Você está na página 1de 9

A POSIÇÃO DO SUJEITO NA FALA E SEUS EFEITOS: UMA R EFLEXÃO SOBRE OS QUATRO DISCURSOS

Denise Macedo Ziliotto
1

Instituto de Psicologia - USP

Ensaiar aproximações entre a psicanálise e a psicologia social na discussão sobre a temática do sujeito no trabalho é a proposta deste texto. A formulação dos quatro discursos, proposta por Lacan, pode contribuir com novos paradigmas para o estudo desta questão, pois introduz e contextualiza os depoimentos existentes na cena social acerca do trabalhar. Este recorte, advindo da linguagem, justifica-se pelo traço diferencial que marca a civilização e os sujeitos, singularizando-os. Desta forma, pretende-se propor uma escuta diferente a este que fala de seu sofrimento ao trabalhar. Descritores: Discurso. Capitalismo. Trabalho. Lacan, Jacques, 19011981.

P

resumo que seja cabível introduzir o contexto em que esta produção textual insere-se. Minha pesquisa de doutoramento em Psicologia Social tem o trabalho como categoria central. Insatisfeita com as abordagens tradicionais que o qualificam como objeto central da vida humana, ou assujeitam o indivíduo à estrutura econômica-social, busco outras vertentes para resgatar uma postura mais implicada e responsável do sujeito. Neste sentido, a contribuição de Lacan é valiosa e, infelizmente, pouco compreendida entre os psicólogos sociais e/ou do trabalho. Pretendo exa1 Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social e do Trabalho, Instituto de Psicologia - USP. Endereço eletrônico: dmziliotto@hotmail.com

Psicologia USP, 2004, 15(1/2), 215-223

215

pode-se pensar que não são desprezíveis as implicações contidas nesta potencialidade.considerando-as 216 . sobretudo. 1969-1970/1992). de um ganho importante: a questão se amplia na medida que resiste ao determinismo.) o que caracteriza os humanos.. há sobretudo que se considerar a quem fala e. imediatamente. ao reducionismo de outras leituras. sem dúvida.. Sendo a palavra e as possibilidades advindas de nomear o mundo (o mundo das coisas. que se encontra implicada (como posteriormente avançaremos) com o sujeito no trabalho. ultrapassando o arbitrado. entre consumir e trabalhar. Ao referir sobre um sujeito que fala. adquirindo um movimento especial entre o fala nte e seu interlocutor. sobre as relações que estabelece neste campo. A formulação lacaniana dos Quatro Discursos faz-se particularmente interessante para construir reflexões acerca desta questão. há uma operação que se faz presente: o dizer está para além da linguagem. Neste sentido. marca do estilo deste autor. Algo se opera. de que lugar fala. Trata-se de. Trata-se. portanto.O Avesso da Psicanálise (Lacan. incluir e responsabilizar o sujeito e que também é no trabalho. enquanto construtores de uma subjetividade particular que. sentidos. porque confere algum grau d e gozo ao sujeito. diferentemente. É a possibilidade de evocar o sujeito que se beneficia da afânise do discurso capitalista que norteia minha reflexão. Persigo a idéia de que há uma montagem. o mundo interior. sobre o seu trabalhar. como conseqüência. Desde já considera-se que as particularidades de usufruto da língua revelam que o sujeito age sobre a sua falação. dependendo destes contingentes. beber em fontes que foram referências para este autor. explicitada no Seminário . atribui nuances. na cultura contemporânea. Nesta construção de Lacan. significados. novamente. há uma investida importante sobre a cultura e a cena social. persiste. o mundo das sensações. Tomar a teoria lacaniana para lançar luzes sobre este tema tem. está do lado do falante. Introduzir esta dimensão é incluir a fala do sujeito sobre o seu trabalho como algo que se reflete. Contrariamente ao que se pode (erroneamente) atribuir às formulações psicanalíticas . como Hegel e Marx.Denise Macedo Ziliotto tamente esta aproximação.

p. p.. (Lacan. Situando o sujeito como aquele que emana da linguagem e não do pensamento. descrevendo que os sujeitos são determinados pelo deslocamento do significante (entendido como o que representa o sujeito para um outro significante) em seus atos e em seu destino. 1969-1970/1992. O Penso logo : ‘Sou ’. Lacan afirma que o sujeito está onde não pensa. No ponto de partida não estamos no nível do ente. pela tentativa insistente de cons- 217 . discurso do analista e discurso capitalista. o pecado pelo enclausuramento clínico. Sendo assim. mas no nível do ser” (p. não há ser racional por excelência. cujo efeito de linguagem se exerce no nível do surgimento do traço unário. ocasiona uma outra dimensão: “No efeito da linguagem. p. 144). discurso da histérica. Têm-se desta forma a defesa de um sujeito que é pela linguagem. 112) especifica o fundamento ontológico desses discursos. 146). pelos significados que atribui e expressa na relação com o mundo: “(. como um campo homogêneo e hermético -. ao evocar a categoria do traço unário. 146) Desta forma. eis o que dá seu verdadeiro alcance à fórmula.uma Reflexão Sobre os Quatro.. a noção lacaniana abarca a dimensão da contemporaneidade. propondo a inversão: Mas também aqui há um erro de pontuação. já que a linguagem se institui pelo que manca. discurso do mestre. Ao situar os discursos. o ergo. Trata-se apenas de um ser falante. A causa. reconhece a pluralidade e busca explicitar lugares sociais.. “Só em função dessa primeira posição do Sou é que se pode escrever o Penso” (Lacan. Aí está o ponto de partida a ser empreendido do efeito daquilo que está em questão na ordem mais simples. como propõe a filosofia desde o cogito cartesiano. não se trata de nenhum ente. 144). pois é pela linguagem que o pensamento se opera. Lacan resgata a primazia da subjetividade sobre a racionalidade. a saber: discurso universitário. depende do discurso”. portanto de pensamento. tem que ser posto do lado do cogito. independentemente de seu sexo ou do que comumente se chama de sua psicologia. que há muito exprimi assim . é pensamento. 1969-1970/1992. que nada mais é do que o ego na jogada. Uma diferença está marcada aí: invertendo o cogito de Descartes.) toda determinação de sujeito. Darmon (1994.O Lugar de Onde o Sujeito Fala e seus Efeitos. Acrescenta..o ergo. (p.

causa do desejo) . na fala dos políticos. é o discurso da possibilidade do saber. o efeito deste discurso é provocar o saber. a teoria lacaniana descreve quatro modalidades por meio das quais se tenta fazer algo com este impossível. na série de associações que realiza ao falar. Há o recalcamento da falta. em última instância.Denise Macedo Ziliotto trução subjetiva. ou seja. que o sujeito se produz. Provoca a queda do saber suposto. recalca a falta e provoca a fala no corpo. diz Lacan. em como este deve ser. O discurso universitário prega que há um conhecimento erudito ao qual o aluno deve se assujeitar. para que o sujeito possa produzir outros saberes ou mesmo relativize os que possui. saber (S2 ). Encontra-se. O discurso do analista provoca exatamente o desvelame nto do recalcado. Através da linguagem há a tentativa de dar conta do impossível. a teoria estabelecida. por exemplo. pois ele desafia a autoridade. desinstitui a pretendida e estável formulação. falar é gozar.significante mestre (S1 ). há um saber sobre o objeto (o aluno como objeto). há a idéia de que quem fala sabe sobre o que fala. por sua vez. justamente expressos em matemas que transmitem a posição evidenciada em cada discurso. Buscar um mestre que possa dominar o saber é o intuito da histérica que. Estes discursos. propondo insistentemente a dúvida sobre o saber do Outro. A saber: 218 . que poderia aproximar-se de uma fala do ego. Contudo. o “fala-ser”. através da associação-livre. Nesta referida busca. O saber é da ordem de um grande Outro. isto é. como descreve Darmon (1994).alocados em lugares que não permitem comutação. têm seus termos constitutivos . o que provoca a alienação do sujeito. com o saber. É na cadeia do discurso. Visa à produção do inconsciente. referindo o quanto há de tamponamento da falta no uso da linguagem. No discurso do mestre. $ (sujeito barrado) a (objeto a . ou seja. E é sobre a posição que os sujeitos tomam em relação a este saber que estes discursos são articulados. da impotência que marca o humano.

em 1972. $ ↓ S2 S2 ↓ a agente ↑ verdade ← → trabalho ↓ produção Figura 2 : O quinto discurso. o escravo era o saber. Neste. Lacan menciona um quinto discurso. Aqui.. 1994. o lugar da verdade não é mais protegido. ele é alimentado pelos quatro vértices.uma Reflexão Sobre os Quatro. os termos não são isolados. 1994. O saber não circula. cada um alimenta no outro uma reação em cadeia. p. que particularmente interessa à temática deste estudo: o discurso capitalista.O Lugar de Onde o Sujeito Fala e seus Efeitos.. mas é assegurado pelos elementos. citado rapidamente em seu seminário. com uma cumplicidade que será explicitada a seguir. Discurso do Mestre Discurso Universitário S1 S → 2 $ a Discurso da Histérica S2 a → S1 $ Discurso Analista S $ → 1 a S2 a $ → S2 S1 Figura 1 : Os quatro discursos. “A pretensa libertação do escravo teve. 225). já “nesse discurso. No discurso do mestre. p. Lacan cita como exemplo o próprio papel de Marx” (Darmon. cuja tendência é o arrebatamento (Darmon. a denúncia da verdade não faz senão reforçar o processo. 223). como sem- 219 . contrariamente aos outros. Na conferência de Milão.

(. e. E é por isso que ele não fez mais do que trocar de senhor (p. 30). alicerçando-se em Hegel (precisamente na Dialética Senhor . 140). Jamais se honrou tanto o trabalho. o capital. tornando-o inútil. Ela é progressiva à custa de um despojamento” (Lacan. E mesmo. suas postulações. Isto é um sucesso. o que é o caso mais comum. Falo dessa mutação capital. em uma espécie de subversão.Escravo explicitada na Fenomenologia do Espírito) e na leitura de O Capital de Marx. mas de um outro senhor. como denuncia Lacan. 160). sobretudo. O oferecimento desta certeza produz seus efeitos. Seu saber. como afirma Lacan (1969-1970/1992.um saber de senhor. O escravo sabe mu itas coisas. Retomam-se essas referências a posteriori. mas o que sabe muito mais ainda é o que o senhor quer. pois sem isto ele não seria um senhor. Para isso foi necessário que ele ultrapassasse certos limites.. do que chamo de discurso de mestre. retomar o discurso do mestre. desde que a humanidade existe. No discurso capitalista. o saber do senhor sobre seu trabalho: Eis o que constitui a verdadeira estrutura do discurso do senhor. os trabalhadores trabalhem” (p. mantendo certa dominação. O es- 220 . 1969-1970/1992. outros correlatos. que sabe o que deve ser feito. mesmo que este não o saiba. Precisa-se. o proletário é despossuído do saber. (p. explorados ou não. inicialmente. de modo a explorar essas contribuições como esclarecedoras da temática aqui apresentada. 160) A formulação proposta por Lacan é engendrada a partir do discurso do mestre. também ela. que confere ao discurso do mestre seu estilo capitalista.. p. “Isto é provado pelo fato de que. está fora de cogitação que não se trabalhe. Isto porque o mestre é aquele que detém o saber. Quando se refere à troca de senhor.). a exploração capitalista efetivamente o frustra. Mas o que lhe é devolvido. p. então. já que é sedutor pensar na existência de uma verdade sobre as coisas do mundo.Denise Macedo Ziliotto pre. Ele é escutado com certo deleite. não se trata mais do senhor do escravo. o que “justifica tanto o empreendimento como o sucesso da revolução”. 30). é outra coisa .

(p. Afinal. É também por isso que a coisa funciona. isto é.cotidianos . Ziliotto. e é isto sua função de escravo. 30) Contudo..sob os aplausos de alguns que ali viram ternura. 215-223. E o quanto a impossibilidade do sujeito em seu trabalho. pp. 140-141) Neste sentido. o que é construído nos discursos . pelos que são eles próprios produtos. 1969-1970/1992. 30) A denúncia de uma sociedade que sucumbe à verdade das coisas. mas a ciência de algum modo objetivada (. M. será que o savoir-fare .) que por enquanto ocupam o mesmo espaço que nós no mundo em que essa emergência teve lugar. a que saber o sujeito imagina ter conquistado acesso? E que saber realmente almeja? A nova ênfase no saber do explorado me parece estar profundamente motivada na estrutura .. no nível do manual. há um giro nesse saber. na estrutura capitalista. 221 . é o alerta lacaniano. de maneira que ex iste de fato.O Lugar de Onde o Sujeito Fala e seus Efeitos. consumíveis tanto quanto os outros. Em um mundo onde emergiu. de qualquer maneira. funcionou durante muito tempo. 15 (1/2).uma Reflexão Sobre os Quatro. (p. The subject’s position in speech and its efects: A reflection on the four discourses. Há uma nova tirania do saber (da verdade): O sinal da verdade está agora em outro lugar. Trata-se de uma lógica que descompromete o sujeito. Remete a instâncias macro. consumida por esta sedução.. é reificada continuamente. como se diz. pode-se pensar o quanto a superioridade da ciência. nos nossos dias. no discurso capitalista. Psicologia USP. faz o papel de negar a impossibilidade do saber-todo. porque. Sociedade de consumo. não o pensamento da ciência. Material humano. ilusão denunciada por Lacan. pode ainda ter peso suficiente para ser um fator subversivo? (Lacan. Ele deve ser produzido pelos que substituem o antigo escravo. é reafirmada. cravo o sabe. D. à verdade de quem as produz. O tudo-saber passou para o lugar do senhor. (2004). sendo uma presença no mundo. como se enunciou um tempo ..dos sujeitos. A questão é saber se isso não é algo totalmente sonhado. dizem por aí. O amor à verdade.

M. since it introduces and contextualizes the existing reports about work in the social scene. Lacan. Such approach originated from language is justified by the differential trace that marks the civilization and the subjects. Referências Darmon. to propose a different analytical listening to the one who talks about one’s suffering at work. issue du langage. proposée par Lacan. 215-223. Work. on prétend proposer une écoute différente à celui qui parle de sa souffrance au travail. Le lieu d’où parle le sujet et ses effets: une réflexion sur les quatre discours. La formulation des quatre discours. se justifie par le trait différentiel qui marque la civilisation et les sujets et les singularise. O Seminário. peut apporter des nouveaux paradigmes pour l’étude de cette question. Mots-clés: Discours.Denise Macedo Ziliotto Abstract: This text attempts to bring psychoanalisis and social psychology together into the discussion on the matter of the subject at work. L. Travail. Jacques. Livro 17: O avesso da psicanálise. Porto Alegre. Capitalism. Jacques. RS: Artes Médicas. (2004). Ensaios sobre a topologia lacaniana . Lacan. (1994). (2002). puisque elle introduit et contextualise les témoignages qui existent dans la scène sociale à propos de l’acte de travailler. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. De cette façon. 1901-1981. Index terms: Discourse. Psicologia USP. Résumé : Essayer des approches entre la psychanalyse et la psychologie sociale dans la discussion sur la thématique du sujet au travail. voici la proposition de ce texte. Aula ministrada no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. J. The four discourses formulation proposed by Lacan can contribute to the study of such matter with new paradigms. (Trabalho não publicado) 222 . 1901-1981. (1992). Ziliotto. It is intended. sigularizing them. D. M. (Trabalho original publicado em 1969-1970) Nogueira. Capitalism. C. Cette vision. Lacan. then. 15 (1/2).

.08.. R. Voltolini. (Trabalho não publicado) Recebido em 09. (2001).uma Reflexão Sobre os Quatro.O Lugar de Onde o Sujeito Fala e seus Efeitos.2004 Aceito em 06. Aula ministrada no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo.2004 223 .06.