OS MUNICÍPIOS

DOS

NO

PORTUGAL MODERNO

FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS

Colecção: BIBLIOTECA – ESTUDOS & COLÓQUIOS (Direcção: CIDEHUS.UE)
1. Diplomacia & Guerra: Política Externa e Política de Defesa em Portugal. Do final da Monarquia ao Marcelismo – Actas do I Ciclo de Conferências FERNANDO MARTINS (ed.) 2. Elites e Redes Clientelares na Idade Média: Problemas Metodológicos FILIPE THEMUDO BARATA (ed.) 3. Indústria e Conflito no Meio Rural: Os Mineiros Alentejanos (1858-1938) PAULO GUIMARÃES 4. Causas de Morte no Século XX: A transição da mortalidade e estruturas de causa de morte em Portugal Continental MARIA DA GRAÇA DAVID DE MORAIS 5. Concepções de História e de Ensino de História – Um Estudo no Alentejo OLGA MAGALHÃES 6. Elites e Poder. A Crise do Sistema Liberal em Portugal e Espanha (1918-1931) = = Elites y Poder. La Crisis del Sistema Liberal en Portugal y España (1918-1931) MANUEL BAIÔA (ed.) 7. D. Pedro de Meneses e a construção da Casa de Vila Real (1415-1437) NUNO SILVA CAMPOS 8. História e Relações Internacionais. Temas e debates LUÍS NUNO RODRIGUES e FERNANDO MARTINS (ED.) 9. Igreja, Caridade e Assistência na Península Ibérica (Sécs. XVI-XVIII) LAURINDA ABREU (ed.) 10. Os Municípios no Portugal Moderno: dos forais manuelinos à reformas liberais MAFALDA SOARES DA CUNHA e TERESA FONSECA (ed.)

Colecção: FONTES & INVENTÁRIOS (Direcção: CIDEHUS.UE) I. Série GAZETAS (Direcção: CHC-UNL e CIDEHUS.UE)
1. Gazetas Manuscritas da Biblioteca Pública de Évora. Vol. I (1729-1731) JOÃO LUÍS LISBOA; TIAGO C. P. DOS REIS MIRANDA; FERNANDA OLIVAL 2. Gazetas Manuscritas da Biblioteca Pública de Évora. Vol. II (1732-1734) JOÃO LUÍS LISBOA; TIAGO C. P. DOS REIS MIRANDA; FERNANDA OLIVAL

II. Série GERAL (Direcção: CIDEHUS.UE)
1. António Henriques da Silveira e as «Memórias analíticas da vila de Estremoz» TERESA FONSECA

Mafalda Soares da Cunha Teresa Fonseca (Ed.)

OS MUNICÍPIOS
DOS

NO

PORTUGAL MODERNO

FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS

Edições Colibri
CIDEHUS / UE – Centro Interdisciplinar de História, Culturas e Sociedades da Universidade de Évora

BIBLIOTECA NACIONAL – CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO Os municípios no Portugal Moderno : dos forais manuelinos às reformas liberais. - ed. Mafalda Soares da Cunha, Teresa Fonseca. - (Biblioteca - estudos & colóquios ; 10) ISBN 972-772-526-0 I - Cunha, Mafalda Soares da, 1960II - Fonseca, Teresa, 1950CDU 352 94(469)"15/17"(042.3)

TÍTULO ED. EDITOR EDIÇÃO PAGINAÇÃO CAPA DEP. LEGAL

Os Municípios no Portugal Moderno: Dos forais manuelinos às reformas liberais Mafalda Soares da Cunha e Teresa Fonseca Fernando Mão de Ferro Edições Colibri e CIDEHUS-UE Albertino Calamote
TVM Designers 220 656/05

Lisboa

Maio 2005

Índice
Introdução .................................................................................... Francisco Ribeiro da Silva (FL-UP) Historiografia dos municípios portugueses (séculos XVI e XVII) .......... José Viriato Capela (Univ. Minho) Administração local e municipal portuguesa do século XVIII às reformas liberais (Alguns tópicos da sua historiografia e nova História) .... Nuno Gonçalo Monteiro (ICS-UL) Sociologia das elites locais (séculos XVII-XVIII). Uma breve reflexão historiográfica ................................................................................ Teresa Fonseca (CIDEHUS.UE) O funcionalismo camarário no Antigo Regime. Sociologia e práticas administrativas .............................................................................. Mafalda Soares da Cunha (CIDEHUS.UE) Relações de poder, patrocínio e conflitualidade. Senhorios e municípios (século XVI-1640) ................................................................... Fernanda Olival (CIDEHUS.UE) As Ordens Militares e o poder local: problemas e perspectivas de estudo ............................................................................................ Laurinda Abreu (CIDEHUS.UE) Câmaras e Misericórdias. Relações políticas e institucionais ............... Rute Pardal (CIDEHUS.UE) As relações entre as Câmaras e as Misericórdias: exemplos de comunicação política e institucional ........................................................ Margarida Sobral Neto (FL-UC) Senhorios e concelhos na época moderna: relações entre dois poderes concorrentes ................................................................................... Pedro Cardim (FCSH-UNL) Entre o centro e as periferias. A assembleia de Cortes e a dinâmica política da época moderna ..............................................................
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..................................... XVII-XVIII) ........... 243 263 ........................................................ Rui Santos (FCSH-UNL) Balanço final: Questões para uma sociologia histórica das instituições municipais ..6 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS José Manuel Subtil (Inst...... Politécnico Viana do Castelo/UAL) As relações entre o centro e a periferia no discurso do Desembargo do Paço (Sécs......................................

E para o CIDEHUS. .Introdução O colóquio Os municípios no Portugal Moderno. Dos Forais Manuelinos às Reformas Liberais ocorrido na cidade de Montemor-o-Novo a 6 e 7 de Novembro de 2003. constituiu uma iniciativa conjunta da Câmara Municipal de Montemor-o-Novo e do Centro Interdisciplinar de História. possibilitou a caracterização da sociologia e das práticas político-administrativas em diferentes contextos espaciais. contribuindo assim para aprofundar o conhecimento das especificidades regionais. E o confronto de perspectivas de análise e dos diferentes casos estudados. a colaboração com a autarquia montemorense representou uma possibilidade de realização de um evento de particular interesse científico fora do âmbito académico. O evento afirmou-se ainda como uma excelente oportunidade de reflexão sobre o municipalismo português. Permitiu efectuar o ponto da situação da historiografia relativa ao tema. Sancho I e os 500 anos da atribuição do foral de D. que nesse ano comemorou em simultâneo os 800 anos da concessão do foral de D. Manuel I. A sua realização revestiu-se de particular significado para Montemor-o-Novo. através de abordagens respeitantes às suas diversas vertentes. Culturas e Sociedades (CIDEHUS) da Universidade de Évora. abarcando deste modo um auditório mais vasto e diversificado. nomeadamente as do Sul do país.

foram defendidos em provas públicas e permanecem inéditos. 2005. para além da pesquisa em catálogos de bibliotecas. no terceiro tentarei um ponto da situação dos estudos sobre concelhos e administração municipal. pp. no segundo. Para ser executado cabalmente. Para tal não dispus de tempo e. em listas bibliográficas contidas nas obras da especialidade e na web.ª Teresa Fonseca – o de fazer o ponto da situação da bibliografia portuguesa sobre concelhos e administração municipal referente aos séculos XVI e XVII – é muito mais difícil do que o que parece. I – Fontes Publicadas Num primeiro desenvolvimento pareceu-me oportuno fazer uma digressão pelo panorama das fontes impressas. Edições Colibri – CIDEHUS-UE. ensaiarei uma resenha das fontes publicadas. considerarei os trabalhos sobre forais manuelinos. 9-37. por isso. Os Municípios no Portugal Moderno: dos forais manuelinos às reformas liberais Lisboa. a matéria que me foi dada para estudo pode ser tratada e encarada sob diversas perspectivas e ângulos de observação. Posta em causa a inventariação total por ser praticamente impossível.Historiografia dos Municípios Portugueses (séculos XVI e XVII) FRANCISCO RIBEIRO DA SILVA (Universidade do Porto – Faculdade de Letras) Introdução O desafio que me foi proposto pela Prof. Entendi dividir o tratamento dos trabalhos conhecidos em três grandes pacotes: no primeiro. provavelmente vão ficar fora das minhas considerações estudos e trabalhos dos quais não tive notícia. . deveria ter-me levado às Faculdades e Institutos de investigação para fazer o levantamento das teses de mestrado e outros trabalhos que têm sido escritos.

1819. outra as provisões e cartas régias que não abrangem senão uma cidade. São sobretudo as normas. códigos e leis. farei referência às fontes que alcançam todo o Reino. em edição facsimilada do texto impresso por Valentim Fernandes em 1504. Lisboa. de que destacámos: Para o século XVI – Duarte Nunes de Leão. os alvarás válidos para todo o espaço nacional. – França. é necessário distinguir os tipos de fontes e a sua diversa natureza. – Leys e provisões que el-rei Dom Sebastião nosso Senhor fez depois que começou a governar. per mandado do muito alto e muito poderoso Rei Dom Sebastião Nosso Senhor. Collecção Chronologica de leis extravagantes. 1569 Para o século XVII – José Justino de Andrade e Silva. outra as correições ou sentenças relativas a um certo Concelho.. F. Imprensa da Universidade. vilas e lugares destes reinos. Collecção Chronologica da Legislação Portugueza.. Mesmo assim arriscarei na esperança de que a minha lista seja o começo de uma recolha que irá engrossar com o contributo de outros até se tornar exaustiva.. da C. Mas as dificuldades para uma inventariação útil e completa são muitas. outra ainda os capítulos particulares e gerais levados a Cortes. aparecida em Lisboa em 1955 por iniciativa do professor Marcelo Caetano sob os auspícios da Fundação da Casa de Bragança. Foram-me úteis e por isso aqui deixo notícia do: – Regimento dos oficiais das cidades. antigos e novos. 1854-56. É uma dívida de gratidão para com esses beneméritos que nunca é demais realçar.. Não será temerário da minha parte tentar um inventário? É com toda a certeza. Lisboa. embora mais dia menos dia se torne indispensável aprender e calcorrear assiduamente os caminhos dos Arquivos. Francisco Correa. Uma coisa são as leis ou normas gerais como as Ordenações do Reino. os regimentos régios.. 1570. a correspondência ou os forais. Para além das Ordenações Manuelinas e Filipinas. Coimbra. Leis Extravagantes collegidas e relatadas pelo licenciado . Quem sabe se de imediato as sugestões dos presentes não a irão completar? Numa primeira análise de fundo geográfico.. .. Uma coisa são as Actas de uma determinada Câmara. lembraremos as colecções de legislação. Lisboa. é possível recorrer a bons materiais que outros investigadores foram pondo à disposição dos vindouros em letra de imprensa. compiladas por.10 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS É sempre importante para quem se inicia nos segredos de Clio saber que. Antes de mais. uma vila ou um concelho.

Mappa chronologico das leis e mais disposições de direito portuguez.HISTORIOGRAFIA DOS MUNICÍPIOS PORTUGUESES (SÉCULOS XVI e XVII) 11 – Manoel Fernandes Thomaz.s 1 a 4. Fundação Rei Afonso Henriques. VI. Coimbra. ou Indice Alphabetico das Leis extravagantes do Reino de Portugal. As terras que dispõem de fontes históricas impressas (para o nosso período) são imensas: Sobre Lisboa – Eduardo Freire de Oliveira. 1815. publicadas depois das Ordenações. há que referir as fontes dirigidas às localidades (que. – Manuel Borges Carneiro. com um suplemento. s/d. Filipe II de Espanha Rei de Portugal (Colecção de documentos filipinos guardados em Arquivos Portugueses). Lisboa.. 2 tomos. Dizem respeito à época aqui considerada os vol. 1962 – Góis. Lisboa. 1953-1961 Privilégios dos cidadãos da cidade do Porto. Porto. interessam-nos os vol. trad. de Virgílio Correia. 1914-1915 Livro 1. 1937. Damião de. – Documentos do Arquivo Histórico da Câmara Municipal de Lisboa. Repertorio Geral.1938-1952 Livro 2. Lisboa. de Raul Machado. Imprensa da Universidade. 2 vols. cujos títulos são respectivamente os seguintes: Livro da Contenda entre a Cidade e o Conde de Penaguiam.. Elementos para a História do Município de Lisboa. 1947-1948. – E já agora (perdoe-se a publicidade) de Francisco Ribeiro da Silva. ed. Sobre o Porto – Corpus Codicum Latinorum et Portugalensium.. 1926. Porto. Descrição de Lisboa. Câmara Municipal. Lisboa. às vezes inesperadamente ultrapassam a dimensão local).s III a V. publicadas desde 1603 ate 1817. Lisboa de Quinhentos. 1818. Porto. – Livro do lançamento e serviço (1565). Livros de Reis. Zamora. Porto. Lisboa. Para além das fontes impressas de abrangência geral. – Livro dos Regimentos dos officiaes mecanicos da mui nobre e sempre leal cidade de Lixboa (1572).º das Chapas. 1878 . Poderíamos incluir aqui os muitos Regimentos que foram publicados em colectâneas ou isoladamente.. 1882-1889. Livraria Avelar Machado. Coimbra.º das Chapas.

(Capítulos de Cortes) Sobre Coimbra – José Branquinho de Carvalho. 1941. da Rocha. Guimarães.12 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS – Guimarães. mas sendo constituída por resumos de actas e de outros documentos municipais que. O livro dos Acordos de 1534. 1956 – Alexandre de Lucena e Vale. Viseu. esta obra em rigor não é uma publicação de fontes. – Alexandre de Lucena e Vale. Livro 2. 1943. Aveiro. 1559/82» in Bracara Augusta. XVI. 1955. 1953. Viseu. (Na verdade. 1984. 1605-1692. Administração Seiscentista do Município Vimaranense. 1948 Sobre Aveiro – Madail. vol. Viseu. «Acordos e Vreações da Câmara de Braga no Episcopado de D. XXIII. Imprensa Nacional-Casa da Moeda.G. António Augusto Ferreira da. Porto. Coimbra. Notícia e índice do livro de registos da Câmara de Aveiro 1581-1792 in «Arquivo do Distrito de Aveiro». Fernando. sem prejuízo de abaixo poder ser retomada). Tratado da cidade de Portalegre. provisões e alvarás régios registados na Câmara de Coimbra 1275-1754). decidimos metê-la aqui.º da Correia (Cartas. . Imprensa Nacional Casa da Moeda. Câmara Municipal. Lisboa. Documentos Históricos da Cidade de Évora. 1955. int. Lisboa. Câmara Municipal. – Cruz. Subsídios para a sua História. de Leonel Cardoso Martins. 1970-1990. Diogo Pereira. Sobre Viseu (Do mesmo modo e por maioria de razão entendemos colocar neste elenco os trabalhos que seguem) – Alexandre de Lucena e Vale. vol. Um século de administração municipal. permanecem muito próximos dos originais. Viseu. 1998 Sobre Braga – Frei António do Rosário. embora elaborados com mérito pelo seu Autor.s XX-XL Braga. Sobre Portalegre – Sotto Maior. A. Subsídios para a sua História. Frei Bartolomeu dos Mártires. O Porto na Restauração. Sobre Guimarães – Alberto Vieira Braga. O Porto seiscentista. 1967. Índice do livro dos acordos do séc. Porto. Sobre Évora – Gabriel Pereira.

é bom não esquecer que muitos historiadores e estudiosos conservam o bom hábito de publicar documentos em anexo aos seus trabalhos. 2000. 1987. o Catálogo e História dos Bispos do Porto de D. Viagem da Catholica Real Magestade del-Rey D. revista. 1971. Biblioteca Pública Municipal. Para além destas. Lisboa. ed. S. Esposende. 2002 – Luís Francisco Cardoso de Sousa Mello publicou um Tombo do Registo Geral da Câmara Municipal do Funchal na «Arquivo Histórico da Madeira». Sobre Bragança e Trás-os-Montes – Alves. Funchal. CEHA. Posturas municipais de Esposende – séculos XVII a XIX. Livro dos Acordos da Câmara de Aveiro de 1580. N. o Anacrisis historial de Manuel Pereira de Novais ou as descrições de viagens como o livro de João Baptista Lavanha. Memórias Arqueológico-históricas do Distrito de Bragança. vol. Porto. pela sua antiguidade. Haverá por certo outros volumes contendo fontes. Vereações da Câmara Municipal do Funchal – primeira metade do século XVI. Doutor João de. Vereações da Câmara Municipal do Funchal – segunda metade do século XVI. Loulé. Aspectos do Reino do Algarve nos séculos XVI e XVII. ao Reyno de Portugal. Aveiro. – Barros. Sobre as Ilhas – Funchal – José Pereira da Costa. CEHA. A descrição de Alexandre Massaii (1621). Porto. Actas das Vereações de Loulé.HISTORIOGRAFIA DOS MUNICÍPIOS PORTUGUESES (SÉCULOS XVI e XVII) 13 – Neves. 1998 – José Pereira da Costa. Filipe II. Francisco Manuel. Subsídio para o estudo da vida municipal e nacional portuguesa. 1919. por exemplo. – Duarte. convém não perder de vista certos textos de narrativa histórica que. Ou os escritos de Manuel Severim de Faria. Sobre Loulé. acabaram por se converter em fontes. Rodrigo da Cunha. etc. Abade de Baçal. 1972-1974. Câmara Municipal. Mas desses nunca será possível uma memória exaustiva. João Alberto. 1988.s XV-XVIII. Afrontamento. Sobre Esposende – Manuel Albino Penteado Neiva. Luís Miguel e Machado. Estão neste caso. Por outro lado. Lívio da Costa. s.n. . Geografia d’antre Douro e Minho e Trás-os-Montes. Boletim do Arquivo Histórico Militar. Francisco Ferreira. 1984 Sobre o Algarve em geral – Guedes. Funchal.

Mais do que confirmar ou reafirmar expressamente capacidades de intervenção das autoridades concelhias. Onde é que entravam os concelhos? No seguinte: é que os lavradores e foreiros. A questão é esta: fará algum sentido introduzir o tema dos forais numa comunicação sobre a historiografia do municipalismo português? Julgamos que sim. Dito de outra forma: D. através dos Procuradores dos Concelhos. Manuel nem na letra nem no espírito tocam nas estruturas tradicionais da administração concelhia nem mexem nas competências governativas dos oficiais municipais.14 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Como em tudo. o historiador terá que ter bem apurado o seu sentido crítico para se dar conta de que uns autores merecem mais crédito do que outros. Vejamos: a questão da reforma dos forais punha-se no objectivo e no propósito de resolver bem uma relação triangular que se mostrava progressivamente mais difícil entre os lavradores e foreiros de um lado. os forais manuelinos pressupõem-nas. Foi às Cortes quatrocentistas e quinhentistas que. ao contrário do que se possa pensar. apesar de não ignorar que muitos deles não foram dados a concelhos mas a territórios mais amplos a que se chamava Terras. precisamos estar de sobreaviso. embora trabalhassem a terra individualmente ou em família. Mas mesmo que apenas os concelhos em sentido estrito tivessem sido contemplados. Longe disso. mas apenas a apoiar logisticamente as inquirições preparatórias e a servirem de guardiães e fiéis depositários do documento final. Os forais de D. a relação entre os forais manuelinos (é a esses que nos reportamos) e os concelhos é marcada mais por ambiguidades do que por cumplicidades aprofundadas. os donatários e senhores das terras por outro e o Rei-árbitro no cume do processo. os concelhos não são chamados para arbitrarem o que quer que seja nas matérias a introduzir nos forais manuelinos. II – Forais É sabido que os concelhos se ufanam muito dos seus forais e quase se pode dizer que está na moda a sua publicação. Com efeito. chegaram as reclamações e protestos dos . Manuel não aproveitou a reforma dos forais para reforçar os poderes concelhios. que englobavam ou podiam englobar mais que um concelho: exemplos terra da Feira ou de Ovar. agrupavam-se em comunidades pequenas ou grandes inseridas e integradas em concelhos (ou elas próprias eram concelhos) cujos oficiais eram os porta-vozes das queixas e os Paços do Concelho a câmara de ressonância das mesmas. É que.

era o Rei que surgia através de peritos de grande competência e prestígio institucional por ele próprio nomeados. pode dizer-se que nos últimos tempos o estudos dos forais tem merecido a assinalada atenção dos historiadores que podemos caracterizar e fasear. Situo nesse enquadramento o ensaio de Marcelo Caetano. Embora muito desfasado no tempo. antroponímia. competindo aos Juízes e Vereadores conservá-lo em bom estado. para além de conservarem informações preciosas sobre toponímia. Évora. embora seja a pensar nessa circunstância que acima caracterizei de ambígua a relação entre os forais e os concelhos. direitos e costumes tradicionais. A Igreja quando estava presente fazia mais o papel de senhorio do que o de porta-voz dos foreiros. Os Forais de Évora. Terminava aqui a relação do Concelho com o Foral? Não. Resta saber se oficiais rudes e analfabetos.º 8. o terceiro confiava-se à guarda do Concelho. Manuel. sob pena de repreensão ou mesmo de punição por parte do Corregedor na sua correição anual. ainda que um pouco artificialmente. n. faz as suas inquirições encontrando-se com a população em quadro municipal porque não havia outro com força representativa e capacidade de mobilização das pessoas. 1967. teriam coragem e força para punir senhorios todos poderosos como. os Condes da Feira! Mas essa é outra questão. outro fica na posse do poder central. do seguinte modo: A – Um primeiro tempo de análise da reforma dos forais no conjunto da governação de D. E quando Fernão de Pina vai pelo Reino recolher elementos para proceder à correcta reforma dos forais. por exemplo. vintaneiros ou até quadrilheiros. Daí que os estudos sobre os forais se possam inserir numa visão genérica da historiografia municipal. guardando-se no sítio próprio que era a Torre do Tombo e como era impensável fornecer um exemplar a cada foreiro. E quando chegava o momento da decisão. Posto isto. enquadro nesta lógica de interpretação global o tão breve quanto perspicaz ponto de vista . como seriam estes em grande percentagem. Outra razão para tal é que os forais podem fornecer elementos subsidiários para o estudo das relações de poder dentro de um determinado espaço. porque o mesmo foral previa mecanismos de punição do senhorio que abusasse ou levasse mais direitos do que os consagrados no diploma. mantém-se o triângulo na sua distribuição ou encaminhamento: um exemplar é entregue ao senhorio. E depois de elaborado e escrito o foral.HISTORIOGRAFIA DOS MUNICÍPIOS PORTUGUESES (SÉCULOS XVI e XVII) 15 lavradores explorados. E quem é que aplicava essas penas? São exactamente oficiais locais de eleição ou confirmação concelhia: juízes. publicado no Boletim Cultural da Junta Distrital de Évora.

Lisboa. – Fonseca. estudo histórico de Manuela Santos Silva. de Maria Filomena Andrade.. 2. apesar do esforço desenvolvido para que tal não aconteça. Imprensa régia. 1990. Coimbra. 2000. 1999. glossário de Maria do Rosário Morujão. pp. direcção introd. s. A primeira fase remonta ao clima de exaltação patriótica que se viveu nos inícios da década de 40 do século XX. surgiu o trabalho gigantesco de Luís Fernando de Carvalho Dias.. Eis a bibliografia que pude coligir. 1940. normalmente com o apoio e o interesse das Câmaras Municipais. Academia das Ciências. Creio ser esse o tempo em que nos encontrámos o qual remonta aos fins da década de oitenta do século passado. C – Sucedeu-se. Pinto Loureiro.ª ed. 5 vols. Provavelmente haverá omissões. Dissertação histórica. e revisão científica de Maria Helena Cruz Coelho. Lisboa. estudo e transcrição de. – Forais de Silves. (III. 1961-1965. de análise interna e de publicação textual facsimilada.. III da História de Portugal dirigida por José Mattoso. entre 1961 e 1965. Forais manuelinos da cidade e termo do Porto existentes no Arquivo Municipal. Os forais manuelinos – 1497-1520. edição do autor. Câmara Municipal de Arraiolos.. jurídica e económica sobre a reforma dos forais no reinado do senhor D. 1825. 1993. – Foral (O) da Ericeira no arquivo-museu. 171-174) Essa tradição remonta ao século XIX tendo expressão nos textos de – João Pedro Ribeiro. Guarda. 1940 e António Augusto Ferreira da Cruz. direcção. Câmara Municipal. Enquadro nesse contexto os trabalhos de J. Forais de Coimbra. Biblioteca Municipal. Jorge. – Chorão. – Forais e foros da Guarda. Manuel. Câmara Municipal. Lisboa. um tempo que é simultaneamente de enquadramento histórico.. Memoria para servir de índice dos foraes das terras do Reino de Portugal e seus domínios. Mais tarde. B – A um tempo de análise sucedeu o tempo de publicação dos textos dos forais. Câmara Municipal. coord. e de – Francisco Nunes Franklin. de Margarida Garcez Ventura. O Foral Manuelino de Arraiolos. introd. Forais manuelinos do reino de Portugal e do Algarve conforme o exemplar do Arquivo Nacional da Torre do Tombo. Maria José Mexia Bigotte. 1993. Porto. 1812. Colibri. ainda que não sob o mesmo impulso. se não cronológica ao menos logicamente.16 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS assinado por Margarida Sobral Neto no vol.. Silves. . Lisboa.l. IANTT.

ed. Câmara Municipal. – Santos. Os Forais de Melgaço. – Silva. apresentação de Maria Calado. Sociedade Martins Sarmento. – Martins.. ed. – Marques. introdução. 1991. Francisco Ribeiro da. pp. 1989. ed. 1991. 1998. 1994. n. Francisco Ribeiro da e Garcia. II série. Porto. 1991 – Marques. fac-similada. Margarida Sobral da Silva. «O Foral de Cambra e a Reforma manuelina dos forais» in Revista da Faculdade de Letras. transcrição de Maria Teresa Nobre Veloso. História. pp. «Os forais manuelinos da Comarca da Estremadura» in Revista de Ciências Históricas. Os forais manuelinos do Porto e do seu termo. Câmara Municipal. 195-222. Lisboa. Os Forais de Barcelos. Coimbra. Câmara Municipal. V. Nuno Gonçalo. «O Foral manuelino da Terra de Paiva: uma preciosidade patrimonial» in Poligrafia. Câmara Municipal. Manuel. José.º 3. Os contrastes regionais segundo o inquérito de 1824. pp. introd. Câmara Municipal. Leiria.. Arouca. de Inês Morais Viegas.. Abrantes. Coimbra. 1994. 2003. Os forais da Póvoa de Varzim e de Rates. Guimarães. Porto. – Foral de Besteiros. de Eduardo Campos.. 2001. Montemor-o-Novo. 1998. transcrição e notas de. – Neto. Câmara Municipal.HISTORIOGRAFIA DOS MUNICÍPIOS PORTUGUESES (SÉCULOS XVI e XVII) 17 – Foral concedido a Abrantes por D. de Carlos Santarém Andrade. Póvoa de Varzim. 1989.. ISCTE. – Silva. vol. – Foral de Guimarães-1517. vol. fac-similada. 255-267. – Foral de Coimbra de 1516. – Silva. 2001. Montemor-o-Novo Quinhentista e o foral manuelino. transcrição e notas de. – Silva. «O foral manuelino de Ansião» in Actas do II Colóquio sobre História de Leiria e da sua região. Jorge/Branco. Cláudia Valle/Fonseca. 1992. .. 161-186. As cartas de Couto do Mosteiro de Arouca. 1986 (mimeo). VI. Arquivo da Universidade. Manuel em 10 de Abril de 1518. Sintra. José Manuel. Manuela Alcina Oliveira e Mata. Forais e regime senhorial. Joel Silva Ferreira. Lisboa. VI. Câmara Municipal. introdução. vol. ed... José. – Marques. José. 2000. 2003. II vol. Filomeno. Barcelos. ed.. – Foral manuelino de Lisboa. – Monteiro. 1995. Lisboa. Arouca. 1990. Câmara Municipal. – Foral de Colares. Francisco Ribeiro da..71-90 e vol. INAPA. estudo de Nuno Campos. Câmara Municipal. Os Forais do Burgo e de Arouca. IV (1989) pp. Melgaço. de.

notas sobre antroponímia e toponímia. Como o título indica. Câmara Municipal. Os forais manuelinos de Alvito e Vila Nova da Baronia. forais e senhorialismo. Felgueiras. Livro dos foraes novos da comarqua de Trallos Montes. Eu próprio ensaiei. Santa Maria da Feira. da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro que em 1998 defendeu uma tese de doutoramento (de que tive a honra de ser co-orientador). ed. Os Forais manuelinos da Terra de Ovar e do Concelho de Pereira Jusã. . – Silva. em 1999. enquadramento histórico e análise estatístico-linguística. senão com sucesso ao menos com grande autosatisfação. – Silva. 1989. D – Há ainda um quarto momento que foi inaugurado por Maria Olinda Rodrigues Santana. Câmara Municipal.º 6. estrutura formal e divisões internas. uma matéria que atravessa muitos forais manuelinos. 2000. as regras de uso e partilha dos meios de produção. – Valério. glossário dos termos utilizados. Dezembro 1994. publicado em parte pelo Editor de Mirandela. n. tratou-se de combinar e cruzar cientificamente o estudo da história e do direito foraleiro com o tratamento linguístico do texto.º 47/48. as relações foraleiras entre lavradores e senhorios. João António. introdução e estudo de…. Alvito. 4 vols. Edição. 8-28. de que resultou um artigo a que chamei A pesca e os pescadores na rede dos forais manuelinos e foi publicado na revista «Oceanos».18 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS – Silva. etc. Francisco Ribeiro da. Apliquei a mesma metodologia ao estudo sobre o peso do sal nos forais manuelinos. a propriedade e o uso da terra. Francisco Ribeiro da. Manuel I à Vila da Feira e Terra de Santa Maria a 10 de Fevereiro de 1514. Ovar. estudo comparado e leitura. 1996 Que temas em concreto é possível colher e apreender nestas publicações? Aspectos históricos e histórico-jurídicos dos forais. n. Foi necessário examinar todos. sobretudo das terras banhadas por rios. Câmara Municipal. ano 2. «O Foral manuelino de Felgueiras: um marco histórico da identidade da Terra e das Gentes» in Felgueiras – Cidade. Mas são possíveis e desejáveis estudos transversais. pp. Lisboa. Francisco Ribeiro da. João Azevedo. Julho-Dezembro 2001. facsimilada do original. os foros e o seu significado económicosocial. não só os do litoral onde era suposto encontrar as informações que procurava mas também os do interior. O Foral dado por D. UTAD (policopiado) 1998..

Gostaria antes de mais de começar esse balanço por duas ou três notas que nascem da observação da realidade actual do panorama lusitano: 1 – A sensibilização do Ensino Superior para estas matérias Começarei por constatar uma realidade e me congratular com ela: todos os cursos de História das Faculdades de Letras têm dedicado atenção e inserido os estudos sobre História Local e Regional nas suas ofertas de pós-graduação. «administração». mais próprio para amadores desocupados do que para universitários. «município». revelam-nos que sendo 39 o número total das comunicações publicadas. algumas de grande mérito e utilidade. De uma ou outra tive eu próprio oportunidade de ser arguente ou orientador.HISTORIOGRAFIA DOS MUNICÍPIOS PORTUGUESES (SÉCULOS XVI e XVII) 19 III – Estudos sobre os Concelhos e a Administração Municipal Não são muito numerosos os estudos directos e exclusivos sobre os concelhos portugueses nos séculos XVI e XVII. De norte a sul têm sido elaboradas. discutidas e às vezes publicadas teses. apenas 10 se dedicaram em todo ou em parte aos séculos referidos. alguns de conteúdo muito vago face ao tema que nos foi sugerido. sítio da Biblioteca Nacional. As pesquisas que levamos a cabo na web. orientado por Laurinda Abreu. é possível apresentar aqui um ponto da situação que pode ser também uma espécie de balanço. sendo bastante mais abundantes os dedicados ao século XVIII e aos finais do Antigo Regime. E não só nas Faculdades de Letras e não apenas nas Universidades Públicas. As elites de Évora ao tempo da dominação filipina: estratégias de controle do poder local (1580-1640). O caso mais recente de arguição foi precisamente na Universidade de Évora. Como se pudesse haver verdadeira e séria História Nacional ou Geral sem o contributo das monografias dos espaços mais . De qualquer modo. Por outro lado. umas quantas sobre os séculos XVI e XVII. directa ou indirectamente. nomeadamente ao nível dos mestrados e até dos doutoramentos nos quais o tema do municipalismo é assíduo. utilizando palavras-chave lógicas tais como «concelhos». «municipal» ou «elites» indicaram-nos cerca de 30 títulos. Provavelmente esta será uma tendência geral da historiografia portuguesa e não apenas da historiografia sobre o municipalismo. Sinal do renovado interesse pelos estudos locais e regionais e talvez do desaparecimento do preconceito de que a História Local era um assunto menor. onde tive oportunidade de apreciar o trabalho de Rute Maria Lopes Pardal. as Actas do Congresso sobre o Município no Mundo Português realizado na Madeira em Outubro de 1998 que reuniu a maior parte dos investigadores que em Portugal (e no Brasil) se dedicam a estes temas.

são consagradas algumas páginas aos concelhos e ao «país profundo» de que destaco os seguintes aspectos: evolução relativa das áreas regionais. O exemplo dos forais acima lembrado é elucidativo. A. pelo apoio que têm dado a publicações sobre a terra. Alfa. Também por esta via pode ser frutuosa a colaboração das Universidades com as Câmaras Municipais. começando pela de A.1983). Assuntos estudados Quanto aos assuntos estudados. Quanto às Histórias de Portugal. Nem sempre o que move os autarcas é o puro e desinteressado interesse científico. lugar que cada um dos concelhos ocupava na hierarquia dos bancos de Cortes. Nem tem que ser. do desaparecimento das particularidades locais no período que nos ocupa. Por isso. de Oliveira Marques (a de 1972 e a «Breve» mais recente) – embora não se demorando muito no que toca à administração municipal neste período. A História de Portugal dirigida por Hermano José Saraiva no seu vol. aqui e ali. mostravam sinais de decadência. distinguirei por um lado os estudos de âmbito geral. dialéctica entre a centralização e as pretensões autonómicas dos concelhos. nos quais incluo as Histórias de Portugal e outros estudos de síntese e por outro as monografias e estudos locais e regionais específicos. tocam os séculos XVI e XVII. Um outro dado a reter (ao qual não é a primeira vez que faço menção) é o progressivo interesse das Câmaras pelos estudos municipais.20 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS pequenos e das micro-instituições ou como se entre uma e outras se pudessem estabelecer diferenças abissais de metodologia e de objecto. Quanto à História de Portugal de Joaquim Veríssimo Serrão. em capítulo assinado por J. em cada um dos 3 volumes que. em contraste com a metrópole onde. no conjunto. segundo aquele eminente historiador. incidência da legislação central sobre a vida quotidiana dos municípios. (Lisboa. especialmente no Brasil onde as Câmaras adquiriram enorme importância. não serei eu a criticar quando da convergência dos interesses dos historiadores e estudiosos e dos governantes dessa terra resultam jornadas de divulgação e edições de livros. promoção de vilas a cidades. força progressiva dos mesteres. algo enigmática. 4.H. A única nota que vale a pena realçar é a afirmação. como se pode concluir dos repetidos colóquios e congressos sobre o poder local que têm patrocinado. tem o mérito de chamar a atenção para a importância da implantação dos concelhos nas Ilhas Atlânticas e nas «conquistas» ultramarinas. Nogueira dedica pouco mais de meia página ao assunto da divisão administrativa do Reino. com o suporte científico das Universidades e. . representação dos Concelhos em Cortes. funções administrativas dos mesmos.

dedica-se um subcapítulo de 30 páginas aos Concelhos e às Comunidades. procura sintetizar nessas três dezenas de páginas os estudos publicados em Portugal sobre administração municipal. abrange um período que vai de 1620 a 1807. de entre a bibliografia disponível. para além de alusões avulsas aos concelhos ao longo do volume. O vol. 406-412). O autor. Romero de Magalhães parte de D. 56-68) ao tema dos concelhos. sobre o processo eleitoral e. a segunda é a de que o poder em Portugal é a-regional e anti-regional. discorre sobre o binómio poder central/poder local. num longo desenvolvimento sobre a Arquitectura dos Poderes que. dedica algumas páginas às instituições concelhias e ao seu governo. sobre o Antigo Regime. Nuno Gonçalo Monteiro. V coordenado por João Alves Dias. sobre competências próprias e delegações de poderes. no volume dedicado ao Alvorecer da Modernidade. pelo que se indica no título genérico do volume. Manuel cuja política interna analisa. coordenado por Joaquim Romero de Magalhães. assinadas por Maria Paula Marçal Lourenço. H. os aspectos que mais substantivos lhes parecem. pp.HISTORIOGRAFIA DOS MUNICÍPIOS PORTUGUESES (SÉCULOS XVI e XVII) 21 A História de Portugal dirigida por José Mattoso. Mesmo resumida. Duas ideias fortes de Romero de Magalhães devem ser destacadas. A obrigação de síntese a que os Autores são constrangidos e provavelmente o plano geral do Coordenador leva-os a seleccionarem. consagra 8 páginas (pp. Lisboa. na pressuposição já referida de Romero de Magalhães de que «o poder em Portugal é arregional ou anti-regional» e que o papel principal pertenceu à oligarquia dos homens bons (texto de José Adelino Maltez. coordenado por António Manuel Hespanha. consagra algumas linhas aos Concelhos ultramarinos. Nelas . VII da mesma Nova História de Portugal (Lisboa. sem que isso signifique concordância ou discordância da nossa parte: a primeira é a de que cada unidade administrativa era completamente independente em relação às vizinhas. a matéria dos concelhos nesta História é relativamente abundante. 2001) coordenado por Avelino de Freitas de Meneses. 1998). integradas num longo capítulo sobre os equilíbrios sociais do poder. de Oliveira Marques – vol. Em concreto. Por sua vez. tal como Oliveira Marques. oferecendo-se uma série de temas sugestivos que poderão proporcionar inspiração para ulteriores desenvolvimentos: – Instituições e poderes locais – Câmaras e ordenanças – centro e periferia – instrumentos de fiscalização do centro – A hipotética viragem da segunda metade do século XVIII – As repúblicas municipais – governo económico local e finanças locais – poderes municipais e elites locais – entre oligarquia e comunidade A Nova História de Portugal (direcção de Joel Serrão e A. consagra 10 páginas aos Concelhos. no volume seguinte.

sugestivo e inovador. Há algum desequilíbrio entre o espaço concedido ao Antigo Regime (isto é. Embora se encontre nesta obra alguma coisa de comum com o capítulo que o Autor escreveu na História de Portugal.s XIX e XX do que para o Antigo Regime. Ana Cristina Nogueira da Silva. . coordenador e principal autor1 dedica aos séculos XVI e XVII. Paulo Jorge Fernandes. não é fácil estabelecer ao certo a percentagem de páginas que. é muito mais profundo. Além disso. na minha opinião.dir. fazendo alarde de boa capacidade de síntese. Paulo Silveira e Sousa e Mafalda Soares da Cunha). Compreende-se que assim seja não só pelo número potencial de leitores interessados como também pela bibliografia disponível: muito mais abundante para os séc. dos Corregedores das Comarcas e dos Juízes de Fora e a problemática da centralização versus autonomia. nesta obra. na 1. Nuno Gonçalo Monteiro. Quanto a trabalhos gerais sobre o Municipalismo na época moderna. Basta lembrar os títulos dos principais capítulos para evocar os conteúdos: 1 Com a colaboração pontual de Isabel dos Guimarães Sá. VIII da mesma Nova História de Portugal – em vias de publicação. A progressiva influência do Corregedor em prejuízo das outras duas magistraturas (Juízes de Fora e Provedores).22 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS a autora. dedicado aos finais do Antigo Regime no subcapítulo escrito por mim próprio – tratará da administração municipal numa perspectiva predominantemente institucional: – As divisões do território e o seu significado – As leis reformistas dos finais da época moderna e a sua incidência na administração municipal – A importância dos Provedores. Nem isso é importante e se aludo aqui a tal é apenas porque a minha comunicação trata dos séculos XVI e XVII.s XV-XIX – cerca de 175 páginas) e o conferido aos séculos XIX e XX (mais de 400 páginas). utilizando com habilidade e originalidade boa parte da bibliografia conhecida. 1996. Círculo de Leitores. desenvolve dois itens: a «administração central periférica e os poderes delegados» e ainda «o poder absoluto e as cortes». séc. José Vicente Serrão. Lisboa. coordenado por Luís A de Oliveira Ramos. – Estruturas fundamentais da administração municipal e funções dos oficiais camarários e dos magistrados régios em relação aos serviços prestados e ao correcto ordenamento da vida quotidiana – Os oficiais das freguesias e aldeias.ª parte. sublinharemos o interesse da História dos Municípios e do Poder Local. (Dos finais da Idade Média à União Europeia). O vol. de César de Oliveira.

Ponte de Lima. Santarém. Vila do Conde. Mas não apenas relativos a essas cidades: também Portimão. pode dizer-se que existem trabalhos valiosos dedicados a muitas cidades. pela inovação que introduz. o local e o inexistente regional – O espaço político e social local. 1972. não poderemos deixar de lado uma tese de doutoramento que justamente tem constituído uma trabalho sempre citado. uns artigos e ensaios de ambição moderada. Depois e para além disso. Esta obra constitui.HISTORIOGRAFIA DOS MUNICÍPIOS PORTUGUESES (SÉCULOS XVI e XVII) 23 – A sociedade local e os seus protagonistas em que louvavelmente desce até às paróquias – O central. CEFA. Refiro-me a António Manuel Hespanha e à sua obra As vésperas do Leviathan. o longo capítulo da Arqueologia do Poder e a sua visão integrada do poder político-administrativo em Portugal na época moderna. Não me parece que deva enveredar aqui pela análise de pormenor dos textos que se debruçaram sobre terras determinadas. Em Portugal continental.. Aveiro. Viseu. Em ambos os arquipélagos a apetência por estas matérias está em crescendo. E de entre o conjunto do trabalho emerge para nós. Évora.. portanto. No entanto. tanto dos Açores como da Madeira. Lisboa. Esposende. . Refiro-me a António de Oliveira. Guimarães. Coimbra. há todo um acervo de obras de índole local no seu objectivo imediato ainda que possam conter sugestões metodológicas de largo alcance e até de valor universal. através de instituições de investigação como o Instituto Histórico da Ilha Terceira ou o Centro de Estudos de História do Atlântico que nos últimos anos promoveu dois Congressos sobre o municipalismo e já prepara o terceiro. Almedina. na qual desempenha papel de relevo o que ele chama a administração periférica da Coroa. Dentro das obras de âmbito geral. Lousã. Braga. Coimbra. e quantas outras. Notas de história social. Viana do Castelo têm sido objecto de vários estudos. 1986). 2 vols. há uma que me marcou desde muito cedo. Há também que dar a devida importância ao incremento dos estudos sobre o municipalismo nas Ilhas.. A vida económica e social de Coimbra de 1537 a 1640. Porto. Instituições e Poder Político (Coimbra. de Maria Helena Coelho e Joaquim Romero de Magalhães (Coimbra. Não deverei passar à frente sem uma breve alusão a um texto-síntese muito citado e esgotadíssimo – O Poder concelhio das origens às Cortes Constituintes. outros teses e obras de maior fôlego. uma referência obrigatória para quem estuda o municipalismo em Portugal. 1994). especialmente àquelas onde existem Estudos Superiores: (continuo a ater-me aos séculos XVI e XVII).

recenseamento dos moradores.24 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Rasgou caminhos e incentivou trabalhos de outros. organização da defesa. quantas vezes atribuídos pelo poder central à inércia das Câmaras. As ordenanças. No tempo em que o Prof. profissões. embora não fosse seu interesse imediato assumido o enquadramento institucional e administrativo ele não podia ser ignorado. questões de saúde e da higiene. Têm tido lugar aqui os estudos sobre movimentos sociais e tumultos. actividades económicas. • As actividades mesteirais e o controlo possível exercido pelas administrações municipais. propriedade da terra. O problema da ordem pública. A • participação cívica dos cidadãos e da plebe. ao ter escolhido uma cidade e o seu aro como objecto da sua dissertação de doutoramento. Parece. ter aberto caminhos com futuro para a história local e regional. Sistemas de organização fiscal e pessoal envolvido. o primado da história económica e social era indiscutível e intocável. Basta ler o seu primeiro longo capítulo sobre circunscrições administrativas e jurisdição municipal para se perceber o alcance destas matérias no conjunto do seu excelente e pioneiro trabalho. diversificação e funcionamento das instituições e seus suportes materiais como os edifícios dos Paços do Concelho e Arquivo. por conseguinte. mais interessante e útil revisitar os conteúdos dos trabalhos académicos que ultimamente têm sido publicados. . dividiria assim as matérias: • A das infra-estruturas: aspectos geográficos. Começando pelas grandes áreas temáticas estudadas. O património municipal. Festas e cerimónias rituais locais comemorativas de nascimento de príncipes e da morte de membros da família real. e esse é o segundo aspecto. • A das pessoas envolvidas e as estratégias do poder e das relações interfamiliares na perspectiva do acesso e do exercício do poder. Mas há dois aspectos que me parece de justiça enfatizar neste apanhado: o primeiro é o facto de. As representações públicas do poder. de bens de consumo. • A da estrutura. Os tempos de lazer e as festas na perspectiva dos que delas usufruem. • A dos serviços: obras públicas. de água. etc. António de Oliveira começou a investigar. demografia. Como o título indica não foram propriamente as matérias de governo local que preocuparam o Autor mas antes os problemas da economia e da sociedade. • A das finanças: receitas e despesas. Por outro lado. abastecimento de alimentos.

História comparada dos Concelhos. nomeadamente o Brasil não só na época colonial como no período pós-independência. vol.º 141. As confrarias e as práticas de sociabilidade. (n. higiene. As práticas religiosas privadas e públicas. Ligado a este. 1997) – Elites locais e mobilidade social em Portugal nos finais do Antigo Regime – não só por constituir uma excelente síntese de tudo (ou quase tudo) quanto se escreveu ultimamente entre nós sobre o assunto mas também por oferecer uma quase completa bibliografia dos títulos publicados sobre o nosso tema – municipalismo na época moderna. Câmara e Misericórdias cruzam-se e complementam-se. Outro provável caminho do futuro creio que poderá ser o do estudo comparado dos concelhos de Portugal e dos países colonizados por Portugal. tais como alimentação. em especial a do Corpo de Deus. o Provedor ou o Juiz de Fora. Nuno Gonçalo Monteiro. XXXII. estratégias de poder. 4. o poder municipal exercido no âmbito concelhio e o poder feito de honra e de prestígio no seio das confrarias eram de natureza diferente. As procissões. • Os diversos aspectos da vida quotidiana. têm-se retomado em Portugal há uns anos a esta parte os estudos sobre as Misericórdias. tais como o Corregedor da Comarca. ainda que o serviço público fosse a razão de ser de ambos. Entram aqui os estudos sobre o papel e atribuições dos agentes régios. É claro que mais uma vez se impõe referir o nome do Prof. • A religiosidade e a influência dos Mosteiros no aro concelhio. analisando as Irmandades não apenas nos seus aspectos organizacionais internos e na lógica da assistência mas procurando situá-las e inseri-las nas redes e estratégias de poder local. Na verdade. Outro tema que se tem revelado extremamente fecundo é o da formação das elites e das oligarquias locais. Impressionou-me fortemente o ensaio publicado na «Análise Social». Há ou não . Este novo enfoque interpretado por jovens historiadoras e historiadores parece-me muito promissor e justifica que se revisitem e provavelmente se reescrevam numerosas monografias sobre as Misericórdias portuguesas.HISTORIOGRAFIA DOS MUNICÍPIOS PORTUGUESES (SÉCULOS XVI e XVII) 25 • A das relações com o poder central e as chancelarias régias. • A da conflitualidade no interior do concelho e o choque com outras entidades eclesiásticas ou civis. Não deixa de ser relevante que os nomes de topo das elites municipais se repitam nas listas dos nomes dos principais dirigentes das Misericórdias. • A geografia do poder e a importância e sacralização de certos espaços públicos. Outra pista a desenvolver será a do estudo da organização paroquial.ª série. das freguesias e das suas relações com a cabeça do Concelho. questões de segurança. mobilidade social. sua múltipla caracterização.

me pareceu ainda mais favorável em Braga no tempo de D. Sobre que incidiam esses capítulos e qual o seu encaminhamento na perspectiva do diálogo institucional entre a Corte e os concelhos parece-me um problema interessante e que poderá revelar que as indicações de governo não eram de sentido único – do centro para a periferia – mas provavelmente também da periferia para o centro.26 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS um espaço de autonomia para as freguesias. Um exemplo: . às leis que as estruturaram e lhes fixaram as regras de funcionamento. perdoar-me-ão a imodéstia de lembrar alguns pequenos temas que tratei em artigos e ensaios que me pareceram interessantes e que podem ser desenvolvidos a nível municipal: – em primeiro lugar. e sobretudo nos séculos XVI e XVII. Como é sabido. Os livros das chancelarias régias fornecem muitos exemplos de contratação pelas Câmaras de Mestres de Ler e de Gramática que não têm sido aproveitados sistematicamente. desempenhou papel importante como factor de mobilidade social ascendente. o que estudar mais dentro da história do municipalismo? Eu diria «tudo». recorrendo antes de mais às normas. que eram ora pontos de vista e reclamações que se destinavam ora a ser discutidos pelo Terceiro Estado. ora a ser apresentados ao Rei na expectativa de uma resposta favorável. O meu posto de observação tem sido o Porto e daí talvez a provável sobreavaliação das capacidades de literacia dos investidos no poder municipal que. não podemos esquecer que a partir de 1697 não há mais Cortes em Portugal. aliás. por cada convocatória. além de funcionar sobretudo a nível local e concelhio. – outro tema que gostei de ter tratado foi o das relações entre o poder central e o poder local na perspectiva da participação dos concelhos nas Cortes. – o tema da venalidade e da hereditariedade dos ofícios públicos parece-me sugestivo na medida em que sou levado a concluir que essa prática. houve ou não reivindicações neste domínio? Os concelhos foram espaço de coesão interna ou antes de conflitualidades e clivagens? Para além destes áreas. Mas que é isso de tudo e de total? A mim parece-me algo simultaneamente desejável e inatingível. Devo confessar que comecei por estudar as instituições municipais. os temas da alfabetização e a sua relação com o exercício de cargos municipais. as Câmaras redigiam Capítulos gerais e particulares. Frei Bartolomeu dos Mártires. Contudo. se tal fosse possível! A história total é o objectivo teórico final do historiador. Para além de tudo isso. como se fosse um jurista.

por essa razão viram adiado ( por 2 MOLAS RIBALTA. Barcelona. A mesma preocupação esteve presente na minha Lição das provas de Agregação quanto aos Procuradores do Porto às Cortes do século XVII.º das Ordenações Filipinas (sobre os vereadores) foi importante como norma e como fonte para a fixação do perfil e do modelo institucional desses oficiais municipais tão típicos dos municípios lusitanos. surge a surpresa: alguns afinal eram netos de oficiais mecânicos e. dos comportamentos. A História da Administração bem entendida tem que resultar da confluência da História do Direito. La Historia Social de la Administración in Historia Social de la Administración Española. então talvez a história das instituições possa ser história propriamente dita. Quem eram afinal esses senhores Procuradores? Quando esperávamos que todos fossem fidalgos provavelmente de tradições bem alicerçadas e antigas. Ou seja. mais do que fazer história das instituições. da História Política. 1980. Foi esse objectivo que me moveu em grande parte na preparação do meu doutoramento e em vários trabalhos posteriores e mesmo em teses de mestrado que tive o gosto de orientar. Pedro Molas Ribalta2 que me seduziu com a sua teoria da História Social da Administração. da História das Mentalidades. culturais.HISTORIOGRAFIA DOS MUNICÍPIOS PORTUGUESES (SÉCULOS XVI e XVII) 27 a leitura do tit. da História Económica e Social. Como? Indagando as relações entre a instituição e os grupos sociais. talvez fosse melhor tentar a história social da administração. Neste processo. chegaremos ao conhecimento das circunstâncias profundas da sedução e da conquista do poder e do seu exercício. e outras dos indivíduos que povoaram e deram vida às instituições do poder local e regional e exerceram efectivamente esse mesmo poder. apurando-se as circunstâncias económicas. veio em meu auxílio um historiador catalão. A História Social do Poder tenderá então a ser uma espécie de biografia colectiva. . Muito cedo interiorizei a frase de Jaime Vicens Vives – «a História das Instituições não é História propriamente dita»! Mas as instituições são feitas por homens e para pessoas concretas. Pedro. Se nós conseguirmos ligar as pessoas concretas que serviram as instituições às pessoas concretas a quem se dirigia a sua acção. das atitudes. Mas um historiador depressa se dá conta que a realidade vivida é algo muito mais complicado que a realidade sonhada ou programada a qual às vezes tem pouco a ver com as normas. sociais. Ou seja. 66 do Livro 1. tentando perceber a «estrutura efectiva do poder» inserida na comunidade até chegar ao reconhecimento da importância do exercício do poder como elemento determinante da estrutura interna dos estados e dos grupos. religiosas. Estudios sobre los siglos XVII y XVIII.

Não só porque de repente o que é vivido à escala local. É óbvio que os nomes sem mais são meras indicações. Não só nem sequer principalmente das instituições. As circunstâncias do tempo presente pautadas pela ideia de globalização aparentemente privilegiam o universal e secundarizam o regional e o local. em virtude e por força das novas tecnologias. e para que não se percam as identidades e o gosto pela diversidade. do modo como as famílias e os grupos se organizaram e que tipos de redes de relacionamento e que vias de desenvolvimento e de progresso conseguiram estabelecer. tenha utilizado 43 páginas com os «nomes das pessoas que animaram as Instituições». de cada pessoa. decorre normalmente em cenário local.28 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS algum tempo) o seu requerimento. pode adquirir e adquire valor global mas porque a vida real das pessoas. como que esqueletos sem carne. Mas o que não pode nem deseja é apagar as regiões e as multímodas diversidades regionais Por isso. Os estudos sobre os concelhos e o municipalismo foram suficientemente atractivos para ocuparem historiadores de excelência no passado de que basta lembrar o exemplo de Alexandre Herculano. é num mundo globalizado que o interesse real pelo que é que local e regional se vem acentuando. Mas. Não só os de fundo histórico. A Europa que se está a construir poderá esbater ainda mais as ditas soberanias nacionais. paradoxalmente. a sua habilitação para serem admitidos ao Hábito da Ordem de Cristo. Tal metodologia implicou que na Tese de Doutoramento tal como foi publicada. . e não valerão muito se não os situarmos na sua realidade existencial e institucional e na sua rede de relações. Conclusão Há que concluir. Mas das pessoas concretas na sua inserção social e comunitária. parece de incentivar os estudos locais e regionais.

Santa Casa da Misericórdia. 1995 ( dissert. – Andrade. – Araújo. Laurinda. Lisboa. – Abreu. – Barreira. 1990. 2001 (Faculdade de Letras do Porto. vila realenga: ensaio de história da administração local.as Jornadas sobre formas de organização e exercício do poder na Europa do Sul. 1976-1979. Santo Tirso. – Alves. Santa Casa da Misericórdia. Porto. – Araújo. António Alberto Banha de. Viseu. Porto. – Andrade. 2 vols. «Misericórdias e poder local» in O Poder local em tempo de globalização. Porto. 1990. Estudos Portuenses. Conspecto socioeconomico de uma vila no Renascimento. – Basto. XVI-XVIII). Vítor Fernandes da Silva. 2. Montemor-o-Novo. Laurinda.. Artur de Magalhães. policopiado). A administração municipal do Porto 1508-1511. FLUC. História da Santa Casa da Misericórdia do Porto.). – Abreu. Santa Casa da Misericórdia. – Arqueologia do Estado. 1997-1999. sociabilidade e poderes numa paróquia rural. Academia da História. 1988. FLUC. Lisboa. António Alberto Banha de. 2 vols. Memórias da alma e do corpo – A Misericórdia de Setúbal na Modernidade. Grupo dos amigos de Montemor-o-Novo. 2000. Coimbra. Setúbal.HISTORIOGRAFIA DOS MUNICÍPIOS PORTUGUESES (SÉCULOS XVI e XVII) 29 Anexo Subsídios para uma bibliografia sobre a história dos Concelhos e do Municipalismo em Portugal (sécs. XVI-XVII) – Abreu. Aspectos da sociabilidade e do poder. – Basto. 2 vols. Ponte de Lima. séculos XIII-XVIII. 1999. – Actas das Jornadas sobre o Município na Península Ibérica (sécs. 2 vols. . Sazes de Lorvão de 1660 a 1760: espaço. 1979. Coimbra.. Laurinda. Maria Marta Lobo de. Coimbra.. Actas das 1. Dar aos pobres e emprestar a Deus: as misericórdias de Vila Viçosa e Ponte de Lima (sécs. Montemor-o-Novo no século XVI. A Santa Casa da Misericórdia de Setúbal entre 1500 e 1755. 1989 (polic. 2. Câmara Municipal.ª edição. Palimage Editores. Academia Portuguesa da História. Lisboa.. XII a XIX). Artur de Magalhães. 1988. Biblioteca Pública Municipal. de Mestrado). Manuel de Oliveira. A Santa Casa da Misericórdia de Aveiro. Pobreza e Solidariedade.ª edição. Jorge Filipe Pereira de.

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Desenvolveu-se em forte articulação com a problemática da construção e reforço do Estado Moderno ou da sua crise e da Sociedade de Antigo Regime.Administração local e municipal portuguesa do século XVIII às reformas liberais (Alguns tópicos da sua Historiografia e nova História) JOSÉ VIRIATO CAPELA (Universidade do Minho – Dept. de História/Instituto de Ciências Sociais) 1. ainda que a partir de um discurso mais político do que histórico. 2005. e ao qual se apresenta aliás no plano das realizações como instrumento. 39-58. Esta posição inviabilizaria. porque não estava em causa a sua legitimação e continuidade histórica.1. de reforma ou mesmo alternativa.ª metade do século XVIII em diante. pp. A Historiografia da administração local. É em geral um discurso muito crítico ao papel e lugar que o Município tem no bloqueamento aos desenvolvimentos e reformas necessárias da Sociedade. Os Municípios no Portugal Moderno: dos forais manuelinos às reformas liberais Lisboa. Concentrou-se sobretudo na História Municipal da 2. . Edições Colibri – CIDEHUS-UE. um dos ramos da Historiografia Portuguesa que mais se desenvolveu nos tempos mais recentes. O município como objecto por excelência dos estudos de História da Administração local A História Municipal e através dela a História da Administração Municipal é. crise do Estado de Antigo Regime. Administração Pública e Economia Portuguesa. fraco desenvolvimento da investigação histórica sobre o município português. Pós-Pombalismo. Alguns tem mesmo sobre ele posições radicais ao ponto de afastar o Município do rol das instituições que propõem para a nova ordenação da nossa administração pública e territorial. para que aliás veio dar contributos essenciais pelo novo prisma de abordagem da questão. A abordagem da questão municipal está já largamente presente nos textos dos reformistas e ilustrados do século XVIII e seus finais. Pombalismo. na prática. Breve perspectiva histórica 1. sem dúvida.

quer no plano prático quer até no historiográfico. fazendo também seu o programa da descentralização e municipalização da administração e território. ultrapassando de vez o «enclausuramento» romântico medieval e fixando mais desenvolvidamente a sua acção e adaptação dos Tempos Modernos. economistas. Intenta-se então também a elaboração de monografias sobre os concelhos e os municípios e obras de conjunto sobre a temática. H. Nas origens do Estado Novo. O ideário republicano. e em grande medida como reacção aos excessos da Centralização promovida pela dinâmica das novas instituições liberais – a Divisão dos Poderes e o Código de 1842 – é a solução do municipalismo que se apresenta como alternativa global que emergirá em grande força no mito historiográfico do município medieval. Com A. que a História do Município fará novos avanços. F. Nogueira no seu Município Novo teria por então uma das suas primeiras grandes aplicações – interrompida com a crise financeira de 1890 – e que a República intentará de novo retomar. Félix Nogueira e seus continuadores emergirão finalmente com grande desenvolvimento. Rodrigues Sampaio quando o municipio se inserir mais realisticamente no jogo e na acção político-social dos equilíbrios e harmonias necessárias entre a centralização e a descentralização. manter-se-á nas peugadas doutrinárias legadas pelos ideários de Oitocentos. consubstanciado por H. Deste modo. Com significativo espaço na obra de políticos. que depois se continuarão.40 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS É verdadeiramente o século XIX – em particular da sua 1ª metade – que verá florescer a História do Município e emergir mesmo o ideário Municipalista. se são esparsos os estudos históricos sobre o municipalismo dos Tempos Modernos em Herculano – que o Absolutismo segundo ele matara – com H. A República (1910-1926). Sampaio. A Reforma descentralizadora de Rodrigues Sampaio (1875-1890) promoverá sem dúvida um dos mais profundos desenvolvimentos das coordenadas da vida municipal portuguesa e também da História do Municipalismo. Herculano. Mas será com Félix Nogueira. Neste último ponto sem grande sucesso. repondo o Código descentralizador de R. não tem porém lugar autónomo nas Histórias de Portugal de Oitocentos. o ideário corporativo anti-liberal e antidemocrático. socialista. Lopes de Mendonça. os estudos do Município português em tempos da Monarquia Absoluta. do Centralismo e Absolutismo Monárquico. ensaístas e sobretudo de administrativistas. haveria de trazer um novo fôlego e novos horizontes às investigações sobre o Município pela intensa reflexão histórica sobre as origens e natureza da instituição municipal – designadamente a sua anterioridade .

Pela 1. pelos anos 30 e 40 do século XX em correlação com os programas de desenvolvimento regional que pretende suportar e fazer assentar no município (e outras instituições históricas) programa desenvolvimentista a que então se prendem as elites locais portuguesas municipais e distritais para tirar a Província do seu letargo e abatimento e por eles regenerar o país. Deste resultará em particular o enorme trabalho de estudo e publicação das fontes e fundos da produção administrativa camarária. (Problemas de Administração Local – Centro de Estudos Político-Sociais. Tais programas tiveram eco nas discussões à volta do Código Administrativo de 1936 do Estado Novo. Este é um período de grandes evocações de História Municipal. Mas muitos deles alargar-se-iam também ao estudo das corporações dos ofícios nos Tempos Modernos e em relação com eles também dos concelhos e até ao fim do Antigo Regime do trabalho mesteiral e oficinal. tendo vingado a solução centralizadora do Regime contra as alternativas mais descentralizadoras de municipalistas e autarcas. Esta ideologia de base corporativa não deixaria ainda de se fazer sentir nos estudos de História municipal que se desenvolveram entre nós.ADMINISTRAÇÃO LOCAL E MUNICIPAL PORTUGUESA DO SÉCULO XVIII ÀS REFORMAS LIBERAIS 41 ou filiação no Estado Português – em correlação com a fundamentação das raízes e natureza corporativa da Sociedade e do Estado. com um alargamento das temáticas que as novas questões a resolver exigiam. com particular incidência no campo doutrinário mais do que no campo historiográfico. Ela está certamente em relação com a emergência da figura do poder local no nosso . E pela descoberta e exploração destes fundos. Na prática esse é também um período de grande discussão sobre a administração local autárquica no tocante a matérias que se referem a: problemáticas da centralização/descentralização. quando se localizam os fundos mais completos e desenvolvidos da vida municipal. o sistema e os problemas da administração local em si e em correlação com a descentralização e a intervenção e coordenação dos serviços técnicos e administrativos do Estado. o desenvolvimento dos serviços municipalizados. Tal estará na origem de um novo reforço da análise da História e evolução histórica do Município. revelar-se-ia com muito mais pormenor a vida de outras instituições locais muito articuladas aos Municípios e que aí deixaram muitas marcas e registos nos fundos arquivisticos. A Historiografia municipal para os Tempos Modernos sofrerá no pós 25 de Abril de 1974 um extraordinário desenvolvimento. a História do Município Moderno é estudada a partir das suas próprias fontes. Lisboa. envolvendo-se no estudo histórico das corporações de ofícios medievais e também da “corporação” municipal. de um modo sistemático. 1957).ª vez. o que faz desenvolver particularmente os estudos posteriores ao século XV.

e agora. a que lhe contrapõe o modelo corporativo.42 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS ordenamento político-administrativo revolucionário – que rompe com o conceito vindo do Estado Novo da administração local autárquica – e também com o seu particular desenvolvimento assente na mobilização social e política de que foi alvo. mas também. mas também nos seus territórios e até «regiões». com desenvolvimentos particularmente notórios na História económica da administração municipal. Desta etapa histórica sai particularmente beneficiado o estudo histórico do município português na Época Moderna. Mais decisivos ainda foram os desenvolvimentos da História Institucional. com mais força e vigor. próprio à organização da Sociedade de Antigo Regime. a que genericamente se vem apelidando de estadualista que privilegia o estudo do município nas suas relações e mútuas adaptações ao Estado. na História financeira e da contabilidade municipal. no funcionamento das almotaçarias. Nestes estudos. Para a renovação da historiografia municipal concorreram poderosamente novos domínios de investigação historiográfica que lhe foram aplicados: a História Económica. o Metropolitano e logo também o Ultramarino. mas também do papel das posturas e regimentos locais no desenvolvimento e enquadramento económico mais geral. os mecanismos sociais no ordenamento social local e sua articulação com a Sociedade de Corte e nos elementos e agentes de articulação política pelo estudo do papel e acção dos magistrados régios para o governo da periferia. essa entronca já na referida renovação do papel do município como autarquia local na administração pública e territorial portuguesa das décadas de 50 e 60. permitida e sustentada pelos 3 novos pilares constitutivos do seu desenvolvimento: a lei da autonomia. os novos horizontes da Historiografia económica europeia do Pós-Guerra e da História Económica e Social dos Annales. em correlação com ela. sai particularmente beneficiada a perspectiva estadualista. Tal desenvolvimento continua as linhas de rumo tradicionais da historiografia municipal portuguesa. que estuda os mecanismos do reforço dos elementos da articulação económica e financeira dos municípios à Coroa e Fazenda Pública. A matriz e a base de História económica e social com que se renovou a historiografia municipal mais recente. das Elites e também à História da Mobilidade Social e dos Sistemas Eleitorais. mercados e formação de preços. das finanças locais. que iniciando-se pelo estudo da História Social da Administração Municipal – com contributos decisivos para a configuração social dos diferentes orgãos municipais – receberia contributos fundamentais do novo campo da História Social. certamente também pelo seu marcado cunho institucional. com importantes estudos monográficos dirigidos aos grandes municípios portugueses nos seus quadros institucionais. que . da separação dos sectores.

neles incluindo também os outros campos do exercício dos poderes sociais mais informais ou sem base territorial. não contribui tão decisivamente como parece dever ser o seu papel. também a dos corregedores. dos baldios. do Absolutismo e do Despotismo. Perspectiva e abordagem sem as quais nunca formaremos uma visão completa da História Municipal e muito menos da emergência das suas Reformas. a saber. para cuja abordagem se tem recorrido sobretudo e quasi em exclusivo à perspectiva da História do Estado e da Administração. para a abordagem social da História e vida do Município. sobretudo sociais. História e perspectiva esta que já R. 1. a saber. a eleitoral e da nova configuração dos poderes. não se pode perder de vista. a senhorial. designadamente para o estudo daquelas perspectivas que tão descuradas tem sido pela Historiografia Política e Institucional Municipal. os poderes e as instituições para a administração régia. o estudo dos outros domínios da administração do território. vista e vivida pelo lado dos administrados. o das correntes anti- . a História da Administração. profissionais ou religiosas. E que Jorge Borges de Macedo aconselhou e seguiu no artigo “Absolutismo” do Dicionário de História de Portugal (dir. F.2. dos usos e costumes comunitários. A História e historiografia da paróquia O estudo histórico da administração territorial portuguesa tem sido configurado e reduzido à História Municipal. Se em geral forneceu novos enquadramentos e fixou outras coordenadas de abordagem e de percepção da chamada «estadualização» ou «politização» da Sociedade. de Joel Serrão. les Faucille et le Marteau (Paris. a mais antiga (do Estado Novo) e a mais recente. a vincular e sobretudo a paroquial e a eclesiástica.ADMINISTRAÇÃO LOCAL E MUNICIPAL PORTUGUESA DO SÉCULO XVIII ÀS REFORMAS LIBERAIS 43 prestam atenção para além da acção dos juízes de fora. para a História municipal deste período. 1971) mas sem grandes consequências futuras. os campos. Mas também no plano dos ideários. provedores e as novas «instituições políticas» do Estado Moderno. designadamente o das comunidades confraternais. Mousnier nos estudos integrados em La Plume. P. e contribui para ajudar a definir um outro e novo modelo municipal. a perspectiva da Historiografia e do paradigma Corporativo. naturalmente pela força e dimensão que a instituição municipal mas também o ideário municipal ganhou na Sociedade e Cultura Portuguesa. no plano institucional e das realizações. ao longo dos tempos. Para além dos Municípios. 1970) aconselha a fazer adentro do quadro analítico conhecido que é o da construção do Estado Moderno e seus limites e constrangimentos. U. designadamente a territorial. Menos consequências teve a nosso ver. Mas. apesar disso. que é unilateral e insuficiente.

Com efeito a particular concentração e desenvolvimento da Historiografia dirigida ao estudo do Município face às outras instituições locais tem feito passar a ideia de que o Município e o seu território de jurisdição são as instituições exclusivas ou por excelência da administração local portuguesa neste século XVIII e finais do Antigo Regime.44 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS -municipalistas ou o dos críticos de soluções político-administrativas assentes na exclusiva solução municipal. Tal reflexão é possível e ainda mais necessária no período de forte emergência do poder e ordem municipal. Porém a realidade é mais variada e complexa. contestada. a propor soluções alternativas ao município e a desenvolver ou propor outras soluções político-institucionais. E nesse sentido os estudos demasiado configurados nas fontes e administração municipal e no estudo de casos onde a dimensão institucional. o papel político e administrativo da acção municipal ganharam particular vitalidade e envolvimento e apagaram. e assim o foram sempre na História local portuguesa e o devem continuar a ser para o futuro. alheia ou mesmo estranha e desconhecida. por outro lado. Como se comprova também pelos testemunhos recolhidos junto das populações paroquiais designadamente nas Memórias Paroquiais do século XVIII (1758) onde a presença e domínio da instituição municipal aparece aí descrita de um modo ténue e esparsa. é que nos permitirá avaliar a importância e predominância relativa das instituições que disputam o exercício dos campos do poder local. sob a ordem e a . Para o que concorrerá também. Só uma visão e acercamento mais amplo destas realidades dos poderes. delimitando bem os espaços de actuação e concorrenciando-o inclusive. induziram e configuraram mesmo tal opinião. que em geral. designadamente com a acentuação no reforço da paróquia ou freguesia. o estatuto e a força da argumentação do ideário e propaganda municipalista dos seus grandes e importantes doutrinadores e ideólogos que não deixaram de reduzir a força e o plano de actuação de outras correntes e doutrinas. das suas legitimações incluindo a historiográfica e dos seus assentimentos. E naturalmente também por uma atenção mais cuidada à força e continuidade da doutrina e argumentação das soluções que não as municipais e municipalistas. reduziram ou subalternizaram mais fortemente o papel e a acção das outras instituições. como se comprova pelo papel desempenhado pelas outras instituições que no território do município exercem a sua actividade. ou crítica dos abusos e excessos da concentração municipalista da doutrinação e programa descentralizador ou regionalizador. Ou a crer definitivamente que a solução municipal é originária e matricial à nossa constituição político-social ou uma dádiva divina e portanto perenes e inquestionáveis e por eles a subalternizar as doutrinas e os ideários político-administrativos que não priviligiam ou não entram em linha de conta com a instituição e solução municipal.

nalguns casos autênticas ilhas no mar de um profundo localismo e isolamento político e social. no fim de contas da Sociedade e Estado com que as gentes das Luzes pretendem romper por finais do século XVIII. É este o caso das críticas da Ilustração a este Municipalismo Histórico. naturalmente. mas também as bases de soluções locais paroquiais e regionais que são tão pouco conhecidas. com profundas consequências para a instituição municipal que nos aparece no final desenvolvimento deste processo histórico – de profunda articulação e modelação com a ordem régia e os objectivos régios para o governo do território – com substancial limitação dos seus poderes “autónomos” e fortemente configurada ao exercício das tarefas que a Monarquia lhe impõe e distribui para o governo do território. Com efeito subsiste ainda. desenvolvimento orgânico e funcional. Ora. a outra realidade municipal à margem destes desenvolvimentos: municípios que pela sua reduzida dimensão.ADMINISTRAÇÃO LOCAL E MUNICIPAL PORTUGUESA DO SÉCULO XVIII ÀS REFORMAS LIBERAIS 45 batuta do alargamento do Poder Real Absolutista e do Despotismo Esclarecido no século XVIII. Sem este conhecimento não é possível seguir a emergência de outras soluções presentes no nosso pré-liberalismo e primeira vigência do regime liberal e suas soluções para a governação do território e seu enquadramento políti- . posição no território permanecerão no todo ou em parte ainda arredados destes mecanismos de Centralização e desenvolvimento institucional uniformizador induzido pelos progressos da Monarquia e do Estado. Ora tal desenvolvimento não apaga a outra realidade institucional que ela mantém. vem nesta etapa conquistando e alargando os seus poderes no território. em certa escala para largos espaços do território nacional. mas também a esta “miniaturização” e irrelevância de municípios rurais. Tal realizou-se. sobretudo quando ela é feita em proveito dos estratos que suportam o Estado fidalgo e aristocrático que se contesta ou são incapazes de suportar qualquer projecto de desenvolvimento. Que prefiguram nos casos mais desenvolvidos. Que é uma crítica violentíssima ao seu pequeno papel para o desenvolvimento dos povos e do território. antes pelo contrário. máquinas e estruturas do poder ao serviço das velhas aristocracias e fidalguias. é este ideário das Luzes. vinda dos sectores contestatários a esta estadualização municipal. reforça a crítica político-social e também doutrinária. E não apaga também. em grande parte fortemente crítico do poder e organização municipal. e utilizando em particular os maiores municípios portugueses. circunscrevendo e limitando os outros poderes e jurisdições. a mais completa tutela e configuração político-administrativa que o Liberalismo lhe dará no quadro do novo Centralismo burocrático e da nova Divisão dos Poderes. segrega até. umas vezes “reformista” outras vezes “abolicionista” que sem dúvida lançara as bases e os fundamentos da grande amputação e reforma concelhia de 1832-36. e em grande medida “desautorará” politicamente.

administrativista e historiador estado-novista do Município medieval. E é deste contexto do movimento das Luzes que se reforça a ideia da paróquia civil ou freguesia que só muito mais tarde vingará. também um concelho. Sampaio as bases e a matriz da nossa constituição social que arranca e se articula às villae romanas. Mas não se nota qualquer movimento de legitimação historiográfica desta instituição que permitisse fazer vingar a freguesia ao lado do concelho ou município como instituição autárquica para a administração e governo civil do território. a Sociologia. A ideia é pois. Reforçar e revigorar a vida social com base na freguesia é o caminho a seguir para regenerar a política e a sociedade portuguesa. valorizar esta instância local do enquadramento dos povos.46 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS co-social e também a emergência do 1. bem mais atentas ao estudo científico e positivo das comunidades de limites paroquiais estiveram por outro lado as demais Ciências Humanas. no pós 25 de Abril de 1974 a ser a parente pobre da investigação historiográfica sobre o poder e administra- . Com a crítica do município e seu fraco envolvimento e integração das comunidades locais emerge a vontade de valorização e afirmação política e administrativa da paróquia ou freguesia. A História paroquial continuaria. como a historiografia mais recente tem vindo a sublinhar. ao modo de Alberto Sampaio. morta pelo Centralismo liberal de que os concelhos – sobretudo os das vilas e cidades – foram também agentes e suportes. isto é considerá-la na sua matriz histórica originária. Em paralelo da historiografia civil. desde as suas origens no século XIX. a paróquia terá ainda um papel mais forte no enquadramento da vida das populações que os concelhos. Também para esta historiografia. que fizessem o contraponto às monografias concelhias que por então também promovia M. O Padre Miguel de Oliveira bateu-se pela produção de monografias paroquiais. está presente a valorização da paróquia religiosa na conformação e origens da sociedade portuguesa.º ideário municipalista do século XIX (Herculano). pois que em seu entender na paróquia se unem «vínculos quasi tão estreitos como os da família» e «sob o aspecto social excede em importância as instituições municipais». Caetano. Só com Alberto Sampaio. no século XIX. E para o padre Miguel de Oliveira. a História paroquial ganhará também cidadania no panorama dos estudos locais portugueses. Depois no contexto da construção do ideário municipalista houve também quem pretendesse associar a freguesia ao concelho. E contudo e certamente por via disso. Depois. desenvolver-se-á também com a historiografia eclesiástica o estudo da paróquia. a Geografia Humana. Na paróquia viu A. este é um quadro muito activo no enquadramento e organização comunitário local. a Antropologia. em consonância com a importância política e social da paróquia.

na continuidade das abordagens de A. pela rede social de articulação à Sociedade de Corte. Não pôde como o município beneficiar da larga tradição de investigação e doutrinação sobre a História Municipal e o Municipalismo e também – e por via disso – a freguesia continuaria a desempenhar um papel subalterno na nossa administração. isto é.1. Adaptações municipais A força dos vectores da centralização e mais ainda do paradigma da estadualização aplicado ao estudo da História Municipal Moderna tem privilegiado e acentuado sobretudo o estudo dos mecanismos da sua integração na ordem pública. seja ele marcado pela construção da rede político-administrativa (Judicial. hierarquização político-administrativa do território e propostas de novas divisões administrativas. de juízes ordinários. A investigação sobre a freguesia – paróquia do Antigo Regime. da Fazenda). Sampaio e a sociologia histórica (entre outros) e a paróquia eclesiástica. Em busca de novas abordagens da História da Administração Local: o Município no Território 2. urbanos ou de vilas de maior dimensão. Centralização. certamente contribuiria para conferir ao município uma realidade bastante dife- . integrantes de vastas áreas à margem ou só marginalmente integradas no “território” do domínio régio ou em zonas de forte domínio ou concorrência do domínio senhorial. 2. A abordagem e o estudo dos casos dos pequenos municípios rurais. É uma análise e uma perspectiva que sai reforçada. da Província. na senda dos estudos anteriores. apesar de escassa. E que para além de estudos individuais destes casos. por via da uniformização institucional com a aplicação do modelo e da ordem legal régia e da acção corregedora e integradora dos magistrados régios à periferia. de áreas menos importantes ou contribuintes para a construção do Estado Moderno. também. mais desenvolvidos organicamente e onde sedeiam os principais organismos e magistrados da Coroa para a administração e governo do território.ADMINISTRAÇÃO LOCAL E MUNICIPAL PORTUGUESA DO SÉCULO XVIII ÀS REFORMAS LIBERAIS 47 ção local. continuaria a fazer-se. da provedoria. Militar. pelo facto de se ter estudado particularmente a evolução política e institucional dos maiores municípios. agora ainda mais subalternizado dados os investimentos políticos e financeiros do 25 de Abril na administração municipal. concentrado os estudos nas manchas do território mais percorridos e articulados pelo processo centralizador. tem também por via deles. da comarca. na tradição dos estudos sobre a paróquia civil. esta em estudos mais atentos às origens e papel da ordem religiosa e eclesiástica. ou pelos suportes político-económicos da construção do Estado Nacional Mercantilista.

sofre as vicissitudes que o próprio território vai sofrendo nas suas dinâmicas de aproximação ou afastamento político aos marcos territoriais e políticos mais activos e dinâmicos da construção do Estado. mas seguir as dinâmicas próprias induzidas e até construídas pelo Território e pela Sociedade que naturalmente são em última instância os agentes e suportes destas realizações e nova construção política e ordenamento territorial. resultado de um Absolutismo e Centralismo como factor exógeno às instituições e territórios neles envolvidos. Tal conceito. em primeiro lugar. decorrente do paradigma estadualista e do município dominador do seu território. «regional» ou provincial. Muito mais do que a partir dos concelhos é a partir do quadro comarcão que o Estado e o governo comarcão quer olhar e governar o território. a do quadro mais vasto. com desfasamentos significativos relativamente ao novo modelo e paradigma do “município régio”. a Sociedade onde se insere. o quadro por excelência da ordenação política do território. Por isso é necessário estudar o município no seu território. O município fortemente arreigado e enraizado no seu território. O governo monárquico do século XVIII. progressivamente. E não só a do quadro e termo municipal – que tem sido tentada – mas também e muitas vezes sobretudo. que tem de passar por um maior esforço de caracterização do município. para além da conformação institucional – por regra tão só orgânico-oficial – permitirá seguir os termos da sua configuração com o Território. com efeito. uma apreciação mais ajustada dos níveis e patamares de modelação e integração do Município ao Estado e Ordem Pública Nacional é necessário seguir-lhe. O estudo do Município no território permitirá fugir ao espartilho da explicação monista da modelação institucional realizada tão só do topo para a base. de facto. situá-lo nos “círculos” diferenciados da sua situação e centrifugação política e também no dos diferentes níveis do desenvolvimento social e institucional.48 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS rente. Se se pretende. Maria desde 1790-92 . Tal obriga necessariamente romper com um outro lugar comum que se fixou mais recentemente na historiografia municipal. neles se exprimindo de forma diferenciada as dinâmicas desta modelação mais geral. a quem desde 1790 se pretende conferir maior desenvolvimento e racionalidade administrativa para nela reorganizar o quadro da divisão e administração concelhia. os passos da sua modelação regional – comarcã e provincial. O percurso deste outro caminho. decisivamente com Pombal e os governantes de D. o conceito de que o Município Moderno é a-regional e mesmo anti-regional. A comarca volver-se-á. teve como consequência esquecer ou secundarizar as dinâmicas estruturais de carácter geográfico-político que sobre ele se exercem e que o continuam a modelar profundamente.

que promovendo a forte hierarquização política nacional das instituições e por ela a sua mais forte integração institucional e territorial. No período pombalino este processo seguirá sobretudo na senda de reformas políticas. e organização político-estadual. das Superintendências fiscais (das Sisas e Décimas) a produzir movimentos do mesmo sentido de centralização (regional).ADMINISTRAÇÃO LOCAL E MUNICIPAL PORTUGUESA DO SÉCULO XVIII ÀS REFORMAS LIBERAIS 49 – adentro do mesmo espírito anterior – reforçam o papel dos corregedores e outros magistrados régios e com eles o quadro de unificação e racionalidade comarcã. a uniformização e a unificação legal e administrativa do território da sua comarca. O município e desde logo o município cabeça de comarca. Os problemas e petições concelhias serão conduzidos ao Rei e seus Tribunais superiores pela voz do corregedor. e em particular nesta etapa decisiva no reforço do Centralismo e Absolutismo e logo do Reformismo pré-liberal. para proceder ao reforço do poder em mais vastos territórios “regionais” e articulá-los por seu intermédio mais fortemente ao Estado.. O concelho cabeça da comarca virá por isso a ser o pivot e ponto de partida e referência do novo referencial “autárquico” e regional.. incluindo na sua base espacial. volver-se-á neste contexto. nela envolveriam fortemente o Município. uma forte articulação e hierarquia do território. O corregedor do século XVIII promoverá num constante deambular pela comarca. na continuidade aliás da criação do . E a constituição de largos Privilégios em grandes municípios de centros urbanos que lhe concederam forte relevância e tutela regional sobre os outros territórios e municípios. a Reforma da Fazenda.. suporte de muitas delas. racionalização e uniformização institucional. É o caso dos concedidos à cidade do Porto. o principal suporte da nova organização do território que promoverá. como é sabido. de reforço e alargamento do poder e hierarquia de concelhos estrategicamente posicionados no território.. nele acabaram de produzir efeitos fundamentais. não tendo tocado nas bases e divisão territorial. Tal passa naturalmente por reforço sobretudo do papel dos municípios maiores onde a administração periférica do “Estado” está já mais desenvolvida. em especial os eclesiásticos. as vozes dissonantes dos concelhos e dos seus diferentes membros nas Cortes. das Alfândegas. Sobre as políticas é fundamental salientar algumas reformas pombalinas que embora não dirigidas directamente ao Município. Entre essas reformas é de referir as da Justiça – com a afirmação do Direito e Lei Régia sobre os demais direitos a extinguir os donatários nas ilhas – a promover a mais forte integração dos concelhos de juízes ordinários nos de juízes de fora e de um modo geral a afirmar a supremacia e a tutela dos concelhos régios sobre os concelhos e coutos senhoriais. com a criação da Companhia de Vinhas do Alto Douro neste caso de alcance Provincial que lhe concedeu os suportes do largo domínio regional às 3 Províncias do Norte de Portugal. Há muito que ele substituíra os braços dos concelhos.

cadeiras. Essas críticas sustentam em grande medida o programa de reformas a que as leis de 1790/92 querem dar seguimento. Elas terão sua origem em particular na Sociedade ilustrada dos economistas em luta pela livre formação dos preços. Pretende-se redimensionar os concelhos para os adequar ao nível das exigências e tarefas agora colocadas pelo Estado e reforçar a comarca. . dos letrados e magistrados régios em luta pela mais larga afirmação do Direito régio e pátrio. ainda que os projectos e programas fossem definidos numa escala “regional” neste caso o das regiões hidrográficas. liberdade da terra que permita o mais lato desenvolvimento económico. Mas como não avocar aqui também o papel da Companhia das Lezírias para o Ribatejo (entre outras) e até a entrega do monopólio do Ensino Público à Universidade de Coimbra com a expulsão dos Jesuítas que faz conduzir para a cidade do Mondego os professores e estudantes e faz a Universidade e a cidade beneficiária de contribuições públicas gerais assentes nas Superintendências das Sisas do Reino com que pagam professores. a ponte e outras obras do rio e da cidade. E até outros grandes projectos de desenvolvimento regional promovidos pelo Estado. a sua canalização e navegabilidade que para estas obras faz contribuir os concelhos e terras limítrofes. Esse programa é activamente impulsionado pelos reformistas e ilustrados do século XVIII. desencadeados com as leis de 1790/92. político e económico ao desenvolvimento da Sociedade portuguesa e de uma adequada administração régia para o território.50 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Tribunal da Relação ao tempo dos Filipes e que agora se manifestará particularmente activo a conduzir a si todos os processos de apelação e agravo de todos os Tribunais e em particular dos eclesiásticos (vg da Relação Eclesiástica de Braga). mas de que os principais e grandes beneficiários são os portos ou os cofres das vilas ou cidades da respectiva embocadura. em particular no domínio público. Da acção e directrizes dos juízes demarcantes de 1790 resultou essencialmente a proposta de um novo desenho das comarcas e dos concelhos. seus concelhos. alargamento dos mercados. tirando-o dos interesses privados e particulares das velhas governanças. em particular as obras nas barras dos maiores rios. que limite as jurisdições e poderes do direito senhorial e eclesiástico. Avanços para um programa de nova “divisão” administrativa do território só se realizará porém nos finais do século XVIII. munícipes e oficiais. das elites ilustradas locais que se querem impor nas governanças locais às velhas elites nobiliárquicas e fidalgas e colocar o município ao serviço da Pública administração e do Bem Comum e Felicidade dos Povos. em particular pela geração de 1790 que produz a mais acérrima crítica ao papel e acção do município e o consideram em geral factor de bloqueio social. como instância político-administrativa mais actuante e presente em todo o território (com a extinção das Ouvidorias).

retirando desde logo poderes judiciais aos municípios de juízes iletrados (isto desde Pombal) diminuindo ou apagando em definitivo o poder das câmaras nestas matérias. é certo. onde se possam realizar mais intensa e extensivamente o programa do desenvolvimento económico e social e colocar as instituições ao serviço da Felicidade e Prosperidade Pública. entre outros). são em última análise o resultado da sua adaptação e envolvimento nas dinâmicas e coordenadas próprias do seu território. O novo concelho. as Intendências (da agricultura. que prefiguram os futuros serviços públicos gerais. Hoje a produção de elevado número de estudos de História municipal para amplos espaços regionais. A força da coesão territorial e a modelação regional do município Mas para além das dinâmicas políticas e territoriais induzidas pela construção do Estado Moderno. fortemente centralizadoras e esvasiadoras da instituição municipal. Mas outras propostas de ilustrados pretendem também tocar no poder “absoluto” dos concelhos. 2. da polícia. Deste horizonte da crítica e das propostas de reformas ilustradas do século XVIII (desde Pombal e de novo activamente desde 1790/92) se configurarão o sentido e a matriz das reformas do século XIX e do Liberalismo.2. propondo a constituição ao lado ou por sobre os concelhos. económicas e até instituições e incluindo a organização do espaço. sem plano e estrutura intermédia que sempre foi e pretendeu ser preenchida pelo município. que é preciso abordar neste desenvolvimento longo. é preciso também atentar nas condicionantes territoriais de assentamento dos municípios que os aproximam e modelam em conjunto nas suas bases sociais. Há até propostas da nova divisão administrativa do território. inscrito numa comarca reforçada é um programa régio. Mas conta e nele se envolveram as novas forças sociais locais. que do plano da paróquia salta para o da Província. como a do Ministro Rodrigo de Sousa Coutinho do círculo da Ilustração governamental que faz tábua rasa do município enquanto orgão de divisão administrativa e o apaga da sua proposta da divisão administrativa territorial do Estado. que sofrendo é certo a modelação político-institucional da construção do Estado. permite entrever e destacar essas dinâmicas e aproximações . articuladas com os projectos e programas reformistas do Estado e com ele em luta por novos concelhos inserido numa mais vasta região. iniciando mesmo a “desautoração” do poder municipal e uma primeira separação e/ou hierarquização dos poderes que prefigurariam em muitos casos uma primeira Divisão dos Poderes do Liberalismo e do Constitucionalismo.ADMINISTRAÇÃO LOCAL E MUNICIPAL PORTUGUESA DO SÉCULO XVIII ÀS REFORMAS LIBERAIS 51 Relativamente a estes procurou-se o seu redimensionamento territorial. ainda bastante “marginal”.

piscatório e transitário que vieram a constituir para as câmaras (como para outros senhorios). naturalmente. de lado. onde o peso das receitas provenientes de herdades e bens próprios agrários é muito importante e por isso lhe induzem comportamentos muito próximos dos dos senhorios fundiários. também em assumir os municípios de áreas fronteiras a rios de grande valor económico. da Beira. Configuração singular virão. Particular configuração e aproximação na sua base económica e natureza de rendas veio também a constituir o município das regiões de fronteira (terrestre e sobretudo marítima e fluvial) a realizar importantes receitas sobre as sisas mercantis (ou sobejos das sisas régias) e também rendas alfandegárias. moagens e pisões. produzindo por vezes até nesse quadro. pescarias e direitos sobre usos de água. induzem os mercados na formação das rendas dos municípios que obrigam necessariamente desde logo à grande distinção nas estruturas político-administrativas e na base social das elites políticas entre municípios urbanos e municípios rurais sem núcleos ou pequenos núcleos urbanos. mas em particular no Minho). E se não permitem configurar um município regional – pela forte e precoce construção em Portugal do Estado Central e Mercantilista que promoveu uma acentuada uniformização política e institucional do Município Português – conferem-lhe pelo menos uma forte modelação regional que os anima e articula. Mas a acentuação do “tonus regional” afirma-se também nas diversificadas funções que os municípios são chamados a exercer em função da sua posição no território e corpo político da Nação.52 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS territoriais. e até o transmontano. a principal separação ou distinção que neste domínio. um certo “esboço” de divisão municipal de certas tarefas. a análise comparativa da estrutura e natureza das receitas municipais. e também um conjunto de municípios de vastos termos rurais que vieram a constituir importantes rendas sobre os foros dos baldios (como aconteceu um tanto por todo o lado. importantes rendas sobre barcos de passagem. dimensão e origem das rendas municipais está naturalmente na origem e na base do relativo desenvolvimento e aproximação das estruturas institucionais municipais. Que se exprime na definição de um sistema e regime municipal muito aproximado. a induzir também comportamentos típicos de senhorios foreiros e donatariais. Deixaremos. Para além disso. Tal é patente desde logo na constituição das receitas próprias com base nas quais é possível fazer distinções ou aproximações de base territorial. numa relativa militarização dos cargos políticos das vereações dos municípios de fronteira onde por força da estadia de regimentos. da governação central e das elites governantes. praças e fortale- . Tal é desde logo patente. Idêntica natureza. da apetência social e das elites ao acesso e governo das câmaras e da sua integração na orgânica estadual por interesses mútuos. permite aproximar municípios como os do Alentejo.

ou mesmo. do vintismo. E também nas diferentes modelações que toma a presença das elites locais na câmara. em função. nobreza e aristocracias locais ditas de campanário. urbano. magistratura e Sociedade de Corte quando o município está poderosamente integrado na Coroa. Como seria também bem ilustrativo seguir a sua ligação às câmaras nas crises políticas e sociais do tempo das invasões francesas. meirinhos. por virtude da afirmação do Direito Pátrio. E posteriormente o reforço e vontade do revigoramento das elites aristocráticas e fidalgas nos municípios ao longo do 3. Ou na diferenciada presença ou concorrência aos cargos políticos do governo camarário de outros ou novos grupos que a eles pretendem ascender. as burguesias mercantis e os letrados locais. exercendo um recrutamento que pode extravasar o concelho. do desenvolvimento político e social das terras. almotaçarias) pretendem ascender às vereações. mas agora já sem especial continuidade geográfica. territorial.ADMINISTRAÇÃO LOCAL E MUNICIPAL PORTUGUESA DO SÉCULO XVIII ÀS REFORMAS LIBERAIS 53 zas e papel militar e defensivo das terras. mas também demográfico. quando o afastamento é acentuado.º quartel do século XVIII ser-lhe-á totalmente desfavorável. da Lei da Boa Razão (1769) e no consequente afastamento do direito costumeiro e das práticas orais sem proces- . que dos seus locais próprios do governo camarário (procurador. que tem a ver com o da presença e representação dos mesteres na câmara. é necessário seguir em relação com a evolução da conjuntura política e social mais geral e a do município e sua estrutura sócio-profissional em particular. como se verifica de um modo geral nos municípios de mais forte envolvimento político e conjuntural nas revoluções políticas e sociais do Estado na passagem do Absolutismo ao Despotismo e deste à Revolução e Liberalismo. Relativamente aos grandes municípios urbanos (mas não só) é ainda possível proceder a algumas aproximações. Se de um modo geral o Pombalismo poderia ser favorável à presença dos mesteres em câmara em correlação aliás com as coordenadas do alargamento da representação social e popular da Ilustração – como se verificou em Espanha com a criação e entrada da magistratura popular do síndico personero para as câmaras – a sua envolvência no Motim do Porto (1757) quebrou tais expectativas. expressas no diferenciado recrutamento social das elites políticas tradicionais: nobreza. Ou aos militares e sua mais forte entrada e participação nos governos municipais em tempos de guerra. que poder-lhe-ão ser favoráveis e permitir passagens e acessos breves às vereações ou outros orgãos de poder político municipal. a aristocracia militar local e regional estende o seu papel às câmaras e que se revigorou nos tempos de conflitos militares e guerras internacionais. de um modo geral homens de Direito e letrados. cuja geografia da representação em câmaras e vicissitudes da sua aproximação ou afastamento das vereações. naturalmente. escrivães.

cabeças de comarca – com Porto e Lisboa à parte – as diferenças se acentuem. Os seus orgãos mal se distinguem dos das paróquias/freguesias. procuradores dos concelhos. juízes iletrados. os municípios de juíz de fora.º nível.. separados desde logo. As aproximações são cada vez maiores entre os municípios de juíz de fora. Ainda mais forte adaptação às realidades político-sociais do território é o que se pode observar com o município insular e colonial-ultramarino. tesoureiros e às vezes mesmo vereadores. a saber. os honoráveis locais. Muitas vezes os eleitos – vereadores e os juízes servem todas as tarefas. . que se fez de modo diverso pelos diferentes manchas do território. ensino. o de pautas e o de pelouros. em regra como se verifica nos municípios metropolitanos distribuídos por outras instâncias territoriais e magistrados. que é o testemunho da sua enorme “plasticidade”. servidos muitas vezes por escrivães vindos de outros concelhos. Nos pequenos e minúsculos municípios as singularidades ainda são muitas. que adopta ainda perfis e figurinos diferenciados em relação com os níveis mais ou menos acentuados de integração política e social no Reino. alfândegas. As situações podem ser as mais dispersas: nalguns casos onde é forte o poder real (sobretudo pela Fazenda) ou o poder donatarial (sobretudo o militar) estes assumem poderes que retiram aos concelhos. naturalmente em relação muito directa com diferentes serviços públicos aí instalados e seu desenvolvimento e complexidade (justiça maior. É possível seguir ainda nas diferentes configurações orgânicas-institucionais que assumem os municípios modernos. ainda que à medida que se progride para os grandes municípios urbanos. expressões dessa acentuada diferenciação regional.) As aproximações de organização institucional fazem-se entre municípios de idêntica dignidade e hierarquia. em dois grandes conjuntos. por um lado. os de juíz ordinário que são construídos em dois modelos eleitorais também distintos.54 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS so escrito. O município adapta-se aí às possibilidades e necessidades públicas e comunitárias da terra.. o inverso também se verifica. saúde. por outro. organização militar. Nestes municípios mais pequenos e inorgânicos não se verifica sequer qualquer intervenção do poder real. onde os concelhos assumem totalmente os poderes régios e públicos. a afastar da administração camarária e da sua Justiça. onde é frequente não existirem em alguns concelhos alguns ofícios ou corpos como a almotaçaria. num 1. o que exprime de facto a sua irrelevância política.

estabelece uma absoluta separação entre o espaço urbano e o seu território rural do termo concelhio. Em busca de novas abordagens da História Municipal da Administração Local: a administração vista pelos «administrados». das condenações fiscais. o termo e as aldeias é o território dos devassos. dos ricos e poderosos locais. o poder e a organização municipal. que circunscreve ainda mais as relações entre aquelas ordens políticas administrativas. enfim. na expropriação dos baldios e no sistema e rateação dos impostos em especial sobre as populações rurais e seguir as resistências e oposições dos grupos e territórios mais afectados. É um estudo que deve saber explorar de novos ângulos as fontes documentais da instituição municipal.ADMINISTRAÇÃO LOCAL E MUNICIPAL PORTUGUESA DO SÉCULO XVIII ÀS REFORMAS LIBERAIS 55 3. É pois de um modo geral “violenta” a relação do poder municipal com esta população devassa dos termos concelhios. Daí decorre de um modo geral a dificuldade dos municípios levar e afirmar o seu poder e jurisdição nas aldeias. A vila é o território das elites sociais e políticas e dos privilegiados desta ordem social e espacial municipal. em especial nos municípios de assentamento urbano. Por isso esta estrutura municipal. estabelece um conflito estrutural básico com as populações rústicas do termo. da condução e colocação da instituição municipal ao serviço do Estado. mas também a “coimeira” é aí profundamente gravosa para os termos do concelho e suas populações rurais e faz-se em proveito das vilas e sua população política. urbana e senhorial. do lançamento e cobrança dos impostos régios e municipais. de modo a confrontá-la com os seus críticos e sectores da população particularmente vexada com esta administração. sobretudo a fiscal. A paróquia Os estudos da História Municipal. do território e termos rurais. A política municipal. dos camaristas. de modo a permitir seguir os campos de oposição. A perspectiva dos administrados permite desde logo fixar mais claramente a conformação senhorial que adopta a generalidade dos municípios portugueses de Antigo Regime em meio urbano e sobretudo em meio rural e se exprime em particular. Pela sua natureza. a . em especial naqueles domínios e esferas de actuação que mais podem afrontar as populações: no domínio do exercício e aplicação da justiça. da resistência. Às dificuldades decorrentes de natureza da estrutura do poder municipal – de carácter político-senhorial e fiscal – acresce o forte enquadramento e tutela da ordem religiosa sobre as paróquias. Como permite também fixar os termos da protecção e particular privilégio que o Município promove relativamente ao território urbano – sede de concelho – suas elites políticas e sociais urbanas. dos colonos. do lançamento dos serviços públicos e municipais forçados. da crítica aos poderes municipais. não tem com efeito estudado a História da Administração Municipal do lado dos administrados.

ou a fazer submeter os poderes próprios da paróquia ao ordenamento geral do Reino. directamente ou indirectamente pela sua mais forte articulação e dependência dos concelhos. se arroga o direito de representar as comunidades fazendo frente ou condicionando fortemente o poder municipal ou seus representantes na paróquia. pouco envolvente. onde a organização paroquial é menor e menos forte. dos aforamentos e partilha indiscriminada dos baldios – são muito frequentes por todo o território. Ora a paróquia é. Sem grande sucesso. Com Pombal para além das reformas dos concelhos para os configurar no ordenamento régio houve um esforço para valorizar socialmente o exercício dos cargos municipais nas paróquias. um poder muito forte sobre a comunidade. por um lado. o poder municipal é aí descrito muito periférico. sem qualquer significado para os povos. Pouco sucesso teriam também os Zeladores de Polícia instalados pós 1790 que o Estado pretendeu estabelecer para impor a ordem pública às terras. poucos avanços se produziram na aproximação das paróquias e comunidades inscritas no aro concelhio aos con- . como se pode seguir pelas Memórias Paroquiais de 1758. Esta realidade. É até muito desclassificado pelo papel dos seus juízes e rendeiros. pouco influente. Por outro lado é preciso atentar na organização autónoma das paróquias que no Norte. e por outro a criar um poder civil na paróquia que se integrasse no ordenamento político geral. Mas também pela resistência a vir-se empossar às câmaras. em grande parte por sobre a estrutura municipal. Eles são também a expressão do carácter opressivo desta organização. em particular aos termos rurais das paróquias ou freguesias para avaliar melhor as formas de articulação entre ambos os territórios e suas instituições político-administrativas. esta organização concelhia e esta organização paroquial. A Coroa no seu afã de aproximação e controlo de todas as esferas e espaços da Sociedade intentou as reformas necessárias para colocar os concelhos ao serviço de uma ordem pública.56 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS civil dos concelhos e a religiosa nas paróquias. Contratos de moradores dos termos com os municípios – para fugir à violência dos impostos. Com efeito apesar dos esforços. das prestações de serviços. É por isso necessário seguir melhor os modelos e as estruturas de aproximação das câmaras aos concelhos. surgem os “concelhinhos” e governos de freguesias com uma estrutura muito aproximada à dos concelhos – a que tão só faltam às vezes os vereadores – e se avençam e contratam com os seus municípios para fugir aos excessos e violências dos maiores municípios. criam dificuldades intransponíveis à aproximação da Coroa e Municípios régios e da administração pública às populações. pelo menos. Como se pode seguir pelo rol das coimas e volume e montante das coimas. Nas terras do Sul. o clima de resistência de aldeias às ordens camarárias e municipal é enorme. das fintas.

expresso designadamente na construção e embelezamento das suas igrejas e da animação da vida paroquial à volta da missa conventual. da paróquia e dos paroquianos e na fixação de uma tutela e vigilância muito activa das autoridades diocesanas sobre a comunidade paroquial e de fiéis.ADMINISTRAÇÃO LOCAL E MUNICIPAL PORTUGUESA DO SÉCULO XVIII ÀS REFORMAS LIBERAIS 57 celhos e às câmaras. O assalto à fortaleza de paróquia é realmente uma das tarefas a que a Monarquia e a Administração civil se envolverá activamente ao longo da etapa histórica. Aqui porém as dificuldades foram maiores. porque efectivamente não há continuidade de interesses entre esta ordem municipal tradicionalmente construída ao serviço das governanças. Em regra as paróquias e seus oficiais mantém relativamente às câmaras uma atitude de hostilidade. e religiosos. em especial desde meados do século XVIII. sejam eles do subsino ou de vintena. relativamente à qual os outros poderes e jurisdições tem uma acção totalmente periférica. Por meados do século XVIII. O concelho está fortemente dividido entre a comunidade dos eleitos e dos privilegiados. No Pombalismo fizeram-se avanços neste domínio. A paróquia é assim um quadro de extraordinária vitalidade. se articulam mais poderosamente com o poder camarário e de algum modo se dignificam as suas tarefas. como se fizeram no neo-pombalismo (pós 1790-92) sob o signo do regalismo e do alargamento do direito régio. O termo do concelho dificilmente constitui com os moradores de sede e vila uma comunidade de vizinhos. contra a dos moradores devassos das paróquias do termo rural concelhio. indiferença. sociais e sobretudo administrativos. ao pretender instalar-se no seio da comunidade paroquial. do Subsino e do Rosário. Mas a articulação social e política das comunidades à régia administração e poder municipal é uma tarefa localmente encomendada às câmaras. da vila. das elites e do . a comunidade paroquial atinge o pleno do seu reforço. alicerçados na construção de equipamentos religiosos e sobretudo de uma muito viva e activa organização sócio-religiosa à volta da constituição de importantes confrarias ou irmandades para o governo material e espiritual da igreja. Mas tal foi sempre a excepção. Para além da confraria do Subsino ou do Nome de Deus. mais próximo mal entrara. económicos. de 3 importantes confrarias que congregarão os esforços e os sentimentos religiosos da comunidade a saber. O poder real. afirmação e autonomia. altura em que os juízes das paróquias. Com efeito a comunidade paroquial vinha de uma longa evolução de reforço dos seus suportes demográficos. que governam toda a paróquia no civil e eclesiástico. com Pombal intentará ir o mais longe possível neste afã de controlar e integrar todo o território. O Regalismo é sem dúvida o enquadramento privilegiado para tal submissão da ordem religiosa à civil na prossecução dos objectivos da Monarquia Cristianíssima. a das Almas. aí onde o próprio poder municipal. com a instalação dos sacrários e sobretudo da constituição em regra.

rendeiros – apresenta em toda a sua nudez nos verdadeiros beneficiários. Os aforamentos e os aforantes. governo e ordem municipal que a constituição social dos orgãos de governo – câmaras. Em grande medida o radicalismo da reforma dos concelhos em 1836 – que extingue cerca de metade dos concelhos portugueses – e lhes reduz os poderes e competências – designadamente retirando-lhe o judicial. com efeito. ao longo do século XVIII as razões de queixa das populações paroquiais contra as câmaras. dos excessos dos rendeiros e coimeiros municipais. em particular a mais radical e revolucionária. da violência do recurso aos serviços a prestar nas obras e arranjos das vilas. almotaçarias. Múltiplos são os testemunhos por onde se podem seguir estas “violências” e “vexações” da administração municipal. almotaçarias. a crítica política à instituição. dos juízes gerais. em que se revoltariam mesmo em conjunto contra a prepotência dos senhores das câmaras e das vilas. E há também uma importante literatura que é particularmente rica de informações sobre esta matéria e onde é possível seguir. suas ruas. juízos fiscais. espaço da nobreza mas também de muitas violências – exprime e mede de certo modo também. propinas e emolumentos e demais gastos festivos e propagandísticos. utentes e destinatários desta instituição. nesta etapa. Aumentam. praças e equipamentos. Que ganha particular expressão na etapa pombalina (propugnando sobretudo pelo seu enquadramento na ordem e Direito Público) e depois na fase posterior a 1789 em especial a 1790/92 (propugnando também agora pela sua colocação ao serviço do desenvolvimento e felicidade dos povos) assumindo a partir daqui por vezes um cunho particularmente crítico sobre o lugar e papel histórico e moderno do governo e instituição municipal ao ponto de alguns propugnarem pela sua abolição. Momentos críticos houve. com salários. porque politicamente retrógrada e incapaz de regeneração. em particular. particularmente vexadas com o processo de aforamento dos baldios – particularmente activo pós 1790 – do agravamento fiscal sobre a população não privilegiada dos termos. seguir a sua evolução temporal e distribuição geográfica. A leitura atenta dos registos camarários permite entrevê-los. das coimas e condenações de câmaras. os regimes das terças. . a distribuição da renda municipal. em especial daqueles ilustrados que seguem de perto a actuação do governo e instituição municipal. E em particular a literatura Memorialística vinda do seio da Ilustração. os regulamentos e posturas e outros ordenamentos e deliberações permitem claramente seguir os destinatários e os beneficiários desta administração.58 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS marco urbano que se constrói e reforça com base no domínio sobre as populações rurais dos termos. os radicalismos e as violências com que vem sendo avaliado e criticado o nosso município desde o tempo da Ilustração. o estudo quantitativo e diferenciado dos actos e decisões das vereações. vintenas permite quantificá-las. as tabelas de preços. calçadas.

2001. 2001. in Elites e Poder. Mas não deixa de revelar alguns impasses. As Misericórdias Portuguesas de D. Mest. elites e poder. pp. Mes. Ou seja. mimeo. O objecto deste breve texto. Dis. assim.Sociologia das elites locais (séculos XVII-XVIII) Uma breve reflexão historiográfica NUNO GONÇALO MONTEIRO (Universidade de Lisboa / Instituto de Ciências Sociais) Ao longo das duas últimas décadas. Entre o Antigo Regime e o Liberalismo. retomado de uma comunicação oral. 37-81. Nuno Pouzinho. tentando apresentar. Lisboa. 1998. entre os quais destacaria: Nelson Veríssimo.. 2 vols. Ponta Delgada. outras instituições locais (em especial. Dout. Os Municípios no Portugal Moderno: dos forais manuelinos às reformas liberais Lisboa. Lisboa. Lisboa. mimeo. síntese recente de Isabel dos Guimarães Sá. o estudo das elites municipais tem constituído um dos principais temas de investigação da historiografia portuguesa e objecto de diversas sínteses1. Porto. Manuel a Pombal. mimeo. pp. Teresa Fonseca. Lisboa. 2003.. as misericórdias) vêm recebendo a atenção dos estudiosos2. A imensa informação recolhida permite que se façam novos pontos da situação e que se renovem as reflexões sobre o tema. Dis. 2002 e José Damião Rodrigues. Mais recentemente. remeto para Nuno Gonçalo Monteiro. o de debater algumas vias complementares para o estudo das elites locais. A Elite Municipal de Castelo Branco entre 1792 e 1878. para que a acumulação de nova informação alargue o horizonte das pesquisas e se não limite a fornecer mais um estudo de caso que ratifica tudo aquilo que se conhece. 2005. Outros trabalhos sobre o tema têm surgido que aí não se encontram referenciados. será. Absolutismo e municipalismo. Relações de poder na sociedade madeirense do século XVII. 2 Cf. São Miguel no século XVIII. . Vila do Conde (1785-1800) : as gentes e o Governo Municipal. parece necessário propor e discutir novas questões e as metodologias adequadas para se lhes dar resposta. 2000. 59-72. 1 Para uma bibliografia mais detalhada. 2003. Casa.. Dis. Edições Colibri – CIDEHUS-UE. «Elites locais e mobilidade social em Portugal no Antigo Regime». na linha de alguns textos já antes publicados.. António Ventura dos Santos Pinto. Évora 1750-1820. Lisboa..

Reflexões sobre a história e a cultura portuguesas. Com efeito. é bem provável que as formas de exercício dos poderes nas províncias no século XVI e no início do seguinte não fossem as mesmas. Idem. sugerem que até às primeiras décadas de seis3 Cruzando informação de: Pedro Brito. Porto. O município de Coimbra da Restauração ao Pombalismo. «Os tempos modernos». O poder concelhio: das origens às cortes constituintes. tendência que se aprofunda na centúria subsequente. 5 Cf. contra uma imagem demasiado decalcada do século XVII tardio e do século XVIII (a da municipalização do espaço político local). 1994 e Idem. in Notas económicas. E. Ferreira (coord. 1. «A sociedade portuguesa. de Oliveira Nunes. Francisco Ribeiro da Silva. O... 1986. 2 vol. Coimbra. Porto. «Reflexões sobre a estrutura municipal portuguesa e a sociedade colonial portuguesa».E. 1995. dout. Joaquim Romero Magalhães. O Algarve económico 1600-1773.. por um lado. 1994. Porto. Ramos (dir.). Joaquim Romero Magalhães. 7 Cf. a verdade é que a continuidade das elites locais ao longo da época moderna carece ainda de confirmação empírica. apesar da tendência apontada há muito por Romero Magalhães para a crescente elitização da vida política local7.º16. diversos trabalhos recentes. e Ana S. Lisboa. José Damião Rodrigues. História do Porto. 1999. 1988. são escassos os estudos na longa duração sobre elites locais. 1995.60 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS novos tópicos de análise. Poder e poderosos na Idade Moderna. Porto. sob alguns aspectos o Algarve5 e Ponta Delgada6). . O Porto e o seu termo (1580-1640). 1997. Os escassos estudos sobre elites locais na longa duração A primeira questão que se quer levantar parte de uma constatação: apesar de existirem algumas excepções parciais (o Porto3. São Miguel no século XVIII…. 4 Cf. séculos XVII e XVIII». Maria Helena Coelho e Joaquim Romero Magalhães. idem. Acresce que as ilações que deles se podem tirar não são unívocas. Lisboa. entre outros.C. Um aspecto que parece fundamental ponderar são as modificações da arquitectura dos poderes locais resultantes da erosão do poder senhorial no decurso do século XVII. 6 Cf. in L. História Social da Administração do Porto (1700-1750). 1988. A. Mimeo. n. em particular os de Mafalda Soares da Cunha. Patriciado urbano quinhentista: famílias dominantes do Porto (1500-1580). 1986. Poder municipal e oligarquias urbanas: Ponta Delgada no século XVII. «As estruturas sociais de enquadramento da economia portuguesa de Antigo Regime: os concelhos».º 4. Ora. cit. Coimbra4 e. A ideia central é alargar o campo de inquirição das leituras institucionais (como sejam as que pontificavam nas câmaras e misericórdias) para outros terrenos. Ponta Delgada. Revista de História Económica e Social. n. por outro lado. Dis. Romero Magalhães.). in M. Sérgio Cunha Soares. 1986. e J. Coimbra.

pp. «Os poderes locais no Antigo Regime».). «A nobreza portuguesa e a corte de Madrid». 2000. Monteiro. . os poucos estudos disponíveis não são concludentes sobre a continuidade ou descontinuidade multissecular das famílias. 12 Ideia desenvolvida em Nuno G.). pp. Lisboa.. Monteiro. 488-489. in César Oliveira (dir. Independentemente da legislação restritiva do século XVII sobre a elegibilidade para os ofícios locais. História dos Municípios e do poder local. 1640-1820». O Crepúsculo dos Grandes. neste como em outros terrenos. Nuno G. com evidentes implicações nos destinos individuais e familiares. A Restauração de 1640 constituiu. eventualmente.. Monteiro. Lisboa. Nuno Gonçalo F. exemplarmente estudado por Enrique Soria Mesa. Dória. Ou seja. quando quase toda a primeira nobreza do reino residia na corte e quando o número de terras sujeitas a jurisdição senhorial e. pp. Lisboa.d. uma viragem importante. in Portugal no tempo dos filipes.. pp. Lisboa. Fernando Bouza Álvarez. s. A esse respeito um bom referente comparativo é nos fornecido pelos trabalhos sobre as elites locais dos territórios da coroa de Castela. Nuno G. A casa e o património da aristocracia em Portugal (1755-1832). Mafalda Soares da Cunha. que havia muitos fidalgos principais residentes nas províncias9 e que. Porto. e A. Política. É certo que a venda de ofícios locais e de mercês supe- 8 Cf. as redes clientelares destes tinham uma efectiva vitalidade e influência10. «Os poderes locais no Antigo Regime». 49-54 e 153-161. Representações (1580-1668). Cultura. sobretudo pp. A Casa de Bragança (1560-1640). pp. in Conde de Ericeira. Práticas senhoriais e redes clientelares. finalmente. constitui uma excelente ilustração. 49-54. 1996. nota D. este elemento pode ter pesado também na composição dos grupos que nelas pontificavam. 9 Cf. Se admitirmos que essa evolução representou uma efectiva mutação institucional12. O caso andaluz de Córdova. Por outro lado. História dos Municípios…. a gradual distensão dos laços clientelares que estas podiam estabelecer com as províncias pode ter dado lugar à emergência de novos protagonistas. então coloca-se a questão de avaliar até que ponto antes e depois as lógicas de estruturação dos equilíbrios e dos poderes locais eram diversas.234-235. Monteiro. in César Oliveira (dir. 1998.. 2000.A. in Elites e poder. 425-427. 10 Cf. 11 Cf. António de Oliveira. História de Portugal Restaurado. «Poderes e circulação das elites em Portugal.. Poder e oposição política em Portugal no período filipino (1580-1640).SOCIOLOGIA DAS ELITES LOCAIS (SÉCULOS XVII-XVIII) 61 centos os poderes senhoriais eram geograficamente muito amplos8 e efectivamente exercidos.105-138. Lisboa. 207-256. A migração por alturas de 1640 de muitas famílias principais para a corte. 1990. nova ed. a efectividade do exercício das respectivas prerrogativas por parte dos senhores parecem ter recuado sem apelo11. que o cenário era distinto do que encontramos no século XVIII. pp.

13 14 Idem. os arrolamentos da nobreza das terras) só se tornam profusas para finais do Antigo Regime. apesar disso.. O que designou por «el cambio inmóvil».) las Casas medianas (. «Elites locais e mobilidade social…». y en la Córdoba de los siglos XVI al XVIII. alcanzaron el poder grupos oficialmente excluidos de los honores y las dignidades».66 e seg. 17 Na verdade. Madrid. ss XVI-XVIII). 1606-1808).. mas sempre com uma «ficção de provas» e de genealogias que lhes asseguravam uma antiguidade e fidalguia.) ya en le siglo XVI (.15 15 Idem. 13 Enrique Soria Mesa.) las grandes Casas nobiliarias cordobesas (. Mauro Hernández. o caso de Madrid não parece ser radicalmente diferente daquele que se acaba de apresentar16. «las élites tradicionales. Também é verdade que muitos dos trabalhos já efectuados abrangendo centros urbanos de alguma relevância nesse período (grosso modo. É certo que as fontes portuguesas (designadamente.101-103 16 Cf. los antiguós linajes. Nuno Gonçalo Monteiro. E. é só depois de 1755 que os arrolamentos se tornam frequentes no Desembargo do Paço. ibidem.. A la sombra de la corona. em larga medida inventadas. ibidem. quase sempre antecedidas por uma etapa de acumulação de capital económico no terreno mercantil ou outro.) a finales del XVII»15.62 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS riores (senhorios e até títulos) introduzem uma componente que não tem paralelo no caso português..... 1996. não apenas conhecemos. El cambio inmóvil. p. «seguramente. cambio sustancialmente la composición social de la élite gobernante. segunda metade de setecentos e início de oitocentos) indicam que a governança era controlada por um núcleo muito reduzido de famílias. p. Em Córdova. se transformaron muchas cosas.) para eso están los genealogistas»13. Córdoba. para onde eram remetidos os das terras da coroa. apesar das diferenças. 18 Cf. pero se mantendrá la ficción de que nada puede cambiar (. traduziu-se no facto de «en la Monarquia Española. 2000. as quais procuravam limitar de várias maneiras o acesso dos adventícios aos respectivos ofícios.. o que em parte explica a abundância de estudos centrados nessa etapa tardia17. . em seu lugar foram ascendendo outras. pp. la ciudad más aristocratizada de España en la Edad Moderna»14. Poder y oligarquia urbana (Madrid. Transformaciones y permanências en una elite de poder (Córdoba. muitas histórias de ascensão bem sucedidas18. O exemplo sumariamente descrito parece muito sugestivo. de forma general. en particular.. mas necessárias para lhes conferir o estatuto de membro de pleno direito do restrito grupo dirigente local. empiezaron a abandonar el municipio (. Em todo o caso a comparação é legítima e possível. nueva sangre en las élites.. p. muitas com sangue converso. «habrá transformaciones. No entanto.

Em síntese.51-110. Aí se constata que «é de verdadeira nobreza a maioria das famílias que detêm o poder nos concelhos urbanos do Algarve até ao século XVII.º 2. representando a nobreza de sangue nos mesmos concelhos principais antes recenseados apenas 19% do total dos vereadores . até ao século XVII.SOCIOLOGIA DAS ELITES LOCAIS (SÉCULOS XVII-XVIII) 63 como parece indispensável estabelecer. me foi dado consultar uma investigação sobre o Algarve que mostra bem as virtualidades dos estudos na longa duração19. ao usar os róis de vereadores por causa das «omissões» desse tipo de fontes (cf. com um máximo percentual de 64% no século XVI». . Fidalgos Nobres e demais privilegiados no poder concelhio». 2003. n. a única forma de comparar um grande número de municípios de distintas regiões. a cronologia e os ciclos na longa duração de maior estabilidade e de maior renovação das elites municipais. modificou significativamente as perspectivas até agora prevalecentes sobre a evolução da elites locais na referida província. o autor mostra-nos que esse processo foi a sequência da regressão das antigas famílias da fidalguia local dominantes nos séculos XV e XVII. 2003.: Miguel Maria Telles Moniz Corte-Real. que ascendeu graças à riqueza acumulada no trato mercantil». O seu autor. contrariando a imagem da afirmação gradual de uma nobreza camarária sem raízes fidalgas numa província onde a nobreza de sangue teria sido sempre muito minoritária. para a qual Romero Magalhães chamou há muito a atenção. no estado actual da investigação. dita reino. e. Sem pretender refutar a crítica. o facto de o uso desse tipo de fontes constituir. e idem. 53. no fim de contas. «Para o estudo…». 20 O autor afirma. Camarate. p. portanto. Tabardo. 19 Cf. nota (3)). depois. «Para o estudo das elites do Algarve no antigo Regime. certamente com fundamento. em cada contexto. que no texto «Elites locais e mobilidade social…» fui induzido em engano no que ao Algarve se refere. de sublinhar duas questões: desde logo. já depois de elaborada a versão inicial deste texto. associada à ruralização e decadência económica seiscentista. cruzando relações de vereações camarárias20 com o estudo do acesso de naturais do Algarve a cartas de brasões de armas e outras distinções da monarquia. corroboradas pelas investigações muito mais aprofundadas do próprio autor. Gostaria de acrescentar que. que as minhas conclusões acerca da escassa presença da fidalguia de sangue nas vereações algarvias no início do século XIX foram. Nos séculos XVIII e inícios do XIX «(a)ssiste-se à inversão da base sociológica do grupo dos vereadores nas principais câmaras do Algarve (…) o poder radica agora numa nobreza de função. «o Algarve foi um espaço característico da nobreza de sangue». Fidalgos de cota de armas do Algarve. pp. no entanto. gostaria. «quando inicia a sua ruralização e decadência».

pelo menos depois de meados de seiscentos. Nuno Gonçalo Monteiro. fidalgos e primeira nobreza de corte21. de resto sempre em número de cerca de meia centena até 1790. mercê e venalidade: as Ordens Militares e o Estado Moderno. a legislação. mas. n.64 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS 2. até certo patamar. 1987. não se podiam comprar as distinções superiores da monarquia. podia chegar a abrir o topo da pirâmide nobiliárquica. não só outras distinções nobiliárquicas inferiores. consagrada pelo tempo. «Notas sobre nobreza. pp. 15-51. como uma forma de acumulação de capital económico – e pelo modo de vida. a partir de finais do século XVII. que só tem relevância a certos níveis. para os efeitos agora considerados. nem tão pouco os títulos nobiliárquicos. Nada de semelhante se verificava em Portugal. Como eloquentemente demonstrou Fernanda Olival22. pp. 22 Cf.º 10. A monarquia vizinha vendia. foi sempre possível comprar hábitos a quem já tinha recebido a respectiva mercê da coroa. in Ler História. quase só pelo serviço ao rei. fidalguia e titulares nos finais do Antigo Regime». Poderíamos. Mas. Só que o serviço ao rei tinha inexoráveis condicionalismos. ao invés da polarização entre nobres e não nobres (ou nobres e mecânicos). 21 Cf. pela riqueza – nesta se podendo incluir as alianças matrimoniais. aquilo com que nos defrontamos em Portugal é com uma miríade de distinções e hierarquias e com a extrema dificuldade em definir uma hierarquia nobiliárquica abrangendo todo o espaço geográfico e social da monarquia. está longe de nos resolver inteiramente o problema. as diferenças com Castela são muito relevantes. Neste ponto. A ascensão na hierarquia nobiliárquica podia fazer-se. não consta que se comprassem comendas. 237 e seg. Honra. ao contrário do modelo castelhano. as quais só se alcançavam pelo real serviço. senhorios e até títulos. não consta que se vendessem senão em casos excepcionais depois de 1640. Lisboa. Fernanda Olival. daí para cima e de forma progressivamente mais apertada. 2001. são mesmo dois momentos distintos nas trajectórias das famílias ao longo de várias gerações. muito sumariamente. . De resto. Em resumo. mas ainda ofícios locais nobilitantes. A história das famílias constitui um terreno ainda em larga medida por explorar Tal como já tive muitas vezes oportunidade de destacar. a riqueza. Desta forma. distinguir entre simples nobres. frequentemente contraditória. Em geral. mas as coisas são quase sempre mais complexas. tal como os senhorios que antes se transaccionaram.

Portugal – séc. 1668). etc. senhorios.. in Francisco Chácon Jiménez e Juan Hernandez Franco (eds. de Murcia. porque em larga medida apropriadas pelas da corte24. mais recentemente. F. a Restauração representou. Monteiro. parece que estas últimas só dificilmente estiveram ao alcance das famílias provinciais. se foi tornando cada vez mais difícil. Familia. porque tendencialmente monopolizado pela «primeira nobreza de corte». Murcia. Lisboa (no prelo). uma imensa ruptura no equilíbrio entre grupos nobiliárquicos. Nuno G. e muito. poderosos y oligarquías.SOCIOLOGIA DAS ELITES LOCAIS (SÉCULOS XVII-XVIII) 65 De facto. 17-37. Não tanto porque se criassem instituições novas (matrículas da casa real. que constituía em si mesmo um signo de capital social25). cit. 26 Op. 2001. .. in Optima Pars. No puzzle das instituições locais e centrais disponíveis. 24 O serviço no exército e. Deste ponto de vista. cit. Em termos muito sumários. as lógicas de reprodução social. e esta é uma ideia forte que importa de reafirmar. títulos. a qualidade de nascimento. 25 Cf. morgadios. 2 vols. tanto em termo de produção de serviços à coroa ou de acumulação de capital económico. e ao invés de Castela. chamada de atenção para o problema em António Manuel Hespanha. 1986.). Instituições e Poder Político. mais globalmente. no de José Damião 23 Cf. pode afirmar-se que o acesso aos ofícios e aos serviços que permitiam receber as tais mercês superiores da monarquia. sobretudo. pelo menos a prazo (depois do fim da Guerra. pp. «Governadores e capitães-mores do império Atlântico português nos séculos XVII e XVIII». comendas. e. XVII. habilitam-nos a medir até que ponto determinadas elites se enquistavam nas instituições locais ou se alargavam a espaços mais amplos. 27 Op. no governo das conquistas foi uma das portas possíveis. As vésperas do Leviathan. «Trajectórias sociais e formas familiares: o modelo de sucessão vincular». tudo vinha de trás). no trabalho modelar de Pedro Brito26. Lisboa. pois também aí pesava. embora com limitações inexoráveis. são os estudos de reconstituição de famílias ao longo de períodos razoavelmente dilatados no tempo. no livro de Mafalda Soares da Cunha27. Uma das formas de apreender essas apropriações e. como no plano das alianças matrimoniais. cf. Mafalda Soares da Cunha e Nuno Gonçalo Monteiro. Há algumas aproximações a este tipo de abordagem – por exemplo. Univ. Elites Ibero-Americanas do Antigo Regime. Para além de só estes permitirem medir a difusão ou não do padrão da primogenitura (o que se pode designar de «modelo reprodutivo vincular». a ascensão das elites locais em Portugal desde finais de seiscentos encontrava-se limitada pelas dificuldades que encontravam em aceder aos ofícios e às mercês do centro23. quanto pelas novas apropriações sociais e institucionais que se fizeram das instituições existentes.

Não se ignoram muitas objecções que se podem colocar a esta escolha.Miguel…. Geografia da nobreza e fidalguia e construção de casas nobres Nas mais de oito centenas de municípios do reino. O livro recente de José Damião Rodrigues constitui. matéria à qual se regressará. aos quais se poderiam acrescentar os das ilhas e até das conquistas. Em trabalho anterior. Ir-se-ão resumir esses dados para depois discutir uma outra dimensão da questão. existe um fantástico fundo de produção de genealogias que facilita muito o trabalho. o de emancipar este território de pesquisa de um excessivo enquistamento nas instituições municipais. A maior dificuldade é. um bom exemplo: estuda as famílias principais enquanto «oligarquias municipais». nas não ainda uma utilização sistemática desta metodologia clássica. a famílias principais e as «elites camarárias» nunca constituíram uma categoria social uniforme. esboçou-se uma geografia dos níveis de riqueza e de nobreza das elites locais. mas depois procede também à sua análise detalhada do ponto de vista das casas. as quais estavam longe de constituir o único centro de interesse para as principais famílias locais. 3. uma geografia diferencial das elites provinciais. a esse propósito. Existia. Ora. . evidentemente. Cit. Menos substantivas parecem as reservas sobre a informação conjuntural que se perde ou sobre as virtudes das análises de redes. Qual a base para a escolha? Qual o critério a eleger para reconstituir as famílias? A opção não é fácil e supõe sempre uma definição de critérios de hierarquização nobiliárquica. o estudo das elites locais a partir das famílias e das casas tem inequívocas potencialidades. bem como outros ulteriores. pelo menos para quem se ocupe de grupos fidalgos (mas não só)29. Uma das quais é. O quadro que desenha fica assim muito mais completo e matizado. 30 Op.66 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Rodrigues28 –. das famílias e das respectivas estratégias de reprodução social30. Os historiadores académicos pouco têm explorado as potencialidades dos fantásticos fundos de produção genealógica da época estudada. Apesar das limitações apontadas. cit. Uma boa base de reconstituição de famílias permite muitos tipos de tratamento. acerca dos quais já antes se destacaram as dificuldades que levantam. com efeito. sem sombra de dúvidas. O exercício de comparação de arrolamentos camarários em finais do Antigo Regime permite concluir que genericamente as elites locais eram 28 29 S. o ponto de partida.

acabando as duas dimensões por tender a coincidir. in José Portela e João Castro Caldas (ed. menos presente no Sul do que no Centro e no Norte) com a maior riqueza e alguma mobilidade social (muito dinheiro do Brasil foi parar às casas do vale do Lima. no Douro próximo da região demarcada do vinho do Porto. ao mesmo tempo que sugere as dificuldade que estas tinham em aceder ao centro. 33 Distribuição de casas por distritos actuais Braga Porto Viana Viseu Guarda Coimbra 40 31 28 28 18 14 Évora Aveiro Bragança Leiria Castelo Beja 13 12 10 6 5 4 Faro Vila Real Lisboa Setúbal Portalegre Santarém 4 4 3 3 2 1 . o peso esmagador da antiga província do Entre-Douro-e-Minho. Num exercício efectuado a partir de uma amostra escassa (apenas 223 casas) sobre a distribuição geográfica desse património edificado no território português do continente32. os resultados apurados33 destacam. as povoações sede de comarca do litoral (Aveiro. O estudo das casas armoriadas no território do continente português edificadas ou restauradas dos séculos XVII e XVIII fornece um indicador da vitalidade e da densidade das fidalguias provinciais. Também. em apenas cerca de meia dúzia de terras do Alentejo. por exemplo). nesta matéria. Nuno Gonçalo Monteiro. na Beira Alta. em muitas povoações alentejanas não havia um único fidalgo reconhecido. principiando por retomar a divisão distrital actual (18 distritos do continente). Leiria. pp. quase 44% do total. 2003. com 99 casas. No centro. verifica-se que. que está longe de ser muito completa. de resto. «Elites locais e mobilidade social…». Oeiras. Algumas notas». cit. Globalmente. mas agora concentradas em centros urbanos.). Nuno Gonçalo Monteiro. do que as do interior (Lamego e Viseu). encontrando-se aí dispersas por muitas povoações e até termos concelhios. «A patrimonialização do espaço social rural e o património edificado. como seria de esperar. eram mais ricas e mais fidalgas no Minho. as câmaras mais ricas e mais fidalgas não traduziam linearmente a presença de uma fidalguia muito antiga mas sim a confluência de uma herança de fidalguia anterior (dos seus símbolos e modos de vida. 217-230. Mas 31 32 Cf. Torres Vedras) tinham claramente menos importância.SOCIOLOGIA DAS ELITES LOCAIS (SÉCULOS XVII-XVIII) 67 mais ricas nas mesmas terras onde eram também mais fidalgas. Coimbra. De acordo com a informação recolhida. Portugal Chão. Cf. embora nunca demasiado rápida e abrangendo quase sempre apenas certas famílias ou casas31.

Miranda Vila Viço. A hierarquia da nobreza das províncias Existia. bem espelhada no espaço. 123 ficavam em comarcas «do interior»34. num total de 226 casas. Arcos de Valdevez. partindo dos elementos recolhidos. Subsídios para o estudo da nobreza arcoense. quer as tentativas de aproximação de conjunto. muito à frente do Centro Litoral e do Sul. Uma vez mais.68 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS depois vem claramente a Beira Interior. Embora a coincidência não seja perfeita. a história casas-edifícios confunde-se com a das famílias e das «casas e morgados». 1989-2004. têm inequívocas potencialidades. de resto.. em larga medida.. Para além da referida distinção entre nobres e fidalgos (explicita. quer os estudos monográficos35 que se prendem com o tema que estudaremos de seguida. diversamente. que aqui não cabe detalhar. será muito difícil identificar alguma vez todas as casas armoriadas ou inequivocamente fidalgas que existiram no continente português durante o Antigo Regime. por exemplo. quando existiam 48 comarcas. Casas armoriadas do concelho de Arcos de Valdevez. 4. Por razões várias. As duas coisas parecem coincidir. é possível. . Acresce que. trata-se de uma via de investigação alternativa à análise centrada na instituição municipal. Uma vez mais. no sentido antes referido de «modelo reprodutivo vincular». Armando Malheiro da Silva. 6 5 5 5 NOTA: Os territórios encravados da comarca de Barcelos foram incluídos naquelas com as quais tinham contiguidade territorial. Luís Pimenta de Castro Damásio et al. 5 vols. No entanto. portanto. 35 Cf. como se acaba de constatar. de acordo com as fontes consultadas. uma hierarquia nas nobrezas provinciais. em regimentos 34 As 16 comarcas de Antigo Regime com maior número de casas Viana Guimarães Viseu Coimbra 27 23 17 16 Porto Barcelos Braga Évora 15 13 13 10 Lamego Guarda Trancoso Feira 10 8 7 6 Penafiel Castelo B. as comarcas da Beira interior aparecem à frente do Centro Litoral. de resto. Se. retomarmos a geografia em comarcas existente em 1825. detectar uma apreciável correlação positiva entre as zonas e as localidades nas quais detectámos elites locais mais ricas e com signos nobiliárquicos mais destacados e aquelas nas quais se detectam também maior número de casas armoriadas. só parcialmente exploradas no caso português. apesar da subavaliação do Sul e de todas as limitações das fontes. apesar de tudo. torna-se possível esclarecer algumas dimensões suplementares: verificamos que. cujas virtualidades importa explorar.

«pelo motivo de desigualdade em qualidades»38.) unidas no suplicante. Corte. avultariam mais de cem mil cruzados por ano. tentar esboçar outros limiares.. Por outro lado. a pertença a um mesmo rol de elegíveis para a governança de um município não servia para criar uma identidade social comum. Existiam na província seguramente mais de uma. descendendo pelo lado paterno do (único) Conde de Vila Pouca de Aguiar. 37 Cf. Macao. tem 53 anos e é reputado «rico». ou em seu filho. ao contrário do pretendido noivo.SOCIOLOGIA DAS ELITES LOCAIS (SÉCULOS XVII-XVIII) 69 como os da câmara de Goa36). Desembargo do Paço. Op. pelo lado materno. ele era e tinham sido «seus Avós Paternos. apesar das dificuldades apontadas. e o 36 Cf. Bahia and Luanda. é possível. o que não desconheciam. era imediato sucessor da grande casa que fora do avô materno e que administrava uma tia. Fidalgos muito distintos». como antes se disse. Poder-se-iam retomar muitas histórias. Joana Teresa do Carvalhal Esmeraldo Atouguia e Câmara. e sendo. Em primeiro lugar. que. Desde logo. No entanto.. mas em quadragésimo segundo lugar e apenas com «bens suficientes». 1965. Francisco Roque de Albuquerque também surge na mesma lista. The Municipal Councils of Goa. Uma exemplar é a da impugnação que em 1786 João do Carvalhal Esmeraldo da Ilha da Madeira. e Maternos. o pai da desejada noiva alegava que. de Belmonte. cit. «aparentado com as casas de Unhão. pelo que «a antiga Nobreza destas duas casas (. e da Cova. Madison. Portuguese Society in the Tropics. de cujas listas já constavam os seus antepassados pelo menos século e meio antes37. foram raríssimos os fidalgos de província que casaram os seus filhos ou filhas sucessoras com a prole dos Grandes do reino desde finais do século XVII a inícios do XIX. fez ao matrimónio da sua quinta filha com outro fidalgo arrolado na mesma lista e acabado de fazer sargento-mor. No arrolamento dos elegíveis para vereador da câmara do Funchal em 1787 João Carvalhal Esmeraldo aparece em primeiro lugar. no divórcio que se foi cavando cada vez mais entre as elites da corte e as das províncias. Entre outros argumentos. dos Mellos. tendo então 36 anos (IAN/TT. assim como muitas outras da Primeira Nobreza».º 1661). Charles Boxer. Fidalgo da Casa Real e o primeiro arrolado para a Câmara do Funchal. . tendo como referência sobretudo o século XVIII. importa recordar duas questões sobre as quais muito se tem insistido. além da casa que herdara de seu pai. maço n. embora muitas explicitamente o tivessem pretendido. é «fidalgo cavaleiro» (da casa real). 38 Francisco Roque de Freitas de Albuquerque da dita ilha pretendia contrair matrimónio com uma filha do personagem antes citado. Nelson Veríssimo. talvez mais de duas dezenas de casas com um rendimento equivalente ao das menos afortunadas casas na primeira nobreza da corte. D..

no entanto. Curiosamente. morreu solteiro39. 40 Cf. a única ordem efectivamente 39 Retomado da investigação em curso: Trinta Casamentos contrariados e outras histórias. mais antigos e que usavam armas nas fachadas das suas casas. principalmente para o seu filho mais Velho. Embora a variação dos critérios locais não se possa perder de vista (e a regra tenha. Fosse pela qualidade dos imputados ascendentes. Mas também nas habilitações da Ordem de Malta se tendia a fazer equivaler a fidalguia imemorial às matriculas da casa real. É importante destacar. pois apenas se reportando aos que tivessem o foro de «moço fidalgo e daí para cima». estas casas tinham uma geografia das suas alianças matrimoniais que se estendia a todo o reino e aspiravam a servir a monarquia em lugares de algum destaque. ICS. Isso é claro. e o pai não conseguiu o que queria. na regulação do acesso ao Colégio dos Nobres ou na lei dos casamentos de 1775 (há muito poucos moços fidalgos fora da corte)40. o que algumas vezes conseguiram (designadamente no exército e nas conquistas no século XVIII)41. É difícil. estabelecer uma hierarquia das nobrezas abaixo dos Grandes e da primeira nobreza de corte. a quem algumas das mais distintas. mas significativo. Litigiosidade inter-familiar e noções de nobreza em Portugal (1750-1832). que veio a ser o 1. não duvidariam dar uma filha». cit. fosse pelo rendimento respectivo. como disse. As lutas pelo acesso às vereações e aos arrolamentos de nobres recentes contra presuntivos fidalgos. num sentido ainda mais restritivo. «Governadores e capitães-mores do império Atlântico português nos séculos XVII e XVIII». mas essa declarada pretensão seria dificultada pela aliança em causa.º Conde do Carvalhal feito em 1835. a fronteira entre a nobreza antiga de pelourinho e a fidalguia de linhagem não é fácil de definir. Um indicador indirecto. . não nos deve fazer esquecer que no século XVIII cada vez mais as instituições centrais tenderam a fazer equivaler a fidalguia às matriculas da casa real. Nuno Gonçalo Monteiro. que se pode circunscrever uma categoria ainda mais restrita que podemos definir como a da principal fidalguia das províncias. «Elites locais e mobilidade social…». e titulares famílias deste Reino. Mafalda Soares da Cunha e Nuno Gonçalo Monteiro.70 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS intitulavam a pretender nobres e distintas alianças. Curiosamente. pois o único filho sobrevivente. 41 Cf. pode encontrar-se no recrutamento dos cavaleiros da Ordem de Malta. cit. até pela consabida falta de controlo no acesso e uso das cartas de Brasão de Armas. o saldo da história não fugiu à expectativa: a filha acabou por casar como pretendia. por isso excepções) existiriam nas províncias do reino algumas centenas de fidalgos da casa real que delimitavam um segmento superior das nobrezas locais.

uma relação de todas as casas da primeira nobreza das províncias. Ou seja. os Pereiras Coutinho de Penedono ou os Silva da Fonseca de Alcobaça. dispomos de informações para 174 cavaleiros. Procurou-se.. como. vamos encontrar precisamente muitos daqueles que mais buscavam fugir aos ofícios locais. no sentido de que algumas casas nela criaram raízes e foram fornecendo recorrentemente maltezes (chegou a haver 5 irmãos maltezes!). portanto. A Ordem de Malta não fornece. Mimeo. estas casas e famílias casavam muitas vezes fora das províncias de origem. Em síntese. servir a monarquia e. quase só do que hoje chamamos Beira interior (sobretudo comarcas de Lamego. 5. Trancoso e Viseu) e 18 do Minho. ao mesmo tempo. Lisboa. das mesmas zonas onde detectámos mais casas armoriadas! Entre os maltezes vemos filhos segundos de muitas das mais destacadas casas da primeira fidalguia provincial. mas à fidalguia das províncias. Os 92 indivíduos reduzem-se assim a 70 casas ou famílias ou até a menos (56) se considerarmos os laços de parentesco em primeiro ou segundo grau. De resto. por fim. pp. Ao todo. aceder à corte. os Pais do Amaral de Mangualde. Destes. nem mesmo as poucas centenas de fidalgos da casa real existentes nas províncias chegavam a definir uma categoria social uniforme. Guarda. 324 e seg. Nota final Nas páginas anteriores percorreram-se alguns temas da historiografia recente sobre as elites locais em Portugal no Antigo Regime. existia um pressuposto fundamental bem conhecido. não pertenciam à nobreza da corte. Desde logo. . Mest. Os cavaleiros da Ordem de S. que foi estudada recentemente por Inês Versos42. 43 provinham da Beira. em particular. os Pintos de Lamego (que deram um Grão-Mestre e depois o Secretário de Estado e Visconde de Balsemão). uma dimensão axial da questão e uma 42 Cf. Dis. 52%).João de Malta em Portugal de finais do Antigo Regime ao Liberalismo. que constitui.SOCIOLOGIA DAS ELITES LOCAIS (SÉCULOS XVII-XVIII) 71 fidalga. Na época estudada. 92 (ou seja. para o período compreendido entre 1691 e 1826. no plano geográfico: dos 92 referidos maltezes. E. militar e religiosa (destinava-se a secundogénitos) existente em Portugal. Mas dá uma excelente amostra do conjunto. dentro deste segmento mais restrito da fidalguia principais das províncias. Maria Inês Versos. 2003. sugerir vias possíveis de renovação de um território muito explorado nos últimos anos. É claro que não se trata de uma imagem de conjunto da primeira fidalguia das províncias porque a Ordem de Malta era uma questão de casas e famílias.

as famílias mais nobres e antigas podiam não estar interessadas no acesso aos ofícios locais. Em síntese. que as «elites políticas» locais fossem recrutadas nas «elites sociais» locais (para retomar uma outra terminologia). repousasse nas mãos dos mais nobre das terras. das «pessoas da melhor nobreza. Alguns dos exemplos apontados nessa direcção parecem corroborar as suas indiscutíveis virtualidades. Os dois planos confundiam-se. identificadas pelo seu grau de nobreza. nas próprias disposições normativas da época. não coincidiam necessariamente. o acesso à elite local podia ser a forma decisiva de serem reconhecidos como membros da elite social. de 18 de Out. cristandade e desinteresse» (Alv. a todos os níveis. Esse modelo do que numa terminologia weberiana chamaríamos uma administração de honoratiores. Inversamente. nos quais os seus antepassados pontificavam há muitas gerações. Para os grupos em processo de acumulação de capital económico. o que em larga medida se propôs nas páginas anteriores foi que se desloque o centro da análise dos grupos dominantes locais das «elites políticas» para as «elites sociais». portanto. 1709). assim.72 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS fonte quase perpétua de ambivalência: a cultura política prevalecente e a generalidade das intervenções legislativas da monarquia pretendiam que o governo local. partindo do postulado de que estas seriam as mais desinteressadas e também aquelas cuja autoridade seria mais facilmente acatada. procurava. No entanto. . na qual não tinham nascido.

O funcionalismo camarário no Antigo Regime. em serviços públicos. de longe a maior e mais populosa cidade do Reino. 2005. 1987. das reuniões de vereação. 73-86. no entanto. I. No entanto. Finanças. auxiliando os seus agentes nas mais variadas tarefas da governação e assegurando o quotidiano camarário nos intervalos. a média nacional do pessoal camarário nos municípios com juiz de fora não passava de sete elementos3. Lisboa. O seu número era também variável. gradualmente organizadas. um montante de funcionários excepcionalmente elevado: cerca de 6802. consoante a categoria políticoadministrativa. 1750-1830. 373. entre a segunda metade do século XVII e o primeiro vinténio do século XVIII. reflectindo as especificidades administrativas concelhias da época. o transporte de presos. reflectindo a escassez de quadros técnicos. Braga. possuía. mantinha-se consideravelmente inferior ao actual. p. Entre-Douro e Minho. dotada de um sistema administrativo excepcional no conjunto dos municípios portugueses. Lisboa. aos munícipes. p. pp. João Pedro FERRO. a extensão e os habitantes dos municípios. de um elevado número de funções.). administração e bloqueamentos estruturais no Portugal Moderno (tese dout. os vencimentos. compensado pela imposição. Os Municípios no Portugal Moderno: dos forais manuelinos às reformas liberais Lisboa. Nas vilas de Caminha e de Montemor-o-Novo era este precisamente o seu 1Este 2 3 reduzido aparelho administrativo era. 1996. A designação. . como a repartição e cobrança de impostos. mais evidente no interior do país e fora dos grandes centros urbanos. a partir da época liberal. 43-48. divergiam consoante os concelhos. as funções. o modo de provimento e até a origem social. Planeta. mais ou menos longos e irregulares. Edições Colibri – CIDEHUS-UE. José Viriato CAPELA. a colaboração com materiais e mão de obra nas obras municipais e muitas outras. Em qualquer dos casos. a função de guias e caminheiros. Para a história da administração pública na Lisboa seiscentista. polic. Sociologia e práticas administrativas TERESA FONSECA (CIDEHUS) O funcionalismo camarário constituiu um dos pilares da administração local do Antigo Regime. mas também a debilidade burocrática da época1. vol.

. Évora. era também variável. Lisboa. Na região de Entre-Douro e Minho. se integrou neste cômputo outros magistrados régios sediados na cidade.A. 24 (1775-1814). 7 José Viriato CAPELA. p. Braga. sendo as principais funções exercidas por oficiais dos concelhos vizinhos13. II. 37 em Vila Real9. incluído nesta contagem do autor. em virtude da maior extensão destas circunscrições administrativas e das distâncias entre as diferentes localidades. 4 Para Caminha veja-se J.M. Mas Chaves e Arraiolos possuiam quatro5. Montemor-o-Novo. 372. Universidade do Minho. 2003. Vila Nova de Cerveira. I. 11 Teresa FONSECA.). E para Montemor. 46. o segundo mais importante município da comarca de Évora e também sede da sua própria comarca até finais do século XVI. p. 373. CAPELA.038. (Câmara Municipal de Arraiolos). vol. Sobre a questão da comarca de Estremoz. p.E. Lisboa. os que dependiam do juízo do geral ou do juízo dos órfãos. Absolutismo e municipalismo. 1997.H. embora inferior. O município de Chaves entre o absolutismo e o liberalismo (1790-1834). Estão no primeiro caso os funcionários da almotaçaria. Mas a sul do Tejo o montante crescia. 3. 8 J.. Entre-Douro e Minho. constituíam uma média de doze para um conjunto de treze câmaras. Nas localidades com categoria de sede de comarca. vol. 253 e 254. que no entanto provia ainda um elevado número de funcionários.74 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS número4. Os homens. CAPELA. e no segundo. do terreiro do pão. CAPELA. . Câmara Municipal. Receita e Despesa (1809-1817). 2000. (Câmara Municipal de Borba). V. Receita e Despesa (1800-1812). p. o montante subia consideravelmente: 31 em Braga8. V. Entre-Douro e Minho . veja-se António Henriques da Silveira. 11. Entre-Douro e Minho . Borba três6 e Vila Nova de Cerveira apenas dois7. p. Receita e Despesa (1813-1838)... 27. (Arquivo Distrital de Évora) / C. 5 Para Chaves veja-se Rogério Capelo Pereira BORRALHEIRO.. Elites.M.D. E para Arraiolos. “Memorias annaliticas da Villa de Estremoz”. in Teresa FONSECA. 10 Francisco Ribeiro da SILVA.. 25.E. 595-689. Câmara Municipal. A administração municipal em Montemor-o-Novo (1777-1820).. A. Desconhecemos.. Câmara de Estremoz (C.M. 1750-1820... aproximadamente o mesmo no Porto10 e 14 em Évora11. ed. vol. possuía 812. . Colibri. C.037. (Arquivo Histórico Municipal de Arraiolos). f. V. Incluímos apenas os funcionários com ordenado pago pela edilidade. p. vol. a. p. Estremoz.).B. no entanto. as instituições e o poder. 48 e 52. 86-87. I. Colibri. Teresa FONSECA.M.. 77. os aferidores dos pesos e medidas e o escrivão do real da água. Excluímos o juiz de fora. Nos municípios presididos por juizes ordinários o seu número. 271. p. 2002. 210. António Henriques da Silveira e as «Memórias analíticas da vila de Estremoz». 1995. cujo ordenado provinha ou das receitas próprias dos serviços ou de entidades exteriores à câmara. 155-156. E Lv. O Porto e o seu termo (1580-1640). poder e governo municipal. Relações de poder no Antigo Regime. / E / 001 / Lv.A.E. I. Porto. 12 Arquivo Histórico Municipal de Estremoz (A.H. pp. 6 A. 8. 528-532.. Cx. Entre-Douro e Minho. f. 13 J. p. 339. 9 José Viriato CAPELA. 1988. p. 9. Braga.

economia e cultura (1580-1640). 2v. Évoramonte pertence actualmente ao concelho de Estremoz e o Vimieiro ao concelho de Arraiolos. Câmara Municipal. 1993. Perfil de um poder concelhio. No Porto. Hugo CAVACO. os vereadores e os procuradores da cidade e dos mesteres18..M. 42-43. 103-108. 19 F.. da SILVA. sociedade. Estudos económico-administrativos sobre o município português nos horizontes da reforma liberal. (Câmara Municipal do Vimieiro). p. Em Évora. cinco em Évoramonte e no Vimieiro14.C. 036. seleccionámos os mais significativos do ponto de vista político-administrativo.. O Porto e o seu termo.O FUNCIONALISMO CAMARÁRIO NO ANTIGO REGIME 75 factores que inviabilizavam o aproveitamento de recursos humanos verificado a norte. Vila Real de Santo António. FONSECA. Câmara Municipal. Universidade do Minho. B / 001 / Vereações Lv. p. 12 e 13. O Minho e os seus municípios.E. p..M. Eram. 038 (1791-1803). assim. Id. A importância do ofício patenteava-se no lugar de destaque ocupado em funções e cerimónias públicas e nos avultados ordenados e chorudas propinas auferidos nos grandes e médios concelhos. O antigo concelho de Lavre encontra-se presentemente integrado no de Montemor-o-Novo. e 11 v.L.H. No topo da hierarquia situava-se o escrivão da câmara. Cacela no século XVII (Dez anos de governo autárquico). I.M. Na vila de Santarém. Receita e Despesa (1782-1800). vol. E para Cacela. E para O Vimieiro. José a 17 de Março de 14 Para Évoramonte veja-se A. que por isso mesmo se encontravam presentes na maioria das municípalidades. A. / C. incluindo as presididas por juizes ordinários. 16 A. 1990. E1 D1 Receita e Despesa (1797-1806). / Évoramonte. em situação equiparada à dos membros da governança19.U. 18 João Pedro FERRO.H.A. .M. (1779-81).V. Para a história da administração. quatro em Almada e em Cabrela15 e três em Lavre e em Cacela16. 10v.. f. 035.H. O antigo concelho de Cabrela faz hoje parte do de Montemor-o-Novo. (Arquivo Histórico Municipal de Montemor-o-Novo) / C. p. 41-42. 20 Maria Virgínia Aníbal COELHO. 1995. (1782-87). (Câmara de Lavre). 25. Absolutismo e municipalismo. (Câmara de Cabrela). E para Cabrela veja-se A. / U. partilhava a Mesa do Senado da Câmara com o presidente. 483.. p. Almada. p. 1995. 17 José Viriato CAPELA. R. F. 15 Para Almada veja-se Aires dos Passos VIEIRA.. 387-388.H. Almada no tempo dos Filipes.N.. / C. F1 D4.S.M. sentava-se em cadeiras da vereação. Administração.. L.. diss de doutoramento (polic. T. Lisboa. desempenhava nele um papel imprescindível. Em Lisboa.M. / E / 001 / Lv 023 Receita e Despesa (1811-1825). Embora formalmente excluído do governo municipal.). em regra superiores aos do juiz de fora e muitas vezes também ao da totalidade dos restantes funcionários17.. Na impossibilidade de abordarmos exaustivamente esta complexa e diversificada rede de funcionários. Braga..M. Receita e Despesa (1810-1819).N.N. no cortejo da cerimónia da quebra dos escudos efectuada pela morte de D. Lv. C. 6. f. José. p. desfilava a seguir ao procurador do concelho e ao alferes da câmara20. 145. e Lv. Santarém durante o reinado de D.

29 Na vila de Cuba. 49. o lugar esteve nas mãos de “notáveis locais”. 25 Os de Chaves pertenciam... Seda 30.. J. p. P. Emília Salvado BORGES. VIEIRA. . Homens. Este prestigiado cargo era geralmente atribuído a pessoas nobres. Gouveia. Coimbra. Terena31 e Évora32. provisão de 16-4-1795. 1994. Absolutismo e municipalismo. pertenceram todos a uma única família da pequena nobreza da cidade. de doutoramento (polic. Doc.). pela morte do Senhor rei D. nos finais de setecentos. Coimbra. 28 Em Gouveia./D. O Porto e o seu termo. Cf. 32 Os de Évora. entre a Restauração e o Pombalismo. sentenças e alvarás (1795). Cf. 22 Maria Helena da Cruz COELHO e Joaquim Romero de MAGALHÃES. C. os seus detentores eram homens de confiança do rei.C. p.) / Arquivo da Câmara de Évora (A. Veja-se A. T. 26 Em Ponta Delgada. Eduardo MOTA. Administração municipal em Gouveia em finais de setecentos. 24 Em Almada. Cuba29. 58. caminhou imediatamente a seguir aos vereadores e juiz. o filho de um procurador da cidade e um vereador no período posterior à Restauração. ter já por diversas vezes “servido na governança” da mesma vila. p. 21 Arquivo Distrital de Évora (A. foi sempre atribuído a indivíduos incluídos na categoria de cidadãos. p. O município de Chaves . p. sendo até incluídos nos róis de elegíveis. Cf. seis dos quais chegaram a servir de vereadores e de procuradores. 499.. Colibri. Poder municipal e oligarquias urbanas.. o segundo e o terceiro proprietários do ofício. mas o próprio procurador do concelho21. Provisões.. 27 Em Coimbra. entre 1770 e 1800.. era da nobreza da vila e os seus parentes estavam “sempre na vereação”.. elevada à categoria de município em 1782. R. 23 No Porto no período filipino. vol. p. Instituto Cultural. 228.M. dos P.-A.. à aristocracia local. f. Cf. 1995. fazenda e poder no Alentejo de setecentos. T. 31 O escrivão da câmara de Terena afirmava. Publicações Gaudela.. (Repartição das Justiças e Despachos da Mesa).79. nomeadamente um escudeiro fidalgo da Casa Real. no mesmo período. ainda nos finais do Antigo Regime.D. “Forma por que se fés o quebramento dos Escudos nesta Cidade de Evora a 17 de Março de 1777.D. BORRALHEIRO. livº 143. I.P. Chaves25. Lisboa. p. Coimbra27. 1990. antecedendo não só o tesoureiro. . (Desembargo do Paço).. em Almada24. Ponta Delgada.. foi exercido por cidadãos de precária condição económica. Livro 9º de Registos (1769-1828). 104-106. 30 O de Seda (comarca de Avis).). 2000. vol. FONSECA. p. como pudemos constatar no Porto23. eleitos diversas vezes almotacés. Cf.T.P. José Damião RODRIGUES. Ponta Delgada26. 493-494. pai e filho. p. Veja-se Francisco Ribeiro da SILVA. José Iº”.E.. Almada no tempo dos Filipes . 1986. Maço 634. embora de recursos modestos22. I..T. eram elementos da nobreza local. no século XVII. A. T. Cf.76 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS 1777. Ponta Delgada no século XVII. Faculdade de Letras. Gouveia28. Centro de Estudos e Formação Autárquica. Poder e poderosos na Idade Moderna 2 vols. entre 1750 e 1820. (Torre do Tombo) D. O poder concelhio. 87. 4. Maço 1525. 26-26v. diss. O município de Coimbra da Restauração ao pombalismo.E. Das origens às cortes constituintes. em 1812. o único proprietário do cargo foi um fidalgo. 19 e 323. sendo um cavaleiro fidalgo e outro moço de câmara. Veja-se Sérgio da Cunha SOARES. dois criados do Rei.

. A. p. as receitas e as despesas do concelho. cit.. No município de Lavre o provimento competiu ao marquês de Gouveia.. 41 A. 58. Absolutismo e municipalismo. 77. vinha incluído anualmente na pauta régia. Terena. Registava todos os mandatos. Anais do município de Tomar. p. nobreza e povo.. uma “poderosa dinastia” de escrivães. FONSECA. Relações de poder. geralmente.. nos séculos XVII e XVIII.T.M. na centúria seguinte e em Elvas. Receita e Despesa (1778-1787) e (1809-1817). hereditária. Vereações (1753-1770). 25. Perfil de um poder. O poder con- celhio. 174.. 35 E. Santarém36. pelo Desembargo do Paço.M. em 1759. Colibri. Administração municipal. nos municípios directamente dependentes da coroa. Câmara Municipal.E.H. 49. S. Tomar39. Vereações (1815-1820). Campo Maior e Loulé até ao fim do Antigo Regime. Assentava. durante grande parte do século XVI. Cf. Joaquim Candeias da SILVA. 42 Entre 1733 e 1820. FONSECA.. p. Poder e sociedade em Vila Nova de Portimão (1755-1834). 123. da C. respectivamente Teotónio Manuel de Melo e João Joaquim de Melo.. 37 Os cinco proprietários do ofício dos sessenta anos de dominação filipina. MOTA. Podia efectuar-se trienalmente. Coimbra38. até à extinção da donataria. Registava os processos 33 Maria Helena da Cruz COELHO e Joaquim Romero de MAGALHÃES.H. Cf. Portimão. 535. p. 228-229. Alberto de Sousa Amorim Rosa.. em Viseu. Anotava o movimento do gado e passava certidão dos requerimentos formulados aos membros da edilidade.. em livro próprio.. alvarás. Veja-se T. 228. 2000. entre a primeira metade do século XVII e a segunda metade do século XVIII.O FUNCIONALISMO CAMARÁRIO NO ANTIGO REGIME 77 A forma de provimento do ofício era variável. 34 T.. 1771-1800. FONSECA. p. Abrantes – a vila e o seu termo no tempo dos Filipes (1580-1640). mediante proposta camarária.. L. Em Évora. Mas na maioria das localidades. As funções do escrivão da câmara vinham estabelecidas nas Ordenações. O município de Coimbra.M. todos pertencentes à mesma família da pequena nobreza local.. . p. juntamente com os membros da edilidade34. p. 36 Maria Virgínia Aníbal COELHO. SOARES. p. Lisboa. Montemor-o-Novo40.E... Redigia as actas das eleições trienais dos agentes do governo local. nas terras de domínio senhorial33. os detentores do cargo pertenceram a seis gerações da mesma família. I. 39 Em Tomar. VI. F1 B2. 40 Entre 1777 e 1816. p. Câmara. acordos. o lugar foi ocupado sucessivamente por pai e filho.. Abrantes37. termos de obrigação ou de fiança e outros similares.. o ofício conheceu apenas três proprietários. / C. pertenceram a três gerações da mesma família. Absolutismo e municipalismo.. p. existiu igualmente. Estremoz41 e Évora (a partir de finais de quinhentos)42 era de nomeação vitalícia. incluindo Gouveia35. que na prática se tornava.N. Cf. 38 Em Coimbra... ou pelo donatário. por Luís VIDIGAL. 147-149. 1993. id. / C... vol.

azeite. compra ou venda de bens do município. 47 T. Para cumprir eficazmente tão amplas obrigações. pão. Passavam a escrito todo o tipo de determinações municipais. e cerimónias festivas ou de quebra dos escudos.. Tal privilégio foi atribuído aos escrivães de Évora45. p. tanto da cobrança das rendas régias e camarárias. 487-488. tanto de vintena como dos ofícios mecânicos. na prática. e 500-501. as suas tarefas ultrapassavam largamente as estabelecidas na lei geral. onde se guardavam as escrituras.M. Absolutismo e municipalismo. forais. redigindo as respectivas actas. 230.. tinham a possibilidade de requerer ao Desembargo do Paço a nomeação de um escrevente ou ajudante. licenças e termos de juramento. como entradas régias ou de prelados. T. Competia-lhe ainda a posse de uma das chaves da arca do concelho. 1. que os auxiliassem nas tarefas não abrangidas por segredo de justiça ou outra matéria sigilosa. tombos. T. Procediam a inquéritos para fins diversos. privilégios e outra documentação importante43. competia-lhes ainda a elaboração das actas das reuniões camarárias e de outros actos públicos em que participassem os membros da governança..D.. regimentos e tabelas de taxas. vol. passando as respectivas guias e certidões. J. Com efeito. / D. Elaboravam os manifestos do gado. Redigiam proclamações. tanto por particulares como pelas mais diversas instituições..T. notificações e editais. 45 T. como do fornecimento de carne. provisão de 7-9-1793. devia ler aos oficiais da edilidade e almotacés os respectivos regimentos.. Actualizavam o tombo dos bens concelhios.78 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS de injúrias verbais despachados em câmara. 44 T. p. como posturas. O Porto e o seu termo. Organizavam os processos de aforamento dos baldios. L.F.. carne e outros produtos. . V. da SILVA.. principalmente de natureza económica e militar. Registavam os actos de arrematação. 46 F.. Maço 1523. p. Elaboravam as escrituras notariais de arrendamento. vinho e outros produtos ao concelho. Copiavam ordens.. de Valença 43 O.. do Porto46. bem como a correspondência endereçada à municipalidade. p. ordenando a sua afixação em locais próprios.. (Ordenações Filipinas). FONSECA. alvarás e provisões emanados das instâncias superiores do poder. 140. Porém. I. O Minho e os seus municípios .P.. Passavam aos munícipes as cartas. 229-230. necessários ao exercício de certas actividades profissionais. Provisões.. 71. Na primeira vereação de cada mês. preços e salários. convocatórias. Absolutismo e municipalismo. de Aldeia Galega (actual Montijo)47. R. Participavam nas correições camarárias. sentenças e alvarás (1793). Redigiam os termos da tomada de posse dos oficiais e funcionários camarários e dos juizes e escrivães. trigo. avisos. E secretariavam as vistorias e outras visitas de inspecção promovidas pelos camaristas44. CAPELA. FONSECA.

. Id. Maço 1525..O FUNCIONALISMO CAMARÁRIO NO ANTIGO REGIME 79 do Minho48 e provavelmente de todos os concelhos onde se justificou a sua existência. f. provisões de 5-7-1794 e de 7-9-1793. contador e inquiridor dos órfãos. onde os cargos eram mais trabalhosos e havia mais gente capaz de os exercer. Maço 1523. sentenças e alvarás (1793). comarca de Coimbra. provisão de 29-7-1794. O seu congénere de Aldeia Galega. estes oficiais camarários na capital alentejana. 4v. o pouco trabalho dos ofícios e o seu baixo rendimento económico. mas até nefastas ao eficaz exercício das funções.. mas antes em virtude do prestígio do cargo de escrivão. Provisões. dois foram procuradores da cidade e o terceiro era tabelião do judicial49.. Absolutismo e municipalismo. Mas as acumulações ocorriam também nos municípios de superior dimensão e categoria.H. assim. o escrivão da câmara era-o também do judicial e notas. obteve provisão régia para juntar aos três ofícios o de recebedor dos direitos reais da mesma vila. (1794). Eram. exercia funções idênticas relativamente às sisas e aos direitos reais..D. dos órfãos e das sisas de Vila Nova da Erra. além de escrivão do subsídio militar da décima da cidade e do termo escriturava também os reais da água da carne e do peixe53.. 230. sentenças e alvarás (1793). o escrivão da câmara de Pereira. foi investido no ofício de tabelião do judicial e notas51. do juizo do geral e das armas50. Dos três nomeados para assessorar. 231... entre 1750 e 1820. Provisões.P... nestes concelhos importantes. Em 1793. provisões de 8-8-1793 e 17-8-1793. 51 T. Em Lamego. juntando ainda a estes três cargos o de contador e distribuidor na mesma vila. / D. já então também escrivão da almotaçaria e distribuidor.. vereações de 10-10-1753. o escrivão da câmara. atribuídas não por qualquer razão prática.N. O de Alcácer do Sal era igualmente escrivão do celeiro comum52. Porém. Absolutismo e municipalismo. Os escrivães exerciam frequentemente outros cargos públicos. Provisões. 53 T. comarca de Santarém. No século XVIII.M. T. A categoria sócio-profissional destes escriturários confirma-nos o prestígio do cargo de escrivão. Provisões. Nos pequenos concelhos. p. Vereações (1753-1770).. E no mesmo mês e ano. e de 12-11-1754. o que levava frequentemente à nomeação dos escriturários acima referidos. o escrivão da câmara de Lavre servia simultaneamente os ofícios de tabelião de notas e os de escrivão da almotaçaria. sentenças e alvarás (1797).M.. FONSECA.T.. f. 13 – 13v. as razões mais invocadas nos pedidos de acumulação eram a falta de pessoas capazes. 52 Id. Maço 1527. dispensando até a justificação prévia exigi48 Id. FONSECA. p. . F1 B2. Maço 1523.L. 49 T. E o de Évora.. / C. as acumulações eram não apenas dispensáveis. 50 A. provisão de 29-5-1797.M.

já ultrapassado. o congénere de Estremoz. Francisco José Guedes de Melo. o lugar foi ocupado apenas por três proprietários pertencentes à mesma família55. 57 T. Doc.T. se devia limitar a redigir o que lhe era ordenado pela vereação54. 232. mais habituado a mandar que a obedecer. pelos magistrados da comarca. A assistência..M. Tal ascendente é. 55 T. Receita e Despesa (1809-1817). foi preso pelo jovem e recém chegado juiz de fora.-A. considerava que o então detentor daquele cargo. 88. em muitos casos durante décadas. 159-160.. Nas reuniões do senado. o advogado José António Xavier da Silva Sintrão. redigiu uma nota no livro da receita e despesa camarária desse ano. Absolutismo e municipalismo.. E em 1816. ajudando provavelmente os próprios juizes de fora. às vereações e outros actos administrativos. vol. tornando-os os principais depositários da memória camarária. por não cumprir uma ordem sua e lhe responder com arrogância57. Por isso. f. o escrivão da câmara do Redondo.) e dispotismo” sobrepunha-se a “todas as Leys e Ordenações”.. na câmara. “quem tudo governa”. FONSECA. FONSECA. p. Absolutismo e municipalismo. a familiarizarem-se com a realidade local.. na altura procurador do concelho de Évora. compreensível. A maioria das edilidades açorianas da mesma época.E... eram naturalmente auscultados pelas 54 T. p.80 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS da aos pequenos concelhos./D. era.. 56 A. . A. Elementos de estabilidade. se considerarmos que nas sete décadas decorridas entre a entronização de D. 58 A. proporcionava-lhes um perfeito conhecimento dos assuntos municipais. no entender do procurador. p. A sua “autoridade (. permitindo-lhes assim assegurar o normal funcionamento administrativo sem ter de reunir.E. quando chegavam de novo a uma terra. baseado num alvará seiscentista considerado. Maço 574.P. 156. contrária a um provimento do provedor. / C. de MENESES. durante longos períodos de tempo. I.. o plenário camarário56. eram os escrivães quem estabelecia a ligação entre as sucessivas vereações. Os Açores. acrescentava a sua opinião. enquanto lia as petições dos munícipes. influenciando antecipadamente as deliberações do corpo camarário...F.H. Em 1793. Em 1804. 231. delegava nestes oficiais prerrogativas excepcionais. numa evidente manifestação da sobreposição do critério do privilégio sobre o da racionalidade administrativa.. José e a revolução vintista.. Vejamos apenas alguns exemplos da influência dos escrivães na vida municipal. no entanto. quando. registado pouco antes no mesmo livro58..

/D.. Calhete.P. da SILVA. T. Vereações (1753-1770). as suas funções eram.. MOTA. 503. 70. No entanto. No Porto66. 63 Em Lavre.. em épocas de crise administrativa local e nos períodos conturbados da vida política nacional.M. R. evitando situações eventualmente caóticas ou de ruptura. 65 Designadamente na Praia. Os Açores nas encruzilhadas de setecentos (1740-1770) – I – Poderes e instituições.. Albufeira e nas localidades alenteja59 60 O. em última instância. F1 B2.O FUNCIONALISMO CAMARÁRIO NO ANTIGO REGIME 81 autoridades locais. I. I. A. Até ao século XVI. a eles devemos uma boa parte do que hoje conhecemos da administração municipal do Antigo Regime. Évoramonte62.E. Competia-lhe receber as rendas do concelho e pagar as despesas ordenadas pelos vereadores.. 1993. p.M.. p. 66 F.H.L. Universidade dos Açores. apenas se nomeava um tesoureiro em situações excepcionais. 146-148... em regra. Lajes e Santa Cruz. O Porto e o seu termo. cometendo até excessos e arbitrariedades. mesmo se para tal recebesse ordens dos ministros da comarca ou dos membros da edilidade “sob pena de a pagarem de suas casas”59. não a podendo dispender em coisa alguma. R. com discrição e alguma eficácia. Receita e Despesa (1810-1819). 1999. / C. Autores. – A. Avelino de Freitas de MENESES. exercidas pelo procurador do concelho. Horta. Lagos. 503. Maço 831. O Porto e o seu termo. Guimarães61. I. a gestão dos assuntos correntes. Universidade Portucalense. com as do próprio governo camarário. 61 F.. Administração municipal. confundindo-se. p. O processo de nomeação do tesoureiro variava consoante as terras.H. 46. ou pelo menos responsáveis pela escrituração camarária. asseguraram.T. p. da SILVA. S. História social da administração do Porto (1700-1750). vol.. Mas na centúria seguinte.-A. Lavre63. 211. Ana Sílvia Albuquerque de Oliveira NUNES. 62 A. Usufruindo de uma situação privilegiada. E. / Évoramonte. 225. Também arrecadava a terça régia. Doc. Alverca. O tesoureiro tinha a seu cargo a actividade financeira do município. responsáveis. como sucedeu em 1769.M. f. em Viseu67. nestes casos. ultrapassavam frequentemente as suas competências legais. . L. Ponta Delgada. 64 T. Madalena..F. Velas.N. vol. embora o tradicional sistema tivesse subsistido em diversas localidades. como Gouveia60. 67 F. Albufeira64 e ainda nos Açores65. vol. da SILVA. 40. Sebastião. vereação de 31-12-1769. 504.. p. 1. a maior parte dos municípios designava já uma pessoa para o desempenho específico do cargo.. Topo. O Porto e o seu termo.. particularmente em situações de especial complexidade. p. “por ser o procurador muito ocupado em andar por fora” .. pela administração dos dinheiros públicos. R. Porto.

. ou simplesmente as expressões “he abonado” ou “bastante abonado”. O perfil mais comum dos detentores deste cargo durante a Época Moderna havia já sido enunciado em 1501 por D.. proporcionava aos seus detentores a preferência na arrematação das rendas camarárias. 71 T.) o vereador mais velho. 236-238.82 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS nas de Portalegre... FONSECA. Com efeito. 231. Como a escrituração da contabilidade camarária constituía matéria da competência do escrivão.-A.”72.P. cujos lucros compensariam largamente o prejuízo inerente a uma função aparentemente ingrata71. da sua fazenda. p.. e 394-399.. p. Estremoz e Montemor-o-Novo. Absolutismo e municipalismo. que fica só entre (. quando referia as características adequadas ao tesoureiro eborense: “um oficial dos que andam nos Mesteres. era cobiçado nas de maior dimensão. verifica-se geralmente uma certa cumplicidade entre estes dois oficiais. vinha anualmente incluído na pauta68. 72 T.. 32 e 40. Absolutismo e municipalismo. no arrendamento de herdades e mais bens concelhios ou em outros negócios. Odemira. p. no fornecimento de carne e outros bens essenciais. extensiva aos próprios vereadores. tanto mais elevados quanto mais importante era o município. FONSECA. nos grandes e médios concelhos. A precária situação financeira da maioria das câmaras. pouco apetecido nas pequenas localidades. sendo este último regime adoptado definitivamente a partir da centúria seguinte69. o mesmo sistema vigorou até 1501. passando a partir de então a ser de nomeação régia. FONSECA. Viana. 235. denunciava o facto de as contas do município eborense constituírem “segredo. 70 T. os défices camarários. 69 T. / D.. Além de conferir prestígio e possibilitar a almejada ascensão social da burguesia endinheirada. na cobrança dos impostos régios. e para o tal cargo e ofício mais apto”70. exigia deste oficial abastança suficiente para compensar. Maço 831. geralmente associado à usura. Quando arrolados nas pautas. O cargo de tesoureiro.. agravada nas últimas décadas do Antigo Regime pela sobrecarga de tarefas e encargos fiscais impostos pelo poder central. – A. FONSECA. os provedores 68 T. Em Évora... Absolutismo e municipalismo. à exploração fundiária e à produção artesanal ou manufactureira. Doc. o provimento efectuou-se tanto trienalmente como vitaliciamente. O referido procurador Xavier Sintrão... e Escrivão da Camara e Thezoureiro .. Absolutismo e municipalismo. p. De facto eram. burgueses enriquecidos pelo comércio. Manuel. o corregedor acrescentava-lhes ao nome o presumível valor do património ou do rendimento. não obstante a responsabilidade que envolvia. ..T. mediante prévia apresentação da câmara.. rico. 233.. no século XVII.

de saber ler e escrever.. anunciando e encaminhando os munícipes que compareciam a prestar juramento perante a vereação ou para apresentar qualquer questão74. a ocultação de ingressos paralelos. Efectuava.. p. nos locais públicos habituais. Receita e Despesa (1809-1817). notificações e embargos. a relutância dos dois funcionários em aceitar interferências nos seus tradicionais métodos de trabalho. este oficial subalterno tinha. O porteiro da câmara exercia funções similares às consignadas nas Ordenações para o guarda-mor da Casa da Suplicação ou da Relação73. Procedia ao inventário do património municipal. p.. p. da SILVA. em nome da câmara. Tal atributo. convocatórias. contando-se.. T. II.M. a imprecisão do registo das receitas e sobretudo das despesas. De origem sócio-económica modesta. constituiu.O FUNCIONALISMO CAMARÁRIO NO ANTIGO REGIME 83 corresponsabilizavam frequentemente escrivães. Preparava a aposentadoria dos ministros da comarca e da provedoria. entre as mais vulgares: a utilização de métodos contabilísticos ultrapassados. R.. às sessões camarárias. . 619-620. quando se deslocavam às localidades em serviço de correição. F. Anunciava. Colocava luminárias nas janelas e varandas dos edifícios municipais. do dinheiro dos impostos régios ou das verbas da comparticipação nos ordenados dos funcionários da administração central. total ou parcial. Afixava editais. 271-272. um obstáculo relativamente eficaz aos esforços dos magistrados régios. o pagamento de propinas sem a correspondente provisão régia. Enviava recados a casa dos oficiais camarários. do mesmo modo. FONSECA. Como sucedia na generalidade dos ofícios públicos.. pelo menos. dos paços do concelho para outros locais onde tivessem lugar cerimónias a que assistisse a vereação. vol. Apregoava. por ocasião de festas e comemorações. O Porto e o seu termo. Assistia. salvaguardando naturalmente a diferença institucional dos cargos. Absolutismo e municipalismo. Deste modo. 619-622. Armava as igrejas para as cerimónias religiosas da iniciativa da câmara. associado à importância e visibilidade das suas funções. da SILVA.H. / C. vol. conferia-lhe algum prestígio.. O Porto e o seu termo. os diversos concursos e arrematações. as decisões camarárias cujo conteúdo se entendia necessário divulgar aos munícipes.. Superintendia na arrumação da sala das reuniões e no transporte de cadeiras. no sentido do cabal cumprimento das determinações do poder central em matéria de finanças locais. Efectuava diversas compras por ordem dos camaristas. tesoureiros e eleitos locais pelas irregularidades cometidas na gestão financeira dos municípios. em muitos concelhos. A. conjugada e reforçada com o empenhamento dos dirigentes locais na defesa dos seus privilégios. II. R.E. a retenção..E.. do exterior da sala. o cargo era vulgarmente transmitido de 73 74 F.

contava com sete75. O primeiro era. O segundo. em meados do século XVII. 78 T.. segundo as Ordenações. reduzidos na centúria seguinte a um “contínuo” e a um “porteiro do juízo do geral”76. 82 O meirinho. assinando o respectivo auto. 81 Sobretudo nas terras onde havia um alcaide-mor. Sendo de provimento camarário. 77. Receita e Despesa (1778-1787) e (1809-1817). T. FONSECA.. o responsável pela cadeia. 75 76 F. Nas municipalidades de maior relevo. 79 O. embora sujeito a confirmação régia. 1. frequentemente designado por alcaide pequeno81 ou simplesmente por alcaide. id. como funcionário judicial... o da câmara de Évora. FONSECA. das padeiras. quase sempre analfabetas.. O Porto e o seu termo... era atribuído a membros do grupo clientelar das famílias protegidas pelas oligarquias locais. ao longo de várias gerações. II. vol. sujeitando-se a pesadas penas se deixasse fugir os presos.H. cuja profissão as obrigava a prestar juramento. Não podia soltá-los sem um mandato judicial. 271-272. já nos finais da Idade Média. Relações de poder. / C. p.. estes dois subalternos colaboraram com o porteiro principal em numerosas actividades: assinavam o termo de juramento das mulheres. Lisboa tinha.M. p. o porteiro da câmara possuía como coadjuvantes outros funcionários hierarquicamente inferiores. Competia-lhe zelar pela ordem pública. e colaboravam em todo o tipo de serviços correntes de apoio à administração municipal. na arrematação das rendas régias e camarárias. em simultâneo.. Os mais frequentes eram o carcereiro e o alcaide da vara. Em muitas localidades. embora nesta cidade o carcereiro dependesse orgânicamente do corregedor da comarca. fica excluído deste trabalho. como era o caso das medideiras do terreiro do pão. não podendo por isso considerar-se um funcionário municipal. exercia funções de policiamento e fiscalização semelhantes às do meirinho82. L. Dada a abrangência do poder camarário. este cargo era também vitalício e hereditário80. p.. das peixeiras e das parteiras. ser confundidos com os funcionários judiciais. como se infere pelo mais baixo montante dos seus ordenados. 77 A. o Porto.E. . 82. 80 Como por exemplo em Montemor-o-Novo e em Évora. R. da SILVA.. E os congéneres das câmaras de Estremoz e Montemor-o-Novo eram auxiliados respectivamente pelo contínuo77 e pelo porteiro do geral78. era ajudado por cinco “porteiros do geral”. muitos municípios possuíam um ou vários oficiais menores cuja acção incluía as áreas da justiça e do policiamento. Cf. Entre 1750 e 1820. no século XVI. mais de vinte porteiros. 623. não devendo.84 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS pais para filhos. porém. Vereações (1815-1820). devendo no entanto libertá-los imediatamente se tal lhe fosse ordenado79..F.E. participavam. Absolutismo e municipalismo. T.

. A. Este diploma decretava a abolição da hereditariedade dos cargos públicos. T. através da carta de lei de 23 de Novembro de 1770. a quem deviam. exercia ainda outras actividades: no Vimieiro.. na ausência do juiz. A coroa procurou. 669-672. A patrimonialização dos ofícios da burocracia camarária conferia aos seus detentores um poder e autonomia difíceis de combater. 57 e 76.N. p.M. prioritariamente. 86 Para Lavre veja-se A.H. f. / E / 001 / Lv 023 Receita e Despesa (1811-1825). . especialmente os almotacés. p.. não apenas o lugar.M. Levava ainda presos para localidades vizinhas e quando necessário transportava o dinheiro dos impostos régios cobrados no respectivo concelho para a sede da comarca83. .M. E montava guarda aos locais mais vulneráveis ao desencadear de conflitos. F.. Vereações (1753-1770). Nos municípios com um diminuto número de funcionários. Conduzia os cativos perante o juiz nos dias de julgamento e assegurava a manutenção da ordem no decorrer das audiências. 036..L.N.. / C. R. Id. 038 (1791-1803). como os açougues da carne e do peixe. frequentemente vítimas da contestação e até das ameaças dos comerciantes.M.. 75. O Porto e o seu termo . B / 001 / Vereações Lv. vulgarmente conhecidos por quadrilheiros. Relações de poder. contando. f. 85 A. a partir do pombalismo..A.. F1B2. A semelhança de funções do alcaide e do carcereiro explica o facto de em Lavre e em Estremoz os dois ofícios se concentrarem na mesma pessoa86. Podia prender infractores em flagrante delito e até.. (1779-81). favorecendo ainda o enraizamento de práticas anacrónicas incapazes de dar resposta às novas necessidades e exigências crescentes do reformismo estatal. tocava o sino de recolher e cuidava das aposentadorias dos ministros da comarca e da provedoria. E para Estremoz.. a respectiva transmissão familiar e o prestígio social decorrente do seu exercício. do aboletamento dos exércitos e da manutenção do relógio. L. vereação de 6-7-1757.E. 46.M. para o efeito. / C. Protegia as autoridades municipais.V.M. com ajudantes nomeados pela câmara. F. T. pra- 83 O.1. FONSECA. estes funcionários procuravam.O FUNCIONALISMO CAMARÁRIO NO ANTIGO REGIME 85 tanto de dia como de noite.H. e em Cabrela acompanhava a vereação nas visitas de correição85. e Lv. Lv. 80. da SILVA. (1782-87).H. servir a elite dirigente local. 035. funcionando como uma espécie de ajudante do porteiro84. E1 D1 Receita e Despesa (1797-1806).M.E. Receita e Despesa (1809-1817).C. 84 A. No exercício da sua actividade. / C. minimizar os obstáculos que a natureza de tais ofícios constituía para o processo de modernização administrativa. / C. mas ainda o acesso a outras ocupações públicas remuneradas ou a preferência em lucrativos negócios que envolviam a municipalidade. efectuar outro tipo de prisões.H.

. convertendo os municípios em um dos mais influentes focos de resistência à implementação da política de absolutismo esclarecido.86 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS ticada desde o reinado de D. moroso e iníquo da gestão concelhia do Antigo Regime. a velha prática subsistiria. Não obstante. e as exacções e arbitrariedades exercidas sobre os munícipes mais vulneráveis. na inventariação do património concelhio ou no lançamento contabilístico. acompanhado da atestação. os conluios com os grandes negociantes e outros poderosos. Tal aliança determinou em boa parte o cariz predominantemente tradicionalista. efectuadas com progressiva regularidade e a partir de 1790 num número sempre crescente de concelhos. bastando para a sua concretização a formulação de um requerimento ao Desembargo do Paço. da idoneidade e adequada preparação do candidato. corregedores e provedores ameaçavam directamente os oficiais incumpridores ou no mínimo hostis às intromissões do reformismo estatal na sua actividade. as demoras na execução de determinações emanadas das instâncias superiores. nomeadamente na redacção das actas. a acção do poder central e dos seus delegados na periferia arrostou sempre com a cumplicidade entre os agentes do poder camarário e esta sua fiel clientela. no respeitante ao modo de exercício dos mesmos ofícios. Os ministros territoriais tentaram. rotineiro. e ao mesmo tempo. pelos órgãos competentes. responsabilizavam as autoridades camarárias pela sua condescendência para com os abusos e omissões destes funcionários. no registo das coimas. entre os quais se destacavam: a falta de rigor e transparência na escrituração camarária. por sua vez (embora com variável empenhamento) secundar os esforços do poder central. os atrasos na cobrança dos foros municipais e na transferência da terça régia e de outras verbas pertencentes à Fazenda Real. Afonso V e considerada pelos legisladores esclarecidos uma introdução abusiva na lei e costumes nacionais e como tal atentatória da soberania régia. Nas correições. No entanto.

É de todos conhecido que o tema do poder municipal não é novo. A sua identificação tem sido feita de forma sumária. Requerem. de resto. que se revestem. ao século XVIII. Não tornam. Mafalda Soares da Cunha. As razões são bastante óbvias e prendem-se com a maior escassez da documentação.Relações de poder. um breve ponto da situação historiográfica relativamente ao estado da situação dos estudos sobre os municípios senhoriais e sobre o grupo nobiliárquico primo-moderno. pp. a tarefa impossível. Francisco Ribeiro da Silva. de há duas ou três décadas a esta parte. podendo mesmo afirmar-se que para a primeira fase da época moderna acolheu. contributos marcantes de historiadores como Joaquim Romero Magalhães. 2005 (no prelo). de História /CIDEHUS) Temas e lacunas historiográficas Sendo o objectivo do encontro a reflexão alargada sobre os municípios na época moderna e o tema deste texto as relações entre os donatários e os poderes locais. empenhada em cruzar informação de proveniência institucional variada. sobretudo. uma investigação mais esforçada. em meu entender. Edições Colibri – CIDEHUS-UE. António de Oliveira e António Manuel Hespanha. impõe-se. 87-108. antes de mais. 2005. Pesem embora estes trabalhos. uma das principais lacunas da história do poder local em geral prende-se com a caracterização sociológica dos diferentes actores. patrocínio e conflitualidade Senhorios e municípios (século XVI-1640) MAFALDA SOARES DA CUNHA (Universidade de Évora – Dept. “Poderes locais nas áreas senhoriais (séculos XVI-1640)”. bem como a atenção de alguns estudantes de doutoramento e mestrado e de estudiosos locais. Os Municípios no Portugal Moderno: dos forais manuelinos às reformas liberais Lisboa. de desigual interesse1. Assim. é importante sublinhar que os séculos XVI e XVII têm sido subalternizados em relação. através dos apelidos e de breves apontamentos relativos ao estatuto social em que pontuam os títu1 Cf. . a fim de complementar as falhas das séries disponíveis. Coimbra. no entanto.

. 2000. fundando essas afirmações na descricionariedade dos abusos dos donatários e dos seus aparelhos administrativos sobre as populações. seja com os donatários das terras.88 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS los dos foros da Casa Real ou os graus académicos que auferiram. da falta de estudos sobre senhorios concretos e. de monografias que abordem a questão das práticas políticas dos donatários. mais do que aproximações muito vagas relativamente aos níveis de reprodução endogâmica dos grupos familiares dominantes ou à tendência para a monopolização do poder por parte das elites locais. por isso. mobilidade geográfica e ainda das relações interpessoais desenvolvidas ao longo da vida. compadrio e até amizade. seja com a Coroa ou os seus agentes periféricos. O apoio empírico é. Não será. ainda mais. o que permite uma análise apoiada da evolução dos patrimónios. Escuda-se a mais das vezes em um ou outro caso. CNCDP. frágil. As capitanias do Brasil. faltando os enquadramentos gerais que permitiriam avaliar a representatividade dos fenómenos estudados. influíram nesses processos. opções de investimento familiar e económico. Este tipo de abordagem permitiria também um esclarecimento mais cabal das fissuras e clivagens nos grupos de poder locais. não obstante o estudo global elaborado há já alguns anos por António Vasconcelos Saldanha2. bem como das estratégias desenvolvidas para a ascensão. complementar esses indicadores superficiais com incursões micro-analíticas através da reconstituição das trajectórias vitais e das redes de parentela e dependência do conjunto do oficialato local. Antecedentes. E. Nela recolhem-se dados importantes relativamente à sua inserção familiar. neste âmbito seria ainda fundamental compreender de que modo as relações verticais. Estas falhas decorrem. Chega mesmo a referir-se a existência de uma reacção senhorial ou até refeudalização para o século XVII. em muitos casos. Não possibilitam. Proveitoso seria. em boa medida. De fora ficam cronologias mais finas desses processos e até a confirmação dessas interpretações que são. elaborada a partir da documentação dos registos paroquiais e notariais. no entanto. por isso. E são também estas lacunas que condicionam 2 António Vasconcelos de Saldanha. E. de resto. Neste contexto concreto cumpre. destacar a quase ausência de trabalhos que evidenciem as especificidades das relações entre os poderes locais e os poderes senhoriais face às terras realengas. Diz-se habitualmente que os povos preferiam a tutela régia à tutela senhorial. consolidação ou renovação. de estranhar que os estudos sobre senhorios ultramarinos sejam também tão escassos. na generalidade dos casos. circunscrita aos membros das vereações. desenvolvimento e extinção de um fenómeno atlântico. repetidas sem suficientes evidências empíricas. então. Lisboa. laços de parentesco. excluindo a ampla panóplia do restante funcionalismo municipal.

para a fase final do Antigo Regime4 e as considerações gerais sobre outras realidades europeias. 2002. Lisboa. A Nobreza Medieval Portuguesa. Todavia. PATROCÍNIO E CONFLITUALIDADE 89 decisamente a possibilidade de elaboração de trabalhos gerais sobre o próprio grupo nobiliárquico. Corona y Economías Aristocráticas en Castilla (Siglos XVI-XVIII). só estes valores (mais de metade dos concelhos) seriam suficientes para conferir primordial importância ao tema que aqui trago e até reflectir sobre a importância que as funções jurisdicionais exerciam no sistema de classificações dentro do grupo nobiliárquico. portanto. como referentes os já existentes estudos de síntese para a Alta Idade Média3. in César de Oliveira (dir. Universidade de Granada. Em trabalho já referido. 49-55. 6 Nuno G. Bartolomé Yun Casalilla. 5 Antonio Dominguez Ortiz. Imprensa Nacional. o valor crescerá para cerca de 70%. Istmo. p. Idem. 54.. .RELAÇÕES DE PODER. não só muito fortemente marcados pelos impactos da gesta expansionista. Monteiro (coord. Ediciones Akal. se incluirmos neste cômputo. com particular destaque para o caso da Monarquia Hispânica5.ª ed. A Casa e o Património da Aristocracia em Portugal (1750-1832). 17-175. Las Classes Privilegiadas en la España del Antiguo Régimen. Infanções e Cavaleiros. No entanto. Lisboa. 1992 (facsímile da ed. atitudes e papel político do grupo nobiliárquico em Portugal reduzem-se a uns quantos chavões. A amplitude das jurisdições senhoriais Comecemos por este último ponto. 2. Nuno G. Guimarães Editores. A Nobreza Medieval Portuguesa nos Séculos XI e XII. La Gestión del Poder. Círculo de Leitores. 1973. A Família e o Poder. História dos Municípios e do Poder Local. Editorial Estampa. de 1963). 1998. ibidem. Granada. Madrid. La Sociedad Española en el Siglo XVII. 1981. 1996.6% em 16407. sabe-se que conferiam preeminência 3 José Mattoso. Ou ainda os resultados de abordagens de síntese sobre a evolução do peso das jurisdições senhoriais no conjunto do território português6. 1985 e Idem.). Madrid. os senhorios das ordens militares que só incompletamente estavam sob dependência da Coroa.). as afirmações que se fazem sobre a evolução.. 2 vols. «Os poderes locais no Antigo Regime». pp. assim.6% do total das câmaras do país estavam sob a jurisdição senhorial (leiga e eclesiástica). 52. 4 Nuno Gonçalo Freitas Monteiro. Monteiro demonstrou que em 1527-1532. Um débil aumento. Lisboa. Na verdade. especialmente pp. As reflexões de natureza geral que se têm proferido tomam. como pelas ideias sobre a centralidade da Monarquia na organização social dos diferentes poderes. Ricos-Homens. e que esse número crescia ligeiramente para 57. No que a este último tópico diz respeito. 7 Idem. O Crepúsculo dos Grandes. Lisboa.

nestas épocas. 9 Alguns exemplos: a) 1520 in João Cordeiro Pereira. o cume da pirâmide só incluía donatários. . Já retomaremos a questão. História das Instituições. Imprensa Nacional. in Portugal do Renascimento à Crise Dinástica.90 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS simbólica e direitos de representação política pela pertença.Luís Augusto Rebello da Silva. quer demográficos. militares e capacidade fiscal sobre o território cujos contornos estão expressos nas Ordenações e foram já analisados por Hespanha8 e pelo próprio Nuno Monteiro. Se as doações genéricas criavam um ambiente comum. tenças e assentamentos doados pela Monarquia ou às diversas formas de exploração dos bens patrimoniais. por inerência. Não nos elucidam. De igual modo. Livraria Almedina. O princípio a que 8 António M. à percentagem que cabia à extracção fiscal decorrente dos direitos senhoriais sobre bens da Coroa. quer em termos económicos. dizer-se que a posse de jurisdições era determinante na definição das hierarquias dentro do grupo nobiliárquico e que. b) 1577 . No que toca às jurisdições pode. “A Estrutura Social e o seu Devir”. pelo que temos apenas uma ideia muito imprecisa sobre a configuração geográfica de cada um dos senhorios e a sua importância relativa. Ora estes vectores são relevantes do ponto de vista da avaliação da importância de cada um dos senhorios e são decisivos para compreender a importância que o controlo político sobre as terras e as gentes detinha para cada uma das casas. História de Portugal nos Séculos XVII e XVIII. c) 1587 .BL. Additionals. 1998. a contiguidade ou dispersão geográfica do senhorio pode ser significativa relativamente à eficácia da administração senhorial.026. d) 1615 . V. Mas significavam também um conjunto de funções políticas.026. Hespanha. João José Alves Dias. pp. H. coord. 48. É que as jurisdições senhoriais não eram todas idênticas. Nova História de Portugal. dir. às mercês. Já o veremos com maior pormenor. entretanto. Existem listas coevas – muitas delas datadas do período da Monarquia Dual – que apontam valores globais dos rendimentos das casas9. Editorial Presença. Épocas Medieval e Moderna. 273-276. Não se conhece. vol. 319. 247v-249. vol. a partir do tipo de direitos e privilégios transferidos pela Coroa. de 1967). o mesmo é dizer. começar a aprofundar-se um pouco mais o nível de análise. p. relativamente à composição desses rendimentos. Lisboa. Joel Serrão e A. fls. as competências formais dos senhores sobre as terras e populações podiam ser extraordinariamente ampliadas pelas doações expressas. fls. De Oliveira Marques. porém. III. 503-504. 499. 1867 (reimp. 1982. todavia. Um senhorio disperso tinha custos económicos superiores e propiciava gestões absentistas o que normalmente favorecia níveis de controlo senhoriais menos eficientes.BL. a distribuição das jurisdições pelos seus membros. todavia. 497. ao braço da nobreza em cortes. Additionals. Lisboa. Deve. Coimbra. 48.

impondo. pois. todavia. 296-7 . limites ao seu usufruto. História das instituições…. que lhes tinham”. Esta questão é importante porque explica a própria manutenção destes privilégios excepcionais. costumaram os Reys pôr mais exuberantes clausulas. e de maiores prerrogativas.RELAÇÕES DE PODER. excepto “que fique reservada ao Rey a mais alta superioridade e Real Senhorio”. as casas da Rainha. PATROCÍNIO E CONFLITUALIDADE 91 estas obedeciam está globalmente exposto no preâmbulo do tit. 10 António M. Chega depois a afirmar-se que nos casos das doações às rainhas. explicitando que as doações expressas perdiam validade quando não eram confirmadas e renovadas pelos sucessivos reis e que essas cláusulas perdiam validade quando a terra era doada de novo. aos infantes e a alguns senhores de terras a Coroa “não reservara para si parte alguma da dita jurisdição”. XLV das Ordenações Filipinas. Hespanha. já que as Ordenações Filipinas acautelavam bastante este ponto. para se mostrar a maior affeição e amor. o que pode. de aferir a validade dos direitos extraordinários em uso. pode afirmar-se de forma esquemática que tinha a ver com a combinação das qualidades de sangue e o capital de serviços prestados. Eram. com evidentes implicações nos níveis de autonomia dos concelhos. O quadro anexo demonstra que a casa de Bragança usufruía de um conjunto muito amplo de privilégios. não imputável especificamente a um ou outro soberano ou a um ou outro duque. Relativamente a este ponto concreto haveria que apurar alguns dados que permitissem uma base de sustentação mais informada para algumas imagens historiográficas que se estabeleceram e para as quais seria importante estabelecer uma cronologia mais fina do peso do senhorialismo. em grande medida. Não creio. Ora esta disparidade de funções jurisdicionais criava. Ou seja. fazer-se através da análise das cartas de doação contidas nas chancelarias régias. sempre que possível. que esgotem o universo dos principais beneficiados e este era um outro tópico que carecia melhor averiguação. assi nas doações e privilegios. O tipo de privilégios jurisdicionais a que me refiro pode ser melhor explicitado a partir do caso brigantino. p. he razão que se faça differença. Refere Hespanha que aqueles que tinham jurisdições exuberantes eram o arcebispo de Braga. de resto. A preocupação régia era. níveis bastante diferenciados de poder dos senhores sobre as terras. o resultado de uma acumulação secular. as de Bragança e de Aveiro e as freiras de Arouca10. concedidos ás tais pessoas. desde logo. Pode mesmo dizer-se que correspondia praticamente ao caso de transferência total de jurisdição a que as Ordenações aludem. Dizia-se “Como entre as pessoas de grande stado e dignidade e as outras.

de 09/04/1551). Portel (c.) defendemos a todos os Senhores de terras que não ponham nellas Juizes de fora e deixem os concelhos usar de suas eleições (. XVII era detido pelos condes de S.. 06/03/1567). Alcochete. Borba e Alter do Chão (c. e leuar os direitos della» (alvará de 02/10/1617) «Os offiçiaes das mesmas terras se chamem por elle na forma da lej noua» (alvará de 02/10/1617) Que seus ouuidores passem cartas de seguro (alvará de 02/10/1617) «Possa prouer os offiçios de escriuães dos orfãos. Vale de Reis.. Montalegre (c.)»a) Dízima novas do pescado não costumam ser doadas4 Não podiam ser doadas13 11 Ordenações Filipinas. Castelo Melhor.. Vila do Conde (c. História das instituições….r. marquês de Castelo Rodrigo e duques de Aveiro. Meirinho (.. Lavradio e Barreiro (c. Benavente.r. Samora Correia. de 30/03/1566). Povos. Monsaraz (c. Castanheira.. per que os hajam por privilegiados e escussos dos encarregos e servidões dos Concelhos (.) de 15/05/1549). p. Monforte (c.r.)»a) «(... p. 302 refere que este privilégio no séc.r. 294 12 . Chancellaria alguma das cartas e sentenças. de 03/01/1567). nem em algua dellas. Hespanha.r..92 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Alguns privilégios jurisdicionais extraordinários da Casa de Bragança Duques de Bragança «Possa ter chancellaria de sua Casa e de suas terras. trazendoos a cavallo em sua casa» a) «(. Unhão.) que não dêem Cartas nem Alvarás de privilegios à pessoas algumas. de 01/10/1544) Ordenações Filipinas11 «(. Livro II... Tit.r. de 24/06/1549). Miranda. Linhares. 285) Tabeliães – por norma são providos por carta régia e depois de examinados pelo Desembargo Paçoa)12 «(.. Hespanha.r. de confirmação de 28/09/1627) Poder para por meirinho: Portel (c. citado no quadro como a) António M. João. nem os Juizes e Tabelliães se chamarão por elles» a) Prerrogativa régia (Hespanha.) que não ponham em suas terras. História das instituições….. que passarem» a) «E não se chamarão Senhores das terras.. que criarem. Faro.r.) não levarão .) [não] dará Cartas de Scudeiro a outras algumas pessoas.. de 21/05/1579) Dízimas novas do pescado de: Vila Franca. XLV. taballiães.)»a) «(. 13 António M. aqueles. Torres Novas e Vila Hermosa. e verdadeiramente tiverem por scudeiros.. Azambuja. salvo.. de 19/06/1608).r. Vila Viçosa (c. Chaves e Barcelos (carta régia (c. Arraiolos.r. Calheta... Alhos Vedros. de 12/02/1530) Cobrar e despender as terças dos concelhos em todas as suas terras (c. escriuaes das camara e Porteiros dellas e assj os que ouuerem de seruir ante os juizes de fora como ordinarios con declaração que os nam podera prouer sendo os ditos offiçios da apresentação e prouimento das camaras» (alvará de 02/10/1617) «Que possa em suas terras jsentar dos encargos dos conçelhos as pessoas que lhe parecer e isto per mandado e nam por priuillegio» (alvará de 02/10/1617) «Que faça escudeiros as pessoas que lhe parecer sendo Vassalos seus das suas terras posto que autoalmente não estejão no seruiço de sua casa» (alvará de 02/10/1617) Juizes de fora em: Bragança.r.

dir. mas se iniciara muito antes. Iniciativas Editoriais. fl. Em 1 de Setembro de 1590 dizia-se que se viram as doações e privilégios que tinha e usava o 3. p. parecia que não havia dúvida que o duque D. João. 481-522. 15 Podem citar-se a este propósito a carta régia de 18 de Novembro de 1615 e o alvará de Lisboa. Álvaro podia gozar do privilégio que se questionava e que era o de deverem ir as apelações dos seus almoxarifados ao oficial da sua Casa que fosse juiz da sua fazenda e depois disso voltar à casa do Porto ou ir à Casa da Suplicação.º duque. D. in Dicionário de História de Portugal. IV. «Nobreza na Época Moderna». publicados em Collecção Chronologica da Legislação Portuguesa …. revelador do signifi14 Jorge Borges de Macedo. 1987.º duque. PATROCÍNIO E CONFLITUALIDADE 93 Exponho uma hipótese. D.RELAÇÕES DE PODER. mandava-se que se revissem os papeis16. bem como a consulta de 1589 são outros exemplos do afã de controlo que a monarquia dos Habsburgo desenvolveu. Álvaro. apoiada num caso. que permitiriam avaliar a consistência de tais ideias e os ritmos evolutivos. . Sabe-se que a Casa de Bragança manteve o essencial dos seus direitos. sempre que as provas apresentadas eram duvidosas e até a promulgar legislação geral mais restritiva. Joel Serrão. Todavia não se estudaram as posteriores práticas dos Habsburgo relativamente a esta matéria. Quanto à hipótese são conhecidas as assunções de que o período da Monarquia Dual teria compensado a nobreza portuguesa do afastamento da corte com o reforço do seu poder a nível local14. 16 Biblioteca da Ajuda (BA). De qualquer modo e dada a importância do caso. 59v. 2 de Outubro de 1617 (que abaixo se extracta) e que põem fim às demandas entre a Casa de Bragança e o Procurador da Coroa. pp. 2. vol. O que concorda com o já aludido aumento da área de jurisdicionalismo senhorial no Reino e também com outra imagem fixada pela historiografia que é a da proliferação de mercês régias como meio de persuasão do grupo nobiliárquico. Lisboa. 183 e 258-259.º duque de Aveiro.ª ed. O pleito que ainda corria em 1621. mas só após bem sucedidas demandas com a Coroa15. Dessa forma. e que por eles se demonstrava poder o duque usar dos privilégios e doações concedidas ao 2. em 1580. Las Cortes de Tomar y la Genesis del Portugal Católico. D. 388. Universidad Complutense. 44-XIV-4. pp. Madrid. Esta tese foi acolhida por Fernando Bouza Álvarez. vol. 1975. Desta feita. Jorge e este dos concedidos ao 1. O caso concreto refere-se à Casa de Aveiro que desde a década de 1580 viu uma série de alegados privilégios anteriores serem postos em dúvida pelos tribunais régios. tendendo a restringir os privilégios em uso pelos donatários. Portugal en la Monarquia Hispanica (1580-1640). havendo outros dados que sugerem que a Coroa levou a cabo uma política de fiscalização estreita. Filipe II. I.

O duque entendia que ele não se devia incluir nessa determinação “por razão da dita posse em que estaua”. Egerton. Le Portugal sous Philippe III d’Espagne. Não conseguindo este apresentar documentos comprovativos desses direitos. depois dessa proibição. o duque de Aveiro mantinha há algum tempo um contencioso com a Coroa sobre a extensão dos direitos nas suas terras.94 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS cado político da dada de ofícios e que creio que tem uma incidência que transcende a casa ducal de Aveiro17. taballiães. Mas essa alegação foi indeferida. 44-XIV-4. e que proueja nas mesmas suas terras os offi17 Um outro exemplo de fiscalização da extensão das jurisdições surpreende-se na consulta do Desembargo do Paço sobre a correição feita na vila de Alhandra para verificar o direito da jurisdição e dada de ofícios do arcebispo de Lisboa. escriuaes das camara e Porteiros dellas e assj os que ouuerem de seruir ante os juizes de fora como ordinarios con declaração que os nam podera prouer sendo os ditos offiçios da apresentação e prouimento das camaras. Université de Langues et Lettres de Grenoble. fls. o monarca ter mandado proibir que os donatários as provessem. o rei tinha concedido ao duque de Bragança. Na primeira situação18 estava em causa o facto de embora estando em posse do direito de prover as serventias de todos os ofícios de suas terras por si e pelos duques seus antecessores (ao abrigo das suas doações como constava da sentença). 113-115. 30 de Novembro de 1616 transcrita em Claude Gaillard. como constava dos traslados e alvarás que anexava ao processo. 395-396. 18 British Library (BL). adiantava o Aveiro. Com efeito. dado as Ordenações haverem sido impressas 70 anos antes. rei decidiu contra ele. não haver lugar a alegar “posse imemorial” como o arcebispo fizera. . 1136. Ora. e leuar os direitos della e que os offiçiaes das mesmas terras se chamem por elle na forma da lej noua e que seus ouuidores passem cartas de seguro nos casos em que os corregedores das comarcas as podem passar na forma da ordenação e que possa prouer os offiçios de escriuães dos orfãos. E entre essas provas estava o traslado da carta régia de 2 de Outubro de 1617 em que se concediam amplos poderes ao duque de Bragança que se extracta “avendo respeito a mo pedir por sua carta o duque de Bragança meu muito amado e prezado primo e a seus serviços e muitos merecimentos de sua casa. 1982. em finais da década de 1580. ao marquês de Castelo Rodrigo e ao conde de Lumiares (filho deste) poder para prover serventes dos ofícios de justiça das suas terras. e por lhe fazer merçe ej por bem que elle possa ter chancellaria de sua Casa e de suas terras. L’action de Diego de Silva y Mendoza. e que possa em suas terras jsentar dos encargos dos conçelhos as pessoas que lhe parecer e isto per mandado e nam por priuillegio. BA. baseando-se na ausência de títulos e no facto de. ao marquês de Alenquer19. pp. Grenoble. 19 A afirmação era verdadeira como se comprova pelo conteúdo da carta régia de doação da jurisdição de Alenquer de Madrid.

três desembargadores sustentaram que não. A descrição do episódio é longa. Nesta última hipótese. “alegando muitas coisas e razões. e que das duas partes dos Rendimentos dos conçelhos das suas terras possa mandar despender o que lhe parecer nas obras do bem publico dellas com declaração que as obras serão somente pontes. bem como o traslado da sentença da Relação de 15 de Fevereiro de 1603 em como se tinha achado por bem provida a serventia que o duque de Aveiro fizera de um ofício por estar em posse por si e por seus antepassados. Requeria. mas tal não ocorria no caso em apreço. 8-8v. 20 Alvará de Lisboa. o duque poderia apresentar o dito ofício. após a renúncia que um outro oficial fizera nas mãos do duque. privilégio idêntico ao dos citados senhores. por isso. mas importante pelo teor contraditório das alegações dos juristas do Desembargo do Paço chamados a depor. calçadas. ou que renunciando o proprietário nas mãos do rei. e assj ey por bem que conforme a isto cesse a demanda que o Procurador de minha Coroa tem movido ao Duque o que tudo assj me praz sem embargo de quaesquer leis e ordenações que em contrario aya e mando as justiças offiçiaes e pessoas a que o isto pertençer cumprão…”20. 1136. fls. por onde diz que pode prover por renunciação. este lhe aceitasse tal renúncia e houvesse então o rei o tal ofício por vago. BL. fontes. pareceu que o duque donatário podia apresentar os ofícios de tabeliães que estivessem vagos tanto por morte. pp. estradas publicas e outras desta callidade // e que proueja as seruentias dos offiçios de justiça das suas terras assj e da maneira que seus antepassados o fizeram e que faça escudeiros as pessoas que lhe parecer sendo Vassalos seus das suas terras posto que autoalmente não estejão no seruiço de sua casa. porque pelas doações parecia que não o podia fazer. Dizia respeito a um caso concreto e fora suscitado pelo pedido de confirmação régia do cargo de tabelião do público e judicial da cidade de Coimbra outorgado pelo duque de Aveiro. PATROCÍNIO E CONFLITUALIDADE 95 çios de Procuradores do numero em pessoas aptas e sufficientes não excedendo nisto o numero que delles costuma aver Os quaes serão primeiro abellitados per mjm ou pello meu desembargo do paço. O segundo caso dizia respeito ao provimento de ofícios por renúncia do anterior titular. Egerton. o rei mandou que se vissem as cláusulas das doações do duque para certificar se ele detinha poderes para prover por renúncia. A outro desembargador. 258-259. Antes de proceder à emissão da provisão. Visto na Mesa do Desembargo. Ora o caso oferecia dúvidas. excepto quando os ofícios vagassem por morte. .RELAÇÕES DE PODER. como se fosse por morte. e que neste costume e posse estavam os Duques seus antecessores”. porém. O duque objectou. mandou-se. 2 de Outubro de 1617. para análise pelo Procurador da Coroa que foi de parecer que não podia. Como já se referiu José Justino de Andrade e Silva transcreve-o na íntegra em Collecção…. por isso.

porque em negócios de tanta importância. como aquela a que 21 22 BA. Outra questão onde a disciplina régia se fazia sentir com acuidade era a da criação de novos ofícios. fls. 19. porque em direito se igualava o poder de apresentar benefícios ao que se tinha no apresentar ofícios. 23 António Vasconcelos de Saldanha. quem tinha poder para apresentar ou colar os vagos o fazia quer fossem vagos por morte ou por renúncia. Archivo General de Simancas (AGS). As capitanias do Brasil…. embora seja. Por carta régia de Novembro de 1603. trabalhosa. fl. antes se afirma por oficiais do juízo dos feitos da coroa que num feito que trouxe Francisco de Sampaio com o Procurador da Coroa se julgou que podia o donatário apresentar o ofício vago quer fosse por morte quer por renúncia. ordenava-se que fossem extintos os ofícios que o duque de Aveiro criara de novo em suas terras e dera de serventia a várias pessoas22. E no que referia aos benefícios. 41-42v apud Boletim da Filmoteca Ultramarina.96 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS como por renúncia. 44-XIV-4 (n. Como disse antes. nem parecia que o contrário disto foi julgado na Relação porque se fez muita diligência sem se achar feito em que houvesse sentença em contra disto. Parece assim que a análise na longa duração é indispensável. também. porque isso parecia conceder-se na doação antiga que se oferecia interpretada e declarada pelo costume que se usou sempre nas ditas apresentações como constava das certidões que se ofereceram e. claro está. onde o constante esforço de ocupação e desenvolvimento das terras o justificaria com maior pertinência23. nem parece em contra isto dizer-se as ditas certidões seriam acaso passadas. 189-191. As Ordenações fixaram este direito real e tinha valia mesmo nas donatarias ultramarinas. precedendo para ela licença de Sua Magestade”. Pese embora esta longa alegação o caso foi indeferido pelo monarca que aceitou o parecer maioritário do Desembargo do Paço21. Tal avaliação poderia sugerir uma tentativa de limitar o tipo de territorialização do poder nobiliárquico. E acrescentava: “e que os inconvenientes que se apontam que intervêm na apresentação do dito ofício vago por renúncia se são todos se mostrar licença de Sua Magestade para se fazer tal renúncia.º28). . pois já o donatário não faz mais que apresentar no ofício que Sua Magestade há por bem que vague com efeito por renuncia do proprietário. não é de crer que os desembargadores do paço antigos dessem aos reis passados seu parecer sem muita consideração. 1487. Secretarias Provinciales. cód. exigiria a análise dos privilégios e clausulado das novas doações e das confirmações régias feitas aos senhores de terras. pp.

a partir de onde controlavam uma extensa. Igualmente relevante neste ponto seria apurar a tendência para a maior ou menor dispersão na titularidade de senhorios. mas dispersa área territorial. mas com base territorial mais diminuta e menos poderes sobre as mesmas. de esmolas. 24 David García Hernán. Os diferentes tipos de mercês dispensados pela casa foram estratégicos nesse processo. Administração senhorial. por isso. mediada por agentes administrativos próprios. de benefícios eclesiásticos. De tudo um pouco. A sua gestão era. Utilizavam a mesma matriz formal. com lógicas bastante similares. E é quase certo que exemplos similares se podem estender a outras casas senhoriais. . É verdade que a Casa ducal de Bragança detinha privilégios que lhe asseguravam a nomeação directa não apenas dos ofícios locais como também de ofícios de justiça e fazenda destinados a intermediar os assuntos das terras com o centro do senhorio. La Casa de Arcos. quanto à aplicação da justiça e à capacidade tributária. Esses elementos agilizaram a comunicação entre o paço e as terras e ajudaram a amortizar tensões com a sede do senhorio. nos apoios financeiros ao estudo. Que não governavam presencialmente. de trocas e de negociação dos diferentes interesses em presença. No caso dos duques de Bragança sabemo-los sediados em Vila Viçosa. e ao qual já fizemos uma breve referência. confrarias e conventos. Universidad de Granada / Ayuntamiento de San Fernando / Ayuntamiento de Marchena. a compra de bens. Exercitava-se a liberalidade para harmonizar relações interpessoais através de jogos de compensações.RELAÇÕES DE PODER. de dotes. Paternalismo e conflitualidade O segundo ponto. 1999. ocorria nos demais reinos peninsulares24. Se esse fenómeno lhe assegurava os recursos humanos necessários para o exercício do poder. tal como. Aristocracia y señorío en la España de Filipe II. mais senhores de terras. tanto no que respeita à nomeação de pessoas. É o que se verificava na confirmação das câmaras. na concessão de tenças. no patrocínio às misericórdias. Ou seja. de resto. também há que destacar que a estratégia de integração de membros de parentelas de elites locais na corte ducal em foros de moradores foi a este título absolutamente decisiva. Muitos dos privilégios recebidos diziam justamente respeito à gestão dos espaços senhoriais. Granada. na dada de ofícios locais. PATROCÍNIO E CONFLITUALIDADE 97 aludi relativamente à casa de Aveiro. a deslocações. num organigrama que não se distinguia particularmente do da Coroa. refere-se à importância da governação presencial para promover o maior controlo político sobre as terras. num modelo semelhante ao da administração régia.

por ocasião dos levantamentos anti-fiscais. por isso mesmo. GEsOS / Câmara Municipal de Palmela. dos marqueses de Vila Real ou mesmo do infante D. sep. Palmela. p. Podem ser adiantados exemplos para o século XVI para as casas de D.98 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Será. Com esta outra estratégia procurava-se garantir uma gestão dos recursos locais favorável ao donatário porque isenta das solidariedades de raiz local. João IV) para sossegar os motins no Alentejo. Jorge. aquietar más vontades. Neste último caso privilegiavam-se factores propiciadores do exercício da autoridade. pois a análise da chancelaria de D. era a de a dada de ofícios ser utilizada pelos senhores para recompensar serviços prestados à casa senhorial. Luís. Gonçalo Soeiro de Azevedo. Mas outra situação possível. em que Cristina Pimenta revela como os ofícios locais das terras das ordens de Santiago e de Avis eram muito frequentemente atribuídos a criadagem da sua casa senhorial ou a cavaleiros das ordens. sem atender à naturalidade das pessoas em causa. Publicações do Arquivo Histórico do Ministério das Finanças. comportamentos indisciplinados ou contrários aos interesses da casa. Manuel demonstra que os ofícios das terras do marquês de Vila Real que eram da dada régia foram providos em criados do 25 José Mendes da Cunha Saraiva. Numa abordagem um pouco distinta. As Ordens de Avis e de Santiago na Baixa Idade Média. Jorge. O governo de D. Em carta enviada para Sousel em Setembro de 1637. E que se assemelha à figura dos juízes de fora. 2002. um pouco na linha do trabalho sobre o governo de D. 1942. junto das populações. João II (futuro D. sem cuidar da sua naturalidade ou local de residência26. Jorge. Lisboa. o duque pedia a intervenção do seu procurador do concelho. e contraditória com o exemplo acima exposto. Cartas do Duque de Bragança a Gonçalo Soeiro de Azevedo (1632-1640).. . para mobilizar os seus parentes a fim de apaziguar os tumultos «cada dia me disem que ha nessa Vila motins ou esperanças de os aver e que o pouo trata de soltar presos e queimar cartorios liuros e papeis da Camara naõ sendo cousa de que elles possaõ alcanssar bem nenhum particular nem o pouo utilidade algua e por me paresser que so vos com vossos parentes podereis ser o meo para isso se aquietar vos quis escreuer esta. verificamos como no século XVI podia ser a própria Coroa a reforçar a influência política das casas nos respectivos senhorios. mas talvez ainda mais interessante. Um exemplo expressivo é o do meio utilizado pelo duque D. 26 Maria Cristina Gomes Pimenta.»25. natural esperar que os agentes senhoriais e o funcionalismo local de nomeação dos donatários tivessem maior capacidade negocial para.16.. correndo embora o risco de produzir relações mais tensas nas terras. diga-se. depois duques de Aveiro.

ms. 243-245. 1972. Estampa. 31v. dos duques de Aveiro para a de Aveiro30. 1136. Egerton. Frei Bartolomeu dos Mártires:1580-1582. evolução e extinção. a proximidade do arcebispo de Braga relativamente aos assuntos desse município31 são exemplos possíveis. Para a Casa de Bragança conhecem-se numerosas situações28 que denotam o elevado nível de conhecimento que os duques tinham das suas terras. Seria então importante conhecer qual destes comportamentos era dominante nas relações entre as casas e os respectivos senhorios e avaliar depois se haveria modelos senhoriais mais e menos paternalista a fim de medir o impacto dessas diferentes atitudes na conflitualidade com as terras e os vassalos. 17. por ocasião de uma das suas partidas para o governo de Ceuta. ms. quando constasse ao duque que as pessoas de Vila Viçosa conversavam e se comunicavam como amigos. fl. Braga. está de resto evidenciado na necessidade de obter em 1627 a confirmação régia do privilégio para que. Vejam-se 27 28 BL. 1560-1640. fosse para pedir instruções. Câmara Municipal. 1973. PATROCÍNIO E CONFLITUALIDADE 99 marquesado numerosas vezes. um século mais tarde (1622). Muitos outros existiriam seguramente e revelam de forma muito clara o elevado nível de controlo político dos senhores sobre os assuntos locais e também a importância da intermediação senhorial na obtenção de privilégios ou na solução de questões com a Coroa. Câmara Municipal. As cartas do infante D. Sua origem. Mafalda Soares da Cunha. 29 Arquivo da Casa de Bragança (ACB). Práticas senhoriais e redes clientelares. Lisboa. . y todos quedan para seruiço de la duqueza”27. Braga. pp.RELAÇÕES DE PODER. 1979 e Acordos e vereações da Câmara de Braga nos dois últimos anos do Senhorio de D. fossem impedidas de servir juntas nos ofícios e cargos dos concelhos quando fossem eleitos. fl. 1566 (VIII)-1567. Em todo o caso.º duque de Caminha não hesitava em afirmar que “todos los caballeros y personas principales de la ciudad de Leyria [era o seu local de residência. Mas a existência de canais de comunicação eficazes ocorria igualmente em outros senhorios. acatar ordens. não obstante terem cartas de inimizade uns com os outros29. 2000. Talvez por isso. 43. Um bom exemplo disso. confirmar negócios. 31 Acordos e vreações da Câmara de Braga no Senhorio de D. Aveiro. mas sobre a qual não tinha jurisdição] son criados y paniguados suios. a correspondência que as terras mantinham com os donatários é indiciadora de fluxos regulares de informação. A Casa e Ducado de Aveiro. neste caso associado às sociabilidades locais. 30 Francisco Ferreira Neves. A Casa de Bragança. Duarte para a câmara de Vila do Conde. o 1. Frei Bartolomeu dos Mártires.

). eu falarei logo niso a elRey meu senhor (…).º 9. teoricamente imparcial. CSIC. que os maiores focos de conflitualidade entre os donatários e as populações se reportavam às relações económicas. David García Hernán. Monteiro há alguns anos34 e no já citado trabalho meu sobre a casa de Bragança35. 2003. Estas práticas paternalistas. F. A Casa e Ducado de Aveiro…. 155-204. 411-458. 215-299 (primeiro editado em 1985 e 1986). 35 Mafalda Soares da Cunha. . Julgo. frades e forais: Revolução Liberal e regime senhorial na comarca de Alcobaça (1820-1824)» in Elites e Poder Entre o Antigo Regime e o Liberalismo. «El Señor Avisado: Programas Paternalistas y Control Social en la Castilla del Siglo XVII». n. A prová-lo estão as numerosas sentenças e despachos régios com fundamentação clara que deram razão aos senhores. “Poderes locais nas áreas senhoriais…” (no prelo). O que é interessante constatar é o quase sistemático recurso aos tribunais para resolução dos diferendos inconciliáveis por vias informais. todavia. «Lavradores. mas porque todas estas cousas Requerem algum vagar quis fazer esta [carta] por que saibais que me he dado vosa carta E que trabalharei por fazer o que me pedis”32. reiterando as constatações feitas por Nuno G. Manuscrits. Imprensa de Ciências Sociais. A Casa de Bragança… 36 Mafalda Soares da Cunha. amorteciam muitas vezes os descontentamentos. pp. Clientelismo y Patronazgo en el Antiguo Régimen» in Reyna Pastor (comp. Ignacio Atienza Hernández. 30. importante sublinhar que o que se verificava em muitos destes casos era a reacção dos povos contra direitos efectivos dos donatários e não abusos na sua cobrança por parte destes. Aristocracia y señorío en la España de Filipe II…. pp. 1990. pp. Lisboa. de Producción y Parentesco en la Edad Media y Moderna. Relaciones de Poder. Idem. sentenciando depois em conformidade. Introduzia-se assim um mediador. ou para fazer mercê a este ou aquele senhor. mas deve assinalar-se que tinham menos eficácia quando o mal-estar era provocado pelo rigor na cobrança dos direitos senhoriais. «Pater Familias. Ou ainda. vereadores e procurador do concelho da sua vila de Aveiro. destinado a avaliar a pertinência e validade jurídica dos argumentos em confronto. Monteiro. p. Madrid. Señor y Patrón: Oeconómica. afastado de vez que estava o uso medieval da coação física36. que muitos autores espanhóis também constataram existir nos reinos vizinhos33. e usando as palavras do próprio duque de Aveiro na carta que em 1572 dirigiu ao juiz. 34 Nuno G. “quanto ao que me dizeis (…). Veja-se um caso claramente difícil que opunha 32 33 Francisco Ferreira Neves.100 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS as numerosas cartas de privilégio a terras de senhores contidas nas chancelarias onde se faz expressa menção que a mercê foi concedida pela intercessão. Diga-se a este propósito.

Em 20 de Julho de 1591. b) outros dois alegavam desfavoravelmente. pois “não he justo impedir sse ao Duque a arrecadação dos dereitos de jugadas que lhe são deuidos e que assim os deue Pedir e arrecadar ordinariamente e se a Cidade tiuer algua duuida.RELAÇÕES DE PODER. mais aos povos. avaliações mais precisas do impacto dos diversos tipos de direitos senhoriais no desenvolvimento agrário e na paz social. 187v-188. mas que não estava confirmado pelo rei. PATROCÍNIO E CONFLITUALIDADE 101 o duque de Aveiro à cidade de Coimbra sobre a arrecadação das jugadas. ou mesmo muito pesados para os povos (penso no terço. O demorado diferendo sobre a matéria fora resolvido entre as partes por um contrato perpétuo. que admito carecerem de estudos globais. sobretudo em épocas de maiores dificuldades económicas. de abusos que se pudessem imputar aos donatários ou mesmo ao rei. 37 BA. porém. até porque o duque mudara de ideias. enquanto não há confirmação de sua Magestade se pode o Duque apartar delle”37. portanto. e com mais clamor do Pouo. Ora. e que com isso auer effeito fica ao donatario aquella renda de melhor condição que todas as de seu estado. fls. O que talvez este tipo de comportamento indicie é atitudes de maior rigor na gestão dos direitos senhoriais que pesavam. colocava-se a questão de o confirmar ou não. ou seja. . a análise mais aprofundada destes tópicos. 44-XIV-4. ou embargo a não pagar podera otrosj requerer sua justiça como lhe pareser e quanto a confirmação que a cidade Pede do concerto e contrato que fez com o governador do Duque de aveiro por o Duque aggora não consente antes antes o contradiz pareçe se lhe não deue confirmar espeçialmente pello dito contrato ser nullo sendo feito sem liceça e authoridade de Sua Magestade. Talvez também porque havia regiões onde os direitos que estavam estipulados eram de facto pesados. sendo atée aggora a que pior se arrecadaua. em grande quietação da dita cidade e Pouo della”. quarto ou até oitavo da produção que eram cobrados nalgumas áreas). então. dando azo a oposições e conflitos. e se lhe dá muito mais do que nunca rendeo e parese que o Duque deue ser pago conforme ao dito contrato”. Tal ocorreria. e Posto que fora valido. talvez reorientar. Os pareceres dos desembargadores do Paço dividiram-se: a) dois achavam que o rei devia confirmar “por ser em euidente proueito dos Bens da Coroa. O que nesse caso configurava um sistema opressivo. tanto mais que ambas as partes o requeriam “e se auerem com isso de escusar as grandes oppresões e molestias que o Pouo de aquella cidade padecia nas execuções que se fazião pellos rendeiros das ditas jugadas com grande desordem e violensia. trabalhos com quadros geográficos alargados à escala do reino e que permitam. Não se tratavam. a questão colocada nestes termos pode.

O rei deu então despacho favorável (1590/11/27). 44-XIV-4): 1) Após queixa da câmara de Pinhel justificada por uma provisão de dada por D. procurando residir o maior tempo possível em Pinhel. nos solicitadores e advogados das casas senhoriais sediados junto dos tribunais centrais. outros prendem-se com rivalidades locais. por os julgadores que faziam a residência ao corregedor e provedor de Tomar obrigarem os moradores de Abrantes a deslocar-se a Tomar para testemunharem.102 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS É. Um primeiro está associado ao preço da justiça. beneficiando claramente os donatários. podem colaborar na ocultação dos conflitos. o que não ocorria. António de Oliveira. entre os senhores e os procuradores da Coroa. sobretudo aqueles que disponham já de uma estrutura judicial própria. João no período filipino» in Estudos e Ensaios em homenagem a Vitorino Magalhães Godinho. embora se não devam descartar dois outros factores que. pois enquanto muitos conflitos inter-senhoriais decorrem de partilhas. Livraria Sá da Costa Editora. . vol. fls. pelo que desembargadores opinaram que um terço do tempo das residências fosse passado em Abrantes. Sabe-se que a litigância tinha custos económicos elevados. O argumento colheu. As possibilidades de influência também jogavam a favor dos senhores. Subsídios para o estudo da sua vida e da sua obra. António Pereira Marramaque. senhor de Basto. 40 Cf. desta vez da câmara de Abrantes. por exemplo. sobretudo se os processos se prolongavam com embargos e recursos sucessivos. Já o disse em anterior trabalho e creio dever reiterá-lo. o rei decide que a provisão era antiga e já desadequada. 39 Dois exemplos a partir de consultas do Desembargo do Paço (BA. fl. quer pela capacidade de dissuasão de testemunhas menos favoráveis. 263-276. sep. inter-municípios e inter-instituições locais ou até entre municípios e a administração periférica da Coroa39 do que com queixas de municípios e de vassalos das casas senhoriais contra os seus donatários. Sebastião em que se dizia que os corregedores da comarca lá deviam residir seis meses e outros seis meses em Trancoso. não obstante a existência de algumas excepções significativas40. pelo que sugere que os sindicantes sediassem quinze dias em Abrantes. Penso. fls. outros com disputas de preeminências: António Dias Miguel. ficando eles muito mais tempo em Trancoso. embora de natureza distinta. no entanto. 1988. Arquivo do Centro Cultural Português. quer pelas 38 Alguns exemplos avulsos num tema que mereceria atenção e uma tipologia de análise. Pleito entre o duque de Pastrana e o marquês de Alenquer sobre Chamusca e Ulme. 2) Queixa. BL. Na realidade. Egerton. 1136. pp. Lisboa. 103. 50-90 que correu pelo menos entre a década de 1590 e a de 1620. «A violência do poder dos cavaleiros de S.. Os elementos explicativos dessa escassez reivindicativa podem assentar na eficácia desta gestão paternalista. (1689/09/23). A capacidade financeira para assegurar a sua continuidade era desigual. 1980. mas que o corregedor devia atender ao caso. 26v-27. verdade que não se encontram registos de queixas contra senhorios muito numerosos. tenho topado mais com registos de conflitos inter-senhoriais38. em particular. XV. Paris.

com as demoras e custos inerentes. através do seu advogado. é também particularmente impressivo. fl. PATROCÍNIO E CONFLITUALIDADE 103 pressões junto do corpo de juristas dos tribunais. 43 BL. no que já gastara muitos mil ducados. outro à casa de Bragança e outro à de Alenquer: No já citado processo analisado no Desembargo do Paço por causa dos direitos do duque de Aveiro a prover um ofício por renúncia. Pediam. Há casos conhecidos que o revelam com amarga clareza. declinatorias. Ora. ms. dilatorias. fl. “advertir disto os desembargadores do Paço pera que não aião nunca as partes uista das informações que se fiserem sobre suas pertenções”41. O argumento expresso por um desconfiado litigante contra os duques de Bragança. Esta situação torna difícil a avaliação dos níveis e tipo de litigância exis- 41 BA. 1135. havia cinco anos e sete meses que o povo perseverantemente requeria justiça. 37v. iniciado em 1596 com sentença favorável à Casa em 1605 no processo contra um tal Bento Fernandes Bota e sua mulher. advertência. por isso. está associado à escassez da documentação de natureza judicial disponível para estas épocas. 19. 44-XIV-4. algures entre 1596 e 1605. particular atenção por esse dinheiro ser ganho com o suor do rosto e sangue de mãos. visto o autor da queixa (duque de Bragança) ser senhor das vilas de Vila Viçosa. ACB. Egerton. fls. ou melhor. Dizia que tinha fundadas suspeições. y embargos” para atrasar a justiça. reguengueiros de Evoramonte. 42Processo .RELAÇÕES DE PODER. acusando-o de. O segundo argumento. Na carta régia de 8 de Outubro de 1589 que deu despacho ao caso. o duque objectara das alegações apresentadas pelo Procurador da Coroa. O negócio já fora interrompido três vezes e queria o marquês interromper mais uma. 19. o rei acrescentava um alerta relativo à irregularidade que se havia cometido no Desembargo do Paço ao dar vista dos papeis do Procurador da Coroa ao duque de Aveiro e mandava. 338. invocando ainda o amor de vassalos que tinham para com Sua Magestade43. utilizar todos os estratagemas jurídicos possíveis e imaginários “excepciones. por isso. Arraiolos e Evoramonte onde deveria decorrer o inquérito e onde «elle daua os officiais e os aprezentaua e lhe fazia delles merce e erão todos seus vaçalos e escriuaes e Almoxarifes juizes e mais pessoas da dita vila e todos lhe obedecião e fazião tudo o que elle lhes mandaua e era seruido»42. Um associado à casa de Aveiro. O que gerava casos de suspeições e os necessários pedidos de substituição dos juizes ou desembargadores. peremptorias. Citamos três. contribuindo nisso os pobres trabalhadores que deixavam de comer. Quanto ao outro queixava-se o povo de Alenquer do Marquês.

de resto. já fiz algumas referências). pese embora a extensa transferência de jurisdições por parte da Coroa. Monteiro e Teresa Fonseca referiram nos textos que integram este livro e que. É uma chamada de atenção que reforça o que atrás se disse e um pouco no sentido do que Nuno G. Difel. no entanto. O que significa que a análise de processos é possível. parece-me. 43-44 lista-nos uma série de confrontos e reivindicações lideradas por populares de muito variado cariz e com variados oponentes. seja contra senhores. . e que o Arquivo Geral de Simancas contém abundante e riquíssima informação relativa às decisões da Monarquia e dos seus conselhos. Territorialização do poder senhorial e sociologia das elites políticas locais O terceiro e último ponto prende-se com o perfil social dos titulares dos ofícios locais. práticas políticas e a evolução histórica das capitanias. Lisboa. 1991. tomando-as como um fenómeno atlântico. Camaristas e não só. se articula também com o tema da territorialização do poder senhorial. seja contra os oficiais da Coroa. como se disse. apesar de tudo. pelo menos até meados do século XVII. O que aqui importa trazer é que. porém. sobreviveram alguns códices do Desembargo do Paço (sobretudo relativos ao Período da Monarquia Dual e aos quais. confirmam as ideias de um poder nobiliárquico muito territorializado que. caracterizan- 44 António de Oliveira. No já referido estudo de Saldanha. se apoiava em redes sociais locais e que lhes permitia transformá-las facilmente em redes de criaturas suas. Sem pretensão de acrescentar quaisquer novos dados a este tema. Poder e Oposição Política em Portugal no Período Filipino (1580-1640). e o que deles sobressai não é a litigância entre senhores e terras ou vassalos. ou melhor nas capitanias-donatarias. a meu ver. pertinente chamar a atenção para esta questão. Viu-se que os níveis de conhecimento das terras (recursos económicos e pessoas) que os donatários mais antigos e com maior amplitude de privilégios jurisdicionais detinham. explica-se demorada e detalhadamente os fundamentos jurídicos. complementados com o enquadramento privilegiado que a Coroa lhes proporcionara. pp. mas uma conflitualidade muito mais plural e multifacetada44. raramente os seus senhores aí residiram.104 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS tente. mas deve dizer-se que. Esta territorialização do poder senhorial verificada no continente e até nos arquipélagos da Madeira e Açores não ocorreu. até porque os temas do Império têm sido demasiadas vezes tratados de forma desligada dos do reino de Portugal continental. nos senhorios ultramarinos. Clientelas pode dizer-se. em que avultam as queixas fiscais.

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do-se a administração senhorial por um quase total absentismo. O exercício dos poderes judicial e fiscal, bem como a gestão corrente dos territórios, eram subdelegados em agentes senhoriais, nomeados pelos capitães-donatários – os capitães loco-tenentes. Os poderes de nomeação do oficialato local e de confirmação das câmaras constituíram-se, por isso, em instrumentos que reforçavam os poderes destes loco-tenentes, embora estivessem sempre sujeitos a sindicância por parte das justiças do Reino. Na verdade, para além das razões económicas, a posse dos títulos dos senhorios pouco mais interesse despertava junto dos capitães-donatários. As suas relações com os vassalos eram quase sempre mediadas pelos capitães loco-tenentes, sem que estes últimos dispusessem, todavia, da autoridade social que caracterizava os donatários. Eram na maior parte dos casos gente com origens sociais modestas, que se havia distinguido na guerra com os índios ou com os invasores franceses e holandeses e tinham acumulado património fundiário. Transformados em senhores de engenho, formavam as elites locais e foi à sua sombra que se constituíram importantes redes clientelares (de parentela, compadrio, vizinhança, etc.), que às vezes transcendiam até os limites das próprias capitanias. Há relatos de comportamentos bastante arbitrários de bandos de parentelas suas, ofensivos do direito e das instituições reinícolas, e que deram muitas vezes azo a reivindicações, confrontos e revoltas, sendo conhecidos numerosíssimos episódios de protestos armados das populações contra os loco-tenentes que conduziram até a bem sucedidas deposições do posto. Percebe-se então que estes senhorios ultramarinos só importavam aos donatários em função dos rendimentos que deles se podiam retirar. E, na realidade, a própria estrutura de delegação de poderes e de exploração do território tornou muitas dessas donatarias em negócios verdadeiramente ruinosos. É que os rendimentos mais significativos não provinham da cobrança de direitos jurisdicionais, mas sim da exploração fundiária, mineração e comércio de escravos e o absentismo senhorial dificultava a exploração eficaz dessas oportunidades. Daí o abandono a que os seus titulares votavam essas capitanias e até o interesse em se desfazerem delas. Existiam excepções, todavia, que respeitavam, sobretudo, a capitanias nos arquipélagos do Atlântico Norte e algumas do Brasil. Nesses poucos casos (em que se complementavam normalmente as jurisdições com as actividades mais rentáveis atrás referidas) os altos proventos serviram de meio para promoção e ascensão no Reino, apesar de, em boa verdade, tal só se verificar com as fortunas brasileiras (e não foram mais que dois ou três casos) na segunda metade do século XVII. Tal quadro não era exactamente análogo, porém, ao da posse das capitanias hereditárias nas praças do Norte de África. Embora com rigor estas não configurem senhorios jurisdicionais, o certo é que a natureza dos poderes regimentais dos capitães-mores, associada às doações desses cargos

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em propriedade ou em vidas, permitia práticas políticas muito semelhantes. E estas, do ponto de vista formal, podiam até ser abusivas, mas não deixam de traduzir a extensão dos poderes efectivamente exercidos e a importância que os capitães hereditários lhes conferiam. Demonstro-o com uma situação muito expressiva. D. Fernando de Mascarenhas, conde da Torre, nomeado para ocupar o cargo de capitão-mor de Ceuta em 1624, explicava ao rei por carta de 23 de Abril de 1625 que os fundamentos dos conflitos ocorridos durante a sua administração da praça eram o de ter tentado cercear as irregularidades cometidas pelo duque de Caminha ao que este reagira mal, levantando-lhe, logo no primeiro ano de funções, vários pleitos judiciais. Dizia “foi acudir eu pela jurisdição real de Vossa Magestade que ele tinha usurpado e fazer eu conhecer a Vossa Magestade por senhor dessa força fazendo guardar as provisões reais de Vossa Magestade e não as do duque”. Dava como exemplos o caso de um capitão de Infantaria que tinha provisão ducal e régia para servir, mas que usava sempre a do duque, pelo que D. Fernando fizera rasgar essa, pondo-o a servir pela provisão régia, e outros similares relativos aos tabeliães do público, judicial, órfãos e notas. Acrescentava que Diogo Nabo, adail, quisera servir pela provisão do rei e não do duque e “o duque lhe o encontrou de modo que correu a demanda na relação de Lisboa aonde se deve sentença por Vossa Magestade e com isto ser tão claro, o tem o duque hoje embaraçado de maneira que a pessoa que hoje serve esses ofícios é por data do duque e não tam somente os serve por provisão sua, mas tem alvará de lembrança para os poder vender. E destes alvarás tem o duque passado muitos não podendo porque isso só toca a Vossa Magestade em resolução”. Mais dizia “que o duque se havia de maneira que dos moradores desta praça foi tido até agora por rei e senhor dela, e porque eu lhe tenho feito entender que em Espanha não há mais rei que Vossa Magestade me tem o duque capitulado com opróbrios alheios de meu procedimento”. Concluía, por isso “pretendo com isto que Vossa Magestade me tire desta força antes dos três anos e lhe conceda a ele vir a ela, quiça não com tenções de servir a Vossa Magestade senão de tornar a pregar e fazer crer a estes cavaleiros e soldados esta falsa seita em que viviam”. Referia depois serem estas práticas habituais nos capitães hereditários de Ceuta e que os reis passados já tinham tido que se confrontar com elas: “lembrando mais a Vossa Magestade que por outras semelhantes a estas, sendo o marquês de Vila Real pai do dito duque que hoje chegado a esta força com sua mulher e família de mui poucos dias o mandou elrei D. Sebastião que Deus haja ir daqui para Portugal e o veio tirar Dom Lionis Pereira e não mais tornou a esta praça” 45.
45

BN, Ms. 206, fl. 264. Esta carta está transcrita em Isabel M. R. Mendes Drumond

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É claro que, diversamente das capitanias-donatarias, nas praças do Norte de África a raiz dos seus poderes era militar e, talvez por isso mesmo, tais funções geravam muito prestígio social e político no Reino. A reputação que a posse desses cargos hereditários conferia equiparava-se quase à posse de senhorios jurisdicionais no continente. Permitia, para mais, acumulação de fortunas através dos direitos sobre as razias, resgates e até pirataria, bem como a estruturação de redes clientelares relevantes. De gente que aí servia momentaneamente hábitos ou comendas das ordens militares, mas também de grupos familiares enraizados localmente e que de há muito ocupavam os ofícios principais das praças. Com efeito, o esforço para tutelar e controlar a acção desses oficiais era evidente e está quase de certeza associado ao governo das praças durante os períodos de ausência do capitão hereditário no Reino e, portanto, da gestão de outros capitães-governadores como é o caso com o conde da Torre. Se estas situações são claras em Ceuta com os Meneses, julgo serem seguramente extensível a outros casos. Queria, por isso, chamar a atenção para a necessidade de investigar o tópico da territorialização do poder senhorial mais detalhadamente, não apenas para avaliar a importância (ou não) dos donatários, dos loco-tenentes e dos capitães e governadores na composição e mobilidade social dos grupos de poder locais, como para apurar o impacto ao nível do controlo político sobre as terras. Referi anteriormente que esta questão também pode estar dependente da própria configuração física dos senhorios, uma vez que a descontinuidade territorial podia fomentar uma administração menos presencial e, portanto, mais autónoma dos controlo directo dos senhores. O pedido que em finais da década de 1580 o conde de Sabugal formulou ao Desembargo do Paço espelhava-o e não constituía de forma alguma uma excepção. Solicitava o dito conde que fosse ouvidor de suas terras o corregedor que ficasse mais perto de seus lugares, uma vez que eles estavam muito distantes uns dos outros, em diferentes comarcas, e um só ouvidor não poderia administrar justiça em todas elas. E argumentava: “E se em cada lugar houver de fazer um ouvidor não pode achar tantos letrados em que seguramente desencarregue sua consciência”, chamando a atenção que tal pedido era em proveito evidente das partes46. Parece de facto óbvio
Braga e Paulo Drumond Braga, Ceuta Portuguesa (1415-1656), Ceuta, Instituto de Estudios Ceutíes, 1998, pp. 220-221. Diga-se, de resto, que o apêndice documental contém documentação muito interessante que lamentavelmente os autores pouco exploram no corpo da obra. 46 BA, 44-XIV-3 (n.º299), fl. 256.

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que a sindicância ao ser efectuada por um corregedor da Coroa poderia estar menos enfeudada aos interesses directos do donatário, reduzindo assim a pressão que estes podiam exercer sobre os denunciantes e as testemunhas. Igualmente relevante seria apurar o destino social dessas clientelas com a redução da territorialização do poder que vai progressivamente ocorrendo. Como se desfaziam as conexões, que efeitos sociais e políticos a nível local produziam ou se haveria algum mecanismo informal que mantivesse certo tipo de relacionamento entre essas periferias senhoriais e os donatários já transformados em cortesãos. Outra área a carecer de maior investimento de estudos são os casos em que os donatários detinham poderes jurisdicionais menos exuberantes. A hipótese que apoio é a da possibilidade de maior conflitualidade com maior autonomia. Resta confirmar.

Conclusão
Em síntese, julgo importante sublinhar que sob a aparente capa de uniformidade institucional, os municípios ocultavam uma imensa diversidade de realidades políticas e sociais. Algumas delas têm de há uns anos a esta parte vindo a ser sublinhadas pelos estudiosos. É o caso da dimensão física, do peso demográfico, da importância económica. Não se tem, todavia, atendido suficientemente aos impactos que a diversidade de tutelas quase forçosamente gerava, sobretudo do ponto de vista da história social dos poderes. Ora este tipo de abordagens permite, como espero ter demonstrado, oferecer visões bem mais complexas, dinâmicas e matizadas das realidades sociais e das práticas políticas municipais.

As Ordens Militares e o poder local: problemas e perspectivas de estudo
FERNANDA OLIVAL
(Universidade de Évora – Dept. de História /CIDEHUS)

1.
Quando, em 1551, os Mestrados das Ordens de Avis, Cristo e Santiago foram perpetuamente unidos à Coroa, a nível local ainda era relativamente fácil identificar as jurisdições destas Ordens. Se o quadro destas não está traçado, deve-se apenas à falta de investimento em estudos com esse objectivo. Restam, todavia, nos arquivos portugueses materiais que o permitem fazer de forma aproximada, nomeadamente para as Ordens de Avis e Santiago. A doação medieval das terras é um ponto de partida importante, bem como as mercês de jurisdições feitas posteriormente. O numeramento de 1527-32, as visitações, as chancelarias das Ordens, os tombos de comendas e as Memórias Paroquiais de 1758 oferecem também contributos essenciais para os séculos XVI, XVII e XVIII, que devem ser explorados de forma crítica e comparada. Desde logo um dado fundamental a ter presente é que uma comenda nem sempre implicava a jurisdição da terra. Só em poucos casos seria assim. Há até descrições de várias épocas que apontam para tantas comendas e determinadas vilas sob a tutela de uma Ordem. Assim, acontecia, por exemplo, nas Notícias de Portugal de Manuel Severim de Faria. A Ordem de Avis é referida nos seguintes moldes: “(...) ajudando a lançar fora os Árabes desde Coruche, até Alandroal, e Juromenha; em gratificação do qual [serviço] lhe deram os Reis 18 vilas, que são Cabeção, Mora, Juromenha, Alandroal, Noudar, Veiros, o Cano, Fronteira, Figueira, Cabeça de Vide, Avis, Galveias, Alter Pedroso, Seda, Albufeira, a vila de Coruche, o Concelho de Serpa1, Alcanede, e 48 Comendas, que rendem passante
1 Não

parece correcta esta referência a Serpa. Cf. sobre a jurisdição da Vila, J. M. Graça
Os Municípios no Portugal Moderno: dos forais manuelinos às reformas liberais Lisboa, Edições Colibri – CIDEHUS-UE, 2005, pp. 109-126.

incluindo Malta. 5 Cf. Lisboa. 4 Manuel Severm de Faria. a Ordem de Cristo teria recebido 21 vilas e lugares e 454 comendas. A Ordem de Malta teria em Portugal 21 vilas “e lugares” e 24 comendas4. Outros casos igualmente atípicos eram as comendas que se traduziam apenas por uma tença em dinheiro. actualização e notas de Francisco A. Claro que algumas destas povoações constituíam uma ou mais comendas das mencionadas. Lourenço Vaz. Lisboa. coord. Câmara Municipal. como era o caso da comenda espatária de Mouguelas. assente no almoxarifado da Távola Real da Vila de Setúbal6. e o Batel de Santa Ana. 1999. in Ordens Militares: guerra. Op. n. ANTT. 1550-1777”. Disc. Livro em que se contém toda a Fazenda e Real Patrimonio dos Reinos de Portugal.ª ed. elevado a cidade em 1513. em Alcácer do Sal) e outras equivalentes à renda dos tabeliães. de bens urbanos e de uma parcelas de certos dízimos. fl. Relativamente a Santiago. todavia. . poder e cultura: actas do III Encontro sobre Ordens Militares. Nalgumas localidades. Faltava. Neste caso.2. outras ao rendimento de transporte naval (Barca de Tróia.110 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS de 23 contos”2. Uma comenda era antes de mais um rendimento com tal título que permitia ao encartado na mesma designar-se comendador. 3 Seria este um número muito irreal. tinha um padrão de juro de 22. Memória historico-económica do Concelho de Serpa. pp. 250-263. 49-IV-31. 1655). ANTT. como era o caso de várias na Ordem de Cristo. 3 (decreto régio de 20 de Setembro de 1762). Disc. 1859. 179-183. 1884). nomeadamente das três comendas estabelecidas na Casa da Índia. de Isabel Cristina Fernandes. outras apenas por bens rústicos de diferente natureza ou por rústicos e urbanos. 2. Não faltavam também exemplos de comendas que aglutinavam recursos diversificados. pp.Câmara Municipal de Palmela. Imprensa Nacional. Francis A. India e Ilhas Adjacentes e outras particularidades. 407-456 e Luiz de Figueiredo Falcão. pp. § 17. com introd. que era da Ordem.cf. Colibri / Escola Sec. § 17. Conselho da Fazenda Vedoria e Repartição do Reino e Assentamento .Decretos. Serpa. como Elvas.. Severim de Faria. Dutra. Colibri . não incluindo nestas as da Mesa Mestral . Tombos de comendas. que além de bens rústicos. a Vila de Benavente. 2003 (1. Lisboa. A Ordem de Santiago em 1611 teria cerca de 85 comendas. 2 Ed. Vol. 6 Cf.ª ed. de todas. Mç. mas nenhuma detinha a tutela do concelho. I.000 réis. As situações eram.ª ed. 3. por conseguinte. havia comendas de mais do que uma Ordem Militar.º de ordem 344-345. BA. Affreixo. “Os fornos da Ordem de Santiago e seus comendadores. indicavam-se 47 vilas e lugares e 150 comendas3. Na Ordem de Santiago havia até comendas que equivaliam ao rendimento de fornos (quase todos de pão e um de olarias)5. 1993 (1. em Setúbal. 29-62. fac-similada. religião.. cit. Havia comendas compostas por apenas dízimos.

Quer nestas. Em 1532. O primeiro processo iniciou-se em 1514. quanto. quer no outro.AS ORDENS MILITARES E O PODER LOCAL: PROBLEMAS E PERSPECTIVAS DE ESTUDO 111 muito variadas. o segundo em 1517-1519. Ordem de Santiago – Convento de Palmela. quando foram criadas as “comendas novas” e quando foram instituídas as ditas “comendas da Casa de Bragança”. 3. as distâncias eram consideráveis. Manuel. Não só porque em geral os bens estavam dispersos por diferentes freguesias de um mesmo concelho. por vezes. A milícia espatária dispõe de um excelente conjunto de visitações para a primeira metade do século XVI. Em relação à Vila de Cabeço de Vide. L. quer nas de Avis da mesma época referia-se quase sempre a jurisdição do lugar. João III. Retome-se de novo a comenda de Santa Maria de Mouguelas: reunia bens no termo de Setúbal (Mouguelas). Do ponto de vista territorial. o número de comendas aumentou muito no reinado de D. pertencia sempre à Ordem. a Ordem. as comendas não abrangiam as jurisdições das terras implicadas. Quanto ao senhorio jurisdicional. Assim se mantinha na segunda metade do século XVIII. além do juro. quer num caso. Afonso (na qualidade de Bispo de Évora) e o Cabido eborense. o comendador de cada uma e por vezes o Cardeal D. Estas duas últimas figuras marcavam maior presença nas comendas de Avis. em 1538. No entanto. é possível ter uma ideia tendencialmente clara das jurisdições das Ordens de Avis e Santiago a Sul do Tejo (com excepção do Algarve). 2. Com base no numeramento demográfico mandado fazer por D. É possível observar que os rendimentos das Vilas dos dois Mestrados nas mãos de D. segundo se escrevia em 15657. indicando de quem era a jurisdição e as rendas. Jorge de Lencastre eram em geral partilhados entre a Coroa. quando pertencia à Ordem. descreveram-se 14 vilas da Ordem de Avis e 30 de Santiago. havia também comendas fortemente descontínuas. No caso da Ordem de Cristo. escrevia-se: “a Jurdição do cyvell e cryme da dita vylla he da ordem e a eleyção dos Juyzes e ofycyaes se faz pelo ouvydor do mestrado e os Juyzes ordenayros são comfyrmados pelo mestre noSo senhor a quall eleyção se faz de tres em 7 ANTT. Assim. na Ordem tomarense tal situação abarcava apenas algumas comendas que vinham da época dos Templários.º 203. . as chamadas comendas “velhas”. fl. além de terras da Ordem de Cristo e de Malta no Alentejo. pois não se situavam num só município ou zona. em Óbidos e um ramo “aprestemado na comenda dalhos Vedros que vale quorenta mill reis”.

. Ordem de Avis. As Ordens de Avis e de Santiago na Baixa Idade Média: o governo de D. Bernardo Sá-Nogueira. dos quais quem detinha a comenda ratificava 3. 13 Cf. ANTT. GESOS – Câmara Municipal de Palmela.º de ordem 163. contador. p. pp. fl.º de ordem 205.º Aniversário do Foral de Alhos Vedros. 38v-39v. Alhos Vedros. L. escrivão dos órfãos. fl. ibidem.157. Comissão organizadora das Comemorações do 480. 10 Cf.º 14. 176. com base nestes poderes. E os juizes ordenairos sam comfirmados per nós ou pello Comendador que nosso poder tem e pera ello ho povo dar em cada huum anno seis juizes eleitos e nós escolhemos delles dous ou o dito Comendador que confirmámos ou o dito Comendador comfirma e tal he o custume da dita Villa e Mestrado”.43. Estes poderes são-lhe reconhecidos por uma provisão de 1627. 45v-46v. O prior-mor podia também apresentar os restantes oficiais da Câmara que eram providos por carta da Ordem. Ana de Sousa Leal. na visitação de 1523. a confirmação dos juízes ordinários. Maria Cristina Gomes Pimenta. Eram eleitos seis. Em 1641. seria o comendador a fazer a escolha seguinte11. Palmela. L. Câmara Municipal.112 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS tres años e asy he o custume em todo mestrado”8. um lugar que numa consulta da Mesa da Consciência desse ano se considerava que “deve tocar a VMgde. n. Mesa da Consciência – Ordem de Santiago/Convento de Palmela. Fernando Pires. juiz dos órfãos. como aconteceu com o Duque de Aveiro12. Alhos Vedros nas visitações da Ordem de Santiago. 76v (visitação de 1516). 1991. Nem sempre. como as das mais villas dos mestrados das ordens melitares”. 11 No caso da comenda de Alhos Vedros. o Duque de Aveiro. Palmela. ou com o prior-mor do convento palmelense em relação à Câmara de Cabrela. a partir de 154713. relativamente à comenda de Sesimbra. p. escrivão da almotaçaria. .º Encontro sobre Ordens Militares. 65v. partidor e avaliador dos órfãos) à Ordem pertencia também ao poder do comendador10. Mesa da Consciência .33-36. n. in As Ordens Militares em Portugal: actas do 1. Seguia-se a enumeração dos oficiais postos pela Ordem e a indicação das rendas da mesma (geralmente dízimos) e o elencar das propriedades.º 18.Papéis Diversos. Mç 24. “Memórias sobre a Ordem de Santiago no tombo velho da Vila de Sesimbra: a jurisdição de Coina (1330-1363). Esta modalidade do povo apresentar seis juízes seria corrente noutras comendas de Santiago da primeira metade de Quinhentos. Mesa da Consciência – Ordem de Santiago/Convento de Palmela. 8 ANTT. doc. e a eleiçam dos juízes e ofeciaes se faz pell nosso Ouujdor ou quem nos pera jso ordenámos. ANTT. um servia na Vila de Sesimbra e os outros dois em Azeitão (um deles em Coina. fixava-se a regra: “A jurdiçam do ciuel e crime da dita Villa e seus termos he da Ordem. 9 Cf. 2002. Em 1565. fl. Jorge. sabe-se que cabia ao comendador. 1994. 12 Cf. ANTT. de acordo com uma composição feita com o Mosteiro de Santos)9. distribuidor e inquiridor. o Prior-mor ainda conseguia apresentar a própria alcaidaria-mor de Cabrela. fl. entre outros exemplos citáveis. 3 tabeliães do judicial e notas. Destes. A apresentação dos oficiais (escrivão da câmara. Só por concessão do Mestre.Ordens Militares . porém.

Pelo frequência com a qual se insistia neste ponto. Op. E dadas em suas terras os Marquezes de Villareal.) também seria escassas vezes atribuída. etc. 163. . Como. Os estatutos desta milícia. 15 Cristina Gomes Pimenta.. equivaliam às mais rendíveis dos três Mestrados. mesmo no tempo de D. resultantes dos definitórios de 1619-1620. ou. nos inícios do século XVII. escrivães da câmara e dos órfãos. Em sentido inverso. também acontecia em Santiago14. A mesma atenção mereciam os diferentes tipos de benefícios eclesiásticos que tutelava. E isto de Juro conforme a Ley mental. Seria através dele que se fazia a defesa da jurisdição da Ordem15. com a letra e rubrica de Pedro Álvares Pereira foi a seguinte e com a qual esteve de acordo o rei: “Pareçeo que se lhe de a jurisdição de ficalho de juro conforme a ley mental com a dada dos officios de escrivães da camara almotacaria E orfãos E tabaliães das notas E possa dar per suas cartas com todas as mais preminençias com que estão dadas jurisdicoes a outras pessoas tirando o privilegio de não entrar corregedor por correição na dita villa por estar junto da raya de castella E ter tam pouca povoação que se não for visitada se pode recear que se acolhão a ella mal feitores de ambos Rejnos” (AGS. Em razão do seu título nobiliárquico solicitava a jurisdição da vila. Tenha-se presente o seguinte: em 1600. Seria um dado adquirido? O que se destacava como significativo era a possibilidade de controlo mais global. o Conselho de Portugal discutia uma petição do Conde de Ficalho. o mesmo será dizer na Ordem. p.AS ORDENS MILITARES E O PODER LOCAL: PROBLEMAS E PERSPECTIVAS DE ESTUDO 113 No caso da Ordem de Avis. assi Como tem a propriedade da dita villa antes de ella o ser”. E da maneira que tem estas jurisdições. Era das Ordens ligadas à Coroa a que tinha menos comendas. seria um tópico ao qual a Ordem dava muito relevo no início de Seiscentos. E CastelRodrigo. Uma a uma inventariaram as comendas. Secretarias Provinciales. as melhores fontes que restam nos arquivos são documentos que foram produzidos pela Ordem de Avis ou que a ela pertenceram. L. a preocupação com os corregedores seria grande por parte da Coroa. E se houverem de Criar de novo na forma.o que não deixava de ser um silêncio inquietante. através do Ouvidor. recém criada pelo monarca. E pedia nos seguintes termos: “a dada dos offiçios que nella ha de haver. eventualmente a outra entidade. aliás. o normal parecia ser o Mestre dar a comenda a alguém. Quanto à jurisdição específica de cada uma das terras. cit. no entanto.º 26). 14 Cf. impressos em 1631. nada era dito . A resolução a esta consulta. indicando se a jurisdição estava incluída “no Mestrado” ou “fora dele” (ver mapa). Assim se designava se a comenda estava sujeita ao Ouvidor do Mestrado ou aos corregedores da Coroa. Relativamente ao período posterior a 1551. E outros titulos do Reino. A possibilidade do comendador apresentar outros oficiais da comenda (tabeliães. mas o senhorio jurisdicional permanecer nas suas mãos. Jorge († 1550). foram cuidadosamente preparados. n. Era este poder que havia que acautelar em 1619-20.º 1460.

206v (ano de 1753). Beja e Mourão) e no bispado de Elvas (Olivença e Santa Maria da Alcáçova de Elvas). Moura. cerca de 51% das comendas não estavam sob a tutela do Ouvidor do Mestrado. Numa junta de reforma da Ordem de Cristo que encerrou em 1589. que residia habitualmente em Avis. 1631. 17 Em cartas passadas pela Chancelaria da Ordem de Avis chegava-se mesmo a dizer que determinado magistrado serviria de ouvidor nesta zona. apenas enquanto servisse de corregedor de Santarém . XII. Yorge Royz. 13216. salvo se houvesse prévia denúncia ou querela contra o Mestre e o seu ouvidor. Nas outras terras. Nesta salientava-se que.114 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Os mesmos estatutos esclareciam que. a Ordem tomarense passava a usufruir do seguinte: – os tabeliães poderiam ser dados e confirmados por cartas do Mestre e da Ordem.cf. uma situação que se manteve ao longo do tempo17. Só havia. tít. ANTT. – nos feitos cíveis. antes de exercer. Borba. cap. Vila Viçosa. D. 16 Cf. A partir daí. Bento de Avis. 114-118v. .º 37. A anexação das Ordens à Coroa facilitou a aproximação de jurisdições e de pessoas em actividades que deviam ser diferenciadas. como era o caso de todas as comendas do bispado de Coimbra e da Guarda. Nesta altura. Serpa. sem que pudessem tais poderes ser revogados posteriormente. fl. A maioria destas equivaliam às mais distantes da sede da Ordem. Chancelaria da Ordem de Avis. mas que a pouco e pouco deixaram de o ser. Sousel. Pernes. Fernando ampliara o senhorio jurisdicional da Ordem de Cristo em todas as vilas e lugares que lhe pretenciam. entrava o corregedor com poderes de ouvidor. Regra da Cavallaria e Ordem Militar de S. de uma situada na arquidiocese de Braga e da comenda algarvia de Albufeira. Cód. mas também as havia no Arcebispado de Évora (Freiria de Évora. dos juízes ordinários apelava-se para o Mestre e para o seu ouvidor. Lisboa. Seria colocado do mesmo modo. – os corregedores não podiam actuar nas terras do Mestrado. Estremoz. jurava na Chancelaria da Ordem. Alpedriz e Rio Maior entrava em 1631 o corregedor de Santarém como Ouvidor da Ordem16. como era usual nos processos crimes. fez-se um balanço “da jurisdição secular que a Ordem tem em determinados locais”18. L.I. O ouvidor de Avis. um Ouvidor deste mestrado e assim foi ao longo do tempo. no caso de Alcanede. em 1373. portanto. 18 BN. Quanto ao mais. mas deixava de se poder apelar desta instância para o rei. fl. exercia o cargo durante três anos e em nada se diferenciava de outros magistrados da carreira de Letras da Coroa.

256-257 (com um erro de data). 3. pela escassa documentação camarária de Tomar disponível. na sequência de um pedido feito pela Vila de Tomar. sobre estes procedimentos.AS ORDENS MILITARES E O PODER LOCAL: PROBLEMAS E PERSPECTIVAS DE ESTUDO 115 Apontava-se. Mais tarde. com cabeça em Castelo Branco. porém. tinham sido mantidas até 1532. Na Chancelaria da Ordem não foi emitido qualquer 19 Alberto de Sousa Amorim Rosa. cit. como governador da Ordem de Cristo. protestava-se contra a perda destes poderes e contra a confusa e indistinta jurisdição da Coroa e das Ordens..) irão a quem directamente pertencerem”19. Vol. Dizia-se que o corregedor de Tomar e o de Castelo Branco serviam também. Nessa altura. 358 (1679). criando-se uma nova. Anais do Município de Tomar. D. e freires da Ordem de Nosso Senhor Iesu Christo com a Historia da Origem e principio della. na sequência do Capítulo Geral de 1619. que o Ouvidor teria um papel meramente secundário. porém. circunscrevia as apelações que o Ouvidor podia receber às “que couberem em sua Alçada sòmente. Alberto de Sousa Amorim Rosa. cuja intenção não he que se tomem á Ordem suas terras legitimamente adquiridas por serviços”. 20 . & com cargo da cõciencia de sua Magestade. limitaram-se os poderes do respectivo ouvidor do Mestrado. Em períodos posteriores. Tomar. Ioam da Costa.ª ed. O cargo de Ouvidor do Mestrado era. casos de duas cartas para a mesma pessoa21. os magistrados já só obtinham uma única carta de corregedores. Deviam tirar duas cartas separadas no Desembargo do Paço: uma de corregedor. Salientava-se que eram doações remuneratórias e como tal não podiam ser retiradas ao património da Ordem – Definicoens e Estatutos dos cavalleiros. e simultaneamente. X.VII. emitida em nome de Sua Majestade como rei. 1628). Nada se sabe sobre as eleições concelhias nas terras da Ordem de Cristo depois de 1551. Lisboa. tít. e as outras que não couberem (. Como se afirmava na citada junta. em comparação com o Corregedor. pp. em 1589. IV. Por isso. onde se afirmava textualmente que a Ordem fora “esbulhada de suas jurisdições cõtra direito. todavia.. 1671(1. 364 (1682). nas Cortes de Almeirim de 1544. Vol. 21 Cf. com maiores ou menores dificuldades. Cf. Mesa da Consciência. 291 (1658). Nota-se. João III. de ouvidores do Mestrado.º 302. pp. 1971. em 1589. passada pelo monarca na qualidade de Governador da Ordem e feita por um escrivão da Mesa da Consciência20. que estas jurisdições. exercido apenas enquanto o magistrado servisse de Corregedor da Comarca de Tomar. Câmara Municipal de Tomar. outra como ouvidor. conhecem-se.III. L. Pte. fl. ANTT. a ouvidoria de Tomar foi dividida em duas. 108v. Tal queixume passou para os Definitório impressos. Op..

Mértola. em bom rigor não se sabe verdadeiramente quais eram os ofícios referidos. puchando sempre os Ministros de El Rey para excluirem de tudo a Ordem (. Sobre este processo são muito esclarecedoras as palavras do Prior da Igreja Matriz de Mértola quando respondia. de Joaquim Ferreira Boiça e M. L. por deixados. [D.59-60. Em forma que. então enviado aos párocos. fl.. à segunda pergunta do interrogatório. 257v. ao delegar poderes no comendador.. D. como he o Juiz dos Orphaons. quando foi redigida a primeira versão dos definitórios impressos como estatutos da Ordem 22 ANTT. os rios: as memórias paroquiais de Mértola do ano de 1758. as serras. como a tiveram o seu progenitor e o seu avó. Afonso de Lencastre. pp. com a separação do que hera Coroa. O reparo feito é muito claro a este propósito. É provável que não incluísse os elementos da câmara propriamente dita. . E nestes termos he esta villa da Ordem de S. não é de afastar a hipótese de muitas jurisdições terem sido assimiladas pela Coroa. muitos estam confundidos.Tiago.L. mas ainda alguns officios. em 1758. mas em parte está da Coroa”23. a ingerência do Desembargo do Paço seria clara já no século XVII.º 22. receava-se o efeito dos processos poderem eventualmente cair no alçada do foro privativo dos membros das Ordens Militares. Aliás.lit. através do Desembargo do Paço. e outros mais sam providos pella secretaria do Mestrado da dita Ordem. Sobre esta atribuição impõem-se dois comentários. Tal documento. nos seguintes moldes “e assim se conservou em sua posse a dita Ordem com todos os seos actos e provimento de justiça athé que encorporadas as ordens na Coroa lentamente se foram descahindo os exercicios da dita posse. Campo Arqueológico.ª de Fátima Rombouts de Barros. A única excepção até agora identificada reporta-se a um alvará.1995]. A julgar pelas aparências. Por aquele diploma era-lhe feita mercê vitalícia da confirmação dos ofícios das vilas da Ega e Dornes. como ninguem cuidava de os inteirar. terras. o Juiz dos Direitos Riaes.). Seria um dos problemas nos concelhos dependentes destes institutos. Por outro lado. com a consequente perda de competências dos tribunais régios. Apontava que a jurisdição de Mértola era da ordem de Santiago. de 1623.116 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS diploma a confirmar oficiais camarários eleitos ou não eleitos. passado em nome do comendador-mor da Ordem. porém. na Ordem de Santiago. Por um lado. ed. que o antecederam na dignidade. talvez por volta de 1620. encerrava com uma valiosa ressalva: “cõ declaracao que não UZará Nunca de Conservatorias Nem Cemsuras E Sendo lhe necessario algum Requerimento o fara nos tribunais Seculares”22. 23 As Chancelaria da Ordem de Cristo.

Pretendia o contador do mestrado25 confirmar as eleições das já apontadas comendas da Ega e de Dornes. estatutos. Nestes fez-se registar o seguinte: “Os Mestres tiverão sempre o poder. “vagas” por morte do Infante D. 319v. dos dittos officios como as eleyções dos Officiaes das Cameras. 300. que estão fòra do Mestrado. De acordo com a mesma opinião. Francisco. não possão elles entrar sem provisão do Mestre. e em sua falta ao contador do Mestrado. que ao menos pusesse em substituição destes um juiz de fora letrado com o mesmo estatuto. LXXVI. conforme a provisão que para isso hà. Desembargo do Paço. & provião os Ouvidores. No que respeita às eleições camarárias das terras do Mestrado da Ordem de Cristo. & todos os mais Officiaes de Justiça tocantes à sua jurisdicção. vão à Mesa das Ordens. & jurisdicção nas terras do Mestrado. & disto se naõ guardar se tem seguido perda à Ordem. L. Num livro de notas de Lázaro Leitão Aranha registou-se: “O provimento dos Officiães da Vila da Ega. Tabeliões dos Officiaes. & ordenamos que se peça a vossa Majestade mande que assi os provimentos. como Governador perpétuo da Ordem. por do contrario se seguir alienação da jurisdicção da Ordem”24.AS ORDENS MILITARES E O PODER LOCAL: PROBLEMAS E PERSPECTIVAS DE ESTUDO 117 de Santiago. Enqueredores. tal facto não era era con- 24 Regra. & aggravos das terras do Mestrado. & confusão na jurisdicção. 26 ANTT. & datas.º 302. 1694. Pedro usasse de tais poderes nestas comendas.de Cujas doacoens Se expedem pello Desembargo do Paço”26. 9 de Novembro 1624 e fl. L. que costumaõ vir ao Desembargo do Paço. 86” – ANTT. fl. Juizes de fòra. embora D. 25 O facto de se tratar da comenda-mor terá de longa data correspondido a uma situação especial. . tivesse permitido que o seu irmão D. & apure as outras como faz. Mesa da Consciência. Lisboa. & assim os pilouros das eleyções dos Officiaes das Cameras se apuravaõ. datada de 1744. Para solucionar o caso foi consultado o desembargador que servia de Procurador da Coroa. que nenhuma peSsoa nem ordem pode Competir. & conheça das novas acções. & se goarda por costume immemorial. chegou-se a propor que se a Ordem não nomeasse os juízes ordinários das terras do Mestrado. definição e reformação da Ordem e Cavalaria de Santiago de Espada. & o Ouvidor confirme. & confirmavaõ por elles. porque os faça seus Ouvidores. No parecer deste indicava-se que “o Comfiar as doaçõens das Camaras hé Regalia da Coroa. e de Dornes tocão ao Comendador môr. vale a pena ponderar uma consulta do Desembargo do Paço sobre o assunto. em 1742. fl. Sem expresa doação de Vmag. No definitório em causa. & dentro das comarcas dos Corregedores.º 69. & que nas terras da Ordem. pelo que diffinimos. Afonso VI. Def. Miguel Manescal. consultas. Contadores.

º 1. na Estremadura29. A partir de 1681 há pedidos regulares dos eleitos anualmente para este município30. Nos anos de 1760 ainda se fazia o mesmo e é de crer que se continuou a fazer31. mas. 32 Cf. mas não a confirmação dos eleitos: era competência. 108v. passim. 31 Cf. Pedro não fora feita oposição a este poder. L. O mesmo parecia acontecer com os Setúbal e Messejana. Segundo historiava o procurador da Coroa. 23v. que se admitia pudesse ser delegado. Francisco. como se chegou a classificar no discurso da época. o Desembargo do Paço apropriou-se da regalia. L. ANTT. 32-32v. . 28 Cf. 148v. 472. como os de Seixo do Ervedal e da comenda do Casal. Logo após a anexação. distinguia-se claramente entre o poder de fazer as eleições. 255.118 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS siderado grande argumento. noutros locais. marcavam presença neste registo. 30 Cf.º 17. as referidas são as únicas que aparecem a fazer confirmações das câmaras na Chancelaria da Ordem de Avis. mas apenas por isso. A situação na Ordem de Avis parece ser um pouco diferente. fl. A Câmara de Alcanede e lugar de Pernes tinham idêntico comportamento. L. Mesa da Consciência. os que saíam para os lugares de juiz. poder. Havia. Nesta mesma consulta. fl. 305-305v. confirmação de 1552. ambas situadas nas Beiras28. E este era considerado o ponto crucial. o diploma com a anuência do 27 Cf. Será que. em ANTT. Ibidem. Ibidem. Nos séculos XVII e XVIII. Desde logo. inclusive. L. 244v. 29 Cf. 20.300v. do monarca. Até 1620 é fácil atestar a confirmação para a Câmara de Alpedriz. 19v. Nestas casos. vereadores e procurador tratavam de ratificar na Mesa da Consciência tal facto. Ibidem. Chancelaria da Ordem de Avis. Aberto o pelouro. 236v. em 1552-1553. o ouvidor de Avis não acumulava funções. seria o facto de disporem de um “verdadeiro ouvidor” que dispensava tal atitude? É uma pergunta para a qual não temos resposta. L. fl.º 11. Estes seriam os “verdadeiros ouvidores do Mestrado”. fl. Ibidem.º 302. Do mesmo poder dispôs o comendador seguinte: o Infante D. a Ordem confirmava as câmaras de diversas terras. como se comprova pelo registo das cartas na respectiva Chancelaria. pela proeminência do Infante D. mesmo para o cargo de vereador32.º 39. fl. Mesmo municípios afastados do centro nevrálgico da Ordem. na Ordem de Santiago27. fl. quando morreu. eleitos em Alcanede e Alpedriz que pediam nas décadas de 50 e 60 do século XVIII para serem dispensados de servir.

35 Excepto em 1681. no século XVII. L. 305. 255. Pelo que mando aos officiaes da Camera do dito Lugar. ANTT. também. e a quem mais tocar lhe cumprão e guardem esta Provisam Sendo paSsada pela Chancelaria da mesma Ordem”33. L. assim. Pondo de lado estes casos. A última das quais teria ocorrido em 20 de Março de 1680.AS ORDENS MILITARES E O PODER LOCAL: PROBLEMAS E PERSPECTIVAS DE ESTUDO 119 monarca. 36 ANTT. . fl. 34 Cf. O que parecia estar em jogo em Alpedriz. escrevia-se: “Achou o dito Juis do tombo que a Jurdicam da Justiça do crime E civel E governo da terra he do comemdador que he agora o comde de linhares E a teve tambem o duque daveiro Seu amtecesor porque esta comemda E terras dellas foram da igreiJa E da ordem de cystel E amtiguamente Sohya Ser E amtes delRey dom denis quãdo Eram de castella E vieram a Este Reino de portugal por virtude de hua demarquaçam”36. Alegava-se. fl. a confirmação dos eleitos para as câmaras pelo Governador perpétuo da Ordem seria um assunto por diversas vezes discutido e julgado favoravelmente no Juízo da Conservatória das Ordens Militares.º 12. Até que ponto a proximidade da fronteira e o facto de ter sido comenda do Duque de Aveiro também não terão contribuído para essa manutenção? Não se sabe. L. Tombos de Comendas. indicava que se devia mandar fazer nova eleição. na figura de Mestre. 157. uma observação que todas as cartas de confirmação de Alpedriz e Alcanede referiam a partir dos anos 80 do século XVII35. fl. 202v. fl.º 373. é bem possível que muitas das comendas que implicavam a tutela das vilas tivessem pautas confirmadas pelo Desembargo do Paço. feito em 1607. Ibidem. Como se perdeu a documentação do citado Juízo. No século XVII. fl. não é possível esclarecer o problema. L. 427. Também em Noudar. 33 Ibidem. até quando se prolongou no tempo esta particularidade. privilégios que isentavam a Vila da jurisdição régia34. eram problemas com os corregedores e outras autoridades de Leiria. com os seguintes reparos: “cuja nova eleição virá a confirmar ao meu Tribunal da Mesa da Consciencia e Ordens. O reforço da ligação ao Mestrado seria um hipotético ponto de fuga.º 8. com os privilégios daí decorrentes. Mesa da Consciência. e Sem iSso não terá effeito. Alegava-se assim com a origem das terras para justificar a situação jurisdicional. no tombo da comenda.º 17.

E provisão dos offiçios do Mestrado de Christo porque alem de ser isto cousa muy grande E que não he justo tirarsse da Coroa estando Ja nella. E tendo dissistido della cõ a dita satisfação que ora logra o Comde. fl. e as justificações dadas são esclarecedoras. Sobre o que se terá passado na Ordem sedeada em Tomar. sabe-se um pouco mais. nos seguintes termos: “E também pareçe que não ha que diffirir a dada. sem que o Conde alcançasse o seu intento inicial. porém. E por sua morte para seu filho mais velho os quaes elle açeitou. a dúvida se estes documentos se reportavam aos postos das comendas da Mesa Mestral e não aos das restantes comendas. Vedor da Fazenda e partidário de Filipe II.. pois se conçedeo a seu pay cõ declaração que a averia Em sua vida somente”39. Não sabemos se o exemplo teria sido efectivamente imitado. Estas negociações ainda duraram mais três anos. teria solicitado à Coroa. E pay a dita dada senão como Chançareis da dita ordem. Parte 1. não pareçe que o Comde tem a isso aução porque sendo esta dada do Comde seu pay como ChançareL do dito mestrado dessistio delle cõ declaração que lhe ficasse em hua vida a dada dos ditos officios E se lhe derão em satisfação disso cõ çem mil réis de tença en sua vida. 4v..120 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS 4. E por sua morte os ouve o dito Comde. fl. entre outras mercês. entre 1588 e 1591.º Conde de Linhares († 1608). pois gastara muito na Jornada de Alcácer-Quibir. A Coroa ao longo dos anos apontados reagiu-se sempre mal a este tipo de aspiração. Mde. 38 Ibidem.ª. Nessa altura estaria ele em necessidades. Primeiro. pois a palavra “Mestrado” raramente era 37 ANTT. numa carta régia de Junho de 1588 dizia-se que era “cousa muy grande (. Resta. 4. No que respeita aos restantes ofícios das terras da ordem de Cristo e Avis. E de que sabe dom christovão [de Moura]”37.) que por ser de Jurdição foi sempre de tanta consideração neste Reino que sou informado que a Rainha que Deus tem largou á das suas terras a ElRej pera cõ isso se moverem pessoas particulares a fazer o mesmo”38. “a dada E provimento dos offiçios dos lugares do mestrado de Christo que foi de seu pay aVoos E visavoo que os governadores que forão destes Reinos lhe derão Em Setuvel ~a Certidão do Comde de Matosinhos que deu como diZ que consta de hu Em Elvas a V. é importante atender à pretensões do 3. Corpo Cronológico. não pareçe que ha aução para a pretender. E se lhe passou padrão delles pello que não tendo os Comdes seu avoo.5. . 112. 84. 39 Ibidem.. Mç. Passado um mês nova carta régia insistia na negativa. fl. doc.

ANTT. tinha perdido terreno. Não se sabe desde quando. todavia. O cargo invocado tinha. Em termos globais. A Mesa da Consciência. por exemplo. com o facto de Dinis de Melo e Castro (162440 Cf. L. que também consultava sobre a atribuição do ofício. as atribuições mais exorbitantes que se conhecem são as da comenda das Galveias (Ordem de Avis). Nestes casos. Embora o provimento dos oficiais das terras das Ordens pertencesse à Mesa da Consciência. Justificou-se a atribuição do senhorio das Galveias. porque fora provido um cristão-novo no lugar de juiz dos órfãos da Vila de Albufeira e o monarca terá pedido contas do sucedido. . Averiguar a qualidade do sangue era uma das responsabilidades do Desembargo do Paço. num caso ou noutro. Assim se fez. e a de Fronteira na década seguinte. fl. como actualmente se tende a fazer. fl. Assim ocorria na data invocada. Em 1690. onde pagava os direitos. As cartas de provimento emitiam-se. apenas significado económico. quem decidira o provimento fora o Desembargo do Paço. poder. as cartas de ofícios continuavam a ser emitidas pela Chancelaria da Ordem. apesar da carta figurar na Chancelaria e ser redigida pelo escrivão da Ordem. 41 Cf. 320. Deste modo. em 1664. mas os procedimentos só revelam o quanto as aparênciam por vezes iludem. No caso da Ordem de Avis. E provavelmente na manutenção de alguns formalismos teriam contado muito os ajustes quanto aos emolumentos e imposições afins. Cabia a este examinar o provido apenas na suficiência de ler. O diploma passava depois pela Chancelaria da Ordem. ter-se-ia concedido a apresentação ou a data dos ofícios a uma ou outra personagem.º 302. cerca de 1731. esclareceu-se a tramitação processual. apesar de ser terra de uma Ordem Militar. Ibidem. pelo escrivão da Câmara e Secretaria de Avis na Mesa da Consciência e assinava-as o Chanceler da Ordem. e com ela as Ordens Militares.AS ORDENS MILITARES E O PODER LOCAL: PROBLEMAS E PERSPECTIVAS DE ESTUDO 121 usada como sinónimo de “Ordem Militar”. Mesa da Consciência. Recebera também uma mercê idêntica para as “suas terras” que constituíam bens da Coroa. com a Marquesa de Arronches. como se comprova pela situação invocada Em qualquer das três Ordens Militares. ultrapassou-se largamente a questão da apresentação dos oficiais. em nome do rei como administrador do Mestrado. Sua Majestade mandara que o passasse a fazer o Desembargo do Paço. escrever e capacidades. todavia. que podia nomear almoxarife nas suas comendas enquanto as administrasse41.111-112. não prejudicando esta instituição40.

48 Segundo as Monstruosidades do tempo e da fortuna . Mas sômente huma merce Em Vida.). 46 Cf. primeyro Conde das Galveas. Eduardo Brazão (apresentação e ed. Chancelaria da Ordem de Avis. pagara Dez Cruzados Cada anno por Reconhecimento. Ver também ANTT. com as prerrogativas que habitualmente podiam dispor os donatários da Coroa. ainda o facto do II Conde das Galveias nomear as justiças da Vila causava problemas ao Ouvidor que as pretendia explusar dos lugares45. Na carta citada. Em 1736. pp. . 44 Cf.diario de factos mais interessantes que succederam no Reino de 1662 a 1680. 1940. Rezervando o Dominio direito â mesma ordem. ed.º 302. a qual se Entende. até hoje attribuido infundadamente ao benedictino Fr. L. 345. fl. Pedro II e D. fl. em Alcácer do Sal. para que não fosse prejudicada47. Porto. do Conselho de Estado e Guerra dos Serenissimos Reys D. 1721).º 168. para que tenha sômente o Dominio Util.179-180. que em 1691 se tornaria no I Conde das Galveias. Dinis de Melo e Castro ficava logo autorizado a impetrar diploma papal a corroborar a mercê. em 1670.122 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS -1709)42. 1888. Lisboa. Typ. 45 ANTT. ser capaz de a defender e fortificar no contexto da guerra que se vivia. então General da Cavalaria do Exército do Alentejo.374v-375. O facto na época suscitou eco e mal estar. esclarecia-se que a jurisdição delegada era a ordinária..segundo um manuscrito da Biblioteca da Ajuda. para melhor Conservação da dita Sua Villa”43. A Mesa conseguiu demover Filipe III de Portugal deste intento46. 47 Cf. fl. Já antes disso. Apesar dos protestos iniciais da população que não queria passar para a tutela de um particular48. Tombos de Comendas. fl. Ficava com “sua Jurisdição. s.ª ed. que equivalia a uma quinta sua. 122. 43 ANTT. L. nem a ameaça do uso da força fora suficiente para demover a população. fac-similada da de 1744. a Cuja meza mestral. Cabia também ao agraciado apresentar os ofícios. João V. António Mascarenhas o título de Conde de Palma. pelos anos de 1620. L. Mesa da Consciência. cujas cartas seriam passadas pela Mesa da Consciência. fl. n. Chancelaria da Ordem de Avis. terra espatária. Afonso VI . 1995 (1. a doação foi sucessivamente reno42 Sobre este General. No caso da doação de Fronteira ao Marquês do mesmo título. Manuscritos da Livraria.142v. L.n.128-129). sôbre o seu reinado. D.Alexandre da Paixão (Lisboa.Ed. que ficara sendo Em utilidade da Ordem. se tentara dar a D. pp. pois alienavam-se bens de teor eclesiástico44.º 245. Livraria Civilização.º 16. E datas de officios tudo Em sua vida. Historia panegyrica da vida de Dinis de Mello de Castro. da viuva Sousa Neves . ANTT. 62. Com declaração Expressa que por isto senão Entenda fazerselho prazo Em que tenha Lugar Renovação. excepto os das sisas e os de provimento da Câmara..º 15. ver Julio de Mello de Castro. esclarecia-se perfeitamente que se incluía a data de todos os ofícios.

fl. ainda se temia a raiz eclesiástica destes institutos e o seu foro privativo. mas não obstante tal facto. tendo em vista apurar o significado real do exercício de poderes deste teor a nível local. os ouvidores eram encarados na época como ministros essenciais na defesa da património de jurisdições locais das Ordens Militares.º 27. “verdadeiros” ou não. No começo de Seiscentos. 301. que analisar as possíveis especificidades envolverá equacionar outras áreas. muito por esclarecer neste âmbito. quando os comendadores e os senhores eram absentistas nas suas terras. importa aprofundar o problema da actuação concreta dos ouvidores. O rei era o Mestre. Não será também descabido comparar os poderes exercidos nestes municípios e nos senhoriais (no sentido dos administrados por donatários laicos ou religiosos). não houve verdadeira incorporação. Resta. a anexação das Ordens à Monarquia facilitou que se confundissem as jurisdições locais das Ordens com as Coroa. Em que medida constituiriam excepções? A Ordem de Santiago era aquela que dispunha de maior número de terras com jurisdição. Os casos de Alpedriz e Alcanede merecem ser retomados. fl. Por parte dos seus membros. Fazer passar muitos poderes para as mãos dos comendadores era uma prática que suscitava receio ao centro político. em 1727-1730. sobretudo nos século XVII e XVIII. Ou terá ocorrido apenas onde não havia “verdadeiro ouvidor”? Será fundamental analisar a documentação local das terras das Ordens e a efectiva composição das várias câmaras. se bem que em muitos casos quem tomara a decisão fora o Desembargo do Paço e não nenhuma instâncias dos três Mestrados. Chancelaria da Ordem de Avis. pois o poder local – designadamente no caso das Ordens Militares – não se circunscre- 49 Cf. 92. pois nem todas seriam iguais. A Ordem de Avis. o comendador. No entanto. Em síntese. ANTT. . a emissão dos diplomas procurava assinalar a marca das Ordens Militares. L.º 28. porém. L. Desde logo. com poderes delegados.AS ORDENS MILITARES E O PODER LOCAL: PROBLEMAS E PERSPECTIVAS DE ESTUDO 123 vada na mesma família. alguns municípios das Ordens Militares caracterizar-se-iam por apresentarem um duplo e hierárquico senhorio jurisdicional: o Mestre e abaixo dele. todavia. ainda confirmava alguns ofícios nomeados pelo donatário49. Quanto mais não fosse. nomeadamente a religiosa e o direito de visitar igrejas e comendas. antes da tutela perpétua da Coroa sobre os três Mestrados. Seriam os municípios das Ordens diferentes? Note-se. Valerá a pena saber se o sucedido em Mértola teve paralelo em todas as vilas espatárias.

. problemas que só a documentação local pode ajudar a aclarar. mesmo sem abarcar a jurisdição da vila. constituíam bons exemplos. 1988. formadas essencialmente por dízimos. apenas nos bons anos agrícolas. 50 Sobre estas questões. Algumas comendas espatárias do Algarve. estavam autorizados a vender fora das terras de origem dois terços da receita50. Estampa. 246-247. apesar do absentismo típico dos comendadores a partir do século XVI.124 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS via apenas ao direito de confirmar as câmaras e os restantes oficiais concelhios. eram palco de conflitos porque a população e as câmaras impediam a saída dos cereais. Por fim. vide Joaquim Romero Magalhães. O Algarve Económico: 1600-1773. convém pensar que a presença de uma comenda numa dada localidade. Na realidade podia não ser um elemento inócuo. podia matizar a vivência local. Em anos de escassez frumentária. No século XVIII. obrigando os comendadores a vendê-los na zona. Enfim. pp. Lisboa.

AS ORDENS MILITARES E O PODER LOCAL: PROBLEMAS E PERSPECTIVAS DE ESTUDO 125 Anexos Vilas onde a Ordem de Avis teria seguramente a jurisdição. em meados do século XVI Vila Alandroal Albufeira Alcanede Alpedriz Alter Pedroso Avis Benavente Cabeço de Vide Cano Casal Coruche Figueira Fronteira Galveias Juromenha Mora Noudar Seda Seixo do Ervedal Vieiros Observações Mesa Mestral em 1532 Mesa Mestral Mesa Mestral Mesa Mestral em 1532 Elevada a Vila em 1538 .

XII. Lisboa. tít. 1619-1631 FONTE: Regra da Cavallaria e Ordem Militar de S. Yorge Royz.126 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Comendas da Ordem de Avis C. Bento de Avis. .I. cap. 1631.

a que esteve a cargo da sociedade civil. como bem se sabe – sobretudo devido ao quase desconhecimento das reais dimensões do papel que a Igreja desempenhou neste sector1 –. realizado na Universidade de Évora em Junho de 2003. pp. desde cedo. de História /CIDEHUS) Apesar de a recente historiografia sobre caridade e assistência se mostrar empenhada na reabilitação das formas de apoio e inter-ajuda ditas informais. as de âmbito local. São precisamente estas duas instituições que constituem o objecto principal deste texto. que não é nossa intenção ava* Investigação realizada no âmbito do projecto POCTI/1999/HAR/33560: O papel das Misericórdias na sociedade portuguesa de Antigo Regime: o caso da Misericórdia de Évora. Muito especificamente. No contexto português. 127-138. Os Municípios no Portugal Moderno: dos forais manuelinos às reformas liberais Lisboa. este pressuposto que esteve na origem do Colóquio Ibérico. Laurinda Abreu (ed. Cabidos e Assistência na Península Ibérica (Séculos XVI-XVIII). Bispos. 2004. caridade e assistência na Península Ibérica (sécs. Edições Colibri e CIDHEUS-UE. Esclareça-se. aliás. que os poderes se apressaram a gerir mais de acordo com os seus próprios interesses do que com as necessidades dos pobres. XVI-XVIII). 1 Foi.). as atenções centram-se. de que resultou o livro Igreja. É aliás por esta razão que a análise das políticas assistenciais e de saúde pública requer o estudo prévio das estruturas do poder e das relações sociais estabelecidas entre as diferentes organizações que o detinham. é ainda a assistência institucionalizada aquela que melhor se conhece e sobre a qual se possui informações mais consistentes. Uma particularidade a que não será alheio o facto de. 2005. Relações políticas e institucionais* LAURINDA ABREU (Universidade de Évora – Dept. contudo. nas Misericórdias e nas Câmaras.Câmaras e Misericórdias. Lisboa. já que se sabe que foi no seio das comunidades que se encontrou a maioria das respostas aos sucessivos problemas criados pela transformação da economia e da sociedade que o Ocidente viveu ao longo do período moderno. Edições Colibri – CIDEHUS-UE. . as atitudes e os discursos relativos à pobreza e à miséria terem transformado estas questões num fenómeno político. Nomeadamente.

Slack. Um trabalho que desenvolveremos a partir da identificação das linhas que orientaram a reforma da assistência iniciada em Portugal nos finais do século XV e dos objectivos políticos da actuação régia. vejam-se os trabalhos de P. A Piedade e a Forca . Foram as cidades.. dos incontroláveis fluxos migratórios. 1988. London. destaquem-se a de Bronislaw Geremek. de saúde pública que as cidades enfrentaram – estas a cargo das autoridades locais. e reforçaram o controlo da mendicidade. consequentemente.128 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS liar os fundamentos jurídicos das relações desenvolvidas entre as Santas Casas e os municípios.História da Miséria e da Caridade na Europa. Cambridge. Poverty and Deviance in Early Modern Europe. 2 Das imensas obras que abordam esta questão. Expansão urbana e reorganização da caridade: as linhas de intervenção da Coroa portuguesa A partir da segunda metade do século XV o Ocidente viveu. condicionou. Especificamente para a realidade inglesa. e nalguns casos controlou. nalguns casos. Lisboa. diversificaram a oferta em termos de institutos assistenciais apostando na sua especialização. de facto. um longo período de profundas mudanças que não deixaram incólume nenhum grupo social. da mendicidade. 1996. o carácter meramente introdutório de todas as considerações realizadas. como é do conhecimento geral. a forma como o sistema evoluiu. A. para. tornando mais violenta a legislação que. pela oposição que as caracteriza. finalmente. questionar as consequências sociais de tais decisões. as tendências políticas – claramente centralizadoras – e a procura de soluções para os problemas sociais decorrentes das novas situações de pobreza. Basicamente o que nos interessa é identificar as principais competências das duas entidades no que respeita à saúde e ao bem-estar das populações – num tempo em que estes serviços eram organizados localmente mas não municipalizados –. e. 1995 e a de Robert Jütte. em termos muito directos. Poverty and Policy in Tudor and Stuart England. todavia. sobretudo. acabou por a interditar2. estrutura política ou sector económico. assumidas aqui como mero ponto de partida para uma investigação de maior envergadura. nem mesmo caracterizar os mecanismos político-institucionais que sustentaram a interdependência entre ambos e fortaleceram a sua capacidade de intervenção nas respectivas comunidades. experimentaram novas formas de assistência e novas políticas sanitárias. dentro das limitações existentes. Refira-se. as implicações decorrentes de um modo de actuação cujas directrizes emanavam da Coroa que. De entre as transformações registadas merecem destaque. que. de forma mais ou menos organizada. . avaliando. 2nd ed.

tratou-se de uma reorganização das estruturas assistenciais e das suas competências de âmbito social alargado. . História. Laurinda Abreu. Não nos princípios ideológicos ou nos objectivos programáticos mas sim na forma como foi conduzido. Manuel I no início do seu reinado. procurando dotar o país de uma rede de confrarias especialmente vocacionadas para o apoio aos presos e aos pobres. “A especificidade do sistema de assistência pública português: linhas estruturantes”. distinção que os visados respeitavam muito particularmente quando as suas atitudes tinham repercussões económicas. Assim aconteceu com a reforma geral dos hospitais ordenada por D. pp. ainda. que eram agora chamadas a associar-se a um projecto novo. 2002. VI.CÂMARAS E MISERICÓRDIAS: RELAÇÕES POLÍTICAS E INSTITUCIONAIS 129 Sendo esta uma forma de actuação comum à maioria dos Estados Europeus. que pela primeira vez viam reconhecido na lei (Ordenações Manuelinas) o seu direito à protecção3. com a assistência às crianças desprotegidas. com a fundação das Misericórdias – que o rei incentivou também em 1499. Com esse objectivo a monarquia convocou «os melhores das terras». Das linhas mestras da intervenção manuelina nos mecanismos de caridade e assistência apenas se alteraria a que conduziu a reorganização hos- 3 Cf. Um elemento que seria matricial no processo a que agora se dava início era a não articulação entre as diferentes instituições detentoras de responsabilidades assistenciais e de saúde pública. as elites já representados nas Câmaras Municipais. o processo teve em Portugal características próprias que o individualizaram dos restantes modelos. Como temos vindo a defender já há algum tempo. que tinha a particularidade de ser centralizada e orientada a partir da Coroa. mas também com atribuições ao nível da repressão da mendicidade (diploma de 8 de Julho de 1503) –. ao mesmo tempo que pretendia mobilizar os poderes locais para a sua execução. ainda que marcada pelos particularismos locais. 420-421. Arquipélago. 2ª série. o das Misericórdias. e. O mesmo é dizer. confrarias que nasciam com uma renovada dinâmica de intervenção social. que esteve na origem de vários Hospitais Gerais – uma reforma que foi precedida de inquéritos (1499 e 1501) que avaliaram o estado do património dos hospitais e demais institutos pios e aferiram do cumprimento da vontade dos seus instituidores –. as suas incumbências institucionais eram diferentes conforme o lugar que ocupavam. uma vez que aqui as políticas “modernas” de assistência aos pobres emanaram da Coroa e tiveram uma dimensão nacional. ainda que os responsáveis pelas Misericórdias e pelas Câmaras pudessem ser os mesmos – frequentemente em sistema de rotatividade entre as duas instituições –. Ponta Delgada.

Consequências da intervenção da Coroa nos mecanismos assistenciais Em termos de resultados sociais a avaliação da eficácia da actuação da monarquia portuguesa nas matérias referidas apresenta indicadores diferenciados consoante o ângulo de análise adoptado. 30-31. a que se seguiu a transferência. Poverty and welfare in Habsburgo Spain. . 1990. pp. Almansor – Revista de Cultura. Jorge Fonseca a indicação deste documento). 1990. numa orientação que de resto o próprio inflectiu acabando por reconhecer estas confrarias com vocação específica para a gestão dos hospitais4 – e a relativa ao combate à mendicidade e vagabundagem. dos hospitais para a sua administração6. Cambridge University Press. in Ole Peter Grell. London and New York. Manuel mais marcaram o rumo da assistência portuguesa no século XVI – o Cardeal D. Andrew Cunningham and Jon Arrizabalaga. competência que a Coroa já tinha recuperado no reinado de D. Tendência que depois seria continuada pelo monarca espanhol que reforçou em Portugal as condições de intervenção da Coroa nos diversos ramos da assistência institucionalizada enquanto lançava em Castela o processo de centralização hospitalar7. pp. “ Poor relief in Counter-Reformation Castille: An overview”. Setúbal. Lisboa. 7 Cf. pp. 1983. 1999. 2003. por exemplo. Henrique que o direito nacional incorporou o privilégio das Misericórdias como confrarias de tutela régia5. que foi durante a regência de D. “Misericórdias: patrimonialização e controle régio (séculos XVI e XVII)”. Se este for estrita4 Conforme se pode concluir da leitura do alvará de 6 de Janeiro de 1518 pelo qual o rei retirou à confraria do Espírito Santo de Montemor-o-Novo o hospital que ela administrava entregando-o à Misericórdia com justificação de que a Santa Casa era a instituição melhor vocacionada para a administração do referido hospital . 151-176. Laurinda Abreu. Santa Casa da Misericórdia de Setúbal. Cf. João III. 6 Conforme chamámos pela primeira vez a atenção no nosso trabalho. 5-24. quando se intensificou a promulgação de diplomas que as submetem a rigorosa regulamentação.º 44. pp. sistemática e continuada. 110-111. Ler História. (ed. na Europa católica. n. Cambridge. n. (Agradecemos ao Dr.) Health Care and Poor Relief in Counter-Reformation Europe. E também Jon Arrizabalaga. Linda Martz. pp.º 8. 5 Cf.130 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS pitalar – que D. Os dois governantes que depois de D. a Igreja lutava pela recuperação do controle dos hospitais. 64 e ss. Recorde-se. A Santa Casa da Misericórdia de Setúbal de 1500 a 1755: aspectos de sociabilidade e poder. Henrique e Filipe II – não só não se afastariam das orientações iniciais como reforçaram as intervenções centralizadoras verificadas no início do século. Um movimento que se reveste de uma importância crucial dado o facto de ocorrer num momento em que. Manuel começou por separar das Misericórdias.

177-178. que escorava economicamente as instituições assistenciais. nomeadamente em relação à reforma dos hospitais e demais instituições caritativas. Lisboa. a mesma provisão que reconhecia a tutela régia sobre as Misericórdias (2 de Março de 1568) reforçava a posição da Igreja na sociedade portuguesa8. Leis Extravagantes e Reportório das Ordenações. por exemplo. da Santa Sé que permitiria aos hospitais a utilização dos bens deixados para a celebração das missas pelas almas do Purgatório para o financiamento das suas actividades assistenciais10. que em 1586. Duarte Nunes do Lião. 1987. tit. A Piedade e a Forca . se é verdade que o rei confiou aos leigos a responsabilidade por uma parte considerável da assistência institucionalizada à pobreza. mas também. Na nossa perspectiva. ligada à caridade. pp. ao centralizar nas Misericórdias a assistência a vastos sectores da sociedade e ao fazer depender da Coroa a legislação relativa à mendicidade. como bons cristãos. tratou-se de um jogo de equilíbrio de forças que foi capaz de evitar. Os benefícios daqui recolhidos pela Coroa são evidentes. as consequências destas políticas ao nível das comunidades locais. com plena propriedade e menores custos políticos. respondia assim ao pedido que os estados gerais lhe haviam dirigido solicitando apoio económico para o combate ao problema da pobreza: “sua majestade não pode dar dinheiro algum para o sustento dos ditos pobres pois essa é uma questão que depende da caridade e da piedade que os bons cidadãos. e realizado numa perspectiva de longa duração. a acção centralizadora da Coroa conseguiu não só o apoio de alguns prelados como impediu. também é certo que a manteve sob os princípios religiosos tradicionais. 10 Assunto que iniciámos em Memórias da Alma e do Corpo – a Misericórdia de Setúbal na Modernidade. E. ao que cremos. mesmo conciliatória. nesse sentido. Paralelamente. pelo menos em Portugal. entre a sociedade civil e a Igreja. Isto porque. Relevam de uma ordem diferente. o mesmo é dizer. tomar para si as palavras do monarca francês.CÂMARAS E MISERICÓRDIAS: RELAÇÕES POLÍTICAS E INSTITUCIONAIS 131 mente político. Viseu. Palimage Editores. XVI. pp. devem exercer para bem do próximo”9. Dependente da caridade e piedade dos cidadãos sim. o surgimento de conflitos liderados por leigos contra a aplicação das determinações do concílio de Trento. as polémicas que o tema da assistência estava a suscitar no resto da Europa. 153-171 e desenvolvemos em “A difícil gestão do Purgatório: os Breves de Redução de missas perpétuas do Arquivo da Nunciatura de Lisboa (séculos XVII-XIX)”. (a publicar na revista Penélope). 9 Citado por Bronislaw Geremek. 1999. e bastante mais negativa. parte I. Fundação Calouste Gulbenkian.História da Miséria e da Caridade na Europa. . as opções da Coroa podem ser consideradas como uma solução de compromisso. os reis portugueses poderiam. a monar- 8 Cf. Isto porque. lei 2. Em Portugal.

veja-se o nosso texto. um sangrador – que quase sempre acumulava as funções de cirurgião –. As provas de que as câmaras procuraram não se envolver demasiado na organização da assistência pública são múltiplas e bastante elucidativas. 12 Importantes informações sobre o assunto podem colher-se em Nicolau Agostinho. os monarcas facilitaram a desresponsabilização dos municípios em relação a esta questão. por exemplo). Granada. uma parteira e uma sanguessugadeira. cerceando-lhes quaisquer hipóteses de intervenção na escolha dos meios mais adequados à especificidade de cada espaço (como aconteceu em França. na maioria das cidades portuguesas a criação de hospitais temporários para os pestilentos foi fruto da iniciativa privada e da intervenção da Igreja12 e raramente dos municípios. Contudo. Aqui sim. pelas razões aduzidas. o poder local tendia a esquecer. É certo que a maioria mantinha à custa das rendas dos concelhos um médico. Francisco Simões. entre 1579 e 1637”. Só para dar um exemplo. a correlação directa que se estabelecia entre a pobreza e a dimensão das epidemias. logo que a situação acalmava tais projectos eram abandonados13. O mesmo aconteceu com os hospitais para convalescentes. no entanto. O receio do contágio e da propagação das doenças tornava importante a limpeza dos espaços públicos e a manutenção da salubridade das águas. 1614. Diferente era. para além da duvidosa eficácia da maioria das medidas tomadas11. o caso da criação dos expostos que muitas câmaras transferiram para as Misericórdias assim que lhes surgiu a primeira oportunidade. o seu papel em termos sanitários. “A cidade em tempos de peste: medidas de protecção e combate às epidemias. Abril de 2004. temas recorrentes nas actas das sessões camarárias. Embora as edilidades reconhecessem a sua utilidade e necessidade e. 11 Para o caso de Évora. em Évora. 13 A questão da hospitalização esteve longe de ser pacífica no tempo em estudo. Évora. e ao impedir a tributação específica para custear esse tipo de despesas – a não ser se os impostos se destinassem aos enjeitados – . a propósito. e de forma particularmente activa. a existência de tais profissionais não permite afirmar que as municipalidades administravam uma estrutura de assistência social minimamente consistente. perante situações de epidemia ou de ameaça de epidemia. Veja-se. Comunicação apresentada no VII Congreso ADEH.132 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS quia condicionou a actividade das autoridades municipais. no auge das crises. Rellaçam sumaria da vida do Illustrissimo senhor Dom Theotonio de Bragança. Sobre . Porém. elaborassem planos para a sua construção. a actividade e intervenção dos centros urbanos faziam-se sentir. ao não financiar o sistema criado. A frágil situação financeira de muitos concelhos assim o determinava. tão importantes em termos sociais e de saúde pública como os anteriores. quase sempre de peste. Além do mais.

p. regra geral. em termos de assistência pública. e como já mencionámos. eram caritativos os pressupostos em que assentavam as estruturas das principais instituições assistenciais e eram religiosos os princípios registados nos estatutos que as governavam. naturalmente. Portugaliae Monumenta Misericordiarum. Vejam-se alguns casos que arrolámos em “As Misericórdias portuguesas de Filipe I a D. Lisboa. Mouton. Les Hommes et la peste en France et dans les pays européens et méditerranéens. à realização de acordos prévios entre o poder político e o religioso – ainda que eles pudessem existir. Ou seja. 15 Como aconteceu em Lisboa e é abundantemente documentado por Eduardo Freire de Oliveira. a assistência foi mantida demasiadamente ligada à «doutrina religiosa da caridade» que assumia a pobreza como uma questão ideológica. das Câmaras e das Misericórdias. 14 São muitos os exemplos de alvarás régios encontrados nas Chancelarias Régias onde se ordena às Câmaras que concedessem determinadas esmolas às Misericórdias. faziam-no a título de esmola e. João V”. Não significa isto que os senados não respondessem aos pedidos de ajuda financeira que as Santas Casas lhes dirigiam ou que ignorassem completamente os problemas em análise. Universidade Católica/União das Misericórdias Portuguesas. dos vereadores e dos mesários das confrarias.CÂMARAS E MISERICÓRDIAS: RELAÇÕES POLÍTICAS E INSTITUCIONAIS 133 Chegados a este ponto. frequentemente governadas pelos mesmos homens. Do meu ponto de vista essa articulação não existiu por duas razões principais. Mormente. como aconteceu em Évora –. mas à conjugação de esforços tendo em vista um fim que era do interesse da comunidade e dos seus líderes. 2002. 173. porque. Typographia Universal. vide Jean-Noel Biraben. muito mais frequente. por opção da monarquia. e centrando-nos exclusivamente no caso das Misericórdias. Como bem se sabe. quase sempre. depois de muito pressionados pelo poder central – que várias vezes obrigou as Câmaras a concederem esmolas às Misericórdias14 – e pelas próprias confrarias. o que aqui quer dizer. 16 Os casos que melhor conhecemos são os de Setúbal e Lisboa mas muitos outros poderiam ser apresentados. quando os atendiam. Em primeiro lugar. estas instituições não tinham representação política. Elementos para a história do município de Lisboa. uma questão bastante pertinente se impõe: porque é que não houve em Portugal. Em segundo lugar. uma actuação concertada como ocorreu noutros espaços europeus? Não nos referimos. este assunto. muito especificamente quando os seus hospitais soçobravam ao peso dos surtos epidémicos15 ou. Todavia. 1887 e 1888. procurando que as municipalidades respeitassem os acordos financeiros estabelecidos tendo em vista a partilha das despesas16. tomos II e III. 63. 1975. . Lisboa. porque sendo confrarias. as suas reivindicações não tinham peso nas decisões camarárias. no caso da criação dos enjeitados. p.

As disposições eram provisórias e excepcionais e não alteravam o sistema instituído nem a forma como estava organizado17. pp. o cerne da questão.134 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS A bem da verdade. A partir da obra de Eduardo Freire de Oliveira. como claramente se infere do diploma filipino de 6 de Dezembro de 1603 – que junta vereadores e responsáveis pelas Misericórdias na mesma acusação de usurpadores dos bens das referidas instituições. é que se assiste a acções harmonizadas entre a Coroa. O resultado destas duas circunstâncias (natureza caritativa da assistência e ausência de representação política por parte das Misericórdias) parece-nos previsível: as Câmaras não se consideravam economicamente responsáveis nem pela assistência hospitalar nem pelas demais valências assistenciais asseguradas pelas Misericórdias ou pela Igreja. não raras vezes. Sempre que possível. 47-77. não parece terem existido em Portugal conflitos jurisdicionais a propósito da assistência como houve em outros pontos da Europa. através da imposição de tributos às populações. Todavia. e graves. 19 Um diploma praticamente esquecido dos historiadores mas que contêm importante informação para o problema em análise. João V”. ultrapassando o permitido e o eticamente correcto. entre as autoridades municipais e as Santas Casas por questões económicas e de gestão patrimonial. Isto porque. os notáveis locais agiam como políticos. E. desse ónus. finda a crise. cit. e estas não privilegiavam a assistência. O financiamento da assistência pública é. libertando as suas receitas. para bem do próximo”. Elementos para a história do município de Lisboa. a Câmara e a Misericórdia para. como os que recolhemos da documentação que neste momento estamos a tratar para Lisboa18. São inúmeros os exemplos que o documentam. em prejuízo do bem público19. regressava a normalidade. só em situações que poderiam ser consideradas de calamidade pública. E alguns deles verdadeiramente extraordinários. Enquanto mesários. esperava-se que actuassem como “bons cristãos. “As Misericórdias portuguesas de Filipe I a D. Do “Alvará em que se determinou que os provedores e officiaes da Mesa da Misericordia e hospitaes não podessem arrematar para . Houve-os sim. como as que se viveram em Lisboa na passagem do século XVI para o século XVII. colhendo os benefícios que a lei lhes concedia por exercerem tão importantes funções. de resto. com responsabilidades específicas. quando estavam nas Câmaras. quase sempre reduzidas. Sem 17 18 Cf. para voltar a utilizar a expressão atribuída a Henrique III. pelo menos no meu entender. Na verdade. se tentar controlar a miséria urbana e as elevadíssimas taxas de mortalidade hospitalar. E nesta imbricada relação institucional entre as Câmaras e as Misericórdias nem sequer se pode falar na existência de contradições.

pelo menos. Collecção Chronologica de Leis Extravagantes posteriores á nova compilação do reino das Ordenações do Reino. na minha opinião. dificultava a gestão racional das capacidades assistenciais das Misericórdias e de outras instituições similares. villas e lugares deste reino repartem entre si e as pessoas que costumão andar na governança. pagando pouco ou nada ao concelho. devendo as responsabilidades serem acometidas. 20 Conhecemos vários exemplos desta situação. na Real Imprensa da Universidade. assi para as despesas da Misericordia e hospitaes. repartindo-as entre si e seus parentes. e os sobejos dellas gastão sem ordem alguma. atente-se. conforme demonstrámos em trabalhos anteriores. os alvos a atingir e os métodos a usar. . o que he causa de faltar sempre dinheiro para as cousas necessárias. a ideologia que estava subjacente ao sistema criado. os centros urbanos portugueses não tiveram ao longo do Antigo Regime uma política estruturada de assistência aos pobres ou mesmo de saúde pública. em simultâneo. sobretudo. Coimbra. ainda que mais em pormenor o da Santa Casa da Misericórdia de Setúbal. Tomo I. si cousa alguma”. E que outrosi os provedores e officiaes das confrarias da Misericordia. dos lugares aonde a ha. A ausência de regulamentos que definissem prioridades assistenciais e. As formas institucionais de apoio que existiram nas duas áreas pautaram-se pela desorganização e ineficácia. em nada contribuiu para a excelência desse mesmo sistema. Por outro lado. de que resulta mui grande prejuizo ás rendas dos concelhos e obrigações das ditas confrarias da Misericordia. pp. por sua vez. as propriedades do concelho. ao defender o direito da liberdade da esmola e da mendicidade. que são de minha protecção. como para as dos concelhos (…)». A primeira porque cerceou a capacidade de intervenção das autarquias. à Coroa e às elites locais. Todavia. porque não reclamaram poderes neste campo a não ser em tempos de crise ou em questões de índole sanitária. e que tomão sobre si as rendas das correntes. no seu preâmbulo: «Eu ElRei faço saber aos que este alvará virem que sou informado que os vereadores e officiaes das camaras de muitas cidades. Para concluir. 1819. dando-as uns aos outros com título de arrendamento.CÂMARAS E MISERICÓRDIAS: RELAÇÕES POLÍTICAS E INSTITUCIONAIS 135 esquecer o manancial de informações sobre as irregularidades de gestão patrimonial cometidas pelos irmãos que nos são transmitidas pelas actas e contabilidade de muitas Santas Casas20. publicadas em 1603. em termos de resultados sociais. e estas. a realidade portuguesa foi efectivamente mais negativa que a de outros países onde se desenvolveram formas de organização e de financiamento da assistência que a tornaram mais profissional e menos permeável às contingências das doações particulares. 17-18. Dezenas de documentos das Chancelarias Régias atestam situações semelhantes registadas um pouco por todo o país. faltam-nos estudos comparativos que nos permitam avaliar se. trazem usurpadas as mais propriedades da Misericordia.

em Évora – uma experiência de reclusão e controle de pobres em Portugal”. peregrinos e convalescentes. pelo contrário. com consequente partilha de responsabilidades entre a Igreja e a comunidade. pp. e não curar as infirmidades dos doentes. pelo menos durante três ou quatro décadas. 275-289. I. detectamos que. em publicação no volume de homenagem ao Professor José Marques. porque o intento desta hospedaria he remediar as necessidades dos saos. se não contou com a participação do município. Por exemplo. vol. Igreja. pp. potenciar resultados. quando nos centramos em Évora. Manços”. Mas as generalizações são potencialmente perigosas e comportam riscos demasiado elevados. Teotónio de Bragança (1578-1602). beneficiou. que a deixou registada de uma forma clara nos Estatutos da Piedade: ao Hospício cabia o acolhimento temporário dos pobres. “Trento. O seu principal mentor foi o Arcebispo D. 2002/2003. 22 Continuamos à procura da documentação deste instituto que complemente as dispersas informações que sobre ele possuímos. pelo menos. administrado pela Misericórdia. demarcar esferas de influência ou afirmação de poderes. e hospedaria dos pobres de Nossa Senhora da Piedade da cidade de euora. na verdade. A necessidade de separar competências foi. da existência de relações institucionais minimamente organizadas. se dedicasse mais especificamente ao tratamento dos doentes e perdesse durante algum tempo a 21 Sobre as vicissitudes inerentes a este Recolhimento leia-se Marco Liberato. “Revista Portuguesa de História”. 23 Cf. Faculdade de Letras. Manços21 –. uma preocupação recorrente nos escritos de D. entre o arcebispado e a Misericórdia. que tenhão pera isso hospitaes»24. Teotónio de Bragança. Laurinda Abreu. a mulher e controlo social: o colégio de S. Transcrição apresentada no nosso texto “O hospício e irmandade da Piedade. caridade e assistência na Península Ibérica (sécs. contudo. Tomo XXXVI. A existência do Hospício da Piedade permitiu. “Reclusão e controle dos pobres: o lado desconhecido da assistência em Portugal”. autor de várias reformas no domínio da assistência que dotaram a cidade de estruturas com algum grau de especialização ao nível da assistência às raparigas de elevado estatuto social – Recolhimento de S. melhor dizendo. in Instituicoes e regimentos que pertencem ao padroado do arcebispado de Évora mandados collegir pelos senhores Deão e Cabido sede vacante em Junho de mil e seiscentos e trinta e quatro annos. Nunca doentes «de qualquer infermidade das que em o dito hospital costumão curar. 24 Arquivo do Cabido de Évora. Coimbra. 5-VIII – Livro dos estatutos desta casa. Cec. XVI-XVIII). por exemplo. que o Hospital do Espírito Santo. Universidade do Porto. O seu objectivo não era. a cidade cumpriu um projecto assistencial que. mas. .136 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Aparentemente parece-nos que sim. às prostitutas – Recolhimento da Madalena22 e aos pobres e mendigos – Hospício e Irmandade da Piedade (1587)23.527-540.

conforme se conclui da análise dos registos de entradas no referido hospital nos anos que se seguiram à criação do hospício25. as órfãs dotadas para casamento. Maio de 2003. in Évora. circunscrita a um pequeno grupo de naturais de Évora26. comunicação apresentada ao I Encuentro de Demografía Historica de la Europa Meridional. São Manços e Madalena e. mais material. fundado pelo cónego Manuel de Faria Severim. XVI-XVIII). as mulheres sozinhas que eram subvencionadas regularmente.CÂMARAS E MISERICÓRDIAS: RELAÇÕES POLÍTICAS E INSTITUCIONAIS 137 valência de albergue para pobres. um cirurgião e um sangrador. Teotónio contribuiu para a fixação de um sistema. Uma segunda. ou seja. pedagógica e moralizadora. desde 1649. Igreja. particularmente interventora em tempos de desordem do quotidiano. E. de assistência social institucionalizada. centrada nas questões de saúde pública. 25 Cf. . “The Hospital do Espírito Santo. em tempos de peste29. da responsabilidade da Câmara Municipal. caridade e assistência na Península Ibérica (sécs. Lázaro. assente em três realidades de certa forma distintas ainda que complementares. 28 Basicamente tratava-se de um sistema de apoio domiciliário em que a cidade era dividida em “quadrelas”. Os inúmeros registos de “doentes da Piedade” que se encontram no hospital e as referências a “convalescentes da Misericórdia” existentes na documentação da Piedade mostram bem até que ponto foram cumpridos os propósitos dos mentores deste projecto. mas que estava quase exclusivamente sob o controle da Coroa. Colégio dos Órfãos e Colégio de S. problemas de maior importância para as urbes. “O recolhimento de Nossa Senhora da Piedade de Évora: uma instituição de assistência pós-Tridentina”. A estas vertentes da assistência acrescia ainda a questão da mendicidade e da vagabundagem. o nosso texto. Manços. no Colégio dos Órfãos. cobria um vasto leque da população e estava a cargo da Misericórdia. era assegurada pela Igreja e ministrada nos Recolhimentos da Piedade27. Menorca. os presos ou os doentes das quadrelas28. 27 Algumas informações sobre esta instituição já exclusivamente com funções de recolhimento para raparigas pobres podem encontrar-se em Sílvia Mestre e Marco Loja. and its relationship with the city”. pp. uma terceira. O seu propósito era procurar garantir a sobrevivência dos seus pobres: os milhares de migrantes sazonais que anualmente acorriam ao Hospital do Espírito Santo. A primeira de cariz educacional. 291-298. as crianças que eram depositadas no Hospital de S. podemos afirmar que a intervenção de D. ainda que com algum anacronismo. 26 Conforme os dados que já coligimos para os recolhimentos da Piedade. finalmente. Ainda que analisada à escala local. cada uma delas entregue a uma equipa constituída por um médico. chamemos-lhe.

49-51. também não é menos correcto que as linhas mestras que enquadraram a sua actuação tinham sido definidas pelo governo central. Ou seja. Já representadas nas Câmaras. O que se repetia quando. pp. Portugaliae Monumenta Misericordiarum. 30 Para o caso especifico de Évora consultem-se os trabalhos de Rute Pardal. permitiu-nos dar fundamento documental à tese que temos vindo a defender segundo a qual as medidas de carácter centralizador tomadas pela monarquia portuguesa durante o século XVI foram determinantes para a forma como o sistema evoluiu ao longo dos dois séculos seguintes. anulava as deliberações camarárias. e justificámos. cit. também para as questões da assistência o rei estava dependente do bom desempenho das elites locais30. 225-237. E se é verdade que poucas cidades terão beneficiado de uma intervenção tão dinâmica e abrangente como aquela que D. nomeadamente. . mas sem capacidade para procederem a mudanças estruturais. João V”. pp. o que conduziu. não só por razões financeiras. elas seriam igualmente chamadas a gerir os destinos das Misericórdias. à imposição dos próprios provedores. o não incentivo à partilha de responsabilidades assistenciais entre os dois principais órgãos do poder local não pode deixar de ser visto como uma afirmação de poder por parte da monarquia. é indiscutível. em Évora. Neste sentido. entre 1579 e 1637”. Com relativa autonomia. durante os surtos de peste. Igreja. XVI-XVIII). 31 Veja-se uma síntese da evolução da legislação relativa a esta questão em “As Misericórdias portuguesas de Filipe I a D. como aconteceu frequentemente desde o início do século XVIII31. muitas vezes sem consultar os vereadores. em “A cidade em tempos de peste: medidas de protecção e combate às epidemias. ainda em curso. 29 Como escrevemos. Teotónio protagonizou em Évora nas décadas finais de Quinhentos. É certo que a capacidade de a Coroa impor as suas políticas a todo o país era bastante limitada e. nalguns casos.138 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Este trabalho de reconstituição das estruturas assistenciais da Évora moderna. “O relacionamento do Arcebispado com a Misericórdia de Évora entre 1552 e 1643”. como bem demonstram as sucessivas interferências régias no quotidiano de muitas Misericórdias. caridade e assistência na Península Ibérica (sécs.

à autonomia que ambas gozaram – embora esta fosse tutelada pelo rei. Se são bem conhecidas as relações institucionais entre as Câmaras e as Misericórdias. quando nos referimos às similitudes entre Câmaras e Misericórdias. Cf. que abrange nesses dois domínios toda a população residente1. 2 Assim se infere da leitura das Ordenações. pp. financeiro. Livro I. Título Os Municípios no Portugal Moderno: dos forais manuelinos às reformas liberais Lisboa. por exemplo. quer por parte do próprio rei. um universo muito mais restrito que o das edilidades. . Edições Colibri – CIDEHUS-UE. pois. p. naturalmente. 2003. 2. nomeadamente a nível administrativo/jurídico. as Misericórdias são. Rute Pardal. também sabemos que as duas instituições partilhavam características semelhantes. (dissertação de mestrado policopiada). 34. e por isso relativa. Évora. 2005. Ordenações Afonsinas. Isto apesar das diferenças óbvias entre ambas. dos processos eleitorais. 139-148. consubstanciada na liberdade de promulgação das posturas ou acórdãos de cariz organizativo da realidade local. o que mais se destacava era a capacidade legislativa que possuíam. Nesta linha de pensamento. Universidade de Évora. em termos jurídicos e jurisdicionais. A importância desta competência revelou-se na irrevogabilidade das suas decisões quer por parte do representante local do rei – o Corregedor2 –. pelas Câmaras. Comecemos. As elites de Évora ao tempo da dominação filipina: estratégias de controle do poder local (1580/1640). e da base de recrutamento social dos seus órgãos directivos. 1 Cf.As relações entre as Câmaras e as Misericórdias: exemplos de comunicação política e institucional RUTE PARDAL (CIDEHUS) 1. Em termos administrativos. ao nível administrativo/jurídico e financeiro. referimo-nos.

Edições Colibri. O Minho e os seus municípios. 6 Cf. temos a evidência dessa mesma dificuldade em vigiar cabalmente a limpeza da cidade.III. nomeadamente o importante sector do abastecimento3. em sectores vitais para a comunidade. 7 No caso de Évora. Em termos práticos seriam os Almotacés que tomariam contacto diário com os vendedores de todos esses produtos. Os homens. Arquivo Histórico. chafarizes e fontes6. ainda. 3 O assunto já foi referido por vários autores: Entre eles. Ainda no domínio agrícola. Ordenações Filipinas. Daí a preocupação dos concelhos em lançar posturas e vigiar o seu efectivo cumprimento. cabia à vereação providenciar de modo a fornecer a população dos bens alimentares e manufactureiros. XXVII. pp. Círculo de Leitores. a acção concentrava-se. a regulamentação do quotidiano. assim como de todas as manufacturas produzidas pelos artífices5. Por outro lado. 2002. Livro I. Livro I. Lisboa. 5 Apesar de alguns destes aspectos já estarem conformados nos forais. sanitárias e de policiamento. Universidade do Minho. § 28. (José Mattoso dir.140 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS O âmbito desta autonomia dos concelhos foi. Ou seja. os arranjos das calçadas e arruamentos. reservando-se normalmente para as posturas a fixação do custo das obras dos mesteres4. a acção das Câmaras alargava-se à tributação e ao tabelamento dos produtos cerealíferos e. Título LXVI. sem ir mais longe. Ordenações Manuelinas. e acabavam por taxar praticamente todos os géneros alimentares. 629-630. Lisboa. A nível urbano. Teresa Fonseca. XLVI. 179. 1995. a tarefa não era fácil uma vez que se. Porto. Absolutismo e Municipalismo em Évora: 1750-1820. em matérias agrícolas. Braga. O Porto e o seu termo (1580 – 1640). Título XLVI. 4 Cf. como também a obrigação do cumprimento das posturas por parte dos oficiais concelhios7. regra geral. estradas e pontes.). Câmara Municipal do Porto. a fragilidade ou mesmo inexistência de um sistema de saneamento público não só dificultava o trabalho legislativo. E. De facto. 1993. a alçada do concelho estendia-se àquilo que definiríamos como «sector das obras públicas»: ou seja. sobre o despejo de detritos nas ruas devido às consequências que tais actos poderiam ter em termos de propagação das doenças. §16. p. vol. Na sessão de vereação de 5 de Janeiro de 1618. documentos para a História do Porto. História de Portugal. por um lado. especialmente temidas em tempos de peste. Todavia. preocupações maiores para comunidades demograficamente carentes e financeiramente debilitadas. das carnes e do peixe. § 9. 1988. a falta de hábitos de higiene era generalizada. as especificidades das situações e o subsequente desajuste dos mesmos exigia um constante preceituar regulamentador. Joaquim Romero Magalhães. Francisco Ribeiro da Silva. «Os concelhos». entre outros. Belchior da Maia foi . as instituições e poder. por outro. prioritariamente. vide José Viriato Capela. Competia-lhe também zelar pela higiene e saúde pública.

foi nas Ordenações Manuelinas – a primeira vez que em Portugal se legislou sobre esta matéria –. Arquivo da Santa Casa da Misericórdia de Évora (doravante ADE. Na verdade. à missiva da Misericórdia. Health and Child Care and Culture in History. 55-66. 1990. fls. 1995. nem sempre o dito acordo foi cumprido. Fundação Calouste Gulbenkian. a Câmara também teria demonstrado anteriormente que estava interessada em assumir novamente a administração do Hospital de São Lázaro e a criação dos enjeitados. Setúbal. 21-22). fl. Isabel Guimarães dos Sá. (Cf. e os concelhos. ano em que regressou novamente para a alçada da Câmara11. que os concelhos foram chamados a intervir a favor das crianças desprotegidas8. juntamente com a administração do Hospital de São Lázaro10. Em 1618 retornou à Santa Casa. o cuidado dos expostos foi entregue à sua Misericórdia em 1568. pouco depois da sua criação. «The Évora foundlings between the 16th and 19th centuries: the Portuguese public welfare system in analysis». e quase sempre associada ao movimento de anexação dos hospitais às Santas Casas da Misericórdia. JNICT. September 13th-16th. os concelhos tiveram competências importantes. Ordenações Manuelinas. 11 O rei respondeu. Livro I. os hospitais ou albergarias. por ordem de prioridade.RELAÇÕES ENTRE AS CÂMARAS E AS MISERICÓRDIAS 141 Sobre outro domínio. Livro 9. antigo Provedor do dito Hospital. ADE. A circulação de crianças na Europa do sul: o caso dos expostos do Porto no século XVIII. ASCME. seriam responsabilizados. em primeiro lugar. (Cf. (Cf. e aí ficaria até 1586. Cf. Por outro lado. fl. nomeadamente no que respeita à criação dos enjeitados. 9 Apesar da responsabilidade dos enjeitados ter passado para as Misericórdias.º das actas da Câmara. por exemplo. ASCME). o que incluía a assistência médica. Geneva Medical School. obrigação dos pais e. Arquivo Distrital de Évora. Livro dos Privilégios do Hospital. alguns concelhos acordaram em comparticipar nas despesas com as crianças. que ficaria com esse serviço até que a legislação liberal lho tirou. . Em Évora. Santa Casa da Misericórdia de Setúbal. Lisboa. 8 Nestas Ordenações estabeleceu-se uma espécie de hierarquização de responsabilidades relativamente à criação dos enjeitados. Todavia. Esta consubstanciava-se na faculdade dos próprios admoestado por se constar que as ruas da cidade estavam muito sujas. (Cf. que abrangia as respectivas amas. Livro dos Privilégios do Hospital. em alternativa lhe retirasse o encargo da criação. 10 Apesar das tentativas de embargo por parte do reitor do mosteiro de São João. 54-55). Arquivo da Câmara Municipal de Évora (doravante ADE. que pedia «que lhe desse renda» para que pudesse criar os enjeitados comodamente. E. Esta seria. ou se quisermos da assistência. 77. desta forma. Título CXVII. n. Idem. n. § 10). 2001. ou. a criação dos expostos seria transferida para a alçada destas últimas9. Laurinda Abreu. os parentes.º 47. ACME). European Association for the History of Medicine and Health – 5th Conference. pp. 679). Mas a autonomia administrativa dos concelhos seguia lado a lado com a autonomia financeira.º 47. ainda da saúde pública. A Santa Casa da Misericórdia de Setúbal de 1500 a 1755: aspectos de sociabilidade e poder. ADE. na sua ausência. Paulatinamente. p. ainda.

Por isso. (Cf. esta prerrogativa. pp. tinham jurisdição privativa em relação aos Corregedores e maior alçada que os Juízes da terra. a Coroa só muito tardiamente conseguiu estender uma rede de Juízes de Fora a grande parte do país.. Instituições e poder político. Como é do conhecimento geral. Título LXV).º48. o conteúdo da sua influência restringia-se apenas aos feitos cíveis que envolvessem bens móveis e imóveis. (Cf. o que.. depois de aprovados pelo Desembargo do Paço. 13 Tal como o demonstra. Título LXV). estes últimos eram eleitos localmente e eram inspeccionados pelos Corregedores. ainda que não abrangessem um universo social tão vasto quanto o das Câmaras. o privilégio fundamental era o de poder aceitar e excluir irmãos sem dar satisfação a quaisquer tipos de justiças e oficiais13. não foi nem permanente nem definitiva.. É de facto. em pri12 Enquadrando-se a matéria da sua acção na matéria da autonomia judicial de que os concelhos dispunham. (Cf. limitava a actuação dos Provedores das comarcas14. ou de autonomia jurisdicional. As elites de Évora. Livro I. no essencial. que lhes conferia variados privilégios em diversos domínios. a autonomia administrativa das Misericórdias também decorria da faculdade de serem as próprias. Livro I. o alvará régio de 24 de Janeiro de 1582. Para uma visão mais aprofundada sobre esta questão veja-se Rute Pardal.n. Assim sendo. Livro de privilégios da Santa Casa da Misericórdia de Évora. em grande medida resultante da imediata protecção régia. com base nas Ordenações Filipinas que António Espanha corrobora as semelhanças nas atribuições dos Juízes de Fora e Juízes Ordinários. 14 Todavia.142 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS municípios arrecadarem as suas receitas para fazerem face às despesas. 2 vols. as suas competências eram semelhantes às dos Juízes de Fora. fl. quando a actuação régia se pautou pela ambiguidade. nomeadamente no que se refere à eleição. Mas no seio dos concelhos existiam ainda outros domínios relativamente autónomos. os Juízes Ordinários12. Ordenações Manuelinas. ora cerceando-lhas. como por exemplo. . Livro I. em muitos dos municípios era executada por indivíduos eleitos localmente. Ordenações Filipinas. Apesar disso.. António Manuel Hespanha. Como referimos. e ainda no domínio das rendas.. ou seja. facto que. por exemplo.. a cobrar as receitas. ASCME. Título XLIV. à semelhança das Câmaras. s. o judicial. Portugal – século XVII. Lisboa. 36). n. As vésperas do Leviathan. ADE.) ”. cit. ora outorgando competências fiscalizadoras aos Provedores das comarcas. Para além disso. no plano jurisdicional interno. Todavia este autor. Por outro lado. onde de se refere que. as Misericórdias também usufruíram de uma apreciável autonomia. os colocava sob a tutela régia. em favor da Misericórdia de Lisboa. em última análise. Pelo contrário. (Cf.. Ordenações Filipinas. 67-68. 1986). Os Juízes de Fora eram nomeados pelo rei. menciona que subsistem algumas diferenças. “ o mesmo poderão fazer e farão no que tocar a receber irmãos ou os despedir quando lhes parecer sem serem obrigados a dar conta nem rezão aos que assi despedirem nem a nenhumas minhas justiças nem oficiais (. a justiça. não dependendo de nenhuma outra instituição para fazer aprovar o seu orçamento.

Não obstante. O poder concelhio das origens às cortes constituintes. o processo de escolha dos seus dirigentes mais importantes ser feita de forma colegial. jurídicos e financeiros. não podemos deixar de parte o empenho que. da mesma maneira que os almoxarifados e recebedores do rei arrecadavam a fazenda real. as Misericórdias podiam dispor. ou seja. João I. 17 Cf. não tinham a obrigação de verem aprovadas as pautas das eleições que anualmente faziam. p. 1999. 1998. Não obstante. Em segundo lugar. Livros Horizonte/Misericórdia de Lisboa. por isso se procedeu à restrição do número dos considerados capacitados a intervir no processo. Mas. os pontos de contacto entre estas duas instituições não se ficaram pelos aspectos administrativos. nas Misericórdias ele foi contemplado logo de início no compromisso de 151617 da Misericórdia de Lisboa – que serviria. e apesar de não ser um movimento simultâneo em todas as Misericórdias15. (cf. (Cf. elas tinham a possibilidade de arrecadar as suas dívidas via executiva. A Santa Casa da Misericórdia de Lisboa: subsídios para a sua História. Memórias da alma e do corpo: a Misericórdia de Setúbal na modernidade. os monarcas puseram na clarificação do processo eleitoral das magistraturas municipais. de um Juiz privativo como executor das suas rendas e esmolas. As Misericórdias também não estariam isentas da tutela e da intervenção régia. Lisboa. Neste documento dá-se a entender nitidamente que a eleição dos oficiais locais não era de modo nenhum pacífica. A Misericórdia de Lisboa. tal como os seguintes. . desde D. 321). 598 e passim. Palimage Editores. essencialmente quando havia suspeitas de distúrbios. Este rei estabeleceu. Neste ponto. Victor Ribeiro. Quinhentos anos de História. 15 Com efeito este foi um privilégio que as Misericórdias foram solicitando ao rei. e. o mais importante a reter parece-nos ser o facto de. 16 Por isso. eles passaram também pelos processos eleitorais. apesar do plano de actuação das Câmaras e Misericórdias ser diferente. ou seja. Viseu. com base na sua obtenção por parte da Misericórdia de Lisboa. Maria Helena da Cruz Coelho. 1902. p. que a eleição dos oficiais concelhios se fizesse pela maneira dos pelouros. de forma indirecta e não de modo a permitir a participação alargada dos irmãos ou dos munícipes. através do alvará de 12 de Junho de 1391. Uma liberdade condicionada nas Câmaras pelo facto de essas escolhas terem de ser sancionadas pelo rei ou pelo donatário. p. anexo IX. Lisboa. ou incumprimento dos processos eleitorais18. 129). Centro de Estudos e Formação Autárquica. Ainda no campo eleitoral. em Maio de 1558. Tipographia da Academia Real das Sciencias.RELAÇÕES ENTRE AS CÂMARAS E AS MISERICÓRDIAS 143 meiro lugar. Coimbra. (Cf. tanto os municípios como as Santas Casas tinham liberdade de escolha dos seus magistrados e oficiais. Joaquim Veríssimo Serrão. 1986. Joaquim Romero Magalhães. de modelo paras restantes Santas Casas. em Portugal. 18 Tal como aconteceu em Setúbal e Évora. aos finais da Idade Média16. se o processo de afunilamento da escolha dos oficiais camarários remontou. Laurinda Abreu.

144 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS 3. com o objectivo explícito de se autoperpetuarem na governação de ambas as instituições20. 345-369. ou oligarquização.. Nele ficava bem vincada a rotatividade entre os cargos concelhios e da Santa Casa. que são do domínio comum. pp. 1993 (2. Lisboa. Este estudo teve continuidade nos últimos anos. 324-325. 20 Sobre a essência da perpetuação nos cargos por parte das elites locais. a circulação de indivíduos entre as duas instituições. O poder concelhio … cit. 1993. . A Santa Casa da Misericórdia cit …. veja-se Joaquim Romero Magalhães. pp. Rute Pardal. História de Portugal. ou seja. Nuno Gonçalo Monteiro. XXXII. 1997. Esta é uma situação recorrente. entre outros. «Elites Locais e mobilidade social em Portugal nos finais do Antigo Regime». 81.º). «Senhores da terra. «Elites e mobilidade social … cit. Os primeiros estudos sobre esta problemática surgem já na década de sessenta do século XX. Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses. Maria Helena da Cruz Coelho. grupos formados por um número restrito de indivíduos. caridade e poder no império português – 1500/1800. regra geral.339-345. pp. É certo que a denominação “oligarquias municipais” tende a conferir uma identidade social a uma categoria institucional «a dos vereadores camarários» cuja existência como grupo social carece de demonstração”.». pp.50-51. O mesmo é dizer. «Os concelhos e as comunidades. Contudo. vol. como é óbvio. válida para todo o Antigo Regime e para todos os espaços até agora estudados – com oscilações locais. p. XXVIII (121). 143-150. 143-150. tendo surgido vários trabalhos que demonstram que a maior parte dos irmãos das Misericórdias pp. vol. controlavam o poder nas Câmaras e nas Misericórdias. As elites de Évora … cit. Círculo de Leitores. E ainda. 341). Análise Social. Laurinda Abreu. pp. 22 Ibidem. Vejam-se ainda os exemplos apontados em Isabel dos Guimarães Sá.IV. Idem. (Cf. senhores da vila: elites e poderes locais em Mértola no século XVIII». 19 Sem pretender-mos entrar em conceptualizações. 1997. pp. 21 Cf. isto é: governo de poucos e predomínio de um pequeno grupo de pessoas e famílias. Quando o rico se faz pobre: Misericórdias. ao utilizarmos o termo oligarquias estamos conscientes dos recentes debates que tem suscitado o seu uso. Rui Santos.25-50). pretendemos fazê-lo no sentido estrito da palavra. Nuno Gonçalo Monteiro. pp. p. A identificação destas características. mas seria apenas em finais dos anos 80 que ele seria quantificado no estudo sobre a misericórdia de Setúbal21. mas também entre outros ofícios régios e da ordem de Santiago22. um factor que nos pode remeter para a formação de oligarquias locais19. que. é importante referir que. Lisboa. 333-338. quando aqui nos referimos a oligarquias. Sobre estas questões veja-se. parece-nos importante porque cremos que foram elas que facilitaram aquele que sabemos ter sido um comportamento habitual ao longo do Antigo Regime. Análise Social. vol.

apesar de não fornecerem dados percentuais sobre esta estreita ligação. 1998. (dissertação de mestrado policopiada) 1996. 28 Cf. em última análise. Como já referimos. pela sua complexidade. Ponta Delgada. A Santa Casa da Misericórdia de Guimarães (1650-1800). as estratégias de controlo alargavam-se a variados campos. 177. 130. 1997. reiteram o facto de a maior parte dos irmãos das respectivas Santas Casas estarem quase sempre em maioria na ocupação dos cargos na “República”. 26 Apesar do caso de Vila Viçosa ser específico. A Santa Casa da Misericórdia de Montemor-o-Velho. A Casa de Bragança … cit. Faculdade de Letras. Santa Casa da Misericórdia de Vila Viçosa. devido à influência da Casa de Bragança no panorama político local.RELAÇÕES ENTRE AS CÂMARAS E AS MISERICÓRDIAS 145 ocuparam cargos nas Câmaras.. Já os trabalhos sobre as Misericórdias de Vila Viçosa26 e Guimarães27. Instituto Cultural de Ponta Delgada. O mesmo se verificou no caso do Porto. vejam-se os dados indicados em Mafalda Soares da Cunha. 138. 77-85. p.l. Mafalda Soares da Cunha. 1999. O morgadio em Portugal. e de Ponte de Lima. (Cf. em percentagens que chegam a atingir os 75% em Montemor-o-Velho23. 30 Este processo de elitização percorreu não somente as Câmaras e as Misericórdias. Parece-nos. 236-244. Imprensa Nacional/Casa da Moeda. pp. História social da administração do Porto (1700/1750)..1% em Ponta Delgada24 e os 71% em Évora25. 2000. os 71. p. Ana Sílvia Albuquerque de Oliveira Nunes. Lisboa. mas . Modelos e práticas de comportamento linhagístico. tão característicos da sociedade de Antigo Regime30. 1994. (dissertação de mestrado policopiada). Poder e conflito. Lisboa.. Maria Marta Lobo de Araújo. 370-382. pp. 24 José Damião Rodrigues. pp. Maria de Lurdes Rosa. 29 Sobre este assunto veja-se Nuno Gonçalo Monteiro. 27 Américo Fernando da Silva Costa. p. Na verdade. onde cerca de metade dos mesários eram também oficiais camarários28. 57-199. pp. Dar aos pobres e emprestar a Deus: as Misericórdias de Vila Viçosa e de Ponte de Lima. poder e conflito (1546-1803). um dos elementos que permitiam a autoperpetuação daqueles que controlavam estes órgãos do poder local. Mário José da Costa Silva.. o sistema de reprodução vincular e as redes clientelares exerciam um papel determinante. 4. 25 Rute Pardal. Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho. Poder Municipal e oligarquias urbanas: Ponta Delgada no século XVII. A Casa de Bragança – 1560/1640: práticas senhoriais e redes clientelares. Ainda para Vila Viçosa. 23 Cf. pp. Estampa. As elites de Évora … cit. espa- ço de sociabilidade. Estampa. Coimbra. 2000.111-128. onde a endogamia. s. (séculos XIV-XV). no entanto importante abordar o sistema eleitoral enquanto factor que contribuiu para manutenção do poder local e para a elitização. a rotatividade entre estas duas instituições constituía. O crepúsculo dos grandes (1750-1832). Assuntos que. não podemos desenvolver aqui29. Lisboa. Braga. Porto Universidade Portucalense. 1995.

Livro I. Livro I. em primeiro lugar e antes de apurar o colégio eleitoral. Ordenações Filipinas. Título XLV. Lisboa. as corporações de ofícios.) pessoas naturaes da terra. Universidade do Minho. A. o compromisso de 1577 já apertava a malha de recrutamento social. (Cf. mas que gozavam dos restantes privilégios materiais e espirituais. 6 fossem oficiais e 6 de outra condição –. sendo o Corregedor. pp. Silva. ou o Ouvidor. ou seja. 34 Ibidem. Ordenações Manuelinas.. 314-316. J. Com efeito. pp. existiam algumas excepções no que se refere à admissão de cristãos-novos. Ordenações Afonsinas. Livro I. A Santa Casa da Misericórdia de Lisboa … cit. Se o compromisso de 151636 não era ainda muito claro em termos de definição da qualidade dos seus membros – requerendo apenas que o Provedor fosse nobre. Sobre este assunto. e da governança della. do que propriamente uma inovação sobre o tema. ou houvessem sido seus pais e avós. obrigado. 314. como por exemplo.. neste particular. de entre os homens bons do concelho. 31 Cf. Veja-se sobre esta temática Laurinda Abreu. determitambém outras instituições da sociedade do Antigo Regime. veja-se José Viriato Capela.. 36 Joaquim Veríssimo Serrão. 33 Cf. o alvará e regimento de 12 de Novembro de 161133.) ”34. p. élections et pouvoir à Guimarães entre absolutisme et libéralisme (1753-1834). 1854. Em segundo lugar porque a evolução destes textos normativos nos indica que houve uma a progressiva elitização dos seus cargos administrativos. Anos mais tarde o rei restringia ainda mais o universo de elegíveis. À semelhança dos municípios. a tirar informações junto de duas ou três pessoas “das mais antigas e honradas”35. sem raça alguma (. Em primeiro lugar. 35 Ibidem. que reiteravam que a eleição se devia fazer pelo método dos pelouros de forma colegial. Construction d’un gouvernement municipal: élites. estabelecia regras mais rigorosas no apuramento das magistraturas municipais. p. Título LXVII. Braga. que estavam proibidos de participar nos órgãos administrativos e nos actos religiosos públicos das Misericórdias. Ao mesmo tempo. 2000. 315. também as Misericórdias seleccionavam os seus membros. 37 Todavia. porque se constituíam como irmandades cujo número de irmãos estava delimitado nos compromissos. 598-599.146 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Nas Câmaras a regulamentação da eleição dos seus oficiais encontrava-se definida desde as Ordenações Afonsinas31. José Justino de Andrade e Silva. doravante restrita a cristãos-velhos37. 32 Ainda que estas constituam. mais a confirmação da legislação Manuelina. 24-25. «Estudo prévio».. Um processo que se foi complexificando até chegar às Ordenações Filipinas32. Imprensa de J. e que os demais mesários.. Exigia o dito alvará que os elegíveis no futuro fossem “ (. «As Misericórdias portuguesas de . Título LXVII). de idade conveniente. Colecção chronologica da legislação portuguesa – 1603-1612. pp.

aqueles que controlavam o poder nas Câmaras e as Misericórdias pertenciam ao estamento social da nobreza. União das Misericórdias Portuguesas. . 38 Fernando Calapêz Corrêa. 1995. os eleitos eram fidalgos oriundos das mais antigas linhagens ao serviço da casa de Bragança42.53. segundo a tessitura social e económica do meio. Isto sem esquecer que em Setúbal e Aveiro o mar. 377. Lisboa. 88. 2002. Maria Marta Lobo de Araújo. sendo que. A Casa de Bragança … cit.RELAÇÕES ENTRE AS CÂMARAS E AS MISERICÓRDIAS 147 nava que o Provedor fosse fidalgo.. 41 Cf. 116-118. 1998. estivessem em ocupações como as de mesteirais e comerciantes39. 86. Todavia. foram determinantes para a configuração das suas elites locais44. Francisco Ribeiro da Silva. proprietários de ofícios da ordem de Santiago. e todas as actividades mercantis. Laurinda Abreu. onde tivemos oportunidade de verificar que os ocupantes dos cargos da vereação e das mesas da Misericórdia Filipe I a D. ou ainda homens que se tinham nobilitado pelas armas40. 78. o sal. Portugaliae Monumenta Misericordiarum: fazer a História das Misericórdias. Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (dissertação de mestrado policopiada). ainda que. O que já não acontecia em Évora. Desta maneira verificamos que. 188. Mas sobre Vila Viçosa pairava a Casa de Bragança. Já no compromisso de 1618 ao Escrivão e ao Tesoureiro exigir-se-lhes-ia que fossem nobres38. Santa Casa da Misericórdia de Lagos. a composição social desta nobreza variava de lugar para lugar. 428. ao Escrivão e ao Tesoureiro exigia que fossem honrados. 43 Cf. João V». Lagos. Dar aos pobres e emprestar a Deus … cit. p.. 40 Cf. p. não muito remotas ao século XVII. já eram essencialmente donos de marinhas.. as suas origens. nas duas instituições. Uma situação semelhante. p. por exemplo. 150. serviriam. I. no que ao exército concerne. pp. a pertença social daqueles que conduziam os destinos municipais situava-se na esfera da aristocracia de projecção local. p. pp. se terá passado em Ponta Delgada no século XVII43. Manuel de Oliveira Barreira.. Aqui. em Vila Viçosa41. Mafalda Soares da Cunha. 42 Cf. 39 Cf. Elementos para a História da Misericórdia de Lagos. a partir do século XVIII. As mesmas armas que. A Santa Casa da Misericórdia … cit. O Porto e o seu termo … cit. Poder municipal e oligarquias … cit. Com efeito. 44 Cf. com autoridade e virtude. Como Francisco Ribeiro da Silva afirma. Coimbra. para controlar a Câmara e a Misericórdia. p. A Santa Casa da Misericórdia de Aveiro: pobreza e solidariedade (1600-1750). José Damião Rodrigues. vol. p. não eram raros os casos de mesteirais que eram tidos como gente nobre na cidade do Porto.. Em Setúbal.

protagonizando doravante a característica mais destacada deste relacionamento. que apresentámos atrás. Um facto que atraiu o interesse das elites locais por estas instituições – apesar de tudo emergentes –. Pelas semelhanças com as estruturas camarárias. a vontade do poder central em uniformizar sistemas institucionais e políticos. fixando-se na região após a crise de 1383/138545. económico e político que o poder central conferiu às confrarias. 45 Cf. p.. as Santas Casas constituíram um desses campos. essencialmente devido ao crescendo simbólico. Rute Pardal. .148 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS – entre 1580 e 1640 – provinham de antigas famílias de proprietários fundiários. Todavia. Sugerem ainda. 133. As elites de Évora … cit. estas comunicações entre as Câmaras e as Misericórdias surgem como uma característica marcante na sociedade do Antigo Regime. a circulação entre os cargos da vereação e os cargos administrativos nas Misericórdias. isto é. Em suma. foi a partir da segunda metade do século XVI que as relações entre as duas instituições se intensificaram.

pp. cível ou crime. constituída por casas nobres e eclesiásticas2. XVII. provenientes de doações concedidas pelos monarcas. Sobrepondo-se e imbricando-se nesta rede concelhia encontramos uma rede de senhorios. Joaquim Romero Magalhães – O poder concelhio.Senhorios e concelhos na época moderna: relações entre dois poderes concorrentes MARGARIDA SOBRAL NETO (Univ. 1 Sobre as competências das câmaras vide. . Estes bens e direitos constituíram a base material de sustentação. Instituições e poder político. 2005. adquiridos através de doações de particulares. Coimbra. pp. para além dos estudos monográficos. Coimbra. o território português estava coberto por uma rede de concelhos. Quanto aos direitos de natureza tributária tinham origem em doações régias. ou em contratos realizados entre as entidades senhoriais e as pessoas que assumiam o compromisso de exploração agrícola das terras ou a posse de casas ou de outros bens. “O espaço político e social local”. que exercia o governo das terras em múltiplas áreas – economia. Armando Castro – A Estrutura Dominial Portuguesa dos séculos XVI a XIX (1834).) – História dos Municípios e do poder local. Editorial Caminho. 149-165. Almedina. Os senhorios eram constituídos por um conjunto de bens e direitos. Nuno Gonçalo Monteiro – “Poder senhorial. Lisboa. consignados em doações régias e forais. in César de Oliveira (dir. pp. 1986. Coimbra – Fac. Edições Colibri – CIDEHUS-UE. instrução – constituindo-se também como intermediária entre o poder central e as populações1. Monteiro. de entidades nobres e eclesiásticas ao longo das épocas medieval e moderna. António Hespanha – As vésperas do Leviathan. H. as seguin- 2 tes obras de síntese: Maria Helena da Cruz Coelho. 121-135. compras ou trocas. Das Origens às Constituintes. os denominados direitos reais. Estatuto nobiliárquico Os Municípios no Portugal Moderno: dos forais manuelinos às reformas liberais Lisboa. 1992. Os direitos podiam ainda ser de natureza jurisdicional. Dicionário de História de Portugal. ou de natureza régia. 1996. 1971. exercidos num determinado território. 380-438. Portugal -séc. Sobre os senhorios portugueses ver as sínteses elaboradas por: A. Letras / Centro de História da Sociedade e da Cultura) Na época moderna. justiça. Lisboa. Lisboa. dotados de uma estrutura administrativa e judicial. saúde. Círculo de Leitores. enquanto fontes de renda e de poder. Nuno Gonçalo. CEFA. Os bens podiam ser de natureza patrimonial. de Oliveira Marques – “Regime senhorial”. 1994. volume III.

Círculo de Leitores. pp. mas com particular incidência na Idade Média. como em outros casos. algumas casas senhoriais de instrumentos de natureza jurisdicional susceptíveis de lhes assegurarem o controlo político e social das comunidades locais que tutelavam3.) – “História dos Municípios e do poder local”. Elites e poder. Op. Lisboa. dir. na época moderna. Lisboa. ao exercício do poder concelhio decorrentes das presenças senhoriais nos territórios concelhios. os oficiais periféricos da coroa tornavam-se agentes de donatários (Nuno Gonçalo Monteiro – As Câmaras no equilíbrio dos poderes: funções sociais e dinâmicas locais. 16% dos juizes de fora eram nomeados pela Casa de Bragança.5 De acordo com o estabelecido nas Ordenações.. Idem. 150-151). O domínio senhorial sobre a vida concelhia terá assumido formas muito diversificadas. 5 António Hespanha – As vésperas do Leviathan. no entanto. competia aos corregedores. Op. pp. III (Portugal em definição de fronteiras. Os monarcas dotaram. 333-357. . in Nova História de Portugal. ouvidores. in César de Oliveira ( dir. Joel Serrão e A. pp. XVII. concorrentes. Portugal-séc. Marreiros. Instituições e poder político. Círculo de Leitores. pp. de apresentarem. almoxarifes. Lisboa. os dois mais importantes corpos do “sistema tradicional de poder” a nível local. vol. 1996. no exercício do poder e na apropriação de recursos dos espaços em que dominavam. Em algumas terras senhoriais essas funções eram asseguradas pelos donatários. 2003. pp. Entre o Antigo Regime e o liberalismo. Lisboa. etc. Maria Rosa Ferreira – “Senhorios”. ou os bloqueios. Propomo-nos nesta comunicação reflectir sobre os condicionamentos. aos juízes de fora ou aos ordinários a condução e supervisão dos processos eleitorais. alcaides. Mafalda Soares da Cunha – Práticas do poder senhorial à escala local e regional (fins do século XV a 1640). ouvidoe aristocracia”. Esses instrumentos consistiam no privilégio de nomearem juízes de fora4. H. cit. ao longo do tempo. IV. vol. in César de Oliveira ( dir. juízes dos órfãos. in História de Portugal. Op. que exerciam funções similares às dos corregedores.. 554 – 584. os vereadores e os procuradores – bem como de apresentarem ou nomearem diversos oficiais que exerciam funções no seio dos concelhos – tabeliães.. ICS. confirmarem ou apurarem os elencos dos governos concelhios – os juízes. de acordo com os titulares dos senhorios. os conteúdos dos seus poderes. coord. e em regimentos publicados posteriormente.) – “História dos Municípios e do poder local”. 4 Em 1640. bem como com os instrumentos ao dispor dos donatários e que lhes permitiam ser mais ou menos eficazes no exercício do poder senhorial. in Nova História de Portugal.cit. 584-602. 3 Maria Helena da Cruz Coelho – “Concelhos”. de Oliveira Marques.cit. escrivães. 1993. 380-438. 1996.150 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Senhorios e concelhos foram. 143-153. de Armando Luís de Carvalho Homem e Maria Helena da Cruz Coelho). Do condado portucalense à crise do século XIV. Neste. pp.

regimento aplicável às terras cujas pautas não iam apurar ao Desembargo do Paço.SENHORIOS E CONCELHOS NA ÉPOCA MODERNA 151 res ou por juízes. 1997. método que. Braga. nos concelhos cujas pautas eram apuradas pela chancelaria desta casa. as eleições não eram feitas por pelouros. Joaquim Romero Magalhães – O poder concelhio. mas por favas. segundo Rogério Borralheiro. Estes instrumentos estão há muito identificados pela historiografia construída com base em fontes legislativas e doutrinárias. Das Origens às Constituintes. apresentava como principal objectivo impedir “subornos e desordens” ocorridos nos processos eleitorais. ou às integradas nos termos dos concelhos. cit. Como bem observou Rui Santos. “Análise Social”. O regimento para a eleição dos vereadores de 1611. favoráveis à prossecução dos seus interesses. Senhores da vila: elites e poderes locais em Mértola no século XVIII.º). nas terras da Casa de Bragança o processo eleitoral não seguia o modelo das terras régias e senhoriais. Na prática este regimento aplicou às terras senhoriais. a legislação que regulava os processos eleitorais. no entanto que. o processo eleitoral em vigor nas terras da Coroa. bem como em documentos que enunciam os poderes senhoriais. bem como a forma como esses processos decorriam. no entanto. A intervenção senhorial na escolha dos elencos camarários decorria. inserindo-se assim num processo de uniformização de práticas judiciais e administrativas locais. do autor. O que importa saber é. confirmar ou apurar os oficiais das governanças. do seu poder de apresentar. 1993 (2. pp. Op. . 141-144. pp. bem como atribuía um papel mais interveniente da vereação cessante na escolha da nova vereação7. circunstância que podia interferir na selecção das pessoas que eram integradas em pauta. nomeadamente o facto de se colocarem no governo das terras pessoas que não tinham as “qualidades para servirem”6. Administração. Com efeito. XXVIII (121). nomeados pela entidade senhorial. A forma como se processavam as eleições nas terras da Casa de Bragança reforçava essa característica do sistema. de fora ou ordinários.. ed. e saber igualmente se esses instrumentos geraram “sujeições e obediências”. Sociedade e Economia. igualmente. De notar. 6 Maria Helena da Cruz Coelho. fazia com que o sistema de escolha das vereações fosse auto-reprodutivo8. conferia uma “forte autonomia ao Duque face ao Rei”. 345-369. tornando muito mais difícil a penetração de novos membros no seio das oligarquias fiéis às casas senhoriais. como é que os senhores utilizaram os instrumentos de que dispunham. 7 Rogério Capelo Pereira Borralheiro – O Município de Chaves Entre o Absolutismo e o Liberalismo (1790-1834). 8 Rui Santos – Senhores da terra.

pessoas indicadas pelo donatário que não constavam das pautas. 160-165). Alguns acompanharam muito de perto as práticas de governo. Porto. Afirmavam “que as eleições deveriam ser feitas só pelos povos e o mosteiro abusando mandava a ellas presidir dois religiosos e nellas faziam votar as pessoas que os ditos religiosos lhe parecia sahindo eleitos todos os seus afilhados”11. 9 Sérgio Soares – O ducado de Aveiro e a vila da Lousã no século XVIII (1732-1759). 2 vols. o procurador e outros oficiais concelhios. na primeira metade do século XVIII. As pessoas “principais da terra”. detentoras de propriedades vinculadas em morgadio. 2003. concelho integrado na ouvidoria de Montemor-o-Velho. exploração e produção agrícola no Vale do Cávado durante o Antigo Regime. o escrivão do couto Brito Aranha era “ o mais grosso detentor de terras arrendadas” ( Aurélio de Oliveira – A Abadia de Tibães. por vezes. Em 1718. 1979. os moradores do couto de Tibães denunciaram as intromissões do donatário nas eleições. 1630/80-1813. A acção dos donatários não se confinava. 11 Neste couto o juiz era escolhido com base em dois nomes eleitos pela população.. “ARUNCE”. policopiada. porém. Coimbra: Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. exerceram o cargo de vereadores. substituíram o oficialato local na governança da terra (Maria do Rosário Castiço de Campos – Redes de Sociabilidade e Poder. quatro carneiros e 12 galinhas. p. Sérgio Soares num estudo referente a este município concluiu que o governo concelhio era exercido pelo oficialato local provido pelo Duque de Aveiro que se comportava como uma clientela na estreita dependência da casa senhorial9. o que evidencia a intervenção directa da casa senhorial na selecção dos elencos camarários10. dissertação de doutoramento policopiada). na Lousã. Com efeito. Com efeito. dependente da Casa de Aveiro. pp. Propriedade. n. Lousã no século XVIII. A intervenção do poder senhorial nas eleições foi. . Por sua vez. a partir de meados do século XVIII verificou-se um processo de elitização dos elencos camarários. Na sua dependência. com as confirmadas por esta Casa levaram o mesmo autor a concluir que o Duque não se limitava a confirmar as listas decorrentes dos processos eleitorais locais.. A cerimónia de investidura realizava-se na Abadia. a passagem do domínio da Casa de Aveiro para o da Coroa levou a uma reconfiguração social das vereações. 58 10 De notar ainda que. neste município. o confronto entre as listas das pessoas nomeadas em pauta. considerada abusiva.º 11-12. devendo o juiz fazer oferta ao mosteiro de 4 leitões. Por sua vez.152 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Outro caso em que se evidencia um forte controlo senhorial dos governos concelhios é o do município da Lousã. ficavam os vereadores. suscitando a contestação das comunidades. à intervenção na escolha das elites concelhias. e enviadas à casa de Aveiro.

exerceram um controlo apertado sobre as governanças concelhias do couto.] de modo que quem julgava era o frade e os officiais viam-se metidos a testemunhas” (Op. os frades determinaram que não se deixasse “abrir monte sem licença de quem presidir no Mosteiro e de nenhuma sorte se conceder licença a Camara do Couto para os abrir” (Op. diversas articulações entre poder senhorial e concelhio. 1989. Teresa – Administração senhorial e relações de poder no concelho do Vimieiro (1750-1801). 1998.. de Aurélio de Oliveira acerca dos coutos beneditinos de Tibães na época moderna14 e o estudo de Teresa da Fonseca relativo à administração senhorial no concelho de Vimieiro na segunda metade do século XVIII15. Um dos donatários. Aguardam-se os estudos monográficos que permitam esclarecer a forma como interactuaram estes dois poderes. João de Bragança. Para além da fruição de prerrogativas concedidas pelo monarca. exploração e produção agrícola no Vale do Cávado durante o Antigo Regime. 168). 64. cit. 13 Jorge Fonseca – Montemor-o-Novo no século XV. 1630/80-1813. 14 Aurélio de Oliveira – A Abadia de Tibães. Op. a partir dos finais do século XVII. As investigações já realizadas revelam-nos. nomeando ouvidores. VI. pp.SENHORIOS E CONCELHOS NA ÉPOCA MODERNA 153 O conhecimento histórico sobre as relações entre donatários e câmaras é ainda escasso. D. testemunham um “efectivo domínio das instituições concelhias por parte de donatários”16.. nos diversos municípios com tutela senhorial12. ao longo da época moderna.. Neste couto.. substituindo-se às justiças locais na decisão de matérias de interesse para o senhorio – caso da gestão dos espaços incultos18. os abades de Tibães.cit. o 12 Para a época medieval vide Maria Helena da Cruz Coelho – Entre poderes – Análise de alguns casos na centúria de quatrocentos. juízes ordinários. p. Porto. 166). Arraiolos. 17 Jorge Fonseca – Montemor-o-Novo no século XV. tabeliães e dando posse às vereações e outros oficiais. desempenhou todos os direitos inerentes à jurisdição cível e crime. Separata da “Revista da Faculdade de Letras”. . vol. p. 15 FONSECA. No século XV. em capítulo realizado em 1770. entretanto. Os estudos de Jorge Fonseca sobre Montemor-o-Novo no século XV13. Montemor-o-Novo. facto que motivou um pedido do concelho ao monarca no sentido de o manter “em sua antyga liberdade” quando se conseguiu libertar da tutela senhorial17. 1998.cit. Op. Propriedade. 67.. Por sua vez. 103-135.cit. p. p. Por sua vez. 18 Em 1718 os moradores do couto afirmavam que “a Abbadia se intrometia nas correições que a camara fazia 2 vezes por anno mandando juntamente um religiozo[. Câmara Municipal de Montemor-o-Novo. II série. este senhor ultrapassou os limites do seu poder. 16 Idem. a jurisdição em Montemor-o-Novo foi exercida por entidades senhoriais. Câmara Municipal de Arraiolos.

. Neste condado. tendo sido os vereadores ameaçados com penas pecuniárias e de prisão se não executassem as ordens do ouvidor. atitude que motivou. impondo a observância da lei. Segundo a mesma autora. vol. IV. 255-271. como acontecia com o poder régio. favorável às boas práticas da governação concelhia e à prossecução do bem comum. Com efeito. p. Revista de Ciências Históricas. 21 Idem. Com efeito. O controlo apertado da actuação das vereações e a “usurpação” das suas competências foi possível. a atitude “vigilante e autoritária” do conde D. Sancho de Faro e Sousa conferiu “alguma regularidade e disciplina à administração municipal”19. Outro tipo de relação entre donatário e concelhos é o evidenciado no estudo de Francisco Ribeiro da Silva sobre a “Estrutura administrativa do condado da Feira”. 260 . p. Os ouvidores deste senhorio revelaram um particular empenhamento na defesa dos interesses das populações. pp. algumas vezes requerida pelos próprios vereadores vimieirenses em matérias que lhes suscitavam dúvidas ou naquelas em que era difícil obter consensos.154 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS donatário deixava para a câmara apenas as matérias relativas à regulamentação do comércio local. defendendo a jurisdição do Donatário e os direitos dos vassalos”21. por vezes. A perda de autonomia municipal terá sido. uma intervenção autoritária nas práticas de governo concelhio. devido à proximidade física dos donatários das terras que dominavam. no entanto. os donatários do Vimieiro apropriaram-se das funções administrativas da câmara esvaziando-a das competências exercidas por outros municípios. cit. a distância terá condicionado o exercício do poder senhorial. 1989. nos casos atrás enunciados. este autor considera ter existido “compatibilidade entre o domínio senhorial e o municipalismo” e “que a dinâmica municipal pôde processar-se na dependência directa de um senhor de vassalos sem que as instituições concelhias fossem bloqueadas”20. Francisco Ribeiro da Silva – “Estrutura administrativa do condado da Feira no século XVII”. neste caso. Assumindo posição idêntica aos abades de Tibães. Teresa Fonseca defende ainda que as práticas esclarecidas de exercício do poder dos senhores de Vimieiro se caracterizaram pelo respeito pelo poder régio e pelo empenhamento no cumprimento das leis. A intervenção senhorial na governação concelhia foi. 65. o exercício do poder senhorial foi desempenhado pelo ouvidor que acompanhou “muito de perto a acção governativa” da câmara. “denunciando ilegalidades. 19 20 Op.

20 mil réis “pelos arrendamentos que fez a favor do Duque”. na escolha dos elencos camarários. Para além do papel mais ou menos interveniente dos donatários e dos oficiais por eles providos. em estudo relativo à Lousã. O Governo e a administração económica e financeira. comportando-se os ouvidores-provedores nomeados pelo donatário como magistrados régios22. 24 Mafalda Soares da Cunha – A Casa de Bragança (1500-1640). D. o seu sucessor.. bem como no cumprimento de outras funções. pp. variar em função da conjuntura e dos seus interesses pessoais. assim. caso dos ouvidores. Referindo-se aos juízes de fora providos pelo duque de Bragança. podia condicionar a prossecução das suas próprias carreiras. Lisboa. 291. De notar ainda que mesmo a 22 O Município de Braga de 1750 a 1834.SENHORIOS E CONCELHOS NA ÉPOCA MODERNA 155 Como decorre do atrás exposto. Práticas senhoriais e redes clientelares. Compreende-se que assim fosse se tivermos em conta que o bom desempenho das clientelas senhoriais no exercício do governo concelhio. Dom Gaspar. no reinado de D. p. Por sua vez. convinha apurar se as práticas dos governos concelhios que passavam pelo crivo da selecção das casas senhoriais se pautaram ou não pela defesa dos interesses dessas casas. seria novamente recompensado com a quantia de 12 mil réis pelos arrendamentos feitos na Comarca de . na casa de Bragança. já exerceu o seu poder em articulação com a “política nacional”. Percursos bem sucedidos podiam mesmo conduzir ao cargo de desembargador da Casa”24. no entanto. ouvidor das comarcas de Barcelos e Bragança. José de Mascarenhas. defendendo as suas jurisdições contra as investidas das justiças régias”. o Arcebispo de Braga. 2000. recebeu. bem como a obtenção de outros recursos senhoriais. p.59. 1991. 23 Cit. José Viriato Capela demonstra que. 9 e 15. Nesta matéria. de um bom desempenho na cobrança de rendas. Braga. convergindo. em 1587. Ora um percurso bem sucedido de ouvidor podia decorrer. função que recorrentemente assumiram25. o comportamento dos donatários podia. Estampa. João V. concluiu que o grupo de oficiais que estava dependente da distribuição dos “recursos senhoriais” da casa de Aveiro se constituía como um núcleo de “obediências e fidelidades senhoriais”23. governou “o senhorio temporal da cidade e seus coutos com poder soberano e postura de príncipe. Em 1589. 25 Tomé de Mesquita. Mafalda Sousa Soares afirma que “a maioria ascendia a ouvidores depois de exercer o cargo de juiz de fora em vários concelhos do senhorio. o poder senhorial com o poder régio na submissão do poder concelhio. Sérgio Soares. as atitudes do donatário do Vimieiro e dos ouvidores do condado da feira actuaram no sentido da aplicação das leis e ordens régias.

pp. 27 Nuno Gonçalo Monteiro – O espaço político e social local. considerava que devia ser ouvida quando se avaliava o desempenho desses oficiais no momento do apuramento das residências. p. A atitude das vereações concelhias. 46. 274-318. Ponta Delgada no séc.1985. Nestes. os deputados da Junta da Fazenda protestaram contra a nomeação do juiz de fora de Viseu para o exercício do mesmo cargo em Lamego. De facto. .. cit. Nuno Gonçalo Monteiro . em “Ler História”. Teodósio I. p. De acordo com este entendimento. Manuel Inácio Pestana – Barcelos nos Arquivos da Casa de Bragança. muitas câmaras assumiram no movimento de contestação anti-senhorial a defesa dos interesses das comunidades que governavam – interesses que. de menor monta nos pequenos concelhos. sublinhe-se. decorrer do relacionamento pessoal entre as vereações e os donatários. o exercício do governo concelhio ao longo do século XVIII deixou de ser. Lisboa. 159. Instituto Cultural de Ponta Delgada. As “obediências e fidelidades senhoriais” podiam. concluiu que as casas senhoriais não tinham capacidade de controlo sobre os governos das terras27. em muitos casos.156 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS carreira dos oficiais régios podia ser afectada pela forma como desempenhavam determinados serviços às casas senhoriais. recursos que seriam significativos nas vilas e cidades. XVII. seria naturalmente condicionada pelos recursos que estas tinham para distribuir. Devido a esta circunstância. em 11 de Novembro de 1786. enquanto vereadores. ainda. n.Lavradores. relativamente à defesa dos interesses das casas senhoriais de que estavam dependentes.º 4. Mercês do Duque D. José Damião Rodrigues demonstra que “o compadrio e o clientelismo” são factores a ter em conta na compreensão das relações entre poder senhorial e poder municipal em Ponta Delgada no século XVII26. 1(2) 1983. 26 José Damião Rodrigues – Poder municipal e oligarquias urbanas. Bragança (cf. situação que se revelaria propícia à desobediência às entidades senhoriais das quais estavam dependentes. Nuno Monteiro invocando o comportamento dos oficiais concelhios nas terras do mosteiro de Alcobaça. pp. A Universidade de Coimbra possuía o privilégio de poder recorrer aos juízes de fora e corregedores para executar os seus devedores. 31-87. Separata de “Barcellos-Revista”. eram também os seus. pelo facto de este não ter tido um bom desempenho na execução das dívidas da Universidade. um beneficio para se constituir como um pesado encargo a que muitos tentavam fugir. Frades e Forais: Revolução Liberal e Regime Senhorial na Comarca de Alcobaça (1820-1824). Ponta Delgada. e enquanto pagadores de direitos senhoriais – em detrimento das instituições que os tutelavam. 1994. nos finais do Antigo Regime.

entretanto. confrontar uma vereação concelhia “rebelde” com um documento em que vereações anteriores tinham reconhecido 28 Margarida Sobral Neto – Terra e Conflito. 179-320. tentando.SENHORIOS E CONCELHOS NA ÉPOCA MODERNA 157 Uma análise detalhada das atitudes das governanças. ao longo dos conflitos. 1997. bem como os direitos que lhe eram devidos. originado pela recusa de pagamento de direitos senhoriais e contestação de domínio directo do mosteiro de Santa Cruz de Coimbra (Licínio Gomes Neves – A comunidade rural de S. . no momento da realização de um tombo. alguns consagrados em forais. pp. por norma. Palimage Editores. mais forte do que a dos concelhos. em 9 de Julho de 1814. 29 Por terem recusado reconhecer o mosteiro de Celas (Coimbra) como donatário de Eiras. Já os juízes ordinários se manifestaram. mais prudentes no apoio explícito às populações28. Coimbra. De notar ainda que são muito frequentes. leva-nos. aquando da realização dos tombos os oficiais concelhios eram chamados a reconhecer o domínio das casas senhoriais. sobretudo aqueles que seguiam as vias judiciais. redes e dinâmicas sociais. pelo tribunal da Relação do Porto.João do Monte: propriedade e relações sociais (1786-1820). a posição dos senhorios era. e consequentes proclamações de obediência. assim. Faculdade de Letras. Um deles era o que registava os “reconhecimentos” feitos pelos oficiais concelhios no momento da elaboração dos tombos. as desistências da contestação. 2003. ao pagamento de uma indemnização ao convento (Ana Isabel Sacramento Sampaio Ribeiro. João do Monte ao pagamento das custas de um processo judicial. pp. salvaguardar-se das represálias motivadas pela desobediência às casas senhoriais. A comunidade de Eiras nos finais do século XVIII. tese de mestrado policopiada. 21-30). bem como a identificar algumas variações na atitude que manifestaram durante os processos de contestação. Não era. 2003. Região de Coimbra. O mesmo tribunal condenaria. por exemplo a perda das terras que agricultavam ou o pagamento de indemnizações às casas senhoriais ou custas de processos29. a introduzir alguns matizes no comportamento dos diversos membros das vereações. alguns moradores foram condenados. 1700-1834. 177-183. assim como de outros poderosos locais. portanto difícil. se revelaram mais rebeldes assumindo protagonismo em alguns movimentos. pessoas que por norma tinham uma condição social inferior à dos vereadores. tese de mestrado policopiada. em 7 de Janeiro de 1749. quando se apercebiam que não conseguiam atingir os seus objectivos. pelo menos dos pequenos concelhos. Os estudos que tenho elaborado sobre esta matéria levam-me a concluir que os procuradores dos concelhos. como era. os moradores de S. dos pequenos concelhos. Estruturas. pp. Coimbra. Viseu. porque se podia apoiar em múltiplos argumentos jurídicos. Em momentos de contestação. por norma. Com efeito. por parte dos membros da vereação. Faculdade de Letras.

Poder e poderosos. 30 Margarida Sobral Neto – Regime senhorial em Ansião. Um dos conflitos ocorreu com o mosteiro de Grijó (Inês Amorim. De facto. 1997. 1700-1834. I. 31 António de Oliveira – A vida económica e social de Coimbra. Porto.cit. senhorio territorial deste lugar. Op. A posse alicerçada na tradição imemorial. exercendo os senhorios.I. Problemas que se materializaram na tentativa de apropriação da jurisdição crime por parte dos donatários que apenas detinham a cível. evidenciaram os múltiplos problemas com que a vereação coimbrã se deparou nos lugares do termo em que exercia apenas a jurisdição crime. António de Oliveira e Sérgio Soares. doada a Dom Luís de Meneses. entretanto. A partir do momento em que Ansião. 59-94. 32 Margarida Sobral Neto – Terra e Conflito. vol. Os homens . ou na dificuldade em cobrar impostos municipais nas áreas em que detinha apenas jurisdição cível31. contava com o apoio de outro senhor. assumindo a vereação um evidente protagonismo30. a jurisdição cível e/ou crime. a contestação ao mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. nos estudos que realizaram sobre o município de Coimbra. Coimbra. Atitudes mais radicais das vereações ocorreram. O mosteiro de Grijó. pp. Região de Coimbra. um dos lugares do termo de Coimbra. Coimbra. estrutura e exploração do seu domínio). quando um concelho em luta contra uma casa senhorial. confrontou-se ao longo do século XVIII com idêntico problema. concelho em cujo termo senhoreavam também vários senhores leigos e eclesiásticos. entre casas senhoriais e câmaras. 1985. situação que provocava frequentes conflitos de jurisdição32. 1995. tese de doutoramento policopiada. as instituições e o poder. 1971. Senhorio e propriedade: 1520-1720 (formação. 89-95.158 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS a obrigação de satisfazer ao senhor tributos. foi desmembrado deste concelho para assumir o estatuto de vila. em alguns lugares do termo. 1993. e consequentes conflitos. foi particularmente evidentes nos termos das vilas e das cidades em que a sede concelhia estava na dependência régia. . I. Sérgio Cunha Soares – O Município de Coimbra da Restauração ao Pombalismo. vol. A vereação de Montemor-o-Velho. que eram objecto da sua contestação. 33 Francisco Ribeiro da Silva – O Porto e o seu termo (1580-1640). argumento que lhes ditou muitas sentenças favoráveis. O foral manuelino e seus problemas nos séculos XVII e XVIII. intensificou-se. na maioria dos concelhos do termo apenas exercia jurisdição crime. e outras “opressões”. vol. Faculdade de Letras. por vezes reconhecida pelas câmaras. 28. foi um poderoso argumento invocado pelas casas senhoriais em momentos de conflito com as comunidades locais. Coimbra. Faculdade de Letras. Conflitos de jurisdição ocorreram igualmente entre a câmara do Porto e os donatários que senhoreavam no termo da cidade33. “Revista Portuguesa de História”. pp. A concorrência. Braga.

Poder e Poderosos na Idade Moderna. Teresa Fonseca. Sobre o relacionamento entre a câmara de Évora e outras instituições da cidade cf. vol. Op. ou pelos seus representantes. Évora 1750-1820. Entre eles destacam-se as regalias em matéria de abastecimento de carne. cit. peixe e água. em 1750. I. na região de Coimbra. Margarida Sobral Neto – Terra e Conflito. pp. por elas confirmadas. e que podia condicionar o jogo de forças a nível local. anulando assim funções de controlo do exercício do poder senhorial assumidas por aquele36.cit. 352-353. Nos finais do século XVIII. Op. Os senhorios não jurisdicionais possuíam outros instrumentos. .. Acrescente-se ainda que o conservador da Universidade chegou a contradizer posições assumidas pelo ouvidor da mesma instituição.. 121-124. Entre eles destaca-se a prerrogativa de possuir juiz privativo35. que julgava. As instituições senhoriais sediadas sobretudo nas cidades usufruíam de outros privilégios que colidiam com o exercício das competências das câmaras.. “subtraindo-o” às câmaras. cit. era a capacidade de intervenção na escolha de oficiais das orde- 34 35 36 37 Em 1724 estava preso. 1700-1834. por norma. 62. Outro poderoso instrumento que detinham algumas casas senhoriais. pp. pp. em desfavor das populações. As pastagens de animais pertencentes a comunidades religiosas suscitaram também frequentes conflitos37. foram presos o procurador do concelho de Algaça e os juizes do concelho de Canedo e Hombres (Cf. várias são as queixas contra o conservador da Universidade. Região de Coimbra. 341-351. que podiam ir até à prisão de juízes ordinários em casos de clara desobediência34. Sérgio Cunha Soares – O município de Coimbra da Restauração ao pombalismo. Mas os concelhos não foram condicionados apenas pelas entidades que detinha direitos jurisdicionais nos seus territórios. in “História de Portugal”. que poderiam ser accionados contra quem contestasse o seu poder. cit. na cadeia de Coimbra.) Nuno Gonçalo Monteiro – O poder senhorial. De notar que as vereações das sedes concelhias dispunham de instrumentos de coacção das justiças dos concelhos do termo. conferidos pelos monarcas. Op.. p. traduzia-se numa perda efectiva de controlo e de capacidade de dominação sobre o governo dos termos concelhios. o procurador do concelho de Algaça. por ser “cabeça de motim em os juizos das sete varas de Poiares se levantarem contra a jurisdisam do Senado da Camara”. mas serem investidos pelos donatários. facto que se repercutia muito negativamente no exercício do poder concelhio.. Op.SENHORIOS E CONCELHOS NA ÉPOCA MODERNA 159 O facto de os juízes de primeira instância das localidades do termo concelhio não serem confirmados pelas vereação da sede concelhia. Absolutismo e municipalismo. juiz privativo de várias casas senhoriais. Por sua vez. estatuto nobiliárquico e aristocracia.

Das Origens às Constituintes. entretanto. Teresa Fonseca – Relações de Poder no Antigo Regime. 152-163. p. os capitães de ordenança efectuaram a cobrança de rendas assegurando. A administração municipal em Montemor-o-Novo (1777-1816. se o conflito marcou muitas vezes o relacionamento entre poderes concelhios e senhoriais. Mas no movimento de contestação anti-senhorial os capitães de ordenanças assumiram atitudes diversas. Nuno Monteiro invocando o papel de liderança dos capitães de ordenanças no movimento de contestação anti-senhorial afirmou que o facto de o cargo ser vitalício conferia aos capitães uma margem de liberdade relativamente às entidades que os tinham nomeado. cf. in César de Oliveira (dir. revelaram-se como instrumentos favoráveis à apropriação de recursos nas áreas con38 Sobre os poderes e a organização das ordenanças. ou a avidez. Horta. assumiram-se como zelosos defensores dos interesses dos senhorios (que eram também os seus) contra os das comunidades. as mãos do poder senhorial que invadiam os campos. Nestes casos. Argumento pertinente. os celeiros e os lagares esbulhando os camponeses de uma parte substancial do produto do seu trabalho. Op. Ora. pp. Com efeito. 1998. . levaria. as receitas que alimentavam as casas senhoriais. cit.) – História dos Municípios e do poder local. Na verdade. Rodrigues. Um exemplo paradigmático é revelado por Nuno Monteiro: o caso de um capitão-mor. O excesso do zelo com que pautou a sua acção. José Damião – Orgânica militar e estruturação social: companhias e oficiais de ordenança em São Jorge (séculos XVI-XVIII). 352. 31-32. Câmara Municipal de Montemor-o-Novo.. rendeiro do Marquês de Marialva. os poderes jurisdicionais. o próprio Marquês de Marialva a afastá-lo do exercício da actividade de rendeiro39. deste modo. o excesso de zelo. Um dos principais alvos de contestação das populações foram os cobradores de rendas das casas senhoriais. separata de “O Faial e a periferia açoriana nos séculos XV a XX”. Maria Helena da Cruz Coelho. Como já afirmámos. cargos muito requeridos a nível local pelo prestígio que conferiam e também pela capacidade de domínio sobre as populações38.160 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS nanças. em defesa dos interesses do donatário. que se distinguiu pela sua capacidade de vencer a resistência da população e da câmara de Cantanhede ao pagamento dos pesados direitos senhoriais. Joaquim Romero Magalhães – O poder concelhio. Montemor-o-Novo. de alguns agentes senhoriais rompiam equilíbrios que os donatários queriam preservar. bem como outros privilégios de que os monarcas dotaram as casas senhoriais. 39 Nuno Gonçalo Monteiro – “Os Poderes Locais no Antigo Regime”. em tempos de instabilidade. pensamos que a situação de conflito não seria a desejada por instituições que viviam num sistema marcado pela coexistência de múltiplos corpos e poderes. pp. 1995.

e talvez o de maior peso. o que se reflectia negativamente nas finanças concelhias. assumiam-se como instrumentos favoráveis à apropriação de recursos económicos das comunidades. Estudos económico-administrativos sobre o município português nos horizontes da reforma liberal. em múltiplas áreas. Os historiadores que se têm dedicado ao estudo das finanças concelhias são unânimes em concluir que as dificuldades financeiras das câmaras foram um fenómeno estrutural no Antigo regime. rendimentos provenientes da gestão dos bens dos concelhos. Braga. 1995. 106-151. para atrair gentes aos seus territórios foi a concessão de privilégios aos seus “caseiros”. A administração municipal em Montemor-o-Novo (1777-1816. Por 40 José Viriato Capela – O Minho e os seus municípios. “Penélope”. cit. mas um deles. de participação em trabalhos exigidos pelas câmaras.. Alguns destes traduziam-se num conjunto de isenções relativas às obrigações concelhias: isenção do exercício de cargos concelhios. Como é sabido. municipais ou sobejos de tributos régios. Entre as dificuldades económicas das câmaras. A sociedade de Antigo Regime estruturava-se no privilégio. nomeadamente as praticadas contra a legislação municipal40. estradas. Esta gestão pressupunha a existência de uma máquina administrativa que para funcionar necessitava de financiamento.SENHORIOS E CONCELHOS NA ÉPOCA MODERNA 161 celhias. Teresa Fonseca – Relações de Poder no Antigo Regime. constituindo-se como um factor de bloqueio ao desenvolvimento das políticas concelhias. diminuindo a matéria colectável dos concelhos. coimas decorrentes de transgressões. Esta concorrência podia assumir diversas formas que passarei a explicitar. . pontes. e de pagamento de coimas e de tributos. pontes ou fontes. n. reparação de edifícios camarários ou de cadeias.º 7. Os privilégios senhoriais. Podem ser invocadas diversas explicações para os problemas financeiros das câmaras. Constituíam fontes de receitas das câmaras tributos. condição de diferenciação social transversal aos diversos grupos sociais. Foi em matéria de captação de proventos económicos que a concorrência senhorial foi particularmente evidente. para além do seu peso político e simbólico. em manifesto prejuízo do governança concelhia. Uma das estratégias utilizadas pelos senhores. caso das sisas. pp. na Idade Média. nomeadamente no que concerne à realização de infra-estruturas: construção de estradas. 1992. Este financiamento provinha de recursos gerados pela riqueza que se produzia no seio das comunidades. Luís Nuno Rodrigues – Um século de Finanças Municipais: Caldas da Rainha (1720-1820). foi a concorrência feita por estes na apropriação de recursos. Universidade do Minho. nas áreas de domínio de senhorios. destacava-se a de custear a reparação ou construção de caminhos. cabia às câmaras a gestão corrente da vida das comunidades. Op.

que era ciosamente guardado por aqueles que o usufruíam. exploração e produção agrícola (1570-1834). Nos conflitos entre senhores e câmaras motivados pela posse de áreas incultas – alguns deram origem a longos processos judiciais – estavam em causas motivações de natureza política.186).162 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS este motivo. Lisboa. a prestar serviços gratuitos. 43 José Viriato Capela – Tensões Sociais na Região de Entre-Douro e Minho.1984. 91-101. Margarida Sobral Neto – Terra e Conflito. as áreas incultas cobriam percentagens sig- 41 A existência de privilegiados. à partida. obrigando. Outro dos privilégios dos foreiros das casas senhoriais era a isenção de coimas. Imprensa da Universidade. tentavam obrigar os habitantes da comunidade que viviam do seu trabalho. Op. vol. sobretudo eclesiásticos. 1978. pp. Este privilégio.cit. o procurador da Câmara de Coimbra invocava a existência de muitos privilegiados na cidade para se eximir ao pagamento de uma finta para as obras do Reino (Aires de Campo – Questões forenses. jornaleiros ou lavradores. Ora os senhorios reivindicavam por norma o domínio directo sobre toda a área cultivada e inculta situada nas suas áreas de domínio.. as pessoas que possuíam o domínio útil de terras das casas senhoriais. Com efeito. 1700-1834. p. XVIII. XXXII. bem como pelas casas senhoriais que lho haviam concedido. 14.. 587-631. pp. no Séc. Julho-Dezembro.ª série (VII). ou jurisdicional. Um conflito em que por norma saíam vencedores os senhores. e de natureza económica. Coimbra. t. 183-223. 2. A apropriação dos recursos das áreas incultas constituiu um dos principais motivos de confronto entre senhorios. . volume III da 2. o que podia confinar a área do património concelhio a escassas terras42. Em 1618. e câmaras43. “Revista de História Económica e Social”. reflectia-se no quotidiano das comunidades. traduzia-se num forte constrangimento da acção camarária.Uma Provisão sobre Foros e Baldios: problemas referentes a terras de logradouro comum na região de Coimbra. as câmaras a realizar contratos de aforamento de terras incultas para preservar áreas de utilização comunitária. Ora do universo dos potenciais prestadores de trabalho gratuito excluíam-se. Região de Coimbra. abarcando agora um leque mais amplo. Muitas destas eram aplicadas às pessoas que transgrediam os regulamentos concelhios de utilização de áreas incultas. como era por exemplo a região centro41.. 42 Margarida Sobral Neto . mas também no país. susceptíveis também de gerar receitas para os municípios. “O Distrito de Braga”. pp.. 2000 (dissertação de doutoramento policopiada). propriedade. principalmente nas zonas onde se concentravam muitas casas senhoriais. Porto. Ana Isabel Ribeiro – Um conflito entre poderes na Gândara da Bunhosa no início do século XVII. 1858. por vezes. nomeadamente as áreas de pastagem. Salvador Mota –O senhorio cisterciense de Sta Maria de Bouro: património. “Revista Portuguesa de História”.

que se pautavam pela auto-suficiência. por parte dos senhorios. aliás. no entanto. num tempo em que a renovação da fertilidade da terra passava pela utilização de adubos vegetais e animais a subtracção de terras que eram o suporte para a criação desses fertilizantes afectava os níveis de produção e de produtividade com repercussões directas no abastecimento em cereais. intervinham. isto é. no comércio de géneros alimentares. Muitos forais manuelinos que reconheciam o domínio senhorial sobre as terras incultas. Por sua vez. contrariando. Ora. directamente aos senhorios. também. sector no qual o abastecimento se assumia como principal preocupação. uma parte significativa da produção agrícola destinava-se ao pagamento de diversos direitos às casas senhoriais. as câmaras para além de intervirem na agricultura. por norma. Mas os prejuízos mais visíveis eram de facto os de natureza económica: a impossibilidade de utilizar as terras incultas como fonte de receita significava uma enorme perda para as receitas municipais. Em articulação com as políticas de abastecimento. determinavam que a sua alienação fosse feita “em camera”. Estas eram assim detentoras de produtos agrícolas para consumo nas próprias casas. situando-se parte delas nas zonas fronteiriças entre concelhos. a diminuição das áreas de pastagem provocava uma diminuição da criação de gado o que interferia igualmente no abastecimento. Este pagamento não era feito. As casas senhoriais comportavam-se. o que estava disposto na lei. nesta área as políticas concelhias podiam ser afectadas pelos interesses dos senhores. o domínio das casas senhoriais sobre os incultos era abusivo. como afirmou Aurélio de Oliveira. Ora a impossibilidade de controlar os usos dessas áreas acarretava uma perda efectiva de poder sobre o território concelhio. A cobrança era intermediada através de contratadores de rendas que. Com efeito. também. base da alimentação das populações. no entanto. Tendo em conta a complementaridade existente entre áreas cultivadas e incultas as alienações destas. o grosso a ser comercializado. destinando-se. Este facto repercutia-se negativamente no exercício de uma das principais competências dos concelhos: o governo económico. alienando os espaços incultos sem consultar as vereações. seriam os grandes negociantes de pro- . no sentido de evitar a saída de produtos necessários ao consumo do concelho. enquanto entidades a quem competia salvaguardar o bem comum. Com efeito. como senhoras absolutas do que consideravam os seus domínios.SENHORIOS E CONCELHOS NA ÉPOCA MODERNA 163 nificativas dos territórios concelhios. após a consulta das vereações. e também das câmaras. provocaram um desequilíbrio susceptível de afectar a produção e produtividade agrícola bem como a criação de gado. Em muitos casos.

Op. 45 Conhecem-se casos de câmaras que mandaram colocar cadeados em celeiros dos senhores para impedir o desvio de cereais em tempos de carestia. por causa do exclusivo senhorial do fabrico do azeite (Ana Isabel Sacramento Sampaio Ribeiro. Em 1483. tal como ela se exprimiu de uma forma particular nos finais do século XVIII. A comunidade de Eiras nos finais do século XVIII. provocada pela diminuição da oferta. o concelho de Montemor-o-Novo solicitou a D. 47 Nuno Gonçalo Monteiro – O poder senhorial. p. . E observou ainda que “tanto para os donatários leigos como para os eclesiásticos o 44 Aurélio de Oliveira – A renda agrícola em Portugal durante o Antigo Regime (Séculos XVII-XVIII). 46 A população de Eiras e o mosteiro de Celas confrontaram-se. Com a mesma política colidiam os monopólios senhoriais de fabrico de azeite. estatuto nobiliárquico e aristocracia. com as necessárias consequências negativas para alguns estratos da população. “Revista de História Económica e Social”. Com efeito. n. Alguns estudos sobre rendas agrícolas. 67). 357. in “História de Portugal”. de acordo com o estabelecido nas Ordenações um terço da produção teria que ficar sempre no concelho em que era produzido. apesar dos protestos das populações e das câmaras46. p. João II “que lhe permitisse tomar posse de certa quantidade de cereal. o facto de uma parte significativa da riqueza produzida numa comunidade ser canalizada para as casas senhoriais. 1-56. pp. Mas o problema não residia apenas no eventual desvio de produtos necessários ao abastecimento local. vinho ou pão. privilégios ciosamente preservados pelos senhores. Mas teriam os contratadores de rendas respeitado sempre esse princípio? Esta é uma pergunta que eu venho a colocar aos documentos há já algum tempo. o principal problema residia no excessivo peso da tributação senhorial que asfixiava a vida económica local. Ora. não se verificando retorno em investimento. Nuno Monteiro observou que a “questão senhorial”. Alguns aspectos e problemas. Estruturas. pelo menos na zona de Entre Douro e Minho44. atestam bem esta realidade. nomeadamente os decorrentes da subida de preços. ao longo do século XVIII. “se confundia com a cobrança de direitos e não com as jurisdições”47.164 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS dutos agrícolas. redes e dinâmicas sociais. de que o marquês se tinha apoderado”( Jorge Fonseca – Montemor-o-Novo no século XV.º 6. Julho-Dezembro de 1980.cit). bem como o movimento de contestação anti-senhorial. comprometeu a vida económica das comunidades e consequentemente as políticas concelhias. mas para a qual não tenho encontrado muitas respostas45. pertencente ao município. Ora. o sistema de cobrança de rendas utilizado pela maioria das casas senhoriais poderia contrariar a política de autarcia económica prosseguida pelos municípios.

Cosmos.o-Novo. Sociedade Portuguesa de Estudos do Século XVIII. in “Origens do Estado Moderno (Revista Século XVIII)”. 1997. o desempenhado pelos cobradores de rendas ou pelos executores das casas senhoriais. ao longo da época moderna. à aplicação integral da legislação que. promovidas pelas vereações. in “Poder central. .SENHORIOS E CONCELHOS NA ÉPOCA MODERNA 165 número de concelhos em que recebiam direitos com jurisdição era idêntico ao daqueles em que cobravam direitos sem jurisdição”48. Consideramos que o atrás exposto pode sustentar a tese de que o exercício do poder concelhio foi fortemente condicionado pelo poder senhorial com quem teve de partilhar jurisdições. e sobretudo recursos. A força do poder senhorial resistirá. agora reduzidos em número. 2000. entretanto. Uma perspectiva histórica”. No quotidiano da vida das comunidades o poder senhorial mais sentido pelas populações era. Esta situação explica a conflitualidade que. será cerceada pelo poder central50. A libertação dos municípios da tutela senhorial ocorrerá apenas na sequência da revolução liberal. Luís Nuno Espinha da Silveira – Estado liberal e centralização. Reexame de um tema. no momento em que a autonomia dos concelhos. que se intensificou na época pombalina decorrente das políticas. o exercício dos poderes senhoriais constitui-se como um factor limitador da autonomia das câmaras e fortemente condicionante do exercício das políticas concelhias. 356-357. poder local. Lisboa. Com efeito. poder regional. Câmara Municipal de Montemor. nomeadamente provedores e corregedores49. tendentes a libertarem-se das presenças senhoriais nos territórios concelhios. pp. 65-84. políticas que foram coadjuvadas pelos oficiais periféricos da Coroa. Margarida Sobral Neto – Poder central e poderes locais na época pombalina. 1999. Lisboa. na última década do séc. de facto. se gerou entre senhorios e municípios. Paulo Jorge da Silva Fernandes – Elites e finanças municipais em Montemor-o-Novo. Do Antigo Regime à Regeneração (1816-1851). XVIII aboliu os direitos jurisdicionais concedidos aos donatários. poder. 50 Sobre as transformações ocorridas na vida municipal no período liberal vide. pp. 48 49 Idem.

destacando-se. e para o País Basco os trabalhos de Jon Arrieta Alberdi16. Trata-se de investigações que muito contribuíram para esclarecer o papel político desempenhado pelas assembleias de Cortes. Thompson3. de I. Gelabert9.Entre o centro e as periferias. entre os muitos estudos que poderiam ser citados. 2005. de José Manuel de Bernardo Ares8 ou de Juan E. de Angel Casals12. assistiu-se também ao surgimento de uma série Notas no final do trabalho. . Assim. veja-se os estudos de Fernando de Arvizu y Galarraga15. pp. de Oriol Oleart i Piquet13 ou de Joan Lluis Palos Peñarroya14. A. são hoje uma referência obrigatória os trabalhos de Pablo Fernández Albaladejo1. de Luis González Antón5. Convém frisar que o interesse pelas assembleias representativas não é exclusivo dos historiadores que trabalham sobre a Península Ibérica19. de História) Após duas décadas de significativos desenvolvimentos historiográficos. de José Ignacio Fortea Pérez2. hoje dispomos de um conhecimento bastante razoável acerca as assembleias representativas da época moderna. A. e no que toca às Cortes de Castela-Leão. Acerca das instituições representativas de Navarra. os trabalhos de Luis González Antón. mas também as investigações de Ernest Belenguer Cebrià11. para a Galiza cumpre ter em conta as investigações de Manuel Artaza Montero17 e de María del Cármen Saavedra Vázquez18. de J. A assembleia de Cortes e a dinâmica política da época moderna* PEDRO CARDIM (Universidade Nova de Lisboa – Dept. M. Grande parte dos estudos que foram realizados incidiu nas instituições representativas dos reinos ibéricos que integraram a Monarquia Hispânica. de Charles Jago7. de Juan Luis Castellano6. Os órgãos representativos de Aragão e da Catalunha também mereceram alguma atenção. Em Inglaterra. de Xavier Gil Pujol10. 167-242. Os Municípios no Portugal Moderno: dos forais manuelinos às reformas liberais Lisboa. Edições Colibri – CIDEHUS-UE. Carretero Zamora4. por fim. por exemplo.

a recente historiografia manifestou algum interesse pelo estudo das assembleias representativas do Portugal da época moderna. de Pedro Cardim45 ou de Ângela Barreto Xavier46. de Armindo de Sousa35. Todavia. urge levar a cabo o estudo comparativo. de António Manuel Hespanha42. demasiado vasta para ser aqui apresentada. As instituições representativas de outras partes da Europa moderna. Todavia. está por fazer a análise. em particular enquanto espaço de articulação entre os poderes locais e a Coroa. de Maria Helena da Cruz Coelho36. do contexto em que cada uma delas se realizou. das reuniões de Cortes. dos estudos de Henrique da Gama Barros30. também foram objecto de aturado estudo. continuam à espera de um estudo aprofundado. As Cortes do século XVI. Importa aprofundar. e ao contrário do que sucede para as Cortes da Idade Média – período para o qual dispomos dos trabalhos de José Mattoso34. e a despeito do trabalho que foi realizado. ainda não existem estudos abrangentes sobre o conjunto das reuniões dos séculos XVI e XVII. assinadas por historiadores como Blair Worden21. e. algumas das mais importantes investigações sobre a história política e administrativa do Portugal Moderno contribuíram para uma compreensão aprofundada do lugar das Cortes no sistema político. nos contributos de Joaquim Romero Magalhães38. de Luís Reis Torgal41. Por outro lado. . tendo em vista captar a percepção que os povos peninsulares tinham das assembleias representativas realizadas nos reinos vizinhos. à escala ibérica. de que resultou uma volumosa bibliografia.168 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS de obras dedicadas ao Parlamento dos séculos XVI e XVII20. antes de mais. de Eduardo Freire de Oliveira31. a Flandres26 ou o Sacro Império27. de Fernando Bouza Álvarez39. nomeadamente. Seja como for. também. de Francisco Ribeiro da Silva43. de Amélia Aguiar Andrade e de Rita Costa Gomes37 –. não há dúvida de que muito subsiste por estudar. de Paulo Merêa32 ou de Marcelo Caetano33 –. A historiografia portuguesa participou. na linha daquele que foi efectuado por Fernando Bouza para a assembleia de 158147. os Estados Italianos25. posteriormente. Tirando partido das questões levantadas em trabalhos pioneiros – como os de João Pedro Ribeiro28 ou do Visconde de Santarém29. Pensamos. caso a caso. Mark Kishlansky22 e. dos debates desenvolvidos. de Fernanda Olival44. dos seus participantes. como a França24. sobretudo. de António de Oliveira40. Conrad Russell23. No que toca às reuniões celebradas no período Seiscentista. a compreensão do papel desempenhado pelas Cortes no conjunto da administração central da Coroa. ainda que indirectamente. neste renovado interesse pelas Cortes da época moderna. etc. das decisões tomadas.

igualmente. os processos de decisão. a da influência das autoridades senhoriais no comportamento dos procuradores oriundos de vilas situadas nos seus senhorios. Quanto ao vasto conjunto de petições existente nos arquivos portugueses. A participação do «estado da nobreza» e do «estado eclesiástico» nas sucessivas reuniões de Cortes é outro tema que ainda não foi objecto de um estudo sistemático.. É igualmente imprescindível dedicar alguma atenção à articulação entre as Cortes e o mundo local. está por cumprir toda uma vasta agenda de investigação sobre as Cortes do Portugal da época moderna.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. de molde a reconstituir o sentido das intervenções dos participantes. Por último. 169 Cada uma das actas das sessões. José I. Falta. A ASSEMBLEIA DE CORTES.. também. temática largamente negligenciada pelos historiadores portugueses e de cujo estudo depende a compreensão cabal do significado político das Cortes da época moderna49. ou do papel de Lisboa como «cabeça» do reino. a realização de investigações sobre a história da fiscalidade. João V e de D. é indispensável ter em conta que se trata de uma assembleia que operava num quadro comunitário eminentemente corporativo. e cumpre estudar. a fim de se perceber. os processos de selecção e o estatuto dos procuradores. As Cortes no ambiente político do Antigo Regime A fim de compreender o papel político das Cortes no quadro das relações entre o centro e as periferias. igualmente. assim como o impacto das suas decisões no mundo político das periferias48. urge avaliar o verdadeiro significado do debate sobre as Cortes na segunda metade de Setecentos. Trata-se de um universo político onde o principal quadro de referência não era a divisão administrativa implementada pela Coroa. o mesmo se podendo dizer de questões como a hierarquia entre as cidades e vilas com voto em Cortes. as várias alusões à «assembleia dos três estados» nos reinados de D. também. seria merecedora de um “estudo de caso” altamente contextualizado. por exemplo. tendo em vista compreender a relação entre as sucessivas configurações do discurso político e o maior ou menor protagonismo das Cortes. o funcionamento das sessões. Como se pode verificar nesta breve enumeração. Fundamental será. mas sim o laço de pertença que resultava do próprio .. Urge efectuar. uma iniciativa sistematizada de publicação da documentação produzida pelas Cortes do século XVII50. etc. e num contexto social onde coexistiam distintos sentimentos de pertença à comunidade política. abordagens na linha da história das ideias políticas. por seu turno. igualmente. trata-se de um corpus que continua à espera de uma análise de conjunto. Questão importante é.

Nas palavras do jurista João Salgado de Araújo. Em termos administrativos. A urbe. estruturante. como a cabeça de um conjunto de territórios. segundo uma escrupulosa ordem hierárquica. a comunidade territorial de ordem superior que englobava. Apesar dos inevitáveis contrastes regionais. e a cidade ou vila onde se residia constituía o núcleo central da sociabilidade. e fê-lo. Tanto uns como os outros formavam comunidades tendencialmente completas. Tal heterogeneidade. A malha administrativa da Coroa desenvolveu-se mais lentamente. em especial o de administração da justiça. como se sabe um atributo essencial. o qual lhes concedia uma margem de autonomia mais ou menos ampla. todos os domínios que estavam sob a alçada do soberano. adaptando-se à realidade social e jurisdicional que a precedia. assim como os variados corpos em que estava estruturada a sociedade. assim. por conseguinte. entre el Rey y sus vassallos…»52. entre cabeça y miembros. resultante da progressiva incorporação e agregação de territórios. assim. encontrava-se bem expressa na titulatura régia. territórios esses que apresentavam perfis e estatutos bastante diversos. um conjunto político plural. cada um deles titular de uma diversa gama de poderes. O rei surgia. Nesse quadro. onde sempre se enumerava. e o reino como uma comunidade de cidades. Os princípios fundamentais que regiam a coexistência no espaço do «reino» eram a partilha recíproca – entre o rei e o reino – de direitos e de deveres. escalonadas segundo uma ordem fortemente hierárquica. ordem essa que atribuía a cada uma das instituições locais um lugar preciso na escala de dignidade política. no seu seio. do conceito de autoridade no Antigo Regime51.170 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS tecido social em que cada pessoa estava integrada. el cabeça. pequenas «repúblicas» virtualmente auto-governadas. No que respeita às divisões administrativas da Coroa. y el Reyno hazen un cuerpo mixtico. era este o cenário que caracterizava toda a Península Ibérica53. Convém não esquecer que a sociedade da época moderna assentava em corpos de todo o tipo. de resto. por sua vez. a comunidade local era o elemento que precedia as demais unidades políticas. O quadro de referência da Coroa era o «reino». Todos esses territórios estavam sob a égide de um rei. e com combinações de natureza bastante diversa. era tida como uma comunidade de famílias. as principais instituições actuantes sobre o terreno eram os senhorios – eclesiásticos e seculares – e os municípios. toda uma série de comunidades locais. «el Rey. perante um ambiente de pluralidade de pertenças e de identidades políticas. assi la deue auer en el mixtico de la Republica. as . Estamos. y los vassallos miembros. num primeiro momento. também elas estavam presentes. y como en el cuerpo phisico ay correspondência de amor. embora a sua entrada em cena seja posterior à das divisões que acabámos de referir. Cada um dos «reinos» que povoava a paisagem da época moderna era.

sobretudo quando comparadas com os deveres para com a família. de um império. As várias casas reais procuraram forjar outro tipo de vinculações e de sentimentos de pertença. D. por último. as obrigações associadas à condição de parte integrante do «reino» eram pouco consensuais e pouco mobilizadoras. a inserção em corpos como o estado social ou o grupo sócio-profissional. bem se esforçaram por aprofundar o significado da pertença a unidades políticas mais vastas. mas também em obrigações inerentes à condição de parte integrante da comunidade reinícola54. podia-se também fazer parte de uma monarquia ou. avultava. ou para com a entidade corporativa de que se fazia parte. de seguida.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. com a expansão das monarquias. No ambiente político do Antigo Regime a assembleia das Cortes era o momento em que estas várias partes que compunham a comunidade se reuniam com o rei. Carlos I e Filipe II nos domínios dos Habsburgo. Por fim. Fizeram-no . depois. Pertencia-se. 171 quais não eram necessariamente contraditórias. No cenário político do Antigo Regime. importa ter em conta que as obrigações inerentes à pertença ao «reino» estavam longe de possuir a força que caracteriza os actuais deveres de cidadania. e em que o «reino» se tornava momentaneamente visível enquanto enquadramento de pertença comum a todos os diversificados membros que o integravam. porque predominava um sentimento de pertença eminentemente orgânico e particularista. no século XVI. a partir daí pertencia-se a uma cidade-província. mas sim complementares. era-se habitante de uma cidade. a qual por essa altura se assumiu como a cabeça de um império pluricontinental. também ela senhora de vastos domínios. No decurso das «reuniões dos três estados» eram invocados sentimentos de pertença a um corpo político a que se dava o nome de «reino». falando-se em «bem comum do reino» e em direitos. reuniram-se as condições para a reconfiguração dos laços de associação política. A par destas pertenças. A ASSEMBLEIA DE CORTES. a um reino. igualmente. Sebastião I em Portugal. todos estes quadros de pertença estavam englobados naquele que era o elemento identitário por excelência: a inserção na Respublica Christiana. Contudo. Faltava uma base para o surgimento de obrigações comuns. adicionando-os aos pré-existentes laços de natureza orgânica e de cariz particularista. primeiro. até. que não favorecia o desenvolvimento espontâneo de deveres para com organizações políticas mais vastas e de natureza artificial. a uma família. João III e D. Todavia. de uma solidariedade geral... para com a comunidade onde se residia.. tanto na Europa como fora dela55. O mesmo se poderia dizer da Coroa de Castela. depois a uma aldeia. a uma vila ou a um bairro. Verificou-se que os sentimentos de ligação à comunidade local já não eram completamente compatíveis com a realidade cada vez mais extensa de entidades como a Coroa Portuguesa. Quanto aos reis.

para que tivessem em conta não só o seu «bem particular». Curiosamente. secular e eclesiástica. nessa ocasião um segmento da sociedade portuguesa não escondeu o seu temor perante as consequências que poderiam advir da entrada do reino lusitano para uma unidade política tão vasta57. incrementando o seu dispositivo administrativo. as movimentações em torno do príncipe D. os sentimentos particularistas de que atrás falámos revelaram-se muito resistentes. onde as obrigações inerentes à pertença a esses espaços políticos surgiam cada vez mais associadas às causas comuns da Cristandade. Em Castela. também. Como se sabe. de forma cada vez mais insistente. D. Todavia. Nos derradeiros anos de Quatrocentos. Fizeram-no. como é sabido. e durante muito tempo essa assembleia foi dominada pela nobreza. A orgânica das Cortes Qual foi o papel desempenhado pelas assembleias de Cortes nesse período em que os líderes políticos do ocidente Europeu apelaram aos seus vassalos. Seja como for. Assim. cumpre referir que. na primeira fase do seu percurso histórico as Cortes funcionaram sobretudo como o espaço de articulação entre a Coroa e a elite nobiliárquica. os nobres foram o único dos «três estados» a comparecer na . mas também o «bem comum do reino»? Convém lembrar que as Cortes começam por ser uma forma alargada de conselho régio. congregando. o projecto de conversão da Coroa lusitana na cabeça de um grande império também não se revelou consensual e. Cumpre não esquecer que a família real de Portugal – a Casa de Avis – acalentou planos dinásticos. no início. numerosos foram os castelhanos que manifestaram reservas face aos propósitos imperiais de Carlos I e de Filipe II56.172 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS desenvolvendo uma pujante acção mecenática. muitos questionaram as grandiloquentes visões régias de conversão do Reino lusitano na cabeça de um potentado pluricontinental. a fim de conferir mais homogeneidade à acção da Coroa. Miguel da Paz são reveladoras da hipótese de entrada de Portugal para uma união com Castela e Aragão. os representantes das cidades começaram a ser chamados às Cortes a partir de meados do século XIII. Em Portugal. apenas as figuras mais proeminentes do reino. Manuel levou muito a sério a hipótese de liderar um projecto de união com Castela e Aragão sob a égide da Coroa portuguesa. Aliás. a primeira assembleia que contou com a presença de procuradores das cidades parece ter sido a que se realizou em 1254. Em Portugal. e os seus membros também fomentaram projectos de constituição de unidades políticas de carácter mais vasto. e vários territórios resistiram a esta dinâmica. em certos momentos.

pelos membros dos grupos privilegiados. tendo como principal finalidade a manutenção dos equilíbrios pré-existentes. Não devemos esquecer que. fundamentalmente.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. designadamente os emergentes conselhos palatinos e alguns sectores da cada vez mais desenvolvida administração da Coroa. desde reivindicações corporativas até advertências acerca de temas da actualidade do reino. mas sim para repor a ordem depois de rompida a natural disposição das coisas. e que só mais tarde esta assembleia abriu as suas portas ao chamado «terceiro estado». 173 reunião. como o seu próprio nome indica. os quais. a assembleia instava os vassalos a apresentar problemas. Esses pedidos eram formulados em dois principais tipos de documentos: os «capítulos particulares». de resto. por isso mesmo. É fundamental não esquecer. também as Cortes actuavam segundo uma matriz jurisdicionalista. Porém. mas sobretudo como uma espécie de instância judicial. Nas Cortes deparamos. apenas. natural. com uma prática de governo (e uma correlativa teoria) que tendia a conceber o poder antes de mais como instrumento para a conservação da ordem.. as Cortes foram-se tornando menos relevantes para o grupo nobiliárquico. o qual. Assim. como um tribunal. mas também jurídica. sem dúvida. Assim. que as Cortes começaram por ser compostas. e os «capítulos gerais». A ASSEMBLEIA DE CORTES. com o desenvolvimento dos vários órgãos da administração da Coroa e com a afirmação da corte régia como palco principal da política58. todos os presentes assumiam a posição de autoridades imparciais chamadas a verificar a admissibilidade jurídica de pretensões e de contra-pretensões. Nesses pedidos gerais a visão particularista surgia. assim. a missão primordial do poder político consistia em reconhecer a ordem e garantir um equilíbrio inscrito na natureza das coisas. Enquanto órgão dotado de uma matriz judicial. actuando o rei a pedido dos vassalos. sobretudo enquanto espaço de comunicação política com o rei. as Cortes actuavam segundo uma técnica que estava pensada não tanto para evitar que a desordem se registasse. mais esbatida. faziam eco dos problemas «particulares» de cada comunidade local. . podendo. nesse período. E à semelhança do que se passava com todos os órgãos administrativos da época. em vez de exercer uma jurisdição eminentemente voluntária. no processo governativo. Paralelamente. desenvolveu outros canais para estabelecer a sua interacção com a Coroa.. Por outras palavras. uma modalidade alargada de conselho régio. intervir. os representantes do reino pensavam-se a si mesmos não só como conselheiros. portanto. uma vez reunidas as Cortes. e ao contrário do que sucedia com o clero e com a nobreza. a assembleia representativa foi-se tornando mais importante para as corporações urbanas. Nessa fase as Cortes eram.. e que incluíam questões de alcance mais geral. produzidos pelos «três estados» na fase inicial de cada assembleia.

A finalidade era «tornar presente» o reino ao rei. Como sugerimos atrás. Thompson63. A. os vice-reis presidiam a Cortes napolitanas e sicilianas. enquanto que. estava em curso um processo de gradual afastamento dos magnates da nobreza em relação às Cortes. durante os séculos XVI e XVII. A. dependente do arbítrio régio. É certo que o encontro físico entre o monarca e os «estados» do reino só tinha lugar na sessão de abertura solene e nas cerimónias de juramento que eventualmente tivessem lugar. Esta indefinição marcará todo o percurso histórico da assembleia62. para outros. para alguns o rei tinha a obrigação de chamar a assembleia representativa antes de tomar qualquer decisão governativa de maior importância. Todavia. e o mesmo se terá passado em juntas de cidades da América Espanhola61. reino onde o clero e a aristocracia. e era precisamente essa proximidade física face ao monarca que fazia com que a assembleia fosse tão valorizada pela sensibilidade coetânea. não fosse delegável59. as Cortes eram encaradas como o encontro. Trata-se de uma indefinição que remonta ao período medieval. o costume mandava que o rei deveria permanecer na localidade onde decorriam as Cortes até ao final dos trabalhos. deparamos com alguns territórios cujas assembleias representativas foram frequentemente convocadas pelos representantes locais do monarca: nas possessões hispânicas de Itália60. Os únicos que continuaram a marcar presença foram os representantes das cidades. Todavia. só o rei em pessoa podia chamar e presidir às Cortes. já nessa altura. Seja como for. fruto da situação atrás mencionada: a aristocracia encontrara outros canais de influência e de articulação com a Coroa. aos poucos. sobretudo em Castela. a consulta das Cortes era como que um acto de «graça». e como notou I. Assim. Vários chegavam mesmo a alegar que o parecer do conselho régio podia substituir o diálogo com as Cortes. De qualquer modo. desde a segunda metade do século XIV os únicos nobres e clérigos que participavam na reunião eram aqueles que desempenhavam algum cargo na corte régia ou que. entre o rei e os seus vassalos. No fundo. enquanto que em Portugal este princípio foi sempre respeitado. por . a partir de meados do século XIV o perfil dos órgãos representativos sofreu uma importante mudança. A prerrogativa de convocar os «três estados» era vista como uma marca de soberania. no espaço da Monarquia Hispânica. o que fazia com que. assim como resolver problemas governativos que estivessem pendentes. importa referir que a situação constitucional das Cortes não era completamente clara. pois. por excelência. por exemplo. a fim de renovar o compromisso entre a Coroa e o reino. foram deixando de comparecer nas reuniões de Cortes.174 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS De acordo com o costume. pelo contrário. em princípio.

entre as cidades registaram-se conflitos de precedência relacionados com o lugar em que participavam na «assembleia dos três estados». enquanto que o clero marcou presença em 24 reuniões. na reunião celebrada em Leiria. em Portugal. o recrutamento militar. podemos afirmar que as Cortes de Portugal mantêm o seu perfil de assembleia com «três braços».ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. sobretudo em áreas como a fiscalidade (cobrança. foi em 1254 que os procuradores das cidades e vilas participaram pela primeira vez nas Cortes. se encontravam nas proximidades do local onde se realizava a reunião. altura em que as convocatórias se tornaram muito menos numerosas. Assim. Quanto ao «estado do povo». as Cortes portuguesas de finais da Idade Média terão contado com a participação regular de representantes de cerca de oito dezenas de cidades e vilas65. A ASSEMBLEIA DE CORTES. ou seja. De acordo com A. a nobreza compareceu em apenas 23 das 44 reuniões realizadas entre 1385 e 1490. No que respeita ao afastamento dos grupos privilegiados. No tocante a Portugal. 175 acaso. aquela que reunia os representantes das cidades.. Por isso. uma instituição dotada de uma só câmara. no período tardo-medieval. em 1480 as Cortes de Castela eram já. Os trabalhos de Armindo de Sousa sugerem que. a assembleia representativa desenvolveu uma considerável actividade de produção normativa.. Acresce que as Cortes portuguesas continuaram a decidir sobre matérias de “alta política”. A partir da assembleia de 1331 os diversos «estados» passaram a reunir separadamente64. Para além disso. pode dizer-se que. a gestão das clientelas locais. controlo administrativo). Trata-se de uma solução que tinha em vista agilizar os processos de decisão. Além disso. um valor muito superior ao que se registou no século posterior. oficiosamente. também em terras lusitanas. grupos restritos de procuradores constituídos por iniciativa dos oficiais régios e que ficariam incumbidos de assegurar o andamento dos trabalhos. e em 1477 surgiram as chamadas «comissões de definidores». embora se registe um certo desinteresse dos grupos nobiliárquicos. etc. ou seja. no quadro da resposta às petições.. sendo sistematicamente chamadas para intervir em certas áreas fulcrais do governo do reino como o juramento do rei ou a fiscalidade régia66. . Um outro indicador a ter em conta é o elevado ritmo das suas convocatórias: na centúria de Quatrocentos realizaram-se mais de quatro dezenas de reuniões67. facto que aponta no mesmo sentido da valorização da importância da assembleia. ao mesmo tempo que interveio na política local. os representantes dos núcleos urbanos costumavam ser os mais entusiastas na afluência às Cortes. as Cortes evoluíram no mesmo sentido dos demais reinos ibéricos. Sousa. embora o distanciamento da nobreza e do clero seja menos pronunciado.

mas também como uma opção da aristocracia e do clero. estava a cair em desuso naquele reino. participavam na reunião enquanto entidades que administravam territórios habitados por uma população mais ou menos significativa. as Cortes de Castela converteram-se numa assembleia de procuradores de cidades e vilas. a assembleia tornou-se no principal pólo de oposição aos novos impostos que a Coroa desejava introduzir. Como dissemos. Como assinalámos. como dissemos. Thompson71 e José Ignacio Fortea Pérez72 assinalaram que. a nobreza. O imperador desejava que esses grupos sociais tomassem parte. à data. razão pela qual a sua função consultiva diminuiu consideravelmente. e como notou I. por Carlos V. em vez de apoiar os projectos de Carlos V. mas também o clero. Tanto os nobres como os clérigos. Aliás. a 1 de Fevereiro de 153968. ao longo da sua história. A. marcou o fim da convocatória dos nobres e do «estado eclesiástico» para a assembleia castelhana. os quais. um carácter senhorial. E com o abandono da aristocracia. formas razoavelmente diversas de representação política70. e também as cidades. vinham-se desinteressando das Cortes desde meados do século XV. e ao fazê-lo estava de algum modo a reeditar um modelo de reunião que. esses dignitários par- . no período medieval. As formas de representação política nas Cortes Enquanto órgão representativo. I. de facto. Uma coisa é certa: a não comparência da nobreza retirou alguma força às Cortes de Castela. A dissolução das Cortes. na assembleia. em 1539. o mesmo se podendo dizer da sua capacidade de intervenção em questões da alta política69. essa assembleia jamais contaria com o «braço da nobreza» formalmente reunido. Até ao último chamamento das Cortes de Castela durante o século XVII (registado em 1664). cumpre assinalar que essa foi uma das raras ocasiões em que os «três braços» actuaram de forma concertada contra a fiscalidade régia. A. em 1538 Carlos V tomou uma decisão marcante: exortou a nobreza e o clero a comparecer nas Cortes. a representação possuía. Em 1538. encontraram canais alternativos para exercer a sua influência política e para defender os seus interesses económicos.176 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS No que concerne a Castela. e terá sido esse o motivo que levou o imperador a ordenar a sua dissolução. a resposta da aristocracia castelhana ao apelo do Imperador foi muito expressiva: 80% dos titulares e do alto clero responderam à chamada. Todavia. Thompson. as Cortes activaram. Assim. facto que deve ser visto não só como uma forma de a Coroa evitar uma oposição mais concertada entre os «três braços». A. A. sobretudo. para a nobreza as Cortes tinham-se tornado pouco relevantes.

comparecendo um total de dezoito cidades. fazia com que os seus processos decisórios fossem algo diversos daqueles que vigoravam no «terceiro estado». e em seu nome concordava ou não com o que lhe era pedido74. o que. De facto. escreve D. Hespanha notou. mas sim como um direito que lhes assistia. apesar da resistência de alguns procuradores. costumavam vincar que participavam nas Cortes não tanto por obrigação para com o rei. quando compareciam nas Cortes. no «terceiro estado». 177 ticipavam nas Cortes não só como membros do «estado eclesiástico» ou do «estado da nobreza». No caso da assembleia de Castela-Leão. No entanto. representavam a nobreza enquanto corpo. mas também como senhores de terras. respondendo a alguns procuradores que.. a propósito deste tema.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS.. A nobreza e o clero. pequenos lugarejos. a questão jamais reuniu consenso. as quais assumiram a tarefa de representação do conjunto da Coroa de Castela. às Cortes. permaneceu a ideia de que cada participante se representava a si mesmo. em questões como pedidos ou «serviços». se recusavam a acatar a decisão maioritária77. vimos atrás que. e ao longo de toda a existência das Cortes discutiu-se até que ponto os juramentos ou os votos nas assembleias obrigavam aqueles que não estavam presentes75. como figuras que detinham uma margem de autoridade administrativa sobre parcelas significativas do território e sobre conjuntos populacionais nada desprezíveis73. para além disso. até. O caminho percorrido até se chegar a essa situação tinha sido longo. João IV em Fevereiro de 1646. Além disso. António M. parece que as Cortes se assumiam como uma assembleia que representava o conjunto do reino. que o entendimento atomista de representação prevaleceu até ao final do Antigo Regime: em questões de política global do reino. A ASSEMBLEIA DE CORTES. não podiam falar pelo conjunto do «estado da nobreza». . as instituições urbanas passaram a ser o único «braço» chamado às Cortes de Castela. só a partir de finais do século XIII é que as comunidades urbanas começaram a ser chamadas. ou seja. tendo perdido uma votação sobre questões fiscais. com regularidade. entre outras coisas. Enquanto que no «estado da nobreza» e do clero o princípio da maioria suscitou algumas reservas. em princípio. Como dissemos. se o voto da maioria dos membros do «estado da nobreza» obrigava aqueles que tinham decidido noutro sentido76. tanto cidades de grandes dimensões como vilas e. não era claro se os nobres. após 1539. também. Discutiu-se. esse princípio parece implantar-se: «o que se assenta e vence pela maior parte se assina e segue pela menor. No que respeita ao «terceiro estado». Seja como for.. chegou a integrar mais de uma centena de urbes. razão pela qual. os membros do «estado da nobreza» não eram eleitos nem recebiam qualquer procuração. e he cousa que não padeseo numqua de comtrouersia».

Toledo. como o Alentejo. tal como os nobres. Desse modo. a cidade de León desempenhava idêntico papel para o Principado de Astúrias. a força do regime senhorial a norte do Mondego explica esta disparidade. I. Por outro lado. contavam com um grande número de assentos em Cortes. Refira-se que. A região mais densamente povoada do reino – Entre-Doutro e Minho – estava sub-representada. De um modo geral. tendo sido esse o factor que ditou a fraca participação. as quais. À semelhança do que sucede nas demais Cortes ibéricas. vastos territórios ficavam privados de representação nas Cortes. Para além destas regiões. Ávila. encararam a assembleia como uma instituição pouco relevante para a protecção dos seus direitos78. a opção por não comparecer foi tomada pelas próprias localidades. enquanto que Salamanca falava por toda a Extremadura80. Córdova. Salamanca. Leão. então conhecia por «La Montaña». Para Luís Miguel Duarte. coube a dezoito cidades falar em nome do conjunto da Coroa de Castela. quatro no reino andaluz (Jaén. Cuenca e Guadalajara). Castela-a-Velha e Castela-la-Mancha eram. de um modo geral. enquanto que regiões muito menos povoadas. e uma no reino de Múrcia (Múrcia). nas Cortes. Quanto ao reino da Galiza. o norte peninsular carecia também de representação na assembleia castelhana. Sória). assim como os territórios das Ordens Militares. Toro. entre os quais avultavam as províncias bascas (que contavam com a sua própria estrutura representativa. dos concelhos das regiões situadas a norte do rio Mondego81. A distribuição geográfica das urbes com voto em Cortes é também reveladora de que a representação política activada nessas reuniões não reflectia um critério de proporcionalidade geográfica ou demográfica. e como assinala o mesmo J. situação compensada pelo facto de o município de Burgos representar oficiosamente a zona Cantábrica. as áreas melhor representadas nas Cortes de Castela-Leão. Zamora. José Ignacio Fortea Pérez79 notou que mais de metade dessas cidades se concentravam no interior de Castela: nove em torno da bacia do rio Douro (Burgos. Valhadolide. Segóvia. nas juntas específicas completamente independentes das Cortes de Castela). Desse modo. Fortea Pérez. o factor que motivava a participação das cidades nas Cortes era a forte tradição de governo participativo que existia em toda . pois. Sevilha e Granada). em Portugal a procedência geográfica dos procuradores também não obedece a nenhum critério de proporcionalidade aritmética. quatro em terras de La Mancha (Madrid. dependia de Zamora.178 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS com o passar do tempo o número de municípios representados nas Cortes de Castela foi claramente diminuindo: das 101 cidades presentes em 1315 passou-se para 17 em 1435. León. há também a registar a presença de um número considerável de procuradores enviados por cidades e vilas situadas na proximidade da fronteira.

doutrina acolhida nas obras dos principais teólogos e juristas daqueles anos86.. 179 a Península Ibérica. manifestaram uma menor disposição para convocar um órgão que. E ao mesmo tempo que se desenvolvia esta tradição de governo participado. no quadro deste imaginário político que a Coroa concedia a certas cidades a «honra» de tomar parte nas assembleias. Acresce que as concepções políticas predominantes no mundo ibérico apontavam muito mais para um exercício do poder partilhado. dos valores cívicos e do individualismo. é possível escutar ecos deste ideário em alguns momentos da história ibérica do século XVI. persistindo uma forte tradição discursiva que insistia na importância incontornável do consensus populi. Era. É muito significativo que os escritos de teoria política em circulação a partir desse período retratem as Cortes como um mero fórum de debate. o exercício da autoridade régia era visto como parte de um sistema de poderes e de contra-poderes que se equilibravam.. A influência de Itália e do chamado «humanismo cívico». após a derrota dos comuneros a linha doutrinal de sentido regalista ganhou novo alento. Formavam-se. Desde tempos ancestrais os municípios vinham desenvolvendo formas colegiais de decisão. De facto. Quanto aos monarcas. no fundo. Para além disso. também desempenhou o seu papel na persistência dessa tradição participativa. por seu turno. e a situação de auto-governo em que viveram. facto que também terá contribuído para consolidar a presença das cidades nas Cortes. verdadeiras «comunidades de privilégios» (T. as autoridades municipais reforçavam a sua identidade e constituíam-se como pequenas repúblicas locais. A ASSEMBLEIA DE CORTES. pois. ainda mais contribuiu para enraizar tais processos de decisão. empenhados no processo de consolidação das bases do seu poderio. e o ideário «republicano» teve menos espaço para se desenvolver84. Todavia. durante séculos. desprovido de competências decisórias de maior alcance. como por exemplo no movimento das Comunidades de Castela83.. Herzog82). do que para modalidades decisórias mais individualistas. uma série de autores lembrava insistentemente que o povo – e não o rei – era o depositário do poder originário de Deus85. com toda a sua exaltação do governo republicano. Segundo Xavier Gil Pujol. desse modo. e em muitos momentos as Cortes assumiram-se como um dos principais momentos de defesa desses privilégios ante as investidas da Coroa. . lembrava que a pessoa régia não estava sozinha na decisão sobre questões governativas. garantindo à população que estava sob a sua égide toda uma série de liberdades e imunidades.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. No entanto. é interessante verificar que o facto de a cultura política ibérica ser intrinsecamente regalista não foi necessariamente incompatível com o reconhecimento de que as Cortes tinham um determinado lugar na relação entre o rei e os seus vassalos.

portuguesas. napolitanas. a partir de meados de Quinhentos. Aperceberam-se. . Nápoles ou Sicília integrarem os domínios dos Habsburgo também contribuiu para vincar o papel político das Cortes.180 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Assim. Esta tendência manteve-se no século XVII. bem pelo contrário: o maior voluntarismo da Coroa traduziu-se na intensificação da comunicação política entre o rei e o reino. O aumento das solicitações dos Habsburgo incidiu sobretudo no terreno fiscal. recorreram a alguns elementos do ideário republicano para potenciarem a defesa dos foros reinícolas e para amplificarem os seus protestos sempre que consideravam que tais foros estavam a ser postos em causa pelo centro político. de que a aprovação. Na realidade. as assembleias representativas voltaram a desempenhar um papel mais interventivo na política. Pode então dizer-se que a pertença à Monarquia Hispânica também contribuiu para que as Cortes assumissem um maior protagonismo. Quanto aos vários grupos sociais. desta feita como uma espécie de símbolo dos foros de cada uma das partes desse conjunto político compósito. facto que favoreceu o discurso que via nas Cortes a única sede com legitimidade para aprovar novos tributos. essa comunidade política alargada que comportava uma nova gama de obrigações e de sacrifícios. Na verdade. O facto de reinos como Aragão. viram na assembleia representativa um bom palco para zelarem pelos seus direitos e pelas suas liberdades face ao crescente voluntarismo régio. também. sicilianas e. os diversos reis aperceberam-se de que as Cortes poderiam desempenhar um papel importante enquanto espaço de inculcação de sentimentos de pertença ao «reino». Nas diversas partes dos domínios dos Habsburgo os apelos régios para que se aumentasse o contributo fiscal tiveram o condão de fomentar o desenvolvimento de um discurso que vincava a natureza auto-governada das várias partes da Monarquia. assim como a sua ancestral autonomia decisória87. mais tarde. política essa que cada vez mais exigia o contributo de todos para o esforço conjunto da Monarquia. e uma parte significativa dessa comunicação acabou por ter como palco a assembleia representativa. e ao contrário do que seria de supor. a afirmação do projecto político da Coroa não teve como consequência imediata o desaparecimento das Cortes. em Cortes. de medidas impopulares – como os novos impostos – poderia contribuir para tornar mais aceitáveis esses sacrifícios. Foi assim que. altura em que se acentuou a faceta das Cortes como verdadeiros bastiões dos foros reinícolas e como pólos de obstrução à política régia. perante a afirmação da Coroa de Castela no conjunto da Monarquia. as elites aragonesas.

existia uma norma que impedia que um mesmo regidor exercesse a função representativa em duas Cortes seguidas89. a procuração tinha de obedecer a certos requisitos formais. De facto. para além de um certo património. é a partir do século XV que se regista a tendência para a generalização da regra de dois representantes por urbe88. a documentação de que dispomos sugere que os oficiais régios procuravam garantir que os representantes das principais cidades seriam coniventes com os projectos régios. o que pode estar ligado a um crescente interesse das oligarquias castelhanas em estarem presentes nas . passando depois para dois procuradores por cidade. e conter a afirmação de que o procurador fora investido de «poderes bastantes» para decidir sobre a matéria que motivara a convocatória das Cortes. Acerca do reino de Castela. Importa referir que as eleições nem sempre eram pacíficas. No que respeita aos processos de escolha dos procuradores. Cada cidade tinha os seus costumes electivos. o escolhido deveria possuir o perfil moral adequado ao desempenho de um ofício. Quanto ao reino português. e a Coroa limitava-se a fazer recomendações gerais. o eleito deveria ser escolhido entre a «gente da governança» e de forma pública. com o conhecimento de todos os residentes. observando o que estava disposto nas Ordenações e abrangendo apenas os residentes na localidade que iria enviar os procuradores. A ASSEMBLEIA DE CORTES. o primeiro dado a assinalar é o facto de não existir uma normativa geral que definisse o modo de proceder na sua selecção. No início. no contexto castelhano.. reino onde a assembleia representativa continuou a ter uma afluência bastante numerosa de procuradores. devendo incluir o nome daqueles que haviam participado na escolha do representante. impondo algumas regras também elas bastante vagas: as eleições deveriam ser realizadas da forma costumeira. até ao final de Seiscentos as Cortes lusas contaram com a participação de representantes de cerca de uma centena de cidades e vilas. ou seja.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. Em Castela. apesar de sabermos muito pouco acerca da interferência da Coroa portuguesa na escolha dos procuradores. Formas de selecção e poderes O número de procuradores enviado por cada cidade variou ao longo da existência histórica das Cortes. tendo retrocedido a partir dessa data.. Fortea Pérez afirma que a interferência régia nos processos de selecção dos representantes terá sido relativamente frequente até ao final século XV. O mesmo estudioso sustenta que as disputas em torno da selecção dos representantes aumentaram no século XVII. até porque a escolha do procurador era um processo que costumava extremar posições entre «parcialidades» locais ou «bandos» rivais. os municípios começaram por contar com apenas um representante. 181 Os procuradores. Além disso. o mesmo sucedendo em Portugal.. ser avalizada pelo juiz de fora.

enquanto que as demais cidades e vilas com assento em Cortes tinham representantes de muito menor qualidade de nascimento. Tentou-se impor. Com efeito. depois da entrada de Portugal para a Monarquia Hispânica. trata-se de uma questão que jamais foi debatia com o calor que caracterizou a polémica castelhana92. os Habsburgo tentaram limitar o âmbito de intervenção das Cortes. proposta que também enfrentou forte resistência91. Coimbra e Évora – também costumavam contar com uma representação bastante selecta em termos de estatuto social. mas também como fonte de rendimento. Por outro lado. tal proposta levantou problemas não só no terreno das relações com as cidades. medida que se inscrevia num esforço mais vasto de reestruturação da administração fiscal. Desejoso de partir para Castela quanto antes. D. a questão do controlo que as cidades exerciam sobre os seus procuradores suscitou bastantes discussões. Filipe I. o que significa que uma parte do chamado «terceiro estado» era muito pouco “popular”. convém recordar que. Assim. e tendo em vista superar a representação atomista de que atrás falámos. Quanto ao limite decisório dos procuradores. é preciso ter em conta que a governança das principais cidades era frequentemente composta por aristocratas e por membros da nobreza de corte. na carta de convocatória para as Cortes de 1583. a matéria nem sempre se revelou pacífica. o monarca procurava. Nas Cortes portuguesas. «poderes bastantes para jurar o príncipe». e as autoridades urbanas mostraram-se sempre relutantes em conceder aos seus representantes o «voto decisório». Em Castela. designadamente através de uma restrição explícita dos poderes dos procuradores. em parte para defender os direitos da cidade que os enviara. mas sim individualmente. as cidades «dos primeiros bancos» – com destaque para Lisboa. Todavia. mas também porque acabou por não garantir à Coroa a docilidade da assembleia representativa. o direito a participar na assembleia representativa podia ser rentabilizado. pelo «voto consultivo». a Coroa tentou transferir do voto decisivo para as Cortes. apenas. desse modo. de um modo geral. passavam a estar mais ao serviço da Coroa do que da cidade que os enviara. Contudo.182 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Cortes. e a título de exemplo. reduzir a reunião a esse assunto . que os procuradores votassem não propriamente por cidades. Talvez resida aí uma parte da explicação para o facto de algumas cidades manifestarem pouca confiança nos seus representantes. designadamente através da venda da procuração90. Em finais de Quinhentos. Porto. ficando-se. Esta disparidade repercutia-se no desenrolar das sessões. no mesmo sentido. encarando-os como figuras que. uma vez nas Cortes. especificou que os procuradores deveriam trazer. pois as principais cidades eram frequentemente olhadas com desconfiança por parte das demais.

outro momento importante foi a assembleia que se celebrou na cidade de Lisboa. pelo contrário. Tais petições versavam.. Das negociações que tiveram como palco essa reunião resultaram os «Artigos de Lisboa de 1499». que é muito significativo que o aragonês Fadrique Furió Ceriol. As reuniões das Cortes de Portugal no século XVI Apesar do ritmo de convocatórias ter baixado. antes mais. corria o ano de 1499. Tal silêncio é provavelmente o resultado do número diminuto de reuniões então realizadas. os quais também podiam apresentar petições ao rei. 1599) praticamente não se refira às Cortes. por exemplo. e vários foram os núcleos urbanos que manifestaram o seu descontentamento por essa «novidade». Antuérpia. Algumas cidades com maior tradição mesteiral tinham o direito de enviar às reuniões de Cortes. Nessa ocasião foi dada a oportunidade. aos «três estados». No que concerne às Cortes de Portugal. no reinado de Carlos I. mas também do facto de. a expressão do protesto dos mesteres. A ASSEMBLEIA DE CORTES. naquela altura. esses hiatos contribuíram para o enfraquecimento do potencial político das assembleias representativas.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. deparamos com longos intervalos entre as convocatórias de Cortes. de discutir uma matéria da mais alta transcendência política: a entrada de Portugal para uma união dinástica com Castela e Aragão. sobre matérias especificamente relacionadas com o quotidiano das corporações mecânicas. e o mesmo estudioso nota. autor de um dos mais importantes tratados sobre o governo e os conselheiros (El Concejo i consejeros del Príncipe…. e nelas é possível encontrar. durante o século XVI as Cortes continuaram a reunir com uma certa assiduidade: em Castela. Em quase todas as petições mesteirais advinha-se um ambiente tenso entre as corporações artesanais e a chamada «gente da governança». caber cada vez mais ao Conselho de Aragão o principal papel representativo e de defesa dos foros reinícolas94. pelo facto de as principais decisões locais serem tomadas pela Câmara sem que eles tenham sido consultados93. ou «Capítulos de el rey Dom . fenómeno que se deveu.. ao facto de o monarca estar cada vez mais tempo ausente desses reinos. A decisão foi mal acolhida. tendo em vista converter as Cortes numa assembleia muito mais ágil e rápida. com grande frequência. 183 e evitar debates sobre outras matérias. para além dos procuradores do concelho. e no tempo de Filipe II registaram-se 11 reuniões.. celebraram-se 15 assembleias. para além da decisiva reunião de 148295. Segundo Xavier Gil Pujol. uma referência aos chamados «Procuradores dos Mesteres». habitualmente. Em Aragão e na Catalunha. os chamados «procuradores dos mesteres». com toda a pertinência. Por último.

Tal opção era motivada por vários factores: antes de mais. o que representou. da parte dos círculos régios.Cortes de Lisboa 1580 . também.184 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Manuel». é o facto de o juramento do príncipe herdeiro. uma série de garantias acertadas com os «estados» antes do juramento do príncipe D. Na verdade.Cortes de Almeirim 1562 . assistiu-se. uma quebra em relação ao ritmo anteriormente registado. os séculos XVI e XVII legaram-nos vasta documentação que atesta a preocupação dos coetâneos em definir. ter voltado a estar muito associado à assembleia representativa97. no século XVI.Cortes de Lisboa Um dos dados que ressalta da trajectória das Cortes de Portugal.Cortes de Évora 1544 . Outro indicador da importância das Cortes é toda a atenção concedida ao seu cerimonial. o cerimonial mais correcto para as diversas solenidades ocorridas no decurso das Cortes98. Além disso. Miguel. a dimensão da cida- .Cortes de Almeirim 1581 . Um último indicador da importância desta reunião tem a ver com o facto de ela se realizar.Cortes de Lisboa 1579 . o qual já era herdeiro jurado das Coroas de Aragão e Castela96. Reuniões das Cortes de Portugal no século XVI 1502 . já que no período de Quatrocentos tinham-se realizado mais de quatro dezenas de reuniões. o que aponta para a já referida maior intensidade da comunicação política entre centro e periferias.Cortes de Tomar 1583 . em termos quantitativos. No século XVI as Cortes de Portugal reuniram 9 vezes.Cortes de Lisboa 1525 . Na mesma linha. com minúcia.Cortes de Torres Novas 1535 . pelos «três estados». em Lisboa. com maior frequência. Tal evento representou o reconhecimento. a um gradual incremento do número de petições – «gerais» e «particulares» – enviadas pelas autoridades urbanas. do papel que cabia aos «três estados» na decisão sobre matérias que tinham a ver com a sucessão na Coroa e com o «bem comum do reino». a partir desta altura qualquer alteração ao cerimonial tendeu a ser encarada como um agravo e como uma ofensa aos direitos de cada um dos participantes no evento.

Paralelamente. Depois desta reunião. o dispositivo governativo da Coroa foi adquirindo uma maior institucionalização. De facto. D. e também para custear a vinda da rainha D. pelo reino. teve sempre o cuidado de fazer «pesar» os tributos pelas Cortes100. e não o contrário. Castilho assevera que D. à Coroa. João III não voltaria a convocar os representantes dos «três estados». . nos seus Anais de D. em 1544. esse papel foi sendo desempenhado pelo cada vez mais desenvolvido sistema judicial. gesto inédito até essa data. Depois. 185 de. o cronista António de Castilho lembra que por três vezes convocou os «três estados». A ASSEMBLEIA DE CORTES. a opção por realizar as Cortes em Lisboa era a forma de o rei demonstrar aos «três estados» que era o reino que ia ter com a Coroa. tendo uma vez mais em vista solicitar apoio financeiro ao reino. foram impressas. como «cabeça do reino» – o seu procurador falava em nome dos «três estados» na abertura solene das Cortes. Até ao final do seu reinado D. João III. É também por esta altura que se começa a difundir a ideia de que as leis resultantes de debates realizados nas Cortes tinham uma força especial. uma vez mais motivadas pelas necessidades financeiras da Coroa. corria o ano de 1535. aproveitando a ocasião para negociar mais um serviço fiscal99. Frei Luís de Sousa. especificamente para o juramento do príncipe D.. João III –. inclusive depois da realização das outras Cortes que o mesmo rei convocou para Évora.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. Quanto ao monarca que se seguiu – D. as Cortes de Torres Novas (1525) reuniram fundamentalmente para tratar de um serviço fiscal a conceder. Manuel I reuniu as Cortes. para o Verão de 1525. As Cortes voltariam a ser chamadas anos mais tarde. antes de lançar novos impostos. devido aos gastos crescentes da sua casa. em 1502 D.. o facto de Lisboa se assumir cada vez mais. e que voltaria a ser repetido em algumas reuniões subsequentes102. As petições entregues nesta assembleia. Catarina de Áustria101. João III relata que o rei decidiu chamar os «três estados». consultivas e decisórias que antes cabiam às Cortes. O mesmo cronista recorda-nos que só treze anos mais tarde se deu resposta aos muitos pedidos apresentados nessa assembleia. João como herdeiro da Coroa de Portugal. e o costume mandava que os procuradores lisboetas presidissem às sessões do «terceiro estado». mas não menos importante. Finalmente. Assim. Manuel I não voltaria a chamar a assembleia representativa. que a habilitava a receber o grande número de pessoas que participava na reunião. assim como as leis delas resultantes.. em Lisboa (nos Paços do Castelo). E no que respeita ao controle da actuação governativa do monarca e à protecção dos direitos dos vassalos face a decisões da Coroa. acabando por desempenhar muitas das funções representativas. só podendo ser revogadas em nova reunião da assembleia.

Sebastião I. empenhados em obter a resposta régia a esses pedidos. e os procuradores. Sebastião. a cerimónia que formalizava a constituição da regência. e até ao final do seu reinado jamais convocou as Cortes. Não tivesse este reinado conhecido o desfecho trágico que todos conhecemos. Quanto a D. algo de . Para além disso. e que tal reunião se celebraria no dia seguinte. as Cortes voltavam a ter uma intervenção na mais alta política: a entrega da regência do reino ao Cardeal D. foram também entregues numerosos «capítulos particulares». acrescentando. a pretensão da rainha acabou por ser aceite. Catarina terá chamado ao Paço Real alguns dignitários da nobreza e da Igreja103. os representantes do «terceiro estado» procuravam evitar algo que até aí vinha acontecendo de uma forma mais ou menos sistemática – o atraso da Coroa na resposta aos pedidos entregues nas Cortes106. Todavia. Evitava-se. João III. a 11 de Junho de 1557. a reforma dos principais tribunais. e alguns dos que nela participaram manifestaram a sua oposição a D. Todavia.186 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Aquando da morte de D. declararam que só concederiam um novo serviço fiscal depois de o rei ter respondido às suas petições. assumiu as rédeas do governo a 20 de Janeiro de 1568. porém. Instados a dar a sua opinião. para além de terem estabelecido uma série de condições que deveriam ser observadas pelo novo governante do reino105. Além disso. que tinham de reunir o Senado para saber qual seria a vontade do povo. Sebastião não atingisse a maioridade. Nessa reunião estavam também presentes os vereadores da câmara de Lisboa. Nesta assembleia foi produzido um significativo conjunto de «capítulos gerais». Henrique. Catarina enquanto D. Depois de longos debates acerca do modo de transmissão do poder. incluindo recomendações sobre temas como o governo geral do reino. discutiram mais um serviço de 100 mil cruzados à Coroa. etc. devido à sua crescente marginalização da alta política. e talvez as Cortes de Portugal acabassem então por cair no esquecimento. no Paço da Ribeira. a rainha D. tinha manifestado a intenção de que o governo fosse confiado a D. alegando a sua naturalidade castelhana. A rainha D. D. os casamentos da família régia. a convocatória das Cortes num período sempre delicado: a menoridade do rei. Catarina manobrou para que as Cortes não reunissem para a aclamação do jovem D. assim. Ao tomarem essa decisão. o modo de organizar a administração central e a casa real. antes de falecer. Catarina. Ao cabo de uma longa discussão. De acordo com a documentação da época. a reunião na câmara foi mais agitada do que se previa. Catarina. e nessa ocasião o secretário de estado Pedro de Alcáçova Carneiro terá afirmado que o rei. e nessa mesma tarde celebrou-se. Catarina voltou a reunir as Cortes em 1562104. também eles votaram a favor da entrega do governo a D. de algum modo a representar o conjunto dos poderes urbanos do reino. durante as quais anunciou a sua disposição de renunciar ao governo.

vários foram os oficiais de Filipe II que estiveram ocupados com a preparação das várias alegações e pareceres jurídicos para sustentar a candidatura do Habsburgo ao trono português. Cristóvão de Moura encontrou um documento importante no arquivo da Câmara de Lisboa: os «Artigos de Lisboa de 1499» ou «Capítulos del rey Dom Manuel». em Outubro de 1578. tal documento reforçava a tese de que as Cortes de Portugal tinham exercitado. podia «el pueblo eligir Rey»108. o episódio em que o rei D.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. 187 diverso aconteceu: a crise sucessória provocada pela morte prematura do monarca contribuiu para relançar o papel político das Cortes. entre os finais de 1578 e boa parte de 1579. Afonso III109. a sua faculdade decisória em matérias sucessórias. os diversos candidatos em presença – com destaque para Filipe de Habsburgo. D. Segundo Bouza Álvarez. António. a despeito destas revelações. Mafalda Soares da Cunha reconstituiu. e reunidos entre Abril e Junho de 1579 – nunca se decidiram. Nesse contexto. aos «três estados» reunidos em Almeirim foi novamente dada a oportunidade de se pronunciarem sobre uma matéria crucial: a sucessão no trono. aquando do juramento do príncipe D. tinham intervindo. foram recordados alguns precedentes da história portuguesa: o caso de D. O mesmo Fernando Bouza assinala que. mestre de Avis. em Setembro de 1578 Filipe II escreveu a Cristóvão de Moura pedindo-lhe que procurasse na Torre do Tombo papéis que provassem «como y cuándo». Afonso Henriques. fora aclamado rei. Prior do Crato – socorreram-se. em certos momentos da história do reino. No essencial. Trata-se de uma série de garantias que tinham sido estabelecidas nas Cortes de Lisboa de 1499. João. com grande clareza. assinalando que a coexistência de vários regimes sucessórios dificultou a avaliação dos fundamentos jurídicos invocados pelos vários candidatos ao trono português. Sancho II fora declarado rex inutilis e substituído pelo seu irmão D. da tese da eleição do rei pelas Cortes. em Portugal.. Henrique I para Lisboa. Conta Fernando Bouza Álvarez107 que. Catarina de Bragança e D. lembrando episódios do passado português em que os «três estados». no sentido de levar por diante a eleição. Porém. no seu conjunto a crise sucessória de 1578-80 contribuiu para potenciar do papel das Cortes de Portugal. a disputa suscitada pela crise dinástica. primeiro rei de Portugal. Assim. os «três estados» – convocados por D. Como dissemos.. A ASSEMBLEIA DE CORTES. Para além da mobilização de um complexo argumentário jurídico. e como assinala Mafalda Soares da Cunha. em 1579.. nas quais D. Miguel. em contextos de crise sucessória. as Cortes de 1385. cada um à sua maneira. de uma forma taxativa. tanto mais que os teólogos de Salamanca e de Alcalá que tinham sido consultados sobre a .

188 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS matéria haviam declarado que as Cortes não tinham o poder para eleger reis110. os acontecimentos precipitaram-se. entretanto. no caso de o trono estar vago. Filipe de Habsburgo desejava evitar. prior do Crato e um dos pretendentes ao trono português. António. contando com a comparência do monarca. Na sequência destes eventos. nesta fase. fazendo-se aclamar – numa cerimónia atípica. exercido fora do controle da Coroa. Henrique. Nas sessões que se seguiram os «estados» debateram. António. mantendo uma acalorada discussão sobre o futuro da Coroa. fundamentalmente. decidiu precipitar os acontecimentos. um gesto que visava transferir para os «três estados» a responsabilidade de uma decisão tão melindrosa. falecia a 31 de Janeiro. e terá sido nessa altura que D. Pela mesma altura. E num contexto em que era cada vez mais evidente que Filipe de Habsburgo pretendia dar início à intervenção militar sobre Portugal. depois de vários dias de agonia. Enquanto decorriam estas indagações. outros juristas alegaram que só havia lugar para a intervenção das Cortes em última instância. Filipe de Habsburgo fez a sua entrada em Portugal. Este acontecimento preocupou Filipe II e terá precipitado a acção militar que culminaria na derrota das forças apoiantes de D. e uma parte dos presentes manifestou-se a favor da capacidade electiva das Cortes – solução que. a 30 de Abril de 1580 os cinco Governadores voltaram a convocar o «reino» para Santarém. esse evento atemorizou bastante Filipe II e os seus apoiantes. Já bastante debilitado e muito pressionado pelos vários pretendentes ao trono português. a que alguns deram a denominação de «Cortes» – a 19 de Junho de 1580112. A abertura solene das Cortes realizou-se a 11 de Janeiro de 1580. cidade onde se situava a sede da prestigiada Ordem de Cristo. deixando o reino entregue a cinco Governadores. ou seja. o que não impediu que as Cortes continuassem reunidas até 15 de Março. Ao optar por realizar o seu primeiro encontro com os «três estados» portu- . em finais de 1579 o rei convocou os «três estados» para uma reunião em Almeirim. de não existirem candidatos e de a «república» se encontrar em necessidade extrema111. pois foi um exemplo concreto de voluntarismo do «reino». Apesar de se tratar de uma reunião que congregava apenas uma parte dos representantes do terceiro estado e que contava com uma reduzida representação do clero e da nobreza. D. escolhendo um dos candidatos e colocando de parte os demais113. a questão sucessória. Aqueles que estiveram presentes no evento de Santarém manifestaram a sua vontade. e pouco tempo depois convocou as Cortes para a localidade de Tomar. por estar na posse de informações de que os demais pretendentes contavam com muitos apoiantes no seio do «braço do povo». Em meados de Junho estava já em Santarém um número considerável de procuradores.

semelhante opção envolveu uma cedência. A carta que enviou aos «três estados». as suas instituições. Filipe de Habsburgo dava a indicação aos seus novos vassalos portugueses de que não pretendia tratar Portugal como uma simples conquista. as suas leis. em termos que permitiram aos lusos preservar a sua dignidade reinícola. especificava o motivo da convocatória: «Pera me jurarem por verdadeiro Rey e senhor destes Reynos e senhorios delles. de fazer tábua rasa dos foros portugueses e de implementar um novo modelo de governo. em terras lusas as Cortes só eram legítimas desde que fossem convocadas pelo rei. Como é evidente.. fidelidade e obediencia em forma de direito.. mas sim como mais um reino a agregar àqueles que já faziam parte dos seus domínios115. o que está consagrado no «Estatuto de Tomar» de 1581. Filipe de Habsburgo optou por negociar. local de onde emanava uma intensa memória do passado português. ao optar por chamar os «três estados». ao invés de seguir por esse caminho.116 Quanto à manutenção da assembleia representativa portuguesa. uma vez que. Tal significava que o monarca Habsburgo tivera a oportunidade de aplicar a Portugal o direito de conquista e de fazer tábua rasa dos privilégios reinícolas da Coroa portuguesa. haviam sido derrotados. No entanto.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. do estatuto reinícola de Portugal e dos seus correlativos foros. Filipe de Habsburgo procurava transmitir um sinal de continuidade face à dinastia cessante. Através desse gesto Filipe II procurou atingir dois objectivos: pretendeu mostrar que actuava já como rei de Portugal. pela solução pactuada. A resistência antoniana dera a Filipe II a oportunidade de aplicar o direito de conquista a Portugal. meu sobre todo muito amado e muito prezado filho primogenito. Contudo. pois era para todos evidente que os portugueses – ou pelo menos parte deles – tinham pegado em armas contra Filipe II e. como a meu verdadeiro e legitimo suçessor. bem como tirar partido da força simbólica do Convento de Cristo. datada de Janeiro de 1581. o artigo 2. A convocatória dos «três estados» surpreendeu alguns observadores coetâneos. É isso. 189 gueses nesta localidade.º do «Estatuto» era muito claro: «Que quando ubieren de hazer Cortes tocantes a estos Reynos sean dentro de Portogal y que en otras qualesquier que ouieren fuera dellas no se pueda proponer. como o suo. convocando as Cortes. A ASSEMBLEIA DE CORTES. e assy ao Principe Dom Diogo. por Filipe II. os seus costumes. pela nego- . e me fazerem preito e menagem de vassalagem. Para além disso. na sequência disso. de resto. o seu espaço jurisdicional. a saber: o reconhecimento. tratar ni determinar cosa alguna que toque a los dichos Reynos»117.. como assinalámos no início. um articulado onde ficou estabelecido o status de Portugal como reino agregado à Monarquia Hispânica. etc. a sua língua..»114.. o «rei prudente» optou pela via do compromisso.

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ciação e pela cedência de contrapartidas aos seus novos vassalos portugueses. Todavia, é importante frisar que Filipe II, ao mesmo tempo que apostou numa solução de continuidade, quis deixar bem claro que o «Estatuto de Tomar» era algo que decorria da «graça real», e não de uma obrigação régia de respeitar os foros portugueses. Como assinalou Fernando Bouza, Filipe II procurou apresentar o “seu” Portugal como a continuação do «modo y manera» que D. Manuel havia idealizado para o seu filho D. Miguel, embora frisando que tal correspondia a uma decisão sua, e não ao eminente direito ou vontade dos portugueses118. No que respeita ao lugar constitucional das Cortes, como vimos a crise sucessória acabou por ser algo ambivalente. Por um lado, ao convocar as Cortes para sancionar a sua entrada em Portugal, Filipe II de alguma maneira concedeu a essa assembleia um protagonismo que ela tinha perdido durante o governo de D. Sebastião I. Esse relançamento das Cortes, associado às atribulações dos anos de 1579 e 1580, poderia até ter dado o mote para um movimento que visasse reequacionar o papel constitucional da assembleia, por exemplo consagrando a sua capacidade para vigiar, de forma permanente, a actuação do rei no que concerne ao respeito pelo estatuto reinícola de Portugal. Todavia, não foi isso o que aconteceu. Na verdade, ao mesmo tempo que concedeu esse protagonismo aos «três estados», Filipe de Habsburgo frisou que a intervenção das Cortes em matérias tão transcendentes como a sucessão no trono ou o estatuto de Portugal no seio da Monarquia Hispânica era limitada e circunscrita àquela ocasião excepcional. Aliás, convém não esquecer que as Cortes de Tomar foram, essencialmente, um evento cerimonial, uma vez que o fundamental da negociação se realizou previamente. Além disso, pouco depois de efectuado o juramento, Filipe II manifestou pouco empenho em que as reuniões de trabalho prosseguissem, revelando mais preocupação por seguir para Lisboa, onde, já na qualidade de soberano jurado pelos «três estados» portugueses, iria ser recebido com grande solenidade119. Além disso, importa ter presente que o monarca, até ao final do seu reinado, só por uma ocasião voltou a convocar as Cortes de Portugal, e fê-lo numa altura em que se preparava para deixar as terras lusas. Trata-se da reunião de 1583, especificamente pensada para que os portugueses jurassem o príncipe D. Filipe como novo herdeiro, e que teve como principal particularidade o facto de os procuradores terem sido chamados única e exclusivamente para jurar o príncipe. O rei tencionava partir, quanto antes, para Castela, razão pela qual desejava umas Cortes rápidas. Por isso, e como recordaria, anos mais tarde, o conde de Salinas, as cartas de convocatória para a cerimónia de 1583 incluíam a seguinte indicação:

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«Embiaréis vuestros procuradores con poder bastante para que juren al Príncipe Don Phelipe, mi hijo mayor, por Rey y Señor destos Reinos después de mis dias»120 – ou seja, a carta de convocatória circunscrevia o âmbito das matérias a debater na assembleia, um gesto pouco comum na tradição das Cortes de Portugal121. Depois desta reunião, Filipe II partiu para Castela e não voltou a visitar Portugal até ao final do seu reinado. Como consequência, até 1598 as Cortes portuguesas não voltaram a reunir. Ainda assim, cada vez que o monarca católico tomou a iniciativa de introduzir um novo imposto ou de repor uma taxa que tinha sido levantada – caso dos portos secos, abolidos em 1581 mas repostos em 1592 –, os descontentes fizeram-se ouvir, apresentando as Cortes como a instância competente para decidir sobre essa matéria122. Convém notar que estas e outras queixas similares continuaram a ser escutadas nas décadas subsequentes. Mais do que a expressão de um confronto “nacional”, eram, antes de mais, a reacção de uma sensibilidade política eminentemente jurisdicionalista, a qual não escondia a sua repugnância por modalidades decisórias mais voluntaristas e que não passavam pelos canais costumeiros.

As Cortes nos finais do século XVI e na primeira metade do século XVII
A partir de finais do século XVI os monarcas hispânicos cada vez menos se ausentaram de Castela. Em parte por causa disso, o número de reuniões das Cortes castelhanas aumentou, realizando-se aproximadamente de três em três anos: Filipe III convocou as Cortes por 6 vezes; quanto a Filipe IV, reuniu a assembleia representativa por 8 ocasiões. Importa frisar que quase todas as reuniões então efectuadas incidiram sobre a problemática fiscal. Viviam-se tempos em que as dificuldades financeiras da Coroa eram cada vez maiores, facto que levou o rei a optar por abandonar a fiscalidade directa-pessoal, adoptando, como substituição, a fiscalidade indirecta, através de impostos sobre o consumo. Assim, em Castela os servicios estagnaram, ao mesmo tempo que se dava um crescimento significativo das alcavalas e dos millones123. Tal opção fez com que as Cortes de Castela se tornassem num dos principais espaços de negociação da política fiscal. Como sugerimos atrás, a partir de meados do século XVI a Coroa tirou partido das reuniões de Cortes para incutir, nos representantes dos «três estados», novos sentimentos de pertença. Aproveitando a circunstância de estarem presentes representantes de todas as partes do corpo político, os oficiais régios lembraram que o facto de pertencerem à entidade política «reino» comportava obrigações e até mesmo sacrifícios – como por exem-

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plo o pagamento de impostos, o recrutamento militar, o apoio logístico às forças militares, etc. – que deveriam ser aceites sem qualquer questionamento. A estes apelos os representantes deram uma resposta plural. No que toca ao desempenho dos procuradores no decurso das reuniões, J. I. Fortea Pérez sublinha que, no quadro das Cortes de Castela, é evidente um forte contraste entre, por um lado, a perspectiva mais geral, à escala do reino, patenteada pelos oficiais régios e, por outro, a visão localista dos procuradores. Aliás, o facto de os custos inerentes à participação nas Cortes terem sido sempre suportados pelas finanças locais contribuía, certamente, para manter este apego dos procuradores às suas questões «particulares». Segundo J. I. Fortea Pérez124, esta distinção jamais foi superada, tendendo até a acentuar-se a partir do momento em que a Coroa procurou elevar o estatuto das Cortes de Castela e convertê-las num órgão superior (e autónomo) face às cidades. Tal sucedeu no final do século XVI, e nessa ocasião as cidades esforçaram-se por impedir que essa proposta régia fosse posta em prática. Terá sido precisamente neste contexto que se tornou mais visível a ambiguidade no modo como eram entendidas as relações entre o rei e o reino, e o papel que cabia às Cortes desempenhar. Para alguns o reino era contemplado como uma comunidade integrada, superior e distinta da soma das suas partes. Nesse âmbito, as Cortes eram vistas como o órgão de representação institucional, e a prioridade seria concentrar processos de tomada de decisão e homogeneizar procedimentos, através de uma assembleia única. Para outros, pelo contrário, o reino era visto como um agregado de comunidades autónomas, sendo as Cortes tidas como uma mera junta de cidades. Neste quadro as atribuições das cidades saíam claramente fortalecidas, uma vez que previa o controle, pelos poderes urbanos, das principais funções administrativas. De acordo com Fortea Pérez125, a Coroa castelhana, a fim de evitar o poderio das cidades e a sua estratégia de bloqueio da política fiscal, procurou potenciar as Cortes e colocá-las numa posição intermédia entre o rei e as cidades, mas em qualquer caso acima destas últimas. O objectivo era autonomizar as Cortes e libertá-las da obrigação de conferirem com as cidades cada uma das decisões que era necessário tomar. Paralelamente, os ministros régios actuaram no sentido de captar o favor dos procuradores e de dificultar a comunicação destes com as cidades de onde eram oriundos. No fundo, aquilo que interessava à Coroa era que os procuradores (e as Cortes) falassem em nome do conjunto do reino, e não como meros representantes dos seus lugares de procedência. Segundo A. M. Hespanha, foi esse o momento em que se começou a adquirir a ideia de que o reino era algo de diferente do conjunto das partes, caminhando-se para a representação do conjunto do corpo político por apenas alguns126.

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O debate em torno desta questão conheceu o seu auge nos últimos anos do século XVI e na primeira metade de Seiscentos, altura em que a Coroa – e alguns procuradores – tentaram instaurar uma maior distância entre as Cortes e as cidades. Porém, e como seria de prever, as urbes moveram uma tenaz resistência a estas medidas. De qualquer modo, o resultado esperado não se concretizou, pois apesar de mais potenciadas e independentes face às cidades, as Cortes de Filipe III e de Filipe IV revelaram-se morosas e difíceis de gerir por parte dos ministros da Coroa. Além disso, a transferência do «voto decisivo» das cidades para as Cortes, em 1632, não livrou a Coroa de negociações muito árduas com os procuradores127. Acresce que algumas urbes castelhanas encetaram processos de negociação em paralelo às Cortes. Na verdade, várias cidades preferiram negociar directamente com a Coroa em vez de o fazerem na assembleia representativa, pois, por essa via, alcançavam acordos bilaterais, evitando desse modo os pactos estabelecidos entre a Coroa e a maioria das cidades. Outro fenómeno que importa destacar é o facto de, em pleno período de Seiscentos, os aristocratas voltarem a manifestar um certo interesse pelas Cortes. Os nobres, em especial os de ascensão mais recente, verificaram que a assembleia podia ser usada como uma forma de captar oportunidades de serviço ao rei, assim como para consolidar a sua influência na corte régia. Dignitários poderosos como o duque de Lerma, o condeduque de Olivares ou D. Luis de Haro, por exemplo, tiveram lugares nas Cortes enquanto representantes de cidades. Contudo, este regresso dos aristocratas voltou a gerar tensões, pois determinadas cidades eram hostis a membros da nobreza que desempenhavam a função de procuradores128. Algo de semelhante se passava nas Cortes portuguesas, onde, como dissemos, foi sempre notória uma clivagem entre, por um lado, as cidades do primeiro banco, representadas em geral por membros da nobreza de corte que detinham um fácil acesso ao rei ou aos seus principais ministros, e, por outro, as restantes cidades. Com o acentuar da centralidade de Castela no quadro da Monarquia Hispânica, a corte régia permaneceu nesse reino por períodos cada vez mais longos, e os castelhanos assumiram, nessa fase, o papel de liderança dos territórios dos Habsburgo espanhóis129. Foi de Castela que partiram algumas das principais iniciativas de reforma, as quais visaram, fundamentalmente, inverter a tendência recessiva das décadas anteriores. O monarca hispânico efectuou muito menos visitas aos seus reinos, o que, consequentemente, levou à realização de um menor número de reuniões das Cortes de Aragão, de Portugal e da Catalunha, para já não falar das assembleias representativas dos reinos italianos que estavam na órbita dos Habsburgo.

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Como não podia deixar de ser, a dinâmica reformista que se viveu sob Filipe III e Filipe IV influenciou as relações entre o centro da Monarquia Hispânica e os demais reinos que integravam os domínios dos Habsburgo. Vários interesses estabelecidos foram afectados pelo voluntarismo político dos ministros régios, e os sinais de descontentamento não tardaram em surgir. No conjunto dos seus trabalhos, John H. Elliott demonstrou que, no quadro da cultura política do Antigo Regime, quando as pessoas se sentiam ameaçadas a típica atitude de defesa era o refúgio atrás de barreiras protectoras como os seus costumes, as suas leis, as suas instituições e as suas tradições. É precisamente nesse contexto que, em Aragão, em Portugal, na Catalunha e também nos territórios italianos da Monarquia, se procede a uma revalorização das Cortes enquanto símbolo dos foros reinícolas. Com efeito, no contexto da ofensiva fiscal da primeira metade de Seiscentos, as Cortes dos vice-reinados simbolizaram o estatuto reinícola e a defesa dos direitos dos vassalos contra os cada vez mais insistentes pedidos do rei para que aumentassem a sua contribuição fiscal. Por outras palavras, a maior agressividade da política fiscal da monarquia concorreu para que as Cortes – tanto as de Castela como as dos demais territórios da Monarquia – voltassem a estar no centro do debate político. Os portugueses também sentiram a nova dinâmica integradora das primeiras décadas de Seiscentos, e à semelhança do que se passou em outras partes da Península, os lusos também se voltaram para a assembleia de Cortes, encarando-a como o principal símbolo do estatuto reinícola de Portugal130. Aos apelos chegados da corte régia para que fossem mais solidários com a Monarquia, respondiam os lusos com o argumento de que Filipe III, enquanto rei, ainda não havia jurado os foros portugueses, e que as iniciativas fiscais que se anunciavam teriam necessariamente de passar pela aprovação das Cortes de Portugal, alegando que tal correspondia ao costume seguido no reino desde os tempos mais ancestrais. Quanto a Filipe III, rei mais voluntarista do que é costume pensar, deu a entender que só viajaria até Portugal para reunir as Cortes desde que os portugueses chegassem a acordo quanto ao montante da sua contribuição fiscal para a Monarquia131. A invocação das Cortes como argumento de resistência dos lusos contra as solicitações fiscais da Coroa dos Habsburgo tornou-se de tal modo insistente que, em Janeiro de 1613, D. Diego de Silva y Mendoza, conde de Salinas e figura proeminente no Conselho de Portugal132, apresentou ao rei um «memorial» sobre «las prerrogativas de la Corona y de las Cortes de Portugal». Trata-se de um parecer que se inscreve nos debates sobre a ida de Filipe III a Portugal para reunir as Cortes, e nele se discute não só

ou seja. Salinas sustenta que. ni que por ningún camino tengan el nombre de Reino. No seu parecer. porque é a pessoa régia quem confere poder a «todas las personas que tienen voto en ellas. sem que. por isso mesmo. o Conselho de Portugal – o órgão que. a pretexto da vinda de Filipe III. Salinas recorda a convocatória de 1583. ao ponto de. e que. quando é o rei quem convoca a assembleia. No seu interessantíssimo «memorial» Salinas critica também o desejo de protagonismo manifestado pela Câmara de Lisboa. na corte. A ASSEMBLEIA DE CORTES. em Portugal. Foi neste ambiente que D. sin preceder convocación y voluntad expresa de S. y con poderes bastantes suyos»133. alguns portugueses manifestaram o seu descontentamento pelo facto de Portugal não contar com um conselho próprio junto do rei. Para provar esta última afirmação. o monarca e os seus ministros hesitaram quanto à oportunidade da jornada. M. o que – segundo o conde de Salinas – transcendia em . futuro Filipe III. tivessem voltado a activar o Conselho de Portugal. Devido à sua importância para o tema que estamos a analisar. quando Filipe II ordenara que se desse aos procuradores única e exclusivamente o poder para jurar o príncipe D. na previsão de uma estadia mais ou menos próxima do rei em terras portuguesas. Filipe. uma vez que o juramento de 1583 continuava perfeitamente válido. representava os portugueses e a sua condição reinícola – ter sido temporariamente suspenso e substituído por uma junta restrita. «todas las otras juntas que los pueblos hicieren. mas sobretudo até que ponto era o monarca obrigado a fazer essa jornada. em especial o facto de esta instituição ter insinuado que poderia jurar o príncipe Filipe (futuro Filipe IV) em sua ausência.. y mandando que no se trate de otros». por causa desse precedente histórico. 195 a conveniência da viagem. equivalia a uma despromoção do reino no quadro da Monarquia Hispânica. este documento é merecedor de uma análise detalhada. A viagem esteve mesmo para ter lugar no início da segunda década do século XVII.. Diego de Silva y Mendoza produziu o seu parecer sobre as Cortes de Portugal. por esta instituição se ter apresentado como uma entidade que falava em nome do «Reino». Contudo. que puede convocar generalmente. ni conuiene que las hagan. no se llaman Reino de Portugal. lacuna que. Para Salinas. particulariçando los cassos para que comboca. não carecia de se deslocar a Portugal para ser jurado pelas Cortes deste reino. no início do seu reinado. durante esse período de indefinição. também.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. Salinas critica o Senado de Lisboa. Perante essa situação. ni las pueden hazer. cuya soberanía en la Corona de Portugal es tan grande. a prolongar-se. o rei não deveria ter qualquer dúvida de que havia sido jurado enquanto príncipe.. quando as Cortes são legitimamente convocadas.. Salinas começa por afirmar que só se pode falar em «Reino».

196 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS muito a jurisdição da dita câmara134. assumir o título de «Reino em Cortes» e tomar decisões. acrescentando que a reunião de Cortes sem que a convocatória procedesse da vontade régia poderia ser equiparada a um gesto de rebelião. preueniendo de paso otros semejantes. Prosseguindo na sua digressão pelos acontecimentos de 1581. Salinas afirma que Portugal não era uma dessas «coronas en que el Reyno se puede congregar por propia autoridad y sin mandato real. António e a assembleia que se reuniu. fora um gesto resultante da vontade régia e. que. em 1580. Salinas manifesta a sua veemente oposição à ida do monarca hispânico a Portugal naquele momento tão delicado. donde se prosupone que el heredero es Rey. y para el Reino. Todavia. No fundo. afirma Salinas que «los Reinos que toman armas contra sus Reys pierden. aya quien le congregue. no quadro da crise sucessória. mas sim por «graça real». A esse respeito. viene a ser el juramento en mayor utilidad del Reyno que del Rey. pues para el heredero es cirimonia el juramento. desde aquel punto. sus priuilegios. sin convocación del Rey para eligir a Don Antonio. sobre matérias tão transcendentais como a sucessão na Coroa. no que concerne a Portugal Salinas era da opinião de que a questão se colocava de uma maneira completamente diferente: «en Portugal. revogável em qualquer momento que o monarca assim o decidisse136. más justa i más bien considerada que la que prohibe que semejantes juntas no pueden tener nombre de Reino. qué pena se pudo proporcionar a este delito.. por ser através dele que o rei via a sua situação legitimada. Diego de Silva. defendendo. voluntariamente e sem o prévio consentimento do monarca. sem que tivesse sido chamada por um rei legítimo – «Porque si el delito fué juntarse el Reino. De acordo com D. le haga . Salinas recorda que o privilégio de a população poder juntar-se com o nome de «Reino». i que sólo le tenga el que fuere ligitimamente congregado por su Rey en Cortes?»135. logo. ao reunir as Cortes e ao contemporizar com os portugueses.. nalguns reinos a «utilidade» do juramento era recíproca. efectua uma análise muito sugestiva das implicações do juramento efectuado em Cortes. não estava previsto no juramento que Filipe II efectuara em Tomar. declara que Filipe II. y quando se les restituyen. i congregado. sendo também mediante essa cerimónia que o reino conseguia que os seus privilégios fossem jurados pelo monarca. sin que preceda juramento. em vez disso. Ou seja.». de motu proprio. De seguida. son solos los que la restitución y gracia declara». sem convocatória régia. Em face desta questão. corria o ano de 1581. fê-lo não propriamente porque sobre ele pesava a obrigação de respeitar os foros portugueses. Com base nestes dados. uma postura mais afirmativa do rei. Diego da Silva era negar a Lisboa a legitimidade de. a principal preocupação de D. sustancia. Salinas relembra o caso de D. con ocasión del juramento.

Foi a única vez que.. em vez disso. do que estava a suceder em outros pontos da P.. o monarca apressou-se a abandonar Portugal. 197 parte para que pueda pedir al Rey que le jure sus preuilegios»137. a propósito. bem pelo contrário. os pretendentes dependiam dos vassalos. mas apenas em 1619. a falta de resposta às petições de 1619 será relembrada pela publicística apoiante do duque de Bragança. Para Salinas. plasmado em propostas. nestas duas últimas condições. floresceu um discurso de desvalorização da assembleia dos «três estados». apoiando-se. Recorda. Na década de 1630. que haze el Reyno de Portugal. Filipe IV e Olivares lançaram várias iniciativas fiscais sem consultarem as Cortes de Portugal. y su Consejo. No reinado que se seguiu. esse contexto de crescente voluntarismo régio reforçou um processo que já se vinha fazendo sentir: a identificação entre as Cortes de Portugal e a condição reinícola de Portugal. a resposta a muitas das petições que foram entregues nas Cortes139. no seu reinado. A ASSEMBLEIA DE CORTES. arbítrios e memoriais difundidos a partir de finais da década de 1620.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. A despeito destas observações. razão pela qual os monarcas não estavam tão limitados como em França pela vontade dos seus vassalos. As Cortes não só não foram convocadas como. Anos mais tarde. como é bem sabido. Como seria de prever. Salinas sustenta que bastava a condição de herdeiro para se ser rei. Ibérica140. numa reunião praticamente reduzida à cerimónia do juramento do príncipe herdeiro e a uma rápida negociação sobre matérias fiscais. para um dignitário chegar a rei não bastava ser herdeiro. al de . cada vez que surgiam planos de introdução de novos tributos. nessa ocasião. o caso de França e o facto de os seus reis serem ungidos e jurados. as Cortes. tornando-se também necessário ser jurado e ungido. aliás. Talvez para evitar essas críticas. também. o que inviabilizou o debate sobre outras questões governativas. pelo contrário. acrescentando que. nesse reino.. impedindo. incluindo Castela) lembravam que em Portugal existia o costume imemorial de os novos impostos não serem introduzidos sem o consentimento dos povos reunidos em Cortes. nos anos que se seguiram. convocando. em expedientes representativos mais ágeis – na linha. a qual viu nesse gesto um sinal do mau governo dos Habsburgo em Portugal. Filipe III acabou mesmo por viajar até Portugal. o monarca se juntou com os «três estados» portugueses. Em Portugal. durante a qual os ministros régios tiveram de escutar uma série de queixas acerca da violação de algumas das condições do «Estatuto de Tomar»138. Jean-Frédéric Schaub chamou recentemente a atenção para a importância do Memorial de la preferencia. as instituições lusas (à semelhança do que se passava noutras partes da Península. Tais apelos não parecem ter comovido o conde duque de Olivares e os seus ministros.

ao contrário do que se passava em Aragão. Salgado de Araújo defende a legitimidade dessas juntas. entre outras coisas. 1627). assim como a oportuna revelação das «actas» das Cortes de Lamego. Pouco tempo depois. 1627). em Madrid. o mesmo Salgado de Araújo volta a defender as juntas.. um documento – apócrifo – que. proporcionava o aval histórico ao protagonismo político que muitos desejavam atribuir à «assembleia dos três estados». Contrariando de uma forma flagrante o estabelecido pelo «Estatuto de Tomar». Assim se compreende os apelos à reunião de Cortes escutados durante a década de 1630. estes escritos tiveram algum impacto em Portugal. para alguns. pois fazia corpo imediatamente com a Coroa.198 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Aragon. (Madrd. juntas ad hoc para despachar. de forma célere. os «três estados» tinham o direito a pronunciar-se sobre matérias governativas.. os negócios de Portugal. factor que conferia mais dignidade a Portugal no quadro da sua “competição” com os demais reinos que integravam a Monarquia Hispânica141. Este exemplo demonstra que.. Juan Delgado. Barbosa de Luna afirma que em terras lusas o rei era «mais absoluto». Atribuídas ao período fundacional do reino. o que foi interpretado como um indício seguro de que estava em curso um processo de despromoção do estatuto reinícola de Portugal. desde as origens de Portugal como unidade política independente. Não tardou a correr o rumor de que se planeava a supressão das Cortes. sem necessidade das Cortes. sustentando também que a Coroa lusa era mais «absoluta» do que a aragonesa. Entre os muitos argumentos esgrimidos nesta obra há um que se relaciona directamente com a «assembleia dos três estados»: para provar a preeminência de Portugal. a maior liberdade de manobra do monarca constituía um factor de preeminência para o reino. da autoria de João Salgado de Araújo. para além de ter funcionado como elemento galvanizador para todos aqueles que foram atingidos pelas iniciativas de Olivares142. como um aperfeiçoamento pontual da administração da Coroa. na obra Ley Regia de Portugal. . Geraldo de Vinha.. Durante o valimento de Olivares sucederam-se os escritos – boa parte deles assinados por portugueses – onde se expressava uma opinião desfavorável sobre as Cortes lusitanas e acerca do seu papel no sistema político. y de las dos Sicilias (Lisboa. o rei de Portugal podia revogar leis de Cortes sem reunir os «três estados». um impresso da autoria de Pedro Barbosa de Luna e que surge no contexto da disputa de precedência entre a Coroa de Aragão e a Coroa de Portugal. onde se discute até que ponto era legítimo organizar. as «actas» da assembleia de Lamego alegadamente provavam que. Como não podia deixar de ser.. Para além do citado tratado de Barbosa de Luna. encarando-as como um tribunal ad hoc. um outro bom exemplo do que acabámos de afirmar é um breve manuscrito de meados da década de 1620. Para o autor do Memorial.

rompia. Além disso. Todavia. para além do seu carácter ancestral.. para Madrid. como uma instância cuja actuação se inspirava no modelo judicial de gestão administrativa. para além de se ter recusado a reunir Cortes. Como se não bastasse. A reunião visava encontrar uma solução para a substituição da duquesa de Mântua.. uma espécie de reunião restrita das Cortes de Portugal. A ASSEMBLEIA DE CORTES. A pressão fiscal do período de Olivares amplificou o ressentimento contra a sua pessoa e a sua clientela. com essa lógica de actuação. o conde duque de Olivares decidiu convocar. órgão que se assumira como um dos principais obstáculos à sua política fiscal em terras lusas. como forma de resistência ao regime decisório eminentemente executivo instaurado pelo valido de Filipe IV.. Importa não esquecer que a «assembleia dos três estados». Convém não esquecer que se vivia uma conjuntura em que era cada vez mais forte a presença de Olivares e da sua clientela. se auto-representava como um tribunal. Em meados de 1638. O valido de Filipe IV pretendia substituir esse conselho por um organismo con- . implementou uma fiscalidade particularmente extensiva. é importante ter em conta que o apelo à convocatória dos «três estados» podia servir vários propósitos. Recorde-se que o conde-duque. em muitos aspectos. Para além de constituir um instrumento de defesa da condição reinícola do reino português. os principais responsáveis pela agitação social que se registou ao longo de toda a década de 1630. e muitos daqueles que lutaram contra o seu estilo de governo – por se afastar do tradicional e muito mais consensual paradigma jurisdicionalista – usaram as Cortes como o símbolo da maneira consuetudinária de governar em Portugal. Terão sido estes.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. e na sequência das perturbações ocorridas no ano antecedente. com a consequente subalternização dos nobres e dos letrados até aí preponderantes. delegando a aplicação das decisões num conjunto de oficiais régios de carácter comissarial e revestido de uma considerável margem de poder. podia funcionar. a junta realizada em Madrid acabou por não surtir o efeito desejado. Quanto à linha de actuação do valido de Filipe IV. também. embora tivesse também a finalidade de encontrar uma forma de atenuar o descontentamento vivido em Portugal. pouco tempo depois Olivares decidiu levar a cabo uma medida ainda mais drástica: a dissolução do Conselho de Portugal. em matérias de governo o valido concentrou a faculdade decisória no seu círculo de confiança. afectando grupos – e respectivos privilégios – que até esse momento tinham sido poupados. precisamente. e que atingiu o seu ponto culminante no ano de 1637143. já que muitos viram na decisão de Olivares de consultar os notáveis do reino fora de Portugal a confirmação de que o valido estava mesmo apostado na revogação do «Estatuto de Tomar» e na despromoção de Portugal. 199 Todavia.

no contexto das grandes dificuldades financeiras de 1599. as decisões tomadas pelas Cortes. Como assinalou Jean-Frédéric Schaub144. No «Discurso juridico-politico sobre el derecho que el Rey nuestro señor tiene en el reino de Portugal y union de su gobierno a la . Pretendia Olivares que as Cortes deixassem de ser símbolos do particularismo reinícola. de motu proprio. Dessa forma. Schaub bem reconheceu. J. chegando mesmo a propor a celebração de uma reunião de Cortes comum às duas Coroas – Castela e Portugal – em Madrid. e que se convertessem em órgãos fomentadores de sentimentos de pertença ao conjunto da Ibéria. a este respeito. escreve Agostinho Manuel algumas palavras que vão claramente no sentido da desvalorização dessa assembleia: «es de advertir que la precision que los principes comunmente platican en las promesas que hacen en Cortes nunca es tan exacta ni tan indispensable que sobreviniendo en la ejecuccion inconvenientes no queden con libertad de emendar-las interpretar-las i aun derogar-las porque parece que siempre llevan la tacita condicion de que las cumplira no obstando al bien publico del imperio»145. Xavier Gil Pujol recorda que. Vasconcelos vai mais longe. outro caso a reter são. sem dúvida. Schaub destaca as sugestões que foram avançadas por Agostinho Manuel de Vasconcelos. nos anos de 1638 e 1639 Olivares recebeu numerosas propostas – muitos delas da autoria de portugueses – que apontavam no sentido da reconfiguração do estatuto de Portugal no quadro da Monarquia Hispânica. Sobre as Cortes de Portugal. Voltando aos papéis sobre Portugal em circulação na corte régia no final da década de 1630. os escritos do português Diogo Manuel de Orta. o que estava basicamente em jogo era afirmar que o monarca tinha o poder de alterar. Todavia. uma Junta General ou um Consejo Supremo. Como facilmente se imagina. por Fernando Bouza148. Convém lembrar. esperava-se conseguir fomentar um mais intenso sentimento de pertença entre as várias partes que compunham a Monarquia. nenhuma dessas propostas foi avante147. esta decisão foi tudo menos pacífica.-F. também se propôs a criação de uma grande assembleia de toda a Espanha. sobretudo. Entre os vários escritos que então circularam.200 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS junto luso-castelhano e estreitamente controlado pela Coroa. estudados. que a proposta de convocatória de uma assembleia geral dos reinos da Península Ibérica não apareceu apenas em arbítrios que tinham a ver com matérias portuguesas. Contudo. Como J. uma espécie de États Généraux de França. ou então a convocação de uma vasta junta de personalidades portuguesas a realizar na corte régia146. Convém assinalar que esta não foi a única proposta de criação institucional onde os limites jurisdicionais entre Portugal e a restante Monarquia Hispânica surgiam algo esbatidos.-F.

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Real Corona de Castilla»149, o argumento principal de Orta é que o contrato feito nas Cortes de Tomar, em 1581, não tinha qualquer validade, dado que o rei já era senhor do reino antes das Cortes. A acreditar em Orta, Portugal era um reino herdado, e a natureza separada do reino português desaparecia com a herança castelhana, o que levava o autor do «Discurso juridico-politico» a afirmar que as leis castelhanas podiam ser impostas em Portugal. Numa digressão pelo passado recente da Monarquia, Diogo Manuel de Orta aproveita para criticar Filipe II pelas concessões que havia feito e por ter sido demasiado contemporizador para com os lusos, os quais, convinha não esquecer, tinham resistido militarmente contra a entrada na Monarquia Hispânica. Além disso, lembra que os levantamentos de 1637 tinham de ser interpretados como uma revolta, devendo ser retiradas todas as consequências desse facto, ou seja, tais acontecimentos significavam a quebra unilateral do pacto entre os dois reinos, ficando Filipe IV livre de qualquer obrigação de respeitar os foros portugueses150. Como notou J.-F. Schaub, o que estava subjacente a este texto era a redução de Portugal à jurisdição da Coroa de Castela, ou seja, o desaparecimento da Coroa portuguesa enquanto entidade juridicamente separada da restante Monarquia Hispânica151. É importante não perder de vista que as iniciativas de Lerma e de Olivares têm lugar numa época em que, em termos da cultura política dominante, ainda não era socialmente aceitável a ideia de uma gestão governativa puramente executiva, tal como não era nada pacífica a actuação governativa que não estivesse confinada aos moldes da iurisdictio152. Assim, em Portugal, tal como noutras partes da Monarquia (incluindo Castela), boa parte dos apelos para que as Cortes fossem convocadas, no quadro da resistência a Lerma ou a Olivares, foram o resultado da repugnância pelas práticas governativas extra-judiciais e de sentido eminentemente executivo, e não propriamente o simples e espontâneo produto de factores nacionais. Muitos letrados demonstraram-se agravados com este estilo de governo, pois sentiam que os novos ministros favorecidos pelo valimento estavam a atropelar tanto a sua hierarquia profissional quanto o seu cursus honorum. Um número não negligenciável de disputas foi pois motivado por magistrados ciosos do seu ofício, os quais, dando corpo ao seu sentido de estrito cumprimento da jurisdição, reagiam contra intromissões jurisdicionais, independentemente da nacionalidade daquele que levava a cabo essa acção. Quanto à aristocracia, nestes anos também ela clamou a favor das Cortes, não só por ter sido relegada para segundo plano pela clientela do valido, mas também porque, do seu ponto de vista, a privança introduzia um grave desequilíbrio na «justiça distributiva»153. Um dado parece certo:

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o acumular desses episódios de tensão fez com que, aos poucos, a ideia do pacto rei-comunidade deixasse de ser um assunto abstracto e só discutido por teólogos ou por juristas, para se tornar num tema de debate quotidiano, perdendo muita da sua conotação metafísica e adquirindo uma feição histórica cada vez mais nítida154. Foi assim que, aos poucos, ficou criado o ambiente propício para o deflagrar de uma ruptura política de grande alcance.

As Cortes em Portugal sob a dinastia de Bragança
Poucos dias depois da revolta de 1 de Dezembro de 1640, os apoiantes de D. João, duque de Bragança, decidiram convocar os «três estados». À semelhança do que acontecera noutras ocasiões, a assembleia representativa foi nessa conjuntura encarada como uma instância que poderia dar alguma legitimidade ao movimento português de secessão da Monarquia Hispânica. Assim, em Janeiro de 1641 as Cortes reuniram em Lisboa, juntando uma pequena parte do «estado da nobreza» e do clero, bem como um número significativo de procuradores em representação das cidades e das vilas do reino. A assembleia decorreu sem grandes sobressaltos, acabando por sancionar a escolha que já havia sido feita a 8 de Dezembro – o duque de Bragança foi aclamado rei D. João IV pelos «três estados», e o seu filho D. Teodósio foi jurado príncipe herdeiro. Numa altura em que o apoio à causa brigantina era incerta, recorria-se assim ao juramento como mais uma forma de vinculação, numa época em que o comprometimento moral, devido às suas implicações religiosas, tinha muito mais força obrigante do que os pactos, os contratos ou a lei positiva. A assembleia de 1641 foi um acontecimento ímpar na história portuguesa, pois representou o momentâneo potenciar da capacidade política das Cortes. De facto, nesses breves momentos reconheceu-se às Cortes uma série de atribuições: antes de mais, a capacidade para avaliar a governação do rei D. Filipe III. Por outras palavras, as Cortes comportaram-se como um tribunal, como uma instância judicial titular de uma jurisdição excepcionalmente ampla, tão ampla que habilitava os «três estados» a julgar o comportamento do rei. E como se tal não bastasse, a reunião de 1641 reconhecia ao «reino», reunido em Cortes mais duas outras excepcionais faculdades: a capacidade para se eximir voluntariamente da obediência a um soberano a quem tinha sido efectuado um juramento de fidelidade; e, além disso, reconhecia-se também aos «três estados» a capacidade para escolher, voluntariamente, um novo soberano. Como se pode facilmente imaginar, aqueles que se decidiram pela reunião de Cortes, em 1641, moveram-se num terreno altamente melindro-

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so. Antes de mais, porque era do conhecimento de todos que a quebra do juramento tinha seríssimas implicações morais e religiosas. Não devemos esquecer que muitos reprovaram a revolta de 1640 porque representava uma ruptura com um compromisso moral assumido nas Cortes de 1619, altura em que Filipe IV – à data príncipe herdeiro – havia sido jurado pelos portugueses. Como se pode ler numa instrução entregue ao embaixador de Filipe IV em Roma, logo após 1640, «[na rebelião portuguesa] se considera en primer lugar la transgression del juramento de obediencia y fidelidad, solemne y publicamente hecho a Dios por el mismo Duque de Bragança, y todos los tres Estados a favor del Rey Don Felipe, que le acetó en Cortes Generales de todo el Reyno ligitimamente convocadas...»155. Para além da quebra do juramento, o melindre da situação tinha também a ver com a situação interna da realeza. Com efeito, na sequência desse evento a Coroa brigantina ficava numa posição particularmente débil, porquanto admitir que os «povos» podiam romper com o soberano a quem tinham jurado fidelidade e escolher um outro líder representava, sem dúvida, um precedente muito perigoso, pois fragilizava bastante a posição dos futuros titulares da Coroa. A justificação doutrinal da revolta de 1 de Dezembro encarregou-se de frisar todas as implicações constitucionais do sucedido. Francisco Velasco de Gouveia, autor de uma das principais obras legitimadoras da revolta de 1640 – Ivsta acclamação do serenissimo Rey de Portvgal Dom Ioão o IV… (Lisboa, Lourenço de Anveres, 1644) – foi muito claro ao enunciar aquilo que estava em jogo: «Que Ainda que os Povos transferissem o poder nos Reys, lhes ficou habitualmente, & o podem reassumir, quando lhes for necessario para sua conservação»156. De seguida, Velasco de Gouveia analisa o caso português, alegando que a revolta de 1640 era justificada e legitimada pela inequívoca tirania de Filipe IV. Quanto à capacidade electiva das Cortes, Velasco de Gouveia defende-a apoiado em duas linhas argumentativas: por um lado, na ideia de soberania popular e no conceito de pactum subjectionis; por outro, numa argumentação histórico-jurídica fundada nas já citadas «actas» das Cortes de Lamego, bem como no precedente histórico das Cortes de Coimbra, realizadas em 1385. No que toca ao imaginário da soberania popular, António Barbas Homem157 assinalou recentemente que o conceito de pactum subjectionis está presente no Assento das Cortes de 1641, uma vez que os redactores deste texto – que constitui o documento que fixa e publicita as decisões tomadas na assembleia – aceitam a ideia de mediação popular na transmissão do poder político de Deus para os príncipes. Cumpre lembrar que desde, pelo menos, o século XVI, o conceito de pactum subjectionis era

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mobilizado pelos juristas defensores do direito de defesa que assistia à comunidade face a uma governação mal exercida, classificada como «tirania». No quadro dessa leitura, a titularidade do poder pertencia ao povo, cabendo ao príncipe apenas o exercício desse poder. Uma vez aceite esse princípio, o povo, reunido em Cortes, ficava habilitado a exercer várias faculdades: avaliar a qualidade da governação; eximir-se da obediência devida ao seu Rei sem quebra do juramento, nos casos em que fosse dado como adquirido que o rei era tirano; e, em situações extremas, escolher – em sede de assembleia representativa – um novo soberano. Para além do imaginário da soberania popular, o Assento das Cortes de 1641 recorre, também, à argumentação histórico-jurídica, lembrando os princípios estabelecidos quer nas já referidas Cortes de Lamego158, quer nas Cortes de Coimbra de 1385, ocasião em que D. João, Mestre de Avis, fora aclamado rei de Portugal. O precedente histórico de 1385 foi sistematicamente invocado para justificar as opções de 1640, tendo-se também usado as apócrifas «actas» das Cortes de Lamego para consolidar essa pretensão. Este imaginário está presente na referida obra de Velasco de Gouveia, nela se apresentando a cerimónia inaugural do reinado como um pacto de atribuição do poder, como um pacto que tinha como objectivo não propriamente estabelecer a forma do governo, mas sim efectuar a transferência do poder do povo para o príncipe. E tal como sucede em qualquer transferência de poder, trata-se de um processo que envolve condições reciprocamente assumidas159. Além do livro de Velasco de Gouveia, a imagem das Cortes como «tribunal de reis» e como uma assembleia com capacidade electiva pode ser encontrada em boa parte da literatura favorável a D. João IV publicada nas décadas de 1640 e 1650, sobretudo porque a propaganda apostou nesse argumentário como forma de tornar legítima, tanto para o interior quanto para o exterior do reino, a ruptura de 1640. Procurava-se desse modo demonstrar que a separação da Monarquia Hispânica e a adesão a D. João IV eram sentimentos partilhados pela generalidade dos portugueses. Foi também por essa altura que se investiu na ideia de que a reunião de Cortes correspondia à forma como os reis portugueses, desde tempos imemoriais, costumavam tomar decisões governativas. Paralelamente, procedeu-se à demonização do governo de Filipe IV, recorrendo-se, de um modo bastante sistemático, ao tema da marginalização de que as Cortes haviam sido alvo. Fulgêncio Leitão, por exemplo, em Reduccion, Restituycion del Reyno de Portugal a la Serenissima Casa de Bragança en la Real Persona de D. Iuan IV… (Turim, Iuannetin Pennoto, 1648), relembra a década de 1630 e as várias fases da política fiscal de Filipe IV, denunciando os «acordos particulares» que a Coroa estabelecera com os povos no

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campo tributário, sem que o reino junto em Cortes tivesse podido dizer uma palavra sobre esse assunto. Nos escritos de Fulgêncio Leitão, as Cortes são elevadas ao estatuto de único órgão autorizado para decidir sobre questões fiscais. Logo, a opção de não chamar as Cortes para decidir sobre fiscalidade era apresentada como um sinal inequívoco da tirania de Filipe IV e do seu valido160. É interessante verificar que o olhar de alguns estrangeiros sobre as Cortes de Portugal, durante a década de 1640, também sublinha o poder que esta assembleia momentaneamente adquiriu. Lívio Giotta, em Raggioni del Ré di Portogallo D. Giovanni IV… (Lisboa, Paulo Craesbeeck, 1642), traça o seguinte retrato da assembleia representativa portuguesa: «Li tre Stati cioè gli Ecclesiastici la Nobiltà, e Popoli delli Regni di Portogallo ragunati nelle Corti doue rappresentano in vn corpo tutti li sudetti Regni, e tutta l’auttorità, e potere, ch’essi tengono, hanno risoluto per buon principio delle medesime Corti douersi con publica Scrittura da tutti sottoscritta decidere, estabilire, como il Ius d’essere Rè, e Signore loro spettaua, & spetta al potentissimo Rè Don Giouanni, il quarto di questo nome....». Acrescenta Giotta: «I supponendo per cosa chiara in Iure ch’al Regno, & alli tre Stati d’esso compete il giudicare, e dichiarare la legitima successione del medemo Regno, ogni volta che nasce qualche difficoltà, e dubbio trà i pretendenti per diffetto di descendenza dell’vltimo Rè possessore...»161. Quanto ao número de petições enviadas às Cortes realizadas após 1640, ele cresceu muitíssimo, e o monarca instruiu os seus oficiais para que respondessem, de forma diligente, a esses pedidos, tendo em vista demonstrar que, no que toca à comunicação com os seus vassalos, a dinastia de Bragança era fundamentalmente diferente dos Habsburgo, revelando uma constante disponibilidade para escutar as suas queixas e para os ajudar a resolver os seus problemas. O grande manancial de petições então apreciado proporcionou aos oficiais régios uma visão bastante detalhada da situação do reino, das suas localidades e dos seus habitantes162. Todavia, é curioso verificar que os oficiais régios tiveram dificuldade em interpretar essa informação, já que nalguns casos era nítido que os pedidos reflectiam a opinião generalizada da população que os enviara, enquanto que noutros casos era evidente que constituíam uma óbvia manobra para mobilizar os recursos régios a favor dos interesses de uma determinada parcialidade local163. Como sugerimos, D. João IV e os seus sequazes nutriam sentimentos ambivalentes face a toda esta ênfase na capacidade política das Cortes. Por um lado, partiu deles a opção de instrumentalizar a «assembleia dos três estados» e fomentar o uso propagandístico das Cortes enquanto instância legitimadora da mudança dinástica; por outro, ao potenciarem as facul-

Filipe II D. Filipe Juramento e levantamento do duque de Bragança como rei de Portugal. Pedro como regente e governador do reino. a despeito de todo o ambiente que foi criado a favor das Cortes. contribuição fiscal 1679-80 1697-98 . de uma forma sustentada. nem sequer as cidades mais poderosas enveredaram pelo caminho da afirmação da capacidade política das Cortes. Afonso VI D. Todavia. mais poder à assembleia representativa. acabou por não surgir qualquer movimento concertado que tivesse como finalidade atribuir. Não devemos esquecer que o regime monárquico estava profundamente enraizado na cultura política. João IV D. declaração ou derrogação da lei sucessória. como por exemplo uma pujante tradição histórica de ideias e de práticas republicanas165. contribuição fiscal Dote para o casamento da princesa D. as Reuniões das Cortes de Portugal no século XVII Ano 1619 1641 1642 1645-46 1653-54 1667-68 1673-74 Reinado D. nessa fase. contribuição fiscal para a guerra Contribuição fiscal Contribuição fiscal Juramento do príncipe D. Isabel com o primogénito do duque de Sabóia Juramento do príncipe D. João IV D. João IV D. a verdade é que. Afonso VI (D. em vez disso. Ao contrário do que se poderia prever. À excepção de movimentos muito pontuais de contestação a certos aspectos da governação dos anos de 1640 e 1650. Afonso. ou pelo menos de uma tentativa de reequacionamento do lugar constitucional ocupado pelas Cortes. Pedro. muito mais preocupadas em preservar os seus privilégios e em travar as iniciativas da Coroa que violavam o seu espaço jurisdicional. João. Teodósio. João IV D. juramento do príncipe D. contribuição fiscal Juramento da princesa D. revelando-se. Isabel Luísa Josefa. Afonso VI (D. A situação tornava-se tanto mais delicada quanto era para todos claro que a Coroa.206 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS dades políticas da assembleia. e na história lusa faltavam ingredientes que pudessem galvanizar um processo de afirmação pactista. regente) D. Pedro. regente) D. sabiam perfeitamente que corriam o risco de contribuir para o surgimento de um movimento de cariz “republicano”. As assembleias de Cortes que se seguiram à histórica reunião de 1641 confirmam esta tendência. contribuição fiscal Juramento do infante D. Pedro II Motivo Juramento do príncipe D. tinha uma margem muito reduzida para resistir a qualquer desafio interno164.

207 Cortes foram-se dedicando a um leque de questões cada vez mais restrito. Tal não significa. é inegável que as Cortes continuaram a representar um momento importante de introspecção colectiva. pedindo o remedio delles e como nos novos reynados os subditos tem mais confiança. numa carta enviada ao secretário de estado Francisco Correia de Lacerda.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. que a El rey acodião. João IV e os seus seguidores convocaram as Cortes com uma regularidade inusitada. por D. Pelo contrário. de 1645-46 e de 1653-54. Francisco Manuel de Melo. no entanto. e elleytos Procuradores se não celebrarão.. em nenhuma dessas reuniões se vislumbrou qualquer esforço consistente para tirar partido do élan de 1641 tendo em vista reconfigurar. João da Silva. fizera-o «com grande repugnancia tanto assim que estando convocadas humas para Tomar. Tal não significa. a negociação sobre novas imposições fiscais acabou por monopolizar grande parte das assembleias de 1642-43.. após 1640 reforçou-se a noção de que a decisão régia em conjunto com as Cortes correspondia à forma costumeira de tomar decisões governativas em Portugal. também. para vincar a diferença face à dinastia dos Habsburgo. [trata-se das cortes que deveriam ter reunido em 1649]». Significativamente. o regime de relações entre o rei e o reino. uma entidade politica que trans- . João. como um alfobre de decisões onde se vislumbra a emergência de um novo sentimento de pertença ao «reino». de reflexão e de discussão sobre as medidas governativas. e os de Portugal. era sem número o número das petiçoens. algumas décadas mais tarde.. A consulta frequente dos «três estados» foi nestes anos retratada como a modalidade decisória que mais estava de acordo com os princípios constitucionais que regiam o reino. quanto mais despacho. Acrescenta que «a resão a meu ver he manifesta: porque […] juntos os povos em Cortes parece que em certo modo fica algum tanto coarctada aquella soberania que os Príncipes tem no seu governo Monárquico…»167. não bastavão os dias inteyros…»166. foi um dos muitos que notou esta renovada disposição do rei em escutar o parecer dos povos sobre questões governativas: «Continuavão os Reys da Europa. drasticamente. tendo funcionado.. porém. D. O aparente contentamento sentido por D. Nessa missiva. A ASSEMBLEIA DE CORTES. acabando por ficar sobretudo associadas à política fiscal. para cuja comprehensão..º marquês de Gouveia. 2. João IV em dialogar com os «três estados» é rotundamente desmentido. A despeito destas dúvidas. que a assembleia tenha perdido a sua relevância política. o marquês confidencia que D. no seu Tácito Portuguez. Assim. Tanto mais que. que por papel lhe aprezentavão a informação de seus negocios. com grande frequencia ouvir em publico a seus vassalos. que o rei reunia as Cortes sempre de bom grado.. e os Príncipes mayor paciencia. sempre que convocara as Cortes.

Para isso. As manobras de influência junto das Cortes foram uma constante. até à exaustão.208 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS cendia os limites das comunidades locais ou corporativas e que impunha sacrifícios nem sempre fáceis de aceitar. local ou corporativa. A fim de tornar esses apelos mais consensuais. Como acabámos de ver. fazendo identificar as intenções da Coroa com os desígnios de Deus168. Na sequência disso. De qualquer modo. da uniformidade jurisdicional. gerou-se uma situação de pré- . Como sugerimos. dos deveres inerentes à condição de membro dessa comunidade política “vasta” que era o «reino». fizeram-no não só através da repetição. mas procurando associar o imaginário religioso aos sacrifícios que procuravam impor aos «três estados». como forma de pressão. também eles se aperceberam do potencial da reunião dos «três estados» como forma de pressão política. das necessidades em que se encontrava o reino. É certo que. sobretudo. tendo em vista alcançar determinados objectivos. a contestação aos planos fiscais da Coroa tornou-se especialmente forte. da agilização dos procedimentos administrativos e. Quanto aos demais grupos sociais. nos debates das Cortes foram escutadas numerosas intervenções em defesa da igualdade fiscal. em muitos casos. por exemplo. deveres esses que o rei e os seus oficiais se esforçaram por colocar acima das obrigações intrínsecas à pertença familiar. por vezes os oficiais régios viram nas Cortes uma boa oportunidade para fomentar a unanimidade face aos planos – sobretudo fiscais – da Coroa. os oficiais régios costumavam associar a essas obrigações para com o «reino» todo um discurso com ressonâncias religiosas. a Coroa procurou garantir que. Outra valência política das Cortes decorria do simples facto de essa assembleia reunir um número considerável de dignitários – cerca de três centenas – e poder ser facilmente instrumentalizada. não deixa de ser significativo que as sessões de Cortes tenham sido o palco desse tipo de afirmações. Em 1642. e alguns procuradores queixaram-se. durante o período em que as Cortes estavam reunidas. o alargado conjunto de pessoas que participava na assembleia. Um grupo de representantes das câmaras tentou mobilizar as Cortes para exercer pressão sobre o monarca. de um modo extremamente exaltado. Assim. os pregadores que celebrassem missas na cidade onde a assembleia decorria profeririam sermões cujo conteúdo estaria orientado para convencer o auditório a ser conivente com os pedidos da Coroa. a fim de que a Coroa abdicasse dos seus propósitos fiscais. e as várias entidades políticas em presença por diversas vezes tentaram utilizar. procurando desse modo assegurar a colaboração das elites locais na implementação das decisões tomadas pela assembleia. de que só uma parte do reino pagava os impostos. tais apelos não tiveram qualquer acolhimento.

ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS.. em certos momentos. Por esse motivo. pelo contrário. risco de motim. encarando-as – sobretudo à Câmara de Lisboa – como uma instância de mediação com o resto do . receio de que os povos vissem na convocatória das Cortes um sinal de que a obrigatoriedade de pagar tributos tinha cessado. Da parte do reino. em princípio o «terceiro estado» era aquele que mais veementemente insistia na reunião com o rei para decidir sobre novas imposições fiscais. na expectativa de que dela resultariam decisões que seriam socialmente muito mais consensuais. em determinadas conjunturas mostrou-se interessada em reunir a assembleia. de um modo geral estas manobras a favor ou contra as Cortes costumavam surgir em conjunturas de aprovação de novos impostos. É muito sintomático que os apelos para a convocatória de Cortes a fim de aprovar novos tributos raramente tenham sido lançados por membros do clero e da nobreza. A ASSEMBLEIA DE CORTES. 209 -motim que muito atemorizou a Coroa. é curioso verificar que. durante toda a segunda metade de Seiscentos. que alguns dos princípios constitucionais do reino seriam violados pelo monarca caso não consultasse os representantes do reino. ou seja. Como sugerimos.. são um excelente exemplo do que acabámos de dizer169. curiosamente invocando motivos aos quais os povos não eram indiferentes: lentidão dos processos decisórios. obrigar o clero e a nobreza a contribuir. demonstrou uma aberta relutância em chamar os «três estados». os apelos mais sonoros para que a assembleia fosse convocada partiram. Mais do que um assunto encerrado. podia suceder que as facções cortesãs usassem as Cortes como forma de pressão contra os seus inimigos – as manobras de descrédito movidas contra o secretário de estado Francisco de Lucena. custos inerentes à reunião. Como vimos. das autoridades urbanas. Noutros momentos. foi a da alegada obrigatoriedade do rei em consultar as Cortes sempre que tinha de tomar qualquer decisão na área fiscal170. Quando antevia dificuldades na negociação com as Cortes. etc. razão pela qual os procuradores mais radicais não tardaram em ser presos. etc. pois acreditava que essa seria a melhor forma de instaurar uma situação de relativa igualdade fiscal. em defesa da sua reivindicação. A Coroa também participava nesta exploração conjuntural do capital simbólico (e político) das Cortes. a lentidão do processo decisório. a própria Coroa prescindia de dialogar com os «três estados» e optava por realizar consultas restritas às principais cidades. Uma questão que permaneceu em aberto. as quais costumavam alegar.. os representantes do «terceiro estado» foram os primeiros a opor-se à convocatória da assembleia. esta matéria foi um pretexto para infindáveis debates entre a Coroa e os diversos grupos sociais. em finais de 1642. Todavia. alegando motivos como o dispêndio inerente a cada nova reunião. Noutros casos. em geral.

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reino. A esse respeito, cumpre reconhecer que a dinastia de Bragança acabaria por ter uma actuação bastante semelhante à dos monarcas Habsburgo, tão duramente criticados pela propaganda pós-1640 precisamente por terem levado a cabo iniciativas fiscais sem a consulta prévia da assembleia representativa171. Após 1640 várias exacções fiscais foram introduzidas sem que as Cortes tivessem sido consultadas, registando-se, também, alguns casos em que os tributos foram automaticamente aprovados por mais três anos, invocando-se o facto de continuar presente o motivo que tinha justificado a sua imposição172. Na linha do que já vinha sucedendo desde meados de Quinhentos, o Senado de Lisboa continuou a assumir-se como interlocutor privilegiado do rei, chegando mesmo a arvorar-se em representante das restantes cidades do reino. Convém notar, no entanto, que esse papel de que se arrogou Lisboa nem sempre foi bem aceite pelas demais cidades e vilas com assento em Cortes, tanto mais que, muitas vezes, os procuradores lisboetas se revelaram mais próximos do interesse da Coroa do que dos interesses das comunidades que compunham o reino. Após a morte de D. João IV – em 1656 –, a situação pouco se alterou. A 22 de Novembro de 1657, o conde de Comminges (embaixador francês em Lisboa) relatava, numa das muitas cartas que enviou para a corte francesa, que a regente D. Luísa estava a esforçar-se para reunir o dinheiro pedido por Mazarin para aceitar uma aliança com Portugal. Acrescentava que «o povo não tinha relutância em contribuir, mas os fidalgos faziam tudo para fugir ao pagamento, e [a rainha] não se atrevia a pedir nada ao clero». A acreditar em Comminges, o «povo» desejava a convocação de Cortes e a rainha estava de acordo, mas «o clero a desfavorecia e os fidalgos e os ministros se esforçavam para impedi-la, porque os primeiros teriam de pagar e os segundos de responder pela sua administração»173. Nos anos de 1650 e 1660 assistiu-se ao aumento exponencial da pressão fiscal, recrudescendo, também, a discussão acerca da margem de manobra da Coroa em matérias tributárias. Como assinalámos, a atitude mais frequente era o apelo para que as Cortes fossem consultadas sempre que se planeasse a introdução de uma nova exacção. Todavia, em certos casos eram os próprios «estados» a lembrar ao rei que o motivo do imposto continuava presente, não havendo por isso necessidade de convocar os «três estados». No entanto, convém ter presente que a renovação trienal de impostos sem a consulta das Cortes nem sempre foi uma solução pacífica, e momentos houve em que gerou autênticas tempestades políticas. A par desta profusão de debates sobre a competência das Cortes na área da fiscalidade, a «assembleia dos três estados» continuou a intervir, pontualmente, em matérias sucessórias, marcando presença em alguns dos

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momentos mais transcendentais para a Coroa, como por exemplo o levantamento de cada novo rei ou o juramento dos príncipes herdeiros. Os círculos régios condescenderam com esta pontual actuação da assembleia dos «três estados» nesse terreno tão importante, embora procurassem frisar que essa intervenção era circunscrita e localizada. Assim que o debate tocava em temas mais sensíveis, logo intervinham os oficiais régios, tudo fazendo para moderar as intervenções e para desmobilizar a discussão. Os próprios participantes nas Cortes parecem ter consciência de que havia certos temas que, pela sua delicadeza, não convinha discutir abertamente na assembleia portuguesa. Francisco Ferreira Rebelo, jurista e diplomata na agitada Londres da década de 1650, testemunhou as sucessivas reuniões do Parlamento inglês e as resoluções aí tomadas, e, nas cartas que enviou para Lisboa, observa que a assembleia representativa inglesa discutia matérias de grande transcendência político-constitucional, acrescentando que seria difícil ver as Cortes de Portugal debaterem, tão abertamente, temas tão sensíveis. Refere, a título de exemplo, a ampla discussão em torno do título que Oliver Cromwell deveria assumir174. É, em parte, verdade, que os debates nas Cortes portuguesas não costumavam ir tão longe. Seja como for, alguns anos depois de Ferreira Rebelo ter feito este comentário sobre o radicalismo das discussões que tinham lugar no Parlamento inglês, as Cortes de Portugal voltaram a tocar nesse transcendental tema que era a capacidade governativa do monarca. Tal sucedeu nas Cortes de 1667-68, reunidas em plena crise governativa motivada pelo descrédito em que a governação de D. Afonso VI tinha caído. Convocada numa altura em que estava já em curso o afastamento do rei e a sua substituição pelo seu irmão D. Pedro, a assembleia de 1667-68 constitui, sem dúvida, um momento ímpar, pois essa foi a ocasião em que as Cortes mais se envolveram na discussão sobre as questões do trono175. Tal como sucedera em 1641, em 1667 as Cortes foram convocadas tendo em vista sancionar uma situação que já estava praticamente consumada: o afastamento do rei D. Afonso VI. Os representantes dos «três estados» discutiram longa e acaloradamente a questão, apresentando diversas propostas para a resolução da crise. A par dos muitos debates que então tiveram lugar, circularam também vários pareceres de teólogos e de juristas acerca da aflitiva situação em que se encontrava a Coroa, o que ainda mais contribuiu para alargar o âmbito do debate. Exceptuando os contextos de ruptura dinástica, nunca antes se havia discutido, com tanta publicidade, matérias tão cruciais, e vários foram os oficiais régios que se aperceberam do melindre da situação. Depois de muitas hesitações, as Cortes acabaram por ser determinantes para sancionar a solução encontrada: D. Afonso VI

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manteria o título de rei, mas seria dado como incapaz para o governo, sendo por isso mesmo substituído nessas funções pelo seu irmão, o qual, por sua vez, foi jurado pelos «três estados» como «regente e governador do reino». O aval das Cortes serviu, de novo, para tornar socialmente mais aceitável essa situação profundamente anómala e que roçava a imoralidade. Uma vez mais era dada a oportunidade aos «três estados» para se pronunciarem sobre matérias da mais alta política. Contudo, e à semelhança do que sucedeu após 1640, da reunião de 1667-68 também não resultou qualquer iniciativa de relançamento do papel das Cortes no sistema político português. Na assembleia que se seguiu – celebrada em 1673-74 – alguns procuradores ainda tentaram pronunciar-se sobre a situação política que se vivia no reino, embora sem grande êxito, uma vez que os oficiais régios rapidamente circunscreveram o debate. A assembleia realizou-se em Lisboa, num momento em que corriam rumores de que o embaixador espanhol congeminava uma conspiração, facto que contribuiu para exaltar os ânimos176. A reunião terminou abruptamente, por ordem de D. Pedro, numa altura em que os debates ameaçavam provocar um tumulto, sobretudo porque a juntar aos rumores de que estava em curso uma conjura, vários foram os procuradores que fizeram declarações inflamadas sobre a situação em que se encontrava o governo do reino, reclamando o regresso de D. Afonso VI. Tendo em conta estes acontecimentos, compreende-se facilmente porque é que, nos anos que se seguiram, a Coroa favoreceu a identificação entre a assembleia de Cortes e a problemática fiscal. Ao concentrarem a atenção dos «três estados» na questão dos tributos, os oficiais régios evitavam que os debates tocassem em matérias consideradas demasiado sensíveis para serem discutidas na “praça pública”. Para além disso, a Coroa tinha plena consciência de que o aval das Cortes poderia ser decisivo para tornar socialmente mais consensuais as propostas fiscais, assim como para garantir que os influentes locais colaborariam com a Coroa no seu esforço para arrecadar o produto fiscal. Ainda assim, e apesar de ficarem cada vez mais centrados na questão fiscal – algo que ia ao encontro dos desejos da Coroa após 1640 –, os debates ocorridos nas Cortes nem por isso deixaram de contar com intervenções mais acaloradas, nas quais os vassalos não hesitaram em lembrar aos governantes do reino as suas obrigações, chegando mesmo a acusá-los de mau governo. Seja como for, no último quartel de Seiscentos assistiu-se a um gradual esvaziamento da capacidade das Cortes para intervir em matérias de alta política, com a excepção da fiscalidade, área que praticamente monopolizou as discussões. Tal não significa, no entanto, que a «assembleia dos três

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estados» se tivesse tornado na única instância competente nessas matérias. De facto, a par das Cortes, a Coroa foi explorando outras formas mais céleres de negociação fiscal. Assim, para além de ter confiado cada vez mais à Câmara de Lisboa o papel de principal interlocutor, favoreceu órgãos mais ágeis e politicamente mais controláveis pela Coroa – como a Junta dos Três Estados –, opção que acabou por ditar o esvaziamento de algumas das competências da «assembleia dos três estados». No que respeita à política tributária, convém ter presente que a grande questão se jogava no controle sobre a administração fiscal. Inicialmente, os municípios lograram manter nas suas mãos a gestão do fisco. Todavia, tal gerou numerosas situações de desvio de dinheiro e de cobrança fiscal muito abaixo das expectativas, o que levou à criação de uma série de órgãos vocacionados para o controlo da própria administração tributária da Coroa, de que um dos melhores exemplos é a referida Junta dos Três Estados, a qual desenvolveu uma tenaz luta com as câmaras das principais cidades do reino tendo em vista dominar os mecanismos de gestão dos impostos cobrados nessas urbes. Essa junta começou por ser composta por representantes dos «três estados», mas com o tempo foi deixando de contar com deputados directamente nomeados pelo «estado dos povos», o que suscitou algum descontentamento. O confronto entre as cidades do reino e a Junta dos Três Estados – órgão fundamental e que continua à espera de um estudo aprofundado – representa, afinal, o esforço da Coroa em penetrar nessas «comunidades de privilégios» que eram os núcleos urbanos.

Os territórios ultramarinos e a sua representação no centro político
Como é bem sabido, a tradição jurídica vigente na época moderna previa que a soberania sobre um reino poderia ser adquirida através das seguintes vias: por herança; por acordo de todos os representantes do reino, que livremente manifestavam a vontade, em sede de assembleia representativa, de se sujeitarem a um senhor, transferindo-se de um soberano para o outro; por casamento; por outorga do Papa; e, finalmente, por conquista. Cada uma destas formas de incorporação territorial previa determinadas consequências ao nível da dignidade e dos direitos políticos gozados pelas instituições que administravam as terras que eram objecto da incorporação. Vários destes mecanismos agregativos foram postos em prática pelas casas reais ibéricas, tanto na Europa, no quadro do processo de alargamento dos seus domínios, como fora dela, no âmbito do desenvolvimento dos seus impérios ultramarinos. Como começámos por sugerir, cada uma das unidades políticas mais “vastas” – como um reino, uma monarquia ou um império – era vista

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como uma comunidade de comunidades, como um conjunto de corpos políticos agregados por laços de natureza diversa e escalonados segundo uma ordem fortemente hierárquica, ordem essa que conferia a cada uma das partes direitos políticos desiguais. Tal desigualdade era bem visível no interior da Península Ibérica, onde, como verificámos, prevalecia uma rigorosa hierarquia entre os vários reinos e, dentro destes, entre as diversas cidades. É essa hierarquia que explica o facto de apenas uma pequena parte das urbes ter assento nas Cortes. No que toca aos territórios extra-europeus das Coroas ibéricas, esse escalonamento hierárquico também marcou presença, não só ao nível das relações entre as várias cidades ultramarinas, mas também dos laços que estas mantinham com as suas congéneres peninsulares. Assim, na fase inicial da colonização das possessões ultramarinas, a dignidade das instituições situadas nessas terras era muito inferior à das comunidades peninsulares, realidade que, desde logo, tinha uma consequência bem visível na «assembleia dos três estados»: as cidades ultramarinas começaram por estar ausentes da reunião que congregava as principais urbes do reino. Importa não esquecer que os domínios extra-europeus das Coroas Ibéricas foram inicialmente tratados como «conquistas», termo que, de resto, surge frequentemente na documentação coetânea. Como assinalámos, o estatuto de «conquista» evocava o modo como esses territórios tinham ingressado nos domínios dos monarcas ibéricos, envolvendo sérias consequências quanto aos direitos políticos gozados pelas suas instituições e pelos seus habitantes: eram territórios escalonados numa posição inferior face aos domínios europeus das Coroas ibéricas, estando as suas populações desprovidas de alguns dos mais substantivos direitos políticos, como por exemplo a «honra» de tomar parte na assembleia de Cortes. Tal não significa, porém, que as instituições representativas estivessem ausentes dos domínios ultramarinos das Cortes ibéricas. No caso das possessões extra-europeias da Coroa de Castela, por exemplo, o seu ordenamento jurídico admitiu a realização de reuniões entre cidades da América para a resolução dos conflitos surgidos entre elas, estabelecendo-se uma hierarquia que, de alguma maneira, evoca aquela que existia nos reinos de Castela entre as urbes com assento em Cortes e as restantes povoações. Como assinalou Carlos Dias Rementeria a propósito da administração da América Espanhola177, já em Junho de 1530 se contemplava a possibilidade de se celebrarem congressos de cidades da Nova Espanha, de entre as quais a cidade do México teria o primeiro voto. Anos mais tarde, em Abril de 1540, estipulava-se a realização de reuniões similares no ViceReinado do Peru, considerando-se a cidade de Cuzco como a principal entre as que integravam essa circunscrição administrativa. Importa frisar,

tendo em vista reforçar o laço de ligação entre a metrópole e suas possessões ultramarinas. sino que se reciban y paguen por sus vassallos con obediencia y gusto.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. numa das suas missivas que enviou ao Real Consejo de las Indias. en quien caben todo este género de mercedes. Estamentos ni Parlamentos. 215 contudo. acorressem às reuniões das Cortes de Castela e Leão onde fossem jurados príncipes. conde de Chinchón. Como já foi referido. os coetâneos utilizavam. as suas pretensões políticas alargaram-se consideravelmente. suelen ser los que tienen menos mano en ayudar a estos arbitrios. a palavra «congresso». no quadro da «Unión de las Armas» a Coroa dirigiu insistentes apelos no sentido do aprofundamento da integração entre as distintas partes da Monarquia. e. Previa-se também que esses representantes aproveitassem a vinda à Europa para tratar de outros assuntos178. a própria Coroa tomou a iniciativa de as chamar. todavía creo que lo que importa a su real servicio es. e algumas urbes chegaram mesmo a reivindicar o direito a tomar parte na assembleia representativa que reunia as cidades de Castela-Leão. foi um dos governantes incumbidos de pôr em prática essas medidas. O Consejo de las Indias afirma que «las Indias son muy diferentes de los otros reinos. Y a esto será mucho provecho la esperanza en unos y certidumbre en otros de ser remunerados»180. em vez desse termo. sorteados entre as províncias integrantes desse Vice-Reinado. Assim aconteceu sob o valimento de Olivares: numa carta régia de Maio de 1635.. no sólo que se imponan los tributos. Brazos. Esta declaração do conde de Chinchón reveste-se de um grande interesse... y que así la potestad real de S. a qual denota uma assembleia de menor dignidade do que a reunião dos «três estados». Y se suele hallar más ayuda . dirigida ao Vice-rei da Nova Espanha. que a estas reuniões jamais foi dada a denominação de «Cortes». tendo em vista envolver os territórios ultramarinos no esforço de defesa da Monarquia Hispânica179. M. no sólo en el poder que los vasallos tienen en estos casos. A ASSEMBLEIA DE CORTES. pois remete para a questão a que atrás aludimos: a diferença de hierarquia entre as cidades europeias e as urbes americanas. pois nela o vice-rei constata a ausência de uma assembleia que servisse de fórum de negociação para estabelecer alguma concertação às iniciativas da Coroa em terras americanas. À medida que as instituições urbanas do continente americano se consolidaram. coloca-se a possibilidade de que quatro procuradores. es libre y absoluta. deliberadamente. O vice-rei do Peru. assinala algo de muito interessante sobre a capacidade política das cidades americanas: «Si bien reconozco que en las Indias no hay Junta de Cortes. A resposta que o Consejo de las Indias deu ao Vice-Rei do Peru não é menos sugestiva. sino en la calidad dellos. [sublinhado nosso] Que aunque hay caballeros de calidad. Por vezes.

junto da Coroa. da sua população e das suas instituições. Na verdade. y con aquellos acuerdos. têm contribuído para esclarecer o modo como se processava a comunicação política entre a corte e os territórios ultramarinos. como meio de as comprometer com o esforço conjunto do reino. dos territórios americanos.216 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS en el consulado de los mercaderes y en otros hombres de trato. Tais textos vinham muitas vezes acompanhados de longos escritos onde se descrevia a história local. assumindo-se como interlocutores com a Coroa. os interesses dos vários corpos sociais. também a Coroa portuguesa tinha consciência de que era necessário criar formas de participação das elites ultramarinas. Eram escritos com um fundo reivindicativo muito marcado. tanto do reino como dos territórios extra-europeus sob a jurisdição dos monarcas portugueses183. tendo sido necessário encontrar formas de tornar presentes. Algo de semelhante se passava no reino de Portugal e nas suas possessões ultramarinas. sino que hacen los virreys juntas de ministros y llaman algunos vecinos. aludindo a lendas fundadoras e enaltecendo os serviços militares desempenhados pelas gentes que aí viviam. os poderes municipais do ultramar foram relativamente céleres a adquirir uma identidade política mais vincada. portavozes das aspirações e das reivindicações dessas terras. o principal desafio consistiu em encontrar expedientes representativos que fossem capazes de espelhar os territórios cada vez mais vastos e as populações cada vez mais variadas que estavam sob o comando dos monarcas lusos182. com o contínuo processo de expansão territorial. No período de Quinhentos e de Seiscentos. direitos e liberdades-imunidades. este problema tornou-se especialmente premente. cuales les parece. fácilmente se introduce la materia en los cabildos eclesiásticos y seglares. mas também política. . e tal como sucedia no império espanhol. com a realeza comunicavam os titulares dos cargos governativos e administrativos das regiões ultramarinas. Todavia. cuando conviene y se halla dispuesta»181. são muitas as petições assinadas por um conjunto de municípios. entre outros. Dificilmente encontraríamos uma declaração mais taxativa da “menor qualidade” social. y comunicándolo con los corregidores y los prelados. Assim. pois reclamavam prerrogativas. por exemplo. os quais eram. muitas vezes. também as câmaras municipais desempenharam esse papel. No caso português. concorrendo para fortalecer a identidade política local e para reafirmar a auto-suficiência das câmaras187. falando em nome dos habitantes que estavam sob a sua alçada e «representando» – tornando presente ao rei – os problemas que afectavam essas populações186. Os trabalhos de Charles Boxer184 e de Evaldo Cabral de Mello185. Para o Brasil de finais do século XVI e do século XVII. Além disso. Y no hay votos en Cortes ni junta de ayuntamiento.

Trata-se de um tema importante. Seja como for. ou seja. honras e liberdades que tinham sido conferidos aos cidadãos do Porto em 1490. adquirindo. «cabeça do reino»). importa ter em conta que algumas câmaras americanas.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. deparamos com Jerónimo Serrão de Paiva a actuar como «procurador do Brazil». e onde o único caso mais saliente era o da câmara da Bahia. podendo indiciar uma mudança de estatuto desta possessão ultramarina190. numa época em que estes eram cobiçados por outras potências europeias. o mesmo se podendo dizer da equiparação dos privilégios de alguns municípios ultramarinos àqueles que eram gozados pelos habitantes das principais cidades do reino (com a excepção de Lisboa. devido ao papel por elas desempenhado na luta contra os neerlandeses. como assumiram um grande protagonismo na sessões de trabalho das Cortes. os trabalhos de Fernanda Bicalho e de Fátima Gouvêa sugerem que este fenómeno tem de ser associado ao aparecimento do título de «Príncipe do Brasil». uma maior capacidade de comunicação com a Coroa. também explica esta camada das câmaras extra-europeias para as Cortes. 217 Além disso. Na assembleia de 1653. em privado. por exemplo. ao saberem que estava para breve a vinda de Filipe III a Portugal. pois denuncia alguma mobilidade e algum voluntarismo. tudo indica que a “dignidade” das diversas partes do Império era algo de dinâmico e oscilante. ao contrário do que era predominante no caso das câmaras do reino191. Já no século XVII. acompanhando o selecto grupo das cidades do primeiro banco que reunia. bem como da América Portuguesa. . No que respeita à presença de representantes de cidades americanas nas Cortes portuguesas. Convém notar que estes procuradores não só participaram na abertura solene. sobretudo quando comparados com a menor projecção dos poderes locais da América Portuguesa. outras cidades brasileiras vão ver o seu estatuto dignificado: em 1642 os cidadãos do Rio de Janeiro recebem os mesmos privilégios. Após 1654 algo de semelhante terá ocorrido com algumas câmaras de Pernambuco e das capitanias limítrofes. muitos deles ainda em fase embrionária.. membro da comissão incumbida de acompanhar a reunião até ao seu termo189.. com o rei. dessa forma. manifestaram a vontade de participar nas Cortes convocadas para 1619188. A preocupação por manter a ligação entre a Coroa portuguesa e os territórios ultramarinos. A importante temática do estatuto de cada cidade – peninsular e ultramarina – carece ainda de um estudo aprofundado.. E nas assembleias realizadas após 1640 há representantes de câmaras municipais da cidade de Goa. A ASSEMBLEIA DE CORTES. Durante o período de Quinhentos os municípios da parte Oriental do Império – de que o melhor exemplo é Goa – desfrutaram de um estatuto claramente destacado. para resolver os assuntos pendentes. chegando mesmo a ser nomeado «definidor».

na negociação fiscal. Quanto ao clero. favorecia a convocatória assídua das Cortes. enquanto corpo social. na corte e nos conselhos palatinos192. Assim se compreende porque é que os nobres castelhanos raramente escolheram as Cortes como principal espaço de confronto com a política da Coroa. ao contrário do que se passou em Aragão. cada vez mais. Como assinala o mesmo Thompson. com a Coroa. nessa época. porquanto os diversos sectores do «estado eclesiástico» desenvolveram os seus próprios canais de influência e de comunicação com os círculos régios. acabaram por ser os conselhos régios e as próprias instituições judiciais193. a oposição aristocrática no mundo ibérico tinha um cunho menos constitucional. as Cortes também estavam longe de ser o seu principal espaço de articulação com a Coroa. pois. da «assembleia dos três estados». como vimos.218 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS O fim da convocatória das Cortes No final de Seiscentos. Para os aristocratas de finais do século XVII a política jogava-se. era muito mais pessoal. O fenómeno que acabámos de descrever é comum aos vários reinos da Península Ibérica. em Valência ou nos demais reinos peninsulares – com a óbvia excepção de Castela –. prescindindo. sobre a política dinástica ou sobre as relações internacionais da Coroa. A. e como bem notou I. sobretudo. cada vez menos faziam parte do seu elenco de tarefas. no seu conjunto. Thompson. afectando. e de um modo geral aceitaram que essas questões. O afastamento entre a aristocracia e as Cortes contribuiu para desviar dessa assembleia o debate sobre uma série de matérias da alta política. após 1640 Portugal passou a contar com um rei permanentemente residente no seu território. pela sua complexidade. Além disso. como por exemplo a exigência de que o rei fosse libertado da influência de um valido que se revelara mau ministro194. traduzindo-se em reivindicações de carácter pontual. É certo que o caso português se reveste de alguma especificidade. Importa notar que os procuradores não se opuseram a esse processo. concentrando-se. ou a recusa em aceitar a nomeação para um determinado cargo195. quando comparada com outros contextos europeus – como Inglaterra –. como vimos. facto que. as principais instâncias de protecção da nobreza e de garantia dos seus direitos. A. A aristocracia cada vez menos viu na assembleia representativa o seu principal fórum de diálogo. ao . a comparência de uma parte considerável da aristocracia e do alto clero nas Cortes portuguesas. as reuniões dos «três estados» foram deixando de opinar sobre questões do governo geral do reino. Com o tempo. na Catalunha. tornava-se cada vez mais evidente que tanto a Coroa como os vários grupos sociais estavam a desinvestir nas Cortes. todas as suas assembleias representativas.

consequentemente. por si só.. as assembleias de Cortes tenham sido postas à margem do principal processo político200. Fortea Pérez reconhece que. Acresce que os oficiais régios tenderam a ser cada vez mais relapsos na resposta às petições entregues nas Cortes. por exemplo. Também isso contribuiu para que. o que. em geral desprovidos de um carácter parlamentar e com uma composição menos numerosa. uma vez que também ela participava – e dependia – desse imaginário jurisdicionalista197. mas também autoridade moral196 e. que cabia ao monarca o mais eminente poder legislativo. uma maior capacidade de pressão sobre a Coroa. tanto com figuras do «estado eclesiástico» como com elementos da nobreza. ou seja. de forma clara. Carlos V estabeleceu – em 1525 – uma Diputación del Reino. Acresce que a cultura política do tempo continuava a ter no seu centro o primado da justiça. órgãos que contavam. desde o século XVI. perante os conselhos e tribunais . indirectamente. Cumpre notar que as Cortes não foram as únicas instituições representativas a actuar nos diversos reinos ibéricos. o que. o controle constitucional foi cada vez mais desempenhado pelos conselhos palatinos e. J.. Como assinalámos. a partir de finais de Seiscentos. órgãos de natureza diversa. ao lado destas assembleias foram surgindo. Com efeito. nas suas fileiras. conferiu a este órgão alguma força e prestígio. ao longo dos séculos XVI e XVII várias normas resultantes de Cortes acabaram por ser alteradas sem que os «três estados» tivessem podido pronunciar-se198. nessa função. em todas as leis produzidas pelas Cortes era enunciado. pelo Conselho de Estado e pelos demais conselhos palatinos. tal como em Castela. Seja como for. Em Castela. também em Portugal as Cortes foram perdendo protagonismo. A ASSEMBLEIA DE CORTES. Quanto à vigilância sobre o governo. Além diso. através das petições. De qualquer modo. as Cortes lograram exercer uma assinalável influência sobre a legislação do reino. I. sobretudo. 219 longo de toda a segunda metade de Seiscentos.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. funcionava como factor de “resistência cultural” a iniciativas governativas mais voluntaristas e puramente executivas da Coroa. deixando de exercer uma função consultiva e sendo paulatinamente substituídas. a presença do «estado eclesiástico» e do «estado da nobreza» proporcionava às Cortes não só publicidade. contribuiu para que os municípios deixassem de acreditar na eficácia dessa assembleia para resolver os seus problemas199.. e apesar disso. cuja função era velar pelo cumprimento dos acordos de Cortes e gerir. facto que os tornava mais ágeis em termos de gestão dos assuntos governativos. em Portugal. No que respeita à alegada competência legislativa das Cortes. por um sistema jurisdicional bastante independente. por um mecanismo de procedimento administrativo materializado nos diversos tribunais.

porém. Já no início do século XVII. e profundamente hierarquizado no que toca ao estatuto de cada uma das partes que integrava o corpo político. quando negociavam directamente com o rei.220 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS régios. e a pluralidade de órgãos representativos de que falámos reflectia. representar o reino nos períodos em que as Cortes não estavam reunidas. um órgão inicialmente composto apenas por comissários nomeados pelas cidades. Cabia à Diputación. lidamos com um espaço social não-homogéneo e não-uniforme. eviden- . o mesmo se podendo dizer do município de Lisboa. sobretudo quando o seu Senado se apresentava como «cabeça do reino» e falava em nome das demais cidades. Com o tempo. também concorriam com as Cortes. A esta lógica se opõe. Por surgir num corpo social extremamente diversificado. Tais partes eram muito diferentes entre si. É importante frisar que a pluralidade de formas representativas a que temos vindo a fazer alusão estava intimamente relacionada com a heterogeneidade do espaço sócio-político dos séculos XVI e XVII. As cidades. passou a existir uma duplicidade de órgãos representativos com competências na área fiscal202. foi criada a Comisión de Millones (1611). os ministros régios conseguiram penetrar nesse órgão. entre outras atribuições. igual para todas as partes do corpo social. essas diferenças. e que em 1639 se converteria num tribunal supremo sobre matérias fiscais. Como sugerimos no início deste ensaio. Portugal também assistiu à paulatina criação de órgãos que desempenhavam funções representativas e que eram titulares de atribuições potencialmente esvaziadores das competências das Cortes. por uma justiça típica de uma sociedade aristocrática e hierárquica. Como assinalou Giovanni Levi. das juntas restritas do tempo de Filipe III e de Olivares. e onde o direito de representação tinha mais em conta a qualidade do que a proporcionalidade aritmética entre as partes que compunham o todo203. a partir da entrada em cena da Comisión de Millones. e. o direito de representação não podia assentar num único expediente representativo. da já referida Junta dos Três Estados (1643). e também em Castela. acima de tudo. também. os problemas cuja resolução as cidades lhe confiavam201. onde o princípio da igualdade pesava pouco. a pluralidade dos canais representativos coetâneos espelhava um ambiente profundamente heterogéneo em termos jurisdicionais. a justiça distributiva das sociedades do Antigo Regime era governada por uma «igualdade geométrica». Na realidade. J. Fortea Pérez nota que. e em 1658 a Comisión acabaria por ser integralmente absorvida pelo Consejo de Hacienda da Coroa de Castela. I. É esse o caso de alguns dos conselhos palatinos. onde cada um tinha direitos diferenciados e onde tudo o que era semelhante em status se devia unir e ser tratado com os seus semelhantes.

. que não aceita diferenças de status e que se baseia na justiça comutativa204. os procuradores acabaram por não levar até ao limite a sua acção. embora tivessem tido. Seja como for. Para além do que acabou de ser mencionado. outros foram os motivos que concorreram para a marginalização das Cortes: a reunião dos «três estados» foi frequentemente substituída por conselhos (função consultiva e . determinados interesses de corpo207. as Cortes não ficaram totalmente desprovidas de poder. No que toca aos procuradores. momento em que foi concedido. estes dois grupos nunca encararam a assembleia como o seu principal palco de interacção com a Coroa. e ao contrário do que sucedeu com os Parlements de França. exerceram o principal papel de vigilância e de controle constitucional sobre a acção da Coroa.. os tribunais e. não foram completamente inoperantes205. no entanto. aquando do afastamento do rei D. a abertura das Cortes de 1646 também foi acompanhada por disputas com a Coroa.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. A ASSEMBLEIA DE CORTES. vimos atrás que jamais manifestaram muito empenho em usar a reunião dos «três estados» como instrumento para reconfigurar o regime de relacionamento que mantinham com o monarca português. e em 1667-68. Os conselhos palatinos. 221 temente. Elliott. John H. o controle do novo imposto dos millones tornou-as capazes de desenvolver uma oposição de cariz mais constitucional. No entanto. duas excelentes oportunidades para o fazer: em 1640. por causa da concessão de plenos poderes aos procuradores. mesmo nesta fase de perda de protagonismo. Quanto a Portugal. conjunturalmente. pelo menos. de uma forma geral. sem dúvida. A luta pela preservação dos privilégios corporativos teve lugar em outros órgãos e em outros sectores da vida política. embora o confronto geral entre a Coroa e os poderes urbanos estivesse iminente em 1647. Após a queda de Olivares. Tal contribuiu. a verdade é que nenhuma das assembleias representativas ibéricas funcionou como um órgão que congregasse. a igualdade da proporção aritmética da sociedade democrática.. o conjunto do sistema administrativo-judicial. No caso de Castela. quando da ruptura com a Monarquia Hispânica. Em plena crise. que as assembleias. para que as Cortes jamais se tivessem tornado no principal palco de defesa dos direitos de cada um dos grupos sociais face às investidas da Coroa. em última análise. Não obstante a concorrência que sofreram. Afonso VI e da afirmação do seu irmão D. e como assinalámos. demonstrou. Pedro. não há dúvida de que o facto de o clero e a nobreza continuarem a comparecer nas Cortes proporcionou força moral a esta assembleia. um ano muito difícil para a monarquia206. foram as instâncias que. de forma homogénea. de forma muito clara. um excepcional protagonismo político às Cortes.

da sua parte. para o clero a assembleia também foi perdendo peso no seu relacionamento com a Coroa. o certo é que os anos foram passando sem que as Cortes tives- . a prática negocial com a Coroa à margem das Cortes estava já amplamente implantada. os oficiais régios tornaram-se mais relapsos na resposta às petições. Por outro lado. Em Portugal as últimas Cortes do Antigo Regime celebraram-se em 1697-98. mas a maioria dos seus membros acabava por participar. facto que. ficaram sempre muito aquém do prometido. a 25 de Julho de 1667. sempre que introduziu novas exacções recorreu ao argumento de que o que estava em jogo não eram novas contribuições mas sim. preferindo investir em outros canais de comunicação política e em outras formas de fiscalidade mais fáceis de introduzir sem a aprovação das Cortes. e em vez disso. para alguns. Quanto às contribuições fiscais estabelecidas em Cortes. por juntas (administração fiscal) e pela comunicação directa entre a Coroa a as cidades (negociação directa)208. mostraram-se cada vez mais relutantes em chamar as Cortes. mas sim. Seja como for. os reis e os seus ministros. abandonando a reunião assim que podia. até porque. Perante tudo isto. Por último. A par disso. apenas. o que fez com que a Coroa olhasse para a assembleia como um órgão cada vez menos eficaz na criação de consenso em torno da fiscalidade. ao «donativo». a Coroa. A nobreza e o clero continuaram a responder à convocatória. cada vez mais encararam a participação nas Cortes como um dispêndio pouco compensador.222 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS executiva). de não reunir as Cortes que o falecido Filipe IV havia deixado convocadas. o «estado eclesiástico» desenvolveu os seus próprios canais de influência. nos eventos cerimoniais que contavam com a participação do soberano. por seu turno. compreende-se melhor a decisão tomada pela regente de Castela Mariana de Áustria. como vimos. convém lembrar que a decisão de 1667 tem também a ver com a circunstância de Carlos II ser um rei menor e de se recear que a assembleia se pudesse converter num foco de oposição ou de desestabilização210. e em vez disso. adiar sine die a sua convocatória. reunião que praticamente se limitou a debater questões fiscais. Depois dessa data o monarca não voltou a convocar as Cortes. com cada vez mais frequência. Talvez por causa disso. embora jamais tenha declarado que não voltaria a convocar os três estados. a renovação das contribuições já existentes. caso das taxas alfandegárias. aos poucos. Da parte das cidades não se registou nenhuma reacção hostil a esta decisão. já que. um expediente fiscal que não carecia de aprovação das Cortes209. a Coroa recorreu. para não suscitar reacções adversas. As cidades e as vilas. dispensava a convocatória da assembleia representativa. Nessa data decidiu-se não propriamente suprimir as Cortes.

Ribeiro dos Santos defendeu as Cortes. 223 sem sido chamadas. uma atitude governativa mais abertamente voluntarista e executiva. encarando-as como repositório de elementos limitadores do poder régio. projecto esse que suscitou uma polémica pública sobre o «absolutismo» régio. Bartolomé Clavero recordou que. no século XVIII as Cortes de Portugal jamais foram convocadas. cujo poder era partilhado com os demais corpos sociais. era para todos claro que. na Espanha dos primeiros anos de Oitocentos. Na verdade. a doutrina de um poder régio moderado e alegadamente fiel à tradição portuguesa acabaria por vingar. facto que. embora se tenha falado dessa assembleia a propósito de algumas das novas exacções que a Coroa foi impondo. Depois de um longo debate. postulava um conceito «absoluto» de realeza. Seja como for. no momento em que se projectou alterar o Livro II das Ordenações Filipinas. autor do Projecto de alteração do dito Livro II. nem como uma situação que punha em risco o equilíbrio de forças entre o rei e os estados sociais. à medida que se avançou no período de Setecentos. No contexto das revoluções liberais. nem sequer para a inauguração de cada novo reinado. Como tal. facto que travou a aprovação da reforma211. No entanto.. Como acabámos de dizer. por seu turno. pelos círculos régios.. recusando-se a esse órgão qualquer veleidade de controle constitucional ou de limitação dos desígnios da Coroa. a ausência de «assembleias dos três estados» não foi encarada como um atentado aos direitos dos vários corpos do reino. foi-se instalando um ambiente político mais regalista. as Cortes passam a ser apresentadas como uma assembleia que reunia por mera opção do rei. vários foram aqueles que continuaram a evocar as Cortes e a apresentá-las como um órgão que controlava a acção do monarca. sintomaticamente. as Cortes do Antigo Regime voltaram a polarizar o debate político-constitucional. no qual a convocatória dos «três estados» começou a ser encarada. Todavia. os tribunais e o conjunto do sistema jurídico-administrativo eram garantias suficientemente fortes para resistir a iniciativas mais voluntaristas da Coroa. referindo-se às leis fundamentais e ao seu «carácter sagrado». não foi só nesse momento que as Cortes voltaram a estar no centro do debate político-jurídico de finais de Setecentos e de início do século XIX. Nesse contexto. também não provocou qualquer escândalo. e não obstante todo o avanço das doutrinas regalistas. sustentava que em Portugal nenhum órgão limitava o poder do rei.. A ASSEMBLEIA DE CORTES. agora sim. foi . ao passo que António Ribeiro dos Santos pugnava por um entendimento mais tradicional de monarquia. Pascoal de Melo Freire. como uma cedência cada vez menos aceitável da parte de monarcas que se distinguiam por assumir. A «assembleia dos três estados» voltou a estar no centro do debate político no final de Setecentos. Pascoal de Melo Freire.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. na viragem para o período Setecentista.

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Fortea Pérez. o magnífico trabalho realizado por J. actas do Colóquio: Évora. Semantica del potere politico nella pubblicistica medievale (1100-1433). «As Cortes de 1481-1482» in D. Traditio. 1969. Pietro Costa. Procesos de Agregación y Conflictos. O Tempo de Vasco da Gama. o foral manuelino e o devir quinhentista.). Para o contexto português. Madrid. Imágenes de la Diversidad. consulte-se. 223-260. Junta de Castilla y León. Maria Helena da Cruz Coelho & J. 51 Consulte-se. Thompson. 1621-1700. Lisboa. pelo Centro de Estudos Históricos da Universidade Nova de Lisboa. pp. & não aonde quer. . XVI-XVIII). G. 1997. 45 Pedro Cardim. consulte-se. 54 Gaines Post.A. cit.). 196-251. 47 Fernando Bouza Álvarez. Iurisdictio. 489-514. as Cortes de Évora e as reformas administrativas dos inícios do século XVI». Giuffrè. 1627) f. 2003.).A..A. História dos Municípios e do Poder Local (Dos finais da Idade Média à União Europeia). os estudos de Nuno Gonçalo Monteiro. 1986. Portugal en la Monarquía Hispánica. Novembro de 2001 (no prelo). 34 segs. Rodríguez-Salgado. 17-175. Primera Parte… (Madrid. Cosmos. 1973-2001. 55 Cfr. El Mundo Urbano en la Corona de Castilla (s. J. El rei aonde póde. Bernardo García (dir. 49 Cfr. «A romano-canonical maxim: “Quod omnes tangit”». Ramada Curto (org. 1998. Apesar de o termo «província» surgir na documentação.). Fraude y Desobediencia Fiscal en la Corona de Castilla. Círculo de Leitores. 49 (1970) pp. Lisboa. 276-300. Universidad. pp. Itinerários e Problemáticas». 4 (1946) pp. Madrid. in genere. 111v. González Lopo (orgs.. 258 segs. Rivista Storica della Accademia. pp. 49-104. Santander.A. I. Revista de Ciências Históricas. Romero Magalhães. Battista de Luca)». Santiago de Compostela. 1996. Acerca deste tema cumpre consultar. Lisboa. Ermini. 2000. Razões da política no Portugal seiscentista. 48 Sobre este tema cfr.230 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS III a Portugal. O Poder Concelhio…. também. «La respuesta castellana ante la política internacional de Felipe II» in AA. veja-se.. Cortes e Cultura Política no Portugal do século XVII. Editorial Complutense. 52 João Salgado de Araújo. Valhadolide. desde há alguns anos. Colibri.. Fundación Carlos de Amberes. também. pp. 475-496. «Patriotismo y política exterior en la España de Carlos V y Felipe II» in Felipe Ruiz Martín (org. I. tanto nos domínios europeus da Coroa lusitana quanto no ultramar.). 1998. designando simplesmente o espaço dependente das principais cidades – cfr. I. Balance de la Historiografía Modernista. Actas del VI Coloquio de Metodología Histórica Aplicada. La proyección europea de la Monarquía hispánica. Thompson. 50 Na linha do trabalho de edição de fontes históricas que está a ser efectuado. 56 M. Xunta de Galicia. 1998. «Patronato Real e Integración Política en las Ciudades Castellanas Bajo los Austrias» in J. pp. «Il principio “quod omnes tangit etc. López & Domingo L. um dos principais elementos a destacar é a inexistência de corpos intermédios entre as cidades e o reino. 1987. em especial «Os Poderes Locais no Antigo Regime» in César Oliveira (org. «As Cortes de Torres Novas. 2 (1987) pp. El Imperio de Carlos V. 2000. Milão. tratase de um vocábulo que não tinha uma correspondência administrativa muito clara. 53 No caso de Portugal.” nello stato della Chiesa del seicento (secondo il pensiero di G. de Beatriz Cárceles de Gea. Fortea Pérez (org. 46 Ângela Barreto Xavier. I. 44 Fernanda Olival. «Doctrinas y prácticas fiscales» in Roberto J. Difel. Juan Delgado. 1996. cit. Ley Regia de Portugal.). de Rita Costa Gomes. pp. também. Lisboa..

2002. 63 I. Speculum. pp. Congreso Internacional de Historia . 113. 69 Tal não significa. 75 segs. Ciaurro. 64 Armindo de Sousa. também.A. SECCFC. quer através dos canais cortesãos de influência política. 57 Fernando Bouza Álvarez. Thompson & Pauline Croft. pp. VV. Giuffrè Editore. cit... pp. As Cortes Medievais Portuguesas. 121-134. na falta do rei. «Rappresentanza politica» in AA. cit. H. as quais se realizaram com uma notável frequência. Lisboa. 1992. 1990. Paolo Cappellini.. Journal of maedieval studies. 543-609.. 59 Em Portugal.. 1964. «Rappresentanza (Diritto intermedio)» in AA. XXXVIII. La monarquía de Felipe II a debate. pp. As Cortes Medievais Portuguesas. onde deparamos com vice-reis a convocar e a presidir a assembleias. Giuffré Editore. As Cortes Medievais Portuguesas. Carlos José Hernando Sanchez.. «Aristocracy and Representative Government…. Cfr. Nocilla & L. Pedidos e empréstimos em Portugal durante a idade Média. pp. pp. p. Madrid. Enciclopedia del Diritto.. Lisboa. «Aristocracy and Representative Government…. porém. «Celebration and Persuasion: reflections on the cultural evolution of medieval consultation»... Valhadolide. estudo que contém muitos dados sobre a percepção da política internacional nutrida pelos procuradores às Cortes de Castela. pp. Ministério das Finanças. «De un fin de siglo a otro. p. Thompson & Pauline Croft. 65 Armindo de Sousa. Tal princípio foi respeitado excepto em Navarra e na Península Itálica (Nápoles. Milão. Sicília e Sardenha). cit.. 68 I. 2003. Blockmans. Tweekamerstelsel vroeger en nu. Aspectos político-legales». 1995. Parlamento Friuliano e Istituzioni Rappresentative Territoriali nell’Europa Moderna.. mas de uma forma indirecta. «El parlamento del reino de Nápoles bajo Carlos V: formas de representación. . «Aristocracy and Representative Government in Unicameral and Bicameral Institutions: the Role of the Peers in the Castilian Cortes and the English Parliament.. 67 Armindo de Sousa. vide. As Cortes Medievais Portuguesas.. 75.. ou na sua menoridade. Milão. cit. Handelingen van de Internationale Conferentie ter gelegenheid van bet 175-jarig bestaan van de Eerste Kamer der Staten-Generaal in de Nederlanden. vol.A.A. Forum. pp. cit. 18 (1943). Bisson. 1990. 61 Fred Bronner. facciones y poder virreinal» in Laura Casella org.A. 1133-1176.... porquanto o costume e a lei estabeleciam que só o monarca em pessoa podia chamar e presidir às Cortes. 1988.. 1992. 111 segs. que os nobres tenham deixado de interferir nos trabalhos da assembleia. 2 (1982) pp. vol. Sdu Uitgeverij Koninginnegracht. p.. 1992. Rappresentanze e Territori.A. 66 Vide Iria Gonçalves.. «Republican Politics in Early Modern Spain….VV.).. 1990. 62 Thomas N. 1453-1463. A ASSEMBLEIA DE CORTES. Thompson & Pauline Croft. 181-204. 1995. 75. quer por meio do seu ascendente sobre o governo de algumas cidades – I. Unión de Coronas Ibéricas entre Don Manuel y Felipe II» in AA.VV. VII. Xavier Gil Pujol. 231 VV. 435-463. Haia. Difel. 24 (1967) pp. continuaram a fazê-lo. 58 Rita Costa Gomes. 142 segs.. 464-465.A. 1529-1664» in W.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. 279 segs. W. Legislative Studies Quarterly. Udine. Blom. cit. XXXVIII.. pp. de Schepper (orgs. «Roman Law and early representation». Bicameralisme. 2000. A Corte dos Reis Portugueses no final da Idade Média. o regente podia convocar as Cortes – cfr.. 329-387. 60 A ausência do rei levantava problemas tanto para as Cortes de Aragão quanto para as da Catalunha. 70 Gaines Post.. 1988. pp. Armindo de Sousa. cit. 1990. Anuario de Estudios Americanos.P.. «La Unión de las Armas en el Perú. Enciclopedia del Diritto.).. e também D.El Tratado de Tordesillas y su Época.

º 2 (Fevereiro de 1989) pp. um dos votos foi adquirido colectivamente pelas cidades da Extremadura. Málaga. Thompson & Pauline Croft. Defining Nations. a oferta voltou a ser feita em 1650. 781 segs. .mas nenhuma alcançou os seus objectivos..A. Nessa ocasião. «Le forme di rappresentanza nel sistema politico del Portogallo dell’Antico Regime» in Laura Casella org.. Immigrants and Citizens in Early Modern Spain and Spanish America. 1992. outras cidades negociaram o seu direito de voto . 2002. Fortea Pérez. p. 215-236. pp. Fazer e desfazer a história. J. cit. Volume 1. 1990. Manuscrits. Assim. pp. «As Cortes de 1481-1482…..edu/Departments/Portuguese_Brazilian_Studies/ejph/html/issue2 /pdf/duarte. Thompson & Pauline Croft. Thompson & Pauline Croft. Santander.caso de Écija. New Haven y Londres.. cit.. Jerez de la Frontera ou Oviedo . Assim.A. p. «Las Ciudades. «Ciudadanía.. Pedro Cardim. 424.. las Cortes…. segundo J. na sua versão final as Cortes de Castela contavam com 21 cidades com direito de voto – J. n. Furor et rabies. pp. I. 2003. 7 . 74. 134v.. cit.. 81 Armindo de Sousa. Seja como for. Yale University Press. 82 Tamar Herzog. em 1625 a Galiza conseguiu um voto em Cortes a troco de um serviço de 100 mil ducados.A. «Orto y ocaso de las Cortes de Castilla»…. 74 António M.. cit. cit. «Aristocracy and Representative Government…. «Aristocracy and Representative Government…. patria y humanismo cívico en el Aragón foral: Juan Costa». Luís Miguel Duarte. cód. Fortea Pérez. pp. 84 J. 183-218. Juan Gelabert & T. Em 1639 a Coroa decidiu vender outros dois votos às cidades que quisessem comprá-los. p. I.artigo disponível na Internet no seguinte sítio: http://www. pp. Hespanha. 251 segs. 74. Este dispositivo conheceu algumas modificações. 1992. Universidad de Cantabria. 781 segs. Dessa forma. E-Journal of Portuguese History. n. em especial porque em Castela a Coroa usou a venda de lugares nas Cortes como fonte de rendimento. «Aristocracy and Representative Government…. Udine. «The Portuguese Mediaeval Parliament: Are We Asking the Right Questions?». as Cortes de Castela deixaram de ser convocadas antes que Palência pudesse exercer o seu direito de voto. cit. Mantecón (orgs. «O Governo dos Áustria e a “Modernização” da constituição política portuguesa». 78 I. «Los abusos del poder: el común y el gobierno de las ciudades de Castilla trás la rebelión de las Comunidades» in J. 1998. p. «Orto y ocaso de las Cortes de Castilla»…. 76 I. No século XVIII. Fortea Pérez.A. Rappresentanze e Territori. I. cit. Fortea. Forum. p.. pp. enquanto que o outro foi comprado por Palência. 199. I. 52 segs. 75. Penélope. a troco de 80 mil ducados. 2 (Winter 2003) p. cit.A. 19 (2001) pp. 79 J. Fortea Pérez. I. 77 Biblioteca Nacional. «Orto y ocaso de las Cortes de Castilla»….. I. Violencia. conflicto y marginalización en la Edad Moderna.brown. 80 Cfr.). 72 José Ignacio Fortea Pérez.pdf (Março de 2003). 780 segs. Lisboa.A. 81-101. 2003. As Cortes Medievais Portuguesas.232 71 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS I. 1992. Parlamento Friuliano e Istituzioni Rappresentative Territoriali nell’Europa Moderna. 3722 f. cit. 83 Xavier Gil Pujol. Porque nenhuma urbe se mostrou interessada. Fortea Pérez. 75 Rita Costa Gomes. 73 Cfr.). Palência conseguiu realizar uma antiga pretensão: separar-se da cidade de Toro. 1997.

s. para o contexto portugués. n. «Orto y ocaso de las Cortes de Castilla»….. mas sim várias leituras do tema. a este respeito. Fortea Pérez. O mesmo Filipe II que negava às cidades ibéricas estas formas de voluntarismo.. cit. 439 segs. Xavier Gil Pujol... É esse o caso de episódios em que certas comunidades fizeram demonstrações de voluntarismo. encarando as Cortes catalãs e a Generalitat como as instâncias representativas por excelência. de María López Díaz. Fortea Pérez. e escolheram colocar-se sob a soberania e protecção de Filipe II. 1990. As autoridades urbanas de Cambrai rejeitaram o seu anterior soberano. Fortea Pérez.). Facultad de Filosofia y Letras. 279 segs.. «Orto y ocaso de las Cortes de Castilla»…. a fidelidade de um outro monarca. abdicando de um rei e escolhendo abraçar.VV. de J. cit. Bethencourt Massieu. etc.ENTRE 85 A O CENTRO E AS PERIFERIAS. Todavia. Alguns . pp. 2002. por sua livre vontade.. cit. acerca deste tema consulte-se. Cardim. I. 2002. cidade localizada entre os Países Baixos espanhóis e a França.. Fortea Pérez. cit. Sarrión Gualda. Obradoiro de Historia Moderna. 1999.T. 784 segs. «Cortes e Procuradores do reinado de D. também. consulte-se. 173-194. E. o exemplo de Cambrai. 91 J. Iglesia Ferreirós (dir. 99-120.. cumpre notar que não existia apenas uma visão do “constitucionalismo catalão”. 89 J. pp. de J. para o espaço galego vide. e. Este interessantíssimo episódio foi estudado por José Javier Ruiz Ibáñez em Felipe II y Cambrai: el consenso del pueblo. cit.. 1989.º 4 (1989) pp. I.tinham uma leitura eminentemente popular. pp. I. cit. alguns acontecimentos concorreram para perturbar a situação. «Da Antiga Organização dos Mesteres» in Franz-Paul Langhans. de J. Buenos Aires. coexistentes umas com as outras. João IV». Carretero Zamora. 88 J. o arcebispo local. SECCFC. 92 O que não significa que o assunto não tenha vindo a lume. cit.. A ASSEMBLEIA DE CORTES. Universidad de Barcelona. «Régimen electoral de Madrid a las procuraciones en Cortes: Las ordenanzas electorales de los siglos XVI y XVII». a manifestação da sua vontade política. Fazer e desfazer a história. consulte-se P. 93 Marcello Caetano. A crise sucessória de Portugal também suscitou o mesmo tipo de reflexões. Desde há muito que o principado se auto-representava como uma comunidade política de base contratual (origens carolíngias. Gil Pujol cita. «Organización e Integración Política de la Ciudades Gallegas en Tiempos de Felipe II». «Orto y ocaso de las Cortes de Castilla»…. 267 segs.como Andreu Bosch .. 90 J. La soberanía entre la práctica y la teoría política (1595-1677). Cfr.). M. Homenaje al Profesor Jesús Lalinde Abadía. Barcelona.d. pp. desde o período tardo-medieval debateu-se a questão do voto imperativo dos procuradores – As Cortes Medievais Portuguesas. 233 par destas reflexões de carácter “abstracto”. Homenaje al Prof. 63-71. 782 segs. «Formas de elección de los procuradores de Cortes en Murcia (1444-1450). eleição original. De facto.º 8 (199) pp. pp. também. 86 Xavier Gil Pujol. aceitava. 227 segs. «Republican Politics in Early Modern Spain…. «Republican Politics in Early Modern Spain…. Estudios en Homenaje a Don Claudio Sánchez Albornoz en sus 90 años. Penélope.. 87 Na Catalunha estas alusões tinham uma especial ressonância política. no caso de Cambrai. e como recorda Armindo de Sousa. I.. n. Instituto de Historia de España. As .. «Las Ciudades.. Madrid. pp. n. 782 segs. Cerdá y Ruiz-Funes. En torno a unos documentos de la ciudad y el Rey» in AA. na condição de que os seus privilégios fossem respeitados. las Cortes y el problema de la representación política…. Centralismo y Autonomismo en los siglos XVI-XVII.. «La interferencia del Rey en la designación y poderes de los procuradores en las Cortes castellano-leonesas (siglos XVI-XVII)» in A.º 9/10 (1993) pp. 1997.F. pp.

Joseph Antonio da Sylva. 96 Fernando Bouza Álvarez. Maria. 1990. nesta ocasião. capítulo 2. João III” de António de Castilho». D.-C. Sebastião Decimosexto Rey de Portugal. 317-347. 98 Cfr. «Lembrança do que sucedeu na morte de D. Lisboa. «De un fin de siglo a otro…. dir. Chronica do Muito Alto. cit. p.M. Arquivos do Centro Cultural Português. Manuel de Menezes. 95 Cfr. 97 Como notou Armindo de Sousa. 1938. que comprehendem o Governo del rey D. Sebastião por Rei de Portugal.. 108 Fernando Bouza Álvarez. Círculo de Leitores. 1943. pp. cit. e da rainha D. João 3. «As Cortes de 1481-1482…. 355 segs. cit. Chronista mòr deste Reyno. Sebastião. Lisboa. 1995. Lisboa.. 106 Maria do Rosário Themudo Barata Azevedo Cruz. e Maria do Rosário Themudo Barata Azevedo Cruz.. As Regências na Menoridade de D. cit... 18 segs. II. E Muito Esclarecido principe D. Acerca das Cortes do tempo de D. pp. L. Cardim.. P. Luís Miguel Duarte. Fundação da Casa de Bragança. 100 Joaquim Veríssimo Serrão. As Regências na Menoridade de D.. todo o processo decorreu sem que as Cortes fossem consultadas – As Cortes Medievais Portuguesas. f.. Vila Viçosa. 1992. «As Cortes de Lisboa de 1502» in AA. .. Duarte lembra que. pp. Germão Galharde. as Cortes foram chamadas para exercer uma função até aí pouco frequente: o juramento do herdeiro ao trono. vol. Centro de História da Universidade de Lisboa.. Officina Ferreyriana. Rodrigues Lapa.. 1986. 162 segs.. 245-264. 190-191. «A “Crónica de D. e levantamento do principe D. pp. «O Estado Manuelino: a onça e o elefante» in O tempo de Vasco da Gama. M. pp.). Cortes e Cultura Política.. Rita Costa Gomes. cit. 1998. pp. Sebastião. História de Portugal. pp. cit. 107 Fernando Bouza Álvarez. pp. e pp. As Regências na Menoridade de D. 1454. 104 Acerca das Cortes de 1562 consulte-se. Anais de D. III de José Mattoso (dir... 102 Capitolos de Cortes E Leys que sobre alguuns delles fezeram… (Lisboa. durante a Idade Média a intervenção das Cortes em matérias sucessórias não era vinculativa. I. 1998. Chronica do Muito Alto. Difel. 1730. 101 Frei Luís de Sousa. noutras conjunturas. 1998. M. pp. João III. 50 segs. 340 segs..234 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Corporações dos Ofícios Mecânicos. 94 Xavier Gil Pujol. Sebastião. Lisboa. de D. 1. 103 Cfr. 271 segs. 377. Sebastião..... e Conquistas em sua menoridade. Vol.. e Diogo Barbosa Machado..VV. vol. «As Cortes» in J. Livraria Sá da Costa. 54-57v. cit. Elementos para uma história estrutural. (Lisboa..) No Alvorocer da Modernidade 1480-1620). «Parliamentary Life in the Crown of Aragon….. E Muito Esclarecido principe D.. II (1970) pp. 105 Maria do Rosário Themudo Barata Azevedo Cruz. I-LXXXIII.. João III... 1730). pp. Primeiras Jornadas de História Moderna. Memorias para a Historia de Portugal... «De un fin de siglo a otro….. 1992. Mss. 256 segs. 199 segs. composta por D. seu neto…». 1736-). «De un fin de siglo a otro…. pp. pp. cit. de D. p. Ramada Curto. Manuel. Manuel de Menezes. 289 segs. vol. 99 Saúl António Gomes.N. A única excepção foi a reunião de 1390-91. 1539). pp. 1993. 340 segs. 1992. cit. filho de D.. 1453-1463. 73-78. de Joaquim Romero Magalhães. Sebastião. Romero Magalhães (coord. consulte-se.. pp. cit. Subsídios para a sua História. Lisboa. 1995. Nalguns casos os três estados foram chamados para decidir ou sancionar a mudança de reinado. (Lisboa. com prefácio e notas do prof. 1995. Imprensa Nacional.. Manoel de Menezes. Lisboa. I. porém. 2002.

1987. em Lisboa. Joaquim Veríssimo Serrão. Dom Quixote. 112 Cfr. 1970. pp. Lisboa. 552-559. Yale. cit..).). 117 Archivo General de Simancas. «A questão jurídica na crise dinástica» in J. 22 segs. Faculdade de Letras. 61 segs. 113 José Maria de Queirós Velozo. pp. pp. Mafalda Soares da Cunha. cit. p. Poder e Poderes na crise sucessória portuguesa (1578-1581).A. pp.. Filipe manifestava já a intenção de viajar para Lisboa .. 183. Fernando Bouza Álvarez.. Coimbra. 123 I. 56 segs. 558 segs. cit. 1999. 557 segs. 1993. las Cortes y el problema de la representación política…. «Las Ciudades. idem. 235 Edward Peters.. 51-VI-46 f. 1933. Eduardo Freire de Oliveira (org. Filipe foi jurado a 30 de Janeiro de 1583. «A questão jurídica na crise dinástica» in J.. The Shadow King. por exemplo. Portugal en la Monarquía Hispánica (1580-1640). 1992. Dom Quixote. no Paço da Ribeira. No Alvorocer da Modernidade…. Ver também. de Carlos Margaça Veiga. 1999. Empresa Nacional de Publicidade. Estado. cit.Cartas a duas infantas meninas. Universidade de Lisboa. Elementos para a História do Município de Lisboa. IAC. Lisboa.. 427-428. pp. Academia Portuguesa da História.). «A questão jurídica na crise dinástica» in J. Legajo 415. A ASSEMBLEIA DE CORTES. 4 de Janeiro de 1581. 1999. CML. 124 J. de Letras. Anuario de Historia del Derecho Español. Lisboa.ENTRE 109 O CENTRO E AS PERIFERIAS. Fac. tese de dout. las Cortes de Tomar y la génesis del Portugal Católico. o monarca hispânico partia para Castela . Universidad Complutense. Carlos Margaça Veiga. 1999. 116 O melhor estudo sobre esta temática é o de Fernando Bouza Álvarez. o «Parecer sobre se podia El rey fazer mercê aos Povos. Romero Magalhães (coord. I. pp. «Dictamen del Conde de Salinas en que se examinan las prerrogativas de la Corona y de las Cortes de Portugal». Biblioteca da Ajuda. cit. cód. 14.). «De un fin de siglo a otro….. 1903. Romero Magalhães (coord. 1999 (2 vols. Elvas. 120 Erasmo Buceta. 8. p. nem he couza para se duvidar» (sem data. pp. 118 Fernando Bouza Álvarez. p. policopiados). António.. Rex Inutilis in Medieval Law and Literature. Lisboa. Portugal nas cartas de D. O reinado do Cardeal D. No Alvorocer da Modernidade…. 119 O juramento teve lugar a 16 de Abril.. Lisboa.. Poder e poderes na crise sucessória portuguesa (1578-1581). cit. O Interregno dos Governadores. 1995. 1987. 1953. 76. Romero Magalhães (coord. 121 O príncipe D. 1993. pp. Lisboa.Cartas a duas infantas meninas. 111 Mafalda Soares da Cunha. pp. 1458 segs.. António Prior do Crato. Felipe II. cit. 1946. XII. O Interregno dos Governadores e o Breve Reinado de D. 236 segs. Thompson & Pauline Croft.. Filipe I às suas filhas e os tempos de um Príncipe Moderno» in Cartas a duas infantas meninas.. 1993. p. como fez nas Cortes de Thomar de os desobrigar dos direitos dos Portos Secos. cit. Lisboa. O reinado de D.. 1956. . 174v.A. 1595). Lisboa. Portugal en la Monarquía Hispánica. D.. e se resolue que sim podia. Madrid. Dom Quixote. duas semanas mais tarde. ca. Fortea Pérez. p. Lisboa. 1997.. New Haven. No Alvorocer da Modernidade…. 213 segs. 114 «Carta régia à cidade de Lisboa».. 122 Consulte-se. «Aristocracy and Representative Government…. 1953. Em carta de 1 de Maio.. 115 Cfr. Henrique. Fernando Bouza Álvarez. «Introdução. 110 Mafalda Soares da Cunha. Universidade de Lisboa. dirigida às suas filhas. José Maria de Queirós Velozo.

pp. 1933. A Memória da Nação.. Comportamentos. 201-265. p. 126 António Manuel Hespanha.. 1991. 136 Cfr.. I. 139 Claude Gaillard. «A viagem de Filipe III a Portugal. Jacobo Sanz Hermida. 55 segs. 134 Acerca do protagonismo da Câmara de Lisboa no período filipino. 1988. pp. 1987. 123-146. Thompson & Pauline Croft. 138 Fernando Bouza Álvarez.. cit. 1998. cit.º 0 (2003) pp. 132 Acerca do Conselho de Portugal consulte-se.A. cit. 1987. pp. Apesar de as Cortes de 1619 terem ficado aquém do que os portugueses esperavam. 1982. pp. Europe and the Atlantic world.. Filipe II e os seus vassalos de Portugal – cfr. al Reyno de Portugal (1619)».. Essays in honour of John H. 1997. 1987. sus fundamentos sociales y sus caracteres nacionales. pp. Ribeiro da Silva.. «Aristocracy and Representative Government…. Pizarro Gómez.Thompson.. pp. Revista de Ciências Históricas. S. cit.. cit. Península. Université des Langues et Lettres de Grenoble. F. 63-90. «Dictamen del Conde de Salinas…. Santiago de Luxán Meléndez. N. Revista de Estudos Ibéricos. S. cit. 407-431. a propaganda régia encarregou-se de apresentar o evento como um momento de intensa comunhão entre D.. «La Monarquía Hispánica desde la perspectiva de Cataluña…. 53 segs. 127 J. D. p. 223-260. Sá da Costa. «O Governo dos Áustria…. 130 Ernest Belenguer Cebrià. 826 segs. D. cit. Fortea Pérez.. 19 (1991) pp. A Cultura Política em Portugal (1578-1642). 1989.A.J. Universidade Nova de Lisboa. Don Felipe III deste nombre. 311 segs. 78. Portugal en la Monarquía Hispánica. Elliott. Spain and the monarchy: the political community from ‘patria natural’ to ‘patria nacional’» in R. Ramada Curto. La Revolución de 1640 en Portugal. «O Governo dos Áustria…. 2 (1987) pp. Filipe II.. Grenoble. a gravura da sala de Cortes inserida na famosa obra de João Baptista Lavanha. 1987. pp. 137 Erasmo Buceta. El Consejo de Portugal. pp. Portugal en la Monarquía Hispánica (1580-1640). cit. Spain. 223-260. 1622). 129 I. Parker (orgs. Acerca desta reunião de Cortes consulte-se F. Lisboa.. Kagan & G. p. Pedro Gan Giménez. Madrid. «Ritos e cerimónias da monarquia em Portugal (séculos XVI a XVIII)» in AA. «Castile. 131 Claude Gaillard. 1933.. 792-795. cit. I. «A viagem de Filipe III. pp. Le Portugal sous Philippe III d’Espagne…. L’action de Diego de Silva y Mendoza. Thomas Iunti.. 346 segs.. Le Portugal sous Philippe III d’Espagne. 1992. 107 segs. «La jornada de Felipe III a Portugal (1619)» Chronica Nova.. p. 1995. Cambridge. La crisis de la hacienda real…. ritos e negócios. 1989. Coimbra. cit. Viagem da Catholica Real Magestade del Rey D.A. Fortea Pérez. 128 I. «Orto y ocaso de las Cortes de Castilla»…. 35. «Dictamen del Conde de Salinas…... Itinerários e Problemáticas». maxime. Fernando Bouza Álvarez. . pp. 135 Erasmo Buceta. pp. 133 Erasmo Buceta. «Un viaje conflictivo: relaciones de sucesos para la Jornada del Rey N. 140 segs.. Ramada Curto.. António Manuel Hespanha.VV. pp.). n. pp.. dissertação de doutoramento.. cit. 6. Lisboa. «Dictamen del Conde de Salinas…. «Entre dos servicios. «La Jornada de Felipe III a Portugal en 1619 y la arquitectura efémera» in Pedro Dias (coord. 1580-1640.). pp. Livraria Minerva.A. 4.236 125 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS J. cit.. 289-320. cit. 1982. Francisco Ribeiro da Silva. Editorial de la Universidad Complutense. 5-6. Cambridge University Press. 1933. cfr. As relações artísticas entre Portugal e Espanha na época das Descobertas. ao reyno de Portugal e rellação do solene recebimento que nelle se lhe fez… (Madrid. 321 segs. 1994.

anos mais tarde. 145 Archivo Historico Nacional. 1987. Revista de la Facultad de Ciencias Humanas y Sociales de la Universidad Pública de Navarra... f. Veja-se. 2002. 13 (1990) págs. Juan José de Áustria y el reino paccionado de Aragón (1669-1678)». Escritos seleccionados. cit.. vol.º 12 (1992) pp. 130 segs.. Fazer e desfazer a história. 161 segs. Lo Stato Moderno in Europa. 231-233. 148 Fernando Bouza Álvarez. Consejos.-F. Movimentos Sociais. «El conde-duque de Olivares y los tribunales de la Corte: oposición política y conflicto constitucional». Madrid. Madrid. 169-211. «Una sociedad no revolucionaria: Castilla en la década de 1640» in España en Europa. pp.73 (1998) pp. António de Oliveira.. Penélope. «O Governo dos Áustria….. 2000. Portugal en la Monarquía Hispánica. pp. em Outubro de 1595.. 2001.. quando os seus habitantes habitantes optaram por aclamar Filipe II como o seu novo soberano. 142 Luís Reis Torgal. 23 83) (1994) pp. n. 61 segs. cit. J. idem.. cit. Maurizio (org..«Parliamentary Life in the Crown of Aragon…. Casa de Velázquez. «1637: motins da fome». Romero Magalhães.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. Nobres e luta política no Portugal de Olivares» in Portugal no Tempo dos Filipes.. Ideologia Política e Teoria do Estado…. «Fueros. México. pp.. 1987. 144 Jean-Frédéric Schaub. pp. 1989. 50-73.. cit. pp. Laterza. Valência. 2001. Fernando Bouza Álvarez. Le Portugal au temps du comte-duc d’Olivares (1621-1640). 1580-1640».. pp. pp. Fernando Bouza Álvarez. pp. 545-562. «Habsburg Fiscal Policies in Portugal. pp. 865 segs. Bari. 52 (1976). Mss.. Cuadernos de investigación histórica. 135 segs. Poder e Oposição Política. Le conflit de juridictions comme exercice de la politique. leg.). pp. Lisboa. de Antonio Álvarez-Ossorio.. 207 segs. pp. cit. «A nobreza portuguesa e a corte de Madrid entre 1630 e 1640. 149 Biblioteca Nacional. Universitat de València. Memória e juízo do Portugal dos Filipes».. 154 Algo de semelhante ter-se-á passado em Cambrai. Pedralbes. 152 Luca Mannori y Bernardo Sordi. 868 segs... A ASSEMBLEIA DE CORTES. 236 segs. «1640 perante o Estatuto de Tomar. 161-188. 953. in Fioravanti.. Schaub. um episódio estudado por José Javier Ruiz Ibáñez em Felipe II y Cambrai. consulte-se. 9-10 (1993) pp. de Jesús Morales Arrizabalaga. 201 segs. pp.. 1 (1994) pp. 17 de Outubro de 1638. cit... 143 Cfr. Elliott. 1991. 239-291. Istituzioni e diritto. 17-27. cit. 390 segs.. cit. Estudios de historia comparada. Beatriz Cárceles de Gea. Biblos. 141 Jean-Frédéric Schaub. 150 Cfr. 7130 – Memorial de Don Agustín Manuel de Vasconcelos sobre las advertencias a la juridizion y a la hazienda del reyno de Portugal. Consideraciones de método y documentos para su interpretación» in Huarte de San Juan. . cit. 2002. Cultura. Madrid.. «Los Fueros de Sobrarbe como discurso político. «Dinámicas políticas en el Portugal de Felipe III (1598-1621)». 2002. 146 Fernando Bouza Álvarez. Journal of European Economic History. Le Portugal au temps du comte-duc d’Olivares…. 2002. Cosmos. 147 Xavier Gil Pujol nota que em Inglaterra. Peter Thomas Rooney. Portugal en la Monarquía Hispánica.. Relaciones. revista do Colegio de Michoacan.. Representações (1580-1668).. 7-35. «Giustizia e amministrazione». 423 segs. 153 John H. onde os «Fueros de Sobrarbe» exerceram um efeito galvanizador semelhante ao das «actas» das Cortes de Lamego. 237 140 António Manuel Hespanha. 1999. I. o Protectorado também implementou um parlamento britânico com uma só câmara (1654) . Política.. n. Serie: Derecho. também. Para uma boa comparação com a Coroa de Aragão. 151 J. Cortes y clientelas: el mito de Sobrarbe.

Martim de Albuquerque.). pp. Madrid. Lei Fundamental e Lei Constitucional. cit. political allegiance and religious constraints in 17th century Portugal» in José Pedro Paiva (org. Rey de dicho Reyno. 164 Cfr. 238. 1642). consulte-se. António Alvarez. y Político: Por Iuan Baptista Moreli Doctor in Vtroque. y causa de la Confederación. Giovanni IV.. Relatório apresentado no Curso de Mestrado. 2002. vol. Reduccion. vol. 67 segs. Cardim. Restauração de Portugal. que celebró con el Rey christianissimo. Raggioni del Ré di Portogallo D. Con vna breue relatione del successo nell’elettione del nuouo Rè.. Lisboa. Lourenço de Anvers. e tal memória terá sido determinante em Junho de 1640. Ideologia Política. Tratado analytico diuidido em tres partes. I. 242 segs. pp. XXXVI (161) (2002) pp. Ivsta acclamação do serenissimo Rey de Portvgal Dom Ioão 157 António Barbas Homem. (Lisboa. coord. 1985. con las razones. pp. Iuannetin Pennoto.. A Formação do conceito de Constituição... «O processo político (1621-1822)» in História de Portugal. e 244 segs. 4. Fortea Pérez. quando Olivares resolveu convocar as Corts tendo em vista fazer aprovar um novo pedido fiscal. Col Stabilimento Fatto nella Corti dalli tre Stadi di quel Regno et Alcvne Allegationi Giuridicopolitiche. 1147-1181. vol. Las Jurisdicciones. 19. ordenado. O Antigo Regime (1620-1807). 2002. Palimage – European Science Foundation. cit. Hespanha. p. pp. Acerca deste livro. f. Paulo Craesbeeck. 160 Fulgêncio Leitão. M. 1968. p. Lourenço de Anvers.. Análise Social.. 1644). Lisboa. 158 159 Acerca da presença do conceito de pactum subiectionis na paisagem política ibérica.). Lexicoteca. 2372. Discurso Moral. «Principios de gobierno urbano en la Castilla del siglo XVI» in Enrique Martínez Ruiz & Magdalena de Pazzis Pi (coords.. 1642). e divulgado em nome do mesmo reyno.. cap. y otros Principes. Faculdade de Direito. Iuan IV. J.. Direito Constitucional. P. de Luís Reis Torgal. Tradotto dalla Lingva Portvghese nell’Italiana per Informatione de Signori Italiani da Liuio Giotta (Lisboa. Fernando Dores Costa. f. Lisboa. dir. 1996.. Biblioteca Nacional. I. O Poder Político no Renascimento Português. Restituycion del Reyno de Portugal a la Serenissima Casa de Bragança en la Real Persona de D. 165 Segundo Xavier Gil Pujol («Parliamentary Life in the Crown of Aragon…. «Ceremonial. pp. con le quali si proua. 1998.. Coimbra. (Lisboa. A convocató- . pp. Cardim. o IV. As cortes de Lamego são «a verdadeyra instituição do Reyno» escreve João Pinto Ribeiro em Uzurpação. «As forças sociais perante a guerra: as Cortes de 1645-46 e de 1653-54». Mss. cfr. 261-308. 161 Lívio Giotta... 1648). che il suo Ambasciatore mandato in Roma deue esser accettato del Pontefice. Madrid. cfr. 1981. Contributos para uma história do Direito Público. Actas Editorial. 2002. 351-368. 1-3. Retenção.238 155 «Deste OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS papel se há de formar la platica del Embaxador de Roma al Pontifice para que no admita la Embaxada del Obispo de Lamego y proceda en causas contra Portugal». Cortes e Cultura Política.. VIII. 38 segs. 156 Francisco Velasco de Gouveia. P.) Religious Cerimonials and Images.. Universidade de Lisboa. Estas «actas» foram oportunamente impressas em 1641: Cortes Primeiras que el Rey Dom Afonso Henriquez celebrou em Lamego aos Tres Estados depois de ser confirmado pelo Sumo Pontifice por Rey deste Reyno. na Catalunha existia uma forte memória de governação republicana. 32 segs. cit. 386 segs. 163 P. ISCSPU. pp. 1641). 162 Cfr. (Turim. Cardim. y en la Sagrada Teología. José Mattoso. em justificação de sua acção… (Lisboa. Power and Social Meaning (1400-1750). de A. 231 segs. pp. 184 segs.

p.A. Disputa sse si deven imponer se de consentimiento de los tres Estados del Reyno (Cortes)». Brown. seguido de Tomo Segvndo del Iuizio o Vaticinio Politico Al Noble Reyno de Svecia. A ASSEMBLEIA DE CORTES. Contiene la tercia. 222v. Coimbra. 35 174 Correspondência diplomática de Francisco Ferreira Rebelo. The Revolt of the Catalans. Rio de Janeiro. (devo esta sugestiva referência a Rafael Valladares Ramirez). Cambridge University Press. & não aonde quer. cód.º marquês de Gouveia. não chegando a nenhuma conclusão taxativa. Johannes Jansson. Arquivo da Universidade. 562-587. mas a reunião não chegou a celebrar-se. Bravo Losano (org. 1926. «La Corona y las Autoridades Urbanas en el Portugal del Antíguo Régimen. 169 Cfr. 1655).. y quinta parte de la segunda.C. Arquivos do Centro Cultural Português. 1982. 171 Cfr. Lisboa. & conseruação de seus Reynos. Centenário da Restauração. João da Silva. 22. Stvdia Gratiana. 408 segs. para as Corts catalãs a conjuntura de 1640 representou um breve momento de protagonismo. 2002. notas de Afrânio Peixoto. Madrid.. in genere Ângela Barreto Xavier. 1998.R. Cortes. 29-50. Tacito Portuguez. Lourenço de Anveres. Rey de Suecia. 1640-1668. 141 segs. 1655) inclui um capítulo sobre impostos intitulado «Apunta se las condiciones que deven currir para imponer nuebos pechos. (Estocolmo.I. y la tertercia de la obra. cfr. 2.. 172 E. 166 Francisco Manuel de Melo.. 1642-1644». 1673. revisão de Lígia Cruz.. 49-X-6. y Poderoso Principe Carlos Gustavo. Coimbra. El rei aonde póde. P. Londres 1655-1657. Imprensa da Universidade. Colibri. Limencop.). . 719 segs. Lisboa. Dittos e Feytos de El-Rei Dom João IV. 15 (1972) pp. Ciudades y Villas. 173 Citado por Edgar Prestage. foi a Diputació a entidade que conseguiu congregar os representantes do Principado. The political applications of a Philosophical Maxim». f. Ioão IV para paz. Espacios de Poder. 167 Carta de D. 132. «Cessante Causa and the taxes of the last Capetians. Esta reunião – que não foi convocada pelo rei – desenvolveu uma actividade muito intensa. Cambridge. 1642). Abril. e Morte. in genere a obra de João Francisco Marques. Razões da política no Portugal seiscentista. Entre los Habsburgo y los Braganza» in J. pois os representantes recusaram-se a comparecer... 170 O livro de António da Silva e Sousa. Em vez da Coroa. 1989 (2 vols.. p. 1963. Johannes Jansson. 239 ria foi expedida. A Study in the Decline of Spain (1598-1640). quarta. 175 Cfr. com introdução. Acerca da articulação entre a pregação e a política. edição de Manuel Lopes de Almeida. Frei Domingos do Rosário. Vida. Cardim.ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS.). embaixador em Madrid. informação. Elliott.N. Ordenado por Ioão Rabello Vellozo que muito dezeja o seruiço de Deos & o de sua Augusta Magestade el rey D.. 168 Um bom exemplo: Avizo Exortatório aos Fidelíssimos Três estados do felicíssimo Reyno de Portugal. Ivizio o Vaticinio Politico Al Noble Reyno de Svecia: Debaxo de la conducta del Muy Alto. pois nas décadas que se seguiram a assembleia representativa perdeu boa parte da projecção política de que momentaneamente gozara. Todavia. alegando que não poderiam votar com liberdade encontrando-se um exército régio em território catalão. & Senhorios… (Lisboa. em especial pp. «Correspondance diplomatique de François Lanier résident de France à Lisbonne. segundo apógrafo inédito da Biblioteca Nacional. em especial A Parenética Portuguesa e a Restauração. Biblioteca da Ajuda. 122 segs. 105. Lisboa.. XXXII (1993) pp. Acerca deste tema é imprescindível a consulta do estudo clássico de John H. no qual o autor analisa as várias opiniões sobre o tema. pp. Rodolfo Garcia e Pedro Calmon. Diplomata e Político. para o secretário de Estado Francisco Correia de Lacerda. vol. pp. 1940. 133 segs. I. (Estocolmo..

The Municipal Councils of Goa. Fred Bronner. 187 Guida Marques. Alberto de la Hera & Carlos Dias Rementeria.. «A constituição do Império português. conflicto y poderes en la Monarquía Hispánica (1640-1680). Valhadolide. Dinâmicas políticas no Brasil no tempo de Filipe II de Portugal». 285 segs. org. portanto. fs. a 14-3-1628 – cfr.. 2001. 183 Consulte-se in genere a Historia da Expansão Portuguesa. 1967. Consulte-se P. 1992. 7-36.. e. Biblioteca da Ajuda. La Rebellión de Portugal. 1980. 184.. 185 E. Todavia. 186 As cidades e vilas do reino também costumavam preparar petições conjuntas. 184 Charles Boxer. pp. org. de João Fragoso. 1138. 2002. 1135 segs. Madison. 345-347. cit. Portuguese Society in the Tropics. A dinâmica Imperial Portuguesa (séculos XVI-XVIII). Bethencourt & K. «La Unión de las Armas en el Perú….. Historia del Derecho Indiano. pp. Civilização Brasileira. 261 segs. Em algumas das sessões de Cortes é possível detectar sinais de concertação entre procuradores oriundos de uma mesma região. Maria Fernanda Bicalho. Guerra e Açúcar no Nordeste. uma certa capacidade para articular posições à escala regional. Guerra. 51-VI-19. Mapfre.. Rio de Janeiro. p. Bahia and Luanda.. «La Constitución de la sociedad política…. O Rio de Janeiro no século XVIII. 165-188. Hespanha. org. denotando. tuguês (1645-1808)» in AA. cit. 182 A. cit. 30 segs. de Maria Fernanda Bicalho. cit. Rio de Janeiro. pp. 181 Fred Bronner. Rio de Janeiro. também. de João Fragoso.. estas atitudes coexistiam com tomadas de posição eminentemente particularistas e completamente desprovidas de qualquer sentido de solidariedade para com os problemas que afectavam o resto do «reino e conquistas». pp. 167-190. Junta de Castilla y León. 13-80. 178 Carlos Dias Rementeria. cód. 1998. VV. O Antigo Regime nos Trópicos... Rio de Janeiro. 1998. São Paulo. cit. pp. «O Estado do Brasil na União Ibérica…. de Rodrigo Bentes Monteiro. 177 Carlos Dias Rementeria. Cabral de Mello. Penélope. Seminario Extraordi- 192 . 2003. 1630-1654. de Joaquim Veríssimo Serrão. Marques. de F. A Cidade e o Império. «A concessão do Foro de Cidade em Portugal dos séculos XII a XIX». Topbooks. «La Unión de las Armas en el Perú…. 1998. 1967. «Política cortesana y administración en Portugal durante la segunda mitad del siglo XVII» in José Javier Ruiz Ibáñez (org. 190 Maria de Fátima Gouvêa. VV. Cardim. Lisboa. «O Estado do Brasil na União Ibérica. cit. veja-se. 1992. «Poder Político e administração do complexo atlântico por- 191 Acerca do tema consulte-se.. Do Índico ao Atlântico (1570-1697).. Lisboa. Madrid. A Cidade e o Império. «La Constitución de la sociedad política» in Ismael Sánchez Bella. Macao.. 1967. 180 Carta escrita em Lima. A Monarquia Portuguesa e a colonização da América. 1640-1720. 27 (2002) pp. n. Revisão de alguns enviesamentos correntes» in AA. I (1973) pp. vol. 188 Guida 189 «Procuradores que estão por definidores com voto e declaração dos que estão com alternativa em as Cortes que se comessarão em 22 de Outubro de 1653». 2001. Hucitec. 2002. O Rei no Espelho. 179 Fred Bronner. 1510-1800. M. Portugaliae Historica. p. 1139. pp.). Revista de História e Ciências Sociais.. pp.. Olinda Restaurada. O Antigo Regime nos Trópicos: A Dinâmica Imperial Portuguesa (séculos XVI-XVIII). Chauduri.240 176 Rafael OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Valladares. «La Unión de las Armas en el Perú.

Entre Clío y Casandra. e no início não retirou força às Cortes.A. Thompson em «La respuesta castellana ante la política internacional de Felipe II» in AA.. «Orto y ocaso de las Cortes de Castilla»….ENTRE O CENTRO E AS PERIFERIAS. Essa coexistência de várias vias de diálogo foi uma constante. I. J. Cambridge... de I. Kingship and Favoritism in the Spain of Philip III. Madrid. 201 Francisco Tomás y Valiente. 1992. Fortea Pérez. 198 Acerca desta problemática é imprescindível a consulta de A. cit. pp. «Orto y ocaso de las Cortes de Castilla»…. 230 segs. Historia de la Propiedad. pp. pp. uma colaboração activa no terreno fiscal – J. «Aristocracy and Representative Government…. consulte-se. 345-410. de António Barbas Homem. Anuario de Historia del Derecho Español. Legislação. cit. 374. 789 segs. o que dava novo alento à capacidade das Cortes para influenciar o corpus normativo da Coroa. Antonio Feros. «Introdução Histórica à Teoria da Lei – Época Medieval». 25 (Abril-Junho de 1999) pp. 53-60. Departamento de História (no prelo). pp. Thompson & Pauline Croft. 121-134. estabeleceu-se que o rei deveria incluir na escritura de los millones as respostas às petições. «Aristocracy and Representative Government…. 196 I. 14 (1984) pp. VV. de resto. de Jesús Vallejo. História das Instituições. «The rule of law in early modern Castile». Equidad y orden desde la óptica del Ius Commune» in Salustiano de Dios et al. Música y ritual de corte en la Europa moderna. 202 J.. 2002. I. 91 segs. 1992. terem continuado abertos vários outros canais de comunicação entre a Coroa e as cidades. cit. 195 Cfr. por vezes. a par das Cortes. pp. e. cfr. «Ceremonial de la Majestad y Protesta Aristocrática. cit. tais respostas tinham força de lei e eram incorporadas nas sucessivas edições da Nueva recopilación. J. Hespanha. 199 A questão da resposta aos «capítulos» merece também alguma atenção. La Capilla Real en la corte de Carlos II» in J. SECCFC. Com a implementação do novo regime dos millones. Antonio Álvarez-Ossorio. o que obrigava a Coroa a antecipar-se à negociação fiscal na resposta aos pedidos. 1598-1621.A. Servicio de Estudios del Colegio de Registradores. recusando-se a dar resposta às petições até que as Cortes aprovassem os servicios que o monarca reclamava. pp. p. M. Além disso. La Capilla real de los Austrias...A. 1982. como mostrou I..). 193 Cfr. XXXII (1962). 197 Para uma excelente exposição sobre a eficácia conformadora do Direito no contexto do Antigo Regime. Fortea Pérez chama a atenção para o facto de. Madrid. usou essa matéria como forma de pressão. Universidade de Múrcia.. O excelente artigo de I. pp. Fortea Pérez. . pois a Coroa continuava a carecer da assembleia enquanto cenário natural de negociação entre o rei e o reino. 790 segs. «Derecho como cultura.A. 7-125. Madrid. do qual se esperava.A. 2001. «La Diputación de las Cortes de Castilla (1525-1601)». 221-234. p. «Orto y ocaso de las Cortes de Castilla»….. Fundación Carlos de Amberes.. 78-79.. 200 Não raras vezes eram as próprias Cortes a não revelar grande empenho em debater questões de alta política. A ASSEMBLEIA DE CORTES. I.A. consulte-se. 788.A. 241 nario Floridablanca. 2000. European History Quarterly. pp.. Thompson. Cadernos de Ciência de Legislação. cit. pp. 2000.A. cit. A Coroa castelhana.. 347-469. La monarquía de Felipe II a debate. também. Patrimonio Cultural. Fortea Pérez. Carreras & Bernardo García García (orgs. 194 Acerca das críticas ao valimento. Thompson & Pauline Croft. Cambridge University Press..

. Cortes de Castilla y León. «La Corona de Aragón a finales del siglo XVII: a vueltas com el Neoforalismo» in Pablo Fernández Albaladejo (org. «Una sociedad no revolucionaria…. a decisão de 1667 inscreve-se no quadro mais geral da reformulação do sistema fiscal castelhano. 801-802. 205 John H. de Olivier Christin. Daí que tanto a Coroa como o reino. 140 (décembre 2001) pp. 207 segs. 204 . Universidade Católica Editora. «Una sociedad no revolucionaria: Castilla en la década de 1640» in España en Europa. I. Marcial Pons.. 209 Para J. 213 Bartolomé Clavero. 206 John H. 2002. 212 Bartolomé Clavero. 211 Maria da Glória Ferreira Pinto Dias Garcia. cit. «La configuración de lo ordinario en el sistema fiscal de la Monarquia (1505-1536). 149-195. 21 (1999) pp. Elliott. pp. Giovanni Levi. pp. também. Acerca deste tema consulte-se. de Juan E. 2002. Una o dos ideas». consultes-se... 153. pp.).). Elliott. Las Cortes de Castilla y León. Escritos seleccionados. pp.. António Ribeiro dos Santos. Da Justiça Administrativa em Portugal. 208. Valhadolide. cit. 2001. The Value of the Norm. O Pensamento Político em Portugal no século XVIII. cit. 237 segs. 2002. pp. Los Borbones. Elliott. O modelo do servicio – entendido como auxílio temporário. José Esteves Pereira. Actes de la recherche en sciences sociales. 2002. Roma. Castilla convulsa.. 1994. cit.. VV.. de David Alonso García. 187-188. I. Gelabert. Dinastía y Memoria de Nación en la España del siglo XVIII. «Reciprocita mediterranea» in Renata Ago (org. Studia Historica. Lisboa. I. 801-802. Imprensa Nacional. «Cortes Tradicionales e Invención de la Historia de España…. Estudios de historia comparada.. «Orto y ocaso de las Cortes de Castilla»…. p.242 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS 203 Acerca deste tema consulte-se. 21-30. pp. 117-152. 1990. 37-72. Madrid. pp. 207 John H.. pp. Sua origem e evolução.. Lisboa. como lembra Xavier Gil Pujol.. «Orto y ocaso de las Cortes de Castilla»…. tenham manifestado o interesse em recorrer a modalidades alternativas de financiamento – J. p. 2002. cit.. 1990. 207 segs. 109 segs. «Cortes Tradicionales e Invención de la Historia de España» in AA. «Una sociedad no revolucionaria. Fortea Pérez. cit. Historia Moderna. para fins específicos e baseado em determinadas condições – estava a debilitar-se. 1188-1988.. 210 J. 1983. Biblink editori. pp. Fortea Pérez. 208 Este fenómeno registou-se em toda a Península Ibérica. Valência. Universitat de València. Fortea Pérez. «À quoi sert de voter aux XVIe-XVIIIe siècles?».

2005. as tradições que envolvem as práticas sociais. os recursos disponíveis e as motivações dos vários actores sociais. estratégicos ou efémeros. implicam alguma indeterminação na configuração global do sistema de poderes e estruturas de probabilidades consoante os espaços onde se tecem as obediências. Todavia. as desobediências e. na maioria dos casos. . os dispositivos disciplinares. responde nos despachos “Como parece”. porém. Ou. as propostas historiográficas para a caracterização do modelo de relação entre o centro e a periferia tenderão sempre a reconhecer fundamentos para apoiar a perspectiva centralizadora ou autonomista do poder.As relações entre o centro e a periferia no discurso do Desembargo do Paço (sécs. que o conhecimento mais recente da realidade administrativa e política do Antigo Regime é complexa demais para se deixar classificar de forma tão simplista. Os objectivos. Acontece. E outras. ainda. Parece à Meza o mesmo que ao Ministro Informante” A fórmula de despacho em portada foi a que. quando decidia no quadro do seu regimento. são as questões quando se invocam outros poderes para além dos régios e muniOs Municípios no Portugal Moderno: dos forais manuelinos às reformas liberais Lisboa. pp. valorizando o poder local ou as intenções centralizadoras. o plano doutrinário. portanto. Edições Colibri – CIDEHUS-UE. dos organismos envolvidos nas relações de poder. o tribunal do Desembargo do Paço seguiu para submeter à apreciação superior as consultas relativas aos assuntos das câmaras depois de ter obtido as informações e os pareceres dos corregedores. O rei. então. As excepções vão para pretensões fora do ordinário ou quando os ministros deixam os pareceres em aberto com o acostumado “Faça-se justiça” (fiat justitia). 243-261. por sua vez. XVII-XVIII) JOSÉ SUBTIL (Universidade Autónoma de Lisboa / Instituto Politécnico de Viana do Castelo) “E sendo tudo visto. provedores ou de outros ministros como o do Procurador da Coroa.

o verdadeiro papel da Coroa e dos municípios na conformidade da vida política e social. como os circuitos para a tomada das decisões. Imprensa das Ciências Sociais. em simultâneo. provavelmente. qualquer movimento reformista. a periferia tem sido identificada com os concelhos. isto é. alguns corregedores as comecem a invocar como novos pólos de territorialidade política. Lisboa. revela que as comarcas e as provedorias não constituíam espaços sociais de relações de poder mas. unidades que serviam para circunscrever as funções de execução política e administrativa dos corregedores e/ou provedores na sua relação com a Corte e os concelhos. surpreendentes para avaliar. Do lado de quem manda ou pretende mandar. tribunal que assegurava a comunicação política entre a Coroa e os poderes periféricos. 1 Sobre o poder local ver referências aos mais recentes trabalhos em Nuno Monteiro. . para o final do Antigo Regime. como memórias dos actos praticados. isto é.244 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS cipais. sendo ignoradas as freguesias embora. Será uma mudança com resultados. apenas. a relação entre a Coroa/concelhos e concelhos/freguesias recentra a geometria dos campos de domínio do poder e torce os lugares políticos e sociais. em primeira instância. como os poderes senhoriais. Entre as diversas componentes destas lógicas. 2003. ao nível periférico. ou do lado de quem obedece ou pretende obedecer. como unidades que podiam sustentar. Elites e poder. No discurso historiográfico. os problemas relacionados com o exercício do poder obedecem a interesses e mecanismos próprios de dominação bastante diferentes conforme o lugar que nos dispomos ocupar. por exemplo. da Igreja e das comunidades com juízes ordinários1. como foi sugerido para as paróquias por José Viriato Capela neste mesmo colóquio. O significado dos arquivos Através da forma de organização dos arquivos administrativos e do seu conteúdo técnico podemos reconhecer. tanto o papel desempenhado pela burocracia na maneira de exercer o poder. atentemos nalguns detalhes que dizem respeito ao Desembargo do Paço. Não há dúvida que a persistência continuada e exclusiva de arquivos municipais e centrais. E as respostas que se procuram ou que se querem encontrar são imaginadas de acordo com a perspectiva em que nos coloquemos. Naturalmente que uma geografia política que equacione. Entre o Antigo Regime e o Liberalismo. A hierarquia do lugar que ocupam os concelhos em relação às freguesias não resulta imediatamente das relações estabelecidas pelos concelhos com a Coroa.

para além do mais. Esta secretaria era constituída por quatro repartições (Corte. eram suportados pelos interessados. pedidos que. tendo em vista formar a decisão régia. Estremadura e Ilhas. que a produção documental servia. Mas vejamos outros pormenores. relacionado com o despacho régio. por exemplo. sobretudo. não se encontram no Desembargo do Paço. igualmente. com excepção de alguma correspondência. Beira. portanto. de uma forma geral. Um. ou dos Corregedores. aliás. tanto para as de carácter mais técnico. o processamento burocrático se fazia de forma razoável para a época. em primeiro lugar. um outro. O corregedor e/ou provedor. agilizava as suas acções e permitia. ou ao bem commum”2. na maioria dos casos. podemos distinguir dois tipos de expediente. Em qualquer caso. De acordo com a estrutura e a organização do arquivo do Desembargo do Paço. então. Juízes. uma grande economia de recursos humanos e financeiros uma vez que a duplicação da informação era demorada e implicava trabalhos acrescidos. revertiam em receitas de emolumentos para os magistrados e para a Coroa e. eram do interesse destes. e Justiças dellas. nem as pautas das eleições nos arquivos concelhios o que nos mostra que as possibilidades de controlo estavam reservadas aos oficiais comarcais através dos quais o monarca podia chegar ao maior número possível de informações. e Alentejo e Algarve) cada uma 2 Parágrafo 8. Isto significa. assim. também. apesar destas características e das limitações da comunicação. um poder de indagação da verdade não precisavam de uma secretaria de reserva que duplicasse a informação disponível nos arquivos referidos o que. a cargo da Secretaria das Justiças e do Despacho da Mesa. que se destinava aos assuntos referentes aos concelhos. As actas das vereações. no facto das provas documentais do exercício do poder estarem nos arquivos municipais ou nos arquivos dos tribunais e conselhos da administração central. com os processos relativos a consultas. não deixa de ser surpreendente como. . públicas ou mais ou menos secretas. da responsabilidade da Secretaria das Comarcas onde se deviam tratar os que tocarem “às Cameras dos Lugares das suas Comarcas. o conteúdo dos arquivos municipais e dos arquivos centrais não repetem. Minho e Trás-os-Montes. a informação. ou seja. Quando as circunstâncias o justificassem era. Neste sentido. como mesmo para outras indagações.º do Regimento Novo do Desembargo do Paço (27 de Julho de 1582). os interesses da instituição produtora da documentação.RELAÇÕES ENTRE O CENTRO E A PERIFERIA NO DISCURSO DO DESEMBARGADOR DO PAÇO 245 Uma das evidências desta particularidade reside. no que tocar a seus officios. como funcionários volantes que exerciam. accionado o mecanismo dos traslados cujos custos.

A confirmação. por esta secretaria mas sim pela Casa do Expediente através. Lisboa. porém. administração dos bens da Igreja. para um advogado com quem repartiam os honorários. O acesso aos processos podia fazer-se por nome próprio do requerente. higiene pública. No que diz respeito ao governo das câmaras. por assuntos ou por toponímia3. exclusivamente. Trabalhavam. As funções e o papel político desempenhado por estes procuradores que. cultivo das terras. a forma como se constituíam as redes entre os procuradores e advogados espalhados pelo Reino e os que tinham escrivaninhas na Corte. sobre a estrutura e funcionamento arquivístico do tribunal é. também. II). etc. em grande medida. os processos mais importantes tinham a ver com os actos eleitorais (pautas) e com a fiscalização sobre as comissões de serviço dos magistrados régios (autos de residência). desde os mais simples requerimentos dos particulares até aos mais complexos. Tudo parece indicar que os procuradores formavam uma verdadeira corporação profissional que exercia pressão sobre o andamento dos processos e a sua resolução final. em primeiro lugar. relacionados com a administração da justiça e da magistratura. da boa organização do tribunal está expressa na forma como o arquivo funcionava apesar de tratar dos mais variados assuntos. estão por conhecer como. Os assuntos dos particulares não entravam. uma prática que veio a ser abandonada por se mostrar inconsequente. Alguns oficiais e escrivães do Desembargo do Paço foram acusados de cumplicidade com alguns destes procuradores para influenciarem ou acelerarem processos. Formam uma interminável fonte de informação sobre o poder local. o fomento económico. Universidade Autónoma de Lisboa. porém. que as unidades administrativas do Reino 3 Ver pormenores da estrutura do arquivo em José Subtil. dando conta aos seus clientes dos passos que foram e estavam a ser dados. O que se pode dizer. distribuídos pelas repartições das comarcas. . sobretudo. normalmente. dos concelhos e dos donatários leigos.246 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS remetendo para a respectiva comarca cujos processos se organizavam em maços. que não existiam arquivos comarcais ou de provedoria o que nos remete para uma noção de periferia política e administrativa consubstanciada. O Desembargo do Paço (1750-1833). posteriormente. dos procuradores das partes que se encarregavam de organizar o dossier com os documentos necessários aos processos sendo. asseguravam a relação dos particulares com o monarca. recebendo gratificações em troca. Ou melhor dizendo. obras. eleições municipais. 1996 (cap. doações e heranças. nos municípios. A certa altura foi adoptado no tribunal a numeração do registo de entrada dos processos. conflitos jurisdicionais. portanto.

deve registar-se que há uma clara distinção no tratamento burocrático de assuntos públicos e privados. Círculo de Leitores. apenas. sobretudo do Desembargo do Paço. todavia. pp. desde logo. Apesar das Histórias de Espanha recentemente editadas. continua a ser fundamental . assim. 1996. a organização processual e o corpus documental constituíam. Enquanto os primeiros dispunham do mecanismo político e administrativo assegurado pelos serviços destes magistrados. como já se disse e se sabe.RELAÇÕES ENTRE O CENTRO E A PERIFERIA NO DISCURSO DO DESEMBARGADOR DO PAÇO 247 eram constituídas. os concelhos4. os corregedores e provedores constituíam magistraturas muito especiais uma vez que as suas funções se destinavam a cumprir ordens dos tribunais superiores. A arte da explanação dos assuntos e a materialização da realidade objectiva em documentos. Para o efeito. constituíam o signo de entendimento do poder régio que não reconhecia outros sentidos fora destas estruturas de modelização. estes delegados do poder régio foram sempre magistrados togados e nunca de capa e espada5. depois de procederem às indagações e inquirições necessárias. Muito raramente tomavam iniciativas próprias. o Reino estava dividido em comarcas e provedorias que incluíam. o local e o inexistente regional”. os oficiais de ligação entre o centro e a periferia. em quaisquer dos casos. História dos Municípios e do Poder Local (direcção de César de Oliveira). Ao contrário de Espanha. A acção da Coroa em relação à periferia apoia-se. E. uma poderosa imagem do poder da Coroa porque obrigavam a descartar procedimentos que não estavam ao alcance de qualquer um. emitirem pareceres para submeter à Mesa do Desembargo do Paço. Lisboa. a cargo destes profissionais. Tanto para os processos documentalmente bem preparados como para os que precisavam de ser complementados com mais informação. 4 5 Sobre a organização do poder à periferia ver Nuno Monteiro. mais tarde. por um grupo cujo poder de intervenção dificultava a relação directa com o monarca. o processamento destes casos acabava. ou a exercerem o poder em sua representação. “O central. Nesta medida. dentro das suas áreas jurisdicionais. pelos tribunais centrais da Corte e pelos senados das câmaras. Em segundo lugar. os assuntos particulares estavam dependentes das iniciativas tomadas pelos procuradores e advogados. 79-119. ou seja. A lógica das relações e da decisão política Os corregedores e provedores eram. isto é. por cair nas competências dos corregedores e provedores para. em profissionais especializados que conferem pelas suas práticas um carácter institucional aos procedimentos administrativos. exigindo regras e rigores discursivos indispensáveis à apreciação régia.

particularmente. 10 Estes estudos só serão possíveis através do cruzamento de fontes. frequência das visitações por localidades e períodos. confrarias. 58.248 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Depois de diplomados. albergarias e hospitais bem como o cumprimento das vontades dos testamentos e obras pias. 8 Idem. Madrid. tít. escrivão. tempos das aposentadorias. para uma visão de conjunto deste período a obra de G. cit. As audiências gerais das câmaras. momentos de trabalho com as vereações. procurador do concelho. logo suprimidos por Carlos IV6. O corregedor estava encarregue de tirar devassas. conhecer da imunidade da Igreja. Apesar do que hoje já se conhece sobre o corregimento9. informar sobre as actividades dos juizes de fora e juizes ordinários que não cumpriam as leis e conhecer as apelações das sentenças dos juizes ordinários. informações solicitadas pelo Desembargo do . liv. I.10. Universidade do Minho. 7 Ver Ordenações Filipinas. capítulo IV. utilização de meios de transporte. Desdevises du Dezert. 1997. ainda não é possível termos uma imagem clara sobre as efectivas funções e acções no terreno dos corregedores. proceder à cobrança da décima. Braga. locais e formas de inquirição de testemunhos. Política de Corregedores. zelar pelo ordenamento da floresta. A este propósito. Fundacion Universitária Española. Tomavam conta das despesas e receitas dos concelhos e inspeccionavam as remessas para o Conselho da Fazenda8. tomar posse dos bens da Coroa quando vagassem. O provedor tinha a seu cargo o controlo e fiscalização dos cofres da comarca e provedoria. entre outras tarefas ocasionais7. corregedor. receber queixas contra as autoridades locais. 62. 1989. La España del Antiguo Regímen. autos de residência. destinadas a informar o ministro do que seria justo a bem do povo.. 6 Sobre a carreira dos magistrados ver José Subtil. I. vereadores. actos das vereações. tinham de realizar um exame de acesso à carreira e fazer um tirocínio para obterem o encarte na correição o que só viria a acontecer no país vizinho durante o reinado de Carlos III. examinar obras. um cartório onde se lançavam os provimentos dos corregedores. dar conta dos crimes e mendigos. tít. também. seria muito interessante termos estudos que nos permitissem reconstituir a actividade de um corregedor ao longo do seu mandato. etc. órfãos. visitar os cárceres. fazer a eleição dos vereadores e almotacés. eram objecto de um auto assinado por todos os presentes. Na câmara existia. nobreza e povo chamados a pregão e toque de sino. das capelas. 9 Sobretudo com os trabalhos de José Viriato Capela em especial para este tema. liv. fiscalizar os oficiais das sisas e fazer o seu lançamento na ausência dos juizes de fora. op.

problemas das casas para aposentadoria.RELAÇÕES ENTRE O CENTRO E A PERIFERIA NO DISCURSO DO DESEMBARGADOR DO PAÇO 249 Desconhece-se. indicia que existiam formas alternativas cujas razões e mecanismos ignoramos mas que podemos presumir tenham sido usados com recurso. as reacções municipais aos pedidos régios para as agravar como. a este respeito. ou não.) influenciavam. etc. sindicâncias. em contrapartida. aleatoriamente. que na maioria das contas que dão aos tribunais superiores. por exemplo. De notar. Saber quais as câmaras que raramente acolhiam o corregedor e as formas usadas para receber os munícipes na sede do concelho ou obter informações sobre a vida social. assim. aos procuradores dos concelhos quando se deslocavam à Corte. muito provavelmente. os casos em que estas se dirigiam directamente ao tribunal. Mas se o Desembargo do Paço comunicava com as câmaras através dos corregedores e provedores. em grande parte. as câmaras não esperariam pela reunião com o corregedor. Pode ser uma boa razão para se admitir que a relação com a centralidade polí- Paço e respostas às mesmas (ou de outros organismos centrais). dentro do possível. desempenhavam na vida profissional do corregedor. estado das estradas. avaliar em que medida o corregimento se limitava. situadas no principal concelho. inventário das presenças destes magistrados nas diversas corporações locais. Merecem. Compulsando algumas destas situações. os corregedores assinalam a data e a localidade em que se encontram e os autos indicam os funcionários ao serviço. ou indirectamente. verifica-se que a grande maioria se reporta a grandes ou médios concelhos abaixo do Mondego. pautas eleitorais. Ou se o planeamento anual da correição obedecia a algum calendário standard ao qual se acopulavam. a sua gestão. O mesmo se dirá das apreciações que fizeram sobre as apelações dos juizes ordinários. A fórmula a adoptar para estes estudos consistiria em delimitar no tempo os seus mandatos e correr a informação disponível nos tribunais superiores e nas câmaras de forma a estabelecer-se uma cronologia das suas actividades. as solicitações do centro. o lançamento de segundas terças. económica e política. Neste caso. desta forma. se outras variáveis (tempo. por exemplo. particular atenção as modalidades regionais utilizadas para os concelhos requererem sobras das terças e sisas destinadas a concertos e reparações de obras devido às despesas que implicavam ou. escrivães e meirinhos de apoio. a cartografia e cronologia das correições bem como o significado que as sedes das comarcas. através do Secretário de Estado dos Negócios do Reino. etc. também. à resolução de problemas suscitados pelos tribunais superiores forçando. embora raros. . E tão pouco estamos em condições de podermos comparar o desempenho destes cargos para concelhos de diferente dimensão e estatuto o que nos permitiria. a agenda dos corregedores.

nos casos que conhecemos. Por outro lado. assim. Mas a hipótese de que tal expediente pudesse corresponder a uma forma expedita de relacionamento com o tribunal deve. o Desembargo do Paço envia os requerimentos para o corregedor ouvir a Câmara. por conseguinte. Uma vez que a câmara . de imediato. o princípio de que todas as partes se deviam pronunciar para aferir dos privilégios. e Cabelo”. emblemático desta conformidade diz respeito ao pedido (24 de Novembro de 1788) formulado pelo poderoso e influente Intendente Geral da Polícia. compostas pela herdade de Tagarrães e o baldio de Lopo da Mouta. regalias e direitos adquiridos de tal sorte que os despachos não contradissessem a ordem estabelecida ou a viessem perturbar. Estas três formas de relacionamento entre o tribunal e o poder local (apenas através do corregedor. elegeu sempre o modelo jurisdicionalista como norteador das suas tomadas de decisão.250 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS tica é. sempre que tal se verificava. igualmente rara. com o argumento de possuir uma lavoura interessante tanto em “sementeira como em criação de Gados de Lãa. exclusivamente com a opinião do magistrado. Temos. Nobreza e Povo. ou seja. Um exemplo limite e. indirectamente por intermédio da Secretaria de Estado dos Negócios do Reino ou directamente pelos procuradores dos concelhos) e a consequente instrução processual mantiveram-se inalteráveis até ao final do Antigo Regime e a extinção do Desembargo do Paço (1833). desembargador do tribunal do Desembargo do Paço e Conselheiro de Sua Majestade. porém. introduzindo tipos de relacionamento forçados por factores que não faziam parte das lógicas políticas do regime. o tribunal dá instruções para o corregedor ouvir sobre a matéria todos os interessados não decidindo. instruções para as mesmas câmaras ou que as remeta por intermédio dos corregedores e/ou provedores. o ganho de tempo podia ser grande uma vez que eram suprimidos os tempos de correio entre o corregedor e o tribunal. por isso. Outra situação. nunca se enraizariam nos procedimentos habituais do tribunal. Contudo. instruir o processo com as opiniões das partes envolvidas. com a excepção para outras modalidades de comunicação que emergiriam após o consulado pombalino mas com outros contornos políticos como adiante se verá. também. ser posta de lado na medida em que. refere-se aos pareceres que os corregedores decidem remeter para o tribunal sobre matérias de governo camarário sem que a iniciativa tenha pertencido aos senados. Também nestes casos. que o Desembargo do Paço não modificou o seu modo de proceder relativamente às decisões sobre o poder local. Diogo Inácio Pina Manique. que pretendia aforar ou comprar umas terras em Arronches. Não se verificam situações em que o tribunal despache. fomentada pela proximidade territorial a Lisboa ou por facilidades de comunicação. isto é.

por parte dos peticionários. o que afirmava não ter acontecido com os anteriores rendeiros.RELAÇÕES ENTRE O CENTRO E A PERIFERIA NO DISCURSO DO DESEMBARGADOR DO PAÇO 251 tinha vindo a arrendar essas herdades. significa que do cálculo dos peticionários não constava este tipo de procedimentos nem os mesmos se configuravam. Neste sentido. . se tivermos em conta que durante a correição podia recolher os mesmos. desconhecendo-se as razões que a impediram. aliás o podia fazer. ao contrário do que pudesse parecer. pelo menos. o facto do expediente não ser canalizado pelo corregedor que. ao repetir os actos e a homogeneizar as decisões. tanto pelo tempo que acabava por demorar como pelos custos que implicava. ganhava com o expediente uma certa centralidade que não podia assumir se aligeirasse os procedimentos. de certo modo. inculcava em todos estes actores fórmulas universais e disciplinas processuais que contribuíam para a aceitação de uma linguagem especial. Este tipo de comunicação entre a Coroa e a periferia. os do território onde se encontrava ou se presumisse que iria estar. no seu entender. A gestão do tempo. cotava o tribunal como um lugar de escolhas. de procuradores das partes para levar os requerimentos à Corte parece significar que o papel do corregedor é. própria de um certo poder indisponível à 11 IAN/TT. mesmo que fossem. dos circuitos e a escolha dos actores. fundamentava o acto jurisdicional. retirasse as informações que da praxe eram exigidas e remetesse para o tribunal o processo já instruído para ser ultimado. de determinação de resultados e garante da não arbitrariedade política. previsíveis. No mínimo. Digamos que o modelo. sobretudo. Nobreza e Povo para se conhecer a verdadeira justiça e não poder vir a ser sujeita aos embargos de obrepção e subrepção de outros interessados ou lesados11. maço 340. portanto. também “interessa ao Estado”. e as criaçoens dos seus Gados” que. o desembargador pretendia “aumentar a sua Lavoura. No que respeita aos particulares. O requerimento deu entrada directamente no tribunal mas a Mesa deliberou que não podia tomar qualquer decisão sem ser ouvida a Câmara. pode dizer-se que este género de expediente era tudo menos económico. ao repetir-se. instrumental do tribunal e que a Corte. Ministério do Reino. embora se saiba que ficou retida na Secretaria de Estado dos Negócios do Reino. ao alimentar com este modelo um conjunto numeroso de oficiais e profissionais encarregues da redacção dos textos e traslados. A decisão final acabou por não ser tomada. desde logo. o uso. no âmbito do corregimento. Na lógica dos nossos procedimentos seria óbvio que nos casos em que o corregedor pudesse recepcionar as petições.

tantas repetições de procedimentos. Deste modo existe uma enorme desproporção entre o aparato discursivo dos actos administrativos e a dimensão da acção política. Em contrapartida. Digamos que o tribunal age. ou seja. Mesmo que o viesse a fazer. a jusante ou a montante. é atestada. se investisse demasiado em actos de duvidosa consequência prática. nem acontecimentos. o poder que exigia a formatação dos discursos adequados era. A consolidação deste estilo de governo. também. Limitar o poder do rei e limitar o poder das câmaras.252 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS extravagância. o seu estatuto político e social. ao recorreram aos que as tinham. pelo ganho da celeridade e da eficácia. Desta forma. ficando reservado aos oficiais régios. por outro. ficaria sempre sujeito ao embargo das suas decisões o que de todo era de evitar pelas consequências que acarretava. os despojados destas competências. nem factos. arbitrariedade ou estratégias de surpresa. por sua vez. . por um lado. pelo facto do tribunal não ter por hábito remeter ordens sobre o governo das câmaras ou tomar iniciativas políticas. que permitiam o autogoverno dos senados. pela habilidade retórica para a construção de verdades. reage sempre a acontecimentos ou factos e não cria. desde logo. pela via passiva. Por isso. tal era o fundamento e a promessa do modelo jurisdicionalista que o Desembargo do Paço garantia como instituição central do sistema. tanto legitimavam as suas autoridades como reconheciam que ao usá-las podiam aceder ao sistema de legitimação política. De facto. achamos incompreensível e estranho que. de facto. e nos poderes jurisdicionais delegados ou normativos. na regularidade discursiva e na constituição de corpus documentais. A estratégia de dominação do centro sobre a periferia residiu. para nós que hoje somos movidos pela economia das acções. deliberadamente ou não. Nestas circunstâncias. neste período. se fizessem tantas coisas da mesma forma. de uma forma global. assim e sobretudo. fundada na previsibilidade dos textos e procedimentos. nada fazia supor para o governo das câmaras que o tribunal tivesse uma estratégia de ocasião ou objectivos obscuros na apreciação que fazia dos processos. a suspensão da mesma. essencialmente. a eficácia dos actos administrativos e de governo dependiam desta disciplina dos textos e da sua organização e nunca da excelência dos argumentos ou da exuberância literária como acontecerá a partir do pombalismo. a razão de ser de todos estes oficiais que não tinham interesse algum em o destruir dado que no conhecimento que possuíam destas tecnologias residia. assegurar o prosseguimento desses princípios.

em Memória e Poder. a elitização dos letrados na medida em que se tornavam elementos decisivos na manutenção das condições de produção discursiva. 14 Sobre o mundo jurídico não letrado ver António Manuel Hespanha. ao vulgarizá-lo. sobretudo. influenciado por Michel Foucault. pelo contrário. os grupos profissionais que tinham o domínio da escrita favoreciam. Gallimard. Diritto e Potere nella Storia Europeia. 806-822. a banalização das mesmas. procede a uma análise sobre a cultura impressa e manuscrita durante a época moderna onde acentua. facilitava os actos administrativos. e implica o definitivo desaparecimento do carácter “sagrado” da escrita”13. a dominância do manuscrito sobre o impresso (transcrição p. 13 Ana Isabel Buescu. É certo. Só para o final do século XVIII começaram a surgir documentos impressos que correspondem a um novo entendimento da produção documental. Ensaios de História Cultural (séculos XV-XVIII). afirma Ana Buescu a “Escrita manual. verificamos que uma das constantes que impregna a actividade burocrática diz respeito à permanência da cultura manuscrita que cobria todos os momentos processuais e de expediente. Por outro lado. Paris. Este facto mostra que a imprensa não terá assumido um papel inovador nos actos administrativos do tribunal e. individualizada. Lisboa. também. consagrar o monopólio das produções discursivas por uma elite e evitar.) Com o aparecimento da imprensa. o prestígio simbólico do manuscrito terá resultado da singularidade do documento enquanto objecto único para. . evidentemente.. 1982. Cosmos.RELAÇÕES ENTRE O CENTRO E A PERIFERIA NO DISCURSO DO DESEMBARGADOR DO PAÇO 253 O discurso manuscrito12 Se compulsarmos o discurso produzido pelo tribunal onde se materializavam os seus actos. com L’ archéologie du savoir. 32). justamente. o manuscrito implicava um ditado feito pelos magistrados ou escrivães. E como. “Les magistratures populaires dans l’organisation judiciaire d’Ancien Regime au Portugal”. pp. Firenze. por isso. na formulação dos enunciados e na utilização da retórica14. que sendo a época dominada por uma cultura oral e exigindo o acto administrativo uma cultura escrita. ela integra um carácter sacrificial e um significado transcendente (. a revolução tecnológica constituída pela criação dos caracteres metálicos permite a fixação das normas linguísticas e ao aparecimento de gramáticas e tratados ortográficos. referências a conceitos e fórmulas. nomeadamente quanto à dominância de certos padrões e tipologias documentais. por vezes criadora. 2000.. também. particularmente. promovendo uma tecnologia de dominação que privatizava o conhecimento o que não acontecia com o documento impresso que. repetidamen- 12 Sou aqui. sobretudo. 1969. Desta forma inculca-se a ideia de que as competências linguísticas.

nem ter casa 15 Algumas destas disposições estão já consagradas no Alvará de 30 de Junho de 1652. Para evitar intimidades estavam proibidos de prover ofícios ou serventias nos tribunais em criados ou parentes até ao quarto grau. a probidade. pelas suas próprias mãos como que transmitindo ao documento a originalidade irrefutável e inquestionável das suas autoridades e conhecimentos. garantindo uma certa permanência física dos trabalhos que começavam cedo e terminavam cedo. O acto que realizava e definia estas classificações era. igualmente. uma competência com carácter “sagrado” a que até o próprio monarca ficava submetido.254 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS te inscritos nos discursos eram. o domínio que o governo dos togados detinha para produzir taxonomias na apreciação de processos já examinados estabelecia. os desembargadores do Paço obedeciam a um ritual apertado e cerimonioso no exercício das suas funções quando estavam reunidos para despacho. Ao mesmo tempo. Não podiam. pareceres e deliberações (tenções). gerador de suspeitas de um saber quase misterioso exercido na inacessibilidade dos gabinetes ou em procedimentos ocultos. Um saber recheado de qualidades indisponíveis à maioria. depois da publicação das Ordenações Filipinas. a legislação vai continuando a dar conta de algumas virtudes. Estavam. ser interrompidos nem vistos enquanto trabalhavam. Por isso. Por tudo isto. fundamentalmente. tanto nas deslocações dentro do Reino como fora dele. também. como a prudência. por isso. gorra ou carapuça”. portanto. serem obrigados a fazerem-se acompanhar da mulher e dos filhos. estarem proibidos de frequentar casas de jogos. Quando começavam a trabalhar. por exemplo. Como. só poderem fazer visitas uns aos outros. Na presença do rei. não tomarem afilhados de género algum. Na altura dos votos. não podendo trazer capa sobre a beca15. obrigados a fazer os despachos. deveres e direitos dos desembargadores. também. eram obrigados a cobrir as cabeças em sinal de recolhimento e meditação. as insígnias e as composturas deviam contribuir. ou declarações. não podiam acumular com outras funções dentro do tribunal. as portas dos gabinetes eram fechadas e mesmo os escrivães só podiam entrar desde que chamados pelo toque das campainhas. no trabalho dos tribunais ou em quaisquer actos públicos deviam usar “togas talares descobertas. Ao longo do século XVII. para o “respeito que todos devem”. . desde as sete horas de Verão e oito de Inverno até ao final da manhã. As providências sobre os trajes. o rigor e a imparcialidade vertidas em textos cuja ordem do discurso era insuspeita pela ilustração das evidências conclusivas. uma ordem final que regulava o certo e o errado. não poderem morar fora da cidade. também.

Em circunstância alguma podiam ser presos. o que é sempre referido são a falta de informação. testemunhos falsos ou preponderância de pareceres. etc. o tribunal tomava a iniciativa de solicitar novas informações referindo os reparos que foram feitos. de certas passagens das Ordenações e dos Regimentos lidas pelo seu escrivão. muito raramente. os magistrados régios obrigavam os vereadores e os procuradores a escutar a leitura. Typographia Rollandiana. Esboço de hum Diccionario Jurídico. exclusivamente. ou Índice Alphabetico das Leis Extravagantes. exclusivamente. e Practico. ou seja. formação de comissões volantes para inspeccionarem as comarcas ou até a chamada ao tribunal de vereadores ou representantes da Nobreza. Imprensa da Universidade. 1825. muitos sem instrução para saberem ler e escrever. continuando a observar os acontecimentos. os corregedores queixavam-se da falta de cerimonial dos senados e da rusticidade dos vereadores. Clero ou Povo para serem ouvidos ou confrontados com opiniões favoráveis ou desfavoráveis. . ainda. abusos. Quando encontramos. fazia depender a confiança política nestes magistrados num qualquer fiscal das suas actividades. 1843. Com alguma frequência. Repertório Gera. Em conclusão. Embora em menor escala. Lisboa. Por isso mesmo. Coimbra. um trabalho sobre textos. em voz alta.RELAÇÕES ENTRE O CENTRO E A PERIFERIA NO DISCURSO DO DESEMBARGADOR DO PAÇO 255 na cidade e a família fora. em altura alguma. ou. E todo este trabalho realizado no Desembargo do Paço era. a este respeito. nem mesmo através de artifícios indirectos como podiam ser visitações às câmaras. críticas ao Desembargo do Paço por parte das câmaras. através dos documentos. O Conselho não dispunha destes dispositivos nem. E nestes casos. o ritual das audiências das câmaras decorria em ambientes semelhantes e. em Manoel Fernandes Thomaz. que a relação entre o Desembargo do Paço e a periferia foi uma relação fundada em realidades discursivas mediatizadas pelos corpus documentais produzidos pelos corregedores. suspensos ou despedidos sem expressa autorização régia. uma forma de trabalho que se destinava a formar uma opinião meditada acerca das coisas sobre as quais os textos não se deviam equivocar. Theoretico. podemos dizer. a acção do Desembargo do Paço nunca se revestiu com carácter de indagação sobre a realidade política local com recurso a procedimentos de observação directa por parte dos desembargadores. sequer o imaginou como necessário e indispensável para velar pelo bom desempenho dos corregedores e. 16 Encontra-se referência a esta legislação em Joaquim Caetano Pereira e Sousa. regra geral. Estavam isentos das responsabilidades recorrentes de sentenças injustas e não podiam dar consulta sobre mercês a parentes até ao quarto grau16. com raridade. por vezes.

doc. naturais e indisponíveis à interpretação arbitrária da razão humana. 199 . até oito testemunhas”. vol. “A representação da sociedaded e do Poder”. A formulação dos novos enunciados discursivos deixava. 18 Ver síntese sobre os contornos dos modelos de representação em Ângela Barreto Xavier e António Manuel Hespanha. Como tem vindo a ser conhecido. pp. apezar de haver pouco que deixou de guardar cabras. Círculo de Leitores. miseráveis povoaçoens. passava a admitir a autonomia dos homens para se governarem. Os vereadores normalmente acabam em juízes. Esta libertação da natureza e do social em relação ao divino produziu a possibilidade de o pensamento social se poder constituir como pensa- 17 Relato do corregedor de Portalegre (IAN/TT. 121-156. maço 800. o modelo de representação social fundado no indivíduo. Ao contrário do complexo conhecimento das coisas “divinas” e “humanas” que pedia um governo com prudência e justiça para assegurar uma ordem capaz de cumprir o desígnio transcendental. apesar de outros dois candidatos terem tido mais votos17. com regras e leis de governação. os novos fundamentos ideológicos e políticos da segunda metade do século XVIII acabariam por interromper a influência absoluta dos teólogos e juristas da tradição do período do ius commune e atribuir o papel principal de governo aos políticos que se esforçavam por produzir modelos racionais de compreensão do social. o governo das câmaras estava confinado a uma corte provinciana e local cujas lógicas emparedavam os limites da autoridade régia e controlavam os efeitos de qualquer estratégia que pretendesse invadir a soberania que detinham sobre os seus territórios. por esta via. cada vez com maior detalhe e expressão regional. campo de manobra política para a acção dos corregedores. que o quadro doutrinário não vocacionava os corregedores para procedimentos que tivessem em vista desestruturar estas realidades18. “tinha servido de Vereador. juntar “sete. de se legitimar em princípios que transcendiam a vontade dos homens. e que o mesmo he irmão do actual vereador Leonardo Ferreira”. Desembargo do Paço. sendo que o último. dotado de vontade e de razão. . com muito sacrifício. IV. João Ferreira. efectivamente. global da situação que se vivia na maior parte dos concelhos e que retirava.256 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS A nova centralidade pombalina Vila Flor que “he huma das mais piquenas. na altura em que se procede à devassa da correição consegue-se. Este relato do corregedor de Portalegre expressa a imagem. Lisboa. tendencialmente. História de Portugal. e. E é verdade. também. que tem o titulo de Villa”. 5). repartição do Alentejo e Algarve. Todavia.

na segunda metade do século XVIII. aliás. o domínio da observação sobre o do relato. a este respeito. à oportunidade das suas missões e ao bom desempenho dos cargos. pelo menos. o melhoramento dos meios de comunicação tinha em vista. de mais autoridade sobre as câmaras e os magistrados locais para poderem dar sentido político efectivo às suas presenças. o modelo de grande mobilidade aumenta o domínio do território por parte dos agentes do poder central que tenderão a diminuir a autonomia dos poderes locais. precisavam. evidentemente. também. ao deslocaram-se. Do ponto de vista social. Um dos tópicos mais emblemáticos desta mudança de perspectiva é o continuado apelo às reformas dos meios de comunicação. conservar. construção de estradas. em contrapartida. Contudo. medido por resultados práticos. permitir o movimento de pessoas e bens.RELAÇÕES ENTRE O CENTRO E A PERIFERIA NO DISCURSO DO DESEMBARGADOR DO PAÇO 257 mento político autónomo e. também. Curioso que. embora claramente sedutora para os políticos. iremos assistir a abertura de conflitos entre o tribunal e outros organismos criados na matriz política como sejam. concomitantemente. ver mais e ler menos. o modelo dominante continuou a ser o da legitimação pela tradição pelo que. Estes pressupostos significam. apresentação de inquéritos e relatórios capazes de mapearem e cartografarem os problemas da governação. encanamento dos rios e melhoramento dos portos. a reforma das vias de comunicação permitiria maior rapidez na comunicação. também. A razão passava agora a ser invocada para criar. criar doutrina sobre a ordem social mais adequada. imaginada por alguns magistrados tradicionais que recorreram para o Desembargo do Paço dispostos a distinguir pela positiva as vantagens . o Erário Régio e as novas secretarias de estado que elegeram para os seus programas políticos a usurpação funcional dos poderes corporativos. ou seja. no inverso. aceleração na tomada de informações. construir e não conformar. oficial encarregue de uma determinada área de governação com jurisdição plena mas disponível à vontade do príncipe. que os novos agentes do poder central. doravante. alterando os condicionalismos da imobilidade onde se fundavam as particularidades locais para. a Intendência Geral da Polícia. A razão de tudo isto é. Do ponto de vista dos poderes centrais. criarem um dinamismo na governação e racionalização dos espaços e territórios. também. por exemplo. a lógica da figura do intendente. os oficiais régios podiam aumentar as possibilidades da sua presença física directa impondo. efectivamente. E esta foi. os poderes locais tendem a autonomizar-se enquanto que. a mudança preconizada. manifesta porquanto numa situação em que a mobilidade política e social é de baixa intensidade. nesta medida. mais e mais rapidamente. Como. acabaria por ser.

como sejam o dos juízes de vintena. do provedor de Torres Vedras. ao tombo das que existiam.) Que todo o 19 6 de Novembro de 1787 (IAN/TT. não só da sua provedoria mas das que se encontravam contíguas. se as Estradas se achavam praticáveis (. E afirmava. para além de ser marcada pelo entusiasmo nos novos ventos de mudança uma vez que não se eximia a dizer que a “Ovra do efeito que tinham produzido as Superintências particulares em cada objecto. talvez porque cada hum de per si não adquiria a gloria de ser util ao público. Ministério do Reino. porém. comparando-a. maço n. e que quanto ao Suprimento dos sobejos das Sizas. Evidentemente que a proposta do provedor colocava um problema sério ao Desembargo do Paço que tinha a ver com a criação de um superintendente particular com poderes para intervir na esfera tradicional das competências das câmaras e dos corregedores. Chega mesmo a apresentar um plano para a construção e conservação das estradas a cargo de uma superintendência que procedesse. atendendo ao “Grande Espírito com que V. que se permitiu. Manuel Inácio da Mota e Silva19. inclusive.258 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS desta nova administração. acusando os poderes camários “Vista a tristíssima experiência de que os officiaes das Cameras já mais olhavam para obra alguma pública. e sobre que a Camera podia fazer Postura guardada a forma da Ordenação do Reyno: Que isto pelo que respeitava a imposição sobre os carros. promovia o Bem dos seus Vassalos” defender que era “Princípio certo que o Comércio interior do Reino era. e senão. com a ineficácia do corregimento. mostrava a necesidade de se adoptarem. que tais proposições “Concorriam igualmente ao bem do Estado na exportação e importação” o que não se verificava na comarca de Torres Vedras que “Estava ao abandono da sua Policia”. Não deixando. ainda. era necessário separar a sua jurisdição de uma intendência que reformasse as estradas. quem felicitava os Povos.. Na sua proposta reconhecia. . curiosamente. de ser um magistrado do Desembargo do Paço. a importância dos pequenos poderes na relação com a autoridade do intendente. por exemplo. onde não chegasse a dita imposição era igualmente do expediente desta Meza”.. M. no seu entender.º 340). o provedor encontrou como justificação para as suas ideias o facto destas “Providências parecia serem todas do Expediente desta Meza porque todas erão da Economia dos Povos. igualmente. E assimilava o efeito da mobilidade do comércio ao da virtude de um poder regional superior ao dos próprios corregedores. e quem augmentva o Real Erário” pelo que. confundindo-se esta no concurso de todo o Corpo”. É o caso. que olhassemos para o Reyno cheyo de Cameras e de Corregidores e que vissemos.

devia ser tratado com muita Política prudencial. como se depreendeu. pp. Lisboa. isto é. VII. a aliança do tribunal e das câmaras contra estes novos funcionários mostrou a lenta agonia do modelo de liberalidade nas relações entre o centro e a periferia que teria. em que estavao as Estradas do Reyno. sobretudo. mas que no estado apoletico. “Governo e Administração”. E. a assenhorear-se da tramitação burocrática do próprio tribunal com o monarca. que julgasse a propósito Que elle não avançava a que se tirasse às Cameras a economia que a ley lhe dava. só remedios extraordinarios lhe convilhão” (o sublinhado é nosso). o Erário Régio (22 de Dezembro de 1761) e a Intendência Geral da Polícia (25 de Julho de 1760). A conclusão a retirar deste processo é. foi dando ordens aos corregedores e provedores sem informar o Desembargo do Paço passando. Mas a Secretaria de Estado dos Negócios do Reino. não coincida com as comunidades e com os limites dos poderes instalados teria que ser marcada pela implantação no terreno dos intendentes e superintendes com obediência directa às secretarias de estado e não ao Desembargo do Paço20. A estratégia de consumação dos poderes tradicionais passaria. neste novo figurino e expediente político. como que desautorizando o tribunal. Lexicultura. vol. estava criada uma outra administração que coabitaria com a do modelo tradicional em evidente ponto de ruptura. Uma só cabeça. a nível central como. . 199-234. a disponibilidade para que o espaço administrativo. após a extinção do tribunal. A partir de então. História de Portugal. o provedor defendia uma política de centralização administrativa a nível regional e o arbítrio do superintendente para administrar com total liberdade.RELAÇÕES ENTRE O CENTRO E A PERIFERIA NO DISCURSO DO DESEMBARGADOR DO PAÇO 259 Objecto grande e público. entretanto criados. Com o apoio de outros organismos. o pólo de coordenação da nova centralidade para com as câmaras deslocou-se para a Secretaria de Estado dos Negócios do Reino que. sem dúvida. entre os mais importantes. também. claro está. em crescendo. mas que por hua só cabeça e que ella estabelleceria os braços. não fez seguir a consulta para despacho régio. Escusado será dizer que o Procurador da Coroa foi contra esta fantasia do provedor ao dizer que as Ordenações já regulavam estes assuntos na competência das câmaras e dos corregedores acabando. em que se necessitava do Socorro dos Povos. por o Desembargo do Paço concordar com o parecer e não atender às súplicas do seu provedor. 2002. pela técnica de esvaziamento funcional 20 Ver síntese deste modelo em José Subtil. dias conturbados durante a implantação do liberalismo. particularmente. a de que o tribunal estava claramente contra a corrente do centralismo pombalino que advogava que a relação entre território e jurisdição.

o tribunal e os seus os corregedores e/provedores tenderam a moderar. por esta via. As respostas do tribunal à actuação destes magistrados obedeceu. exclusivamente. a nível local. demarcação das comarcas (1790)22. de um modo geral. As unidades orgânicas mais pequenas. que as audições da Câmara. aos senados das câmaras através das magistraturas dos corregedores e provedores e foi. ainda mais. amiudadamente. As câmaras perceberam tanto o rodeio destas inovações como a intromissão da secretaria de estado nas suas jurisdições privativas21. . apenas. ver Ana Cristina da Silva. praticamente. 1998.260 OS MUNICÍPIOS NO PORTUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS do Desembargo do Paço e pelo afrontamento político. para o efeito. Estampa. O discurso do Desembargo do Paço expressa e assinala. 21 Para uma síntese da reforma do governo pombalino ver José Subtil . com a regulação das jurisdições dos donatários. podemos dizer que. a relação do Desembargo do Paço com a periferia resumiu-se. a abolição das ouvidorias. pp.101-112 22 Sobre o disposto nestas reformas e as suas consequências na alteração do mapa político do Reino. Separando a acção destes magistrados no terreno da que estabeleciam com o Desembargo do Paço e referindo-nos. Lisboa. um papel determinante na organização e composição destas unidades. aos seus pareceres e fundou-se. em informações escritas preparadas pelos mesmos. consultadas. por um lado. câmaras de Pombal e Oeiras. desempenhou. Já no final do Antigo Regime. a que assegurou a comunicação política entre a Corte e o Reino. ainda mais longe. essencialmente. durante o período neo-pombalino liderado por José de Seabra da Silva (1784-1799). como freguesias e paróquias. o poder das câmaras mas. Conclusão Durante o Antigo Regime. a esta última. os corregedores e os provedores. Actas do colóquio O Século XVIII e o Marquês de Pombal. regra geral. por outro lado. criação do Superintendente Geral das Estradas (1791) e incorporação do Correio-Mor na Coroa (1797). a perda da influência do Desembargo do Paço na comunicação política com as câmaras. as alterações das relações entre a Corte e a periferia foram. Destas reformas resultaria. 2001. também a proteger e a valorizar as suas opiniões quando eram. Nobreza e Povo deviam ser manifestas quanto às decisões tomadas para não se pôr em causa a justiça e o bem público. “A Reforma do Governo e da Administração (1750-1777)”. O Modelo Espacial do estado Moderno. mediatizavam a relação com o tribunal por intermédio do poder camarário que.

A produção e reprodução dos mecanismos de dominação do centro à periferia consistiu. ao tribunal interessava-lhe. não resultassem prejuízos graves para a ordem estabelecida. A questão do efectivo controlo da periferia pelo centro viria a ser assumida. O surgimento de novos oficiais com competências para exercerem funções em áreas regionais que cobriam territórios de diversos concelhos e comarcas bem como o controlo da centralidade na comunicação com as comarcas e concelhos pelo Erário Régio. sobretudo. Ou seja. a manutenção dos privilégios e regalias consolidadas ou que. pelo menos. no essencial. não perderem. por isso. em assegurar tipologias. regularidades discursivas e habitus burocráticos que promovessem o direito como tecnologia de decisão. o rumo tradicionalista pelo que. embora com outros contornos. foi a da criação de condições para uma maior mobilidade dos agentes de poder régio. . Entre esses problemas é de salientar a alteração das regras de intervenção política que passaram a considerar. veio colocar problemas à autoridade do Desembargo do Paço. Estavam em causa outros problemas. o papel desempenhado pelos mesmos magistrados no domínio comarcal onde tinham de agir para resolver abusos da administração municipal como sugerem muito dos capítulos das correições já estudados. liberdade para governarem e mais território para intervirem. porém. os poderes locais foram confrontados com duas centralidades (uma passiva. Mas estas actividades não enchem a documentação que chega ao tribunal. como fundamental. o constrangimento do poder local. bem referenciada e assumida. outra activa) que concorrerem em conflitualidade pelo monopólio do poder. novamente. sobretudo. das suas alterações. Intendência Geral da Polícia e. uma das quais. Afinal todos esperavam ganhar com este expediente ou. a importância que revestiu para o tribunal a nomeação e o controlo das suas carreiras de forma a garantir que os seus serviços promovessem a paz e evitassem a discórdia. a partir de meados do século XVIII. outras estratégias e outras tecnologias de dominação que passaram por várias inovações. Compreende-se. até à sua extinção (1833). pela Secretaria de Estado dos Negócios do Reino. especialmente.RELAÇÕES ENTRE O CENTRO E A PERIFERIA NO DISCURSO DO DESEMBARGADOR DO PAÇO 261 Outro terá sido. pela geração liberal. O tribunal sentiu a mudança e a perda de autoridade mas não mudou.

que muito facilitaram o êxito desta iniciativa. o que é ainda mais importante. 2005. Sociologia / Instit. em termos de orientações analíticas. Edições Colibri – CIDEHUS-UE. no essencial.Balanço final: Questões para uma sociologia histórica das instituições municipais1 RUI SANTOS (Univ. procurarei extrair e discutir os pon1 Este texto desenvolve. também do ponto de vista académico. Agradeço à organização do encontro o ter-me prontamente facultado as gravações das sessões. pelo que não incorpora eventuais modificações entretanto introduzidas nas versões escritas. Os Municípios no Portugal Moderno: dos forais manuelinos às reformas liberais Lisboa. Por isso mesmo. a comunicação de encerramento apresentada no encontro. Há muito mais estudos. mas também de maturação dos temas. mas também. à Câmara Municipal e à Biblioteca Municipal de Montemor-o-Novo o convite para participar neste encontro. há muito mais pensamento e análise. sobre a necessidade de corrigir enviesamentos dos resultados obtidos. em Reguengos de Monsaraz. Foi elaborado sem conhecimento dos textos finais dos restantes autores. sobre novos problemas e novas hipóteses de resposta. tal como decorreram oralmente. podemos hoje verificar um enorme contraste que denota uma grande progressão e um amadurecimento desta área temática. pesem embora incursões pontuais lançadas a partir de investigações centradas em outros domínios. 263-274. Se nos reportarmos ao encontro que teve lugar há uma dúzia de anos. sobre poderes centrais e poderes periféricos numa perspectiva histórica. dificilmente este balanço poderia ser uma síntese competente da rica diversidade de informações e de pistas de trabalho deixadas pelas comunicações e pelos debates que tiveram lugar. procurando reflectir as comunicações e as discussões. de diversidade de assuntos. também mais reflexão sobre o que ficou por fazer ao longo deste percurso. Sociologia Histórica) Antes de mais. pp. Em vez disso. Nova de Lisboa – FCSH – Dept. bem como a eficaz organização e o excelente acolhimento facultado aos participantes. Não sendo especialista na matéria. gostaria de começar por agradecer ao CIDEHUS. .

que padece de uma excessiva concentração nos grandes municípios. e pensar mais em termos de contrastes e de mudanças. Em segundo lugar. 1. e mesmo na fase final do antigo regime. Consensos Da perspectiva em que me coloco. sobre os pequenos municípios rurais. São escassos os estudos longos.264 OS MUNICÍPIOS NO PORTIUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS tos que me parecem especialmente interessantes para a definição actual de problemáticas de investigação sobre o tema. sem ilusões de exaustividade nem de imparcialidade do ponto de vista adoptado. mas ao mesmo tempo do carácter pouco estruturado dessa acumulação que coloca problemas de representatividade. e até da interferência de factores cientificamente espúrios. Abordarei consecutivamente três aspectos: primeiro. os consensos mais interessantes revelados por este encontro relacionam-se com o diagnóstico de uma acumulação de estudos de caso – veja-se o rico inventário apresentado por Francisco Ribeiro da Silva – que denota grandes ganhos de conhecimento. como a influência da contiguidade das áreas estudadas às implantações universitárias detectada por Francisco Ribeiro da Silva. apesar de o considerar imprescindível numa agenda de investigação sobre as instituições municipais e as suas práticas no contexto do antigo regime. o que me pareceu terem sido os grandes consensos emergentes das comunicações e das discussões. bem como dos processos de reprodução e de mudança social. Inevitavelmente. mas também a necessidade de os projectar na longa duração. fá-lo-ei a partir de uma perspectiva. o que me pareceu terem sido os pontos principais de ruptura e debate manifestos. . o que me pareceu ter ficado por tratar. a minha. ancorada na sociologia histórica e como tal privilegiando a análise comparativa das configurações e das instituições sociais. terceiro. da falta de estudos sobre os municípios de fronteira e de áreas interiores. de comparabilidade e portanto de síntese e generalização. o alargamento também da representatividade cronológica. especialmente no Continente. Foi sobejamente notada por vários intervenientes a carência de investigação sobre casos anteriores ao século XVIII. Em primeiro lugar. com vista a generalizações empírica e conceptualmente relevantes. embora práticos. Espero assim dar um contributo para a clarificação e o debate das muitas e interessantes questões levantadas no encontro. segundo. e têm-se generalizado para os séculos XVI e XVII imagens centradas no século XVIII. destacou-se a necessidade de um alargamento da representatividade territorial. as omissões. Seria necessário alargar os horizontes cronológicos para aferir melhor as continuidades e descontinuidades.

nomeadamente a carência de estudos sobre as instituições do ponto de vista dos administrados. em termos de exercício e de relação entre os poderes. onde conflitos. Desde logo. Dadas as assimetrias sociais dos actos discursivos escritos ou transcritos. se as perguntas de investigação forem bem colocadas. infracções e sanções. dos fluxos da periferia para o centro e da influência . o alargamento da representatividade institucional. é uma perspectiva que mais facilmente suscita interrogações do que respostas. como lembrou Teresa Fonseca. avanços e recuos nas decisões camarárias em confronto com os administrados ficaram frequentemente registados. ao menos em filigrana. e nas oportunidades de acesso a status sociais conferidos por essas hierarquias enquanto vias de mobilidade ascendente para elites subalternas. existem corpos documentais nos próprios arquivos municipais onde alguma visibilidade pode ser recuperada.. alegações e contra-alegações. Mas é inegavelmente do maior interesse historiográfico e. os de licenças e os de fianças. por outro lado. Será necessária uma melhor caracterização. como apontou Nuno Monteiro.. o quase vazio do nosso conhecimento sobre as funções judiciais de primeira instância das câmaras. conterá provavelmente informação preciosa para este interrogatório.BALANÇO FINAL: QUESTÕES PARA UMA SOCIOLOGIA HISTÓRICA. as próprias actas de vereação. seleccionados e arquivados com que construímos as fontes. devido à transferência dessa documentação dos arquivos municipais para os tribunais durante as reformas liberais do sistema judicial. o da hierarquia burocrática e militar dos concelhos: concretamente. que José Subtil sublinhou. por exemplo) não revelam bem a capacidade de resistência das populações nas suas práticas quotidianas? Mas também. o estudo da importância do funcionariado concelhio e do oficialato das ordenanças nas configurações efectivas de exercício do poder. da resistência e do conflito – a que acrescentaria a anuência e a conformidade. para além das fontes peticionárias e dos recursos para segunda instância. Finalmente. como os livros de coimas. que não fariam menos parte da vivência dos subordinados. outra documentação largamente inexplorada. As posturas camarárias repetindo ad nauseam durante décadas a proibição desta ou daquela prática (como a de criar porcos pelas ruas da cidade. Terceiro alargamento de representatividade. por vezes com surpreendente pormenor. Em primeiro lugar. Um quarto alargamento de representatividade identificado foi a correcção do que poderíamos chamar o enviesamento sociológico salientado por José Viriato Capela. 265 não apenas de semelhanças – pese embora a estabilidade dos discursos jurídicos que moldavam as relações de poder no decurso do antigo regime. mas talvez parcialmente superável pelo estudo sistemático dos seus rastos nos processos depositados nos tribunais de segunda instância.

Foi ainda bastante sublinhada. Uma segunda ordem de problemas tem a ver com as articulações entre a história das instituições e dos poderes locais e a história social. em várias intervenções. foi constatada a necessidade de analisar mais sistematicamente a articulação. como ressalta da comunicação de Fernanda Olival –.266 OS MUNICÍPIOS NO PORTIUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS dos municípios na política da Coroa. podemos começar por reflectir em três problemas levantados para discussão nas intervenções. de instituições e de acção política de escala regional. 2. como pólos de uma relação de concorrência. como notaram Francisco Ribeiro da Silva e Pedro Cardim. Tal oposição fundamenta-se nas tensões de poder pela decisão . e o da coexistência e do conflito entre poderes municipais e senhoriais. a necessidade de serem mais consideradas unidades de análise infra-municipais e não-municipais. e para resumir. ou não. senhoriais e supra-locais. todos remetendo para as configurações e a variabilidade das relações inter-institucionais e para os modos de as abordar teoricamente: o das relações entre instâncias de diferentes escalas institucionais. provedores e mesários das misericórdias). misericórdias como na comunicação de Laurinda Abreu e Rute Pardal) como de actores (juízes de vintena. tendo sido salientado por Mafalda Soares da Cunha o panorama muito rarefeito. concorrência ou conflito entre os poderes concelhios e outros poderes locais. dos estudos sobre municípios senhoriais nos séculos XVI e XVII. corregedores – e de outros poderes supra-municipais. através da representação em cortes. José Subtil questionou a oposição corrente entre as instituições centrais (nomeadamente. Debates Em articulação com o último ponto de consenso inventariado na secção anterior. as intendências e as secretarias de Estado. Em geral. por outro. Várias intervenções questionaram a acção dos agentes da Coroa – provedores. e os poderes locais. tanto ao nível de instituições (freguesias. Importante também se torna caracterizar e operar com a distinção institucional entre municípios de jurisdição régia e de jurisdição senhorial – incluindo a ambiguidade de que a este respeito parecem revestir-se os municípios das ordens militares sob a alçada da Coroa. reciprocamente. sobre a esfera dos poderes municipais. partilha. como o Desembargo do Paço. párocos. eventualmente parte de uma estratégia da Coroa para a consolidação da entidade política Reino. o da existência. em parte por problemas de fontes. este último sugeriu como hipótese de trabalho a função dessa representação no tecer de uma consciência supra-local nos actores políticos locais. por um lado. o Desembargo do Paço) e os agentes da Coroa. as relações de colaboração.

instigando ao estudo das intervenções e (des)articulações destes poderes. na arquitectura tradicional de poderes do Antigo Regime as várias instâncias eram organicamente complementares. como um dos vectores de uma crise do municipalismo. assim. o de perspectivar as relações entre poderes centrais e periféricos à luz das tensões institucionais . e invoca mudanças da relação centro-periferia em finais do antigo regime por efeito de um reforço das instituições e dos actores políticos centrais. receptores. sobrepondo-se como diferentes camadas com lógicas de funcionamento próprias. dos actores (emissores. que anularia a acção voluntária sob um modelo decisório tradicional completamente formatado pelo discurso jurídico. mas entre discursos e agentes tradicionais e “modernos” no próprio centro. primeira instância e instâncias de recurso. De acordo com esta perspectiva. e minando a estrutura e os equilíbrios de poder do antigo regime. etc. Não se trataria. intendências). desde finais do século XVII. relativa que seja. O problema fica em aberto. nomeadamente. o Desembargo do Paço. A mudança das relações centro-periferia em fins do antigo regime teria antes que ser entendida pela emergência.. tanto locais como centrais. de uma tensão entre o centro e a periferia. como conceptualizar um dispositivo institucional assente na execução e na apreciação de “actos linguísticos” procedendo à total elisão da autonomia. em todo o caso intérpretes)? À parte esta dúvida teórico-metodológica.. fiscalizadores e fiscalizados. no quadro do discurso jurídico tradicional assente nas categorias de justiça e de graça. o autor propôs repor o problema a partir de um ângulo diferente. e pela crescente intromissão em torno desses novos objectos de agentes da Coroa externos à ordem tradicional e que escapavam à sua lógica discursiva (secretarias de Estado. 267 jurídica legítima entre poderes centrais e poderes periféricos. encobrindo e legitimando processos de decisão que decorrem de margens de liberdade dos actores. parece-me um problema especialmente estimulante para uma sociologia política do antigo regime – suspeito que o seu interesse poderá transcender muito a fase final daquele –. pondo em causa as instituições tradicionais. deslocando-o de uma lógica dos actores e das “vontades” – subjacente à noção de concorrência – para uma lógica dos discursos. apenas interviria quando a ordem local era perturbada. de novos discursos (o administrativo. não sem levantar reservas o apelo à passagem de uma análise centrada nos actores para uma outra centrada nos discursos. estáveis e reciprocamente previsíveis. decerto variáveis em função das suas posições. Os discursos normativos podem ser apropriados como recursos da acção. não teria uma estratégia de intervenção sobre os poderes locais. Na sua comunicação.BALANÇO FINAL: QUESTÕES PARA UMA SOCIOLOGIA HISTÓRICA. dos seus capitais sociais e culturais. o económico e o financeiro) que escapavam à lógica do discurso jurídico tradicional inventando novos objectos. De facto..

No entanto. nas redes familiares supra-municipais das gentes da governança. Colocar mais decididamente as relações. Salientou as dinâmicas políticas que favoreceram fortes homogeneidades regionais. económicas e sociais tendiam por sua vez a criar fortes homogeneidades. cujos poderes e privilégios lhes confeririam verdadeiras tutelas sobre territórios cujas configurações físicas. apenas para dar alguns exemplos) e do económico (hierarquias de mercados. nomeadamente por efeito da legislação pombalina e mariana no sentido da concentração. variável capacidade de gestão dos fluxos económicos inter-concelhios). as funções. numa lógica de acção política. se não regionais. funções e recursos nos grandes municípios que assim teriam acentuado o seu peso relativo e constituído pólos. Parte dos argumentos aduzidos por José Viriato Capela referem-se. Este questionamento apresenta as indiscutíveis virtudes de pôr na primeira linha do debate sobre o municípios os processos de mudança social e institucional de finais do antigo regime.268 OS MUNICÍPIOS NO PORTIUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS no centro. duas definições teoricamente distintas: a região como recorte definido pela homogeneidade ou pela polarização (que implica heterogeneidade e dominação). na detenção trans-municipal de propriedades ou de direitos. de forma não problematizada. porque nesta discussão coexistem. e de empreendimentos de desenvolvimento regional envolvendo os recursos de múltiplos concelhos. No plano das configurações espaciais. merecem mais reflexão algumas ambiguidades em torno da operacionalização do conceito de região. referida pela mesma autora. José Viriato Capela contestou a tese do carácter a-regional ou mesmo anti-regional do município moderno. levantada no debate por Margarida Sobral Neto. da contextualização dos discursos iluministas anti-municipais que fundamentam a ideia de uma crise do municipalismo no final do século XVIII. da hierarquização e da racionalização político-institucionais. e de obrigar a transcender o quadro fortemente localizado e por assim dizer auto-contido de grande parte da historiografia municipal. Resumindo. particularmente no século XVIII. a homo- . a sua aparente contradição com o apoio dos oficiais da Coroa à acção anti-senhorial dos municípios na época pombalina. as hierarquias inter-municipais na agenda da investigação sobre a história local poderá certamente trazer perspectivas de articulação em espaços mais amplos. Esse questionamento permitiria talvez equacionar melhor a questão. de facto. e elucidar. ao menos “regionalizantes”. não só do ponto de vista institucional como também do social (pensemos nas eventuais relações entre mobilidade social e mobilidade geográfica. estas tendências teriam levado a uma crise dos pequenos municípios – que seria a expressão fundamental da chamada crise do municipalismo – e a uma concentração de poderes. Por um lado.

ora as consequências de âmbito supra-municipal da implantação e da actuação dos grandes municípios. da manutenção do bem comum e do bom governo dos povos. Os poderes senhoriais. no sentido da redução do arbítrio. tipo ideal de algum modo subsidiário da ideia de domínio oligárquico dos municípios). seja a dotação de grandes municípios com sedes de instituições com importantes poderes supra-municipais (como no caso do Porto com a Real Companhia. Margarida Sobral Neto contrapôs aos tipos ideais que poderíamos denominar de domínio senhorial limitado (os poderes senhoriais tinham escassa capacidade. tinham efectivo interesse e capacidade de colocar bloqueios e constrangimentos à autonomia das câmaras. 269 geneidades territoriais criadoras de semelhanças sócio-institucionais. com a existência de identidades. Outra parte refere-se. mas não beneficiários de obras promovidas pela Coroa. não deveria falar-se de um aumento da hierarquização. Hierarquias que induziriam polarizações de dominação política do território. ou de Coimbra com a Universidade. e faziam-no em proveito próprio. sem dimensão nem recursos para desempenhar as funções que lhes foram atribuídas pelas reformas políticas. e sendo o problema do carácter regional ou a-regional dos municípios de natureza essencialmente política. de resto nem sempre correlacionadas (como é o caso dos municípios de fronteira. ora as continuidades de características territoriais relativamente homogéneas. não correrá o risco de confundir.BALANÇO FINAL: QUESTÕES PARA UMA SOCIOLOGIA HISTÓRICA. em concorrência pelo exercício do poder.. com acréscimo do peso relativo dos grandes municípios mas sem mudança da sua escala de acção institucional. ou entre os municípios beneficiários e os envolventes contribuintes. o da concorrência e conflito institucional. que realmente definiriam a escala regional no plano político? Se a crise dos municípios na segunda metade do século XVIII é sobretudo perceptível nos pequenos municípios. ou pouco interesse em interferir com a esfera de autonomia dos concelhos) e de controle funcional (os poderes senhoriais exerciam um controle político “moderador” sobre a actuação das câmaras. corpos e mecanismos de poder ou de representação intermédios entre o município e o reino.. mais do que de um carácter regional daqueles? No que respeita à relação entre os poderes municipais e os poderes senhoriais. e que seriam bem complementadas pela polarização mais estritamente económica do peso dos mercados das grandes cidades nas suas áreas de influência. Por outro lado. A exacção das rendas . seja a diferenciação entre concelhos com juiz de fora e com juiz ordinário. pela apropriação do território e dos recursos económicos. característica geopolítica que intersecta muitas outras de diferentes índoles). diversamente. a que poderíamos acrescentar Lisboa com a Corte e os seus privilégios de abastecimento). a hierarquias de poderes entre municípios.

Como decorreu da discussão. que não eram especificamente senhoriais. reflectem situações-tipo não generalizáveis e cuja variabilidade. as intervenções no debate deram a entender que os três tipos ideais. tendo proliferado em fins do antigo regime entre um variado tipo de instituições. Na realidade. ao passo que os privilégios jurisdicionais subvertiam a jurisdição camarária de primeira instância. tanto territorial como conjuntural ou mesmo situacional. ambos por Nuno Monteiro: a discussão. quer a diversidade e o peso relativo dos direitos senhoriais exercidos pelas casas (por contraste com direitos de propriedade). a ver com a relação da história dos municípios e das instituições locais com os problemas e conceitos da história social. devido ao carácter “natural” da governação oligárquica no quadro da cultura política do antigo regime: a governação era por definição uma responsabilidade dos maiores numa hierarquia de honra e nobreza. então há que verificar “no terreno” não só a hipotética dominância do modo de governo oligárquico decorrente da pauta nor- . que é em parte semântica e em parte substantiva. Dois temas foram levantados a este respeito. dos melhores). dada a definição caberia mais falar de uma aristocracia. já que um tal carácter tautológico remete tão-só para a dimensão normativa da cultura política. deixando de lado a sua tradução nas práticas sociais e políticas. esta posição enferma ela mesma de uma fragilidade teórica. nem que as hierarquias adscritivas codificadas em normas são fixas e se aplicam exaustivamente nas situações e nos processos sociais – ambas premissas sociologicamente insustentáveis –. por isso. carece ela própria de investigação e de explicação comparativa. mais genericamente. empobreciam os concelhos. da estratificação. A segunda grande temática em debate tem. teoricamente pouco profícuo. e a proposta de transformação da análise predominantemente institucional dos municípios pela sua subsunção numa problemática da história social das elites locais. mais do que teoricamente contraditórios. quer a interferência de privilégios jurisdicionais como os de juízo privativo.270 OS MUNICÍPIOS NO PORTIUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS senhoriais e as isenções de coimas ou de taxas camarárias. Se não presumirmos que a relação entre normas e práticas sociais é transparente e imediata. impedindo a capacidade de governação camarária e o desempenho das funções municipais na provisão de bens públicos. Encerrarei esta secção do texto com uma recapitulação crítica dessas propostas. particularmente em torno da história social das elites e. em torno da caracterização dos grupos detentores do poderes locais como elites ou como oligarquias. haverá aqui a distinguir. nomeadamente. Nuno Monteiro sustentou. como disse. que a conceptualização em torno do conceito de oligarquia resulta tautológico e. da reprodução e da mobilidade sociais. Passando por cima das questões de terminologia (na realidade. como tem feito em escritos passados.

e para a análise dos processos e mecanismos sociais pelos quais esses grupos se constituem. pode haver variações nas fronteiras sociais de acesso aos lugares de poder (na definição dos maiores).. mais ou menos correlacionadas entre si. que retomarei abaixo). cuja validade empírica no contexto do antigo regime é evidentemente muito discutível. casas. toma como unidades de análise entidades políticas e remete para um modo de governo e de exercício do poder. no sentido de fechamento social da estrutura de oportunidades de acesso aos cargos de poder político (estreitamento social do grupo dos maiores legitimamente elegíveis. dentro dos cânones de uma governação de tipo oligárquico. da distribuição social das oportunidades de acesso ao poder. As unidades de análise são aqui os grupos sociais e os indivíduos. tal como aconteceu ao de aristocracia).BALANÇO FINAL: QUESTÕES PARA UMA SOCIOLOGIA HISTÓRICA. que os compõem. pela imposição de parâmetros de diferenciação mais exclusivos e/ou redução das probabilidades de mobilidade para o seu interior). não sendo por isso teoricamente alternativos. Denota a restrição do status de governante aos maiores. É na análise histórica de processos deste tipo que radica a associação dos conceitos de oligarquia e de oligarquização das instituições municipais às teses sobre a cristalização e o bloqueio da estrutura social do antigo regime. e podem variar segundo as escalas de observação. cabendo talvez delimitar as circunstâncias em que será teoricamente preferível designá-los como processos de aristocratização. se diferenciam e reproduzem (ou não) o seu status. porventura mais livre de conotações ideológicas e de juízos de valor implícitos do que o de oligarquia (ou tão-só portador de ideologias e de valores . no espaço e no tempo. O conceito de elite. por seu turno. O conceito de oligarquia releva da teoria política. mais do que a designação de um grupo ou de um conjunto de grupos sociais (pese embora a vulgarização do seu uso neste último sentido. bem como as lutas em seu torno: em suma. remetendo para a definição de grupos que ocupam o topo de múltiplas dimensões de diferenciação e de hierarquização de status. Mas se admitirmos que. 271 mativa. releva da teoria da estratificação social. Deste ponto de vista. como as variações. famílias. verificar e explicar histórica e sociologicamente as apropriações e interpretações da pauta normativa pelas instituições. Podendo ser usado com conotações normativas. então tem cabimento teórico a análise de processos de oligarquização. pelos actores e pelos grupos (o que de resto me parece convergir com a sua segunda proposta. creio que os dois conceitos recobrem campos de aplicação distintos. embora relacionados. podendo por isso assumir conotações ideológicas por oposição a ideais de governação municipal democrática. etc. é no entanto um conceito fundamentalmente descritivo.. A questão que verdadeiramente interessa colocar é a de qual o valor analítico e hermenêutico de oligarquia e elite como conceitos de análise histórica e sociológica.

em favor da abordagem unilateral da sua função como instrumentos de mobilidade social (ou de defesa contra ela). do que resulta uma deriva interessante e enriquecedora a partir de um interrogatório ancorado na história social. Mas isto não é contraditório com a noção de processo de oligarquização. quando este é usado para designar o grupo detentor do poder e não a forma de governo. à escala local. o conceito de elite tem sobre o de oligarquia. relativamente a fenómenos de estruturação social mais amplos. nem ainda potencialidade explicativa. À imagem homogénea de uma oligarquia. elegendo as casas ou famílias como unidades de análise. como meio de ultrapassar uma espécie de efeito ricardiano dos rendimentos marginais decrescentes. distribuindo posições de destaque relativamente a diferentes grupos de referência.272 OS MUNICÍPIOS NO PORTIUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS hoje mais consensuais?). por isso. Mas o interesse inegável desta problematização não deve fazer esquecer o questionamento específico das realidades políticas e administrativas enquanto tais. não o substitui. Nuno Monteiro propôs também uma descentração daquilo a que apelidou de “fetichismo” das instituições locais. a vantagem de obrigar a pluralizar. numa duração multi-geracional. exemplos nas comunicações de Mafalda Soares da Cunha e de Teresa Fonseca). Passando ao segundo tema. nesta escala de observação. O facto de esses processos poderem ser protagonizados. O remédio . Pergunta. Dada a diversidade das dimensões de classificação social e dos grupos de referência relativamente aos quais os actores se posicionam. tal dever-se-á mais ao paradoxo já sugerido de uma “acumulação não cumulativa” (i. que lugar representavam as instituições locais – entre outros meios de mobilidade ou de defesa da posição social – nas metas e nas trajectórias sociais das elites locais. por exemplo. necessário reinventar a problemática. Se na realidade há rendimentos marginais decrescentes. por actores provenientes de diferentes categorias sociais não lhes retira. mas como disse acima. nem unidade analítica do ponto de vista processual. substitui-se a de uma estrutura de oportunidades estratificada.. apenas um ângulo analítico distinto e mais amplo. nem validade comparativa numa análise das dinâmicas sociais e políticas. agregação de casos isolados. cargos que uma categoria social enjeita são definidores de uma posição de elite e de oportunidades de mobilidade social para outras categorias sociais (cf. Seria. através do alargamento da perspectiva para uma história das elites locais. sem critérios de comparabilidade ou organizados em torno de categorias teoricamente pouco profícuas) e ao efeito contínuo e não corrigido das tendências de enviesamento identificadas acima. segundo o qual cada novo estudo sujeito a este “fetichismo” pouco acaba por acrescentar ao que já se sabia. na sua dimensão política e administrativa formal. onde.e.

de investigação comparativa assentes em modelos analíticos explícitos que definam as lacunas. Pouco ou nada sabemos sobre o eventual exercício desse poder simbólico pelas instituições municipais e sobre a sua eficiência.BALANÇO FINAL: QUESTÕES PARA UMA SOCIOLOGIA HISTÓRICA. a questão das instituições municipais como produtoras. entretecido com instituições e com rotinas sociais. por um lado. os problemas – entre os quais. Omissões Num encontro muito marcado pela relação e pelas tensões entre as perspectivas institucional-política. decerto em coexistência ou em concorrência com outras pertenças ou reivindicações identitárias. Refiro-me aqui a território. Limitar-me-ei a inventariar brevemente essas omissões.. foram flagrantes três ausências. ou. um termo. o foram de forma lateral e incidental. Não deveria ser esse o desafio a lançar por um evento que comecei por caracterizar como de amadurecimento da área temática? 3. a questão das actividades de produção e apropriação de território e de paisagem. território no sentido sociológico. os conceitos. uma vila ou cidade. não no sentido administrativo. Em segundo lugar. as dimensões e os indicadores.. reprodutoras ou cristalizadoras de identidades sociais simbolicamente representadas por atributos de pertença: a um espaço geográfico. de vias de circulação. Actividades em que as instituições municipais detinham um papel fundamental. paisagem no sentido clássico da geografia humana. a um conjunto de símbolos edificados. ou ficaram de todo omissos. edificado e funcionalmente diferenciado. ou agendas. a um nome. . Trata-se de temas que se diria serem estruturantes e que. por outro. mas sim no de espaço socialmente marcado e apropriado. o que permitirá encerrar este balanço final numa nota de desafio. e não como objectos específicos de estudo ou sequer de problematização. etc. a um povo do concelho. quer directamente enquanto produtoras – de património edificado. decerto o da mobilidade e da reprodução das elites –. quando referidos. funções de provisão de bens públicos que Margarida Sobral Neto brevemente mencionou na sua comunicação – quer enquanto reguladoras e fiscalizadoras. bem como os referentes espaciais e cronológicos que permitam transcender o âmbito local dos somatórios de conclusões e eventualmente reinterpretar o que já foi feito para trás. 273 estará mais na negociação científica de uma agenda. não procurarei aqui dar-lhes um desenvolvimento que resultaria marginal aos resultados substantivos que se verificaram.. e das hierarquias e mobilidades sociais. investido de significado. Não tendo sido objecto de reflexão no encontro. Em primeiro lugar.

O estudo das práticas económicas concretas na esfera local – a exemplo do trabalho empírico pormenorizado apresentado por Laurinda Abreu e Rute Pardal sobre uma outra instituição – é uma dimensão crucial da sociologia económica do antigo regime. sancionam direitos de propriedade. para manipular as ofertas de bens. que através das concessões de licenças e da exigência de fianças intervêm nas actividades económicas. e contratos. impostos e coimas. que dentro dos seus territórios definem quais são os mercados. . arrematam rendas. nas matrizes problemáticas que foram seminais deste campo de estudos. creio que seria interessante. que. que intervêm nos mercados fazendo uso das suas prerrogativas. nem essencialmente como legisladores. mas também interrogar reflexivamente os modos de fazer história que têm vindo a conduzir à sua perda. mormente se pensarmos que foi em grande parte em torno dela que se definiu o discurso iluminista sobre as “vexações” aos povos e os entraves ao progresso alegadamente protagonizados pelos governos municipais. enquanto jurisdições de primeira instância. e provêem (ou sonegam) bens públicos. as trocas e os actores legítimos. não só recuperá-las. em equilíbrios de poder variáveis com outros agentes. também por ser o tema que me interessa mais. Agentes que gerem recursos económicos próprios. sob formas e com pesos variáveis. Estando estas dimensões inscritas. a questão das actividades de intervenção económica directa e de regulação económica das instituições municipais. públicos e privados. Não exclusiva.274 OS MUNICÍPIOS NO PORTIUGAL MODERNO : DOS FORAIS MANUELINOS ÀS REFORMAS LIBERAIS Finalmente. os preços e a circulação. e redefinem conjunturalmente essa legitimidade. mas como instituições de enquadramento ou agentes activos nos mercados locais e regionais.

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