeitava a imposição sobre os carros. quem felicitava os Povos. se as Estradas se achavam praticáveis (. atendendo ao “Grande Espírito com que V.

o pólo de coordenação da nova centralidade para com as câmaras deslocou-se para a Secretaria de Estado dos Negócios do Reino que. devia ser tratado com muita Política prudencial. a assenhorear-se da tramitação burocrática do próprio tribunal com o monarca. o Erário Régio (22 de Dezembro de 1761) e a Intendência Geral da Polícia (25 de Julho de 1760). vol. Uma só cabeça. o provedor defendia uma política de centralização administrativa a nível regional e o arbítrio do superintendente para administrar com total liberdade. . dias conturbados durante a implantação do liberalismo. claro está. Lexicultura. pp. em que se necessitava do Socorro dos Povos. só remedios extraordinarios lhe convilhão” (o sublinhado é nosso). após a extinção do tribunal. estava criada uma outra administração que coabitaria com a do modelo tradicional em evidente ponto de ruptura. em que estavao as Estradas do Reyno. mas que no estado apoletico. mas que por hua só cabeça e que ella estabelleceria os braços. E. em crescendo. a de que o tribunal estava claramente contra a corrente do centralismo pombalino que advogava que a relação entre território e jurisdição. não fez seguir a consulta para despacho régio. 199-234. pela técnica de esvaziamento funcional 20 Ver síntese deste modelo em José Subtil. neste novo figurino e expediente político. sem dúvida. A partir de então. “Governo e Administração”. por o Desembargo do Paço concordar com o parecer e não atender às súplicas do seu provedor. que julgasse a propósito Que elle não avançava a que se tirasse às Cameras a economia que a ley lhe dava. como se depreendeu. entre os mais importantes. não coincida com as comunidades e com os limites dos poderes instalados teria que ser marcada pela implantação no terreno dos intendentes e superintendes com obediência directa às secretarias de estado e não ao Desembargo do Paço20. sobretudo. 2002. isto é. também. Lisboa. Escusado será dizer que o Procurador da Coroa foi contra esta fantasia do provedor ao dizer que as Ordenações já regulavam estes assuntos na competência das câmaras e dos corregedores acabando. História de Portugal. particularmente. a disponibilidade para que o espaço administrativo. Mas a Secretaria de Estado dos Negócios do Reino. a nível central como. A conclusão a retirar deste processo é. A estratégia de consumação dos poderes tradicionais passaria. VII. a aliança do tribunal e das câmaras contra estes novos funcionários mostrou a lenta agonia do modelo de liberalidade nas relações entre o centro e a periferia que teria.RELAÇÕES ENTRE O CENTRO E A PERIFERIA NO DISCURSO DO DESEMBARGADOR DO PAÇO 259 Objecto grande e público. entretanto criados. como que desautorizando o tribunal. Com o apoio de outros organismos. foi dando ordens aos corregedores e provedores sem informar o Desembargo do Paço passando.

As unidades orgânicas mais pequenas. os corregedores e os provedores. a perda da influência do Desembargo do Paço na comunicação política com as câmaras. Estampa.101-112 22 Sobre o disposto nestas reformas e as suas consequências na alteração do mapa político do Reino. aos seus pareceres e fundou-se. apenas. por outro lado. durante o período neo-pombalino liderado por José de Seabra da Silva (1784-1799). a que assegurou a comunicação política entre a Corte e o Reino. Nobreza e Povo deviam ser manifestas quanto às decisões tomadas para não se pôr em causa a justiça e o bem público. a abolição das ouvidorias. o tribunal e os seus os corregedores e/provedores tenderam a moderar. O discurso do Desembargo do Paço expressa e assinala. desempenhou. 21 Para uma síntese da reforma do governo pombalino ver José Subtil . ainda mais longe. um papel determinante na organização e composição destas unidades. As câmaras perceberam tanto o rodeio destas inovações como a intromissão da secretaria de estado nas suas jurisdições privativas21. 1998. Separando a acção destes magistrados no terreno da que estabeleciam com o Desembargo do Paço e referindo-nos. demarcação das comarcas (1790)22. ainda mais. Já no final do Antigo Regime. Actas do colóquio O Século XVIII e o Marquês de Pombal. O Modelo Espacial do estado Moderno. podemos dizer que. 2001. consultadas. praticamente. “A Reforma do Governo e da Administração (1750-1777)”. criação do Superintendente Geral das Estradas (1791) e incorporação do Correio-Mor na Coroa (1797). as alterações das relações entre a Corte e a periferia foram. essencialmente. em informações escritas preparadas pelos mesmos. também a proteger e a valorizar as suas opiniões quando eram. Conclusão Durante o Antigo Regime. de um modo geral. como freguesias e paróquias. amiudadamente. exclusivamente.260 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS do Desembargo do Paço e pelo afrontamento político. a nível local. mediatizavam a relação com o tribunal por intermédio do poder camarário que. pp. aos senados das câmaras através das magistraturas dos corregedores e provedores e foi. com a regulação das jurisdições dos donatários. câmaras de Pombal e Oeiras. regra geral. a relação do Desembargo do Paço com a periferia resumiu-se. Lisboa. ver Ana Cristina da Silva. Destas reformas resultaria. por um lado. o poder das câmaras mas. por esta via. . para o efeito. a esta última. As respostas do tribunal à actuação destes magistrados obedeceu. que as audições da Câmara.

O tribunal sentiu a mudança e a perda de autoridade mas não mudou. até à sua extinção (1833). pelo menos. como fundamental. a partir de meados do século XVIII. O surgimento de novos oficiais com competências para exercerem funções em áreas regionais que cobriam territórios de diversos concelhos e comarcas bem como o controlo da centralidade na comunicação com as comarcas e concelhos pelo Erário Régio. embora com outros contornos. Compreende-se. Afinal todos esperavam ganhar com este expediente ou. a manutenção dos privilégios e regalias consolidadas ou que. ao tribunal interessava-lhe. regularidades discursivas e habitus burocráticos que promovessem o direito como tecnologia de decisão. por isso. em assegurar tipologias. A questão do efectivo controlo da periferia pelo centro viria a ser assumida. A produção e reprodução dos mecanismos de dominação do centro à periferia consistiu. Mas estas actividades não enchem a documentação que chega ao tribunal. porém. o rumo tradicionalista pelo que.RELAÇÕES ENTRE O CENTRO E A PERIFERIA NO DISCURSO DO DESEMBARGADOR DO PAÇO 261 Outro terá sido. Intendência Geral da Polícia e. não perderem. o constrangimento do poder local. veio colocar problemas à autoridade do Desembargo do Paço. Ou seja. sobretudo. a importância que revestiu para o tribunal a nomeação e o controlo das suas carreiras de forma a garantir que os seus serviços promovessem a paz e evitassem a discórdia. o papel desempenhado pelos mesmos magistrados no domínio comarcal onde tinham de agir para resolver abusos da administração municipal como sugerem muito dos capítulos das correições já estudados. os poderes locais foram confrontados com duas centralidades (uma passiva. pela Secretaria de Estado dos Negócios do Reino. Entre esses problemas é de salientar a alteração das regras de intervenção política que passaram a considerar. outra activa) que concorrerem em conflitualidade pelo monopólio do poder. no essencial. das suas alterações. novamente. sobretudo. bem referenciada e assumida. uma das quais. outras estratégias e outras tecnologias de dominação que passaram por várias inovações. especialmente. . liberdade para governarem e mais território para intervirem. foi a da criação de condições para uma maior mobilidade dos agentes de poder régio. Estavam em causa outros problemas. não resultassem prejuízos graves para a ordem estabelecida. pela geração liberal.

gostaria de começar por agradecer ao CIDEHUS. Foi elaborado sem conhecimento dos textos finais dos restantes autores. à Câmara Municipal e à Biblioteca Municipal de Montemor-o-Novo o convite para participar neste encontro. o que é ainda mais importante. pelo que não incorpora eventuais modificações entretanto introduzidas nas versões escritas. mas também. mas também de maturação dos temas. Há muito mais estudos. podemos hoje verificar um enorme contraste que denota uma grande progressão e um amadurecimento desta área temática. em Reguengos de Monsaraz. Nova de Lisboa – FCSH – Dept. sobre poderes centrais e poderes periféricos numa perspectiva histórica. Em vez disso. sobre a necessidade de corrigir enviesamentos dos resultados obtidos. que muito facilitaram o êxito desta iniciativa. Sociologia Histórica) Antes de mais. . bem como a eficaz organização e o excelente acolhimento facultado aos participantes. Não sendo especialista na matéria. de diversidade de assuntos. em termos de orientações analíticas. pp. pesem embora incursões pontuais lançadas a partir de investigações centradas em outros domínios. Edições Colibri – CIDEHUS-UE. procurando reflectir as comunicações e as discussões. Sociologia / Instit. dificilmente este balanço poderia ser uma síntese competente da rica diversidade de informações e de pistas de trabalho deixadas pelas comunicações e pelos debates que tiveram lugar. tal como decorreram oralmente. no essencial. procurarei extrair e discutir os pon1 Este texto desenvolve. Se nos reportarmos ao encontro que teve lugar há uma dúzia de anos. Agradeço à organização do encontro o ter-me prontamente facultado as gravações das sessões. há muito mais pensamento e análise.Balanço final: Questões para uma sociologia histórica das instituições municipais1 RUI SANTOS (Univ. Por isso mesmo. também do ponto de vista académico. a comunicação de encerramento apresentada no encontro. também mais reflexão sobre o que ficou por fazer ao longo deste percurso. sobre novos problemas e novas hipóteses de resposta. Os Municípios no Portugal Moderno: dos forais manuelinos às reformas liberais Lisboa. 263-274. 2005.

Em primeiro lugar. São escassos os estudos longos. e pensar mais em termos de contrastes e de mudanças. o alargamento também da representatividade cronológica. . sem ilusões de exaustividade nem de imparcialidade do ponto de vista adoptado. que padece de uma excessiva concentração nos grandes municípios. e até da interferência de factores cientificamente espúrios. as omissões. terceiro. o que me pareceu ter ficado por tratar. 1. como a influência da contiguidade das áreas estudadas às implantações universitárias detectada por Francisco Ribeiro da Silva. Foi sobejamente notada por vários intervenientes a carência de investigação sobre casos anteriores ao século XVIII. fá-lo-ei a partir de uma perspectiva. o que me pareceu terem sido os grandes consensos emergentes das comunicações e das discussões. Em segundo lugar. destacou-se a necessidade de um alargamento da representatividade territorial. segundo. e têm-se generalizado para os séculos XVI e XVII imagens centradas no século XVIII.264 OS MUNICÍPIOS NO PORTIUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS tos que me parecem especialmente interessantes para a definição actual de problemáticas de investigação sobre o tema. o que me pareceu terem sido os pontos principais de ruptura e debate manifestos. especialmente no Continente. apesar de o considerar imprescindível numa agenda de investigação sobre as instituições municipais e as suas práticas no contexto do antigo regime. com vista a generalizações empírica e conceptualmente relevantes. Consensos Da perspectiva em que me coloco. mas ao mesmo tempo do carácter pouco estruturado dessa acumulação que coloca problemas de representatividade. os consensos mais interessantes revelados por este encontro relacionam-se com o diagnóstico de uma acumulação de estudos de caso – veja-se o rico inventário apresentado por Francisco Ribeiro da Silva – que denota grandes ganhos de conhecimento. de comparabilidade e portanto de síntese e generalização. Espero assim dar um contributo para a clarificação e o debate das muitas e interessantes questões levantadas no encontro. ancorada na sociologia histórica e como tal privilegiando a análise comparativa das configurações e das instituições sociais. bem como dos processos de reprodução e de mudança social. Abordarei consecutivamente três aspectos: primeiro. da falta de estudos sobre os municípios de fronteira e de áreas interiores. mas também a necessidade de os projectar na longa duração. e mesmo na fase final do antigo regime. a minha. embora práticos. sobre os pequenos municípios rurais. Inevitavelmente. Seria necessário alargar os horizontes cronológicos para aferir melhor as continuidades e descontinuidades.

Finalmente. que não fariam menos parte da vivência dos subordinados. Será necessária uma melhor caracterização. se as perguntas de investigação forem bem colocadas. existem corpos documentais nos próprios arquivos municipais onde alguma visibilidade pode ser recuperada. devido à transferência dessa documentação dos arquivos municipais para os tribunais durante as reformas liberais do sistema judicial. Um quarto alargamento de representatividade identificado foi a correcção do que poderíamos chamar o enviesamento sociológico salientado por José Viriato Capela. para além das fontes peticionárias e dos recursos para segunda instância. outra documentação largamente inexplorada. por vezes com surpreendente pormenor. como lembrou Teresa Fonseca. da resistência e do conflito – a que acrescentaria a anuência e a conformidade. alegações e contra-alegações. e nas oportunidades de acesso a status sociais conferidos por essas hierarquias enquanto vias de mobilidade ascendente para elites subalternas. em termos de exercício e de relação entre os poderes. o alargamento da representatividade institucional. Mas é inegavelmente do maior interesse historiográfico e.. Terceiro alargamento de representatividade. seleccionados e arquivados com que construímos as fontes. que José Subtil sublinhou. infracções e sanções. Desde logo. por exemplo) não revelam bem a capacidade de resistência das populações nas suas práticas quotidianas? Mas também. As posturas camarárias repetindo ad nauseam durante décadas a proibição desta ou daquela prática (como a de criar porcos pelas ruas da cidade. 265 não apenas de semelhanças – pese embora a estabilidade dos discursos jurídicos que moldavam as relações de poder no decurso do antigo regime. como os livros de coimas. os de licenças e os de fianças. é uma perspectiva que mais facilmente suscita interrogações do que respostas. por outro lado. avanços e recuos nas decisões camarárias em confronto com os administrados ficaram frequentemente registados. como apontou Nuno Monteiro. onde conflitos. as próprias actas de vereação. conterá provavelmente informação preciosa para este interrogatório. mas talvez parcialmente superável pelo estudo sistemático dos seus rastos nos processos depositados nos tribunais de segunda instância. dos fluxos da periferia para o centro e da influência . Dadas as assimetrias sociais dos actos discursivos escritos ou transcritos. Em primeiro lugar. ao menos em filigrana.BALANÇO FINAL: QUESTÕES PARA UMA SOCIOLOGIA HISTÓRICA. nomeadamente a carência de estudos sobre as instituições do ponto de vista dos administrados. o estudo da importância do funcionariado concelhio e do oficialato das ordenanças nas configurações efectivas de exercício do poder. o quase vazio do nosso conhecimento sobre as funções judiciais de primeira instância das câmaras.. o da hierarquia burocrática e militar dos concelhos: concretamente.

dos estudos sobre municípios senhoriais nos séculos XVI e XVII. Em geral. partilha. este último sugeriu como hipótese de trabalho a função dessa representação no tecer de uma consciência supra-local nos actores políticos locais. provedores e mesários das misericórdias). o Desembargo do Paço) e os agentes da Coroa. Uma segunda ordem de problemas tem a ver com as articulações entre a história das instituições e dos poderes locais e a história social. corregedores – e de outros poderes supra-municipais. sobre a esfera dos poderes municipais. como o Desembargo do Paço. como pólos de uma relação de concorrência. o da existência. as relações de colaboração. por outro. eventualmente parte de uma estratégia da Coroa para a consolidação da entidade política Reino. Debates Em articulação com o último ponto de consenso inventariado na secção anterior. Foi ainda bastante sublinhada. Importante também se torna caracterizar e operar com a distinção institucional entre municípios de jurisdição régia e de jurisdição senhorial – incluindo a ambiguidade de que a este respeito parecem revestir-se os municípios das ordens militares sob a alçada da Coroa. como ressalta da comunicação de Fernanda Olival –. concorrência ou conflito entre os poderes concelhios e outros poderes locais. as intendências e as secretarias de Estado. misericórdias como na comunicação de Laurinda Abreu e Rute Pardal) como de actores (juízes de vintena. senhoriais e supra-locais. foi constatada a necessidade de analisar mais sistematicamente a articulação. todos remetendo para as configurações e a variabilidade das relações inter-institucionais e para os modos de as abordar teoricamente: o das relações entre instâncias de diferentes escalas institucionais. párocos. tanto ao nível de instituições (freguesias. José Subtil questionou a oposição corrente entre as instituições centrais (nomeadamente. por um lado. podemos começar por reflectir em três problemas levantados para discussão nas intervenções. e os poderes locais. em várias intervenções. e para resumir. tendo sido salientado por Mafalda Soares da Cunha o panorama muito rarefeito. e o da coexistência e do conflito entre poderes municipais e senhoriais. ou não. como notaram Francisco Ribeiro da Silva e Pedro Cardim. a necessidade de serem mais consideradas unidades de análise infra-municipais e não-municipais. Tal oposição fundamenta-se nas tensões de poder pela decisão . 2. em parte por problemas de fontes. através da representação em cortes.266 OS MUNICÍPIOS NO PORTIUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS dos municípios na política da Coroa. reciprocamente. de instituições e de acção política de escala regional. Várias intervenções questionaram a acção dos agentes da Coroa – provedores.

de uma tensão entre o centro e a periferia. o Desembargo do Paço. desde finais do século XVII. mas entre discursos e agentes tradicionais e “modernos” no próprio centro. estáveis e reciprocamente previsíveis. como conceptualizar um dispositivo institucional assente na execução e na apreciação de “actos linguísticos” procedendo à total elisão da autonomia. no quadro do discurso jurídico tradicional assente nas categorias de justiça e de graça. na arquitectura tradicional de poderes do Antigo Regime as várias instâncias eram organicamente complementares. e minando a estrutura e os equilíbrios de poder do antigo regime.. sobrepondo-se como diferentes camadas com lógicas de funcionamento próprias. fiscalizadores e fiscalizados.. pondo em causa as instituições tradicionais. de novos discursos (o administrativo. De acordo com esta perspectiva.. etc. e pela crescente intromissão em torno desses novos objectos de agentes da Coroa externos à ordem tradicional e que escapavam à sua lógica discursiva (secretarias de Estado. nomeadamente. primeira instância e instâncias de recurso. como um dos vectores de uma crise do municipalismo. A mudança das relações centro-periferia em fins do antigo regime teria antes que ser entendida pela emergência. instigando ao estudo das intervenções e (des)articulações destes poderes. relativa que seja. De facto. em todo o caso intérpretes)? À parte esta dúvida teórico-metodológica. não sem levantar reservas o apelo à passagem de uma análise centrada nos actores para uma outra centrada nos discursos. O problema fica em aberto. o económico e o financeiro) que escapavam à lógica do discurso jurídico tradicional inventando novos objectos. Não se trataria. decerto variáveis em função das suas posições. receptores. não teria uma estratégia de intervenção sobre os poderes locais. o autor propôs repor o problema a partir de um ângulo diferente.BALANÇO FINAL: QUESTÕES PARA UMA SOCIOLOGIA HISTÓRICA. dos actores (emissores. parece-me um problema especialmente estimulante para uma sociologia política do antigo regime – suspeito que o seu interesse poderá transcender muito a fase final daquele –. que anularia a acção voluntária sob um modelo decisório tradicional completamente formatado pelo discurso jurídico. o de perspectivar as relações entre poderes centrais e periféricos à luz das tensões institucionais . e invoca mudanças da relação centro-periferia em finais do antigo regime por efeito de um reforço das instituições e dos actores políticos centrais. deslocando-o de uma lógica dos actores e das “vontades” – subjacente à noção de concorrência – para uma lógica dos discursos. dos seus capitais sociais e culturais. apenas interviria quando a ordem local era perturbada. Na sua comunicação. intendências). encobrindo e legitimando processos de decisão que decorrem de margens de liberdade dos actores. assim. Os discursos normativos podem ser apropriados como recursos da acção. 267 jurídica legítima entre poderes centrais e poderes periféricos. tanto locais como centrais.

a homo- . Este questionamento apresenta as indiscutíveis virtudes de pôr na primeira linha do debate sobre o municípios os processos de mudança social e institucional de finais do antigo regime. Parte dos argumentos aduzidos por José Viriato Capela referem-se.268 OS MUNICÍPIOS NO PORTIUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS no centro. No entanto. No plano das configurações espaciais. da hierarquização e da racionalização político-institucionais. se não regionais. na detenção trans-municipal de propriedades ou de direitos. de forma não problematizada. ao menos “regionalizantes”. nomeadamente por efeito da legislação pombalina e mariana no sentido da concentração. económicas e sociais tendiam por sua vez a criar fortes homogeneidades. funções e recursos nos grandes municípios que assim teriam acentuado o seu peso relativo e constituído pólos. estas tendências teriam levado a uma crise dos pequenos municípios – que seria a expressão fundamental da chamada crise do municipalismo – e a uma concentração de poderes. as funções. nas redes familiares supra-municipais das gentes da governança. Esse questionamento permitiria talvez equacionar melhor a questão. de facto. as hierarquias inter-municipais na agenda da investigação sobre a história local poderá certamente trazer perspectivas de articulação em espaços mais amplos. referida pela mesma autora. a sua aparente contradição com o apoio dos oficiais da Coroa à acção anti-senhorial dos municípios na época pombalina. numa lógica de acção política. e elucidar. Por um lado. e de obrigar a transcender o quadro fortemente localizado e por assim dizer auto-contido de grande parte da historiografia municipal. Salientou as dinâmicas políticas que favoreceram fortes homogeneidades regionais. duas definições teoricamente distintas: a região como recorte definido pela homogeneidade ou pela polarização (que implica heterogeneidade e dominação). levantada no debate por Margarida Sobral Neto. e de empreendimentos de desenvolvimento regional envolvendo os recursos de múltiplos concelhos. da contextualização dos discursos iluministas anti-municipais que fundamentam a ideia de uma crise do municipalismo no final do século XVIII. Resumindo. não só do ponto de vista institucional como também do social (pensemos nas eventuais relações entre mobilidade social e mobilidade geográfica. José Viriato Capela contestou a tese do carácter a-regional ou mesmo anti-regional do município moderno. variável capacidade de gestão dos fluxos económicos inter-concelhios). Colocar mais decididamente as relações. particularmente no século XVIII. porque nesta discussão coexistem. cujos poderes e privilégios lhes confeririam verdadeiras tutelas sobre territórios cujas configurações físicas. apenas para dar alguns exemplos) e do económico (hierarquias de mercados. merecem mais reflexão algumas ambiguidades em torno da operacionalização do conceito de região.

Outra parte refere-se. de resto nem sempre correlacionadas (como é o caso dos municípios de fronteira. seja a diferenciação entre concelhos com juiz de fora e com juiz ordinário. não correrá o risco de confundir. Por outro lado. característica geopolítica que intersecta muitas outras de diferentes índoles). ora as continuidades de características territoriais relativamente homogéneas. Hierarquias que induziriam polarizações de dominação política do território. seja a dotação de grandes municípios com sedes de instituições com importantes poderes supra-municipais (como no caso do Porto com a Real Companhia. que realmente definiriam a escala regional no plano político? Se a crise dos municípios na segunda metade do século XVIII é sobretudo perceptível nos pequenos municípios. com acréscimo do peso relativo dos grandes municípios mas sem mudança da sua escala de acção institucional. e sendo o problema do carácter regional ou a-regional dos municípios de natureza essencialmente política. Os poderes senhoriais. da manutenção do bem comum e do bom governo dos povos.. A exacção das rendas . ou de Coimbra com a Universidade. e faziam-no em proveito próprio. ora as consequências de âmbito supra-municipal da implantação e da actuação dos grandes municípios. e que seriam bem complementadas pela polarização mais estritamente económica do peso dos mercados das grandes cidades nas suas áreas de influência. sem dimensão nem recursos para desempenhar as funções que lhes foram atribuídas pelas reformas políticas. 269 geneidades territoriais criadoras de semelhanças sócio-institucionais. a hierarquias de poderes entre municípios. pela apropriação do território e dos recursos económicos. mas não beneficiários de obras promovidas pela Coroa. tinham efectivo interesse e capacidade de colocar bloqueios e constrangimentos à autonomia das câmaras. com a existência de identidades.BALANÇO FINAL: QUESTÕES PARA UMA SOCIOLOGIA HISTÓRICA. corpos e mecanismos de poder ou de representação intermédios entre o município e o reino. ou entre os municípios beneficiários e os envolventes contribuintes.. o da concorrência e conflito institucional. a que poderíamos acrescentar Lisboa com a Corte e os seus privilégios de abastecimento). diversamente. tipo ideal de algum modo subsidiário da ideia de domínio oligárquico dos municípios). ou pouco interesse em interferir com a esfera de autonomia dos concelhos) e de controle funcional (os poderes senhoriais exerciam um controle político “moderador” sobre a actuação das câmaras. não deveria falar-se de um aumento da hierarquização. mais do que de um carácter regional daqueles? No que respeita à relação entre os poderes municipais e os poderes senhoriais. Margarida Sobral Neto contrapôs aos tipos ideais que poderíamos denominar de domínio senhorial limitado (os poderes senhoriais tinham escassa capacidade. no sentido da redução do arbítrio. em concorrência pelo exercício do poder.

da reprodução e da mobilidade sociais. esta posição enferma ela mesma de uma fragilidade teórica. da estratificação. como tem feito em escritos passados. impedindo a capacidade de governação camarária e o desempenho das funções municipais na provisão de bens públicos. Passando por cima das questões de terminologia (na realidade. empobreciam os concelhos. dos melhores). já que um tal carácter tautológico remete tão-só para a dimensão normativa da cultura política. Nuno Monteiro sustentou. tanto territorial como conjuntural ou mesmo situacional. quer a diversidade e o peso relativo dos direitos senhoriais exercidos pelas casas (por contraste com direitos de propriedade). devido ao carácter “natural” da governação oligárquica no quadro da cultura política do antigo regime: a governação era por definição uma responsabilidade dos maiores numa hierarquia de honra e nobreza. haverá aqui a distinguir. Encerrarei esta secção do texto com uma recapitulação crítica dessas propostas. mais genericamente. a ver com a relação da história dos municípios e das instituições locais com os problemas e conceitos da história social. que é em parte semântica e em parte substantiva. deixando de lado a sua tradução nas práticas sociais e políticas. A segunda grande temática em debate tem. Se não presumirmos que a relação entre normas e práticas sociais é transparente e imediata. quer a interferência de privilégios jurisdicionais como os de juízo privativo. ao passo que os privilégios jurisdicionais subvertiam a jurisdição camarária de primeira instância. dada a definição caberia mais falar de uma aristocracia.270 OS MUNICÍPIOS NO PORTIUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS senhoriais e as isenções de coimas ou de taxas camarárias. teoricamente pouco profícuo. então há que verificar “no terreno” não só a hipotética dominância do modo de governo oligárquico decorrente da pauta nor- . mais do que teoricamente contraditórios. em torno da caracterização dos grupos detentores do poderes locais como elites ou como oligarquias. que a conceptualização em torno do conceito de oligarquia resulta tautológico e. que não eram especificamente senhoriais. reflectem situações-tipo não generalizáveis e cuja variabilidade. tendo proliferado em fins do antigo regime entre um variado tipo de instituições. nem que as hierarquias adscritivas codificadas em normas são fixas e se aplicam exaustivamente nas situações e nos processos sociais – ambas premissas sociologicamente insustentáveis –. Como decorreu da discussão. as intervenções no debate deram a entender que os três tipos ideais. nomeadamente. ambos por Nuno Monteiro: a discussão. carece ela própria de investigação e de explicação comparativa. Na realidade. por isso. particularmente em torno da história social das elites e. como disse. Dois temas foram levantados a este respeito. e a proposta de transformação da análise predominantemente institucional dos municípios pela sua subsunção numa problemática da história social das elites locais.

da distribuição social das oportunidades de acesso ao poder. que retomarei abaixo). É na análise histórica de processos deste tipo que radica a associação dos conceitos de oligarquia e de oligarquização das instituições municipais às teses sobre a cristalização e o bloqueio da estrutura social do antigo regime. não sendo por isso teoricamente alternativos. A questão que verdadeiramente interessa colocar é a de qual o valor analítico e hermenêutico de oligarquia e elite como conceitos de análise histórica e sociológica. Deste ponto de vista. releva da teoria da estratificação social.. toma como unidades de análise entidades políticas e remete para um modo de governo e de exercício do poder. remetendo para a definição de grupos que ocupam o topo de múltiplas dimensões de diferenciação e de hierarquização de status. 271 mativa. no espaço e no tempo. pelos actores e pelos grupos (o que de resto me parece convergir com a sua segunda proposta. então tem cabimento teórico a análise de processos de oligarquização. e para a análise dos processos e mecanismos sociais pelos quais esses grupos se constituem. embora relacionados. pode haver variações nas fronteiras sociais de acesso aos lugares de poder (na definição dos maiores). etc. por seu turno. bem como as lutas em seu torno: em suma. Denota a restrição do status de governante aos maiores. cuja validade empírica no contexto do antigo regime é evidentemente muito discutível. mais do que a designação de um grupo ou de um conjunto de grupos sociais (pese embora a vulgarização do seu uso neste último sentido. mais ou menos correlacionadas entre si. porventura mais livre de conotações ideológicas e de juízos de valor implícitos do que o de oligarquia (ou tão-só portador de ideologias e de valores . se diferenciam e reproduzem (ou não) o seu status. Podendo ser usado com conotações normativas.BALANÇO FINAL: QUESTÕES PARA UMA SOCIOLOGIA HISTÓRICA. como as variações. As unidades de análise são aqui os grupos sociais e os indivíduos. O conceito de elite. famílias. e podem variar segundo as escalas de observação.. creio que os dois conceitos recobrem campos de aplicação distintos. verificar e explicar histórica e sociologicamente as apropriações e interpretações da pauta normativa pelas instituições. casas. dentro dos cânones de uma governação de tipo oligárquico. que os compõem. é no entanto um conceito fundamentalmente descritivo. Mas se admitirmos que. pela imposição de parâmetros de diferenciação mais exclusivos e/ou redução das probabilidades de mobilidade para o seu interior). podendo por isso assumir conotações ideológicas por oposição a ideais de governação municipal democrática. no sentido de fechamento social da estrutura de oportunidades de acesso aos cargos de poder político (estreitamento social do grupo dos maiores legitimamente elegíveis. cabendo talvez delimitar as circunstâncias em que será teoricamente preferível designá-los como processos de aristocratização. tal como aconteceu ao de aristocracia). O conceito de oligarquia releva da teoria política.

por exemplo. segundo o qual cada novo estudo sujeito a este “fetichismo” pouco acaba por acrescentar ao que já se sabia. exemplos nas comunicações de Mafalda Soares da Cunha e de Teresa Fonseca). Nuno Monteiro propôs também uma descentração daquilo a que apelidou de “fetichismo” das instituições locais. por isso. em favor da abordagem unilateral da sua função como instrumentos de mobilidade social (ou de defesa contra ela). nesta escala de observação. quando este é usado para designar o grupo detentor do poder e não a forma de governo. necessário reinventar a problemática. agregação de casos isolados. Se na realidade há rendimentos marginais decrescentes. tal dever-se-á mais ao paradoxo já sugerido de uma “acumulação não cumulativa” (i. Mas o interesse inegável desta problematização não deve fazer esquecer o questionamento específico das realidades políticas e administrativas enquanto tais. mas como disse acima. numa duração multi-geracional. à escala local. nem validade comparativa numa análise das dinâmicas sociais e políticas. distribuindo posições de destaque relativamente a diferentes grupos de referência. nem unidade analítica do ponto de vista processual. que lugar representavam as instituições locais – entre outros meios de mobilidade ou de defesa da posição social – nas metas e nas trajectórias sociais das elites locais. Dada a diversidade das dimensões de classificação social e dos grupos de referência relativamente aos quais os actores se posicionam. na sua dimensão política e administrativa formal. cargos que uma categoria social enjeita são definidores de uma posição de elite e de oportunidades de mobilidade social para outras categorias sociais (cf. a vantagem de obrigar a pluralizar. O remédio . apenas um ângulo analítico distinto e mais amplo. sem critérios de comparabilidade ou organizados em torno de categorias teoricamente pouco profícuas) e ao efeito contínuo e não corrigido das tendências de enviesamento identificadas acima.272 OS MUNICÍPIOS NO PORTIUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS hoje mais consensuais?). nem ainda potencialidade explicativa. Pergunta. À imagem homogénea de uma oligarquia. através do alargamento da perspectiva para uma história das elites locais. O facto de esses processos poderem ser protagonizados.e. como meio de ultrapassar uma espécie de efeito ricardiano dos rendimentos marginais decrescentes. relativamente a fenómenos de estruturação social mais amplos. Passando ao segundo tema. elegendo as casas ou famílias como unidades de análise. por actores provenientes de diferentes categorias sociais não lhes retira. do que resulta uma deriva interessante e enriquecedora a partir de um interrogatório ancorado na história social. não o substitui. Mas isto não é contraditório com a noção de processo de oligarquização. o conceito de elite tem sobre o de oligarquia. onde. Seria. substitui-se a de uma estrutura de oportunidades estratificada..

Em primeiro lugar.. Trata-se de temas que se diria serem estruturantes e que. 273 estará mais na negociação científica de uma agenda. Não deveria ser esse o desafio a lançar por um evento que comecei por caracterizar como de amadurecimento da área temática? 3. quando referidos. e não como objectos específicos de estudo ou sequer de problematização. decerto em coexistência ou em concorrência com outras pertenças ou reivindicações identitárias. por outro. ou ficaram de todo omissos. . funções de provisão de bens públicos que Margarida Sobral Neto brevemente mencionou na sua comunicação – quer enquanto reguladoras e fiscalizadoras.. decerto o da mobilidade e da reprodução das elites –. quer directamente enquanto produtoras – de património edificado. investido de significado. entretecido com instituições e com rotinas sociais. Pouco ou nada sabemos sobre o eventual exercício desse poder simbólico pelas instituições municipais e sobre a sua eficiência. reprodutoras ou cristalizadoras de identidades sociais simbolicamente representadas por atributos de pertença: a um espaço geográfico. Omissões Num encontro muito marcado pela relação e pelas tensões entre as perspectivas institucional-política. edificado e funcionalmente diferenciado. mas sim no de espaço socialmente marcado e apropriado. os conceitos. Não tendo sido objecto de reflexão no encontro. a um povo do concelho. de vias de circulação. foram flagrantes três ausências. não no sentido administrativo. a um nome. paisagem no sentido clássico da geografia humana. Refiro-me aqui a território. por um lado. a questão das actividades de produção e apropriação de território e de paisagem. a questão das instituições municipais como produtoras. os problemas – entre os quais.BALANÇO FINAL: QUESTÕES PARA UMA SOCIOLOGIA HISTÓRICA.. ou. o foram de forma lateral e incidental. Em segundo lugar. não procurarei aqui dar-lhes um desenvolvimento que resultaria marginal aos resultados substantivos que se verificaram. um termo. uma vila ou cidade. etc. Actividades em que as instituições municipais detinham um papel fundamental. o que permitirá encerrar este balanço final numa nota de desafio. de investigação comparativa assentes em modelos analíticos explícitos que definam as lacunas. ou agendas. a um conjunto de símbolos edificados. e das hierarquias e mobilidades sociais. Limitar-me-ei a inventariar brevemente essas omissões. território no sentido sociológico. bem como os referentes espaciais e cronológicos que permitam transcender o âmbito local dos somatórios de conclusões e eventualmente reinterpretar o que já foi feito para trás. as dimensões e os indicadores.

mormente se pensarmos que foi em grande parte em torno dela que se definiu o discurso iluminista sobre as “vexações” aos povos e os entraves ao progresso alegadamente protagonizados pelos governos municipais.274 OS MUNICÍPIOS NO PORTIUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Finalmente. enquanto jurisdições de primeira instância. impostos e coimas. nas matrizes problemáticas que foram seminais deste campo de estudos. as trocas e os actores legítimos. . sancionam direitos de propriedade. públicos e privados. e redefinem conjunturalmente essa legitimidade. que através das concessões de licenças e da exigência de fianças intervêm nas actividades económicas. O estudo das práticas económicas concretas na esfera local – a exemplo do trabalho empírico pormenorizado apresentado por Laurinda Abreu e Rute Pardal sobre uma outra instituição – é uma dimensão crucial da sociologia económica do antigo regime. sob formas e com pesos variáveis. Agentes que gerem recursos económicos próprios. Não exclusiva. creio que seria interessante. e contratos. que dentro dos seus territórios definem quais são os mercados. também por ser o tema que me interessa mais. Estando estas dimensões inscritas. mas como instituições de enquadramento ou agentes activos nos mercados locais e regionais. e provêem (ou sonegam) bens públicos. em equilíbrios de poder variáveis com outros agentes. nem essencialmente como legisladores. a questão das actividades de intervenção económica directa e de regulação económica das instituições municipais. que intervêm nos mercados fazendo uso das suas prerrogativas. os preços e a circulação. não só recuperá-las. que. para manipular as ofertas de bens. arrematam rendas. mas também interrogar reflexivamente os modos de fazer história que têm vindo a conduzir à sua perda.

pt . de Artes Gráficas Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa Alameda da Universidade 1600-214 LISBOA Tel.Colof.pt colibri@edi-colibri./Fax: 21 796 40 38 www.qxd 06-07-2011 23:39 PÆgina 275 Colibri – Soc.edi-colibri.