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Kalina Vanderlei Silva Maciel Henrique Silva

DICIONÁRIO

DE

CONCEITOS

HISTÓRICOS

editorãcontexto

do Discurso traz a Lingüística e a Semiótica para a História. No Brasil, os professores de História podem dispor de diversas obras que trazem os resultados de pesquisas históricas baseadas na interdisciplinaridade. Um ótimo exemplo da aplicação dessa

que

une Antropologia e História para desenvolver uma síntese das mentalidades e dos projetos políticos no Brasil do Segundo Reinado. Os professores dos níveis Fundamental e Médio também podem entrar em contato com a interdisciplinaridade por meio dos Parâmetros Curriculares Nacionais, os PCNS, a partir da proposta de temas transversais. Para trabalhar com os temas transversais (Ética, Pluralidade Cultural, Saúde, Orientação Sexual e Meio Ambiente), os professores devem realizar um trabalho interdisciplinar, unindo algumas disciplinas afins para a realização de determinado projeto. No entanto, José Alves de Freitas Neto, em artigo sobre a transversalidade na obra História em sala de aula, adverte sobre o perigo de se trabalhar os temas transversais sem que haja real

interdisciplinaridade, mas apenas sobreposição e colagem de dados de diferentes disciplinas. Esse, na verdade, é o grande risco de qualquer trabalho interdisciplinar, seja em sala de aula ou no meio acadêmico, em sua ambição de construir um conhecimento transdisciplinar, uma verdadeira síntese. Mas a síntese é possível. Podemos, com os professores de Literatura, por exemplo, elaborar uma pesquisa sobre a construção da nação brasileira no século xix, por meio da obra de José de

Alencar e Machado de Assis, entre outros escritores; ou trabalhar com osprofessores

de Geografia e Sociologia a questão da terra hoje, observando as formas de ocupação da terra no Brasil e suas origens coloniais. Muitas outras propostas podem surgir da própria conversa com os profissionais de ensino de outras áreas. Para uma aplicação efetiva de um trabalho interdisciplinar, numerosas barreiras precisam ser transpostas: a inexistência de um projeto político pedagógico em várias escolas; a pouca comunicação entre os professores (que, em geral, se comportam como ilhas em suas especialidades); as dificuldades de interação escola/comunidade, que gera um saber desvinculado dos interesses locais etc. As escolas precisam perceber que os melhores trabalhos apresentados por alunos e alunas em Feiras de Conhecimentos e Feiras de Ciências são os que aplicam a interdisciplinaridade com competência, o que depende de uma efetiva participação da instituição e de seu quadro docente.

VER TAMBÉM

Arqueologia; Arte; Ciência; Cultura; Discurso; Ética; Etnia; Evolução; Folclore; História Oral; Historiografia; Iconografia; Imaginário; Indústria Cultural; Mentalidades; Pós-modernidade; Teoria.

abordagem é o trabalho de Lilia Moritz Schwarcz,As barbas do imperador, livro

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SUGESTÕES DE LEITURA

BITTENCOURT,Circe. Osaberhistórico na sala deaula.ó.ed.São Paulo: Contexto, 2004.

ESCOSTEGUY, Ana Carolina. Cartografias dos estudos culturais; uma versão latino- americana. Belo Horizonte: Autêntica, 2001.

FAZENDA, Ivani (org.). Práticas interdisciplinares na escola. São Paulo: Cortez, 2001.

FUNARI, Pedro Paulo. Arqueologia. São Paulo: Contexto, 2003.

KARNAL, Leandro (org.). História na sala de aula: conceitos, práticas e propostas. São Paulo: Contexto, 2003.

educacional emergente. Campinas:

MORAES, Maria Cândida. Papirus, 1997.

SCHWARCZ, Lilia Moritz. As barbas do imperador. D. Pedro n, um monarca nos trópicos. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

O paradigma

ISLÃ

Religião que mais cresce no mundo, o Islã foi durante séculos o contraponto do Ocidente, considerado desde muito cedo o "outro" por excelência. Oposição antiga que voltou a ter destaque no início do século xxi. A principal definição do Islã é religiosa: o Islamismo é uma religião monoteísta surgida na Idade Média na Península Arábica.Dessa definição surgiu outra, ligada a sua expansão histórica, que teria transformado a religião no que muitos autores consideram civilização. Nascido das tribos da Península Arábica, o Islã foi sempre associado pelo Ocidente aos árabes. Apesar disso, não pode ser entendido apenas como a religião desse povo. O termo árabe é uma construção étnica, e nem todos os árabes são muçulmanos, devotos do Islã, caso dos grupos cristãos do Líbano. Porém, a devoção ao Islã ultrapassa as barreiras étnicas, e nem todo muçulmano é árabe, como prova o mais populoso país muçulmano do mundo, a Indonésia. Outra fórmula muita associada ao Islã é a expressão cultura islâmica. Desde o início de sua expansão na Idade Média e do surgimento do Império Islâmico como unidade política a partir da Península Arábica no século vi d. C., diversos povos foram alcançados e influenciados pelo Islã como religião e pelos árabes como povo, desde os persas e os visigodos, aos bérberes e chineses. Em algumas das regiões conquistadas, as culturas nativas foram influenciadas pela língua árabe (a língua sagrada do Islã, na qual o Corão, o livro sagrado, foi escrito), pelos costumes e tradições, sem necessariamente serem convertidas à religião islâmica. Foi o que

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aconteceu com a região conhecida como Al Andaluz, a Espanha islâmica, que do

uma estrutura social e cultural intensamente influenciada

por árabes e outros povos muçulmanos, como os bérberes, mas também por judeus

e cristãos arabizados. Nesse contexto, a expansão islâmica teve diversas vezes um significado muito mais cultural que religioso.

Apesar da distinção entre árabes e muçulmanos, o Ocidente continua a criar generalizações. O Irã, por exemplo, que nas últimas décadas do século xx foi associado

a um pretenso extremismo político árabe muçulmano, apesar de muçulmano, não é

árabe, mas persa, e nega qualquer"arabidade". Falar também em um "mundo árabe", supostamente restrito às regiões em torno do Mediterrâneo, no norte da África e no Oriente Médio, onde vivem importantes populações de etnia ou língua árabe, é

problemático. Nessa região, a Arábia,o Egito, o Marrocos,o Iraque, a Síria, o Líbano

e a Palestina seriam exemplos de Estados árabes. No entanto, desde a década de

1970, povos de língua árabe passaram a se identificar etnicamente por uma identidade

própria, como o Egito, que negou origens árabes, apesar de reafirmar sua cultura islâmica. Hoje, o termo árabe não pode mais ser utilizado para definir povos de língua árabe, como o Egito, mas apenas para os grupos étnicos que se identificam como árabes.

A definição do Islã como religião, dessa forma, abarca grande diversidade étnica. Além disso, em uma religião que se expandiu tanto ao longo da história, as divisões internas seriam inevitáveis. A mais importante delas é a distinção entre sunitas e xiitas, diferentes concepções teológicas do Islã. Os sunitas, ou "tradicionais", compõem

a linha de interpretação religiosa predominante. Além do Corão, seguem também a

compilação de leis escritas pela tradição ao longo do tempo, as Sunas. Os xiitas, por sua vez, reconhecem apenas os descendentes do Califa Ali, genro do Profeta Maomé,

como Imãs, ou seja, líderes religiosos e, diferentemente dos sunitas, pregam a obediência somente ao Corão, deixando de lado as Sunas. Além disso, enquanto no pensamento sunita predomina o racionalismo, entre os xiitas o misticismo, ou sufismo, tem grande prestígio. Apesar de minoria, os xiitas assumiram algumas importantes posições no século xx, principalmente com sua vitória na Revolução Iraniana, na década de 1970. Lembremos, todavia, que nenhuma dessas concepções chegou a criar igrejas separadas no Islã, ao contrário do Cristianismo. Nessa grande diversidade, a afirmação de estudiosos ocidentais acerca da existência de uma civilizaçãoislâmicaé motivo de controvérsias entre ospensadores

no próprio Islã. Primeiro, não se pode caracterizartal civilização, se é que ela existe

e tem alguma coesão, como árabe, pois a maioria de sua população não é árabe,

como mostra o caso do Egito e do Irã, sem falar dos países muçulmanos orientais,

com a Indonésia, dos muçulmanos hindus e chineses e dos países muçulmanos da

século viu ao xv possuiu

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África negra, como o Senegal e o Mali. Segundo, também não se pode definir a civilização islâmica a partir de um sentido apenas religioso, pois isso seria obliterar

as minorias cristãs, judaicas e zoroastrianas em seu seio. Por último, para definirmos

o Islã como civilização, teríamos de remontar sua história desde a Idade Média, e não reduzi-la a sua configuração atual. Autores "arabistas" como Bernard Lewis, baseados nas concepções do líder político cristão sírio Michel Aflaq, que na década de 1960 procurou incluir seu movimento no mundo árabe-muçulmano, definem a civilização islâmica como o conjunto que integra todos os indivíduos, muçulmanos ou não, inseridos na experiência histórica iniciada pelo Profeta Mohammed, ou Maomé, fundador do Islã. Para Miguel Attie Filho, por sua vez, o termo islâmico tem significação mais

ampla, que faz referência às idéias e aos ideais do Islã, ao passo que muçulmano seria aplicado apenas ao fiel seguidor dos preceitos do Islã. Assim, para esses autores, a expressão civilização islâmica, ainda que seja uma generalização nem sempre aceita pelos próprios islâmicos, é o conceito que melhor se adapta para abranger toda a

diversidade de povos e culturas que o Ocidente considera rival desde a Idade Média. A partir dessa premissa, podemos definir o Islã como o conjunto de idéias,

atitudes, costumes, pensamentos e tradições que compõem a experiência histórica iniciada por Maomé no século vil d.C., ou seja, a partir da Hégira, e ao qual o Ocidente se refere comumente como uma civilização. Assim, além de designar a religião, o

termo Islã também define um complexo cultural nascido da expansão da religião, mas não restrito a ela, e muito menos ao grupo étnico árabe. Historicamente, a data inicial do calendário islâmico, correspondente ao ano

622 no calendário ocidental, simboliza a Hégira, a fuga do Profeta Maomé de Meca para Medina. Segundo os preceitos do Islã, Maomé (Mohammed) teve sua revelação

na cidade de Meca, no início do século VIL Cidade comercial da Península Arábica,

Meca era dominada

e logo se mostrou um local de resistência à pregação de Maomé. Pressionado, Maomé

fugiu para a cidade de Yatrib, em 622, que logo passou a ser chamada de Madinat al-

Rasul, a "cidade do Profeta", Medina. Dividida em diversas tribos, a Península Arábica não formava até então uma unidade política. Sob Maomé foi unificada, e seus sucessores, os califas, ou seja, os "delegados do Profeta", expandiram essa unidade

transformando-a em um império, que no século viu dominava a maior parte do Mediterrâneo, da Espanha à Pérsia, pelo norte da África, e chegava até mesmo ao Himalaia. A rápida expansão imperial conquistou não poucos territórios na Europa, incluindo a Espanha, mas levou o Império à cisão interna, criando várias unidades

políticas diferentes, vários califados.

por uma elite politeísta que vivia das peregrinações para a cidade

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A rápida expansão do Islã nas proximidades do mundo cristão criou conflitos

territoriais inevitáveis, como na Espanha e no Império

por parte do Cristianismo medieval de medo e ódio contra o islamismo. Esse Cris- tianismo medieval, intolerante com outras crenças, via o Islã como um rival e uma ameaça devido a seu preceito básico de expansão da fé.Do lado do Islã medieval, todavia, apesar dos choques ocasionais, cristãos e judeus foram em geral bem acolhidos. A própria Al Andaluz, a Espanha islâmica, é até hoje referência de convivência pacífica e

tolerância religiosa.Nela,judeus ecristãos assumiam importantes cargos etinham suas religiões respeitadas desde que não atacassem o Islã. Eventuais grupos cristãos radicais, ao denegrirem a imagem do Profeta foram perseguidos e mortos. No entanto, tal processo foi esporádico e nem de longe seaproximou das perseguições que os cristãos realizaram na Europa no mesmo período contra judeus, bruxas e hereges.

O grande choque entre cristãos e muçulmanos começou principalmente com as

Cruzadas. Atéentão asrelaçõesdiplomáticas entre os Estados islâmicose cristãos podiam ser consideradas pacíficas. A partir dos séculos xi e xii, no entanto, os reinos cristãos

europeus começaram um movimento de expansão e conquista de novos territórios que inevitavelmente se chocou com o Islã, seu vizinho. Desde então o Ocidente começou a construir uma imagem que perdura até hoje, na qual o Islã é o outro, considerado um Cristianismo fracassado e primitivo e, além disso, violento. A ignorância da história e dos costumes, assim como da diversidade cultural, levou a esses estereótipos. Até o fim da Idade Média, o Islã, visto sempre de forma genérica, era o lugar dos hereges, dos "infiéis". Na Idade Moderna, mesmo com o crescente respeito a figuras de filósofos como

Averrois e Avicena,o desconhecimento e o preconceito contra os "infiéis" continuou, ainda mais porque, no século xvi, o grande rival político dos Estados ocidentais voltou a ser um Estado islâmico. Dessa vezo império turco-otomano. Mas foi no século xix, com a expansão territorial e política da Europa ocidental sobre o restante do mundo, com o imperialismo britânico e francês principalmente, que a visão atual de Islã se consolidou. Os conquistadores imperialistas, ao se apropriarem das terras do Oriente Médio, retrataram os "árabes" como uma população grotesca, primitiva, atrasada, que só tinha a ganhar com a conquista de suas terras pela "civilização". Por outro lado, criou-se também o mito do Oriente exótico, dos haréns, do mistério, do misticismo, das histórias fantásticas das Mil e uma noites.E assim o Ocidente construiu o Oriente, assunto amplamente abordado por um dos principais pensadores palestinos do século xx, Edward Said.

A crise do imperialismo, a partir de meados do século xx, que levou à

independência das antigas colônias da Ásia, da África e do Oriente Médio, e contribuiu para a formação dos Estados nacionais islâmicos, não apagou a antiga imagem de Oriente exótico e atrasado que o Ocidente construiu. Mas foi com a

Bizantino, egerou um discurso

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ascensão do fundamentalismo islâmico e dos grupos radicais terroristas, no início do século xxi, que a velha dicotomia medieval e bélica entre Islã e Ocidente foi retomada. A"cruzada" contra o "mar - representado pelo Islã como um todo, e não

só pelos grupo s terroristas minoritários - empreendida pelos EUAda era Bush retomou

o conflito medieval,iniciando uma nova era de intolerância e incompreensão mútua. Lembremos que o Islã é uma civilização de 1.400 anos, cuja diversidade étnica, cultural e social, além de histórica, não pode ser limitada a Estados específicos, muito menos a grupos políticos como os terroristas. Além disso, o Islã não é o outro, o

oposto do Ocidente. Pelo contrário, na Idade Média mesmo, monges cristãos buscavam as grandes mesquitas do Islã para estudar. A Espanha se construiu sobre o fundamento do Islã, cuja influência se estendeu até a própria América Latina. Pensadores, poetas, artistas e filósofos islâmicos influenciaram o Renascimento europeu e escritores, como Dante e Voltaire. Os princípios religiosos do Islã reverenciam Abraão, Davi, Salomão, Maria e inclusive Jesus Cristo. A lista de proximidades e influências poderia se estender indefinidamente. Mas ela só serve para nos lembrar que o Islã não é o outro estranho, é um antepassado e um parente, pois a influência do Ocidente sobre ele é igualmente grande. A nós, historiadores e educadores, cabe o papel social e político de incentivar o fim dos preconceitos e pregar a tolerância e o entendimento. E não há preconceito mais antigo no Ocidente do que aquele esboçado contra o Islã. Acrescente intolerância promovida pela política norte-americana fez retomar ódios seculares. Mas se pretendemos enfrentar a intolerância e pregar o respeito mútuo, precisamos antes conhecer as culturas que pretendemos respeitar. Sem conhecimento não há respeito, não há tolerância. Trabalhar com a rica diversidade islâmica em sala de aula é uma

ferramenta perfeita para esse fim. Mas não devemos nos prender apenas às glórias passadas de AlAndaluz ou de Bagdá, no século x. Esse é o erro de alguns historiadores ocidentais que glorificam o passado do Islã e desprezam seu presente. Pois ao trabalharmos com a cultura islâmica hoje estaremos começando a compreendê-la em sua dinâmica histórica, com incongruênciasebelezas como qualquer outra. Do ponto

de vista prático, uma sugestão: além de trabalhar com a arte e a literatura islâmica

medievais, conhecer e analisar em sala obras atuais produzidas dentro das fronteiras

do Islã: literatura, arte e, talvez sobretudo, o cinema, uma das formas de expressão que

mais eloqüentemente traz os dilemas e as diversidades do Islã em sua vastidão para

o Ocidente.

VER TAMBÉM

Civilização; Cristianismo; Etnia; Etnocentrismo; Fundamentalismo; Identidade; Imperialismo; Judaísmo; Monoteísmo; Orientalismo; Relativismo Cultural; Religião; Terrorismo.

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